— Nunca se
esqueça de que além de mim você é o único homem que dispõe do saber dos
arcônidas. A Humanidade não está em condições de perder nós dois ao mesmo
tempo.
Designou o
major Deringhouse e o japonês Tanaka Seiko para acompanhá-lo.
O carro de
esteiras saiu da comporta inferior, que num pouso normal se situaria ao nível
do solo. Rhodan assumiu a direção. O rastreador ótico, pelo qual se orientava,
estava acoplado a um holofote de luz infravermelha. O raio invisível do mesmo,
fortemente enfeixado, rompia a escuridão reinante em Gol a uma distância
superior a um quilômetro, projetando quadros nítidos.
O major
Deringhouse controlava o localizador de microondas, enquanto Tanaka Seiko
desempenhava primordialmente as funções de telegrafista.
Na tela de
trezentos e sessenta graus Rhodan viu quando as imensas escotilhas da comporta
fechavam-se atrás dele. O metano líquido penetrara na comporta e evaporara-se
no calor ali reinante. O gás extremamente perigoso foi bombeado e, formando
bolhas enormes, subiu à superfície do oceano de metano, por onde o carro
procurava abrir caminho em direção ao chão firme.
Rhodan fez o
holofote efetuar uma rotação completa e percebeu que o carro funcionava como
submarino. A extremidade superior do envoltório gravitacional elíptico ainda
estava coberta por oito metros de metano líquido.
Rhodan
procurou imaginar o que aconteceria se a temperatura ambiente baixasse
subitamente e o metano voltasse a endurecer.
Mas as
dificuldades que teve de enfrentar na direção do veículo logo lhe tiraram os
pensamentos inúteis da cabeça. O chão em que se apoiavam as esteiras era
pegajoso, e o veículo só saía do lugar se o mecanismo propulsor fosse regulado
para a potência máxima. Dessa forma o veículo desenvolvia uma velocidade de
cerca de trinta quilômetros por hora.
Rhodan
manteve-se numa direção que, pelas medições magnéticas realizadas a bordo da
Stardust-III, era definida como o sul. Era ali que se erguia o maciço montanhoso
onde devia estar alojado o emissor que projetara os modelos incompreensíveis
sobre a tela do sensor estrutural.
Dali a uns
quinze quilômetros o solo começou a entrar em aclive. A altura da massa de
metano líquido que cobria o carro de esteira diminuía progressivamente. Tanaka
Seiko transmitiu as primeiras mensagens rotineiras para a nave. Foram recebidas
e confirmadas sem problemas.
Mais alguns
minutos, e o veículo emergiu do oceano de metano. Os geradores uivaram para
levá-lo acima do barranco íngreme e colocá-lo em solo firme.
Rhodan parou
e fez o holofote girar.
— Olhe isso!
— disse.
Parara o
holofote que iluminava uma agulha solitária em forma de rocha, que se erguia
bem alto. Ficava a apenas duzentos metros da margem do lago do qual o carro
acabara de emergir. No pé da agulha seu diâmetro era de cerca de cinco metros.
A agulha estreitava-se progressivamente, terminando a um quilômetro de altura
numa extremidade pontuda.
— O que é
isso? — disse Deringhouse em tom de espanto. —- Está se movendo, não está?
Ninguém
respondeu.
Realmente a
agulha se movia. Parecia encolher. Diminuía visivelmente, e seu diâmetro
diminuía na mesma proporção. Rhodan olhou para o relógio.
Dali a menos
de seis minutos a agulha havia desaparecido. No lugar em que antes se via
aquela formação agora se estendia a planície reluzente, que só terminava ao pé
do maciço montanhoso, acerca de vinte quilômetros de distância. Rhodan deu
partida no veículo.
— O que foi
isso? — perguntou Deringhouse com um gemido.
Rhodan riu.
— Um bloco de
gelo — disse por sobre o ombro, superando o zumbido dos motores.
Deringhouse
lançou-lhe um olhar perplexo.
— Trata-se
de metano congelado — explicou Rhodan. — Parece um pedaço de rocha mas quando a
temperatura se eleva acima do ponto de fusão do metano, vai desaparecendo aos
poucos. Se tivesse prestado atenção, teria notado os riachos de metano que
corriam para todos os lados.
Dali a meia
hora atingiram o promontório. No caminho encontraram outras formações rochosas
que desapareceram diante de suas vistas.
A natureza
estava em movimento. Na opinião de Rhodan não havia nada por ali que não fosse
formado de metano ou amoníaco congelados, estando sujeito aos efeitos
deformadores de pequenas oscilações de temperatura.
Rhodan
percebeu as dificuldades que um ambiente destes devia representar para a
orientação de quem nele tivesse de deslocar-se. O único recurso seguro era a orientação
pelas coordenadas. Rhodan mandou que Tanaka transmitisse mensagem neste sentido
à Stardust-III.
O importante
era saber de que era feito o maciço montanhoso em. que estava alojado o
misterioso emissor. Não era provável que um complexo gigantesco como este se
formasse espontaneamente com massas de atmosfera congelada. Era de supor que se
tratasse de um trecho da verdadeira superfície de Gol, que se elevava acima do
gelo, criando uma área muito menos sujeita a alterações.
“Só a montanha pulsará por ti!”
Rhodan
recordou a última frase da estranha mensagem traduzida por Tanaka Seiko.
Não se daria
o nome de montanha a alguma coisa que não o fosse realmente.
O carro de
esteira foi contornando lentamente algumas colinas que se estendiam diante do
complexo; as sapatas moíam o solo. As encostas da colina refletiam o brilho
infravermelho que Rhodan observara em toda parte: tratava-se de neve e gelo.
Depois da
colina surgiu um trecho de terreno plano; mas atrás dela erguia-se um paredão
de rocha quase vertical, que podia ser tudo menos convidativo. Ao que tudo
indicava não havia qualquer brecha ou reentrância. A parede era compacta;
Rhodan procurou descobrir um caminho que lhe permitisse contornar o obstáculo.
Girou o
holofote de um lado para o outro e reduziu a velocidade do carro. Algumas
centenas de metros mais adiante o facho de luz passou por cima do paredão, e
subitamente desapareceu.
Rhodan ficou
perplexo; repetiu o jogo. O facho luminoso deslizou lentamente pelo paredão
pondo à vista gretas, fendas e as irregularidades que costumam ser encontradas
em formações desse tipo.
Efetuando um
giro de apenas um grau a luz apagou-se. Não havia o menor indício de que o
paredão terminava naquele ponto fazendo com que o facho do holofote penetrasse
na noite cinzenta de Gol até o limite de seu alcance.
O paredão
estava ali; apenas a luz do holofote não aparecia nele.
Rhodan não
teve tempo para espantar-se. O pequeno equipamento termonuclear que fornecia a
energia necessária ao potente holofote emitiu um zumbido. Rhodan inclinou-se
para verificar o que estava acontecendo. Uma faísca azulada de uns vinte
centímetros de comprimento saltou do cabo que ligava o pequeno gerador e o
botão do painel que comandava o holofote. Por alguns instantes o cheiro
desagradável do isoladores queimados encheu o carro; logo foi expelido pelas
bombas de sucção.
O holofote
apagou-se de vez e no painel surgiu uma luz vermelha, que indicava a existência
de um defeito no mesmo.
Rhodan
compreendeu o perigo da situação. Dali em diante teria de viajar às cegas. Os
localizadores manipulados por Deringhouse reagiriam aos obstáculos forma-los de
metano ou amoníaco congelados de forma quase idêntica à do restante da atmosfera
do planeta.
Fez
meia-volta com o carro.
Deringhouse
e Seiko haviam acompanhado atentamente todos os detalhes do acidente. Nenhum
deles parecia compreender o dilema causado pela inutilização do holofote.
Rhodan não procurou esclarecê-los. De qualquer maneira perceberiam quando a
primeira rocha de gelo desabasse sobre eles, bombardeando-os com os blocos que
dela se desprenderiam.
3
— Não sei
decifrar isto — disse Crest bastante contrariado e desligou o projetor. — Ao
que parece o desconhecido que pretendemos agarrar tem um humor muito bizarro.
Bell deu de
ombros.
— E daí? Ele
está guardando um segredo bastante precioso. Se quisermos possuí-lo, não
devemos nos perturbar com as bizarrices de seu detentor. Não quer tentar mais
uma vez?
Crest
suspirou.
Pôs-se a
andar em direção ao projetor; nas depois de ter dado dois passos cambaleou
subitamente e teve de atirar-se numa poltrona para não cair.
No mesmo
instante Bell perdeu o equilíbrio. Balançou com os braços atirados para o alto;
suas costas largas acabaram batendo ruidosamente contra a parede-painel do
telegrafista.
