sábado, 20 de outubro de 2012

P-015 - Pista no Tempo e no Espaço - Clark Darlton [parte 1]


Autor
CLARK DARLTON’


Tradução
LILIAN PESSOA RIBEIRO DANTAS


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN







O incógnito guardião do segredo dos imortais parecia ter preparado uma série completa de testes a que deveriam se submeter todos os que tencionassem desvendá-lo.
Perry Rhodan, o chefe da Terceira Potência, já se adiantara a tal ponto em sua busca que não mais podia nem queria retroceder. Após uma aventura que exigira o máximo dos nervos de todos os participantes, tinha agora em seu poder mais uma mensagem do desconhecido. Ela se tornou o prelúdio da mais incrível aventura de Perry Rhodan: PISTA NO TEMPO E NO ESPAÇO...






= = = = = = = = = = Personagens Principais = = = = = = = = = =


Reginald Bell — Ministro da segurança da Terceira Potência.
Thora e Crest — Únicos sobreviventes da expedição espacial dos arcônidas.
Kerlon — Comandante arcônida. Procura o segredo da imortalidade.
Ras Tshubai, John Marshall, Anne Sloane e Ralf Marten — Membros do Exército de Mutantes de Rhodan, que o acompanham em sua viagem ao passado.
Lesur — Seu castelo fica no mesmo lugar onde dez mil anos mais tarde existiria o Palácio Vermelho do Thort.
Robby — Uma criação da supertécnica dos arcônidas.

