autor
KURT MAHR
Tradução
MARIA MADALENA WURTH TEIXEIRA
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
O Sistema Vega,
a vinte e sete anos-luz da Terra, tornou-se cenário duma tremenda guerra
interestelar.
Tentando apurar
as causas das deformações do hiperespaço naquela zona, acusadas pelos sensores
de deformação da estrutura espacial da base em Plutão — deformações que só
poderiam ser provocadas pela transição de numerosas espaçonaves — Perry Rhodan
vê-se envolvido na luta.
A Good Hope,
ex-nave auxiliar do cruzador arcônida destruído, mostra-se muito superior às
naves inimigas, tripuladas pelos tópsidas, os homens-répteis. Porém, de
repente, surge a imensa nave de guerra arcônida, capturada por tópsidas, e a
pequena Good Hope é seriamente avariada.
A fim de sair
daquela situação desesperada e regressar à Terra, Rhodan só tem um recurso: pôr
os Mutantes em Ação...
= = = = = = = = = = Personagens Principais: =
= = = = = = = = =
Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell — Ministro da segurança da Terceira Potência.
Tako Kakuta — teleportação.
Betty Toufry — telepatia e telecinésia.
Ralf Marten — parapsicologia e exopersonificação.
Wuriu Sengu — visão raio-X
Hecliar — Ferrônio, chefe técnico do forte de Rofus.
Quequéler — Chefe dos sichas.
Crek-Orn — Almirante-chefe dos tópsidas.
Tequer-On — Capitão tópsida.
Thort — Chefe supremo dos ferrônios.
Hopmar — Ferrônio, comandante do forte de Rofus.
1
— Altura?
— Constante.
— Velocidade?
— Constante, mas miserável! — murmurou
Bell, mal-humorado.
— Distância do objetivo?
— Quatro mil e cem.
— Curso?
— Em ordem.
— Muito bem! — suspirou Perry Rhodan,
enxugando o suor da testa. A Good Hope parecia ter trazido consigo boa parte do
calor que calcinava a areia do Grande Deserto do Sul, dois mil metros abaixo
deles.
Fato nada estranhável, visto que o sistema
de condicionamento de ar não estava em funcionamento; toda a potência dos
geradores ainda intactos fora concentrada no sistema de propulsão. A pequena nave
não passava dum veículo desarvorado, depois de ser atingida de raspão pelo tiro
energético da nave de guerra arcônida capturada pelos tópsidas.
Durante uma hora de intensa cogitação,
Rhodan se debateu entre a alternativa de voar para o forte do deserto, posto à
sua disposição pelo Thort, pilotando a nave avariada; ou se levaria apenas o
armamento desmontado da Good Hope.
Acabara escolhendo a primeira opção, a
despeito da oposição de Crest e Thora. Ambos demonstravam evidente receio de
voar naquelas condições; porém acabaram se submetendo à vontade de Rhodan. Ou
para não passarem por medrosos diante dos demais tripulantes, segundo a opinião
de Reginald Bell.
A automação da Good Hope falhara por
completo. No momento, os recursos de pilotagem não eram superiores aos
possuídos pelos irmãos Wright em sua primeira máquina voadora. Os reparos
feitos, sem os recursos necessários, não mereciam grande confiança; portanto,
ninguém a bordo se sentia muito seguro.
Hecliar, no entanto, não parecia nem um
pouco preocupado. Seus olhos escuros, afundados nas órbitas, mantinham-se fixos
na única tela ainda intacta, perscrutando a areia vermelha do deserto.
Hecliar era o chefe técnico do forte do
deserto, convocado de seu posto secreto pelo Thort, com o único fim de mostrar
o caminho à Good Hope. Sua estatura era baixa em comparação com a dos seres
terrestres, como a de todos os ferrônios. A pele azul apresentava uma
tonalidade puxada para o turquesa, coloração que Hecliar atribuía ao sol do
deserto. Em contraste com os vastos cabelos cor de cobre, isso dava um colorido
alegre à aparência do ferrônio, a despeito do traje cinzento.
O terceiro ocupante de cabina de comando
era Reginald Bell, o ministro da segurança da Terceira Potência. Porém o atarefado
co-piloto nem de longe lembrava a aparência dum ministro, e muito menos se
sentia um. Toda sua atenção se concentrava em cuidar de sua metade dos
controles, e acompanhar continuamente as indicações dos instrumentos. Vez por
outra, lançava um rápido olhar para a tela. Na décima vez, constatando que a
paisagem não sofria a menor alteração, suspirou:
— Puxa! Deus devia estar zangado quando
criou este mundo!
Rofus, o nono planeta de Vega,
assemelhava-se bastante à Terra. Era uma colônia dos ferrônios, que habitavam
primordialmente o oitavo planeta do sistema Vega. Mas, ao contrário dos
contornos harmoniosos da superfície terrestre, Rofus parecia ser obra
abandonada em meio pelo Criador. O planeta apresentava dois imensos
continentes, e dois oceanos enormes. As montanhas eram mais altas do que as da
Terra, as cordilheiras mais maciças e extensas. E não existia no globo
terrestre paralelo para aquele Grande Deserto do Sul, com sua areia vermelha.
Media, no diâmetro maior, quase seis mil quilômetros, e em toda a área não se
via uma planta, um animal, uma gota d’água.
O forte do deserto, cedido pelo Thort para
abrigo da Good Hope, ficava no ponto mais recôndito e inacessível do deserto.
Segundo os mapas que lhe haviam mostrado, Rhodan calculava que ele se ocultava
debaixo da Cordilheira das Cobras.
Hecliar não contribuía com a menor
informação. Treinado segundo o sistema ferrônio de guardar segredo absoluto
quando recebia ordem para tal, mantinha-se obstinadamente fiel aos preceitos
incutidos, mesmo quando não havia mais sentido nenhum para isso.
Com sua velocidade reduzida para menos de
1 mach, a Good Hope gastou sete horas no percurso. Quando finalmente Hecliar
indicou o ponto para o qual a nave devia ser dirigida, Reginald Bell comentou,
com um profundo suspiro:
— Ufa! Se tivesse que repetir essa viagem,
eu preferia fazer todo o trajeto a pé, mas nesse trambolho é que eu não ia
embarcar mais!
A Cordilheira das Cobras estendia-se em
direção noroeste-sudeste. Era tão árida e nua quanto o deserto, porém oferecia
aspecto imponente com seus picos de nove a dez mil metros de altura.
Rhodan examinava com ar desconfiado o
ponto indicado por Hecliar. Tratava-se de uma depressão nas ondulantes colinas
ao pé da cordilheira. Dificilmente o observador não informado diferenciaria
aquele ponto do resto da paisagem. Em resposta ao seu olhar de indagação,
Hecliar estendeu ambas as mãos para a frente, no gesto ferrônio de afirmação.
— Firme em frente! — ordenou Rhodan.
Bell resmungou algo ininteligível. A
Cordilheira das Cobras desapareceu do campo de visão na tela; agora ela estava
tomada por um fundo desfiladeiro, o objetivo que Hecliar indicara.