As sereias
de alarma romperam o silêncio reinante na sala de comando.
— O que foi
isso? — disse Bell com a voz ofegante.
Crest
levantou-se e contemplou atentamente o chão. Lançou os olhos em torno e viu
sobre a mesa um cilindro de plástico, do tamanho de um lápis, que servia de
sonda para condutos ocos. Colocou-o no chão e virou-o de um lado para o outro.
Depois de alguns segundos soltou-o.
O cilindro
pôs-se em movimento. Rodando cada vez mais rápido, só parou de encontro à
parede.
— Era o que
eu pensava! — exclamou Crest. — A nave está em posição inclinada.
Bell
recuperou a atividade. Seus dedos deslizaram rapidamente sobre o teclado do
intercomunicador; dentro de dois segundos estabeleceu contato com o engenheiro incumbido
do envoltório energético.
— Estou no
controle — disse o engenheiro apressadamente e bastante alto para que Bell pudesse
ouvi-lo com todo o barulho das sereias. — Pelo que consegui apurar, dois dos
geradores gravitacionais ficaram sem carga. Por isso o envoltório neutralizador
tornou-se mais fraco de um lado ou falhou por completo. Por isso afunda-mos.
— Ficaram
sem carga? — gritou Bell. — Será que já voltaram a funcionar normalmente?
— Sim senhor.
Bell
desligou. No mesmo instante as sereias cessaram de uivar. Bell foi ao assento do
piloto e estudou os registros. A nave afundara, não havia a menor dúvida. Uma
das colunas de sustentação penetrara mais de vinte metros no solo, e o chão da
nave apresentava uma inclinação de pouco mais de um grau.
Bell não
teve dificuldades com a correção. Sentado junto ao painel de comando do piloto,
podia aumentar a potência de alguns jatos o suficiente para erguer a nave à
posição normal, para depois reduzi-la ao valor anterior. Foi o que fez:
constatou que tudo funcionava conforme era esperado. O incidente parecia obra
de fantasmas; cessara tão subitamente como havia começado.
Mas Bell
sentiu-se nervoso por não encontrar explicação para a falha dos geradores.
Dominava todo o saber dos arcônidas, mas não conseguia atinar com o motivo por que
dois geradores gravitacionais, cujo funcionamento era impecável, falharam por
alguns segundos e voltaram a trabalhar normalmente.
Crest
olhou-o.
— O senhor
também não sabe explicar, não é? — perguntou abatido.
Bell sacudiu
a cabeça; parecia furioso.
— Não tenho
a menor idéia!
O
intercomunicador emitiu um som estridente.
— Vigilância
ótica ao comandante. Faça o
favor de assumir o setor C. Acho que vale a pena dar uma olhada.
Muito espantado,
Bell ligou a tela de vigilância ótica.
A tela
iluminou-se. Desenhos cinza-escuros, disformes desfilaram diante de Bell.
— Não... —
principiou.
“Não vejo nada”, ia dizer; mas nesse
instante viu. Era uma formação de contornos
indefinidos, que emitia uma luminosidade fraca e deslizava pelas trevas
cinzentas como se fosse um véu. Parecia uma nuvem de fumaça iluminada ou
então...
Bell não
encontrou qualquer termo de comparação. Além disso, havia outra coisa que lhe
causava uma impressão muito mais profunda naquela formação luminosa.
Lá fora,
onde a mancha luminosa desenvolvia sua atividade fantasmagórica, sobravam
ventos e reinavam pressões que o cérebro humano nem conseguia conceber. Uma
nuvem de fumaça ou de neblina — ou qualquer coisa com que se parecesse aquela
coisa — dentro de poucos segundos teria sido desfeita e tangida para longe pela
tempestade que rugia ininterruptamente.
Mas aquela
mancha balançava, estendia-se e voltava a encolher-se. As fúrias reinantes na
atmosfera de Gol não pareciam afetá-la nem um pouco.
Bell fitou a
mancha, até que desaparecesse.
— Obrigado,
vigilância ótica — disse em tom indiferente. — Continue de olho naquilo.
Preferiu não
olhar para Crest. Olhou fixamente para o chão.
— Não sei se
vale a pena quebrar a cabeça por isso — disse Crest depois de algum tempo. — As
condições aerodinâmicas desta atmosfera são tão estranhas que facilmente podem
surgir fenômenos que de início nos parecem misteriosos e inexplicáveis, embora
na realidade sejam bem simples. Aquilo ali, por exemplo, bem pode ter sido uma
forma um tanto exótica de descarga elétrica, um tipo de trovoada.
Bell fez que
sim.
—
Naturalmente — disse em tom distraído. — Se considerarmos isoladamente a mancha
luminosa, pode ser verdade. Mas, se recordarmos que poucos segundos antes dois
dos nossos geradores fizeram uma palhaçada para a qual não encontramos a menor
explicação, a coisa muda de figura.
Cortou a
resposta de Crest com um gesto.
— Já sei o
que vai dizer: talvez seja coincidência.
— Quer saber
de uma coisa? Vamos aguardar. Se isso for obra de forças metódicas, ainda temos
de lidar com elas por várias vezes. Por enquanto não parecem dispor de energia
suficiente para criar um perigo real para nós.
Olhou para o
relógio.
— Já está na
hora de outra mensagem do carro — resmungou.
A mensagem
chegou poucos segundos depois.
Tanaka Seiko
avisou que o holofote de luz infravermelha deixara de funcionar e o carro
procuraria encontrar o caminho de volta numa viagem às cegas. Rhodan solicitava
a emissão de impulsos goniométricos pelos quais pudesse se orientar.
Bell
providenciou os impulsos e voltou-se para Crest.
— Há trovoadas
por toda parte — disse com uma ligeira ironia na voz. — O raio até caiu no
holofote.
* * *
A tela era
praticamente inútil; apesar disso Rhodan não a desligou. Enquanto guiava
cuidadosamente o carro na direção indicada pelos impulsos goniométricos
emitidos pela Stardust-III, contemplava o cinza sem contornos do ambiente,
absorto em pensamentos.
Sabia que
uma rocha de gelo não seria visível, mesmo que se encontrasse bem à sua frente.
A densidade da atmosfera de Gol era tamanha que os raios solares, por mais
intensos que fossem, eram absorvidos por completo depois de terem penetrado
nela alguns milímetros.
— Os sinais
goniométricos estão se tornando mais fracos — avisou Deringhouse.
Rhodan
conhecia o fenômeno. Parou o carro e voltou um pedaço. Prosseguiu até que
Deringhouse anunciasse que os sinais voltavam a ser captados com a mesma
intensidade.
Depois
dobrou à direita e voltou a ir para a frente. A velocidade do carro não
ultrapassava a de uma pessoa andando. Deringhouse disse em tom tranqüilizador:
— Tudo em
ordem; podemos prosseguir.
Constataram
que os impulsos goniométricos eram mais sensíveis aos obstáculos que o
rastreador manipulado por Deringhouse, que não distinguia entre o metano
sólido, líquido e gasoso. Toda vez que um obstáculo se interpunha entre o
veículo de esteira e a Stardust-III, os impulsos diminuíam de intensidade. Da
primeira vez Deringhouse não notara isso e o carro foi de encontro a um bloco
de gelo; felizmente desenvolvia pouca velocidade. Dali em diante Deringhouse
começou a prestar muita atenção à intensidade dos impulsos.
Tanaka Seiko
estava sentado diante do aparelho de telecomunicação. Captava com toda nitidez
os impulsos goniométricos emitidos pela Stardust-III e percebia as diferenças
de intensidade dos mesmos, embora não com a mesma precisão dos instrumentos de
Deringhouse.
Era a única
coisa que Tanaka ouvia. Além dos impulsos só se percebia o farfalhar comum da
atmosfera.
Mais nada.
Realmente
não haveria mais nada?
Tanaka não
procurou saber se aquele zumbido estranho era causado exclusivamente pelas
perturbações atmosféricas. A intensidade destas costumava ser variável, segundo
as leis da estática: às vezes eram mais fortes, outras vezes menos.
Também agora
Tanaka constatou essas variações. Mas por cima de tudo o estranho zumbido
continuava com a intensidade constante.
Refletia se
devia chamar a atenção de Rhodan para o fenômeno, quando o zumbido se
transformou num rugir que lhe causou dor de cabeça.
No mesmo
instante Rhodan deu um salto.
Na tela
cinzenta via-se uma mancha luminosa. De início era pequena e circular, mas logo
aumentou, derramando-se para todos os lados.
Com um
solavanco Rhodan fez o carro parar.
— Ai! —
gemeu Tanaka.
— O que
houve?
— Estou...
estou captando alguma coisa. É um ruído muito forte. Minha cabeça está
estourando.
