sábado, 20 de outubro de 2012

P-016 - Os Espíritos de Gol - Kurt Mahr [parte 2]


— Nunca se esqueça de que além de mim você é o único homem que dispõe do saber dos arcônidas. A Humanidade não está em condições de perder nós dois ao mesmo tempo.
Designou o major Deringhouse e o japonês Tanaka Seiko para acompanhá-lo.
O carro de esteiras saiu da comporta inferior, que num pouso normal se situaria ao nível do solo. Rhodan assumiu a direção. O rastreador ótico, pelo qual se orientava, estava acoplado a um holofote de luz infravermelha. O raio invisível do mesmo, fortemente enfeixado, rompia a escuridão reinante em Gol a uma distância superior a um quilômetro, projetando quadros nítidos.
O major Deringhouse controlava o localizador de microondas, enquanto Tanaka Seiko desempenhava primordialmente as funções de telegrafista.
Na tela de trezentos e sessenta graus Rhodan viu quando as imensas escotilhas da comporta fechavam-se atrás dele. O metano líquido penetrara na comporta e evaporara-se no calor ali reinante. O gás extremamente perigoso foi bombeado e, formando bolhas enormes, subiu à superfície do oceano de metano, por onde o carro procurava abrir caminho em direção ao chão firme.
Rhodan fez o holofote efetuar uma rotação completa e percebeu que o carro funcionava como submarino. A extremidade superior do envoltório gravitacional elíptico ainda estava coberta por oito metros de metano líquido.
Rhodan procurou imaginar o que aconteceria se a temperatura ambiente baixasse subitamente e o metano voltasse a endurecer.
Mas as dificuldades que teve de enfrentar na direção do veículo logo lhe tiraram os pensamentos inúteis da cabeça. O chão em que se apoiavam as esteiras era pegajoso, e o veículo só saía do lugar se o mecanismo propulsor fosse regulado para a potência máxima. Dessa forma o veículo desenvolvia uma velocidade de cerca de trinta quilômetros por hora.
Rhodan manteve-se numa direção que, pelas medições magnéticas realizadas a bordo da Stardust-III, era definida como o sul. Era ali que se erguia o maciço montanhoso onde devia estar alojado o emissor que projetara os modelos incompreensíveis sobre a tela do sensor estrutural.
Dali a uns quinze quilômetros o solo começou a entrar em aclive. A altura da massa de metano líquido que cobria o carro de esteira diminuía progressivamente. Tanaka Seiko transmitiu as primeiras mensagens rotineiras para a nave. Foram recebidas e confirmadas sem problemas.
Mais alguns minutos, e o veículo emergiu do oceano de metano. Os geradores uivaram para levá-lo acima do barranco íngreme e colocá-lo em solo firme.
Rhodan parou e fez o holofote girar.
— Olhe isso! — disse.
Parara o holofote que iluminava uma agulha solitária em forma de rocha, que se erguia bem alto. Ficava a apenas duzentos metros da margem do lago do qual o carro acabara de emergir. No pé da agulha seu diâmetro era de cerca de cinco metros. A agulha estreitava-se progressivamente, terminando a um quilômetro de altura numa extremidade pontuda.
— O que é isso? — disse Deringhouse em tom de espanto. —- Está se movendo, não está?
Ninguém respondeu.
Realmente a agulha se movia. Parecia encolher. Diminuía visivelmente, e seu diâmetro diminuía na mesma proporção. Rhodan olhou para o relógio.
Dali a menos de seis minutos a agulha havia desaparecido. No lugar em que antes se via aquela formação agora se estendia a planície reluzente, que só terminava ao pé do maciço montanhoso, acerca de vinte quilômetros de distância. Rhodan deu partida no veículo.
— O que foi isso? — perguntou Deringhouse com um gemido.
Rhodan riu.
— Um bloco de gelo — disse por sobre o ombro, superando o zumbido dos motores.
Deringhouse lançou-lhe um olhar perplexo.
— Trata-se de metano congelado — explicou Rhodan. — Parece um pedaço de rocha mas quando a temperatura se eleva acima do ponto de fusão do metano, vai desaparecendo aos poucos. Se tivesse prestado atenção, teria notado os riachos de metano que corriam para todos os lados.
Dali a meia hora atingiram o promontório. No caminho encontraram outras formações rochosas que desapareceram diante de suas vistas.
A natureza estava em movimento. Na opinião de Rhodan não havia nada por ali que não fosse formado de metano ou amoníaco congelados, estando sujeito aos efeitos deformadores de pequenas oscilações de temperatura.
Rhodan percebeu as dificuldades que um ambiente destes devia representar para a orientação de quem nele tivesse de deslocar-se. O único recurso seguro era a orientação pelas coordenadas. Rhodan mandou que Tanaka transmitisse mensagem neste sentido à Stardust-III.
O importante era saber de que era feito o maciço montanhoso em. que estava alojado o misterioso emissor. Não era provável que um complexo gigantesco como este se formasse espontaneamente com massas de atmosfera congelada. Era de supor que se tratasse de um trecho da verdadeira superfície de Gol, que se elevava acima do gelo, criando uma área muito menos sujeita a alterações.
Só a montanha pulsará por ti!
Rhodan recordou a última frase da estranha mensagem traduzida por Tanaka Seiko.
Não se daria o nome de montanha a alguma coisa que não o fosse realmente.
O carro de esteira foi contornando lentamente algumas colinas que se estendiam diante do complexo; as sapatas moíam o solo. As encostas da colina refletiam o brilho infravermelho que Rhodan observara em toda parte: tratava-se de neve e gelo.
Depois da colina surgiu um trecho de terreno plano; mas atrás dela erguia-se um paredão de rocha quase vertical, que podia ser tudo menos convidativo. Ao que tudo indicava não havia qualquer brecha ou reentrância. A parede era compacta; Rhodan procurou descobrir um caminho que lhe permitisse contornar o obstáculo.
Girou o holofote de um lado para o outro e reduziu a velocidade do carro. Algumas centenas de metros mais adiante o facho de luz passou por cima do paredão, e subitamente desapareceu.
Rhodan ficou perplexo; repetiu o jogo. O facho luminoso deslizou lentamente pelo paredão pondo à vista gretas, fendas e as irregularidades que costumam ser encontradas em formações desse tipo.
Efetuando um giro de apenas um grau a luz apagou-se. Não havia o menor indício de que o paredão terminava naquele ponto fazendo com que o facho do holofote penetrasse na noite cinzenta de Gol até o limite de seu alcance.
O paredão estava ali; apenas a luz do holofote não aparecia nele.
Rhodan não teve tempo para espantar-se. O pequeno equipamento termonuclear que fornecia a energia necessária ao potente holofote emitiu um zumbido. Rhodan inclinou-se para verificar o que estava acontecendo. Uma faísca azulada de uns vinte centímetros de comprimento saltou do cabo que ligava o pequeno gerador e o botão do painel que comandava o holofote. Por alguns instantes o cheiro desagradável do isoladores queimados encheu o carro; logo foi expelido pelas bombas de sucção.
O holofote apagou-se de vez e no painel surgiu uma luz vermelha, que indicava a existência de um defeito no mesmo.
Rhodan compreendeu o perigo da situação. Dali em diante teria de viajar às cegas. Os localizadores manipulados por Deringhouse reagiriam aos obstáculos forma-los de metano ou amoníaco congelados de forma quase idêntica à do restante da atmosfera do planeta.
Fez meia-volta com o carro.
Deringhouse e Seiko haviam acompanhado atentamente todos os detalhes do acidente. Nenhum deles parecia compreender o dilema causado pela inutilização do holofote. Rhodan não procurou esclarecê-los. De qualquer maneira perceberiam quando a primeira rocha de gelo desabasse sobre eles, bombardeando-os com os blocos que dela se desprenderiam.