— Quinhentos metros! — anunciou Bell.
Rhodan sondou, com o olhar, o desfiladeiro.
Nem a intensa claridade de Vega conseguia penetrar até seu fundo; a sombra em
seu interior era tão densa que não se distinguia nada claramente.
— Trezentos! — continuou Bell.
A mão de Rhodan empunhou distraidamente o
mecanismo de regulagem ótica, que ampliava qualquer setor desejado na imagem
vista na tela. Apertou o comutador, e escutou um claque seco. Recordou-se então de que toda a energia disponível
fora requisitada para manter a nave em vôo, não sobrando nenhuma para as
comodidades dispensáveis.
Quando a Good Hope iniciou a descida por
entre as paredes do desfiladeiro, Rhodan viu que não existia propriamente um
fundo. A partir de determinado ponto, os paredões irregulares se projetavam em
superfícies planas, deixando uma larga abertura no meio, pela qual penetrava a
luz visível no nível inferior.
Rhodan não ocultou sua admiração pela gigantesca
obra, capaz de acomodar simultaneamente três naves do tamanho da Good Hope.
Aproximadamente quadrado, com duzentos metros de lado, o desfiladeiro alcançava
uma profundidade de cerca de meio quilômetro terra a dentro.
Hecliar percebeu o espanto de Rhodan, e
seus olhos brilharam.
— Grande, não é? — indagou, com sua voz
gutural.
— Grandioso seria o termo mais exato —
respondeu Rhodan, sacudindo a cabeça.
O brilho nos olhos de Hecliar
intensificou-se. Como todos os ferrônios, era extremamente sensível a elogios.
E a observação de Rhodan equivalia a um elogio pessoal, pois fora o próprio
Hecliar quem projetara e construíra aquelas instalações.
A Good Hope pousou num vasto recinto
coberto, quinze metros abaixo da abertura central.
— Operação aterrissagem concluída! —
anunciou Bell.
Hecliar pareceu compreender o sentido
daquelas palavras. Erguendo-se, disse, em idioma ferrônio:
— Venha, Hopmar deve estar à nossa espera.
Rhodan nem imaginava quem era Hopmar, mas
de modo algum queria fazê-lo esperar. O Thort dera poucas explicações ao
determinar o novo local para abrigar a Good Hope. A Rhodan só restou o recurso
de aguardar os acontecimentos, a fim de se inteirar dos detalhes.
Desembarcou com Hecliar, deixando Bell
encarregado da nave. Crest recebeu o aviso de que o comandante ia se
entrevistar com alguém chamado Hopmar, provavelmente o responsável pelo forte.
Seguindo Hecliar, Rhodan admirava as
extraordinárias dimensões do recinto. As paredes se perdiam na distância, e a
luz uniformemente difusa contribuía para o efeito de camuflagem. O teto era
livre, proeza que ninguém na Terra se arriscaria a executar, sem uma só coluna
de sustentação. Havia lugar de sobra para acomodar toda uma frota bélica; porém
em vista das circunstâncias então reinantes em Rofus e em todo o sistema Vega,
o Thort já não dispunha de naves para serem guardadas e abrigadas.
O hangar estava vazio.
Hecliar parou diante de uma ranhura no
chão, calcando-a com a ponta do pé. Segundos após, ouviu-se um leve sussurro à
esquerda; rápido como uma seta, surgiu um veículo pequeno e baixo. Deteve-se
exatamente no ponto calcado por Hecliar. Duas portas laterais se abriram
automaticamente, a fim de permitir o embarque. O carro tinha dois bancos, um
atrás do outro, com capacidade para quatro passageiros cada. O mecanismo de
direção e controle era de manejo simples, fácil de compreender. A ranhura fazia
as vezes de trilho.
Rhodan percebeu que todo o piso do hangar
era entrecruzado por ranhuras semelhantes, correndo em todas as direções.
Hecliar explicou que os cruzamentos podiam ser usados como desvios.
Em poucos minutos o carro chegou à parede
do hangar. Sempre mantendo a rápida marcha, penetrou num largo corredor
iluminado, com numerosas portas em ambos os lados.
— Salas de trabalho e laboratórios —
explicou Hecliar.
Quase no fim do corredor, ele fez o carro
parar. A última porta à esquerda trazia uma inscrição bastante mais elaborada
do que as demais; porém a pressa de Hecliar era tanta que Rhodan não teve tempo
de decifrá-la. A porta deslizou para o lado, revelando uma sala ampla,
ricamente decorada no estilo ferrônio. Diante de um móvel semelhante a uma
escrivaninha, sentava-se um homem troncudo, usando um uniforme bem mais vistoso
que o de Hecliar.
— Comandante, apresento-lhe o arcônida
Rhodan! — disse Hecliar, com voz respeitosa.
Erguendo-se, o comandante estendeu ambas
as mãos para Rhodan, dizendo:
— Seja bem-vindo, Rhodan! Meu nome é
Hopmar. Sou... isto é, eu era o comandante deste forte.
Rhodan ouviu Hecliar sair, fechando
silenciosamente a porta.
— Era? — disse Rhodan, intrigado. Hopmar
acenou com a cabeça:
— Sim, era. Pois o Thort lhe conferiu
plenos poderes, Rhodan. Pessoa alguma neste forte lhe dará ordens.
Com aquilo Rhodan não contara. Sentiu
ímpetos de xingar o Thort; não é que o velho malandro tinha despachado
sumariamente para o forte do deserto o capitão duma nave avariada, sem lhe
revelar que ia terminar a viagem investido da autoridade absoluta dum rei!
Tentou ler a expressão do rosto de Hopmar, porém o ferrônio nada revelava. Ao
diabo com aquela raça! Não havia quem os entendesse... A boca miúda mostrava
uma leve distorção, que poderia passar por sorriso; os olhos sombreados pelas
órbitas profundas eram quase invisíveis. Rhodan perguntava-se quais seriam os
sentimentos do comandante diante do intruso que vinha repentinamente tomar-lhe
o posto.
— Saiba que não pedi isso! — explicou a
Hopmar. — Tudo que solicitei ao Thort foi uma base segura de onde pudesse
operar, e ele me ofereceu este forte. Jamais me passou pela cabeça a idéia de
assumir o comando.
Hopmar interrompeu-o com um gesto.
— Ora, não se preocupe. Sei o que pensa:
inveja e ciúme, não é? — suspirando, continuou: — Sou um homem bastante idoso,
a despeito da aparência em contrário. É com satisfação que vejo aparecer alguém
a quem possa transferir meu encargo.
Rhodan sorriu.
— Mais satisfeito me sinto eu por vê-lo
pensar desta maneira. No entanto, prefiro contar com a sua colaboração, em vez
de simplesmente impor minhas opiniões. Hopmar concordou.
— Sentemo-nos! Quais são seus planos?
Acomodados em duas confortáveis poltronas,
os dois homens puseram-se a discutir a situação.
— Como funciona sua estação transmissora?
Hopmar franziu a testa.
— Ora, como deveria funcionar? De vez em
quando envio algumas pessoas lá para fora, e de vez em quando chegam algumas
aqui. Que mais poderia haver?