— Agüente
firme! — murmurou Rhodan, fitando a mancha luminosa.
Teve uma
idéia. Retirou o filtro de luz infravermelha do canal de recepção e viu a mancha
desaparecer. Recolocou o filtro, e a mancha voltou a aparecer.
— É em
infravermelho! — resmungou.
As antenas
do rastreador controlado por Deringhouse haviam sido montadas em cima do carro.
— A antena
ficou incandescente — disse Rhodan, sem tirar os olhos da tela.
Deringhouse
não respondeu. Uma antena não poderia ficar incandescente. Mas ele mesmo vira
os efeitos produzidos sobre a tela.
— Irei em
direção dele! — disse Rhodan com a voz rouca. — Deringhouse, preste atenção aos
sinais goniométricos.
O motor
começou a zumbir, o carro arrancou. Avançava metro por metro, aproximando-se
daquela misteriosa mancha luminosa. Ao menos de início parecia que era assim.
Mas, a partir de certo instante, o tamanho da mancha permaneceu inalterável.
Parecia que se afastava do carro à medida que este procurava aproximar-se dele.
Rhodan
avançou mais algumas centenas de metros, depois parou.
— Não
adianta! — resmungou desapontado. — Está fazendo pouco caso de nós. Talvez só
esteja ali para nos enganar. Deringhouse, qual é a direção?
— Zero,
zero, oito.
— Nenhuma
dificuldade?
— Ao que
parece, nenhuma.
— Qual é a
distância?
— Faltam
dois mil metros. Gastaram perto de meia hora para percorrer esses dois mil
metros.
Quando o
carro mergulhou no lago de metano, Rhodan teve a impressão de encontrar-se no
jardim de sua casa. Mergulhou numa manobra elegante e dirigiu constantemente em
direção à comporta da Stardust-III, onde Bell mandara instalar um holofote de
alta potência.
Assim que as
escotilhas da comporta fecharam-se atrás deles e as enormes bombas começaram a
trocar cautelosamente o perigoso metano por lufadas de ar respirável, sentiram
que o perigo ficara para trás.
Desceram do
carro um tanto cansados, subiram pelo elevador antigravitacional e dois minutos
depois viram-se na sala de comando.
* * *
Rhodan
mantinha-se de costas para as pessoas que prestavam atenção às suas palavras.
Eram Bell, Crest, Thora e os dois majores, Deringhouse e Nyssen.
— Acho que
sua teoria da trovoada é excelente, Crest — disse. — Acontece que só serve... —
virou-se sobre os calcanhares e fitou o arcônida — só serve para tranqüilizar a
tripulação. Sabemos perfeitamente que as coisas e os fenômenos com que nos
defrontamos não são casuais.
— Não diga!
— respondeu Crest. — Como pode afirmar isso?
— Segundo as
explicações de Tanaka — respondeu Rhodan prontamente — a mancha luminosa que
vimos de dentro do carro emitiu um tipo de hiper-radiação. Tanaka sabe
distinguir essas radiações de uma simples emanação eletromagnética através da
intensidade da sua dor de cabeça. Não existe nenhuma emanação eletromagnética
de que resultem hiper-radiações.
Ficou
andando de um lado para outro. Seus ouvintes seguiam-no com os olhos curiosos.
— Há outro
detalhe — prosseguiu Rhodan. — Alguma coisa lá fora estragou meu holofote. Tive
a impressão de que a energia foi literalmente sugada do aparelho. Isso provocou
a sobrecarga dos condutores, que se fundiram.
“Alguns
minutos depois um ser luminoso encontrou-se conosco na solidão deste planeta,
ser este que emitia radiações infravermelhas, isto é, funcionava na mesma faixa
espectral que nós. Além disso...”
— Será que o
senhor não está tirando uma conclusão apressada? — interveio Thora. — Fala em
seres luminosos! Isso significa que na sua opinião essas coisas são seres?
— Aguarde um
instante — pediu Rhodan. — Quero acrescentar mais uma coisa. — Deringhouse
procurou localizar a coisa através do goniômetro. Não conseguiu estabelecer
qualquer reflexo na tela, mas a antena esquentou até a incandescência. Estou
convencido de que teríamos assistido ao mesmo fenômeno que se verificou com o
holofote, se Deringhouse não tivesse desligado logo o aparelho.
De pé, com
os braços cruzados nas costas, fitou seus ouvintes um por um. Quando voltou a
falar, sua voz era áspera e insistente:
— Para todos
os incidentes que tivemos, desde a oscilação de nosso envoltório energético,
ocorrida pouco antes do pouso, até o aquecimento da antena do goniômetro, só
existe uma explicação plausível. Ele, ou alguém que se encontra neste planeta,
possui a capacidade de absorver energia de qualquer espécie, e faz um uso bem
extenso da mesma.
Houve uma
pausa. Bell achou que a mesma se prolongava demais.
— Será que
devemos supor — disse — que essa coisa, ou esse alguém, é um ser vivo, talvez
mesmo inteligente?
Rhodan
sorriu:
— Esta é uma
pergunta que teremos de enfrentar. Pode ser respondida em poucas palavras, mas
nem por isso a resposta se tornará compreensível. Tanaka constatou que esses seres emitem hiper-radiações. E estas
só podem ser produzidas por quem pertença, ao menos em parte, ao espaço
superordenado. Estaríamos cometendo um atentado contra o princípio da lucidez
científica se nessas formações procurássemos imaginar alguma coisa. Sabemos que existem. Poderemos estudá-las
sempre que houver possibilidade para isso. Se tivermos sorte talvez consigamos
comprovar sua existência através dos símbolos da matemática arcônida.
— “É só.
Peço-lhes que voltem aos seus postos. Teremos de refletir um pouco e realizar
alguns cálculos. Se acontecer algo de importante, avisarei.”
Nyssen e
Deringhouse levantaram-se e saíram. Reginald Bell continuou imóvel. Crest fez
menção de levantar; mas com um suspiro voltou a cair na poltrona. Thora fitou
Rhodan com seus enormes olhos vermelhos.
— Não se
esqueça de uma coisa — disse em tom pensativo — o senhor acaba de falar em
seres que vivem num espaço superordenado. Não sei se os homens da tripulação,
mesmo que sejam majores, têm um conhecimento de hipergeometria que lhes permita
perceber que a palavra superordenado não exprime uma relação de valores.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Muito
obrigado pela recomendação. Não me esquecerei.
Sorriu.
— Acontece
que a palavra indica uma relação de valores — disse bem baixo, como se
estivesse falando para si. — Conseguimos realizar uma transição, sabemos
modular as hiperondas e realizar emissões com elas. Mas não temos a menor idéia
de como lidar com um ser que habita o espaço superordenado. Alguém que viva num
espaço de n dimensões
subtrai-se a um ataque pelo simples fato de o atacante viver num espaço de n-1 dimensões.
Crest acabou
levantando.
— Será que a
esta hora já confessa que seria mais razoável desistir da expedição?
Rhodan
virou-se abruptamente.
— Nada
disso! — respondeu em tom áspero. — Nem penso nisso. E duvido de que seja mais
razoável.
— Mas o que
pretende fazer?
Rhodan
sentou na braçadeira de uma poltrona e estendeu a mão.
— É este o
problema de sempre, Crest — disse. — Deparamo-nos com uma coisa nova, que
desperta nossa curiosidade. Queremos saber mais a respeito. Há dois motivos que
nos podem levar a desistir desse intento. Podemos chegar à conclusão de que já
sabemos tudo que queríamos saber; ou então acreditamos que a coisa pode custar
nossa vida, e às vezes já custou. — Nenhuma dessas hipóteses se verificou aqui.
Logo, continuaremos a nos esforçar para satisfazer nossa curiosidade.
Crest não
respondeu.
— Conseguiu
decifrar os dados registrados no sensor estrutural? — perguntou Rhodan.
— Não. Acho
que é impossível.
— Será que
essa conclusão não é um tanto apressada?
Crest deu de
ombros.
— O sensor
estrutural é um instrumento por meio do qual podemos perceber as distorções da
estrutura espacial, da estrutura do espaço de quatro dimensões, bem visto. É
verdade que os efeitos se localizam numa dimensão mais elevada; é esse o motivo
da grande velocidade com que os mesmos se propagam. Ao que parece, até agora
ninguém se lembrou da possibilidade de modular esses efeitos para a transmissão
de mensagem como, ao que tudo indica, foi feito aqui. Por isso mesmo o sensor
não foi concebido para captar mensagens desse tipo.
— Com um
cano de chaminé não se podem captar sinais de radar. Acho que isto é uma boa
comparação.
— Pode-se,
sim — objetou Rhodan. — Basta preparar o cano do fogão.
Crest
olhou-o com uma expressão de surpresa no rosto.
