quarta-feira, 10 de outubro de 2012

P-008 - Base em Vênus - Kurt Mahr [parte 2]


— Está bem — disse. — Vamos pousar.
O fundo da cratera estava coberto de um emaranhado de vegetação e de algumas árvores.
As telas escureceram quando a Good Hope mergulhou. Rhodan desceu devagar, com muita cautela. Quando as bordas da cratera se erguiam acima do ponto mais alto da nave, o sinal azul de parada iluminou-se no painel.
A Good Hope concluíra o pouso.
III


Rhodan voltou-se. Crest estava de pé atrás dele, com a fita do tradutor na mão.
— Diz que se trata de uma forma antiga do intercosmo — informou. — Aqui está a tradução.
Entregou o cartão a Rhodan. Na linguagem silábica dos arcônidas lia-se a seguinte mensagem:
Queiram dar o sinal convencional em código.
Bell olhou por cima de seus ombros. Dominava a língua arconídica, escrita ou falada, tão bem quanto Rhodan, Crest e Thora.
— Sinal convencional! — murmurou. — Com quem será que essa gente convencionou alguma coisa?
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Isso não é tão importante. O que interessa é saber o que vem a ser o intercosmo antigo.
Procurou recorrer à memória do que lhe fora transmitido pelo treinamento hipnótico. Intercosmo? Intercosmo antigo?
Ao que parecia Crest também não dispunha de uma resposta. Rhodan sabia da existência de uma língua denominada de intercosmo. Servia de instrumento de comunicação em todo o Império. O intercosmo desenvolvera-se nos últimos mil anos da escala de tempo terrestre. O adjetivo antigo parecia indicar que havia uma forma ainda mais velha dessa língua. Mas nem Rhodan nem Crest sabiam dizer quando a mesma se desenvolvera, e por quem era usada.
De qualquer maneira era tão antiga que não guardava a menor semelhança com o intercosmo falado nos dias atuais.
Rhodan levantou-se.
— Assim não chegaremos a nada. Temos que pôr-nos a caminho.
Abandonou a suposição de que dera com uma base desconhecida dos Dl. Pela estrutura do seu cérebro, esses seres não utilizavam nenhuma língua para comunicar-se. Se dispusessem de uma base neste planeta, teriam usado a via telepática para solicitar a senha codificada.
Isso tranqüilizou Rhodan, embora ele não dispusesse de qualquer informação que lhe permitisse concluir que o inimigo com que se defrontava não era ainda mais perigoso que os Dl.
Olhou os presentes um por um e disse em tom compenetrado:
— Não vamos perder tempo. Antes que termine o dia, nossa patrulha deve avançar um bom pedaço.

* * *

— O que lhe parece?
Rhodan estava no seu camarote, em companhia dos dois arcônidas. Há meia hora Bell, Tako Kakuta e os três astronautas americanos haviam saído da nave para explorar os arredores e realizar o levantamento cartográfico do terreno.
Thora parecia abatida. Rhodan indagou de si para si se isso ainda seria efeito da impressão causada pelo cruzador espacial destroçado sobre a Lua, ou se o seu estado fora causado pelo surgimento de um inimigo desconhecido, capaz de enfrentá-la de igual para igual.
Crest inclinou-se.
— Não podemos formular nenhuma conjetura — respondeu. — Não temos qualquer indicação sobre os seres que se põem no nosso caminho.
— Indagou aos registros?
— Indaguei; não sabem de nada. Vênus não consta entre os mundos habitados onde nossas naves já aportaram.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Era o que eu esperava. Se os registros soubessem quem vive em Vênus, minha memória recém-implantada devia ser capaz de informar o que vem a ser o Intercosmo antigo. Acontece que não sei; pior que isso, não tenho a menor idéia do que vem a ser isso.
Crest ficou calado por um instante. Depois conjeturou:
— Não é de todo impossível que no início da expansão galáctica alguma expedição arconídica tenha avançado até aqui e perdido a comunicação com o planeta natal em virtude de uma catástrofe. Assim se explicaria por que nossos registros nada sabem sobre esta colônia.
Rhodan refletiu sobre as palavras de Crest.
— Daí se concluiria que segundo os padrões terrenos esta colônia teria pelo menos dez mil anos.
Crest fez que sim.
— Isso mesmo. Foi nessa época que teve início a expansão. Alguns séculos depois as comunicações já tinham sido aperfeiçoadas tanto que uma colônia recém-instalada nunca poderia cair no esquecimento.
— Muito bem. Suponhamos que se trate de arcônidas, como vocês. Ou melhor, de arcônidas que se desligaram da terra natal há dez milênios e certamente desenvolveram seu próprio estilo de vida. Isso adiantaria alguma coisa, se não entendem nossa língua, nem nós a deles?
Crest lançou-lhe um olhar de surpresa.
— Quer dizer...
— O que quero dizer é que temos um inimigo diante de nós, quer se trate de arcônidas, quer não. E continuará sendo nosso inimigo enquanto não pudermos informá-lo sobre nossas reais intenções. Quando pudermos fazer isso, decidirá se vai ficar conosco ou contra nós.
— Ou se vai ficar neutro — ponderou Crest.
Rhodan estacou. Depois de algum tempo sorriu.
— Acredita mesmo que neste setor da galáxia exista alguém que possa ficar neutro nos próximos milênios? Quero dizer mais uma coisa — prosseguiu. — Teremos de aproximar-nos sorrateiramente da base deles, como se tivéssemos um inimigo diante de nós. Se não o fizermos, acabaremos sendo localizados e provavelmente destruídos. Assim que conseguirmos chegar à base, teremos de atacar. Faremos o menor estrago possível, mas não podemos deixar de atacar, nem que seja para entrar e falar com essa gente. Não nos abrirão as portas espontaneamente. Não adianta perdermos tempo quebrando a cabeça a este respeito.
Crest acenou, numa atitude pensativa.
— Meu jovem amigo, sua lógica é de uma energia assustadora — disse com a voz baixa. — Embora meu treinamento cerebral tenha sido mais prolongado que o seu, teria levado algumas horas para chegar a essa decisão. De qualquer maneira existe a possibilidade de nos vermos obrigados a atirar contra seres da nossa espécie.
Rhodan levantou-se. Ia dizer alguma coisa, mas Thora cortou-lhe a palavra.
— Já pensou? — perguntou. — Como é possível que há dez mil anos, segundo sua escala de tempo, um grupo se tenha fixado aqui, e em todo esse tempo não tenha conseguido realizar uma colonização visível do planeta?
Rhodan fez um gesto de assentimento.
— Já pensei nisso. Seria de esperar que num espaço de dez mil anos um grupo de colonizadores, por menor que fosse, conseguisse pôr sua marca ao mundo que habita. E o que encontramos aqui? O matagal, a água, os vulcões. Não há o menor vestígio de uma civilização.
— Será que um campo gravitacional orientado e o desvio de seis foguetes não constituem um sinal? — perguntou Crest numa ironia bonachona.
— Está certo. Mas fora da base não existe nada.
Crest fitou o vazio.
— Que conclusão você tira disso? — perguntou depois de algum tempo.
— Nenhuma — respondeu Rhodan laconicamente. — Resolvi quebrar a cabeça com coisas mais importantes. Assim que conseguirmos penetrar na base deles, lá no norte, veremos o que encontramos.

