autor
KURT MAHR
Tradução de
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
O impossível acontece! Num ataque de
surpresa, as superpotências terrenas destruíram, na superfície lunar, a nave
dos arcônidas, uma raça semelhante aos homens, que domina um grande império
galático.
Apenas dois arcônidas sobreviveram ao
ataque e encontram-se em segurança junto a Perry Rhodan, o homem que descobriu
a nave dos arcônidas e, com o auxílio dos recursos tecnológicos infinitamente
superiores dos mesmos, formou a Terceira Potência. Perry Rhodan impediu a
guerra mundial que há tanto tempo ameaçava a humanidade. E agora, quando um
novo perigo, vindo do espaço cósmico desencadeia o Alarma
Galático, mais uma vez a Terceira
Potência realiza uma intervenção decisiva.
= = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = =
= = = = =
PERRY RHODAN — Chefe da Terceira Potência.
REGINALD BELL — Amigo e auxiliar direto de Rhodan.
TAKO KAKUTA — Homem que deve o dom da teleportação à explosão atômica de Hiroxima.
CREST e THORA — Únicos sobreviventes da expedição espacial
dos arcônidas.
JESSE MORGAN — Um jovem curioso de profissão.
CAPITÃO ZIMMERMANN — Oficial do Serviço Secreto. Só acredita no que vê.
ALLAN D. MERCANT
— Chefe dos Serviços de
Defesa Internacional. Seus colaboradores acreditam que sabe ler pensamentos.
I
— Você nunca
compreenderá! Não conseguirá entender nenhum dos impulsos. Seu cérebro ficará
confuso. Você...
Thora
interrompeu-se em meio à frase. As palavras não lhe acudiam com a rapidez
exigida por sua ânsia incontida.
“Como é fácil descobrir suas intenções”,
pensou Perry Rhodan. “O que a deixa
preocupada não é meu cérebro. Na verdade, quer convencer-me de que sou um ser
tão subdesenvolvido que nunca chegarei a compreender seus segredos.”
— O que
importa? — retrucou. — Você não tem nada a perder. Só poderá ficar satisfeita
ao ver Perry Rhodan transformado num idiota balbuciante, não é?
Thora
percebeu que Rhodan lhe armava uma cilada e ficou aborrecida por notar que isso
era fácil para ele.
— Não se
trata disso — respondeu em tom seco. — Os cristais informáticos só podem ser
ativados um número limitado de vezes. Devemos evitar qualquer desperdício,
especialmente quando a perspectiva de um fracasso é tão patente como no
presente caso.
Perry Rhodan
virou a palma da mão direita para cima.
— Thora,
você está sendo injusta comigo! — disse em tom suplicante. — Não compreendemos
tudo o que nos foi apresentado até agora?
Thora
estalou os dedos, num gesto de desprezo.
— O que você
aprendeu até agora não é nada em comparação ao que lhe está reservado.
Rhodan
voltou-se para Crest que, como de costume, estava muito sério. Só quem o
conhecesse adivinharia pelas rugas de sua testa o quanto estava se divertindo.
“Uma única situação destas vale mil programas
de ficção”, pensou Crest. “Oh Senhor
dos Mundos! A mais inteligente das arcônidas e um homem que é um verdadeiro
semideus; e comportam-se como crianças.”
Na verdade,
tratava-se de coisas muito mais importantes. Depois de alguma resistência,
Thora acabara concordando em que Rhodan e Bell adquirissem parte da ciência arcônida
através do método de ensino hipnótico. Mas, agora que Rhodan propusera que,
para alcançar maior grau de eficiência, os últimos segredos lhe fossem
revelados, ela passou a opor uma resistência encarniçada.
Todavia,
Crest ponderou que os dois arcônidas só poderiam contar com a energia dos
subdesenvolvidos, cujo auxílio poderia tornar-se muito mais eficiente se lhes
fossem transmitidos os conhecimentos necessários.
Apesar
disso, Crest teve de fazer valer a autoridade de que se achava investido na
qualidade de membro da dinastia reinante dos arcônidas, e que também se
estendia a Thora, para quebrar a resistência que a mesma opunha à sugestão de
Rhodan.
Este
sentia-se bastante atingido pela obstinação de Thora, muito mais do que se dava
conta. Encerrando a palestra; disse:
— Muito
obrigado pela confiança. Verá que a mesma não foi mal aplicada em mim e em
Bell.
Dirigindo-se
a Thora, observou:
— Com o
tempo, você se convencerá de que não tenho a menor intenção de prejudicá-la ou
ferir seu orgulho.
Achou
necessário acrescentar essas palavras, embora soubesse que Thora não tinha a
menor receptividade para elas. Ainda não tinha.
***
— Vá para o
inferno! — disse Reginald Bell em tom exaltado.
Procurou
disfarçar o susto que Tako Kakuta lhe metera ao surgir, repentinamente, ao seu
lado, vindo do nada.
Um sorriso
surgiu no rosto redondo e infantil de Tako.
— Por que
devo ir para o inferno? — perguntou em voz fina. — Mereço coisa melhor. Trago
notícias boas.
— Notícias
boas? — perguntou Bell. — De que lugar, deste mundo de Deus, ainda podem vir
notícias boas?
— As
notícias vêm de Tai-tiang — disse Tako, sempre sorrindo. — Acabou reconhecendo
que mesmo com a tal Divisão de Engenharia não conseguirá nada contra a Terceira
Potência. Seus homens estão se retirando.
Bell já
sabia que Tai-tiang não teria outra alternativa, depois que a Terceira Potência
havia destruído a galeria por meio da qual pretendiam passar por baixo da cúpula
energética, para destruir a nave dos arcônidas com uma explosão nuclear. Apesar
disso, a notícia de Tako produziu um certo alívio em sua mente.
— Obrigado,
Tako — disse com um ligeiro suspiro.
— Até logo,
capitão — respondeu Tako e desapareceu.
Bell
continuou fitando o lugar em que o japonês estivera. Parecia pensativo. Nos
últimos meses conformara-se com a idéia de que só os arcônidas seriam capazes
de oferecer novidades que pudessem espantar um homem à prova de choque como
ele. Levaria algum tempo para aceitar o fato de que Tako Kakuta não era outro
arcônida, mas um ser como ele. Ainda se assustava quando o teleportador surgia,
vindo do nada, para depois de algum tempo voltar a desaparecer, como que
dissolvido no ar.
Reginald
Bell refletiu sobre o dom estranho da teleportação. Embora Tako lhe oferecesse
várias demonstrações por dia, o fenômeno ainda lhe parecia tão inacreditável e
apavorante como um cavalo que lhe desse bom-dia. Subitamente ouviu um zumbido,
vindo da parede, e o brilho suave da tela interrompeu o crepúsculo frio que
reinava na sala.
O rosto de
Rhodan surgiu na tela.
— Bell,
gostaria de falar com você — disse Rhodan. — Tem tempo?
— Tenho. E
no seu camarote?
— É, sim.
Crest também está aqui. Bell acenou e saiu da sala. A tela apagou-se.
Quando
entrou no camarote de Rhodan, este disse:
— Pretendemos
dizer adeus à Terra por alguns dias.
Bell aguçou
os ouvidos. Crest continuou:
— Enquanto
completam o treinamento hipnótico, os senhores precisam do máximo de repouso.
Além disso, nossa excursão terá outra finalidade. Não é de supor que nossa nave
pousada na Lua tenha sido totalmente destruída. Não acredito que um míssil
terrestre tenha tamanho poder de destruição. Acho que, se procurarmos com calma
conseguiremos salvar alguns objetos importantes.
A decolagem
da nave foi marcada para dali a dois dias. Enquanto isso, a tripulação,
especialmente Bell e Rhodan, desenvolvia uma atividade que fez retumbar os
corredores da nave.
Em virtude
das funções que lhe cabiam, a nave dispunha de um grupo de robôs de reparo.