— Não vá me
dizer que pretende preparar o sensor estrutural para...
— É isso
mesmo — respondeu Rhodan. — Vou prepará-lo. Para isso precisamos de uma série
enorme de cálculos. Quem sabe se não quer me ajudar?
***
— Que Deus
guarde e proteja a matemática terrena! — disse Rhodan com um riso alegre. — A
matemática arcônida é tão avançada que para as hiperoscilações só encontra uma
expressão bem simples, que não pode ser decomposta. Já a matemática terrena tem
de seguir um processo complicado para compreender o fenômeno. Devemos construir
a fórmula, e enquanto fazemos isso, descobrimos como fazer para ampliá-la a fim
de poder aplicá-la a um fenômeno de ordem superior.
Crest fez um
gesto de aprovação, mas havia uma ligeira ironia em sua atitude.
— Gostaria
de saber o que significam suas palavras.
— O que vem
a ser uma hiperoscilação? — perguntou Rhodan. — Vamos com cuidado. É alguma
coisa que resulta de um fenômeno gravitacional sujeito às alterações
periódicas. Para produzir alterações num fenômeno gravitacional, recorremos a
um microacelerador e fazemos com que uma série de prótons dotados de
elevadíssima carga de energia esbarrem uns dos outros. A energia assim liberada
causará a formação de novas partículas.
Inclinou-se
sobre a mesa onde estavam espalhados seus cálculos.
— O senhor
deve conhecer a formalística de sua matemática, que utiliza os dados relativos
a uma partícula e, mediante uma simples inversão do sistema ultracomplexo de
coordenadas, faz dessa partícula uma antipartícula.
Crest fez
que sim. Começou a compreender a idéia de Rhodan, que o deixou perplexo.
— Pois bem.
Então já sabemos que basta acoplar ao microacelerador convencional um
acelerador destinado às antipartículas para...
— Pare! —
gritou Crest. — E não fique falando em termos de basta. Se conseguir
transformar sua teoria em prática, terá revolucionado toda a física.
Rhodan
respondeu com um ligeiro aceno de cabeça.
— Pode ser.
Por enquanto só sei de uma coisa. Para produzir antipartículas em quantidade
suficiente precisarei de tanta energia que vez por outra terei que desligar os
envoltórios energéticos.
* * *
Rhodan
arriscou. Não havia tempo a perder. O sensor estrutural repetia o mesmo
programa a intervalos regulares.
Restava
saber até onde chegaria a paciência do desconhecido. Sempre fizera questão de
que os candidatos não gastassem mais tempo na solução dos problemas do que fora
fixado por ele.
Qual seria
esse tempo no presente caso?
Rhodan
construiu o microacelerador de antipartículas. Consumiu nisso dois dias da
escala de tempo terrena.
Nesses dois
dias o setor de vigilância técnica registrou por quatro vezes uma falha de
algum dos geradores que alimentavam o envoltório energético. Os efeitos nunca
duravam mais que dezesseis segundos e, como todos estivessem preparados para o
fenômeno, conseguiu-se evitar que a Stardust-III fosse danificada.
Depois de
cada falha dessa, surgiam nas telas as manchas luminosas que, na opinião de
Rhodan, pertenciam a um Universo de ordem superior.
Três dias
depois do início dos trabalhos Rhodan pretendia iniciar a produção de
antipartículas. O microacelerador, que de certa forma funcionava como eixo
central do hiperemissor, também exercia as funções de depósito. Por anos a fio
os prótons nele encerrados eram mantidos numa órbita circular, com um conteúdo
energético constante.
Em princípio
Rhodan só precisaria uma única vez de um feixe de antipartículas, que por sua
vez fariam o novo microacelerador funcionar por anos a fio. Acontece, todavia,
que as antipartículas mostram uma tendência acentuada de combinar-se com as partículas
normais, com o que sua massa se perde por irradiação. Por isso o
microacelerador teria de ser recarregado de vez em quando.
— Se é que
isso adiantará alguma coisa... — murmurou Rhodan em conexão com estas idéias.
Por volta de
uma hora a Stardust-III ficou desguarnecida de qualquer envoltório protetor,
além daquele produzido pelos neutralizadores gravitacionais. A força dos jatos
foi reduzida. A nave afundou uns cinqüenta metros, e obteve apoio um pouco mais
firme.
Era um
empreendimento arriscado. O casco imenso da nave oferecia uma ampla área de
ataque à tormenta; o resultado era imprevisível. Rhodan mandara que todos os
tripulantes ficassem a postos e avisou-os de que a experiência seria suspensa
imediatamente se surgisse um perigo mais sério para a nave.
Ficou
aguardando.
Era uma
espera bastante desconfortável. Livre de qualquer envoltório protetor a
Stardust-III, que era muito grande para que pudesse passar despercebida à
tormenta, balançava como um navio numa tempestade.
Mas, uma
hora passou-se sem que a nave sofresse dano sério. Um único instrumento
bastante precioso quebrou-se porque, em contrário às instruções de Rhodan, não
o haviam fixado em seu suporte.
O novo
microacelerador estava pronto para entrar em funcionamento. Rhodan e Crest
embutiram-no no sensor estrutural. Sabiam que o novo círculo oscilatório,
juntamente com o anterior, estava em condições de captar e emitir radiações gravitacionais
submetidas a um processo de polarização circular, com o que o alcance do
instrumento aumentava de uma dimensão.
— Quando
será a nova transmissão? — perguntou Rhodan.
Bell olhou
para o relógio.
— Faltam
quatorze minutos. Rhodan deixou-se cair numa poltrona, acendeu um cigarro e
esperou.
— Mais dois
minutos — disse Bell, depois de algum tempo.
Rhodan levantou-se.
O cigarro queimou seus dedos. Jogou-o fora.
Quando se
viu diante do sensor estrutural, olhou para Crest com um sorriso estranho.
— Se não
funcionar, pode caçoar de mim — disse.
— Um
instante! — interveio Bell em tom impaciente.
A escotilha
abriu-se abruptamente. Thora entrou. Sem dizer uma palavra sentou perto de
Crest e também ficou à espera.
— Deve
começar agora — disse Rhodan.
E começou.
Um ponto
luminoso piscou na tela do oscilógrafo, começou a desmanchar-se e por uma
fração de segundo deu a impressão de que se perderia no mesmo modelo disforme
que já desenhara tantas vezes.
Mas decidiu
de outra forma. Uma linha sinuosa estendeu-se sobre a tela. Tremeluziu uma,
duas vezes e fixou-se. Era fácil reconhecer a modulação nas pequenas saliências
irregulares da curva.
Os dezesseis
segundos passaram num instante. A tela apagou-se. Rhodan fitou-a perplexo, como
se não acreditasse no que havia visto. Crest ergueu-se cambaleante e veio em
direção a Rhodan.
— Não é da
minha índole — disse em tom sério — usar palavras pomposas. Mas...
— Deixe isso
para depois! — interrompeu-o Rhodan num tom de voz que quase chegava a ser
grosseiro. Crest assustou-se ao ver a súbita explosividade com que a atividade
de Rhodan voltou a desenvolver-se. — Bell! Tanaka Seiko! Venham imediatamente!
Crest, dê uma ajuda; vamos reproduzir esta mensagem para Tanaka.
O sensor
estrutural foi ligado para a reprodução. Tanaka apareceu e acompanhou tudo com
os olhos espantados. Usando a fita em que fora gravada a última mensagem como
matriz, Rhodan fez com que o sensor irradiasse aquilo que havia captado minutos
antes.
— Preste
atenção, Tanaka! — ordenou ao japonês. — Entende alguma coisa?
Ligou o
aparelho. Desde o primeiro instante tornou-se evidente que Tanaka estava captando
alguma coisa. Inclinara-se para a frente, numa posição característica; dava a
impressão de que de um instante para o outro cairia da poltrona.
Terminada a
reprodução, continuou sentado por algum tempo. Alguns minutos depois
reclinou-se na poltrona, respirou profundamente, e lançou os olhos espantados
em torno de si.
— Compreendi
perfeitamente — disse Tanaka depois de algum tempo. — Nunca consegui decifrar
tão bem uma mensagem como esta.
— O que diz
a mensagem?
— Diz o
seguinte: “Quando tiveres compreendido
isto, terás de prosseguir no caminho em direção à montanha. Só nela encontrarás
a luz. Não demores muito. Os grandes de...”, aqui vem um nome. Como sabe,
não consigo captar nomes. Mas sei que se trata do planeta em que nos
encontramos; pois bem: “O poder dos
grandes de Gol crescerá em demasia, enquanto demorares. Nunca deves vir sem a
sabedoria do plano superior.”
— É só?
— É só.
— Obrigado,
Tanaka. Pode se retirar.
