— Está bem — disse. — Vamos
pousar.
O fundo da cratera estava
coberto de um emaranhado de vegetação e de algumas árvores.
As telas escureceram quando a
Good Hope mergulhou. Rhodan desceu devagar, com muita cautela. Quando as bordas
da cratera se erguiam acima do ponto mais alto da nave, o sinal azul de parada
iluminou-se no painel.
A Good Hope concluíra o
pouso.
III
Rhodan voltou-se. Crest estava
de pé atrás dele, com a fita do tradutor na mão.
— Diz que se trata de uma
forma antiga do intercosmo — informou. — Aqui está a tradução.
Entregou o cartão a Rhodan.
Na linguagem silábica dos arcônidas lia-se a seguinte mensagem:
Queiram dar o sinal convencional
em código.
Bell olhou por cima de seus
ombros. Dominava a língua arconídica, escrita ou falada, tão bem quanto Rhodan,
Crest e Thora.
— Sinal convencional! —
murmurou. — Com quem será que essa gente convencionou alguma coisa?
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Isso não é tão importante.
O que interessa é saber o que vem a ser o intercosmo antigo.
Procurou recorrer à memória
do que lhe fora transmitido pelo treinamento hipnótico. Intercosmo? Intercosmo
antigo?
Ao que parecia Crest também
não dispunha de uma resposta. Rhodan sabia da existência de uma língua
denominada de intercosmo. Servia de instrumento de comunicação em todo o
Império. O intercosmo desenvolvera-se nos últimos mil anos da escala de tempo
terrestre. O adjetivo antigo parecia indicar que havia uma forma ainda
mais velha dessa língua. Mas nem Rhodan nem Crest sabiam dizer quando a mesma
se desenvolvera, e por quem era usada.
De qualquer maneira era tão
antiga que não guardava a menor semelhança com o intercosmo falado nos dias
atuais.
Rhodan levantou-se.
— Assim não chegaremos a
nada. Temos que pôr-nos a caminho.
Abandonou a suposição de que
dera com uma base desconhecida dos Dl. Pela estrutura do seu cérebro, esses
seres não utilizavam nenhuma língua para comunicar-se. Se dispusessem de uma base
neste planeta, teriam usado a via telepática para solicitar a senha codificada.
Isso tranqüilizou Rhodan,
embora ele não dispusesse de qualquer informação que lhe permitisse concluir
que o inimigo com que se defrontava não era ainda mais perigoso que os Dl.
Olhou os presentes um por um
e disse em tom compenetrado:
— Não vamos perder tempo.
Antes que termine o dia, nossa patrulha deve avançar um bom pedaço.
* * *
— O que lhe parece?
Rhodan estava no seu
camarote, em companhia dos dois arcônidas. Há meia hora Bell, Tako Kakuta e os
três astronautas americanos haviam saído da nave para explorar os arredores e
realizar o levantamento cartográfico do terreno.
Thora parecia abatida. Rhodan
indagou de si para si se isso ainda seria efeito da impressão causada pelo
cruzador espacial destroçado sobre a Lua, ou se o seu estado fora causado pelo
surgimento de um inimigo desconhecido, capaz de enfrentá-la de igual para
igual.
Crest inclinou-se.
— Não podemos formular
nenhuma conjetura — respondeu. — Não temos qualquer indicação sobre os seres
que se põem no nosso caminho.
— Indagou aos registros?
— Indaguei; não sabem de
nada. Vênus não consta entre os mundos habitados onde nossas naves já
aportaram.
Rhodan confirmou com um aceno
de cabeça.
— Era o que eu esperava. Se
os registros soubessem quem vive em Vênus, minha memória recém-implantada devia
ser capaz de informar o que vem a ser o Intercosmo antigo. Acontece que não
sei; pior que isso, não tenho a menor idéia do que vem a ser isso.
Crest ficou calado por um
instante. Depois conjeturou:
— Não é de todo impossível
que no início da expansão galáctica alguma expedição arconídica tenha avançado
até aqui e perdido a comunicação com o planeta natal em virtude de uma
catástrofe. Assim se explicaria por que nossos registros nada sabem sobre esta
colônia.
Rhodan refletiu sobre as
palavras de Crest.
— Daí se concluiria que
segundo os padrões terrenos esta colônia teria pelo menos dez mil anos.
Crest fez que sim.
— Isso mesmo. Foi nessa época
que teve início a expansão. Alguns séculos depois as comunicações já tinham
sido aperfeiçoadas tanto que uma colônia recém-instalada nunca poderia cair no
esquecimento.
— Muito bem. Suponhamos que
se trate de arcônidas, como vocês. Ou melhor, de arcônidas que se desligaram da
terra natal há dez milênios e certamente desenvolveram seu próprio estilo de
vida. Isso adiantaria alguma coisa, se não entendem nossa língua, nem nós a
deles?
Crest lançou-lhe um olhar de
surpresa.
— Quer dizer...
— O que quero dizer é que
temos um inimigo diante de nós, quer se trate de arcônidas, quer não. E
continuará sendo nosso inimigo enquanto não pudermos informá-lo sobre nossas
reais intenções. Quando pudermos fazer isso, decidirá se vai ficar conosco ou
contra nós.
— Ou se vai ficar neutro —
ponderou Crest.
Rhodan estacou. Depois de
algum tempo sorriu.
— Acredita mesmo que neste
setor da galáxia exista alguém que possa ficar neutro nos próximos milênios?
Quero dizer mais uma coisa — prosseguiu. — Teremos de aproximar-nos
sorrateiramente da base deles, como se tivéssemos um inimigo diante de nós. Se
não o fizermos, acabaremos sendo localizados e provavelmente destruídos. Assim
que conseguirmos chegar à base, teremos de atacar. Faremos o menor estrago
possível, mas não podemos deixar de atacar, nem que seja para entrar e falar
com essa gente. Não nos abrirão as portas espontaneamente. Não adianta
perdermos tempo quebrando a cabeça a este respeito.
Crest acenou, numa atitude
pensativa.
— Meu jovem amigo, sua lógica
é de uma energia assustadora — disse com a voz baixa. — Embora meu treinamento
cerebral tenha sido mais prolongado que o seu, teria levado algumas horas para
chegar a essa decisão. De qualquer maneira existe a possibilidade de nos vermos
obrigados a atirar contra seres da nossa espécie.
Rhodan levantou-se. Ia dizer
alguma coisa, mas Thora cortou-lhe a palavra.
— Já pensou? — perguntou. —
Como é possível que há dez mil anos, segundo sua escala de tempo, um grupo se
tenha fixado aqui, e em todo esse tempo não tenha conseguido realizar uma
colonização visível do planeta?
Rhodan fez um gesto de
assentimento.
— Já pensei nisso. Seria de
esperar que num espaço de dez mil anos um grupo de colonizadores, por menor que
fosse, conseguisse pôr sua marca ao mundo que habita. E o que encontramos aqui?
O matagal, a água, os vulcões. Não há o menor vestígio de uma civilização.
— Será que um campo
gravitacional orientado e o desvio de seis foguetes não constituem um sinal? —
perguntou Crest numa ironia bonachona.
— Está certo. Mas fora da
base não existe nada.
Crest fitou o vazio.
— Que conclusão você tira
disso? — perguntou depois de algum tempo.
— Nenhuma — respondeu Rhodan laconicamente.
