— Esse bicho! — gritou ainda de longe. —
Deve ter se introduzido a bordo quando carregamos os caixotes. Se pego o
relaxado responsável por isso!
E o homem agitava com ar ameaçador sua
enorme colher.
Rhodan levantou as mãos:
— Calma, que diabo! Que foi que aconteceu?
Será que todo mundo por aqui perdeu o juízo?
— Esse rato-castor! — arquejou o
cozinheiro-chefe, que agora se encontrava diante de Rhodan. — Embarcou disfarçadamente,
e agora está devorando nossos suprimentos. Veja o senhor mesmo!
Com o corpanzil avantajado, empurrou para
o lado, sem a menor cerimônia, os circunstantes, abrindo passagem para Rhodan e
Bell, que o seguiram cheios de curiosidade. Diante de uma porta rotulada “Câmara
Frigorífica” o ajuntamento era ainda maior. A porta estava aberta.
O rato-castor estava sentado sobre os
amplos traseiros, no meio de um montinho de frutas congeladas; segurando uma
delas nas hábeis patas dianteiras, comia gulosamente. De vez em quando lançava
olhares confidenciais ao seu círculo de espectadores, piscando os olhos, como
que querendo dizer: “Está gostoso,
pessoal! Muito obrigado, sim?”
Rhodan contemplou a cena sem saber o que
pensar.
O rato-castor era evidentemente o autor
das alterações provocadas nos controles do hipersalto; seus dons telecinéticos
eram mais do que suficientes para ter causado as irresponsáveis brincadeiras.
Portanto, pusera em sério perigo a vida de todos eles, e tinha que ser
castigado. Além disso, era um passageiro clandestino. Em ambos os casos, as
leis espaçonáuticas previam a pena máxima: abandono da nave sem traje protetor.
Por outro lado, no entanto, o rato-castor
agira sem más intenções. Aquela mania de brincar constantemente constituía
traço fundamental de sua raça. Porém a disciplina exigia punição para o
infrator. Mesmo para um infrator tão insinuante.
Junto a Rhodan, Bell olhava fixamente para
o estranho ser, que não demonstrava medo algum. Afinal, sua consciência estava
tranqüila; e parecia perceber que seu ar cômico contribuía para melhorar
sensivelmente o humor dos bípedes.
O rato-castor arreganhou os beiços,
expondo seu único dente incisivo. O resultado foi tão engraçado que alguns dos
presentes desataram em gargalhadas. Apenas Bell não sentia disposição para rir.
Aquele bicharoco metera-os numa complicação danada, pois influenciara a
transição. A Stardust-III encontrava-se agora num canto desconhecido do
Universo, fato que nem mesmo a cara gozada do rato-castor podia mudar.
Antes que Rhodan pudesse intervir, Bell
avançou para o contente roedor, pegando-o pelo cangote. Com um puxão,
levantou-o do chão.
— Droga de bicho! Joga nossa nave no meio
do angu da Via-Láctea, e agora ainda fica devorando nossos morangos! Não tem pra
você! Você vai é ganhar uma dose de leite azedo! Merecia uma boa surra,
pestinha! Você vai ver uma coisa!
Sem que ninguém pudesse impedi-lo, Bell
aplicou algumas violentas palmadas no traseiro do rato-castor, que guinchava lamentosamente.
Porém no mesmo instante começaram a
acontecer coisas estranhas. Com ágeis contorções, o rato-castor desprendeu-se
da frouxa sujeição das mãos de Bell, pulando para o chão. Num salto,
refugiou-se num canto da câmara frigorífica, de onde ficou contemplando Bell,
sentado sobre os quadris. E depois Bell começou a flutuar. Leve como um balão
cheio de ar, singrou ao longo do atônito chefe de cozinha, em direção aos
imensos caldeirões.
Em vão Bell esperneava, procurando mudar
de rumo; suas mãos frenéticas se agitavam à toa, pois não encontravam nada a
que pudesse se agarrar. As correntes de energia telecinética geradas pelo
rato-castor dominavam-no completamente.
O cozinheiro-chefe sentiu um aperto no
coração ao ver Bell se deter acima do panelão de sopa; o espesso caldo
borbulhava lentamente. Se Bell caísse lá dentro...
Mas ele seguiu adiante. Apesar de se
debater furiosamente, acabou descendo, indo parar dentro de um recipiente cheio
d’água até as bordas. Água fria, felizmente... Bell mergulhou no líquido até o
pescoço; só a cabeça ficou de fora. Rhodan, que acompanhara a cena com
disfarçado deleite, explodiu numa gargalhada.
Os demais seguiram-lhe o exemplo, e o
pobre Bell foi logo cercado por todo o pessoal da cozinha, mais os membros da
tripulação presentes.
— Isso lá é lugar para tomar banho? —
gritou alguém do meio do grupo, irreverentemente.
Rhodan acorreu, ajudando o amigo a se
safar da constrangedora situação. Chateado e encharcado, Bell saiu do
caldeirão.
Imperturbável, o rato-castor continuava a
roer suas frutas congeladas, com evidente apetite. Afinal, não podia saber por
quanto tempo os bípedes ainda aturariam sua presença.
— Suma em sua cabina Bell! — disse Rhodan,
com um amistoso tapinha no ombro do amigo, — Se cruzar com John Marshall no
caminho, mande-o para cá. E aconselho-o a não pensar mais em surrar nosso
passageiro clandestino. Conforme verificou, ele se defende.
— Não me diga que vai deixá-lo permanecer
a bordo! — rosnou Bell. No entanto, ele próprio já sentia que não teria coragem
de eliminar a sangue-frio o bichinho. — Se ele continuar brincando desse
jeito...
— É por isso que quero ver Marshall.
Talvez ele consiga se entender com o rato-castor. Mande avisá-lo, sim?
Bell saiu, deixando um rastro molhado
atrás de si. Rhodan voltou à câmara frigorífica. O rato-castor fitou-o com
olhos arregalados e expectantes. As graciosas patas seguravam uma fruta, que
ele mordiscava com aparente constrangimento. As grandes orelhas redondas
vibravam de leve.
“Tem
um olhar de cão”, pensou Rhodan, sentindo-se invadido por uma repentina
onda de simpatia por aquele ser. Não nascera na Terra, e sim num mundo estranho
e desconhecido. Um alienígena, portanto; quase uma aberração. Apesar disso,
gostava dele. Sentimento inexplicável, baseado apenas no jeitinho gracioso do
penetra. Ou talvez a culpa fosse dos grandes olhos suplicantes, que pareciam
implorar: “Por favor, não me faça mal!”
Rhodan sorriu sem querer. O rato-castor
arreganhou os beiços por sua vez, mostrando o dente único. Rhodan sentiu que
naquele instante firmava um pacto de amizade com o pequeno ser; porém não podia
adivinhar que seria uma longa e duradoura amizade. Pois o rato-castor não era
apenas telecineta, mas isso é outra história.
John Marshall, o primeiro telepata do
Exército de Mutantes, chegara à cozinha. Já soubera do essencial por intermédio
de Bell, de modo que não se mostrou muito surpreso ao ver o rato-castor.
Disfarçando o riso, perguntou a Rhodan:
— Então, foi este camaradinha que obrigou
Bell a tomar banho?
— Parece-me que Bell vai ter que ouvir
isso ainda daqui a dez anos — respondeu Rhodan, rindo. Depois apontou o
mascante hóspede acocorado na câmara frigorífica. — Tente se comunicar com ele.
Talvez consiga ler seus pensamentos, se é que ele pensa. O mais importante, no
entanto, é fazê-lo saber o que nós pensamos. Será que consegue?
— Acho que sim — disse Marshall. —
Dependendo, naturalmente, da maneira pela qual seu cérebro reage. Se for
sensível...
— Ele domina a telecinésia, que é pura
força mental. O que nos permite deduzir que possui cérebro bastante
desenvolvido. Experimente, John.
Marshall levou apenas alguns segundos para
revelar extraordinária excitação. Acenando repetidamente com a cabeça, falava com o rato-castor que escutava
com profunda atenção. Na face astuta brilhou mais uma vez o dente risonho; o
animal emitiu alguns guinchos agudos e alegres, depois devolveu a fruta
semi-roída ao caixote. Pondo-se de pé sobre as patas posteriores, marchou
solenemente para fora da câmara obscurecida, e postou-se diante de Rhodan.
— Deseja cumprimentar você — disse
Marshall. — Conseguiu me entender. Seus pensamentos são fáceis de ler, e ele é
capaz de captar os nossos; basta lhe ativar a parte até agora desusada de seu
cérebro. Com isso, pode se tornar um excelente telepata.