4
— Não
devemos esquecer — disse Rhodan em tom sério — que esta mensagem já vem sendo
irradiada há alguns dias. Devemos nos apressar! Crest sacudiu a cabeça.
— Para falar
com franqueza, isso me deixa bastante preocupado. O que significam, por
exemplo, as palavras: “O poder dos
grandes de Gol crescerá em demasia, enquanto demorares”?
Rhodan deu
de ombros.
— Não faço a
menor idéia. Vamos descobrir.
— E o que
será essa sabedoria do plano superior? — perguntou Thora.
— Já
quebramos a cabeça sobre isso. Não se lembra? É bem possível que esteja
aludindo à mesma coisa que nós entendemos por isso.
Rhodan
dispunha de três carros de esteira do tipo daquele com que realizara sua
primeira excursão. Não teve dúvida em usar os três ao mesmo tempo.
Preferiu não
equipar os veículos com envoltórios energéticos adicionais, pois o respectivo
equipamento ocuparia ainda mais lugar que os neutralizadores gravitacionais. No
entanto, fez questão de que os carros dispusessem de armamentos. Em cada um
deles foi instalado um desintegrador de potência média, um radiador de nêutrons
e a arma usual de impulsos térmicos. Além disso, em cada um dos veículos foi
montada uma catapulta móvel, da qual ninguém sabia dizer para que serviria.
Ao que tudo
indicava pertenciam a essa catapulta os vinte recipientes metálicos de paredes
reforçadas colocadas em cada um dos carros. Segundo informavam os técnicos,
continham oxigênio líquido e um detonador. Face a isso, todos compreenderam a
finalidade do instrumento.
O oxigênio e
o metano, em proporções adequadas, constituíam uma mistura altamente explosiva.
Alguém que tivesse que defender-se de um inimigo num planeta de metano não
encontraria um meio mais barato que misturar uma boa porção de oxigênio à
atmosfera e fazer detonar a mistura no momento apropriado.
Rhodan teve
dificuldades em tripular os carros. Contra sua vontade decidiu confiar o
comando do segundo veículo a Bell. Quanto ao terceiro, tinha uma idéia bem
definida; mas, embora fosse o comandante da Stardust-III, achou preferível não
emitir uma ordem, mas formular um pedido.
— Queria
perguntar-lhe — disse, dirigindo-se a Crest — se está disposto a dominar sua
antipatia pelo nosso empreendimento e assumir o comando de um dos carros.
Crest
olhou-o perplexo. Depois contorceu o rosto num sorriso triste.
— Muito
obrigado pela delicadeza. Rhodan — respondeu. — Está se referindo ao meu medo,
não à antipatia, não é verdade? Mas está bem; irei.
Bateu palmas
à maneira humana e exclamou:
— Justamente
eu, o mais inofensivo dos arcônidas, sou escolhido para provar a um punhado de
homens que nossa raça ainda vale alguma coisa.
Ambos riram.
— Em cada
carro irão dois mutantes e um oficial — prosseguiu Rhodan. — No seu carro irão
Tama Yokida, o telecineta, e Ishi Matsu, a telepata, além do capitão Klein.
* * *
Bell foi em
companhia de Betty Toufry, Ralf Marten e do major Nyssen.
Rhodan levou
a mesma tripulação da vez anterior. Apenas acrescentou a telecineta Anne
Sloane.
Thora
assumiu o comando da Stardust-III.
O dia da
partida da expedição foi, segundo o calendário terreno, 15 de dezembro.
Depois das
experiências com as antipartículas, realizadas por Rhodan, a Stardust-III fora
erguida novamente à sua posição normal. Os três carros saíram sem dificuldades
pela comporta do pé da nave e seguiram em direção ao sul, vencendo o mar de
metano, que neste meio-tempo se tornara mais raso.
A
comunicação dos três carros entre si e de cada um deles com a nave funcionava
perfeitamente. Rhodan constatou com satisfação que, ao menos no início, a
expedição parecia estar sob uma boa estrela.
As
dificuldades começaram quando atingiram o paredão de rocha, junto ao qual na
tentativa anterior o holofote infravermelho de Rhodan se extinguira.
O carro de
Rhodan seguiu à frente dos demais. Rhodan não tinha a intenção de dar uma
grande volta para contornar a barreira de rocha. O caminho era perigoso, e cada
metro percorrido a mais representava um risco adicional.
Deringhouse
estava sentado junto à catapulta.
— Bomba
preparada para o lançamento.
Rhodan
transmitiu uma ligeira advertência aos outros carros.
— Preparar!
Fogo!
No facho de
luz do holofote viu-se o bujão de oxigênio, quando este, balouçando lentamente,
se desprendeu da catapulta. Ainda se encontrava sob a influência do
neutralizador gravitacional; por isso descreveu uma trajetória igual à que
teria percorrido na Terra.
Rhodan
aumentara o suprimento de energia do campo antigravitacional e estendera o
mesmo até junto à barreira de rocha. O bujão foi descendo em sua trajetória
lenta e atravessou o limite do campo.
Parecia que
alguém o havia segurado em meio ao vôo. De súbito, precipitou-se ao solo com
uma rapidez tamanha que os olhos não podiam segui-lo, e estilhaçou-se sob a
força tremenda do impacto. Pingos minúsculos de oxigênio líquido misturaram-se
ao metano que enchia o ambiente. Quando Rhodan acionou o mecanismo de ignição,
toda a tela foi tomada por um raio tão ofuscante que fazia doer a vista.
Seguiu-se
uma enorme onda de compressão, que sacudiu os carros.
A bomba
abrira uma brecha no paredão; não havia a menor dúvida. Uma enorme fenda
percorria o maciço, do solo à cumeeira.
Também não
havia dúvida de que a fenda era estreita demais para permitir a passagem dos
carros.
— Mais uma
bomba! — ordenou Rhodan.
Deringhouse
colocou outro bujão na catapulta.
Rhodan pegou
o microfone.
— Cuidado!
Realizaremos outra explosão.
Deringhouse
acenou com a cabeça.
— Fogo!
O bujão saiu
balouçando, subiu e voltou a descer em direção ao limite do campo antigravitacional.
— Veja! —
gritou Deringhouse. Rhodan via.
Uma pequena
esfera luminosa flutuava na atmosfera, junto ao paredão, mais ou menos no lugar
em que o bujão bateria no solo depois de sair do campo antigravitacional.
Rhodan viu
quando o mesmo atravessou o limite do campo e desceu vertiginosamente. Fechou
os olhos, aguardando a luz ofegante da explosão que se devia verificar a
qualquer instante. Mas esta não ocorreu.
Houve uma
espécie de fogo-fátuo, mas não se notou qualquer tipo de destruição no paredão
de rocha. Uma luz branca e tremeluzente espalhou-se, um fogo que ardia
lentamente.
Não se
apagou mais. Transformou-se numa esfera cintilante de cerca de cinco metros de
diâmetro, que se manteve imóvel diante do paredão.
— A esfera
pequena desapareceu — informou Deringhouse esbaforido.
O diâmetro
da esfera pequena não passava de meio metro.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Não —
disse. — É aquela ali. Apontou para a esfera de cinco metros. Deringhouse fitou-o
incrédulo.
— Não é
possível!
Rhodan
assumiu uma atitude implacável.
— Não temos
tempo para discussões. Ponha o desintegrador a funcionar. Vamos!
Deringhouse
girou a arma pesada.
— Aponte
para o paredão — ordenou Rhodan. — Mas não atire na esfera.
Deringhouse
obedeceu.
Depois de um
bombardeio de dez segundos a fenda aberta na rocha tinha largura suficiente
para deixar passar dois carros de uma vez. Com um movimento automático
Deringhouse girou o desintegrador para sua posição de repouso, arregalando os
olhos para a esfera cintilante que executava uma espécie de dança a uns dez
metros à direita da brecha aberta no paredão.
— Para a
frente a toda velocidade! — berrou Rhodan pelo telecomunicador. — Crest,
coloque-se ao meu lado, na fenda cabem dois carros. Bell, fique de olho na
esfera, mas nada de experiências!
Crest reagiu
com uma rapidez animadora. Os dois carros dispararam lado a lado, atingiram a
fenda e desapareceram na mesma. Bell seguiu-os de perto.
Rhodan
respirou aliviado ao ver que o desintegrador consumira a rocha em toda a
profundidade do paredão.
Para além da
barreira de rocha a vista era bastante animadora. Uma planície pouco acidentada
estendia-se diante dos carros-esteira, até o limite do alcance de seus
holofotes. À direita e à esquerda erguiam-se algumas colinas, e mais ao longe
viam-se íngremes cumes de pedra, que avançavam para o negrume do céu; o vale
encavado no planalto formado pelos mesmos tinha largura suficiente para
permitir a passagem simultânea de um destacamento completo de carros-esteira.