3



— Não sei decifrar isto — disse Crest bastante contrariado e desligou o projetor. — Ao que parece o desconhecido que pretendemos agarrar tem um humor muito bizarro.
Bell deu de ombros.
— E daí? Ele está guardando um segredo bastante precioso. Se quisermos possuí-lo, não devemos nos perturbar com as bizarrices de seu detentor. Não quer tentar mais uma vez?
Crest suspirou.
Pôs-se a andar em direção ao projetor; nas depois de ter dado dois passos cambaleou subitamente e teve de atirar-se numa poltrona para não cair.
No mesmo instante Bell perdeu o equilíbrio. Balançou com os braços atirados para o alto; suas costas largas acabaram batendo ruidosamente contra a parede-painel do telegrafista.
As sereias de alarma romperam o silêncio reinante na sala de comando.
— O que foi isso? — disse Bell com a voz ofegante.
Crest levantou-se e contemplou atentamente o chão. Lançou os olhos em torno e viu sobre a mesa um cilindro de plástico, do tamanho de um lápis, que servia de sonda para condutos ocos. Colocou-o no chão e virou-o de um lado para o outro. Depois de alguns segundos soltou-o.
O cilindro pôs-se em movimento. Rodando cada vez mais rápido, só parou de encontro à parede.
— Era o que eu pensava! — exclamou Crest. — A nave está em posição inclinada.
Bell recuperou a atividade. Seus dedos deslizaram rapidamente sobre o teclado do intercomunicador; dentro de dois segundos estabeleceu contato com o engenheiro incumbido do envoltório energético.
— Estou no controle — disse o engenheiro apressadamente e bastante alto para que Bell pudesse ouvi-lo com todo o barulho das sereias. — Pelo que consegui apurar, dois dos geradores gravitacionais ficaram sem carga. Por isso o envoltório neutralizador tornou-se mais fraco de um lado ou falhou por completo. Por isso afunda-mos.
— Ficaram sem carga? — gritou Bell. — Será que já voltaram a funcionar normalmente?
— Sim senhor.
Bell desligou. No mesmo instante as sereias cessaram de uivar. Bell foi ao assento do piloto e estudou os registros. A nave afundara, não havia a menor dúvida. Uma das colunas de sustentação penetrara mais de vinte metros no solo, e o chão da nave apresentava uma inclinação de pouco mais de um grau.
Bell não teve dificuldades com a correção. Sentado junto ao painel de comando do piloto, podia aumentar a potência de alguns jatos o suficiente para erguer a nave à posição normal, para depois reduzi-la ao valor anterior. Foi o que fez: constatou que tudo funcionava conforme era esperado. O incidente parecia obra de fantasmas; cessara tão subitamente como havia começado.
Mas Bell sentiu-se nervoso por não encontrar explicação para a falha dos geradores. Dominava todo o saber dos arcônidas, mas não conseguia atinar com o motivo por que dois geradores gravitacionais, cujo funcionamento era impecável, falharam por alguns segundos e voltaram a trabalhar normalmente.
Crest olhou-o.
— O senhor também não sabe explicar, não é? — perguntou abatido.
Bell sacudiu a cabeça; parecia furioso.
— Não tenho a menor idéia!
O intercomunicador emitiu um som estridente.
— Vigilância ótica ao comandante. Faça o favor de assumir o setor C. Acho que vale a pena dar uma olhada.
Muito espantado, Bell ligou a tela de vigilância ótica.
A tela iluminou-se. Desenhos cinza-escuros, disformes desfilaram diante de Bell.
— Não... — principiou.
Não vejo nada”, ia dizer; mas nesse instante viu. Era uma formação de contornos indefinidos, que emitia uma luminosidade fraca e deslizava pelas trevas cinzentas como se fosse um véu. Parecia uma nuvem de fumaça iluminada ou então...
Bell não encontrou qualquer termo de comparação. Além disso, havia outra coisa que lhe causava uma impressão muito mais profunda naquela formação luminosa.
Lá fora, onde a mancha luminosa desenvolvia sua atividade fantasmagórica, sobravam ventos e reinavam pressões que o cérebro humano nem conseguia conceber. Uma nuvem de fumaça ou de neblina — ou qualquer coisa com que se parecesse aquela coisa — dentro de poucos segundos teria sido desfeita e tangida para longe pela tempestade que rugia ininterruptamente.
Mas aquela mancha balançava, estendia-se e voltava a encolher-se. As fúrias reinantes na atmosfera de Gol não pareciam afetá-la nem um pouco.
Bell fitou a mancha, até que desaparecesse.
— Obrigado, vigilância ótica — disse em tom indiferente. — Continue de olho naquilo.
Preferiu não olhar para Crest. Olhou fixamente para o chão.
— Não sei se vale a pena quebrar a cabeça por isso — disse Crest depois de algum tempo. — As condições aerodinâmicas desta atmosfera são tão estranhas que facilmente podem surgir fenômenos que de início nos parecem misteriosos e inexplicáveis, embora na realidade sejam bem simples. Aquilo ali, por exemplo, bem pode ter sido uma forma um tanto exótica de descarga elétrica, um tipo de trovoada.
Bell fez que sim.
— Naturalmente — disse em tom distraído. — Se considerarmos isoladamente a mancha luminosa, pode ser verdade. Mas, se recordarmos que poucos segundos antes dois dos nossos geradores fizeram uma palhaçada para a qual não encontramos a menor explicação, a coisa muda de figura.
Cortou a resposta de Crest com um gesto.
— Já sei o que vai dizer: talvez seja coincidência.
— Quer saber de uma coisa? Vamos aguardar. Se isso for obra de forças metódicas, ainda temos de lidar com elas por várias vezes. Por enquanto não parecem dispor de energia suficiente para criar um perigo real para nós.
Olhou para o relógio.
— Já está na hora de outra mensagem do carro — resmungou.
A mensagem chegou poucos segundos depois.
Tanaka Seiko avisou que o holofote de luz infravermelha deixara de funcionar e o carro procuraria encontrar o caminho de volta numa viagem às cegas. Rhodan solicitava a emissão de impulsos goniométricos pelos quais pudesse se orientar.
Bell providenciou os impulsos e voltou-se para Crest.
— Há trovoadas por toda parte — disse com uma ligeira ironia na voz. — O raio até caiu no holofote.

* * *

A tela era praticamente inútil; apesar disso Rhodan não a desligou. Enquanto guiava cuidadosamente o carro na direção indicada pelos impulsos goniométricos emitidos pela Stardust-III, contemplava o cinza sem contornos do ambiente, absorto em pensamentos.
Sabia que uma rocha de gelo não seria visível, mesmo que se encontrasse bem à sua frente. A densidade da atmosfera de Gol era tamanha que os raios solares, por mais intensos que fossem, eram absorvidos por completo depois de terem penetrado nela alguns milímetros.
— Os sinais goniométricos estão se tornando mais fracos — avisou Deringhouse.
Rhodan conhecia o fenômeno. Parou o carro e voltou um pedaço. Prosseguiu até que Deringhouse anunciasse que os sinais voltavam a ser captados com a mesma intensidade.
Depois dobrou à direita e voltou a ir para a frente. A velocidade do carro não ultrapassava a de uma pessoa andando. Deringhouse disse em tom tranqüilizador:
— Tudo em ordem; podemos prosseguir.
Constataram que os impulsos goniométricos eram mais sensíveis aos obstáculos que o rastreador manipulado por Deringhouse, que não distinguia entre o metano sólido, líquido e gasoso. Toda vez que um obstáculo se interpunha entre o veículo de esteira e a Stardust-III, os impulsos diminuíam de intensidade. Da primeira vez Deringhouse não notara isso e o carro foi de encontro a um bloco de gelo; felizmente desenvolvia pouca velocidade. Dali em diante Deringhouse começou a prestar muita atenção à intensidade dos impulsos.
Tanaka Seiko estava sentado diante do aparelho de telecomunicação. Captava com toda nitidez os impulsos goniométricos emitidos pela Stardust-III e percebia as diferenças de intensidade dos mesmos, embora não com a mesma precisão dos instrumentos de Deringhouse.
Era a única coisa que Tanaka ouvia. Além dos impulsos só se percebia o farfalhar comum da atmosfera.
Mais nada.
Realmente não haveria mais nada?
Tanaka não procurou saber se aquele zumbido estranho era causado exclusivamente pelas perturbações atmosféricas. A intensidade destas costumava ser variável, segundo as leis da estática: às vezes eram mais fortes, outras vezes menos.
Também agora Tanaka constatou essas variações. Mas por cima de tudo o estranho zumbido continuava com a intensidade constante.
Refletia se devia chamar a atenção de Rhodan para o fenômeno, quando o zumbido se transformou num rugir que lhe causou dor de cabeça.
No mesmo instante Rhodan deu um salto.
Na tela cinzenta via-se uma mancha luminosa. De início era pequena e circular, mas logo aumentou, derramando-se para todos os lados.
Com um solavanco Rhodan fez o carro parar.
— Ai! — gemeu Tanaka.
— O que houve?
— Estou... estou captando alguma coisa. É um ruído muito forte. Minha cabeça está estourando.
— Agüente firme! — murmurou Rhodan, fitando a mancha luminosa.
Teve uma idéia. Retirou o filtro de luz infravermelha do canal de recepção e viu a mancha desaparecer. Recolocou o filtro, e a mancha voltou a aparecer.
— É em infravermelho! — resmungou.
As antenas do rastreador controlado por Deringhouse haviam sido montadas em cima do carro.
— A antena ficou incandescente — disse Rhodan, sem tirar os olhos da tela.
Deringhouse não respondeu. Uma antena não poderia ficar incandescente. Mas ele mesmo vira os efeitos produzidos sobre a tela.
— Irei em direção dele! — disse Rhodan com a voz rouca. — Deringhouse, preste atenção aos sinais goniométricos.
O motor começou a zumbir, o carro arrancou. Avançava metro por metro, aproximando-se daquela misteriosa mancha luminosa. Ao menos de início parecia que era assim. Mas, a partir de certo instante, o tamanho da mancha permaneceu inalterável. Parecia que se afastava do carro à medida que este procurava aproximar-se dele.
Rhodan avançou mais algumas centenas de metros, depois parou.
— Não adianta! — resmungou desapontado. — Está fazendo pouco caso de nós. Talvez só esteja ali para nos enganar. Deringhouse, qual é a direção?
— Zero, zero, oito.
— Nenhuma dificuldade?
— Ao que parece, nenhuma.
— Qual é a distância?
— Faltam dois mil metros. Gastaram perto de meia hora para percorrer esses dois mil metros.
Quando o carro mergulhou no lago de metano, Rhodan teve a impressão de encontrar-se no jardim de sua casa. Mergulhou numa manobra elegante e dirigiu constantemente em direção à comporta da Stardust-III, onde Bell mandara instalar um holofote de alta potência.
Assim que as escotilhas da comporta fecharam-se atrás deles e as enormes bombas começaram a trocar cautelosamente o perigoso metano por lufadas de ar respirável, sentiram que o perigo ficara para trás.
Desceram do carro um tanto cansados, subiram pelo elevador antigravitacional e dois minutos depois viram-se na sala de comando.