1



A grande expedição espacial da Terra já se encontrava a algum tempo no sistema Vega, a vinte e sete anos-luz de distância da Terra. Tinham estabelecido relações cordiais com os habitantes do oitavo planeta, os ferrônios, e ultimado um acordo comercial. Do ponto de vista técnico, não havia nenhum motivo plausível para protelar mais a volta à Terra.
Mas sobreexistem outros motivos além da pura técnica.
O planeta Ferrol girava em volta de seu sol Vega a tal distância, que de modo geral o seu clima se assemelhava ao tropical quente da Terra. Os ferrônios, uma raça humanóide, se diferenciavam dos homens pela abundante cabeleira e pela testa que muito saliente, protegia os olhos — uma defesa de que os dotara a natureza contra a forte radiação ultravioleta de Vega. Além disso, menores e de pele azulada, não chegavam a ser cômicos. Principalmente para quem levasse em conta a grandeza e a multiplicidade do Universo.
Como era o caso, por exemplo, de Reginald Bell.
De cabelo ruivo eriçado e mãos possantes, ele andava, agitado, de um lado para o outro na central da gigantesca esfera espacial. De uma cor próxima ao gelo, seus olhos faiscavam agora de um modo fora do comum.
— Diga-me o que quiser — vociferava, furioso, com um gesto expansivo da mão — este cérebro positrônico tem é dor de cabeça, nem sequer pensa em dar uma resposta à sua pergunta. Está nos esnobando!
Na enorme central do cérebro positrônico, em forma de meia-lua, estava ainda presente um segundo homem: Perry Rhodan, o chefe da expedição. Sua figura magra sugeria tenacidade e coragem, e nos seus olhos cinzentos não somente brilhavam determinação e cinismo, mas também humor.
— Acha? — Rhodan contemplou, pensativo, o rosto do seu colaborador mais próximo, sem perceber ali sinal algum de revolta verdadeira. — Não está querendo desistir, hein?
— Como desistir, Rhodan? Há semanas que nos sentamos aqui, à espera de que este monstro de cérebro eletrônico se decida. Alega que a mensagem é particularmente difícil de ser decifrada. Boa desculpa para um fracasso total! Que peça nos hão de ter pregado esses pretensos imortais!
Enquanto isso, quase despercebido, um outro homem havia entrado e ouvido as últimas palavras de Bell. Um ser humano, sem dúvida, mas com qualquer coisa de quase sobre-humano. Porte alto, idade indefinida, cabelo claro, quase branco, e espesso, testa alta, olhos de um vermelho albino, em especial o olhar que estes lançavam... tudo o fazia diferente e estranho. No entanto, certamente ninguém haveria de perceber que se tratava de um arcônida, vindo de um sistema solar a trinta e quatro mil anos-luz da Terra. Há milênios sua raça dominava todos os segredos das viagens espaciais. O que não evitara, porém, que a sua nave tivesse feito um pouso forçado na Lua, obrigando Perry Rhodan a tomar providências para o seu salvamento.
— Nada de conclusões apressadas — virou-se o arcônida para Bell, um leve tom de censura na voz. — Os imortais, atrás de quem estamos indo, não hão de ter facilitado as coisas para nós.
— É, eu sei, meu caro Crest — tornou Bell, impaciente. — Sua raça infalível já descobriu há uns milhares de anos que neste sistema há um planeta onde vivem os imortais. Agora este planeta desapareceu. Para seguir sua pista, precisaremos de inteligência excepcional, pois os emigrantes tramaram uma charada. Só os seres capazes de pensar de maneira pentadimensional poderão encontrar o planeta da vida eterna. Bem pensado. Eis-nos agora, quebrando a cabeça. Mas quando se quer viver para sempre, o que é que não se faz?
Perry Rhodan sorriu para Crest, meneando a cabeça.
— Nosso bom Reginald Bell está triste porque o cérebro positrônico ainda não conseguiu decifrar a mensagem dos imortais.
— Triste como? — rosnou Bell. — Estou é farto desta espera.
Rhodan já não sorria mais. Tinha o rosto sério, enquanto observava o quadro de comutadores do cérebro positrônico, oculto atrás de paredes de arconita. Sabia que por detrás daquelas paredes havia mecanismos intricados e positrônicos, quase se poderia dizer inteligentes, ocupados em traduzir em linguagem clara as informações cifradas de uma língua estranha. Ninguém poderia esperar que a solução fosse fácil, muito menos depois das dificuldades que tiveram para ir buscar estas informações na arca sob o palácio real do Thort, equipada com um fecho de tempo. Ali, os segredos da desaparecida raça dos imortais haviam repousado durante milhares de anos. Os ferrônios não tinham podido abrir a arca; Perry Rhodan foi o primeiro a consegui-lo.
Agora Bell exigia que a mensagem em código fosse decifrada num abrir e fechar de olhos.
— Quem pretende alcançar a imortalidade, deve pelo menos se armar de paciência, Bell — advertiu ele. — O que temos a perder? Na Terra está tudo em ordem. Caso contrário, o coronel Freyt já teria enviado algum comunicado através do hipertransmissor. Só faria isso em caso de emergência, para não denunciar a outros seres inteligentes do universo a posição galáctica da Terra. Então, acaso tem proposta melhor do que aguardar a tradução da mensagem que obtivemos com tanta dificuldade?
Era uma pergunta bastante concreta. Com algum mal-estar, Bell percebeu que sua resposta também deveria sê-lo.
— Infelizmente não, Rhodan — retorquiu, com um riso amarelo. — Continuemos a esperar, portanto.
Crest meneou a cabeça.
— Como os homens são estranhos — observou. — Aí estão discutindo sobre coisas a respeito das quais no fundo têm a mesma opinião, apenas para matar o tempo. Bell, esperava que ao menos tivesse uma boa contra-proposta, já que se mostra tão insatisfeito com a situação atual.
— Você é claro que tem uma — presumiu Bell, sempre sorrindo. — Voltar para Árcon, seu sistema nativo, se não me engano. Thora o deve estar pressionando novamente.
Thora era a antiga comandante da nave arcônida que tivera de realizar um pouso de emergência na Lua. Desde que Rhodan salvara-os, seu orgulho sofrerá terrível golpe. A seus olhos, o homem estava apenas no limiar do conhecimento, na melhor das hipóteses. E eis que agora se tornava dependente desses seres humanos.
— É natural que Thora queira voltar a Árcon, entretanto ela respeita nosso pacto: primeiro vamos achar o planeta da vida eterna, e só então voltaremos para Árcon. Vou desapontá-lo, Bell, mas não estou do seu lado. Rhodan tem toda razão. Temos de decifrar a mensagem dos imortais. Só então poderemos saber o que fazer para penetrar no segredo da vida eterna. É um objetivo que vale a pena, ou não acha?
Antes que Bell pudesse responder, uma lâmpada acendeu ao lado da tela de imagem. O vidro fosco iluminou-se.
Rhodan girou um botão.
Na tela surgiu o rosto de um homem ainda jovem, cujo cabelo cor de palha formava um contraste marcante com o bronzeado da pele. A boca apertada parecia sorrir, mas quem conhecia o major Deringhouse sabia que raramente sorria. Esta era apenas sua expressão habitual.
— Comunicado para o comandante! — disse o homem na tela. — A última patrulha dos caças espaciais está de volta do vôo de reconhecimento. Nada de especial no sistema Vega. Os vôos devem continuar na mesma intensidade de antes?
Rhodan olhou com simpatia o comandante do Grupo de Caças Espaciais da Terceira Potência:
— Afinal você e Nyssen nada têm mesmo para fazer, não é? Mantenha seus pilotos em alguma atividade. Além disso, é bom conservar os olhos bem abertos. Este sistema tem quarenta e dois planetas. Viajantes espaciais desconhecidos poderiam pousar aqui sem que percebêssemos. Sabemos por experiência própria que suas intenções nem sempre são amistosas. Portanto, não reduza a ação de patrulhamento, Deringhouse. Entendido?
— Muito bem, chefe — respondeu o major.
Piscou para Bell com o canto do olho, antes da tela escurecer.
Minutos mais tarde, os pequenos veículos espaciais que viajavam com a velocidade da luz decolavam novamente para seus vôos de patrulha. E em Ferrol se poderia ter certeza de que ninguém chegaria ou deixaria o sistema Vega despercebido.
Rhodan olhou para Bell.
— Como vê, nenhum perigo nos ameaça aqui. Podemos esperar com toda a calma, até conseguirmos a próxima indicação que seja importante para a solução da charada galáctica, organizada há dez mil anos pelos imortais. Precisa se acostumar com a idéia de que o tempo não representa problema para os seres da vida eterna.
Perry Rhodan ainda não fazia idéia de que suas palavras se tornariam verdade, nem poderia adivinhar que exatamente o tempo muito em breve o colocaria em grande perigo. Igualmente era uma sorte que Bell não o adivinhasse.
O zumbido monótono do cérebro positrônico sofreu uma interrupção que não passou despercebida ao ouvido treinado de Rhodan. Fez um gesto de silêncio para Bell, que queria dizer alguma coisa. Crest também se pôs à escuta. Atrás das paredes maciças, ouviam-se os estalidos de contatos. No quadro de comutadores, pequenas lâmpadas se acendiam. Pelo alto-falante do transmissor também vinham estalidos.
Pela primeira vez em semanas, o cérebro positrônico estava pronto para uma declaração.
Seria afinal a solução da mensagem misteriosa, escrita há milhares de anos para aqueles cuja inteligência fosse capaz de desvendar a charada galáctica? Seria a mensagem do imortal desconhecido, cuja pista Rhodan seguia? Seria a resposta à indagação sobre o paradeiro atual do planeta da vida eterna, o local onde procurá-lo?
A mão de Rhodan tremeu de modo imperceptível ao abaixar a alavanca que havia debaixo da lâmpada vermelha. A luz apagou-se. Ao mesmo tempo, ouviu-se no alto-falante outro estalido. Uma voz mecânica e inexpressiva falou com timbre metálico:
— É uma solução parcial. Só a primeira parte da mensagem pôde ser decifrada. Darei o texto por escrito. Por favor, queiram fazer a ligação correspondente. A solução definitiva continuará a ser estudada. Fim da transmissão.
— Uma solução parcial! — Bell gemeu alto. — Isto não nos leva a nada!
— Silêncio! — ordenou Rhodan, procurando esconder a própria decepção. — Deveríamos nos dar por satisfeitos de que alguma coisa tenha surgido daí.
Deixou a mão direita deslizar sobre os controles do cérebro positrônico e apertou vários botões. Algumas lâmpadas se acenderam, outras se apagaram. Em algum lugar surgiu um outro ruído. Uma fenda larga se abriu. Os três homens fixaram nela o olhar, na expectativa do texto decifrado que deveria sair agora.
Antes que isso acontecesse, porém, decorreram ainda quase dois minutos.
Uma tira de papel caiu sobre a mesinha frente ao painel de comutadores, exatamente diante de Rhodan. A escrita era graúda e bem legível:

Quando o planeta onde agora te encontras houver girado 21,3562 vezes sobre o próprio eixo, a escrita se apagará. Se quiseres achar a luz, deveras te apressar.