Rhodan se inclinou e estendeu a mão ao
rato-castor.
— Vamos lhe dar o nome de Gucky — disse,
cordialmente, enquanto apertava com delicadeza a frágil pata. — Se você me
entende, acene com a cabeça.
Gucky acenou prontamente.
— Muito bem, então você compreende o que
digo. Infelizmente, o oposto não será tão simples, pois não sou telepata. Mas
você vai acabar aprendendo nossa língua.
Este homem aqui vai lhe ajudar; chama-se
John Marshall.
Gucky tornou a acenar, dando gritinhos
agudos, que talvez traduzissem seu contentamento. Depois começou a rodar como
um pião, e elevou-se no ar; chegado ao teto, descreveu uma pirueta em forma de
8 e retornou ao chão.
— Muito bacana! — louvou Rhodan. Mas,
erguendo o indicador, avisou: — Daqui por diante, você só pode brincar quando
eu der licença. Venha comigo; vou lhe mostrar em que encrenca nos meteu. Em
seguida poderá voltar para cá, e continuar comendo.
* * *
À velocidade da luz, a Stardust-III
penetrou no sistema do sol Laton. Cruzou a órbita de um dos planetas mais
afastados; o trigésimo sétimo planeta, um gigantesco mundo congelado, passou
vagarosamente ao longe. Seguiu-se o trigésimo sexto planeta, também desabitado.
A nave espacial se aproximava cada vez mais de Tuglan, um mundo pertencente ao
vasto império estelar dos arcônidas.
Rhodan, Crest, Thora, Bell e John Marshall
estavam reunidos na central de comando. Comportado e obediente, Gucky
acocorou-se num canto, tentando separar logicamente as diversas correntes de
pensamento que inundavam sua mente. Compreendera que suas brincadeiras haviam
resultado numa situação crítica para os bípedes. Agora estava proibido de
brincar. Mas tinham lhe prometido que mais tarde, quando aterrizassem em algum
lugar, poderia brincar à vontade.
Ele cobraria a promessa!
— Está com medo por acaso? — perguntou
Thora, em tom sarcástico, com um olhar de desafio para Rhodan.
Bell, metido num uniforme seco e
recém-passado, resmungou algo ininteligível, sem mais manifestações.
— Acha que não percebi que só concorda
contra a vontade com nossas sugestões? Receia que o comissário em Tuglan se
comunique com Árcon, e então estaria acabada sua brincadeira de
esconde-esconde?
“Brincar...”
pensou Gucky. “Eles também falam em
brincar.”
— Tolice! — replicou Rhodan, com um olhar
suplicante para Crest. — Procure, pelo menos uma vez, compreender meu ponto de
vista. Caso não queira, lembre-se de nosso trato, ainda em vigor: primeiro
achar o planeta da vida eterna, depois a viagem a Árcon. Porém nem um minuto
antes... Crest está disposto a manter o combinado. Espero o mesmo de você.
— E o que tem isso tudo a ver com Tuglan?
— Muito simples: não quero que o
representante dos arcônidas fique sabendo algo sobre a Terra. É tudo que quero,
mas não abro mão da exigência. Necessito, portanto, sua promessa de não
mencionar coisa alguma relativa à Terra e aos homens. Passaremos por habitantes
de algum mundo colonizado pelo Grande Império. Vamos fazer de conta que
procedemos de outro lugar qualquer.
Gucky apontou as orelhas redondas. Fazer
de conta? Era o mesmo que brincar. Quer dizer que os bípedes também brincavam?
Simpatizava cada vez mais com eles. Pena que lhe tivessem proibido de brincar.
Será que não podia tentar, só um pouquinho, apesar disso?
Aqueles instrumentos cintilantes!...
Rhodan voltou-se tão bruscamente que quase
derrubou Bell. O hiper-rádio começara a funcionar espontaneamente. Luzes se
acendiam, e pequenas telas se iluminavam. Os emissores geravam sinais sem
sentido, transferindo-os à central emissora, onde eram transformados e
irradiados.
Com um salto, Rhodan chegou ao painel de
controle e abaixou furioso uma chave. A transmissão cessou instantaneamente,
porém já devia ter sido captada em algum lugar. O circuito do receptor
continuou a funcionar sozinho, e levou um sinal de identificação ao
alto-falante. Numa das telas surgiu a face metálica de um robô arcônida. A
imagem sumiu assim que Rhodan acionou uma segunda chave para a posição de
desligamento.
Com movimentos rígidos, Rhodan deu as
costas ao painel e encaminhou-se para onde estava Gucky.
O rato-castor encolheu-se, intimidado,
gorjeando em seu incompreensível idioma. Os olhos muito abertos fitavam
suplicantemente Rhodan, parecendo jurar que dali por diante ele seria realmente
comportado. Uma grossa lágrima rolou devagar pela bochecha peluda.
Cerrando os dentes, Bell sacudiu o punho
fechado na direção do irrequieto transgressor.
Rhodan parou diante de Gucky.
— Marshall, quero saber por que ele fez
isso! Ele me entende, mas eu não tenho meio de saber o que pensa. Pergunte-lhe
o que tem a dizer em sua defesa.
O telepata inclinou-se para a criaturinha,
perscrutando-lhe os grandes olhos tristonhos.
— E então? — indagou, suavemente. Não
tardou a erguer-se, informando: — Ele promete não repetir a brincadeira; jurou
e garantiu. Disse que nós vivemos falando em brincar, e então ele achou que
também podia...
— Ele não pode! — gritou Rhodan.
Dirigindo-se diretamente a Gucky, disse: —
Se mexer, mais uma vez que seja, em alguma coisa aqui dentro da nave sem minha
licença, vai ser expulso dela! Entendeu? Sabe o que arranjou? Chamou sobre nós
a atenção de desconhecidos, muito menos amistosos do que nós. É bem provável
que matem você, caso nos encontrarem. Portanto, tome cuidado daqui por diante.
Comporte-se, e permaneça quietinho. Bell, encarregue-se dele!
— Por que eu?
— Precisa tornar-se amigo de Gucky. Quanto
mais cedo se acostumar com ele, e vice-versa, tanto melhor para nós todos. Pois
acho que Gucky pode ser destacado para o Exército de Mutantes.
— Para o Exército de Mutantes?! — exclamou
Bell, engolindo em seco. — Esse rato desengonçado vai fazer parte de nossa
tropa de elite? Não, essa eu não agüento!
Calou-se de repente, pois seus pés
perderam contato com o chão, e flutuaram a alguns centímetros acima dele. Mas
por segundos apenas, e Bell tornou a descer suavemente. Gucky quisera apenas
avisá-lo, nada mais. Pondo de lado seu orgulho, Bell acabou concordando:
— Bem, se depender de mim... Talvez ele
acabe sendo útil, caso se comporte. De acordo, Gucky?
O rato-castor acenou gravemente.
Fazendo força para não rir, Rhodan
dirigiu-se a Crest:
— A situação modificou-se, pois agora
devem ter dado por nossa presença. A intensidade do sinal permite supor que a
emissão partiu de uma estação deste planeta. E agora?
— Não vejo em que isso possa alterar as
coisas. Minha única dúvida é como explicar vocês. Os comissários arcônidas
possuem informações detalhadas sobre nossos mundos colonizados. E os terranos
não são mencionados nelas.
— Ora, podemos virar arcônidas — sugeriu
Bell.
Rhodan fitou-o pensativo, sem responder.
Crest, porém, concordou:
— A idéia não é má. Não temos o que
perder, e será uma gozação das maiores. Mas como pôr em prática esta sugestão?
— Para que servem nossos doutores? Podem
nos arranjar lentes de contato vermelhas, para nos dar olhos de albinos. Tingir
os cabelos de branco é rápido e simples. Mais não será necessário — disse
Rhodan.
— Tingir os cabelos de branco? — gaguejou
Bell.
— Só por algum tempo — tranqüilizou Crest.
— Aliás, há mais uma coisa que recomenda esta farsa. Soube há pouco,
consultando o fichário de bordo, que os nativos do sistema Laton, chamados
tuglantes, sempre ofereceram resistência passiva à soberania do Grande Império.
Talvez seja bem conveniente que passemos por membros de uma comissão de
inquérito. Por interesse próprio, nosso representante em Tuglan concordará
certamente com isso.
Rhodan enrugou a testa.
— Está perdendo de vista nosso objetivo
primordial, Crest. O planeta da vida eterna e a raça imortal.
