sábado, 20 de outubro de 2012

P-017 - O Planeta do Sol Moribundo - Kurt Mahr [parte 3]


— Percebe alguma coisa? — perguntou.
— Percebo, sim — respondeu Lloyd. — Isso me dá dor de cabeça o tempo todo. Ali do outro lado existe alguém que tem um ódio tamanho por nós que não pode ser expresso por palavras.
Deringhouse estava deitado por perto. Vez por outra levantava a cabeça por cima do topo da colina e olhava pelo seu binóculo infravermelho.
— Que Deus tenha compaixão de nós — murmurou. — Quem sabe se uma hora destas não se lembrarão de que podem perfeitamente sair do seu esconderijo e nos atacar aqui mesmo?

* * *

Tanner voltou pela meia-noite. Encontrara os dois homens; estavam mortos. Os envoltórios protetores dos seus trajes não haviam resistido às forças tremendas a que estiveram sujeitos. Quando cessou a influência da arma desconhecida, já haviam sido neutralizados. Caíram de uma altura considerável e, apesar da gravitação reduzida, morreram das lesões sofridas antes que Tanner os encontrasse.
Rhodan sentiu-se tomado de uma raiva fria.
Pensou em chamar a Stardust-III para atacar a base inimiga com as armas bem mais potentes que se encontravam a bordo da mesma. Mas chegou à conclusão de que seria preferível realizar mais dez tentativas antes de arriscar a nave.
Refletiu.
Mas aconteceu uma coisa que tornou inúteis todas as reflexões.
Começou com um ribombar semelhante ao de um trovão. Antes que conseguissem descobrir a origem do ruído, sentiram o chão tremer.
Poucos segundos depois uma fenda larga abriu-se na colina que abrigava o inimigo.
Um dos câmbios começou a balançar e deitou-se de lado.
— É um terremoto! — gritou alguém.
Rhodan contemplou a fenda que se abrira na colina oposta. Subitamente compreendeu que nunca mais teria uma chance como esta.
— Vamos! — gritou. Subiu ao topo da colina e agitou os braços, para que todos o vissem. — É este o momento que esperávamos.
Demorou alguns segundos até que os homens conseguissem pôr-se de pé. A intensidade do tremor de terra aumentara. Alguns dos homens cambalearam, porque subitamente o chão se encorcovava debaixo de seus pés.
Mas logo passaram pelo cume da colina numa frente única. Uma vez do outro lado, puseram-se a correr. Desceram a encosta em saltos largos e baixos. Atravessaram a depressão entre as duas colinas.
O inimigo permanecia em silêncio.
Enquanto corriam, Rhodan aos gritos indicou o lugar em que, segundo as informações de Lloyd, devia desembocar o poço de elevador. De longe não se via nada, mas quando atingiram o ponto indicado, viram que em plena encosta havia uma plataforma; era um quadrado de cerca de dois metros de lado.
Fellmer Lloyd abriu caminho para a frente.
— É aqui! — disse, ofegante.
Caiu para a frente e com ambas as mãos limpou a areia da plataforma. Logo apareceu um material liso e cinzento. Rhodan desligou o holofote infravermelho e recorreu à luz visível.
Lloyd apalpou a placa cinzenta; subitamente a mesma escorregou para o lado. Atrás dela tudo estava escuro. Rhodan dirigiu a luz para lá. Viu um poço cujo corte transversal era idêntico ao tamanho da plataforma, e que tinha uns dez ou quinze metros de profundidade.
Era um elevador antigravitacional. Rhodan atirou um pouco de areia no poço e viu que descia bem devagar.
— Vamos entrar! — disse.
Desceu em primeiro lugar, seguido de perto por Fellmer Lloyd. Acima deles o poço encheu-se de homens que tinham pressa de chegar embaixo.
De tanto nervosismo ninguém mais se lembrara do terremoto. Rhodan aguçou o ouvido enquanto descia pelo poço. Por cima do murmúrio dos homens continuava a ouvir o trovejar no interior do planeta. O tremor de terra ainda não havia passado, mas tudo indicava que se deslocara para outra região.
Poucos segundos depois sentiu chão firme sob os pés. O elevador dava para um tipo de ante-sala. Pela descrição de Lloyd, a porta que se via na parede oposta devia ser a entrada do pavilhão da fábrica.
Rhodan esperou até que a ante-sala se enchesse com os homens que desciam pelo elevador.
Depois ergueu o pesado radiador de impulsos térmicos e despedaçou a porta.
Uma luz ofuscante envolveu-os. A saltos largos deixaram a porta atrás de si, já que lá forneceriam um alvo bem visível ao inimigo; protegeram-se atrás do abrigo mais próximo que conseguiram encontrar.
Não houve a menor defesa, constatou Rhodan perplexo. O que teria acontecido?
O pavilhão correspondia à descrição de Lloyd. Era grande, mas incrivelmente baixo. As máquinas espalhadas por ali — algumas delas fixadas ao solo, outras colocadas sobre suportes móveis — não lembravam nada que Rhodan jamais tivesse visto. Era uma tecnologia estranha num mundo desconhecido.
Onde estariam os robozinhos?
Seus homens espalharam-se. Mesmo que os robôs se lançassem a um contra-ataque, depois de se terem recuperado do susto causado pelo terremoto, não conseguiriam expulsar o inimigo.
Fellmer Lloyd fez um sinal para Rhodan.
— O que houve?
— Não sinto mais nada — respondeu Lloyd. — Parece que as aves abandonaram o ninho.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça e levantou-se. Fez um sinal aos homens, para que avançassem devagar, um grupo de cada lado do pavilhão.
Avançaram alguns metros, sempre procurando abrigo; mas quando viram que ninguém lhes causava problemas, tornaram-se menos cautelosos. Foram avançando, de pé junto à parede, enquanto Rhodan andava pelo corredor central.
Quando já se aproximava do fim do pavilhão, viu a estranha máquina que se encontrava próxima à parede. Era a maior de todas, mas até então as outras peças haviam lhe encoberto a vista.
Era um cilindro achatado de cerca de quinze metros de diâmetro e tão alto que tocava o teto. Lembrava um acelerador de partículas de tamanho médio. Rhodan não pôde distinguir se era compacto, ou se apenas representava um envoltório. Mas percebeu à primeira vista que fora inutilizado pelo terremoto. O lado esquerdo do cilindro estava inclinado e uma fenda percorria o revestimento metálico em ziguezague. Parecia que o chão se levantara abaixo da máquina.
Subitamente Rhodan viu os robôs.
Eram formados principalmente por um tronco eliptóide, feito de uma massa cinzenta que emitia um brilho metálico. Do tronco eliptóide saíam duas pernas curtas sem pés; do outro lado via-se uma espécie de círculo giratório, ao qual estava presa uma série de braços curtos.
De pé, a coisa devia ter cerca de um metro de altura, calculou Rhodan.
Quinze robôs estavam atirados ao chão diante do cilindro avariado; devia ser toda a equipe do pavilhão subterrâneo.
Rhodan mandou que os homens se aproximassem. Cautelosamente desemaranharam aquela confusão de robôs caídos. É bem verdade que num robô nunca se pode afirmar com segurança se está totalmente inutilizado ou se apenas ficou privado temporariamente da capacidade de ação; todavia, ao que tudo indicava, as maquinazinhas que tinham diante de si nunca mais despertariam para sua vida mecânica.
— Vamos levá-los para fora! — ordenou Rhodan. — Serão examinados a bordo da Stardust-III.
De início carregaram-nos à ante-sala em que terminava o poço do elevador. Enquanto isso Rhodan e Deringhouse examinaram o pavilhão. Seguindo as indicações de Lloyd, encontraram as pequenas salas contíguas, situadas à direita e à esquerda do pavilhão. Mas não conseguiram descobrir sua finalidade, tal qual acontecia com as máquinas existentes no pavilhão.
Depois de uma busca de meia hora, Rhodan convenceu-se de que ali não encontraria a informação que procurava. No pavilhão havia mais de duas dezenas de máquinas esquisitas, nas salas contíguas, outra dezena. Talvez fosse bem interessante para a técnica terrena desmontar as máquinas e procurar descobrir o princípio do seu funcionamento.
Mas não encontraram a menor indicação sobre a posição galáctica do planeta da vida eterna.
Não seria este o lugar em que descobririam alguma coisa. Só os céus poderiam saber por que o grande imortal, que manipulava o jogo às escondidas, mandara-os justamente a esse lugar.
Rhodan esperou que os homens carregassem os robôs mortos até a ante-sala. Depois mandou que todos subissem — os homens e os robôs. Não estava muito satisfeito. Gostaria de fechar o pavilhão de tal maneira que ninguém pudesse entrar nele até que concluíssem a busca daquilo que na verdade esperavam encontrar no planeta Vagabundo, e tivessem tempo de submeter o local a uma inspeção minuciosa.
Mas sabia perfeitamente que além desses quinze robôs deviam existir muitos outros no planeta Vagabundo, e que não tinha o menor meio de impedir que estes e seus chefes voltassem ao pavilhão assim que ele e seus homens lhe dessem as costas.
Ligeiramente perturbado, subiu pelo poço do elevador antigravitacional. Os homens estavam esperando no flanco da colina. O sol brilhava.
— Vamos aos carros! — ordenou Rhodan.
Os robôs eram bem pesados. Por mais forte que fosse, cada homem não conseguiria carregar mais de um de cada vez.
Rhodan seguiu no fim do grupo. Deringhouse ficou ao seu lado.
— Não encontramos muita coisa, não acha? — perguntou.
Rhodan deu de ombros.
— Vamos aguardar! Acredito que conseguiremos desmontar a memória dos robôs para interpretar as informações armazenadas nos mesmos. Os inventores desses robôs são as pessoas que procuramos. E as máquinas devem estar em condições de dar alguma indicação sobre o lugar em que essas pessoas podem ser encontradas.
Quase por acaso Rhodan olhou para o relógio embutido na manga esquerda de seu traje espacial, que tinha um mostrador regulável: indicava o tempo do planeta Vagabundo.
— Quatro horas, tempo local — resmungou Rhodan. — Parece que está parado.
Deringhouse levantou o braço.
— Quatro horas e um minuto. Seu relógio está em perfeitas condições.
Rhodan parou, segurou Deringhouse pelos ombros e colocou-o numa posição em que podia ver o sol vermelho.
— O nascer do sol está previsto para as seis e tanto. Pode dizer-me por que essa coisa vermelha já está no céu às quatro da madrugada?