Para Rhodan, qualquer segundo durante o qual estes permaneciam inativos,
atirados ou encostados no depósito, representava um desperdício. Por isso,
pediu a Crest que elaborasse um programa das atividades dos robôs.
— Quando
estará pronto o programa? — indagou.
— Daqui a
dez minutos.
— Caramba! —
exclamou Rhodan. — Em dez minutos?
Crest
confirmou com um movimento de cabeça e dirigiu-se à escrivaninha. Rhodan, ao
sair, marcou a hora.
Pensativo,
dobrou um ângulo do corredor. Não vira a pessoa que se aproximava do outro
lado. Quase esbarrou em Thora.
— Oh,
desculpe! — disse com um sorriso, ligeiramente perturbado.
Thora
parecia estar de bom humor. Lançou-lhe um olhar irônico.
— Se
continuar a desenvolver tanta energia, um dia acabará atravessando a parede,
sem precisar fazer a curva.
— E se um
belo dia você conseguir ser menos presunçosa, até que será uma mulher passável
— respondeu Rhodan.
Thora
estreitou os lábios. Virou-se abruptamente e desapareceu em outra curva do
corredor. Suspirando, Rhodan continuou seu caminho.
Tako Kakuta
estava esperando por ele. Rhodan entregou-lhe um maço de papéis com anotações.
— Leia isto,
Tako. Depois falaremos a respeito.
Sem perda de
tempo, Tako pôs-se a examinar as anotações de Rhodan. Este hesitou um pouco antes
de por-se a caminho para junto de Crest.
— Chegou bem
na hora, Rhodan — disse o cientista. — Acabei neste instante.
Tomaram um
elevador e desceram ao depósito de robôs.
— Fiz um
programa para cada um deles — disse Crest com certo orgulho. — Quando voltar,
ficará admirado com o trabalho destas máquinas.
Havia uns
vinte robôs-trabalhadores com funções universais. Todos eles tinham forma
humanóide. Os arcônidas haviam descoberto que esta representava o tipo ideal em
meio ao arsenal inesgotável das gerações. Dessa forma, haviam dotado seus robôs
de dois braços, duas pernas, mãos com cinco dedos, inclusive um polegar, uma
cabeça que continha o equivalente positrônico de um cérebro humano, inclusive
os órgãos dos sentidos mais importantes. A postura ereta permitia aos robôs
contemplarem o mundo da mesma perspectiva que os seus construtores. Apesar das
suas funções universais, podiam receber uma programação específica para
determinadas tarefas.
O programa
que Crest elaborara para cada uma das máquinas estava registrado numa
delgadíssima fita de plástico.
— Aqui estão
registrados todos os impulsos — explicou.
Pôs-se a
introduzir os programas nos robôs. Essa atividade consistiu tão-somente em
colocar a fita de plástico numa fenda, que era encontrada num ponto diferente
em cada uma das máquinas. Feito isso, era só esperar que o robô emitisse um
zumbido e desse sinal de que estava pronto a entrar em funcionamento.
— Depois de
uma pausa tão longa, a ativação demorará alguns segundos — explicou Crest.
Para Rhodan,
alguns segundos pareciam um tempo insignificante em comparação com a atividade
que as máquinas logo começaram a desenvolver. Zumbindo como abelhas, começaram
a se movimentar, afastando-se de sua posição primitiva. Desviando-se uns dos
outros sempre que corriam risco de esbarrar, marcharam em direção ao elevador
pelo qual Crest e Rhodan haviam descido poucos minutos antes. Quando a última
máquina acabou de subir, Rhodan deu uma risada.
— Meus Deus!
— suspirou. — Nunca seria capaz de imaginar que uma coisa dessas pudesse
existir realmente.
— Pois
ficará admirado de ver o que estes robôs sabem fazer — respondeu Crest. —
Trata-se de robôs genuínos, que, até certo ponto, são capazes de pensar e agir
de forma independente. Não sei o que seria da cultura arcônida se não existissem
estas máquinas.
***
Os robôs não saíram diretamente da nave. Antes disso, reuniram os
objetos que, segundo o programa, tinham de levar para fora.
Ao conceber seu plano, Rhodan tivera a idéia de não desperdiçar um
instante do tempo de que dispunham para cumprir as tarefas ambiciosas que se
haviam imposto. Rhodan percebeu uma chance que não deveria perder e que lhe
permitiria obter, das indústrias terrenas, as peças necessárias à construção de
uma nave ultraveloz e de raio de ação ilimitado, desde que fizesse encomendas
bem definidas. Mas a montagem da nave só poderia ser realizada sob a proteção
da cúpula energética. Face às condições reinantes na Terra, ele cometeria um
erro de extrema gravidade se assumisse o risco de incumbir a indústria terrestre
da construção da nave. Esse receio tinha sua origem tanto na política das
grandes potências, como no caráter humano.
Rhodan sabia perfeitamente que o espaço existente sob a cúpula
energética seria bastante para realizar a montagem final, mas nunca pensara em
comprimir todo o processo produtivo numa área de apenas oitenta quilômetros
quadrados.
Ficou entusiasmado com a atividade enérgica e resoluta dos robôs.
Depois de haverem retirado da nave os materiais de que precisavam para seu
trabalho, empilharam os mesmos num local afastado e puseram-se a aplainar o
solo.
Rhodan tinha certeza de que, quando retornassem de sua viagem,
grande parte do serviço estaria concluída.
***
Tako Kakuta concluíra a leitura das anotações. Quando Rhodan
entrou em seu camarote, estava reclinado numa poltrona giratória, olhando,
pensativo, para o alto.
— Compreendeu tudo? — perguntou Rhodan laconicamente.
— Sim, senhor. Não será nada fácil... Rhodan pegou uma cadeira e
sentou em frente de Tako.
— Ouça,
Tako! — começou a falar em tom insistente. — O assunto é muito sério. Para
conservar a amizade de Crest e daquela mulher, teremos de construir uma nave
cujo raio de ação seja bastante amplo. Se não conseguirmos levá-los ao seu
planeta natal e trazê-los de volta, morreremos de velhice antes de conseguirmos
fazer alguma coisa que imponha respeito aos habitantes da Terra. Precisamos do
auxílio de Crest e, para conseguirmos que este faça por nós tudo que estiver ao
seu alcance, precisamos de uma boa nave.
— Sim,
compreendo — disse Tako.
— Estarão
atrás de você — prosseguiu Rhodan. — Será caçado pelos serviços secretos e terá
de cuidar-se o mais possível. Encontrará muita gente que, de olho no dinheiro,
gostará de entrar em negócios conosco e estará disposta a fornecer qualquer
coisa de que precisemos. Mas não duvide de que, entre essa gente, haverá
pessoas que lhe farão ofertas fabulosas e avisarão a polícia assim que você
lhes der as costas. Nunca confie demais na faculdade especial de que é dotado.
O serviço secreto levará uns cinco ou seis dias para descobrir que é um
teleportador. Daí em diante, atirarão sem avisar, à traição, se for necessário.
Você receberá um traje protetor dos arcônidas, que lhe prestará bons serviços.
Mas, em última análise, o responsável pela sua segurança será você mesmo.
Tako
confirmou com um movimento de cabeça e repetiu:
— Sim,
compreendo.
— Você mesmo
decidirá por onde vai começar o seu trabalho. Talvez tenha mais sorte junto às
empresas privadas. Dar-lhe-ei uma relação completa dos artigos de que
precisamos. Na opinião de Crest, a nave deve ter, pelo menos, trezentos metros
de diâmetro. Muita gente pensará que você está louco, quando pedir andaimes
para uma construção de plástico de trezentos metros de altura, ou alguns
geradores na base de fusão com uma potência de cem milhões de megawatts. Além
disso, deverá ter cuidado para que nenhuma firma forneça tantas peças que se
possa adivinhar para que servirão. Não se iluda. Trata-se da tarefa mais
difícil que já lhe foi confiada. Deverá estar preparado até o momento de nossa
decolagem.
Rhodan
levantou-se. Tako também se levantou e fez uma mesura. Rhodan sorriu e deu-lhe
uma palmadinha no ombro.
