A uns 30 quilômetros do
pólo o aparelho de busca infravermelho reagiu. Devia haver um corpo que
irradiasse bastante calor nas proximidades. O ponto assinalado ficava
exatamente na área que o capitão Fletcher indicara como sendo a localização
provável do emissor que havia provocado a interferência quando desciam na Lua.
Saíram do veículo blindado e
foram seguindo a pé junto às rochas escarpadas. A montanha erguia-se a uma
altura de cerca de 500
metros . Abrigava uma cratera que não era visível da
Terra.
Depois de mais meia hora de
escalada tinham vencido o último obstáculo que impedia sua visão. Ainda estavam
ao pé da montanha, mais ao norte.
Os sinais do aparelho
portátil de localização tornaram-se cada vez mais nítidos. Deviam encontrar-se
nas proximidades do outro foguete. Subitamente Reginald Bell teve um colapso.
Caiu de joelhos, com as mãos
apoiadas no chão. Seu riso louco era captado pelo microfone e transmitido pelo
emissor embutido no capacete.
Perry Rhodan não disse uma
palavra. Num gesto instintivo procurou cobertura. Agora estava empenhando toda
sua energia para dominar-se. Era o golpe de misericórdia nos nervos desgastados
dos dois homens.
— Não, não; isso não, isso
não! — ouviu-se Bell gemer no aparelho de radiofonia. Repetia constantemente as
mesmas palavras.
Rhodan recompôs-se de um
golpe. Suas mãos descontraíram-se. Com uma brutalidade desnecessária arrastou o
amigo para trás de uma rocha. Bell despertou do aturdimento que lhe perturbara
os sentidos. Estava todo trêmulo, olhando para Rhodan. O suor que lhe cobria o
rosto embaçou a lâmina transparente do capacete. Rhodan ligou o pequeno
ventilador. Bem que Bell estava precisando.
— Calma! Controle-se! Pelo
amor de Deus, acalme-se! Não fale! Se fizerem surgir a luz verde nas nossas
antenas estaremos liquidados. Fique calmo.
Mesmo Rhodan recorreu às
palavras estereotipadas. Repetidas muitas vezes, tornar-se-iam monótonas, mas
produziam efeito até mesmo pelo tom em que eram proferidas. Estava preparado
para aquilo. Assim mesmo, o súbito conhecimento da situação o fez desmoronar.
Não estava mais a sós. Nunca tinham estado...
A compreensão desse fato
revolveu seu interior e fez com que perdesse a serenidade habitual. Tinha a
sensação de estar postado diante de uma muralha de altura infinita.
Perry Rhodan precisou apenas
de um instante para que as feições do seu rosto se recompusessem. As batidas
furiosas do seu coração foram diminuindo. Mas não diminuiu a pressão com que
segurava o braço de Bell. Imaginava que o amigo precisaria de mais tempo que
ele. Tinha sido o choque mais violento que o capitão Reginald Bell já
experimentara.
Cautelosamente Rhodan
levantou o capacete circular por cima da rocha. Seus olhos fixaram-se
avidamente no quadro titânico. Todas as dúvidas se desvaneceram.
Não, não era nenhum sonho. Tinha
diante de si um fato positivamente verdadeiro.
Ficou calado, até que Bell se
manifestasse espontaneamente. Não pensava mais em proibir a utilização do
transmissor portátil. Sabia que seria inútil.
— Você sabia, não é? Já sabia
há algumas horas — cochichou Bell. — Foi por isso que tive que fazer a barba.
Como foi que você soube, Perry?
— Não se exalte, rapaz, não
adianta — disse Rhodan. — Aquela nave espacial que você está vendo ali não foi
construída na Ásia. O fato é que não veio da Terra. Desconfiei disso quando
surgiu a luz verde. Nenhum homem seria capaz de criar um campo energético
desses, nem conseguiria interromper nossa transmissão dessa forma. Procure
dominar-se. Temos que enfrentar isso. Não temos alternativa.
Bell ergueu-se. Seus olhos
adquiriram vida. Depois, olhou para frente.
— Fizeram um pouso forçado —
disse após algum tempo. — Rasparam a parede da cratera com uma força tão grande
que nem é bom pensar. Quem são eles? Como serão? De onde vêem? E o que será que
querem aqui? — concluiu Bell com um sorriso sombrio.
A pergunta fez com que Rhodan
despertasse de vez. Recuperou a capacidade de refletir e seus lábios
contorceram-se.
— Vamos descobrir — disse,
com ênfase. — Agora começa a surgir a lógica de um ato que parecia irracional.
É claro que tinham que interromper a nossa transmissão. Ao que parece, não
fazem questão de que, na Terra, saibam da presença deles. Talvez pensem que,
antes de pousarmos, vimos essa nave gigantesca. Desta forma, tudo se torna
compreensível.
E, realmente, tudo era bem
compreensível. Subitamente, Rhodan viu aquele objeto com outros olhos. Seu
cérebro emitiu sinais de perigo, fruto de muito tempo de convivência com
situações que demandavam uma avaliação rápida do momento.
Passou a olhar a nave com o
senso objetivo de um cientista. Não se via nenhuma reentrância, nenhuma
abertura visível. Apenas uma linha circular e abaulada desenhava-se na linha
equatorial.
A nave estava imóvel diante
da parede rompida da cratera. E, embora não apresentasse o menor arranhão, era
evidente que tinha havido um choque.
O veículo descansava sobre
pés curtos que pareciam colunas. Estavam dispostos em círculo e, aparentemente,
tinham sido estendidos ou desdobrados da parte inferior da esfera. Era só o que
se oferecia à visão.
O sol batia em cheio na
espaçonave estranha, fazendo-a brilhar com uma luminosidade vermelho pálida.
Para ver a parte superior, tinham que inclinar a cabeça bem para trás. Mas, ao
saírem de trás da rocha que lhes impedia a visão, encontraram-se bem perto da
nave.
Bell também recuperara o
autocontrole. A prova era sua voz áspera e calma.
— É a forma esférica pura, a
concepção ideal de uma nave espacial de grandes proporções, desde que se
disponha de um mecanismo propulsor adequado. O diâmetro é de cerca de
quinhentos metros! Ou melhor, pelo menos quinhentos metros. É mais alta que a
cordilheira. Como se consegue fazer com que uma massa como essa suba para o
espaço? Aos poucos fico tendo uma idéia bastante vaga das máquinas que devem
ter sido montadas no interior dessa nave.
Falando mais baixo,
acrescentou.
— E nós que nos orgulhamos
tanto de nosso êxito! Atingimos a Lua com uma coisinha de nada. Um Pequeno
Polegar que mal e mal conseguiu completar o salto. O que temos diante de nós
deve estar além do nosso sistema solar. Será que você faz idéia do que nós,
seres humanos, umas criaturazinhas tão presunçosas, representamos diante
daqueles seres ali?
— Se você disser macacos, vou explodir! — disse
Rhodan.
— Era a expressão que eu
tinha na ponta da língua — respondeu Bell com um sorriso. — Você é um homem
muito orgulhoso, não é?
— Orgulho-me de ser homem.
Sinto orgulho pela espécie humana, por suas qualidades, sua rápida evolução,
seu futuro brilhante. Já conquistamos a Lua e, um dia, conquistaremos as
estrelas.
Depois, olhando a gigantesca
nave alienígena, continuou:
— Essa nave espacial tão
estranha, não prova que seus ocupantes sejam mais inteligentes que nós. Talvez
estejam, até, usufruindo a herança deixada por dezenas de milhares de gerações
laboriosas, isto é, alguma coisa que, simplesmente, caiu-lhes nas mãos. A
ignorância não deve ser confundida com a estupidez. Deve-se levar em
consideração o fato de o ignorante ter tido ou não oportunidade para aprender
e, se teve, ainda assim, tudo depende do saber daqueles que se encarregaram de
o ensinar. Ninguém pode assimilar mais do que aquilo que lhe foi transmitido
por alguém. A espécie humana é uma raça ainda jovem. Nossos cérebros parecem
esponjas. Tenho certeza absoluta de que ainda podem absorver muita coisa.
Portanto, não vá me dizer que, a essa altura, você está se sentindo quase um
macaco.
Rhodan zangara-se de verdade.
Parecia até ter esquecido o objeto que se erguia diante de seus olhos.
Bell riu, depois segurou
cuidadosamente a arma automática.
— Deixe isso — preveniu
Rhodan. — Não poderemos resolver os nossos problemas dessa forma. Temos de
admitir, de qualquer maneira, que não somos os únicos seres inteligentes no
Universo. O que não chega a se constituir uma surpresa. Não toque na arma; a
situação é diferente da que prevíamos.
— Eu me sentiria melhor se
aquilo fosse apenas uma nave da Federação Asiática — cochichou Bell e, em tom
provocador, acrescentou: — O que é que vamos fazer agora? Ainda bem que é você
quem está no comando. Estou ardente de curiosidade!
— E eu estou curioso há muito
tempo — observou Rhodan. — Parece impossível! Pelo menos tudo indica que esses
camaradas não têm intenção de nos matar. E há outra coisa...
Voltou a olhar para o paredão
de rochas esfaceladas.
— Um comandante sensato não
faria um pouso desses, não é? Eu, pelo menos, não faria. É de se supor que
alguém que arrasa metade de uma montanha de pedra ao pousar, não o tenha feito
de propósito. Ao que parece estes desconhecidos sofreram alguma pane. Você não
acha que isso os torna mais humanos?
Rhodan sorriu com suas
próprias palavras.
— Alguma coisa não deve estar
em ordem naquela nave. E já que tenho fama de saber perder, vamos olhar mais de
perto.
Rhodan pôs-se de pé. Um
sorriso irônico aflorou aos seus lábios.
— Você está doido?!
Abaixe-se! — gritou Bell — Isso é uma loucura.
— Loucura? Veja a nossa
situação! De qualquer maneira, não conseguiremos sair daqui. Quando o general
Pounder enviar outra nave já estaremos mortos. Além disso, a nova tripulação
terá a mesma sorte que nós. A esta altura já não adianta refletir. Será que uma
cabeça dura como a sua consegue assimilar esta verdade?
Como se este ponto de vista
não bastasse, Rhodan estava sendo devorado pela curiosidade: um instinto
primitivo e irreprimível do homem. O desassossego constante provocado pelo que
se escondia atrás de tudo aquilo.
Subitamente, os olhos de
Rhodan se estreitaram. Alguém soltara uma risada. Fora apenas um ruído breve,
quase imperceptível. Mas não havia dúvidas de que alguém rira.
Bell ergueu-se de um salto,
com o dedo no gatilho. Seu rosto estava pálido.
— Você ouviu — disse. —
Alguém está sintonizado na nossa freqüência. Que diabo?
— O que você estava pensando?
— soou a voz indiferente de
Rhodan. — Por que você acha que encenei um pequeno drama com diálogos tão
longos? É claro que alguém está nos escutando. O fato de não terem destruído os
transmissores dos nossos capacetes constitui prova da sua inteligência. Sabem
perfeitamente que, com eles, não emitiremos nada para a Terra. É uma lógica
simples e contundente. Vamos.
Bell permaneceu imóvel, com a
arma na mão. Parecia que sua curiosidade havia desaparecido completamente. Com
a voz arrastada e num tom frio, disse:
— Se você quiser ir, vá.
Quanto a mim, não sinto a menor vontade de me lançar nos tentáculos de polvos
inteligentes ou outros tipos de monstros com um sorriso cordato nos lábios.
Prefiro ficar aqui.
O rosto de Rhodan tornou-se
sério.
— Você anda lendo muitos
romances de ficção científica, meu caro. Um ser como o polvo jamais conseguirá
construir uma nave espacial, ainda que, contra toda a expectativa, adquira
inteligência. Não confunda a fantasia com o saber estabelecido.
