— Percebe
alguma coisa? — perguntou.
— Percebo,
sim — respondeu Lloyd. — Isso me dá dor de cabeça o tempo todo. Ali do outro
lado existe alguém que tem um ódio tamanho por nós que não pode ser expresso por
palavras.
Deringhouse
estava deitado por perto. Vez por outra levantava a cabeça por cima do topo da
colina e olhava pelo seu binóculo infravermelho.
— Que Deus
tenha compaixão de nós — murmurou. — Quem sabe se uma hora destas não se
lembrarão de que podem perfeitamente sair do seu esconderijo e nos atacar aqui
mesmo?
* * *
Tanner
voltou pela meia-noite. Encontrara os dois homens; estavam mortos. Os
envoltórios protetores dos seus trajes não haviam resistido às forças tremendas
a que estiveram sujeitos. Quando cessou a influência da arma desconhecida, já
haviam sido neutralizados. Caíram de uma altura considerável e, apesar da
gravitação reduzida, morreram das lesões sofridas antes que Tanner os
encontrasse.
Rhodan
sentiu-se tomado de uma raiva fria.
Pensou em
chamar a Stardust-III para atacar a base inimiga com as armas bem mais potentes
que se encontravam a bordo da mesma. Mas chegou à conclusão de que seria
preferível realizar mais dez tentativas antes de arriscar a nave.
Refletiu.
Mas
aconteceu uma coisa que tornou inúteis todas as reflexões.
Começou com
um ribombar semelhante ao de um trovão. Antes que conseguissem descobrir a
origem do ruído, sentiram o chão tremer.
Poucos
segundos depois uma fenda larga abriu-se na colina que abrigava o inimigo.
Um dos
câmbios começou a balançar e deitou-se de lado.
— É um
terremoto! — gritou alguém.
Rhodan
contemplou a fenda que se abrira na colina oposta. Subitamente compreendeu que
nunca mais teria uma chance como esta.
— Vamos! —
gritou. Subiu ao topo da colina e agitou os braços, para que todos o vissem. —
É este o momento que esperávamos.
Demorou
alguns segundos até que os homens conseguissem pôr-se de pé. A intensidade do
tremor de terra aumentara. Alguns dos homens cambalearam, porque subitamente o
chão se encorcovava debaixo de seus pés.
Mas logo
passaram pelo cume da colina numa frente única. Uma vez do outro lado,
puseram-se a correr. Desceram a encosta em saltos largos e baixos. Atravessaram
a depressão entre as duas colinas.
O inimigo
permanecia em silêncio.
Enquanto
corriam, Rhodan aos gritos indicou o lugar em que, segundo as informações de
Lloyd, devia desembocar o poço de elevador. De longe não se via nada, mas
quando atingiram o ponto indicado, viram que em plena encosta havia uma
plataforma; era um quadrado de cerca de dois metros de lado.
Fellmer
Lloyd abriu caminho para a frente.
— É aqui! —
disse, ofegante.
Caiu para a
frente e com ambas as mãos limpou a areia da plataforma. Logo apareceu um
material liso e cinzento. Rhodan desligou o holofote infravermelho e recorreu à
luz visível.
Lloyd
apalpou a placa cinzenta; subitamente a mesma escorregou para o lado. Atrás
dela tudo estava escuro. Rhodan dirigiu a luz para lá. Viu um poço cujo corte
transversal era idêntico ao tamanho da plataforma, e que tinha uns dez ou
quinze metros de profundidade.
Era um
elevador antigravitacional. Rhodan atirou um pouco de areia no poço e viu que
descia bem devagar.
— Vamos
entrar! — disse.
Desceu em
primeiro lugar, seguido de perto por Fellmer Lloyd. Acima deles o poço
encheu-se de homens que tinham pressa de chegar embaixo.
De tanto
nervosismo ninguém mais se lembrara do terremoto. Rhodan aguçou o ouvido
enquanto descia pelo poço. Por cima do murmúrio dos homens continuava a ouvir o
trovejar no interior do planeta. O tremor de terra ainda não havia passado, mas
tudo indicava que se deslocara para outra região.
Poucos
segundos depois sentiu chão firme sob os pés. O elevador dava para um tipo de
ante-sala. Pela descrição de Lloyd, a porta que se via na parede oposta devia
ser a entrada do pavilhão da fábrica.
Rhodan
esperou até que a ante-sala se enchesse com os homens que desciam pelo
elevador.
Depois
ergueu o pesado radiador de impulsos térmicos e despedaçou a porta.
Uma luz
ofuscante envolveu-os. A saltos largos deixaram a porta atrás de si, já que lá
forneceriam um alvo bem visível ao inimigo; protegeram-se atrás do abrigo mais
próximo que conseguiram encontrar.
Não houve a
menor defesa, constatou Rhodan perplexo. O que teria acontecido?
O pavilhão
correspondia à descrição de Lloyd. Era grande, mas incrivelmente baixo. As
máquinas espalhadas por ali — algumas delas fixadas ao solo, outras colocadas
sobre suportes móveis — não lembravam nada que Rhodan jamais tivesse visto. Era
uma tecnologia estranha num mundo desconhecido.
Onde
estariam os robozinhos?
Seus homens
espalharam-se. Mesmo que os robôs se lançassem a um contra-ataque, depois de se
terem recuperado do susto causado pelo terremoto, não conseguiriam expulsar o
inimigo.
Fellmer
Lloyd fez um sinal para Rhodan.
— O que
houve?
— Não sinto
mais nada — respondeu Lloyd. — Parece que as aves abandonaram o ninho.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça e levantou-se. Fez um sinal aos homens, para
que avançassem devagar, um grupo de cada lado do pavilhão.
Avançaram
alguns metros, sempre procurando abrigo; mas quando viram que ninguém lhes
causava problemas, tornaram-se menos cautelosos. Foram avançando, de pé junto à
parede, enquanto Rhodan andava pelo corredor central.
Quando já se
aproximava do fim do pavilhão, viu a estranha máquina que se encontrava próxima
à parede. Era a maior de todas, mas até então as outras peças haviam lhe
encoberto a vista.
Era um
cilindro achatado de cerca de quinze metros de diâmetro e tão alto que tocava o
teto. Lembrava um acelerador de partículas de tamanho médio. Rhodan não pôde
distinguir se era compacto, ou se apenas representava um envoltório. Mas
percebeu à primeira vista que fora inutilizado pelo terremoto. O lado esquerdo
do cilindro estava inclinado e uma fenda percorria o revestimento metálico em
ziguezague. Parecia que o chão se levantara abaixo da máquina.
Subitamente
Rhodan viu os robôs.
Eram
formados principalmente por um tronco eliptóide, feito de uma massa cinzenta
que emitia um brilho metálico. Do tronco eliptóide saíam duas pernas curtas sem
pés; do outro lado via-se uma espécie de círculo giratório, ao qual estava
presa uma série de braços curtos.
De pé, a
coisa devia ter cerca de um metro de altura, calculou Rhodan.
Quinze robôs
estavam atirados ao chão diante do cilindro avariado; devia ser toda a equipe
do pavilhão subterrâneo.
Rhodan
mandou que os homens se aproximassem. Cautelosamente desemaranharam aquela
confusão de robôs caídos. É bem verdade que num robô nunca se pode afirmar com
segurança se está totalmente inutilizado ou se apenas ficou privado
temporariamente da capacidade de ação; todavia, ao que tudo indicava, as
maquinazinhas que tinham diante de si nunca mais despertariam para sua vida
mecânica.
— Vamos
levá-los para fora! — ordenou Rhodan. — Serão examinados a bordo da
Stardust-III.
De início
carregaram-nos à ante-sala em que terminava o poço do elevador. Enquanto isso
Rhodan e Deringhouse examinaram o pavilhão. Seguindo as indicações de Lloyd,
encontraram as pequenas salas contíguas, situadas à direita e à esquerda do
pavilhão. Mas não conseguiram descobrir sua finalidade, tal qual acontecia com
as máquinas existentes no pavilhão.
Depois de
uma busca de meia hora, Rhodan convenceu-se de que ali não encontraria a
informação que procurava. No pavilhão havia mais de duas dezenas de máquinas
esquisitas, nas salas contíguas, outra dezena. Talvez fosse bem interessante
para a técnica terrena desmontar as máquinas e procurar descobrir o princípio
do seu funcionamento.
Mas não
encontraram a menor indicação sobre a posição galáctica do planeta da vida
eterna.
Não seria
este o lugar em que descobririam alguma coisa. Só os céus poderiam saber por
que o grande imortal, que manipulava o jogo às escondidas, mandara-os
justamente a esse lugar.
Rhodan
esperou que os homens carregassem os robôs mortos até a ante-sala. Depois
mandou que todos subissem — os homens e os robôs. Não estava muito satisfeito.