* * *

Os registros do terremoto, realizados pelos instrumentos da Stardust-III, forneceram a explicação do fenômeno.
O sol do planeta Vagabundo era uma estrela em fase de regeneração. Era um sol moribundo, pois o calor que irradiava estava diminuindo. Por outro lado, porém, seu renascimento deveria ocorrer num tempo que, medido em termos astronômicos, não podia ser considerado muito longo. Durante o estágio do esfriamento a matéria solar contraía-se, formando no centro um núcleo de densidade inconcebível. Cada deslocamento ocorrido no interior desse núcleo provocava um choque gravitacional, que se propagava pelo espaço com a velocidade da própria gravitação.
E havia mais. A parte do núcleo solar em que não ocorriam deslocamentos formava um anteparo que evitava a propagação do choque gravitacional naquela direção. Por isso geralmente os deslocamentos provocavam áreas de impacto bem delimitadas; alguém que, por exemplo, se encontrasse no planeta Vagabundo poderia não perceber nada de um deslocamento desse tipo, enquanto alguém que se encontrasse numa nave espacial a alguns milhões de quilômetros de distância sofreria toda a força do impacto.
Acontece que desta vez o impacto provocado pelo núcleo solar convulsionado atingira em cheio o planeta Vagabundo, provocando um deslocamento de seu eixo e um terremoto de intensidade considerável.
Ninguém se deu ao trabalho de procurar imaginar o que teria acontecido num caso desses com um mundo que não fosse velho e ressequido como o planeta Vagabundo. Só o fato de estar o mesmo resfriado até o miolo, não tendo mais nenhum núcleo incandescente, e de não haver mares em sua superfície evitara uma verdadeira catástrofe. Depois de modificar a posição de seu eixo, o planeta voltara ao repouso.
Esse fato explicava o estranho fenômeno com que Rhodan se defrontara no início da expedição, quando efetuava um vôo de reconhecimento num dos caças espaciais da nave. Ao que tudo indicava, o aparelho ficara sujeito a um deslocamento idêntico no núcleo do sol do planeta Vagabundo; e era evidente que o choque nem de longe alcançara a intensidade daquele que havia provocado o terremoto.
Uma coisa era certa: fora o acaso que brindara Rhodan com o pavilhão subterrâneo. O choque gravitacional não fora provocado artificialmente; o sol do planeta Vagabundo o havia produzido. E isso no exato momento em que Rhodan mais precisava dele.
Rhodan e seus companheiros haviam retornado à Stardust-III com os robôs capturados. Apenas o tenente Tanner e dez homens permaneciam no acampamento situado no centro da área coberta pelas colinas. Rhodan resolveu esperar até que os técnicos descobrissem quais os dados armazenados na memória dos robôs. Mas logo no início percebeu-se que a estrutura dos seres mecanizados era tão complicada que o trabalho da divisão técnica demoraria pelo menos uma semana.
Rhodan ficou refletindo se deveria mandar que Tanner e seus homens se recolhessem à nave, ou se convinha completar a guarnição do acampamento.
Mas aconteceu uma coisa que fez surgir uma idéia nova em sua mente.
Foi uma surpresa completa. Por mais de dois dias da contagem de tempo do planeta Vagabundo a calma reinara a bordo da Stardust-III.
O dia em que Rhodan procurou chegar a uma decisão sobre o próximo passo começou de forma bastante estranha. Pouco depois da meia-noite um dos geradores gravitacionais começou a trabalhar intensamente, produzindo gravitação até desprender-se da sua base, flutuando na gigantesca sala dos geradores com um ruído característico.
Os técnicos aproximaram-se dele com um elevador flutuante de reparos. Através de uma regulagem cuidadosa, conseguiram recolocá-lo no solo.
Houve alguns incidentes de menor importância, mas o grande acontecimento só se verificou pelo meio-dia.
Depois de tomar um lanche na sala dos oficiais, Rhodan ia voltando para a sala de comando, quando as sereias começaram a uivar. Pôs-se a correr; quando chegou à sala de comando, Reginald Bell começava a transmitir ordens pelo telecomunicador.
— Todas as folgas canceladas. Primeiro grupo de sentinelas, ocupar a sala de máquinas. Todas as peças de artilharia com guarnição dupla, em regime de prontidão. Todas as estações rastreadoras com guarnição dupla, prontas para entrar em ação. No arsenal do convés E uma bomba arcônida desprendeu-se dos seus suportes e flutua livremente no espaço. Alarma número um.
Rhodan enrijeceu em meio ao movimento.
Uma bomba arcônida!
Era uma arma capaz de desencadear uma reação nuclear incontrolável em qualquer elemento de grau superior a dez, e mesmo num elemento de ordem inferior, desde que o detonador tivesse sido regulado para isso.
Os detonadores das bombas guardadas no arsenal do convés E estavam regulados para 26. O número de ordem 26 correspondia ao ferro! As paredes de metal plastificado da Stardust-III continham mais ferro que uma fábrica de máquinas pesadas. Se a bomba explodisse, a nave estaria perdida.
Bell concluiu sua mensagem. Voltou-se e viu Rhodan.
— É isto mesmo? — perguntou em tom sério.
Rhodan fez que sim.
Thora aproximou-se de lado. Estava com os olhos arregalados e caminhava como uma sonâmbula.
— Oh, não! — disse num suspiro. — Você não pode fazer uma coisa dessas. Mande evacuar a nave!
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Este seria o melhor meio de perdê-la. Subitamente começou a mexer-se. Seu capacete estava jogado sobre o assento do piloto. Colocou-o sobre a cabeça, mas não o fechou.
— Comunicação ininterrupta! — disse laconicamente.
E saiu.
Thora seguiu-o com os olhos; estava perplexa.
— Onde vai? — perguntou.
Rhodan estava tão ocupado que não teve tempo para responder.
Três minutos depois da transmissão da mensagem a sala de comando começou a se encher com tripulantes da nave. Bell indicou-lhe os lugares que deviam ocupar e recomendou-lhes que ficassem de olhos e ouvidos atentos.
— Rhodan está no arsenal do convés E — disse em tom sério. — Qualquer instrução sua terá de ser cumprida sem demora.
— Coloquem os capacetes e mantenham silêncio absoluto nos seus transmissores.