E isto era tudo.
Perry Rhodan tentou esconder novamente a decepção e a preocupação. Tinha idéia de que viria mais, porém, ainda assim, não seria o caso de ficar satisfeito? Não conseguira, pelo menos, saltar a primeira barreira?
Bem, era o texto já decifrado sem dúvida, mas o que significava?
Ferrol girava em torno de seu eixo em exatamente 28,23 horas. O relógio de bordo marcava sempre os mesmos dias de vinte e quatro horas da Terra. 21,3562 dias de Ferrol correspondiam, portanto, a mais ou menos 24,700423 dias terrestres.
— Encontramos a mensagem há exatamente três semanas na arca sob o Palácio Vermelho, em Thorta, a capital de Ferrol — disse Rhodan, acentuando os pormenores. — Isto nos deixa exatamente três dias e cerca de quinze horas de prazo. Para ser mais exato: o cérebro positrônico tem este prazo para conseguir decifrar o resto da mensagem. Caso contrário, a escrita se apagará.
Era assombroso. Antes fora Bell que se fizera de pessimista. Agora, de um momento para o outro, transformava-se em otimista. Todo o seu rosto irradiava alegria.
— E daí? Deixe que se apague! Por mim, esta escrita engraçada pode desaparecer quando quiser. Já a registramos em fotografias e filmes! Se o original sumir, as cópias continuarão à nossa disposição.
Rhodan levantou os olhos. Seu olhar interrogativo voltou-se para Crest, que o retribuiu em silêncio. Por alguns instantes pareceu que o argumento de Bell houvesse feito desaparecer todas as preocupações. O arcônida, entretanto, meneando lentamente a cabeça, proferiu:
— Meu caro Bell, está cometendo um grave erro ao pensar de maneira tridimensional. É o que não se deve fazer, quando se pretende resolver um enigma proposto por seres que raciocinam em cinco dimensões. Se nos foi dito que a escrita da mensagem desaparecerá, isto significa sem dúvida que as cópias fotográficas também deixarão de existir, esgotado o prazo.
O rosto de Bell mostrava incredulidade.
— Mas Crest, está falando de coisas impossíveis. Que influências poderiam ter sobre nossas fotos esses imortais separados de nós por milhares de anos? Que bases científicas fornece para a sua afirmação?
— Muito simples — Rhodan interveio novamente. — Sei o que Crest quer dizer. Esses imortais, em sua visão do mundo, referem-se de duas maneiras ao tempo. Em primeiro lugar, ao passado permanente, a quarta dimensão. Depois, à forma mutável, a que chamamos quinta dimensão. Todas as frases da charada galáctica se seguem automaticamente. Portanto, deve ter sido inserido, na escrita, uma espécie de bloqueio automático. Quando o prazo estiver esgotado, as palavras da mensagem que o nosso cérebro positrônico tem de decifrar simplesmente serão anuladas. No mesmo momento, como a mensagem jamais teria sido escrita, também não existiria no presente, e nós nunca poderíamos tê-la copiado. Passaria a nunca ter existido. Compreendeu agora?
Os cabelos de Bell eriçaram-se, sinal seguro da agitação em que se encontrava. Os olhos se arregalaram. Podia-se ver muito bem a luta que travava consigo mesmo, da razão contra algo inconcebível.
— Mas então isso é... — balbuciou.
— Terrível, admito — Rhodan aquiesceu friamente. — Mas é de uma lógica perfeita. Pode ter certeza de que a escrita se apagará dentro de três dias e quinze horas, e que nada no mundo poderá trazê-la de volta.
— Assim é — confirmou Crest.
A agitação de Bell extinguira-se, mediante a pronta receptividade de seu cérebro. Recebera, além do mais, o hipnotreinamento por parte do arcônida, que lhe transmitira o conhecimento milenar da raça antiqüíssima. Não havia o impossível, tudo tinha sua explicação. Portanto, aquilo também.
— Bem, então dispomos de pouco tempo. Esperemos que o cérebro positrônico da Stardust-III consiga resolver tudo.
A Stardust-III era o gigantesco cruzador espacial esférico, da classe império, tomada dos arcônidas por uma raça guerreira, e que Rhodan conseguira reconquistar. Com isso, se assegurara o direito de ser igualmente o comandante da imensa nave de oitocentos metros de diâmetro. Era ela o produto de uma civilização perto da qual a Terra pareceria um mundo de homens da idade da pedra. A propulsão da Stardust-III permitia-lhe saltar milhares de anos-luz através do espaço, quase sem perda de tempo. Seu hipertransmissor tornava possível a transmissão e recepção de som e imagem dentro de uma parte considerável da galáxia, com eliminação total do tempo como fator de impedimento. As ondas de rádio atravessavam o hiperespaço, tornando todas as distâncias supérfluas.
A Stardust-III era a mais perfeita nave que um ser humano poderia imaginar, e o cérebro positrônico era apenas uma parte dela.
— Estamos na inteira dependência dele — reconheceu Rhodan. — Caso não tenha êxito, nossa caçada estará terminada e nos caberá apenas cumprir a promessa de levar Thora e Crest de volta a Árcon.
— Disso é que tenho medo! — asseverou Bell, categórico.
— Medo? — Crest teve um sorriso um tanto desamparado. — Por quê?
— Ora, escute bem. Se somente a Stardust-III já nos arrasa, o que acontecerá quando conhecermos Árcon, o planeta líder do Grande Império? Sejamos honestos: o que é a Terra perto de Árcon?
Crest já não sorria ao responder:
— Tem razão... é um grão de poeira, só isso.
Percebia-se claramente certa compaixão em sua voz.
Compaixão por Bell... ou pela Terra? Ninguém poderia responder.
Três dias se passaram, sem que o cérebro positrônico tivesse decifrado a mensagem. Nem fora dado a conhecer qualquer outro resultado parcial. O gigantesco e aparentemente onisciente cérebro calava-se.
Em Ferrol, oitavo planeta do sistema Vega, tudo corria segundo o plano traçado. Deringhouse fiscalizava os vôos de patrulhamento de seus caças espaciais e diariamente transmitia a Rhodan um resumo dos acontecimentos. Fora deles e dos ferrônios, nativos do planeta, não havia nesse sistema ser algum inteligente ou sequer semi-inteligente. Nada indicava que criaturas estranhas de outros sistemas tivessem percebido sua presença. Os caças espaciais patrulhavam através de mundos vazios e desabitados.