Encontramo-nos diante de um
fato real. Lá, na Terra, cientistas de renome que não escondem a certeza da
existência de vida inteligente no Universo, mas não pintam quadros de horror.
Portanto, não diga bobagens e venha! Será que tenho que voltar insistir em que
não temos outra alternativa?
— Talvez tenhamos — murmurou
Bell perturbado. — A idéia de entrar nessa nave como carneiro indefeso não me
agrada nem um pouco. É uma violência contra o meu instinto de conservação.
Entende?
— Claro! Nunca deixo de
compreender um argumento razoável. É o instinto que faz o homem temer o
desconhecido, talvez seja esta a coisa mais razoável que o Criador deu aos
homens. É bom que seja assim. Acontece que certas horas temos que dominar o
furacão dos sentimentos. Você virá comigo se quiser. Não darei ordem nesse
sentido.
Rhodan voltou-se. Andando
rapidamente, saiu do refúgio proporcionado pela rocha. Seu pensamento e seus
sentimentos passaram a ser dominados pela lógica pura. Sabia que não havia
outro remédio.
Sua arma automática
balançava-lhe ao ombro. Os braços pendiam ao longo do corpo. Rhodan não estava
disposto a transformar o primeiro encontro entre um homem e uma forma estranha
de inteligência em um combate armado. Teria sido uma péssima saudação. Indigna
de um homem como ele.
Sentiu um certo vazio dentro
de si. A medida que se aproximava do gigantesco objeto, crescia nele o
sentimento aflitivo provocado pela antevisão do encontro. Os desconhecidos
tinham tomado a iniciativa.
Não havia dúvidas. Agiram,
porém, por via indireta. Rhodan concluiu que a interferência nas transmissões
de rádio representara antes uma medida de precaução, não o desejo deliberado de
destruir. A idéia tranqüilizou-o. Passou a confiar no espírito que havia de
reinar ali, ao qual faria algumas concessões.
Enganara-se bastante na
distância em que se encontrava da nave. Esta era muito maior do que supunha. As
paredes da mesma erguiam-se cada vez mais imponentes. Pareciam ameaçadoras e
enganadoras. Depois de ter percorrido algumas centenas de metros sob a luz
ofuscante do Sol, já não podia abranger toda a nave com o olhar. Seu diâmetro
devia ser superior a quinhentos metros.
Os pés de pouso eram colunas
enormes com grossas placas de apoio nas extremidades. Quando percebeu a
semelhança com a concepção da Stardust
sorriu ligeiramente. O pensamento daqueles seres devia funcionar de
forma análoga a dos homens, pelo menos sob o aspecto técnico-científico.
Ouviu, então, a respiração
acelerada de Bell no amplificador. Logo após viu aparecer a sombra do
companheiro.
Bell acompanhou-o em
silêncio. Não disse uma só palavra. Rhodan cumprimentou-o com a cabeça. O gesto
parecia bizarro por causa do capacete pressurizado.
Bell retribuiu com um
sorriso. Embora conseguisse dominar-se, não apagara dos olhos um brilho
estranho.
Seus passos tornaram-se cada
vez mais lentos. Por cima deles, erguia-se a imensa forma abaulada. O sol só
cobria parte do solo que ficava por baixo da enorme esfera. Rhodan parou no
ponto onde começava a escuridão total. Olhou para cima.
Viu as aberturas largas da
parte inferior da saliência que já observara na linha equatorial. Esta havia se
transformado em um anel gigantesco com mais de setenta metros de largura.
— Se resolvessem decolar
agora seríamos reduzidos a átomos — disse calmamente. Depois, apontou para
cima.
— Aquilo ali deve ser as
aberturas dos reatores, se é que a nave é impulsionada por esses engenhos. É
provável que o solo, que se apresenta vitrificado em torno da nave, tenha sido
levado à incandescência. Calculo que nas condições da Terra, o peso de
decolagem de uma nave como essa seria de dois milhões de toneladas. Como será
que isso se desloca?
— Sugiro um foguete de São
João — disse Bell em tom sarcástico. Uma raiva surda apoderou-se dele. Ao que
parecia, ninguém lhes dava atenção. Dentro dele, começou a se fazer ouvir uma
voz que o chamava de macaco. Bell
não conseguia evitar. Não possuía a enorme dose de autoconfiança do
companheiro. Refugiava-se num humor um tanto sem graça. Recorria,
invariavelmente, a esse subterfúgio quando o pensamento lógico não mais
bastava.
Rhodan conservou seu
autodomínio. Imaginava que alguma discussão devia estar sendo travada no
interior da nave. Provavelmente, também para aqueles desconhecidos, a situação
era embaraçadora. Sabiam, é evidente, que poderiam livrar-se dos dois homens
com facilidade, provavelmente bastaria apertar um botão.
Rhodan considerou o fato como
um ponto positivo. Esses seres não lhes fariam mal, a não ser que fossem
guiados por uma ética totalmente inconcebível e não conhecessem qualquer tipo
de tolerância. De outra forma, só lhes caberia continuar em silêncio ou
transmitir algum sinal de vida. Por isso, o major Rhodan armou-se de paciência.
A reação de Bell foi
diferente. Depois de alguns instantes, disse em voz baixa e tom irônico:
— Embaixo da sua nave
encontram-se dois monstros horríveis que sentem fome e sede. Bom dia. Meu nome
é Reginald Bell. Os senhores tiveram a gentileza de nos obrigar a um pouso de
emergência. Estamos aqui para apresentar a conta.
Bell calou-se. Se a situação
fosse outra, Rhodan teria caído na gargalhada. A essa altura, porém, tinha a
garganta seca. Ao que parecia, as palavras de Bell não eram despropositadas, embora,
é lógico, não passassem de brincadeira.
Não disseram mais nada.
Rhodan também se sentiu tentado a pegar a arma. Bell já agarrara o fuzil
automático. Rhodan estava se controlando. Seu olhar de censura provocou um
gesto desdenhoso por parte de Bell.
Uma luz ofuscante surgiu tão
inesperadamente como a luminosidade verde de algumas horas atrás. Rhodan
encolheu-se. A arma automática desceu até a altura do cotovelo contra sua
vontade, como se tivesse sido atraída por alguma força mágica. Praguejou, estremecendo
por dentro, e voltou a colocar a arma sobre o ombro.
— Ponha isso de lado — gritou
para Bell.
Uma abertura ampla surgira na
esfera. Era de lá que vinha a luz. Tudo se passara num silêncio absoluto, como
sempre acontece na Lua. Nunca antes Rhodan sentira falta de um condutor de som
como o ar.
Alguma coisa foi saindo da
abertura. Quando a extremidade tocou o solo, o objeto se abriu numa faixa larga
e totalmente lisa. Não aconteceu mais nada.
Rhodan foi andando devagar em
direção àquela superfície fracamente iluminada. Parou antes de lá chegar.
— É um convite — disse com
voz abafada. — e olhe que não há degraus. A porta fica a pelo menos trinta
metros de altura. Bem que poderíamos colocar isso na Stardust.
— Deve ser um teste de
inteligência, não é? — disse Bell, nervosamente, olhando para cima.
Rhodan foi até a rampa
inclinada, que subia em ângulo de quarenta e cinco graus mínimo. Quando
percebeu que estava sendo erguido, estendeu os braços num gesto instintivo.
Queria evitar uma queda e acabou percebendo que não poderia cair. Suas botas
não tocavam a rampa. Ficavam suspensas alguns centímetros acima do material
fluorescente. Deslizou para cima como se estivesse numa escada rolante.
Bell, atrás, soltou uma
praga. Não conseguia tirar as mãos de um apoio imaginário. De quatro, foi
seguindo Rhodan.
Foram colocados suavemente
numa grande sala de onde vinha a luz brilhante. Depois que as portas se
fecharam, tudo continuou em silêncio. Estavam a bordo da estranha nave.
— Não haverá quem acredite
nisso! — cochichou Bell. — Ninguém! Resta saber se, algum dia, voltaremos a
falar com algum ser humano. Que pretende fazer?
— Negociar. Usar a
inteligência. Que mais poderíamos fazer? As situações deixam de parecer irreais
quando aceitamos as coisas como óbvias. Tudo depende dos instintos. Tente
desligá-los.
Ouviram um som agudo
provocado pelo ar que penetrava no compartimento. Outros sons também se
tornaram perceptíveis. Ainda era duvidoso, porém, se essa mistura de gases
seria respirável para um ser humano. Rhodan percebeu que estavam sendo
submetidos a um teste. Se abrisse o capacete, arriscando as conseqüências, esse
ato irrefletido seria interpretado contra ele. Não sabia que tipo de gás tinha
sido introduzido ali, por isso ficou imóvel até que se abrisse a porta interna.
Quando esta se abriu, viram
um corredor amplo e abobadado, que terminava em um poço fluorescente.
Prosseguiram. Não havia nada
mais a discutir. A nave parecia deserta. A situação fantasticamente estranha.
Bell sabia que seus nervos não agüentariam mais que cinco minutos. Depois
disso, perderia todo o autodomínio. Tinha vontade de gritar e sair correndo
dali.
De repente, ouviram uma voz
clara, falando um inglês perfeito.
— Podem abrir os trajes de
proteção. O ar é respirável para os senhores.
Rhodan soltou uma exclamação
de espanto e surpresa. Depois, abriu o capacete.
VI
Seu nome era Crest. Sua raça
não fazia distinção de nome e sobrenome. Era muito alto e magro, quase trinta
centímetros mais alto que Rhodan. Tinha, também, dois braços e duas pernas, um
tronco estreito e o rosto intelectualizado de um homem muito velho, cuja pele
tivesse conservado a juventude e um extraordinário vigor. A testa alta encimava
dois olhos que revelavam uma expressividade penetrante. Pela cor da pele
poderia pertencer a alguma tribo do Pacífico sul que tem tez aveludada. Todavia
essa impressão era afastada pela vermelhidão albina dos olhos e pelos cabelos
esbranquiçados que cobriam sua cabeça. Alguma coisa estranha e irreal parecia
irradiar de sua pessoa, embora no seu aspecto exterior guardasse grande
semelhança com os homens. As diferenças reais deviam estar nos aspectos que não
se percebiam imediatamente. Rhodan via-se diante de um organismo, cuja
construção era completamente diferente da sua, mas que também respirava oxigênio.
Na grande sala reinava um
calor abafado. A luz, muito forte, era azulada. Provavelmente, a parte extrema
das suas radiações já se situava no campo ultravioleta do espectro. Deviam vir
de algum planeta em que brilhava um sol muito luminoso, muito quente e cujos
raios seriam, provavelmente, azulados. O tipo de iluminação e o calor reinante
na sala pareciam indicar isso. Era tudo o que Rhodan conseguia perceber.
Não. Havia algo mais. Alguma
coisa que notara no começo.
Crest parecia fraco e
esgotado. Seus movimentos eram um tanto desajeitados. Tinha o aspecto de um
homem gravemente enfermo. Rhodan já notara que a montanha tinha sido desbastada
na parte interior. Teria este fato alguma relação com a fraqueza daquela
inteligência superior?
Havia mais dois seres na
sala. Também pertenciam ao sexo masculino. Os olhos de Rhodan estreitaram-se
por um instante. Jamais observara tamanha letargia. A falta de interesse e de
participação e a sonolência daquelas criaturas eram tamanhas que qualquer
pessoa notaria por mais superficial que fosse a observação.
Em comparação com eles,
Crest, com toda a sua debilidade, parecia vigoroso e cheio de vida. Os outros
dois seres vivos ali presentes não chegaram, sequer, a virar a cabeça quando o
visitante, que para eles devia ser bastante estranho, entrou na sala.