— Algum contato com Ferrol? Hopmar
inclinou-se, perturbado, para a frente.
— Ferrol? Mas Ferrol está ocupado pelo
inimigo.
— Ninguém sabe disso melhor do que eu —
concordou Rhodan. — Porém os transmissores representam nossa única
possibilidade de chegar a Ferrol disfarçadamente.
— Primeiro seria preciso encontrar em
Ferrol algum transmissor ainda não descoberto e tomado pelo inimigo! — replicou
Hopmar, sorrindo.
— E por que não? No Palácio Vermelho de
Thorta existe um pequeno aparelho secreto. Só por milagre os tópsidas dariam
com ele.
Hopmar estendeu as mãos, com as palmas
viradas para cima.
“Como
seus gestos são parecidos com os nossos”, pensou Rhodan.
— Quer arriscar? — perguntou Hopmar.
— Caso não nos ocorra coisa melhor, temos
que arriscar, sim! Quais eram seus planos? Esperar de braços cruzados que os
tópsidas viessem conquistar mais este mundo?
— Já vi que você é bem mais empreendedor
do que eu, Rhodan! — disse Hopmar, com um trejeito da boca que era nitidamente
um largo sorriso. — O forte só
pode se beneficiar com a presença de um comandante tão impaciente.
Rhodan analisou intensamente o sentido
daquelas palavras, porém não percebeu nelas o menor traço de ironia ou
amargura.
— Quantos transmissores há aqui? —
perguntou.
— Vinte e cinco. Cada qual com a
capacidade de cinco pessoas, pelo menos.
— E nunca chegou nada de Ferrol? Nem
gente, nem matéria?
— Não, nunca. De onde deduzi que em Ferrol
já não há ninguém na posse de um transmissor, excetuando o inimigo.
O argumento pareceu pouco convincente a
Rhodan. Os transmissores eram bastante complicados. Não lhe custaria listar
pelo menos dez razões pelas quais um ferrônio, mesmo de posse de um
transmissor, estaria impossibilitado de se comunicar com Rofus. Porém preferiu
adiar a discussão deste ponto. Na devida ocasião, agiria de acordo com suas
próprias convicções.
Passaram a tratar de assuntos mais
imediatos. O forte possuía acomodações suficientes para toda a tripulação da
Good Hope. Aos visitantes era assegurada completa liberdade de movimentos.
— Trago comigo algumas pessoas fora do
comum, comandante — disse Rhodan, sorrindo, ao despedir-se de Hopmar. —
Portanto, não se assuste caso veja acontecer fatos que sempre lhe pareceram
impossíveis.
Hopmar retribuiu o sorriso.
— Já ouvi falar delas. Aguardo com
curiosidade a primeira surpresa.
* * *
Os transmissores encontravam-se todos
reunidos num recinto de dimensões mais reduzidas. Era a primeira vez que Rhodan
via uma estação completa. Porém Hopmar fez questão de informar que em Thorta
existia uma muito maior.
Diante dos aparelhos, Rhodan perguntou-se
mais uma vez como é que uma raça, com capacidade mental insuficiente para
dominar e aplicar os princípios matemáticos do espaço pentadimensional, pudera
entrar na posse daqueles transmissores, cujo funcionamento se processava
justamente no hiperespaço. A contradição era flagrante, mas pelo visto, apenas
para Rhodan e sua gente. Os ferrônios pareciam plenamente convencidos de que
sua tecnologia podia fabricar os transmissores, e de que compreendiam a fundo
os princípios em que se baseava seu funcionamento.
— Bem, e o que pretende fazer com eles? —
perguntou Crest.
— Ora, muito simples — respondeu Rhodan. —
Meter-me neles, saltar em Ferrol, surrupiar a nave dos tópsidas, e dar-lhes uma
surra como nunca levaram igual em toda a vida!
Thora deixou escapar uma exclamação
abafada:
— Sabe tão bem quanto nós que isso é
impossível!
Reginald Bell, até então, tinha passado o
tempo examinando os transmissores por todos os lados. Virou-se bruscamente,
encarando Thora com ar furioso.
— Para você, tudo é impossível, não é? —
gritou, alterado. — Alguma vez na vida julgou algo realizável, a não ser a
velha rotina provada e comprovada?
Thora nem se dignou a olhar para ele.
— Aguardo notícias de Ferrol — continuou
Rhodan. — Acho que alguém ainda deve ter acesso a um transmissor; com o tempo,
acabará acertando com os dados correspondentes de um transmissor de Rofus.
Serei prontamente informado caso chegue alguma nova de Ferrol. Se tardar demais,
vôo para lá por minha própria conta e risco; afinal não podemos esperar a vida
toda! Se pelo menos o transmissor do Palácio Vermelho estivesse em sintonia com
a distância em que nos encontramos... O risco não me parece tão grande assim.
Thora fitou Rhodan, pensativa.
— O que será que você considera um grande
risco? — perguntou, em voz baixa. Mas tratava-se duma pergunta retórica. Ela
não esperava resposta.
Tako Kakuta, o quinto do pequeno grupo,
olhava atento para o maior dos transmissores. Rhodan adivinhou de imediato o
que o mutante sentia: diante daquelas máquinas, sua própria capacidade era tão
insignificante quanto a de um tijolo perante a pirâmide de Gisé. Após um
rigoroso treinamento de três anos, Tako conseguia teleportar-se a distâncias de
até cinqüenta mil quilômetros; porém aquelas máquinas ultrapassavam três,
quatro ou cinco unidades astronômicas com a maior facilidade.
Tako encarou Rhodan com seu sorriso
infantil.
— Não se preocupe, rapaz! — consolou Rhodan.
— No fim, você acaba se revelando melhor do que os transmissores.
* * *
Hopmar mostrava uma excitação incomum.
Devia ter vindo de seu gabinete às carreiras, pois estava fora de fôlego. A
primeira palavra saiu a custo:
— Os transmissores... Rhodan levantou-se
num pulo. — ...emissão de Ferrol! — completou Hopmar.
Rhodan passou por ele correndo. O tempo
era precioso demais para esperar o próximo carro. Em saltos ágeis, percorreu o
corredor, dobrou à esquerda, novamente à esquerda, alcançando a estação dos
transmissores com cinqüenta metros de dianteira sobre Reginald Bell, que corria
ofegante atrás dele.
Rhodan viu imediatamente a mensagem. Era
uma pequena cápsula metálica, com um aro brilhante em cada extremidade. Fios
delgados de arame ligavam os aros aos contatos de emissão. A cápsula tremia
ainda, como se acabasse de chegar.
Colado ao aramado da cabina, Rhodan
decifrou a inscrição:
— Quequéler,
Sic-Horum.
Bell postou-se ao seu lado, respirando
apressado.
— Desliga! — pediu Rhodan.
Bell abaixou uma alavanca, cortando o
fornecimento de energia para o transmissor.
Abrindo a porta da cabina, Rhodan retirou
a cápsula. Bell não tirava os olhos dela, cheio de curiosidade.
