terça-feira, 30 de outubro de 2012

P-019 - O Imortal - K. H. Scheer [parte 2]


— Isso mesmo, bárbaro! — chilreou uma voz aguda de soprano. — Queria me matar, não é, bandido? Mas juro que não brinquei desta vez. Palavra de homem de bem! Não fiz voar nem um minúsculo parafusinho para me divertir.
Os lábios de Rhodan começaram a tremer de forma suspeita. Os homens presentes precisaram recorrer a consideráveis reservas de força de vontade a fim de manterem a necessária disciplina. Ficaram rígidos como estátuas de granito. Apenas o major Deringhouse sorria.
— Está certo, senhor homem de bem — disse Rhodan, esforçando-se por reprimir o riso. — De onde tirou esta expressão?
Novamente se fez ouvir a irritante estridência que Gucky chamava de gargalhada. De trás do segundo estereocorretor — destinado ao ajuste exato dos filmes tirados de estrelas-alvo, com microchapas pré-preparadas e de alta sensibilidade — surgiu o simulacro mal imitado de um rato terrestre.
O inteligente ser peludo do planeta Vagabundo, com seu olhar irresistivelmente confiante, recebera o nome de Gucky. Parecia atrapalhado com a tarefa de deslocar os volumosos quartos traseiros, que terminavam numa cauda em forma de pá de remo, como a dos castores.
Gucky media cerca de um metro de altura, andava normalmente ereto, e era muito esperto. Seu mais notável dom parapsicológico era a telecinésia. Levado por sua irreprimível mania de brincar — mania esta que os homens não queriam compreender — Gucky quase acabara levando a gigantesca Stardust-III ao desastre total. Sem a menor má intenção, no entanto. Tudo que queria era brincar com os interessantes objetos tão inesperadamente aparecidos em sua vida.
Gucky adiantou-se com ar desconfiado, agitando no ar os braços curtos, terminados em delicadas patas; lembrava um gordo campeão de boxe pronto para pisar no ringue. Deteve-se diante de Rhodan. Este ficou observando pensativo os olhinhos redondos do estranho ser; eram espertos e astuciosos, apesar da típica face de rato. E Gucky adquirira, no decorrer de poucas semanas, inúmeros hábitos humanos. Aquilo também parecia ser tendência natural nele.
O lustroso nariz de rato foi repuxado para cima, expondo uma linha rósea e úmida, da qual emergia o dente único de Gucky, num arremedo de sorriso. A pata miúda elevou-se para a testa coberta de pêlos. Rhodan quase não conseguia conter o riso. Agora o bichinho fazia continência!
— Tenente Guc, do Exército de Mutantes, pronto para entrar em ação — pipilou o ser peludo, com a maior seriedade. — Permita-me não dizer Gucky, chefe. Parece-me um nome infantil demais para um homem de bem.
Rhodan virou-se, com os ombros sacudidos por incontrolável tremor. Os demais homens contraíam violentamente os rostos. Apenas Bell desfiou a escala completa de seu farto vocabulário, do começo ao fim. Eram terríveis imprecações, que Gucky quitava com repetidas exposições do incisivo.
— Assassino! — guinchou o pequeno ser. — Fuzilar-me sem mais nem menos, não é? Eu escutei tudo. Mas não brinquei nem com o sol, nem com a nave. Dei minha palavra ao chefe. Só faço zunir coisas com licença dele.
Gucky calou-se, saboreando a nova palavra.
— Zunir... — repetiu, deliciado. — Ah, quem me dera! Bastaria manejar à distância os controles de emergência, e eu poderia dirigir a nave sozinho.
— Ah, é, seu zunidor? — rugiu Bell, descontrolado. — Pois trate de controlar suas manias, viu? Senão vai ter pra você! Aliás, desde quando é oficial? Que quer dizer esse tenente Guc, do Exército de Mutantes?
Gucky virou-se, com um olhar arrasador para Bell. A cauda chata bateu cinco vezes no chão, o que para Gucky representava a suprema demonstração de desprezo.
— Cinco batidas, senhor Bell... Credo, que vergonha!
— Aprestar nave para decolagem! — estrondeou a voz de Rhodan por entre as risadas sufocadas dos presentes. — Qual é o motivo da gozação? Cada ser inteligente tem peculiaridades próprias. Como pessoas tolerantes, nossa obrigação é aceitá-las. Ou vocês não são tolerantes?
Rhodan lançou um olhar gélido aos seus homens, até estourar numa sonora gargalhada diante dos oficiais estarrecidos.
Pelo Grande Império arcônida, jamais haviam presenciado tal reação no chefe. Gucky se divertia enormemente. Depois contemplou quase com ternura o homem que sabia compreendê-lo tão bem. Afinal, a idéia de se enfiar num caixote de mantimentos vazio, a fim de fazer-se levar à nave, não fora das piores. Merecera até um hipnotreinamento, para aprender rapidamente o idioma humano mais divulgado. Tudo isso contribuía para que Gucky passasse a encarar Rhodan como uma espécie de divindade.
O senhor da Terceira Potência deixou de rir tão abruptamente quanto começara. Seus olhos tornavam a refletir preocupação.
— Um ligeiro derivativo para a tensão nervosa, se me dão licença — disse em tom irônico. — Que tal retornar aos respectivos postos agora? Crest, até onde chegou com a avaliação positrônica?
Gucky foi instantaneamente relegado ao esquecimento. Homens para quem o termo avaliação positrônica tinha algum significado olharam expectantes para o cientista arcônida.
Crest parecia calmo e tranqüilo. Sob a brilhante iluminação da central, seus cabelos brancos irradiavam reflexos multicoloridos.
— Estou trabalhando nela há quatro semanas terrestres. Tenho os dados detalhados à mão. Informações exatas sobre o movimento próprio de Vega acabaram de ser fornecidas ao cérebro positrônico. Levando em conta a velocidade de deslocamento cósmico da órbita, e os fatores secundários averiguados, dentro de mais ou menos duas horas ele terá calculado a posição do planeta procurado. A posição provável... — acrescentou, cauteloso.
A face rosada de Garand surgiu numa das inúmeras telas de controle. A sala de máquinas principal estava pronta para a partida.
Rhodan consultou o cronômetro. Exatamente 17:58 h.
— Decolagem às dezoito horas, tempo de bordo — ordenou ele. — Gucky, você fica perto de mim. Espero que, depois de ter se promovido a oficial do Exército de Mutantes, você não cometa mais tolices. Por mim, pode brincar com o primeiro-oficial.
Gucky vibrou, Bell empalideceu, e Rhodan sorriu fugazmente.
Às dezoito horas em ponto, os propulsores de impulso da nave de guerra começaram a flamejar. Enormes línguas de fogo estraçalhavam o revestimento da pista. Novamente se fez ouvir o impressionante estrondo.
O vulto gigantesco se elevou verticalmente do chão; a seguir lançou-se no vácuo espacial, com tal taxa de aceleração que a atmosfera ferrônia se incandescia ao longo do trajeto de vôo. Segundos mais tarde, a Stardust-III desaparecia de vista. Apenas ardentes ventos turbilhonantes testemunhavam um segredo cuja materialização pressupunha grandiosa supertécnica.