— Ora — disse Crest com um sorriso
displicente — até que este episódio inesperado poderia ser útil a você e à
Terra. Uma ocasião de mostrar como lidar com povos colonizados. Prove que sabe
se safar de situações críticas, pois na verdade não sabemos o que nos espera em
Tuglan. Se bem que tudo deve estar em ordem por lá, caso a estação que
respondeu ao nosso chamado seja de fato a hiperestação radiofônica de Tuglan.
Mesmo assim...
Rhodan compreendeu o que Crest queria
dizer. Talvez ele tivesse razão. Portanto replicou:
— Está bem, Crest, avise o Dr. Manoli.
Peça-lhe que prepare o estojo de maquilagem. Vamos representar!
3
Alban não conseguia compreender.
— Mas como é que souberam disso tão
depressa?! — exclamava seguidamente, fitando o irmão como quem pede auxílio. —
A nave de guerra deve ter aparecido no mesmo instante em que a estação de rádio
dos arcônidas voava pelos ares. Tem alguma idéia sobre o autor do atentado,
Daros?
Daros contemplou longamente o irmão antes
de sacudir a cabeça.
— Para que este fingimento, Alban? Não foi
você mesmo que me revelou seus planos? Agentes seus destruíram a estação, e é
você quem tem que agüentar as conseqüências. Quer minha ajuda nisso?
— Estamos todos na mesma enrascada, quer
sejamos contra ou a favor dos arcônidas. Eles não farão a menor diferença. O
comissário deve ter dado o aviso antes mesmo da concretização do atentado.
Nunca o imaginei tão vivo. Pois os arcônidas podem ser poderosos, mas são
também decadentes e irresolutos. Se não fosse pelas superarmas que possuem,
daríamos cabo deles em dois tempos.
— Subestimar o adversário é meia batalha
perdida — aparteou Daros. — Além disso, vejo-me forçado a desapontá-lo, mano.
Nem penso em arriscar a pele por sua causa. Sempre fui contra o levante, e
continuo sendo.
— O que significa que somos adversários —
concluiu Alban, apoiando ambas as mãos sobre a mesa, e encarando fixamente o
irmão. — Meu plano é iludir os arcônidas. Caso o comissário tenha efetivamente
dado o alarma, eles não terão o menor motivo para suspeitar de mim. Os dois
homens que colocaram a bomba ontem à noite estão mortos. Ninguém sabe quem lhes
deu o encargo. Quanto a mim, vou mandar a polícia prender alguns componentes do
movimento revolucionário, e executá-los por ocasião da aterrizagem da expedição
corretiva. Com isso provo minha lealdade.
Daros olhou para o irmão com nojo.
— Matar seus mais fiéis partidários só
para se colocar bem? Mas é horrível!
Alban sorriu friamente.
— Devia me agradecer por isso.
— Agradecer? Mas por quê?
O digno lorde de Tuglan continuava a
sorrir.
— Porque não direi a ninguém que foi você
quem deu aos dois bandidos a ordem de destruir a estação radiofônica. Sua trama
era isolar os arcônidas, me eliminar, e ocupar calmamente o posto de lorde de
Tuglan. Não é verdade que alimentava tal ambição?
Daros ficou atônito com as traiçoeiras
maquinações do irmão. Ele simplesmente invertia os fatos, jogando toda a culpa
sobre outro, e seu próprio irmão ainda por cima. Os arcônidas acreditariam
naquela versão, e retornariam tranqüilizados após a sindicância. Talvez
exigissem até a punição dos culpados. E Alban podia executar publicamente
Daros, que, apesar de contar com a estima do povo, representava uma ameaça para
ele.
Daros começou a tomar consciência de sua
perigosa posição. Seria capaz de apresentar uma só prova contra Alban? A
conversa do dia anterior fora realizada a portas fechadas, sem testemunhas...
— Os arcônidas são inteligentes bastante
para adivinhar sua trama, Alban. Entendem um bocado da psicologia das raças
coloniais.
— Pensei igualmente nisso, Daros. Já
providenciei a prisão de alguns dos revoltosos durante a visita dos albinos.
Eles deporão unanimemente que anseiam pela independência de Tuglan, e que tencionavam
depor o atual lorde, por este ser fiel partidário do Grande Império. Dirão
igualmente que escolheram Daros para ser o novo lorde. E que este quer a
liberdade de Tuglan e do império dos oito planetas.
Daros estremeceu de medo.
— Não achará ninguém disposto a sacrificar
a vida por mentiras!
— E quem diz que eles mentirão? —
perguntou Alban, de cenho franzido. — Vão estar convictos de estarem dizendo a
verdade; nem mesmo o detector de mentiras seria capaz de fazê-los mudar de
opinião. Não, meu caro, pensei em tudo. Outros afirmarão que você, através de
seus asseclas, os instigou a assassinar Rathon; empreitadas que recusaram, por
serem leais ao Grande Império.
Daros cerrou os punhos:
— Você é que merecia ser assassinado!
— Por que não tenta? — indagou Alban, com
um sorriso de mofa. — Contei com esta hipótese também. Está vendo minhas mãos?
Repousam sobre um botão. Basta apertá-lo de leve para uma barreira energética
se erguer entre nós. Não poderia me alcançar, por mais força que fizesse.
— Você é diabólico!
— Só demônios obtêm a vitória final;
qualquer outro é fraco demais para isso. Os idealistas da liberdade gastam
tempo demais tomando suas decisões, pois se preocupam com o bem de seu povo. Eu
dispenso este detalhe, portanto posso agir imediatamente. Não preciso perguntar
nada a ninguém. Minhas decisões são tomadas na hora, instantaneamente, e o
adversário não tem tempo de se ajustar a elas. Entende agora por que eu triunfo
e você está perdido?
Daros obrigou-se a conservar a calma.
— Neste caso, não compreendo por que me
avisa. Posso sair do palácio quando quiser? Sou livre?
— Naturalmente, irmãozinho. Quanto mais
você correr, tanto mais os arcônidas estarão interessados em pegá-lo. Fugir é o
mesmo que confessar a culpa. Está claro?
Sim, estava claro. Daros encontrava-se
numa armadilha. Se fugisse, confessava-se culpado; se permanecesse em Tuglan,
acabaria arrastado pelas provas que Alban acumulara contra ele.
— Neste caso, prefiro ficar. Confio na
inteligência dos arcônidas.
— E eu, na sua burrice — concluiu Alban,
calmamente. — Veremos quem fica com a razão. E agora, deixe-me só. Tenho muito
que fazer para receber condignamente a expedição corretiva arcônida e provar
minha lealdade. Minhas primeiras palavras serão de queixa contra os revoltosos.
Levantando-se, Daros se dirigiu para a
porta. Mas voltou-se ainda uma vez, perguntando:
— Quando foi que ocorreu a última visita
dos arcônidas ao nosso sistema?
Alban levantou os olhos intrigado.
— Há cerca de cinqüenta anos, quando
substituíram o comissário anterior. Por quê?
— Alguma coisa pode ter mudado nestes
cinqüenta anos.
“Agora
tudo vai depender da inteligência dos arcônidas”, pensou Daros.
* * *
Ao cruzar a órbita do décimo terceiro
planeta, Rhodan avistou três espaçonaves, em progressão lenta. Pesadonas e
armadas, eram evidentemente naves bélicas. Crest deu ordem para fazer funcionar
a estação de rádio comum.
— Será que poderemos compreendê-los? —
indagou Rhodan.
— Eles falam intercosmo, a língua do Grande
Império. Você, Bell, Haggard e Manoli aprenderam este idioma por ocasião do
treinamento hipnopédico. Logo, não terão dificuldade em entender os tuglantes e
conversar com eles. Vou mandar dar igualmente uma lição a Marshall; só pode ser
vantajoso para todos nós ter um telepata capaz de entender os tuglantes.
Da sala de rádio veio um sinal. A ligação
com as três naves fora estabelecida. Rhodan girou um dial e ficou atento à
tela. Nela surgiu uma das naves, vista de perto, e depois o rosto de um homem.
Alban, o eminente lorde de Tuglan.
— O império dos oito planetas apresenta
seus cumprimentos aos arcônidas, senhores do Universo! — disse ele, no
intercosmo, de uso generalizado em todo o império. — Em Tugla, nossa capital,
está tudo pronto para recebê-los. Permitem-me indicar o rumo?
A testa de Crest apresentava profundas
rugas. Era evidente que a cordialidade da recepção o surpreendia. Rhodan, no
entanto, achava muito natural que uma raça colonial saudasse com tanta
amabilidade os dominadores do Universo, e não viu nada de extraordinário no
fato. Sua mão alisou inconscientemente os cabelos brancos que agora lhe ornavam
a cabeça. Calmamente respondeu:
— Sigam na frente; nós os acompanharemos.