* * *

Rhodan não foi sozinho. Os japoneses Tako Kakuta e Tama Yokida acompanharam-no. Eram mutantes. Rhodan ainda não sabia de que lhe poderiam servir as faculdades de Kakuta, o teleportador; de outro lado, porém, sabia perfeitamente que precisaria do telecineta Yokida.
A sala de comando da Stardust-III ficava no convés D. A diferença de altitude entre este e o convés E era de perto de cento e cinqüenta metros. O elevador antigravitacional ficava a cerca de trezentos metros da entrada do arsenal.
O largo corredor havia sido evacuado. Bell já mandara abrir a escotilha do arsenal; qualquer um via de longe o ovo metálico reluzente que permanecia no ar, aparentemente imóvel, a cerca de três metros do solo e bem perto da escotilha.
— Comece, Yokida! — disse Rhodan em tom áspero. — Leve a bomba a um dos suportes e segure-a.
Yokida atravessou a escotilha, de olhos fixos na bomba. Sabia perfeitamente de que tipo era a arma com que estava lidando; não poderia se aproximar demais do detonador.
Ficou parado. Rhodan olhou-o; percebeu que os tendões do pescoço tornavam-se cada vez mais salientes. Subitamente Yokida cambaleou e deu um passo para a frente; se Tako Kakuta não se colocasse de seu lado com um salto e o apoiasse, teria tombado.
— Não... não consigo! — gemeu Yokida. — Está segurando demais.
Rhodan cerrou os punhos.
— Está segurando? Quem está segurando?
Empurrou o japonês para o lado.
— Tako! Preste atenção!
Tako sabia o que devia fazer. Rhodan jogou todo o peso do corpo contra a bomba que de forma tão estranha parecia flutuar no ar. O japonês estendeu os braços embaixo dela. Se o telecineta desconhecido de repente deixasse de exercer sua influência sobre a bomba, teria que segurar o pesado artefato, pois do contrário este cairia no chão, acionando o detonador.
Mas os esforços de Rhodan revelaram-se inúteis. Quem estava brincando com a bomba segurava-a tão bem que Rhodan não conseguiu movê-la um milímetro.
— Temos que desmontá-la! — gemeu Rhodan. — Tako, traga as ferramentas.
Tako desapareceu.
Poucos instantes depois a bomba começou a mover-se. Ansioso Rhodan seguiu a bomba quando a mesma deslocou-se lentamente em direção à escotilha e saiu para o corredor. Dirigiu-se para o lado direito, onde ficava a comporta centro-norte.
Rhodan interpôs-se no seu caminho e mais uma vez procurou segurá-la. O resultado foi o mesmo, como se procurasse deter um tanque em pleno movimento. A bomba empurrou-o para o lado.
Continuou seguindo pelo corredor. Não havia dúvida: queria ser levada comporta afora.
— Sala de comando!
— Pronto!
— Abrir escotilha interna da comporta centro-norte.
— Sim senhor.
A imensa escotilha de carga se abriu. A bomba foi flutuando em direção a ela.
Tako Kakuta reapareceu. Carregava uma caixa de ferramentas. Rhodan fez-lhe um sinal para que se mantivesse afastado.
— Não precisamos mais disso. Fechem os trajes espaciais.
Mantiveram-se logo atrás da bomba.
— Yokida!
— Sim senhor!
— Preste atenção à bomba. É bem possível que de repente o desconhecido se canse da brincadeira e solte-a. Se isso acontecer, você terá que segurá-la.
Yokida confirmou com um aceno de cabeça.
Passaram pela escotilha. A bomba seguia a menos de um metro à sua frente.
— Sala de comando! Feche a escotilha interna e abra a externa. Rápido!
A ordem foi executada.
— Desligar os campos protetores.
— Campos protetores desligados.
Os dispositivos trabalharam a plena força. Antes que a bomba tivesse atravessado a ampla comporta, a pressão interna havia sido adaptada à pressão externa. A escotilha externa abriu-se. Não havia a menor dúvida de que o desconhecido pretendia levar a bomba para fora.
— A bomba está saindo da nave — informou Rhodan apressadamente. — Voltaremos a ativar os campos protetores com o raio mínimo assim que a bomba tenha ultrapassado a distância correspondente. Avise Tanner de que deve retornar com seus homens o mais rápido possível, deixando para trás as barracas e os instrumentos. Se a bomba explodir nesta área coberta de oxido de ferro, dentro de meia hora o planeta Vagabundo será transformado numa imensa tocha atômica.
A bomba saiu da escotilha. O raio mais reduzido do campo protetor terminava a cinqüenta metros da parede externa da nave. Se a bomba chegasse até lá sem explodir, ao menos a nave estaria salva.
— Cuidado!
Subitamente, quando ninguém mais contava com essa possibilidade, aconteceu! Por uma fração de segundo a bomba interrompeu sua lenta caminhada, efetuou um giro de cento e oitenta graus sobre seu eixo menor e foi caindo em direção ao solo.
— Yokida!
O japonês segurou-se na borda da escotilha, numa posição muito arriscada, com o corpo inclinado para fora. Tako Kakuta mantinha-se de pé atrás dele, com os braços estendidos, pronto para segurar Yokida se este escorregasse.
Rhodan deitou de bruços e avançou até a borda da escotilha. Viu que a bomba, obedecendo à reduzida força gravitacional, descia junto à parede da nave.
O convés E ficava bem na parte superior da Stardust-III. Se não acontecesse um milagre, a bomba atingiria a nave aproximadamente na linha equatorial. O detonador agüentaria? Era desta resposta que dependia a existência da nave e a vida de seus tripulantes.
Uma impassibilidade férrea apossou-se de Rhodan. Procurou avaliar a distância que a bomba ainda poderia percorrer na sua queda.
Eram uns cinqüenta metros, talvez sessenta.
Yokida soltou um gemido abafado. Rhodan esteve a ponto de voltar-se para ele; mas nesse instante a queda da bomba foi se tornando mais lenta.
Ainda faltavam vinte metros!
Uns cinco metros antes do impacto, o movimento da bomba cessou. Por um instante ficou parada, trêmula, e depois...
...depois voltou a subir. Primeiro lentamente, depois com maior rapidez e segurança, até que começou a aproximar-se da escotilha numa velocidade considerável.
— Yokida! — gritou Rhodan. — Temos que pegá-la!
Colocaram-se em posição. De tanto esforço Yokida fechou os olhos; procurou dirigir a bomba pelo tato. Ela aproximou-se cambaleante, dois metros acima do solo da comporta.
— Um metro pra baixo! — ordenou Rhodan.
Yokida obedeceu. A bomba baixou e foi se aproximando.
— Já!
Agarraram a bomba ao mesmo tempo. Por um instante a mesma era tão leve que parecia de papelão. Mas subitamente todo o peso da mesma descansou sobre os braços dos homens, fazendo porejar o suor em suas testas.
Ouviu-se um baque surdo; era Yokida que caíra ao chão, desmaiado. Reunindo as últimas forças que lhe restavam, empurrara-se na borda da escotilha, caindo para o lado de dentro.
Carregaram a bomba para o arsenal.
Gemendo, com as mãos entrelaçadas embaixo da bomba, foram caminhando pelo amplo corredor, entraram no arsenal e dirigiram-se à armação de onde havia sido retirada a bomba.
Um último esforço, e...
— Cuidado!
...lá estava a bomba no seu lugar.
Com os dedos doloridos Rhodan trancou o fecho que mantinha a bomba presa ao suporte.
Num movimento abrupto tirou o capacete. Expelia o ar aos chiados por entre os dentes. Sua mão tremia enquanto limpava o suor que lhe penetrava nos olhos.
Tako olhou-o. Subitamente Rhodan sorriu.
— É isso! — disse, dando uma palmadinha no ombro do japonês.