Gostaria de fechar o pavilhão de tal maneira que ninguém pudesse entrar nele
até que concluíssem a busca daquilo que na verdade esperavam encontrar no
planeta Vagabundo, e tivessem tempo de submeter o local a uma inspeção
minuciosa.
Mas sabia
perfeitamente que além desses quinze robôs deviam existir muitos outros no
planeta Vagabundo, e que não tinha o menor meio de impedir que estes e seus
chefes voltassem ao pavilhão assim que ele e seus homens lhe dessem as costas.
Ligeiramente
perturbado, subiu pelo poço do elevador antigravitacional. Os homens estavam
esperando no flanco da colina. O sol brilhava.
— Vamos aos
carros! — ordenou Rhodan.
Os robôs
eram bem pesados. Por mais forte que fosse, cada homem não conseguiria carregar
mais de um de cada vez.
Rhodan
seguiu no fim do grupo. Deringhouse ficou ao seu lado.
— Não
encontramos muita coisa, não acha? — perguntou.
Rhodan deu
de ombros.
— Vamos
aguardar! Acredito que conseguiremos desmontar a memória dos robôs para
interpretar as informações armazenadas nos mesmos. Os inventores desses robôs
são as pessoas que procuramos. E as máquinas devem estar em condições de dar
alguma indicação sobre o lugar em que essas pessoas podem ser encontradas.
Quase por
acaso Rhodan olhou para o relógio embutido na manga esquerda de seu traje
espacial, que tinha um mostrador regulável: indicava o tempo do planeta
Vagabundo.
— Quatro
horas, tempo local — resmungou Rhodan. — Parece que está parado.
Deringhouse
levantou o braço.
— Quatro
horas e um minuto. Seu relógio está em perfeitas condições.
Rhodan
parou, segurou Deringhouse pelos ombros e colocou-o numa posição em que podia
ver o sol vermelho.
— O nascer
do sol está previsto para as seis e tanto. Pode dizer-me por que essa coisa
vermelha já está no céu às quatro da madrugada?
* * *
Os registros
do terremoto, realizados pelos instrumentos da Stardust-III, forneceram a
explicação do fenômeno.
O sol do
planeta Vagabundo era uma estrela em fase de regeneração. Era um sol moribundo,
pois o calor que irradiava estava diminuindo. Por outro lado, porém, seu
renascimento deveria ocorrer num tempo que, medido em termos astronômicos, não
podia ser considerado muito longo. Durante o estágio do esfriamento a matéria
solar contraía-se, formando no centro um núcleo de densidade inconcebível. Cada
deslocamento ocorrido no interior desse núcleo provocava um choque
gravitacional, que se propagava pelo espaço com a velocidade da própria
gravitação.
E havia
mais. A parte do núcleo solar em que não ocorriam deslocamentos formava um
anteparo que evitava a propagação do choque gravitacional naquela direção. Por
isso geralmente os deslocamentos provocavam áreas de impacto bem delimitadas;
alguém que, por exemplo, se encontrasse no planeta Vagabundo poderia não
perceber nada de um deslocamento desse tipo, enquanto alguém que se encontrasse
numa nave espacial a alguns milhões de quilômetros de distância sofreria toda a
força do impacto.
Acontece que
desta vez o impacto provocado pelo núcleo solar convulsionado atingira em cheio
o planeta Vagabundo, provocando um deslocamento de seu eixo e um terremoto de
intensidade considerável.
Ninguém se
deu ao trabalho de procurar imaginar o que teria acontecido num caso desses com
um mundo que não fosse velho e ressequido como o planeta Vagabundo. Só o fato
de estar o mesmo resfriado até o miolo, não tendo mais nenhum núcleo
incandescente, e de não haver mares em sua superfície evitara uma verdadeira catástrofe.
Depois de modificar a posição de seu eixo, o planeta voltara ao repouso.
Esse fato
explicava o estranho fenômeno com que Rhodan se defrontara no início da
expedição, quando efetuava um vôo de reconhecimento num dos caças espaciais da
nave. Ao que tudo indicava, o aparelho ficara sujeito a um deslocamento
idêntico no núcleo do sol do planeta Vagabundo; e era evidente que o choque nem
de longe alcançara a intensidade daquele que havia provocado o terremoto.
Uma coisa
era certa: fora o acaso que brindara Rhodan com o pavilhão subterrâneo. O
choque gravitacional não fora provocado artificialmente; o sol do planeta
Vagabundo o havia produzido. E isso no exato momento em que Rhodan mais
precisava dele.
Rhodan e
seus companheiros haviam retornado à Stardust-III com os robôs capturados.
Apenas o tenente Tanner e dez homens permaneciam no acampamento situado no
centro da área coberta pelas colinas. Rhodan resolveu esperar até que os
técnicos descobrissem quais os dados armazenados na memória dos robôs. Mas logo
no início percebeu-se que a estrutura dos seres mecanizados era tão complicada
que o trabalho da divisão técnica demoraria pelo menos uma semana.
Rhodan ficou
refletindo se deveria mandar que Tanner e seus homens se recolhessem à nave, ou
se convinha completar a guarnição do acampamento.
Mas
aconteceu uma coisa que fez surgir uma idéia nova em sua mente.
Foi uma
surpresa completa. Por mais de dois dias da contagem de tempo do planeta
Vagabundo a calma reinara a bordo da Stardust-III.
O dia em que
Rhodan procurou chegar a uma decisão sobre o próximo passo começou de forma
bastante estranha. Pouco depois da meia-noite um dos geradores gravitacionais
começou a trabalhar intensamente, produzindo gravitação até desprender-se da
sua base, flutuando na gigantesca sala dos geradores com um ruído
característico.
Os técnicos
aproximaram-se dele com um elevador flutuante de reparos. Através de uma
regulagem cuidadosa, conseguiram recolocá-lo no solo.
Houve alguns
incidentes de menor importância, mas o grande acontecimento só se verificou
pelo meio-dia.
Depois de
tomar um lanche na sala dos oficiais, Rhodan ia voltando para a sala de
comando, quando as sereias começaram a uivar. Pôs-se a correr; quando chegou à
sala de comando, Reginald Bell começava a transmitir ordens pelo
telecomunicador.
— Todas as
folgas canceladas. Primeiro grupo de sentinelas, ocupar a sala de máquinas.
Todas as peças de artilharia com guarnição dupla, em regime de prontidão. Todas
as estações rastreadoras com guarnição dupla, prontas para entrar em ação. No
arsenal do convés E uma bomba arcônida desprendeu-se dos seus suportes e flutua
livremente no espaço. Alarma número um.
Rhodan
enrijeceu em meio ao movimento.
Uma bomba
arcônida!
Era uma arma
capaz de desencadear uma reação nuclear incontrolável em qualquer elemento de
grau superior a dez, e mesmo num elemento de ordem inferior, desde que o
detonador tivesse sido regulado para isso.
Os
detonadores das bombas guardadas no arsenal do convés E estavam regulados para
26. O número de ordem 26 correspondia ao ferro! As paredes de metal
plastificado da Stardust-III continham mais ferro que uma fábrica de máquinas
pesadas. Se a bomba explodisse, a nave estaria perdida.
Bell
concluiu sua mensagem. Voltou-se e viu Rhodan.
— É isto
mesmo? — perguntou em tom sério.
Rhodan fez
que sim.
Thora
aproximou-se de lado. Estava com os olhos arregalados e caminhava como uma
sonâmbula.
— Oh, não! —
disse num suspiro. — Você não pode fazer uma coisa dessas. Mande evacuar a
nave!
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Este seria
o melhor meio de perdê-la. Subitamente começou a mexer-se. Seu capacete estava
jogado sobre o assento do piloto. Colocou-o sobre a cabeça, mas não o fechou.
—
Comunicação ininterrupta! — disse laconicamente.
E saiu.
Thora
seguiu-o com os olhos; estava perplexa.
— Onde vai?
— perguntou.
Rhodan
estava tão ocupado que não teve tempo para responder.
Três minutos
depois da transmissão da mensagem a sala de comando começou a se encher com
tripulantes da nave. Bell indicou-lhe os lugares que deviam ocupar e recomendou-lhes
que ficassem de olhos e ouvidos atentos.
— Rhodan
está no arsenal do convés E — disse em tom sério. — Qualquer instrução sua terá
de ser cumprida sem demora.
— Coloquem
os capacetes e mantenham silêncio absoluto nos seus transmissores.
* * *
Rhodan não
foi sozinho. Os japoneses Tako Kakuta e Tama Yokida acompanharam-no. Eram
mutantes. Rhodan ainda não sabia de que lhe poderiam servir as faculdades de
Kakuta, o teleportador; de outro lado, porém, sabia perfeitamente que
precisaria do telecineta Yokida.