* * *

Rhodan mantinha-se de costas para as pessoas que prestavam atenção às suas palavras. Eram Bell, Crest, Thora e os dois majores, Deringhouse e Nyssen.
— Acho que sua teoria da trovoada é excelente, Crest — disse. — Acontece que só serve... — virou-se sobre os calcanhares e fitou o arcônida — só serve para tranqüilizar a tripulação. Sabemos perfeitamente que as coisas e os fenômenos com que nos defrontamos não são casuais.
— Não diga! — respondeu Crest. — Como pode afirmar isso?
— Segundo as explicações de Tanaka — respondeu Rhodan prontamente — a mancha luminosa que vimos de dentro do carro emitiu um tipo de hiper-radiação. Tanaka sabe distinguir essas radiações de uma simples emanação eletromagnética através da intensidade da sua dor de cabeça. Não existe nenhuma emanação eletromagnética de que resultem hiper-radiações.
Ficou andando de um lado para outro. Seus ouvintes seguiam-no com os olhos curiosos.
— Há outro detalhe — prosseguiu Rhodan. — Alguma coisa lá fora estragou meu holofote. Tive a impressão de que a energia foi literalmente sugada do aparelho. Isso provocou a sobrecarga dos condutores, que se fundiram.
“Alguns minutos depois um ser luminoso encontrou-se conosco na solidão deste planeta, ser este que emitia radiações infravermelhas, isto é, funcionava na mesma faixa espectral que nós. Além disso...”
— Será que o senhor não está tirando uma conclusão apressada? — interveio Thora. — Fala em seres luminosos! Isso significa que na sua opinião essas coisas são seres?
— Aguarde um instante — pediu Rhodan. — Quero acrescentar mais uma coisa. — Deringhouse procurou localizar a coisa através do goniômetro. Não conseguiu estabelecer qualquer reflexo na tela, mas a antena esquentou até a incandescência. Estou convencido de que teríamos assistido ao mesmo fenômeno que se verificou com o holofote, se Deringhouse não tivesse desligado logo o aparelho.
De pé, com os braços cruzados nas costas, fitou seus ouvintes um por um. Quando voltou a falar, sua voz era áspera e insistente:
— Para todos os incidentes que tivemos, desde a oscilação de nosso envoltório energético, ocorrida pouco antes do pouso, até o aquecimento da antena do goniômetro, só existe uma explicação plausível. Ele, ou alguém que se encontra neste planeta, possui a capacidade de absorver energia de qualquer espécie, e faz um uso bem extenso da mesma.
Houve uma pausa. Bell achou que a mesma se prolongava demais.
— Será que devemos supor — disse — que essa coisa, ou esse alguém, é um ser vivo, talvez mesmo inteligente?
Rhodan sorriu:
— Esta é uma pergunta que teremos de enfrentar. Pode ser respondida em poucas palavras, mas nem por isso a resposta se tornará compreensível. Tanaka constatou que esses seres emitem hiper-radiações. E estas só podem ser produzidas por quem pertença, ao menos em parte, ao espaço superordenado. Estaríamos cometendo um atentado contra o princípio da lucidez científica se nessas formações procurássemos imaginar alguma coisa. Sabemos que existem. Poderemos estudá-las sempre que houver possibilidade para isso. Se tivermos sorte talvez consigamos comprovar sua existência através dos símbolos da matemática arcônida.
— “É só. Peço-lhes que voltem aos seus postos. Teremos de refletir um pouco e realizar alguns cálculos. Se acontecer algo de importante, avisarei.”
Nyssen e Deringhouse levantaram-se e saíram. Reginald Bell continuou imóvel. Crest fez menção de levantar; mas com um suspiro voltou a cair na poltrona. Thora fitou Rhodan com seus enormes olhos vermelhos.
— Não se esqueça de uma coisa — disse em tom pensativo — o senhor acaba de falar em seres que vivem num espaço superordenado. Não sei se os homens da tripulação, mesmo que sejam majores, têm um conhecimento de hipergeometria que lhes permita perceber que a palavra superordenado não exprime uma relação de valores.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Muito obrigado pela recomendação. Não me esquecerei.
Sorriu.
— Acontece que a palavra indica uma relação de valores — disse bem baixo, como se estivesse falando para si. — Conseguimos realizar uma transição, sabemos modular as hiperondas e realizar emissões com elas. Mas não temos a menor idéia de como lidar com um ser que habita o espaço superordenado. Alguém que viva num espaço de n dimensões subtrai-se a um ataque pelo simples fato de o atacante viver num espaço de n-1 dimensões.
Crest acabou levantando.
— Será que a esta hora já confessa que seria mais razoável desistir da expedição?
Rhodan virou-se abruptamente.
— Nada disso! — respondeu em tom áspero. — Nem penso nisso. E duvido de que seja mais razoável.
— Mas o que pretende fazer?
Rhodan sentou na braçadeira de uma poltrona e estendeu a mão.
— É este o problema de sempre, Crest — disse. — Deparamo-nos com uma coisa nova, que desperta nossa curiosidade. Queremos saber mais a respeito. Há dois motivos que nos podem levar a desistir desse intento. Podemos chegar à conclusão de que já sabemos tudo que queríamos saber; ou então acreditamos que a coisa pode custar nossa vida, e às vezes já custou. — Nenhuma dessas hipóteses se verificou aqui. Logo, continuaremos a nos esforçar para satisfazer nossa curiosidade.
Crest não respondeu.
— Conseguiu decifrar os dados registrados no sensor estrutural? — perguntou Rhodan.
— Não. Acho que é impossível.
— Será que essa conclusão não é um tanto apressada?
Crest deu de ombros.
— O sensor estrutural é um instrumento por meio do qual podemos perceber as distorções da estrutura espacial, da estrutura do espaço de quatro dimensões, bem visto. É verdade que os efeitos se localizam numa dimensão mais elevada; é esse o motivo da grande velocidade com que os mesmos se propagam. Ao que parece, até agora ninguém se lembrou da possibilidade de modular esses efeitos para a transmissão de mensagem como, ao que tudo indica, foi feito aqui. Por isso mesmo o sensor não foi concebido para captar mensagens desse tipo.
— Com um cano de chaminé não se podem captar sinais de radar. Acho que isto é uma boa comparação.
— Pode-se, sim — objetou Rhodan. — Basta preparar o cano do fogão.
Crest olhou-o com uma expressão de surpresa no rosto.
— Não vá me dizer que pretende preparar o sensor estrutural para...
— É isso mesmo — respondeu Rhodan. — Vou prepará-lo. Para isso precisamos de uma série enorme de cálculos. Quem sabe se não quer me ajudar?

