sábado, 20 de outubro de 2012

P-018 - Os Rebeldes de Tuglan - Clark Darlton [parte 2]


— Esse bicho! — gritou ainda de longe. — Deve ter se introduzido a bordo quando carregamos os caixotes. Se pego o relaxado responsável por isso!
E o homem agitava com ar ameaçador sua enorme colher.
Rhodan levantou as mãos:
— Calma, que diabo! Que foi que aconteceu? Será que todo mundo por aqui perdeu o juízo?
— Esse rato-castor! — arquejou o cozinheiro-chefe, que agora se encontrava diante de Rhodan. — Embarcou disfarçadamente, e agora está devorando nossos suprimentos. Veja o senhor mesmo!
Com o corpanzil avantajado, empurrou para o lado, sem a menor cerimônia, os circunstantes, abrindo passagem para Rhodan e Bell, que o seguiram cheios de curiosidade. Diante de uma porta rotulada “Câmara Frigorífica” o ajuntamento era ainda maior. A porta estava aberta.
O rato-castor estava sentado sobre os amplos traseiros, no meio de um montinho de frutas congeladas; segurando uma delas nas hábeis patas dianteiras, comia gulosamente. De vez em quando lançava olhares confidenciais ao seu círculo de espectadores, piscando os olhos, como que querendo dizer: “Está gostoso, pessoal! Muito obrigado, sim?
Rhodan contemplou a cena sem saber o que pensar.
O rato-castor era evidentemente o autor das alterações provocadas nos controles do hipersalto; seus dons telecinéticos eram mais do que suficientes para ter causado as irresponsáveis brincadeiras. Portanto, pusera em sério perigo a vida de todos eles, e tinha que ser castigado. Além disso, era um passageiro clandestino. Em ambos os casos, as leis espaçonáuticas previam a pena máxima: abandono da nave sem traje protetor.
Por outro lado, no entanto, o rato-castor agira sem más intenções. Aquela mania de brincar constantemente constituía traço fundamental de sua raça. Porém a disciplina exigia punição para o infrator. Mesmo para um infrator tão insinuante.
Junto a Rhodan, Bell olhava fixamente para o estranho ser, que não demonstrava medo algum. Afinal, sua consciência estava tranqüila; e parecia perceber que seu ar cômico contribuía para melhorar sensivelmente o humor dos bípedes.
O rato-castor arreganhou os beiços, expondo seu único dente incisivo. O resultado foi tão engraçado que alguns dos presentes desataram em gargalhadas. Apenas Bell não sentia disposição para rir. Aquele bicharoco metera-os numa complicação danada, pois influenciara a transição. A Stardust-III encontrava-se agora num canto desconhecido do Universo, fato que nem mesmo a cara gozada do rato-castor podia mudar.
Antes que Rhodan pudesse intervir, Bell avançou para o contente roedor, pegando-o pelo cangote. Com um puxão, levantou-o do chão.
— Droga de bicho! Joga nossa nave no meio do angu da Via-Láctea, e agora ainda fica devorando nossos morangos! Não tem pra você! Você vai é ganhar uma dose de leite azedo! Merecia uma boa surra, pestinha! Você vai ver uma coisa!
Sem que ninguém pudesse impedi-lo, Bell aplicou algumas violentas palmadas no traseiro do rato-castor, que guinchava lamentosamente.
Porém no mesmo instante começaram a acontecer coisas estranhas. Com ágeis contorções, o rato-castor desprendeu-se da frouxa sujeição das mãos de Bell, pulando para o chão. Num salto, refugiou-se num canto da câmara frigorífica, de onde ficou contemplando Bell, sentado sobre os quadris. E depois Bell começou a flutuar. Leve como um balão cheio de ar, singrou ao longo do atônito chefe de cozinha, em direção aos imensos caldeirões.
Em vão Bell esperneava, procurando mudar de rumo; suas mãos frenéticas se agitavam à toa, pois não encontravam nada a que pudesse se agarrar. As correntes de energia telecinética geradas pelo rato-castor dominavam-no completamente.
O cozinheiro-chefe sentiu um aperto no coração ao ver Bell se deter acima do panelão de sopa; o espesso caldo borbulhava lentamente. Se Bell caísse lá dentro...
Mas ele seguiu adiante. Apesar de se debater furiosamente, acabou descendo, indo parar dentro de um recipiente cheio d’água até as bordas. Água fria, felizmente... Bell mergulhou no líquido até o pescoço; só a cabeça ficou de fora. Rhodan, que acompanhara a cena com disfarçado deleite, explodiu numa gargalhada.
Os demais seguiram-lhe o exemplo, e o pobre Bell foi logo cercado por todo o pessoal da cozinha, mais os membros da tripulação presentes.
— Isso lá é lugar para tomar banho? — gritou alguém do meio do grupo, irreverentemente.
Rhodan acorreu, ajudando o amigo a se safar da constrangedora situação. Chateado e encharcado, Bell saiu do caldeirão.
Imperturbável, o rato-castor continuava a roer suas frutas congeladas, com evidente apetite. Afinal, não podia saber por quanto tempo os bípedes ainda aturariam sua presença.
— Suma em sua cabina Bell! — disse Rhodan, com um amistoso tapinha no ombro do amigo, — Se cruzar com John Marshall no caminho, mande-o para cá. E aconselho-o a não pensar mais em surrar nosso passageiro clandestino. Conforme verificou, ele se defende.
— Não me diga que vai deixá-lo permanecer a bordo! — rosnou Bell. No entanto, ele próprio já sentia que não teria coragem de eliminar a sangue-frio o bichinho. — Se ele continuar brincando desse jeito...
— É por isso que quero ver Marshall. Talvez ele consiga se entender com o rato-castor. Mande avisá-lo, sim?
Bell saiu, deixando um rastro molhado atrás de si. Rhodan voltou à câmara frigorífica. O rato-castor fitou-o com olhos arregalados e expectantes. As graciosas patas seguravam uma fruta, que ele mordiscava com aparente constrangimento. As grandes orelhas redondas vibravam de leve.
Tem um olhar de cão”, pensou Rhodan, sentindo-se invadido por uma repentina onda de simpatia por aquele ser. Não nascera na Terra, e sim num mundo estranho e desconhecido. Um alienígena, portanto; quase uma aberração. Apesar disso, gostava dele. Sentimento inexplicável, baseado apenas no jeitinho gracioso do penetra. Ou talvez a culpa fosse dos grandes olhos suplicantes, que pareciam implorar: “Por favor, não me faça mal!
Rhodan sorriu sem querer. O rato-castor arreganhou os beiços por sua vez, mostrando o dente único. Rhodan sentiu que naquele instante firmava um pacto de amizade com o pequeno ser; porém não podia adivinhar que seria uma longa e duradoura amizade. Pois o rato-castor não era apenas telecineta, mas isso é outra história.
John Marshall, o primeiro telepata do Exército de Mutantes, chegara à cozinha. Já soubera do essencial por intermédio de Bell, de modo que não se mostrou muito surpreso ao ver o rato-castor. Disfarçando o riso, perguntou a Rhodan:
— Então, foi este camaradinha que obrigou Bell a tomar banho?
— Parece-me que Bell vai ter que ouvir isso ainda daqui a dez anos — respondeu Rhodan, rindo. Depois apontou o mascante hóspede acocorado na câmara frigorífica. — Tente se comunicar com ele. Talvez consiga ler seus pensamentos, se é que ele pensa. O mais importante, no entanto, é fazê-lo saber o que nós pensamos. Será que consegue?
— Acho que sim — disse Marshall. — Dependendo, naturalmente, da maneira pela qual seu cérebro reage. Se for sensível...
— Ele domina a telecinésia, que é pura força mental. O que nos permite deduzir que possui cérebro bastante desenvolvido. Experimente, John.
Marshall levou apenas alguns segundos para revelar extraordinária excitação. Acenando repetidamente com a cabeça, falava com o rato-castor que escutava com profunda atenção. Na face astuta brilhou mais uma vez o dente risonho; o animal emitiu alguns guinchos agudos e alegres, depois devolveu a fruta semi-roída ao caixote. Pondo-se de pé sobre as patas posteriores, marchou solenemente para fora da câmara obscurecida, e postou-se diante de Rhodan.
— Deseja cumprimentar você — disse Marshall. — Conseguiu me entender. Seus pensamentos são fáceis de ler, e ele é capaz de captar os nossos; basta lhe ativar a parte até agora desusada de seu cérebro. Com isso, pode se tornar um excelente telepata.
Rhodan se inclinou e estendeu a mão ao rato-castor.
— Vamos lhe dar o nome de Gucky — disse, cordialmente, enquanto apertava com delicadeza a frágil pata. — Se você me entende, acene com a cabeça.
Gucky acenou prontamente.
— Muito bem, então você compreende o que digo. Infelizmente, o oposto não será tão simples, pois não sou telepata. Mas você vai acabar aprendendo nossa língua.
Este homem aqui vai lhe ajudar; chama-se John Marshall.
Gucky tornou a acenar, dando gritinhos agudos, que talvez traduzissem seu contentamento. Depois começou a rodar como um pião, e elevou-se no ar; chegado ao teto, descreveu uma pirueta em forma de 8 e retornou ao chão.
— Muito bacana! — louvou Rhodan. Mas, erguendo o indicador, avisou: — Daqui por diante, você só pode brincar quando eu der licença. Venha comigo; vou lhe mostrar em que encrenca nos meteu. Em seguida poderá voltar para cá, e continuar comendo.