* * *

Um comando especial de cem homens trabalhou durante três horas para firmar toda a munição armazenada nos arsenais de tal forma que não seria nada fácil para o desconhecido realizar outra experiência desse tipo.
Durante essas três horas Rhodan travou uma discussão acalorada com Crest e Thora, os dois arcônidas que se encontravam a bordo. Ambos eram de opinião que com a última ocorrência fora ultrapassado o limite do suportável, e o melhor que tinham a fazer era abandonar o planeta Vagabundo o quanto antes.
Rhodan não concordou. Já concebera um novo plano. Não conseguiu convencer Crest e Thora de que seria tolice desistir logo agora; mas conseguiu explicar que o comandante era ele e, se necessário, teria de dar suas instruções sem sua concordância.
Depois de algum tempo Crest disse:
— Pois bem. Você é o comandante, e jamais alguém haverá de dizer de um arcônida que não sabe guardar a disciplina. Ficaremos calados; mas é bom que fique sabendo que não concordamos.
— Acabarão concordando quando nossa missão estiver concluída — disse Rhodan em tom conciliador.
Thora não disse nada. Mas em seus olhos chamejava uma raiva como Rhodan nunca vira igual.
Rhodan transmitiu suas instruções. Participaria da nova expedição. Encareceu aos seus oficiais:
— Não temos um instante a perder. Quanto antes nos pusermos a caminho, maiores serão nossas possibilidades de sobrevivência.
No meio tempo o tenente Tanner havia chegado com seu grupo. Deixara as barracas e os instrumentos para trás, conforme lhe fora ordenado.
Ao anoitecer a expedição estava pronta para partir. Estava composta de dez câmbios; sete deles estavam carregados com instrumentos e armas de toda espécie. Rhodan fornecera dados precisos sobre a expedição apenas a Crest e Thora; a mais ninguém. Quando Reginald Bell perguntou para que serviriam sete veículos carregados de armas e aparelhos complicados, Rhodan respondeu:
— Vamos deixar esses estranhos brincarem um pouco; mas num lugar em que isso não seja tão perigoso para nós.

5



Ninguém melhor que Rhodan para saber que a probabilidade de êxito não era superior a sessenta por cento. A informação lhe fora fornecida pelo cérebro positrônico.
Apesar disso decidiu realizar a expedição; isso porque julgava preferível fazer algo que tivesse uma possibilidade apenas regular de êxito a permanecer inativo, além de que esperava que sua iniciativa afastaria o perigo da Stardust-III, que em sua opinião era extremamente preciosa.
Perto do acampamento em que o tenente Tanner permanecera até o último instante foram montados os instrumentos. Rhodan fizera questão de levar principalmente armas e aparelhos cuja manipulação era extremamente complicada.
Todos concordavam que o desconhecido agia tal qual uma criança. Avançava titubeante dos brinquedos mais fáceis para os mais difíceis. No estágio em que se encontrava não se sentiria estimulado a levantar simplesmente alguns telecomunicadores ou outros instrumentos jogados na areia.
Rhodan continuava convicto de que o abrigo do desconhecido ficava na área das colinas, e que só brincava com os objetos existentes a bordo da Stardust-III por não encontrar nada que ficasse mais perto.
A conjectura de Rhodan era a seguinte: coloquem alguma coisa bem debaixo do nariz dele, e o desconhecido se manterá longe da Stardust-III. Brincará com aquilo que estiver mais à mão; e, se tivermos sorte, conseguiremos agarrá-lo enquanto estiver brincando.
O acampamento foi ampliado, para abrigar todos os membros da expedição. Entre o acampamento e o local em que estavam montados os instrumentos havia uma colina de tamanho regular. Dessa forma nada aconteceria aos homens que se encontrassem no acampamento, ou que ficassem de sentinela junto ao topo da colina, se o desconhecido resolvesse brincar com as armas que se encontravam do outro lado.
Rhodan explicou aos homens como seria o inimigo.
— Por enquanto devemos admitir — disse — que, tal qual os arcônidas fizeram e os homens farão, os robôs foram construídos segundo sua imagem. Portanto, devemos esperar um ser sem cabeça, com um tronco elíptico, duas pernas sem pés e um círculo com doze braços. Tudo isso não deve ser maior que cinqüenta centímetros. Assim que localizarem uma coisa dessas, procurem capturá-la, quer seja um robô ou um ser orgânico. De qualquer maneira não será possível distinguir à primeira vista. Prestem atenção às esferas reluzentes! Estão equipadas com armas diabólicas, e não sabem interpretar um aceno amistoso.
Puseram-se a esperar.
Aconteceram algumas coisas esquisitas, sem que conseguissem avistar o inimigo. Um canhão de impulsos de calibre médio começou a disparar de repente, girando loucamente. Abriu sulcos de vários metros de profundidade nas colinas mais próximas, antes que voltasse à calma.
Os técnicos da Stardust-III informaram que os arranhões existentes no telecomunicador de bolso, furtado da barraca de Rhodan antes que a mesma voasse pelos ares, tinham sido produzidos por uma mão de robô.
Era um dado interessante; até então Rhodan acreditava que a bomba havia sido colocada por um ser orgânico, que também furtara o telecomunicador. A descoberta dos técnicos provava que também aquele atentado fora praticado por um robô.
Além disso, os técnicos realizaram uma análise C-14, a fim de determinar a idade dos robôs. Constataram que sua idade era de pelo menos oito C-14 tempos médios, ou seja, pelo menos quarenta e cinco mil anos.
Era um dado surpreendente. Os robôs eram mais velhos que a própria cultura arcônida.
Rhodan começou a suspeitar de alguma coisa. Mas guardou a suspeita para si mesmo, pois ainda não dispunha de qualquer prova de que a mesma era verdadeira.
A suspeita não produziu qualquer modificação nos seus planos. Para a busca do mundo da conservação celular pouco importava de que espécie eram os seres que forneceriam a próxima indicação.

* * *

Numa noite daquelas Fellmer Lloyd, de repente, saiu gritando de sua barraca e despertou todo o acampamento.
— Estão chegando! — gritou. — Sinto que vão atacar!
Rhodan foi o primeiro a chegar perto dele. Não duvidava de que aquilo que Lloyd sentia correspondia à realidade; apesar disso deu-lhe um soco nas costas para que recuperasse o controle antes que todo mundo ficasse histérico.
— Proceda como um homem sensato! — gritou Rhodan. — O que houve?
— É o ódio! — fungou Lloyd. — Um ódio terrível. Acordei com isso e minha cabeça está zumbindo tanto que mal consigo ouvi-lo.
Rhodan correu para o alto da colina. Pelo que informava Lloyd, o inimigo vinha do norte.
As duas sentinelas postadas no topo da colina ainda não haviam percebido nada. Rhodan mandou que outros o seguissem e se colocassem atrás das peças de artilharia montadas ao abrigo da colina.
Por mais estranho que fosse, Fellmer Lloyd não percebeu nada do instinto brincalhão um tanto infantil que reconhecera como segunda característica da raça desconhecida.
— É só ódio! — resmungou em tom abafado.
Rhodan transmitiu suas instruções.
— Só começaremos a atirar quando pudermos assumir a responsabilidade pelas conseqüências. Usem os projetores mentais e procurem neutralizar sua vontade.
Era bem verdade que não acreditava que os projetores mentais dessem resultado. Não é possível hipnotizar um robô.
Passaram-se alguns minutos. Fellmer Lloyd parecia sofrer cada vez mais com o ódio dos desconhecidos. Deitado perto de Rhodan, comprimia o capacete contra o solo e gemia.
Subitamente apareceram.
Com um salto elegante transpuseram o topo da colina mais próxima e entraram na depressão em que Rhodan mandara montar os instrumentos.
Eram cinco esferas. Mesmo na escuridão reluziam, espalhando uma luz difusa. Ao que parecia, conheciam perfeitamente o objetivo; não se detiveram no fundo da depressão, mas foram subindo em linha reta em direção ao topo da colina.
Os projetores mentais começaram a funcionar, sem o menor resultado. A distância foi diminuindo; todo mundo sabia o que iria acontecer se as esferas atingissem o topo da colina.
— Fogo! — murmurou Rhodan.
Naquele instante ninguém sabia que efeito as armas da Stardust-III produziriam nas esferas. Tinham alguma esperança de que conseguiriam ao menos manter o inimigo à distância.
Ninguém esperava o que estava por vir.
O campo descristalizante do desintegrador postado no flanco esquerdo da colina atingiu a primeira esfera. No mesmo instante a mesma se iluminou no ribombar de uma explosão. Quando os homens conseguiram enxergar de novo, a esfera havia desaparecido e as demais, desorientadas, iam descendo junto à encosta da colina.
Os homens de Rhodan deram vasão à sua fúria. Este quis fazê-los parar, pois tinha esperança de capturar intacta ao menos uma das esferas. Mas antes que pudesse fazê-lo, os canhões dispararam salva após salva, desintegrando as esferas numa série de explosões fulgurantes.
A batalha da colina durara menos de dez minutos. As cinco esferas reluzentes haviam sido destruídas e Fellmer Lloyd respirou aliviado, porque viu-se livre da tremenda carga de ódio.
— Quando notou que o ódio diminuía? — perguntou Rhodan. — Foi com a destruição de alguma das esferas em particular?
Lloyd sacudiu a cabeça.
— Não é o que o senhor está pensando. Acreditava que a maior parte das esferas estava ocupada somente por robôs e que o desconhecido em pessoa estava apenas em uma delas, não é mesmo? Não foi isso. Com a destruição de cada uma das esferas o ódio ia diminuindo, e quando a última foi atingida, cessou por completo.
Isso deu o que pensar a Rhodan. A tese de que toda aquela civilização consistia num exército de robôs e mais um ou dois seres orgânicos sobreviventes começou a vacilar.
Perguntou-se se ainda valeria a pena esperar. O inimigo fora vencido e provavelmente não se arriscaria mais a atacar a colina. Se fosse assim, como fariam para agarrá-lo?
Estava convencido de que tudo permaneceria em silêncio por ali. Chamou de idiota uma sentinela que, na manhã do dia seguinte, lhe disse que um dos oscilógrafos instalados do outro lado da colina começara a funcionar, desenhando amostras coloridas na tela.
Mas, quando Fellmer Lloyd despertou do sono prolongado com que procurara recuperar-se das canseiras da noite anterior, registrou imediatamente as vibrações de um cérebro estranho que, segundo dizia, era extremamente brincalhão.