— Que quer dizer isso: Quequéler, Sic-Horum?
— Sic-Horum é a capital dos sichas, uma
tribo das montanhas em Ferrol. Quequéler deve ser o nome do remetente.
Numa das extremidades da cápsula havia uma
espécie de tampa. Rhodan desaparafusou-a, tirando de dentro uma delgada lâmina
metálica, material que os ferrônios usavam para escrever, em lugar do papel. A
folha estava inteiramente recoberta de escrita. Em caracteres nítidos e regulares,
evidentemente traçados mecanicamente. Rhodan começou a ler:
Quequéler,
prefeito de Sic-Horum, a quem receber esta mensagem:
O inimigo
ocupou Ferrol. O ânimo do povo está quebrado; não oferece mais resistência. Mas
a tribo dos sichas se sente na obrigação de alertar o resto do mundo para o
fato de que a guerra ainda não está perdida. Enquanto restar um único sicha
vivo, o inimigo não poderá se considerar vencedor! Mas precisamos de quem nos
oriente, nos diga o que fazer...
— Bem, o texto contém palavras heróicas
aos montes — comentou Rhodan. — Mas o heroísmo parece ser uma característica
comum de montanheses. E quem mais, no seio de um povo dominado por inimigos, se
lembraria de procurar por maneiras de dificultar a vida do opressor?
Crest acenou com a cabeça, concordando.
— Mas de que modo poderíamos ajudá-los? —
perguntou, após curta reflexão.
— Eles precisam de informações, segundo
depreendo desta carta — disse Rhodan. — Os tópsidas impuseram uma espécie de
limitação à locomoção lá em Ferrol. Cada habitante está registrado em seu local
de residência, de onde não pode distanciar-se mais de cinqüenta quilômetros. Os
sichas estão dispostos a infiltrar-se através do bloqueio, mas querem saber em
que rumo devem seguir. Afinal, a guerrilha subterrânea deve ser desencadeada
nos pontos mais indicados.
— Muito bem! — disse Thora, ironicamente.
— Claro que você se encarregará de obter essas informações, não é?
— Exatamente.
Rhodan sentou-se. Crest, Bell e Tako fitaram-no
com ar de expectativa. Thora empertigou-se, dando a entender com sua atitude
desdenhosa que Rhodan planejava novas tolices.
— De que é que os sichas precisam? Dados
sobre movimentos de tropas, concentrações militares, espaçoportos e demais
detalhes técnicos sobre a frota tópsida. Não me parece difícil conseguir isso
para eles.
Inclinando-se para ele, Reginald Bell
murmurou:
— Klein e Deringhouse, não é? Os caças
espaciais?
— Certo — confirmou Rhodan, enquanto Crest
suspirava profundamente.
— Não... não pode fazer isso! — protestou
Thora, com veemência.
— Por que não?
— Pense no perigo!
A boca de Rhodan se contorceu num sorriso
sarcástico.
— Acha por acaso que podemos decidir esta
briga sem correr perigos?
Thora calou-se.
— Nossos caças possuem capacidade de
aceleração muito superior à das naves tópsidas — continuou Rhodan. —
Pessoalmente, os pilotos correm um risco relativamente pequeno, principalmente
se levarmos em conta o proveito que sua atuação trará para os nossos planos.
Bell, vá chamar Klein e Deringhouse!
* * *
— Prontos para largar?
— Número 1, pronto!
— Número 2, pronto!
Rhodan fez sinal para Bell. Este apertou
algumas teclas no vasto painel, e Rhodan falou no microfone:
— Vão de decolagem se abrindo!
A pesada cobertura ergueu-se com surpreendente
rapidez. Imitando com perfeição o terreno do desfiladeiro debaixo do qual se
ocultava o forte secreto, passaria despercebida ao mais arguto observador. Um
leve zumbido e uma lâmpada de aviso indicaram que a tampa engatara nos
mecanismos de sustentação.
— Saída desimpedida! — disse Rhodan. —
Podem ir, rapazes! E cuidem-se!...
Com os propulsores uivando, os dois caças
se ergueram verticalmente no imenso hangar, disparando como setas pela chaminé
escavada a pique no desfiladeiro. Frações de segundo após, o ruído das máquinas
já era inaudível. Os caças tinham deixado o forte.
Bell operou os controles destinados a
fazer a cobertura retornar ao seu lugar.
Klein e Deringhouse rumaram diretamente
para Ferrol. A conjuntura era favorável — Ferrol e Rofus encontravam-se
justamente em oposição.
O plano era mais do que simples: colher
informações sobre detalhes significativos acerca do comando da frota tópsida;
fazer um levantamento fotográfico, e perturbar a movimentação das tropas
inimigas. Dispunham de armas adequadas para isso a. bordo, e pretendiam deixar
de lado aquelas com raio de ação inferior a cem metros.
Klein e Deringhouse haviam aderido
entusiasticamente, cortando com sua atitude qualquer tentativa de objeção
proveniente de Thora ou Crest.
Os caças precisaram de minutos apenas para
escapar da atração gravitacional de Rofus. Deringhouse vigiava atentamente as
telas de seus detectores.
— Nem sinal deles! — disse, rindo, no
microfone de seu intercomunicador.
Klein respondeu com um grunhido, que podia
ser tomado por confirmação.
Ambos imprimiram velocidade máxima aos
aparelhos. Com isso. a menos que surgisse algum imprevisto, cobririam o
percurso Rofus—Ferrol em pouco mais de uma hora. Assim que atingissem a
velocidade da luz, e o espaço em torno deles escurecesse, com apenas uma
extensa aura circular luminosa nos limites extremos, estariam livres de
qualquer perigo. Pois só a velocidades não-relativísticas existia a
possibilidade de confronto com outras espaçonaves. Quem quer que se locomovesse
a mais de 75% da velocidade da luz, estaria praticamente só, no cosmo — pelo
menos no estágio até então vigente das técnicas de detecção.
A hora decorreu sem novidades. Ferrol e
seu imenso sol emergiram das trevas quando os caças reduziram a velocidade. Ao
mesmo tempo os detectores acusaram um minúsculo pontinho luminoso: uma nave
tópsida, aproximava-se pela esquerda.
Deringhouse ligou o receptor, e ouviu
vozes rudes e rascantes. Sorrindo friamente, comunicou-se com Klein:
— Pegamos este?
— Lógico!
— Manter o rumo! Ela vai cruzar direto na
nossa frente!
Com gesto automático, Deringhouse
engatilhou o desintegrador. As vozes no receptor emudeceram; na tela do
detector via-se que a nave estranha sentia urgência em inspecionar de perto
aqueles dois objetos desconhecidos. Sua imagem se projetou, por fim, com maior
nitidez nas telas: um longo cilindro, com a característica excrescência das
naves tópsidas no meio.
— Cem mil! — anunciou Klein.
— Fogo a cinqüenta mil! — disse
Deringhouse, acenando com a cabeça.
No entanto, os tópsidas não tinham a menor
intenção de se aproximarem tanto assim daqueles veículos de ar ameaçador.