Porém o tuglante não se satisfez com a
curta resposta, e continuou:
— Chega no momento adequado, senhor. O
comissário de Tuglan necessita de seu auxílio. Rebeldes criminosos destruíram
ontem à noite a hiperestação radiofônica, sendo mortos na ocasião.
A testa de Crest recuperou o aspecto
habitual. Agora sim, a situação se afigurava normal. Começava a luta. Quantas
vezes já presenciara esquema parecido em outros mundos! Só faltava saber quem
era o agente provocador do incipiente descontentamento. Teriam que descobri-lo.
Acenou ligeiramente para Rhodan.
— Foi por isso que viemos — disse Rhodan,
displicentemente, como se as palavras de Alban não representassem novidade para
ele. — Providencie para que possamos ver o comissário logo após o pouso.
Dispomos de pouco tempo.
O tuglante na tela acenou, e sua imagem
desapareceu.
Rhodan certificou-se de que a ligação fora
cortada antes de perguntar a Crest:
— Quem era?
— O lorde em pessoa, tenho certeza. Falou
em dissenções. Com o que você se transforma, muito a contragosto nosso, em
emissário do Grande Império! Um ensaio geral para o futuro, por assim dizer.
Que tal se sente?
Rhodan sorriu, imaginando que aparência
teria com aqueles olhos vermelhos. Seu corpo alto e magro prestava-se bem à
personificação de um arcônida; Bell, no entanto, parecia quase ridículo no
papel.
— Se aquele era mesmo o lorde de Tuglan,
confesso que prevejo dificuldades, pois antipatizei com o homem.
— Não faça afirmações levianas, Rhodan —
avisou Crest. — A primeira impressão nem sempre é a mais acertada,
principalmente quando se lida com raças estranhas. Convenhamos que os tuglantes
se assemelham aos arcônidas, porém no fundo são diferentes. Julgá-los pela
aparência física seria injusto. Precisamos aguardar antes de formar juízo
definitivo.
Haggard e Manoli entraram na central,
igualmente de cabelos brancos e olhos vermelhos. Também eles passariam por
arcônidas. John Marshall permaneceria inalterado, e seria apresentado como
habitante de um sistema solar afastado, apenas recentemente incorporado ao
império.
Marshall não chegou sozinho à central.
Trazia Gucky pela mão, que acabara de receber, sob a supervisão de Thora, o
treinamento hipnopédico. Com a ajuda de complexo aparelhamento eletrônico
podia-se transferir para qualquer cérebro devidamente desenvolvido, no espaço
de algumas horas, a sabedoria de gerações inteiras. Portanto ninguém se
espantou ao ouvir o rato-castor pipilar no idioma do Grande Império:
— Muito bom dia, senhores. E em inglês
acrescentou:
— Também aprendi dialetos provincianos...
Bell ficou tão encantado com o animal
falante que esqueceu todas as travessuras anteriores; até o banho no caldeirão!
Riu até ficar com lágrimas nos olhos, depois inclinou-se de mão estendida para
Gucky.
— Bem-vindo, amiguinho. Vamos fazer as
pazes?
O rato-castor exibiu o famoso dente.
— Se me deixar brincar novamente, topo.
Bell ergueu um indicador, avisando:
— Um dia você vai poder brincar à vontade.
Não aqui na nave, no entanto. É perigoso demais. Está disposto a prometer que
não brincará dentro da nave?
— E quando vou poder brincar então? — piou
Gucky, lastimosamente.
— Assim que tivermos pousado. Então
disporá de brinquedos em penca. E agora fique quietinho. Temos assuntos muito
importantes para discutir.
Gucky acenou, imitando com exatidão os
gestos humanos, e acocorou-se sobre os quartos traseiros num canto. Seu olhar
astuto observava tudo que se passava em torno.
As três naves tuglantes tinham dado
meia-volta, e voavam na frente da Stardust-III. O décimo primeiro planeta do
sol azul mostrou-se nas telas laterais, ocupando gradualmente as dianteiras.
Entretanto, Rhodan tivera tempo de comparar os dados trazidos por Crest do
fichário com suas observações pessoais. Nada se modificara.
A atmosfera de Tuglan era bem parecida com
a terrestre; a gravidade era ligeiramente mais elevada. Dois continentes
boiavam no oceano que recobria sua superfície, unidos por estreita faixa de
terra. As montanhas, de regular altura, acabavam em extensos planaltos cobertos
de florestas. Notava-se a ausência de grandes metrópoles, pois Tuglan era um
mundo agrícola. A tecnologia limitava-se à construção de naves espaciais,
destinadas a manter o contato com os outros sete planetas. Ainda não
ultrapassavam a velocidade da luz. Portanto, os tuglantes estavam impedidos de
sair de seu próprio sistema.
Compreensivelmente, Tugla dispunha de um
espaçoporto de dimensões impressionantes, apesar da inexistência de
industrialização. Acomodaria com facilidade três esferas espaciais com as
gigantescas medidas da Stardust-III.
Os três cruzadores tuglantes desceram
verticalmente, pousando sobre a cauda, nos limites extremos do espaçoporto.
Rhodan manobrou a Stardust-III para o meio do campo e fez com que ela descesse
vagarosamente. Era fácil imaginar a impressão provocada pelo imenso veículo
redondo, com seu cintilante revestimento metálico. Na certa os tuglantes o
supunham recheado de armas misteriosas e desconhecidas. Quando a Stardust-III
tocou o solo, ainda se erguia a uma altura de oitocentos metros. Uma esfera com
oitocentos metros de diâmetro! A Stardust-III já nem era uma nave, mas sim um
mundo oco, dentro do qual se vivia, nascia e morria.
Com um só movimento, Rhodan desligou todo
o equipamento. As instalações positrônicas automáticas entraram em repouso.
Zumbidos e vibrações iam morrendo A Stardust-III chegara ao fim da viagem.
Pelo menos provisoriamente.
Fariam apenas uma escala intermediária, um
período de repouso na incessante procura da imortalidade, talvez até umas
reparadoras férias.
No entanto, nem mesmo o otimista Bell
acreditava nisso.
4
Rathon, o alto-comissário arcônida de
Tuglan, apontou resignadamente para as destroçadas instalações da hiperestação.
— A bomba do atentado explodiu exatamente
no instante em que o senhor se comunicava conosco. Um de meus robôs foi
avariado, mas já conseguimos consertá-lo. Foram dois tuglantes que trouxeram a
bomba; ambos perderam a vida ao tentar fugir. Portanto, lamentavelmente não
pudemos descobrir quem os encarregou disso.
— Nenhum indício? — indagou Crest, com um
olhar disfarçado para Rhodan. — Lorde Alban nos disse ontem que existem grupos
de resistência em Tuglan. Suspeita igualmente de seu irmão mais jovem, Daros,
conforme pude depreender das alusões de Alban. Daros já se consideraria
sucessor do atual governante; portanto, seria lógico que procurasse
desmoralizar o irmão diante de nós.
Rathon meneava a cabeça repetidamente.
— Pois eu ouvi uma versão diferente.
Poucas horas antes do atentado fui informado, por intermédio de um
desconhecido, que era justamente Alban quem tramava contra a minha vida. Consta
que pretendia se desligar do domínio arcônida.
Rhodan demonstrou sua contrariedade.
— Como chegaremos a saber a verdade, se as
acusações são recíprocas? Onde está este Daros? Por que se oculta?
— Talvez sua consciência não esteja
tranqüila.
Sem responder, Rhodan observava absorto a
instalação radiofônica; seria impossível consertar aquilo sem os recursos
técnicos da Stardust-III. O acaso viera ao seu encontro. Crest e Thora não
teriam oportunidade para se comunicar com Árcon, se bem que poderiam tê-lo
feito de bordo da nave. O mais importante era que Rathon estava impossibilitado
de enviar mensagens a Árcon; o pessoal de lá ficaria bastante admirado ao ouvir
falar de uma expedição punitiva que jamais fora despachada.
— Há alguns dias enviei um tuglante de
minha confiança ao palácio de Alban — disse Rathon — a fim de apurar se essa
onda de boatos tinha algum fundamento. Até agora Ror não voltou.
— Por que não pergunta por ele no palácio?
— quis saber Crest.
O comissário provou que ainda lhe restava
um resquício de raciocínio lógico. Não seria qualquer armadilha que o apanharia
desprevenido.
— Para não me delatar. As informações que
recebi provieram de um desconhecido; portanto oficialmente eu não sei que Alban
planeja se rebelar contra Árcon.