— Faça um
serviço bem feito, Tako! Muita coisa depende disso.
* * *
Rhodan
estava preparando a relação que seria entregue a Tako. Eram muitas as peças que
teriam de ser providenciadas num breve espaço de tempo.
A indústria
terrena não seria capaz de fornecer os mecanismos propulsores de velocidade
superior à da luz. Crest esperava encontrar, na nave destruída, algumas peças
que poderiam ser utilizadas. Quanto ao resto, encomendariam as partes
separadas, que teriam de ser montadas sob a cúpula energética.
Rhodan
sentiu uma tensão eletrizante ao lembrar-se de que faltavam menos de setenta
horas até o momento em que conheceria o segredo da propulsão a velocidade
superior à da luz.
Fitando a
lâmpada mortiça do camarote, deixou que seus pensamentos vagassem livremente.
Bell entrou
correndo, sem anunciar-se. Estava exaltado e fungava.
— Klein está
dando sinal! — disse apressadamente. — Temos de mandar Tako para fora.
— Klein?
Bell fez que
sim.
— Acho que
devíamos apressar-nos. Klein não gostará de ficar rastejando por muito tempo
pelo deserto sob o olhar de Tai-tiang.
Rhodan ligou
o equipamento de intercomunicação. O rosto sorridente de Tako surgiu na tela.
— Explique a
ele! — pediu Rhodan, dirigindo-se a Bell.
— Klein
transmitiu o sinal convencionado — disse pela segunda vez. — OPQ na faixa de
6,3 megahertz. Está esperando no lugar combinado. Você deve-se pôr-se a caminho
o quanto antes.
Tako fez que
sim.
— Irei
imediatamente, capitão.
Nem deu
tempo para desligar o aparelho. Viram que de um instante para outro ele
desapareceu do lugar em que se encontrava.
O capitão
Klein ocupava três funções como agente: em caráter profissional, trabalhava
para o Conselho Internacional de Defesa; por convicção, lutava pela paz e o
entendimento entre os povos; e, finalmente, como aliado da Terceira Potência,
também desempenhava suas funções de agente secreto. Conforme se esperava dele,
reunira-se às suas tropas, juntamente com seus companheiros Kosnow e Li e se
retirara em companhia delas. Se assumia o risco de abandonar a segurança
proporcionada pelo acampamento militar para aventurar-se até as proximidades da
cúpula energética, devia ter uma razão muito forte para isso.
O sinal OPQ
na faixa de 6,3 megahertz significava uma pequena elevação, situada a cerca de
seis quilômetros ao sudoeste do lago. Klein dispunha de várias senhas para
entrar em contato com a equipe de Rhodan. Cada uma delas indicava um lugar de
encontro.
Tako Kakuta
voltou após quinze minutos. Rhodan e Bell fitavam a tela de telecomunicação,
para vê-lo materializar-se. Mas, em vez de fazer sua aparição em seu próprio
camarote, surgiu inopinadamente na sala em que Rhodan se encontrava.
Bell
sobressaltou-se.
Tako não lhe
deu atenção. Voltou-se para Rhodan. Parecia muito nervoso.
— Tenho
notícias más, senhor! Pequim deu instruções a todos os setores da indústria
estatal para entregar imediatamente ao serviço secreto qualquer dos nossos agentes
que procure estabelecer contato com eles. Moscou deu ordens idênticas para o
seu território e, na área da OTAN, a partir de hoje, qualquer empresário que
entabule negociações conosco está sujeito a penas bastante graves.
Rhodan ficou
pensativo por um instante.
— Algum
espertalhão deve ter descoberto os nossos planos — disse com a voz pausada. Deu
dois passos, virou-se abruptamente e encarou o japonês. — Tako! Sua tarefa
continua inalterada. Apenas receio que terá de ser ainda mais cauteloso.
II
A nave
decolou conforme fora previsto. Os robôs haviam trabalhado durante dois dias, e
a tarefa de que foram incumbidos estava adquirindo uma certa forma.
Havia um
número suficiente de geradores de campo para manter a cúpula energética,
durante a ausência da nave. Alguns dos aparelhos foram colocados a bordo para
frustrar os planos que os comandos militares da Terra elaboraram assim que lhes
foi comunicada a decolagem da nave.
Durante a
viagem, não havia qualquer serviço a executar. O equipamento de direção automática
da nave funcionou de acordo com os dados introduzidos por Crest.
A oitocentos
quilômetros da Terra os equipamentos de bordo localizaram o primeiro foguete.
Em poucos segundos, surgiu nas telas de vigilância ótica sob a forma de um
fugaz raio metálico. Rhodan não conseguiu impedir que o susto lhe gelasse o
sangue e o fizesse prender a respiração por um instante. Viu a esfera
incandescente gerada pela explosão e só se acalmou quando comprovou que nada
tinha sido alterado no interior da nave. O brilho da explosão dissolveu-se no
espaço e foi desaparecendo. A nave dos arcônidas afastava-se a uma velocidade
cada vez maior.
Rhodan
virou-se. Bell estava atrás dele. Ambos conseguiram esboçar um sorriso amarelo.
— Até parece
uma festa de Natal — disse numa voz a que não conseguiu imprimir firmeza
suficiente para ocultar o medo de que, poucos momentos antes, se sentira
possuído.
Crest exibiu
seu sorriso manhoso, mas amável. Thora manteve-se impassível. Seu rosto imóvel
continuou a contemplar a tela.
Houve uma série
de novos ataques, entre oitocentos e três mil quilômetros de altitude. O
invólucro protetor da nave repeliu ao todo quinze foguetes sem que se sentisse
a mais leve oscilação.
Após isso, o
bombardeio cessou e a nave entrou numa órbita situada a quatorze mil
quilômetros da superfície da Terra.
— Podemos
dar início à instrução — disse Crest. — Como viram, os foguetes não nos fazem
nada. Mesmo que o bombardeio fosse reiniciado, isso não nos perturbaria.
Rhodan
estava de acordo. Uma vez vencido o pavor do impacto de algum dos foguetes,
sentiu-se tomado de novo pela curiosidade de conhecer os últimos segredos da
ciência dos arcônidas.
O
procedimento era idêntico ao que ele e Bell já tinham experimentado por várias
vezes. Deitados confortavelmente, foram ligados aos informadores-transmissores.
— O processo
durará cerca de três horas — disse Crest. — Desta vez vamos lidar com um
assunto extremamente difícil; até para mim.
Depois de
examinar o equipamento, perguntou:
— Estão
prontos?
— Estamos —
responderam Rhodan e Bell.
A
consciência de Rhodan desvaneceu-se em meio ao pensamento a respeito dos
motivos por que Thora não teria vindo para assistir ao início da operação.
Rhodan nunca
saberia contar o que sentira durante o tratamento. Só conseguia lembrar-se de
um torvelinho de informações fragmentadas, das quais não conseguia extrair
qualquer sentido. Não experimentava qualquer sensação corporal. Percebia
nitidamente o que estava acontecendo, notava tudo que se passava em seu
cérebro. Mas, se não fosse o processo de indução hipnótica que garantia a
eficácia da instrução, não saberia o que fazer das informações desconexas de
que ainda se lembrava.
Sabia que o
processo normal de instrução incluía um período de recuperação cerebral, após a
operação de indução hipnótica. Lembrava-se de que das vezes anteriores em que
adquirira uma parcela do saber arcônida através desse método, despertara alegre
e bem disposto.
Por isso, ao
despertar com uma dor de cabeça latejante, soube imediatamente que algo de
imprevisto havia acontecido.
Crest, de pé
ao seu lado, olhava-o com uma expressão de perplexidade.
Rhodan
despertou imediatamente.
— O que
houve? — gritou para Crest.
Ao lado dele
Bell gemia. Rhodan não se preocupou com ele. Bell ainda levaria algum tempo
para recuperar a consciência. Crest estremeceu.
— Está
passando bem? — perguntou Crest.