Os ferrônios não conheciam nem neutralizadores de pressão, nem refletores energéticos para repulsão de moléculas gasosas. Jamais uma nave ferrônia poderia decolar ou aterrizar daquela maneira. Além disso, apesar de qualitativamente eficientes, os propulsores quânticos dos ferrônios não se prestariam a tais índices de aceleração.
Em Ferrol chegara-se ao limite do realizável com o aparelhamento disponível; impossível obter rendimento maior. A conseqüência forçosa era uma estagnação, iniciada há cerca de mil anos, segundo o calendário terrestre. Ligeira melhoria nos detalhes só visavam maior segurança. Era o que impressionara tão favoravelmente Rhodan na tecnologia ferrônia. O que aquela gente construía ou fabricava merecia nota dez com louvor. O acordo comercial assinado com o Thort representava rica e inesgotável mina para os habitantes da Terra.
As derradeiras ondas de pressão da violenta decolagem se desfizeram. Minutos após era irradiado o veto do Thort a novas sortidas, válido para todas as unidades de evacuação. Pilotos ferrônios desativavam resignadamente os propulsores prontos para a largada. Atos de desespero eram atos de desespero, obviamente; não tinham sentido lógico, e só em sonhos fantasiosos acenavam com o ambicionado êxito. Os homens tinham deixado novamente o oitavo mundo de Vega.







Convertendo os dados ferrônios, verificou-se que o planeta Ferrol ficava a uma distância média de um bilhão oitocentos e trinta e cinco milhões de quilômetros de seu sol.
Como Vega era o mais importante ponto de referência e coordenação no sistema do cálculo quadridimensional, Rhodan julgou necessário aproximar-se da estrela transformada em fornalha atômica, a despeito das opiniões em contrário.
Seus motivos podiam ter fundamento. Assim como podiam ser sem importância, ou não ter valor algum. No entanto, baseando-se nas avaliações finais do cérebro positrônico, Rhodan achou desaconselhável qualquer tolerância adicional naquela transição, já em si bastante problemática, uma vez que os próprios dados finais ainda continham algumas incógnitas.
Em conseqüência, preferira não arriscar o salto interestelar a um bilhão, oitocentos e tantos milhões de quilômetros de Vega. Pois o bilhão e oitocentos milhões poderia facilmente, ao menor desvio, transformar-se em cento e oitenta bilhões; somado a outros pequenos erros, o desvio os levaria para muito longe do planeta desprovido de luz que procuravam.
Crest era de opinião que os rastreadores da Stardust-III seriam capazes de detectar qualquer mundo situado num raio máximo de 0,45 anos-luz, mesmo não sendo iluminado por sol algum.
Fora uma discussão muito objetiva. Enquanto estava sendo travada, Bell levara a Stardust-III, com aceleração total, para velocidade semelhante à da luz. Agora a gigantesca nave precipitava-se em queda livre ao encontro do sol flamejante. Dois minutos atrás, o engenheiro-chefe Garand fizera funcionar, ainda, os dois geradores de força suplementares.
Nos anteparos protetores levantados rugiam tempestades magnéticas de descomunal violência. Micro partículas de matéria começavam a aglomerar-se diante da nave impelida quase à velocidade da luz. Já há três minutos, a esfera de aço arcônida estava envolvida por uma auréola de fogo.
Vega parecia querer se dissolver em chamas. Já nem era mensurável o que a estrela lançava, em autodestruidora fúria, para o espaço.
Todos os postos da nave estavam com seu pessoal completo. Como não fora dada ordem de prontidão para combate, os pilotos dos caças espaciais e dos oito girinos funcionavam como reservas diante dos aparelhos mais importantes.
Devido à velocidade da Stardust-III, não se percebia mais a intensa gravidade de Vega. No entanto, a micro matéria cósmica se condensava mais e mais. Além disso, havia extensas nuvens gasosas; mesmo sua pouca espessura representava perigo naquela alucinante velocidade.
Rhodan desligara os diversos campos de repulsão da nave, com exceção do repulsor de ionização; mediante reversão dos projetores, concentrara sua maior densidade energética na dianteira da Stardust-III.
Já haviam recorrido à capacidade de emergência das centrais de força. Desde a precipitada decolagem, o engenheiro-chefe Garand só calculava em macroescala, com valores a partir de um milhão de quilowatts-hora. Agora chegara a duzentos e cinqüenta milhões para cada gerador.
Os astronautas-chefes e técnicos da supernave tinham emudecido. Nas fisionomias contraídas, apenas os olhos pareciam ter conservado vida, e não desgrudavam dos aparelhos medidores.
Junto a Rhodan funcionava o segundo terminal do cérebro-robô de bordo. Os dados finais, de absoluta exatidão, obtidos pelo cérebro central eram divulgados ótica e acusticamente pelo painel auxiliar na central.
Os dedos de Rhodan repousavam sobre o pulso-contato ainda desligado; um leve aperto desencadearia a transição.
O ponto para início do salto, cuidadosamente calculado, situava-se a aproximadamente cento e vinte e três milhões de quilômetros de Vega. Quando a Stardust-III alcançasse aquela imaginária posição, a estrela deveria estar no setor verde, num ângulo oblíquo de 91,3 graus. Era aquele o ponto de partida.
Quando a nave cruzou a órbita do primeiro planeta de Vega, as telas mostraram por instantes o semifluido corpo celeste incandescente. Os sensores do telecom retrataram fielmente o mundo distante cerca de duzentos e vinte e oito milhões de quilômetros de seu sol.
O que corresponderia, no nosso sistema, aproximadamente à posição do planeta Marte, bastante frio. Aqui, no entanto, um mundo com afastamento médio equivalente era um inferno em ebulição, devido ao volume da estrela-mãe. No sistema Vega prevaleciam padrões de medida gigantescos.
A nave prosseguia em vertiginosa disparada. Um minuto-luz após, o invólucro esférico fortemente blindado começou a reboar. Rhodan pigarreou levemente e falou:
— Poderia me arranjar uma xícara de café, senhorita Sloane? O autômato de bebidas já deve estar reabastecido. Grato pela gentileza.
Anne Sloane, a graciosa e esbelta mutante com capacidade para a telecinésia, não moveu um só músculo do rosto. Com um olhar cheio de compreensão para o homem magro, concentrou suas forças parapsicológicas sobre o robô. Um copo de plástico escorregou da pilha e flutuou para debaixo da torneirinha. Sem que ninguém a tocasse, o líquido começou a fluir. Depois, mãos fantasmas levaram o recipiente até o assento do primeiro-piloto. Rhodan pegou-o calmamente. Após inúmeras experiências em comum, encarava com a maior naturalidade as inacreditáveis façanhas de seus altamente dotados especialistas.
O olhar de Anne perdeu a fixidez. Enquanto o casco da nave reboava com intensidade crescente, e vividos relâmpagos percorriam as camadas externas dos campos de repulsão, ela disse com deliberada determinação:
— Lamento não ter xícaras a mao, senhor. Gostaria de um pouco mais de açúcar?