— Não acredito em tal levante — disse
Crest. — Muito menos que Alban seja o mentor. Pois não manda prender e executar
constantemente partidários dos rebeldes? Segundo eu soube, age com extremo
rigor. Tomaria uma atitude destas caso apoiasse a separação de Tuglan do Grande
Império?
Rathon deu de ombros.
— Não tem ligação alguma com seu homem de
confiança? — perguntou Rhodan, em tom de reprovação. — Isto é, através de algum
engenho eletrônico?
— Claro! O robô 2 está equipado com um
receptor, sintonizado com o transmissor embutido no corpo de Ror; tem a forma
de uma minúscula sonda, e traz até nós as batidas de seu coração. Podemos saber
em que direção ele se encontra, mas não a que distância. Mas isso me permite
constatar a qualquer instante se Ror continua vivo.
— É bem pouco o que faz por seu homem —
censurou Crest. — Aliás, em que direção está ele?
Com um gesto, Rathon acenou para o robô 2,
que os acompanhava.
— Relatório sobre Ror, 2! — ordenou. O
autômato reagiu prontamente.
— O receptor acusa aceleração do movimento
cardíaco do portador do transmissor. Direção: lá!...
Todos os olhares acompanharam o braço
metálico estendido. À distância reconheceram a cobertura fulgurante do palácio.
Portanto, Ror continuava nele. E ainda vivia.
Rhodan ia dizer alguma coisa, porém foi
interrompido pelo robô.
— As batidas cardíacas pararam. Agora
recomeçam, em ritmo interrompido. Distância, a mesma de antes. Pararam de novo.
Mais nada... o transmissor está mudo.
Rathon empalideceu, olhando desamparado
para Rhodan. Crest observava preocupado o robô. Um minuto... dois minutos...
— Transmissor ainda mudo — informou o robô
2.
— Ror está morto! — murmurou o comissário,
com um profundo suspiro. — E deve ter morrido no palácio. Isso lhe basta como
prova da culpabilidade de Alban?
— Não! — replicou Rhodan. — Também pode
ser prova do contrário. Podem ter assassinado seu homem no interior do palácio a
fim de lançar as suspeitas sobre o lorde. Talvez tenham descoberto o
transmissor e reconhecido a significação do instrumento. Não, Rathon, se Alban
for realmente culpado, teremos que encontrar outras provas.
Voltando-se bruscamente, tomou a direção
do pequeno portão que conduzia à rua. O robô 1 já os aguardava, com o veículo
usual em Tuglan: um carro com duas rodas e um giroscópio.
* * *
Alban fora esperto bastante para alterar
seus planos. Coisa que Daros não tardou a perceber.
Daros ocupava uma modesta ala lateral num
anexo do palácio, de cuja torre observara a aterrizagem da nave arcônida. Ali
estavam, portanto, os senhores do gigantesco império, vindos expressamente para
regularizar a situação em Tuglan. E no momento exato, dizia Daros a si mesmo.
Não convinha correr imediatamente ao
espaçoporto a fim de alertar os arcônidas; eles certamente não lhe dariam
crédito. Alban é que era o responsável pela paz com o império, e até o presente
a paz não tinha sido comprometida. E, caso fosse rompida, não havia provas
contra o culpado. Seria uma tarefa árdua desvendar as verdadeiras intenções de
Alban.
E o comissário Rathon? Com ele não poderia
contar, pois o arcônida vivia imerso em seus sonhos, muito satisfeito por não o
aborrecerem com os problemas dos tuglantes. Não, dele não podia esperar apoio
para a vitória da justiça.
E quem poderia ajudar, então?
Repentinamente Daros constatou,
perturbado, que não tinha aliados. Os tuglantes pouco se preocupavam com
política; e, mesmo que simpatizassem secretamente com os rebeldes, ignoravam
quem os chefiava. Ninguém suspeitava que era o grande lorde em pessoa que
tramava a revolta.
Alban só se revelaria após a conquista da
liberdade, para ser festejado como vencedor. E caso seus planos fracassassem,
Daros seria o bode expiatório. Muito bem bolada a trama!
Bem, um passeio lhe faria bem. Sua última
entrevista com o irmão deixara tudo claro. Eram adversários; ou melhor,
inimigos mortais. Só um dos dois sobreviveria à visita dos arcônidas. E o
vencedor governaria o império dos oito planetas.
Refletindo brevemente, Daros pegou na
gaveta de sua mesa uma pequena pistola, de aparência perigosa. A chamada
agulheira, que lançava minúsculas agulhas envenenadas, propelidas por gás
comprimido. O menor contato com a pele bastava para imobilizar qualquer vítima.
Enfiou a arma no bolso e saiu. Ninguém lhe
impediu a passagem. Por mais de uma vez, Daros teve a indefinível sensação de
estar sendo vigiado por olhos invisíveis, mas talvez fosse fruto de sua
imaginação. Já estava vendo fantasmas... Mas como podia adivinhar que Alban já
dera instruções concisas a seus adeptos?
Nas ruas, o movimento era intenso. Os
tuglantes acorriam para o espaçoporto para saudar os arcônidas. Superado o
impacto inicial, confiavam na proclamação de lorde Alban, que garantia que os
arcônidas vinham como amigos.
Daros sorriu melancolicamente. Mais um
truque de seu ardiloso irmão. A recepção festiva serviria para jogar areia nos
olhos dos arcônidas. Ora, um povo aparentemente tão satisfeito com sua sorte, e
que os aclamava com tanto entusiasmo, não podia estar pensando em rebelião! Se
realmente ocorrera a alguém a idéia de sacudir o jugo arcônida, aquilo era obra
de uma reduzida minoria, agora recolhida às sombras, com medo da justificada
ira do povo, ou do castigo do lorde.
Não! Pensou Daros, com obstinação. Não se
deixaria ver no espaçoporto. Preferia aguardar o desenrolar dos acontecimentos.
Não adiantava se expor desnecessariamente ao perigo.
Tugla era uma cidade extensa, com casas
baixas e muitos jardins. O rio que a cortava ao meio fazia dela um porto
comercial. Logo além da cidade erguiam-se as montanhas, onde tantas vezes
caçara com o irmão. Outrora, quando o pai de ambos ainda ocupava o posto de
lorde de Tuglan.
Aquelas montanhas e florestas traziam-lhe
à lembrança a despreocupada juventude. Naquela época, a ambição pelo poder, e o
receio de se ver novamente despojado dele ainda não haviam envenenado o
espírito de Alban. Tinham sido amigos e companheiros, repartindo alegrias e
tristezas.
Daros fez sinal para um giromóvel. O
condutor se aproximou e abriu a porta.
— Para onde deseja ser levado, senhor?
— Para fora da cidade. Para as montanhas.
E ande devagar...
O tuglante sacudiu a cabeça, intrigado com
o estranho pedido do passageiro. Todo mundo correndo ao encontro dos arcônidas,
e aquele homem queria ir para as montanhas! Bem, não era de sua conta...
A cidade logo ficou para trás. A estrada
prosseguia sendo ótima, como no início, e o carro aumentou a velocidade. Há
bastante tempo Daros notara que era perseguido. Dois outros giromóveis seguiam
o seu, mantendo sempre o mesmo afastamento. Não podia ser casualidade.
Portanto, Alban mandava vigiá-lo. Bem, uma vez que isso lhe dava prazer...
Daros teria o cuidado de não tentar algo
contra o irmão enquanto não dispusesse de provas concretas contra ele.
Chegaram à floresta. A estrada serpenteava
por entre as árvores, em direção às montanhas. Atravessaram um rio, e começaram
a subir. Olhando para trás, Daros viu que seus perseguidores tinham
desaparecido. Aquilo não combinava com a teoria que alinhavara. Teriam dado
volta? Qual seria a significação daquilo tudo?
Mandou o carro parar pouco mais adiante, e
pediu ao condutor que o esperasse. Em seguida, embrenhou-se entre as árvores
esparsas. Só ali encontraria calma para ordenar seus fervilhantes pensamentos.
O ar puro lhe fazia bem.
Por quase uma hora Daros vagou sem rumo de
um lado para outro, antes de se decidir a regressar. Por sua vontade,
permaneceria ali mesmo, pois no palácio não havia o que o atraísse.
Na volta, quando se aprontavam para cruzar
o rio, foram detidos. Um tronco de árvore se abatera diagonalmente sobre a
estrada. Em volta dele, diversos carros aguardavam. Alguns dos tuglantes
esbravejavam, porém calaram-se bruscamente ao ver Daros desembarcar de seu
veículo. Em vez disso, sorriam abertamente. E depois um deles bradou
vibrantemente:
— Daros! Viva lorde Daros e a liberdade de
Tuglan!