Estavam deitados em seus
leitos largos e muito baixos, com os olhos fitos na tela oval ligada a certos
instrumentos, cuja finalidade Rhodan não compreendia. Sequer percebia o
cintilar que crescia e decrescia, passando por todas as cores do arco-íris.
Figuras geométricas planas desfilavam numa variedade imensa. Tudo isso era
acompanhado de um zumbido agudo e intermitente. Rhodan teve um pressentimento
pouco agradável. Alguma coisa não estava em ordem naquela nave que parecia tão
perfeita. A sala enorme estava impregnada de um fluido de sonolência bem
perceptível. Ninguém tomava conhecimento da presença dos dois homens.
Crest dirigira a palavra a um
dos outros seres ali presentes. Este retribuíra com um sorriso amável e cortês.
Deu uma resposta e voltou a olhar a tela.
Bell estava com a boca aberta
de estupefação. Tudo mudou, abruptamente quando a mulher entrou na sala.
Irradiava tamanha frieza e arrogância que Rhodan estremeceu. Ela lançou um
olhar insensível aos dois homens e passou a ignorá-los.
Era da altura de Rhodan e
tinha os olhos avermelhados característicos de sua raça. Se estivesse na Terra
seria considerada uma beleza de primeira linha. Mas Rhodan logo abandonou essa
idéia, e preferiu tomar em consideração a advertência que lhe vinha no íntimo.
Aquela mulher de rosto estreito e hostil era perigosa, porque não parecia
disposta a usar sua inteligência. Para ela, os dois homens não passavam de
répteis pré-históricos que tinham os cérebros embotados.
Esta impressão assaltou
Rhodan com uma pontada dolorosa. Jamais alguém manifestara por ele tamanho
desprezo mesclado com indiferença. Nunca fora deixado de lado com tamanha
manifestação de repugnância. Rhodan tornou-se lívido, cerrou os punhos. A
mulher usava uma roupa justa, com alguns símbolos que emitiam uma
fosforescência vermelha pregados na altura dos seios. Só após algum tempo
Rhodan notou que se tratavam de distintivos hierárquicos. Crest, cujos
sentimentos pareciam ser bem semelhantes aos dos homens, apresentou-a como
Thora, a comandante da nave. O homem débil, cujo rosto parecia exibir uma
juventude fascinante, tinha as maneiras refinadas de um aristocrata.
Rhodan penetrara num ambiente
em que reinava os contrastes mais estranhos. Via uma apatia invencível ao lado
de uma cortesia extrema e, junto a ambas, uma frieza hostil. Nunca passara por
momentos tão esquisitos. Bell comparou a situação a uma dança sobre um barril
de pólvora. Animou-se com a idéia de que não tinham exigido a entrega das
armas. Também isso era muito estranho.
Crest examinou-os e
estudou-os longamente. Ele o fez sem disfarces, com uma franqueza tão grande
que sua atitude não poderia ofender os dois homens.
Rhodan ainda não proferira
uma única palavra. Em posição ereta, ficou parado no centro da sala quase
vazia.
Crest voltou a deitar-se com
um sorriso embaraçado. Sua respiração era pesada. Rhodan voltou a perceber
sinais de preocupação nos olhos da mulher.
Ela dirigiu-se em tom
bastante áspero aos dois outros seres que se encontravam na sala. Um deles ergueu-se
ligeiramente do seu leito. Depois sorriu e tornou a deitar-se.
Rhodan sabia que estava na
hora de fazer alguma coisa. Bell não suportaria a tensão por mais tempo. Seu
rosto pálido e os lábios contorcidos num sorriso forçado diziam tudo.
Os olhos sombreados de Crest
iluminaram-se. Parecia sentir que o homem já estava saturado daquela situação.
Poucas vezes Rhodan chegara a observar uma expressão de tamanha curiosidade nos
olhos de qualquer ser. Crest parecia estar ansioso por uma palavra salvadora.
Qual seria a sua posição a
bordo da nave? Qual seria o poder exercido pela mulher?
Rhodan avançou mais alguns
passos. O capacete balançava, preso às dobradiças. A mulher virou-se
bruscamente. O movimento instantâneo com que colocou a mão no cinto parecia uma
advertência. Rhodan enfrentou seu olhar. Enquanto os olhos da mulher pareciam
irradiar hostilidade, os de Rhodan assumiram subitamente uma expressão de
frieza que a deixou mais admirada que contrariada. O sorriso rígido de Bell se
descontraiu. Seus olhos se iluminaram. Conhecia Rhodan. Acabara de mudar de
atitude, Agora só poderia seguir-se uma luta decisiva ou então a reunião
tomaria um caminho razoável.
Rhodan passou pela mulher,
que recuou como se tivesse tocado num inseto venenoso.
Crest acompanhou tudo com
bastante interesse. Quando Rhodan chegou perto dele, fechou os olhos. Bell
nunca ouvira o comandante falar com voz tão suave.
— Sei que o senhor me
compreende. No momento não importa como isso é possível. Também nossa situação
atual não interessa. Meu nome é Perry Rhodan. Sou major da Força Espacial dos
Estados Unidos e comandante da nave espacial Stardust, vinda da Terra. O senhor obrigou-nos a realizar um
pouso de emergência, mas prefiro, por ora, não falar a esse respeito.
— Se der mais um passo, o
senhor morrerá! — soou uma voz quase sufocada pela raiva contida.
Rhodan virou-se devagar,
exibindo seu sorriso característico. Aparentemente, a mulher havia ligado algum
aparelho. Estava envolta por uma luminosidade cintilante. Seu olhar revelava um
misto de espanto e indignação desmedida. Aos poucos Rhodan compreendia o que se
passava. Ela estava de tal forma imbuída de um sentimento de superioridade e
presunção que achava que Rhodan estava cometendo um sacrilégio pelo simples
fato de aproximar-se do leito de Crest. Rhodan modificou sua opinião sobre o
motivo daquele desprezo. Ela se considerava um ser dotado de inteligência
superior, ao passo que Rhodan não era mais que um homem da idade da pedra. Era
isso. Ele compreendera a situação.
Ao que parecia, Crest tinha
percebido o que estava acontecendo com Rhodan.
— Sinto muito — disse com voz
débil. — Não estava em condições de evitar as dificuldades. Não esperávamos a
sua chegada. Pelas informações que tínhamos recebido, o terceiro planeta deste
sistema solar seria um mundo primitivo habitado por criaturas subdesenvolvidas.
Tudo indica que depois da nossa última viagem de exploração a situação se
modificou. Aconteceu que não viemos para cá na intenção de estabelecer contato
com os senhores.
— Vá embora — interveio
Thora. Tinha o rosto rubro de raiva. — O seu procedimento é ilegal. A lei me
proíbe de manter contato com seres que ainda não tenham chegado ao grau C na
escala de desenvolvimento. Vá embora!
Um mundo de esperanças
desmoronou na mente de Rhodan. Eram simples criaturas. Uma raiva impotente
apoderou-se dele.
— Se é assim, por que
permitiu que subíssemos a bordo? — perguntou em tom sombrio.
— É isso mesmo — exclamou
Bell. — O que significa tudo isso?
— A entrada dos senhores foi
facultada por iniciativa minha — disse Crest. — Não lhes será fácil compreender
isso. Os senhores pertencem a uma raça jovem. Minha enfermidade fez com que me
fosse possível contornar a lei. Existe um dispositivo especial para esta
hipótese. Podemos estabelecer contato com seres subdesenvolvidos logo que nossa
existência...
— Compreendo — interrompeu
Rhodan. — Compreendo perfeitamente. O senhor está precisando de auxílio?
Thora soltou um grito agudo
de desprezo. Apesar disso, parecia preocupada de novo.
— O senhor é muito jovem e
ativo — disse Crest em voz baixa. — Todos os seres da sua raça são assim?
Rhodan esboçou um sorriso.
Tinha certeza absoluta de que era assim.
— Não há nenhum médico a
bordo? Por que ninguém faz nada pelo senhor?
— A doença dele é incurável —
disse Thora laconicamente. — E agora vá. O senhor já me humilhou bastante.
Crest falou com o senhor. Minha paciência está no fim. Sou eu quem comando esta
nave.
Bell estava começando a ficar
espantado. Imaginava que o primeiro encontro com seres inteligentes decorresse
de forma diferente. Parecia tudo tão irreal e teatral.
À guisa de resposta, Rhodan
tirou o capacete. Seus olhos ardiam. Ignorou aquela mulher. Crest mostrou-se
ainda mais interessado. Seu olhar tornou-se cortante.
— O senhor se recusa a
obedecer? — cochichou fora de si. — Sabe com quem está lidando?
Rhodan falou com uma
grosseria flagrante:
— Sim, sei perfeitamente.
Acontece que possuo um cérebro que funciona muito bem, embora a comandante dos
senhores procure negar este fato. Por isso, também sei que me encontro numa
nave espacial ocupada por dorminhocos. Quando me lembro do estágio de
desenvolvimento científico alcançado pelos senhores, acho muito estranho que
ninguém trate da sua doença. Ao que parece, ninguém se interessa por ela. Tudo
indica que o senhor e a comandante são os únicos ocupantes desta nave que ainda
sabem raciocinar com clareza. Além disso, tenho a impressão de me encontrar
diante dos descendentes irremediavelmente degenerados de uma raça que já foi
muito desenvolvida. Lamento ter que dizer uma coisa destas, mas volte a cabeça
e examine friamente aqueles dois homens. Se estivessem na Terra, já teriam sido
internados num hospício.
Rhodan virou-se. Empunhava
ameaçadoramente a arma com a espoleta já em ignição.
Thora empalidecera.
Repentinamente, duas figuras metálicas que soltavam um zumbido estranho
ergueram-se atrás dela.
Rhodan conhecia apenas os
robôs terrestres e os computadores eletrônicos. Mas aquilo eram máquinas de
aspecto humano, altamente aperfeiçoadas, que dispunham de braços com armas e
ferramentas, concebidos de forma genial. Surgiram de repente. Cabeças redondas
sem olhos erguiam-se ameaçadoras. Além disso os canos saídos de vários
aparelhos desconhecidos ocupavam suas posições, presos a suportes compostos de
várias articulações.
— Pare com isso — soou a voz
de Rhodan. — As coisas desagradáveis devem ser ditas vez por outra. A senhora
sabe perfeitamente que falei a verdade. Se o fato de ter a mesma sido proferida
por um selvagem a incomoda, a senhora não devia ter permitido que entrássemos
na nave.
Estava com o dedo no gatilho.
Reginald Bell procurava abrigo atrás de um dos leitos.
A mulher parecia fora de si.
Com o rosto pálido olhou para o cano da arma de Rhodan.
— O senhor se atreve!... —
gemeu. Suas mãos se contorceram. — Atreve-se a proferir palavras dessa espécie
na nave exploradora do Grande Império. Se não saírem imediatamente mandarei
destruí-los.
— OK. Aceito — disse Rhodan. —
Nesse caso há de permitir que decole com a minha nave. Afinal, isto aqui é o
satélite da Terra. Não estamos em condições de viver aqui.
— Sinto muito, mas não posso
permitir que espalhe a notícia da nossa presença entre os seres que habitam o
terceiro planeta.
— Muito bem! Nesse caso quer
que morramos asfixiados, não é? Não dispomos dos conhecimentos técnicos
acumulados pelos seus antepassados, que os senhores evidentemente adquiriram
por herança. Não sabemos extrair oxigênio das pedras ou fabricar alimentos com
a poeira. Mal iniciamos a conquista do espaço.