Rhodan agradeceu com marcada gentileza Nas fisionomias pétreas dos demais não se via a menor expressão. Conheciam bem o chefe! Quando ele se entregava àquela enervante atuação, era hora de conservar o sangue-frio. Ninguém a bordo da Stardust-III ousaria confessar naquele instante que sentia medo. Todos faziam de conta que o perigo iminente era coisa sem a menor importância. Seguindo o velho habito dos pilotos de prova da força espacial norte-americana, falavam de tudo, menos do que os esperava nos próximos momentos.
Eram os minutos imediatamente anteriores à decisão; o breve hiato que o psicólogo-chefe da força espacial costumava chamar de hora das palhaçadas; mero derivativo para alívio das tensões.
O casco começou a vibrar. Faltavam três minutos-luz para o local da transição. Um ronco irreal se fez ouvir. Muito abaixo dos pés dos homens, os reatores das centrais de força eram espicaçados a entregar suas derradeiras reservas. Cada segundo parecia durar uma eternidade.
— Faz um tempo lindo lá fora, só que um tanto nublado — comentou Bell, impassível.
Evidentemente interessado, Rhodan observava as telas de imagem, nas quais aparecia um infernal turbilhão. As vibrações tornaram-se tão violentas que as poltronas automáticas lançaram os cintos de segurança em torno dos ombros dos homens.
— É, talvez venha a chover... — concordou Rhodan.
A face de Garand surgiu numa das telas. Seu sorriso era forçado. Com voz sem expressão, comunicou:
— Engenheiro-chefe ao comandante. Perdemos um pouco de velocidade. Matéria mais densa. Tranca um bocado nosso progresso. Devemos...?
— Manda brasa! — respondeu Rhodan, depois de demorado sorvo no copo.
Mais uma vez os propulsores do gigante espacial começaram a rugir. A fim de manter o ímpeto necessário ao salto pentadimensional, foi empregado 92,85647% do empuxo disponível na aceleração.
Um berreiro estridente e lamentoso tornou a transformar os rígidos astronautas em gente. Rhodan voltou-se bruscamente; de repente a impassibilidade desaparecera de sua face. Por trás da máscara surgiu um rosto acinzentado, com olhos esbraseados.
— Estou com medo! — guinchou Gucky. — Estou morrendo de medo!
Engatinhando com as quatro patas, correu para junto de Rhodan, buscando proteção. Bell riu alto, exclamando sarcasticamente:
— E quem é que não está? É preciso pertencer a outra espécie para ter a coragem de confessar, não é? Raios! Daqui a dois minutos o anteparo vai entrar em colapso, e viramos todos farelo.
Aquelas palavras pareciam até um sinal. Garand começou a gritar. A seguir todos estavam gritando.
Rhodan se encolhera em sua poltrona, diante dos controles. Crest apertava os punhos cerrados contra a boca, fitando com ar alienado a monstruosa estrela palpitante em louco turbilhão. Apesar de já ter ficado em posição oblíqua à da nave há algum tempo, sua imagem ainda preenchia todas as telas. Gigantescas línguas gasosas, provocadas por explosões ainda mais gigantescas, projetavam-se no espaço. A Stardust-III movimentava-se no limite extremo do alcance delas.
Apenas Rhodan ouviu os informes finais do cérebro-robô. A luz de controle azul piscava a intervalos cada vez mais freqüentes, acabando por ficar permanentemente acesa, num azul intenso.
Vertiginosamente Rhodan fez passar pela memória a seqüência de fatos até então ocorridos durante a busca ao maior segredo do Universo. Tudo principiara inofensivamente com a descoberta dos hiper-transmissores pentadimensionais de matéria dos ferrônios. No entanto, os conhecimentos matemáticos destes nunca poderiam ter lhes permitido fabricar tais aparelhos.
Haviam dado com a pista de um inconcebível ser vivo, fato que logo lhes impusera as primeiras tarefas. Haviam resolvido uma por uma, até que a problemática passou para o campo parapsicológico.
No mundo natal de Gucky tinham descoberto por fim o último indício sobre a existência de um planeta errante. No meio de uma sala totalmente vazia aparecera-lhes a reprodução fiel de um setor da Via Láctea. Nela, Vega era inconfundível. Rhodan sabia com certeza que a estrela possuíra outrora quarenta e três planetas, em vez dos quarenta e dois atuais; considerando os demais fatores conhecidos, não restava dúvida de que era aquele o mundo da vida eterna.
Seus habitantes tinham arrancado o planeta inteiro do campo gravitacional de Vega, porém haviam deixado pistas. Uma linha curva, claramente identificável, atravessava a constelação. Cálculos revelaram que a curva era parte de uma imensa órbita elíptica, ao longo da qual o corpo celeste devia se deslocar. E a análise matemática revelara uma estranha peculiaridade: a Terra ocupava exatamente um dos dois focos da elipse. Até parecia que os desconhecidos charadistas visavam de modo todo especial a humanidade terrestre.
Os cálculos tremendamente complexos, que jamais poderiam ter sido resolvidos sem a ajuda do cérebro positrônico de bordo, baseavam-se num filme do modelo.
E agora Perry Rhodan estava em vias de se precipitar diretamente no reduto do desconhecido que vivia, supostamente, mais do que o sol — pressupondo que o salto interestelar decorresse com êxito.
Então, repentinamente, o suporte de fixação libertou com audível clique o botão que comandaria o salto, expondo-o livremente no braço da pesada poltrona.
Cinco segundos antes da transição, Rhodan enviou o chamado impulso de permissão à hiperpositrônica operante. Homem algum seria capaz de dirigir ou sequer influenciar o processo no hiperespaço.
Ouviu-se um grito alto e agudo. As ramificações finais das chamejantes protuberâncias de Vega já ameaçavam atingir os anteparos da nave. Não se conseguia mais entender as próprias palavras. A enorme Stardust-III transformara-se num retumbante sino.
Era como se a barreira de fogo de toda uma frota de batalha se abatesse sobre ela. Rhodan calculara que a energia liberada por uma única protuberância de tamanho médio equivalia a cerca de um milhão e duzentas mil bombas de hidrogênio de fabricação terrestre.
Nunca, até então, a nave de guerra arcônida fora obrigada a suportar tamanho impacto.
Na última fração de segundo antes da transição, Rhodan percebeu o fogaréu roxo do anteparo em colapso. Os fusíveis de todos os reatores de força explodiram simultaneamente. Impossível obter rendimento maior; os homens haviam chegado ao seu limite! O que significava que o casco de aço da espaçonave estava à mercê da fúria titânica de um gigantesco sol em explosão.
Novamente os alto-falantes divulgaram o grito estridente. Seu tom agudo se sobrepunha ao clamor intenso das máquinas, até morrer num débil sussurro.
Em torno da nave criara-se algo não mais pertencente ao universo presente. O campo estrutural arcônida, para deflexão total de todo fator quadridimensional, ainda pudera ser formado antes da catástrofe. Transformava a matéria sólida da nave em algo inconcebível, que recebia em forma completamente desmaterializada o impulso para o salto.