O carro de
Bell foi o último a sair da fenda. Rhodan fez o holofote girar e examinou o
terreno. Não se via nada além dos outros carros e da desolação pedregosa do
planeta Gol.
— Tudo em
ordem! — resmungou Rhodan satisfeito. — Vamos adiante.
Pelas
indicações fornecidas pelo sensor da Stardust-III, a montanha que estavam
procurando ficava a exatamente duzentos e quinze quilômetros da nave.
Considerando que se tratava da distância em linha direta, e que os carros
muitas vezes não poderiam deixar de dar voltas, podia-se calcular com um grau
satisfatório de exatidão que levariam pelo menos oito horas para atingir a
montanha.
Seriam oito
horas passadas nas proximidades de esferas luminosas, para as quais uma
explosão de metano e oxigênio parecia representar um tipo de sobremesa:
utilizavam a energia gerada pela explosão para aumentar seu diâmetro.
As mesmas
idéias pareciam ocupar a mente de Crest.
— Observou a
esfera? — perguntou pelo intercomunicador.
—
Naturalmente — respondeu Rhodan.
— O que acha
dela?
— É simples.
Foi atraída pela primeira explosão. Ao chegar tinha um diâmetro de cerca de
cinqüenta centímetros. Sentia uma fome tremenda. Depois...
— Sentia
fome?
— Isso
mesmo. Colocou-se exatamente na trajetória do segundo bujão de oxigênio que
disparamos e devorou a energia gerada pela explosão. Ao que parece isso foi um
verdadeiro regime de engorda para ela, pois de repente seu diâmetro cresceu dez
vezes.
— Acredita
realmente que tenha sido assim? — perguntou Crest desconfiado.
— Não
acredito — respondeu Rhodan. — Vi.
Deringhouse
bateu-lhe no ombro.
— O que
houve?
— Sinto
incomodá-lo — disse Deringhouse, apontando para a tela — mas a esfera voltou a
aparecer.
Dali em
diante ela não os deixou mais. Saltitou atrás do carro e, no espaço de três
horas, perdeu uns vinte por cento de seu diâmetro.
Era uma
formação misteriosa e apavorante.
— Não posso
fazer nada — avisou Bell enquanto os três carros, em marcha indiana,
contornavam o flanco íngreme de uma montanha. — Essa coisa me deixa nervoso.
— O que
pretende fazer? — perguntou Rhodan.
— Poderíamos
atirar.
Para
surpresa dos que acompanhavam o diálogo, Rhodan disse em tom tranqüilo:
— Está bem.
Coluna, alto! O comandante Bell tentará a sorte.
Os carros
pararam com os motores em movimento. Na cúpula do último deles via-se um
movimento. Era Bell que girava as armas.
A voz de
Bell soou no intercomunicador:
— Tudo
pronto, Nyssen?
— Tudo
pronto.
Do carro de
Rhodan via-se perfeitamente o raio energético disparado pelo desintegrador.
A salva
disparada por Nyssen atingiu a esfera em cheio. Até mesmo na tela alimentada
pela luz infravermelha, que geralmente só projeta em preto e branco, notava-se
que a esfera mudava de cor. Bell acreditou que isso representasse um sinal de
êxito de sua ação e soltou um grito de triunfo.
Mas o grito
logo lhe ficou atravessado na garganta. Longe de ser afetado pela salva do
desintegrador, a esfera começou a inchar. Recuperara a cor primitiva e cresceu
rapidamente.
Os ocupantes
dos carros estavam de olhos fitos nas telas.
O gemido de
Bell foi ouvido perfeitamente pelo intercomunicador. Todos pareciam perplexos.
Rhodan era o
único que havia previsto o fenômeno.
— Vamos
adiante! — disse com a voz áspera. — Não nos preocuparemos mais com essa coisa.
Ela não nos fará nada; logo, não temos motivo para ficar nervosos.
A ordem
arrancou-os do estupor.
Tanaka Seiko
queixou-se de dores de cabeça.
— Quando
começaram? — perguntou Rhodan.
— Desde o
disparo — respondeu Tanaka com um gemido.
Rhodan fez
que sim. Aquela esfera emitia hiperradiações que, em todas as fases, ou só
temporariamente, exerciam certa influência sobre o cérebro de Tanaka.
Evidentemente as hiperradiações da esfera se tornaram mais potentes, a ponto de
provocar dor de cabeça em Tanaka, depois que a mesma havia absorvido a energia
liberada pelo disparo do desintegrador. Não havia nada de misterioso nisso.
Para Rhodan,
porém, um detalhe mais interessante residia no fato de que durante a primeira
excursão uma esfera bem menor quase provocara um desmaio em Tanaka Seiko. Devia
haver pelo menos duas espécies de esferas; o que as distinguia era o volume de
energia ou as dimensões das radiações que emitiam.
Os carros
retomaram a viagem e aproximaram-se do fim do planalto, que até ali lhes
garantira uma rapidez tão surpreendente no deslocamento.
Ao chegarem
ao fim do vale que ali se abria começou a grande canseira, que por algumas
horas desviou sua atenção da esfera luminosa. Rhodan viu-se diante da
alternativa de seguir por um caminho muito mais longo, que representaria uma
demora adicional de pelo menos vinte horas, ou fazer com que os veículos
escalassem encostas que talvez fossem invencíveis.
Escolheu a
última alternativa. Um dos motivos foi a mensagem de Thora, vinda da
Stardust-III:
— Cinco dos
geradores do envoltório energético deixaram de funcionar. Neste instante
notamos grande quantidade de figuras luminosas, que se movem nas proximidades
da nave.
Em sua voz
notava-se a preocupação com o destino da nave. Rhodan pedira-lhe que o avisasse
assim que surgisse qualquer novidade. Já não tinha a menor dúvida de que
aqueles seres energéticos estavam em condições de absorver parte da energia dos
envoltórios energéticos, fazendo com os respectivos geradores deixassem de
produzir energia.
Manteve os
três carros bem juntos e iniciou a subida. O paredão que se erguia diante deles
era tão alto que a luz dos holofotes não chegava até a linha da cumeeira. Face
ao ângulo formado pelo encontro dos dois flancos da montanha, porém, Rhodan
concluiu com alguma segurança que o obstáculo não teria mais que uns mil e quinhentos
metros de altura.
O estado de
espírito dos ocupantes do carros era singular. Tanaka Seiko ainda sentia uma
dor de cabeça martirizante, pois a gigantesca esfera luminosa seguia a caravana
sem um instante de intervalo. Rhodan se refugiara naquele espírito implacável e
cônscio dos objetivos que lhe era peculiar nas situações críticas. Reginald
Bell e o major Deringhouse demonstraram a mesma implacabilidade, à qual
acrescentaram um certo espírito galhofeiro e despreocupado Fazia horas que
Crest não proferira um única palavra. Parecia convicto de se encontrarem no
caminho que conduzia diretamente ao inferno, tal qual Anne Sloane que estava
sentada no chão do carro, totalmente indiferente a tudo, olhando para a frente
com os olhos mortiços e desinteressada de tudo.
O major
Nyssen era um homem estranho. Rhodan nunca o conhecera por esse lado. No
aspecto exterior assemelhava-se bastante a Reginald Bell. Durante as últimas
horas desenvolvera uma elevada capacidade de planejamento; revelando um certo
entusiasmo, mas sem perder o sentido da realidade e, mais que tudo, sem superestimar
as possibilidades da expedição, ficava quebrando a cabeça sobre a maneira de
dar cabo desses seres energéticos que, juntamente com as condições atmosféricas
gravitacionais adversas reinantes em Gol, pareciam se transformar no maior
perigo para a Stardust-III.
Nyssen, que
realizava verdadeiras discussões com Rhodan através do intercomunicador,
ofereceu este resumo:
— Não
poderemos enfrentá-los com nossas armas pesadas. Esses sujeitos devoram energia
da mesma maneira como algumas pessoas devoram um bolo. Devemos bolar uma coisa
inteiramente nova; ou então teremos de encontrar uma forma de energia que lhes
dê indigestão.
— Uma
passagem — gritou subitamente Deringhouse entusiasmado. — Ali há uma passagem.
Nas últimas
duas horas os carros haviam subido cerca de oitocentos metros, Era um caminho
difícil; aliás, era necessário uma boa dose de otimismo para que se pudesse
falar num caminho.
Aqui, numa
altitude de oitocentos metros, aquela passagem, que, sob a forma de uma fenda,
cortava o paredão quase exatamente na direção sul, parecia-lhes um presente do
céu. Rhodan entrou a toda com seu carro, procurando o caminho. Crest seguiu-o,
sempre preocupado em não deixar que a distância entre os dois veículos aumentasse
para mais de vinte e cinco metros. Reginald Bell seguiu na retaguarda.