A sala de
comando da Stardust-III ficava no convés D. A diferença de altitude entre este
e o convés E era de perto de cento e cinqüenta metros. O elevador
antigravitacional ficava a cerca de trezentos metros da entrada do arsenal.
O largo
corredor havia sido evacuado. Bell já mandara abrir a escotilha do arsenal;
qualquer um via de longe o ovo metálico reluzente que permanecia no ar,
aparentemente imóvel, a cerca de três metros do solo e bem perto da escotilha.
— Comece,
Yokida! — disse Rhodan em tom áspero. — Leve a bomba a um dos suportes e
segure-a.
Yokida
atravessou a escotilha, de olhos fixos na bomba. Sabia perfeitamente de que
tipo era a arma com que estava lidando; não poderia se aproximar demais do
detonador.
Ficou
parado. Rhodan olhou-o; percebeu que os tendões do pescoço tornavam-se cada vez
mais salientes. Subitamente Yokida cambaleou e deu um passo para a frente; se
Tako Kakuta não se colocasse de seu lado com um salto e o apoiasse, teria
tombado.
— Não... não
consigo! — gemeu Yokida. — Está segurando demais.
Rhodan
cerrou os punhos.
— Está
segurando? Quem está segurando?
Empurrou o
japonês para o lado.
— Tako!
Preste atenção!
Tako sabia o
que devia fazer. Rhodan jogou todo o peso do corpo contra a bomba que de forma
tão estranha parecia flutuar no ar. O japonês estendeu os braços embaixo dela.
Se o telecineta desconhecido de repente deixasse de exercer sua influência
sobre a bomba, teria que segurar o pesado artefato, pois do contrário este
cairia no chão, acionando o detonador.
Mas os esforços
de Rhodan revelaram-se inúteis. Quem estava brincando com a bomba segurava-a
tão bem que Rhodan não conseguiu movê-la um milímetro.
— Temos que
desmontá-la! — gemeu Rhodan. — Tako, traga as ferramentas.
Tako
desapareceu.
Poucos
instantes depois a bomba começou a mover-se. Ansioso Rhodan seguiu a bomba
quando a mesma deslocou-se lentamente em direção à escotilha e saiu para o
corredor. Dirigiu-se para o lado direito, onde ficava a comporta centro-norte.
Rhodan
interpôs-se no seu caminho e mais uma vez procurou segurá-la. O resultado foi o
mesmo, como se procurasse deter um tanque em pleno movimento. A bomba
empurrou-o para o lado.
Continuou
seguindo pelo corredor. Não havia dúvida: queria ser levada comporta afora.
— Sala de
comando!
— Pronto!
— Abrir escotilha
interna da comporta centro-norte.
— Sim
senhor.
A imensa
escotilha de carga se abriu. A bomba foi flutuando em direção a ela.
Tako Kakuta
reapareceu. Carregava uma caixa de ferramentas. Rhodan fez-lhe um sinal para
que se mantivesse afastado.
— Não precisamos
mais disso. Fechem os trajes espaciais.
Mantiveram-se
logo atrás da bomba.
— Yokida!
— Sim
senhor!
— Preste
atenção à bomba. É bem possível que de repente o desconhecido se canse da
brincadeira e solte-a. Se isso acontecer, você terá que segurá-la.
Yokida
confirmou com um aceno de cabeça.
Passaram
pela escotilha. A bomba seguia a menos de um metro à sua frente.
— Sala de
comando! Feche a escotilha interna e abra a externa. Rápido!
A ordem foi
executada.
— Desligar
os campos protetores.
— Campos protetores
desligados.
Os
dispositivos trabalharam a plena força. Antes que a bomba tivesse atravessado a
ampla comporta, a pressão interna havia sido adaptada à pressão externa. A
escotilha externa abriu-se. Não havia a menor dúvida de que o desconhecido pretendia
levar a bomba para fora.
— A bomba
está saindo da nave — informou Rhodan apressadamente. — Voltaremos a ativar os
campos protetores com o raio mínimo assim que a bomba tenha ultrapassado a
distância correspondente. Avise Tanner de que deve retornar com seus homens o
mais rápido possível, deixando para trás as barracas e os instrumentos. Se a
bomba explodir nesta área coberta de oxido de ferro, dentro de meia hora o
planeta Vagabundo será transformado numa imensa tocha atômica.
A bomba saiu
da escotilha. O raio mais reduzido do campo protetor terminava a cinqüenta
metros da parede externa da nave. Se a bomba chegasse até lá sem explodir, ao
menos a nave estaria salva.
— Cuidado!
Subitamente,
quando ninguém mais contava com essa possibilidade, aconteceu! Por uma fração
de segundo a bomba interrompeu sua lenta caminhada, efetuou um giro de cento e
oitenta graus sobre seu eixo menor e foi caindo em direção ao solo.
— Yokida!
O japonês
segurou-se na borda da escotilha, numa posição muito arriscada, com o corpo
inclinado para fora. Tako Kakuta mantinha-se de pé atrás dele, com os braços
estendidos, pronto para segurar Yokida se este escorregasse.
Rhodan
deitou de bruços e avançou até a borda da escotilha. Viu que a bomba,
obedecendo à reduzida força gravitacional, descia junto à parede da nave.
O convés E
ficava bem na parte superior da Stardust-III. Se não acontecesse um milagre, a
bomba atingiria a nave aproximadamente na linha equatorial. O detonador
agüentaria? Era desta resposta que dependia a existência da nave e a vida de
seus tripulantes.
Uma
impassibilidade férrea apossou-se de Rhodan. Procurou avaliar a distância que a
bomba ainda poderia percorrer na sua queda.
Eram uns
cinqüenta metros, talvez sessenta.
Yokida
soltou um gemido abafado. Rhodan esteve a ponto de voltar-se para ele; mas
nesse instante a queda da bomba foi se tornando mais lenta.
Ainda
faltavam vinte metros!
Uns cinco
metros antes do impacto, o movimento da bomba cessou. Por um instante ficou
parada, trêmula, e depois...
...depois
voltou a subir. Primeiro lentamente, depois com maior rapidez e segurança, até
que começou a aproximar-se da escotilha numa velocidade considerável.
— Yokida! —
gritou Rhodan. — Temos que pegá-la!
Colocaram-se
em posição. De tanto esforço Yokida fechou os olhos; procurou dirigir a bomba
pelo tato. Ela aproximou-se cambaleante, dois metros acima do solo da comporta.
— Um metro
pra baixo! — ordenou Rhodan.
Yokida
obedeceu. A bomba baixou e foi se aproximando.
— Já!
Agarraram a
bomba ao mesmo tempo. Por um instante a mesma era tão leve que parecia de
papelão. Mas subitamente todo o peso da mesma descansou sobre os braços dos
homens, fazendo porejar o suor em suas testas.
Ouviu-se um
baque surdo; era Yokida que caíra ao chão, desmaiado. Reunindo as últimas
forças que lhe restavam, empurrara-se na borda da escotilha, caindo para o lado
de dentro.
Carregaram a
bomba para o arsenal.
Gemendo, com
as mãos entrelaçadas embaixo da bomba, foram caminhando pelo amplo corredor,
entraram no arsenal e dirigiram-se à armação de onde havia sido retirada a
bomba.
Um último
esforço, e...
— Cuidado!
...lá estava
a bomba no seu lugar.
Com os dedos
doloridos Rhodan trancou o fecho que mantinha a bomba presa ao suporte.
Num
movimento abrupto tirou o capacete. Expelia o ar aos chiados por entre os
dentes. Sua mão tremia enquanto limpava o suor que lhe penetrava nos olhos.
Tako
olhou-o. Subitamente Rhodan sorriu.
— É isso! —
disse, dando uma palmadinha no ombro do japonês.
* * *
Um comando
especial de cem homens trabalhou durante três horas para firmar toda a munição
armazenada nos arsenais de tal forma que não seria nada fácil para o
desconhecido realizar outra experiência desse tipo.
Durante
essas três horas Rhodan travou uma discussão acalorada com Crest e Thora, os
dois arcônidas que se encontravam a bordo. Ambos eram de opinião que com a
última ocorrência fora ultrapassado o limite do suportável, e o melhor que
tinham a fazer era abandonar o planeta Vagabundo o quanto antes.
Rhodan não
concordou. Já concebera um novo plano. Não conseguiu convencer Crest e Thora de
que seria tolice desistir logo agora; mas conseguiu explicar que o comandante
era ele e, se necessário, teria de dar suas instruções sem sua concordância.
Depois de
algum tempo Crest disse:
— Pois bem.
Você é o comandante, e jamais alguém haverá de dizer de um arcônida que não
sabe guardar a disciplina. Ficaremos calados; mas é bom que fique sabendo que
não concordamos.