* * *

Às cento e oitenta horas, tempo local, Bell retornou com seu grupo. Apresentou-se imediatamente a Rhodan. Entregou-lhe um mapa desenhado numa folha de plástico, que tinham levantado com o cartógrafo automático.
— Realizamos o levantamento completo de uma área com o raio de cem quilômetros em torno da nave. Não foi fácil, nem mesmo com os trajes transportadores arconídicos. Não nos arriscamos a subir mais que cinqüenta metros acima das copas das árvores.
— Tomara que não tenha sido demais — disse Rhodan em tom preocupado.
— Cinqüenta metros? É impossível. A base deles fica a uns quinhentos quilômetros. A uma distância dessas...
— O traje transportador funciona com base na gravitação artificial. E uma fonte de gravitação pode ser detectada a milhares de quilômetros de distância.
Bell empalideceu.
— É verdade. Mas ouça. Talvez o que descobrimos baste para eliminar suas dúvidas — apontou para o mapa. — Esta área tem acesso direto ao mar. Um fiorde ou coisa parecida avança até aqui. Fica a menos de dez quilômetros do ponto em que nos encontramos. Nessa altura ainda tem duzentos metros de largura.
— Um fiorde?
— Isso mesmo. A água é salgada e imóvel. Se não for um fiorde, só pode ser um lago salgado.
Rhodan acenou com a cabeça.
— Está bem; prossiga.
— A água está repleta de animais de toda espécie. Encontramos peixes completamente normais e um tipo de foca. De resto, só há bichos horríveis; nunca vi nada parecido. Você vai ficar todo arrepiado. Há polvos tão grandes que um batalhão inteiro pode esconder-se atrás deles; alguma coisa parecida com uma cobra, só que tem seis pés; e outros bichos que ficam parados em cima da água que nem um tapete fino. Só se mexem quando se toca neles. Não lhe dão a menor chance. Ao menos não deram nenhuma chance à pedra que atirei neles; de repente o lindo tapete transformou-se numa bola gosmenta que agarrou a pedra e arrastou-a para o fundo.
Rhodan interrompeu-o rindo.
— Está bem. Mais alguma coisa importante?
Bell lançou-lhe um olhar de censura.
— Pois bem — disse com um suspiro. — O terreno apresenta um declive para o norte. Localizamos uma cadeia de montanhas a grande distância. Não acreditei nos instrumentos, mas os picos mais altos chegam a mais de dez mil metros!
Rhodan deu de ombros.
— Todo o interior do continente parece ser um emaranhado de montanhas. Os picos mais elevados ficam na região em que o inimigo tem sua base. Entre eles há alguns vulcões bem feitos. Nos demais lugares, o terreno não oferece nada de interessante. Para o leste e o oeste a altitude mantém-se constante, embora haja algumas colinas. Para o sul vai descendo em direção ao mar.
O ar fede a fogo e enxofre, mas pode-se respirá-lo sem sentir náuseas. Existem animais que são do tamanho do Empire State Building.
— Vamos devagar, Bell.
— Está bem; são de um tamanho apavorante. Mas não parecem muito inteligentes. Nyssen testou sua capacidade de reação. Não teve a menor dificuldade em flutuar no ar bem à frente da boca deles e escapar em tempo. Ainda há dois rios pequenos, que correm na direção geral do sul. Não encontramos mais nada. O mapa registra tudo o que achamos interessante.
Rhodan assentiu com um movimento de cabeça.
— Você ficou de me explicar por que aqueles seres estranhos não poderiam localizá-los, mesmo que voassem a cinqüenta metros acima das copas das árvores.
— Estão encurralados no meio das montanhas do norte, e é muito provável que na nossa direção tenham pelo menos um cume diante do nariz, que lhes roube a visão e a possibilidade de localização.
Rhodan virou-se de lado e examinou Bell dos pés à cabeça.
— E você acha que é impossível que tenham montado suas instalações de localização em cima do cume mais alto, para dar-lhe maior eficiência, não é?
— Não, isso não; mas...
Parou em meio à frase.
— Bem, saberemos — disse Rhodan. — Que Deus tenha compaixão de você se tiver revelado nossa localização.
Por alguns minutos Bell parecia muito abatido. Depois disse:
— Acho que, se soubessem onde estamos, já nos teriam bombardeado.
Rhodan sacudiu os ombros.
— Talvez.