A Stardust-III, ainda há poucos instantes uma flamejante tocha metálica, desapareceu do espaço normal.
O cérebro dissolvido de Rhodan levou o grito consigo. E o som ainda permeava seus sentidos quando a nave retornou ao espaço normal, após o curto salto de mil e seiscentos anos-luz. Como sempre, a transição se dera sem decorrência perceptível de tempo, apesar de a ciência arcônida ter provado que no plano pentadimensional se fazia valer outro fator, o qual, devidamente simplificado, também poderia ser denominado tempo. Segundo esta noção, cerca de cento e vinte e três anos teriam se passado para a tripulação.
Alteração alguma ocorrera no espaço normal. De acordo com o cronômetro de bordo, a rematerialização se efetuou após alguns instantes.
Desta vez Rhodan conseguiu se libertar rapidamente das últimas impressões sentidas antes do salto. E ninguém ficara inconsciente.
Nas telas do circuito panorâmico cintilava o imenso mar de estrelas da Via-Láctea. Nas telas da ré, a ampliação telescópica mostrava um ponto especialmente luminoso. Era a imensa Vega, vista ainda sob sua luminosidade normal. Nada se percebia das vivas labaredas do processo explosivo em andamento. Para isso, teriam que se passar primeiro mil e seiscentos anos. Antes a luz não chegaria até ali.
Rhodan não desperdiçou tempo em palavras desnecessárias. Rapidamente verificou os controles das diversas unidades propulsoras. Os sistemas automáticos de pilotagem e produção de energia, programados antes do salto, tinham entrado em funcionamento, muito mais depressa do que o raciocínio ou a ação de qualquer ser humano.
Um rumor surdo já fazia a Stardust-III vibrar novamente, porém desta vez por obra de sua própria maquinaria. Os propulsores tinham entrado em funcionamento, a toda a potência, no fugaz instante em que se executava a manobra de reentrada.
O supergigante freava à taxa de 500 km/s2, o que exigia o emprego total de todas as unidades de força. Caso a sobrecarga as fizesse falhar, homens e material seriam pulverizados pelas tremendas forças compressoras geradas pela redução de velocidade.
Todos os pensamentos de Rhodan se concentravam naquilo. A velocidade continuava quase igual à da luz; com carga máxima, ela poderia ser reduzida a zero dentro de dez minutos, tempo de bordo. Poderia, caso as máquinas estivessem cem por cento em condições.
As mãos de Rhodan puseram-se a trabalhar. Bell, que acabava de recuperar, sobressaltado, a mobilidade, entendeu imediatamente. O ronco dos propulsores sobrepujava o ruído das estações de força em funcionamento. E elas precisavam fornecer ainda energia para os famintos absorvedores de compressão, ou tudo estaria acabado num abrir e fechar de olhos.
Nas telas de controle viam-se as dependências das estações de força. Algumas das pilhas arcônidas, altas como casas, tinham as luzes violetas acesas; não funcionavam. Outras trabalhavam satisfatoriamente, porém os transformadores não davam conta do recado. Tudo parecia produzir escassamente a energia necessária para os projetores de neutralização.
— Catástrofe iminente! — berrou estridentemente um dos alto-falantes. — Medidores do supervisor positrônico recomendam imediata redução dos elevados índices de frenagem. Não há garantia para fornecimento de energia.
Era a voz mecânica do cérebro-robô que falava.
A mão de Bell disparou para a esquerda. Seus dedos já tocavam o comutador de estágios da central, quando percebeu o olhar de Rhodan.
Já não era irônico, e muito menos se lia humor neles. Profundos e dominadores, os olhos expressivos veiculavam um comando mudo. Jamais o poder de sugestão do comandante se fizera impor tão intensamente. Bell sentiu-se como que atingido por um punho invisível, e recolheu a mão.
— Não vai fazer isso, não é? — soou a voz de Rhodan, por entre o rugido surdo dos propulsores.
— Claro que não! — disse Bell, com um riso forçado, e contra a vontade. Com um suspiro de alívio, viu os olhos de Rhodan voltarem ao normal. Mas não podia deixar de fitar fascinado o homem cujo poder mental inato fora aperfeiçoado e reforçado a cada sessão de treinamento hipnopédico. Quando Rhodan queria alguma coisa — e especialmente quando, além de querer, estava profundamente excitado — não havia oposição possível. Em momentos destes, até homens do gabarito de Reginald Bell se transformavam em criaturas indefesas.
O comandante voltara ao trabalho. Nem pensava em diminuir as taxas de frenagem. Impulsos transmitidos sem fio levavam ordens ao cérebro-robô, determinando as providências para contornar a situação de catástrofe; eram instantaneamente comunicadas aos mecanismos adequados.
Nas salas de máquina hermeticamente vedadas da Stardust-III, desprovidas de qualquer presença humana, inúmeros robôs-especialistas se ativaram. Diferentes em características de construção e formatos, puseram-se a trabalhar nas pilhas defeituosas.
Quando, instantes após, o alarma automático começou a emitir agudo assobio, e a energia disponível mal bastava para suprir os absorvedores de compressão, quatro das enormes pilhas entraram em funcionamento simultaneamente.
Cinco minutos após o início da violenta manobra de frenagem, o perigo tinha sido contornado. Rhodan pediu, então, o segundo copo de café.
Depois relanceou circunspectamente os olhos pelos companheiros. Bell passou a ponta da língua nos lábios. Sua admiração por aquele homem era ilimitada.
— Não podíamos deixar de frear tão bruscamente, compreendem? — disse Rhodan, em tom quase sonhador. — Claro que os reatores de força estavam parcialmente avariados. Mas, vindo como vínhamos, à velocidade da luz, se não freássemos no momento apropriado, com os valores máximos precisamente determinados, jamais encontraríamos o planeta procurado. Conhecemos a velocidade orbital do planeta; dentro de quatro horas emparelharemos com ele. Porém isso só deve ocorrer no ponto do espaço em que se encontra o planeta sem sol. Já imaginaram que complexos problemas matemáticos se apresentariam caso tivéssemos passado em disparada por este ponto, conhecido apenas teoricamente?
Bell engoliu em seco, ruidosamente.
— Eu gostaria de saber que diabo me mordeu para botar os pés dentro desta nave espacial! — resmungou ele, com um olhar contrariado para sua mão. — Em vez disso, a estas alturas eu estaria ocupando respeitável posição na sociedade, numa cidadezinha qualquer da costa oeste americana. O que estamos fazendo é loucura! Pura loucura!
— Aguardemos! — determinou Rhodan. — Capitão Klein, cuide por favor dos detectores. Peço que os mutantes se dirijam para a cantina D, para uma reunião. Daqui a cinco minutos, digamos. Obrigado.
Rhodan se ergueu de seu assento. Os cintos de segurança já tinham sido novamente escamoteados para dentro do encosto. Sob o silêncio mortal dos presentes, encaminhou-se para o elevador. Mesmo após sua saída, o silêncio continuou. Apenas Crest murmurou uma frase:
— Algum dia ele presidirá o Grande Império...