— Acabarão
concordando quando nossa missão estiver concluída — disse Rhodan em tom
conciliador.
Thora não
disse nada. Mas em seus olhos chamejava uma raiva como Rhodan nunca vira igual.
Rhodan
transmitiu suas instruções. Participaria da nova expedição. Encareceu aos seus
oficiais:
— Não temos
um instante a perder. Quanto antes nos pusermos a caminho, maiores serão nossas
possibilidades de sobrevivência.
No meio
tempo o tenente Tanner havia chegado com seu grupo. Deixara as barracas e os
instrumentos para trás, conforme lhe fora ordenado.
Ao anoitecer
a expedição estava pronta para partir. Estava composta de dez câmbios; sete
deles estavam carregados com instrumentos e armas de toda espécie. Rhodan
fornecera dados precisos sobre a expedição apenas a Crest e Thora; a mais
ninguém. Quando Reginald Bell perguntou para que serviriam sete veículos
carregados de armas e aparelhos complicados, Rhodan respondeu:
— Vamos
deixar esses estranhos brincarem um pouco; mas num lugar em que isso não seja
tão perigoso para nós.
5
Ninguém
melhor que Rhodan para saber que a probabilidade de êxito não era superior a
sessenta por cento. A informação lhe fora fornecida pelo cérebro positrônico.
Apesar disso
decidiu realizar a expedição; isso porque julgava preferível fazer algo que
tivesse uma possibilidade apenas regular de êxito a permanecer inativo, além de
que esperava que sua iniciativa afastaria o perigo da Stardust-III, que em sua
opinião era extremamente preciosa.
Perto do
acampamento em que o tenente Tanner permanecera até o último instante foram
montados os instrumentos. Rhodan fizera questão de levar principalmente armas e
aparelhos cuja manipulação era extremamente complicada.
Todos
concordavam que o desconhecido agia tal qual uma criança. Avançava titubeante
dos brinquedos mais fáceis para os mais difíceis. No estágio em que se
encontrava não se sentiria estimulado a levantar simplesmente alguns
telecomunicadores ou outros instrumentos jogados na areia.
Rhodan
continuava convicto de que o abrigo do desconhecido ficava na área das colinas,
e que só brincava com os objetos existentes a bordo da Stardust-III por não
encontrar nada que ficasse mais perto.
A conjectura
de Rhodan era a seguinte: coloquem alguma coisa bem debaixo do nariz dele, e o
desconhecido se manterá longe da Stardust-III. Brincará com aquilo que estiver
mais à mão; e, se tivermos sorte, conseguiremos agarrá-lo enquanto estiver
brincando.
O
acampamento foi ampliado, para abrigar todos os membros da expedição. Entre o
acampamento e o local em que estavam montados os instrumentos havia uma colina
de tamanho regular. Dessa forma nada aconteceria aos homens que se encontrassem
no acampamento, ou que ficassem de sentinela junto ao topo da colina, se o
desconhecido resolvesse brincar com as armas que se encontravam do outro lado.
Rhodan
explicou aos homens como seria o inimigo.
— Por
enquanto devemos admitir — disse — que, tal qual os arcônidas fizeram e os
homens farão, os robôs foram construídos segundo sua imagem. Portanto, devemos
esperar um ser sem cabeça, com um tronco elíptico, duas pernas sem pés e um
círculo com doze braços. Tudo isso não deve ser maior que cinqüenta
centímetros. Assim que localizarem uma coisa dessas, procurem capturá-la, quer
seja um robô ou um ser orgânico. De qualquer maneira não será possível
distinguir à primeira vista. Prestem atenção às esferas reluzentes! Estão
equipadas com armas diabólicas, e não sabem interpretar um aceno amistoso.
Puseram-se a
esperar.
Aconteceram
algumas coisas esquisitas, sem que conseguissem avistar o inimigo. Um canhão de
impulsos de calibre médio começou a disparar de repente, girando loucamente.
Abriu sulcos de vários metros de profundidade nas colinas mais próximas, antes
que voltasse à calma.
Os técnicos
da Stardust-III informaram que os arranhões existentes no telecomunicador de
bolso, furtado da barraca de Rhodan antes que a mesma voasse pelos ares, tinham
sido produzidos por uma mão de robô.
Era um dado
interessante; até então Rhodan acreditava que a bomba havia sido colocada por
um ser orgânico, que também furtara o telecomunicador. A descoberta dos
técnicos provava que também aquele atentado fora praticado por um robô.
Além disso,
os técnicos realizaram uma análise C-14, a fim de determinar a idade dos robôs.
Constataram que sua idade era de pelo menos oito C-14 tempos médios, ou seja,
pelo menos quarenta e cinco mil anos.
Era um dado
surpreendente. Os robôs eram mais velhos que a própria cultura arcônida.
Rhodan
começou a suspeitar de alguma coisa. Mas guardou a suspeita para si mesmo, pois
ainda não dispunha de qualquer prova de que a mesma era verdadeira.
A suspeita
não produziu qualquer modificação nos seus planos. Para a busca do mundo da
conservação celular pouco importava de que espécie eram os seres que
forneceriam a próxima indicação.
* * *
Numa noite
daquelas Fellmer Lloyd, de repente, saiu gritando de sua barraca e despertou
todo o acampamento.
— Estão
chegando! — gritou. — Sinto que vão atacar!
Rhodan foi o
primeiro a chegar perto dele. Não duvidava de que aquilo que Lloyd sentia
correspondia à realidade; apesar disso deu-lhe um soco nas costas para que
recuperasse o controle antes que todo mundo ficasse histérico.
— Proceda
como um homem sensato! — gritou Rhodan. — O que houve?
— É o ódio!
— fungou Lloyd. — Um ódio terrível. Acordei com isso e minha cabeça está
zumbindo tanto que mal consigo ouvi-lo.
Rhodan
correu para o alto da colina. Pelo que informava Lloyd, o inimigo vinha do
norte.
As duas
sentinelas postadas no topo da colina ainda não haviam percebido nada. Rhodan
mandou que outros o seguissem e se colocassem atrás das peças de artilharia
montadas ao abrigo da colina.
Por mais
estranho que fosse, Fellmer Lloyd não percebeu nada do instinto brincalhão um
tanto infantil que reconhecera como segunda característica da raça
desconhecida.
— É só ódio!
— resmungou em tom abafado.
Rhodan
transmitiu suas instruções.
— Só
começaremos a atirar quando pudermos assumir a responsabilidade pelas
conseqüências. Usem os projetores mentais e procurem neutralizar sua vontade.
Era bem
verdade que não acreditava que os projetores mentais dessem resultado. Não é
possível hipnotizar um robô.
Passaram-se
alguns minutos. Fellmer Lloyd parecia sofrer cada vez mais com o ódio dos
desconhecidos. Deitado perto de Rhodan, comprimia o capacete contra o solo e
gemia.
Subitamente
apareceram.
Com um salto
elegante transpuseram o topo da colina mais próxima e entraram na depressão em
que Rhodan mandara montar os instrumentos.
Eram cinco
esferas. Mesmo na escuridão reluziam, espalhando uma luz difusa. Ao que
parecia, conheciam perfeitamente o objetivo; não se detiveram no fundo da
depressão, mas foram subindo em linha reta em direção ao topo da colina.
Os
projetores mentais começaram a funcionar, sem o menor resultado. A distância
foi diminuindo; todo mundo sabia o que iria acontecer se as esferas atingissem
o topo da colina.
— Fogo! —
murmurou Rhodan.
Naquele
instante ninguém sabia que efeito as armas da Stardust-III produziriam nas
esferas. Tinham alguma esperança de que conseguiriam ao menos manter o inimigo
à distância.
Ninguém
esperava o que estava por vir.
O campo
descristalizante do desintegrador postado no flanco esquerdo da colina atingiu
a primeira esfera. No mesmo instante a mesma se iluminou no ribombar de uma
explosão. Quando os homens conseguiram enxergar de novo, a esfera havia
desaparecido e as demais, desorientadas, iam descendo junto à encosta da
colina.
Os homens de
Rhodan deram vasão à sua fúria. Este quis fazê-los parar, pois tinha esperança
de capturar intacta ao menos uma das esferas. Mas antes que pudesse fazê-lo, os
canhões dispararam salva após salva, desintegrando as esferas numa série de
explosões fulgurantes.
A batalha da
colina durara menos de dez minutos. As cinco esferas reluzentes haviam sido
destruídas e Fellmer Lloyd respirou aliviado, porque viu-se livre da tremenda
carga de ódio.
— Quando
notou que o ódio diminuía? — perguntou Rhodan. — Foi com a destruição de alguma
das esferas em particular?
Lloyd
sacudiu a cabeça.