* * *

Pouco depois das cento e noventa horas chegou o crepúsculo, e com ele um verdadeiro exército de tormentas. Rhodan mandara equipar os principais cronômetros da nave com mostradores adaptados à rotação de Vênus. O dia tinha duzentas e quarenta horas de Vênus, e uma hora de Vênus só apresentava uma diferença de cerca de quinze segundos em relação à hora terrena.
Rhodan decidira manter a patrulha a bordo por mais algum tempo. Achara conveniente explorar em primeiro lugar os arredores da nave, a fim de que os homens pudessem levar o equipamento necessário para a marcha pela selva. Antes de mais nada quis ter certeza de que a leviandade de Bell não despertara a atenção do inimigo. Se este fosse o caso, não poderiam utilizar os trajes transportadores dos arcônidas, ao menos em vôos por cima das copas das árvores. E abaixo delas eram inúteis. Na selva do continente polar ninguém conseguiria voar.
Além disso, Rhodan postara sentinelas. Ao menos um homem que sabia lidar com os instrumentos de busca e vigilância da Good Hope tinha de permanecer na cabina de comando. Em caso de emergência talvez não bastasse que acudissem aos sinais de sirena para defender-se de um atacante. Quem estivesse de sentinela devia gravar numa fita as observações mais importantes, quer se relacionassem com a tarefa da expedição, quer não. Qualquer indicação, inclusive sobre animais ou ocorrências da natureza, assumia certa importância na medida em que contribuía para fornecer um quadro de informações sobre os arredores.
Rhodan assumiu o primeiro turno, das cento e noventa as cento e noventa e três horas. Apagou a luz da cabina de comando, onde não havia mais ninguém e, para observar os arredores, colocou uma sonda ótica em nível superior ao da borda da cratera.
A tempestade desenvolvia uma fúria inconcebível em meio ao crepúsculo.
A tormenta vinha do leste, do meio da noite. Utilizando uma sonda aerodinâmica, Rhodan mediu a velocidade do vento.
Constatou valores de trezentos e cinqüenta quilômetros por hora, menores portanto que os observados em grandes altitudes.
Pelas cento e noventa e duas horas escureceu por completo, o que obrigou Rhodan a conectar a sonda ótica com o dispositivo infravermelho. Com isso perdeu o colorido das imagens que surgiam na tela. Os raios infravermelhos projetavam desenhos brancos em fundo negros.
Meia hora depois a tempestade começou a amainar.
Bem perto, uma cabeça com formato de cobra surgiu por cima da folhagem; pertencia a um animal da classe dos sáurios. O pescoço encimado por uma cabeça minúscula executava movimentos pendulares. Provavelmente o animal tentava orientar-se pela tempestade. Rhodan observou atentamente, para descobrir quanto tempo gastaria nisso. Ao que parecia a informação de Bell era correta: os animais não eram nada inteligentes.
Rhodan ligou o gravador e falou:
— Avistei um animal da classe dos sáurios. Com o pescoço esticado a cabeça fica a uns cinco ou seis metros acima da folhagem. Leva dez minutos para orientar-se num terreno que oferece ampla visibilidade.
Era bom saber disso. Com isso a patrulha não precisaria dar uma volta enorme em torno de cada sáurio com que se deparasse. Provavelmente poderia passar por entre as suas pernas, sem que ele percebesse nada.
Subitamente ouviu um ruído atrás de si. Virou-se abruptamente e viu o vulto esbelto de Thora à luz mortiça das telas.
— Não meta um susto destes nos outros — disse em tom de gracejo. — Existe gente mais nervosa que eu.
Thora deu uma risadinha.
— Vim revezá-lo. Seu turno está quase no fim.
Rhodan olhou para o relógio. Faltavam mais de vinte minutos.
Ambos contemplaram a tela em silêncio.
— Você devia ter visto isso quando a tempestade ainda uivava — disse Rhodan depois de algum tempo. — Era um quadro bem romântico.
Thora não respondeu. Levou alguns minutos para formular uma pergunta estranha:
— Está gostando?
— De quê?
— Deste mundo.
Rhodan confirmou com uma expressão séria.
— Gosto de qualquer mundo em que ponho os olhos. Conheço muitos deles, alguns bem, outros menos bem. Só ficarei satisfeito quando tiver visto todos eles.
Prosseguiu depois de uma pausa:
— Por quê? Você não gosta?
Thora hesitou antes de responder.
— Não sei se compreenderá. Quem pertence a uma raça como a minha sabe que não encontrará nada de novo no universo. Tudo que descobrimos já foi visto por nós em outro lugar, igual, ou sob uma forma semelhante. Com o tempo a gente se cansa de ver coisas, sabe? Às vezes chego a perguntar quando algum filósofo terá a idéia de pedir a abolição das viagens espaciais, já que elas não contribuem para o desenvolvimento espiritual dos seres inteligentes.
Rhodan deixou que a idéia lançasse raízes em sua mente. “Não é tão absurda assim”, pensou. “Quem tem uma história de dezenas de milhares de anos não encontra mais nada que seja novo.”
— Suas naves nunca atingiram as outras galáxias, ou melhor, nenhuma das raras tentativas nesse sentido foi coroada de êxito. Isso não seria uma possibilidade?
— Você fala como um homem — respondeu Thora com uma ponta de ironia. — É jovem, curioso e um tanto impetuoso.
— Sou um homem — disse Rhodan.
— Pense no custo de uma expedição intergaláctica, e na utilidade que pode proporcionar em comparação ao mesmo.
— Custo? — interrompeu Rhodan em tom exaltado. — Quem quer saber de custos quando se trata de um empreendimento novo, que revolucionará o mundo? O desenvolvimento do programa de viagens espaciais dos terráqueos, até a construção da primeira nave lunar, consumiu tanto dinheiro que toda a humanidade poderia viver despreocupadamente na maior abundância. Alguém se preocupou com isso? Não. Na Ásia, na África e nos países latino-americanos milhões de pessoas continuaram a morrer de fome, ou de doenças que poderiam ter sido curadas se houvesse o dinheiro necessário para a compra de remédios. Em vez disso preferiu-se construir uma nave lunar. Não sei até que ponto esse tipo de desenvolvimento pode ser compatibilizado com a moral. De qualquer maneira a humanidade é um bando de teimosos que não está empenhado em voltar ao paraíso, mas em satisfazer sua curiosidade e enfiar o nariz cada vez mais pelo mundo adentro. Quem sabe se a humanidade já não existiria se não fosse assim. Não faltaram catástrofes que fizeram tudo para extinguir a chama de sua vida.
Falara com certa violência. Mas Thora compreendeu que essa violência não se dirigia a ela. Foi o orgulho da raça que o arrebatou.
Subitamente Thora invejou-o por esse tipo de orgulho.
— Não sei se, mesmo nos seus melhores anos, nossa raça já esteve tão repleta de energia como a sua — disse depois de alguns minutos.
Rhodan voltou-se e procurou enxergar seu rosto na escuridão. Seus olhos vermelhos emitiam um reflexo débil sob a luz das telas. Não parecia que estivesse fazendo pouco dele.
A resignação daquela mulher inquietava-o e deixava-o acanhado. Olhou para o relógio. Seu tempo terminara.
— Foi um prazer conversar com você. Espero que ainda tenhamos muitas oportunidades para isso.
Thora cumprimentou-o com um aceno da cabeça.
Quando fechou a escotilha atrás de si, lamentou não ter ficado com ela. Thora chegara mais cedo. Por que. ele não poderia ficar até mais tarde? Talvez estivesse decepcionada. Voltou-se e esteve a ponto de abrir a escotilha. Mas acabou desistindo. Talvez ela lhe lançasse um olhar irônico quando o visse entrar de novo, e isso lhe estragaria a disposição.
Devagar e pensativo foi voltando ao seu camarote. Sentou na poltrona e fumou um cigarro. Ligou a tela, mas os aparelhos do camarote não dispunham de sonda, e por isso só viu as paredes escuras da cratera em que a nave estava escondida.