Quando o afastamento ainda era de setenta e cinco mil quilômetros, Deringhouse
viu um raio cintilante disparar em direção de seu caça. Sentiu o arcabouço do
pequeno avião vibrar de ponta a ponta, porém não havia possibilidade alguma de
alterar o rumo. O tiro passou perto, sem atingi-lo diretamente.
— Fogo! — disse baixinho no microfone do
intercomunicador.
Os flamejantes raios do desintegrador
atingiram a nave tópsida. Deringhouse viu seus contornos se esfumarem na tela.
Em vez do cintilante ponto luminoso via-se agora uma nuvem luminescente e
diáfana. Segundos após, os dois caças passaram em disparada por cima dela.
— Um a zero! — anunciou Deringhouse, laconicamente.
E Klein completou:
— Não há outros adversários à vista. Os
aparelhos penetraram em diagonal nas camadas atmosféricas superiores de Ferrol.
O velocímetro acusava a ação frenadora do ar.
— Velocidade operacional mach 6 — lembrou
Deringhouse.
Era o máximo permissível para voar à
altura de dez a doze quilômetros. Foguetes antiaéreos não eram mais rápidos do
que isso. Portanto, os caças não teriam dificuldade em esquivar-se deles a
tempo.
Ajustando seus propulsores, Deringhouse
seguiu em vôo horizontal para o objetivo visado. Klein seguiu o exemplo,
emparelhando com o companheiro, com afastamento de cem metros.
A região em torno deles era de céu limpo,
sem nuvens. Avistaram áreas verdes cobertas de florestas, algumas cadeias de
montanhas — que daquela altura pareciam pouco altas — e uma extensa cidade. O
rio, que serpenteava em evoluções tortuosas pela cidade toda, serviu de ponto
de referência a Deringhouse, que comparava a imagem vista nas telas com um
mapa.
— Quelar-hét, no Grande Istmo Oceânico —
explicou ele a Klein. — O litoral fica ao sul, a setecentos quilômetros.
Seguem-se uns mil e duzentos quilômetros de oceano; depois temos ao norte o
Continente Central, com Thorta junto ao mar.
Klein calculou prontamente:
— Quinze minutos de vôo.
O Grande Istmo Oceânico era escassamente
povoado, devido ao clima muito úmido. A massa continental apresentava poucas
cidades. A maior delas era Quelar-hét, que começava a sair gradualmente do
campo visual das telas. Dos adversários, nem sinal. Deringhouse começou a inquietar-se.
A desintegração da nave tópsida não devia ter passado despercebida, e o alarma
devia ter soado forçosamente nas bases inimigas em Ferrol. Por que os tópsidas
não se manifestavam?
No mesmo instante, Klein avisou:
— Foguetes antiaéreos, sessenta graus à
direita!
Deringhouse percebeu-os imediatamente: um
enxame de pontos luminosos na tela do detector aproximando-se com bastante
rapidez. Resmungando, fez seu caça subir numa curva arrojada, quase em ângulo
reto; acelerou violentamente, e o aparelho projetou-se para o alto, fora do
alcance dos foguetes. Estes eram obviamente teledirigidos, porém não tinham
potência suficiente para perseguir veículos como os caças arcônidas por mais de
alguns segundos.
Klein e Deringhouse subiram a cinqüenta
quilômetros antes de recolocarem os aviões em posição horizontal. Rumaram então
para a costa do Grande Istmo Oceânico.
Viram uma série de grandes aeronaves
voando rente à superfície do mar. Sem poder distinguir se eram ainda veículos
de carga ferrônios, ou transportes de tropas tópsidas, resolveram deixá-los em
paz.
Os filmadores funcionavam
ininterruptamente. Grande número das informações não registradas pelos pilotos,
por falta de tempo em seu célere progresso, ficava documentada nos filmes.
O oceano ficou para trás. Na tela surgiu a
costa do Continente Central e a imensa cidade de Thorta, residência oficial do
Thort antes de ser expulso pelos invasores tópsidas.
Só o Palácio Vermelho equivalia a uma
cidade de porte médio. E Thorta toda era pelo menos cinco vezes maior do que a
maior metrópole terrena. Ao sul destacava-se a descomunal base de lançamento e
pouso espacial, cobrindo uma área de cerca de dez mil metros quadrados. No
entanto, os tópsidas haviam preferido, evidentemente, abrigar a maior parte de
sua frota em local menos exposto. Na base espacial de Thorta via-se apenas uma
ou outra das naves cilíndricas... e o globo gigante da espaçonave de guerra
arcônida capturada.
A tela do detector encheu-se de repente de
traços luminosos. Observando por algum tempo a direção em que iam, Deringhouse
concluiu que nenhum deles revelava sinais de hostilidade. Afinal, era de
esperar a existência de tráfego aéreo sobre uma cidade do tamanho de Thorta.
— Acho que temos fotografias suficientes
da cidade — disse Klein. — E agora?
— Para o espaçoporto! Vamos acabar com
algumas daquelas salsichas inchadas no meio!
Klein topou imediatamente. Em vôo rasante,
os dois caças dirigiram-se para a zona sul da cidade. Os aparelhos de
Deringhouse centraram o alvo na mira, e quando o caça alcançou a altura
apropriada, ele acionou o desintegrador. Uma das naves cilíndricas se desfez
imediatamente numa turbilhonante nuvem de pó; instantes após acontecia o mesmo
com outra, cem metros adiante. Os tiros tinham acertado o alvo.
— Fogo antiaéreo! — gritou Klein.
Eles voavam perigosamente baixo. A muito
custo conseguiram se esquivar do enxame de foguetes disparados contra os caças,
do canto oeste do espaçoporto; e foi preciso
solicitar os propulsores até além do limite de segurança.
Porém o bombardeio com foguetes revelou-se
apenas uma diabólica estratégia do adversário. Ocupado em acompanhar nas telas
a trajetória dos foguetes que não haviam acertado o alvo, Deringhouse não deu
pelo pálido raio desintegrador lançado de um dos postos de combate da nave
gigante. No detector ele surgiu apenas como uma leve faixa luminosa; e
Deringhouse só percebeu que havia sido atingido quando sentiu o aparelho
rebelde aos comandos.
— A asa esquerda! — gritou Klein.
— Que tem ela?
— Foi cortada ao meio!
Os dois caças ganharam altura. Klein
esforçava-se por acompanhar o aparelho cambaleante do amigo conforme lhe era
possível. A manobra inesperada, no entanto, tinha acabado se transformando numa
inapreciável vantagem: nem mesmo o sistema de mira automática de um superdesintegrador
era capaz de se ajustar aos movimentos incertos de um caça espacial avariado.
Deringhouse conferiu as indicações dos
aparelhos de controle. A perda de metade de uma asa não tinha grande
significação; pois, apesar de ser construído segundo os preceitos da
aerodinâmica, o caça contava ainda com recursos de vôo que lhe permitiam se
tornar independente dela.
Deringhouse acelerou ao máximo, mas mesmo
assim o avião não lhe obedecia.
— Deve ter mais alguma coisa enguiçada! —
murmurou ele, contrariado. E de repente percebeu o que era.