— Sim, estou
passando muito bem. O que houve?
Não estava
passando bem coisa alguma. A dor de cabeça era quase insuportável.
— Foi Thora
— balbuciou Crest. — Ela...
Rhodan
lembrava-se de que receara algo semelhante. A facilidade com que Thora
concordara com o projeto da instrução hipnótica fora suspeita. Deviam ter
compreendido logo que ela estava tramando alguma coisa.
Levantou-se,
arrancando os fios de comunicação com o transmissor. Crest recuou apavorado.
— Onde está
essa mulher? — berrou.
— Na sala de
comando! — disse Crest com voz lamentosa.
Rhodan não
lhe deu mais atenção. A última coisa que ouviu ao sair da sala foi a voz de
Bell.
— Vá na
frente, chefe! Daqui a pouco eu vou.
Rhodan
passou pelo corredor que levava ao centro da nave. Pôs a mão no quadril e tirou
do coldre a pequena pistola Smith &
Wesson que sempre trazia consigo. Por um instante, lamentou não ter consigo
nenhuma das armas dos arcônidas. Os pequenos projéteis revestidos de aço seriam
totalmente inúteis diante da escotilha da sala de comando se Thora a tivesse
fechado.
Ela a tinha
fechado.
Não iria
assumir qualquer risco face a dois homens cuja energia, medonha para as
concepções de um arcônida, já por diversas vezes lhe causara verdadeiro pavor.
Rhodan
acionou o dispositivo de chamada e martelou a escotilha com os punhos cerrados.
Nenhuma resposta. Recuou três passos, até o local em que se encontrava a
primeira tomada de intercomunicação. Fez a ligação e esperou ansiosamente que a
tela se iluminasse.
Thora já
esperava a chamada. Seu rosto tomou toda a extensão da tela. Rhodan
assustou-se. Nunca vira tamanho ódio no rosto de qualquer ser vivo.
— O que
houve? — perguntou Thora calmamente.
Rhodan
refletiu. Chegou à conclusão de que não adiantaria gritar com ela. Desde que a
conhecia sempre alcançara melhores resultados quando aplicava o método de
fazê-la sentir que se considerava superior a ela.
— Que tolice
foi inventar desta vez? — perguntou tranqüilamente, com um sorriso de escárnio.
Ao que
parecia Thora se pusera de sobreaviso contra esse método. Não havia o menor
sinal do estreitamento instantâneo dos olhos que, das outras vezes, indicara o
quanto a ironia de Rhodan a ofendera.
Falou em
arcônida, para dar a entender que considerava o assunto exclusivamente seu.
— Estou
cansada de me deixar tocar de um lado para outro por um homem-macaco. É só.
Rhodan
refletiu na resposta. Ouviu os passos de Bell, que se aproximava pelo corredor.
Com a mão direita, que Thora não poderia ver refletida na tela, fez-lhe sinal
de que se mantivesse afastado. Bell obedeceu prontamente.
— Diga-me
uma coisa — voltou a falar Rhodan. — O que acha que pode fazer para livrar-se
de nós?
Pela
primeira vez, notou um sinal de inquietação em seu rosto.
— Pousarei na
Terra e cuidarei pessoalmente de tudo — respondeu Thora.
— De que
coisas? Acha que conseguirá comprar uma nave novinha em folha por aí?
— Não. Mas
posso obrigar os homens a construir uma.
— Obrigar? —
Rhodan riu. — Como?
Thora recuou
um passo. Na tela, Rhodan pôde enxergar para além dela. Subitamente descobriu
como teria de fazer para dissuadi-la da loucura que pretendia cometer.
— Você sabe
perfeitamente que com as armas que tenho a bordo desta nave posso acabar com
qualquer mundo igual ao seu — respondeu Thora.
Rhodan
passou a desenvolver uma atividade febril. Não tirou os olhos do rosto dela;
aproximou-se mais do aparelho de intercomunicação. Com a mão direita fez um
sinal a Bell, sem que Thora o visse. Apontou para o lugar em que o soalho do
corredor se encontrava com a parede oposta.
Enquanto
isso, Thora prosseguia:
— Pousarei
no interior da cúpula energética e farei com que os governos da Terra
compreendam do que preciso.
Rhodan
abanou a cabeça, enquanto abria os dedos da mão direita. O indicador continuou
a apontar para o soalho do corredor, mas o polegar mostrava a imagem que se via
na tela do intercomunicador. Não podia ver se Bell o estava entendendo.
— Quero
deixar claro que transformarei seu planeta num montão de cinzas se meus desejos
não forem cumpridos.
— Para você
é a maneira mais segura de ir para casa, não é? — perguntou Rhodan em tom
irônico.
Enquanto
falava, modificou os gestos que fazia com a mão direita. Curvou o dorso da mão,
enquanto o dedo médio apontava para cima. Depois de algum tempo, o indicador
passou a fazer movimentos de quem aperta o gatilho de uma pistola.
Rhodan
percebeu que começava a transpirar.
— Pense bem!
— disse com toda calma de que era capaz. — Então pretende destruir a Terra,
porque ela não cumpre seus desejos. O que lhe restará depois disso? Um fim de
vida miserável em Marte ou Vênus. É isso que pretende?
Thora fez um
gesto de desprezo.
— Acredita
que os terrenos deixarão que as coisas cheguem a esse ponto? Farei com que
compreendam que não poderão esperar a menor compaixão da minha parte.
Rhodan
passou a odiá-la por essas palavras.
— Os homens
zombarão de você — disse em tom de escárnio. Fez uma ligeira pausa de triunfo,
ao ouvir que atrás dele Bell se afastava sorrateiramente. — Farão pouco de
você; procurarão abrigar-se e terão a satisfação de ver que, uma vez devastada
a Terra, você estará em situação muito mais difícil que antes.
Thora
pareceu crescer em altura.
— Não farão
nada disso! — respondeu fungando. — Ninguém se deixa matar quando pode
evitá-lo.
Rhodan encostou-se
tranqüilamente à parede, para mostrar que estava disposto a entreter uma
palestra prolongada.
— Pois é
isso! Neste ponto você subestima os homens. Não se iluda. De qualquer maneira,
uns poucos covardes que se disponham a ceder às suas exigências para poupar a
vida não poderão fazer muito por você.
Pretendia
dizer mais alguma coisa. Mas, nesse instante, percebeu um movimento na tela. Na
parede da cabina de comando, perto do lugar em que Thora se encontrava, havia
uma abertura do tamanho aproximado de uma cabeça humana, e que servia à
insuflação de ar. Essa abertura dava para um conduto de metro e meio de
largura, que atravessava a nave em sentido vertical e distribuía o ar puro
vindo das câmaras de tratamento.
Na abertura
surgiu primeiro o cano de uma pistola e, logo a seguir, uma mão coberta de
pêlos.
— Tudo em
ordem, chefe! — disse Bell de tal forma que Rhodan podia ouvi-lo pelo
intercomunicador. — Vire-se para mim e levante as mãos, menina!
Thora não
chegou a virar-se. Ao ouvir a voz de Bell, fez menção de voltar a cabeça. Mas,
em meio ao movimento, foi dominada pelo susto. Estendeu os braços e, de bruços,
caiu ruidosamente no piso.
— Muito bem!
— exclamou Bell. — Ela quis assim. Chefe, arrebente logo a porta, antes que ela
desperte.
Rhodan
fez-lhe um sinal de aprovação. Chamando por Crest, correu pelo corredor em
direção à sala de informações, onde ele e Bell haviam estado deitados sob a
influência do radiador hipnótico.
Crest estava
de pé na escotilha aberta.
— Dê-me uma
de suas armas! — disse Rhodan esbaforido. — Preciso de uma arma com que possa
abrir a escotilha da sala de comando. Thora está inconsciente. Se não nos
apressarmos despertará e tudo terá sido em vão.
Crest saiu
correndo.
Voltou
dentro de trinta segundos. Respirando com dificuldade, entregou a Rhodan a
pesada pistola de raios perfuradores.