* * *

À velocidade da luz, a Stardust-III penetrou no sistema do sol Laton. Cruzou a órbita de um dos planetas mais afastados; o trigésimo sétimo planeta, um gigantesco mundo congelado, passou vagarosamente ao longe. Seguiu-se o trigésimo sexto planeta, também desabitado. A nave espacial se aproximava cada vez mais de Tuglan, um mundo pertencente ao vasto império estelar dos arcônidas.
Rhodan, Crest, Thora, Bell e John Marshall estavam reunidos na central de comando. Comportado e obediente, Gucky acocorou-se num canto, tentando separar logicamente as diversas correntes de pensamento que inundavam sua mente. Compreendera que suas brincadeiras haviam resultado numa situação crítica para os bípedes. Agora estava proibido de brincar. Mas tinham lhe prometido que mais tarde, quando aterrizassem em algum lugar, poderia brincar à vontade.
Ele cobraria a promessa!
— Está com medo por acaso? — perguntou Thora, em tom sarcástico, com um olhar de desafio para Rhodan.
Bell, metido num uniforme seco e recém-passado, resmungou algo ininteligível, sem mais manifestações.
— Acha que não percebi que só concorda contra a vontade com nossas sugestões? Receia que o comissário em Tuglan se comunique com Árcon, e então estaria acabada sua brincadeira de esconde-esconde?
Brincar...” pensou Gucky. “Eles também falam em brincar.”
— Tolice! — replicou Rhodan, com um olhar suplicante para Crest. — Procure, pelo menos uma vez, compreender meu ponto de vista. Caso não queira, lembre-se de nosso trato, ainda em vigor: primeiro achar o planeta da vida eterna, depois a viagem a Árcon. Porém nem um minuto antes... Crest está disposto a manter o combinado. Espero o mesmo de você.
— E o que tem isso tudo a ver com Tuglan?
— Muito simples: não quero que o representante dos arcônidas fique sabendo algo sobre a Terra. É tudo que quero, mas não abro mão da exigência. Necessito, portanto, sua promessa de não mencionar coisa alguma relativa à Terra e aos homens. Passaremos por habitantes de algum mundo colonizado pelo Grande Império. Vamos fazer de conta que procedemos de outro lugar qualquer.
Gucky apontou as orelhas redondas. Fazer de conta? Era o mesmo que brincar. Quer dizer que os bípedes também brincavam? Simpatizava cada vez mais com eles. Pena que lhe tivessem proibido de brincar. Será que não podia tentar, só um pouquinho, apesar disso?
Aqueles instrumentos cintilantes!...
Rhodan voltou-se tão bruscamente que quase derrubou Bell. O hiper-rádio começara a funcionar espontaneamente. Luzes se acendiam, e pequenas telas se iluminavam. Os emissores geravam sinais sem sentido, transferindo-os à central emissora, onde eram transformados e irradiados.
Com um salto, Rhodan chegou ao painel de controle e abaixou furioso uma chave. A transmissão cessou instantaneamente, porém já devia ter sido captada em algum lugar. O circuito do receptor continuou a funcionar sozinho, e levou um sinal de identificação ao alto-falante. Numa das telas surgiu a face metálica de um robô arcônida. A imagem sumiu assim que Rhodan acionou uma segunda chave para a posição de desligamento.
Com movimentos rígidos, Rhodan deu as costas ao painel e encaminhou-se para onde estava Gucky.
O rato-castor encolheu-se, intimidado, gorjeando em seu incompreensível idioma. Os olhos muito abertos fitavam suplicantemente Rhodan, parecendo jurar que dali por diante ele seria realmente comportado. Uma grossa lágrima rolou devagar pela bochecha peluda.
Cerrando os dentes, Bell sacudiu o punho fechado na direção do irrequieto transgressor.
Rhodan parou diante de Gucky.
— Marshall, quero saber por que ele fez isso! Ele me entende, mas eu não tenho meio de saber o que pensa. Pergunte-lhe o que tem a dizer em sua defesa.
O telepata inclinou-se para a criaturinha, perscrutando-lhe os grandes olhos tristonhos.
— E então? — indagou, suavemente. Não tardou a erguer-se, informando: — Ele promete não repetir a brincadeira; jurou e garantiu. Disse que nós vivemos falando em brincar, e então ele achou que também podia...
— Ele não pode! — gritou Rhodan.
Dirigindo-se diretamente a Gucky, disse: — Se mexer, mais uma vez que seja, em alguma coisa aqui dentro da nave sem minha licença, vai ser expulso dela! Entendeu? Sabe o que arranjou? Chamou sobre nós a atenção de desconhecidos, muito menos amistosos do que nós. É bem provável que matem você, caso nos encontrarem. Portanto, tome cuidado daqui por diante. Comporte-se, e permaneça quietinho. Bell, encarregue-se dele!
— Por que eu?
— Precisa tornar-se amigo de Gucky. Quanto mais cedo se acostumar com ele, e vice-versa, tanto melhor para nós todos. Pois acho que Gucky pode ser destacado para o Exército de Mutantes.
— Para o Exército de Mutantes?! — exclamou Bell, engolindo em seco. — Esse rato desengonçado vai fazer parte de nossa tropa de elite? Não, essa eu não agüento!
Calou-se de repente, pois seus pés perderam contato com o chão, e flutuaram a alguns centímetros acima dele. Mas por segundos apenas, e Bell tornou a descer suavemente. Gucky quisera apenas avisá-lo, nada mais. Pondo de lado seu orgulho, Bell acabou concordando:
— Bem, se depender de mim... Talvez ele acabe sendo útil, caso se comporte. De acordo, Gucky?
O rato-castor acenou gravemente.
Fazendo força para não rir, Rhodan dirigiu-se a Crest:
— A situação modificou-se, pois agora devem ter dado por nossa presença. A intensidade do sinal permite supor que a emissão partiu de uma estação deste planeta. E agora?
— Não vejo em que isso possa alterar as coisas. Minha única dúvida é como explicar vocês. Os comissários arcônidas possuem informações detalhadas sobre nossos mundos colonizados. E os terranos não são mencionados nelas.
— Ora, podemos virar arcônidas — sugeriu Bell.
Rhodan fitou-o pensativo, sem responder. Crest, porém, concordou:
— A idéia não é má. Não temos o que perder, e será uma gozação das maiores. Mas como pôr em prática esta sugestão?
— Para que servem nossos doutores? Podem nos arranjar lentes de contato vermelhas, para nos dar olhos de albinos. Tingir os cabelos de branco é rápido e simples. Mais não será necessário — disse Rhodan.
— Tingir os cabelos de branco? — gaguejou Bell.
— Só por algum tempo — tranqüilizou Crest. — Aliás, há mais uma coisa que recomenda esta farsa. Soube há pouco, consultando o fichário de bordo, que os nativos do sistema Laton, chamados tuglantes, sempre ofereceram resistência passiva à soberania do Grande Império. Talvez seja bem conveniente que passemos por membros de uma comissão de inquérito. Por interesse próprio, nosso representante em Tuglan concordará certamente com isso.
Rhodan enrugou a testa.
— Está perdendo de vista nosso objetivo primordial, Crest. O planeta da vida eterna e a raça imortal.
— Ora — disse Crest com um sorriso displicente — até que este episódio inesperado poderia ser útil a você e à Terra. Uma ocasião de mostrar como lidar com povos colonizados. Prove que sabe se safar de situações críticas, pois na verdade não sabemos o que nos espera em Tuglan. Se bem que tudo deve estar em ordem por lá, caso a estação que respondeu ao nosso chamado seja de fato a hiperestação radiofônica de Tuglan. Mesmo assim...
Rhodan compreendeu o que Crest queria dizer. Talvez ele tivesse razão. Portanto replicou:
— Está bem, Crest, avise o Dr. Manoli. Peça-lhe que prepare o estojo de maquilagem. Vamos representar!

