— Isso mesmo, bárbaro! — chilreou uma voz
aguda de soprano. — Queria me matar, não é, bandido? Mas juro que não brinquei
desta vez. Palavra de homem de bem! Não fiz voar nem um minúsculo parafusinho
para me divertir.
Os lábios de Rhodan começaram a tremer de
forma suspeita. Os homens presentes precisaram recorrer a consideráveis
reservas de força de vontade a fim de manterem a necessária disciplina. Ficaram
rígidos como estátuas de granito. Apenas o major Deringhouse sorria.
— Está certo, senhor homem de bem — disse
Rhodan, esforçando-se por reprimir o riso. — De onde tirou esta expressão?
Novamente se fez ouvir a irritante
estridência que Gucky chamava de gargalhada. De trás do segundo estereocorretor
— destinado ao ajuste exato dos filmes tirados de estrelas-alvo, com
microchapas pré-preparadas e de alta sensibilidade — surgiu o simulacro mal
imitado de um rato terrestre.
O inteligente ser peludo do planeta
Vagabundo, com seu olhar irresistivelmente confiante, recebera o nome de Gucky.
Parecia atrapalhado com a tarefa de deslocar os volumosos quartos traseiros,
que terminavam numa cauda em forma de pá de remo, como a dos castores.
Gucky media cerca de um metro de altura,
andava normalmente ereto, e era muito esperto. Seu mais notável dom parapsicológico
era a telecinésia. Levado por sua irreprimível mania de brincar — mania esta
que os homens não queriam compreender — Gucky quase acabara levando a
gigantesca Stardust-III ao desastre total. Sem a menor má intenção, no entanto.
Tudo que queria era brincar com os interessantes objetos tão inesperadamente
aparecidos em sua vida.
Gucky adiantou-se com ar desconfiado,
agitando no ar os braços curtos, terminados em delicadas patas; lembrava um
gordo campeão de boxe pronto para pisar no ringue. Deteve-se diante de Rhodan.
Este ficou observando pensativo os olhinhos redondos do estranho ser; eram
espertos e astuciosos, apesar da típica face de rato. E Gucky adquirira, no
decorrer de poucas semanas, inúmeros hábitos humanos. Aquilo também parecia ser
tendência natural nele.
O lustroso nariz de rato foi repuxado para
cima, expondo uma linha rósea e úmida, da qual emergia o dente único de Gucky,
num arremedo de sorriso. A pata miúda elevou-se para a testa coberta de pêlos.
Rhodan quase não conseguia conter o riso. Agora o bichinho fazia continência!
— Tenente Guc, do Exército de Mutantes,
pronto para entrar em ação — pipilou o ser peludo, com a maior seriedade. —
Permita-me não dizer Gucky, chefe. Parece-me um nome infantil demais para um
homem de bem.
Rhodan virou-se, com os ombros sacudidos
por incontrolável tremor. Os demais homens contraíam violentamente os rostos.
Apenas Bell desfiou a escala completa de seu farto vocabulário, do começo ao
fim. Eram terríveis imprecações, que Gucky quitava com repetidas exposições do
incisivo.
— Assassino! — guinchou o pequeno ser. —
Fuzilar-me sem mais nem menos, não é? Eu escutei tudo. Mas não brinquei nem com
o sol, nem com a nave. Dei minha palavra ao chefe. Só faço zunir coisas com
licença dele.
Gucky calou-se, saboreando a nova palavra.
— Zunir... — repetiu, deliciado. — Ah,
quem me dera! Bastaria manejar à distância os controles de emergência, e eu
poderia dirigir a nave sozinho.
— Ah, é, seu zunidor? — rugiu Bell,
descontrolado. — Pois trate de controlar suas manias, viu? Senão vai ter pra
você! Aliás, desde quando é oficial? Que quer dizer esse tenente Guc, do
Exército de Mutantes?
Gucky virou-se, com um olhar arrasador
para Bell. A cauda chata bateu cinco vezes no chão, o que para Gucky
representava a suprema demonstração de desprezo.
— Cinco batidas, senhor Bell... Credo, que
vergonha!
— Aprestar nave para decolagem! — estrondeou
a voz de Rhodan por entre as risadas sufocadas dos presentes. — Qual é o motivo
da gozação? Cada ser inteligente tem peculiaridades próprias. Como pessoas
tolerantes, nossa obrigação é aceitá-las. Ou vocês não são tolerantes?
Rhodan lançou um olhar gélido aos seus
homens, até estourar numa sonora gargalhada diante dos oficiais estarrecidos.
Pelo Grande Império arcônida, jamais
haviam presenciado tal reação no chefe. Gucky se divertia enormemente. Depois
contemplou quase com ternura o homem que sabia compreendê-lo tão bem. Afinal, a
idéia de se enfiar num caixote de mantimentos vazio, a fim de fazer-se levar à
nave, não fora das piores. Merecera até um hipnotreinamento, para aprender
rapidamente o idioma humano mais divulgado. Tudo isso contribuía para que Gucky
passasse a encarar Rhodan como uma espécie de divindade.
O senhor da Terceira Potência deixou de
rir tão abruptamente quanto começara. Seus olhos tornavam a refletir
preocupação.
— Um ligeiro derivativo para a tensão
nervosa, se me dão licença — disse em tom irônico. — Que tal retornar aos
respectivos postos agora? Crest, até onde chegou com a avaliação positrônica?
Gucky foi instantaneamente relegado ao
esquecimento. Homens para quem o termo avaliação positrônica tinha algum
significado olharam expectantes para o cientista arcônida.
Crest parecia calmo e tranqüilo. Sob a
brilhante iluminação da central, seus cabelos brancos irradiavam reflexos multicoloridos.
— Estou trabalhando nela há quatro semanas
terrestres. Tenho os dados detalhados à mão. Informações exatas sobre o
movimento próprio de Vega acabaram de ser fornecidas ao cérebro positrônico.
Levando em conta a velocidade de deslocamento cósmico da órbita, e os fatores
secundários averiguados, dentro de mais ou menos duas horas ele terá calculado
a posição do planeta procurado. A posição provável... — acrescentou, cauteloso.
A face rosada de Garand surgiu numa das
inúmeras telas de controle. A sala de máquinas principal estava pronta para a
partida.
Rhodan consultou o cronômetro. Exatamente
17:58 h.
— Decolagem às dezoito horas, tempo de
bordo — ordenou ele. — Gucky, você fica perto de mim. Espero que, depois de ter
se promovido a oficial do Exército de Mutantes, você não cometa mais tolices.
Por mim, pode brincar com o primeiro-oficial.
Gucky vibrou, Bell empalideceu, e Rhodan
sorriu fugazmente.
Às dezoito horas em ponto, os propulsores
de impulso da nave de guerra começaram a flamejar. Enormes línguas de fogo
estraçalhavam o revestimento da pista. Novamente se fez ouvir o impressionante
estrondo.
O vulto gigantesco se elevou verticalmente
do chão; a seguir lançou-se no vácuo espacial, com tal taxa de aceleração que a
atmosfera ferrônia se incandescia ao longo do trajeto de vôo. Segundos mais
tarde, a Stardust-III desaparecia de vista. Apenas ardentes ventos
turbilhonantes testemunhavam um segredo cuja materialização pressupunha
grandiosa supertécnica.