— Aqui está!
— disse. — Mas tenha cuidado.
Rhodan
precipitou-se corredor afora. Enquanto corria engatilhou a arma. Parou a cinco
metros da escotilha e dirigiu o feixe compacto de raios energéticos para o
dispositivo eletrônico de travamento.
O metal
chiou, soltou bolhas e derreteu-se. Um furo abriu-se na escotilha. Assim que
pôde olhar através dele, Rhodan suspendeu o bombardeio energético.
A escotilha
já não representava o menor obstáculo. Rhodan abriu-a sem dificuldade. Ouviu o
desabafo de Bell, vindo do orifício de insuflação de ar:
— Graças a
Deus! Não seria capaz de atirar nela.
Thora ainda
estava inconsciente. Depois de levantá-la Rhodan acomodou-a num dos leitos
encostados à parede. Pôs a funcionar o intercomunicador e chamou Crest.
— Faça o
favor de vir até aqui — disse com a voz tranqüila. — Gostaria que estivesse
presente quando ela despertar.
Bell nem se
dera tempo para enxugar o suor que lhe escorria pela testa. Mas um largo
sorriso cobria-lhe o rosto.
— Você nem
imagina o orgulho que sinto por ter entendido a linguagem codificada dos três
dedos.
Rhodan
lançou-lhe um olhar sério.
— Afinal,
você é um menino inteligente.
Crest
entrou.
— Como foi
que fez isso? — perguntou sacudindo a cabeça.
— Foi assim
— respondeu Bell, cortando o ar com os dedos da mão direita.
Rhodan riu.
— Encontramos
em tempo o conduto de ar — explicou a Crest. — Bell desceu por ele. Quando
Thora percebeu que ele estava perto dela, desmaiou.
Crest sentou
na beirada do leito em que Thora estava deitada.
— Não é de
estranhar — disse em tom pensativo. — Quase morri há poucos minutos quando vi
que os senhores se levantavam.
— Por quê?
— Na fase
inicial da aplicação da técnica de treinamento hipnótico, quando mal havíamos
construído os primeiros aparelhos e ainda não dispúnhamos da experiência
necessária, houve alguns casos lamentáveis, em que o processo de treinamento
teve de ser interrompido. Isso foi devido a influências exteriores. Em todos
esses casos, a pessoa cujo treinamento foi interrompido perdeu a razão. A
explicação é simples: no curso do processo de treinamento hipnótico, o cérebro
encontra-se num estado de ativação muito intensa. Se não tiver oportunidade de
retornar lentamente às suas funções normais, a confusão instala-se nele. Em
conseqüência disso, surge uma forma de loucura que nem mesmo os nossos
psiquiatras conseguem curar.
Ergueu os
olhos e fitou primeiro Rhodan, depois Bell.
—
Compreendem o que quero dizer? Desde os primórdios do treinamento hipnótico não
existe, em Árcon e nos mundos submetidos às leis arcônidas, nenhum crime mais
grave que a interrupção de um processo de treinamento. Enquanto vocês estavam
ligados ao transmissor, Thora não receava qualquer interferência de sua parte.
Sabia perfeitamente que não me atreveria a despertá-los antes de concluído o
treinamento. E dentro de três horas ela poderia ter levado a nave à Terra e
tomado as providências necessárias para que você, Rhodan, não representasse
mais qualquer perigo para ela.
Crest fez
uma pausa.
— Assim
mesmo você nos despertou! — disse Rhodan, falando pausadamente e com a voz
grave.
Crest fez
que sim e baixou os olhos.
— Foi uma
decisão muito difícil. Mas não me restava outra alternativa senão agir de
acordo com os fatos. Se não os tivesse despertado, Thora pousaria na Terra e
inutilizaria os resultados dos nossos esforços. Não tenho a menor dúvida de que
as idéias dela teriam causado a destruição do planeta e desta nave.
Ergueu os
olhos e sorriu.
— O resto
não passou de um exercício de matemática infantil. De qualquer maneira teríamos
morrido. Por que, então, não iria aproveitar a única chance de continuarmos
vivos? Tinha uma leve esperança de que a estrutura do cérebro de vocês fosse
diferente da dos arcônidas, de forma que estivessem em condições de resistir ao
choque provocado pela interrupção do treinamento.
De repente
mostrou-se radiante.
— Não me
enganei! A humanidade terrena...
Nesse
instante Crest foi interrompido de forma grotesca.
Atrás dele,
alguma coisa começou a mexer-se no leito. Sem conseguir dominar a voz, Thora
disse:
— Crest,
você é um traidor miserável!
Rhodan
virou-se abruptamente. Bell levantou-se de um salto e postou-se aos pés do
leito. Crest não se abalou: continuou sentado. Um sorriso triste esboçou-se em
seu rosto. Respondeu com a voz tranqüila:
— Não, minha
filha; não sou nenhum traidor. Você ainda há de compreender. Apenas receio que
isso ainda leve muito tempo.
Thora fechou
os olhos.
Rhodan
lançou um olhar sério para ela. Quando esta voltou a abrir os olhos, estremeceu.
— Ouça! —
disse em tom ríspido. — Já estamos fartos da sua idiotice, da sua obstinação e
da sua repugnante arrogância. Daqui em diante cuidaremos para que não nos
atrapalhe mais, enquanto não aprender a usar a inteligência. Não tem nada a
recear de nós. Não lhe faremos mal. Mas é bom que saiba uma coisa: deste
momento em diante assumo o comando desta nave e qualquer tentativa de realizar
programas tresloucados será considerado como amotinação, e punido de acordo com
as leis terrenas.
Thora não
soube o que responder. Seu rosto impassível não revelava o que se passava
dentro de sua cabeça.
Rhodan não
restringiu sua liberdade de movimentos. Apenas incumbiu Bell de exercer uma
vigilância cuidadosa sobre ela, enquanto estivesse em condições de fazê-lo. Por
enquanto pretendia continuar o treinamento hipnótico e concluí-lo o quanto
antes.
Rhodan
lamentou não ter trazido o Dr. Manoli ou o australiano. Qualquer um deles
poderia ficar de olho em Thora, enquanto ele e Bell estivessem ligados ao
transmissor de conhecimentos.
Nas
condições em que se encontrava, não lhe restava outra alternativa senão
entregar a pistola de radiação energética a Crest, recomendando-lhe
encarecidamente que a usasse se Thora tentasse interferir novamente.
Feito isso,
reclinou-se na poltrona e esperou pacientemente que Crest substituísse o
equipamento transmissor que fora arrancado e começasse a prepará-lo para o
reinicio do processo.
Depois foi a
vez de Bell.
— Pronto? —
perguntou Crest.
— Pronto! —
Veio a resposta. Seguiu-se imediatamente a inconsciência abrupta e profunda
causada pelo treinamento hipnótico, que sempre voltava a surpreender. Parecia
que alguém havia arremessado uma capa que cobria todo o mundo.
III
Tako Kakuta
estava numa loja, renovando seu guarda-roupa. Lembrou-se de que o suprimento de
dinheiro estava se transformando num problema bastante sério para a Terceira
Potência. Com a perda da nave dos arcônidas, pousada na Lua, os meios de troca
tinham-se tornado escassos. Tinham de ser reservados para as transações mais
importantes.
Tako chegara
a Petersburgo sem encontrar o menor obstáculo. Rhodan dera-lhe ampla liberdade
na escolha de seu itinerário. Decidira visitar em primeiro lugar os Estados da
Nova Inglaterra, que abrigavam a maior concentração da indústria norte-americana.
Tako
abandonara a cúpula energética durante a noite, junto ao lago salgado de
Goshun. Sua vestimenta especial permitiu-lhe voar em direção sul até Wuwei.
Chegou ao raiar do sol e aproveitou a primeira conexão para Lantchou. Ali
abriam-se duas alternativas: voar a Tchunking ou a Pequim, para tomar um vôo
intercontinental destinado aos Estados Unidos. Optou por Tchunking, pois
Pequim, um lugar em que a polícia secreta desenvolvia uma atividade intensa,
era um sítio muito perigoso para um homem como ele.
