segunda-feira, 8 de outubro de 2012

P-005 - Alarma Galático - Kurt Mahr [parte 1]


autor
KURT MAHR



Tradução de
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN






O impossível acontece! Num ataque de surpresa, as superpotências terrenas destruíram, na superfície lunar, a nave dos arcônidas, uma raça semelhante aos homens, que domina um grande império galático.
Apenas dois arcônidas sobreviveram ao ataque e encontram-se em segurança junto a Perry Rhodan, o homem que descobriu a nave dos arcônidas e, com o auxílio dos recursos tecnológicos infinitamente superiores dos mesmos, formou a Terceira Potência. Perry Rhodan impediu a guerra mundial que há tanto tempo ameaçava a humanidade. E agora, quando um novo perigo, vindo do espaço cósmico desencadeia o Alarma Galático, mais uma vez a Terceira Potência realiza uma intervenção decisiva.









 = = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =

PERRY RHODAN — Chefe da Terceira Potência.

REGINALD BELLAmigo e auxiliar direto de Rhodan.

TAKO KAKUTA Homem que deve o dom da teleportação à explosão atômica de Hiroxima.

CREST e THORA — Únicos sobreviventes da expedição espacial dos arcônidas.

JESSE MORGAN — Um jovem curioso de profissão.

CAPITÃO ZIMMERMANNOficial do Serviço Secreto. Só acredita no que vê.

ALLAN D. MERCANT — Chefe dos Serviços de Defesa Internacional. Seus colaboradores acreditam que sabe ler pensamentos.

I


— Você nunca compreenderá! Não conseguirá entender nenhum dos impulsos. Seu cérebro ficará confuso. Você...
Thora interrompeu-se em meio à frase. As palavras não lhe acudiam com a rapidez exigida por sua ânsia incontida.
Como é fácil descobrir suas intenções”, pensou Perry Rhodan. “O que a deixa preocupada não é meu cérebro. Na verdade, quer convencer-me de que sou um ser tão subdesenvolvido que nunca chegarei a compreender seus segredos.
— O que importa? — retrucou. — Você não tem nada a perder. Só poderá ficar satisfeita ao ver Perry Rhodan transformado num idiota balbuciante, não é?
Thora percebeu que Rhodan lhe armava uma cilada e ficou aborrecida por notar que isso era fácil para ele.
— Não se trata disso — respondeu em tom seco. — Os cristais informáticos só podem ser ativados um número limitado de vezes. Devemos evitar qualquer desperdício, especialmente quando a perspectiva de um fracasso é tão patente como no presente caso.
Perry Rhodan virou a palma da mão direita para cima.
— Thora, você está sendo injusta comigo! — disse em tom suplicante. — Não compreendemos tudo o que nos foi apresentado até agora?
Thora estalou os dedos, num gesto de desprezo.
— O que você aprendeu até agora não é nada em comparação ao que lhe está reservado.
Rhodan voltou-se para Crest que, como de costume, estava muito sério. Só quem o conhecesse adivinharia pelas rugas de sua testa o quanto estava se divertindo.
Uma única situação destas vale mil programas de ficção”, pensou Crest. “Oh Senhor dos Mundos! A mais inteligente das arcônidas e um homem que é um verdadeiro semideus; e comportam-se como crianças.
Na verdade, tratava-se de coisas muito mais importantes. Depois de alguma resistência, Thora acabara concordando em que Rhodan e Bell adquirissem parte da ciência arcônida através do método de ensino hipnótico. Mas, agora que Rhodan propusera que, para alcançar maior grau de eficiência, os últimos segredos lhe fossem revelados, ela passou a opor uma resistência encarniçada.
Todavia, Crest ponderou que os dois arcônidas só poderiam contar com a energia dos subdesenvolvidos, cujo auxílio poderia tornar-se muito mais eficiente se lhes fossem transmitidos os conhecimentos necessários.
Apesar disso, Crest teve de fazer valer a autoridade de que se achava investido na qualidade de membro da dinastia reinante dos arcônidas, e que também se estendia a Thora, para quebrar a resistência que a mesma opunha à sugestão de Rhodan.
Este sentia-se bastante atingido pela obstinação de Thora, muito mais do que se dava conta. Encerrando a palestra; disse:
— Muito obrigado pela confiança. Verá que a mesma não foi mal aplicada em mim e em Bell.
Dirigindo-se a Thora, observou:
— Com o tempo, você se convencerá de que não tenho a menor intenção de prejudicá-la ou ferir seu orgulho.
Achou necessário acrescentar essas palavras, embora soubesse que Thora não tinha a menor receptividade para elas. Ainda não tinha.
***