***

— Que Deus guarde e proteja a matemática terrena! — disse Rhodan com um riso alegre. — A matemática arcônida é tão avançada que para as hiperoscilações só encontra uma expressão bem simples, que não pode ser decomposta. Já a matemática terrena tem de seguir um processo complicado para compreender o fenômeno. Devemos construir a fórmula, e enquanto fazemos isso, descobrimos como fazer para ampliá-la a fim de poder aplicá-la a um fenômeno de ordem superior.
Crest fez um gesto de aprovação, mas havia uma ligeira ironia em sua atitude.
— Gostaria de saber o que significam suas palavras.
— O que vem a ser uma hiperoscilação? — perguntou Rhodan. — Vamos com cuidado. É alguma coisa que resulta de um fenômeno gravitacional sujeito às alterações periódicas. Para produzir alterações num fenômeno gravitacional, recorremos a um microacelerador e fazemos com que uma série de prótons dotados de elevadíssima carga de energia esbarrem uns dos outros. A energia assim liberada causará a formação de novas partículas.
Inclinou-se sobre a mesa onde estavam espalhados seus cálculos.
— O senhor deve conhecer a formalística de sua matemática, que utiliza os dados relativos a uma partícula e, mediante uma simples inversão do sistema ultracomplexo de coordenadas, faz dessa partícula uma antipartícula.
Crest fez que sim. Começou a compreender a idéia de Rhodan, que o deixou perplexo.
— Pois bem. Então já sabemos que basta acoplar ao microacelerador convencional um acelerador destinado às antipartículas para...
— Pare! — gritou Crest. — E não fique falando em termos de basta. Se conseguir transformar sua teoria em prática, terá revolucionado toda a física.
Rhodan respondeu com um ligeiro aceno de cabeça.
— Pode ser. Por enquanto só sei de uma coisa. Para produzir antipartículas em quantidade suficiente precisarei de tanta energia que vez por outra terei que desligar os envoltórios energéticos.

* * *

Rhodan arriscou. Não havia tempo a perder. O sensor estrutural repetia o mesmo programa a intervalos regulares.
Restava saber até onde chegaria a paciência do desconhecido. Sempre fizera questão de que os candidatos não gastassem mais tempo na solução dos problemas do que fora fixado por ele.
Qual seria esse tempo no presente caso?
Rhodan construiu o microacelerador de antipartículas. Consumiu nisso dois dias da escala de tempo terrena.
Nesses dois dias o setor de vigilância técnica registrou por quatro vezes uma falha de algum dos geradores que alimentavam o envoltório energético. Os efeitos nunca duravam mais que dezesseis segundos e, como todos estivessem preparados para o fenômeno, conseguiu-se evitar que a Stardust-III fosse danificada.
Depois de cada falha dessa, surgiam nas telas as manchas luminosas que, na opinião de Rhodan, pertenciam a um Universo de ordem superior.
Três dias depois do início dos trabalhos Rhodan pretendia iniciar a produção de antipartículas. O microacelerador, que de certa forma funcionava como eixo central do hiperemissor, também exercia as funções de depósito. Por anos a fio os prótons nele encerrados eram mantidos numa órbita circular, com um conteúdo energético constante.
Em princípio Rhodan só precisaria uma única vez de um feixe de antipartículas, que por sua vez fariam o novo microacelerador funcionar por anos a fio. Acontece, todavia, que as antipartículas mostram uma tendência acentuada de combinar-se com as partículas normais, com o que sua massa se perde por irradiação. Por isso o microacelerador teria de ser recarregado de vez em quando.
— Se é que isso adiantará alguma coisa... — murmurou Rhodan em conexão com estas idéias.
Por volta de uma hora a Stardust-III ficou desguarnecida de qualquer envoltório protetor, além daquele produzido pelos neutralizadores gravitacionais. A força dos jatos foi reduzida. A nave afundou uns cinqüenta metros, e obteve apoio um pouco mais firme.
Era um empreendimento arriscado. O casco imenso da nave oferecia uma ampla área de ataque à tormenta; o resultado era imprevisível. Rhodan mandara que todos os tripulantes ficassem a postos e avisou-os de que a experiência seria suspensa imediatamente se surgisse um perigo mais sério para a nave.
Ficou aguardando.
Era uma espera bastante desconfortável. Livre de qualquer envoltório protetor a Stardust-III, que era muito grande para que pudesse passar despercebida à tormenta, balançava como um navio numa tempestade.
Mas, uma hora passou-se sem que a nave sofresse dano sério. Um único instrumento bastante precioso quebrou-se porque, em contrário às instruções de Rhodan, não o haviam fixado em seu suporte.
O novo microacelerador estava pronto para entrar em funcionamento. Rhodan e Crest embutiram-no no sensor estrutural. Sabiam que o novo círculo oscilatório, juntamente com o anterior, estava em condições de captar e emitir radiações gravitacionais submetidas a um processo de polarização circular, com o que o alcance do instrumento aumentava de uma dimensão.
— Quando será a nova transmissão? — perguntou Rhodan.
Bell olhou para o relógio.
— Faltam quatorze minutos. Rhodan deixou-se cair numa poltrona, acendeu um cigarro e esperou.
— Mais dois minutos — disse Bell, depois de algum tempo.
Rhodan levantou-se. O cigarro queimou seus dedos. Jogou-o fora.
Quando se viu diante do sensor estrutural, olhou para Crest com um sorriso estranho.
— Se não funcionar, pode caçoar de mim — disse.
— Um instante! — interveio Bell em tom impaciente.
A escotilha abriu-se abruptamente. Thora entrou. Sem dizer uma palavra sentou perto de Crest e também ficou à espera.
— Deve começar agora — disse Rhodan.
E começou.
Um ponto luminoso piscou na tela do oscilógrafo, começou a desmanchar-se e por uma fração de segundo deu a impressão de que se perderia no mesmo modelo disforme que já desenhara tantas vezes.
Mas decidiu de outra forma. Uma linha sinuosa estendeu-se sobre a tela. Tremeluziu uma, duas vezes e fixou-se. Era fácil reconhecer a modulação nas pequenas saliências irregulares da curva.
Os dezesseis segundos passaram num instante. A tela apagou-se. Rhodan fitou-a perplexo, como se não acreditasse no que havia visto. Crest ergueu-se cambaleante e veio em direção a Rhodan.
— Não é da minha índole — disse em tom sério — usar palavras pomposas. Mas...
— Deixe isso para depois! — interrompeu-o Rhodan num tom de voz que quase chegava a ser grosseiro. Crest assustou-se ao ver a súbita explosividade com que a atividade de Rhodan voltou a desenvolver-se. — Bell! Tanaka Seiko! Venham imediatamente! Crest, dê uma ajuda; vamos reproduzir esta mensagem para Tanaka.
O sensor estrutural foi ligado para a reprodução. Tanaka apareceu e acompanhou tudo com os olhos espantados. Usando a fita em que fora gravada a última mensagem como matriz, Rhodan fez com que o sensor irradiasse aquilo que havia captado minutos antes.
— Preste atenção, Tanaka! — ordenou ao japonês. — Entende alguma coisa?
Ligou o aparelho. Desde o primeiro instante tornou-se evidente que Tanaka estava captando alguma coisa. Inclinara-se para a frente, numa posição característica; dava a impressão de que de um instante para o outro cairia da poltrona.
Terminada a reprodução, continuou sentado por algum tempo. Alguns minutos depois reclinou-se na poltrona, respirou profundamente, e lançou os olhos espantados em torno de si.
— Compreendi perfeitamente — disse Tanaka depois de algum tempo. — Nunca consegui decifrar tão bem uma mensagem como esta.
— O que diz a mensagem?
— Diz o seguinte: “Quando tiveres compreendido isto, terás de prosseguir no caminho em direção à montanha. Só nela encontrarás a luz. Não demores muito. Os grandes de...”, aqui vem um nome. Como sabe, não consigo captar nomes. Mas sei que se trata do planeta em que nos encontramos; pois bem: “O poder dos grandes de Gol crescerá em demasia, enquanto demorares. Nunca deves vir sem a sabedoria do plano superior.”
— É só?
— É só.
— Obrigado, Tanaka. Pode se retirar.