Os ferrônios não conheciam nem neutralizadores
de pressão, nem refletores energéticos para repulsão de moléculas gasosas.
Jamais uma nave ferrônia poderia decolar ou aterrizar daquela maneira. Além
disso, apesar de qualitativamente eficientes, os propulsores quânticos dos
ferrônios não se prestariam a tais índices de aceleração.
Em Ferrol chegara-se ao limite do
realizável com o aparelhamento disponível; impossível obter rendimento maior. A
conseqüência forçosa era uma estagnação, iniciada há cerca de mil anos, segundo
o calendário terrestre. Ligeira melhoria nos detalhes só visavam maior
segurança. Era o que impressionara tão favoravelmente Rhodan na tecnologia
ferrônia. O que aquela gente construía ou fabricava merecia nota dez com
louvor. O acordo comercial assinado com o Thort representava rica e inesgotável
mina para os habitantes da Terra.
As derradeiras ondas de pressão da
violenta decolagem se desfizeram. Minutos após era irradiado o veto do Thort a
novas sortidas, válido para todas as unidades de evacuação. Pilotos ferrônios
desativavam resignadamente os propulsores prontos para a largada. Atos de
desespero eram atos de desespero, obviamente; não tinham sentido lógico, e só
em sonhos fantasiosos acenavam com o ambicionado êxito. Os homens tinham
deixado novamente o oitavo mundo de Vega.
Convertendo os dados ferrônios,
verificou-se que o planeta Ferrol ficava a uma distância média de um bilhão
oitocentos e trinta e cinco milhões de quilômetros de seu sol.
Como Vega era o mais importante ponto de
referência e coordenação no sistema do cálculo quadridimensional, Rhodan julgou
necessário aproximar-se da estrela transformada em fornalha atômica, a despeito
das opiniões em contrário.
Seus motivos podiam ter fundamento. Assim
como podiam ser sem importância, ou não ter valor algum. No entanto, baseando-se
nas avaliações finais do cérebro positrônico, Rhodan achou desaconselhável
qualquer tolerância adicional naquela transição, já em si bastante
problemática, uma vez que os próprios dados finais ainda continham algumas
incógnitas.
Em conseqüência, preferira não arriscar o
salto interestelar a um bilhão, oitocentos e tantos milhões de quilômetros de
Vega. Pois o bilhão e oitocentos milhões poderia facilmente, ao menor desvio,
transformar-se em cento e oitenta bilhões; somado a outros pequenos erros, o
desvio os levaria para muito longe do planeta desprovido de luz que procuravam.
Crest era de opinião que os rastreadores
da Stardust-III seriam capazes de detectar qualquer mundo situado num raio
máximo de 0,45 anos-luz, mesmo não sendo iluminado por sol algum.
Fora uma discussão muito objetiva.
Enquanto estava sendo travada, Bell levara a Stardust-III, com aceleração
total, para velocidade semelhante à da luz. Agora a gigantesca nave
precipitava-se em queda livre ao encontro do sol flamejante. Dois minutos
atrás, o engenheiro-chefe Garand fizera funcionar, ainda, os dois geradores de
força suplementares.
Nos anteparos protetores levantados rugiam
tempestades magnéticas de descomunal violência. Micro partículas de matéria
começavam a aglomerar-se diante da nave impelida quase à velocidade da luz. Já
há três minutos, a esfera de aço arcônida estava envolvida por uma auréola de
fogo.
Vega parecia querer se dissolver em
chamas. Já nem era mensurável o que a estrela lançava, em autodestruidora
fúria, para o espaço.
Todos os postos da nave estavam com seu
pessoal completo. Como não fora dada ordem de prontidão para combate, os
pilotos dos caças espaciais e dos oito girinos funcionavam como reservas diante
dos aparelhos mais importantes.
Devido à velocidade da Stardust-III, não
se percebia mais a intensa gravidade de Vega. No entanto, a micro matéria
cósmica se condensava mais e mais. Além disso, havia extensas nuvens gasosas;
mesmo sua pouca espessura representava perigo naquela alucinante velocidade.
Rhodan desligara os diversos campos de
repulsão da nave, com exceção do repulsor de ionização; mediante reversão dos
projetores, concentrara sua maior densidade energética na dianteira da
Stardust-III.
Já haviam recorrido à capacidade de
emergência das centrais de força. Desde a precipitada decolagem, o
engenheiro-chefe Garand só calculava em macroescala, com valores a partir de um
milhão de quilowatts-hora. Agora chegara a duzentos e cinqüenta milhões para
cada gerador.
Os astronautas-chefes e técnicos da
supernave tinham emudecido. Nas fisionomias contraídas, apenas os olhos
pareciam ter conservado vida, e não desgrudavam dos aparelhos medidores.
Junto a Rhodan funcionava o segundo
terminal do cérebro-robô de bordo. Os dados finais, de absoluta exatidão,
obtidos pelo cérebro central eram divulgados ótica e acusticamente pelo painel auxiliar
na central.
Os dedos de Rhodan repousavam sobre o
pulso-contato ainda desligado; um leve aperto desencadearia a transição.
O ponto para início do salto,
cuidadosamente calculado, situava-se a aproximadamente cento e vinte e três
milhões de quilômetros de Vega. Quando a Stardust-III alcançasse aquela
imaginária posição, a estrela deveria estar no setor verde, num ângulo oblíquo
de 91,3 graus. Era aquele o ponto de partida.
Quando a nave cruzou a órbita do primeiro
planeta de Vega, as telas mostraram por instantes o semifluido corpo celeste
incandescente. Os sensores do telecom retrataram fielmente o mundo distante
cerca de duzentos e vinte e oito milhões de quilômetros de seu sol.
O que corresponderia, no nosso sistema,
aproximadamente à posição do planeta Marte, bastante frio. Aqui, no entanto, um
mundo com afastamento médio equivalente era um inferno em ebulição, devido ao
volume da estrela-mãe. No sistema Vega prevaleciam padrões de medida
gigantescos.
A nave prosseguia em vertiginosa
disparada. Um minuto-luz após, o invólucro esférico fortemente blindado começou
a reboar. Rhodan pigarreou levemente e falou:
— Poderia me arranjar uma xícara de café,
senhorita Sloane? O autômato de bebidas já deve estar reabastecido. Grato pela
gentileza.
Anne Sloane, a graciosa e esbelta mutante
com capacidade para a telecinésia, não moveu um só músculo do rosto. Com um
olhar cheio de compreensão para o homem magro, concentrou suas forças parapsicológicas
sobre o robô. Um copo de plástico escorregou da pilha e flutuou para debaixo da
torneirinha. Sem que ninguém a tocasse, o líquido começou a fluir. Depois, mãos
fantasmas levaram o recipiente até o assento do primeiro-piloto. Rhodan pegou-o
calmamente. Após inúmeras experiências em comum, encarava com a maior
naturalidade as inacreditáveis façanhas de seus altamente dotados
especialistas.
O olhar de Anne perdeu a fixidez. Enquanto
o casco da nave reboava com intensidade crescente, e vividos relâmpagos percorriam
as camadas externas dos campos de repulsão, ela disse com deliberada
determinação:
— Lamento não ter xícaras a mao, senhor.