3



Alban não conseguia compreender.
— Mas como é que souberam disso tão depressa?! — exclamava seguidamente, fitando o irmão como quem pede auxílio. — A nave de guerra deve ter aparecido no mesmo instante em que a estação de rádio dos arcônidas voava pelos ares. Tem alguma idéia sobre o autor do atentado, Daros?
Daros contemplou longamente o irmão antes de sacudir a cabeça.
— Para que este fingimento, Alban? Não foi você mesmo que me revelou seus planos? Agentes seus destruíram a estação, e é você quem tem que agüentar as conseqüências. Quer minha ajuda nisso?
— Estamos todos na mesma enrascada, quer sejamos contra ou a favor dos arcônidas. Eles não farão a menor diferença. O comissário deve ter dado o aviso antes mesmo da concretização do atentado. Nunca o imaginei tão vivo. Pois os arcônidas podem ser poderosos, mas são também decadentes e irresolutos. Se não fosse pelas superarmas que possuem, daríamos cabo deles em dois tempos.
— Subestimar o adversário é meia batalha perdida — aparteou Daros. — Além disso, vejo-me forçado a desapontá-lo, mano. Nem penso em arriscar a pele por sua causa. Sempre fui contra o levante, e continuo sendo.
— O que significa que somos adversários — concluiu Alban, apoiando ambas as mãos sobre a mesa, e encarando fixamente o irmão. — Meu plano é iludir os arcônidas. Caso o comissário tenha efetivamente dado o alarma, eles não terão o menor motivo para suspeitar de mim. Os dois homens que colocaram a bomba ontem à noite estão mortos. Ninguém sabe quem lhes deu o encargo. Quanto a mim, vou mandar a polícia prender alguns componentes do movimento revolucionário, e executá-los por ocasião da aterrizagem da expedição corretiva. Com isso provo minha lealdade.
Daros olhou para o irmão com nojo.
— Matar seus mais fiéis partidários só para se colocar bem? Mas é horrível!
Alban sorriu friamente.
— Devia me agradecer por isso.
— Agradecer? Mas por quê?
O digno lorde de Tuglan continuava a sorrir.
— Porque não direi a ninguém que foi você quem deu aos dois bandidos a ordem de destruir a estação radiofônica. Sua trama era isolar os arcônidas, me eliminar, e ocupar calmamente o posto de lorde de Tuglan. Não é verdade que alimentava tal ambição?
Daros ficou atônito com as traiçoeiras maquinações do irmão. Ele simplesmente invertia os fatos, jogando toda a culpa sobre outro, e seu próprio irmão ainda por cima. Os arcônidas acreditariam naquela versão, e retornariam tranqüilizados após a sindicância. Talvez exigissem até a punição dos culpados. E Alban podia executar publicamente Daros, que, apesar de contar com a estima do povo, representava uma ameaça para ele.
Daros começou a tomar consciência de sua perigosa posição. Seria capaz de apresentar uma só prova contra Alban? A conversa do dia anterior fora realizada a portas fechadas, sem testemunhas...
— Os arcônidas são inteligentes bastante para adivinhar sua trama, Alban. Entendem um bocado da psicologia das raças coloniais.
— Pensei igualmente nisso, Daros. Já providenciei a prisão de alguns dos revoltosos durante a visita dos albinos. Eles deporão unanimemente que anseiam pela independência de Tuglan, e que tencionavam depor o atual lorde, por este ser fiel partidário do Grande Império. Dirão igualmente que escolheram Daros para ser o novo lorde. E que este quer a liberdade de Tuglan e do império dos oito planetas.
Daros estremeceu de medo.
— Não achará ninguém disposto a sacrificar a vida por mentiras!
— E quem diz que eles mentirão? — perguntou Alban, de cenho franzido. — Vão estar convictos de estarem dizendo a verdade; nem mesmo o detector de mentiras seria capaz de fazê-los mudar de opinião. Não, meu caro, pensei em tudo. Outros afirmarão que você, através de seus asseclas, os instigou a assassinar Rathon; empreitadas que recusaram, por serem leais ao Grande Império.
Daros cerrou os punhos:
— Você é que merecia ser assassinado!
— Por que não tenta? — indagou Alban, com um sorriso de mofa. — Contei com esta hipótese também. Está vendo minhas mãos? Repousam sobre um botão. Basta apertá-lo de leve para uma barreira energética se erguer entre nós. Não poderia me alcançar, por mais força que fizesse.
— Você é diabólico!
— Só demônios obtêm a vitória final; qualquer outro é fraco demais para isso. Os idealistas da liberdade gastam tempo demais tomando suas decisões, pois se preocupam com o bem de seu povo. Eu dispenso este detalhe, portanto posso agir imediatamente. Não preciso perguntar nada a ninguém. Minhas decisões são tomadas na hora, instantaneamente, e o adversário não tem tempo de se ajustar a elas. Entende agora por que eu triunfo e você está perdido?
Daros obrigou-se a conservar a calma.
— Neste caso, não compreendo por que me avisa. Posso sair do palácio quando quiser? Sou livre?
— Naturalmente, irmãozinho. Quanto mais você correr, tanto mais os arcônidas estarão interessados em pegá-lo. Fugir é o mesmo que confessar a culpa. Está claro?
Sim, estava claro. Daros encontrava-se numa armadilha. Se fugisse, confessava-se culpado; se permanecesse em Tuglan, acabaria arrastado pelas provas que Alban acumulara contra ele.
— Neste caso, prefiro ficar. Confio na inteligência dos arcônidas.
— E eu, na sua burrice — concluiu Alban, calmamente. — Veremos quem fica com a razão. E agora, deixe-me só. Tenho muito que fazer para receber condignamente a expedição corretiva arcônida e provar minha lealdade. Minhas primeiras palavras serão de queixa contra os revoltosos.
Levantando-se, Daros se dirigiu para a porta. Mas voltou-se ainda uma vez, perguntando:
— Quando foi que ocorreu a última visita dos arcônidas ao nosso sistema?
Alban levantou os olhos intrigado.
— Há cerca de cinqüenta anos, quando substituíram o comissário anterior. Por quê?
— Alguma coisa pode ter mudado nestes cinqüenta anos.
Agora tudo vai depender da inteligência dos arcônidas”, pensou Daros.