— Vá para o inferno! — disse Reginald Bell em tom exaltado.
Procurou disfarçar o susto que Tako Kakuta lhe metera ao surgir, repentinamente, ao seu lado, vindo do nada.
Um sorriso surgiu no rosto redondo e infantil de Tako.
— Por que devo ir para o inferno? — perguntou em voz fina. — Mereço coisa melhor. Trago notícias boas.
— Notícias boas? — perguntou Bell. — De que lugar, deste mundo de Deus, ainda podem vir notícias boas?
— As notícias vêm de Tai-tiang — disse Tako, sempre sorrindo. — Acabou reconhecendo que mesmo com a tal Divisão de Engenharia não conseguirá nada contra a Terceira Potência. Seus homens estão se retirando.
Bell já sabia que Tai-tiang não teria outra alternativa, depois que a Terceira Potência havia destruído a galeria por meio da qual pretendiam passar por baixo da cúpula energética, para destruir a nave dos arcônidas com uma explosão nuclear. Apesar disso, a notícia de Tako produziu um certo alívio em sua mente.
— Obrigado, Tako — disse com um ligeiro suspiro.
— Até logo, capitão — respondeu Tako e desapareceu.
Bell continuou fitando o lugar em que o japonês estivera. Parecia pensativo. Nos últimos meses conformara-se com a idéia de que só os arcônidas seriam capazes de oferecer novidades que pudessem espantar um homem à prova de choque como ele. Levaria algum tempo para aceitar o fato de que Tako Kakuta não era outro arcônida, mas um ser como ele. Ainda se assustava quando o teleportador surgia, vindo do nada, para depois de algum tempo voltar a desaparecer, como que dissolvido no ar.
Reginald Bell refletiu sobre o dom estranho da teleportação. Embora Tako lhe oferecesse várias demonstrações por dia, o fenômeno ainda lhe parecia tão inacreditável e apavorante como um cavalo que lhe desse bom-dia. Subitamente ouviu um zumbido, vindo da parede, e o brilho suave da tela interrompeu o crepúsculo frio que reinava na sala.
O rosto de Rhodan surgiu na tela.
— Bell, gostaria de falar com você — disse Rhodan. — Tem tempo?
— Tenho. E no seu camarote?
— É, sim. Crest também está aqui. Bell acenou e saiu da sala. A tela apagou-se.
Quando entrou no camarote de Rhodan, este disse:
— Pretendemos dizer adeus à Terra por alguns dias.
Bell aguçou os ouvidos. Crest continuou:
— Enquanto completam o treinamento hipnótico, os senhores precisam do máximo de repouso. Além disso, nossa excursão terá outra finalidade. Não é de supor que nossa nave pousada na Lua tenha sido totalmente destruída. Não acredito que um míssil terrestre tenha tamanho poder de destruição. Acho que, se procurarmos com calma conseguiremos salvar alguns objetos importantes.
A decolagem da nave foi marcada para dali a dois dias. Enquanto isso, a tripulação, especialmente Bell e Rhodan, desenvolvia uma atividade que fez retumbar os corredores da nave.
Em virtude das funções que lhe cabiam, a nave dispunha de um grupo de robôs de reparo. Para Rhodan, qualquer segundo durante o qual estes permaneciam inativos, atirados ou encostados no depósito, representava um desperdício. Por isso, pediu a Crest que elaborasse um programa das atividades dos robôs.
— Quando estará pronto o programa? — indagou.
— Daqui a dez minutos.
— Caramba! — exclamou Rhodan. — Em dez minutos?
Crest confirmou com um movimento de cabeça e dirigiu-se à escrivaninha. Rhodan, ao sair, marcou a hora.
Pensativo, dobrou um ângulo do corredor. Não vira a pessoa que se aproximava do outro lado. Quase esbarrou em Thora.
— Oh, desculpe! — disse com um sorriso, ligeiramente perturbado.
Thora parecia estar de bom humor. Lançou-lhe um olhar irônico.
— Se continuar a desenvolver tanta energia, um dia acabará atravessando a parede, sem precisar fazer a curva.
— E se um belo dia você conseguir ser menos presunçosa, até que será uma mulher passável — respondeu Rhodan.
Thora estreitou os lábios. Virou-se abruptamente e desapareceu em outra curva do corredor. Suspirando, Rhodan continuou seu caminho.
Tako Kakuta estava esperando por ele. Rhodan entregou-lhe um maço de papéis com anotações.
— Leia isto, Tako. Depois falaremos a respeito.
Sem perda de tempo, Tako pôs-se a examinar as anotações de Rhodan. Este hesitou um pouco antes de por-se a caminho para junto de Crest.
— Chegou bem na hora, Rhodan — disse o cientista. — Acabei neste instante.
Tomaram um elevador e desceram ao depósito de robôs.
— Fiz um programa para cada um deles — disse Crest com certo orgulho. — Quando voltar, ficará admirado com o trabalho destas máquinas.
Havia uns vinte robôs-trabalhadores com funções universais. Todos eles tinham forma humanóide. Os arcônidas haviam descoberto que esta representava o tipo ideal em meio ao arsenal inesgotável das gerações. Dessa forma, haviam dotado seus robôs de dois braços, duas pernas, mãos com cinco dedos, inclusive um polegar, uma cabeça que continha o equivalente positrônico de um cérebro humano, inclusive os órgãos dos sentidos mais importantes. A postura ereta permitia aos robôs contemplarem o mundo da mesma perspectiva que os seus construtores. Apesar das suas funções universais, podiam receber uma programação específica para determinadas tarefas.
O programa que Crest elaborara para cada uma das máquinas estava registrado numa delgadíssima fita de plástico.
— Aqui estão registrados todos os impulsos — explicou.
Pôs-se a introduzir os programas nos robôs. Essa atividade consistiu tão-somente em colocar a fita de plástico numa fenda, que era encontrada num ponto diferente em cada uma das máquinas. Feito isso, era só esperar que o robô emitisse um zumbido e desse sinal de que estava pronto a entrar em funcionamento.
— Depois de uma pausa tão longa, a ativação demorará alguns segundos — explicou Crest.
Para Rhodan, alguns segundos pareciam um tempo insignificante em comparação com a atividade que as máquinas logo começaram a desenvolver. Zumbindo como abelhas, começaram a se movimentar, afastando-se de sua posição primitiva. Desviando-se uns dos outros sempre que corriam risco de esbarrar, marcharam em direção ao elevador pelo qual Crest e Rhodan haviam descido poucos minutos antes. Quando a última máquina acabou de subir, Rhodan deu uma risada.
— Meus Deus! — suspirou. — Nunca seria capaz de imaginar que uma coisa dessas pudesse existir realmente.
— Pois ficará admirado de ver o que estes robôs sabem fazer — respondeu Crest. — Trata-se de robôs genuínos, que, até certo ponto, são capazes de pensar e agir de forma independente. Não sei o que seria da cultura arcônida se não existissem estas máquinas.

***

Os robôs não saíram diretamente da nave. Antes disso, reuniram os objetos que, segundo o programa, tinham de levar para fora.
Ao conceber seu plano, Rhodan tivera a idéia de não desperdiçar um instante do tempo de que dispunham para cumprir as tarefas ambiciosas que se haviam imposto. Rhodan percebeu uma chance que não deveria perder e que lhe permitiria obter, das indústrias terrenas, as peças necessárias à construção de uma nave ultraveloz e de raio de ação ilimitado, desde que fizesse encomendas bem definidas. Mas a montagem da nave só poderia ser realizada sob a proteção da cúpula energética. Face às condições reinantes na Terra, ele cometeria um erro de extrema gravidade se assumisse o risco de incumbir a indústria terrestre da construção da nave. Esse receio tinha sua origem tanto na política das grandes potências, como no caráter humano.
Rhodan sabia perfeitamente que o espaço existente sob a cúpula energética seria bastante para realizar a montagem final, mas nunca pensara em comprimir todo o processo produtivo numa área de apenas oitenta quilômetros quadrados.
Ficou entusiasmado com a atividade enérgica e resoluta dos robôs. Depois de haverem retirado da nave os materiais de que precisavam para seu trabalho, empilharam os mesmos num local afastado e puseram-se a aplainar o solo.
Rhodan tinha certeza de que, quando retornassem de sua viagem, grande parte do serviço estaria concluída.

***

Tako Kakuta concluíra a leitura das anotações. Quando Rhodan entrou em seu camarote, estava reclinado numa poltrona giratória, olhando, pensativo, para o alto.
— Compreendeu tudo? — perguntou Rhodan laconicamente.
— Sim, senhor. Não será nada fácil... Rhodan pegou uma cadeira e sentou em frente de Tako.
— Ouça, Tako! — começou a falar em tom insistente. — O assunto é muito sério. Para conservar a amizade de Crest e daquela mulher, teremos de construir uma nave cujo raio de ação seja bastante amplo. Se não conseguirmos levá-los ao seu planeta natal e trazê-los de volta, morreremos de velhice antes de conseguirmos fazer alguma coisa que imponha respeito aos habitantes da Terra. Precisamos do auxílio de Crest e, para conseguirmos que este faça por nós tudo que estiver ao seu alcance, precisamos de uma boa nave.
— Sim, compreendo — disse Tako.
— Estarão atrás de você — prosseguiu Rhodan. — Será caçado pelos serviços secretos e terá de cuidar-se o mais possível. Encontrará muita gente que, de olho no dinheiro, gostará de entrar em negócios conosco e estará disposta a fornecer qualquer coisa de que precisemos. Mas não duvide de que, entre essa gente, haverá pessoas que lhe farão ofertas fabulosas e avisarão a polícia assim que você lhes der as costas. Nunca confie demais na faculdade especial de que é dotado. O serviço secreto levará uns cinco ou seis dias para descobrir que é um teleportador. Daí em diante, atirarão sem avisar, à traição, se for necessário. Você receberá um traje protetor dos arcônidas, que lhe prestará bons serviços. Mas, em última análise, o responsável pela sua segurança será você mesmo.
Tako confirmou com um movimento de cabeça e repetiu:
— Sim, compreendo.
— Você mesmo decidirá por onde vai começar o seu trabalho. Talvez tenha mais sorte junto às empresas privadas. Dar-lhe-ei uma relação completa dos artigos de que precisamos. Na opinião de Crest, a nave deve ter, pelo menos, trezentos metros de diâmetro. Muita gente pensará que você está louco, quando pedir andaimes para uma construção de plástico de trezentos metros de altura, ou alguns geradores na base de fusão com uma potência de cem milhões de megawatts. Além disso, deverá ter cuidado para que nenhuma firma forneça tantas peças que se possa adivinhar para que servirão. Não se iluda. Trata-se da tarefa mais difícil que já lhe foi confiada. Deverá estar preparado até o momento de nossa decolagem.
Rhodan levantou-se. Tako também se levantou e fez uma mesura. Rhodan sorriu e deu-lhe uma palmadinha no ombro.
— Faça um serviço bem feito, Tako! Muita coisa depende disso.