— Resolvi quebrar a cabeça com coisas mais importantes. Assim que conseguirmos
penetrar na base deles, lá no norte, veremos o que encontramos.
* * *
Às cento e oitenta horas,
tempo local, Bell retornou com seu grupo. Apresentou-se imediatamente a Rhodan.
Entregou-lhe um mapa desenhado numa folha de plástico, que tinham levantado com
o cartógrafo automático.
— Realizamos o levantamento
completo de uma área com o raio de cem quilômetros em torno da nave. Não foi
fácil, nem mesmo com os trajes transportadores arconídicos. Não nos arriscamos
a subir mais que cinqüenta metros acima das copas das árvores.
— Tomara que não tenha sido
demais — disse Rhodan em tom preocupado.
— Cinqüenta metros? É
impossível. A base deles fica a uns quinhentos quilômetros. A uma distância
dessas...
— O traje transportador
funciona com base na gravitação artificial. E uma fonte de gravitação pode ser
detectada a milhares de quilômetros de distância.
Bell empalideceu.
— É verdade. Mas ouça. Talvez
o que descobrimos baste para eliminar suas dúvidas — apontou para o mapa. —
Esta área tem acesso direto ao mar. Um fiorde ou coisa parecida avança até
aqui. Fica a menos de dez quilômetros do ponto em que nos encontramos. Nessa
altura ainda tem duzentos metros de largura.
— Um fiorde?
— Isso mesmo. A água é
salgada e imóvel. Se não for um fiorde, só pode ser um lago salgado.
Rhodan acenou com a cabeça.
— Está bem; prossiga.
— A água está repleta de
animais de toda espécie. Encontramos peixes completamente normais e um tipo de
foca. De resto, só há bichos horríveis; nunca vi nada parecido. Você vai ficar
todo arrepiado. Há polvos tão grandes que um batalhão inteiro pode esconder-se
atrás deles; alguma coisa parecida com uma cobra, só que tem seis pés; e outros
bichos que ficam parados em cima da água que nem um tapete fino. Só se mexem
quando se toca neles. Não lhe dão a menor chance. Ao menos não deram nenhuma
chance à pedra que atirei neles; de repente o lindo tapete transformou-se numa
bola gosmenta que agarrou a pedra e arrastou-a para o fundo.
Rhodan interrompeu-o rindo.
— Está bem. Mais alguma coisa
importante?
Bell lançou-lhe um olhar de
censura.
— Pois bem — disse com um suspiro.
— O terreno apresenta um declive para o norte. Localizamos uma cadeia de
montanhas a grande distância. Não acreditei nos instrumentos, mas os picos mais
altos chegam a mais de dez mil metros!
Rhodan deu de ombros.
— Todo o interior do
continente parece ser um emaranhado de montanhas. Os picos mais elevados ficam
na região em que o inimigo tem sua base. Entre eles há alguns vulcões bem
feitos. Nos demais lugares, o terreno não oferece nada de interessante. Para o
leste e o oeste a altitude mantém-se constante, embora haja algumas colinas.
Para o sul vai descendo em direção ao mar.
O ar fede a fogo e enxofre,
mas pode-se respirá-lo sem sentir náuseas. Existem animais que são do tamanho
do Empire State Building.
— Vamos devagar, Bell.
— Está bem; são de um tamanho
apavorante. Mas não parecem muito inteligentes. Nyssen testou sua capacidade de
reação. Não teve a menor dificuldade em flutuar no ar bem à frente da boca
deles e escapar em tempo. Ainda há dois rios pequenos, que correm na direção
geral do sul. Não encontramos mais nada. O mapa registra tudo o que achamos
interessante.
Rhodan assentiu com um
movimento de cabeça.
— Você ficou de me explicar
por que aqueles seres estranhos não poderiam localizá-los, mesmo que voassem a
cinqüenta metros acima das copas das árvores.
— Estão encurralados no meio
das montanhas do norte, e é muito provável que na nossa direção tenham pelo
menos um cume diante do nariz, que lhes roube a visão e a possibilidade de
localização.
Rhodan virou-se de lado e
examinou Bell dos pés à cabeça.
— E você acha que é
impossível que tenham montado suas instalações de localização em cima do cume
mais alto, para dar-lhe maior eficiência, não é?
— Não, isso não; mas...
Parou em meio à frase.
— Bem, saberemos — disse
Rhodan. — Que Deus tenha compaixão de você se tiver revelado nossa localização.
Por alguns minutos Bell
parecia muito abatido. Depois disse:
— Acho que, se soubessem onde
estamos, já nos teriam bombardeado.
Rhodan sacudiu os ombros.
— Talvez.
* * *
Pouco depois das cento e noventa
horas chegou o crepúsculo, e com ele um verdadeiro exército de tormentas.
Rhodan mandara equipar os principais cronômetros da nave com mostradores
adaptados à rotação de Vênus. O dia tinha duzentas e quarenta horas de Vênus, e
uma hora de Vênus só apresentava uma diferença de cerca de quinze segundos em
relação à hora terrena.
Rhodan decidira manter a
patrulha a bordo por mais algum tempo. Achara conveniente explorar em primeiro
lugar os arredores da nave, a fim de que os homens pudessem levar o equipamento
necessário para a marcha pela selva. Antes de mais nada quis ter certeza de que
a leviandade de Bell não despertara a atenção do inimigo. Se este fosse o caso,
não poderiam utilizar os trajes transportadores dos arcônidas, ao menos em vôos
por cima das copas das árvores. E abaixo delas eram inúteis. Na selva do
continente polar ninguém conseguiria voar.
Além disso, Rhodan postara
sentinelas. Ao menos um homem que sabia lidar com os instrumentos de busca e
vigilância da Good Hope tinha de permanecer na cabina de comando. Em caso de
emergência talvez não bastasse que acudissem aos sinais de sirena para
defender-se de um atacante. Quem estivesse de sentinela devia gravar numa fita
as observações mais importantes, quer se relacionassem com a tarefa da expedição,
quer não. Qualquer indicação, inclusive sobre animais ou ocorrências da
natureza, assumia certa importância na medida em que contribuía para fornecer
um quadro de informações sobre os arredores.
Rhodan assumiu o primeiro
turno, das cento e noventa as cento e noventa e três horas. Apagou a luz da
cabina de comando, onde não havia mais ninguém e, para observar os arredores,
colocou uma sonda ótica em nível superior ao da borda da cratera.
A tempestade desenvolvia uma
fúria inconcebível em meio ao crepúsculo.
A tormenta vinha do leste, do
meio da noite. Utilizando uma sonda aerodinâmica, Rhodan mediu a velocidade do
vento.
Constatou valores de
trezentos e cinqüenta quilômetros por hora, menores portanto que os observados
em grandes altitudes.
Pelas cento e noventa e duas
horas escureceu por completo, o que obrigou Rhodan a conectar a sonda ótica com
o dispositivo infravermelho. Com isso perdeu o colorido das imagens que surgiam
na tela. Os raios infravermelhos projetavam desenhos brancos em fundo negros.
Meia hora depois a tempestade
começou a amainar.
Bem perto, uma cabeça com
formato de cobra surgiu por cima da folhagem; pertencia a um animal da classe
dos sáurios. O pescoço encimado por uma cabeça minúscula executava movimentos
pendulares. Provavelmente o animal tentava orientar-se pela tempestade. Rhodan
observou atentamente, para descobrir quanto tempo gastaria nisso. Ao que
parecia a informação de Bell era correta: os animais não eram nada
inteligentes.