— Não é o
que o senhor está pensando. Acreditava que a maior parte das esferas estava
ocupada somente por robôs e que o desconhecido em pessoa estava apenas em uma
delas, não é mesmo? Não foi isso. Com a destruição de cada uma das esferas o
ódio ia diminuindo, e quando a última foi atingida, cessou por completo.
Isso deu o
que pensar a Rhodan. A tese de que toda aquela civilização consistia num
exército de robôs e mais um ou dois seres orgânicos sobreviventes começou a
vacilar.
Perguntou-se
se ainda valeria a pena esperar. O inimigo fora vencido e provavelmente não se
arriscaria mais a atacar a colina. Se fosse assim, como fariam para agarrá-lo?
Estava
convencido de que tudo permaneceria em silêncio por ali. Chamou de idiota uma
sentinela que, na manhã do dia seguinte, lhe disse que um dos oscilógrafos
instalados do outro lado da colina começara a funcionar, desenhando amostras
coloridas na tela.
Mas, quando
Fellmer Lloyd despertou do sono prolongado com que procurara recuperar-se das
canseiras da noite anterior, registrou imediatamente as vibrações de um cérebro
estranho que, segundo dizia, era extremamente brincalhão.
* * *
Rhodan
dirigiu-se à sentinela que chamara de idiota e pediu desculpas. Depois disso,
subiu a colina e permaneceu ao lado das duas sentinelas até que pôde notar com
seus próprios olhos três incidentes novos: um radiador de nêutrons começou a
disparar, uma calculadora pôs-se a trabalhar e um refrigerador começou a despejar
ar liquefeito.
Embora
ficasse satisfeito ao notar que o desconhecido continuava a entregar-se ao seu
instinto brincalhão, descarregando-o sobre os instrumentos montados nas
proximidades, sentia-se bastante confuso.
Não era
apenas porque subitamente Lloyd alegava que a vontade de brincar estava livre
de qualquer tipo de ódio, enquanto antes afirmava que o ódio e o instinto
brincalhão andavam estreitamente ligados, mas também porque o comportamento do
inimigo era inexplicável, a não ser que se quisesse admitir que fosse
esquizofrênico.
Não pôde
prosseguir nos seus pensamentos. A voz de uma das sentinelas soou no receptor
de seu capacete. Parecia bastante exaltado:
— Há um
movimento entre as duas colinas. Quer vir até aqui para dar uma olhada?
Pela segunda
vez naquela manhã Rhodan subiu a colina e agachou-se atrás do topo. Ficara
admirado com o movimento que a sentinela não conseguira identificar a uma
distância de trinta metros, mas agora ele mesmo estava vendo.
Alguma coisa
se mexia embaixo da areia. Parecia uma toupeira que procurava uma saída.
Dali a dez
minutos subitamente surgiu um buraquinho no solo. Uma coisa pontuda, marrom,
apareceu por um segundo e voltou a desaparecer. A areia voltou a se mover,
circulando em torno do buraquinho como a água em torno do ralo de uma pia.
Dentro de
algum tempo o diâmetro do buraco quintuplicou. Mais uma vez a coisa marrom e
pontuda voltou a aparecer; arriscou-se mais um pedaço para fora, mas ao que
parecia ainda achava a abertura muito pequena. O trabalho subterrâneo prosseguiu.
Quando a impaciência dos observadores alcançou o máximo, o buraco atingiu um
tamanho que permitiu a saída do ser marrom de focinho pontudo.
Era um
rato-castor, e seu comportamento era bem estranho.
Saltou de um
instrumento para outro e deu mostras de sua curiosidade, farejando um por um.
Ao que
parecia, um pequeno aparelho de refrigeração — o mesmo que entrara em atividade
uma hora antes — foi o que mais lhe despertou a curiosidade. O rato-castor
sentou sobre as patas traseiras junto à máquina, esticou as patas dianteiras
pouco desenvolvidas e apalpou o revestimento de plástico com movimentos um
tanto desajeitados.
Erguido
sobre as patas traseiras, o animal media quase um metro. O refrigerador só
tinha metade dessa altura, e seu formato era o de um cubo.
O
rato-castor deu alguns saltos para trás, virou-se e pareceu encarar o aparelho.
Depois
aconteceu uma coisa muito estranha: a máquina ergueu-se do seu suporte e
flutuou no ar. O rato-castor permanecia sentado, imóvel, contemplando-a. O
aparelho deitou-se de lado e deslocou-se em direção ao rato-castor. Quando
chegou a meio metro de distância, o animal afastou-se para o lado. O aparelho
continuou a deslocar-se, parou sobre o buraco cavado pelo rato-castor e acabou
desaparecendo no mesmo.
O animal virou-se
e olhou. Permaneceu imóvel por mais alguns instantes; finalmente saltitou em
direção ao buraco e desapareceu no interior do mesmo.
Poucos
segundos depois a cena voltara ao mesmo aspecto que apresentava há alguns dias
— com exceção do buraco, que antes não estivera lá, e do aparelho de
refrigeração, que desaparecera.
Rhodan
levantou-se. Sua cabeça zunia; perguntou de si para si se devia acreditar no
que acabara de ver.
Ouviu uma
das sentinelas soltar o ar com um forte chiado. Deitados de lado, os homens
olhavam-no. Queriam uma explicação.
— Venham
comigo! — ordenou Rhodan com a voz áspera. — Levem mantimentos pessoais para
cinco dias. Também peguem uma arma manual. Vamos entrar nesse buraco para ver
onde foi parar aquele refrigerador.
* * *
A Stardust-III
foi informada sobre o incidente. Todos aguardavam algum comentário de Rhodan.
Mas este não estava disposto a externar suposições.
— Sei tanto
quanto você — disse em tom grosseiro para Reginald Bell. — Só terei outras
informações depois que tiver entrado naquele buraco.
Puseram-se a
caminho.
O tenente
Tanner ficou no acampamento com mais cinco homens. Rhodan recomendou o máximo
de vigilância, e consolou-o com o fato de que o armamento da Stardust-III
provara sua superioridade sobre o inimigo.
O buraco
cavado pelo rato-castor era bastante largo para que o animal pudesse entrar com
seu tronco bastante grosso. Uma vez que esse tronco era da grossura de um corpo
humano, Rhodan e seus homens não teriam maiores dificuldades em se deslocar.
O buraco
desceu cerca de metro e meio, depois descreveu um ângulo reto e transformou-se
numa espécie de galeria. Rhodan, que ia à frente, iluminou-o com seu holofote o
melhor que pôde. O alcance do holofote era de cerca de um quilômetro, mas mesmo
assim a luz não atingia o fim da galeria.
— De
qualquer maneira vamos tentar — decidiu Rhodan.
* * *
Meia hora
depois que Rhodan e seus companheiros haviam desaparecido no interior do
buraco, o tenente Tanner recebeu uma mensagem da Stardust-III. O próprio Bell
falava do outro lado e, pela expressão do rosto, estava algo mais que
simplesmente nervoso.
— O chefe já
saiu — disse Tanner.
— Nesse caso
transfira a ligação para ele.
Tanner
sacudiu os ombros.
— Mas o
chefe deu ordens para nos abstermos de quaisquer comunicações pelo rádio.
Qualquer contato só poderá partir dele.
Bell bateu
com o punho cerrado na mesa em que estava colocado o receptor. A imagem deu um
ligeiro salto.
— Pois grave
o que vou dizer — ordenou. — E depois transmita de qualquer maneira. Rhodan não
pode deixar de saber disso.
— Pode
falar.
Comprimiu um
botão para ligar o gravador automático.
— Os
técnicos desmontaram e examinaram os robôs. Trata-se de seres mecânicos, mas
seu cérebro é uma estrutura orgânica de duração ilimitada. Portanto, no que diz
respeito à atividade mental, os robôs podem ser equiparados aos seres
orgânicos. Apesar disso dispõem de um mecanismo de memória extremamente
complicado. Até agora só conseguimos decifrar duas informações. Primeiro: o
robô recebeu instruções de atacar imediatamente e, se possível, destruir
qualquer ser estranho que penetre neste mundo. Segundo: neste mundo só existem
vinte robôs desse tipo. A última lembrança de seres organicamente estruturados
data de mais de quarenta mil anos do planeta Vagabundo, isto é, cerca de trinta
e cinco mil anos do tempo terreno.
Num tom
menos oficioso, Bell acrescentou:
— Tenente,
espero que não deixe de reconhecer a importância desta informação.
Tanner
apressou-se em asseverar que não poderia deixar de reconhecer isso. A
comunicação foi interrompida e Tanner esforçou-se para estabelecer contato com
o grupo de Perry Rhodan.
Depois de
algum tempo, conseguiu. Ouviu exatamente aquilo que esperava:
— Quem é o
idiota que está chamando? Dei ordens expressas para evitar toda e qualquer
comunicação pelo rádio.
