sábado, 20 de outubro de 2012

P-012 - O Segredo do Cofre de Tempo - Clark Darlton [parte 2]


— Eu vou...! — começou Bell, animado, mas Rhodan interrompeu:
— Por enquanto você não vai coisa nenhuma, velho! Depois do pouso em Rofus vamos combinar tudo detalhadamente. Por ora, trate de evitar os tópsidas. Os detectores estão todos ligados?
— Não deixam passar uma mosca! — assegurou Bell, compenetrado. A seguir se aprofundou em suas tarefas. Já nem prestava atenção ao que Rhodan ou John faziam.
Com um sorriso de satisfação, Rhodan perguntou a Marshall:
— Outras novidades?                                    
— Eu diria que não. No entanto, há uma coisinha que me preocupa. Não, não chega a ser preocupação, propriamente... Mas dá o que pensar.
— De que se trata?
Horas-luz adiante, os caças espaciais de Deringhouse deram com as primeiras naves tópsidas. De acordo com as ordens recebidas, envolveram-nas em acirrados combates simulados, atraindo-as a toda a velocidade para o lado oposto de Vega.
— O Thort — explicou Marshall, pensativo. — Tenho conversado muito com ele, o que me proporcionou a oportunidade de sondar-lhe um pouco a mente. Ele está sendo sincero, quanto a isso não há dúvida. E também nos é grato pelo apoio recebido. Mas num único ponto se mostra reservado: os transmissores.
— Ah, é?! — exclamou Rhodan. — E o que é que ele nos esconde?
— Algo que ele próprio desconhece. Confesso que isso soa estranho, porém é o que está sucedendo. Os transmissores não são artefatos dos ferrônios.
— Bem, eu já suspeitava disso, John. Mas é bom saber que o Thort também tem consciência do fato. Que conseguiu descobrir?
— Existe em Ferrol uma urna lacrada. Fechaduras pentadimensionais impedem o acesso a ela. Apenas o Thort conhece a fórmula, porém não sabe usá-la. Trata-se de uma tradição perpetuada através das gerações. Minha impressão é que aqueles transmissores são presente de alguma raça ignota, à qual os ferrônios prestaram serviços relevantes em época imemorial. Dentro desta urna se encontram, provavelmente, os planos detalhados para a fabricação dos transmissores. O Thort considerou estudar os planos, a fim de poder construir novos transmissores.
— Também isso não me surpreende — disse Rhodan, com a maior naturalidade. Percebendo o desapontamento de Marshall, prosseguiu: — Não, não se trata disso! Suas observações constituem contribuição de inestimável valor, pois a certeza sempre é preferível a meras suposições. Os ferrônios não poderiam ter inventado aqueles transmissores, cujo funcionamento se baseia em princípios pentadimensionais. Bem que eu gostaria de saber quem foi seu criador!
— Quanto a isso, captei um indício muito vago — informou o telepata, radiante. — O Thort pensava em algo parecido com seres que vivem mais do que o sol. Isso lhe diz alguma coisa?
Rhodan estremecera. Bell, que escutava ocasionalmente trechos do diálogo, imobilizou-se de repente em sua poltrona, diante dos controles. Seu rosto cobriu-se duma palidez antinatural, depois coloriu-se de vermelho sangüíneo. Os olhos cintilavam. Voltando-se vagarosamente para Rhodan, fitou-o de frente nos olhos esgazeados.
Marshall observava divertido o efeito de suas palavras, com um sorriso de orelha a orelha.
— Até que é gostoso ver vocês dois aparvalhados, para variar! — disse ele, com uma risada pouco costumeira. — Só isso compensa a estadia solitária em Iridul. Pois é, consta que esses seres que vivem mais do que o sol cederam outrora o segredo dos transmissores aos ferrônios. É lamentável constatar que estes não têm sabido fazer grande uso deles.
— Os ferrônios raciocinam em termos de quarta dimensão; o que, sob o nosso ponto de vista, já constitui notável progresso. Porém não sabem pensar na quinta dimensão, condição básica para a construção de hiperespaçonaves e transmissores pentadimensionais de matéria. Bastou este fato para me convencer de que os ferrônios jamais poderiam ter fabricado aquelas caixas maravilhosas. Diga-me, John, descobriu alguma pista quanto à origem dos tais seres que vivem mais do que o sol?