Enquanto isso, a indústria dos ferrônios intensificava sua produção de mercadorias requeridas no comércio com a Terra. Rhodan tencionava levá-las em sua próxima viagem à Terra, a fim de trocá-las por artigos terrestres. Conquanto as boas relações comerciais sempre tivessem sido uma condição essencial de relacionamento amistoso entre povos e raças, isso ainda mais se acentuava no caso de raças pertencentes a mundos separados um do outro por vinte e sete anos-luz.
Entretanto, no íntimo, Rhodan se preocupava com a Terra. Os ferrônios possuíam uma forma de governo unitário e eram governados por um soberano, o Thort. Por outro lado, a Terra...
Suspirou. Claro, o medo da superioridade técnica dos arcônidas e, portanto, do próprio poder de Rhodan, tinham unido os governos do mundo e evitado uma guerra atômica. Essa união ainda não significava, no entanto, que o planejado governo mundial se tivesse tornado realidade. Por baixo da superfície pacífica da vida política, continuavam a fervilhar a desconfiança e as rivalidades nacionais.
Contudo, talvez o exemplo dos ferrônios acelerasse o desenvolvimento natural.
Caso ele não se processe”, pensou Rhodan, irritado, “terei naturalmente que dar uma ajuda. De qualquer forma, a Terra já deverá estar forte e unida quando for descoberta pelos arcônidas. De modo algum quero que os arcônidas decadentes venham a encarar a Terra e seus habitantes como uma nova colônia de seu império estelar. Nesse caso”, Rhodan sorriu interiormente, “que aconteça exatamente o contrário.”
Estava sozinho na central do cérebro positrônico. Mais treze horas e o prazo estaria esgotado. Tempo demais para quem tinha de ficar esperando. Ridiculamente pouco, entretanto, levando-se em conta os vinte e quatro dias decorridos sem que o cérebro positrônico conseguisse dar a solução.
Rhodan ouvia o zumbido incessante através das poderosas paredes de arconita. O cérebro trabalhava a toda força, para decifrar um texto escrito há dez mil anos.
Por volta do meio-dia, Bell entrou para ver como andavam as coisas. Fez algumas observações totalmente supérfluas e desapareceu de novo. Crest e Thora também vieram procurar Rhodan. Fizeram-no prometer que os informaria assim que surgisse o primeiro resultado. Rhodan assentiu de bom grado.
Mais oito horas apenas.
A tarde já estava no fim. Rhodan havia comido, mas não quisera se mexer do lugar, desistindo da vigilância. Dois membros do Exército de Mutantes lhe faziam companhia, o teleportador Ras Tshubai, um africano, e Ralf Marten, filho de um alemão e de uma japonesa. Os dois homens pertenciam ao grupo de pessoas nascidas depois das primeiras explosões atômicas da Terra. Os cromossomos de seus pais haviam sido alterados pelas radiações nucleares. Em muitos casos isso viera a constituir uma vantagem, pois algumas funções cerebrais, até então adormecidas, foram ativadas. Dispunham de aptidões que deviam parecer mágicas para o comum dos mortais.
Ralf Marten possuía o dom da exopersonificação. Conseguia separar o espírito do corpo e ver com os olhos e os ouvidos dos outros, podendo até falar através de suas bocas. Enquanto isso, seu próprio corpo caía numa espécie de rigidez, da qual só despertava quando deixava o espírito voltar.
Ras Tshubai, pela força de vontade, podia transportar-se através de grandes distâncias, mediante o controle da materialização. Era o que se poderia chamar de teleportação.
Muitos outros mutantes faziam parte do exército: telepatas, telecinetas, supercérebros, espias e videntes de freqüência. O Exército de Mutantes era a tropa em que Rhodan mais confiava, sendo os seus melhores auxiliares quando se tratava de representar a raça humana junto aos extraterrenos, que também possuíam aptidões assombrosas.
Ralf Marten e Ras Tshubai se esforçavam para que o tempo passasse mais rapidamente para seu chefe.
— Se o cérebro positrônico realmente falhar — declarou o africano, com um gesto de desdém — nem tudo estará perdido. Há outras pistas. Lembre-se da pirâmide que existe na lua exterior do décimo terceiro planeta. O sábio ferrônio Lossos descobriu-a. Eles mesmos revelam que ela constitui outro caminho para a nossa meta. Se o caminho mais curto se tornar difícil, iremos pelo mais longo.
Rhodan discordou.
— O caminho direto é mais perto e não dispomos de muito tempo. Os arcônidas estão impacientes. Querem voltar para Árcon, o que acho compreensível. Já estão conosco há muitos anos. Somente o seu desejo de encontrar o planeta da vida eterna os impediu até agora de impor energicamente suas exigências.
— Talvez o cérebro ainda o consiga — disse Ralf Marten, lançando um olhar esperançoso sobre o complicado painel de comutadores. — Vinte e quatro dias é um bocado de tempo.
— Exatamente! — exclamou Rhodan, suspirando. — Se vinte e quatro dias não foram suficientes, então as oito horas que ainda restam também não o serão.
Ras Tshubai quis dizer alguma coisa, mas calou-se repentinamente. O zumbido atrás das paredes modificou-se. Tornou-se mais forte e irregular. Algumas lâmpadas de controle acenderam-se. Uma fila inteira delas começou a acender e apagar a intervalos regulares, como se quisessem transmitir um sinal.
E assim era.
No alto-falante do aparelho de transmissão começou a se ouvir distintamente um estalido. E então surgiu a voz inexpressiva do cérebro positrônico, sem expressão alguma de triunfo.
— Solução encontrada. Darei novamente o texto por escrito. Fim da transmissão.
Com auxílio das instalações de bordo, Rhodan avisou Crest e Thora. Do mesmo modo, ordenara a Bell que viesse imediatamente à central.
Enquanto os arcônidas e Bell se apressavam em direção à central, a comprida tira de papel contendo o texto traduzido era impelida para fora da fenda. O lado escrito estava virado para cima. Rhodan ia lendo as palavras à medida que brotavam do cérebro positrônico.