* * *

Ao cruzar a órbita do décimo terceiro planeta, Rhodan avistou três espaçonaves, em progressão lenta. Pesadonas e armadas, eram evidentemente naves bélicas. Crest deu ordem para fazer funcionar a estação de rádio comum.
— Será que poderemos compreendê-los? — indagou Rhodan.
— Eles falam intercosmo, a língua do Grande Império. Você, Bell, Haggard e Manoli aprenderam este idioma por ocasião do treinamento hipnopédico. Logo, não terão dificuldade em entender os tuglantes e conversar com eles. Vou mandar dar igualmente uma lição a Marshall; só pode ser vantajoso para todos nós ter um telepata capaz de entender os tuglantes.
Da sala de rádio veio um sinal. A ligação com as três naves fora estabelecida. Rhodan girou um dial e ficou atento à tela. Nela surgiu uma das naves, vista de perto, e depois o rosto de um homem.
Alban, o eminente lorde de Tuglan.
— O império dos oito planetas apresenta seus cumprimentos aos arcônidas, senhores do Universo! — disse ele, no intercosmo, de uso generalizado em todo o império. — Em Tugla, nossa capital, está tudo pronto para recebê-los. Permitem-me indicar o rumo?
A testa de Crest apresentava profundas rugas. Era evidente que a cordialidade da recepção o surpreendia. Rhodan, no entanto, achava muito natural que uma raça colonial saudasse com tanta amabilidade os dominadores do Universo, e não viu nada de extraordinário no fato. Sua mão alisou inconscientemente os cabelos brancos que agora lhe ornavam a cabeça. Calmamente respondeu:
— Sigam na frente; nós os acompanharemos.
Porém o tuglante não se satisfez com a curta resposta, e continuou:
— Chega no momento adequado, senhor. O comissário de Tuglan necessita de seu auxílio. Rebeldes criminosos destruíram ontem à noite a hiperestação radiofônica, sendo mortos na ocasião.
A testa de Crest recuperou o aspecto habitual. Agora sim, a situação se afigurava normal. Começava a luta. Quantas vezes já presenciara esquema parecido em outros mundos! Só faltava saber quem era o agente provocador do incipiente descontentamento. Teriam que descobri-lo. Acenou ligeiramente para Rhodan.
— Foi por isso que viemos — disse Rhodan, displicentemente, como se as palavras de Alban não representassem novidade para ele. — Providencie para que possamos ver o comissário logo após o pouso. Dispomos de pouco tempo.
O tuglante na tela acenou, e sua imagem desapareceu.
Rhodan certificou-se de que a ligação fora cortada antes de perguntar a Crest:
— Quem era?
— O lorde em pessoa, tenho certeza. Falou em dissenções. Com o que você se transforma, muito a contragosto nosso, em emissário do Grande Império! Um ensaio geral para o futuro, por assim dizer. Que tal se sente?
Rhodan sorriu, imaginando que aparência teria com aqueles olhos vermelhos. Seu corpo alto e magro prestava-se bem à personificação de um arcônida; Bell, no entanto, parecia quase ridículo no papel.
— Se aquele era mesmo o lorde de Tuglan, confesso que prevejo dificuldades, pois antipatizei com o homem.
— Não faça afirmações levianas, Rhodan — avisou Crest. — A primeira impressão nem sempre é a mais acertada, principalmente quando se lida com raças estranhas. Convenhamos que os tuglantes se assemelham aos arcônidas, porém no fundo são diferentes. Julgá-los pela aparência física seria injusto. Precisamos aguardar antes de formar juízo definitivo.
Haggard e Manoli entraram na central, igualmente de cabelos brancos e olhos vermelhos. Também eles passariam por arcônidas. John Marshall permaneceria inalterado, e seria apresentado como habitante de um sistema solar afastado, apenas recentemente incorporado ao império.
Marshall não chegou sozinho à central. Trazia Gucky pela mão, que acabara de receber, sob a supervisão de Thora, o treinamento hipnopédico. Com a ajuda de complexo aparelhamento eletrônico podia-se transferir para qualquer cérebro devidamente desenvolvido, no espaço de algumas horas, a sabedoria de gerações inteiras. Portanto ninguém se espantou ao ouvir o rato-castor pipilar no idioma do Grande Império:
— Muito bom dia, senhores. E em inglês acrescentou:
— Também aprendi dialetos provincianos...
Bell ficou tão encantado com o animal falante que esqueceu todas as travessuras anteriores; até o banho no caldeirão! Riu até ficar com lágrimas nos olhos, depois inclinou-se de mão estendida para Gucky.
— Bem-vindo, amiguinho. Vamos fazer as pazes?
O rato-castor exibiu o famoso dente.
— Se me deixar brincar novamente, topo.
Bell ergueu um indicador, avisando:
— Um dia você vai poder brincar à vontade. Não aqui na nave, no entanto. É perigoso demais. Está disposto a prometer que não brincará dentro da nave?
— E quando vou poder brincar então? — piou Gucky, lastimosamente.
— Assim que tivermos pousado. Então disporá de brinquedos em penca. E agora fique quietinho. Temos assuntos muito importantes para discutir.
Gucky acenou, imitando com exatidão os gestos humanos, e acocorou-se sobre os quartos traseiros num canto. Seu olhar astuto observava tudo que se passava em torno.
As três naves tuglantes tinham dado meia-volta, e voavam na frente da Stardust-III. O décimo primeiro planeta do sol azul mostrou-se nas telas laterais, ocupando gradualmente as dianteiras. Entretanto, Rhodan tivera tempo de comparar os dados trazidos por Crest do fichário com suas observações pessoais. Nada se modificara.
A atmosfera de Tuglan era bem parecida com a terrestre; a gravidade era ligeiramente mais elevada. Dois continentes boiavam no oceano que recobria sua superfície, unidos por estreita faixa de terra. As montanhas, de regular altura, acabavam em extensos planaltos cobertos de florestas. Notava-se a ausência de grandes metrópoles, pois Tuglan era um mundo agrícola. A tecnologia limitava-se à construção de naves espaciais, destinadas a manter o contato com os outros sete planetas. Ainda não ultrapassavam a velocidade da luz. Portanto, os tuglantes estavam impedidos de sair de seu próprio sistema.
Compreensivelmente, Tugla dispunha de um espaçoporto de dimensões impressionantes, apesar da inexistência de industrialização. Acomodaria com facilidade três esferas espaciais com as gigantescas medidas da Stardust-III.
Os três cruzadores tuglantes desceram verticalmente, pousando sobre a cauda, nos limites extremos do espaçoporto. Rhodan manobrou a Stardust-III para o meio do campo e fez com que ela descesse vagarosamente. Era fácil imaginar a impressão provocada pelo imenso veículo redondo, com seu cintilante revestimento metálico. Na certa os tuglantes o supunham recheado de armas misteriosas e desconhecidas. Quando a Stardust-III tocou o solo, ainda se erguia a uma altura de oitocentos metros. Uma esfera com oitocentos metros de diâmetro! A Stardust-III já nem era uma nave, mas sim um mundo oco, dentro do qual se vivia, nascia e morria.
Com um só movimento, Rhodan desligou todo o equipamento. As instalações positrônicas automáticas entraram em repouso. Zumbidos e vibrações iam morrendo A Stardust-III chegara ao fim da viagem.
Pelo menos provisoriamente.
Fariam apenas uma escala intermediária, um período de repouso na incessante procura da imortalidade, talvez até umas reparadoras férias.
No entanto, nem mesmo o otimista Bell acreditava nisso.