Gostaria de um pouco mais de açúcar?
Rhodan agradeceu com marcada gentileza Nas
fisionomias pétreas dos demais não se via a menor expressão. Conheciam bem o chefe!
Quando ele se entregava àquela enervante atuação, era hora de conservar o
sangue-frio. Ninguém a bordo da Stardust-III ousaria confessar naquele instante
que sentia medo. Todos faziam de conta que o perigo iminente era coisa sem a
menor importância. Seguindo o velho habito dos pilotos de prova da força
espacial norte-americana, falavam de tudo, menos do que os esperava nos
próximos momentos.
Eram os minutos imediatamente anteriores à
decisão; o breve hiato que o psicólogo-chefe da força espacial costumava chamar
de hora das palhaçadas; mero derivativo para alívio das tensões.
O casco começou a vibrar. Faltavam três
minutos-luz para o local da transição. Um ronco irreal se fez ouvir. Muito
abaixo dos pés dos homens, os reatores das centrais de força eram espicaçados a
entregar suas derradeiras reservas. Cada segundo parecia durar uma eternidade.
— Faz um tempo lindo lá fora, só que um
tanto nublado — comentou Bell, impassível.
Evidentemente interessado, Rhodan
observava as telas de imagem, nas quais aparecia um infernal turbilhão. As
vibrações tornaram-se tão violentas que as poltronas automáticas lançaram os
cintos de segurança em torno dos ombros dos homens.
— É, talvez venha a chover... — concordou
Rhodan.
A face de Garand surgiu numa das telas.
Seu sorriso era forçado. Com voz sem expressão, comunicou:
— Engenheiro-chefe ao comandante. Perdemos
um pouco de velocidade. Matéria mais densa. Tranca um bocado nosso progresso.
Devemos...?
— Manda brasa! — respondeu Rhodan, depois
de demorado sorvo no copo.
Mais uma vez os propulsores do gigante
espacial começaram a rugir. A fim de manter o ímpeto necessário ao salto pentadimensional,
foi empregado 92,85647% do empuxo disponível na aceleração.
Um berreiro estridente e lamentoso tornou
a transformar os rígidos astronautas em gente. Rhodan voltou-se bruscamente; de
repente a impassibilidade desaparecera de sua face. Por trás da máscara surgiu
um rosto acinzentado, com olhos esbraseados.
— Estou com medo! — guinchou Gucky. —
Estou morrendo de medo!
Engatinhando com as quatro patas, correu
para junto de Rhodan, buscando proteção. Bell riu alto, exclamando sarcasticamente:
— E quem é que não está? É preciso
pertencer a outra espécie para ter a coragem de confessar, não é? Raios! Daqui
a dois minutos o anteparo vai entrar em colapso, e viramos todos farelo.
Aquelas palavras pareciam até um sinal.
Garand começou a gritar. A seguir todos estavam gritando.
Rhodan se encolhera em sua poltrona,
diante dos controles. Crest apertava os punhos cerrados contra a boca, fitando
com ar alienado a monstruosa estrela palpitante em louco turbilhão. Apesar de
já ter ficado em posição oblíqua à da nave há algum tempo, sua imagem ainda
preenchia todas as telas. Gigantescas línguas gasosas, provocadas por explosões
ainda mais gigantescas, projetavam-se no espaço. A Stardust-III movimentava-se
no limite extremo do alcance delas.
Apenas Rhodan ouviu os informes finais do
cérebro-robô. A luz de controle azul piscava a intervalos cada vez mais
freqüentes, acabando por ficar permanentemente acesa, num azul intenso.
Vertiginosamente Rhodan fez passar pela
memória a seqüência de fatos até então ocorridos durante a busca ao maior
segredo do Universo. Tudo principiara inofensivamente com a descoberta dos
hiper-transmissores pentadimensionais de matéria dos ferrônios. No entanto, os
conhecimentos matemáticos destes nunca poderiam ter lhes permitido fabricar
tais aparelhos.
Haviam dado com a pista de um inconcebível
ser vivo, fato que logo lhes impusera as primeiras tarefas. Haviam resolvido
uma por uma, até que a problemática passou para o campo parapsicológico.
No mundo natal de Gucky tinham descoberto
por fim o último indício sobre a existência de um planeta errante. No meio de
uma sala totalmente vazia aparecera-lhes a reprodução fiel de um setor da Via
Láctea. Nela, Vega era inconfundível. Rhodan sabia com certeza que a estrela
possuíra outrora quarenta e três planetas, em vez dos quarenta e dois atuais;
considerando os demais fatores conhecidos, não restava dúvida de que era aquele
o mundo da vida eterna.
Seus habitantes tinham arrancado o planeta
inteiro do campo gravitacional de Vega, porém haviam deixado pistas. Uma linha
curva, claramente identificável, atravessava a constelação. Cálculos revelaram
que a curva era parte de uma imensa órbita elíptica, ao longo da qual o corpo
celeste devia se deslocar. E a análise matemática revelara uma estranha
peculiaridade: a Terra ocupava exatamente um dos dois focos da elipse. Até
parecia que os desconhecidos charadistas visavam de modo todo especial a
humanidade terrestre.
Os cálculos tremendamente complexos, que
jamais poderiam ter sido resolvidos sem a ajuda do cérebro positrônico de
bordo, baseavam-se num filme do modelo.
E agora Perry Rhodan estava em vias de se
precipitar diretamente no reduto do desconhecido que vivia, supostamente, mais
do que o sol — pressupondo que o salto interestelar decorresse com êxito.
Então, repentinamente, o suporte de
fixação libertou com audível clique o botão que comandaria o salto, expondo-o
livremente no braço da pesada poltrona.
Cinco segundos antes da transição, Rhodan
enviou o chamado impulso de permissão à hiperpositrônica operante. Homem algum
seria capaz de dirigir ou sequer influenciar o processo no hiperespaço.
Ouviu-se um grito alto e agudo. As
ramificações finais das chamejantes protuberâncias de Vega já ameaçavam atingir
os anteparos da nave. Não se conseguia mais entender as próprias palavras. A
enorme Stardust-III transformara-se num retumbante sino.
Era como se a barreira de fogo de toda uma
frota de batalha se abatesse sobre ela. Rhodan calculara que a energia liberada
por uma única protuberância de tamanho médio equivalia a cerca de um milhão e
duzentas mil bombas de hidrogênio de fabricação terrestre.
Nunca, até então, a nave de guerra arcônida
fora obrigada a suportar tamanho impacto.
Na última fração de segundo antes da
transição, Rhodan percebeu o fogaréu roxo do anteparo em colapso. Os fusíveis
de todos os reatores de força explodiram simultaneamente. Impossível obter rendimento
maior; os homens haviam chegado ao seu limite! O que significava que o casco de
aço da espaçonave estava à mercê da fúria titânica de um gigantesco sol em
explosão.
Novamente os alto-falantes divulgaram o
grito estridente. Seu tom agudo se sobrepunha ao clamor intenso das máquinas,
até morrer num débil sussurro.
Em torno da nave criara-se algo não mais
pertencente ao universo presente. O campo estrutural arcônida, para deflexão
total de todo fator quadridimensional, ainda pudera ser formado antes da
catástrofe. Transformava a matéria sólida da nave em algo inconcebível, que
recebia em forma completamente desmaterializada o impulso para o salto.