4



— Não devemos esquecer — disse Rhodan em tom sério — que esta mensagem já vem sendo irradiada há alguns dias. Devemos nos apressar! Crest sacudiu a cabeça.
— Para falar com franqueza, isso me deixa bastante preocupado. O que significam, por exemplo, as palavras: “O poder dos grandes de Gol crescerá em demasia, enquanto demorares”?
Rhodan deu de ombros.
— Não faço a menor idéia. Vamos descobrir.
— E o que será essa sabedoria do plano superior? — perguntou Thora.
— Já quebramos a cabeça sobre isso. Não se lembra? É bem possível que esteja aludindo à mesma coisa que nós entendemos por isso.
Rhodan dispunha de três carros de esteira do tipo daquele com que realizara sua primeira excursão. Não teve dúvida em usar os três ao mesmo tempo.
Preferiu não equipar os veículos com envoltórios energéticos adicionais, pois o respectivo equipamento ocuparia ainda mais lugar que os neutralizadores gravitacionais. No entanto, fez questão de que os carros dispusessem de armamentos. Em cada um deles foi instalado um desintegrador de potência média, um radiador de nêutrons e a arma usual de impulsos térmicos. Além disso, em cada um dos veículos foi montada uma catapulta móvel, da qual ninguém sabia dizer para que serviria.
Ao que tudo indicava pertenciam a essa catapulta os vinte recipientes metálicos de paredes reforçadas colocadas em cada um dos carros. Segundo informavam os técnicos, continham oxigênio líquido e um detonador. Face a isso, todos compreenderam a finalidade do instrumento.
O oxigênio e o metano, em proporções adequadas, constituíam uma mistura altamente explosiva. Alguém que tivesse que defender-se de um inimigo num planeta de metano não encontraria um meio mais barato que misturar uma boa porção de oxigênio à atmosfera e fazer detonar a mistura no momento apropriado.
Rhodan teve dificuldades em tripular os carros. Contra sua vontade decidiu confiar o comando do segundo veículo a Bell. Quanto ao terceiro, tinha uma idéia bem definida; mas, embora fosse o comandante da Stardust-III, achou preferível não emitir uma ordem, mas formular um pedido.
— Queria perguntar-lhe — disse, dirigindo-se a Crest — se está disposto a dominar sua antipatia pelo nosso empreendimento e assumir o comando de um dos carros.
Crest olhou-o perplexo. Depois contorceu o rosto num sorriso triste.
— Muito obrigado pela delicadeza. Rhodan — respondeu. — Está se referindo ao meu medo, não à antipatia, não é verdade? Mas está bem; irei.
Bateu palmas à maneira humana e exclamou:
— Justamente eu, o mais inofensivo dos arcônidas, sou escolhido para provar a um punhado de homens que nossa raça ainda vale alguma coisa.
Ambos riram.
— Em cada carro irão dois mutantes e um oficial — prosseguiu Rhodan. — No seu carro irão Tama Yokida, o telecineta, e Ishi Matsu, a telepata, além do capitão Klein.