Rhodan nunca teria esperado a
reação que se seguiu às suas palavras. Crest, que parecia uma criatura tão
calma, levantou-se com um grito agudo. Subitamente parecia ter esquecido sua
fraqueza.
— O que está dizendo?
Iniciaram o quê?
— Iniciamos a conquista do
espaço — repetiu Rhodan em tom indiferente. — Esta expressão choca o senhor?
Trilharemos nosso caminho, e um dia também possuiremos naves gigantes como
esta. E isso acontecerá muito mais depressa do que o senhor imagina.
— Espere, por favor — gemeu
Crest. Rhodan ergueu-se espantado. Abaixou a arma. Entre o enfermo e a
comandante Thora travou-se uma discussão tão acalorada que ele julgou sua
presença supérflua. Lentamente foi para junto de Bell.
— É a situação mais idiota
que já vi — cochichou este apressadamente. — O que está acontecendo agora? Estão
se devorando uns aos outros? Seria bom que déssemos o fora enquanto é tempo.
Não gosto nem um pouco desses robôs. O que você acha disso tudo?
As perguntas de Bell
saíam-lhe da boca precipitadamente. Tivera que manter-se por muito tempo em
atitude passiva. Rhodan observou atentamente a cena. Depois disse com a voz
sombria:
— Tenho a impressão de que
estão discutindo sobre o nosso destino. Não há dúvida de que esse homem tem
poder e influência. Se não fosse assim a mulher não se humilharia tanto. É um
diabo esta mulher. Ainda não vejo claro. Como é que eles falam perfeitamente a
nossa língua? E o que significa a expressão O Grande Império? Até parece que durante milênios a Humanidade
foi crescendo à margem de acontecimentos extraordinários sem desconfiar de
nada. É uma coisa horrível. Ainda acontece que, provavelmente, esta não é a
única raça inteligente que existe no Universo. Vejo possibilidades imensas.
Continuaremos aqui. Controle-se, meu velho, pelo amor de Deus! Entramos numa
grande jogada, ainda que tudo isto pareça ridículo. Essa gente lida com
concepções totalmente diferentes das nossas. Para eles são perfeitamente
naturais certas coisas que deixariam os estadistas da Terra doentes se alguém
falasse nelas. Temos de tratar com eles de igual para igual. Somos os
representantes da Humanidade, e é meu desejo que essa Humanidade se torne
grande, forte e unida. Você compreende?
— Compreendo perfeitamente —
disse Bell, esticando as palavras. — Mas também sinto o desejo de sobreviver.
— Acho que Crest está tomando
uma decisão importante. Veja só! A mulher paece estar encolhendo. Está cada vez
mais nervosa. Sinto que alguma coisa está acontecendo. Olhe!
A comandante parecia fora de
si. Seus olhos fascinantes adquiriram uma tonalidade vermelho dourada. Crest disse
mais alguma coisa. Falou em tom ríspido e decidido. Após isso ela assumiu uma
posição tão angular que Rhodan pensou que estivesse prestando alguma homenagem.
Interceptou seu olhar
misterioso. Estava muito pálida. Parecia que as palavras de Crest haviam
desencadeado nela um sentimento desagradável. Virou-se subitamente e
desapareceu em companhia dos dois enormes robôs.
Ficaram sozinhos. As duas
criaturas apáticas deitadas nos leitos não contavam; ao menos não contavam para
Perry Rhodan.
Crest caíra sobre o leito;
estava exausto. Inclinou-se sobre o estranho com um sentimento de real
preocupação. Olhando bem de perto; viu que na verdade se encontrava diante de
um homem muito idoso. A lisura da pele era enganadora.
— Tenho um médico excelente na
minha nave — disse apressadamente. — Temos de examinar o senhor e dispensar-lhe
o tratamento adequado. Tenho a impressão de que aqui ninguém lhe pode prestar
auxílio. Há quanto tempo já se encontra no satélite da Terra?
Crest recuperou-se um pouco.
As feições marcadas pelo cansaço descontraíram-se.
— Estou aqui há um período de
tempo que o senhor chamaria de quatro meses — disse baixinho. — Foi um acaso.
Tivemos de realizar um pouso de emergência. Aproveitamos a oportunidade para
aprender a língua principal do seu planeta. O senhor deve achar isso bastante
estranho. Acontece que nossos cérebros são diferentes dos seus. Nossa memória
possui um registro gráfico. Naturalmente ficamos ouvindo as emissões
radiofônicas dos homens. Ainda bem que não pousamos no terceiro planeta. Os
seus habitantes estão na iminência de cometer um crime tremendo contra as leis
universais.
— Sim, é a guerra atômica —
disse Rhodan com a voz aflita. — A situação é muito tensa. Lamento ter que
admitir isso. Garanto-lhe que os homens não desejam a guerra.
— Não a desejam, mas
provocam-na. Foi por isso que fomos de opinião que a raça à qual pertencem os
senhores ainda leva uma vida primitiva. Acontece que mudei de opinião. Os
senhores são jovens, ativos e dotados de uma receptividade extraordinária. Depois
de tê-los observado atentamente, decidi enquadrá-los na escala de evolução D.
Cabe a mim tomar uma decisão desta espécie. Thora foi instruída para introduzir
na memória positrônica a nova classificação da raça dos senhores. Sou o chefe
científico desta expedição. Acho que é este o nome que os senhores dariam ao
meu cargo. Thora é a encarregada da navegação. Os senhores compreendem? Já
conhecem distinções desta espécie no poder de comando?
Rhodan disse que sim. Até que
os homens as conheciam muito bem.
— As declarações dos senhores
guardam relação direta com a lei da classificação das raças promulgada pelo
Grande Império. Os senhores desde que já tenham dado início à conquista do
Universo podem ter seu nível de classificação elevado por decisão de um cientista
autorizado pelo Império. Foi o que fiz. Com isso os argumentos da Thora
acham-se superados. Estamos autorizados a entrar em contato com os senhores.
Sorriu ligeiramente. Nos seus
olhos via-se a expressão de um triunfo silencioso. Rhodan compreendera.
Reginald Bell soube interpretar corretamente a posição rígida que assumira.
Rhodan estava certo de ter dado um passo enorme à frente.
— O senhor está precisando de
auxílio — repetiu. — Deixe-me buscar o nosso médico. Temos de fazer alguma
coisa.
— Deixemos isso para depois.
Escute-me primeiro. Aliás, não acredito que o senhor esteja em condições de
ajudar-me. Embora sejamos parecidos no aspecto exterior, é provável que o
funcionamento do meu organismo seja completamente diferente do seu. A
constituição do nosso organismo também não deve ser a mesma. De qualquer
maneira os senhores estão em conformidade com os requisitos da lei fundamental
do Império. Têm muita semelhança conosco, possuem espírito e conseguiram dar
emprego útil à energia do núcleo atômico, descoberta pelos senhores. Ainda não
cometeram o erro de utilizar essa energia fundamental para sua autodestruição.
Sou um dos principais cientistas do Grande Império, um dos poucos homens que
conservou a força de vontade e a energia vital. A posição de Thora os
surpreendeu?
Bell lançou um olhar triste
para as criaturas imóveis. Ao que parecia, o programa singular tinha mudado.
Subitamente, ouviu-se um furacão de ruídos. As figuras geométricas
modificavam-se muito pouco.
— O motivo é esse? —
perguntou Rhodan em tom sereno. — A decadência da raça, não é?
— É certo. Pelo calendário
dos senhores, minha raça tem alguns milhões de anos de idade. Antigamente,
éramos iguais aos senhores: possuímos espírito de conquista, energia e sede de
saber. Há vários milhares de anos, começou a decadência. O Grande Império
esfacelou-se. Certas inteligências exóticas revoltaram-se contra o nosso
domínio e o reino dos astros começou a oscilar. Sempre fomos soberanos
bondosos, ao contrário das outras formas de inteligência. Agora, chegamos ao
fim. O Império entrou em decadência e a luta pelo poder absoluto está sendo
travada. Mais de cinqüenta raças muito evoluídas travam guerras terríveis nas
profundezas da Via Láctea. Os senhores nada sabem a esse respeito. O Sol fica
muito longe do palco dos acontecimentos, encontra-se num braço secundário da
galáxia.
— O que estão fazendo para
remediar a situação? — indagou Bell.
— Nada. Já não fazemos mais
nada — disse o velho resignadamente. — Tornamo-nos fracos e apáticos. Pertenço
à dinastia reinante de Árcon. Thora, também. Árcon é um mundo que fica a mais
de trinta e quatro mil anos luz daqui. Os senhores contam a distância em
anos-luz, não é?
Rhodan estava espantado. Era
uma distância por demais vasta para que a mente humana pudesse avaliar.
— Quer dizer que os senhores
conquistaram o segredo da viagem espacial a velocidade superior à da luz?
— Claro que já! Isso
aconteceu há algumas dezenas de milhares de anos pelo calendário terrestre.
Conhecemos a Terra há cerca de mil anos. Foi naquela época que fizemos nossa
última visita à região. Depois disso, teve início a decadência dos arcônidas.
As viagens de exploração foram suspensas, as naves espaciais permaneceram nas
respectivas bases. Todos são de opinião que não poderemos escapar à ação de uma
lei natural. É verdade que ainda pensamos e planejamos. No campo puramente
espiritual concebemos planos maravilhosos para a criação de um novo império.
Mas não passamos disso. Falta-nos energia e força de vontade para transformar
em realidade os nossos pensamentos fugazes. Negligenciamos assuntos da maior
importância. A decadência acentua-se cada vez mais; a própria dinastia Reinante
foi atingida. Todos procuram a beleza e a tranqüilidade, desistindo de qualquer
tipo de realização. Estamos muito velhos. Nossas energias desgastaram-se. E...
— os olhos de Crest estreitaram-se — até agora não tínhamos descoberto nenhuma
raça que fosse assim como nós já fomos. Provavelmente os senhores constituem a
exceção maravilhosa. Foi por isso que os elevei na escala da classificação. É
meu direito e meu dever.
Dentro de Rhodan despertou o
cientista. Via diante de si inúmeras indagações e mistérios impenetráveis.
— Pelo que acaba de dizer, os
senhores estão aqui há quatro meses. Por que ainda não decolaram?
Crest confirmou com um gesto
comedido. Seu olhar tornava-se cada vez mais penetrante.
— A pergunta é própria de um
ser inteligente, dotado de uma tremenda energia. Por que ainda estamos aqui? O
pouso de emergência no satélite da Terra foi motivado por uma falha das máquinas.
Ninguém se preocupa mais com a manutenção das nossas naves espaciais. A avaria
é pequena, mas não temos peças sobressalentes a bordo. Simplesmente foram
esquecidas, da mesma forma que tudo quanto é importante costuma ser esquecido.
Ninguém se lembrou. Por isso estamos presos aqui. Ficamos esperando
indefinidamente, e não acontece nada. Minha doença me impede de adotar
pessoalmente as providências necessárias. Temos necessidade premente de peças
sobressalentes. Não acredito que poderíamos obtê-las no mundo a que pertencem
os senhores.
— Poderemos confeccioná-las —
disse Bell. — Basta mostrar-nos como são feitas, e elas lhes serão entregues
dentro de pouco tempo. O senhor não nos deve subestimar. Os maiores cérebros da
Terra trabalharão a todo vapor. Arrancaremos as estrelas do céu, desde que o
senhor nos diga como fazê-lo. A indústria da Terra é uma organização enorme.
Conseguiremos qualquer coisa. Isto mesmo, qualquer coisa.
Estas palavras otimistas
reanimaram Crest.