Os estereocorretores arcônidas tinham sido acoplados às amplas telas examinadoras. Com isso assegurava-se a perfeita justaposição com as fotografias tiradas.
A manobra de emparelhamento acabara consumindo quatro horas inteiras, de acordo com o relógio de bordo. Para a aparelhagem de um cruzador de pesquisa arcônida, ou para uma grande nave de guerra perfeitamente equipada, era brincadeira sondar o setor espacial de um sol desconhecido, com o intuito de localizar eventuais planetas. Caso existisse algum, os rastreadores, mais rápidos do que a luz, determinavam sua posição exata num prazo médio de trinta minutos. Em outros trinta, avaliava-se a massa, densidade, velocidade de rotação e translação do corpo celeste.
No presente caso, Rhodan desistira desde o início de tomar por base dados provenientes da experiência normal. Não nutria nenhuma esperança particular, nem deixava nascer idéias extravagantes. Às quatro horas gastas para emparelhar com o planeta desconhecido bastavam para provar que os fatores em jogo eram de natureza totalmente diversa.
Os homens da Stardust-III estavam empenhados na mais árdua tarefa que se lhes apresentara até o presente.
Há horas vinham fazendo a captação de imagem externa. Incontáveis estrelas, e remotos mundos isolados luziam nas telas, em fiel reprodução ótica. Mas era tudo tão distante que nem um só daqueles inúmeros sóis poderia ser remotamente relacionado com o corpo celeste procurado.
Rhodan se encontrava, com os oficiais superiores, no setor de cálculo da central. Após as últimas correções, os propulsores tinham emudecido. Os estereocorretores indicavam que a nave acompanhava com exatidão a linha que constituía parte da órbita elíptica igualmente percorrida pelo planeta desconhecido, em sua trajetória em torno de trinta e um sistemas solares dispostos numa reta.
Os dados numéricos conferiam até a décima casa decimal. Mesmo assim, deviam conter uma ou outra aproximação, o que aliás, era de esperar diante das enormes distâncias envolvidas.
Crest observava atentamente os diagramas dos resultados finais fornecidos pelo computador positrônico. Tudo parecia indicar que não havia erro algum.
Thora mantinha-se hirta e imóvel ao lado dos múltiplos aparelhos.
Os mais destacados mutantes tinham comparecido à central há uma hora. Sondavam e escutavam, com seus extraordinários sentidos, à procura de algo jamais visto, ouvido, nem sequer claramente concebido pelo pensamento.
Rhodan dera ao planeta procurado o nome de Peregrino. Parecia ser a designação mais apropriada para um mundo que levaria dois milhões de anos terrestres para aparecer novamente no sistema Vega, caso mantivesse a órbita calculada.
Gucky, o ente peludo de Vagabundo, acocorara-se por trás de Rhodan, sobre o piso inteiriço de matéria plástica. Os olhinhos lustrosos miravam com curiosidade e um pouco de cobiça as inúmeras chaves e alavancas. O gesto de advertência da mão de Rhodan provocou em Gucky o melancólico desnudamento do grande dente incisivo. Compreendera que em hipótese nenhuma poderia brincar ali. Com audível suspiro, levantou os pesados quartos traseiros do chão.
— Vou ver o cozinheiro-chefe — chilreou o rato-castor. — Mande John Marshall me procurar, caso precise de mim, chefe.
Rhodan acompanhou com o olhar o animalzinho que se afastava gingando. Em determinadas circunstâncias, Gucky poderia vir a se tornar o mais valioso membro do Exército de Mutantes.
Gucky deteve-se diante do mais jovem membro da tripulação. Betty Toufry era muito jovem ainda, mas quem fitasse seus imensos olhos escuros perceberia logo que mentalmente ela não era nenhuma criança.
— Vem comigo? — perguntou Gucky. — Aqui está muito chato.
O rostinho miúdo, aureolado por cabelos escuros, exibiu um radiante sorriso.
— Posso? — indagou ela.
Anne Sloane, que, a bordo, também fazia às vezes de mãe junto a Betty, procurou dar à voz um tom deliberadamente alegre. Rhodan acenara brevemente com a cabeça. Aquilo bastava.
— Claro. Mas nada de traquinagens, está bem? Os panelões da cozinha não são para dar banho no cozinheiro. Chamo vocês, se for preciso.
Gucky animou-se instantaneamente. Em dedução surpreendentemente nítida, já compreendera há muito tempo que em toda a nave talvez existisse um único ser vivo disposto a brincar com ele. Mas o porquê daquilo escapava à compreensão do inteligente habitante de Vagabundo. Contentava-se em atribuir o estranho fato ao tempo de vida relativo das demais pessoas.
— Podemos fazer voar coisas geladas para debaixo da gola do gordão! — exclamou ele, jubilante. — O chefe afirmou que isso não representa grande risco para a nave; não compromete seu bom funcionamento.
Sem a menor transição, Betty Toufry virou criança. Possuía capacidade relâmpago para se transformar.
Com a maior facilidade, os dois excepcionais telecinetas abriram as complicadas fechaduras eletrônicas das portas blindadas. Descerraram-se de par em par, sem que alguém tocasse nos respectivos botões de comando.
— Eu fui mais rápido! — afirmou Gucky. — Você quer voar?
Reginald Bell contemplava em silêncio os dois seres vivos tão singulares. O espontâneo entendimento entre uma representante da jovem geração humana e uma inteligência completamente alienígena, oriunda das profundezas da galáxia, poderia representar o primeiro passo na senda da compreensão e da aceitação mútua. Só assim haveria condições para o nascimento de um reino estelar; só assim se poderiam evitar conflitos.
— Os pequeninos sempre dão jeito de se entender, não é? — disse Rhodan, dando voz aos pensamentos de Bell.
O homem atarracado estremeceu; seus olhos se apertaram, desconfiados.
— Você agora deu para bancar o telepata? Como sabe que eu...?
— É apenas o que qualquer pessoa sensata pensaria diante de tal cena.
— O cozinheiro-chefe vai acabar biruta — observou o capitão Klein. — Ontem esses dois armaram a maior barafunda na câmara frigorífica.
Rhodan não deu mais resposta. O breve interlúdio fora repousante, porém os problemas voltavam a ocupar sua atenção.
Por trás da parede transparente da central de localização, viam-se os altamente eficientes radioperadores da nave de guerra. Um curto treinamento hipnopédico capacitara-os a operar os complexos aparelhos de uma raça de superior desenvolvimento.
Rhodan levou o pulso esquerdo, equipado com um mini-microfone, aos lábios. Nos receptores da central de localização, sua voz saiu alta e clara:
— Deringhouse, como está a situação? Nenhum resultado ainda?
Um vulto alto, mal e mal discernível, ergueu a cabeça a uns cinqüenta metros de distância. De onde estava, podia vislumbrar parte da central de comando.
— Nada, senhor! — dizia o aparelho de Rhodan. — Este setor espacial parece literalmente varrido; vazio e deserto.