Rhodan ligou o gravador e
falou:
— Avistei um animal da classe
dos sáurios. Com o pescoço esticado a cabeça fica a uns cinco ou seis metros
acima da folhagem. Leva dez minutos para orientar-se num terreno que oferece
ampla visibilidade.
Era bom saber disso. Com isso
a patrulha não precisaria dar uma volta enorme em torno de cada sáurio com que
se deparasse. Provavelmente poderia passar por entre as suas pernas, sem que
ele percebesse nada.
Subitamente ouviu um ruído
atrás de si. Virou-se abruptamente e viu o vulto esbelto de Thora à luz mortiça
das telas.
— Não meta um susto destes
nos outros — disse em tom de gracejo. — Existe gente mais nervosa que eu.
Thora deu uma risadinha.
— Vim revezá-lo. Seu turno
está quase no fim.
Rhodan olhou para o relógio.
Faltavam mais de vinte minutos.
Ambos contemplaram a tela em
silêncio.
— Você devia ter visto isso
quando a tempestade ainda uivava — disse Rhodan depois de algum tempo. — Era um
quadro bem romântico.
Thora não respondeu. Levou
alguns minutos para formular uma pergunta estranha:
— Está gostando?
— De quê?
— Deste mundo.
Rhodan confirmou com uma
expressão séria.
— Gosto de qualquer mundo em
que ponho os olhos. Conheço muitos deles, alguns bem, outros menos bem. Só
ficarei satisfeito quando tiver visto todos eles.
Prosseguiu depois de uma
pausa:
— Por quê? Você não gosta?
Thora hesitou antes de
responder.
— Não sei se compreenderá.
Quem pertence a uma raça como a minha sabe que não encontrará nada de novo no
universo. Tudo que descobrimos já foi visto por nós em outro lugar, igual, ou
sob uma forma semelhante. Com o tempo a gente se cansa de ver coisas, sabe? Às
vezes chego a perguntar quando algum filósofo terá a idéia de pedir a abolição
das viagens espaciais, já que elas não contribuem para o desenvolvimento
espiritual dos seres inteligentes.
Rhodan deixou que a idéia
lançasse raízes em sua mente. “Não é tão absurda assim”, pensou. “Quem tem uma
história de dezenas de milhares de anos não encontra mais nada que seja novo.”
— Suas naves nunca atingiram
as outras galáxias, ou melhor, nenhuma das raras tentativas nesse sentido foi
coroada de êxito. Isso não seria uma possibilidade?
— Você fala como um homem —
respondeu Thora com uma ponta de ironia. — É jovem, curioso e um tanto
impetuoso.
— Sou um homem — disse
Rhodan.
— Pense no custo de uma
expedição intergaláctica, e na utilidade que pode proporcionar em comparação ao
mesmo.
— Custo? — interrompeu Rhodan
em tom exaltado. — Quem quer saber de custos quando se trata de um
empreendimento novo, que revolucionará o mundo? O desenvolvimento do programa
de viagens espaciais dos terráqueos, até a construção da primeira nave lunar,
consumiu tanto dinheiro que toda a humanidade poderia viver despreocupadamente
na maior abundância. Alguém se preocupou com isso? Não. Na Ásia, na África e
nos países latino-americanos milhões de pessoas continuaram a morrer de fome,
ou de doenças que poderiam ter sido curadas se houvesse o dinheiro necessário
para a compra de remédios. Em vez disso preferiu-se construir uma nave lunar.
Não sei até que ponto esse tipo de desenvolvimento pode ser compatibilizado com
a moral. De qualquer maneira a humanidade é um bando de teimosos que não está
empenhado em voltar ao paraíso, mas em satisfazer sua curiosidade e enfiar o
nariz cada vez mais pelo mundo adentro. Quem sabe se a humanidade já não existiria
se não fosse assim. Não faltaram catástrofes que fizeram tudo para extinguir a
chama de sua vida.
Falara com certa violência.
Mas Thora compreendeu que essa violência não se dirigia a ela. Foi o orgulho da
raça que o arrebatou.
Subitamente Thora invejou-o
por esse tipo de orgulho.
— Não sei se, mesmo nos seus
melhores anos, nossa raça já esteve tão repleta de energia como a sua — disse
depois de alguns minutos.
Rhodan voltou-se e procurou
enxergar seu rosto na escuridão. Seus olhos vermelhos emitiam um reflexo débil
sob a luz das telas. Não parecia que estivesse fazendo pouco dele.
A resignação daquela mulher
inquietava-o e deixava-o acanhado. Olhou para o relógio. Seu tempo terminara.
— Foi um prazer conversar com
você. Espero que ainda tenhamos muitas oportunidades para isso.
Thora cumprimentou-o com um
aceno da cabeça.
Quando fechou a escotilha
atrás de si, lamentou não ter ficado com ela. Thora chegara mais cedo. Por que.
ele não poderia ficar até mais tarde? Talvez estivesse decepcionada. Voltou-se
e esteve a ponto de abrir a escotilha. Mas acabou desistindo. Talvez ela lhe
lançasse um olhar irônico quando o visse entrar de novo, e isso lhe estragaria
a disposição.
Devagar e pensativo foi
voltando ao seu camarote. Sentou na poltrona e fumou um cigarro. Ligou a tela,
mas os aparelhos do camarote não dispunham de sonda, e por isso só viu as
paredes escuras da cratera em que a nave estava escondida.
* * *
Rhodan não sabia quanto tempo
tinha dormido quando foi acordado pela campainha do interfone. Sentiu-se
cansado.
O rosto redondo de Bell
surgiu na tela:
— Acorde! — gritou este. —
Que diabo, acorde!
Ainda meio sonolento, Rhodan
pôs o dedo no botão do interfone e comprimiu-o.
— O que houve? — resmungou.
Bell respirou aliviado.
— Já pensava que você nunca
mais...
— Deixe de preâmbulos! Quero
dormir.
— Acabo de fazer uma
observação, Rhodan.
— E daí? Registre-a no
gravador e deixe-me em paz.
— Nada disso! — gritou Bell.
— As focas saíram da água e estão realizando uma conferência no cume da
montanha. Você não pode deixar de ver isso.
Espantado, Rhodan sacudiu a
cabeça.
— As focas? Que focas são
essas?
Mas logo lembrou-se do
relatório que Bell lhe apresentara no dia anterior. Saiu da cama gemendo.
— Está bem. Já vou até aí.
Não se lavou. Apenas acendeu
um cigarro.
Bell estava boquiaberto
diante da tela. Fez um gesto para que Rhodan se aproximasse; não emitiu um som,
como se tivesse receio de assustar as focas.
Rhodan viu que ele acoplara
um ampliador setorial na sonda ótica. Dessa forma conseguira aproximar o platô
da montanha, situado a oito quilômetros de distância, de tal forma que se
distinguiam todos os detalhes.
Tanto a longa encosta daquela
montanha de cerca de quinhentos metros de altura, nem seu cume pareciam ser
diferentes da borda da cratera no que dizia respeito à composição do solo. A
vegetação subia pelas paredes da cratera, prosseguia pela encosta, tornando-se
cada vez mais rala e deixava o cume completamente à vista.
Rhodan olhou para o relógio.