* * *

Rhodan estava preparando a relação que seria entregue a Tako. Eram muitas as peças que teriam de ser providenciadas num breve espaço de tempo.
A indústria terrena não seria capaz de fornecer os mecanismos propulsores de velocidade superior à da luz. Crest esperava encontrar, na nave destruída, algumas peças que poderiam ser utilizadas. Quanto ao resto, encomendariam as partes separadas, que teriam de ser montadas sob a cúpula energética.
Rhodan sentiu uma tensão eletrizante ao lembrar-se de que faltavam menos de setenta horas até o momento em que conheceria o segredo da propulsão a velocidade superior à da luz.
Fitando a lâmpada mortiça do camarote, deixou que seus pensamentos vagassem livremente.
Bell entrou correndo, sem anunciar-se. Estava exaltado e fungava.
— Klein está dando sinal! — disse apressadamente. — Temos de mandar Tako para fora.
— Klein?
Bell fez que sim.
— Acho que devíamos apressar-nos. Klein não gostará de ficar rastejando por muito tempo pelo deserto sob o olhar de Tai-tiang.
Rhodan ligou o equipamento de intercomunicação. O rosto sorridente de Tako surgiu na tela.
— Explique a ele! — pediu Rhodan, dirigindo-se a Bell.
— Klein transmitiu o sinal convencionado — disse pela segunda vez. — OPQ na faixa de 6,3 megahertz. Está esperando no lugar combinado. Você deve-se pôr-se a caminho o quanto antes.
Tako fez que sim.
— Irei imediatamente, capitão.
Nem deu tempo para desligar o aparelho. Viram que de um instante para outro ele desapareceu do lugar em que se encontrava.
O capitão Klein ocupava três funções como agente: em caráter profissional, trabalhava para o Conselho Internacional de Defesa; por convicção, lutava pela paz e o entendimento entre os povos; e, finalmente, como aliado da Terceira Potência, também desempenhava suas funções de agente secreto. Conforme se esperava dele, reunira-se às suas tropas, juntamente com seus companheiros Kosnow e Li e se retirara em companhia delas. Se assumia o risco de abandonar a segurança proporcionada pelo acampamento militar para aventurar-se até as proximidades da cúpula energética, devia ter uma razão muito forte para isso.
O sinal OPQ na faixa de 6,3 megahertz significava uma pequena elevação, situada a cerca de seis quilômetros ao sudoeste do lago. Klein dispunha de várias senhas para entrar em contato com a equipe de Rhodan. Cada uma delas indicava um lugar de encontro.
Tako Kakuta voltou após quinze minutos. Rhodan e Bell fitavam a tela de telecomunicação, para vê-lo materializar-se. Mas, em vez de fazer sua aparição em seu próprio camarote, surgiu inopinadamente na sala em que Rhodan se encontrava.
Bell sobressaltou-se.
Tako não lhe deu atenção. Voltou-se para Rhodan. Parecia muito nervoso.
— Tenho notícias más, senhor! Pequim deu instruções a todos os setores da indústria estatal para entregar imediatamente ao serviço secreto qualquer dos nossos agentes que procure estabelecer contato com eles. Moscou deu ordens idênticas para o seu território e, na área da OTAN, a partir de hoje, qualquer empresário que entabule negociações conosco está sujeito a penas bastante graves.
Rhodan ficou pensativo por um instante.
— Algum espertalhão deve ter descoberto os nossos planos — disse com a voz pausada. Deu dois passos, virou-se abruptamente e encarou o japonês. — Tako! Sua tarefa continua inalterada. Apenas receio que terá de ser ainda mais cauteloso.