— Acredito no senhor — disse
em tom exaltado. — Os senhores têm de conquistar Thora. As mulheres da nossa
raça são menos degeneradas que os seres do sexo masculino. É por isso que as
mulheres ocupam tantas posições importantes. Essa situação já existe há
séculos. Antes disso as mulheres só se ocupavam dos afazeres domésticos. O
espírito de Thora ainda é lúcido e penetrante. Major Rhodan, o senhor é o homem
indicado para ela. Thora tem medo do senhor. O fato me surpreende.
Rhodan engoliu em seco. Então
era isso! Bell sorriu. A situação complicara-se ainda mais.
— Não se admirem se me
exprimo em conformidade com as concepções dos senhores — disse Crest. — Há
muito tempo está a meu cargo os contatos com inteligências estranhas. Estou
acostumado a adaptar-me rapidamente à mentalidade de qualquer raça. Dessa forma
a presença dos senhores não foi nenhuma surpresa para mim. É um acontecimento
banal. Os senhores estão profundamente impressionados; chegam a estar
deprimidos. Até aqui ignoravam que não são os únicos seres inteligentes do
Universo. Já tive conhecimento de muitos casos semelhantes. O primeiro contato
com um ser superior sempre causa um choque. Mas os senhores já superaram este
choque.
— O que está fazendo essa
gente? — indagou Rhodan com a voz abafada. A música estranha mudara de novo. Transformara-se
num tipo de murmúrio persistente.
Crest virou a cabeça num
gesto cansado.
— É o conhecido jogo do
simulador, que influiu decisivamente na decadência do espírito e da vontade dos
seres da nossa raça. Bilhões de arcônidas passam os dias deitados diante das telas
de imagem. Trata-se de jogos fictícios. Cada um deles foi concebido por um
profissional diferente. São muito complicados. Representam a ilustração visual
e acústica dos pensamentos. Os seres da minha raça não se interessam por mais
nada. A coisa está cada vez pior. A bordo desta nave só há cinqüenta pessoas.
Raramente chego a vê-las. Quando isso acontece estão deitadas diante das telas
de imagens fictícias, perdidas no seu enlevo. Nossa decadência nada tem que ver
com relaxamento dos costumes. Decorre da debilitação total da vontade. Tudo nos
deixa indiferentes. Nada nos excita, nada nos interessa. A obra de qualquer
artista novo sempre tem a precedência. Todo mundo anda tão ocupado que se
apressa em gozar com a maior rapidez as delícias da criatividade artística.
— Que dizer que deixaram o
senhor jogado aqui por quatro meses? — disse Rhodan, revoltado no seu íntimo. —
Não fizeram qualquer tentativa de encontrar algum remédio? Para os seres da sua
raça isso devia ser fácil.
— Seria fácil se alguém se
animasse a agir. Temos a bordo medicamentos em quantidade suficiente. Acontece
que fui acometido de uma enfermidade ainda desconhecida entre nós. Haveria
necessidade de exames e pesquisas. Estas, porém, exigiriam tempo, esforço e
trabalho intenso. E isso não é possível. Nesta nave encontram-se artistas de
renome, que constantemente criam novas obras fictícias. A tripulação de robôs
mantém a ordem na nave. O pouso de emergência dos senhores também foi obra
desses mecanismos automáticos. Decorreu do funcionamento normal dos
dispositivos de segurança. O cérebro positrônico constatou que não devíamos
manter contato com os senhores. Por isso ligou as chaves correspondentes. É
muito simples.
— Muito simples! — gemeu
Rhodan. Sentia-se tomado por uma perturbação terrível. — O senhor considera
simples coisas que para nós soam como contos de fadas. A propósito, o que
significa a palavra positrônico? Nós dispomos de computadores eletrônicos cuja,
capacidade é enorme. Mas um positron
é uma coisa muito efêmera.
Crest riu. Nos seus olhos
surgiu uma expressão que parecia: ser de piedade paternal. Bell engoliu uma
palavra áspera.
— O senhor acabará
compreendendo. Não estamos mais em condições de decolar. Será que poderei
contar com o seu auxílio?
Subitamente Rhodan voltou a
transformar-se no comandante — e também num homem. Os efeitos da surpresa
imensa haviam passado. Começou a refletir com a precisão fria de uma máquina.
— Os últimos comunicados dos
nossos serviços secretos revelam que só através dos esforços mais intensos
poderá ser evitada a irrupção de uma guerra entre o mundo ocidental e as
potências da Federação Asiática, cujas conseqüências certamente seriam
terríveis. Não posso explicar em pouco tempo o motivo por que será difícil
evitar essa guerra. No fundo esse motivo deve ser procurado nas diferenças
ideológicas. Provavelmente o senhor não conhece nada disso. Acontece que na
Terra prevalecem estas condições. Desejo formular uma pergunta clara.
Crest soltou um suspiro
profundo.
— Uma pergunta clara! — repetiu.
— Desde a minha juventude não ouço uma formulação dessas. Entre nós ninguém
mais faz perguntas claras. Por obséquio, diga o que deseja.
— O senhor dispõe de meios
para impedir um conflito arrasador com armas atômicas? Em caso afirmativo, que
meios são esses?
— De que tipo seriam as armas
atômicas? — perguntou Crest bastante interessado.
— São de duas espécies. Numa
espécie é usado o processo de desintegração nuclear, noutra a reação
termonuclear.
— O processo de desintegração
pode ser impedido por meio da absorção completa dos nêutrons liberados. Conheço
o processo primitivo da desintegração nuclear, que é muito antigo. Na ausência
das partículas que os senhores chamam de nêutrons o mesmo não é possível.
— Perfeitamente. Sabemos
disso, mas não temos meios para conseguir a absorção dos nêutrons. E que tal as
termonucleares, como as bombas de hidrogênio?
— Também se trata de um
processo antiqüíssimo, que já não é utilizado entre nós. O dispositivo
antineutrônico não serve para impedir a fusão nuclear.
— É verdade. Acontece que por
enquanto entre nós só se conhece a chamada ignição quente. Todas as potências
da Terra dependem de um dispositivo de ignição térmica baseado na desintegração
nuclear para desencadear a reação da carga de hidrogênio das grandes bombas. Na
falta da carga nuclear que fornece o impulso térmico inicial jamais se
conseguirá a fusão dos prótons mais leves.
— Vejo que o senhor é
cientista. Muito bem. Garanto que essas armas falharão totalmente, desde que
ainda funcionem com o processo de ignição primitivo. Para isso basta um pequeno
aparelho.
— Para toda a Terra? —
indagou Rhodan surpreso.
— A Terra é um planeta
pequeno, e nossa nave representa um poderio tremendo. Conseguiremos.
Rhodan engoliu
desesperadamente em seco. Não tinha coragem de fitar os olhos arregalados de
Bell. O técnico sentia-se aturdido. Aquele estranho falava de todas essas
maravilhas com a mesma desenvoltura que um menino da Terra demonstraria ao
conversar com coleguinhas sobre seus brinquedos.
— Nesse caso, valerá a pena
levá-lo à Terra para ser tratado. Mas é necessário que o Dr. Manoli o examine
imediatamente. Ele descobrirá a natureza do seu mal. Quem sabe se, oferecendo
alguns dados sobre a estrutura do seu organismo e sobre o seu metabolismo, o
senhor pode facilitar-lhe o diagnóstico. Na minha opinião, seria conveniente
que ele estivesse a par de tudo.
— Partiremos com o veículo
blindado — disse Bell com a voz inquieta. — Santo Deus! Se não chegarmos a
tempo Fletcher apertará o botão de decolagem. Será o diabo!
— Não é necessário que vá até
lá — disse Crest em voz baixa. — Fale com Thora. Major Rhodan, o senhor ainda
não sabe do que somos capazes.
VII
O Capitão Fletcher tremia
como vara verde. Apavorado, passou os olhos pela sala circular daquela nave
imensa.
Thora observava-o com uma
expressão de ironia nos olhos. O Dr. Eric Manoli desaparecera logo.
Precipitara-se sobre Crest com o verdadeiro entusiasmo de um pesquisador. Havia
mais alguns homens na sala. Ofereciam um aspecto desajeitado que inspirava
compaixão, muito embora, segundo as informações de Crest, se contassem entre os
indivíduos mais ativos daquela raça.
Rhodan, todavia, teve a
impressão de que todas as partículas daqueles seres debilitados ansiavam apenas
pelo próximo programa fictício. Embora envergassem o uniforme do Grande
Império, pareciam pensar exclusivamente nas telas simuladoras.
Era este o aspecto dos
descendentes de uma raça cósmica outrora poderosa. Seria difícil imaginar que
os antepassados daqueles seres haviam fundado um império galáctico.
Rhodan não acreditava que uma
colonização desse tipo tivesse sido levada a efeito sem sangue e lágrimas. Mas
tudo isso pertencia ao passado. Encontravam-se diante dos restos de um grande
povo, cujo legado técnico-científico já não poderia ser aproveitado. A
lembrança da operação de resgate causava
vertigens em Rhodan.
Thora estivera sozinha na
sala de comando apinhada de aparelhos, cuja profusão era perturbadora para ele.
Rhodan não contava os numerosos robôs, embora afinal eles tivessem realizado
todo o trabalho.
Fletcher quase enlouquecera
quando a Stardust foi erguida
por uma força apavorante. Sentia arrepios ao lembrar-se de tudo aquilo.
— Foi terrível — disse com a
voz abafada. — Nossa solidão já se tinha tornado quase insuportável. Eric e eu
nos revezávamos no serviço de guarda. Contávamos sempre com o aparecimento
repentino de alguma patrulha asiática. E vivíamos pensando em vocês e na
mensagem radiofônica que pretendiam enviar. De repente começaram os solavancos.
Alguma coisa levantou a nave como se fosse uma pena. Não vimos nem ouvimos
nada. Tomado de pânico, liguei a chave de partida. Dei a força de empuxo
máxima, sem utilizar o dispositivo automático. Foi em vão. Subitamente o reator
deixou de funcionar, e lá se foi todo o empuxo. A Stardust foi arrastada por cima da cratera. Logo depois vimos a
nave gigantesca. A essa altura nos pousaram com tamanha delicadeza que mal
sentimos um ligeiro solavanco. Fiquei feliz quando vi a cara de Bell. Será que
vocês têm mais alguma surpresa para nós?
Sim, havia mais uma surpresa.
Em termos lacônicos, Thora deu explicação do fenômeno. Tratava-se simplesmente
da criação de um campo energético destinado à movimentação de objetos dotados
de estabilidade material. Era um procedimento corriqueiro em Árcon.
Escolhera cautelosamente as
palavras, mas não conseguira disfarçar a ironia. Ainda não se esquecera.
Provavelmente não conseguiria esquecer tão depressa. Para ela os homens
continuavam a ser criaturas subdesenvolvidas. Só mesmo a situação difícil em
que se encontravam justificava a cooperação com os mesmos. Era por isso que ela
os tinha aceito, mais nada.
Encontravam-se numa pequena
ante-sala, à espera do Dr. Manoli. Este conseguira material gráfico suficiente
para formar uma idéia sobre a construção do organismo de um arcônida. De
qualquer maneira, Rhodan tinha certeza de que Manoli teria de enfrentar um
problema médico excepcional. Certamente surgiriam inúmeras dificuldades. Não se
poderia esperar que qualquer médico terreno conseguisse familiarizar-se com um
organismo totalmente estranho num verdadeiro golpe de prestidigitação.
Tratava-se de um objeto de estudo completamente distinto. E ainda havia a
considerar os enormes perigos que poderiam resultar de qualquer espécie de
tratamento.
A intervenção do médico
representaria um jogo arriscado, que envolveria a vida daquele ser. Ninguém
poderia prever como o mesmo reagiria aos medicamentos usados na Terra.