Era pouco antes das cento e noventa e seis. Bell fora escalado para servir de
sentinela depois de Thora.
Passou a observar a tela.
Bell quis dizer alguma coisa, mas Rhodan interrompeu-o com um gesto.
No cume uma porção de animais
estranhos se moviam. Tinham uma vaga semelhança com focas; mas, pela descrição
de Bell deviam ser animais da classe dos peixes, que respiravam através de
guelras.
Seus movimentos eram
fascinantes. Parecia que alguma coisa fazia com que sempre dessem o mesmo tipo
de salto ao mesmo tempo.
— Que acha disso? — perguntou
Bell.
— Você não disse que são
peixes?
— Sim; têm guelras e enquanto
os observamos não puseram a cabeça para fora da água.
Rhodan confirmou com um aceno
de cabeça.
— Quem sabe se estes peixes
não têm pulmão? — disse em tom pensativo.
— Santo Deus, você acha que a
respiração deles é tão interessante? Gostaria muito mais de saber que tipo de
procissão é esta que estão realizando.
— Não é nada de especial. Na
Terra temos coisa semelhante, como por exemplo a brama do galo silvestre.
Bell sacudiu a cabeça.
— Nunca vi um galo silvestre
bramar, mas tenho certeza de que não ficam pulando em ritmo como esses animais.
Rhodan passou a mão pela
cabeça.
— Você não deixa de ter
razão.
Subitamente o cansaço
abandonou-o.
— Rápido, arranje dois trajes
transportadores.
Bell levantou-se com um
sorriso.
— Finalmente!
Rhodan tomou lugar junto ao
interfone e chamou Crest, que devia ficar de sentinela depois de Bell.
Informou-o sobre o que este havia observado e disse que pretendiam aproximar-se
do bando de focas para observá-las de perto e capturar uma delas.
Crest concordou e no momento
em que Bell e Rhodan terminaram de colocar os trajes transportadores, entrou na
sala de comando.
— Parece que sua preocupação
com o localizador do inimigo desapareceu como por encanto, não é? — perguntou
Bell quando abriram a comporta externa.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Não pretendo deslocar-me a
cinqüenta metros acima das copas das árvores, e além disso, no nosso caso, os
cumes das montanhas realmente oferecem uma proteção excelente.
Bell não o contradisse.
Foram voando lentamente bem
junto às colinas. Rhodan se armara com uma pistola de radiação, enquanto Bell
carregava um desintegrador um tanto pesado.
A noite estava escura. De
início a diferença entre a nitidez do quadro que se desenhava na tela e o
negrume do nada para o qual olhavam deixou-os irritados. Mas mesmo por entre à
camada compacta de Vênus penetravam alguns raios de luz, e com o tempo seus
olhos acostumaram-se a essa iluminação escassa.
Levaram quinze minutos para
percorrer os oito quilômetros. Não se deslocaram com muita rapidez, para não
assustar as focas.
Ficaram observando por alguns
minutos. As focas tinham cerca de um metro.
Geralmente moviam-se como as
focas da Terra, apoiando-se na cauda e nas barbatanas. Mas durante a dança
conseguiam às vezes desprender as barbatanas do chão, equilibrando-se por meio
minuto apenas sobre a cauda. Pareciam engraçadas e dificilmente alguém
imaginaria que esses animais, mesmo atacados, pudessem representar um perigo
para quem quer que fosse.
Subitamente aquilo que Bell
chamara de procissão terminou. No silêncio que passou a envolver o platô,
Rhodan lembrou-se de que os próprios animais não haviam emitido qualquer ruído
além do arranhar das barbatanas. Parecia ser um grupo silencioso.
Tudo indicava que se preparavam
para deixar o local. Rhodan deu um empurrão em Bell. Ergueram-se de trás da
moita que os ocultava e com dois ou três saltos alcançaram o grupo de focas. A
reação dos animais foi instantânea. A maior parte deles desceu em largos saltos
a encosta do outro lado, muito mais íngreme. Outros procuraram escapar em meio
à escuridão. Apenas um deles não foi bastante rápido para escapar às mãos de
Bell e Rhodan.
Por estranho que parecesse,
não se defendeu quando notou que estava preso. Ficou deitado de costas, imóvel,
fitando os dois homens com seus olhos grandes.
— Cuidado! — disse Rhodan. —
Pode ser um truque. De repente pode dar um salto e desaparecer.
Mas o bichinho não parecia
pensar nisso. Permitiu que Bell e Rhodan o levantassem. Puseram a funcionar os
propulsores de seus trajes e num rápido vôo rasante levaram-no até a nave.
Crest já avisara o resto da
tripulação de que algo de interessante se passava. Quando Rhodan e Bell
entraram na cabina com o prisioneiro, todo mundo já estava reunido.
— O que pretende fazer com
ele? — perguntou Manoli.
— É o que quero perguntar a
você — respondeu Rhodan. — Chegou a observar esses animais?
Manoli fez que sim.
— Acho que dispõem de um
nível de inteligência relativamente elevado — disse Rhodan. — Como poderíamos
descobrir se é assim?
— Quem sabe se uma análise
cerebral não resolveria? — interveio Bell.
Rhodan pôs-se a refletir.
— Isso só seria viável se o
bichinho fosse capaz de conceber idéias lógicas. Não custa tentar.
A foca estava estendida sobre
uma das mesas do laboratório. Manoli apalpou-a cautelosamente.
— É estranho — disse. — Sou
capaz de apostar que este animal é capaz de emitir sons. Por que não fala?
Bem junto à cabeça da foca,
em cima da mesa de laboratório trazida para a cabina de comando, havia um
pequeno recipiente de vidro, de paredes bem finas. Subitamente o animal começou
a emitir sons estridentes, deu um salto e quebrou o vidro. Perplexo, Manoli
fitou os cacos.
— Ora essa! — disse Rhodan. —
Devíamos ter pensado nisso.
No laboratório, repleto de
instrumentos destinados a estabelecer contato com seres de língua e técnica de
comunicação diferente, havia um receptor de ultra-som, que tinha por fim
transformar as freqüências supersônicas, imperceptíveis aos ouvidos humanos e
arconídicos, colocando-as numa faixa audível.
Colocaram o aparelho perto da
foca; ouviu-se uma série de zumbidos, chiados e chilreios. Tais sons foram gravados
em fita, a fim de que o analisador cerebral os conjugasse com os impulsos
cerebrais do animal e procurasse realizar a reconstituição lógica da linguagem
das focas. Isso, porém, só seria possível se o animal tivesse emitido uma
verdadeira linguagem, e não apenas uma série de sons inarticulados ditados pelo
medo, pela excitação ou pela raiva.
O analisador era um aparelho
pequeno, se o comparássemos com seu desempenho.
Reforçava as microondas
emitidas pelo cérebro e, com base nos modelos ideológicos armazenados em sua
memória, atribuía-lhes determinado sentido. Partia do pressuposto de que cada
idéia, mesmo vinda de cérebros diferentes, originava impulsos idênticos, desde
que o cérebro fosse do modelo C-O-H, isto é, pertencesse a um ser nascido num
planeta dotado de uma atmosfera oxigenada.
O analisador registrava o
resultado sob a forma de impulsos gravados em fitas, que eram interpretadas
pelo cérebro eletrônico.