Os demais logo se associaram ao clamor, e
logo a floresta reboava aos gritos de: “Abaixo
lorde Alban e os arcônidas! Viva lorde Daros, nosso libertador!”
No primeiro momento, Daros não entendeu o
que acontecia. Aquela gente devia ter enlouquecido, não havia outra explicação!
Procurou se esquivar dos excitados tuglantes, que quase o esmagavam com seu
entusiasmo. A muito custo conseguiu se refugiar em seu carro. Minutos depois, o
caminho foi desimpedido, e o giromóvel pôs-se em movimento, seguido pela
gritaria da multidão agora mais numerosa. Ainda após ter chegado à cidade, os
ouvidos de Daros rememoravam as frases:
“Abaixo
Alban e seus amigos, os arcônidas! Viva nosso libertador, lorde Daros!”
Daros se sentiu subitamente invadido por
um temor sinistro.
* * *
Rhodan continuava cético. Não lhe agradava
ver o comissário arcônida falar mal do lorde de Tuglan. Talvez tentasse apenas
encobrir sua própria incapacidade com isso. Que interesse poderia ter Alban em
modificar o atual estado das coisas?
Não obstante...
No terceiro dia após a aterrizagem,
compareceu, em companhia de Bell, à audiência com o lorde. Foram cumprimentados
com o maior respeito pela guarda formada, e, segundo pareceu a Rhodan, até com
certa reverência. Na certa temiam as tremendas armas que supunham estar a bordo
da nave arcônida.
Alban exibiu sua costumeira amabilidade.
Obsequiosamente conduziu os visitantes a um pequeno salão, destinado à recepção
de diplomatas. Alban indicou três poltronas.
— Sentemo-nos. O que me dá a honra de sua
visita, eminentes arcônidas? Posso saber se estão satisfeitos com o que viram
até agora?
Rhodan permaneceu de pé.
— Quem lidera a oposição contra o Grande
Império? — perguntou em tom severo. — De quantos elementos é formado o grupo de
resistência? Quais são seus objetivos, e quem é o líder?
Alban teve um movimento de recuo; depois
sacudiu a cabeça, numa teatral exibição de desalento.
— Bem que eu receava que me fizessem tal
pergunta, excelências! Mas, creiam-me, eu tenho condições para resolver a
situação sozinho. Não gostaria de aborrecê-los com tais ninharias. Sou o lorde
de Tuglan, e castigarei severamente quem se atrever a ofender o Grande Império.
— Mesmo assim eu gostaria de saber quem é
o chefe dos rebeldes — insistiu Rhodan. — Há quem afirme que é seu irmão.
Alban baixou os olhos, constrangido,
depois encarou Rhodan com surpreendente franqueza.
— Mas isso é absurdo, excelência! Ponho a
mão no fogo por meu irmão. Ele nada tem a ver com esse movimento de
resistência.
Aquilo pegou Rhodan de surpresa. Esperava
que Alban aproveitasse a excelente oportunidade para incriminar Daros.
Portanto, os boatos deviam ser falsos. E também Rathon se enganava ao julgar
Alban trapaceiro.
— Gostaria de conhecer seu irmão — disse
Rhodan.
Alban concordou prontamente, e acenou para
um atendente. Dois minutos após, um jovem tuglante se apresentou no salão,
detendo-se hesitante na porta, ao avistar os dois supostos arcônidas.
Adiantou-se lentamente. Seus olhos estavam fixos sobre Rhodan. Não deu a menor
atenção a Alban.
“Do
tipo indeciso”, pensou Rhodan consigo mesmo. “Vê-se que está inseguro. Consciência suja? Ou estará oprimido por outra
coisa?”
Decidiu perguntar diretamente.
— Sou Rhodan, o comandante da expedição
arcônida de investigação. Este é meu eventual substituto — indicou Bell, que
inflou orgulhosamente o peito diante das palavras de Rhodan. — Espalhou-se o
boato de que existe uma poderosa organização neste planeta, que deseja o
desligamento de Tuglan do Grande Império. O atentado contra a central
radiofônica arcônida prova que não se trata de conversa fiada. Diz-se que você
está ligado a essa organização. Quer nos explicar o porquê de tal correlação?
Daros relanceou um olhar carregado de
desprezo pelo irmão.
— É mentira! — afirmou, energicamente. —
Meu irmão é um mentiroso. É ele que anseia libertar-se de Árcon. Foi ele que
determinou o atentado à estação de rádio. Os homens dele morreram na tentativa
de escapar dos robôs. Alban queria até mandar assassinar o comissário Rathon,
mas felizmente vocês chegaram a tempo de impedi-lo. Sei que meu irmão quer
lançar as suspeitas sobre mim, a fim de ter quem assuma sua culpa. Ele teme que
eu ambicione lhe tomar o posto, e pretende me eliminar.
Rhodan examinou atentamente o jovem.
Achou-o muito mais simpático do que Alban, e se impressionou com o desabafo.
Mas Alban tomara o cuidado de não difamar o irmão; ao contrário, tomara a
defesa dele. Fato que depunha a seu favor. E agora Daros fazia as mais sérias
acusações ao presente lorde. Como explicar tantas contradições? Em quem deveria
acreditar?
Rhodan lamentou não ter trazido Marshall
consigo; o telepata esclareceria a situação num instante. Mentira alguma lhe
escapava.
Alban sorriu triste e dolorosamente,
dizendo:
— Mas Daros, como pode fazer semelhante
coisa? Tentei poupá-lo, escondendo do ilustre arcônida sua criminosa atividade.
Mas, já que me acusa, sou obrigado a me defender.
Acenou para um ajudante, que aguardava
atento, e continuou:
— Ainda bem que tenho gente minha em toda
a parte. Você foi vigiado disfarçadamente, Daros. Ainda recentemente, quando
você foi se encontrar com seus amigos, meus espiões puderam fornecer-me provas
decisivas. Por favor, excelências, vejam e ouçam por si mesmos. Certifiquem-se!
Cortinados cobriram as janelas,
obscurecendo a sala. Numa das paredes surgiu uma tela opaca, sobre a qual se
projetava a imagem nítida e tridimensional de uma ponte cruzando um rio.
Numeroso grupo rodeava um giromóvel ocupado por um tuglante. Os homens
aclamavam em altos brados o tuglante, insistindo sempre no mesmo tema: “Abaixo Alban e seus aliados, os arcônidas!
Viva lorde Daros, nosso libertador!”
Rhodan percebeu imediatamente que o
tuglante no filme era Daros em pessoa. O rebelde entre seus seguidores. Poderia
haver prova mais convincente?
Sentiu-se um tanto penalizado. No entanto,
a hora não era para sentimentalismos, e sim para consolidar o poderio arcônida.
Demonstrar indulgência agora equivalia a se mostrar fraco. E fraqueza
significaria perecimento e decadência.
— Daros, lamento, mas vou ter de
prendê-lo. O Grande Império não admite desobediência. Permite que ponha seu
irmão sob custódia, Alban? Temos celas seguras a bordo da nave.
— Se for preciso — concordou Alban,
hesitando. Dirigindo-se a Daros, perguntou: — Por que me acusou? Não tive
alternativa senão me defender.
— Traidor! — exclamou Daros, como única
resposta. — Estou à sua disposição — disse a Rhodan. — Espero que algum dia,
caso não seja tarde demais, possa perdoar a si mesmo tamanho erro.
Calados, Rhodan e Bell se retiraram com o
prisioneiro.
Lorde Alban presenciou a retirada na maior
impassibilidade. Só nos cantos dos olhos brilhava uma centelha de triunfo.
* * *
Os rebeldes se reuniam num espaçoso porão,
situado em local que só eles conheciam. Porém não era contra os arcônidas que
se rebelavam, e sim contra a ardilosa política de Alban. Não pensavam em mudar
nada na ordem estabelecida; pelo contrário, advogavam sua continuidade. Daros
seria o novo lorde, pois sabiam que ele era a favor da permanência de Tuglan na
confederação do poderoso império.
Daros não tinha o menor conhecimento do
grupo rebelde, pois não era revolucionário. E nem imaginava que seu irmão
possuía inimigos dispostos a derrubá-lo; muito menos que existia uma corrente
tramando a deposição de Alban para colocar a ele, Daros, no trono.