A Stardust-III, ainda há poucos instantes
uma flamejante tocha metálica, desapareceu do espaço normal.
O cérebro dissolvido de Rhodan levou o
grito consigo. E o som ainda permeava seus sentidos quando a nave retornou ao
espaço normal, após o curto salto de mil e seiscentos anos-luz. Como sempre, a
transição se dera sem decorrência perceptível de tempo, apesar de a ciência
arcônida ter provado que no plano pentadimensional se fazia valer outro fator,
o qual, devidamente simplificado, também poderia ser denominado tempo. Segundo
esta noção, cerca de cento e vinte e três anos teriam se passado para a
tripulação.
Alteração alguma ocorrera no espaço
normal. De acordo com o cronômetro de bordo, a rematerialização se efetuou após
alguns instantes.
Desta vez Rhodan conseguiu se libertar
rapidamente das últimas impressões sentidas antes do salto. E ninguém ficara
inconsciente.
Nas telas do circuito panorâmico cintilava
o imenso mar de estrelas da Via-Láctea. Nas telas da ré, a ampliação
telescópica mostrava um ponto especialmente luminoso. Era a imensa Vega, vista
ainda sob sua luminosidade normal. Nada se percebia das vivas labaredas do
processo explosivo em andamento. Para isso, teriam que se passar primeiro mil e
seiscentos anos. Antes a luz não chegaria até ali.
Rhodan não desperdiçou tempo em palavras
desnecessárias. Rapidamente verificou os controles das diversas unidades
propulsoras. Os sistemas automáticos de pilotagem e produção de energia,
programados antes do salto, tinham entrado em funcionamento, muito mais
depressa do que o raciocínio ou a ação de qualquer ser humano.
Um rumor surdo já fazia a Stardust-III
vibrar novamente, porém desta vez por obra de sua própria maquinaria. Os
propulsores tinham entrado em funcionamento, a toda a potência, no fugaz
instante em que se executava a manobra de reentrada.
O supergigante freava à taxa de 500 km/s2,
o que exigia o emprego total de todas as unidades de força. Caso a sobrecarga
as fizesse falhar, homens e material seriam pulverizados pelas tremendas forças
compressoras geradas pela redução de velocidade.
Todos os pensamentos de Rhodan se
concentravam naquilo. A velocidade continuava quase igual à da luz; com carga
máxima, ela poderia ser reduzida a zero dentro de dez minutos, tempo de bordo.
Poderia, caso as máquinas estivessem cem por cento em condições.
As mãos de Rhodan puseram-se a trabalhar.
Bell, que acabava de recuperar, sobressaltado, a mobilidade, entendeu
imediatamente. O ronco dos propulsores sobrepujava o ruído das estações de
força em funcionamento. E elas precisavam fornecer ainda energia para os
famintos absorvedores de compressão, ou tudo estaria acabado num abrir e fechar
de olhos.
Nas telas de controle viam-se as
dependências das estações de força. Algumas das pilhas arcônidas, altas como
casas, tinham as luzes violetas acesas; não funcionavam. Outras trabalhavam
satisfatoriamente, porém os transformadores não davam conta do recado. Tudo
parecia produzir escassamente a energia necessária para os projetores de
neutralização.
— Catástrofe iminente! — berrou
estridentemente um dos alto-falantes. — Medidores do supervisor positrônico
recomendam imediata redução dos elevados índices de frenagem. Não há garantia
para fornecimento de energia.
Era a voz mecânica do cérebro-robô que
falava.
A mão de Bell disparou para a esquerda.
Seus dedos já tocavam o comutador de estágios da central, quando percebeu o
olhar de Rhodan.
Já não era irônico, e muito menos se lia
humor neles. Profundos e dominadores, os olhos expressivos veiculavam um
comando mudo. Jamais o poder de sugestão do comandante se fizera impor tão
intensamente. Bell sentiu-se como que atingido por um punho invisível, e
recolheu a mão.
— Não vai fazer isso, não é? — soou a voz
de Rhodan, por entre o rugido surdo dos propulsores.
— Claro que não! — disse Bell, com um riso
forçado, e contra a vontade. Com um suspiro de alívio, viu os olhos de Rhodan
voltarem ao normal. Mas não podia deixar de fitar fascinado o homem cujo poder
mental inato fora aperfeiçoado e reforçado a cada sessão de treinamento
hipnopédico. Quando Rhodan queria alguma coisa — e especialmente quando, além
de querer, estava profundamente excitado — não havia oposição possível. Em
momentos destes, até homens do gabarito de Reginald Bell se transformavam em
criaturas indefesas.
O comandante voltara ao trabalho. Nem
pensava em diminuir as taxas de frenagem. Impulsos transmitidos sem fio levavam
ordens ao cérebro-robô, determinando as providências para contornar a situação
de catástrofe; eram instantaneamente comunicadas aos mecanismos adequados.
Nas salas de máquina hermeticamente
vedadas da Stardust-III, desprovidas de qualquer presença humana, inúmeros
robôs-especialistas se ativaram. Diferentes em características de construção e
formatos, puseram-se a trabalhar nas pilhas defeituosas.
Quando, instantes após, o alarma
automático começou a emitir agudo assobio, e a energia disponível mal bastava
para suprir os absorvedores de compressão, quatro das enormes pilhas entraram
em funcionamento simultaneamente.
Cinco minutos após o início da violenta
manobra de frenagem, o perigo tinha sido contornado. Rhodan pediu, então, o
segundo copo de café.
Depois relanceou circunspectamente os
olhos pelos companheiros. Bell passou a ponta da língua nos lábios. Sua
admiração por aquele homem era ilimitada.
— Não podíamos deixar de frear tão
bruscamente, compreendem? — disse Rhodan, em tom quase sonhador. — Claro que os
reatores de força estavam parcialmente avariados. Mas, vindo como vínhamos, à
velocidade da luz, se não freássemos no momento apropriado, com os valores
máximos precisamente determinados, jamais encontraríamos o planeta procurado.
Conhecemos a velocidade orbital do planeta; dentro de quatro horas
emparelharemos com ele. Porém isso só deve ocorrer no ponto do espaço em que se
encontra o planeta sem sol. Já imaginaram que complexos problemas matemáticos
se apresentariam caso tivéssemos passado em disparada por este ponto, conhecido
apenas teoricamente?
Bell engoliu em seco, ruidosamente.
— Eu gostaria de saber que diabo me mordeu
para botar os pés dentro desta nave espacial! — resmungou ele, com um olhar
contrariado para sua mão. — Em vez disso, a estas alturas eu estaria ocupando
respeitável posição na sociedade, numa cidadezinha qualquer da costa oeste
americana. O que estamos fazendo é loucura! Pura loucura!
— Aguardemos! — determinou Rhodan. —
Capitão Klein, cuide por favor dos detectores. Peço que os mutantes se dirijam
para a cantina D, para uma reunião. Daqui a cinco minutos, digamos. Obrigado.
Rhodan se ergueu de seu assento. Os cintos
de segurança já tinham sido novamente escamoteados para dentro do encosto. Sob
o silêncio mortal dos presentes, encaminhou-se para o elevador. Mesmo após sua
saída, o silêncio continuou. Apenas Crest murmurou uma frase:
— Algum dia ele presidirá o Grande
Império...