* * *

Rhodan não sabia quanto tempo tinha dormido quando foi acordado pela campainha do interfone. Sentiu-se cansado.
O rosto redondo de Bell surgiu na tela:
— Acorde! — gritou este. — Que diabo, acorde!
Ainda meio sonolento, Rhodan pôs o dedo no botão do interfone e comprimiu-o.
— O que houve? — resmungou.
Bell respirou aliviado.
— Já pensava que você nunca mais...
— Deixe de preâmbulos! Quero dormir.
— Acabo de fazer uma observação, Rhodan.
— E daí? Registre-a no gravador e deixe-me em paz.
— Nada disso! — gritou Bell. — As focas saíram da água e estão realizando uma conferência no cume da montanha. Você não pode deixar de ver isso.
Espantado, Rhodan sacudiu a cabeça.
— As focas? Que focas são essas?
Mas logo lembrou-se do relatório que Bell lhe apresentara no dia anterior. Saiu da cama gemendo.
— Está bem. Já vou até aí.
Não se lavou. Apenas acendeu um cigarro.
Bell estava boquiaberto diante da tela. Fez um gesto para que Rhodan se aproximasse; não emitiu um som, como se tivesse receio de assustar as focas.
Rhodan viu que ele acoplara um ampliador setorial na sonda ótica. Dessa forma conseguira aproximar o platô da montanha, situado a oito quilômetros de distância, de tal forma que se distinguiam todos os detalhes.
Tanto a longa encosta daquela montanha de cerca de quinhentos metros de altura, nem seu cume pareciam ser diferentes da borda da cratera no que dizia respeito à composição do solo. A vegetação subia pelas paredes da cratera, prosseguia pela encosta, tornando-se cada vez mais rala e deixava o cume completamente à vista.
Rhodan olhou para o relógio. Era pouco antes das cento e noventa e seis. Bell fora escalado para servir de sentinela depois de Thora.
Passou a observar a tela. Bell quis dizer alguma coisa, mas Rhodan interrompeu-o com um gesto.
No cume uma porção de animais estranhos se moviam. Tinham uma vaga semelhança com focas; mas, pela descrição de Bell deviam ser animais da classe dos peixes, que respiravam através de guelras.
Seus movimentos eram fascinantes. Parecia que alguma coisa fazia com que sempre dessem o mesmo tipo de salto ao mesmo tempo.
— Que acha disso? — perguntou Bell.
— Você não disse que são peixes?
— Sim; têm guelras e enquanto os observamos não puseram a cabeça para fora da água.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Quem sabe se estes peixes não têm pulmão? — disse em tom pensativo.
— Santo Deus, você acha que a respiração deles é tão interessante? Gostaria muito mais de saber que tipo de procissão é esta que estão realizando.
— Não é nada de especial. Na Terra temos coisa semelhante, como por exemplo a brama do galo silvestre.
Bell sacudiu a cabeça.
— Nunca vi um galo silvestre bramar, mas tenho certeza de que não ficam pulando em ritmo como esses animais.
Rhodan passou a mão pela cabeça.
— Você não deixa de ter razão.
Subitamente o cansaço abandonou-o.
— Rápido, arranje dois trajes transportadores.
Bell levantou-se com um sorriso.
— Finalmente!
Rhodan tomou lugar junto ao interfone e chamou Crest, que devia ficar de sentinela depois de Bell. Informou-o sobre o que este havia observado e disse que pretendiam aproximar-se do bando de focas para observá-las de perto e capturar uma delas.
Crest concordou e no momento em que Bell e Rhodan terminaram de colocar os trajes transportadores, entrou na sala de comando.
— Parece que sua preocupação com o localizador do inimigo desapareceu como por encanto, não é? — perguntou Bell quando abriram a comporta externa.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Não pretendo deslocar-me a cinqüenta metros acima das copas das árvores, e além disso, no nosso caso, os cumes das montanhas realmente oferecem uma proteção excelente.
Bell não o contradisse.
Foram voando lentamente bem junto às colinas. Rhodan se armara com uma pistola de radiação, enquanto Bell carregava um desintegrador um tanto pesado.
A noite estava escura. De início a diferença entre a nitidez do quadro que se desenhava na tela e o negrume do nada para o qual olhavam deixou-os irritados. Mas mesmo por entre à camada compacta de Vênus penetravam alguns raios de luz, e com o tempo seus olhos acostumaram-se a essa iluminação escassa.
Levaram quinze minutos para percorrer os oito quilômetros. Não se deslocaram com muita rapidez, para não assustar as focas.
Ficaram observando por alguns minutos. As focas tinham cerca de um metro.
Geralmente moviam-se como as focas da Terra, apoiando-se na cauda e nas barbatanas. Mas durante a dança conseguiam às vezes desprender as barbatanas do chão, equilibrando-se por meio minuto apenas sobre a cauda. Pareciam engraçadas e dificilmente alguém imaginaria que esses animais, mesmo atacados, pudessem representar um perigo para quem quer que fosse.
Subitamente aquilo que Bell chamara de procissão terminou. No silêncio que passou a envolver o platô, Rhodan lembrou-se de que os próprios animais não haviam emitido qualquer ruído além do arranhar das barbatanas. Parecia ser um grupo silencioso.
Tudo indicava que se preparavam para deixar o local. Rhodan deu um empurrão em Bell. Ergueram-se de trás da moita que os ocultava e com dois ou três saltos alcançaram o grupo de focas. A reação dos animais foi instantânea. A maior parte deles desceu em largos saltos a encosta do outro lado, muito mais íngreme. Outros procuraram escapar em meio à escuridão. Apenas um deles não foi bastante rápido para escapar às mãos de Bell e Rhodan.
Por estranho que parecesse, não se defendeu quando notou que estava preso. Ficou deitado de costas, imóvel, fitando os dois homens com seus olhos grandes.
— Cuidado! — disse Rhodan. — Pode ser um truque. De repente pode dar um salto e desaparecer.
Mas o bichinho não parecia pensar nisso. Permitiu que Bell e Rhodan o levantassem. Puseram a funcionar os propulsores de seus trajes e num rápido vôo rasante levaram-no até a nave.
Crest já avisara o resto da tripulação de que algo de interessante se passava. Quando Rhodan e Bell entraram na cabina com o prisioneiro, todo mundo já estava reunido.
— O que pretende fazer com ele? — perguntou Manoli.
— É o que quero perguntar a você — respondeu Rhodan. — Chegou a observar esses animais?
Manoli fez que sim.
— Acho que dispõem de um nível de inteligência relativamente elevado — disse Rhodan. — Como poderíamos descobrir se é assim?
— Quem sabe se uma análise cerebral não resolveria? — interveio Bell.
Rhodan pôs-se a refletir.
— Isso só seria viável se o bichinho fosse capaz de conceber idéias lógicas. Não custa tentar.
A foca estava estendida sobre uma das mesas do laboratório. Manoli apalpou-a cautelosamente.
— É estranho — disse. — Sou capaz de apostar que este animal é capaz de emitir sons. Por que não fala?
Bem junto à cabeça da foca, em cima da mesa de laboratório trazida para a cabina de comando, havia um pequeno recipiente de vidro, de paredes bem finas. Subitamente o animal começou a emitir sons estridentes, deu um salto e quebrou o vidro. Perplexo, Manoli fitou os cacos.
— Ora essa! — disse Rhodan. — Devíamos ter pensado nisso.
No laboratório, repleto de instrumentos destinados a estabelecer contato com seres de língua e técnica de comunicação diferente, havia um receptor de ultra-som, que tinha por fim transformar as freqüências supersônicas, imperceptíveis aos ouvidos humanos e arconídicos, colocando-as numa faixa audível.
Colocaram o aparelho perto da foca; ouviu-se uma série de zumbidos, chiados e chilreios. Tais sons foram gravados em fita, a fim de que o analisador cerebral os conjugasse com os impulsos cerebrais do animal e procurasse realizar a reconstituição lógica da linguagem das focas. Isso, porém, só seria possível se o animal tivesse emitido uma verdadeira linguagem, e não apenas uma série de sons inarticulados ditados pelo medo, pela excitação ou pela raiva.
O analisador era um aparelho pequeno, se o comparássemos com seu desempenho.
Reforçava as microondas emitidas pelo cérebro e, com base nos modelos ideológicos armazenados em sua memória, atribuía-lhes determinado sentido. Partia do pressuposto de que cada idéia, mesmo vinda de cérebros diferentes, originava impulsos idênticos, desde que o cérebro fosse do modelo C-O-H, isto é, pertencesse a um ser nascido num planeta dotado de uma atmosfera oxigenada.
O analisador registrava o resultado sob a forma de impulsos gravados em fitas, que eram interpretadas pelo cérebro eletrônico.
Rhodan pegou a fita e introduziu-a no computador. A decifração durou dez segundos. No cartão de plástico expelido pela máquina lia-se em linguagem arconídica:

Eu, ... (palavra indecifrável, provavelmente o nome), peço aos sublimes ... (palavra equivalente a deuses ou divindades) que me permitam voltar ao meu elemento (o mar?), pois em caso contrário morrerei sufocado.