— Os rastreadores não acusam nada?
— Justamente estes é que não se mexem. E, no entanto, me trariam os ecos de qualquer coisa que flutuasse num raio de alguns meses-luz daqui. Apenas os micro-sensores registram a habitual poeira cósmica. Um átomo isolado a intermináveis intervalos. Que eu saiba, planetas são um pouco mais consistentes.
— Grato pelo esclarecimento, major! — replicou Rhodan, gelidamente.
— Peço desculpas, senhor. Tornei a esquecer que possuo nervos.
A avaliação final do cérebro positrônico chegara. Rhodan inclinou-se avidamente para a frente. A transição dera certo, assim como a manobra de emparelhamento, e as correções de curso.
Lentamente voltou à posição anterior; a Stardust-III arrastava-se pelo espaço com a quase ridícula velocidade de 16,8 km/s; e os arredores pareciam estar efetivamente desertos. Nem mesmo um reles meteoro era acusado pelos mais aperfeiçoados aparelhos de detecção de todos os tempos. E não escaparia à atenção, mesmo que medisse só vinte milímetros de diâmetro!
Fato assaz deprimente. Olhando para trás deliberadamente, Rhodan constatou, em tom seco:
— Caras amarradas, olhares recriminadores e ar de petulante arrogância. É nisso que se resume sua alta cultura.
— Já podíamos ter atingido Árcon — interveio Thora, acaloradamente. — Mas você se recusa a nos ouvir, Rhodan! Jamais conseguirá resolver a última charada. Jamais! Leve-nos para casa de uma vez; a mim e a Crest, conforme prometeu há tanto tempo. Crest desiste do segredo da conservação celular. Portanto, não tem mais motivo para pôr nossas vidas em perigo, Rhodan.
— E Vega que está explodindo? Esqueceu dela? Além disso, nossos cálculos estão corretos. O planeta procurado está por perto. Como não contorna sol algum, nem emite luz própria, não podemos vê-lo. Mas encontraremos outros meios.
— Palavras heróicas e grandiosas! — zombou a arcônida. — Encontraremos! O mais provável é que não encontre coisa alguma. Seus cálculos baseiam-se em dados precários demais. O tal mundo pode estar a cem anos-luz de nós, se é que existe de fato. Eu duvido!... Volte, Rhodan!
A testa franzida de Bell ocultava evidentemente pensamentos bem diversos dos que expressou, em tom agressivo:
— Voltar, coisa nenhuma! Tenho a vaga sensação de que alguém anda nos fazendo de bobos, para ver se enjoamos da brincadeira. Dá valor a uma boa idéia, amigo?
Rhodan sentou-se numa poltrona anatômica.
— Por que não? Se for aproveitável, pode-se pensar no caso.
— O imortal, ou então, os imortais, nos têm feito roer um osso duro. Tanto a lógica quanto o bom senso indicam que as tarefas vêm sendo cada vez mais difíceis. E esta é a mais dura de todas elas.
— Até aí, tudo velho. Qual é a boa idéia?
— O planeta está sendo protegido contra nossos aparelhos de detecção, só isso. Devíamos verificar, aliás, se eles ainda funcionam direito. Mande um dos pequenos caças para fora; afastando-se de nós, ele poderá verificar como se comportam os detectores. Desta forma, começamos por eliminar uma das principais dúvidas.
— Idéia verdadeiramente extraordinária... — murmurou Rhodan, pausadamente. — Major Nyssen!
O berro foi ouvido em todas as seções da nave, levado pelos alto-falantes. O rosto enrugado de Nyssen surgiu numa das telas.
— Presente, chefe! — disse, com voz rouca. — Costumo estar no hangar dos caças.
— Dá para adivinhar — rosnou Rhodan. — Por que acha que quero vê-lo? Meta-se dentro de um caça. Em cinco minutos, pontualmente, virá o impulso de ejeção, quer esteja instalado na banheira ou não. Depressa com isso!
Nyssen soltou uma praga. Ainda depois de seu rosto sumir das telas ouviam seus resmungos.
Um dos telepatas estremeceu, aterrado.
— Se soubesse o que ele está pensando no momento — sussurrou, perturbado. — Pelo deus Netuno, é de arrepiar os cabelos!
— Pois não conte a ninguém — aconselhou Rhodan, rindo. — Sabe que existe liberdade de pensamento a bordo, não é? Major Deringhouse!
— Às ordens!
Um rapaz comprido, com inúmeras sardas, desembrulhou-se do assento em forma de concha, no lado oposto da parede transparente.
— Ouviu o que tencionamos fazer. Idéia do senhor Reginald Bell. Inacreditável, mas ele teve uma idéia! Ligue seus detectores só depois que Nyssen tenha disparado por três minutos, com força total, no espaço. Quero ver como é que eles reagem. Nyssen, ainda me ouve?
O major respondeu pelo rádio, da carlinga de seu caça. Conseguira executar o malabarismo de se instalar no caça em instantes.
— Pista livre. Escolha seu rumo à vontade. Mas, assim que for ejetado, fique de olho no localizador automático. Não prossiga, caso não conseguir manter a Stardust-III em foco; em hipótese alguma. Nunca mais nos encontraria.
— Tenho ar, água e alimento para quatro semanas — rosnou Nyssen, sarcasticamente. — Pode deixar, chefe. Vou prestar atenção.
Cinco minutos após, uma ligeira sacudida percorreu a nave. Cuspindo fogo, um vulto trovejante chispou pela abertura escancarada da comporta, logo acima do grosso cinturão que envolvia a nave.
O super-rápido caça de um só tripulante ganhou o espaço cósmico com alucinante aceleração. Instantaneamente o pontinho luminoso sumiu do alcance ótico normal, afundando nas trevas.
— Nyssen ao comandante — rugiram os alto-falantes. — Rastreador automático em ordem. Tenho a Stardust-III na mira do localizador. Pode deixar que eu acho vocês de novo. Vou pisar no pedal. Fim.
Nyssen desligou o microfone do rádio, virando a chave para o hipercom, mais rápido que a luz. O sistema comum de comunicação não lhe valeria de nada agora. Tornara-se um solitário e extraviado vivente nas insondáveis profundezas do Universo. Da nave não se via mais o menor sinal. Tudo que ouvia era o rumor surdo de seus propulsores, que o arrastavam para o nada, a 500 km/s2, sempre para mais longe da nave-mãe. Decorridos três minutos segundo o relógio de bordo, empurrou de volta o comutador de estágios. O sonoro rugido transformou-se num débil murmúrio.
Em queda livre, fazendo cerca de 9.000 km/s, o pequeno caça avançava aceleradamente. Nyssen olhou em torno. A sensação de ilimitada solidão já lhe era familiar. E as missões em Vega tinham sido, provavelmente, muito mais perigosas do que aquela.
Consolou-se durante algum tempo com esta idéia, até perceber, com dolorosa clareza, a ligeira diferença entre o nada absoluto e um sistema atulhado de planetas. Pelo menos lá tinha a possibilidade de realizar um pouso de emergência a qualquer momento. Ali, porém, existia apenas a Stardust-III nas redondezas. Caso ela desaparecesse de repente, Nyssen estaria irremediavelmente perdido.