— Quero ver
esse monstro de cinqüenta metros espremer-se por aqui — observou.
Referia-se à
esfera energética. Se é que acreditava que a estreiteza da fenda obrigaria a
mesma a desistir da perseguição aos carros, logo sofreu uma decepção.
A esfera
desmanchou-se numa figura que a geometria ainda não definiu. Tinha mais de
cento e cinqüenta metros de altura; em compensação era bastante estreita. Dessa
forma, aquilo que há pouco fora uma esfera saltitou atrás dos carros como se
fosse um gigantesco fogo-fátuo.
Depois de
uma reta de algumas centenas de metros, a passagem começou a descrever curvas.
Rhodan reduziu a velocidade e adaptou a trajetória do veículo às curvas fechadas,
sempre preocupado de que mais adiante a passagem pudesse estreitar-se a ponto
do carro não poder prosseguir.
Se isso
acontecesse, teriam de voltar em marcha à ré, pois na fenda não havia espaço
para manobras.
Mas nada
disso aconteceu. A fenda atravessou a montanha numa extensão de cerca de dois
quilômetros, mantendo sempre a mesma largura. Subitamente, sem que ninguém o
tivesse previsto, abriu-se para a encosta sul da montanha, que descia quase na
vertical.
Rhodan
parou. Girou o holofote e examinou o quadro que se desenhava na tela.
— Nada! —
resmungou Deringhouse, que olhava sobre seu ombro. — Mas podemos avançar mais
dois metros.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça. Com alguns solavancos cuidadosos, o carro foi
empurrando o nariz para fora da fenda.
Imediatamente
o campo de visão ampliou-se.
A primeira
coisa que chamou a atenção de Rhodan foi uma faixa de rocha, que, num declive
suave, partindo da fenda, estendia-se pelo paredão, na direção leste — oeste.
Com uma manobra cuidadosa seria possível colocar o carro sobre a mesma e
descer. Descer para onde?
Rhodan
dirigiu o holofote para o sul. O mesmo desenhou um bloco branco na escuridão,
perdendo-se no ponto em que seu alcance chegou ao fim, sem revelar qualquer
detalhe do terreno.
— É o fundo
de um vale — disse Rhodan. — A profundidade é tamanha que daqui não conseguimos
ver nada.
— O senhor
se importaria de desligar o holofote por um instante? — perguntou Deringhouse.
Rhodan
olhou-o perplexo.
— É claro
que não! Para que tanto segredo?
Desligou o holofote.
Um instante
depois, quando o último tremeluzir da intensa luz infravermelha se havia
apagado nas telas, Rhodan sabia qual era o objetivo de Deringhouse.
Uma confusão
fantasmagórica e inextrincável de figuras luminosas cobriu a tela. Eram seres
luminosos — pelo menos mil — cada um com um formato diferente. Só os olhos
penetrantes de Deringhouse conseguiram percebê-las na luz ofegante do holofote.
— É o Vale
dos Espíritos — murmurou Deringhouse.
Subitamente
sua voz assumira uma tonalidade irônica, mas não era tão irônica que não se
percebesse o quanto o quadro o deprimia.
— O que
houve? — soou a voz de Bell, vinda do último carro da fila. — Por que não
prosseguem? Onde fica o Vale dos Espíritos?
— Aqui
mesmo! — respondeu Rhodan. — Bem à nossa frente. Tome cuidado com a manobra
quando chegar ao lugar em que me encontro agora. Adiante!
A faixa de
rocha revelou-se um caminho muito cômodo, que até parecia ter sido construído
por alguém que previa que aquela expedição composta de três carros-esteira
acabaria aparecendo por ali.
Enquanto
avançavam pela borda de pedra, Rhodan manteve o holofote ligado, para enxergar
o caminho. Por isso seus olhos deixaram de perceber os seres luminosos.
Mas não se
esqueceu deles. A dúvida era se, ao se depararem em grande número com três
veículos solitários, manteriam uma atitude tão pacífica como aquela figura
hipergeométrica que continuava a saltitar atrás dos carros.
O paredão
descreveu uma curva. Por um instante o caminho se estendia na direção sudeste,
para depois retomar o rumo exato do sul. Pelos cálculos de Rhodan, a montanha
que procuravam atingir não devia ficar a mais de oitenta quilômetros.
Assim que a
borda de pedra havia vencido a diferença de altitude de oitocentos metros,
correspondente à escalada do outro lado da montanha, ela se tornou mais larga.
Rhodan
avançou o suficiente para que os outros carros pudessem sair da borda e parou.
Desligou o
holofote. Sentiu-se perturbado pela luz vinda dos outros carros. Mandou que
Crest e Bell também desligassem seus holofotes.
Obedeceram.
Subitamente
o quadro estranho e apavorante desenhou-se nas três telas.
O imenso
vale estava repleto de figuras luminosas. Era um verdadeiro exército.
Formaram seu
front a uns quatrocentos metros
ao sul dos três carros.
O vale era o
único caminho que se abria na sua avançada para o sul. Rhodan tinha certeza de
que a montanha que o fechava naquela direção era a que procuravam.
Isso
significava que os carros teriam de passar entre as figuras luminosas. Até aqui
haviam demonstrado qualquer hostilidade, a não ser nos casos em que absorveram
a energia dos envoltórios protetores da Stardust-III. Mas acontece que só
haviam aparecido sozinhos ou em pequeno número. Em sã consciência não se
poderia dizer que atitude tomariam milhares delas.
Rhodan
conferenciou por algum tempo com os condutores dos outros veículos.
A resposta
de Bell era terminante:
— Teremos de
passar! Quanto antes, melhor!
Crest tomou
esta decisão:
— Decida o
que devemos fazer, Rhodan. Seguirei suas instruções.
Rhodan
resolveu forçar passagem. Mas achou conveniente dar uma certa cobertura de
retaguarda à expedição. Como Tanaka Seiko tivesse sido colocado fora de ação em
virtude da dor de cabeça, Deringhouse recebeu ordem para estabelecer contato
com a Stardust-III e informar Thora a respeito da situação.
Deringhouse
desligou o sinal de chamada e aguardou a confirmação. Mas esta não veio. Voltou
a tentar, mas ainda não obteve outro resultado.
Rhodan
indagou junto aos outros carros. Estes haviam captado perfeitamente a mensagem
de Deringhouse.
Não havia
problema com a emissão.
Era a
Stardust-III que não respondia mais.
5
Thora
acompanhara a viagem dos carros enquanto estes subiam a encosta norte da
montanha e atravessavam a passagem, na medida em que isso era possível face à
deficiência das comunicações. Na montagem dos veículos procuraram-se evitar
quaisquer instalações supérfluas, como por exemplo as de transmissão de
imagens. Cada centímetro quadrado de espaço e cada grama de peso fazia
diferença. Rhodan achara que seria um conforto excessivo se as pessoas que
falassem entre si pudessem contemplar o rosto umas das outras.
Prendera a
respiração quando Rhodan passou pela estreita borda de rocha e quase perdeu o
controle dos nervos quando Crest fez a mesma coisa. E suspirara bastante aliviada
quando subitamente a passagem se abriu diante dos veículos e a escalada difícil
chegou ao fim.
Acompanhara
o trajeto pela passagem de pedra com base nas observações de Bell, e ouvira
Deringhouse referir-se ao Vale dos Espíritos.
Foi a última
coisa que ouviu. Naquele instante a Stardust-III foi palco de acontecimentos
que só se diferenciavam de um fim de mundo porque no último instante surgiu uma
ocorrência salvadora.
Absorta na
palestra que os ocupantes dos três carros mantinham pelo intercomunicador, Thora
não conseguiu saber logo em que setor da nave as coisas não estavam em ordem
quando ouviu o som das sereias de alarma. Levantou-se de um salto, fitou o
painel de controle com os olhos arregalados e sentiu-se tomada de pânico quando
não descobriu nenhum sinal de advertência.
— Todos os
aparelhos neutralizadores entraram em pane! — gritou uma voz por cima do
barulho das sereias.
A voz do
engenheiro revelava irritação e impaciência. O homem estava acostumado às
reações instantâneas de Rhodan, mas não à lentidão de um cérebro arcônida
tomado pelo pânico.
— O que
vamos fazer? — perguntou Thora esbaforida.
Lembrou-se
de que seu interlocutor não entendia a língua que estava falando. Repetiu a
pergunta em inglês.
— Queria que
a senhora me dissesse — gritou o engenheiro, que aparentemente com a falha dos
geradores perdera o sentido do respeito.
— Como estão
os campos energéticos?