De qualquer maneira poderia
confiar no discernimento de Manoli. Se não houvesse possibilidade de auxílio
imediato teriam de recorrer às maiores inteligências da Terra. Rhodan estava
decidido a fazer trabalhar toda a indústria farmacêutica do planeta a pleno
vapor, se isso fosse necessário. Essa criatura tinha de ser salva. Pouco
importava como.
O
Doutor Manoli desaparecera há dez horas. Ninguém poderia prestar-lhe ajuda.
Nenhuma das outras pessoas que se encontravam a bordo da nave era médico. Thora
parecia cada vez mais inquieta. Percebia que se encontrava numa encruzilhada
decisiva da sua existência. Suas idéias sobre as possibilidades de
desenvolvimento da raça humana ainda eram muito confusas.
Rhodan
observou-a bastante preocupado. Ela se esforçava para ocultar a angústia que a
roia atrás de uma ironia causticante e uma generosa condescendência. Sentia,
porém, que aquele homem alto, cujos olhos cintilavam numa expressão de ironia,
percebia o que se passava no seu interior.
Tudo
seria simples para Thora se aquelas inteligências estranhas não tivessem o
mesmo aspecto dos indivíduos da sua raça. Assim, porém, a situação a perturbava
e deprimia, colocando-a numa posição embaraçosa. Saberia lidar sem quaisquer
dificuldades com criaturas que não tivessem a aparência humana. Aqui, porém, o
caso mudava de figura. Sentia a vontade firme de Rhodan, que não queria ceder
um palmo sequer. Fazia questão de ser aceito, de ver reconhecida sua qualidade
de ser inteligente. Arrogava-se o direito de comparar-se a ela, que era uma
arcônida. Esse fato quase chegou a desencadear nela uma tormenta interior.
Subitamente teve consciência da posição excepcional que a raça humana ocupava
no Universo. Antes disso ninguém adotara diante dela uma atitude tão franca e
desafiadora. Estava acostumada a ver todo mundo humilhar-se, reconhecendo sem
qualquer restrição o seu poder imenso. Tudo isso parecia não atingir aquele
homem. Ele a fez ferver de raiva com seu sorriso impertinente. Depois tratou-a
como uma criatura tola. Thora estava fora de si.
Ficou
rígida quando Rhodan voltou a aproximar-se dela. Seu olhar furioso foi
retribuído com um amável aceno de cabeça. Será que ele não percebia nada, ou
não queria perceber? Tudo indicava que não queria perceber. Tal atitude a
assustou.
—
Tenho outra pergunta bem clara — disse Rhodan. — Ou melhor, meu espírito está
ocupado com certo problema. Diga-me uma coisa. No seu mundo existe qualquer
meio de pagamento, isto é, dinheiro ou qualquer outro instrumento de troca?
— É
claro que o intercâmbio comercial entre mais de dez mil planetas habitados não
poderia prescindir de meios de pagamento — respondeu Thora em tom irônico.
— Muito bem — disse Rhodan
com um sorriso. — Terei de levar Crest para a Terra. A bordo do nosso foguete
minúsculo não temos os medicamentos de que precisamos, nem os instrumentos
necessários aos exames. Talvez haja necessidade de uma operação. O que pode
oferecer em pagamento? Títulos de crédito ou dinheiro dificilmente nos
interessariam, pois não saberíamos o que fazer com isso. O que tem para
oferecer, portanto? Que tal algum material sintético valioso? Alguma substância
artificial ou coisa que o valha?
— Levamos a bordo bens de
troca normais para os mundos em desenvolvimento dos níveis C e D. Trata-se de
máquinas-ferramentas que dispõem de suprimento de energia próprio, comando
integral por robô e garantia de funcionamento de oitenta anos pelo calendário
terrestre. Existem máquinas para todos os tipos de atividade econômica. Ainda
posso oferecer equipamentos micromecânicos, tais como aparelhos portáteis para
a procura de elementos químicos, a reforma do solo, a neutralização da
gravidade com vistas ao transporte aéreo individual e...
— Pare, senão acabo
endoidecendo — gemeu Fletcher. — Isso é uma loucura. A Terra ficará de pernas
para o ar. Os homens se matarão por essas máquinas milagrosas.
— Isso não é comigo. Para as
inteligências primitivas só tenho objetos inofensivos.
— E o que tem para oferecer
às tais inteligências verdadeiras? — indagou Rhodan. — Está bem! Deixemos
disso. Posso imaginar. Faça o favor de providenciar para que a Stardust seja abastecida. Ponha na
nave tudo aquilo de que Crest vai precisar. E — interrompeu-se — faça o favor
de não esquecer aqueles aparelhos especiais. Acho que a senhora ainda se lembra
da nossa palestra.
Thora observou-o atentamente.
Um sentimento de respeitosa aceitação começou a surgir no seu íntimo.
— Sabe que está arriscando
sua vida? Compreendo os seus motivos. Acho que faz bem. Só penso nas reações
bárbaras dos seres sub... isto é...
— Pode pronunciar a palavra
sem susto — disse Rhodan com um sorriso. — Isso não me atinge mais. Nesta
altura vejo em você alguém indeciso que já não sabe bem o que diz. Esqueçamos
isto. Peço-lhe que comece imediatamente com o carregamento. Retire tudo que se
encontra no porão de carga da Stardust.
Tenha cuidado para que não sejam colocadas mais de sessenta toneladas de
carga útil. O pouso será difícil. Aliás pensando melhor, quem sabe se não quer
nos ceder uma das suas grandes naves auxiliares? Com ela atingiríamos a Terra
dentro de uma hora.
— Dentro de cinco minutos —
corrigiu Thora. — Lamento, mas minha boa vontade não chega a esse ponto. Só
mesmo Crest e alguns dos aparelhos que se encontram nesta nave poderão tocar o
solo da Terra. Não posso proceder de outra forma. Tenho de ater-me às
instruções.
— Crest colocou-nos numa
classificação mais elevada.
— Foi sorte sua. Se não fosse
assim nem poderíamos conferenciar com os senhores. Assim mesmo, não posso
enviar qualquer nave auxiliar à atmosfera terrestre. O cérebro positrônico não
iria cooperar. E não posso modificar a regulagem do robô gigante. Nossa missão
era outra.
— Qual era? — perguntou
Rhodan com uma sensação desagradável.
— Lamento mais uma vez. De
qualquer maneira não pretendíamos pousar aqui. Nosso destino era outro. Ficava
a alguns anos-luz de distância.
O Dr. Manoli apareceu. Estava
pálido e esgotado. Sua saudação parecia um gesto de recusa.
— Não façam perguntas. Foi
mais que cansativo. Diferem de nós menos do que eu temia. A disposição dos
órgãos é bem compreensível se bem que seja diferente da nossa. O esqueleto
também não é igual ao nosso. Todavia, possuem sangue idêntico ao humano.
Trata-se de um caso de leucemia. O hemograma prova-o com absoluta certeza.
Vali-me de todas as possibilidades que nosso laboratório de bordo oferece. Há
dois anos conseguimos produzir o soro anti-leucêmico. Até então a doença era
incurável. Agora só me resta fazer votos para que Crest reaja ao nosso soro.
Talvez o resultado seja catastrófico. Digo talvez; não tenho certeza.
Biologicamente, os arcônidas se parecem muito conosco. Tenho plena certeza de
que é leucemia...
Rhodan voltou a sobressaltar-se.
Thora, toda assustada, perguntou quais eram as causas da moléstia. Subitamente
perdera seus ares de superioridade.
— Comece logo! — disse Rhodan
em tom áspero. — Não faça perguntas. Comece com o carregamento da nossa nave.
Está em cima da hora. O diabo que carregue todos os dorminhocos da sua raça.
Pouco me importa que não goste da expressão. É uma vergonha que inteligências
superiores se entreguem a um divertimento de loucos. Para um ser humano tal
atitude seria inconcebível. Comece logo! Ou será que não se preocupa com a
saúde de Crest?
Thora refletiu um pouco.
Depois respondeu num tom inexpressivo:
— Há pouco o senhor perguntou
o que estávamos procurando nesta região do espaço. Pois eu lhe direi. Estamos
empenhados em conservar nossos grandes espíritos. Não conseguimos realizar a
manutenção da vida biológica. Apenas alcançamos alguns êxitos parciais. Fui
incumbida de ir a um planeta descoberto numa expedição anterior, cujos
habitantes conhecem o segredo da conservação biológica das células. Crest é uma
das personalidades mais importantes da nossa raça. Além disso, não foi atingido
pela decadência geral. Salve-o! Tome qualquer medida que seja concebível.
Dar-lhe-ei todo o apoio. Ouça bem, major Rhodan: todo o apoio. Olhe que isso
significa alguma coisa! Caso haja qualquer dificuldade, uma chamada pelo
transmissor especial basta. Seguirei suas recomendações à risca. É bom que
saiba que o poder dos governantes terrenos não passa de um nada ridículo, que
posso varrer para todo o sempre, apenas ligando uma chave. Com esta nave
poderia destruir todo o sistema solar. Um único dos meus canhões energéticos
bastaria para transformar um continente inteiro num oceano incandescente de
rochas derretidas. Lembre-se disso e avise-me assim que precisar de qualquer coisa.
Saiu sem dizer mais nada. O
rosto do capitão Fletcher apresentava uma palidez cadavérica.
— Mesmo que nunca tivesse
acreditado em nada, aceitaria isto aqui como verdade pura — disse. — Santo
Deus, onde é que fomos parar? E o que vai sair de tudo isto? Washington ficará
de pernas para o ar.
— Talvez não! — objetou Bell, esticando as
palavras de tal maneira que Fletcher estremeceu.
— Por que diz isso?
— Por nada.
Bell fitou os olhos vidrados
no seu comandante. Quando Fletcher se dirigiu ao Dr. Manoli, Reginald Bell
indagou, esticando ainda mais as palavras:
— O que há com você, meu
velho? Alguma coisa não está em ordem, não é mesmo? Qual foi a conversa secreta
que teve com Thora?
— Quem sabe não lhe fiz uma
proposta de casamento — respondeu Rhodan ironicamente. Seu olhar era uma
advertência. Voltou a ter os olhos de um conquistador implacável. Ao menos foi
essa a impressão de Bell.
— Alguma objeção?
Não, o Capitão Reginald Bell
não fez mais nenhuma pergunta. Pelo contrário. Ficou muito calado. Os robôs passaram
ao seu lado. A Stardust foi
carregada com todo cuidado com objetos tirados do gigantesco arsenal da nave
esférica. Tratava-se de instrumentos, cujo peso total era de 60,3 toneladas;
esse peso foi calculado segundo as condições existentes na Terra.
Rhodan entrou na sala em que
se encontrava Crest. Com um sorriso animador disse:
— Estamos de partida.
Infelizmente, Thora continua a recusar-se a colocar uma nave auxiliar à nossa
disposição. Não se poderia fazer alguma coisa? Na Stardust seu organismo estará sujeito a tensões consideráveis.
Ainda não descobrimos nenhum meio para neutralizar a força da inércia. Por isso
a energia resultante na aceleração será muito elevada.
— Não tenho nenhum meio de
influir nesse tipo de decisões. Todavia, os senhores não sofrerão mais os
efeitos da inércia. Teremos um neutralizador a bordo. Não sentirão
absolutamente nada.
Rhodan voltou a engolir em
seco. Compreendeu que já estava na hora de perder o hábito de ficar admirado.
Ao que parecia os arcônidas conseguiram realizar tudo aquilo que para a ciência
terrena ainda se situava no terreno longínquo e nebuloso dos problemas
insolúveis.
VIII
— Eles conseguiram, eles conseguiram!
Estas palavras foram
repetidas sem cessar. O general Pounder, chefe do Comando de Pesquisa Espacial
e Diretor do campo de Nevada Fields parecia não saber outras. Não tirava os
olhos da grande tela do radar.