Entre os presentes viam-se figuras
aventurosas. Muitos exerciam profissões respeitáveis, e eram considerados
ótimos cidadãos. Outros, no entanto, viviam ocultos na floresta, aguardando o
sinal para o levante. Estes portavam armas, e estavam dispostos a usá-las, pois
Alban decretara a morte de qualquer traidor, ameaça que não podia ser
desprezada. Uma vez que o tirano não hesitava em executar seus próprios
adeptos, puramente por encenação, não teria o menor escrúpulo em eliminar seus
inimigos pessoais.
Um homem entrou pela porta dos fundos.
Atarracado e meio gordo, revelava, no entanto, surpreendente agilidade de
movimentos. O cabelo roxo cintilante estava penteado para trás, colado à
cabeça, o que lhe imprimia um ar um tanto diabólico. Era fácil imaginar que
bastava aparecer para inflamar as massas.
Mal perceberam sua chegada, os rebeldes
entoaram num coro abafado:
— Viva o novo lorde Daros! Viva o império
arcônida! Viva a revolução contra Alban, o traidor da unidade!
O recém-chegado ergueu as mãos num gesto
conciliador. Era Karolan, apelidado de líder dos justos. Em tom grave disse:
— Tenho uma comunicação a fazer. O dia da
liberdade está próximo, porém ainda temos diante de nós a árdua tarefa de
provar a culpa de Alban. Habilidosamente, o traidor conseguiu lançar as
suspeitas sobre Daros. Ele foi detido pelos arcônidas. Que faremos agora?
Por momentos reinou um silêncio
consternado, depois todos começaram a falar ao mesmo tempo. Não se entendia
palavra, até que alguém no meio do grupo gritou:
— Libertá-lo, Karolan! Nós vamos libertar
Daros!
Karolan sacudiu a cabeça.
— Seria um erro, companheiros. Isso só
contribuiria para reforçar as suspeitas que recaem sobre Daros. Não poderíamos
fazer maior favor a Alban do que libertar seu irmão. Aos olhos dos arcônidas,
sua culpa seria então evidente, e teríamos que contar com medidas de
represália. Não, deve existir uma maneira melhor, mais sutil e diplomática.
— Que tal enviar uma comissão aos
arcônidas? — sugeriu outro.
— Bem mais razoável — concordou Karolan. —
Mas quem nos garante que eles acreditarão em nós? Alban já deve tê-los
acautelado contra iniciativas desta espécie. Seu talento para a intriga é
incontestável.
— Sem dúvida! — exclamou um homem magro,
adiantando-se. — Alban sabe da existência de nosso grupo, porém distorceu
nossos objetivos diante dos arcônidas. Disse que somos contra ele, no que diz a
verdade, à prova de qualquer detector de mentiras. Mas omitiu o fato de sermos
a favor do Grande Império. Podemos acusá-lo de mentiroso por ter calado? Vai
ser difícil desmascarar Alban.
— Talvez eu tenha uma solução... — começou
Karolan, porém foi interrompido.
Um homem precipitou-se para dentro do
recinto, acotovelando sem consideração os presentes, a fim de chegar ao chefe
dos rebeldes. Arquejava, como se tivesse corrido por bom espaço de tempo sem
descanso; sua testa estava coberta de suor. Por várias vezes tentou falar, sem
conseguir emitir um som. Exausto, se apoiou em dois companheiros.
— Que há, Xaron?
— Daros! Os arcônidas prenderam-no no
palácio, levando-o para a grande nave esférica.
— Já sabemos disso, Xaron. Correu tanto
para trazer notícias velhas?
— Mas vocês não sabem que Daros foi
libertado durante o trajeto! Dez homens mascarados assaltaram a viatura em que
iam os arcônidas e Daros. E, engraçado, os dois arcônidas não reagiram.
Deixaram-se amarrar, foram arrastados para outro giromóvel e levados embora.
Daros não foi amarrado.
Karolan permaneceu calado por algum tempo,
com acentuadas rugas na fronte. Depois meneou lentamente a cabeça.
— Alban quer incriminar ainda mais Daros.
É sabido. Mas percebo que os arcônidas são ainda mais espertos. Sabem que nada
lhes poderá acontecer, pois a vingança dos outros seria terrível. Portanto,
deixam as coisas correr, a fim de descobrir a verdadeira razão dos fatos. São
realmente sábios e astutos. Não é de admirar que tenham conseguido construir e
controlar um império. No entanto, não devemos subestimar Alban. Aposto que já
está com o próximo golpe preparado.
Ninguém suspeitava de quanto era acertada
a suposição de Karolan.
* * *
A situação era singular.
No caminho para o espaçoporto, a estrada
fora repentinamente bloqueada por dez tuglantes mascarados. Bell sacou
prontamente sua pistola de raios, pronto para se defender. Na certa teria
liquidado com a maior facilidade os bandidos mal armados, porém um gesto de
Rhodan fez com que parasse.
— Não, Bell! Isso não nos faria avançar um
só passo em direção do objetivo realmente visado. Precisamos saber quem os
mandou, e o que tramam. Se for preciso, deixamo-nos prender. Portanto, nada de
atos impensados.
Bell recolocou a arma no coldre.
— Como achar melhor, chefe... Mas para mim
é errado. Vai solapar nossa autoridade.
— O que é de somenos importância no
momento.
O carro parou. Os mascarados cercaram-no,
abrindo rudemente as portas.
— Viva Daros, nosso novo lorde! Abaixo os
arcônidas!
Dos três, Daros era o mais confuso; não
entendia o que se passava. Intimidado e desorientado, encolheu-se ao lado de
Bell, sem ter a menor idéia de quem eram seus libertadores. E de modo algum atinava com explicação para o fato
de os arcônidas deixarem o incidente acontecer, sem oferecer a mínima
resistência.
Rhodan e Bell foram puxados para fora do
carro, e privados de suas armas. Daros, pelo contrário, foi cortesmente
convidado a descer e a acompanhar os desconhecidos. Aceleradamente, os
prisioneiros e o liberto foram
conduzidos pela rua estranhamente deserta, e empurrados para o interior de um
caminhão de carga à espera. Mal a carroceria sem janela foi fechada, o veículo
se pôs em movimento, roncando baixinho. Ninguém sabia em que rumo rodavam.
Os seqüestradores conversavam em seu
idioma nativo. Rhodan compreendia quase tudo que diziam. Para sua imensa
surpresa, constatou que falavam um dialeto arcônida. Por que Crest não lhe
dissera nada a respeito? Desconheceria o fato?
Examinou melhor os homens, que agora
estavam sem máscaras. Sem vantagem nenhuma, porém, pois não conhecia nenhum
deles. A conversa versava sobre assuntos triviais. Na certa não queriam
esclarecer Daros.
Aquilo reforçou as desconfianças de
Rhodan. Agora estava certo de que o jovem irmão de Alban ignorava a quem devia
sua salvação. Pois então sua atitude teria sido outra. Daros era tão
prisioneiro quanto eles, com a diferença de não ter sido amarrado!
Rodaram por cerca de meia hora, antes que
o carro se detivesse com um tranco. A porta foi aberta, e os seqüestradores
levaram os prisioneiros para um recinto sombrio. O ar era úmido e abafado.
Um dos tuglantes se inclinou diante de
Daros, dizendo em intercosmo:
— Foi um prazer libertá-lo das garras dos
arcônidas, lorde. Quer fazer o favor de nos seguir?
Daros lançou um olhar perplexo a Rhodan,
mas antes que pudesse abrir a boca foi gentilmente forçado a deixar o local.
Não teve tempo nem de agradecer aos seus libertadores, nem de protestar contra
o seqüestro.
Rhodan não duvidava mais que aquilo tudo
era uma cena bem ensaiada.
Um elevador antigravitacional levou
Rhodan, Bell e alguns dos tuglantes para baixo. Ali foram trancados numa cela
que só continha duas camas e uma mesa. Do lado de fora, os passos dos
desconhecidos se afastavam.
Fitando a sólida porta de caibros de
madeira, Bell suspirou e se jogou na cama mais próxima. Do teto pendia uma
lâmpada mortiça.
— Puxa, entramos numa fria! Acha que eles
vão nos soltar facilmente? Que será que fizeram com Daros?
— Deve estar ocupando uma cela igual a
esta — replicou Rhodan. — E não se preocupe, Bell. Pelo menos um de nós terá
que ser solto. Pois, de que outra maneira os arcônidas saberiam que Daros foi
libertado por seus correligionários políticos?
— Tem tanta certeza assim?
— Absoluta! Alban é esperto. Mas talvez
seja melhor não falar muito. As paredes podem ter ouvidos.
Bell se espichou sobre a cama.
— Bem, numa situação destas, a coisa mais
acertada que se pode fazer é dormir.