— São naturais do sistema Vega — respondeu Marshall, e pela segunda vez teve o prazer de ver Rhodan se alterar. — Pelo menos, era aqui que viviam há milênios atrás, quando mantinham contato com os ferrônios. É pena, mas foi tudo que consegui saber a respeito. Parece-me que o próprio Thort dispõe de informações escassas.
Por longos minutos Rhodan se conservou calado em seu assento, com o olhar fixo no vazio.
“Seres que vivem mais do que o sol”, refletia ele. “Quanto tempo vive um sol? Metade de um dia, já que nasce pela manhã e se põe à tarde? Um ano, o tempo que cada planeta leva para contorná-lo uma vez? Duzentos milhões de anos, que é o espaço de tempo necessário para contornar a galáxia à qual pertence? Ou mais ainda? Uma eternidade? Será que estes seres desconhecidos vivem eternamente? Mas, então, por que jamais alguém os viu? Desconhecem a morte?”
— Precisamos falar com o Thort a respeito. Depois de resolver o presente caso. Agora o segredo dos transmissores pentadimensionais me interessa mais do que nunca. E a urna de que falou, Marshall, onde se acha?
— Nas arcadas do subterrâneo do Palácio Vermelho, em Ferrol. E somente o Thort conhece a maneira de chegar a ela.
— O Thort, então... — murmurou Rhodan. — Ele é a chave...
Bell levantou os olhos. Marshall perguntou, intrigado:
— A chave? Chave para quê, Perry?
— A chave para a vida eterna — disse Rhodan, sonhadoramente.

* * *

Muito mal-humorado, o almirante Crek-Orn, comandante supremo dos tópsidas no planeta conquistado de Ferrol, se encontrava diante de sua mesa de trabalho no Palácio Vermelho. A larga boca de réptil estava firmemente contraída, denotando intensa contrariedade. As notícias alarmantes se sucediam em ritmo ininterrupto, não lhe dando sossego.
Um ordenança acabava de entrar.
— No setor do nono planeta foram avistadas numerosas formações de caças, que nossas naves perseguiram. Mais uma vez não houve reação; eles simplesmente fugiam. Perdas até o presente, nenhuma.
O tópsida, dentro do vistoso uniforme de almirante, bateu com o punho sobre a mesa.
— Se o inimigo não ataca, por que é que vocês ficam parados? Não dei ordem para aniquilar todo e qualquer adversário que aparecesse?
— Eles são velozes demais, almirante! — replicou o mensageiro, cautelosamente. Não queria atrair para sua pessoa a ira do importante personagem, representante do Déspota ali naquele mundo estranho; e ele tinha o poder de impor a penalidade que julgasse cabível. — Assim que embicamos para o lado daqueles minicaças, eles aceleram de uma maneira inacreditável e somem. Ainda não conseguimos destruir um só caça, muito menos capturar algum. Bem que nossos técnicos se interessariam vivamente pelo sistema de propulsão que usam.
— É de origem arcônida — murmurou o almirante, aborrecido. — Assim como nossa nave de guerra perdida. Não acharam nenhum vestígio dela?
— Ainda não, almirante! Mesmo nossos espiões enviados para o nono planeta não conseguiram descobrir a menor pista. É como se ela tivesse desaparecido da quarta dimensão.
— É bem possível — resmungou Crek-Orn, furioso. — E neste caso, jamais tornaremos a vê-la. O que talvez seja proveitoso, pois de que maneira enfrentaríamos aquele cruzador de batalha, estando ele nas mãos de inimigos mais inteligentes? Mas quanto aos pequenos caças... — sua voz se tornou autoritária e enérgica — nesses vamos ter que dar um jeito, e urgentemente! Espero que me traga em breve notícias auspiciosas. Leve o recado aos comandantes dos esquadrões de combate. Ofereço uma recompensa.
No entanto, nem aquela medida surtiu efeito.
Em vão os reptilóides se esforçavam para agarrar os ágeis aviões. Com inaudita temeridade, estes ousavam passar quase de raspão perto dos pesados cruzadores, se esquivando a seguir em manobras rapidíssimas. E paulatinamente iam atraindo as forças inimigas para longe de Rofus.
Enquanto isso, Bell fizera a Stardust-III aterrisar tranqüilamente em Rofus, pousando com ela na imensa caverna de um hangar recém-construído, no qual caberiam facilmente esquadrilhas inteiras. Rhodan deu suas instruções, e dez minutos após o desembarque estava sentado diante do Thort, cujo alívio era evidente.