Rhodan ficou perplexo. Imóvel, fitou a tira de plástico.
— Tako! — gritou.
— Pois não!
— O bichinho está morrendo sufocado. Temos de levá-lo imediatamente até a água. Está disposto?
Tako fez que sim. Segurou a foca nos braços.
— Não haverá nenhum problema — disse com um sorriso.
No mesmo instante desapareceu, para reaparecer logo após. Rhodan dispôs-se a responder às perguntas que começaram a chover sobre ele.
— Não há dúvida de que se trata de seres inteligentes — declarou. — O fato de que o analisador foi capaz de decifrar seus pensamentos já prova isso. Também não há dúvida de que se trata de um tipo de peixe dotado de pulmão. Esse peixe respira de duas maneiras: pelas guelras e pelo pulmão. Evidentemente a última modalidade ainda não está suficientemente desenvolvida. As focas só conseguem sobreviver fora da água por um tempo limitado.
Depois de uma pausa acrescentou:
— É claro que tentaremos novamente estabelecer contato com elas. Procuraremos aprender sua língua para conversar com esses seres. Mais uma coisa: é claro que não foram as focas que instalaram uma base no norte, com uma técnica superdesenvolvida. Acho que podemos excluir esta possibilidade.


IV


Rhodan marcara a partida para depois do nascer do sol. Mas a noite era tão longa que a impaciência dos membros da tripulação terrena não lhe permitiria passá-la na inatividade.
Mandou entregar trajes transportadores aos participantes da patrulha, e também algumas armas. Além disso, forneceu-lhes instruções detalhadas.
Os membros da patrulha foram ele mesmo, Reginald Bell, o Dr. Manoli, os três astronautas americanos, Tako Kakuta e ainda, por insistência sua, Anne Sloane.
Estavam a ponto de sair pela comporta da nave quando o grito de advertência de Crest soou nos interfones:
— Aguardem! Localizei alguma coisa.
Rhodan mandou que todos permanecessem no interior da comporta. Ele mesmo dirigiu-se apressadamente à sala de comando. Crest estava sentado diante da tela do rastreador, onde se via um enxame de manchas luminosas brancas, que se deslocavam nervosamente de um lado para outro, aparentemente sem destino.
— O que é isso? — perguntou Rhodan.
— Diria que são espiões robotizados — respondeu Crest. — Não sei se ainda está lembrado: nos primórdios de nossa história havia instrumentos desse tipo. São apenas sondas radiogoniométricas, óticas ou de microondas de grande alcance. O tamanho destas aqui não é maior que três ou quatro vezes a palma de minha mão.
Modificou a regulagem para ampliar um trecho do campo de observação. Por alguns segundos viu-se um pequeno objeto em forma de disco, que se manteve imóvel. Quando Crest voltou à regulagem normal, o objeto desapareceu.
— Ainda não nos encontraram — constatou Rhodan.
Crest deu de ombros.
— Quem sabe se não é um truque?
“É isso mesmo”, Rhodan refletiu.
— Seja como for, partiremos — disse depois de algum tempo. — Mas iremos a pé; não voaremos. Levaremos um robô-planador, que nos garantirá um caminho livre.
Olhou para Thora, para ver se ela estava com medo. Sorria para ele.
— Manterei contato ininterrupto com você — prosseguiu Rhodan. — Não exponha a nave a qualquer perigo. Quando tiver a impressão de que não podemos nos defender mais sob as nossas cúpulas protetoras, suba, mas não muito alto, e dê o fora. Seja como for, tentaremos bater o inimigo. Estamos equipados para alguns meses. Se a missão falhar, entraremos em contato para estabelecer o lugar em que possam buscar-nos, ou então — hesitou por um instante — ou então não haverá mais nada para comunicar. Naturalmente isso é outra possibilidade.
Crest confirmou com um aceno de cabeça. Sua atitude quase chegava a ser devota diante de tamanha audácia. Deu ordem a Bell para que retirasse o pesado robô-planador dos compartimentos de carga e o instruísse sobre o que tinha a fazer. Teria que trabalhar em base semi-automática, isto é, alguém teria que dirigi-lo, pois não havia tempo para elaborar um programa e introduzi-lo em seu centro de memória.
— Ficaremos com os trajes transportadores — explicou Rhodan. — Mas torcerei o pescoço de qualquer um que se atreva a voar por cima das copas das árvores sem minha licença.
Bell arrastou o robô pela comporta. Os outros seguiram-no. Quando chegaram à borda da cratera eram duzentas e trinta horas e trinta, meia hora antes da meia-noite de Vênus.
Rhodan fez o grupo descer pela outra encosta da montanha, em direção ao fiorde.
A descida foi muito penosa. Felizmente o caminho íngreme estava livre de qualquer vegetação que lhes impedisse a marcha. Certamente a violência das tempestades fazia com que nada crescesse naquele declive. O robô-planador, que nada tinha a fazer, avançava ruidosamente à frente do grupo, esforçando-se para não perder o equilíbrio. Atrás dele vinha Rhodan, seguido dos outros. Tako Kakuta formava a retaguarda.
A descida para o mar durou mais de uma hora. Do cume da montanha até o mar o grupo havia percorrido dois quilômetros, medidos na horizontal. Impaciente, Rhodan calculou que nessa marcha consumiriam duzentas e cinqüenta horas de percurso para chegar à base inimiga. Era bem verdade que a descida fora realizada num terreno difícil, mas do outro lado do fiorde as coisas não seriam mais fáceis, pois o terreno, que subia lentamente, estava coberto de um denso matagal.
Rhodan decidira que o grupo atravessaria o fiorde com o auxilio dos trajes transportadores. Ao nível da água não havia perigo de serem localizados, já que o terreno ligeiramente elevado formava um abrigo.
O robô-planador atravessou o fiorde à sua maneira. Entrou na água, deixou que a espuma lhe cobrisse as costas e desapareceu. Seu mecanismo era tão robusto que poderia enfrentar sem maiores problemas os perigos com que se defrontasse no fundo do mar.
Acontece que seu avanço impetuoso alarmara os habitantes do mar. Sombras esguias dispararam pelo ar; provavelmente tratava-se de um tipo de peixe-voador. Mais de longe o grito soturno de um animal que homem algum jamais vira cortou a noite, e em vários pontos luzes coloridas iluminaram a superfície da água.
— São os tapetes — disse Bell. — Por certo o robô lhes deu apetite, e agora procuram atrair suas vítimas.
Continuaram parados. De qualquer maneira chegariam à margem oposta antes do robô, que tinha de percorrer um caminho mais longo, pelo fundo do mar.
Anne Sloane achegou-se a Rhodan.
— Isto aqui me dá arrepios — disse em tom brejeiro.
Rhodan examinou o grupo.
— Vamos! — ordenou. — Não adianta esperar mais.
Tako Kakuta foi o primeiro que desapareceu.
— Quem dera que eu fosse uma teleportadora — disse Anne.
O vôo foi muito silencioso. Em compensação os seres aquáticos fizeram um barulho tremendo. Rhodan passou bem acima de um dos tapetes luminosos. Este pareceu levantar-se em sua direção, contraiu-se e emitiu uma luminosidade mais intensa: depois de ter errado o alvo transformou-se numa bola fosca e desapareceu sob a água.
A travessia durou menos de dois minutos. Tako gritava ininterruptamente para orientar o grupo que devia deslocar-se em direção ao lugar em que se encontrava, onde uma área livre de vegetação formava uma ótima cabeça-de-ponte para o avanço na selva. O lugar ficava fora da trajetória inicial, motivo por que Rhodan acionou o dispositivo direcional, que faria o robô sair da água no ponto indicado.
Quinze minutos depois apareceu. Estava irreconhecível.
— Façam luz! — ordenou Rhodan. — Limpem-no.
Estava envolto num emaranhado de trepadeiras. Bell o fez parar e pediu a Anne que dirigisse a luz de um refletor sobre ele.
Enfiou as mãos naquela confusão branco-esverdeada.
Subitamente deu um grito. Retirou a mão de dentro do montão de plantas e sacudiu-a. Lançou um olhar perplexo sobre o ser estranho que mantinha os dentes fincados em sua luva. Tinha certa semelhança com um macaco Rhesus, mas seus olhos estavam cobertos por cápsulas ósseas que os protegiam da água. Pareciam bolas de vidro brancas e sem vida. Em vez do pêlo, havia uma cobertura de pequenas escamas flexíveis. Na ponta do rabo havia ferrões pequenos, mas pontudos, e como o animal o agitasse ininterruptamente, Bell poderia sair ferido, por mais resistente que fosse seu traje.
— Jogue fora esse bicho — gritou Rhodan.
— Terei muito prazer — resmungou Bell. — Mas primeiro tenho que me livrar dele.
Pensou que o mais seguro seria puxar o bicho pelo rabo. Mas o macaquinho intensificou a pressão das mandíbulas. Assim que Bell soltou o rabo, este voltou a agitar-se e arranhou o seu traje.
Bell tentou uma série de outros truques, mas sem êxito. Finalmente teve a idéia de bater com o punho cerrado na cabeça do macaco, até que o mesmo desmaiasse.
O animal caiu ao chão, imóvel. Anne aproximou-se.
— Não está morto — tranqüilizou-a Bell. — Viu? Já está despertando.
Com um chiado o animal procurou novamente alcançar sua mão com os dentes. Mas Bell reagiu prontamente, atirando-o à água.
Depois disso teve mais cautela ao desvencilhar o robô.
Terminada a limpeza, dirigiu a luz do refletor para as frestas do aparelho. Deu uma palmadinha naquele artefato que imitava uma torre e disse em tom zangado:
— Da próxima vez prefiro carregá-lo nas costas.
Depois de uma ligeira comunicação com Crest, Rhodan deu o sinal de partida. A luta contra a selva iria começar.