Os estereocorretores arcônidas tinham sido
acoplados às amplas telas examinadoras. Com isso assegurava-se a perfeita
justaposição com as fotografias tiradas.
A manobra de emparelhamento acabara
consumindo quatro horas inteiras, de acordo com o relógio de bordo. Para a
aparelhagem de um cruzador de pesquisa arcônida, ou para uma grande nave de
guerra perfeitamente equipada, era brincadeira sondar o setor espacial de um
sol desconhecido, com o intuito de localizar eventuais planetas. Caso existisse
algum, os rastreadores, mais rápidos do que a luz, determinavam sua posição
exata num prazo médio de trinta minutos. Em outros trinta, avaliava-se a massa,
densidade, velocidade de rotação e translação do corpo celeste.
No presente caso, Rhodan desistira desde o
início de tomar por base dados provenientes da experiência normal. Não nutria
nenhuma esperança particular, nem deixava nascer idéias extravagantes. Às
quatro horas gastas para emparelhar com o planeta desconhecido bastavam para
provar que os fatores em jogo eram de natureza totalmente diversa.
Os homens da Stardust-III estavam
empenhados na mais árdua tarefa que se lhes apresentara até o presente.
Há horas vinham fazendo a captação de
imagem externa. Incontáveis estrelas, e remotos mundos isolados luziam nas
telas, em fiel reprodução ótica. Mas era tudo tão distante que nem um só
daqueles inúmeros sóis poderia ser remotamente relacionado com o corpo celeste
procurado.
Rhodan se encontrava, com os oficiais
superiores, no setor de cálculo da central. Após as últimas correções, os
propulsores tinham emudecido. Os estereocorretores indicavam que a nave
acompanhava com exatidão a linha que constituía parte da órbita elíptica
igualmente percorrida pelo planeta desconhecido, em sua trajetória em torno de
trinta e um sistemas solares dispostos numa reta.
Os dados numéricos conferiam até a décima
casa decimal. Mesmo assim, deviam conter uma ou outra aproximação, o que aliás,
era de esperar diante das enormes distâncias envolvidas.
Crest observava atentamente os diagramas
dos resultados finais fornecidos pelo computador positrônico. Tudo parecia
indicar que não havia erro algum.
Thora mantinha-se hirta e imóvel ao lado
dos múltiplos aparelhos.
Os mais destacados mutantes tinham
comparecido à central há uma hora. Sondavam e escutavam, com seus
extraordinários sentidos, à procura de algo jamais visto, ouvido, nem sequer
claramente concebido pelo pensamento.
Rhodan dera ao planeta procurado o nome de
Peregrino. Parecia ser a designação mais apropriada para um mundo que levaria
dois milhões de anos terrestres para aparecer novamente no sistema Vega, caso
mantivesse a órbita calculada.
Gucky, o ente peludo de Vagabundo,
acocorara-se por trás de Rhodan, sobre o piso inteiriço de matéria plástica. Os
olhinhos lustrosos miravam com curiosidade e um pouco de cobiça as inúmeras
chaves e alavancas. O gesto de advertência da mão de Rhodan provocou em Gucky o
melancólico desnudamento do grande dente incisivo. Compreendera que em hipótese
nenhuma poderia brincar ali. Com audível suspiro, levantou os pesados quartos
traseiros do chão.
— Vou ver o cozinheiro-chefe — chilreou o
rato-castor. — Mande John Marshall me procurar, caso precise de mim, chefe.
Rhodan acompanhou com o olhar o
animalzinho que se afastava gingando. Em determinadas circunstâncias, Gucky
poderia vir a se tornar o mais valioso membro do Exército de Mutantes.
Gucky deteve-se diante do mais jovem
membro da tripulação. Betty Toufry era muito jovem ainda, mas quem fitasse seus
imensos olhos escuros perceberia logo que mentalmente ela não era nenhuma
criança.
— Vem comigo? — perguntou Gucky. — Aqui
está muito chato.
O rostinho miúdo, aureolado por cabelos
escuros, exibiu um radiante sorriso.
— Posso? — indagou ela.
Anne Sloane, que, a bordo, também fazia às
vezes de mãe junto a Betty, procurou dar à voz um tom deliberadamente alegre.
Rhodan acenara brevemente com a cabeça. Aquilo bastava.
— Claro. Mas nada de traquinagens, está
bem? Os panelões da cozinha não são para dar banho no cozinheiro. Chamo vocês,
se for preciso.
Gucky animou-se instantaneamente. Em
dedução surpreendentemente nítida, já compreendera há muito tempo que em toda a
nave talvez existisse um único ser vivo disposto a brincar com ele. Mas o
porquê daquilo escapava à compreensão do inteligente habitante de Vagabundo.
Contentava-se em atribuir o estranho fato ao tempo de vida relativo das demais
pessoas.
— Podemos fazer voar coisas geladas para
debaixo da gola do gordão! — exclamou ele, jubilante. — O chefe afirmou que
isso não representa grande risco para a nave; não compromete seu bom
funcionamento.
Sem a menor transição, Betty Toufry virou
criança. Possuía capacidade relâmpago para se transformar.
Com a maior facilidade, os dois
excepcionais telecinetas abriram as complicadas fechaduras eletrônicas das
portas blindadas. Descerraram-se de par em par, sem que alguém tocasse nos
respectivos botões de comando.
— Eu fui mais rápido! — afirmou Gucky. —
Você quer voar?
Reginald Bell contemplava em silêncio os
dois seres vivos tão singulares. O espontâneo entendimento entre uma
representante da jovem geração humana e uma inteligência completamente
alienígena, oriunda das profundezas da galáxia, poderia representar o primeiro
passo na senda da compreensão e da aceitação mútua. Só assim haveria condições
para o nascimento de um reino estelar; só assim se poderiam evitar conflitos.
— Os pequeninos sempre dão jeito de se
entender, não é? — disse Rhodan, dando voz aos pensamentos de Bell.
O homem atarracado estremeceu; seus olhos
se apertaram, desconfiados.
— Você agora deu para bancar o telepata?
Como sabe que eu...?
— É apenas o que qualquer pessoa sensata
pensaria diante de tal cena.
— O cozinheiro-chefe vai acabar biruta —
observou o capitão Klein. — Ontem esses dois armaram a maior barafunda na
câmara frigorífica.
Rhodan não deu mais resposta. O breve
interlúdio fora repousante, porém os problemas voltavam a ocupar sua atenção.
Por trás da parede transparente da central
de localização, viam-se os altamente eficientes radioperadores da nave de
guerra. Um curto treinamento hipnopédico capacitara-os a operar os complexos
aparelhos de uma raça de superior desenvolvimento.
Rhodan levou o pulso esquerdo, equipado
com um mini-microfone, aos lábios. Nos receptores da central de localização,
sua voz saiu alta e clara:
— Deringhouse, como está a situação?
Nenhum resultado ainda?
Um vulto alto, mal e mal discernível,
ergueu a cabeça a uns cinqüenta metros de distância. De onde estava, podia
vislumbrar parte da central de comando.
— Nada, senhor! — dizia o aparelho de
Rhodan. — Este setor espacial parece literalmente varrido; vazio e deserto.