Tanner pediu
desculpas, alegando a ordem recebida de Bell.
— Está bem —
contemporizou Rhodan. — Conte; mas seja breve.
Tanner
repetiu o que ouvira poucos minutos antes.
— Diga a
Bell — respondeu Rhodan — que, para mim, isto não é novidade.
Com estas
palavras a palestra chegou ao fim. Tanner estava perplexo quando voltou a
chamar a Stardust-III.
* * *
“O rato-castor deve ter trabalhado vários
dias para abrir esta passagem”, pensou Rhodan. Pelo seu cálculo, nas
últimas quatro horas haviam se afastado outros tantos quilômetros do buraco por
onde entraram. Mas, mesmo com o máximo de sua intensidade, o holofote ainda não
atingia o fim da galeria.
Através de
algumas amostras, colhidas por meio da comporta de provas de seu capacete,
Rhodan constatara que a qualidade do ar permanecia inalterada. Dali se concluía
que ambas as extremidades da galeria deviam ter ligação com a superfície.
Rhodan ainda
procurou verificar, com seu isqueiro de gás, se havia qualquer correnteza de
ar. A chama minúscula, que a quantidade reduzida de oxigênio contida naquela
atmosfera mal conseguia nutrir, não revelara nenhuma movimentação.
Dali se
poderia concluir que entre a saída da galeria e o lugar em que se encontravam
haveria um grande reservatório de ar, que impedia a formação de correnteza.
Talvez fosse uma caverna.
Isso o
deixou satisfeito, pois tinha uma idéia bastante clara daquilo que o esperava
mais adiante.
Mas havia
outra coisa que o deixou muito menos satisfeito. Penetrara na galeria com menos
de trinta pessoas. Sem dúvida não era qualquer um que poderia rastejar por
horas a fio numa galeria que era tão baixa que a única coisa a fazer era deitar
de barriga e empurrar o corpo com os cotovelos.
O efeito era
de esperar: claustrofobia. Os homens começaram a ficar nervosos. Embora Rhodan
lhes tivesse ordenado que mantivessem silêncio absoluto, algumas palavras
ásperas foram proferidas. Rhodan procurou acalmar seus homens, com palavras
tranqüilizantes ou grosseiras, conforme exigisse a situação.
Mas o
nervosismo continuava a crescer. A marcha subterrânea não devia demorar demais.
Acontece que
durou mais três horas. Rhodan calculou que lá fora o sol já se devia ter posto.
A distância entre o lugar em que se encontravam e a entrada da galeria devia
ser de cerca de oito ou nove quilômetros, visto que nas últimas horas seu
deslocamento fora bem mais rápido que no início.
Já se
tornara quase impossível controlar os homens. Muito embora a volta
representasse um caminho muito mais longo — além do que teriam de rastejar para
trás, já que era impossível virar o corpo naquela galeria estreita — cada vez
mais freqüentes se tornaram os pedidos de desistir da expedição subterrânea.
Rhodan
respondia o seguinte:
— Calma!
Estamos quase chegando.
Detestava
frases desse tipo, mas com elas conseguia ao menos alguns minutos de
tranqüilidade.
De repente
viram uma luminosidade, mais adiante, no interior da galeria.
De início
Rhodan acreditou que se tratasse de uma ilusão produzida por seus olhos
extremamente cansados. Fechou-os, ficou parado por um instante e voltou a
abri-los.
O reflexo
continuava no mesmo lugar.
Voltou a
ligar o holofote e procurou descobrir o que havia por ali.
A luz do
holofote não revelou nada.
Fosse o que
fosse, ainda estava fora do alcance da luz do holofote.
— Vamos
embora, rapazes! — disse. — Falta pouco.
Deslocaram-se
com maior rapidez do que tinham feito até então.
A galeria
não dispunha de qualquer escoramento, constatou Rhodan. Fora cavada na areia.
Era um trabalho bem feito, mas as paredes não estavam revestidas.
Dali a quarenta
e cinco minutos a galeria alargou-se um pouco. Rhodan continuou deitado e
desligou o holofote.
A misteriosa
luminosidade estava bem à sua frente, a uns cinqüenta metros de distância, mas
não conseguiu descobrir a fonte de que provinha.
— Cuidado! —
disse.
Lentamente,
causando o menor ruído possível, os homens continuaram a avançar.
Dali a mais
dez metros a galeria tornou-se tão ampla que os homens podiam ficar de joelhos.
Subitamente
a galeria terminou.
De ambos os
lados as paredes abriram-se praticamente em ângulo reto, e à frente havia um
recinto em forma de caverna, em cujo centro, bem acima do solo, estava
pendurada uma placa que emitia uma forte luminosidade.
Rhodan fez a
luz de seu holofote passar pelo recinto. Estava completamente vazio, com exceção
da placa e do pequeno refrigerador, que se encontrava perto do fim da galeria.
Rhodan saiu
e levantou-se. Com alguns saltos colocou-se bem embaixo da placa luminosa e
examinou-a.
—
Fotografar! — gritou subitamente. — Rápido!
O homem com
a câmara arcônida não tinha a menor idéia sobre o motivo pelo qual tivera de
carregar o aparelho. Levou alguns segundos para perceber que as palavras de
Rhodan eram dirigidas a ele. Por isso teve de ouvir algumas palavras duras do
chefe.
— Aqui,
perto de mim! — ordenou Rhodan. — Ângulo bem aberto. Vamos logo! O que está
esperando?
O fotógrafo
apertou um botão e empurrou a pequena objetiva de ângulo aberto para dentro da
câmara. Dirigiu esta para cima e começou a tirar suas fotografias.
Só então viu
que tipo de placa tinha diante de si. Ficou tão surpreso que, por pouco, não se
esqueceu de manipular a máquina.
Aquele
objeto que, visto de lado, parecia uma placa, era um modelo da Via Láctea. À
primeira vista não se poderia dizer com segurança se era nossa Via Láctea ou
outra galáxia; mas não se compreenderia que o imortal tivesse usado os recursos
inacreditáveis de que dispunha para projetar o modelo de qualquer galáxia
estranha nessa toca de ratos-castores.
O homem com
a câmara foi repetindo as fotografias até que, de repente, a projeção cessou
num chuvisco de chispas. Por um ou dois segundos a caverna subterrânea ficou
profusamente iluminada.
Depois disso
a escuridão foi tão profunda que os olhos ofuscados pela luz não enxergaram
mais nada.
Alguém ligou
um holofote manual.
— Apague
isso! — ordenou Rhodan.
A luz
apagou-se. No início ficaram sem saber por que Rhodan dera essa ordem; mas com
o tempo — conforme a maior ou menor acuidade de suas vistas — perceberam.
A caverna
tinha várias saídas. Por algumas delas entrou uma luz fraca e difusa, quase
imperceptível. Era a luz projetada pelas estrelas do céu do planeta Vagabundo.
Rhodan
dirigiu-se a uma das saídas. Era de formato idêntico ao da galeria pela qual
haviam entrado. Suas paredes brilhavam à luz das estrelas. Estavam revestidas
com uma cobertura reluzente.
A galeria
levava para cima numa subida bastante íngreme; se inclinasse a cabeça para trás
o mais que isso fosse possível com o capacete, Rhodan distinguia os pontos
luminosos formados pelas estrelas.
— Acendam a
luz! — ordenou.
Mais de uma
dezena de holofotes acenderam-se de vez.
Sua luz
potente cobriu o chão da caverna e as paredes revestidas com uma espécie de
barro. O formato do recinto era bastante irregular. Ao norte parecia querer
assumir a forma de um retângulo, mas ao sul terminava num semicírculo. Ao todo
devia ter uns trezentos metros quadrados.
Junto às
paredes viam-se, a intervalos regulares, montões de plantas secas. Rhodan
examinou-os. Eram plantas da única espécie que até então haviam encontrado no
planeta Vagabundo. Eram idênticas àquelas com que os ratos-castores, que viram
na primeira noite, saciaram a fome.
Os
ratos-castores!
— Onde
estará o sujeito que roubou nosso refrigerador? — perguntou Deringhouse.
Rhodan, que
estava junto dele, apontou para as saídas:
— Está lá
fora, matando a fome junto com os outros.
— Que
outros?
— Não está
vendo que aqui há vinte e quatro leitos de palha; isto é, se quisermos chamar
isto de palha.
— Leitos? —
repetiu Deringhouse hesitante. — Quer dizer que esses animais têm camas?
— Se para
você isto são camas, sim.
De resto não
havia nada de extraordinário. Se os ratos-castores tinham uma despensa, como é
de se esperar de qualquer roedor, esta devia ficar atrás de uma das galerias
que saíam da caverna nas mais variadas direções. Rhodan preferiu não realizar
outras buscas.