Rhodan pegou a fita e
introduziu-a no computador. A decifração durou dez segundos. No cartão de
plástico expelido pela máquina lia-se em linguagem arconídica:
Eu, ... (palavra indecifrável,
provavelmente o nome), peço aos sublimes ... (palavra equivalente a
deuses ou divindades) que me permitam voltar ao meu elemento (o mar?), pois em
caso contrário morrerei sufocado.
Rhodan ficou perplexo.
Imóvel, fitou a tira de plástico.
— Tako! — gritou.
— Pois não!
— O bichinho está morrendo
sufocado. Temos de levá-lo imediatamente até a água. Está disposto?
Tako fez que sim. Segurou a
foca nos braços.
— Não haverá nenhum problema
— disse com um sorriso.
No mesmo instante
desapareceu, para reaparecer logo após. Rhodan dispôs-se a responder às
perguntas que começaram a chover sobre ele.
— Não há dúvida de que se
trata de seres inteligentes — declarou. — O fato de que o analisador foi capaz
de decifrar seus pensamentos já prova isso. Também não há dúvida de que se
trata de um tipo de peixe dotado de pulmão. Esse peixe respira de duas
maneiras: pelas guelras e pelo pulmão. Evidentemente a última modalidade ainda
não está suficientemente desenvolvida. As focas só conseguem sobreviver fora da
água por um tempo limitado.
Depois de uma pausa acrescentou:
— É claro que tentaremos
novamente estabelecer contato com elas. Procuraremos aprender sua língua para
conversar com esses seres. Mais uma coisa: é claro que não foram as focas que
instalaram uma base no norte, com uma técnica superdesenvolvida. Acho que
podemos excluir esta possibilidade.
IV
Rhodan marcara a partida para
depois do nascer do sol. Mas a noite era tão longa que a impaciência dos
membros da tripulação terrena não lhe permitiria passá-la na inatividade.
Mandou entregar trajes
transportadores aos participantes da patrulha, e também algumas armas. Além
disso, forneceu-lhes instruções detalhadas.
Os membros da patrulha foram
ele mesmo, Reginald Bell, o Dr. Manoli, os três astronautas americanos, Tako
Kakuta e ainda, por insistência sua, Anne Sloane.
Estavam a ponto de sair pela
comporta da nave quando o grito de advertência de Crest soou nos interfones:
— Aguardem! Localizei alguma
coisa.
Rhodan mandou que todos
permanecessem no interior da comporta. Ele mesmo dirigiu-se apressadamente à
sala de comando. Crest estava sentado diante da tela do rastreador, onde se via
um enxame de manchas luminosas brancas, que se deslocavam nervosamente de um
lado para outro, aparentemente sem destino.
— O que é isso? — perguntou
Rhodan.
— Diria que são espiões
robotizados — respondeu Crest. — Não sei se ainda está lembrado: nos primórdios
de nossa história havia instrumentos desse tipo. São apenas sondas radiogoniométricas,
óticas ou de microondas de grande alcance. O tamanho destas aqui não é maior
que três ou quatro vezes a palma de minha mão.
Modificou a regulagem para
ampliar um trecho do campo de observação. Por alguns segundos viu-se um pequeno
objeto em forma de disco, que se manteve imóvel. Quando Crest voltou à
regulagem normal, o objeto desapareceu.
— Ainda não nos encontraram —
constatou Rhodan.
Crest deu de ombros.
— Quem sabe se não é um
truque?
“É isso mesmo”, Rhodan
refletiu.
— Seja como for, partiremos —
disse depois de algum tempo. — Mas iremos a pé; não voaremos. Levaremos um
robô-planador, que nos garantirá um caminho livre.
Olhou para Thora, para ver se
ela estava com medo. Sorria para ele.
— Manterei contato
ininterrupto com você — prosseguiu Rhodan. — Não exponha a nave a qualquer
perigo. Quando tiver a impressão de que não podemos nos defender mais sob as
nossas cúpulas protetoras, suba, mas não muito alto, e dê o fora. Seja como
for, tentaremos bater o inimigo. Estamos equipados para alguns meses. Se a
missão falhar, entraremos em contato para estabelecer o lugar em que possam
buscar-nos, ou então — hesitou por um instante — ou então não haverá mais nada
para comunicar. Naturalmente isso é outra possibilidade.
Crest confirmou com um aceno
de cabeça. Sua atitude quase chegava a ser devota diante de tamanha audácia.
Deu ordem a Bell para que retirasse o pesado robô-planador dos compartimentos
de carga e o instruísse sobre o que tinha a fazer. Teria que trabalhar em base
semi-automática, isto é, alguém teria que dirigi-lo, pois não havia tempo para
elaborar um programa e introduzi-lo em seu centro de memória.
— Ficaremos com os trajes
transportadores — explicou Rhodan. — Mas torcerei o pescoço de qualquer um que
se atreva a voar por cima das copas das árvores sem minha licença.
Bell arrastou o robô pela
comporta. Os outros seguiram-no. Quando chegaram à borda da cratera eram
duzentas e trinta horas e trinta, meia hora antes da meia-noite de Vênus.
Rhodan fez o grupo descer
pela outra encosta da montanha, em direção ao fiorde.
A descida foi muito penosa.
Felizmente o caminho íngreme estava livre de qualquer vegetação que lhes
impedisse a marcha. Certamente a violência das tempestades fazia com que nada
crescesse naquele declive. O robô-planador, que nada tinha a fazer, avançava
ruidosamente à frente do grupo, esforçando-se para não perder o equilíbrio.
Atrás dele vinha Rhodan, seguido dos outros. Tako Kakuta formava a retaguarda.
A descida para o mar durou
mais de uma hora. Do cume da montanha até o mar o grupo havia percorrido dois
quilômetros, medidos na horizontal. Impaciente, Rhodan calculou que nessa
marcha consumiriam duzentas e cinqüenta horas de percurso para chegar à base
inimiga. Era bem verdade que a descida fora realizada num terreno difícil, mas
do outro lado do fiorde as coisas não seriam mais fáceis, pois o terreno, que
subia lentamente, estava coberto de um denso matagal.
Rhodan decidira que o grupo
atravessaria o fiorde com o auxilio dos trajes transportadores. Ao nível da
água não havia perigo de serem localizados, já que o terreno ligeiramente
elevado formava um abrigo.
O robô-planador atravessou o
fiorde à sua maneira. Entrou na água, deixou que a espuma lhe cobrisse as
costas e desapareceu. Seu mecanismo era tão robusto que poderia enfrentar sem
maiores problemas os perigos com que se defrontasse no fundo do mar.
Acontece que seu avanço
impetuoso alarmara os habitantes do mar. Sombras esguias dispararam pelo ar;
provavelmente tratava-se de um tipo de peixe-voador. Mais de longe o grito
soturno de um animal que homem algum jamais vira cortou a noite, e em vários
pontos luzes coloridas iluminaram a superfície da água.
— São os tapetes — disse
Bell. — Por certo o robô lhes deu apetite, e agora procuram atrair suas
vítimas.
Continuaram parados. De
qualquer maneira chegariam à margem oposta antes do robô, que tinha de
percorrer um caminho mais longo, pelo fundo do mar.
Anne Sloane achegou-se a
Rhodan.
— Isto aqui me dá arrepios —
disse em tom brejeiro.
Rhodan examinou o grupo.
— Vamos! — ordenou. — Não
adianta esperar mais.
Tako Kakuta foi o primeiro
que desapareceu.