II


A nave decolou conforme fora previsto. Os robôs haviam trabalhado durante dois dias, e a tarefa de que foram incumbidos estava adquirindo uma certa forma.
Havia um número suficiente de geradores de campo para manter a cúpula energética, durante a ausência da nave. Alguns dos aparelhos foram colocados a bordo para frustrar os planos que os comandos militares da Terra elaboraram assim que lhes foi comunicada a decolagem da nave.
Durante a viagem, não havia qualquer serviço a executar. O equipamento de direção automática da nave funcionou de acordo com os dados introduzidos por Crest.
A oitocentos quilômetros da Terra os equipamentos de bordo localizaram o primeiro foguete. Em poucos segundos, surgiu nas telas de vigilância ótica sob a forma de um fugaz raio metálico. Rhodan não conseguiu impedir que o susto lhe gelasse o sangue e o fizesse prender a respiração por um instante. Viu a esfera incandescente gerada pela explosão e só se acalmou quando comprovou que nada tinha sido alterado no interior da nave. O brilho da explosão dissolveu-se no espaço e foi desaparecendo. A nave dos arcônidas afastava-se a uma velocidade cada vez maior.
Rhodan virou-se. Bell estava atrás dele. Ambos conseguiram esboçar um sorriso amarelo.
— Até parece uma festa de Natal — disse numa voz a que não conseguiu imprimir firmeza suficiente para ocultar o medo de que, poucos momentos antes, se sentira possuído.
Crest exibiu seu sorriso manhoso, mas amável. Thora manteve-se impassível. Seu rosto imóvel continuou a contemplar a tela.
Houve uma série de novos ataques, entre oitocentos e três mil quilômetros de altitude. O invólucro protetor da nave repeliu ao todo quinze foguetes sem que se sentisse a mais leve oscilação.
Após isso, o bombardeio cessou e a nave entrou numa órbita situada a quatorze mil quilômetros da superfície da Terra.
— Podemos dar início à instrução — disse Crest. — Como viram, os foguetes não nos fazem nada. Mesmo que o bombardeio fosse reiniciado, isso não nos perturbaria.
Rhodan estava de acordo. Uma vez vencido o pavor do impacto de algum dos foguetes, sentiu-se tomado de novo pela curiosidade de conhecer os últimos segredos da ciência dos arcônidas.
O procedimento era idêntico ao que ele e Bell já tinham experimentado por várias vezes. Deitados confortavelmente, foram ligados aos informadores-transmissores.
— O processo durará cerca de três horas — disse Crest. — Desta vez vamos lidar com um assunto extremamente difícil; até para mim.
Depois de examinar o equipamento, perguntou:
— Estão prontos?
— Estamos — responderam Rhodan e Bell.
A consciência de Rhodan desvaneceu-se em meio ao pensamento a respeito dos motivos por que Thora não teria vindo para assistir ao início da operação.
Rhodan nunca saberia contar o que sentira durante o tratamento. Só conseguia lembrar-se de um torvelinho de informações fragmentadas, das quais não conseguia extrair qualquer sentido. Não experimentava qualquer sensação corporal. Percebia nitidamente o que estava acontecendo, notava tudo que se passava em seu cérebro. Mas, se não fosse o processo de indução hipnótica que garantia a eficácia da instrução, não saberia o que fazer das informações desconexas de que ainda se lembrava.
Sabia que o processo normal de instrução incluía um período de recuperação cerebral, após a operação de indução hipnótica. Lembrava-se de que das vezes anteriores em que adquirira uma parcela do saber arcônida através desse método, despertara alegre e bem disposto.
Por isso, ao despertar com uma dor de cabeça latejante, soube imediatamente que algo de imprevisto havia acontecido.
Crest, de pé ao seu lado, olhava-o com uma expressão de perplexidade.
Rhodan despertou imediatamente.
— O que houve? — gritou para Crest.
Ao lado dele Bell gemia. Rhodan não se preocupou com ele. Bell ainda levaria algum tempo para recuperar a consciência. Crest estremeceu.
— Está passando bem? — perguntou Crest.
— Sim, estou passando muito bem. O que houve?
Não estava passando bem coisa alguma. A dor de cabeça era quase insuportável.
— Foi Thora — balbuciou Crest. — Ela...
Rhodan lembrava-se de que receara algo semelhante. A facilidade com que Thora concordara com o projeto da instrução hipnótica fora suspeita. Deviam ter compreendido logo que ela estava tramando alguma coisa.
Levantou-se, arrancando os fios de comunicação com o transmissor. Crest recuou apavorado.
— Onde está essa mulher? — berrou.
— Na sala de comando! — disse Crest com voz lamentosa.
Rhodan não lhe deu mais atenção. A última coisa que ouviu ao sair da sala foi a voz de Bell.
— Vá na frente, chefe! Daqui a pouco eu vou.
Rhodan passou pelo corredor que levava ao centro da nave. Pôs a mão no quadril e tirou do coldre a pequena pistola Smith & Wesson que sempre trazia consigo. Por um instante, lamentou não ter consigo nenhuma das armas dos arcônidas. Os pequenos projéteis revestidos de aço seriam totalmente inúteis diante da escotilha da sala de comando se Thora a tivesse fechado.
Ela a tinha fechado.
Não iria assumir qualquer risco face a dois homens cuja energia, medonha para as concepções de um arcônida, já por diversas vezes lhe causara verdadeiro pavor.
Rhodan acionou o dispositivo de chamada e martelou a escotilha com os punhos cerrados. Nenhuma resposta. Recuou três passos, até o local em que se encontrava a primeira tomada de intercomunicação. Fez a ligação e esperou ansiosamente que a tela se iluminasse.
Thora já esperava a chamada. Seu rosto tomou toda a extensão da tela. Rhodan assustou-se. Nunca vira tamanho ódio no rosto de qualquer ser vivo.
— O que houve? — perguntou Thora calmamente.
Rhodan refletiu. Chegou à conclusão de que não adiantaria gritar com ela. Desde que a conhecia sempre alcançara melhores resultados quando aplicava o método de fazê-la sentir que se considerava superior a ela.
— Que tolice foi inventar desta vez? — perguntou tranqüilamente, com um sorriso de escárnio.
Ao que parecia Thora se pusera de sobreaviso contra esse método. Não havia o menor sinal do estreitamento instantâneo dos olhos que, das outras vezes, indicara o quanto a ironia de Rhodan a ofendera.
Falou em arcônida, para dar a entender que considerava o assunto exclusivamente seu.
— Estou cansada de me deixar tocar de um lado para outro por um homem-macaco. É só.
Rhodan refletiu na resposta. Ouviu os passos de Bell, que se aproximava pelo corredor. Com a mão direita, que Thora não poderia ver refletida na tela, fez-lhe sinal de que se mantivesse afastado. Bell obedeceu prontamente.
— Diga-me uma coisa — voltou a falar Rhodan. — O que acha que pode fazer para livrar-se de nós?
Pela primeira vez, notou um sinal de inquietação em seu rosto.
— Pousarei na Terra e cuidarei pessoalmente de tudo — respondeu Thora.
— De que coisas? Acha que conseguirá comprar uma nave novinha em folha por aí?
— Não. Mas posso obrigar os homens a construir uma.
— Obrigar? — Rhodan riu. — Como?
Thora recuou um passo. Na tela, Rhodan pôde enxergar para além dela. Subitamente descobriu como teria de fazer para dissuadi-la da loucura que pretendia cometer.
— Você sabe perfeitamente que com as armas que tenho a bordo desta nave posso acabar com qualquer mundo igual ao seu — respondeu Thora.
Rhodan passou a desenvolver uma atividade febril. Não tirou os olhos do rosto dela; aproximou-se mais do aparelho de intercomunicação. Com a mão direita fez um sinal a Bell, sem que Thora o visse. Apontou para o lugar em que o soalho do corredor se encontrava com a parede oposta.
Enquanto isso, Thora prosseguia:
— Pousarei no interior da cúpula energética e farei com que os governos da Terra compreendam do que preciso.
Rhodan abanou a cabeça, enquanto abria os dedos da mão direita. O indicador continuou a apontar para o soalho do corredor, mas o polegar mostrava a imagem que se via na tela do intercomunicador. Não podia ver se Bell o estava entendendo.
— Quero deixar claro que transformarei seu planeta num montão de cinzas se meus desejos não forem cumpridos.
— Para você é a maneira mais segura de ir para casa, não é? — perguntou Rhodan em tom irônico.
Enquanto falava, modificou os gestos que fazia com a mão direita. Curvou o dorso da mão, enquanto o dedo médio apontava para cima. Depois de algum tempo, o indicador passou a fazer movimentos de quem aperta o gatilho de uma pistola.
Rhodan percebeu que começava a transpirar.
— Pense bem! — disse com toda calma de que era capaz. — Então pretende destruir a Terra, porque ela não cumpre seus desejos. O que lhe restará depois disso? Um fim de vida miserável em Marte ou Vênus. É isso que pretende?
Thora fez um gesto de desprezo.
— Acredita que os terrenos deixarão que as coisas cheguem a esse ponto? Farei com que compreendam que não poderão esperar a menor compaixão da minha parte.