Saíram por
uma das galerias de luz. As paredes eram tão lisas que não poderiam rastejar
para cima. Mas bastava dar um forte salto para que, face à reduzida gravitação,
atingissem a borda superior.
A galeria de
saída fora escolhida conscientemente por Rhodan. No ponto em que desembocava na
areia do deserto havia inúmeros rastros, que seguiam na direção norte.
Seguiram-nos
cautelosamente. Os rastros contornaram uma colina e terminaram num vale, mais
largo e comprido do que costumam ser os vales daquela região. Havia uma
vegetação rala, que à luz das estrelas se destacava nitidamente sobre a areia
branca.
Mais ao
norte viu-se uma massa escura e compacta, cujos flancos se mantinham num
movimento ininterrupto.
Aproximaram-se
mais um pouco. Adaptaram os filtros de luz infravermelha às lâminas de seus
visores e reconheceram o rebanho de ratos-castores, que pastava tranqüilamente.
Contaram
vinte e quatro animais.
— Pois bem!
— disse Rhodan depois de algum tempo. — Voltemos para casa.
Todavia,
aquela noite ainda lhe reservava uma surpresa. Enquanto marchavam para o sul,
para chamar os câmbios num lugar em que não perturbassem os ratos-castores em
sua ocupação pacífica, Rhodan examinou as colinas à sua volta.
Eram todas
iguais — nem muito altas, nem muito grandes. Pareciam ter sido levantadas
artificialmente, e lembrou-se de que já tivera essa impressão, quando, em
companhia de Deringhouse, encontrara a primeira esfera reluzente.
Era a área
dos ratos-castores. Acima da caverna de onde haviam acabado de sair havia uma
colina desse tipo; provavelmente haveria uma caverna embaixo de cada uma das
outras colinas.
***
Dali a
poucas horas estavam de volta, a bordo da Stardust-III. O tenente Tanner foi
encarregado de levantar o acampamento e levar as barracas e os instrumentos até
a nave.
As
fotografias tiradas no interior da caverna dos ratos-castores foram reveladas;
mas Rhodan ainda não as mostrara a ninguém.
— Antes de
examinarmos as fotografias devemos esclarecer algumas coisas — principiou.
Seus
ouvintes — os mesmos que tivera no início da expedição, quando a Stardust-III
ainda se encontrava parada num espaço bizarro com umas ridículas cinqüenta e
seis estrelas — procuraram ler as palavras em seus lábios.
— Viemos até
aqui para encontrar mais uma indicação sobre o caminho que devemos tomar para
achar o mundo cuja civilização conhece o segredo biológico da conservação das
células, e portanto da vida eterna. Batizamos a missão com o nome Pedra dos
Sábios. Estávamos convencidos de que no planeta Vagabundo devia existir uma
raça inteligente, que possuísse tal indicação. Estávamos preparados para
conquistar a confiança dessa raça, ou para arrancar-lhe o segredo à força.
“Pois bem.
Estávamos aqui há poucos dias quando percebemos que um telecineta invisível se
divertia à nossa custa, comprimindo botões, levantando objetos e fazendo outras
bobagens desse tipo. Organizamos uma expedição e logo nos deparamos com uma
estranha esfera reluzente, que acreditávamos ser outro produto daquela raça desconhecida,
que horas antes nos dera mostras de suas intenções hostis, quando fez voar
pelos ares minha barraca.
“Colocamo-nos
na pista que havíamos localizado e prosseguimos por ela. Nos primeiros dias
ninguém se lembrou de que o cérebro positrônico da Stardust-III havia previsto
o fim das provas exclusivamente técnicas. Num instante preparamo-nos para
enfrentar um inimigo que possuísse uma porção de coisas que não conhecêssemos,
e de nos apossarmos de seu segredo apesar da superioridade técnica de que era
dotado. Mas, por estranho que pudesse parecer, tudo correu sem o menor
problema. Ocupamos o pavilhão de fábrica sem que sofrêssemos qualquer perda
digna de nota, é bem verdade que fomos ajudados pelo acaso, e não tivemos que
fazer maiores esforços para repelir outro ataque do inimigo. Ficamos um pouco
desconfiados...”
— Você
ficou! — disse Bell em tom áspero. — Nós não.
— Está bem;
então fui eu — disse Rhodan com um sorriso. — De repente percebemos que o
inimigo não possuía nenhuma superioridade técnica, embora conhecesse campos
gravitacionais rotativos. Lembramo-nos das observações feitas por Lloyd: toda
vez que este captava um modelo de vibrações cerebrais, seu conteúdo era formado
por um ódio cego e destruidor ou por um instinto brincalhão verdadeiramente
infantil. Não haveria mais necessidade de quebrar a cabeça: estávamos na pista
errada, pois no planeta Vagabundo há duas raças inteligentes.
As cabeças
dos ouvintes, até então inclinadas numa atenção muda, foram atiradas para cima.
Os olhos exprimiam uma perplexidade total, as bocas abriram-se em protesto, mas
não conseguiram emitir um som.
— Duas... —
disse a voz rouca de Deringhouse depois de algum tempo.
Rhodan fez
que sim.
— Qual é a
segunda? — perguntou Bell.
— São os
ratos-castores.
— Não é
possível! — exclamou Deringhouse. — Lloyd observou-os na noite em que montamos
o acampamento naquelas colinas e não percebeu nada.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Essa regra
seletiva, como é chamada pelo cérebro positrônico, consistia de duas partes. Em
primeiro lugar, tínhamos de descobrir que no planeta Vagabundo existem duas
raças inteligentes, e depois precisávamos saber qual delas dispunha da
indicação que estávamos procurando. A raça dos ratos-castores é de um tipo que
nossa experiência, ou melhor, a experiência arcônida, encontra pela primeira
vez. Não há dúvida de que a inteligência desses animais é de natureza
intermitente.
— O que vem
a ser isso?
A pergunta
foi formulada abruptamente e em tom áspero, sem um mínimo de respeito. Partiu
de Bell.
— Uma
inteligência intermitente é um tipo de inteligência que faz com que o ser que a
possui às vezes seja inteligente, às vezes não seja. Falei claro?
— Não. Isso
significa que de segunda a quarta-feira os ratos-castores são inteligentes, e
de quinta a domingo são estúpidos?
— Mais ou
menos — murmurou Rhodan. — Apenas o intervalo é diferente. É diurno-noturno. Os
ratos-castores perdem sua inteligência, que de qualquer maneira não é muito
grande, quando começa a escurecer, e voltam a recuperá-la ao nascer do sol. Uma
vez que esse efeito existe, é perfeitamente compreensível que o mesmo se
processe segundo os dados naturais existentes neste mundo. Em poucas palavras,
ele se orienta pela luz e pela escuridão. Se não fosse assim, os ratos-castores
teriam ficado numa confusão terrível quando o terremoto alterou a posição do
eixo do planeta Vagabundo.
Seguiu-se
uma discussão apaixonada.
Por estranho
que parecesse, Crest e Thora, os dois arcônidas, mantiveram-se num silêncio
total. Rhodan sorriu para eles. Crest retribuiu o sorriso, mas Thora limitou-se
a erguer as sobrancelhas.
“São os herdeiros de um saber que teve de
reconhecer que está longe de ser total”, pensou Rhodan. “Quando será que essas criaturas teimosas que
habitam o planeta Terra reconhecerão que nada é impossível pelo simples fato de
eles ainda não o haverem visto?”
Interrompeu
a discussão e formulou esse argumento. Não concordaram com o mesmo — ele o viu
pela expressão de seus rostos — mas aceitaram sua sugestão:
— Provarei a
exatidão de minha teoria. A Stardust-III permanecerá no planeta Vagabundo por
mais alguns dias. Teremos oportunidade de observar os ratos-castores.
Passou a
outro assunto.
— Apesar de
tudo, talvez na nossa inconsciência, encontramos no planeta Vagabundo os restos
de uma cultura antiga. Não tenho medo de confessar que, por algumas horas,
cheguei a acreditar que o planeta Vagabundo era o mundo da vida eterna, e que
os robôs nada mais eram senão os espíritos servis do imortal, que nos vem
arrastando na sua esteira. Bem; não era isso. O imortal deve ser bem mais
antigo que a cultura do planeta Vagabundo. Os robôs foram desmontados. Sabem de
muita coisa que nós não sabemos; em compensação, outras coisas que nos parecem
corriqueiras são ignoradas por eles. Há dezenas de milhares de anos guiam-se
pela última ordem que lhes foi ministrada: atacar e destruir qualquer invasor.
“Seu cérebro
tem uma estrutura orgânica, provavelmente porque seus construtores viram nisso
a maneira mais simples de construir um robô. Repousa num tipo de tanque cheio
de um líquido nutritivo, que pode manter o cérebro vivo pelo menos por cem mil
anos terrenos.