4



Rathon, o alto-comissário arcônida de Tuglan, apontou resignadamente para as destroçadas instalações da hiperestação.
— A bomba do atentado explodiu exatamente no instante em que o senhor se comunicava conosco. Um de meus robôs foi avariado, mas já conseguimos consertá-lo. Foram dois tuglantes que trouxeram a bomba; ambos perderam a vida ao tentar fugir. Portanto, lamentavelmente não pudemos descobrir quem os encarregou disso.
— Nenhum indício? — indagou Crest, com um olhar disfarçado para Rhodan. — Lorde Alban nos disse ontem que existem grupos de resistência em Tuglan. Suspeita igualmente de seu irmão mais jovem, Daros, conforme pude depreender das alusões de Alban. Daros já se consideraria sucessor do atual governante; portanto, seria lógico que procurasse desmoralizar o irmão diante de nós.
Rathon meneava a cabeça repetidamente.
— Pois eu ouvi uma versão diferente. Poucas horas antes do atentado fui informado, por intermédio de um desconhecido, que era justamente Alban quem tramava contra a minha vida. Consta que pretendia se desligar do domínio arcônida.
Rhodan demonstrou sua contrariedade.
— Como chegaremos a saber a verdade, se as acusações são recíprocas? Onde está este Daros? Por que se oculta?
— Talvez sua consciência não esteja tranqüila.
Sem responder, Rhodan observava absorto a instalação radiofônica; seria impossível consertar aquilo sem os recursos técnicos da Stardust-III. O acaso viera ao seu encontro. Crest e Thora não teriam oportunidade para se comunicar com Árcon, se bem que poderiam tê-lo feito de bordo da nave. O mais importante era que Rathon estava impossibilitado de enviar mensagens a Árcon; o pessoal de lá ficaria bastante admirado ao ouvir falar de uma expedição punitiva que jamais fora despachada.
— Há alguns dias enviei um tuglante de minha confiança ao palácio de Alban — disse Rathon — a fim de apurar se essa onda de boatos tinha algum fundamento. Até agora Ror não voltou.
— Por que não pergunta por ele no palácio? — quis saber Crest.
O comissário provou que ainda lhe restava um resquício de raciocínio lógico. Não seria qualquer armadilha que o apanharia desprevenido.
— Para não me delatar. As informações que recebi provieram de um desconhecido; portanto oficialmente eu não sei que Alban planeja se rebelar contra Árcon.
— Não acredito em tal levante — disse Crest. — Muito menos que Alban seja o mentor. Pois não manda prender e executar constantemente partidários dos rebeldes? Segundo eu soube, age com extremo rigor. Tomaria uma atitude destas caso apoiasse a separação de Tuglan do Grande Império?
Rathon deu de ombros.
— Não tem ligação alguma com seu homem de confiança? — perguntou Rhodan, em tom de reprovação. — Isto é, através de algum engenho eletrônico?
— Claro! O robô 2 está equipado com um receptor, sintonizado com o transmissor embutido no corpo de Ror; tem a forma de uma minúscula sonda, e traz até nós as batidas de seu coração. Podemos saber em que direção ele se encontra, mas não a que distância. Mas isso me permite constatar a qualquer instante se Ror continua vivo.
— É bem pouco o que faz por seu homem — censurou Crest. — Aliás, em que direção está ele?
Com um gesto, Rathon acenou para o robô 2, que os acompanhava.
— Relatório sobre Ror, 2! — ordenou. O autômato reagiu prontamente.
— O receptor acusa aceleração do movimento cardíaco do portador do transmissor. Direção: lá!...
Todos os olhares acompanharam o braço metálico estendido. À distância reconheceram a cobertura fulgurante do palácio. Portanto, Ror continuava nele. E ainda vivia.
Rhodan ia dizer alguma coisa, porém foi interrompido pelo robô.
— As batidas cardíacas pararam. Agora recomeçam, em ritmo interrompido. Distância, a mesma de antes. Pararam de novo. Mais nada... o transmissor está mudo.
Rathon empalideceu, olhando desamparado para Rhodan. Crest observava preocupado o robô. Um minuto... dois minutos...
— Transmissor ainda mudo — informou o robô 2.
— Ror está morto! — murmurou o comissário, com um profundo suspiro. — E deve ter morrido no palácio. Isso lhe basta como prova da culpabilidade de Alban?
— Não! — replicou Rhodan. — Também pode ser prova do contrário. Podem ter assassinado seu homem no interior do palácio a fim de lançar as suspeitas sobre o lorde. Talvez tenham descoberto o transmissor e reconhecido a significação do instrumento. Não, Rathon, se Alban for realmente culpado, teremos que encontrar outras provas.
Voltando-se bruscamente, tomou a direção do pequeno portão que conduzia à rua. O robô 1 já os aguardava, com o veículo usual em Tuglan: um carro com duas rodas e um giroscópio.

* * *

Alban fora esperto bastante para alterar seus planos. Coisa que Daros não tardou a perceber.
Daros ocupava uma modesta ala lateral num anexo do palácio, de cuja torre observara a aterrizagem da nave arcônida. Ali estavam, portanto, os senhores do gigantesco império, vindos expressamente para regularizar a situação em Tuglan. E no momento exato, dizia Daros a si mesmo.
Não convinha correr imediatamente ao espaçoporto a fim de alertar os arcônidas; eles certamente não lhe dariam crédito. Alban é que era o responsável pela paz com o império, e até o presente a paz não tinha sido comprometida. E, caso fosse rompida, não havia provas contra o culpado. Seria uma tarefa árdua desvendar as verdadeiras intenções de Alban.
E o comissário Rathon? Com ele não poderia contar, pois o arcônida vivia imerso em seus sonhos, muito satisfeito por não o aborrecerem com os problemas dos tuglantes. Não, dele não podia esperar apoio para a vitória da justiça.
E quem poderia ajudar, então?
Repentinamente Daros constatou, perturbado, que não tinha aliados. Os tuglantes pouco se preocupavam com política; e, mesmo que simpatizassem secretamente com os rebeldes, ignoravam quem os chefiava. Ninguém suspeitava que era o grande lorde em pessoa que tramava a revolta.
Alban só se revelaria após a conquista da liberdade, para ser festejado como vencedor. E caso seus planos fracassassem, Daros seria o bode expiatório. Muito bem bolada a trama!
Bem, um passeio lhe faria bem. Sua última entrevista com o irmão deixara tudo claro. Eram adversários; ou melhor, inimigos mortais. Só um dos dois sobreviveria à visita dos arcônidas. E o vencedor governaria o império dos oito planetas.
Refletindo brevemente, Daros pegou na gaveta de sua mesa uma pequena pistola, de aparência perigosa. A chamada agulheira, que lançava minúsculas agulhas envenenadas, propelidas por gás comprimido. O menor contato com a pele bastava para imobilizar qualquer vítima.
Enfiou a arma no bolso e saiu. Ninguém lhe impediu a passagem. Por mais de uma vez, Daros teve a indefinível sensação de estar sendo vigiado por olhos invisíveis, mas talvez fosse fruto de sua imaginação. Já estava vendo fantasmas... Mas como podia adivinhar que Alban já dera instruções concisas a seus adeptos?
Nas ruas, o movimento era intenso. Os tuglantes acorriam para o espaçoporto para saudar os arcônidas. Superado o impacto inicial, confiavam na proclamação de lorde Alban, que garantia que os arcônidas vinham como amigos.
Daros sorriu melancolicamente. Mais um truque de seu ardiloso irmão. A recepção festiva serviria para jogar areia nos olhos dos arcônidas. Ora, um povo aparentemente tão satisfeito com sua sorte, e que os aclamava com tanto entusiasmo, não podia estar pensando em rebelião! Se realmente ocorrera a alguém a idéia de sacudir o jugo arcônida, aquilo era obra de uma reduzida minoria, agora recolhida às sombras, com medo da justificada ira do povo, ou do castigo do lorde.
Não! Pensou Daros, com obstinação. Não se deixaria ver no espaçoporto. Preferia aguardar o desenrolar dos acontecimentos. Não adiantava se expor desnecessariamente ao perigo.
Tugla era uma cidade extensa, com casas baixas e muitos jardins. O rio que a cortava ao meio fazia dela um porto comercial. Logo além da cidade erguiam-se as montanhas, onde tantas vezes caçara com o irmão. Outrora, quando o pai de ambos ainda ocupava o posto de lorde de Tuglan.
Aquelas montanhas e florestas traziam-lhe à lembrança a despreocupada juventude. Naquela época, a ambição pelo poder, e o receio de se ver novamente despojado dele ainda não haviam envenenado o espírito de Alban. Tinham sido amigos e companheiros, repartindo alegrias e tristezas.
Daros fez sinal para um giromóvel. O condutor se aproximou e abriu a porta.
— Para onde deseja ser levado, senhor?
— Para fora da cidade. Para as montanhas. E ande devagar...
O tuglante sacudiu a cabeça, intrigado com o estranho pedido do passageiro. Todo mundo correndo ao encontro dos arcônidas, e aquele homem queria ir para as montanhas! Bem, não era de sua conta...
A cidade logo ficou para trás. A estrada prosseguia sendo ótima, como no início, e o carro aumentou a velocidade. Há bastante tempo Daros notara que era perseguido. Dois outros giromóveis seguiam o seu, mantendo sempre o mesmo afastamento. Não podia ser casualidade. Portanto, Alban mandava vigiá-lo. Bem, uma vez que isso lhe dava prazer...
Daros teria o cuidado de não tentar algo contra o irmão enquanto não dispusesse de provas concretas contra ele.
Chegaram à floresta. A estrada serpenteava por entre as árvores, em direção às montanhas. Atravessaram um rio, e começaram a subir. Olhando para trás, Daros viu que seus perseguidores tinham desaparecido. Aquilo não combinava com a teoria que alinhavara. Teriam dado volta? Qual seria a significação daquilo tudo?
Mandou o carro parar pouco mais adiante, e pediu ao condutor que o esperasse. Em seguida, embrenhou-se entre as árvores esparsas. Só ali encontraria calma para ordenar seus fervilhantes pensamentos. O ar puro lhe fazia bem.
Por quase uma hora Daros vagou sem rumo de um lado para outro, antes de se decidir a regressar. Por sua vontade, permaneceria ali mesmo, pois no palácio não havia o que o atraísse.
Na volta, quando se aprontavam para cruzar o rio, foram detidos. Um tronco de árvore se abatera diagonalmente sobre a estrada. Em volta dele, diversos carros aguardavam. Alguns dos tuglantes esbravejavam, porém calaram-se bruscamente ao ver Daros desembarcar de seu veículo. Em vez disso, sorriam abertamente. E depois um deles bradou vibrantemente:
— Daros! Viva lorde Daros e a liberdade de Tuglan!
Os demais logo se associaram ao clamor, e logo a floresta reboava aos gritos de: “Abaixo lorde Alban e os arcônidas! Viva lorde Daros, nosso libertador!
No primeiro momento, Daros não entendeu o que acontecia. Aquela gente devia ter enlouquecido, não havia outra explicação! Procurou se esquivar dos excitados tuglantes, que quase o esmagavam com seu entusiasmo. A muito custo conseguiu se refugiar em seu carro. Minutos depois, o caminho foi desimpedido, e o giromóvel pôs-se em movimento, seguido pela gritaria da multidão agora mais numerosa. Ainda após ter chegado à cidade, os ouvidos de Daros rememoravam as frases:
Abaixo Alban e seus amigos, os arcônidas! Viva nosso libertador, lorde Daros!
Daros se sentiu subitamente invadido por um temor sinistro.