Depois de quatorze horas de
viagem, a Stardust mergulhara
nas camadas superiores da atmosfera terrestre. Estava iniciando a terceira
órbita elíptica de frenagem.
Ainda no espaço vazio
conseguira reduzir sua velocidade para cinco quilômetros por segundo. A
experiência havia demonstrado que as previsões sobre o desempenha do novo
mecanismo propulsor químico nuclear não foram exageradas. O estoque de material
irradiante de que ainda dispunha permitiu manobras que teriam sido completamente
impossíveis se a nave trabalhasse com algum combustível químico.
Pouco antes de chegar às
primeiras moléculas de ar o curso da nave foi alterado Os dispositivos automáticos
não apresentavam qualquer defeito; funcionaram com a maior precisão. Ao que
tudo indicava, não havia a menor possibilidade da ocorrência de outra pane.
O comunicado em que o major
Rhodan explicou as causas do seu longo silêncio parecia um pouco estranho.
Segundo declarou através da radiofonia, teriam surgido problemas nos comandos
do mecanismo propulsor. Acrescentou que só depois do pouso poderia fornecer
dados mais detalhados.
Fazia alguns segundos que a Stardust voltara a penetrar no campo
atingido pelos instrumentos de medição das estações do Alasca e da Groenlândia.
Encontrava-se a uma altitude de apenas 183 quilômetros , a
sua velocidade era pouco superior a 800 quilômetros por
hora.
Pounder virou-se contrariado.
O homenzinho dera notícia da sua presença através de um pigarro.
O chefe do Serviço Secreto da
Otan, Allan D. Mercant, não se deixara convencer a sair da estação central de
comando. Sabia que estava incomodando, mas esse fato não incomodava a ele.
Surgira repentinamente há
três horas. Seus acompanhantes tinham se retirado em silêncio. Após isso os
tanques da 5.a Divisão dos Estados Unidos surgiram inesperadamente.
Em nenhuma outra oportunidade a base de Nevada Fields fora bloqueada de forma
tão completa.
Além disso, aterrissaram
enormes aviões de transporte com tropas de elite. A Divisão de Defesa Interna
da Polícia Federal destacara seus melhores elementos para a missão. Um
contingente enorme de tropas e de armamento pesado aguardava o pouso da Stardust.
O general Pounder ficara
furioso. Allan D. Mercant exibiu o sorriso amável de sempre.
— Sinto muito, general. Foi o
senhor mesmo que fez rolar a avalanche. Gostaria de saber o que aconteceu
realmente com aquela nave. As informações do comandante parecem um pouco
estranhas, não acha?
— Para isso não seria
necessário mobilizar uma divisão inteira com dez mil homens — berrou o general
Pounder.
O Chefe do Serviço de Defesa
só podia lamentar o ocorrido. Na sua opinião era necessário. Por um instante
Pounder pensara em avisar os quatro pilotos pela radiofonia. Todavia, isso não
foi possível porque, subitamente, alguns homens à paisana surgiram na sala de
rádio.
Pounder não sabia o que
pensar de tudo isso. Os técnicos e os cientistas estavam nervosos. O chefe
militar do serviço de segurança do campo espacial de Nevada tinha sido posto
fora de combate por algum tempo.
— O que deseja desta vez? —
disse Pounder nervoso. — Não está vendo que a Stardust vai pousar segundo as previsões?
— Acontece que não vai —
observou Mercant. Seu sorriso jovial desapareceu. — Está havendo um desvio do
curso. Veja. O que significa isso, general?
Pounder virou-se
apressadamente. No mesmo instante soou o comunicado inquietador do comando
remoto. Lâmpadas acenderam-se, o zumbido cessou.
— Contato interrompido —
ouviu-se a voz metálica. — Piloto assume comando manual do foguete.
— Será que Rhodan ficou
doido? — berrou Pounder fora de si. Saltou em direção ao microfone. Não se via
nada na tela de radar. Até isso Rhodan havia desligado.
— Rhodan, é o general Pounder
que está falando. Que é isso? Por que interrompeu o contato com o controle
remoto? Responda, Rhodan!
Não houve resposta. O general
empalideceu. Sem saber o que fazer, fitou o chefe do serviço secreto que ia se
aproximando. Allan D. Mercant perdera todo o senso de humor. Seus olhos azuis
faiscavam numa fúria incontida.
— Está vendo? — disse em tom
frio. — Bem que eu desconfiava. Alguma coisa não está em ordem. Preveni a
Defesa Aeroespacial. Se Rhodan não mudar de rumo imediatamente mandarei abrir
fogo. Convém explicar-lhe que na altitude em que se encontra será alvo fácil
para nossos artilheiros.
No mesmo instante, o sinal de
alarme da Stardust começou a se
fazer ouvir nos receptores. Era um SOS comum, que nem sequer estavam sendo
transmitidos em código. Os sinais voltaram a se repetir. Os homens olhavam-se
atônitos. Por que Rhodan transmitia o sinal internacional de perigo? Havia
muitas possibilidades de dar notícia de uma situação real de emergência.
Poderia utilizar a radiofonia. Por que transmitia o SOS, e isso na freqüência
internacional?
Allan D. Mercant começou a
agir. Mandou que fosse dado o sinal de alarme continental.
Os homens da defesa anti-foguete,
que há várias semanas se encontravam em alerta de primeiro grau, correram para
as posições de combate. Naquele instante, a Stardust estava sobre a península de Tainir, situada no norte da
Sibéria. Prosseguia em velocidade inalterada.
Depois, modificou, novamente,
seu curso e, irradiando sem cessar o sinal de perigo, Rhodan dirigiu-se para o
sul. Sobrevoou a Sibéria.
O quartel-general do
comandante supremo do Oriente revogou no último instante a ordem de abrir fogo.
Percebera que se tratava da Stardust, uma
nave inofensiva. A mão de um operador afastou-se de uma chave vermelha. Por
pouco, sete mil foguetes de longo alcance com carga atômica teriam subido ao
céu.
Era a situação típica em que
a guerra poderia ter sido desencadeada em virtude de um mal-entendido. O
marechal Petronsky estava olhando as telas das estações de raios infravermelhos
sem dizer uma palavra. Numa viagem louca, a Stardust prosseguia pelo espaço aéreo siberiano em direção ao
sul. Estava perdendo altitude. Os computadores calcularam o local provável de
pouso. Se a nave americana prosseguisse no mesmo rumo e continuasse a descer
com a mesma velocidade, tocaria o solo junto à fronteira entre a Mongólia e a
China, no deserto de Gobi. Embora tivesse sido fácil derrubá-la, o marechal
Petronsky, calculista frio, preferiu não iniciar nenhum ataque.
As emissoras do
quartel-general começaram a funcionar. As ordens eram enviadas pelo próprio
marechal.
O comandante do 22o
Exército da Sibéria recebeu instruções detalhadas. Alguns minutos depois, os
comandantes de divisão recebiam ordens mais específicas. Os contingentes da 86a
Divisão Motorizada de Fronteira, sediada na região de Obotuin-Chure e junto ao
lago salgado de Goshun, sairiam dos quartéis. A 4a Divisão Aerotransportada
da Mongólia, que se encontrava sob o comando do general Chudak, ficou de
prontidão.
Em poucos instantes, o
marechal Petronsky tomara todas as providências que estavam ao seu alcance para
capturar a nave lunar americana, desde que ela tocasse o solo em território
mongólico.
Problemas sérios poderiam
surgir se a nave pousasse do outro lado da fronteira, em território da
Federação Asiática. O marechal pediu, imediatamente, uma ligação com Moscou. E
sua exposição foi concluída com estas considerações:
— ...e é de se supor que os
dispositivos eletrônicos de bordo tenham sofrido uma falha séria. Não há dúvida
de que a Stardust vem sendo
dirigida manualmente pelo piloto da Força Espacial. Tal conclusão resulta da
interpretação dos dados relativos à localização da nave. Desisti do envio de
caças rápidos de longo alcance. Sou de opinião que se aguarde o pouso da nave
antes que quaisquer medidas sejam tomadas. Peço que me sejam delegados plenos
poderes para agir conforme as circunstâncias exigirem.
Petronsky obteve os plenos
poderes por ele solicitados. Mas não contava com a habilidade do major Rhodan.
Logo após ter reingressado na
atmosfera terrestre, a nave passou a funcionar como um planador de linhas
bastante aerodinâmicas. As enormes asas triangulares sustentavam o seu peso. À
medida que o ar se tornava mais denso, os lemes de direção funcionavam cada vez
melhor. O atrito do ar foi reduzindo a velocidade ainda bastante elevada.
Todavia, esse tipo de operação de pouso exigia a penetração gradual na
atmosfera. A temperatura externa nas asas e no nariz da nave estava ao redor de
870 graus centígrados.
O transmissor automático
continuava emitindo o sinal SOS na faixa internacional de freqüência reservada
para situações de emergência. Rhodan conseguira o seu objetivo com aquele
procedimento: os países sobrevoados, não abririam fogo contra a nave. Era claro
que todas as potências orientais estavam vivamente interessadas em examinar
detalhadamente a Stardust e,
para isso, era necessário que a nave fosse capturada intacta. Os destroços
calcinados não seriam úteis para ninguém.
Perry Rhodan pousou a nave na
área extensa e pedregosa situada junto ao lago de Goshun, no norte da China. O
lago era salgado, mas o rio Morin-Gol despejava nele água doce. O local ficava
no centro do inóspito deserto de Gobi, um pouco ao sul da fronteira com a
Mongólia, exatamente a 102 graus a leste de Greenwich e 38 graus a norte do Equador.
Rhodan fez com que a Stardust aterrissasse como um avião.
Os gigantescos pneus especiais garantiram um pouso suave. Depois de alguns
instantes, o nariz afilado da nave apontava para o rio Morin-Gol, que se
encontrava bem próximo.
O zumbido penetrante dos
dispositivos automáticos de aterrissagem cessou. Rhodan tirou as mãos do manete
de direção. Uma vez superados os perigos que a manobra de reingresso trazia
consigo, o pouso foi fácil.
Com um movimento rápido,
Rhodan se libertara do leito dobrado em forma de poltrona e pegou a arma que
trazia.
Fletcher, surpreso, fitava o
cano da arma automática. Bell ficou imóvel na sua poltrona, assim como o Dr.
Manoli. Crest, preso à quinta poltrona pelo cinto de segurança, assistia a tudo
com o mais vivo interesse.
Quando a nave começou a mudar
de rumo, Fletcher pôs-se a esbravejar numa fúria e num desespero incontidos. No
entanto, não conseguira libertar-se da poltrona pois Rhodan ligara o
dispositivo da segurança que bloqueava os cintos de segurança. Num esforço desesperado,
Fletcher procurou imediatamente alcançar o depósito de armas que se encontrava
atrás dele.
— Não faça isso, Fletcher! —
advertiu Rhodan. — Estamos em casa. Se eu fosse você não me arriscaria a tanto.
Fletcher fitou-o. Tinha o
rosto pálido. Seus lábios tremiam.
— Será que ouvi bem? Você
disse que estamos em casa? — disse com um tom irônico na voz.
Depois, com uma gargalhada
estridente, completou:
— Seu traidor sujo! Você
pousou no centro da Ásia. Certamente planejou isso há muito tempo. Se não fosse
assim não teria dirigido a nave para esta região. Foi você que fixou o curso.
Então é isso! Quer entregar a nave aos chineses. Há quanto tempo foi concebido
esse plano imundo? Quanto o piloto-chefe da Força Espacial dos Estados Unidos
vai receber pelo trabalho? Eu...
— Cale a boca, Fletcher, e já!