Devagar e pensativamente Rhodan sacudiu a
cabeça.
Duas horas depois vieram buscar Bell. Para
um interrogatório, segundo diziam. Rhodan ficou sozinho na cela. Pressentia que
Alban desfechava o golpe seguinte.
Sem desamarrá-lo, instalaram Bell num dos
pequenos carros de duas rodas. Além do condutor, um rebelde armado embarcou
igualmente. Por um amplo portão o veículo ganhou a rua, perdendo-se logo por
entre a corrente de tráfego.
Bell tentou memorizar o trajeto, mas não
tardou a ficar completamente desorientado. Passaram por ruas intensamente
movimentadas, e por subúrbios mais tranqüilos. Por mais de uma vez Bell teve a
impressão de que atravessavam repetidamente a mesma praça. Estariam querendo
confundi-lo?
A surpresa aconteceu nas imediações do
palácio. Claro que para Bell era difícil imaginar que Rhodan já contava com
algum incidente daquela espécie. Pessoalmente, a situação lhe parecia cada vez
mais ininteligível, mas não perdeu tempo tentando decifrá-la. O essencial era
que o carro tinha sido detido repentinamente por homens uniformizados. O
condutor e o vigilante protestavam em altos brados; não lhes foi concedido
prazo para explicações; o fulgor de raios energéticos privou-os da fala para
sempre. Um dos fardados desamarrou Bell, declarando:
— É uma satisfação poder prestar um
serviço ao ilustre arcônida. — Falava intercosmo, e prosseguiu: — Um espião do
palácio nos deu a dica. Que bom que Alban tem sua gente em toda a parte!
— Lorde Alban? — admirou-se Bell, decidido
a alterar seu conceito sobre o soberano dos tuglantes. — É a ele que devo meu
resgate?
— A quem mais, nobre arcônida? Aquela
mania de o tomarem por arcônida começava a irritar Bell; porém tinha que continuar
representando seu papel, quisesse ou não. Apontando para os seqüestradores
mortos, indagou:
— Por que tiveram que morrer?
— Ofereceram resistência.
Bell não havia presenciado nada naquele
sentido. Pensando bem, era realmente lamentável, pois agora não poderia lhes
perguntar onde ficava a prisão de Rhodan. Será que...?
Uma idéia passou pela mente de Bell. Em
vista das alusões de Rhodan, ela de repente tinha sentido.
— Levem-me até Alban! — pediu.
Seu desejo foi atendido com surpreendente
prontidão. Dez minutos depois, via-se diante do regente de cabelos escuros.
Após escutar por bastante tempo as efusivas congratulações do lorde, Bell
interrompeu-o com um gesto imperativo.
— Não há dúvida de que lhe sou imensamente
grato pela ajuda recebida, lorde Alban; porém meu comandante continua em poder
dos rebeldes. Tem algum indício quanto ao seu paradeiro?
— Lamentavelmente não, eminente arcônida.
Meu espião só me contou que viu o senhor na cidade, mais nada. Por conseguinte
alertei logo meus guardas, dando-lhes ordem para libertá-lo. Soube ainda que
meu irmão foi levado para lugar seguro; desconheço onde se encontra. Temo, no
entanto, que tenha se reunido tranqüilamente aos seus seguidores, a fim de
preparar a revolução contra mim e o império.
— Ah, então seu irmão pretende depô-lo e
separar Tuglan do Grande Império? Ele é contra os arcônidas?
— Infelizmente sim! — concordou Alban, com
ar pesaroso. — Não imagino que benefícios ele espera com a independência de
Tuglan. Afinal, estamos tão bem na confederação do domínio arcônida, e temos
muitos privilégios.
— Isso mesmo! — replicou Bell, enquanto
seus pensamentos se atropelavam. — E os amigos de Daros também são a favor de
sua deposição, se entendi bem. Não foram eles que destruíram a estação de rádio
de Rathon? E aprisionaram Rhodan e a mim? E libertaram Daros?
Acenando animadamente, Alban confirmava as
perguntas de Bell. Seus olhos brilhavam.
— Vejo que compreendeu a situação.
Portanto, caso deseje pacificar Tuglan, precisa encontrar Daros.
— Primeiro gostaria de encontrar Rhodan —
resmungou Bell. — Aliás, onde se acha o comissário Rathon neste momento?
— Fez-se conduzir à nave arcônida.
rizage�::r�X � a terrestre, o desligamento fora total.
Rhodan socorrera-o naquela emergência, e até o presente soubera ardilosamente
evitar que Crest se comunicasse com Árcon. Não queria que os senhores do imenso
império viessem a conhecer a Terra, que certamente desejariam incorporar aos
seus domínios.
Só depois que a Terra se tornasse unida e
bastante forte é que poderia haver intercâmbio com Árcon. Pois só o poderoso
pode-se permitir transações justas.
Mas recusar-se agora a aterrizar numa
colônia de Árcon provocaria o desagrado de Crest. Sem falar em Thora...
Thora, a comandante da nave arcônida na
qual Crest ocupara o posto de cientista-chefe, detestava Rhodan, por ser homem.
Seu sonho era regressar a Árcon, sua pátria. De maneira alguma aceitaria a
recusa de pousar em Tuglan.
— Tomaremos contato com o décimo primeiro
planeta de Laton — decidiu Rhodan. — Mas quero que me prometa, Crest, não
revelar ao comissário arcônida de lá a posição da Terra. Ainda não julgo
conveniente estabelecer um contato desta espécie. Sabe por quê, não?
— Sei, sim — tranqüilizou Crest. — Sabe
que compreendo os seus motivos, e lhe dou razão. Durante este nosso contato,
tive bastante oportunidade de conhecer os homens e sua capacidade. Ambos temos
consciência do fato de que o poderio dos arcônidas se encontra em declínio. E,
como prováveis sucessores, apenas os terranos entrariam em consideração. Mas...
será que Thora pensa da mesma maneira?
Rhodan não soube responder aquela
pergunta.
Uma campainha de alarma soou
estridentemente.
Consultando o sistema de comunicação
interno da nave, Rhodan verificou que o alarma vinha da cozinha. Estranhou
aquilo, pois justamente a cozinha seria o lugar menos provável para
acontecimentos anormais. Baixou uma alavanca, ligando uma minúscula tela; nela
surgiu a fisionomia de um homem ornado com o característico gorro dos
cozinheiros.
— Comandante! — exclamou ele, excitado,
antes que Rhodan pudesse fazer qualquer pergunta. — Comandante! Temos um
clandestino a bordo! Poderia vir imediatamente à cozinha?
Rhodan ficou tão surpreso que nem se
lembrou de perguntar quem era o passageiro clandestino. Quando recuperou a
fala, a face do cozinheiro já tinha sumido do vídeo. A tela estava apagada.
— Um passageiro clandestino? — indagou
Crest. — Ora, quem poderia ser?
Passando a mão sobre os olhos, Rhodan
respondeu:
— Vou até a cozinha. Talvez lá possamos
saber...
Sem se preocupar com os dois companheiros,
deixou a central de comando. Crest e Bell não tiveram outra alternativa senão
segui-lo.
Um passageiro clandestino? No espaço
cósmico é que ninguém poderia ter embarcado; e em Vagabundo, a última escala da
nave, não existia gente.
Bell chegara até aquele ponto de suas
reflexões quando um clarão de reconhecimento lhe iluminou a mente. Seus olhos
se contraíram, virando apertadas fendas, e seu queixo se projetou para a frente.
Precipitando-se no encalço de Rhodan, que saltava justamente para o elevador antigravitacional
mais próximo, a fim de chegar o mais depressa possível à cozinha, Bell berrou:
— Mas claro! Eu devia ter adivinhado logo!
Um rato-castor!
Os invisíveis campos magnéticos levaram-no
igualmente para baixo, deixando-os na esteira rolante do corredor. A cozinha
surgiu à vista. Já de longe se percebia que algo de anormal ocorria dentro
dela. Homens excitados corriam de um lado para outro; cozinheiros brandiam
furiosamente seus apetrechos culinários, tentando enxotar de seu território os
radiotelegrafistas e técnicos.
Rhodan e Bell forçaram passagem por entre
o pessoal e entraram na cozinha. Os grandes e refulgentes panelões estavam
abandonados; ninguém parecia se preocupar com o horário da refeição seguinte.
Em troca, cozinheiros e técnicos se aglomeravam no extremo oposto da ampla
peça, falando animadamente. Uns riam, outros praguejavam. Uma incrível
balbúrdia, porém nada indicava a existência de perigo imediato.
O cozinheiro-chefe avistou Rhodan e correu ao
seu encontro.

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