Rhodan passou a odiá-la por essas palavras.
— Os homens zombarão de você — disse em tom de escárnio. Fez uma ligeira pausa de triunfo, ao ouvir que atrás dele Bell se afastava sorrateiramente. — Farão pouco de você; procurarão abrigar-se e terão a satisfação de ver que, uma vez devastada a Terra, você estará em situação muito mais difícil que antes.
Thora pareceu crescer em altura.
— Não farão nada disso! — respondeu fungando. — Ninguém se deixa matar quando pode evitá-lo.
Rhodan encostou-se tranqüilamente à parede, para mostrar que estava disposto a entreter uma palestra prolongada.
— Pois é isso! Neste ponto você subestima os homens. Não se iluda. De qualquer maneira, uns poucos covardes que se disponham a ceder às suas exigências para poupar a vida não poderão fazer muito por você.
Pretendia dizer mais alguma coisa. Mas, nesse instante, percebeu um movimento na tela. Na parede da cabina de comando, perto do lugar em que Thora se encontrava, havia uma abertura do tamanho aproximado de uma cabeça humana, e que servia à insuflação de ar. Essa abertura dava para um conduto de metro e meio de largura, que atravessava a nave em sentido vertical e distribuía o ar puro vindo das câmaras de tratamento.
Na abertura surgiu primeiro o cano de uma pistola e, logo a seguir, uma mão coberta de pêlos.
— Tudo em ordem, chefe! — disse Bell de tal forma que Rhodan podia ouvi-lo pelo intercomunicador. — Vire-se para mim e levante as mãos, menina!
Thora não chegou a virar-se. Ao ouvir a voz de Bell, fez menção de voltar a cabeça. Mas, em meio ao movimento, foi dominada pelo susto. Estendeu os braços e, de bruços, caiu ruidosamente no piso.
— Muito bem! — exclamou Bell. — Ela quis assim. Chefe, arrebente logo a porta, antes que ela desperte.
Rhodan fez-lhe um sinal de aprovação. Chamando por Crest, correu pelo corredor em direção à sala de informações, onde ele e Bell haviam estado deitados sob a influência do radiador hipnótico.
Crest estava de pé na escotilha aberta.
— Dê-me uma de suas armas! — disse Rhodan esbaforido. — Preciso de uma arma com que possa abrir a escotilha da sala de comando. Thora está inconsciente. Se não nos apressarmos despertará e tudo terá sido em vão.
Crest saiu correndo.
Voltou dentro de trinta segundos. Respirando com dificuldade, entregou a Rhodan a pesada pistola de raios perfuradores.
— Aqui está! — disse. — Mas tenha cuidado.
Rhodan precipitou-se corredor afora. Enquanto corria engatilhou a arma. Parou a cinco metros da escotilha e dirigiu o feixe compacto de raios energéticos para o dispositivo eletrônico de travamento.
O metal chiou, soltou bolhas e derreteu-se. Um furo abriu-se na escotilha. Assim que pôde olhar através dele, Rhodan suspendeu o bombardeio energético.
A escotilha já não representava o menor obstáculo. Rhodan abriu-a sem dificuldade. Ouviu o desabafo de Bell, vindo do orifício de insuflação de ar:
— Graças a Deus! Não seria capaz de atirar nela.
Thora ainda estava inconsciente. Depois de levantá-la Rhodan acomodou-a num dos leitos encostados à parede. Pôs a funcionar o intercomunicador e chamou Crest.
— Faça o favor de vir até aqui — disse com a voz tranqüila. — Gostaria que estivesse presente quando ela despertar.
Bell nem se dera tempo para enxugar o suor que lhe escorria pela testa. Mas um largo sorriso cobria-lhe o rosto.
— Você nem imagina o orgulho que sinto por ter entendido a linguagem codificada dos três dedos.
Rhodan lançou-lhe um olhar sério.
— Afinal, você é um menino inteligente.
Crest entrou.
— Como foi que fez isso? — perguntou sacudindo a cabeça.
— Foi assim — respondeu Bell, cortando o ar com os dedos da mão direita.
Rhodan riu.
— Encontramos em tempo o conduto de ar — explicou a Crest. — Bell desceu por ele. Quando Thora percebeu que ele estava perto dela, desmaiou.
Crest sentou na beirada do leito em que Thora estava deitada.
— Não é de estranhar — disse em tom pensativo. — Quase morri há poucos minutos quando vi que os senhores se levantavam.
— Por quê?
— Na fase inicial da aplicação da técnica de treinamento hipnótico, quando mal havíamos construído os primeiros aparelhos e ainda não dispúnhamos da experiência necessária, houve alguns casos lamentáveis, em que o processo de treinamento teve de ser interrompido. Isso foi devido a influências exteriores. Em todos esses casos, a pessoa cujo treinamento foi interrompido perdeu a razão. A explicação é simples: no curso do processo de treinamento hipnótico, o cérebro encontra-se num estado de ativação muito intensa. Se não tiver oportunidade de retornar lentamente às suas funções normais, a confusão instala-se nele. Em conseqüência disso, surge uma forma de loucura que nem mesmo os nossos psiquiatras conseguem curar.
Ergueu os olhos e fitou primeiro Rhodan, depois Bell.
— Compreendem o que quero dizer? Desde os primórdios do treinamento hipnótico não existe, em Árcon e nos mundos submetidos às leis arcônidas, nenhum crime mais grave que a interrupção de um processo de treinamento. Enquanto vocês estavam ligados ao transmissor, Thora não receava qualquer interferência de sua parte. Sabia perfeitamente que não me atreveria a despertá-los antes de concluído o treinamento. E dentro de três horas ela poderia ter levado a nave à Terra e tomado as providências necessárias para que você, Rhodan, não representasse mais qualquer perigo para ela.
Crest fez uma pausa.
— Assim mesmo você nos despertou! — disse Rhodan, falando pausadamente e com a voz grave.
Crest fez que sim e baixou os olhos.
— Foi uma decisão muito difícil. Mas não me restava outra alternativa senão agir de acordo com os fatos. Se não os tivesse despertado, Thora pousaria na Terra e inutilizaria os resultados dos nossos esforços. Não tenho a menor dúvida de que as idéias dela teriam causado a destruição do planeta e desta nave.
Ergueu os olhos e sorriu.
— O resto não passou de um exercício de matemática infantil. De qualquer maneira teríamos morrido. Por que, então, não iria aproveitar a única chance de continuarmos vivos? Tinha uma leve esperança de que a estrutura do cérebro de vocês fosse diferente da dos arcônidas, de forma que estivessem em condições de resistir ao choque provocado pela interrupção do treinamento.
De repente mostrou-se radiante.
— Não me enganei! A humanidade terrena...
Nesse instante Crest foi interrompido de forma grotesca.
Atrás dele, alguma coisa começou a mexer-se no leito. Sem conseguir dominar a voz, Thora disse:
— Crest, você é um traidor miserável!
Rhodan virou-se abruptamente. Bell levantou-se de um salto e postou-se aos pés do leito. Crest não se abalou: continuou sentado. Um sorriso triste esboçou-se em seu rosto. Respondeu com a voz tranqüila:
— Não, minha filha; não sou nenhum traidor. Você ainda há de compreender. Apenas receio que isso ainda leve muito tempo.
Thora fechou os olhos.
Rhodan lançou um olhar sério para ela. Quando esta voltou a abrir os olhos, estremeceu.
— Ouça! — disse em tom ríspido. — Já estamos fartos da sua idiotice, da sua obstinação e da sua repugnante arrogância. Daqui em diante cuidaremos para que não nos atrapalhe mais, enquanto não aprender a usar a inteligência. Não tem nada a recear de nós. Não lhe faremos mal. Mas é bom que saiba uma coisa: deste momento em diante assumo o comando desta nave e qualquer tentativa de realizar programas tresloucados será considerado como amotinação, e punido de acordo com as leis terrenas.
Thora não soube o que responder. Seu rosto impassível não revelava o que se passava dentro de sua cabeça.
Rhodan não restringiu sua liberdade de movimentos. Apenas incumbiu Bell de exercer uma vigilância cuidadosa sobre ela, enquanto estivesse em condições de fazê-lo. Por enquanto pretendia continuar o treinamento hipnótico e concluí-lo o quanto antes.
Rhodan lamentou não ter trazido o Dr. Manoli ou o australiano. Qualquer um deles poderia ficar de olho em Thora, enquanto ele e Bell estivessem ligados ao transmissor de conhecimentos.
Nas condições em que se encontrava, não lhe restava outra alternativa senão entregar a pistola de radiação energética a Crest, recomendando-lhe encarecidamente que a usasse se Thora tentasse interferir novamente.
Feito isso, reclinou-se na poltrona e esperou pacientemente que Crest substituísse o equipamento transmissor que fora arrancado e começasse a prepará-lo para o reinicio do processo.
Depois foi a vez de Bell.
— Pronto? — perguntou Crest.
— Pronto! — Veio a resposta. Seguiu-se imediatamente a inconsciência abrupta e profunda causada pelo treinamento hipnótico, que sempre voltava a surpreender. Parecia que alguém havia arremessado uma capa que cobria todo o mundo.