— interrompeu-o Rhodan, que empalidecera. Um brilho ameaçador surgira nos seus
olhos.
— Fletcher, você pode ir
embora quando quiser; ninguém o impedirá. Poderá ver seu bebê. Eric terá muita
coisa a contar aos seus filhos. Mas nunca me apontem como um traidor.
— Por que você aterrissou
aqui? — indagou Bell com a voz calma. Exibia um sorriso gélido. Estreitou os
olhos. O capitão Bell ainda duvidava. Mas a arma que Rhodan estava segurando
representava um fator que não podia ser desprezado.
— Só quero que vocês me ouçam
por um instante — disse Rhodan em tom enfático. — Nunca pratiquei qualquer ato
sem que tivesse um motivo. Desta vez também tive razões para agir como agi.
— Ah, é? — gemeu Fletcher num
tom de desespero. Fez um esforço tremendo para libertar-se dos cintos
magnéticos. — Você nos traiu. Obrigou-nos a entrar no jogo.
— É claro que sim — confirmou
Rhodan em tom indiferente.
Crest sorria. Conhecia as
intenções de Rhodan.
— A esta altura vocês já
deviam compreender que a Stardust se
transformou num objeto secundário, verdadeiramente insignificante. Mesmo que
caísse nas mãos dos chineses, esse fato não passaria de uma piada. Na Lua
existe uma nave, cujos ocupantes nesta altura são as únicas pessoas que hoje em
dia ainda podem ser consideradas importantes. A Stardust desempenha um papel secundário, embora em Moscou,
Pequim e mesmo em Washington ainda se acredite que é a maior maravilha do
mundo. Os homens mantêm tal opinião simplesmente porque ignoram a situação real.
Se os dirigentes do nosso país tivessem uma idéia do que vimos na Lua,
deixariam esta nave de lado como refugo. O que importa é tão-somente o ser
inteligente que trouxemos até a Terra. Crest é o único que conta, pois
representa uma ciência infinitamente superior à nossa. Trouxe até a Terra o
conhecimento dos mistérios mais recônditos da natureza. Os dados armazenados na
sua memória fotográfica permitem que do dia para a noite nossa navegação
espacial dê um salto de cinco mil anos. Vocês devem reconhecer que já não é a Stardust que importa. O que importa é
Crest, são aquelas inteligências estranhas da nossa galáxia, e é finalmente a
harmonia da Humanidade a que pertencemos. Para mim todos os habitantes da Terra
são homens, seja qual for a cor da sua pele, a fé que professam ou a ideologia
que preferem. Aqueles que sempre persistem no erro terão de despertar, os
homens de boa vontade respirarão aliviados. Se entregássemos Crest a qualquer
nação estaríamos cometendo o maior erro da História.
Fletcher virou a cabeça.
Parecia desolado.
— É provável que a esta
altura o campo de Nevada Fields esteja bloqueado pelas forças de segurança. Os
nossos dirigentes não são tolos. Já devem ter chegado à conclusão de que vimos
alguma coisa extraordinária na Lua. Os governantes orientais, porém, ainda são
de opinião que ocorreu um simples pouso de emergência. Crest é portador de uma
cultura antiqüíssima e conhecedor absoluto de uma ciência altamente evoluída.
Nem penso em atirar uma pessoa dessas nos tentáculos de um serviço secreto.
Sejamos sinceros! Se tivéssemos aterrissado segundo as previsões, Crest já
estaria sendo mantido em regime de incomunicabilidade. Nem poderia deixar de
ser assim. Seria tratado com toda cortesia, gentileza e deferência, mas nem por
isso deixaria de ser um prisioneiro. O próprio Crest impôs a condição de poder
agir com absoluta liberdade. Representa o terceiro poder da Terra. Está doente
e precisa de auxílio. Julgo que é meu dever defendê-lo de quaisquer
dificuldades desse tipo. Sua própria condição de ser estranho e inteligente
confere-lhe direito à liberdade. E é natural que espere um tratamento decente.
Pouco importa o lugar em que pousássemos. Qualquer das grandes potências da
Terra ficaria ávida para assenhorar-se do seu saber estupendo, procurando
utilizá-lo em seu benefício. Estou convencido de que a concentração de todo
esse saber nas mãos de um dos blocos de poder não reverteria em benefício para
maior parte dos homens. Sua presença em qualquer dos países da Terra
forçosamente teria conseqüências catastróficas. A Federação Asiática veria
nisso uma ameaça grave. Ameaçariam, exigindo participação no seu saber. Um
ultimato se seguiria ao outro. O resultado seria uma série de complicações de
âmbito mundial. É o que desejo evitar. Sou um homem, e quero agir de forma
humana, isto é, com decência. Ninguém vai espremer Crest como um limão,
explicando, com um simples encolher de ombros, que, infelizmente, isso era
indispensável por este ou aquele motivo. Se ele quiser presentear a Humanidade
com uma parcela do seu saber, que o faça espontaneamente, sem o menor
constrangimento. Todos nós tiraremos proveito disso. E o mais importante é que
a liberdade de movimento que lhe asseguramos nos confere a garantia de que
nunca haverá uma guerra nuclear. Acredito que a esta altura vocês já devem
reconhecer que a Stardust perdeu
toda importância. Aterrissei nesta região deserta para que Crest tenha tempo de
montar seus instrumentos antes que cheguem as tropas que já devem estar a
caminho. É só. Não tenho mais nada a dizer sobre o assunto.
— Você bem que poderia soltar
os meus cintos — disse Bell calmamente. — Estou disposto a ajudá-lo. Você sabe
que dentro de uma hora no máximo haverá barulho por aqui.
— Que haja. Neste local um
dia se erguerá uma cidade gigantesca. Aqui serão construídas naves espaciais de
velocidade superior à da luz, e é aqui que será lançada a semente de uma
Humanidade verdadeiramente unida. Então, o que você decidiu, Bell?
O baixote riu. Foi um riso um
pouco forçado, mas provava que aquele homem tinha superado a angústia interior.
— Conheço os homens — disse
lentamente. — Geralmente não querem fazer o mal, mas gostam de tirar a sua
vantagem. Acho preferível que Crest continue independente. Também não tenho a
dizer mais nada.
— E o Dr. Manoli?
O médico ergueu a cabeça. O
sangue retornara à sua face.
— Seu procedimento não deixa
de ter lógica. Não farei nenhuma objeção, desde que Crest garanta que utilizará
seus conhecimentos em benefício de toda a humanidade. Se der preferência a
determinada potência estará cometendo um crime.
— Pode ficar tranqüilo —
disse o estranho em voz baixa. — Nem penso nisso. Apenas peço que em hipótese
alguma me entreguem a qualquer organização estatal. Eu enfrentaria dificuldades
terríveis. Fui eu quem pediu ao major Rhodan para que aterrissasse aqui.
— Como é que o senhor vai se
defender? — perguntou Fletcher. — Ainda tenho minhas dúvidas a respeito de tudo
isso.
— Ora, Fletcher! Se
tivéssemos pousado em Nevada Fields, já estaríamos presos. O nosso pessoal não
teria outra alternativa. Um de nós poderia revelar por coação ou
involuntariamente aquilo que vimos. Estamos agindo por um motivo sério e,
segundo penso, decente.
— Acontece que sou oficial da
Força Espacial!
— Também já fui. Mas a esta
altura sou apenas um homem que quer uma Humanidade grande, vigorosa e unida.
Você acha que isso é um crime? As nações isoladas já não têm a menor
importância. É só o planeta Terra que importa. Daqui por diante temos que
raciocinar em termos cósmicos. Será que você ainda não compreendeu o ridículo
imenso que as discórdias terrenas representam no Grande Império? Ainda não
compreendeu que temos que nos unir sem a menor demora? Uma inteligência
extraterrena só fala no terceiro mundo do sistema solar. Nunca menciona esta ou
aquela nação. No contexto cósmico, somos apenas habitantes da Terra, jamais
somos considerados americanos, russos, chineses ou alemães. Encontramo-nos no
limiar de uma nova era. Temos que agir de acordo com isso. Volto a salientar
que em hipótese alguma Crest deve cair nas mãos de determinado grupo de
potências. Ficaremos aqui mesmo.
Bell ergueu-se, devagar. Seu
olhar denotava um certo ressentimento.
— Você podia ter contado isso
na Lua, meu velho. Bem que eu sabia que havia algum segredo. Mas estou de
acordo! Podemos começar, Crest. É ao senhor que cabe a iniciativa. Quando
surgirem as primeiras tropas só uma defesa eficiente poderá nos proteger. Não
conseguiremos deter uma única bala com belas palavras acerca da almejada
unidade entre os homens e sobre o papel que o destino nos reserva como membros
de uma comunidade intergaláctica. Os governantes da Federação Asiática achariam
isso muito engraçado e, assim que acabassem as gargalhadas, o senhor seria
submetido a um severo interrogatório. Por isso, é melhor começar logo os preparativos.
— Ficarei a bordo até que
cheguem os medicamentos de que tenho necessidade — disse o Dr. Manoli. — Como
médico e como homem, é meu dever prestar auxílio a uma criatura enferma, ainda
mais em um caso como este. Seria um erro tremendo agir apressadamente e sem o
necessário discernimento logo após o nosso encontro com uma inteligência
extraterrena. Você tem razão, a esta altura, não devemos nos preocupar mais com
a defesa de interesses nacionais.
O capitão Fletcher ficou
calado. Parecia petrificado na sua poltrona. Crest levantou-se com tremendo
esforço. Rhodan guardou a arma.
— Fletcher, nossas intenções
são boas. Só queremos o bem. Meu Deus, não somos criminosos! Será um erro grave
arriscar tudo aquilo que nos é mais caro no interesse do gênero humano? No meu
entender, não. Tenha em mente o que eu disse: estamos no limiar de uma nova
era; o que importa é agir com inteligência e senso de responsabilidade. Ninguém
agarrará Crest. Dou-lhe minha palavra!
Rhodan abriu as comportas
pesadas da câmara de ar. A cabine encheu-se do ar terreno. Era quente e seco,
tal qual os pulmões de Crest precisavam.
Após alguns instantes, Rhodan
saiu da lave. Ainda não se viam tropas, mas estas não demorariam a chegar. Ele
bem podia imaginar a atividade febril que tomara conta dos diversos postos de
comando. Por enquanto, não sabiam por que a Stardust pousara ali. Ninguém tinha idéia do poder que eles
tinham adquirido, mas, logo, os governantes da Terra saberiam.
Dificuldades tremendas
delinearam-se em sua mente e ele fechou os olhos. Em sua frente, surgiu um
quadro nebuloso, mas no qual distinguia naves espaciais gigantescas,
construídas pelo homem, que partiam para o espaço e ouvia o ribombar dos seus
mecanismos de propulsão, impelindo-as a uma velocidade superior à da luz. Viu
um governo central de toda a Terra e também percebia os sinais de paz, de
prosperidade e de reconhecimento da espécie humana ao poder galáctico. Era
apenas uma visão, mas ele sabia que um dia seria a realidade.
No porão de carga da Stardust, uma máquina misteriosa
começou a zumbir. O terceiro poder estava iniciando as suas atividades. Perry
Rhodan sorriu para o céu azul. Com movimentos lentos, foi retirando os
distintivos e as platinas do seu uniforme.
O major Perry Rhodan acabara
de se desligar da Força Espacial dos Estados Unidos.
* * *
A Stardust
voltou à Terra sã e salva. Mas, para
Perry Rhodan, os verdadeiros problemas e os grandes conflitos estavam apenas
começando. Isto porque, com a ajuda dos avançados recursos técnicos dos
arcônidas, ele pretende criar algo que deverá realizar a unificação da
Humanidade: A TERCEIRA POTÊNCIA.

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