— Quem dera que eu fosse uma
teleportadora — disse Anne.
O vôo foi muito silencioso.
Em compensação os seres aquáticos fizeram um barulho tremendo. Rhodan passou
bem acima de um dos tapetes luminosos. Este pareceu levantar-se em sua direção,
contraiu-se e emitiu uma luminosidade mais intensa: depois de ter errado o alvo
transformou-se numa bola fosca e desapareceu sob a água.
A travessia durou menos de
dois minutos. Tako gritava ininterruptamente para orientar o grupo que devia
deslocar-se em direção ao lugar em que se encontrava, onde uma área livre de
vegetação formava uma ótima cabeça-de-ponte para o avanço na selva. O lugar
ficava fora da trajetória inicial, motivo por que Rhodan acionou o dispositivo
direcional, que faria o robô sair da água no ponto indicado.
Quinze minutos depois
apareceu. Estava irreconhecível.
— Façam luz! — ordenou
Rhodan. — Limpem-no.
Estava envolto num emaranhado
de trepadeiras. Bell o fez parar e pediu a Anne que dirigisse a luz de um
refletor sobre ele.
Enfiou as mãos naquela
confusão branco-esverdeada.
Subitamente deu um grito.
Retirou a mão de dentro do montão de plantas e sacudiu-a. Lançou um olhar
perplexo sobre o ser estranho que mantinha os dentes fincados em sua luva.
Tinha certa semelhança com um macaco Rhesus, mas seus olhos estavam cobertos por
cápsulas ósseas que os protegiam da água. Pareciam bolas de vidro brancas e sem
vida. Em vez do pêlo, havia uma cobertura de pequenas escamas flexíveis. Na
ponta do rabo havia ferrões pequenos, mas pontudos, e como o animal o agitasse
ininterruptamente, Bell poderia sair ferido, por mais resistente que fosse seu
traje.
— Jogue fora esse bicho —
gritou Rhodan.
— Terei muito prazer —
resmungou Bell. — Mas primeiro tenho que me livrar dele.
Pensou que o mais seguro
seria puxar o bicho pelo rabo. Mas o macaquinho intensificou a pressão das
mandíbulas. Assim que Bell soltou o rabo, este voltou a agitar-se e arranhou o
seu traje.
Bell tentou uma série de
outros truques, mas sem êxito. Finalmente teve a idéia de bater com o punho
cerrado na cabeça do macaco, até que o mesmo desmaiasse.
O animal caiu ao chão,
imóvel. Anne aproximou-se.
— Não está morto —
tranqüilizou-a Bell. — Viu? Já está despertando.
Com um chiado o animal
procurou novamente alcançar sua mão com os dentes. Mas Bell reagiu prontamente,
atirando-o à água.
Depois disso teve mais
cautela ao desvencilhar o robô.
Terminada a limpeza, dirigiu
a luz do refletor para as frestas do aparelho. Deu uma palmadinha naquele
artefato que imitava uma torre e disse em tom zangado:
— Da próxima vez prefiro
carregá-lo nas costas.
Depois de uma ligeira
comunicação com Crest, Rhodan deu o sinal de partida. A luta contra a selva
iria começar.
* * *
O robô, que o grupo apelidara
de Tom, excedeu a todas as expectativas.
Afastava a vegetação como se
estivesse lidando com folhas de grama. Ao mesmo tempo fazia um barulho
tremendo, fazendo com que os seres de aspecto estranho que pudessem assustar o
grupo fugissem espavoridos mato a dentro.
Era bastante inteligente para
contornar as árvores maiores. Tinha não apenas força, mas também a capacidade
de distinguir claramente entre os obstáculos que poderia ou não vencer.
Dali a meia hora tiveram de
fazer uma pausa, porque a mão de Bell começou a doer. Anne examinou-a e
constatou que a dentada do macaco subaquático passara pela luva, atingindo a
mão.
O ferimento foi tratado com
um medicamento da farmacopéia arconídica. Dentro de poucos minutos as dores
cessaram.
— Espero que todo mundo tire
uma lição disso — disse Rhodan. — Devemos observar uma regra: não tocar em
nada. Enquanto não conhecermos as coisas que existem neste mundo, elas são
extremamente nocivas a nós.
Depois prosseguiram na
marcha, sempre atrás das costas largas de Tom. A passagem aberta por este tinha
dois metros e meio de altura, e largura suficiente para que duas pessoas
andassem facilmente uma ao lado da outra. Vez por outra Rhodan olhava para cima
e dirigia a luz do refletor para a folhagem. Nunca se sabia que espécies de
animais viviam nas copas das árvores. Mas não via nada.
Depois de três horas pararam
e levantaram um acampamento provisório. Cada uma das barracas infladas dos
arcônidas era ocupada por dois homens. Mas, uma vez dobradas, cabiam
perfeitamente no bolso de uma calça.
Anne foi a única que ficou
só, numa barraca.
A escuridão prolongada deixou
os membros do grupo um tanto perturbados. Deitaram para dormir um pouco, mas
dali a duas horas já estavam de pé.
Rhodan ficou de sentinela.
Não se sentia cansado. Aproveitou a oportunidade para conversar com Thora.
Soube que os pequenos espiões robotizados voltaram a aparecer, mas mais uma vez
foram embora sem que tivessem conseguido nada. Não havia sinais de outra
atividade do inimigo.
Durante essas duas horas não
aconteceu nada de extraordinário. “Ainda bem”, pensou Rhodan, “não precisamos
de problemas.” Mas no íntimo sentiu-se um pouco decepcionado por não encontrar
nada que saciasse sua sede de aventuras. O ribombar compassado que poucos
minutos antes do fim de seu turno passou ao longe, e provavelmente era causado
pelas patas de um sáurio em movimento, constituía um péssimo substituto para um
verdadeiro acontecimento.
* * *
Dividiram a marcha em etapas
de trinta horas. Nas primeiras duas etapas percorreram cerca de oitenta
quilômetros. Isso representava um bom desempenho, já que se deslocavam em meio
à selva impenetrável.
Ao fim do segundo período de
trinta horas, levantaram suas barracas numa clareira que Tom abrira às pressas.
Um novo dia parecia raiar por cima da folhagem. Rhodan pediu a Tako que subisse
às copas das árvores para verificar se já conseguia distinguir o objetivo.
Tako voltou dali a alguns
minutos.
— A cerca de cento e
cinqüenta quilômetros ao norte começa a cadeia de montanhas. Até mesmo em meio
ao crepúsculo vêem-se os enormes paredões. Não será fácil subir por ali.
Neste meio tempo Bell e Deringhouse
haviam preparado uma refeição. Comeram um tanto cansados e recolheram-se às
barracas.
No primeiro turno o capitão
Nyssen ficou de sentinela; não houve nada de anormal. Ao que tudo indicava, os
animais que compunham a fauna de Vênus tinham medo dos homens.
Poucas horas depois a
catástrofe desabou sobre o grupo.
O Dr. Manoli estava de
sentinela. Sentado diante da barraca que partilhava com Tako, apagara a
lanterna, embora Rhodan o tivesse proibido. Sentiu um certo prazer em ver como
a folhagem opunha uma resistência cada vez mais débil à luz do novo dia, que
começou a espantar a escuridão até mesmo no chão sombrio da mata.
Era o segundo dia que
passavam em Vênus, segundo a escala de tempo daquele planeta.