* * *

Bell foi em companhia de Betty Toufry, Ralf Marten e do major Nyssen.
Rhodan levou a mesma tripulação da vez anterior. Apenas acrescentou a telecineta Anne Sloane.
Thora assumiu o comando da Stardust-III.
O dia da partida da expedição foi, segundo o calendário terreno, 15 de dezembro.
Depois das experiências com as antipartículas, realizadas por Rhodan, a Stardust-III fora erguida novamente à sua posição normal. Os três carros saíram sem dificuldades pela comporta do pé da nave e seguiram em direção ao sul, vencendo o mar de metano, que neste meio-tempo se tornara mais raso.
A comunicação dos três carros entre si e de cada um deles com a nave funcionava perfeitamente. Rhodan constatou com satisfação que, ao menos no início, a expedição parecia estar sob uma boa estrela.
As dificuldades começaram quando atingiram o paredão de rocha, junto ao qual na tentativa anterior o holofote infravermelho de Rhodan se extinguira.
O carro de Rhodan seguiu à frente dos demais. Rhodan não tinha a intenção de dar uma grande volta para contornar a barreira de rocha. O caminho era perigoso, e cada metro percorrido a mais representava um risco adicional.
Deringhouse estava sentado junto à catapulta.
— Bomba preparada para o lançamento.
Rhodan transmitiu uma ligeira advertência aos outros carros.
— Preparar! Fogo!
No facho de luz do holofote viu-se o bujão de oxigênio, quando este, balouçando lentamente, se desprendeu da catapulta. Ainda se encontrava sob a influência do neutralizador gravitacional; por isso descreveu uma trajetória igual à que teria percorrido na Terra.
Rhodan aumentara o suprimento de energia do campo antigravitacional e estendera o mesmo até junto à barreira de rocha. O bujão foi descendo em sua trajetória lenta e atravessou o limite do campo.
Parecia que alguém o havia segurado em meio ao vôo. De súbito, precipitou-se ao solo com uma rapidez tamanha que os olhos não podiam segui-lo, e estilhaçou-se sob a força tremenda do impacto. Pingos minúsculos de oxigênio líquido misturaram-se ao metano que enchia o ambiente. Quando Rhodan acionou o mecanismo de ignição, toda a tela foi tomada por um raio tão ofuscante que fazia doer a vista.
Seguiu-se uma enorme onda de compressão, que sacudiu os carros.
A bomba abrira uma brecha no paredão; não havia a menor dúvida. Uma enorme fenda percorria o maciço, do solo à cumeeira.
Também não havia dúvida de que a fenda era estreita demais para permitir a passagem dos carros.
— Mais uma bomba! — ordenou Rhodan.
Deringhouse colocou outro bujão na catapulta.
Rhodan pegou o microfone.
— Cuidado! Realizaremos outra explosão.
Deringhouse acenou com a cabeça.
— Fogo!
O bujão saiu balouçando, subiu e voltou a descer em direção ao limite do campo antigravitacional.
— Veja! — gritou Deringhouse. Rhodan via.
Uma pequena esfera luminosa flutuava na atmosfera, junto ao paredão, mais ou menos no lugar em que o bujão bateria no solo depois de sair do campo antigravitacional.
Rhodan viu quando o mesmo atravessou o limite do campo e desceu vertiginosamente. Fechou os olhos, aguardando a luz ofegante da explosão que se devia verificar a qualquer instante. Mas esta não ocorreu.
Houve uma espécie de fogo-fátuo, mas não se notou qualquer tipo de destruição no paredão de rocha. Uma luz branca e tremeluzente espalhou-se, um fogo que ardia lentamente.
Não se apagou mais. Transformou-se numa esfera cintilante de cerca de cinco metros de diâmetro, que se manteve imóvel diante do paredão.
— A esfera pequena desapareceu — informou Deringhouse esbaforido.
O diâmetro da esfera pequena não passava de meio metro.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Não — disse. — É aquela ali. Apontou para a esfera de cinco metros. Deringhouse fitou-o incrédulo.
— Não é possível!
Rhodan assumiu uma atitude implacável.
— Não temos tempo para discussões. Ponha o desintegrador a funcionar. Vamos!
Deringhouse girou a arma pesada.
— Aponte para o paredão — ordenou Rhodan. — Mas não atire na esfera.
Deringhouse obedeceu.
Depois de um bombardeio de dez segundos a fenda aberta na rocha tinha largura suficiente para deixar passar dois carros de uma vez. Com um movimento automático Deringhouse girou o desintegrador para sua posição de repouso, arregalando os olhos para a esfera cintilante que executava uma espécie de dança a uns dez metros à direita da brecha aberta no paredão.
— Para a frente a toda velocidade! — berrou Rhodan pelo telecomunicador. — Crest, coloque-se ao meu lado, na fenda cabem dois carros. Bell, fique de olho na esfera, mas nada de experiências!
Crest reagiu com uma rapidez animadora. Os dois carros dispararam lado a lado, atingiram a fenda e desapareceram na mesma. Bell seguiu-os de perto.
Rhodan respirou aliviado ao ver que o desintegrador consumira a rocha em toda a profundidade do paredão.
Para além da barreira de rocha a vista era bastante animadora. Uma planície pouco acidentada estendia-se diante dos carros-esteira, até o limite do alcance de seus holofotes. À direita e à esquerda erguiam-se algumas colinas, e mais ao longe viam-se íngremes cumes de pedra, que avançavam para o negrume do céu; o vale encavado no planalto formado pelos mesmos tinha largura suficiente para permitir a passagem simultânea de um destacamento completo de carros-esteira.
O carro de Bell foi o último a sair da fenda. Rhodan fez o holofote girar e examinou o terreno. Não se via nada além dos outros carros e da desolação pedregosa do planeta Gol.
— Tudo em ordem! — resmungou Rhodan satisfeito. — Vamos adiante.
Pelas indicações fornecidas pelo sensor da Stardust-III, a montanha que estavam procurando ficava a exatamente duzentos e quinze quilômetros da nave. Considerando que se tratava da distância em linha direta, e que os carros muitas vezes não poderiam deixar de dar voltas, podia-se calcular com um grau satisfatório de exatidão que levariam pelo menos oito horas para atingir a montanha.
Seriam oito horas passadas nas proximidades de esferas luminosas, para as quais uma explosão de metano e oxigênio parecia representar um tipo de sobremesa: utilizavam a energia gerada pela explosão para aumentar seu diâmetro.
As mesmas idéias pareciam ocupar a mente de Crest.
— Observou a esfera? — perguntou pelo intercomunicador.
— Naturalmente — respondeu Rhodan.
— O que acha dela?
— É simples. Foi atraída pela primeira explosão. Ao chegar tinha um diâmetro de cerca de cinqüenta centímetros. Sentia uma fome tremenda. Depois...
— Sentia fome?
— Isso mesmo. Colocou-se exatamente na trajetória do segundo bujão de oxigênio que disparamos e devorou a energia gerada pela explosão. Ao que parece isso foi um verdadeiro regime de engorda para ela, pois de repente seu diâmetro cresceu dez vezes.
— Acredita realmente que tenha sido assim? — perguntou Crest desconfiado.
— Não acredito — respondeu Rhodan. — Vi.
Deringhouse bateu-lhe no ombro.
— O que houve?
— Sinto incomodá-lo — disse Deringhouse, apontando para a tela — mas a esfera voltou a aparecer.
Dali em diante ela não os deixou mais. Saltitou atrás do carro e, no espaço de três horas, perdeu uns vinte por cento de seu diâmetro.
Era uma formação misteriosa e apavorante.
— Não posso fazer nada — avisou Bell enquanto os três carros, em marcha indiana, contornavam o flanco íngreme de uma montanha. — Essa coisa me deixa nervoso.
— O que pretende fazer? — perguntou Rhodan.
— Poderíamos atirar.
Para surpresa dos que acompanhavam o diálogo, Rhodan disse em tom tranqüilo:
— Está bem. Coluna, alto! O comandante Bell tentará a sorte.
Os carros pararam com os motores em movimento. Na cúpula do último deles via-se um movimento. Era Bell que girava as armas.
A voz de Bell soou no intercomunicador:
— Tudo pronto, Nyssen?
— Tudo pronto.
Do carro de Rhodan via-se perfeitamente o raio energético disparado pelo desintegrador.
A salva disparada por Nyssen atingiu a esfera em cheio. Até mesmo na tela alimentada pela luz infravermelha, que geralmente só projeta em preto e branco, notava-se que a esfera mudava de cor. Bell acreditou que isso representasse um sinal de êxito de sua ação e soltou um grito de triunfo.
Mas o grito logo lhe ficou atravessado na garganta. Longe de ser afetado pela salva do desintegrador, a esfera começou a inchar. Recuperara a cor primitiva e cresceu rapidamente.
Os ocupantes dos carros estavam de olhos fitos nas telas.
O gemido de Bell foi ouvido perfeitamente pelo intercomunicador. Todos pareciam perplexos.
Rhodan era o único que havia previsto o fenômeno.
— Vamos adiante! — disse com a voz áspera. — Não nos preocuparemos mais com essa coisa. Ela não nos fará nada; logo, não temos motivo para ficar nervosos.
A ordem arrancou-os do estupor.
Tanaka Seiko queixou-se de dores de cabeça.
— Quando começaram? — perguntou Rhodan.
— Desde o disparo — respondeu Tanaka com um gemido.
Rhodan fez que sim. Aquela esfera emitia hiperradiações que, em todas as fases, ou só temporariamente, exerciam certa influência sobre o cérebro de Tanaka. Evidentemente as hiperradiações da esfera se tornaram mais potentes, a ponto de provocar dor de cabeça em Tanaka, depois que a mesma havia absorvido a energia liberada pelo disparo do desintegrador. Não havia nada de misterioso nisso.
Para Rhodan, porém, um detalhe mais interessante residia no fato de que durante a primeira excursão uma esfera bem menor quase provocara um desmaio em Tanaka Seiko. Devia haver pelo menos duas espécies de esferas; o que as distinguia era o volume de energia ou as dimensões das radiações que emitiam.
Os carros retomaram a viagem e aproximaram-se do fim do planalto, que até ali lhes garantira uma rapidez tão surpreendente no deslocamento.