Os propulsores estavam rateando!
Deringhouse testou-os por diversas vezes e executou uma série de controles,
antes de ficar convencido. Olhou para o velocímetro: o caça descia em queda
livre. Quando a força gravitacional de Ferrol superasse seu momento original, ele se espatifaria
no solo.
— Acelera! — gritou Klein, ofegante.
— Não posso! — respondeu Deringhouse,
recuperando de repente a calma. — Ouça, Klein: volte para Rofus... sozinho! Eu
fico aqui. Meus propulsores pifaram; de jeito nenhum eu conseguiria regressar.
Entendido?
Klein protestou violentamente:
— Podemos aterrisar em algum lugar, e você
passa para o meu avião!
— Deixa de falar besteira! — rosnou
Deringhouse. — Sabe tão bem quanto eu que isso é impossível. Diga a Rhodan que
vou procurar me safar de alguma maneira. Nas mãos dos tópsidas é que não
pretendo cair! Vou rumar para o sul, a fim de me aproximar o mais possível da
região dos sichas.
— Mas...
— Volte para a base! — berrou Deringhouse.
— Sem discutir! Isso é uma ordem, capitão Klein!
— Sim, senhor, major! — murmurou Klein,
com a voz embargada. — Boa... sorte!
— Obrigado!
Deringhouse viu o caça não-avariado
elevar-se verticalmente: segundos após, era apenas um pontinho na tela do
detector, depois desapareceu por completo. Suspirando. Deringhouse começou a se
preocupar com seu problema imediato.
A máquina adernada tinha subido até uma
altura de oitenta quilômetros, depois o ímpeto que trazia se esgotou. Antes que
se descontrolasse, Deringhouse colocou-a na horizontal, forçando-a em seguida a
mergulhar em pique. Queria com isso obter o impulso necessário para
estabilizá-la, com a asa e meia, na altura de quinze quilômetros.
Thorta ficara para trás, bem longe. A
região que sobrevoava agora era entrecruzada por um emaranhado de estradas que
iam em todas as direções. Deringhouse avistou inúmeras cidades menores, vastos
complexos industriais e, insinuado no horizonte, o contorno azulado das
montanhas onde viviam os sichas. Ficavam a mais de quatrocentos quilômetros, e ele
não conseguiria cobrir tal distância. Tudo que precisava no momento era uma
zona em que pudesse saltar sem o risco de cair nas mãos de uma patrulha
tópsida. As cidades começavam a rarear. Os trechos arborizados tornavam-se mais
extensos, e as estradas ficavam distantes umas das outras, com trânsito
escasso.
Cerrando os dentes, Deringhouse levou o
caça lenta e cuidadosamente para o oeste, onde se viam mais florestas do que
estradas. Passou sobre uma pequena cidade perdida entre a vegetação. Ligou
então o controle de tempo do desintegrador e bateu com o punho no botão de
ejeção do módulo da cabina de comando.
O arranco foi tremendo, pois não havia
mais neutralizador para amortecê-lo. Por segundos, Deringhouse viu tudo negro
diante de si. Depois olhou para a tela. O avião sem piloto descia revoluteando,
cada vez mais depressa. Antes que se chocasse com o solo, a energia do
desintegrador foi totalmente liberada. Só se via agora uma tênue nuvem do pó,
que se propagou de início com velocidade idêntica à do avião; mas pouco a pouco
foi se dissipando no ar, levada pelo vento.
Deringhouse forçou-se a não deter o pensamento na perda que
tinha acabado de sofrer. Rhodan não ficaria nada satisfeito ao receber a
notícia da destruição de um dos caças espaciais.
“Espero que Klein deixe bem claro que por
enquanto ninguém deve voar por perto da nave de guerra arcônida”, pensou
Deringhouse consigo mesmo.
Abaixo da cabina ejetada a região era
amena, semelhante a um parque — mas se aproximava alucinantemente depressa. O
pára-quedas abriu, submetendo Deringhouse ao segundo impacto doloroso.
A área não era ideal para seus propósitos,
mas pelo menos não havia estradas à vista. A cidadezinha sobre a qual passara
há pouco ficava a cerca de trinta quilômetros ao leste.
A cabina se precipitou estrondosamente por
entre as árvores, rompendo tudo pela frente. Firmando-se no assento,
Deringhouse suportou com um suspiro de alívio o derradeiro impacto — o choque
contra o chão. Afobado, tratou de correr a cobertura de plástico e sair da
cabina, mas tropeçou e caiu. Quando levantou, já empunhava a pistola de raios
neutrônicos, pronta para disparar. Porém não havia nas redondezas nada nem
ninguém que merecesse um tiro.
Instantaneamente Deringhouse compreendeu
que nos próximos dias seu maior problema não seriam os tópsidas, mas algo bem
diferente: a gravidade de Ferrol. Ela equivalia a 1,4 g , coisa que ele sabia o
tempo todo, sem deter o pensamento em analisar os efeitos concretos. Não que os
músculos de um homem robusto fossem incapazes de suportar sem maiores
dificuldades a gravidade de 1,4
g . A diferença era questão psicológica. Afinal era um
tanto deprimente ter que arrastar constantemente 98 quilos em vez dos 70
habituais...
Deringhouse pôs-se a caminho, resignado,
porém decidido a ignorar dali por diante a sensação de peso adicional imposto
pela gravidade mais intensa. Queria ir para o sul. O mato esparso não
constituiria obstáculo digno de nota. Mesmo assim, levaria um bom tempo para
alcançar as montanhas.
II
Se Rhodan lamentava a perda de um homem e
de um caça, não exterionzou, de imediato, o menor sinal disso.
Thora examinou-o atentamente, tentando
saber se ele sentia remorsos ou não. Porém o único comentário de Rhodan sobre o
assunto foi:
— Minha teoria acerca da validade da
utilização dos caças não sofreu alteração. Só precisamos, daqui por diante nos acautelar,
com a nave de guerra arcônida. Pelo visto, os dispositivos automáticos de mira têm
condições de atingir até objetos em deslocamento ultra-rápido.
Portanto, os ataques e vôos de reconhecimento
sobre Ferrol prosseguiram. Como a Good Hope só trouxera a bordo dois caças
espaciais, deixando os demais na Terra, a tarefa ficou exclusivamente por conta
de Klein.
Os filmes, revelados e analisados,
forneceram informações valiosas. Constatou-se que os tópsidas preparavam uma
nova base espacial na semideserta região leste do Grande Istmo Oceânico. Rhodan
percebeu que o grosso das naves tópsidas estava abrigado ali, em local bem
camuflado ou escondido. Outros filmes mostravam a localização das bases
secundárias e dos núcleos de comando regionais. Mostravam que os tópsidas se
haviam distribuído por todo o planeta, porém em grupos reduzidos. Os diversos
postos de comando tinham gente suficiente para sufocar qualquer rebelião
surgida entre a população ferrônia, mas em hipótese alguma poderiam resistir a
um ataque organizado vindo de fora.