— Os rastreadores não acusam nada?
— Justamente estes é que não se mexem. E, no
entanto, me trariam os ecos de qualquer coisa que flutuasse num raio de alguns
meses-luz daqui. Apenas os micro-sensores registram a habitual poeira cósmica.
Um átomo isolado a intermináveis intervalos. Que eu saiba, planetas são um
pouco mais consistentes.
— Grato pelo esclarecimento, major! —
replicou Rhodan, gelidamente.
— Peço desculpas, senhor. Tornei a
esquecer que possuo nervos.
A avaliação final do cérebro positrônico
chegara. Rhodan inclinou-se avidamente para a frente. A transição dera certo,
assim como a manobra de emparelhamento, e as correções de curso.
Lentamente voltou à posição anterior; a
Stardust-III arrastava-se pelo espaço com a quase ridícula velocidade de 16,8 km/s;
e os arredores pareciam estar efetivamente desertos. Nem mesmo um reles meteoro
era acusado pelos mais aperfeiçoados aparelhos de detecção de todos os tempos.
E não escaparia à atenção, mesmo que medisse só vinte milímetros de diâmetro!
Fato assaz deprimente. Olhando para trás
deliberadamente, Rhodan constatou, em tom seco:
— Caras amarradas, olhares recriminadores
e ar de petulante arrogância. É nisso que se resume sua alta cultura.
— Já podíamos ter atingido Árcon —
interveio Thora, acaloradamente. — Mas você se recusa a nos ouvir, Rhodan!
Jamais conseguirá resolver a última charada. Jamais! Leve-nos para casa de uma
vez; a mim e a Crest, conforme prometeu há tanto tempo. Crest desiste do
segredo da conservação celular. Portanto, não tem mais motivo para pôr nossas
vidas em perigo, Rhodan.
— E Vega que está explodindo? Esqueceu
dela? Além disso, nossos cálculos estão corretos. O planeta procurado está por
perto. Como não contorna sol algum, nem emite luz própria, não podemos vê-lo.
Mas encontraremos outros meios.
— Palavras heróicas e grandiosas! — zombou
a arcônida. — Encontraremos! O mais provável é que não encontre coisa alguma.
Seus cálculos baseiam-se em dados precários demais. O tal mundo pode estar a
cem anos-luz de nós, se é que existe de fato. Eu duvido!... Volte, Rhodan!
A testa franzida de Bell ocultava
evidentemente pensamentos bem diversos dos que expressou, em tom agressivo:
— Voltar, coisa nenhuma! Tenho a vaga
sensação de que alguém anda nos fazendo de bobos, para ver se enjoamos da
brincadeira. Dá valor a uma boa idéia, amigo?
Rhodan sentou-se numa poltrona anatômica.
— Por que não? Se for aproveitável, pode-se
pensar no caso.
— O imortal, ou então, os imortais, nos
têm feito roer um osso duro. Tanto a lógica quanto o bom senso indicam que as
tarefas vêm sendo cada vez mais difíceis. E esta é a mais dura de todas elas.
— Até aí, tudo velho. Qual é a boa idéia?
— O planeta está sendo protegido contra nossos
aparelhos de detecção, só isso. Devíamos verificar, aliás, se eles ainda
funcionam direito. Mande um dos pequenos caças para fora; afastando-se de nós,
ele poderá verificar como se comportam os detectores. Desta forma, começamos
por eliminar uma das principais dúvidas.
— Idéia verdadeiramente extraordinária...
— murmurou Rhodan, pausadamente. — Major Nyssen!
O berro foi ouvido em todas as seções da
nave, levado pelos alto-falantes. O rosto enrugado de Nyssen surgiu numa das
telas.
— Presente, chefe! — disse, com voz rouca.
— Costumo estar no hangar dos caças.
— Dá para adivinhar — rosnou Rhodan. — Por
que acha que quero vê-lo? Meta-se dentro de um caça. Em cinco minutos,
pontualmente, virá o impulso de ejeção, quer esteja instalado na banheira ou
não. Depressa com isso!
Nyssen soltou uma praga. Ainda depois de
seu rosto sumir das telas ouviam seus resmungos.
Um dos telepatas estremeceu, aterrado.
— Se soubesse o que ele está pensando no
momento — sussurrou, perturbado. — Pelo deus Netuno, é de arrepiar os cabelos!
— Pois não conte a ninguém — aconselhou
Rhodan, rindo. — Sabe que existe liberdade de pensamento a bordo, não é? Major
Deringhouse!
— Às ordens!
Um rapaz comprido, com inúmeras sardas,
desembrulhou-se do assento em forma de concha, no lado oposto da parede
transparente.
— Ouviu o que tencionamos fazer. Idéia do
senhor Reginald Bell. Inacreditável, mas ele teve uma idéia! Ligue seus
detectores só depois que Nyssen tenha disparado por três minutos, com força
total, no espaço. Quero ver como é que eles reagem. Nyssen, ainda me ouve?
O major respondeu pelo rádio, da carlinga
de seu caça. Conseguira executar o malabarismo de se instalar no caça em
instantes.
— Pista livre. Escolha seu rumo à vontade.
Mas, assim que for ejetado, fique de olho no localizador automático. Não
prossiga, caso não conseguir manter a Stardust-III em foco; em hipótese alguma.
Nunca mais nos encontraria.
— Tenho ar, água e alimento para quatro semanas
— rosnou Nyssen, sarcasticamente. — Pode deixar, chefe. Vou prestar atenção.
Cinco minutos após, uma ligeira sacudida
percorreu a nave. Cuspindo fogo, um vulto trovejante chispou pela abertura
escancarada da comporta, logo acima do grosso cinturão que envolvia a nave.
O super-rápido caça de um só tripulante
ganhou o espaço cósmico com alucinante aceleração. Instantaneamente o pontinho
luminoso sumiu do alcance ótico normal, afundando nas trevas.
— Nyssen ao comandante — rugiram os
alto-falantes. — Rastreador automático em ordem. Tenho a Stardust-III na mira
do localizador. Pode deixar que eu acho vocês de novo. Vou pisar no pedal. Fim.
Nyssen desligou o microfone do rádio,
virando a chave para o hipercom, mais rápido que a luz. O sistema comum de
comunicação não lhe valeria de nada agora. Tornara-se um solitário e extraviado
vivente nas insondáveis profundezas do Universo. Da nave não se via mais o
menor sinal. Tudo que ouvia era o rumor surdo de seus propulsores, que o arrastavam
para o nada, a 500 km/s2, sempre para mais longe da nave-mãe.
Decorridos três minutos segundo o relógio de bordo, empurrou de volta o
comutador de estágios. O sonoro rugido transformou-se num débil murmúrio.
Em queda livre, fazendo cerca de 9.000 km/s,
o pequeno caça avançava aceleradamente. Nyssen olhou em torno. A sensação de
ilimitada solidão já lhe era familiar. E as missões em Vega tinham sido,
provavelmente, muito mais perigosas do que aquela.
Consolou-se durante algum tempo com esta
idéia, até perceber, com dolorosa clareza, a ligeira diferença entre o nada
absoluto e um sistema atulhado de planetas. Pelo menos lá tinha a possibilidade
de realizar um pouso de emergência a qualquer momento. Ali, porém, existia
apenas a Stardust-III nas redondezas. Caso ela desaparecesse de repente, Nyssen
estaria irremediavelmente perdido.