III



Tako Kakuta estava numa loja, renovando seu guarda-roupa. Lembrou-se de que o suprimento de dinheiro estava se transformando num problema bastante sério para a Terceira Potência. Com a perda da nave dos arcônidas, pousada na Lua, os meios de troca tinham-se tornado escassos. Tinham de ser reservados para as transações mais importantes.
Tako chegara a Petersburgo sem encontrar o menor obstáculo. Rhodan dera-lhe ampla liberdade na escolha de seu itinerário. Decidira visitar em primeiro lugar os Estados da Nova Inglaterra, que abrigavam a maior concentração da indústria norte-americana.
Tako abandonara a cúpula energética durante a noite, junto ao lago salgado de Goshun. Sua vestimenta especial permitiu-lhe voar em direção sul até Wuwei. Chegou ao raiar do sol e aproveitou a primeira conexão para Lantchou. Ali abriam-se duas alternativas: voar a Tchunking ou a Pequim, para tomar um vôo intercontinental destinado aos Estados Unidos. Optou por Tchunking, pois Pequim, um lugar em que a polícia secreta desenvolvia uma atividade intensa, era um sítio muito perigoso para um homem como ele.
Tako estava consciente da vantagem que levava fora da cúpula energética sobre qualquer dos membros da Terceira Potência: não era conhecido. Ninguém desconfiava de que era um homem de Rhodan. Nunca era mencionado nos noticiários sobre a Terceira Potência, irradiados periodicamente pelas emissoras de TV de todo o mundo.
Decidiu aproveitar essa vantagem enquanto fosse possível. Teria de deixar cair a máscara no momento em que iniciasse as negociações.
Uma vez provido de boas roupas, pôs-se a trabalhar. Pegou um táxi e foi à usina de ferro-plástico, um local que parecia oferecer-lhe oportunidades bastante promissoras para a realização dos seus objetivos.
A empresa Ferroplastics Limited pertencia ao grupo Dupont, uma das famílias mais importantes dos Estados Unidos.
Tako soube dar-se uma impressão imponente. Ao anunciar-se, asseguraram-lhe que fariam o possível para conseguir, quanto antes, uma audiência com um dos diretores.
Tako acrescentou com a maior ênfase:
— Não se esqueça de mencionar que se trata de encomenda muito importante.
Adotara um nome suposto, que constava do passaporte que trazia consigo. Não dissera nada sobre sua procedência ou sobre a identidade de quem o incumbira de fazer a encomenda. Por enquanto, poderiam acreditar que estavam lidando com um representante da Federação Asiática. Todo mundo sabia que no setor dos metais plastificados a Federação Asiática ainda engatinhava atrás das indústrias do Bloco Oriental e do mundo ocidental.
Fizeram-no esperar uns vinte minutos no enorme hall. Mergulhou na leitura das revistas destinadas aos visitantes, mas fazia-o de maneira a utilizar a borda superior como horizonte visual, por cima do qual observava os arredores. Através do hall fluíam e refluíam as vagas humanas desencadeadas pela atividade febril da grande usina. Não havia nada que devesse preocupar Tako.
Dentro de vinte minutos o homem que o havia recebido voltou a aparecer. Sorria.
— Consegui, senhor — disse no seu falar arrastado de americano. — O patrão quer recebê-lo imediatamente.
Tako esboçou um sorriso de cortesia.
— Meu caro, o senhor está enganado — respondeu. — Sou eu que quero ser recebido pelo patrão. Como é o nome dele?
— La... Lafitte — gaguejou o jovem. — Quer fazer o favor de subir comigo?
Tako levantou-se.
O escritório de Lafitte ficava no último andar do imponente edifício. Enquanto era conduzido Tako desfrutou a visão panorâmica sobre a cidade.
Assim que ele entrou, Lafitte levantou-se atrás da mesa. O jovem que o havia acompanhado ficou do lado de fora; fechando a porta dupla.
— Queira sentar! — disse Lafitte, apontando para uma poltrona confortável.
Tako sentou. Recusou o cigarro que lhe foi oferecido. Passou tranqüilamente os olhos pela sala. Lafitte começou a ficar nervoso, mas Tako não se sentiu perturbado com isso.
Finalmente levantou os olhos e disse:
— Onde poderíamos conversar?
Lafitte parecia perplexo.
— Por quê? Não gosta daqui? Costumo discutir os meus negócios neste escritório.
Tako concordou com um sorriso.
— Minha missão é muito difícil e delicada — disse com a voz fina. — Não posso correr o menor risco. O senhor compreende? Veja, por exemplo, esse vaso de flores. Não acha que seria um ótimo esconderijo para um microfone? Compreendo suas precauções, senhor Lafitte; peço-lhe que também procure compreender as minhas.
A expressão do rosto de Lafitte mudou do espanto e do desagrado para um princípio de contrariedade e terminou num sorriso matreiro.
— Tenho a impressão de que não me mandaram nenhum tolo — disse com a voz ligeiramente manhosa, que não permitiu a Tako sentir-se seguro.
Levantou-se e saiu de trás da mesa.
— É claro que estou disposto a conversar num lugar que lhe seja agradável — prosseguiu. — Faça uma sugestão.
— Que tal meu hotel? Reservarei uma sala de conferências.
Lafitte apontou para o telefone. Tako chamou o hotel em que estava hospedado e reservou uma das menores salas de conferências.
Enquanto desciam pelo elevador, observou Lafitte com os olhos atentos. Não notou que este tivesse feito sinal para que alguém os seguisse. Assim mesmo Tako acreditava que estava tramando alguma coisa que não se harmonizava com seus planos.
A viagem de táxi decorreu sem contratempos. Por várias vezes Tako olhou pelo vidro traseiro; ao que parecia, ninguém os estava seguindo. A não ser que se tratasse de uma pessoa muito hábil; e Tako não excluía essa possibilidade.
A sala de conferências fora preparada. Tako deu instruções para que ninguém os perturbasse. Sentaram-se a uma mesa pequena e baixa; Tako começou a agir. Colocou Lafitte sob a influência de seu minúsculo aparelho hipnotizador e ditou suas exigências.
— ...um revestimento de 0.75 metros de espessura para uma esfera com exatamente 310 metros de diâmetro. O material deverá ser de ferroplástico A-10 com um aditivo de volfrâmio e terá de ser fornecido em peças facilmente transportáveis. Ainda lhe transmitiremos instruções precisas sobre a forma de entrega. A título de compensação meu comitente lhe remeterá um gerador anti-gravitacional. Trata-se de um aparelho capaz de neutralizar um campo gravitacional até uma potência de dez vezes o da Terra. Com isso obterá um valor que representa muito mais que o das chapas de ferroplástico. Não se esqueça de que terei de insistir no exato cumprimento do prazo de entrega. Se esta não se verificar dentro de trinta dias, nosso acordo ficará sem efeito. Não celebraremos nenhum contrato escrito. Temos plena confiança um no outro.
Tako levantou-se. Lafitte olhava-o com a expressão apagada de quem se encontra sob influência hipnótica.
— Se acreditar que sou um agente da Terceira Potência, faça o favor de abandonar essa idéia — concluiu Tako com um sorriso. — Trabalho sob as ordens da Federação Asiática que, conforme sabe, está atrasada no setor do ferroplástico. A esfera que pretendemos construir servirá como envoltório de um grande reator nuclear, cuja construção está sendo iniciada. Faço votos para que a encomenda seja executada a contento de meu comitente. Aqui estão as instruções sobre a forma de entrega.
Entregou a Lafitte um maço de papéis que ele mesmo escrevera no dia anterior, numa máquina emprestada pelo hotel.
Desligou o hipnotizador e notou que o rosto de Lafitte retornou à expressão normal. Ele levantou-se e estendeu a mão a Tako.
— Fico satisfeito por termos chegado a um acordo tão depressa — disse. — Ainda hoje submeterei o assunto ao Conselho Fiscal. Acredito que não haverá dificuldades. Afinal, teremos uma recompensa regia.
Tako abriu a porta da sala de conferências. O corredor estava vazio. O sol penetrava por uma ampla janela de frente, refletindo-se na passadeira brilhante.
— Não se esqueça de me informar sobre a decisão do Conselho Fiscal — pediu Tako. — Meu comitente está empenhado em receber o material com a maior rapidez. Caso não haja interesse de sua parte, terei de procurar outro fornecedor.
Sorrindo, Lafitte fez um gesto negativo.
— Não se preocupe. Tudo irá bem. Darei uma solução ainda hoje.
Tako acompanhou Lafitte até o elevador. Assim que este começou a descer, correu à janela e olhou para fora. Lafitte saiu do prédio e chamou um táxi. Não olhou para trás; entrou no carro que partiu imediatamente.
Tako esperou. Poucos minutos depois um carro cinza afastou-se do meio-fio do lado oposto da rua e disparou na mesma direção seguida pelo táxi de Lafitte.
Tako voltou ao seu apartamento. Estava pensativo. O carro cinza não provava que ele fora seguido por alguém que lhe controlava os passos. Mas não se podia saber...
Tako pediu à telefonista que o ligasse com a Ferroplastics Limited. Uma voz feminina respondeu.
— Meu nome é Yamakura — disse Tako. — Há poucos minutos tive a honra de falar com o senhor Lafitte a respeito de uma grande encomenda. Ele disse que convocaria imediatamente uma reunião do Conselho Fiscal. É possível que daqui a pouco tenha que telefonar novamente, para dar outras informações a ele. Será que poderei ligar para aí? As reuniões do Conselho Fiscal costumam ser realizadas nesse edifício?
— Por este telefone o senhor poderá alcançar o senhor Lafitte a qualquer momento, senhor Yamakura — respondeu a voz feminina. — A sala de sessões fica neste edifício, perto da sala em que me encontro.
— Muito obrigado — disse Tako — A senhora me prestou uma grande ajuda.
Logo a seguir, Tako tirou o terno recém-adquirido e pôs a vestimenta transportadora que Crest lhe dera, Colocou uma arma no bolso e também levou o hipnotizador.
O rosto do porteiro assumiu uma expressão pateta, quando viu o hóspede passar diante dele em tais trajes. Mas Tako confiara em que nos hóspedes exóticos seriam toleradas certas excentricidades.
Tako tomou um táxi e pediu ao motorista que o levasse à sede da Ferroplastics Limited. Durante a viagem ficou refletindo, para ver se descobria algum ponto vulnerável em seus planos. Tudo parecia de uma simplicidade tão extrema, que Tako desconfiou da coordenação primária de suas idéias. Mas teve de reconhecer que os recursos extraordinários de que dispunha justificavam até certo ponto a simplicidade do plano. Isso o tranqüilizou.