* * *

Rhodan dirigiu-se à sentinela que chamara de idiota e pediu desculpas. Depois disso, subiu a colina e permaneceu ao lado das duas sentinelas até que pôde notar com seus próprios olhos três incidentes novos: um radiador de nêutrons começou a disparar, uma calculadora pôs-se a trabalhar e um refrigerador começou a despejar ar liquefeito.
Embora ficasse satisfeito ao notar que o desconhecido continuava a entregar-se ao seu instinto brincalhão, descarregando-o sobre os instrumentos montados nas proximidades, sentia-se bastante confuso.
Não era apenas porque subitamente Lloyd alegava que a vontade de brincar estava livre de qualquer tipo de ódio, enquanto antes afirmava que o ódio e o instinto brincalhão andavam estreitamente ligados, mas também porque o comportamento do inimigo era inexplicável, a não ser que se quisesse admitir que fosse esquizofrênico.
Não pôde prosseguir nos seus pensamentos. A voz de uma das sentinelas soou no receptor de seu capacete. Parecia bastante exaltado:
— Há um movimento entre as duas colinas. Quer vir até aqui para dar uma olhada?
Pela segunda vez naquela manhã Rhodan subiu a colina e agachou-se atrás do topo. Ficara admirado com o movimento que a sentinela não conseguira identificar a uma distância de trinta metros, mas agora ele mesmo estava vendo.
Alguma coisa se mexia embaixo da areia. Parecia uma toupeira que procurava uma saída.
Dali a dez minutos subitamente surgiu um buraquinho no solo. Uma coisa pontuda, marrom, apareceu por um segundo e voltou a desaparecer. A areia voltou a se mover, circulando em torno do buraquinho como a água em torno do ralo de uma pia.
Dentro de algum tempo o diâmetro do buraco quintuplicou. Mais uma vez a coisa marrom e pontuda voltou a aparecer; arriscou-se mais um pedaço para fora, mas ao que parecia ainda achava a abertura muito pequena. O trabalho subterrâneo prosseguiu. Quando a impaciência dos observadores alcançou o máximo, o buraco atingiu um tamanho que permitiu a saída do ser marrom de focinho pontudo.
Era um rato-castor, e seu comportamento era bem estranho.
Saltou de um instrumento para outro e deu mostras de sua curiosidade, farejando um por um.
Ao que parecia, um pequeno aparelho de refrigeração — o mesmo que entrara em atividade uma hora antes — foi o que mais lhe despertou a curiosidade. O rato-castor sentou sobre as patas traseiras junto à máquina, esticou as patas dianteiras pouco desenvolvidas e apalpou o revestimento de plástico com movimentos um tanto desajeitados.
Erguido sobre as patas traseiras, o animal media quase um metro. O refrigerador só tinha metade dessa altura, e seu formato era o de um cubo.
O rato-castor deu alguns saltos para trás, virou-se e pareceu encarar o aparelho.
Depois aconteceu uma coisa muito estranha: a máquina ergueu-se do seu suporte e flutuou no ar. O rato-castor permanecia sentado, imóvel, contemplando-a. O aparelho deitou-se de lado e deslocou-se em direção ao rato-castor. Quando chegou a meio metro de distância, o animal afastou-se para o lado. O aparelho continuou a deslocar-se, parou sobre o buraco cavado pelo rato-castor e acabou desaparecendo no mesmo.
O animal virou-se e olhou. Permaneceu imóvel por mais alguns instantes; finalmente saltitou em direção ao buraco e desapareceu no interior do mesmo.
Poucos segundos depois a cena voltara ao mesmo aspecto que apresentava há alguns dias — com exceção do buraco, que antes não estivera lá, e do aparelho de refrigeração, que desaparecera.
Rhodan levantou-se. Sua cabeça zunia; perguntou de si para si se devia acreditar no que acabara de ver.
Ouviu uma das sentinelas soltar o ar com um forte chiado. Deitados de lado, os homens olhavam-no. Queriam uma explicação.
— Venham comigo! — ordenou Rhodan com a voz áspera. — Levem mantimentos pessoais para cinco dias. Também peguem uma arma manual. Vamos entrar nesse buraco para ver onde foi parar aquele refrigerador.

* * *

A Stardust-III foi informada sobre o incidente. Todos aguardavam algum comentário de Rhodan. Mas este não estava disposto a externar suposições.
— Sei tanto quanto você — disse em tom grosseiro para Reginald Bell. — Só terei outras informações depois que tiver entrado naquele buraco.
Puseram-se a caminho.
O tenente Tanner ficou no acampamento com mais cinco homens. Rhodan recomendou o máximo de vigilância, e consolou-o com o fato de que o armamento da Stardust-III provara sua superioridade sobre o inimigo.
O buraco cavado pelo rato-castor era bastante largo para que o animal pudesse entrar com seu tronco bastante grosso. Uma vez que esse tronco era da grossura de um corpo humano, Rhodan e seus homens não teriam maiores dificuldades em se deslocar.
O buraco desceu cerca de metro e meio, depois descreveu um ângulo reto e transformou-se numa espécie de galeria. Rhodan, que ia à frente, iluminou-o com seu holofote o melhor que pôde. O alcance do holofote era de cerca de um quilômetro, mas mesmo assim a luz não atingia o fim da galeria.
— De qualquer maneira vamos tentar — decidiu Rhodan.

* * *

Meia hora depois que Rhodan e seus companheiros haviam desaparecido no interior do buraco, o tenente Tanner recebeu uma mensagem da Stardust-III. O próprio Bell falava do outro lado e, pela expressão do rosto, estava algo mais que simplesmente nervoso.
— O chefe já saiu — disse Tanner.
— Nesse caso transfira a ligação para ele.
Tanner sacudiu os ombros.
— Mas o chefe deu ordens para nos abstermos de quaisquer comunicações pelo rádio. Qualquer contato só poderá partir dele.
Bell bateu com o punho cerrado na mesa em que estava colocado o receptor. A imagem deu um ligeiro salto.
— Pois grave o que vou dizer — ordenou. — E depois transmita de qualquer maneira. Rhodan não pode deixar de saber disso.
— Pode falar.
Comprimiu um botão para ligar o gravador automático.
— Os técnicos desmontaram e examinaram os robôs. Trata-se de seres mecânicos, mas seu cérebro é uma estrutura orgânica de duração ilimitada. Portanto, no que diz respeito à atividade mental, os robôs podem ser equiparados aos seres orgânicos. Apesar disso dispõem de um mecanismo de memória extremamente complicado. Até agora só conseguimos decifrar duas informações. Primeiro: o robô recebeu instruções de atacar imediatamente e, se possível, destruir qualquer ser estranho que penetre neste mundo. Segundo: neste mundo só existem vinte robôs desse tipo. A última lembrança de seres organicamente estruturados data de mais de quarenta mil anos do planeta Vagabundo, isto é, cerca de trinta e cinco mil anos do tempo terreno.
Num tom menos oficioso, Bell acrescentou:
— Tenente, espero que não deixe de reconhecer a importância desta informação.
Tanner apressou-se em asseverar que não poderia deixar de reconhecer isso. A comunicação foi interrompida e Tanner esforçou-se para estabelecer contato com o grupo de Perry Rhodan.
Depois de algum tempo, conseguiu. Ouviu exatamente aquilo que esperava:
— Quem é o idiota que está chamando? Dei ordens expressas para evitar toda e qualquer comunicação pelo rádio.
Tanner pediu desculpas, alegando a ordem recebida de Bell.
— Está bem — contemporizou Rhodan. — Conte; mas seja breve.
Tanner repetiu o que ouvira poucos minutos antes.
— Diga a Bell — respondeu Rhodan — que, para mim, isto não é novidade.
Com estas palavras a palestra chegou ao fim. Tanner estava perplexo quando voltou a chamar a Stardust-III.