Tako estava
consciente da vantagem que levava fora da cúpula energética sobre qualquer dos
membros da Terceira Potência: não era conhecido. Ninguém desconfiava de que era
um homem de Rhodan. Nunca era mencionado nos noticiários sobre a Terceira
Potência, irradiados periodicamente pelas emissoras de TV de todo o mundo.
Decidiu
aproveitar essa vantagem enquanto fosse possível. Teria de deixar cair a
máscara no momento em que iniciasse as negociações.
Uma vez
provido de boas roupas, pôs-se a trabalhar. Pegou um táxi e foi à usina de
ferro-plástico, um local que parecia oferecer-lhe oportunidades bastante
promissoras para a realização dos seus objetivos.
A empresa
Ferroplastics Limited pertencia ao grupo Dupont, uma das famílias mais
importantes dos Estados Unidos.
Tako soube
dar-se uma impressão imponente. Ao anunciar-se, asseguraram-lhe que fariam o
possível para conseguir, quanto antes, uma audiência com um dos diretores.
Tako
acrescentou com a maior ênfase:
— Não se
esqueça de mencionar que se trata de encomenda muito importante.
Adotara um
nome suposto, que constava do passaporte que trazia consigo. Não dissera nada
sobre sua procedência ou sobre a identidade de quem o incumbira de fazer a
encomenda. Por enquanto, poderiam acreditar que estavam lidando com um
representante da Federação Asiática. Todo mundo sabia que no setor dos metais
plastificados a Federação Asiática ainda engatinhava atrás das indústrias do
Bloco Oriental e do mundo ocidental.
Fizeram-no
esperar uns vinte minutos no enorme hall. Mergulhou na leitura das revistas
destinadas aos visitantes, mas fazia-o de maneira a utilizar a borda superior
como horizonte visual, por cima do qual observava os arredores. Através do hall
fluíam e refluíam as vagas humanas desencadeadas pela atividade febril da grande
usina. Não havia nada que devesse preocupar Tako.
Dentro de
vinte minutos o homem que o havia recebido voltou a aparecer. Sorria.
— Consegui,
senhor — disse no seu falar arrastado de americano. — O patrão quer recebê-lo
imediatamente.
Tako esboçou
um sorriso de cortesia.
— Meu caro,
o senhor está enganado — respondeu. — Sou eu que quero ser recebido pelo
patrão. Como é o nome dele?
— La...
Lafitte — gaguejou o jovem. — Quer fazer o favor de subir comigo?
Tako
levantou-se.
O escritório
de Lafitte ficava no último andar do imponente edifício. Enquanto era conduzido
Tako desfrutou a visão panorâmica sobre a cidade.
Assim que
ele entrou, Lafitte levantou-se atrás da mesa. O jovem que o havia acompanhado
ficou do lado de fora; fechando a porta dupla.
— Queira
sentar! — disse Lafitte, apontando para uma poltrona confortável.
Tako sentou.
Recusou o cigarro que lhe foi oferecido. Passou tranqüilamente os olhos pela
sala. Lafitte começou a ficar nervoso, mas Tako não se sentiu perturbado com
isso.
Finalmente
levantou os olhos e disse:
— Onde
poderíamos conversar?
Lafitte
parecia perplexo.
— Por quê?
Não gosta daqui? Costumo discutir os meus negócios neste escritório.
Tako
concordou com um sorriso.
— Minha
missão é muito difícil e delicada — disse com a voz fina. — Não posso correr o
menor risco. O senhor compreende? Veja, por exemplo, esse vaso de flores. Não
acha que seria um ótimo esconderijo para um microfone? Compreendo suas
precauções, senhor Lafitte; peço-lhe que também procure compreender as minhas.
A expressão
do rosto de Lafitte mudou do espanto e do desagrado para um princípio de
contrariedade e terminou num sorriso matreiro.
— Tenho a
impressão de que não me mandaram nenhum tolo — disse com a voz ligeiramente
manhosa, que não permitiu a Tako sentir-se seguro.
Levantou-se
e saiu de trás da mesa.
— É claro
que estou disposto a conversar num lugar que lhe seja agradável — prosseguiu. —
Faça uma sugestão.
— Que tal
meu hotel? Reservarei uma sala de conferências.
Lafitte
apontou para o telefone. Tako chamou o hotel em que estava hospedado e reservou
uma das menores salas de conferências.
Enquanto
desciam pelo elevador, observou Lafitte com os olhos atentos. Não notou que
este tivesse feito sinal para que alguém os seguisse. Assim mesmo Tako
acreditava que estava tramando alguma coisa que não se harmonizava com seus
planos.
A viagem de
táxi decorreu sem contratempos. Por várias vezes Tako olhou pelo vidro
traseiro; ao que parecia, ninguém os estava seguindo. A não ser que se tratasse
de uma pessoa muito hábil; e Tako não excluía essa possibilidade.
A sala de
conferências fora preparada. Tako deu instruções para que ninguém os
perturbasse. Sentaram-se a uma mesa pequena e baixa; Tako começou a agir.
Colocou Lafitte sob a influência de seu minúsculo aparelho hipnotizador e ditou
suas exigências.
— ...um
revestimento de 0.75
metros de espessura para uma esfera com exatamente 310 metros de diâmetro.
O material deverá ser de ferroplástico A-10 com um aditivo de volfrâmio e terá
de ser fornecido em peças facilmente transportáveis. Ainda lhe transmitiremos
instruções precisas sobre a forma de entrega. A título de compensação meu
comitente lhe remeterá um gerador anti-gravitacional. Trata-se de um aparelho
capaz de neutralizar um campo gravitacional até uma potência de dez vezes o da
Terra. Com isso obterá um valor que representa muito mais que o das chapas de
ferroplástico. Não se esqueça de que terei de insistir no exato cumprimento do
prazo de entrega. Se esta não se verificar dentro de trinta dias, nosso acordo
ficará sem efeito. Não celebraremos nenhum contrato escrito. Temos plena
confiança um no outro.
Tako
levantou-se. Lafitte olhava-o com a expressão apagada de quem se encontra sob
influência hipnótica.
— Se
acreditar que sou um agente da Terceira Potência, faça o favor de abandonar
essa idéia — concluiu Tako com um sorriso. — Trabalho sob as ordens da
Federação Asiática que, conforme sabe, está atrasada no setor do ferroplástico.
A esfera que pretendemos construir servirá como envoltório de um grande reator
nuclear, cuja construção está sendo iniciada. Faço votos para que a encomenda
seja executada a contento de meu comitente. Aqui estão as instruções sobre a
forma de entrega.
Entregou a
Lafitte um maço de papéis que ele mesmo escrevera no dia anterior, numa máquina
emprestada pelo hotel.
Desligou o
hipnotizador e notou que o rosto de Lafitte retornou à expressão normal. Ele
levantou-se e estendeu a mão a Tako.
— Fico
satisfeito por termos chegado a um acordo tão depressa — disse. — Ainda hoje
submeterei o assunto ao Conselho Fiscal. Acredito que não haverá dificuldades.
Afinal, teremos uma recompensa regia.
Tako abriu a
porta da sala de conferências. O corredor estava vazio. O sol penetrava por uma
ampla janela de frente, refletindo-se na passadeira brilhante.
— Não se
esqueça de me informar sobre a decisão do Conselho Fiscal — pediu Tako. — Meu
comitente está empenhado em receber o material com a maior rapidez. Caso não
haja interesse de sua parte, terei de procurar outro fornecedor.
Sorrindo,
Lafitte fez um gesto negativo.
— Não se
preocupe. Tudo irá bem. Darei uma solução ainda hoje.
Tako
acompanhou Lafitte até o elevador. Assim que este começou a descer, correu à
janela e olhou para fora. Lafitte saiu do prédio e chamou um táxi. Não olhou
para trás; entrou no carro que partiu imediatamente.