O suor começou a brotar-lhe na fronte. Angustiado, ficou observando a luminosa superfície esverdeada do localizador automático. A nave de guerra ainda aparecia sob a forma de um minúsculo ponto. Mesmo assim, suas mãos se crisparam sobre o comutador de reversão do pulso-jato energético. Agora só lhe restava esperar. Os detectores da nave já deviam estar trabalhando.
Decorrido um breve minuto, cada segundo passou a durar uma torturante eternidade. Com gesto brusco acionou a reversão; a mão esquerda regulou no ponto máximo o comutador de estágios dos propulsores.
Diante do nariz pontudo do caça espacial, o fogo violeta relampejava dos jatos de frenagem. Nyssen iniciava o processo de desaceleração.
Débeis sons entremearam o rugido das máquinas; o hipercom se manifestava.
— Deringhouse a Nyssen. Regresse imediatamente. O mais depressa possível, entendeu? Confirme.
Nyssen pressentiu que algo não estava em ordem. Inquieto, mas com todo o volume de voz, berrou sua confirmação aos quatro ventos. Parecia que a bordo da Stardust-III ninguém o escutava.
— Confirme, major Nyssen! Nyssen, manifeste-se!
Então o piloto espacial compreendeu que sua decolagem desencadeara algo. Lentamente reclinou-se para trás, no alto encosto do assento. Seus olhos procuraram a minúscula faísca luminosa amarela, perdida em algum ponto daquele oceano galático repleto de estrelas. Um dos pontinhos era o sol terrestre. Nyssen não saberia dizer ao certo o que estava pensando. Sabia apenas que, de alguma forma indefinida, considerava sua vida terminada.
Os propulsores do caça continuavam funcionando.





— Afinal, a idéia não foi tão boa assim! — queixou-se Bell, ao ser atirado no chão pelo repentino choque.
Deitado de bruços, ficou à escuta. Rhodan agarrava-se aos firmes braços do assento, diante do terminal positrônico. Novo choque, ainda mais brutal, seguiu-se ao primeiro. Apesar disso, as telas do visor panorâmico continuavam vazias. Não se via nada parecido com algum eventual feixe energético dirigido contra a nave. Não havia absolutamente nada que pudesse ter abalado a imensa massa da Stardust-III; e muito menos fazê-la sacudir com tamanha intensidade.
Ao lado, Deringhouse clamava pelo piloto do caça ejetado. A decolagem de Nyssen provocara algo. O quê, ninguém sabia ainda ao certo.
Mais um choque. Rhodan afrouxou as mãos crispadas, e olhou em torno como se nada tivesse acontecido.
Não houve pânico a bordo. Desde o encontro com o maior charadista do Universo, o pessoal estava habituado a tudo. Rhodan puxou o microfone para perto de si. Justamente quando o quarto choque atingiu o casco como uma onda de choque.
— Comandante à central energética... — soou sua voz pelas diversas seções. — Nada de nervosismo, por favor! Garand, faça funcionar o campo gravitacional. Grau 2, por enquanto! Veja se o próximo choque ainda nos atinge com igual força. Executar.
O capitão Klein arrastara-se para seu posto de fogo. A repercussão dos choques fazia o piso vibrar violentamente; era quase impossível andar normalmente.
Garand confirmou. Logo em seguida ouviu-se o tumulto dos reatores em funcionamento. As instalações defeituosas tinham sido reparadas bem na hora. A Stardust-III recuperava-se dos prejuízos sofridos, nas imediações de Vega, no setor do suprimento de energia.
Nas telas começaram a brilhar reflexos azulados. O cerrado campo gravitacional começava a envolver o casco da nave. O violento balanço diminuiu imediatamente. Com a entrada em ação da auto-estabilização, a calma retornou.
Reginald Bell ergueu-se cautelosamente. Rhodan assobiava baixinho, escandalosamente desafinado. Seu olhar meditativo parecia atravessar as paredes.
— Alô, velho amigo! — disse ele, de repente, levando a mão à altura do peito. E acenou amistosamente.
Bell olhou em torno, atônito. Não, ninguém que merecesse o aceno... Lançou um olhar suplicante para o médico de plantão da central. Tratava-se do Dr. Eric Manoli, o médico que acompanhara Rhodan no primeiro vôo tripulado do homem à Lua.
Os ombros magros de Manoli fizeram um leve movimento. Mudamente sacudiu a cabeça.
— Está sentindo alguma coisa? — perguntou Bell a Rhodan, com voz adocicada. Com um sorriso forçado, encaminhou-se para o comandante. Tudo foi bem até se sentir levantado no ar com um puxão, e atirado de volta para seu lugar. E de modo nada delicado.
— Quem foi que fez isso? — rugiu, vermelho de raiva, encarando o grupo de mutantes encolhido num canto.
Tama Yokida, também produto de Hiroxima, ergueu timidamente um dedo.
— Eu! É proibido tocar nas pessoas...
Rhodan levantou-se sem ser perturbado, fitando com leve reprovação o pequeno japonês.
A calma voltara a se estabelecer na Stardust-III. Mas era a calma antes da tempestade. Rhodan ocupou seu posto diante dos controles principais. À vista de todos, apertou o botão de fixação automática do cinto de segurança. Segundos depois, o sistema de alarma começou a ulular.
A voz do comandante era extraordinariamente calma. Achava dispensável dar explicações muito detalhadas.
— Estabelecer prontidão de combate. Dirigir robôs do plantão-catástrofe para os respectivos postos. Deringhouse, que é feito de Nyssen?
— Não responde! — lamuriou a voz no alto-falante.
— Continue chamando. Está com o caça nas telas?
— Sim, senhor; os ecos estão ótimos. Portanto, os aparelhos funcionam.
— Foi com a finalidade de comprovar isso que realizamos o exercício. Atenção, todos: parece que estamos sendo empurrados ou envolvidos por um campo energético cuja natureza não sei explicar. Preparem-se para toda a sorte de surpresas. Os locais mais seguros serão seus postos de combate. Capitão Klein, dispare um raio energético inativado, da peça situada no pólo superior. Use um canhão de impulso. Eu gostaria de poder ver o feixe de raios.
— Ainda ocorrem ondas de choque — comunicou a central energética. — São absorvidas pelo campo gravitacional. Fim.
Bell recuperara o controle, e indagou curioso a Rhodan:
— A quem você denominou velho amigo?
— Concedo-lhe três chances de adivinhar. Nosso titio charadista acaba de se manifestar. Aposto meu pescoço como estamos perto do planeta.
— Então devíamos vê-lo; ou poder localizar e medi-lo com nossos instrumentos.
— Chegaremos lá — afirmou Rhodan, contraindo o cenho. — Só resta saber como.
— Nyssen acelera, com valores máximos — informou Deringhouse. — Devo assumir o telecomando do caça?
— O mais depressa que puder. Pelo que conheço do charadista, os choques são apenas um aperitivo.