* * *

Quase no mesmo instante Lafitte entrava apressadamente no hall da Ferroplastics Limited. Já avisara os membros mais importantes do Conselho Fiscal e tinha certeza de que dentro de uma hora o órgão emitiria uma deliberação que correspondesse às suas intenções.
Ao passar pela mesa telefônica, a senhorita Defoe chamou-o.
— O que houve? — perguntou em tom impaciente. — Não tenho tempo.
A jovem esboçou um sorriso suave.
— O senhor Yamakura acaba de telefonar. Perguntou se por este telefone pode falar com a sala de sessões do Conselho Fiscal.
— O senhor Yamakura? — Lafitte franziu a testa. — O que é que ele quer?
— Por enquanto nada. Diz que talvez tenha de falar com um dos conselheiros durante a sessão.
— Está bem. Ligue-me imediatamente com ele, se... O que houve desta vez?
Um homem alto e jovem atravessou o hall e parou perto de Lafitte. Notava-se que queria dizer alguma coisa.
— Eu o segui, patrão, conforme combinamos. Está tudo em ordem?
— Sim, Morgan, tudo está em ordem.
Morgan hesitou. Ia afastar-se, mas continuou parado.
— Tem certeza de que tudo está em ordem?
Lafitte bateu o pé.
— Tenho, sim. Que inferno! Tenho certeza absoluta!
Morgan não se abalou.
— Muito bem — murmurou.
Afastou-se e saiu. Tirou o carro de junto da escadaria e estacionou-o no lugar reservado. Voltou para junto da telefonista. Lafitte já se afastara.
— Que história é essa, Morgan? — perguntou ela, nervosa. — Por que está com medo?
Morgan pegou uma cadeira e sentou junto à mesa telefônica. Deu de ombros.
— Não sei... Parece que fizeram um grande negócio. Lafitte correu que nem um louco para reunir o Conselho Fiscal ainda hoje. Acontece...
A telefonista sacudiu a cabeça.
— Não vejo nada de errado nisso.
— Já viu alguma vez como Lafitte costuma fazer seus negócios?
— Nunca.
— O tempo que Lafitte leva para tomar uma decisão costuma ser proporcional ao valor da encomenda. Nunca levou menos de cinco horas para discutir um negócio. E desta vez levou cinco minutos, ou talvez quinze, se contarmos tudo. E agora convoca o Conselho Fiscal. Deve tratar-se de um negócio muito importante. Se não fosse assim, Lafitte decidiria sozinho. Concluiu um negócio enorme em quinze minutos. É isso que me deixa preocupado.
A telefonista sorriu.
— Ora essa! Só por isso faz tanto drama?
Morgan fez que sim.
— Você me deixaria escutar quando esse Yamakura...
— Não — respondeu ela em tom ríspido. — Nunca permito que alguém escute os telefonemas dos outros.
Mas Morgan conseguiu convencê-la.
Por algum tempo conversaram sobre assuntos banais. Subitamente a porta do hall abriu-se. Ao ouvir o ruído, Morgan virou-se. Viu o batente largo girar para fora, voltar para dentro e oscilar até atingir sua posição de repouso. Esfregou os olhos. Nem por isso o quadro se alterou. No hall desenvolvia-se a agitação de um dia movimentado. Não havia ninguém perto da porta.
A jovem teve a atenção despertada.
— O que houve?
— A porta abriu-se, mas não entrou ninguém.
O telefone chamou. Ela fez uma ligação e voltou a colocar o fone no gancho. Depois disse:
— Você devia tirar férias, Morgan. Já está se tornando ridículo com essa mania de ver fantasmas.
Morgan protestou.
Nesse instante aconteceu uma coisa estranha. Um velho mensageiro estava atravessando o hall com uma pasta. Subitamente parou, como se tivesse esbarrado em alguma coisa, deixou cair a pasta, atirou os braços para o alto e soltou um grito de pavor. Num segundo, Morgan colocou-se ao seu lado.
— O que houve?
O velho estava com o rosto mortalmente pálido. Tremia e falou gaguejando.
— Eu... ele... por aqui havia alguma coisa e esbarrei. Foi aqui mesmo!
Morgan foi ao lugar apontado pelo velho.
— Tolice! — resmungou. — Aqui não há nada.
O homem sacudiu a cabeça.
— O que foi? — perguntou Morgan.
— Não sei dizer. Talvez tenha sido um homem. Se foi, não usava roupa igual a nós. Estava muito duro.
Morgan passou a mão pelo cabelo.
— Não viu nada?
— Aí que está! Não vi nada.
— Muito bem. — Morgan abaixou-se, levantou a pasta e colocou-a sob o braço do velho. — Esqueça-se disso e não conte a ninguém. De qualquer maneira, não acreditariam.
— Sim senhor. Muito obrigado — disse o velho, ainda perturbado.
Morgan voltou para junto da telefonista.
— O que houve? — indagou esta.
— O homem esbarrou em algo invisível.
Ela teve um acesso de riso.
— Fico me perguntando o que há de verdade em tudo isso — disse Morgan com a voz séria.
A moça olhou-o, incrédula, e interrompeu-se em meio à risada.
— Você não vai me dizer...
Morgan não respondeu. Apoiou a cabeça nas mãos e ficou refletindo.
Depois de algum tempo a porta do hall voltou a se abrir, desta vez para deixar passar dois membros do Conselho Fiscal, que haviam sido convocados por Lafitte.
Passaram junto à mesa telefônica e cumprimentaram a senhorita Defoe com um aceno de cabeça, sem interromper a palestra em que estavam entretidos. Morgan seguiu-os com os olhos. Para chegar à sala de sessões era necessário atravessar um corredor largo e curto, separado do hall por uma porta de vidro. Morgan viu perfeitamente que, quando os dois homens passaram pela mesma, o batente esquerdo logo voltou à posição normal, enquanto o direito continuou aberto até que os conselheiros já haviam andado uns três ou quatro passos pelo corredor.
Para Morgan já não havia a menor dúvida: uma pessoa que sabia tornar-se invisível seguira os dois membros do Conselho Fiscal. Estava a ponto de alarmar a guarda do estabelecimento. Mas lembrou-se de que não poderia apresentar qualquer motivo plausível. Zombariam dele e os guardas continuariam nos seus postos.
Se alguma coisa pudesse ser feita, ele mesmo teria de cuidar disso.