Ao chegarem ao fim do vale que ali se abria começou a grande canseira, que por algumas horas desviou sua atenção da esfera luminosa. Rhodan viu-se diante da alternativa de seguir por um caminho muito mais longo, que representaria uma demora adicional de pelo menos vinte horas, ou fazer com que os veículos escalassem encostas que talvez fossem invencíveis.
Escolheu a última alternativa. Um dos motivos foi a mensagem de Thora, vinda da Stardust-III:
— Cinco dos geradores do envoltório energético deixaram de funcionar. Neste instante notamos grande quantidade de figuras luminosas, que se movem nas proximidades da nave.
Em sua voz notava-se a preocupação com o destino da nave. Rhodan pedira-lhe que o avisasse assim que surgisse qualquer novidade. Já não tinha a menor dúvida de que aqueles seres energéticos estavam em condições de absorver parte da energia dos envoltórios energéticos, fazendo com os respectivos geradores deixassem de produzir energia.
Manteve os três carros bem juntos e iniciou a subida. O paredão que se erguia diante deles era tão alto que a luz dos holofotes não chegava até a linha da cumeeira. Face ao ângulo formado pelo encontro dos dois flancos da montanha, porém, Rhodan concluiu com alguma segurança que o obstáculo não teria mais que uns mil e quinhentos metros de altura.
O estado de espírito dos ocupantes do carros era singular. Tanaka Seiko ainda sentia uma dor de cabeça martirizante, pois a gigantesca esfera luminosa seguia a caravana sem um instante de intervalo. Rhodan se refugiara naquele espírito implacável e cônscio dos objetivos que lhe era peculiar nas situações críticas. Reginald Bell e o major Deringhouse demonstraram a mesma implacabilidade, à qual acrescentaram um certo espírito galhofeiro e despreocupado Fazia horas que Crest não proferira um única palavra. Parecia convicto de se encontrarem no caminho que conduzia diretamente ao inferno, tal qual Anne Sloane que estava sentada no chão do carro, totalmente indiferente a tudo, olhando para a frente com os olhos mortiços e desinteressada de tudo.
O major Nyssen era um homem estranho. Rhodan nunca o conhecera por esse lado. No aspecto exterior assemelhava-se bastante a Reginald Bell. Durante as últimas horas desenvolvera uma elevada capacidade de planejamento; revelando um certo entusiasmo, mas sem perder o sentido da realidade e, mais que tudo, sem superestimar as possibilidades da expedição, ficava quebrando a cabeça sobre a maneira de dar cabo desses seres energéticos que, juntamente com as condições atmosféricas gravitacionais adversas reinantes em Gol, pareciam se transformar no maior perigo para a Stardust-III.
Nyssen, que realizava verdadeiras discussões com Rhodan através do intercomunicador, ofereceu este resumo:
— Não poderemos enfrentá-los com nossas armas pesadas. Esses sujeitos devoram energia da mesma maneira como algumas pessoas devoram um bolo. Devemos bolar uma coisa inteiramente nova; ou então teremos de encontrar uma forma de energia que lhes dê indigestão.
— Uma passagem — gritou subitamente Deringhouse entusiasmado. — Ali há uma passagem.
Nas últimas duas horas os carros haviam subido cerca de oitocentos metros, Era um caminho difícil; aliás, era necessário uma boa dose de otimismo para que se pudesse falar num caminho.
Aqui, numa altitude de oitocentos metros, aquela passagem, que, sob a forma de uma fenda, cortava o paredão quase exatamente na direção sul, parecia-lhes um presente do céu. Rhodan entrou a toda com seu carro, procurando o caminho. Crest seguiu-o, sempre preocupado em não deixar que a distância entre os dois veículos aumentasse para mais de vinte e cinco metros. Reginald Bell seguiu na retaguarda.
— Quero ver esse monstro de cinqüenta metros espremer-se por aqui — observou.
Referia-se à esfera energética. Se é que acreditava que a estreiteza da fenda obrigaria a mesma a desistir da perseguição aos carros, logo sofreu uma decepção.
A esfera desmanchou-se numa figura que a geometria ainda não definiu. Tinha mais de cento e cinqüenta metros de altura; em compensação era bastante estreita. Dessa forma, aquilo que há pouco fora uma esfera saltitou atrás dos carros como se fosse um gigantesco fogo-fátuo.
Depois de uma reta de algumas centenas de metros, a passagem começou a descrever curvas. Rhodan reduziu a velocidade e adaptou a trajetória do veículo às curvas fechadas, sempre preocupado de que mais adiante a passagem pudesse estreitar-se a ponto do carro não poder prosseguir.
Se isso acontecesse, teriam de voltar em marcha à ré, pois na fenda não havia espaço para manobras.
Mas nada disso aconteceu. A fenda atravessou a montanha numa extensão de cerca de dois quilômetros, mantendo sempre a mesma largura. Subitamente, sem que ninguém o tivesse previsto, abriu-se para a encosta sul da montanha, que descia quase na vertical.
Rhodan parou. Girou o holofote e examinou o quadro que se desenhava na tela.
— Nada! — resmungou Deringhouse, que olhava sobre seu ombro. — Mas podemos avançar mais dois metros.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. Com alguns solavancos cuidadosos, o carro foi empurrando o nariz para fora da fenda.
Imediatamente o campo de visão ampliou-se.
A primeira coisa que chamou a atenção de Rhodan foi uma faixa de rocha, que, num declive suave, partindo da fenda, estendia-se pelo paredão, na direção leste — oeste. Com uma manobra cuidadosa seria possível colocar o carro sobre a mesma e descer. Descer para onde?
Rhodan dirigiu o holofote para o sul. O mesmo desenhou um bloco branco na escuridão, perdendo-se no ponto em que seu alcance chegou ao fim, sem revelar qualquer detalhe do terreno.
— É o fundo de um vale — disse Rhodan. — A profundidade é tamanha que daqui não conseguimos ver nada.
— O senhor se importaria de desligar o holofote por um instante? — perguntou Deringhouse.
Rhodan olhou-o perplexo.
— É claro que não! Para que tanto segredo?
Desligou o holofote.
Um instante depois, quando o último tremeluzir da intensa luz infravermelha se havia apagado nas telas, Rhodan sabia qual era o objetivo de Deringhouse.
Uma confusão fantasmagórica e inextrincável de figuras luminosas cobriu a tela. Eram seres luminosos — pelo menos mil — cada um com um formato diferente. Só os olhos penetrantes de Deringhouse conseguiram percebê-las na luz ofegante do holofote.
— É o Vale dos Espíritos — murmurou Deringhouse.
Subitamente sua voz assumira uma tonalidade irônica, mas não era tão irônica que não se percebesse o quanto o quadro o deprimia.
— O que houve? — soou a voz de Bell, vinda do último carro da fila. — Por que não prosseguem? Onde fica o Vale dos Espíritos?
— Aqui mesmo! — respondeu Rhodan. — Bem à nossa frente. Tome cuidado com a manobra quando chegar ao lugar em que me encontro agora. Adiante!
A faixa de rocha revelou-se um caminho muito cômodo, que até parecia ter sido construído por alguém que previa que aquela expedição composta de três carros-esteira acabaria aparecendo por ali.
Enquanto avançavam pela borda de pedra, Rhodan manteve o holofote ligado, para enxergar o caminho. Por isso seus olhos deixaram de perceber os seres luminosos.
Mas não se esqueceu deles. A dúvida era se, ao se depararem em grande número com três veículos solitários, manteriam uma atitude tão pacífica como aquela figura hipergeométrica que continuava a saltitar atrás dos carros.
O paredão descreveu uma curva. Por um instante o caminho se estendia na direção sudeste, para depois retomar o rumo exato do sul. Pelos cálculos de Rhodan, a montanha que procuravam atingir não devia ficar a mais de oitenta quilômetros.
Assim que a borda de pedra havia vencido a diferença de altitude de oitocentos metros, correspondente à escalada do outro lado da montanha, ela se tornou mais larga.
Rhodan avançou o suficiente para que os outros carros pudessem sair da borda e parou.
Desligou o holofote. Sentiu-se perturbado pela luz vinda dos outros carros. Mandou que Crest e Bell também desligassem seus holofotes.
Obedeceram.
Subitamente o quadro estranho e apavorante desenhou-se nas três telas.
O imenso vale estava repleto de figuras luminosas. Era um verdadeiro exército.
Formaram seu front a uns quatrocentos metros ao sul dos três carros.
O vale era o único caminho que se abria na sua avançada para o sul. Rhodan tinha certeza de que a montanha que o fechava naquela direção era a que procuravam.
Isso significava que os carros teriam de passar entre as figuras luminosas. Até aqui haviam demonstrado qualquer hostilidade, a não ser nos casos em que absorveram a energia dos envoltórios protetores da Stardust-III. Mas acontece que só haviam aparecido sozinhos ou em pequeno número. Em sã consciência não se poderia dizer que atitude tomariam milhares delas.
Rhodan conferenciou por algum tempo com os condutores dos outros veículos.
A resposta de Bell era terminante:
— Teremos de passar! Quanto antes, melhor!
Crest tomou esta decisão:
— Decida o que devemos fazer, Rhodan. Seguirei suas instruções.
Rhodan resolveu forçar passagem. Mas achou conveniente dar uma certa cobertura de retaguarda à expedição. Como Tanaka Seiko tivesse sido colocado fora de ação em virtude da dor de cabeça, Deringhouse recebeu ordem para estabelecer contato com a Stardust-III e informar Thora a respeito da situação.
Deringhouse desligou o sinal de chamada e aguardou a confirmação. Mas esta não veio. Voltou a tentar, mas ainda não obteve outro resultado.
Rhodan indagou junto aos outros carros. Estes haviam captado perfeitamente a mensagem de Deringhouse.
Não havia problema com a emissão.
Era a Stardust-III que não respondia mais.