A conclusão final destas observações era
inquietante. Os tópsidas concentravam todo seu poderio bélico na nova base do
Grande Istmo Oceânico, sem se preocupar com a defesa do território restante,
que se tornava, em conseqüência, vulnerável e suscetível a ataques. Eliminada a
hipótese de que a estratégia tópsida era primária e diletante, restava a
conclusão óbvia de que preparavam o ataque imediato a Rofus, o último bastião
do povo conquistado.
Rhodan conferenciou demoradamente com o
Thort por intermédio do telecom. O ex-regente se mostrava profundamente
preocupado com a evolução dos acontecimentos. Mas desarvorado, sem saber o que
fazer.
Rhodan percebeu que contavam com ele para
socorrê-los. Não pôde reprimir um sorriso, lembrando que ele próprio viera para
Rofus em busca de ajuda para sua nave avariada. Confortou o Thort da melhor
maneira possível, enquanto cogitava sobre as medidas mais apropriadas para
contornar o grave perigo que ameaçava o nono planeta do sistema Vega.
Mandou chamar Crest, Thora e Tako Kakuta
para consultá-los.
O grupo concluiu que só os vôos de
reconhecimento e provocação de Klein não bastavam para impedir o ataque dos
tópsidas. Impunha-se a necessidade de contra-atacar diretamente em Ferrol,
mandando para lá, por intermédio dos transmissores, um grupo de choque bem
armado.
As informações colhidas por Klein foram
transmitidas a Quequéler, em Sic-Horum. Ele enviou imediatamente uma mensagem
de resposta, demonstrando sua satisfação e efusivos agradecimentos. No entanto,
ao saber que muito em breve chegaria a Ferrol uma patrulha de quarenta homens,
ele se mostrou preocupado; queria saber se haviam tomado o cuidado de
selecionar elementos apropriados, capazes de suportar os rigores duma
guerrilha.
Reginald Bell reagiu com indignação: —
Pois esse sujeito vai ver uma coisa! Pretensioso! Será que julga seus sichas os
únicos soldados do mundo aptos para uma briga?
* * *
Um fato mais do que corriqueiro veio interromper
a marcha de Deringhouse para o sul, levando-o a se precipitar numa aventura das
mais arriscadas. Não que lhe faltasse discernimento — apenas o encadeamento das
circunstâncias não lhe permitiu escolha.
É que o organismo humano, submetido a uma
gravidade desacostumada, não pode dispender mais do que determinada soma de
esforço físico sem sentir feroz e violenta fome.
Deringhouse conhecia razoavelmente o
idioma ferrônio, através dum rápido hipnotreinamento. Também era capaz de
diferenciar os diversos tipos étnicos existentes entre os ferrônios. Portanto,
tinha a certeza de que poderia personificar, mais ou menos convincentemente, um
nativo de Ferrol. Concebeu um plano e tratou de executá-lo sem demora.
Um ferrônio incauto, passeando
despreocupadamente, serviu-lhe de instrumento. Foi abatido pelas costas, com
uma pancada na cabeça; mais tarde, quando voltou a si, viu-se inteiramente nu.
Deringhouse livrou-se do traje espacial.
Ocultou a pistola de raios neutrônicos e as demais armas que portava, nas amplas
dobras da roupa do ferrônio, e tratou de afastar-se o mais depressa possível da
cidadezinha natal do assaltado. Depois de percorrer quinze quilômetros, não
suportando por mais tempo os protestos de seu estômago, dirigiu-se para a
primeira estrada ao seu alcance, com o firme e imutável propósito de conseguir
alimento dentro da próxima meia hora, a qualquer preço.
* * *
A recepção constituía um quadro quase
grotesco. Diante das gaiolas dos transmissores, onde iam chegando um a um,
viram uma horda de homens altos e corpulentos, trajando roupas coloridas, e com
cara de quem se aprestava a aprisionar imediatamente os recém-chegados.
Rhodan empurrou a porta da gaiola com a
pistola de raios térmicos pronta para disparar. Fitou demoradamente os sichas.
Nenhum dos mal-encarados guerrilheiros se moveu; sem arredar pé dos respectivos
lugares, fitavam Rhodan em silêncio.
Ele aguardou pacientemente.
Reginald Bell foi o próximo a chegar:
— Ei, rapaz! Onde é que viemos parar?
Dando com o grupo de guerrilheiros, abriu um largo sorriso em direção deles.
Não houve reação alguma.
Depois chegou Tako Kakuta, sorridente como
sempre. Os sichas mostraram sinais evidentes de surpresa. Certamente era a
primeira vez em suas vidas que viam um ser de rosto amarelado.
— Se esses caras demorarem a abrir a boca,
volto já, já, para casa! — resmungou Bell.
Os transmissores trariam uma procissão
contínua de gente. Ralf Marten abaixou-se a fim de passar pela portinhola,
seguido de perto pelo gordo Wuriu Sengu. Marshall saiu com seu costumeiro ar
sonhador. Depois veio Betty, a menina de olhos grandes e expressão melancólica.
Mas sorriu de leve diante do olhar encorajador de Rhodan.
O espanto dos sichas foi ainda maior ao
verem surgir uma menina.
— Não liguemos para eles! — sugeriu
Rhodan. — Aí fora, em algum lugar, deve ficar a cidade. Vamos para lá!
A operação ainda não findara. Porém quem
ia chegando, inclusive os robôs, não teria dificuldade em seguir os demais.
Rhodan encaminhou-se para o grupo dos
sichas. Como eles não se arredassem para dar-lhe passagem, contornou-os. Antes
de passar pelo último dos grandalhões, ouviu uma voz grave dizer no idioma de
unificação, empregado em Ferrol para o entendimento entre as diversas tribos,
cada qual com seu dialeto próprio:
— Sejam todos bem-vindos! Rhodan parou e
voltou-se. Um sicha evidentemente idoso, pois tinha cabelos brancos,
destacara-se do grupo, vindo ao encontro de Rhodan. Estendeu ambas as mãos, e,
após ligeira hesitação, Rhodan imitou o gesto.
— Sou Rhodan — disse. — E você?
— Chamo-me Quequéler. Já deve ter ouvido
falar de mim!
Rhodan fez um sinal afirmativo com a cabeça.
Neste momento, um silvo agudo do
transmissor indicava o término da operação, com o conseqüente corte de energia
na estação transmissora. Rhodan inspecionou seu pequeno grupo de combate, sendo
imitado por Quequéler. Eram quarenta homens no total — desde que se contasse a
menina Betty como um homem — e
quarenta e cinco robôs. Oitenta e cinco valentes, dispostos a atormentar o
inimigo e complicar-lhe a vida, a despeito de sua flagrante superioridade.
— Seu povo deve ser muito corajoso! —
disse Quequéler, com sua voz grave e harmoniosa. — Senão, como se animaria a
entrar em combate com tão poucos elementos...
— Bem — respondeu Rhodan, prontamente —
esperamos poder contar com a sua colaboração!
Julgava da maior importância deixar aquele
ponto bem claro desde o início. Quequéler acenou com a cabeça.