Tako
esperou. Poucos minutos depois um carro cinza afastou-se do meio-fio do lado
oposto da rua e disparou na mesma direção seguida pelo táxi de Lafitte.
Tako voltou
ao seu apartamento. Estava pensativo. O carro cinza não provava que ele fora
seguido por alguém que lhe controlava os passos. Mas não se podia saber...
Tako pediu à
telefonista que o ligasse com a Ferroplastics Limited. Uma voz feminina
respondeu.
— Meu nome é
Yamakura — disse Tako. — Há poucos minutos tive a honra de falar com o senhor
Lafitte a respeito de uma grande encomenda. Ele disse que convocaria
imediatamente uma reunião do Conselho Fiscal. É possível que daqui a pouco
tenha que telefonar novamente, para dar outras informações a ele. Será que
poderei ligar para aí? As reuniões do Conselho Fiscal costumam ser realizadas
nesse edifício?
— Por este
telefone o senhor poderá alcançar o senhor Lafitte a qualquer momento, senhor
Yamakura — respondeu a voz feminina. — A sala de sessões fica neste edifício,
perto da sala em que me encontro.
— Muito
obrigado — disse Tako — A senhora me prestou uma grande ajuda.
Logo a
seguir, Tako tirou o terno recém-adquirido e pôs a vestimenta transportadora
que Crest lhe dera, Colocou uma arma no bolso e também levou o hipnotizador.
O rosto do
porteiro assumiu uma expressão pateta, quando viu o hóspede passar diante dele
em tais trajes. Mas Tako confiara em que nos hóspedes exóticos seriam toleradas
certas excentricidades.
Tako tomou
um táxi e pediu ao motorista que o levasse à sede da Ferroplastics Limited.
Durante a viagem ficou refletindo, para ver se descobria algum ponto vulnerável
em seus planos. Tudo parecia de uma simplicidade tão extrema, que Tako
desconfiou da coordenação primária de suas idéias. Mas teve de reconhecer que
os recursos extraordinários de que dispunha justificavam até certo ponto a
simplicidade do plano. Isso o tranqüilizou.
* * *
Quase no
mesmo instante Lafitte entrava apressadamente no hall da Ferroplastics Limited.
Já avisara os membros mais importantes do Conselho Fiscal e tinha certeza de
que dentro de uma hora o órgão emitiria uma deliberação que correspondesse às
suas intenções.
Ao passar
pela mesa telefônica, a senhorita Defoe chamou-o.
— O que
houve? — perguntou em tom impaciente. — Não tenho tempo.
A jovem
esboçou um sorriso suave.
— O senhor
Yamakura acaba de telefonar. Perguntou se por este telefone pode falar com a
sala de sessões do Conselho Fiscal.
— O senhor
Yamakura? — Lafitte franziu a testa. — O que é que ele quer?
— Por
enquanto nada. Diz que talvez tenha de falar com um dos conselheiros durante a
sessão.
— Está bem.
Ligue-me imediatamente com ele, se... O que houve desta vez?
Um homem
alto e jovem atravessou o hall e parou perto de Lafitte. Notava-se que queria
dizer alguma coisa.
— Eu o
segui, patrão, conforme combinamos. Está tudo em ordem?
— Sim,
Morgan, tudo está em ordem.
Morgan
hesitou. Ia afastar-se, mas continuou parado.
— Tem
certeza de que tudo está em ordem?
Lafitte
bateu o pé.
— Tenho,
sim. Que inferno! Tenho certeza absoluta!
Morgan não
se abalou.
— Muito bem
— murmurou.
Afastou-se e
saiu. Tirou o carro de junto da escadaria e estacionou-o no lugar reservado. Voltou
para junto da telefonista. Lafitte já se afastara.
— Que
história é essa, Morgan? — perguntou ela, nervosa. — Por que está com medo?
Morgan pegou
uma cadeira e sentou junto à mesa telefônica. Deu de ombros.
— Não sei...
Parece que fizeram um grande negócio. Lafitte correu que nem um louco para
reunir o Conselho Fiscal ainda hoje. Acontece...
A
telefonista sacudiu a cabeça.
— Não vejo
nada de errado nisso.
— Já viu
alguma vez como Lafitte costuma fazer seus negócios?
— Nunca.
— O tempo
que Lafitte leva para tomar uma decisão costuma ser proporcional ao valor da
encomenda. Nunca levou menos de cinco horas para discutir um negócio. E desta
vez levou cinco minutos, ou talvez quinze, se contarmos tudo. E agora convoca o
Conselho Fiscal. Deve tratar-se de um negócio muito importante. Se não fosse
assim, Lafitte decidiria sozinho. Concluiu um negócio enorme em quinze minutos.
É isso que me deixa preocupado.
A
telefonista sorriu.
— Ora essa!
Só por isso faz tanto drama?
Morgan fez
que sim.
— Você me
deixaria escutar quando esse Yamakura...
— Não —
respondeu ela em tom ríspido. — Nunca permito que alguém escute os telefonemas
dos outros.
Mas Morgan
conseguiu convencê-la.
Por algum
tempo conversaram sobre assuntos banais. Subitamente a porta do hall abriu-se.
Ao ouvir o ruído, Morgan virou-se. Viu o batente largo girar para fora, voltar
para dentro e oscilar até atingir sua posição de repouso. Esfregou os olhos.
Nem por isso o quadro se alterou. No hall desenvolvia-se a agitação de um dia
movimentado. Não havia ninguém perto da porta.
A jovem teve
a atenção despertada.
— O que
houve?
— A porta
abriu-se, mas não entrou ninguém.
O telefone
chamou. Ela fez uma ligação e voltou a colocar o fone no gancho. Depois disse:
— Você devia
tirar férias, Morgan. Já está se tornando ridículo com essa mania de ver
fantasmas.
Morgan
protestou.
Nesse
instante aconteceu uma coisa estranha. Um velho mensageiro estava atravessando
o hall com uma pasta. Subitamente parou, como se tivesse esbarrado em alguma
coisa, deixou cair a pasta, atirou os braços para o alto e soltou um grito de
pavor. Num segundo, Morgan colocou-se ao seu lado.
— O que
houve?
O velho estava
com o rosto mortalmente pálido. Tremia e falou gaguejando.
— Eu...
ele... por aqui havia alguma coisa e esbarrei. Foi aqui mesmo!
Morgan foi
ao lugar apontado pelo velho.
— Tolice! —
resmungou. — Aqui não há nada.
O homem
sacudiu a cabeça.
— O que foi?
— perguntou Morgan.
— Não sei
dizer. Talvez tenha sido um homem. Se foi, não usava roupa igual a nós. Estava
muito duro.
Morgan
passou a mão pelo cabelo.
— Não viu
nada?
— Aí que
está! Não vi nada.
— Muito bem.
— Morgan abaixou-se, levantou a pasta e colocou-a sob o braço do velho. —
Esqueça-se disso e não conte a ninguém. De qualquer maneira, não acreditariam.
— Sim
senhor. Muito obrigado — disse o velho, ainda perturbado.
Morgan
voltou para junto da telefonista.
— O que
houve? — indagou esta.
— O homem
esbarrou em algo invisível.
Ela teve um
acesso de riso.
— Fico me
perguntando o que há de verdade em tudo isso — disse Morgan com a voz séria.
A moça
olhou-o, incrédula, e interrompeu-se em meio à risada.
— Você não
vai me dizer...
Morgan não
respondeu. Apoiou a cabeça nas mãos e ficou refletindo.
Depois de
algum tempo a porta do hall voltou a se abrir, desta vez para deixar passar
dois membros do Conselho Fiscal, que haviam sido convocados por Lafitte.
Passaram
junto à mesa telefônica e cumprimentaram a senhorita Defoe com um aceno de
cabeça, sem interromper a palestra em que estavam entretidos. Morgan seguiu-os
com os olhos. Para chegar à sala de sessões era necessário atravessar um
corredor largo e curto, separado do hall por uma porta de vidro. Morgan viu
perfeitamente que, quando os dois homens passaram pela mesma, o batente
esquerdo logo voltou à posição normal, enquanto o direito continuou aberto até
que os conselheiros já haviam andado uns três ou quatro passos pelo corredor.