* * *

O robô, que o grupo apelidara de Tom, excedeu a todas as expectativas.
Afastava a vegetação como se estivesse lidando com folhas de grama. Ao mesmo tempo fazia um barulho tremendo, fazendo com que os seres de aspecto estranho que pudessem assustar o grupo fugissem espavoridos mato a dentro.
Era bastante inteligente para contornar as árvores maiores. Tinha não apenas força, mas também a capacidade de distinguir claramente entre os obstáculos que poderia ou não vencer.
Dali a meia hora tiveram de fazer uma pausa, porque a mão de Bell começou a doer. Anne examinou-a e constatou que a dentada do macaco subaquático passara pela luva, atingindo a mão.
O ferimento foi tratado com um medicamento da farmacopéia arconídica. Dentro de poucos minutos as dores cessaram.
— Espero que todo mundo tire uma lição disso — disse Rhodan. — Devemos observar uma regra: não tocar em nada. Enquanto não conhecermos as coisas que existem neste mundo, elas são extremamente nocivas a nós.
Depois prosseguiram na marcha, sempre atrás das costas largas de Tom. A passagem aberta por este tinha dois metros e meio de altura, e largura suficiente para que duas pessoas andassem facilmente uma ao lado da outra. Vez por outra Rhodan olhava para cima e dirigia a luz do refletor para a folhagem. Nunca se sabia que espécies de animais viviam nas copas das árvores. Mas não via nada.
Depois de três horas pararam e levantaram um acampamento provisório. Cada uma das barracas infladas dos arcônidas era ocupada por dois homens. Mas, uma vez dobradas, cabiam perfeitamente no bolso de uma calça.
Anne foi a única que ficou só, numa barraca.
A escuridão prolongada deixou os membros do grupo um tanto perturbados. Deitaram para dormir um pouco, mas dali a duas horas já estavam de pé.
Rhodan ficou de sentinela. Não se sentia cansado. Aproveitou a oportunidade para conversar com Thora. Soube que os pequenos espiões robotizados voltaram a aparecer, mas mais uma vez foram embora sem que tivessem conseguido nada. Não havia sinais de outra atividade do inimigo.
Durante essas duas horas não aconteceu nada de extraordinário. “Ainda bem”, pensou Rhodan, “não precisamos de problemas.” Mas no íntimo sentiu-se um pouco decepcionado por não encontrar nada que saciasse sua sede de aventuras. O ribombar compassado que poucos minutos antes do fim de seu turno passou ao longe, e provavelmente era causado pelas patas de um sáurio em movimento, constituía um péssimo substituto para um verdadeiro acontecimento.