— É justamente esta a nossa intenção! —
disse, com ar sério. — Porém dispomos de poucas armas aproveitáveis. Não sei se
nosso auxílio será valioso.
— Não se preocupe com armas — disse
Rhodan, sorrindo. — Temos mais do que bastante.
O rosto de Quequéler iluminou-se; parecia
mais confiante agora.
— Pois então, nós lhe provaremos que
somos, com efeito, um povo aguerrido! — exclamou, com convicção.
* * *
Deringhouse chegou a um cruzamento; a
estrada secundária levava para uma pequena cidade semi-oculta pelo arvoredo.
Pouco depois viu aparecer um velho, em
passo descansado de quem passeava sem rumo definido. A julgar pelos trajes, não
era dos mais abastados.
— Bom dia, senhor! — disse Deringhouse. —
Sou um viajante faminto, e lhe ficaria muito grato se pudesse me indicar um
local onde achar algo comestível. Só que não tenho dinheiro...
O homem ouviu com olhos semicerrados;
erguendo a cabeça, encarou Deringhouse atentamente.
— Você vem de muito longe, não é, filho? —
perguntou o velho.
— Sim, de muito longe — confirmou o
piloto.
— Como você fez para não cair nas mãos do
inimigo?
— Ora, com jeitinho a gente se arranja...
— disse Deringhouse, sorrindo, sem maiores explicações.
Com ar maroto, o velho falou rapidamente
uma porção de frases completamente ininteligíveis para Deringhouse. Sabia que
existiam inúmeros dialetos entre os ferrônios, além do idioma de unificação que
todos conheciam. Mas não compreendeu uma só palavra da algaravia do velho.
Evidentemente, estava sendo posto à prova. Indeciso, exclamou:
— Desculpe, não entendo nada do que diz!
O velho sorriu, aparentemente aliviado,
dizendo:
— Com essa estatura, filho, você bem
poderia ser um sicha. Mas já vi que não é o seu caso. Deve vir mesmo de muito
longe. O que deseja? Comida?
Confuso, Deringhouse fez um gesto
afirmativo. Virando-se, o velho apontou para a pequena localidade no fim da
estrada de terra.
— Vá para lá. Meu filho é dono de uma
hospedaria. Basta lhe dizer que foi enviado por Perclá, e ele lhe dará mais do
que pode comer de uma só vez. Mas não esqueça meu nome: Perclá!
Deringhouse agradeceu, intrigado com a
estranha insistência do velho sobre seu nome. Retomando a marcha, se perguntava
se não seria preferível suportar sua fome por mais algum tempo do que cair numa
cilada. Porém não havia prova alguma de que se tratasse de fato de uma cilada,
e a atitude do velho havia sido de franca cordialidade, a despeito do fato
evidente de que ocultava algo.
Era mais ou menos meio-dia do dia ferrônio
de trinta e oito horas. A intensa luminosidade do sol se derramava opressiva
sobre as colinas e a floresta; a elevada taxa de umidade provocava abundante
transpiração. Deringhouse sentia que não agüentaria mais caminhar por muito
tempo.
As ruas da cidade estavam desertas.
Deringhouse lembrou-se de que não
perguntara ao velho o nome do estabelecimento mantido pelo filho. Porém o
problema logo se revelou inexistente, pois só havia uma única hospedaria.
Empurrando a porta, o piloto entrou num
recinto semelhante a um bar. O aspecto era o de um restaurante de hotel de
categoria: mesas de plástico negro imitando madeira, toalhas imaculadas, e
confortáveis poltronas. No entanto, não se via nenhum hóspede.
Deringhouse sentou-se diante de uma das
mesas. Imediatamente, de um vão com cobertura corrediça no centro da mesa,
surgiu uma lâmina metálica e um estilete.
— Suas ordens, por favor!... — disse uma
voz mecânica, no idioma de unificação ferrônio.
Pegando o material oferecido, Deringhouse
escreveu sobre a lâmina: Gostaria de
ver o proprietário, por obséquio. Fui enviado por Perclá. Acrescentando
um muito obrigado! Recolocou tudo
no vão.
Este fechou-se, com um leve sussurro, e o
silêncio voltou a reinar. De repente, Deringhouse ouviu o som de passos, às
suas costas.
— É o homem enviado por Perclá?
Deringhouse levantou a cabeça, dando com um ferrônio de estatura baixa e de
ombros largos, de pé junto à mesa.
— Obviamente! Não vejo mais ninguém aqui!
O ferrônio desculpou-se:
— Estou confuso, sabe... Não é muito
freqüente aparecer alguém enviado por Perclá.
Deringhouse riu, dizendo:
— Só que desta vez ele fez um péssimo
negócio. Mandou-me para cá apesar de eu dizer que tinha muita fome e nenhum
dinheiro.
O ferrônio acenou com a cabeça.
— Claro. Que deseja comer?
— Qualquer coisa — disse Deringhouse —
desde que venha depressa. Senão morro de inanição. E depois diga-me de que
forma posso retribuir, já que não posso pagar em moeda sonante.
O ferrônio exibiu um pequeno sorriso meio
malicioso.
— Isso tem tempo...
Afastou-se na direção da cozinha, mas após
alguns passos parou. Virando-se, falou:
— Aliás, meu nome é Teél.
Deringhouse achou necessário apresentar-se
igualmente. Rebuscou apressadamente a memória em busca de um nome que não
soasse estranho demais no mundo ferrônio. Num repente, disse:
— Chamo-me Deri.
Teél inclinou a cabeça, sorrindo.
A comida foi servida. Só de vê-la,
Deringhouse sentiu água na boca. Teél teve o tato de deixá-lo só com seu
apetite diante das iguarias. Reapareceu apenas quando as travessas estavam
vazias.
— Mandei preparar alguns drinques, Deri.
Quer me acompanhar, por favor?
Um drinque era tudo que faltava a
Deringhouse para completar a sensação de total satisfação. Portanto, acompanhou
Teél de bom grado. Passaram por uma porta, por trás da qual uma escada rolante
levava ao subsolo. Ele conhecia o hábito ferrônio de instalar parte das
acomodações residenciais debaixo da terra, a fim de escapar da temperatura
excessivamente quente de Ferrol. Na sala de refeições reinava uma agradável
frescor; à medida que se embrenhavam no seio da terra, ele chegou a sentir
quase fio.
A dois metros do pé da escada havia outra
porta; ela se abriu assim que Teél saltou da esteira rolante. Dando um passo
para o lado, indicou, por meio de um gesto com a mão, que Deringhouse tinha
preferência para entrar.
No recinto além da porta, reinava a
penumbra. Deringhouse abriu bem os olhos, a fim de enxergar melhor. Aos poucos
distinguiu, postados ao longo das paredes, vários homens armados, com a armas
apontadas para o seu peito. Virou-se num salto. Teél guardava a porta,
igualmente com o cano de sua pistola apontada para Deringhouse. Retesando os
músculos, ele esperou pelas descargas que o fuzilariam ali mesmo.
Porém como ninguém fazia menção de usar as
armas, recuperou a calma, e disse, sorrindo:
— Pois bem, aqui estou! Em que posso servi-los?

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