Se você sabe alguma coisa sobre a nossa luz, verifique então de quem obteve esta informação. Apenas um maravilhou-se ante as máquinas do saber. Veio nos últimos tempos, apenas segundos para mim. Encontre-o e interrogue-o! Se quiser ir até ele, desça à arca de tempo, mas não venha sem o conhecimento sobre a sua pessoa. Perguntarão a você o seu nome.

Rhodan pegou a tira de papel e olhou demoradamente as letras claras e definidas, que formavam palavras compreensíveis, mas seu sentido permanecia obscuro e misterioso. Leu o texto mais três vezes, antes de entregar a mensagem a Crest, que a leu rapidamente. Uma sombra de decepção percorreu-lhe as feições, ao passar a tira de papel para Thora, ao mesmo tempo que dirigia um olhar interrogativo a Rhodan.
A arcônida também não parecia ser capaz de saber o que fazer com a mensagem. Bell, tampouco, lhe deu tempo para isso. Sem pedir permissão, arrancou-lhe o papel da mão e devorou as poucas linhas como se disso dependesse a vida. Sua decepção ainda foi maior. Com um olhar de estranheza, devolveu-o a Rhodan.
— Que significado tem isto? Quem é que você tem de achar?
— Não sabe ler? — retrucou Rhodan, um tanto irritado. — Neste momento sei tanto quanto você. Julgo, no entanto, que logo saberemos o que os imortais querem dizer. Para compreender o sentido, basta raciocinar com um pouco de lógica. Talvez aqui o cérebro positrônico pudesse ajudar, acho, porém, que nós mesmos é que teremos de nos esforçar. É preciso descobrir o nome de alguém que se maravilhou ante as máquinas do saber nos últimos tempos. Pergunta: o que são as máquinas do saber? E mais: o que os imortais entendem por “Veio nos últimos tempos, apenas segundos para mim?” Temos de esclarecer estas duas perguntas, se quisermos descobrir qual o nome que eles querem ouvir.
— As máquinas do saber — adiantou Crest tranqüilamente — podem muito bem ser os hipertransmissores de matéria dos ferrônios.
Rhodan atinou, de um momento para o outro, que Crest havia respondido à primeira parte da pergunta. Eram, sem dúvida, os hipertransmissores de matéria, trazidos por uma raça desconhecida de astronautas para os ferrônios, que então se encontravam num estágio primitivo de civilização; os surpreendentes aparelhos foram deixados ali como recompensa por algum serviço que os ferrônios haviam prestado aos náufragos. Os hipertransmissores ainda funcionavam, apesar de ninguém entender como. Sua construção baseava-se na matemática pentadimensional e transportavam matéria através do hiperespaço. Eram presente de uma inteligência superior.
Mas quem se maravilhara ante estes aparelhos? Ou melhor: quem se maravilhara, e quando?
Devemos organizar de maneira lógica nossas idéias — disse Rhodan, lançando a Bell um olhar de advertência, para que não perturbasse tais idéias com apartes muito pouco inteligentes. — Temos uma indicação. Devo verificar de quem obtive a informação sobre a luz. Aqui, a luz significa, como sempre, a imortalidade. E foi de você, meu caro Crest, que a obtive. Sua expedição procurava o planeta da vida eterna. Portanto, você é a primeira pessoa-chave do enigma. Agora, devemos procurar descobrir de quem você a obteve.
Crest assentiu lentamente. As outras pessoas presentes calaram-se, observando, emudecidas, o duelo dos dois homens que procuravam descobrir uma pista na escuridão.
— A pergunta é fácil de responder. Foi através do arquivo central dos arcônidas, que nosso Conselho Científico nos deu a missão de descobrir o planeta da vida eterna. Portanto, deve haver anotações sobre isso. Só podem ter vindo da época em que nossas expedições espaciais ainda exploravam o Universo e depararam nessas viagens com a raça dos imortais. Mas no arquivo estão registrados os nomes de milhares de expedições. Como acharemos qual delas foi?
Rhodan suspirou audivelmente.
— Não será tão difícil como você imagina, Crest. Somente os arcônidas que exploraram as proximidades da Terra há dez mil anos é que poderão ter encontrado a pista dos imortais. Provavelmente os mesmos que instalaram a base de Vênus, na qual se encontra o maior de todos os cérebros positrônicos existentes. Como sabemos, os arcônidas se estabeleceram na Terra, mas desapareceram então na corrente sangüínea da Humanidade. Catástrofes poderão tê-los dizimado... a Atlântida talvez. Agora, no entanto, cabe-nos supor que pelo menos um relatório dessa expedição alcançou Árcon, senão não poderia haver indicação alguma a respeito no arquivo central e você, Crest, jamais teria sido enviado à Terra.
Thora concordou com entusiasmo.
— Claro, é isto mesmo! Temos agora de descobrir o nome do comandante que transmitiu esse relatório. Só nos resta voar para Árcon e dar uma espiada no arquivo central.
Ela não conseguia esconder uma nota de triunfo na voz. Bell contemplou a bela arcônida com desconfiança. Ele mesmo não sabia direito se simpatizava com ela ou se a detestava. Sim, Thora era bonita. Seus cabelos brancos faziam um contraste maravilhoso com a pele levemente bronzeada. Os olhos avermelhados tinham expressão inteligente e um pouco desdenhosa. Percebia-se que aquela mulher não conhecia sentimento humano algum. Mas talvez fosse um engano, quem sabe?
Rhodan sorriu.
— Está enganada, Thora, sinto muitíssimo por você. Não precisamos voar até Árcon para verificar o nome desse homem que enviou há dez mil anos o relatório para o arquivo central. Não há dúvida de que a expedição esteve naquela época aqui no sistema Vega, mas se não voltou e se mesmo assim Árcon tomou conhecimento disso, é porque a transmissão de notícias só pode ter sido feita através da base em Vênus. E tudo o que aconteceu foi registrado pelo cérebro positrônico. Thora, como está vendo, não temos outra coisa a fazer senão nos dirigirmos a Vênus e interrogar o cérebro positrônico. Viu como é simples?
— Muito simples, sim — admitiu Thora, a contragosto. — E o que acontecerá quando você souber o nome?
Rhodan apontou a tira de papel sobre a mesinha à sua frente.
— Tomarei nota do nome e voltarei à arca de tempo. Tudo o mais decorrerá automaticamente.
Bell estouraria se continuassem impedindo que falasse.
— Voaremos então para perto de casa! — concluiu alegremente. — Aproveitaremos a oportunidade para descobrir o que é que a velha mãe Terra anda fazendo. Terei a alegria de rever o coronel Freyt. Puxa, vou poder lhe contar umas histórias bem interessantes...
— ...das quais garanto como ele não acreditará em palavra alguma! — atalhou Rhodan. — Tive de esclarecê-lo em alguns pontos, depois que você lhe contou as mais loucas histórias de terror. O pobre Freyt ficou inteiramente confuso. Não, meu caro, já tomei providências! Avisei todo o pessoal da cidade de Galáxia para não acreditar em palavra alguma do que você disser. Já não dá mais para você bancar o grande herói de inacreditáveis aventuras, Bell.
Os olhos de Bell pareceram abatidos. Mas todos os que se achavam ali o conheciam bem, de modo que ao tentar se defender, só conseguiu ser envolvido pelas brincadeiras gerais. Com um olhar ressentido para Rhodan, desistiu prontamente de continuar. Consolou-se com a idéia de que certamente encontraria na Terra ouvintes ainda desprevenidos, que manifestariam interesse em ouvir o relato de suas aventuras.
— Portanto — resumiu Crest — a primeira parte da tarefa consistirá em descobrir o homem ou o nome do homem, uma vez que ele já está morto há dez mil anos, que se maravilhou ante os hipertransmissores existentes nesse sistema. Por conseguinte, eles sem dúvida se originam dos imortais. Em seguida, Rhodan, você deverá voltar à arca que fica sob o Palácio Vermelho. E depois, só nos resta esperar pelo que acontecer.
— Voltar de novo à horrível sala das máquinas? — estremeceu Bell.
— Não necessariamente — tranqüilizou-o Rhodan. — Acho que desta vez nos espera uma tarefa diferente.
Ele mesmo não podia imaginar como o futuro lhe daria razão.