* * *

Notava-se que Lafitte se orgulhava da encomenda que conseguira negociar. Com uma enorme autoconfiança apresentou a oferta aos membros do Conselho Fiscal, sem perturbar-se com os rostos daqueles homens, que de minuto a minuto, assumiam uma expressão cada vez mais perplexa e contrariada.
Finalmente Whitmore levantou-se de um salto, dando um empurrão na cadeira que a fez deslizar no soalho.
— Senhor Lafitte — começou com a voz áspera. — Como membro do Conselho Fiscal quero dar expressão ao espanto causado pela sua oferta. — À medida que falava, enfurecia-se cada vez mais: — Acha que está fazendo uma boa piada ao arrancar-nos das nossas ocupações, arrastar-nos até aqui e submeter-nos essa oferta absurda? Levante-se, Lafitte, e explique-se. Se não o fizer, esta assembléia lhe dará uma lição de que nunca se esquecerá.
Assim era Whitmore. Ia sentar-se para dar uma oportunidade de defesa a Lafitte, que parecia bastante perturbado. Mas, enquanto puxava a cadeira, uma idéia pareceu surgir em sua mente.
— Espere — disse, fazendo um gesto nervoso em direção a Lafitte. — O que nos oferecem mesmo em pagamento?
— Um gerador antigravitacional — voltou a explicar Lafitte. — Trata-se de um aparelho capaz de neutralizar campos gravitacionais até a potência equivalente a dez vezes a gravidade terrestre. É um equipamento de transporte ideal, que ainda não existe em qualquer parte do mundo.
Whitmore confirmou com um movimento de cabeça.
— Já que é assim — disse, passando os olhos pelos homens sentados em torno da mesa de conferências — considero a oferta perfeitamente viável.
Os outros homens assentiram. Ninguém parecia lembrar-se de que há trinta segundos ainda consideravam a oferta de Lafitte uma piada de mau gosto. Ninguém teve a idéia de perguntar quem seria capaz, neste planeta, de fornecer um aparelho com que até então a ciência mal ousara sonhar. Subitamente, bastou-lhes que tal aparelho fosse oferecido. Não duvidavam da idoneidade do autor da encomenda.
Lafitte leu as condições de fornecimento e as instruções de embarque. Chegou-se à conclusão de que umas e outras poderiam ser cumpridas sem maiores dificuldades.
Segundo a promessa de Lafitte, a sessão terminou dentro de uma hora. A encomenda tinha sido aceita e as instruções correspondentes foram emitidas imediatamente. Os membros do Conselho Fiscal despediram-se na convicção de terem concluído o maior negócio da história da Ferroplastics Limited.
O homem que os ajudara a tomar essa decisão esperou até que todos tivessem saído da sala. Como não tivesse mais necessidade de concentrar todos os seus esforços — situação em que se encontrara quando começou a influenciar os membros do Conselho Fiscal — achou preferível não voltar pelo hall, para evitar o risco de novo incidente como aquele que há pouco tanto o assustara. Concentrou sua mente num local abandonado nas proximidades da sede da Ferroplastics Limited e para lá se transportou num telessalto.
Conforme imaginara, aterrissou perto da rua, num terreno baldio coberto de mato. Não havia ninguém que o visse surgir.
Atravessou a rua e esperou até que aparecesse um táxi vazio. Fez sinal. Poucos minutos depois desceu em frente ao hotel. Entretido nos seus pensamentos, passou pelo porteiro, entrou no elevador e subiu.
Estava satisfeito com o trabalho daquele dia.
A única coisa que o preocupava era o esbarrão no mensageiro.
Não pudera evitá-lo, porque um segundo antes tivera que desviar-se de outra pessoa. Notara perfeitamente que o jovem esbelto que correra em auxílio do mensageiro acreditara na história muito mais do que Tako teria gostado. Ao que parecia, alguém pretendia colocar-se no seu encalço. Se tivesse bastante senso objetivo para acreditar na história do homem invisível que esbarrara no mensageiro, poderia transformar-se num adversário temível.
Tako gravara bem seu rosto. Decidiu submetê-lo à sua vontade assim que tivesse oportunidade para isso.

IV


Abriu a porta do apartamento e entrou. Quando já se encontrava perto da mesa, ouviu uma voz às suas costas:
— Não se assuste, cavalheiro! Não lhe farei nada.
Tako virou-se instantaneamente. Cerrou os olhos e, num movimento instantâneo, segurou a pistola.
Viu um homem de idade sentado numa poltrona perto da porta. Mantinha os braços erguidos, como que assustado com a pistola.
— Santo Deus! — gemeu. — Vire isso pra lá! Não trago nenhuma arma.
Tako baixou a pistola.
— Quem é o senhor?
— Será que isso vem ao caso? Sou uma figura sem a menor importância nesse jogo. Mandaram-me até aqui para dar-lhe um recado. Chame-me de Webster, se isso o agrada.
Tako fitou o velho. Pela idade usava roupas muito vistosas, o que lhe conferia um aspecto pouco sério.
— Qual é o recado?
— Preste atenção! Sabemos que está atrás de certas coisas que só poderá conseguir com muita dificuldade e enfrentando graves perigos. Oferecemo-nos como intermediários. Podemos comprometer-nos a conseguir qualquer coisa de que precise.
Com um sorriso de satisfação reclinou-se na poltrona.
— É claro que pedimos um preço adequado — acrescentou.
Tako fitou-o pensativo. Antes que pudesse formular qualquer pergunta, Webster voltou a retesar-se na poltrona:
— Antes que me esqueça: sabemos que o senhor dispõe de uma série enorme de truques. Provavelmente poderia influenciar-me para que lhe conte tudo que sei. Peço-lhe que não o faça. Primeiro, não conheço a pessoa que me confiou esta incumbência; depois, ela interpretaria seu truque como um voto de desconfiança, o que a levaria a suspender imediatamente as negociações. Se estiver disposto a pagar bem, seremos os sócios mais leais que poderia desejar.
— Quem seriam esses sócios? — perguntou Tako laconicamente.
Webster deu de ombros. Tako enrugou a testa, tomando lugar numa poltrona em frente a Webster.
— Como conseguiu entrar aqui? — perguntou.
— Ora! — disse Webster com um sorriso. — Para um homem do meu tipo existem inúmeras possibilidades.
— Estou disposto a ouvir sua oferta — disse Tako. — Onde poderei tomar conhecimento dela?
— Tenho o endereço. Espere! — interrompeu-se, quando Tako ia pegar o cartão. — Antes de mais nada: não experimente seus truques conosco. Antes de negociar com o senhor, submetê-lo-emos a todas as provas. Sabemos que nos expomos bastante ao submeter-lhe uma oferta. Por isso queremos que nosso risco seja o menor possível. Entendido? — entregou o cartão a Tako. — Manteremos nossa oferta pelo prazo de dez dias. Se quiser aparecer, telefone para este número e diga: Holoway chegará às quatorze horas, ou às oito horas, conforme lhe convenha. Entendido?
Tako fez que sim.
— Não terão de esperar muito por mim — disse com um sorriso.

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