O suor começou a brotar-lhe na fronte.
Angustiado, ficou observando a luminosa superfície esverdeada do localizador
automático. A nave de guerra ainda aparecia sob a forma de um minúsculo ponto.
Mesmo assim, suas mãos se crisparam sobre o comutador de reversão do pulso-jato
energético. Agora só lhe restava esperar. Os detectores da nave já deviam estar
trabalhando.
Decorrido um breve minuto, cada segundo
passou a durar uma torturante eternidade. Com gesto brusco acionou a reversão;
a mão esquerda regulou no ponto máximo o comutador de estágios dos propulsores.
Diante do nariz pontudo do caça espacial,
o fogo violeta relampejava dos jatos de frenagem. Nyssen iniciava o processo de
desaceleração.
Débeis sons entremearam o rugido das
máquinas; o hipercom se manifestava.
— Deringhouse a Nyssen. Regresse
imediatamente. O mais depressa possível, entendeu? Confirme.
Nyssen pressentiu que algo não estava em
ordem. Inquieto, mas com todo o volume de voz, berrou sua confirmação aos
quatro ventos. Parecia que a bordo da Stardust-III ninguém o escutava.
— Confirme, major Nyssen! Nyssen,
manifeste-se!
Então o piloto espacial compreendeu que
sua decolagem desencadeara algo. Lentamente reclinou-se para trás, no alto
encosto do assento. Seus olhos procuraram a minúscula faísca luminosa amarela,
perdida em algum ponto daquele oceano galático repleto de estrelas. Um dos
pontinhos era o sol terrestre. Nyssen não saberia dizer ao certo o que estava pensando.
Sabia apenas que, de alguma forma indefinida, considerava sua vida terminada.
Os propulsores do caça continuavam
funcionando.
— Afinal, a idéia não foi tão boa assim! —
queixou-se Bell, ao ser atirado no chão pelo repentino choque.
Deitado de bruços, ficou à escuta. Rhodan
agarrava-se aos firmes braços do assento, diante do terminal positrônico. Novo
choque, ainda mais brutal, seguiu-se ao primeiro. Apesar disso, as telas do
visor panorâmico continuavam vazias. Não se via nada parecido com algum
eventual feixe energético dirigido contra a nave. Não havia absolutamente nada
que pudesse ter abalado a imensa massa da Stardust-III; e muito menos fazê-la
sacudir com tamanha intensidade.
Ao lado, Deringhouse clamava pelo piloto
do caça ejetado. A decolagem de Nyssen provocara algo. O quê, ninguém sabia
ainda ao certo.
Mais um choque. Rhodan afrouxou as mãos
crispadas, e olhou em torno como se nada tivesse acontecido.
Não houve pânico a bordo. Desde o encontro
com o maior charadista do Universo, o pessoal estava habituado a tudo. Rhodan
puxou o microfone para perto de si. Justamente quando o quarto choque atingiu o
casco como uma onda de choque.
— Comandante à central energética... —
soou sua voz pelas diversas seções. — Nada de nervosismo, por favor! Garand,
faça funcionar o campo gravitacional. Grau 2, por enquanto! Veja se o próximo
choque ainda nos atinge com igual força. Executar.
O capitão Klein arrastara-se para seu
posto de fogo. A repercussão dos choques fazia o piso vibrar violentamente; era
quase impossível andar normalmente.
Garand confirmou. Logo em seguida ouviu-se
o tumulto dos reatores em funcionamento. As instalações defeituosas tinham sido
reparadas bem na hora. A Stardust-III recuperava-se dos prejuízos sofridos, nas
imediações de Vega, no setor do suprimento de energia.
Nas telas começaram a brilhar reflexos
azulados. O cerrado campo gravitacional começava a envolver o casco da nave. O
violento balanço diminuiu imediatamente. Com a entrada em ação da
auto-estabilização, a calma retornou.
Reginald Bell ergueu-se cautelosamente.
Rhodan assobiava baixinho, escandalosamente desafinado. Seu olhar meditativo
parecia atravessar as paredes.
— Alô, velho amigo! — disse ele, de
repente, levando a mão à altura do peito. E acenou amistosamente.
Bell olhou em torno, atônito. Não, ninguém
que merecesse o aceno... Lançou um olhar suplicante para o médico de plantão da
central. Tratava-se do Dr. Eric Manoli, o médico que acompanhara Rhodan no
primeiro vôo tripulado do homem à Lua.
Os ombros magros de Manoli fizeram um leve
movimento. Mudamente sacudiu a cabeça.
— Está sentindo alguma coisa? — perguntou
Bell a Rhodan, com voz adocicada. Com um sorriso forçado, encaminhou-se para o
comandante. Tudo foi bem até se sentir levantado no ar com um puxão, e atirado
de volta para seu lugar. E de modo nada delicado.
— Quem foi que fez isso? — rugiu, vermelho
de raiva, encarando o grupo de mutantes encolhido num canto.
Tama Yokida, também produto de Hiroxima,
ergueu timidamente um dedo.
— Eu! É proibido tocar nas pessoas...
Rhodan levantou-se sem ser perturbado,
fitando com leve reprovação o pequeno japonês.
A calma voltara a se estabelecer na
Stardust-III. Mas era a calma antes da tempestade. Rhodan ocupou seu posto
diante dos controles principais. À vista de todos, apertou o botão de fixação
automática do cinto de segurança. Segundos depois, o sistema de alarma começou
a ulular.
A voz do comandante era
extraordinariamente calma. Achava dispensável dar explicações muito detalhadas.
— Estabelecer prontidão de combate.
Dirigir robôs do plantão-catástrofe para os respectivos postos. Deringhouse,
que é feito de Nyssen?
— Não responde! — lamuriou a voz no
alto-falante.
— Continue chamando. Está com o caça nas
telas?
— Sim, senhor; os ecos estão ótimos.
Portanto, os aparelhos funcionam.
— Foi com a finalidade de comprovar isso
que realizamos o exercício. Atenção, todos: parece que estamos sendo empurrados
ou envolvidos por um campo energético cuja natureza não sei explicar.
Preparem-se para toda a sorte de surpresas. Os locais mais seguros serão seus
postos de combate. Capitão Klein, dispare um raio energético inativado, da peça
situada no pólo superior. Use um canhão de impulso. Eu gostaria de poder ver o
feixe de raios.
— Ainda ocorrem ondas de choque —
comunicou a central energética. — São absorvidas pelo campo gravitacional. Fim.
Bell recuperara o controle, e indagou
curioso a Rhodan:
— A quem você denominou velho amigo?
— Concedo-lhe três chances de adivinhar.
Nosso titio charadista acaba de se manifestar. Aposto meu pescoço como estamos
perto do planeta.
— Então devíamos vê-lo; ou poder localizar
e medi-lo com nossos instrumentos.
— Chegaremos lá — afirmou Rhodan,
contraindo o cenho. — Só resta saber como.
— Nyssen acelera, com valores máximos —
informou Deringhouse. — Devo assumir o telecomando do caça?
— O mais depressa que puder. Pelo que
conheço do charadista, os choques são apenas um aperitivo.