“Acontece
que a energia mecânica dos robôs era fornecida por geradores. Um deles foi
avariado por ocasião do grande terremoto, e o resultado foram quinze robôs aparentemente
mortos. Deve haver outro gerador que abastecia os cinco robôs restantes. Estes
nos atacaram e foram destruídos.
“Temos
possibilidade de revitalizar os quinze robôs aparentemente mortos e
programá-los de tal maneira que não nos considerem mais como inimigos. É o que
faremos.”
Sorriu.
— Quem está
em nossa situação não pode se dar ao luxo de dispensar qualquer novo saber que
possa adquirir, por mais insignificante que seja. Acredito que poderemos
aprender muita coisa com a velha cultura do planeta Vagabundo.
Pegou o maço
de fotografias que se encontrava sobre a mesa.
— O mais
interessante desses robôs — disse, como se estivesse pensando em voz alta — é
que os mesmos armazenaram sem o menor preconceito todo o saber de que dispunham
seus chefes desaparecidos. Para um robô que recebeu ordens para atacar qualquer
invasor, uma granada de mão é uma arma tão eficaz como um campo rotativo. De
início andamos quebrando a cabeça sobre isto. Parece que nos últimos dias
aprendemos uma boa lição de lógica de robôs. Ataque com qualquer coisa que
tenha à mão, desde que seja uma arma.
Aproximou as
fotografias dos olhos.
— Basta que
lhes mostre uma destas fotografias. Nela existe tudo que esperávamos encontrar
no planeta Vagabundo.
Pegou a
fotografia de cima e colocou-a no projetor. Quando ligou o aparelho, a luz do
teto apagou-se automaticamente.
Viram, em
projeção tridimensional, um setor do modelo de Via Láctea que haviam encontrado
na caverna dos ratos-castores. No centro do quadro via-se um ponto luminoso
insignificante, da qual saía uma faixa bem mais clara que se estendia a uma
estrela situada no quadrante superior direito.
— Quero
explicar o seguinte — soou a voz áspera de Rhodan em meio ao silêncio. — No
início não se via o ponto situado no centro do quadro. Quando olhei a
fotografia pela primeira vez, a faixa luminosa terminava no nada. Tivemos de
lançar mão de todos os recursos da técnica de revelação arcônida para que o
pontinho se tornasse visível. Constatamos que as estrelas que aparecem neste
modelo foram projetadas de acordo com sua verdadeira luminosidade. Portanto,
temos uma indicação exata da intensidade luminosa da estrela em que termina
esta faixa brilhante. O resultado é um tanto surpreendente: essa estrela não
tem luminosidade própria; a luz que irradia é apenas o reflexo de sóis
vizinhos. Trata-se de um planeta sem sol.
— É o mundo
da vida eterna? — perguntou Crest.
—
Acreditamos que sim — respondeu Rhodan. — Se não fosse assim, o quadro não
teria o menor sentido.
— E que
estrela é essa que fica na outra extremidade do arco luminoso? — perguntou
Bell.
— Vega.
Alguém
respirou pesadamente.
— Quer dizer
que já conhecemos nossa posição galáctica?
— Isso
mesmo. Encontramo-nos a dois mil e quatrocentos anos-luz de Vega e do Sol.
Não disseram
mais nada. Admiraram o quadro daquela projeção misteriosa que haviam encontrado
e fotografado no interior da caverna dos ratos-castores. Embora não quisessem
admiti-lo, sentiram-se tomados de veneração pela técnica estranha e legendária
da raça desconhecida que habitava o mundo da vida eterna.
Agora já se
sabia que esse mundo vagava pelo espaço galático, solitário e sem sol.
* * *
Depois de
haverem localizado as cavernas dos ratos-castores, já não havia o menor
problema em postar Fellmer Lloyd nas proximidades. Este constatou exatamente
aquilo que Rhodan previra.
Durante o
dia os ratos-castores eram uma raça de inteligência pouco desenvolvida, mas
dotados da capacidade parapsicológica da telecinésia, que neles alcançava uma
potência extraordinária. Além disso, estavam possuídos de uma tendência de
brincar extremamente desenvolvida, em consonância com seu reduzido grau de
inteligência.
Os objetos
que Rhodan colocara ao seu alcance mantiveram-nos ocupados durante todo o dia.
Agora que dispunham desse playground, a
Stardust-III ficava muito longe para que ainda a importunassem.
Ao escurecer
transformavam-se em animais sem inteligência, que saltitavam pelos vales em que
havia vegetação. Poucas horas antes do nascer do sol voltavam às suas cavernas
para dormir. Quando despertavam o sol brilhava no céu e os animais recuperavam
a inteligência.
Era um
estranho jogo da natureza.
Fellmer
Lloyd não sentia mais nada do ódio ardente que os cérebros orgânicos dos robôs
encerravam; os cérebros orgânicos acondicionados em tanques feitos de um
material especial, que os protegia contra a influência do projetor mental dos
arcônidas.
***
Dez dias do
planeta Vagabundo depois de terem encontrado a imagem da galáxia no interior da
caverna dos ratos-castores, a Stardust-III estava pronta para decolar. Rhodan
não julgou necessário percorrer o caminho mais longo, que passava junto ao
sistema Vega, e que o modelo parecia indicar. Todavia, achou preferível avisar
os tripulantes das oito naves auxiliares do tipo girino e, conforme as
circunstâncias, também o coronel Freyt na Terra, sobre o que havia ocorrido.
De forma que
a rota foi regulada pelo sistema Vega.
Rhodan
lamentava não dispor de tempo para decifrar os mistérios da velha cultura cujos
últimos remanescentes eram os vinte robôs. Os trabalhos de revitalização dos
robôs estavam em pleno andamento. Bastaria corrigir sua memória de instruções
para que, de boa vontade, revelassem o saber de que dispunham. Mas, na opinião
de Rhodan, só saberiam tudo que desejavam quando tivessem tempo de regressar ao
planeta Vagabundo e examinar o pavilhão de máquinas. Por enquanto teriam de
contentar-se com as informações que conseguissem extrair da memória dos robôs.
Entre essas informações estava a de que os robôs tinham capacidade para voar em
pequenos trechos, isso com o auxílio de um minúsculo gerador gravitacional
embutido em seus corpos elípticos. Com isso Rhodan livrou-se do pesadelo que
lhe causara o fato de não saber explicar por que os rastros começavam
subitamente em algum lugar para mais adiante terminarem tão subitamente como
haviam começado.
* * *
Dois enigmas
ficaram sem solução: por que o telecomunicador de Rhodan falhara subitamente no
primeiro vôo de reconhecimento, durante o qual pretendia explorar o espaço com
cinqüenta e seis estrelas, e por que, embora não enxergasse diretamente o sol
do planeta Vagabundo, conseguira ver sua luz refletida pela Stardust-III.
O imortal
teria uma explicação para isso.
Conheciam
sua posição, pela primeira vez nessa busca difícil e demorada, em que esperavam
encontrar o mundo da luz eterna.
***
Thora entrou
na sala de comando no exato momento em que Rhodan se dispunha a introduzir a
ordem de decolagem no piloto automático.
Passou por
Reginald Bell sem contemplá-lo com um único olhar e sorriu para Rhodan.
— Ainda voltaremos
para cá? — perguntou.
Rhodan fez
que sim.
— Sem
dúvida. É bem verdade que não simpatizo muito com a presença de seres que, por
pura infantilidade, fazem brincadeiras tais como deslocar bombas arcônidas
através do ar, tentam matar homens fortes com um câmbio que fazem tombar sobre
eles e praticam outras tolices desse tipo. Mas precisamos dar uma olhada no
pavilhão de máquinas. Acho que com isso poderemos aprender muita coisa.
Thora
confirmou com um aceno de cabeça.
— É verdade
— disse em tom amável.
Era este o
seu gênio. Nunca pediria desculpas por um erro que tivesse cometido. Mas
recorria à amabilidade para dar a perceber que reconhecia a injustiça que
cometera. Mesmo que a injustiça consistisse apenas num olhar zangado.
Rhodan
retribuiu o sorriso. Com um movimento vigoroso empurrou a chave automática para
a posição de decolagem e, com uma expressão satisfeita, contemplou a luz que se
acendeu no painel de controle.
* * *
O planeta Vagabundo, que gira
em torno de um sol moribundo, ofereceu perigos muito maiores do que poderia se
esperar de um mundo que parecia tão inofensivo. Como tantas vezes, também aqui
as aparências enganaram. Mas agora, com o modelo da Via Láctea, encontrariam o
caminho de volta para o sistema Vega. Será mesmo?
Se dentro em breve Rhodan se
depara com Os Rebeldes de Tuglan, isso
é devido exclusivamente a Gucky, um clandestino que viaja a bordo da
Stardust-III.

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