2



As mercadorias dos ferrônios já tinham sido embarcadas. Em Ferrol ficaria uma esquadrilha de cinqüenta e quatro caças espaciais sob o comando do major Nyssen. Com isso Rhodan pretendia atingir um duplo objetivo. Garantia a segurança da primeira base da Terceira Potência — nome que dava à união entre homens e arcônidas — e, além disso, o gigantesco hangar da nave teria bastante lugar para a carga dos ferrônios. Na Terra, esses artigos originais e estranhos, concebidos por uma raça de outro sistema solar, seriam muito disputados. Rhodan esperava realizar um ótimo negócio, pois a ampliação da Terceira Potência exigia muito dinheiro.
A Stardust-III deu a partida. Depois de dar a volta ao planeta, deslizou para a imensidão do sistema Vega. A nave dos arcônidas ultrapassou as órbitas dos outros planetas na velocidade da luz e depois de muitas horas foi lançada no espaço exterior. Só ali seria possível dar o salto interestelar, que de outro modo abalaria a estrutura tempo-espaço das órbitas dos planetas.
As coordenadas estavam corretas.
Como sempre, todos os tripulantes foram tomados pela excitação já rotineira diante do hipersalto. Não havia perigo algum, mas era sempre difícil pensar no assunto sem perder a tranqüilidade. A nave e os homens deixavam de existir, pelo menos na terceira dimensão. O tempo influía duplamente nos acontecimentos. Em poucas horas, considerando-se a aceleração e o retardamento, percorria-se um espaço de vinte e sete anos-luz. E para os que estavam na nave, era como se não tivesse acontecido nada.
Contudo, através do salto interestelar, todo o hiperespaço sofria um abalo que se propagava imediatamente. Seres inteligentes que habitavam as profundezas do Universo haviam construído instrumentos com os quais podiam registrar e localizar essas deformações da estrutura espacial. Os sensores estruturais significavam perigo para os que desejavam manter-se ocultos. E o que Rhodan mais queria era que ninguém descobrisse a existência da Humanidade.
Assim, cada hipersalto significava um risco que tinham de correr.
Tudo parecia ter saído bem. Naturalmente, Perry Rhodan não podia saber se alguém a cem ou dez mil anos-luz de distância registrara algo. Podia apenas ter esperança de que isso não tivesse acontecido.
A Stardust-III materializou-se ainda longe de seu sistema solar de origem. O próprio Sol ainda parecia uma estrela muito clara e amarelada, situada bem na direção em que seguiam. Rhodan, erguendo-se da poltrona inclinada, pôde reconhecê-lo na tela.
Bell entrou na central alguns segundos mais tarde. Preferiu permanecer em sua própria cabina durante a desmaterialização.
— É o Sol? — perguntou, apontando a imagem na tela.
Rhodan assentiu com a cabeça, enquanto batia um pedido de informações sobre os dados de navegação no teclado do computador. Quase de imediato as respostas brotaram da fenda na forma de uma tira perfurada. Rhodan enfiou o início da tira em outro computador, que utilizava os resultados para manter a Stardust-III automaticamente na direção correta.
Vênus estava do outro lado do Sol.
Depois de três horas de viagem passaram por Plutão. Usando o sistema normal de transmissão foi realizada a conexão com a base de observação que ali se localizava. Sua tarefa era comunicar à central da cidade de Galáxia a chegada de objetos voadores não-identificados. Nesse caso, o coronel Freyt teria a permissão de informar Rhodan através do hipertransmissor.
Dez horas mais tarde, Vênus já era uma brilhante lua crescente diante da Stardust-III. A cada segundo se tornava maior e mais clara. O segundo planeta do sistema solar se revelara habitável. Ali viviam répteis gigantescos e um tipo de foca quase inteligente, que habitava os numerosos mares. O clima era úmido e tropical. Havia oxigênio suficiente nas partes baixas, enquanto o hidrogênio, mais leve, tornava as camadas superiores da atmosfera irrespiráveis para os seres humanos. A superfície estava quase sempre oculta por um manto espesso de nuvens e não se podia vê-la. Chovia mais em Vênus do que em qualquer ponto da Terra.
Outra dificuldade era a presença de bióxido de carbono, em quantidades maiores, mas ainda não prejudiciais. Um dia de Vênus durava duzentas e quarenta horas da Terra. No equador, a gravidade era de cerca de 0,85 g, menor que a da Terra. A velocidade de vôo, atualmente um fator inexpressivo nas viagens espaciais, era de mais ou menos 10,1 km/s.
Os arcônidas que aterrizaram nesse planeta há dez mil anos haviam instalado ali sua base mais importante. Escavaram uma montanha e a reconstruíram de acordo com suas necessidades. Os arcônidas foram embora, mas suas instalações técnicas e seus robôs ficaram. Pertenciam agora a Rhodan e seus aliados.
As armas de defesa antiaérea entravam automaticamente em atividade, quando se aproximava da montanha-fortaleza uma nave sem todas as características arcônidas. Só uma frota gigantesca de seres altamente inteligentes e com uma experiência militar de milhares de anos teria a possibilidade de dominar a defesa mecânica dos antigos arcônidas.
Uma das entradas do labirinto subterrâneo ficava no planalto que havia no alto da montanha. A Stardust-III mergulhou lentamente em direção a essa superfície quase lisa. Raios invisíveis apalparam a nave, examinaram suas características e permitiram que continuasse se aproximando.
O cérebro positrônico situado no interior da montanha já sabia que uma nave de seus construtores se aproximava.