* * *

Rhodan continuava cético. Não lhe agradava ver o comissário arcônida falar mal do lorde de Tuglan. Talvez tentasse apenas encobrir sua própria incapacidade com isso. Que interesse poderia ter Alban em modificar o atual estado das coisas?
Não obstante...
No terceiro dia após a aterrizagem, compareceu, em companhia de Bell, à audiência com o lorde. Foram cumprimentados com o maior respeito pela guarda formada, e, segundo pareceu a Rhodan, até com certa reverência. Na certa temiam as tremendas armas que supunham estar a bordo da nave arcônida.
Alban exibiu sua costumeira amabilidade. Obsequiosamente conduziu os visitantes a um pequeno salão, destinado à recepção de diplomatas. Alban indicou três poltronas.
— Sentemo-nos. O que me dá a honra de sua visita, eminentes arcônidas? Posso saber se estão satisfeitos com o que viram até agora?
Rhodan permaneceu de pé.
— Quem lidera a oposição contra o Grande Império? — perguntou em tom severo. — De quantos elementos é formado o grupo de resistência? Quais são seus objetivos, e quem é o líder?
Alban teve um movimento de recuo; depois sacudiu a cabeça, numa teatral exibição de desalento.
— Bem que eu receava que me fizessem tal pergunta, excelências! Mas, creiam-me, eu tenho condições para resolver a situação sozinho. Não gostaria de aborrecê-los com tais ninharias. Sou o lorde de Tuglan, e castigarei severamente quem se atrever a ofender o Grande Império.
— Mesmo assim eu gostaria de saber quem é o chefe dos rebeldes — insistiu Rhodan. — Há quem afirme que é seu irmão.
Alban baixou os olhos, constrangido, depois encarou Rhodan com surpreendente franqueza.
— Mas isso é absurdo, excelência! Ponho a mão no fogo por meu irmão. Ele nada tem a ver com esse movimento de resistência.
Aquilo pegou Rhodan de surpresa. Esperava que Alban aproveitasse a excelente oportunidade para incriminar Daros. Portanto, os boatos deviam ser falsos. E também Rathon se enganava ao julgar Alban trapaceiro.
— Gostaria de conhecer seu irmão — disse Rhodan.
Alban concordou prontamente, e acenou para um atendente. Dois minutos após, um jovem tuglante se apresentou no salão, detendo-se hesitante na porta, ao avistar os dois supostos arcônidas. Adiantou-se lentamente. Seus olhos estavam fixos sobre Rhodan. Não deu a menor atenção a Alban.
Do tipo indeciso”, pensou Rhodan consigo mesmo. “Vê-se que está inseguro. Consciência suja? Ou estará oprimido por outra coisa?
Decidiu perguntar diretamente.
— Sou Rhodan, o comandante da expedição arcônida de investigação. Este é meu eventual substituto — indicou Bell, que inflou orgulhosamente o peito diante das palavras de Rhodan. — Espalhou-se o boato de que existe uma poderosa organização neste planeta, que deseja o desligamento de Tuglan do Grande Império. O atentado contra a central radiofônica arcônida prova que não se trata de conversa fiada. Diz-se que você está ligado a essa organização. Quer nos explicar o porquê de tal correlação?
Daros relanceou um olhar carregado de desprezo pelo irmão.
— É mentira! — afirmou, energicamente. — Meu irmão é um mentiroso. É ele que anseia libertar-se de Árcon. Foi ele que determinou o atentado à estação de rádio. Os homens dele morreram na tentativa de escapar dos robôs. Alban queria até mandar assassinar o comissário Rathon, mas felizmente vocês chegaram a tempo de impedi-lo. Sei que meu irmão quer lançar as suspeitas sobre mim, a fim de ter quem assuma sua culpa. Ele teme que eu ambicione lhe tomar o posto, e pretende me eliminar.
Rhodan examinou atentamente o jovem. Achou-o muito mais simpático do que Alban, e se impressionou com o desabafo. Mas Alban tomara o cuidado de não difamar o irmão; ao contrário, tomara a defesa dele. Fato que depunha a seu favor. E agora Daros fazia as mais sérias acusações ao presente lorde. Como explicar tantas contradições? Em quem deveria acreditar?
Rhodan lamentou não ter trazido Marshall consigo; o telepata esclareceria a situação num instante. Mentira alguma lhe escapava.
Alban sorriu triste e dolorosamente, dizendo:
— Mas Daros, como pode fazer semelhante coisa? Tentei poupá-lo, escondendo do ilustre arcônida sua criminosa atividade. Mas, já que me acusa, sou obrigado a me defender.
Acenou para um ajudante, que aguardava atento, e continuou:
— Ainda bem que tenho gente minha em toda a parte. Você foi vigiado disfarçadamente, Daros. Ainda recentemente, quando você foi se encontrar com seus amigos, meus espiões puderam fornecer-me provas decisivas. Por favor, excelências, vejam e ouçam por si mesmos. Certifiquem-se!
Cortinados cobriram as janelas, obscurecendo a sala. Numa das paredes surgiu uma tela opaca, sobre a qual se projetava a imagem nítida e tridimensional de uma ponte cruzando um rio. Numeroso grupo rodeava um giromóvel ocupado por um tuglante. Os homens aclamavam em altos brados o tuglante, insistindo sempre no mesmo tema: “Abaixo Alban e seus aliados, os arcônidas! Viva lorde Daros, nosso libertador!
Rhodan percebeu imediatamente que o tuglante no filme era Daros em pessoa. O rebelde entre seus seguidores. Poderia haver prova mais convincente?
Sentiu-se um tanto penalizado. No entanto, a hora não era para sentimentalismos, e sim para consolidar o poderio arcônida. Demonstrar indulgência agora equivalia a se mostrar fraco. E fraqueza significaria perecimento e decadência.
— Daros, lamento, mas vou ter de prendê-lo. O Grande Império não admite desobediência. Permite que ponha seu irmão sob custódia, Alban? Temos celas seguras a bordo da nave.
— Se for preciso — concordou Alban, hesitando. Dirigindo-se a Daros, perguntou: — Por que me acusou? Não tive alternativa senão me defender.
— Traidor! — exclamou Daros, como única resposta. — Estou à sua disposição — disse a Rhodan. — Espero que algum dia, caso não seja tarde demais, possa perdoar a si mesmo tamanho erro.
Calados, Rhodan e Bell se retiraram com o prisioneiro.
Lorde Alban presenciou a retirada na maior impassibilidade. Só nos cantos dos olhos brilhava uma centelha de triunfo.