Deringhouse ligou o automático. Nyssen viu a lâmpada vermelha brilhar acima de sua cabeça. Ficou sabendo, então, que o pessoal da Stardust-III o tomara sob tutela, independentemente de terem ou não ouvido suas mensagens. Os olhos ansiosos do major perscrutavam o espaço à sua frente. A refrigeração de seu traje espacial regulamentar entrou automaticamente em funcionamento, ao perceber que os índices de umidade dentro da roupa pressurizada alcançavam nível proibitivo.
A seguir Nyssen avistou o débil brilho por entre o mar de estrelas. O diminuto fogo-fátuo ficou visível até ser ofuscado pelas chamas dos propulsores do caça. Estava sendo freado à distância, de bordo da nave espacial. Agora restava abrir o tremendamente letal anteparo, senão o minúsculo caça seria desintegrado num fulgurante raio de luz. Mas aquela preocupação era problema privado de Nyssen. Precipitar-se, com vertiginosa velocidade, ao encontro de uma nave espacial quando se sabia que ela estava protegida por campos de repulsão extremamente intensos sempre constituía tremenda carga nervosa. Alguns dos campos não afetavam objetos materialmente estáveis. Porém a estrutura dos campos gravitacionais não se encontrava entre as conquistas mais simpáticas de técnica arcônida.
Não era um fenômeno que se pudesse qualificar de normal, no estrito sentido da palavra; tratava-se de unidades energéticas da quinta dimensão sobrepostas. Pois os arcônidas sabiam exatamente o que era gravitação, enquanto os cientistas terrestres ainda quebravam a cabeça tentando descobrir.
O caça de Nyssen ainda era um corpo alucinantemente rápido, lançando flamejantes línguas de fogo no negrume do espaço.
Muito à sua frente, a Stardust-III se tornou, enfim, visível. Dentro de instantes, aparecia com o tamanho de uma bola de tênis, claramente delineada entre as estrelas.
Com um suspiro vindo do fundo do coração, Nyssen desligou de vez a pilotagem manual do pequeno avião, e constatou que sua velocidade era quase nula. Ao mesmo tempo verificou que todo um hemisfério da nave de guerra se transformava numa fornalha que cuspia raios.
Nyssen tinha consciência de que berrava suas observações no microfone. Diante dele, o anteparo energético abriu larga brecha. Forças magnéticas agarraram violentamente o pequeno caça, arrastando-o para a comporta aberta.
O processo foi rápido. Rápido demais, e extremamente rude. Manobra bem apropriada para desgaste prematuro do material.
Com o pé, Nyssen apertou o pedal do automático de compressão. Mal ele entrou em funcionamento, o caça foi jogado, com impacto completamente anti-regulamentar, sobre os trilhos da catapulta, que o lançaram no campo receptor magnético.
O piloto espacial lembrou-se a tempo de sua capacidade de reação, senão sucumbiria inevitavelmente ao choque da frenagem de 320 g de intensidade.
A máquina ultrapassou o campo receptor, indo chocar-se estrondosamente com as resistentes paredes de aço arcônida do fundo do hangar.
Antes de perder os sentidos, Nyssen escutou ainda o rugido surdo das máquinas da nave. Após o longo período de espera, o pessoal da Stardust-III parecia ter entrado em frenética atividade.

* * *

Não se podia exigir que Nyssen entendesse imediatamente os motivos daquela precipitada manobra de reembarque; seria supervalorizar sua inteligência. Além disso, pouco importava como voltara para bordo. O essencial era ter conseguido.
Na central de comando, os dois mutantes Son Okura e Tanaka Seiko tinham se manifestado quase simultaneamente.
Okura, o perceptor de freqüências, que andava com certa dificuldade, era capaz de perceber apenas padrões indistintos de ondas. Mas podia determinar com exatidão a proveniência daquela radiação estranha, jamais detectada anteriormente. Vinham do setor vermelho, de um ângulo estimado de 32 graus; o plano vertical era de 4 graus no máximo.
Relatara imediatamente suas observações, porém então o localizador Tanaka Seiko fora vitimado por súbito ataque de fúria.
Por outro lado, não lhes adiantaria nada conhecer por intermédio dele os pontos de referência exatos da localização. Pois a Stardust-III tornara-se de repente joguete de forças incomensuráveis.
O fruto de cansativas semanas de cálculos e de complicadas manobras foi aniquilado em instantes. Gigantesca pata invisível abateu-se sobre a nave, no momento exato em que Nyssen alcançava a entrada da comporta.
Já por ocasião dos choques anteriores, relativamente inofensivos, Rhodan passara para controle automático. Não se sentia em condições de reagir a tempo diante de acontecimentos inesperados. Tudo indicava que aquilo fora a salvação de todos eles.
Em poucos instantes, a Stardust-III era uma esfera rangente e estalante; o imenso volume oco pouco contribuía para manutenção da necessária estabilidade. Tinha-se a impressão de que todas as divisões e juntas se retorciam, apesar de grande parte delas ser feita de paredes de aço blindado de um metro de espessura.
Em adição, produziu-se tal aceleração que Rhodan concentrou o ouvido na escuta do ruído dos reatores de força, desprezando os fenômenos de deformação.
— Alcançamos o valor máximo! — berrou Bell, através da barulheira.
No entanto, além dos olhos anormalmente arregalados, ele não evidenciava nenhum outro sinal de pânico. Pertencia à classe dos privilegiados para quem os nervos não existem em momentos de perigo.
O sistema de alarma pôs-se a uivar. Em todas as dependências da nave acendiam-se luzes vermelhas.
— Não! Isso não! — gemeu Crest, que estava sendo pressionado contra seu assento.
Rhodan sentiu igualmente a pressão crescente. A enorme Stardust-III sofria tal aceleração que os neutralizadores de compressão já não conseguiam cumprir a contento sua tarefa. E, no entanto, seriam capazes de absorver, por curtos espaços em situações de emergência, pressões de 600 km/s2. Ocasiões, porém, em que requeriam o emprego da capacidade total do aparelhamento de força.
Os olhos de Rhodan turvaram-se. Acabava de se manifestar o que jamais ocorrera numa nave arcônida, pelo menos nos últimos vinte mil anos: o efeito de inércia. Repentinamente, sem transição, as forças compressoras romperam passagem; isto provava, sem sombra de dúvida, que desta vez os imortais levavam a coisa a sério.
Rhodan, cujo físico resistente já suportara, sem conseqüências prejudiciais, pressões de 16 g, na academia de pilotos da Força Espacial dos Estados Unidos, mal teve tempo de acionar a chave de emergência dos propulsores, embutida no braço do assento.
O automático passou a funcionar, irrepreensivelmente. Só os seres humanos sucumbiram momentaneamente à impiedosa força da inércia.
O rosto estranhamente jovem de Crest distorcera-se assustadoramente sob a ação das forças de aceleração. Subitamente era uma face de ancião, murcha e sem vida. O arcônida já nem conseguia respirar. Rhodan, porém, forçava-se a agir.

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