* * *
Só aterrizaram meia-hora mais tarde.
Crest e Rhodan foram os únicos a ficar em Vênus, onde teriam um diálogo com o robô onisciente. Na ausência de Rhodan, Bell assumiu o comando da Stardust-III. No entanto, aceitou de bom grado a assessoria de Thora em seu vôo para a Terra.
Não se podia dizer que a missão de transportar carga lhe fosse desagradável. Muito pelo contrário. Era agora o comandante e o representante de Rhodan. Ninguém lhe faria críticas, nem mesmo Thora.
A Terra ainda estava bem longe quando se estabeleceram os primeiros contatos de rádio. Depois de poucos minutos, Bell ouviu a voz do coronel Freyt, que durante a ausência de Rhodan respondia pelos interesses políticos e econômicos da Terceira Potência na Terra.
— Aqui é Freyt falando! Na cidade de Galáxia tudo segue o rumo previsto. É uma alegria ter a Stardust-III novamente conosco. Quais as novidades?
A velocidade da nave foi diminuindo. A Lua já ficara para trás. A Terra ia crescendo diante deles, uma bola azul-acinzentada, cercada por uma auréola clara de atmosfera.
Uma visão maravilhosa”, pensou Bell. “É o planeta mais lindo do Universo. Ainda bem que os homens não conseguiram destruí-lo.”
E o estranho é que, se tivessem conseguido, provavelmente nem se lamentariam. Só o medo de serem as próprias vítimas da destruição atômica os impedira.
— Obrigado, Freyt. Aqui fala Reginald Bell, comandante da Stardust-III. Rhodan ficou em Vênus com Crest. Têm uma conferência importante com o cérebro positrônico local. Por isso trate de se contentar comigo.
— Quanto sacrifício pela paz — suspirou Freyt, acrescentando: — Mas vou tentar me alegrar. E o que há de tão importante para discutir com o cérebro positrônico?
— É uma história comprida — confidenciou Bell. — Terei muito prazer em contá-la quando estivermos os dois ao lado de uma bela garrafa de vinho.
— Pelo amor de Deus, não! — retrucou Freyt assustado. — Ainda estou com sua última visita entalada na garganta. Aqueles coelhos aquáticos com aparelhos de mergulho embutidos...
A conversa continuou por algum tempo até começarem as manobras de pouso. Enquanto isso a Stardust-III dava uma volta em torno da Terra a pouca altura, para mostrar a todos os povos que Perry Rhodan estava de volta. Em seguida, o continente asiático começou a crescer sob a nave, até que, do meio do deserto de Gobi, emergiu Galáxia.
A cidade de Galáxia! A mais moderna metrópole do mundo!
Há algum tempo, Perry Rhodan, ao voltar da Lua com a nave dos arcônidas, construíra ali sua primeira base, sob o protesto dos governos terrestres. Com o tempo foi surgindo uma enorme cidade, construída por robôs e máquinas automáticas. A cidade ficava fora da Central de Defesa propriamente dita, cujas valiosas instalações eram protegidas por uma cúpula energética. Um exército de robôs defendia o território da Terceira Potência — exatamente quarenta mil quilômetros quadrados — contra o mundo exterior.
O tráfego se movimentava pelas ruas principais; esteiras transportadoras deslizavam entre os arranha-céus, estabelecendo a ligação com as fábricas situadas na periferia, que trabalhavam a todo o vapor. Mais de duzentos e trinta mil pessoas viviam em Galáxia, a mais moderna e poderosa cidade da Terra.
As forças armadas eram compostas de quinhentos homens, que tinham tido o melhor preparo possível e estavam equipados com armas arcônidas. Além disso, havia cinco mil soldados-robôs do tipo arcônida, que só obedeciam a Rhodan e seus representantes.
Também possuíam quatro naves auxiliares esféricas, fortemente armadas, rápidos caças espaciais e o respectivo armamento.
No entanto, todo esse enorme poder militar só servia à paz.
O coronel Freyt, que exteriormente se parecia tanto com Perry Rhodan que poderia passar por seu irmão, esperou a Stardust-III no espetacular espaçoporto. Quando a esfera gigantesca finalmente parou, parecia um edifício incrivelmente alto. A curva de seu revestimento côncavo, feito de metal faiscante, chegava até o azul do céu. Pairava quase que horizontalmente sobre Freyt, que chegara bem perto da escotilha para passageiros, que começava a se abrir. A escada rolante foi descendo silenciosamente. Em sua extremidade superior surgiu a figura de Bell. Foi deslizando para o chão como uma bola, quase aos tropeções, até cair nos braços de Freyt.
— A Terra o recebe novamente! — declarou o coronel, saudando-o em tom indiferente. — Dou-lhe as boas-vindas em nome da Terceira Potência, senhor ministro da segurança. Tudo em ordem!
— É o que espero! — gritou Bell entusiasmado, batendo nas costas magras de Freyt. — Rhodan e Crest mandam muitas lembranças. Thora o cumprimentará pessoalmente. Lá vem ela.
É claro que Freyt não era o único homem que via com prazer a bela arcônida.
Era fria, distante, orgulhosa e arrogante, mas era uma mulher, uma mulher de extraordinária beleza.
— Por que me olha desse jeito, coronel Freyt? — perguntou, estendendo a mão para ele. — Mudei tanto assim?
— Você está bronzeada — murmurou Freyt embaraçado. O risinho de Bell o irritava. — Você vai bem, espero.
— Bem, obrigada — agradeceu Thora com indiferença. — Estou sempre bem quando surge uma oportunidade como essa, de passar alguns dias sem ter de estar continuamente olhando para esse tal de Reginald Bell.
Bell não parou de sorrir. Inclinou-se para Freyt:
— Vê como ela está? Espero que se divirta com ela. Poderão dar uma volta pela cidade enquanto fiscalizo o carregamento das mercadorias para os ferrônios.
— Está tudo pronto — assegurou Freyt, feliz em mudar de assunto. — Por mim você já pode começar.
— Ainda tenho tempo até amanhã, meu caro. Onde fica o bar mais próximo?
Riram. Enquanto isso, alguns dos mutantes, os dois médicos, Dr. Haggard e Dr. Manoli, e o major Deringhouse desciam pela escada rolante. Todos cumprimentaram Freyt com grande efusão. Houve muitas perguntas e respostas de lado a lado, até a chegada dos primeiros planadores de carga. Sem muitas palavras teve início o descarregamento da nave.
Freyt agarrou Bell pelo braço e puxou-o de lado por um momento:
— Tenho boas notícias para Rhodan — confidenciou. — Em pouco tempo teremos um governo mundial. Há negociações sérias nesse sentido.
— Formidável! — elogiou Bell. — Mas eu desvendei uma parte da charada galáctica.
O rosto de Freyt parecia um ponto de interrogação.
— Do quê? Bell sorriu.
— Já lhe conto, é uma história comprida. Diga-me primeiro qual o endereço do bar mais próximo. Você sabe que Rhodan só permite o uso de álcool para fins médicos. E há muito tempo não fico doente...
***