* * *

Dividiram a marcha em etapas de trinta horas. Nas primeiras duas etapas percorreram cerca de oitenta quilômetros. Isso representava um bom desempenho, já que se deslocavam em meio à selva impenetrável.
Ao fim do segundo período de trinta horas, levantaram suas barracas numa clareira que Tom abrira às pressas. Um novo dia parecia raiar por cima da folhagem. Rhodan pediu a Tako que subisse às copas das árvores para verificar se já conseguia distinguir o objetivo.
Tako voltou dali a alguns minutos.
— A cerca de cento e cinqüenta quilômetros ao norte começa a cadeia de montanhas. Até mesmo em meio ao crepúsculo vêem-se os enormes paredões. Não será fácil subir por ali.
Neste meio tempo Bell e Deringhouse haviam preparado uma refeição. Comeram um tanto cansados e recolheram-se às barracas.
No primeiro turno o capitão Nyssen ficou de sentinela; não houve nada de anormal. Ao que tudo indicava, os animais que compunham a fauna de Vênus tinham medo dos homens.
Poucas horas depois a catástrofe desabou sobre o grupo.
O Dr. Manoli estava de sentinela. Sentado diante da barraca que partilhava com Tako, apagara a lanterna, embora Rhodan o tivesse proibido. Sentiu um certo prazer em ver como a folhagem opunha uma resistência cada vez mais débil à luz do novo dia, que começou a espantar a escuridão até mesmo no chão sombrio da mata.
Era o segundo dia que passavam em Vênus, segundo a escala de tempo daquele planeta.
A selva estava repleta de sons. Mas subitamente Manoli ouviu um ruído que parecia vir de perto. Imediatamente acendeu a lanterna e aguçou o ouvido.
Ouviu um rastejar. Levantou-se e procurou descobrir de que direção vinha o ruído.
Subitamente ouviu um grito estridente; era tão pavoroso que o deixou todo arrepiado. Reconheceu a voz de Anne. Com alguns saltos colocou-se à frente de sua barraca, abriu o cortinado e dirigiu a luz para o interior da mesma.
Anne não estava mais ali. Aquilo que se movia no interior da barraca era tão pavoroso e repugnante que Manoli não se atreveu a fazer qualquer movimento.
Não enxergou o começo nem o fim daquela coisa. Um pedaço de carne branca e gosmenta, com um diâmetro de aproximadamente trinta centímetros, parecia sair da terra, executando uma série de contrações espasmódicas. Não se via nenhuma articulação, apenas uma série irregular de anéis ligeiramente afundados. Manoli tinha certeza de que esse ser havia aberto o buraco de onde saía. A outra extremidade daquela coisa já havia saído da barraca. Novas massas de carne repugnante saíam do solo, para desaparecer do lado oposto da barraca. Era este o ruído rastejante que ouvira.
Subitamente Rhodan estava a seu lado.
— O que houve?
Manoli não teve necessidade de explicar nada. Com a mão trêmula apontou para a coisa rastejante.
Rhodan voltou a cabeça para o lugar indicado. Logo compreendeu a situação.
— Bell! — gritou. — Traga o desintegrador.
Ouviu-se uma resposta. Rhodan pegou a pistola de radiação, apontou-a para a carne gosmenta e apertou o gatilho. Só baixou a arma quando tinha feito um corte fumegante e malcheiroso no corpo do animal.
O resultado foi espantoso. A parte da frente parecia não se preocupar com o que estava acontecendo à parte de trás. Continuou a rastejar e dentro de poucos segundos tinha saído completamente da barraca.
A parte traseira, com a extremidade chamuscada, ficou balançando por alguns instantes sobre o buraco. Subitamente começou a adquirir novas formas. Com um ligeiro estalido as crostas causadas pela queimadura desprenderam-se do corpo. A ponta achatada esticou-se até formar uma cabeça pontuda. Logo esse resto de animal pôs-se em movimento: saiu do buraco e atravessou a barraca. Uma das partes do animal seguiu a outra.
O espetáculo só durara alguns segundos. Rhodan logo compreendeu que por essa forma não poderia socorrer Arme. Saiu correndo e chamou Bell aos berros.
— Estou aqui! — respondeu Bell.
— Um tipo de verme carregou Anne — explicou Rhodan apressadamente. — Parece que é tão difícil de matar como uma minhoca terrena. Temos de ir atrás dele.
Contornaram a barraca e descobriram a segunda metade do animal, que seguia pelo rastro gosmento deixado pela primeira. Bell, muito assustado, ofegava.
Pegou o desintegrador e abriu uma brecha na selva, na direção que o animal tinha tomado. Compreendeu que tudo dependia de ultrapassarem o animal e alcançarem a cabeça da primeira parte. Dessa forma encontrariam Anne.
Por um instante Rhodan pensou em mandar Tako à frente. Mas o objetivo era incerto, o risco grande demais.
Numa atividade furiosa penetraram na brecha, acionaram o desintegrador para abrir outra, tropeçaram nas trepadeiras. Vez por outra caíam sobre o corpo flácido do animal. Contorciam-se de repugnância, mas logo se levantavam para prosseguir em sua carreira desabalada.
Rhodan notou que avançavam muito devagar. Em cada minuto avançavam um metro mais que o verme e, pelo que já tinham visto, o seu comprimento devia ultrapassar tudo que já tinham imaginado.
Gastaram dez minutos para atingir o início da segunda parte do animal. Bell virou-se e dirigiu o raio mortífero sobre o corpo gosmento, até que este se dissolvesse.
— Tenha mais cautela com a outra parte — advertiu Rhodan. — Não sei se este verme é capaz de perceber o perigo. Se for, pode desaparecer com Anne embaixo da terra.
Bell fez um gesto de assentimento. Acionou o desintegrador para estender o caminho pelo qual avançavam na selva. Rhodan dirigiu a luz do refletor para a frente. A extremidade posterior do verme desapareceu no fim do caminho.
Precipitaram-se atrás dele. Enquanto passavam pelo rabo do verme e se esgueiravam por entre os galhos que não puderam ser afastados com os tiros ligeiros do desintegrador, não perceberam, de tão excitados que estavam, que o terreno subia ligeiramente.
A primeira parte do verme era bem mais comprida que a segunda, que já tinham deixado para trás. Levaram quase meia hora para avistar a cabeça pontuda do animal, e também Anne.
O verme carregava-a de forma estranha. Formou um tipo do laço em torno de sua vítima e segurava-a na parte da frente de seu corpo, levantada em posição oblíqua. Anne estava inconsciente. Seu corpo flácido pendia do laço; tudo indicava que até então não sofrerá nenhum mal mais sério.
Enquanto se conservavam lado a lado com o verme, procurando um meio de libertar Anne da situação terrível em que se encontrava, não perceberam que o matagal se abria em torno deles, formando uma clareira coberta com uma vegetação rala.
— Fico abaixo dela — disse Rhodan. — Quando você atirar, poderei pegá-la.
Bell confirmou com um gesto. Esperou até que Rhodan atingisse uma posição favorável junto ao animal, que continuava a rastejar apressadamente, e começou a cobrir o corpo gosmento com o raio constante do desintegrador.
O verme dissolveu-se. Ao que parecia percebeu o perigo que o ameaçava, pois desviou-se para o lado. Bell teve de dar um pulo para não ser atingido por uma pancada daquele corpo. O animal continuou a mover-se até que Bell havia dissolvido uns sete oitavos do volume visível do corpo, do ponto em que Bell se encontrava. Subitamente as contorções cessaram.
Mas Anne continuava presa no laço. Bell preferira não atirar sobre essa parte do corpo do animal, pois receava atingir Anne.