* * *

O rato-castor deve ter trabalhado vários dias para abrir esta passagem”, pensou Rhodan. Pelo seu cálculo, nas últimas quatro horas haviam se afastado outros tantos quilômetros do buraco por onde entraram. Mas, mesmo com o máximo de sua intensidade, o holofote ainda não atingia o fim da galeria.
Através de algumas amostras, colhidas por meio da comporta de provas de seu capacete, Rhodan constatara que a qualidade do ar permanecia inalterada. Dali se concluía que ambas as extremidades da galeria deviam ter ligação com a superfície.
Rhodan ainda procurou verificar, com seu isqueiro de gás, se havia qualquer correnteza de ar. A chama minúscula, que a quantidade reduzida de oxigênio contida naquela atmosfera mal conseguia nutrir, não revelara nenhuma movimentação.
Dali se poderia concluir que entre a saída da galeria e o lugar em que se encontravam haveria um grande reservatório de ar, que impedia a formação de correnteza. Talvez fosse uma caverna.
Isso o deixou satisfeito, pois tinha uma idéia bastante clara daquilo que o esperava mais adiante.
Mas havia outra coisa que o deixou muito menos satisfeito. Penetrara na galeria com menos de trinta pessoas. Sem dúvida não era qualquer um que poderia rastejar por horas a fio numa galeria que era tão baixa que a única coisa a fazer era deitar de barriga e empurrar o corpo com os cotovelos.
O efeito era de esperar: claustrofobia. Os homens começaram a ficar nervosos. Embora Rhodan lhes tivesse ordenado que mantivessem silêncio absoluto, algumas palavras ásperas foram proferidas. Rhodan procurou acalmar seus homens, com palavras tranqüilizantes ou grosseiras, conforme exigisse a situação.
Mas o nervosismo continuava a crescer. A marcha subterrânea não devia demorar demais.
Acontece que durou mais três horas. Rhodan calculou que lá fora o sol já se devia ter posto. A distância entre o lugar em que se encontravam e a entrada da galeria devia ser de cerca de oito ou nove quilômetros, visto que nas últimas horas seu deslocamento fora bem mais rápido que no início.
Já se tornara quase impossível controlar os homens. Muito embora a volta representasse um caminho muito mais longo — além do que teriam de rastejar para trás, já que era impossível virar o corpo naquela galeria estreita — cada vez mais freqüentes se tornaram os pedidos de desistir da expedição subterrânea.
Rhodan respondia o seguinte:
— Calma! Estamos quase chegando.
Detestava frases desse tipo, mas com elas conseguia ao menos alguns minutos de tranqüilidade.
De repente viram uma luminosidade, mais adiante, no interior da galeria.
De início Rhodan acreditou que se tratasse de uma ilusão produzida por seus olhos extremamente cansados. Fechou-os, ficou parado por um instante e voltou a abri-los.
O reflexo continuava no mesmo lugar.
Voltou a ligar o holofote e procurou descobrir o que havia por ali.
A luz do holofote não revelou nada.
Fosse o que fosse, ainda estava fora do alcance da luz do holofote.
— Vamos embora, rapazes! — disse. — Falta pouco.
Deslocaram-se com maior rapidez do que tinham feito até então.
A galeria não dispunha de qualquer escoramento, constatou Rhodan. Fora cavada na areia. Era um trabalho bem feito, mas as paredes não estavam revestidas.
Dali a quarenta e cinco minutos a galeria alargou-se um pouco. Rhodan continuou deitado e desligou o holofote.
A misteriosa luminosidade estava bem à sua frente, a uns cinqüenta metros de distância, mas não conseguiu descobrir a fonte de que provinha.
— Cuidado! — disse.
Lentamente, causando o menor ruído possível, os homens continuaram a avançar.
Dali a mais dez metros a galeria tornou-se tão ampla que os homens podiam ficar de joelhos.
Subitamente a galeria terminou.
De ambos os lados as paredes abriram-se praticamente em ângulo reto, e à frente havia um recinto em forma de caverna, em cujo centro, bem acima do solo, estava pendurada uma placa que emitia uma forte luminosidade.
Rhodan fez a luz de seu holofote passar pelo recinto. Estava completamente vazio, com exceção da placa e do pequeno refrigerador, que se encontrava perto do fim da galeria.
Rhodan saiu e levantou-se. Com alguns saltos colocou-se bem embaixo da placa luminosa e examinou-a.
— Fotografar! — gritou subitamente. — Rápido!
O homem com a câmara arcônida não tinha a menor idéia sobre o motivo pelo qual tivera de carregar o aparelho. Levou alguns segundos para perceber que as palavras de Rhodan eram dirigidas a ele. Por isso teve de ouvir algumas palavras duras do chefe.
— Aqui, perto de mim! — ordenou Rhodan. — Ângulo bem aberto. Vamos logo! O que está esperando?
O fotógrafo apertou um botão e empurrou a pequena objetiva de ângulo aberto para dentro da câmara. Dirigiu esta para cima e começou a tirar suas fotografias.
Só então viu que tipo de placa tinha diante de si. Ficou tão surpreso que, por pouco, não se esqueceu de manipular a máquina.
Aquele objeto que, visto de lado, parecia uma placa, era um modelo da Via Láctea. À primeira vista não se poderia dizer com segurança se era nossa Via Láctea ou outra galáxia; mas não se compreenderia que o imortal tivesse usado os recursos inacreditáveis de que dispunha para projetar o modelo de qualquer galáxia estranha nessa toca de ratos-castores.
O homem com a câmara foi repetindo as fotografias até que, de repente, a projeção cessou num chuvisco de chispas. Por um ou dois segundos a caverna subterrânea ficou profusamente iluminada.
Depois disso a escuridão foi tão profunda que os olhos ofuscados pela luz não enxergaram mais nada.
Alguém ligou um holofote manual.
— Apague isso! — ordenou Rhodan.
A luz apagou-se. No início ficaram sem saber por que Rhodan dera essa ordem; mas com o tempo — conforme a maior ou menor acuidade de suas vistas — perceberam.
A caverna tinha várias saídas. Por algumas delas entrou uma luz fraca e difusa, quase imperceptível. Era a luz projetada pelas estrelas do céu do planeta Vagabundo.
Rhodan dirigiu-se a uma das saídas. Era de formato idêntico ao da galeria pela qual haviam entrado. Suas paredes brilhavam à luz das estrelas. Estavam revestidas com uma cobertura reluzente.
A galeria levava para cima numa subida bastante íngreme; se inclinasse a cabeça para trás o mais que isso fosse possível com o capacete, Rhodan distinguia os pontos luminosos formados pelas estrelas.
— Acendam a luz! — ordenou.
Mais de uma dezena de holofotes acenderam-se de vez.
Sua luz potente cobriu o chão da caverna e as paredes revestidas com uma espécie de barro. O formato do recinto era bastante irregular. Ao norte parecia querer assumir a forma de um retângulo, mas ao sul terminava num semicírculo. Ao todo devia ter uns trezentos metros quadrados.
Junto às paredes viam-se, a intervalos regulares, montões de plantas secas. Rhodan examinou-os. Eram plantas da única espécie que até então haviam encontrado no planeta Vagabundo. Eram idênticas àquelas com que os ratos-castores, que viram na primeira noite, saciaram a fome.
Os ratos-castores!
— Onde estará o sujeito que roubou nosso refrigerador? — perguntou Deringhouse.
Rhodan, que estava junto dele, apontou para as saídas:
— Está lá fora, matando a fome junto com os outros.
— Que outros?
— Não está vendo que aqui há vinte e quatro leitos de palha; isto é, se quisermos chamar isto de palha.
— Leitos? — repetiu Deringhouse hesitante. — Quer dizer que esses animais têm camas?
— Se para você isto são camas, sim.
De resto não havia nada de extraordinário. Se os ratos-castores tinham uma despensa, como é de se esperar de qualquer roedor, esta devia ficar atrás de uma das galerias que saíam da caverna nas mais variadas direções. Rhodan preferiu não realizar outras buscas.
Saíram por uma das galerias de luz. As paredes eram tão lisas que não poderiam rastejar para cima. Mas bastava dar um forte salto para que, face à reduzida gravitação, atingissem a borda superior.
A galeria de saída fora escolhida conscientemente por Rhodan. No ponto em que desembocava na areia do deserto havia inúmeros rastros, que seguiam na direção norte.
Seguiram-nos cautelosamente. Os rastros contornaram uma colina e terminaram num vale, mais largo e comprido do que costumam ser os vales daquela região. Havia uma vegetação rala, que à luz das estrelas se destacava nitidamente sobre a areia branca.
Mais ao norte viu-se uma massa escura e compacta, cujos flancos se mantinham num movimento ininterrupto.
Aproximaram-se mais um pouco. Adaptaram os filtros de luz infravermelha às lâminas de seus visores e reconheceram o rebanho de ratos-castores, que pastava tranqüilamente.
Contaram vinte e quatro animais.
— Pois bem! — disse Rhodan depois de algum tempo. — Voltemos para casa.
Todavia, aquela noite ainda lhe reservava uma surpresa. Enquanto marchavam para o sul, para chamar os câmbios num lugar em que não perturbassem os ratos-castores em sua ocupação pacífica, Rhodan examinou as colinas à sua volta.
Eram todas iguais — nem muito altas, nem muito grandes. Pareciam ter sido levantadas artificialmente, e lembrou-se de que já tivera essa impressão, quando, em companhia de Deringhouse, encontrara a primeira esfera reluzente.
Era a área dos ratos-castores. Acima da caverna de onde haviam acabado de sair havia uma colina desse tipo; provavelmente haveria uma caverna embaixo de cada uma das outras colinas.