As esteiras transportadoras feitas de metal rolavam através dos corredores subterrâneos da fortaleza de pedra. Era uma visão fantasmagórica. As paredes irradiavam um brilho mortiço. Ouvia-se em algum lugar o zumbido de geradores possantes. De vez em quando, Crest e Rhodan passavam pela entrada de passagens laterais, que levavam a pontos mais profundos da montanha. Robôs silenciosos moviam-se com passos pesados ao lado da esteira. Não reagiam quando Rhodan e Crest passavam per eles deslizando. Seus raios táteis apreendiam os padrões das ondas cerebrais dos dois homens e depois os examinavam e registravam. Aqueles seres mecânicos, aparentemente inofensivos, teriam se transformado em monstros assassinos se os padrões não conferissem.
Já se passara quase um dia inteiro, em tempo terrestre.
Crest deu um risinho fraco.
— Será que a resposta ainda sai hoje?
— Talvez — respondeu Rhodan pensativo. — Inserimos no cérebro positrônico todas as perguntas e dados indispensáveis. Vinte e quatro horas é tempo suficiente. Devemos conseguir pelo menos uma resposta parcial.
Passaram por outro corredor lateral. Sabiam que conduzia ao comando central automático das instalações de defesa. Essas instalações poderiam defender Vênus da invasão de uma frota inteira de naves de combate. Poderiam defender eventualmente todo o sistema solar.
A esteira transportadora foi diminuindo a velocidade. Aproximavam-se de seu destino, a central do cérebro. Seus controles não diferiam muito do cérebro positrônico da Stardust-III, mas era maior, abrangia maior número de conhecimentos. E sua memória armazenava fatos de um passado longínquo, de milhares de anos atrás.
Além disso, esse cérebro positrônico ainda possuía outra vantagem inestimável: era capaz de projetar seu raciocínio em forma de imagens sobre uma tela. Deste modo, podia-se ver pela descrição dos acontecimentos como o cérebro pensava.
Quem quisesse poderia ver um verdadeiro relato filmado do passado mais remoto. Talvez, pensava Perry um pouco chocado, até mesmo uma visão do futuro, se fossem fornecidos ao cérebro as informações indispensáveis.
Todos esses pensamentos passaram pela cabeça de Rhodan enquanto a esteira diminuía a velocidade e finalmente parava. Tinham chegado.
Estavam no fim do corredor. Viram-se diante de uma porta grande e metálica. Crest e Rhodan encaminharam-se para essa porta e se detiveram a um metro de distância. Sabiam que nesse segundo estavam sendo observados e apalpados. Em seguida, a porta deslizou silenciosamente para dentro da parede.
A entrada para a central de comando do cérebro estava livre diante deles.
A luz acendeu-se, iluminando o local. O gigantesco painel de comutadores acordou para a vida. Pequenas lâmpadas acendiam e apagavam continuamente. Alavancas moviam-se, parecendo manejadas por mãos invisíveis. O zumbido atrás das paredes tornou-se mais forte. O cérebro positrônico devia estar esperando pelos dois homens, pois, assim que tomaram seus lugares nas poltronas em frente à tela, o alto-falante deu um estalido e falou com voz mecânica e impessoal:
— Seus dados foram verificados. Os arquivos da memória forneceram as informações desejadas. O resultado será comunicado em forma de filme. Também receberão um resumo por escrito. Se desejarem uma gravação, utilizem o gravador. A transmissão começará dentro de um minuto.
O alto-falante emudeceu. Crest olhou interrogativamente para Rhodan.
— Ver o filme já será suficiente. O que precisamos é o nome do homem que aterrizou em Ferrol naquela época e se surpreendeu com o hipertransmissor. Os ferrônios não têm nenhum registro a respeito disso, nunca nos disseram que algum outro estranho tivesse descido em seu planeta depois dos imortais. Além disso, precisamos saber a data aproximada do pouso. As duas informações certamente vão constar do resumo escrito. Portanto, silêncio! Já vai começar.
A tampa do visor deslizou para trás. O vidro fosco da tela começou a tremeluzir, aparecendo em seguida um desenho abstrato. Permaneceu ali alguns segundos e em seguida desapareceu, surgindo em seu lugar uma imagem natural.
O filme começou. Um autêntico filme, apesar de se passar há milhares de anos. A voz mecânica do cérebro positrônico fazia o comentário.
Três poderosas naves esféricas flutuavam no espaço infinito. Aproximavam-se na velocidade da luz de um sistema solar desconhecido, onde desceram no único planeta habitado. Foram recebidos pelos habitantes primitivos com um misto de respeito e medo.
O comentário dizia o seguinte:
“Há nove mil novecentos e oitenta e cinco anos, de acordo com o tempo terrestre, o comandante Kerlon chegou com suas três astronaves ao sistema Vega, composto de quarenta e três planetas. Uma exploração superficial constatou que só o oitavo planeta tinha vida inteligente. Kerlon realizou o pouso e foi recebido pelos nativos com amizade e temor. Os arcônidas logo perceberam que não eram os primeiros “deuses” vindos do espaço a chegar e descer em Ferrol, nome que os habitantes davam a seu mundo. Outros já tinham estado ali antes deles; estavam em dificuldades e conseguiram ajuda. Como agradecimento, deixaram lá alguns hipertransmissores de matéria, que os arcônidas jamais haviam fabricado e que só conheciam na teoria.
O filme mostrava agora como esses hipertransmissores foram mostrados aos arcônidas.
“Kerlon admirou-se da existência das máquinas e procurou saber os pormenores. Os ferrônios lhe contaram que provinham de seres que viviam mais que o sol. Isso era um indício da raça dos imortais. Kerlon ficou muito espantado e só muito mais tarde enviou ao Arquivo Central as primeiras informações a respeito. Porém, isso só aconteceu quando se encontrava no segundo planeta de um outro sistema.
As três naves deram a partida e, ao saírem do sistema Vega, iniciaram a transição. Perto do sistema solar saíram do hiperespaço. Desceram no segundo planeta, Vênus. Aqui foi construída a grande base e o relato da expedição foi comunicado a Árcon, onde foi recebido e registrado. Nessa época começou a colonização da Terra. Kerlon morreu lutando conta os selvagens de um continente banhado pelo mar e que mais tarde desapareceu do universo durante um ataque.
Kerlon já morreu há muito tempo — finalizou o cérebro positrônico — mas foi o primeiro arcônida a encontrar e depois perder a pista dos imortais. Também foi o primeiro a se admirar da existência dos hipertransmissores de matéria e a mandar um relatório a respeito. No entanto, os outros fatos relacionados se perderam, porque a base no sistema solar desapareceu, mas as informações e os robôs ficaram.”
A imagem apagou-se. A voz emudeceu.
Rhodan continuou sentado durante muito tempo, calado e pensativo. O cérebro positrônico emudecera. Atrás das paredes espessas já não se ouvia nenhum ruído. Rhodan percebeu pela primeira vez que havia uma muralha intransponível entre ele e a solução da charada galáctica. Sabia o nome do homem que se surpreendera com o hipertransmissor, mas esse homem já estava morto há dez mil anos. Entre ele e Rhodan se entrepunha a muralha intransponível do tempo.
O filme deixava claro que não poderia obter nenhuma informação com os ferrônios. Na época do pouso dos arcônidas, ainda viviam em um estágio muito primitivo de sistema feudal. Usavam armas de fogo antiquadas, de carregar pelo cano, mas principalmente espadas e lanças. Vestiam cota de malha e armadura, como os homens na Idade Média da Terra. As recordações sobre esse segundo encontro desapareceram, porque nessa época conflitos e guerras devastavam o planeta.
Crest suspirou.
— Já temos o nome: Kerlon. E é só. Que faremos agora?

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