Rhodan pegou a pistola de radiação e separou em três partes do que restava do animal. Depois retirou Anne da massa grudenta que a enlaçava. Deitou-a no chão num ponto que lhe parecia seguro e procurou fazer com que recuperasse os sentidos.
Ninguém percebeu que a poucos metros dali abria-se um buraco redondo de paredes quase verticais, cujo diâmetro e profundidade eram consideráveis. Ninguém viu o ser bizarro e multiarticulado, parecido com um galho fino e reluzente com numerosos ramos laterais, que foi surgindo por cima da borda do buraco e se aproximava do grupo em movimentos espasmódicos.
Numa atitude pensativa Rhodan contemplou o rastro gosmento que o verme deixara no solo. Haviam percorrido quarenta metros do corpo daquele animal. Qual seria o seu comprimento total? Quando ele e Bell se puseram a persegui-lo, parte dele ainda se encontrava sob a terra.
Ao que parecia, em Vênus tudo saíra grande demais: os vermes, os répteis, os peixes-voadores. A monstruosidade só cessava no ponto em que a evolução atingia a escala dos seres mais inteligentes. As focas eram uma prova disso, e talvez também o macaquinho subaquático que mordera a mão de Bell.
Como este verme gigantesco era indefeso! Sua única arma era a repugnância. Conseguira enlaçar e carregar Anne, mas nem tentara defender-se dos homens que o atacaram.
Anne abriu os olhos. De início parecia confusa, mas subitamente sentiu-se tomada de pavor. Lançou os olhos em torno e, com um grito, ergueu-se e segurou o braço de Rhodan.
— Onde estamos? — perguntou. — O que aconteceu?
Com um gesto suave Rhodan obrigou-a a ficar deitada.
— Não se assuste, já passou tudo.
— O que foi...?
Cobriu o rosto com as mãos quando a recordação voltou à sua mente.
— Alguma coisa me agarrou e carregou. Era tão gosmento e nojento. O que foi?
— Foi uma simples minhoca — respondeu Bell. — É bem verdade que foi a versão venusiana de uma minhoca.
Anne levou algum tempo para acalmar-se. Tirou as mãos do rosto e olhou para Rhodan.
— Onde está? Conseguiram...
Rhodan fez que sim.
— Bell acaba de liquidá-lo. Como se sente?
— Obrigada. Fora o susto, estou bem. O acampamento fica longe daqui?
— A cerca de uma hora. Se estiver melhor, vamos andando.
Anne estava de acordo. Levantou-se. Seu olhar passou junto a Bell, que estava agachado e foi então que viu.
— Oh, não! — gritou, caindo nos braços de Rhodan.
— O que foi?
— Olhe!
Bell continuava agachado. Quando Anne apontou para junto dele, quis virar-se.
— Fique aí! — berrou Rhodan. — Não se mova!
Bell obedeceu.
Rhodan viu o que Anne lhe estava mostrando. Parecia que um galho fino e comprido com uma porção de ramos ainda mais finos tinha caído ao solo. No entanto, não seria de esperar que um galho caído se erguesse lentamente e que seus ramos começassem a mexer nas roupas de Bell.
Aquele ser devia ter uns dois metros de comprimento e, erguido nos ramos que lhe serviam de pernas, sua altura atingia três palmos.
Rhodan apontou a arma e, atirando cautelosamente, dividiu o animal em duas partes. As pernas em forma de ramo dobraram-se. Com um estranho crepitar o animal caiu ao solo.
Rhodan guardou a pistola de radiação.
— Pronto, já pode levantar! — disse, dirigindo-se a Bell.
Bell levantou-se de um salto e virou a cabeça.
— O que foi?
— Ali, aquele galho.
Bell abaixou-se para levantá-lo.
— Não ponha a mão nisso! — berrou Rhodan. — Será que você nunca aprende?
Enquanto os dois homens concentravam a atenção no animal morto, procurando descobrir de que tipo era, Anne lançou os olhos em torno. Descobriu o segundo pé-de-galho e soltou um grito.
Rhodan viu que o animal parecia sair diretamente do chão. Logo atirou. Evidentemente os pés-de-galho eram animais muito mais articulados que os vermes. Um tiro com a pistola de radiação matava-os instantaneamente.
Bell tivera a atenção despertada. Ergueu o cano do desintegrador e, avançando com o corpo ligeiramente inclinado para a frente, dirigiu-se ao lugar em que o animal parecia ter saído.
— Cuidado! — gritou Rhodan.
Depois de destruir um resto de vegetação, Bell viu-se à beira do buraco que até então não haviam notado. Rhodan ouviu-o dar um grito de surpresa e correu para junto dele. Mudo de nojo e espanto Bell apontou para o fundo do buraco, debilmente iluminado pela luz do crepúsculo.
Rhodan dirigiu a luz da lanterna para o buraco. Seu diâmetro era de cerca de três metros. Seria difícil calcular a profundidade, pois estava cheio de uma massa confusa e crepitante de pés-de-galho. Deviam ser centenas deles, e pareciam estar à espera de alguma coisa.
Bell ergueu o desintegrador, mas Rhodan segurou sua mão.
— Olhe!
Parecia que havia mais alguma coisa além da confusão reinante entre eles que movia os pés-de-galho. A massa subia e descia em movimentos alternados. Alguma coisa branca surgiu em meio a eles e finalmente apareceu. Era a cabeça pontuda de um verme igual ao que haviam liquidado meia hora atrás.
Seguiu seu caminho sem deixar perturbar-se pela confusão que reinava em torno dele. Esticando a cabeça pontuda, foi subindo aos solavancos por entre a massa de pés-de-galho. Atingiu a borda do buraco no lugar exato em que Bell e Rhodan se encontravam.
— Atire! — ordenou Rhodan, quando a cabeça do verme se sacudia a menos de um palmo da ponta do seu sapato.
Bell cobriu com o raio do desintegrador primeiro o verme e depois o resto do buraco. Levou um minuto, talvez mais, até que o buraco ficasse completamente vazio.
Agora via-se que tinha uns cinco metros de profundidade. No fundo viam-se duas aberturas escuras, de aproximadamente trinta centímetros de diâmetro. Eram os pontos de saída dos vermes, que deviam viver numa simbiose estranha com os pés-de-galho.
Anne agarrou-se a Rhodan; tremia por todo o corpo.
— Voltemos! — disse Rhodan. — Já sabemos que no futuro devemos ter muito cuidado.
Rhodan levou um pedaço do primeiro pé-de-galho, pendurado no cano da pistola. Embora o animal estivesse morto, não se arriscava a tocá-lo com as mãos.
No acampamento, Manoli e os outros membros do grupo já haviam dado cabo do resto do verme que saíra do buraco.
Rhodan entregou os restos do pé-de-galho a Manoli.
— Examine-o como puder, mas não o toque com as mãos.
Fez um breve relato das ocorrências que cercaram o resgate de Anne.
Depois de concluir o exame, o Dr. Manoli disse:
— Todo o animal é formado de uma substância córnea. Seus órgãos estão reduzidos a um mínimo, e também são formados de substância córnea, sempre que esta não prejudica as respectivas funções.
Fez uma pausa e remexeu o solo com um galho.
— Fiquei quebrando a cabeça. Analisei uma amostra da substância gosmenta encontrada no rastro do verme. Contém uma variedade tamanha de proteínas e outras substâncias, que não é possível que todas elas provenham do corpo desse animal. Minha teoria é a seguinte: ao contrário dos nossos vermes, este é um carnívoro típico, ou melhor, nutre-se da parte interna dos animais.
“Já os pés-de-galho alimentam-se com as substâncias córneas contidas nos corpos dos diversos animais. Mas não estão em condições de procurar seu alimento. Por outro lado, o verme não dispõe de qualquer instrumento cortante com que possa romper a pele de suas vítimas.
“Por isso, as duas espécies fizeram um tipo de contrato. O verme carrega a vítima até a toca, os pés-de-galho tiram-lhe a pele e devoram-na. A recompensa do verme consiste na parte interna do corpo.
“Nunca ouvi falar numa simbiose tão estranha.”

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