Para Morgan
já não havia a menor dúvida: uma pessoa que sabia tornar-se invisível seguira
os dois membros do Conselho Fiscal. Estava a ponto de alarmar a guarda do
estabelecimento. Mas lembrou-se de que não poderia apresentar qualquer motivo
plausível. Zombariam dele e os guardas continuariam nos seus postos.
Se alguma
coisa pudesse ser feita, ele mesmo teria de cuidar disso.
* * *
Notava-se
que Lafitte se orgulhava da encomenda que conseguira negociar. Com uma enorme
autoconfiança apresentou a oferta aos membros do Conselho Fiscal, sem
perturbar-se com os rostos daqueles homens, que de minuto a minuto, assumiam
uma expressão cada vez mais perplexa e contrariada.
Finalmente
Whitmore levantou-se de um salto, dando um empurrão na cadeira que a fez
deslizar no soalho.
— Senhor
Lafitte — começou com a voz áspera. — Como membro do Conselho Fiscal quero dar
expressão ao espanto causado pela sua oferta. — À medida que falava,
enfurecia-se cada vez mais: — Acha que está fazendo uma boa piada ao
arrancar-nos das nossas ocupações, arrastar-nos até aqui e submeter-nos essa
oferta absurda? Levante-se, Lafitte, e explique-se. Se não o fizer, esta
assembléia lhe dará uma lição de que nunca se esquecerá.
Assim era
Whitmore. Ia sentar-se para dar uma oportunidade de defesa a Lafitte, que
parecia bastante perturbado. Mas, enquanto puxava a cadeira, uma idéia pareceu
surgir em sua mente.
— Espere —
disse, fazendo um gesto nervoso em direção a Lafitte. — O que nos oferecem
mesmo em pagamento?
— Um gerador
antigravitacional — voltou a explicar Lafitte. — Trata-se de um aparelho capaz
de neutralizar campos gravitacionais até a potência equivalente a dez vezes a
gravidade terrestre. É um equipamento de transporte ideal, que ainda não existe
em qualquer parte do mundo.
Whitmore
confirmou com um movimento de cabeça.
— Já que é
assim — disse, passando os olhos pelos homens sentados em torno da mesa de
conferências — considero a oferta perfeitamente viável.
Os outros
homens assentiram. Ninguém parecia lembrar-se de que há trinta segundos ainda
consideravam a oferta de Lafitte uma piada de mau gosto. Ninguém teve a idéia
de perguntar quem seria capaz, neste planeta, de fornecer um aparelho com que
até então a ciência mal ousara sonhar. Subitamente, bastou-lhes que tal
aparelho fosse oferecido. Não duvidavam da idoneidade do autor da encomenda.
Lafitte leu
as condições de fornecimento e as instruções de embarque. Chegou-se à conclusão
de que umas e outras poderiam ser cumpridas sem maiores dificuldades.
Segundo a
promessa de Lafitte, a sessão terminou dentro de uma hora. A encomenda tinha
sido aceita e as instruções correspondentes foram emitidas imediatamente. Os
membros do Conselho Fiscal despediram-se na convicção de terem concluído o maior
negócio da história da Ferroplastics Limited.
O homem que
os ajudara a tomar essa decisão esperou até que todos tivessem saído da sala.
Como não tivesse mais necessidade de concentrar todos os seus esforços —
situação em que se encontrara quando começou a influenciar os membros do
Conselho Fiscal — achou preferível não voltar pelo hall, para evitar o risco de
novo incidente como aquele que há pouco tanto o assustara. Concentrou sua mente
num local abandonado nas proximidades da sede da Ferroplastics Limited e para
lá se transportou num telessalto.
Conforme
imaginara, aterrissou perto da rua, num terreno baldio coberto de mato. Não
havia ninguém que o visse surgir.
Atravessou a
rua e esperou até que aparecesse um táxi vazio. Fez sinal. Poucos minutos
depois desceu em frente ao hotel. Entretido nos seus pensamentos, passou pelo porteiro,
entrou no elevador e subiu.
Estava
satisfeito com o trabalho daquele dia.
A única
coisa que o preocupava era o esbarrão no mensageiro.
Não pudera
evitá-lo, porque um segundo antes tivera que desviar-se de outra pessoa. Notara
perfeitamente que o jovem esbelto que correra em auxílio do mensageiro
acreditara na história muito mais do que Tako teria gostado. Ao que parecia,
alguém pretendia colocar-se no seu encalço. Se tivesse bastante senso objetivo
para acreditar na história do homem invisível que esbarrara no mensageiro,
poderia transformar-se num adversário temível.
Tako gravara
bem seu rosto. Decidiu submetê-lo à sua vontade assim que tivesse oportunidade
para isso.
IV
Abriu a
porta do apartamento e entrou. Quando já se encontrava perto da mesa, ouviu uma
voz às suas costas:
— Não se
assuste, cavalheiro! Não lhe farei nada.
Tako
virou-se instantaneamente. Cerrou os olhos e, num movimento instantâneo,
segurou a pistola.
Viu um homem
de idade sentado numa poltrona perto da porta. Mantinha os braços erguidos,
como que assustado com a pistola.
— Santo
Deus! — gemeu. — Vire isso pra lá! Não trago nenhuma arma.
Tako baixou
a pistola.
— Quem é o
senhor?
— Será que
isso vem ao caso? Sou uma figura sem a menor importância nesse jogo.
Mandaram-me até aqui para dar-lhe um recado. Chame-me de Webster, se isso o
agrada.
Tako fitou o
velho. Pela idade usava roupas muito vistosas, o que lhe conferia um aspecto
pouco sério.
— Qual é o
recado?
— Preste
atenção! Sabemos que está atrás de certas coisas que só poderá conseguir com
muita dificuldade e enfrentando graves perigos. Oferecemo-nos como
intermediários. Podemos comprometer-nos a conseguir qualquer coisa de que
precise.
Com um
sorriso de satisfação reclinou-se na poltrona.
— É claro
que pedimos um preço adequado — acrescentou.
Tako fitou-o
pensativo. Antes que pudesse formular qualquer pergunta, Webster voltou a
retesar-se na poltrona:
— Antes que
me esqueça: sabemos que o senhor dispõe de uma série enorme de truques.
Provavelmente poderia influenciar-me para que lhe conte tudo que sei. Peço-lhe
que não o faça. Primeiro, não conheço a pessoa que me confiou esta incumbência;
depois, ela interpretaria seu truque como um voto de desconfiança, o que a
levaria a suspender imediatamente as negociações. Se estiver disposto a pagar
bem, seremos os sócios mais leais que poderia desejar.
— Quem
seriam esses sócios? — perguntou Tako laconicamente.
Webster deu
de ombros. Tako enrugou a testa, tomando lugar numa poltrona em frente a
Webster.
— Como
conseguiu entrar aqui? — perguntou.
— Ora! —
disse Webster com um sorriso. — Para um homem do meu tipo existem inúmeras
possibilidades.
— Estou
disposto a ouvir sua oferta — disse Tako. — Onde poderei tomar conhecimento
dela?
— Tenho o
endereço. Espere! — interrompeu-se, quando Tako ia pegar o cartão. — Antes de
mais nada: não experimente seus truques conosco. Antes de negociar com o
senhor, submetê-lo-emos a todas as provas. Sabemos que nos expomos bastante ao
submeter-lhe uma oferta. Por isso queremos que nosso risco seja o menor possível.
Entendido? — entregou o cartão a Tako. — Manteremos nossa oferta pelo prazo de
dez dias. Se quiser aparecer, telefone para este número e diga: Holoway chegará
às quatorze horas, ou às oito horas, conforme lhe convenha. Entendido?
Tako fez que
sim.
— Não terão de esperar muito por mim — disse com
um sorriso.

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