5



Thora acompanhara a viagem dos carros enquanto estes subiam a encosta norte da montanha e atravessavam a passagem, na medida em que isso era possível face à deficiência das comunicações. Na montagem dos veículos procuraram-se evitar quaisquer instalações supérfluas, como por exemplo as de transmissão de imagens. Cada centímetro quadrado de espaço e cada grama de peso fazia diferença. Rhodan achara que seria um conforto excessivo se as pessoas que falassem entre si pudessem contemplar o rosto umas das outras.
Prendera a respiração quando Rhodan passou pela estreita borda de rocha e quase perdeu o controle dos nervos quando Crest fez a mesma coisa. E suspirara bastante aliviada quando subitamente a passagem se abriu diante dos veículos e a escalada difícil chegou ao fim.
Acompanhara o trajeto pela passagem de pedra com base nas observações de Bell, e ouvira Deringhouse referir-se ao Vale dos Espíritos.
Foi a última coisa que ouviu. Naquele instante a Stardust-III foi palco de acontecimentos que só se diferenciavam de um fim de mundo porque no último instante surgiu uma ocorrência salvadora.
Absorta na palestra que os ocupantes dos três carros mantinham pelo intercomunicador, Thora não conseguiu saber logo em que setor da nave as coisas não estavam em ordem quando ouviu o som das sereias de alarma. Levantou-se de um salto, fitou o painel de controle com os olhos arregalados e sentiu-se tomada de pânico quando não descobriu nenhum sinal de advertência.
— Todos os aparelhos neutralizadores entraram em pane! — gritou uma voz por cima do barulho das sereias.
A voz do engenheiro revelava irritação e impaciência. O homem estava acostumado às reações instantâneas de Rhodan, mas não à lentidão de um cérebro arcônida tomado pelo pânico.
— O que vamos fazer? — perguntou Thora esbaforida.
Lembrou-se de que seu interlocutor não entendia a língua que estava falando. Repetiu a pergunta em inglês.
— Queria que a senhora me dissesse — gritou o engenheiro, que aparentemente com a falha dos geradores perdera o sentido do respeito.
— Como estão os campos energéticos?
— Continuam intactos. O campo neutralizador cessou por completo; mas posso sustentar a nave com os jatos propulsores.
As sereias pararam de uivar. Com a volta do silêncio, Thora sentiu-se livre de parte do medo e do nervosismo que a dominava.
— Continue a sustentá-la! — ordenou. — Procurarei descobrir o que está acontecendo lá fora.
O engenheiro interrompeu o contato. Thora chamou a vigilância ótica.
— Consegue ver alguma coisa?
— Não. Tudo ficou preto nas telas.
Thora ligou a grande tela de alcance global que se encontrava na sala de comando. Antes costumava apresentar um cinza homogêneo, agora oferecia um preto também homogêneo.
A arcônida correu para o receptor, onde minutos antes ouvira a palestra dos ocupantes dos carros-esteira. Não o desligara. Mas emudecera por completo, não emitindo sequer o mais leve ruído de interferência.
Thora começou a compreender que aqui se desenrolavam acontecimentos com que nunca se defrontara. Gostaria que Perry Rhodan estivesse de volta para dar-lhe algum conselho, mas ao mesmo tempo lançou uma maldição sobre ele, por ter-se atrevido a deixá-la só naquela nave imensa, em meio a um mundo povoado de monstros.
Alguém tem de sair”, foi a primeira idéia que lhe acudiu. “Temos de descobrir o que está acontecendo lá fora.”
A segunda idéia foi que ninguém se disporia a sair, e ela não poderia levar isso a mal.
O que dissera Rhodan? Não pergunte, comande.
Isso teria sido fácil há quatro anos, quando pela primeira vez se encontrou com os homens e os considerava uma raça de selvagens idiotas. Mas, agora?
O intercomunicador soou.
— Lá fora está tudo cheio de figuras luminosas.
O rosto de Wuriu Sengu, o mutante com visão raio-X, surgiu na pequena tela.
Thora fez que sim.
Lembrou-se da experiência que horas antes fizera Reginald Bell ao bombardear um ser luminoso com um desintegrador. A Stardust-III dispunha de uma série de outras armas. Talvez alguma delas se revelasse eficiente.
— Sengu, compareça à sala de comando! — ordenou Thora, dirigindo-se ao japonês.
Logo depois, ordenou às posições de combate que preparassem os desintegradores e as centrífugas neutrônicas. Quando Sengu entrou na sala, a recepção da ordem foi confirmada.
— O senhor sabe reconhecer perfeitamente a trajetória de um irradiador de impulsos térmicos — disse Thora. — Dentro de poucos segundos nossos homens abrirão fogo. Quero que me informe sobre o resultado.
Wuriu Sengu colocou-se em posição. Olhou fixamente para um ponto na parede que ele mesmo escolhera. Quem não o conhecesse e não soubesse que, graças a certos dons desenvolvidos, o japonês era capaz de regular sua percepção ótica de forma tal que para ele a estrutura cristalina de qualquer tipo de matéria se tornava transparente, pensaria que se tratasse de alguém que refletia profundamente sobre algum problema.
— Fogo! — ordenou Thora.
Olhou para Sengu.
Durante alguns minutos este fitou a parede. Thora viu que o suor começou a gotejar em sua testa. Estava a ponto de fazer-lhe uma pergunta, mas sabia que não devia desviar sua atenção.
Subitamente o japonês tombou para a frente.
— Pare! — fungou. — Pare imediatamente!
— Suspender fogo! — disse Thora.
Sengu atirou-se numa poltrona. Sua respiração era tão rápida e violenta que levou algum tempo para proferir a primeira palavra.
— Eles engolem tudo. Os raios térmicos penetram no corpo deles, mas não o atravessam. A luminosidade torna-se mais intensa, e o tamanho cresce. Até parece que devoram a energia liberada pelos disparos.
Sengu não sabia um detalhe que Thora já conhecia: poucas horas atrás Bell realizara uma experiência semelhante.
Refletiu se devia fazer outra experiência com o radiador de nêutrons ou não. Os nêutrons eram corpúsculos, não uma forma de energia propriamente dita. Quem sabe...
— Atenção! — gritou Sengu. — Estão se aproximando.
Thora sentiu-se terrivelmente desamparada.
— Estão fazendo o quê? — perguntou perplexa.
Descobriu num instante. Um tremendo abalo sacudiu toda a nave. Thora caiu ao solo. Passado o primeiro susto tentou levantar-se, mas percebeu que seu peso aumentara pelo menos três vezes.
Afundado na poltrona, Sengu olhava fixamente através da parede.
— Estão bem perto — fungou. — Encontram-se sobre o casco da nave.
Uma voz gritou pelo intercomunicador:
— Os propulsores só trabalham com setenta por cento de sua potência normal! Os campos neutralizadores no interior da nave estão mais fracos!
Era o engenheiro; desta vez havia mais medo que impaciência em sua voz.
Thora levantou-se e foi-se arrastando até o microfone.
— Procure decolar! — disse num sopro. A enorme pressão fez com que seu corpo pesasse como se estivesse encerrado numa pesada blindagem.
As luzes começaram a piscar no painel de controle, quando o engenheiro assumiu a direção da nave na sala de controle técnico. Thora fitou as luzes, como se nunca as tivesse visto; aguardava o verde tranqüilizador da decolagem.
E veio. Por um, dois, três segundos a luminosidade intensa surgiu no painel, depois apagou-se; a nave não se moveu.
Thora soltou um grito desarticulado de pavor.
— Os propulsores estão falhando! — anunciou o engenheiro. Ao que parecia, a certeza de não poder fazer mais nada restituíra-lhe a calma.
Wuriu Sengu soltou um gemido abafado.
— Tornaram-se gigantescas, gigantescas...
— Temos de fazer alguma coisa! — gritou Thora.
Deu um passo em direção a Sengu.
Nesse preciso instante aconteceu alguma coisa. Thora foi arrastada para a frente e levou a segunda queda no espaço de poucos minutos.
Fora uma queda violenta. Levantou-se um tanto perturbada e olhou para Sengu. O movimento já não lhe fazia doer o pescoço. Levantou-se e percebeu que a pressão martirizante não existia mais. Seu corpo voltara ao peso normal.
O japonês sorriu.
— Foram embora, madame — disse com a voz tranqüila. — Bem de repente.
Thora lançou os olhos em torno, como se procurasse o motivo do milagre em algum lugar da sala de comando.
Seu olhar caiu sobre a tela oscilográfica do sensor estrutural. Viu nela a luminosidade emitida pela linha sinuosa projetada pelas transmissões moduladas do desconhecido que fizera Rhodan lançar-se nessa aventura arriscada.
Lançou um olhar automático para o relógio.
Como sempre, a transmissão fora realizada na hora exata.

* * *
Rhodan decidiu suspender a expedição e voltar à Stardust-III, mas nesse instante a nave voltou a chamar. Ligara o carro e havia virado a direção para voltar, quando Deringhouse deu um grito atrás dele:
— Estão chamando!
— ...chamando Rhodan. Stardust-III chamando o comandante Rhodan — disse o intercomunicador.
Era a voz de Thora. Rhodan não se lembrava de já a ter ouvido tão apática. Num gesto impaciente puxou o microfone para seu lado:
— Aqui é Rhodan. O que houve com vocês?
O ruído que precedeu a resposta tanto podia ser um suspiro de alívio como uma perturbação atmosférica.
— Fomos atacados — disse Thora, e deu um relato tão detalhado quanto conciso dos acontecimentos dos últimos minutos.
Rhodan interrompeu-a assim que havia entendido a ligação entre os fatos.
— Está em condições de decolar? — perguntou.
— No momento estamos.
— Pois decole e mantenha-se até segunda ordem numa altitude segura, talvez uns dois mil quilômetros. Não acredito que as figuras luminosas se arrisquem até lá.
— Muito bem. Mas para que tudo isso?
— Encontramo-nos num vale. Assim que eu descobrir que clube de seres luminosos é este que se instalou aqui, quero que a Stardust pouse neste mesmo lugar. Fornecerei as coordenadas.
Thora parecia deprimida, mas Rhodan não se importou.
— Mantenha contato ininterrupto conosco — recomendou.
Rhodan já formara sua opinião sobre o incidente que por pouco não acarretou a destruição da Stardust. Não havia qualquer explicação racional para a súbita retirada dos seres luminosos, a não ser que se recorresse à coincidência temporal entre essa retirada e a transmissão do desconhecido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html