A selva estava repleta de
sons. Mas subitamente Manoli ouviu um ruído que parecia vir de perto.
Imediatamente acendeu a lanterna e aguçou o ouvido.
Ouviu um rastejar.
Levantou-se e procurou descobrir de que direção vinha o ruído.
Subitamente ouviu um grito
estridente; era tão pavoroso que o deixou todo arrepiado. Reconheceu a voz de
Anne. Com alguns saltos colocou-se à frente de sua barraca, abriu o cortinado e
dirigiu a luz para o interior da mesma.
Anne não estava mais ali.
Aquilo que se movia no interior da barraca era tão pavoroso e repugnante que Manoli
não se atreveu a fazer qualquer movimento.
Não enxergou o começo nem o
fim daquela coisa. Um pedaço de carne branca e gosmenta, com um diâmetro de
aproximadamente trinta centímetros, parecia sair da terra, executando uma série
de contrações espasmódicas. Não se via nenhuma articulação, apenas uma série
irregular de anéis ligeiramente afundados. Manoli tinha certeza de que esse ser
havia aberto o buraco de onde saía. A outra extremidade daquela coisa já havia
saído da barraca. Novas massas de carne repugnante saíam do solo, para
desaparecer do lado oposto da barraca. Era este o ruído rastejante que ouvira.
Subitamente Rhodan estava a
seu lado.
— O que houve?
Manoli não teve necessidade
de explicar nada. Com a mão trêmula apontou para a coisa rastejante.
Rhodan voltou a cabeça para o
lugar indicado. Logo compreendeu a situação.
— Bell! — gritou. — Traga o
desintegrador.
Ouviu-se uma resposta. Rhodan
pegou a pistola de radiação, apontou-a para a carne gosmenta e apertou o
gatilho. Só baixou a arma quando tinha feito um corte fumegante e malcheiroso
no corpo do animal.
O resultado foi espantoso. A
parte da frente parecia não se preocupar com o que estava acontecendo à parte
de trás. Continuou a rastejar e dentro de poucos segundos tinha saído
completamente da barraca.
A parte traseira, com a
extremidade chamuscada, ficou balançando por alguns instantes sobre o buraco.
Subitamente começou a adquirir novas formas. Com um ligeiro estalido as crostas
causadas pela queimadura desprenderam-se do corpo. A ponta achatada esticou-se
até formar uma cabeça pontuda. Logo esse resto de animal pôs-se em movimento:
saiu do buraco e atravessou a barraca. Uma das partes do animal seguiu a outra.
O espetáculo só durara alguns
segundos. Rhodan logo compreendeu que por essa forma não poderia socorrer Arme.
Saiu correndo e chamou Bell aos berros.
— Estou aqui! — respondeu
Bell.
— Um tipo de verme carregou
Anne — explicou Rhodan apressadamente. — Parece que é tão difícil de matar como
uma minhoca terrena. Temos de ir atrás dele.
Contornaram a barraca e
descobriram a segunda metade do animal, que seguia pelo rastro gosmento deixado
pela primeira. Bell, muito assustado, ofegava.
Pegou o desintegrador e abriu
uma brecha na selva, na direção que o animal tinha tomado. Compreendeu que tudo
dependia de ultrapassarem o animal e alcançarem a cabeça da primeira parte.
Dessa forma encontrariam Anne.
Por um instante Rhodan pensou
em mandar Tako à frente. Mas o objetivo era incerto, o risco grande demais.
Numa atividade furiosa
penetraram na brecha, acionaram o desintegrador para abrir outra, tropeçaram
nas trepadeiras. Vez por outra caíam sobre o corpo flácido do animal.
Contorciam-se de repugnância, mas logo se levantavam para prosseguir em sua
carreira desabalada.
Rhodan notou que avançavam
muito devagar. Em cada minuto avançavam um metro mais que o verme e, pelo que
já tinham visto, o seu comprimento devia ultrapassar tudo que já tinham
imaginado.
Gastaram dez minutos para
atingir o início da segunda parte do animal. Bell virou-se e dirigiu o raio
mortífero sobre o corpo gosmento, até que este se dissolvesse.
— Tenha mais cautela com a
outra parte — advertiu Rhodan. — Não sei se este verme é capaz de perceber o
perigo. Se for, pode desaparecer com Anne embaixo da terra.
Bell fez um gesto de assentimento.
Acionou o desintegrador para estender o caminho pelo qual avançavam na selva.
Rhodan dirigiu a luz do refletor para a frente. A extremidade posterior do
verme desapareceu no fim do caminho.
Precipitaram-se atrás dele.
Enquanto passavam pelo rabo do verme e se esgueiravam por entre os galhos que não
puderam ser afastados com os tiros ligeiros do desintegrador, não perceberam,
de tão excitados que estavam, que o terreno subia ligeiramente.
A primeira parte do verme era
bem mais comprida que a segunda, que já tinham deixado para trás. Levaram quase
meia hora para avistar a cabeça pontuda do animal, e também Anne.
O verme carregava-a de forma
estranha. Formou um tipo do laço em torno de sua vítima e segurava-a na parte
da frente de seu corpo, levantada em posição oblíqua. Anne estava inconsciente.
Seu corpo flácido pendia do laço; tudo indicava que até então não sofrerá
nenhum mal mais sério.
Enquanto se conservavam lado
a lado com o verme, procurando um meio de libertar Anne da situação terrível em
que se encontrava, não perceberam que o matagal se abria em torno deles,
formando uma clareira coberta com uma vegetação rala.
— Fico abaixo dela — disse
Rhodan. — Quando você atirar, poderei pegá-la.
Bell confirmou com um gesto.
Esperou até que Rhodan atingisse uma posição favorável junto ao animal, que
continuava a rastejar apressadamente, e começou a cobrir o corpo gosmento com o
raio constante do desintegrador.
O verme dissolveu-se. Ao que
parecia percebeu o perigo que o ameaçava, pois desviou-se para o lado. Bell
teve de dar um pulo para não ser atingido por uma pancada daquele corpo. O
animal continuou a mover-se até que Bell havia dissolvido uns sete oitavos do
volume visível do corpo, do ponto em que Bell se encontrava. Subitamente as
contorções cessaram.
Mas Anne continuava presa no
laço. Bell preferira não atirar sobre essa parte do corpo do animal, pois
receava atingir Anne.
Rhodan pegou a pistola de
radiação e separou em três partes do que restava do animal. Depois retirou Anne
da massa grudenta que a enlaçava. Deitou-a no chão num ponto que lhe parecia
seguro e procurou fazer com que recuperasse os sentidos.
Ninguém percebeu que a poucos
metros dali abria-se um buraco redondo de paredes quase verticais, cujo
diâmetro e profundidade eram consideráveis. Ninguém viu o ser bizarro e
multiarticulado, parecido com um galho fino e reluzente com numerosos ramos
laterais, que foi surgindo por cima da borda do buraco e se aproximava do grupo
em movimentos espasmódicos.
Numa atitude pensativa Rhodan
contemplou o rastro gosmento que o verme deixara no solo. Haviam percorrido
quarenta metros do corpo daquele animal. Qual seria o seu comprimento total?
Quando ele e Bell se puseram a persegui-lo, parte dele ainda se encontrava sob
a terra.