***

Dali a poucas horas estavam de volta, a bordo da Stardust-III. O tenente Tanner foi encarregado de levantar o acampamento e levar as barracas e os instrumentos até a nave.
As fotografias tiradas no interior da caverna dos ratos-castores foram reveladas; mas Rhodan ainda não as mostrara a ninguém.
— Antes de examinarmos as fotografias devemos esclarecer algumas coisas — principiou.
Seus ouvintes — os mesmos que tivera no início da expedição, quando a Stardust-III ainda se encontrava parada num espaço bizarro com umas ridículas cinqüenta e seis estrelas — procuraram ler as palavras em seus lábios.
— Viemos até aqui para encontrar mais uma indicação sobre o caminho que devemos tomar para achar o mundo cuja civilização conhece o segredo biológico da conservação das células, e portanto da vida eterna. Batizamos a missão com o nome Pedra dos Sábios. Estávamos convencidos de que no planeta Vagabundo devia existir uma raça inteligente, que possuísse tal indicação. Estávamos preparados para conquistar a confiança dessa raça, ou para arrancar-lhe o segredo à força.
“Pois bem. Estávamos aqui há poucos dias quando percebemos que um telecineta invisível se divertia à nossa custa, comprimindo botões, levantando objetos e fazendo outras bobagens desse tipo. Organizamos uma expedição e logo nos deparamos com uma estranha esfera reluzente, que acreditávamos ser outro produto daquela raça desconhecida, que horas antes nos dera mostras de suas intenções hostis, quando fez voar pelos ares minha barraca.
“Colocamo-nos na pista que havíamos localizado e prosseguimos por ela. Nos primeiros dias ninguém se lembrou de que o cérebro positrônico da Stardust-III havia previsto o fim das provas exclusivamente técnicas. Num instante preparamo-nos para enfrentar um inimigo que possuísse uma porção de coisas que não conhecêssemos, e de nos apossarmos de seu segredo apesar da superioridade técnica de que era dotado. Mas, por estranho que pudesse parecer, tudo correu sem o menor problema. Ocupamos o pavilhão de fábrica sem que sofrêssemos qualquer perda digna de nota, é bem verdade que fomos ajudados pelo acaso, e não tivemos que fazer maiores esforços para repelir outro ataque do inimigo. Ficamos um pouco desconfiados...”
— Você ficou! — disse Bell em tom áspero. — Nós não.
— Está bem; então fui eu — disse Rhodan com um sorriso. — De repente percebemos que o inimigo não possuía nenhuma superioridade técnica, embora conhecesse campos gravitacionais rotativos. Lembramo-nos das observações feitas por Lloyd: toda vez que este captava um modelo de vibrações cerebrais, seu conteúdo era formado por um ódio cego e destruidor ou por um instinto brincalhão verdadeiramente infantil. Não haveria mais necessidade de quebrar a cabeça: estávamos na pista errada, pois no planeta Vagabundo há duas raças inteligentes.
As cabeças dos ouvintes, até então inclinadas numa atenção muda, foram atiradas para cima. Os olhos exprimiam uma perplexidade total, as bocas abriram-se em protesto, mas não conseguiram emitir um som.
— Duas... — disse a voz rouca de Deringhouse depois de algum tempo.
Rhodan fez que sim.
— Qual é a segunda? — perguntou Bell.
— São os ratos-castores.
— Não é possível! — exclamou Deringhouse. — Lloyd observou-os na noite em que montamos o acampamento naquelas colinas e não percebeu nada.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Essa regra seletiva, como é chamada pelo cérebro positrônico, consistia de duas partes. Em primeiro lugar, tínhamos de descobrir que no planeta Vagabundo existem duas raças inteligentes, e depois precisávamos saber qual delas dispunha da indicação que estávamos procurando. A raça dos ratos-castores é de um tipo que nossa experiência, ou melhor, a experiência arcônida, encontra pela primeira vez. Não há dúvida de que a inteligência desses animais é de natureza intermitente.
— O que vem a ser isso?
A pergunta foi formulada abruptamente e em tom áspero, sem um mínimo de respeito. Partiu de Bell.
— Uma inteligência intermitente é um tipo de inteligência que faz com que o ser que a possui às vezes seja inteligente, às vezes não seja. Falei claro?
— Não. Isso significa que de segunda a quarta-feira os ratos-castores são inteligentes, e de quinta a domingo são estúpidos?
— Mais ou menos — murmurou Rhodan. — Apenas o intervalo é diferente. É diurno-noturno. Os ratos-castores perdem sua inteligência, que de qualquer maneira não é muito grande, quando começa a escurecer, e voltam a recuperá-la ao nascer do sol. Uma vez que esse efeito existe, é perfeitamente compreensível que o mesmo se processe segundo os dados naturais existentes neste mundo. Em poucas palavras, ele se orienta pela luz e pela escuridão. Se não fosse assim, os ratos-castores teriam ficado numa confusão terrível quando o terremoto alterou a posição do eixo do planeta Vagabundo.
Seguiu-se uma discussão apaixonada.
Por estranho que parecesse, Crest e Thora, os dois arcônidas, mantiveram-se num silêncio total. Rhodan sorriu para eles. Crest retribuiu o sorriso, mas Thora limitou-se a erguer as sobrancelhas.
São os herdeiros de um saber que teve de reconhecer que está longe de ser total”, pensou Rhodan. “Quando será que essas criaturas teimosas que habitam o planeta Terra reconhecerão que nada é impossível pelo simples fato de eles ainda não o haverem visto?
Interrompeu a discussão e formulou esse argumento. Não concordaram com o mesmo — ele o viu pela expressão de seus rostos — mas aceitaram sua sugestão:
— Provarei a exatidão de minha teoria. A Stardust-III permanecerá no planeta Vagabundo por mais alguns dias. Teremos oportunidade de observar os ratos-castores.
Passou a outro assunto.
— Apesar de tudo, talvez na nossa inconsciência, encontramos no planeta Vagabundo os restos de uma cultura antiga. Não tenho medo de confessar que, por algumas horas, cheguei a acreditar que o planeta Vagabundo era o mundo da vida eterna, e que os robôs nada mais eram senão os espíritos servis do imortal, que nos vem arrastando na sua esteira. Bem; não era isso. O imortal deve ser bem mais antigo que a cultura do planeta Vagabundo. Os robôs foram desmontados. Sabem de muita coisa que nós não sabemos; em compensação, outras coisas que nos parecem corriqueiras são ignoradas por eles. Há dezenas de milhares de anos guiam-se pela última ordem que lhes foi ministrada: atacar e destruir qualquer invasor.
“Seu cérebro tem uma estrutura orgânica, provavelmente porque seus construtores viram nisso a maneira mais simples de construir um robô. Repousa num tipo de tanque cheio de um líquido nutritivo, que pode manter o cérebro vivo pelo menos por cem mil anos terrenos.
“Acontece que a energia mecânica dos robôs era fornecida por geradores. Um deles foi avariado por ocasião do grande terremoto, e o resultado foram quinze robôs aparentemente mortos. Deve haver outro gerador que abastecia os cinco robôs restantes. Estes nos atacaram e foram destruídos.
“Temos possibilidade de revitalizar os quinze robôs aparentemente mortos e programá-los de tal maneira que não nos considerem mais como inimigos. É o que faremos.”
Sorriu.
— Quem está em nossa situação não pode se dar ao luxo de dispensar qualquer novo saber que possa adquirir, por mais insignificante que seja. Acredito que poderemos aprender muita coisa com a velha cultura do planeta Vagabundo.
Pegou o maço de fotografias que se encontrava sobre a mesa.
— O mais interessante desses robôs — disse, como se estivesse pensando em voz alta — é que os mesmos armazenaram sem o menor preconceito todo o saber de que dispunham seus chefes desaparecidos. Para um robô que recebeu ordens para atacar qualquer invasor, uma granada de mão é uma arma tão eficaz como um campo rotativo. De início andamos quebrando a cabeça sobre isto. Parece que nos últimos dias aprendemos uma boa lição de lógica de robôs. Ataque com qualquer coisa que tenha à mão, desde que seja uma arma.
Aproximou as fotografias dos olhos.
— Basta que lhes mostre uma destas fotografias. Nela existe tudo que esperávamos encontrar no planeta Vagabundo.
Pegou a fotografia de cima e colocou-a no projetor. Quando ligou o aparelho, a luz do teto apagou-se automaticamente.
Viram, em projeção tridimensional, um setor do modelo de Via Láctea que haviam encontrado na caverna dos ratos-castores. No centro do quadro via-se um ponto luminoso insignificante, da qual saía uma faixa bem mais clara que se estendia a uma estrela situada no quadrante superior direito.
— Quero explicar o seguinte — soou a voz áspera de Rhodan em meio ao silêncio. — No início não se via o ponto situado no centro do quadro. Quando olhei a fotografia pela primeira vez, a faixa luminosa terminava no nada. Tivemos de lançar mão de todos os recursos da técnica de revelação arcônida para que o pontinho se tornasse visível. Constatamos que as estrelas que aparecem neste modelo foram projetadas de acordo com sua verdadeira luminosidade. Portanto, temos uma indicação exata da intensidade luminosa da estrela em que termina esta faixa brilhante. O resultado é um tanto surpreendente: essa estrela não tem luminosidade própria; a luz que irradia é apenas o reflexo de sóis vizinhos. Trata-se de um planeta sem sol.
— É o mundo da vida eterna? — perguntou Crest.
— Acreditamos que sim — respondeu Rhodan. — Se não fosse assim, o quadro não teria o menor sentido.
— E que estrela é essa que fica na outra extremidade do arco luminoso? — perguntou Bell.
— Vega.
Alguém respirou pesadamente.
— Quer dizer que já conhecemos nossa posição galáctica?
— Isso mesmo. Encontramo-nos a dois mil e quatrocentos anos-luz de Vega e do Sol.
Não disseram mais nada. Admiraram o quadro daquela projeção misteriosa que haviam encontrado e fotografado no interior da caverna dos ratos-castores. Embora não quisessem admiti-lo, sentiram-se tomados de veneração pela técnica estranha e legendária da raça desconhecida que habitava o mundo da vida eterna.
Agora já se sabia que esse mundo vagava pelo espaço galático, solitário e sem sol.