Deringhouse ligou o automático. Nyssen viu
a lâmpada vermelha brilhar acima de sua cabeça. Ficou sabendo, então, que o
pessoal da Stardust-III o tomara sob tutela, independentemente de terem ou não
ouvido suas mensagens. Os olhos ansiosos do major perscrutavam o espaço à sua
frente. A refrigeração de seu traje espacial regulamentar entrou
automaticamente em funcionamento, ao perceber que os índices de umidade dentro
da roupa pressurizada alcançavam nível proibitivo.
A seguir Nyssen avistou o débil brilho por
entre o mar de estrelas. O diminuto fogo-fátuo ficou visível até ser ofuscado
pelas chamas dos propulsores do caça. Estava sendo freado à distância, de bordo
da nave espacial. Agora restava abrir o tremendamente letal anteparo, senão o
minúsculo caça seria desintegrado num fulgurante raio de luz. Mas aquela
preocupação era problema privado de Nyssen. Precipitar-se, com vertiginosa
velocidade, ao encontro de uma nave espacial quando se sabia que ela estava
protegida por campos de repulsão extremamente intensos sempre constituía
tremenda carga nervosa. Alguns dos campos não afetavam objetos materialmente
estáveis. Porém a estrutura dos campos gravitacionais não se encontrava entre
as conquistas mais simpáticas de técnica arcônida.
Não era um fenômeno que se pudesse
qualificar de normal, no estrito sentido da palavra; tratava-se de unidades
energéticas da quinta dimensão sobrepostas. Pois os arcônidas sabiam exatamente
o que era gravitação, enquanto os cientistas terrestres ainda quebravam a
cabeça tentando descobrir.
O caça de Nyssen ainda era um corpo
alucinantemente rápido, lançando flamejantes línguas de fogo no negrume do espaço.
Muito à sua frente, a Stardust-III se
tornou, enfim, visível. Dentro de instantes, aparecia com o tamanho de uma bola
de tênis, claramente delineada entre as estrelas.
Com um suspiro vindo do fundo do coração,
Nyssen desligou de vez a pilotagem manual do pequeno avião, e constatou que sua
velocidade era quase nula. Ao mesmo tempo verificou que todo um hemisfério da
nave de guerra se transformava numa fornalha que cuspia raios.
Nyssen tinha consciência de que berrava
suas observações no microfone. Diante dele, o anteparo energético abriu larga
brecha. Forças magnéticas agarraram violentamente o pequeno caça, arrastando-o
para a comporta aberta.
O processo foi rápido. Rápido demais, e
extremamente rude. Manobra bem apropriada para desgaste prematuro do material.
Com o pé, Nyssen apertou o pedal do
automático de compressão. Mal ele entrou em funcionamento, o caça foi jogado,
com impacto completamente anti-regulamentar, sobre os trilhos da catapulta, que
o lançaram no campo receptor magnético.
O piloto espacial lembrou-se a tempo de
sua capacidade de reação, senão sucumbiria inevitavelmente ao choque da
frenagem de 320 g de intensidade.
A máquina ultrapassou o campo receptor,
indo chocar-se estrondosamente com as resistentes paredes de aço arcônida do
fundo do hangar.
Antes de perder os sentidos, Nyssen
escutou ainda o rugido surdo das máquinas da nave. Após o longo período de
espera, o pessoal da Stardust-III parecia ter entrado em frenética atividade.
* * *
Não se podia exigir que Nyssen entendesse
imediatamente os motivos daquela precipitada manobra de reembarque; seria
supervalorizar sua inteligência. Além disso, pouco importava como voltara para
bordo. O essencial era ter conseguido.
Na central de comando, os dois mutantes
Son Okura e Tanaka Seiko tinham se manifestado quase simultaneamente.
Okura, o perceptor de freqüências, que
andava com certa dificuldade, era capaz de perceber apenas padrões indistintos
de ondas. Mas podia determinar com exatidão a proveniência daquela radiação estranha,
jamais detectada anteriormente. Vinham do setor vermelho, de um ângulo estimado
de 32 graus; o plano vertical era de 4 graus no máximo.
Relatara imediatamente suas observações,
porém então o localizador Tanaka Seiko fora vitimado por súbito ataque de
fúria.
Por outro lado, não lhes adiantaria nada
conhecer por intermédio dele os pontos de referência exatos da localização.
Pois a Stardust-III tornara-se de repente joguete de forças incomensuráveis.
O fruto de cansativas semanas de cálculos
e de complicadas manobras foi aniquilado em instantes. Gigantesca pata
invisível abateu-se sobre a nave, no momento exato em que Nyssen alcançava a
entrada da comporta.
Já por ocasião dos choques anteriores,
relativamente inofensivos, Rhodan passara para controle automático. Não se sentia
em condições de reagir a tempo diante de acontecimentos inesperados. Tudo
indicava que aquilo fora a salvação de todos eles.
Em poucos instantes, a Stardust-III era
uma esfera rangente e estalante; o imenso volume oco pouco contribuía para
manutenção da necessária estabilidade. Tinha-se a impressão de que todas as
divisões e juntas se retorciam, apesar de grande parte delas ser feita de
paredes de aço blindado de um metro de espessura.
Em adição, produziu-se tal aceleração que
Rhodan concentrou o ouvido na escuta do ruído dos reatores de força,
desprezando os fenômenos de deformação.
— Alcançamos o valor máximo! — berrou
Bell, através da barulheira.
No entanto, além dos olhos anormalmente
arregalados, ele não evidenciava nenhum outro sinal de pânico. Pertencia à
classe dos privilegiados para quem os nervos não existem em momentos de perigo.
O sistema de alarma pôs-se a uivar. Em
todas as dependências da nave acendiam-se luzes vermelhas.
— Não! Isso não! — gemeu Crest, que estava
sendo pressionado contra seu assento.
Rhodan sentiu igualmente a pressão
crescente. A enorme Stardust-III sofria tal aceleração que os neutralizadores
de compressão já não conseguiam cumprir a contento sua tarefa. E, no entanto,
seriam capazes de absorver, por curtos espaços em situações de emergência,
pressões de 600 km/s2. Ocasiões, porém, em que requeriam o emprego
da capacidade total do aparelhamento de força.
Os olhos de Rhodan turvaram-se. Acabava de
se manifestar o que jamais ocorrera numa nave arcônida, pelo menos nos últimos
vinte mil anos: o efeito de inércia. Repentinamente, sem transição, as forças compressoras
romperam passagem; isto provava, sem sombra de dúvida, que desta vez os
imortais levavam a coisa a sério.
Rhodan, cujo físico resistente já
suportara, sem conseqüências prejudiciais, pressões de 16 g, na academia de
pilotos da Força Espacial dos Estados Unidos, mal teve tempo de acionar a chave
de emergência dos propulsores, embutida no braço do assento.
O automático passou a funcionar,
irrepreensivelmente. Só os seres humanos sucumbiram momentaneamente à impiedosa
força da inércia.
O rosto estranhamente jovem de Crest
distorcera-se assustadoramente sob a ação das forças de aceleração. Subitamente
era uma face de ancião, murcha e sem vida. O arcônida já nem conseguia
respirar. Rhodan, porém, forçava-se a agir.

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