Ao que parecia, em Vênus tudo
saíra grande demais: os vermes, os répteis, os peixes-voadores. A
monstruosidade só cessava no ponto em que a evolução atingia a escala dos seres
mais inteligentes. As focas eram uma prova disso, e talvez também o macaquinho
subaquático que mordera a mão de Bell.
Como este verme gigantesco
era indefeso! Sua única arma era a repugnância. Conseguira enlaçar e carregar
Anne, mas nem tentara defender-se dos homens que o atacaram.
Anne abriu os olhos. De
início parecia confusa, mas subitamente sentiu-se tomada de pavor. Lançou os
olhos em torno e, com um grito, ergueu-se e segurou o braço de Rhodan.
— Onde estamos? — perguntou.
— O que aconteceu?
Com um gesto suave Rhodan
obrigou-a a ficar deitada.
— Não se assuste, já passou
tudo.
— O que foi...?
Cobriu o rosto com as mãos
quando a recordação voltou à sua mente.
— Alguma coisa me agarrou e
carregou. Era tão gosmento e nojento. O que foi?
— Foi uma simples minhoca —
respondeu Bell. — É bem verdade que foi a versão venusiana de uma minhoca.
Anne levou algum tempo para
acalmar-se. Tirou as mãos do rosto e olhou para Rhodan.
— Onde está? Conseguiram...
Rhodan fez que sim.
— Bell acaba de liquidá-lo.
Como se sente?
— Obrigada. Fora o susto,
estou bem. O acampamento fica longe daqui?
— A cerca de uma hora. Se
estiver melhor, vamos andando.
Anne estava de acordo.
Levantou-se. Seu olhar passou junto a Bell, que estava agachado e foi então que
viu.
— Oh, não! — gritou, caindo
nos braços de Rhodan.
— O que foi?
— Olhe!
Bell continuava agachado.
Quando Anne apontou para junto dele, quis virar-se.
— Fique aí! — berrou Rhodan.
— Não se mova!
Bell obedeceu.
Rhodan viu o que Anne lhe
estava mostrando. Parecia que um galho fino e comprido com uma porção de ramos
ainda mais finos tinha caído ao solo. No entanto, não seria de esperar que um
galho caído se erguesse lentamente e que seus ramos começassem a mexer nas
roupas de Bell.
Aquele ser devia ter uns dois
metros de comprimento e, erguido nos ramos que lhe serviam de pernas, sua
altura atingia três palmos.
Rhodan apontou a arma e,
atirando cautelosamente, dividiu o animal em duas partes. As pernas em forma de
ramo dobraram-se. Com um estranho crepitar o animal caiu ao solo.
Rhodan guardou a pistola de
radiação.
— Pronto, já pode levantar! —
disse, dirigindo-se a Bell.
Bell levantou-se de um salto
e virou a cabeça.
— O que foi?
— Ali, aquele galho.
Bell abaixou-se para
levantá-lo.
— Não ponha a mão nisso! —
berrou Rhodan. — Será que você nunca aprende?
Enquanto os dois homens
concentravam a atenção no animal morto, procurando descobrir de que tipo era,
Anne lançou os olhos em torno. Descobriu o segundo pé-de-galho e soltou um
grito.
Rhodan viu que o animal
parecia sair diretamente do chão. Logo atirou. Evidentemente os pés-de-galho
eram animais muito mais articulados que os vermes. Um tiro com a pistola de
radiação matava-os instantaneamente.
Bell tivera a atenção
despertada. Ergueu o cano do desintegrador e, avançando com o corpo
ligeiramente inclinado para a frente, dirigiu-se ao lugar em que o animal
parecia ter saído.
— Cuidado! — gritou Rhodan.
Depois de destruir um resto
de vegetação, Bell viu-se à beira do buraco que até então não haviam notado.
Rhodan ouviu-o dar um grito de surpresa e correu para junto dele. Mudo de nojo
e espanto Bell apontou para o fundo do buraco, debilmente iluminado pela luz do
crepúsculo.
Rhodan dirigiu a luz da
lanterna para o buraco. Seu diâmetro era de cerca de três metros. Seria difícil
calcular a profundidade, pois estava cheio de uma massa confusa e crepitante de
pés-de-galho. Deviam ser centenas deles, e pareciam estar à espera de alguma
coisa.
Bell ergueu o desintegrador,
mas Rhodan segurou sua mão.
— Olhe!
Parecia que havia mais alguma
coisa além da confusão reinante entre eles que movia os pés-de-galho. A massa
subia e descia em movimentos alternados. Alguma coisa branca surgiu em meio a
eles e finalmente apareceu. Era a cabeça pontuda de um verme igual ao que
haviam liquidado meia hora atrás.
Seguiu seu caminho sem deixar
perturbar-se pela confusão que reinava em torno dele. Esticando a cabeça pontuda,
foi subindo aos solavancos por entre a massa de pés-de-galho. Atingiu a borda
do buraco no lugar exato em que Bell e Rhodan se encontravam.
— Atire! — ordenou Rhodan,
quando a cabeça do verme se sacudia a menos de um palmo da ponta do seu sapato.
Bell cobriu com o raio do
desintegrador primeiro o verme e depois o resto do buraco. Levou um minuto,
talvez mais, até que o buraco ficasse completamente vazio.
Agora via-se que tinha uns
cinco metros de profundidade. No fundo viam-se duas aberturas escuras, de
aproximadamente trinta centímetros de diâmetro. Eram os pontos de saída dos
vermes, que deviam viver numa simbiose estranha com os pés-de-galho.
Anne agarrou-se a Rhodan;
tremia por todo o corpo.
— Voltemos! — disse Rhodan. —
Já sabemos que no futuro devemos ter muito cuidado.
Rhodan levou um pedaço do
primeiro pé-de-galho, pendurado no cano da pistola. Embora o animal estivesse
morto, não se arriscava a tocá-lo com as mãos.
No acampamento, Manoli e os
outros membros do grupo já haviam dado cabo do resto do verme que saíra do
buraco.
Rhodan entregou os restos do
pé-de-galho a Manoli.
— Examine-o como puder, mas não
o toque com as mãos.
Fez um breve relato das
ocorrências que cercaram o resgate de Anne.
Depois de concluir o exame, o
Dr. Manoli disse:
— Todo o animal é formado de
uma substância córnea. Seus órgãos estão reduzidos a um mínimo, e também são
formados de substância córnea, sempre que esta não prejudica as respectivas
funções.
Fez uma pausa e remexeu o
solo com um galho.
— Fiquei quebrando a cabeça.
Analisei uma amostra da substância gosmenta encontrada no rastro do verme.
Contém uma variedade tamanha de proteínas e outras substâncias, que não é
possível que todas elas provenham do corpo desse animal. Minha teoria é a
seguinte: ao contrário dos nossos vermes, este é um carnívoro típico, ou
melhor, nutre-se da parte interna dos animais.
“Já os pés-de-galho
alimentam-se com as substâncias córneas contidas nos corpos dos diversos
animais. Mas não estão em condições de procurar seu alimento. Por outro lado, o
verme não dispõe de qualquer instrumento cortante com que possa romper a pele
de suas vítimas.
“Por isso, as duas espécies
fizeram um tipo de contrato. O verme carrega a vítima até a toca, os
pés-de-galho tiram-lhe a pele e devoram-na. A recompensa do verme consiste na
parte interna do corpo.
“Nunca ouvi falar numa
simbiose tão estranha.”

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