* * *

Depois de haverem localizado as cavernas dos ratos-castores, já não havia o menor problema em postar Fellmer Lloyd nas proximidades. Este constatou exatamente aquilo que Rhodan previra.
Durante o dia os ratos-castores eram uma raça de inteligência pouco desenvolvida, mas dotados da capacidade parapsicológica da telecinésia, que neles alcançava uma potência extraordinária. Além disso, estavam possuídos de uma tendência de brincar extremamente desenvolvida, em consonância com seu reduzido grau de inteligência.
Os objetos que Rhodan colocara ao seu alcance mantiveram-nos ocupados durante todo o dia. Agora que dispunham desse playground, a Stardust-III ficava muito longe para que ainda a importunassem.
Ao escurecer transformavam-se em animais sem inteligência, que saltitavam pelos vales em que havia vegetação. Poucas horas antes do nascer do sol voltavam às suas cavernas para dormir. Quando despertavam o sol brilhava no céu e os animais recuperavam a inteligência.
Era um estranho jogo da natureza.
Fellmer Lloyd não sentia mais nada do ódio ardente que os cérebros orgânicos dos robôs encerravam; os cérebros orgânicos acondicionados em tanques feitos de um material especial, que os protegia contra a influência do projetor mental dos arcônidas.

***

Dez dias do planeta Vagabundo depois de terem encontrado a imagem da galáxia no interior da caverna dos ratos-castores, a Stardust-III estava pronta para decolar. Rhodan não julgou necessário percorrer o caminho mais longo, que passava junto ao sistema Vega, e que o modelo parecia indicar. Todavia, achou preferível avisar os tripulantes das oito naves auxiliares do tipo girino e, conforme as circunstâncias, também o coronel Freyt na Terra, sobre o que havia ocorrido.
De forma que a rota foi regulada pelo sistema Vega.
Rhodan lamentava não dispor de tempo para decifrar os mistérios da velha cultura cujos últimos remanescentes eram os vinte robôs. Os trabalhos de revitalização dos robôs estavam em pleno andamento. Bastaria corrigir sua memória de instruções para que, de boa vontade, revelassem o saber de que dispunham. Mas, na opinião de Rhodan, só saberiam tudo que desejavam quando tivessem tempo de regressar ao planeta Vagabundo e examinar o pavilhão de máquinas. Por enquanto teriam de contentar-se com as informações que conseguissem extrair da memória dos robôs. Entre essas informações estava a de que os robôs tinham capacidade para voar em pequenos trechos, isso com o auxílio de um minúsculo gerador gravitacional embutido em seus corpos elípticos. Com isso Rhodan livrou-se do pesadelo que lhe causara o fato de não saber explicar por que os rastros começavam subitamente em algum lugar para mais adiante terminarem tão subitamente como haviam começado.

* * *

Dois enigmas ficaram sem solução: por que o telecomunicador de Rhodan falhara subitamente no primeiro vôo de reconhecimento, durante o qual pretendia explorar o espaço com cinqüenta e seis estrelas, e por que, embora não enxergasse diretamente o sol do planeta Vagabundo, conseguira ver sua luz refletida pela Stardust-III.
O imortal teria uma explicação para isso.
Conheciam sua posição, pela primeira vez nessa busca difícil e demorada, em que esperavam encontrar o mundo da luz eterna.


***

Thora entrou na sala de comando no exato momento em que Rhodan se dispunha a introduzir a ordem de decolagem no piloto automático.
Passou por Reginald Bell sem contemplá-lo com um único olhar e sorriu para Rhodan.
— Ainda voltaremos para cá? — perguntou.
Rhodan fez que sim.
— Sem dúvida. É bem verdade que não simpatizo muito com a presença de seres que, por pura infantilidade, fazem brincadeiras tais como deslocar bombas arcônidas através do ar, tentam matar homens fortes com um câmbio que fazem tombar sobre eles e praticam outras tolices desse tipo. Mas precisamos dar uma olhada no pavilhão de máquinas. Acho que com isso poderemos aprender muita coisa.
Thora confirmou com um aceno de cabeça.
— É verdade — disse em tom amável.
Era este o seu gênio. Nunca pediria desculpas por um erro que tivesse cometido. Mas recorria à amabilidade para dar a perceber que reconhecia a injustiça que cometera. Mesmo que a injustiça consistisse apenas num olhar zangado.
Rhodan retribuiu o sorriso. Com um movimento vigoroso empurrou a chave automática para a posição de decolagem e, com uma expressão satisfeita, contemplou a luz que se acendeu no painel de controle.





* * *




O planeta Vagabundo, que gira em torno de um sol moribundo, ofereceu perigos muito maiores do que poderia se esperar de um mundo que parecia tão inofensivo. Como tantas vezes, também aqui as aparências enganaram. Mas agora, com o modelo da Via Láctea, encontrariam o caminho de volta para o sistema Vega. Será mesmo?
Se dentro em breve Rhodan se depara com Os Rebeldes de Tuglan, isso é devido exclusivamente a Gucky, um clandestino que viaja a bordo da Stardust-III.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html