— Continuam
intactos. O campo neutralizador cessou por completo; mas posso sustentar a nave
com os jatos propulsores.
As sereias
pararam de uivar. Com a volta do silêncio, Thora sentiu-se livre de parte do
medo e do nervosismo que a dominava.
— Continue a
sustentá-la! — ordenou. — Procurarei descobrir o que está acontecendo lá fora.
O engenheiro
interrompeu o contato. Thora chamou a vigilância ótica.
— Consegue
ver alguma coisa?
— Não. Tudo
ficou preto nas telas.
Thora ligou
a grande tela de alcance global que se encontrava na sala de comando. Antes
costumava apresentar um cinza homogêneo, agora oferecia um preto também
homogêneo.
A arcônida
correu para o receptor, onde minutos antes ouvira a palestra dos ocupantes dos
carros-esteira. Não o desligara. Mas emudecera por completo, não emitindo
sequer o mais leve ruído de interferência.
Thora
começou a compreender que aqui se desenrolavam acontecimentos com que nunca se
defrontara. Gostaria que Perry Rhodan estivesse de volta para dar-lhe algum
conselho, mas ao mesmo tempo lançou uma maldição sobre ele, por ter-se atrevido
a deixá-la só naquela nave imensa, em meio a um mundo povoado de monstros.
“Alguém tem de sair”, foi a primeira
idéia que lhe acudiu. “Temos de descobrir
o que está acontecendo lá fora.”
A segunda
idéia foi que ninguém se disporia a sair, e ela não poderia levar isso a mal.
O que
dissera Rhodan? Não pergunte, comande.
Isso teria
sido fácil há quatro anos, quando pela primeira vez se encontrou com os homens
e os considerava uma raça de selvagens idiotas. Mas, agora?
O
intercomunicador soou.
— Lá fora
está tudo cheio de figuras luminosas.
O rosto de
Wuriu Sengu, o mutante com visão raio-X, surgiu na pequena tela.
Thora fez
que sim.
Lembrou-se
da experiência que horas antes fizera Reginald Bell ao bombardear um ser
luminoso com um desintegrador. A Stardust-III dispunha de uma série de outras
armas. Talvez alguma delas se revelasse eficiente.
— Sengu,
compareça à sala de comando! — ordenou Thora, dirigindo-se ao japonês.
Logo depois,
ordenou às posições de combate que preparassem os desintegradores e as
centrífugas neutrônicas. Quando Sengu entrou na sala, a recepção da ordem foi
confirmada.
— O senhor
sabe reconhecer perfeitamente a trajetória de um irradiador de impulsos
térmicos — disse Thora. — Dentro de poucos segundos nossos homens abrirão fogo.
Quero que me informe sobre o resultado.
Wuriu Sengu
colocou-se em posição. Olhou fixamente para um ponto na parede que ele mesmo
escolhera. Quem não o conhecesse e não soubesse que, graças a certos dons
desenvolvidos, o japonês era capaz de regular sua percepção ótica de forma tal
que para ele a estrutura cristalina de qualquer tipo de matéria se tornava
transparente, pensaria que se tratasse de alguém que refletia profundamente
sobre algum problema.
— Fogo! —
ordenou Thora.
Olhou para
Sengu.
Durante
alguns minutos este fitou a parede. Thora viu que o suor começou a gotejar em
sua testa. Estava a ponto de fazer-lhe uma pergunta, mas sabia que não devia
desviar sua atenção.
Subitamente
o japonês tombou para a frente.
— Pare! —
fungou. — Pare imediatamente!
— Suspender
fogo! — disse Thora.
Sengu
atirou-se numa poltrona. Sua respiração era tão rápida e violenta que levou
algum tempo para proferir a primeira palavra.
— Eles
engolem tudo. Os raios térmicos penetram no corpo deles, mas não o atravessam.
A luminosidade torna-se mais intensa, e o tamanho cresce. Até parece que
devoram a energia liberada pelos disparos.
Sengu não
sabia um detalhe que Thora já conhecia: poucas horas atrás Bell realizara uma
experiência semelhante.
Refletiu se
devia fazer outra experiência com o radiador de nêutrons ou não. Os nêutrons
eram corpúsculos, não uma forma de energia propriamente dita. Quem sabe...
— Atenção! —
gritou Sengu. — Estão se aproximando.
Thora
sentiu-se terrivelmente desamparada.
— Estão
fazendo o quê? — perguntou perplexa.
Descobriu
num instante. Um tremendo abalo sacudiu toda a nave. Thora caiu ao solo.
Passado o primeiro susto tentou levantar-se, mas percebeu que seu peso
aumentara pelo menos três vezes.
Afundado na
poltrona, Sengu olhava fixamente através da parede.
— Estão bem
perto — fungou. — Encontram-se sobre o casco da nave.
Uma voz
gritou pelo intercomunicador:
— Os
propulsores só trabalham com setenta por cento de sua potência normal! Os
campos neutralizadores no interior da nave estão mais fracos!
Era o
engenheiro; desta vez havia mais medo que impaciência em sua voz.
Thora
levantou-se e foi-se arrastando até o microfone.
— Procure
decolar! — disse num sopro. A enorme pressão fez com que seu corpo pesasse como
se estivesse encerrado numa pesada blindagem.
As luzes
começaram a piscar no painel de controle, quando o engenheiro assumiu a direção
da nave na sala de controle técnico. Thora fitou as luzes, como se nunca as
tivesse visto; aguardava o verde tranqüilizador da decolagem.
E veio. Por
um, dois, três segundos a luminosidade intensa surgiu no painel, depois
apagou-se; a nave não se moveu.
Thora soltou
um grito desarticulado de pavor.
— Os
propulsores estão falhando! — anunciou o engenheiro. Ao que parecia, a certeza
de não poder fazer mais nada restituíra-lhe a calma.
Wuriu Sengu
soltou um gemido abafado.
—
Tornaram-se gigantescas, gigantescas...
— Temos de
fazer alguma coisa! — gritou Thora.
Deu um passo
em direção a Sengu.
Nesse
preciso instante aconteceu alguma coisa. Thora foi arrastada para a frente e
levou a segunda queda no espaço de poucos minutos.
Fora uma
queda violenta. Levantou-se um tanto perturbada e olhou para Sengu. O movimento
já não lhe fazia doer o pescoço. Levantou-se e percebeu que a pressão
martirizante não existia mais. Seu corpo voltara ao peso normal.
O japonês
sorriu.
— Foram
embora, madame — disse com a voz tranqüila. — Bem de repente.
Thora lançou
os olhos em torno, como se procurasse o motivo do milagre em algum lugar da
sala de comando.
Seu olhar
caiu sobre a tela oscilográfica do sensor estrutural. Viu nela a luminosidade
emitida pela linha sinuosa projetada pelas transmissões moduladas do
desconhecido que fizera Rhodan lançar-se nessa aventura arriscada.
Lançou um
olhar automático para o relógio.
Como sempre,
a transmissão fora realizada na hora exata.
* * *
Rhodan
decidiu suspender a expedição e voltar à Stardust-III, mas nesse instante a
nave voltou a chamar. Ligara o carro e havia virado a direção para voltar,
quando Deringhouse deu um grito atrás dele:
— Estão
chamando!
—
...chamando Rhodan. Stardust-III chamando o comandante Rhodan — disse o
intercomunicador.
Era a voz de
Thora. Rhodan não se lembrava de já a ter ouvido tão apática. Num gesto
impaciente puxou o microfone para seu lado:
— Aqui é
Rhodan. O que houve com vocês?
O ruído que
precedeu a resposta tanto podia ser um suspiro de alívio como uma perturbação
atmosférica.
— Fomos
atacados — disse Thora, e deu um relato tão detalhado quanto conciso dos
acontecimentos dos últimos minutos.
Rhodan
interrompeu-a assim que havia entendido a ligação entre os fatos.
— Está em
condições de decolar? — perguntou.
— No momento
estamos.
— Pois
decole e mantenha-se até segunda ordem numa altitude segura, talvez uns dois
mil quilômetros. Não acredito que as figuras luminosas se arrisquem até lá.
— Muito bem.
Mas para que tudo isso?
—
Encontramo-nos num vale. Assim que eu descobrir que clube de seres luminosos é
este que se instalou aqui, quero que a Stardust pouse neste mesmo lugar.
Fornecerei as coordenadas.
Thora
parecia deprimida, mas Rhodan não se importou.
— Mantenha
contato ininterrupto conosco — recomendou.
Rhodan já formara sua opinião sobre o incidente
que por pouco não acarretou a destruição da Stardust. Não havia qualquer
explicação racional para a súbita retirada dos seres luminosos, a não ser que
se recorresse à coincidência temporal entre essa retirada e a transmissão do
desconhecido.

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