* * *

Os rebeldes se reuniam num espaçoso porão, situado em local que só eles conheciam. Porém não era contra os arcônidas que se rebelavam, e sim contra a ardilosa política de Alban. Não pensavam em mudar nada na ordem estabelecida; pelo contrário, advogavam sua continuidade. Daros seria o novo lorde, pois sabiam que ele era a favor da permanência de Tuglan na confederação do poderoso império.
Daros não tinha o menor conhecimento do grupo rebelde, pois não era revolucionário. E nem imaginava que seu irmão possuía inimigos dispostos a derrubá-lo; muito menos que existia uma corrente tramando a deposição de Alban para colocar a ele, Daros, no trono.
Entre os presentes viam-se figuras aventurosas. Muitos exerciam profissões respeitáveis, e eram considerados ótimos cidadãos. Outros, no entanto, viviam ocultos na floresta, aguardando o sinal para o levante. Estes portavam armas, e estavam dispostos a usá-las, pois Alban decretara a morte de qualquer traidor, ameaça que não podia ser desprezada. Uma vez que o tirano não hesitava em executar seus próprios adeptos, puramente por encenação, não teria o menor escrúpulo em eliminar seus inimigos pessoais.
Um homem entrou pela porta dos fundos. Atarracado e meio gordo, revelava, no entanto, surpreendente agilidade de movimentos. O cabelo roxo cintilante estava penteado para trás, colado à cabeça, o que lhe imprimia um ar um tanto diabólico. Era fácil imaginar que bastava aparecer para inflamar as massas.
Mal perceberam sua chegada, os rebeldes entoaram num coro abafado:
— Viva o novo lorde Daros! Viva o império arcônida! Viva a revolução contra Alban, o traidor da unidade!
O recém-chegado ergueu as mãos num gesto conciliador. Era Karolan, apelidado de líder dos justos. Em tom grave disse:
— Tenho uma comunicação a fazer. O dia da liberdade está próximo, porém ainda temos diante de nós a árdua tarefa de provar a culpa de Alban. Habilidosamente, o traidor conseguiu lançar as suspeitas sobre Daros. Ele foi detido pelos arcônidas. Que faremos agora?
Por momentos reinou um silêncio consternado, depois todos começaram a falar ao mesmo tempo. Não se entendia palavra, até que alguém no meio do grupo gritou:
— Libertá-lo, Karolan! Nós vamos libertar Daros!
Karolan sacudiu a cabeça.
— Seria um erro, companheiros. Isso só contribuiria para reforçar as suspeitas que recaem sobre Daros. Não poderíamos fazer maior favor a Alban do que libertar seu irmão. Aos olhos dos arcônidas, sua culpa seria então evidente, e teríamos que contar com medidas de represália. Não, deve existir uma maneira melhor, mais sutil e diplomática.
— Que tal enviar uma comissão aos arcônidas? — sugeriu outro.
— Bem mais razoável — concordou Karolan. — Mas quem nos garante que eles acreditarão em nós? Alban já deve tê-los acautelado contra iniciativas desta espécie. Seu talento para a intriga é incontestável.
— Sem dúvida! — exclamou um homem magro, adiantando-se. — Alban sabe da existência de nosso grupo, porém distorceu nossos objetivos diante dos arcônidas. Disse que somos contra ele, no que diz a verdade, à prova de qualquer detector de mentiras. Mas omitiu o fato de sermos a favor do Grande Império. Podemos acusá-lo de mentiroso por ter calado? Vai ser difícil desmascarar Alban.
— Talvez eu tenha uma solução... — começou Karolan, porém foi interrompido.
Um homem precipitou-se para dentro do recinto, acotovelando sem consideração os presentes, a fim de chegar ao chefe dos rebeldes. Arquejava, como se tivesse corrido por bom espaço de tempo sem descanso; sua testa estava coberta de suor. Por várias vezes tentou falar, sem conseguir emitir um som. Exausto, se apoiou em dois companheiros.
— Que há, Xaron?
— Daros! Os arcônidas prenderam-no no palácio, levando-o para a grande nave esférica.
— Já sabemos disso, Xaron. Correu tanto para trazer notícias velhas?
— Mas vocês não sabem que Daros foi libertado durante o trajeto! Dez homens mascarados assaltaram a viatura em que iam os arcônidas e Daros. E, engraçado, os dois arcônidas não reagiram. Deixaram-se amarrar, foram arrastados para outro giromóvel e levados embora. Daros não foi amarrado.
Karolan permaneceu calado por algum tempo, com acentuadas rugas na fronte. Depois meneou lentamente a cabeça.
— Alban quer incriminar ainda mais Daros. É sabido. Mas percebo que os arcônidas são ainda mais espertos. Sabem que nada lhes poderá acontecer, pois a vingança dos outros seria terrível. Portanto, deixam as coisas correr, a fim de descobrir a verdadeira razão dos fatos. São realmente sábios e astutos. Não é de admirar que tenham conseguido construir e controlar um império. No entanto, não devemos subestimar Alban. Aposto que já está com o próximo golpe preparado.
Ninguém suspeitava de quanto era acertada a suposição de Karolan.

* * *

A situação era singular.
No caminho para o espaçoporto, a estrada fora repentinamente bloqueada por dez tuglantes mascarados. Bell sacou prontamente sua pistola de raios, pronto para se defender. Na certa teria liquidado com a maior facilidade os bandidos mal armados, porém um gesto de Rhodan fez com que parasse.
— Não, Bell! Isso não nos faria avançar um só passo em direção do objetivo realmente visado. Precisamos saber quem os mandou, e o que tramam. Se for preciso, deixamo-nos prender. Portanto, nada de atos impensados.
Bell recolocou a arma no coldre.
— Como achar melhor, chefe... Mas para mim é errado. Vai solapar nossa autoridade.
— O que é de somenos importância no momento.
O carro parou. Os mascarados cercaram-no, abrindo rudemente as portas.
— Viva Daros, nosso novo lorde! Abaixo os arcônidas!
Dos três, Daros era o mais confuso; não entendia o que se passava. Intimidado e desorientado, encolheu-se ao lado de Bell, sem ter a menor idéia de quem eram seus libertadores. E de modo algum atinava com explicação para o fato de os arcônidas deixarem o incidente acontecer, sem oferecer a mínima resistência.
Rhodan e Bell foram puxados para fora do carro, e privados de suas armas. Daros, pelo contrário, foi cortesmente convidado a descer e a acompanhar os desconhecidos. Aceleradamente, os prisioneiros e o liberto foram conduzidos pela rua estranhamente deserta, e empurrados para o interior de um caminhão de carga à espera. Mal a carroceria sem janela foi fechada, o veículo se pôs em movimento, roncando baixinho. Ninguém sabia em que rumo rodavam.
Os seqüestradores conversavam em seu idioma nativo. Rhodan compreendia quase tudo que diziam. Para sua imensa surpresa, constatou que falavam um dialeto arcônida. Por que Crest não lhe dissera nada a respeito? Desconheceria o fato?
Examinou melhor os homens, que agora estavam sem máscaras. Sem vantagem nenhuma, porém, pois não conhecia nenhum deles. A conversa versava sobre assuntos triviais. Na certa não queriam esclarecer Daros.
Aquilo reforçou as desconfianças de Rhodan. Agora estava certo de que o jovem irmão de Alban ignorava a quem devia sua salvação. Pois então sua atitude teria sido outra. Daros era tão prisioneiro quanto eles, com a diferença de não ter sido amarrado!
Rodaram por cerca de meia hora, antes que o carro se detivesse com um tranco. A porta foi aberta, e os seqüestradores levaram os prisioneiros para um recinto sombrio. O ar era úmido e abafado.
Um dos tuglantes se inclinou diante de Daros, dizendo em intercosmo:
— Foi um prazer libertá-lo das garras dos arcônidas, lorde. Quer fazer o favor de nos seguir?
Daros lançou um olhar perplexo a Rhodan, mas antes que pudesse abrir a boca foi gentilmente forçado a deixar o local. Não teve tempo nem de agradecer aos seus libertadores, nem de protestar contra o seqüestro.
Rhodan não duvidava mais que aquilo tudo era uma cena bem ensaiada.
Um elevador antigravitacional levou Rhodan, Bell e alguns dos tuglantes para baixo. Ali foram trancados numa cela que só continha duas camas e uma mesa. Do lado de fora, os passos dos desconhecidos se afastavam.
Fitando a sólida porta de caibros de madeira, Bell suspirou e se jogou na cama mais próxima. Do teto pendia uma lâmpada mortiça.
— Puxa, entramos numa fria! Acha que eles vão nos soltar facilmente? Que será que fizeram com Daros?
— Deve estar ocupando uma cela igual a esta — replicou Rhodan. — E não se preocupe, Bell. Pelo menos um de nós terá que ser solto. Pois, de que outra maneira os arcônidas saberiam que Daros foi libertado por seus correligionários políticos?
— Tem tanta certeza assim?
— Absoluta! Alban é esperto. Mas talvez seja melhor não falar muito. As paredes podem ter ouvidos.
Bell se espichou sobre a cama.
— Bem, numa situação destas, a coisa mais acertada que se pode fazer é dormir.
Devagar e pensativamente Rhodan sacudiu a cabeça.
Duas horas depois vieram buscar Bell. Para um interrogatório, segundo diziam. Rhodan ficou sozinho na cela. Pressentia que Alban desfechava o golpe seguinte.
Sem desamarrá-lo, instalaram Bell num dos pequenos carros de duas rodas. Além do condutor, um rebelde armado embarcou igualmente. Por um amplo portão o veículo ganhou a rua, perdendo-se logo por entre a corrente de tráfego.
Bell tentou memorizar o trajeto, mas não tardou a ficar completamente desorientado. Passaram por ruas intensamente movimentadas, e por subúrbios mais tranqüilos. Por mais de uma vez Bell teve a impressão de que atravessavam repetidamente a mesma praça. Estariam querendo confundi-lo?
A surpresa aconteceu nas imediações do palácio. Claro que para Bell era difícil imaginar que Rhodan já contava com algum incidente daquela espécie. Pessoalmente, a situação lhe parecia cada vez mais ininteligível, mas não perdeu tempo tentando decifrá-la. O essencial era que o carro tinha sido detido repentinamente por homens uniformizados. O condutor e o vigilante protestavam em altos brados; não lhes foi concedido prazo para explicações; o fulgor de raios energéticos privou-os da fala para sempre. Um dos fardados desamarrou Bell, declarando:
— É uma satisfação poder prestar um serviço ao ilustre arcônida. — Falava intercosmo, e prosseguiu: — Um espião do palácio nos deu a dica. Que bom que Alban tem sua gente em toda a parte!
— Lorde Alban? — admirou-se Bell, decidido a alterar seu conceito sobre o soberano dos tuglantes. — É a ele que devo meu resgate?
— A quem mais, nobre arcônida? Aquela mania de o tomarem por arcônida começava a irritar Bell; porém tinha que continuar representando seu papel, quisesse ou não. Apontando para os seqüestradores mortos, indagou:
— Por que tiveram que morrer?
— Ofereceram resistência.
Bell não havia presenciado nada naquele sentido. Pensando bem, era realmente lamentável, pois agora não poderia lhes perguntar onde ficava a prisão de Rhodan. Será que...?
Uma idéia passou pela mente de Bell. Em vista das alusões de Rhodan, ela de repente tinha sentido.
— Levem-me até Alban! — pediu.
Seu desejo foi atendido com surpreendente prontidão. Dez minutos depois, via-se diante do regente de cabelos escuros. Após escutar por bastante tempo as efusivas congratulações do lorde, Bell interrompeu-o com um gesto imperativo.
— Não há dúvida de que lhe sou imensamente grato pela ajuda recebida, lorde Alban; porém meu comandante continua em poder dos rebeldes. Tem algum indício quanto ao seu paradeiro?
— Lamentavelmente não, eminente arcônida. Meu espião só me contou que viu o senhor na cidade, mais nada. Por conseguinte alertei logo meus guardas, dando-lhes ordem para libertá-lo. Soube ainda que meu irmão foi levado para lugar seguro; desconheço onde se encontra. Temo, no entanto, que tenha se reunido tranqüilamente aos seus seguidores, a fim de preparar a revolução contra mim e o império.
— Ah, então seu irmão pretende depô-lo e separar Tuglan do Grande Império? Ele é contra os arcônidas?
— Infelizmente sim! — concordou Alban, com ar pesaroso. — Não imagino que benefícios ele espera com a independência de Tuglan. Afinal, estamos tão bem na confederação do domínio arcônida, e temos muitos privilégios.
— Isso mesmo! — replicou Bell, enquanto seus pensamentos se atropelavam. — E os amigos de Daros também são a favor de sua deposição, se entendi bem. Não foram eles que destruíram a estação de rádio de Rathon? E aprisionaram Rhodan e a mim? E libertaram Daros?
Acenando animadamente, Alban confirmava as perguntas de Bell. Seus olhos brilhavam.
— Vejo que compreendeu a situação. Portanto, caso deseje pacificar Tuglan, precisa encontrar Daros.
— Primeiro gostaria de encontrar Rhodan — resmungou Bell. — Aliás, onde se acha o comissário Rathon neste momento?
— Fez-se conduzir à nave arcônida. rizage�::r�X  � a terrestre, o desligamento fora total. Rhodan socorrera-o naquela emergência, e até o presente soubera ardilosamente evitar que Crest se comunicasse com Árcon. Não queria que os senhores do imenso império viessem a conhecer a Terra, que certamente desejariam incorporar aos seus domínios.
Só depois que a Terra se tornasse unida e bastante forte é que poderia haver intercâmbio com Árcon. Pois só o poderoso pode-se permitir transações justas.
Mas recusar-se agora a aterrizar numa colônia de Árcon provocaria o desagrado de Crest. Sem falar em Thora...
Thora, a comandante da nave arcônida na qual Crest ocupara o posto de cientista-chefe, detestava Rhodan, por ser homem. Seu sonho era regressar a Árcon, sua pátria. De maneira alguma aceitaria a recusa de pousar em Tuglan.
— Tomaremos contato com o décimo primeiro planeta de Laton — decidiu Rhodan. — Mas quero que me prometa, Crest, não revelar ao comissário arcônida de lá a posição da Terra. Ainda não julgo conveniente estabelecer um contato desta espécie. Sabe por quê, não?
— Sei, sim — tranqüilizou Crest. — Sabe que compreendo os seus motivos, e lhe dou razão. Durante este nosso contato, tive bastante oportunidade de conhecer os homens e sua capacidade. Ambos temos consciência do fato de que o poderio dos arcônidas se encontra em declínio. E, como prováveis sucessores, apenas os terranos entrariam em consideração. Mas... será que Thora pensa da mesma maneira?
Rhodan não soube responder aquela pergunta.
Uma campainha de alarma soou estridentemente.
Consultando o sistema de comunicação interno da nave, Rhodan verificou que o alarma vinha da cozinha. Estranhou aquilo, pois justamente a cozinha seria o lugar menos provável para acontecimentos anormais. Baixou uma alavanca, ligando uma minúscula tela; nela surgiu a fisionomia de um homem ornado com o característico gorro dos cozinheiros.
— Comandante! — exclamou ele, excitado, antes que Rhodan pudesse fazer qualquer pergunta. — Comandante! Temos um clandestino a bordo! Poderia vir imediatamente à cozinha?
Rhodan ficou tão surpreso que nem se lembrou de perguntar quem era o passageiro clandestino. Quando recuperou a fala, a face do cozinheiro já tinha sumido do vídeo. A tela estava apagada.
— Um passageiro clandestino? — indagou Crest. — Ora, quem poderia ser?
Passando a mão sobre os olhos, Rhodan respondeu:
— Vou até a cozinha. Talvez lá possamos saber...
Sem se preocupar com os dois companheiros, deixou a central de comando. Crest e Bell não tiveram outra alternativa senão segui-lo.
Um passageiro clandestino? No espaço cósmico é que ninguém poderia ter embarcado; e em Vagabundo, a última escala da nave, não existia gente.
Bell chegara até aquele ponto de suas reflexões quando um clarão de reconhecimento lhe iluminou a mente. Seus olhos se contraíram, virando apertadas fendas, e seu queixo se projetou para a frente. Precipitando-se no encalço de Rhodan, que saltava justamente para o elevador antigravitacional mais próximo, a fim de chegar o mais depressa possível à cozinha, Bell berrou:
— Mas claro! Eu devia ter adivinhado logo! Um rato-castor!
Os invisíveis campos magnéticos levaram-no igualmente para baixo, deixando-os na esteira rolante do corredor. A cozinha surgiu à vista. Já de longe se percebia que algo de anormal ocorria dentro dela. Homens excitados corriam de um lado para outro; cozinheiros brandiam furiosamente seus apetrechos culinários, tentando enxotar de seu território os radiotelegrafistas e técnicos.
Rhodan e Bell forçaram passagem por entre o pessoal e entraram na cozinha. Os grandes e refulgentes panelões estavam abandonados; ninguém parecia se preocupar com o horário da refeição seguinte. Em troca, cozinheiros e técnicos se aglomeravam no extremo oposto da ampla peça, falando animadamente. Uns riam, outros praguejavam. Uma incrível balbúrdia, porém nada indicava a existência de perigo imediato.
O cozinheiro-chefe avistou Rhodan e correu ao seu encontro.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html