— Sinto-me satisfeito por ter atendido tão prontamente ao meu chamado — disse ele, dando início à conversa. Rhodan, Crest, Thora e Marshall defrontavam-no. — Os tópsidas se preparam para invadir este mundo, e não sabemos como repeli-los. Vocês com sua nave esférica...
— Tencionamos bater os tópsidas sem recorrer à nave — disse Rhodan, com displicência. Sem dar atenção ao ar de espanto do Thort, continuou: — Eu trouxe de meu planeta um grupo especial, que daqui por diante será destacado para combater o inimigo. Dentro de poucos dias, ou semanas, poderá regressar a Ferrol.
— Minha frota de combate está à sua disposição, como força de apoio.
— Obrigado, é para este fim que vou usá-la. Só que não conto com lutar abertamente contra os tópsidas. Claro que não fugiremos, caso formos forçados a travar batalha; no entanto, quero que o maior número possível de tópsidas retorne ao seu planeta de origem, a fim de relatar suas experiências. Isto acabará de vez com as veleidades de andar conquistando mundos. Pelo menos no sistema de Vega, ou no do Sol.
— Sol? — indagou o Thort, ávido. — É assim que se chama o astro central de seu sistema?
— Isso mesmo — concordou Rhodan, percebendo claramente o súbito interesse do ferrônio. Procurou levar o assunto para outro lado, indagando: — Os transmissores para Ferrol continuam em atividade?
— Sim, temos ligação constante com os sichas. Em Sic-Horum a situação ainda é de calma. Quequéler dirige a resistência em Ferrol.
— Ótimo — comentou Rhodan. — Então é por ali que vamos começar. A conquista da nave arcônida nos proporcionou boa soma de experiência, portanto teremos menos dificuldades desta vez. Vamos quebrar a fibra do inimigo diretamente na raiz.
— Que quer dizer com isso?
— Que vou mandar minha gente para Ferrol ainda hoje. Bell, você dirige a ação. Crest, tem mais alguma sugestão?
O arcônida sacudiu devagar a cabeça:
— Adivinho o que pretende fazer, e não vejo solução melhor. Seus mutantes são as pessoas mais indicadas para infligir aos tópsidas um choque de efeito duradouro. Concordo com seu plano.
Thora deu igualmente seu apoio, com um aceno silencioso.
— Pois bem — disse Rhodan, satisfeito. — Thort, pode nos fornecer transporte para conduzir meu grupo de mutantes até os transmissores? Eu dirijo a operação até lá, depois Reginald Bell assume o comando. Sabe o que deve fazer, não é, Bell?
— Dá para desconfiar... — disse Bell, com um sorriso de cumplicidade. — Mas se aceitam sugestões adicionais, caso Vossa Excelência...
— Pois está na hora de dá-las — concluiu Rhodan, levantando-se. Antes de dar a breve conferência por encerrada, ainda se dirigiu ao Thort: — Mais uma coisa, gostaria que me contasse o que sucedeu em Ferrol há alguns milênios. Possui registros históricos?
O soberano ferrônio empalideceu, lançando a Rhodan um olhar espantado. A boca miúda tinha se escancarado, como se as palavras lhe tivessem ficado entaladas na garganta. Os olhos piscavam nervosamente. John Marshall observava atentamente o Thort, com os sensores mentais assestados para o cérebro do ferrônio; tentava captar as imagens e impulsos que o dominavam. No entanto, só deparou com profunda consternação. Por fim, o Thort disse:
— Nossa História? Mas que lhe interessa nossa História, Rhodan? Que relação poderá ter ela com a atual guerra contra os tópsidas?
— Talvez nada, talvez muita coisa, Thort. Então, que me diz? Vou poder me inteirar do passado de seu povo, ou a História dos ferrônios deverá permanecer perpetuamente em sigilo absoluto? E, neste caso, por quê?
— Mas, de modo algum! — gaguejou o ferrônio, ainda não refeito de sua surpresa. — Que motivos teria eu para mantê-la em segredo? Afinal, somos amigos, e entre amigos não deve haver segredos. Revele-me a posição galáctica de seu sistema planetário, e em troca lhe conto a história de nosso passado.
— Também a dos seres que vivem mais do que o sol?
Desta vez até Rhodan ficou impressionado com a alteração sofrida pelo Thort. O soberano ferrônio perdeu a cor; o rosto azulado tomou uma coloração cinza esbranquiçada. Nos olhos transparecia o medo, e algo semelhante a veneração. Tremia da cabeça aos pés.
— Que sabe a respeito disso?
— Sei, ora... — disfarçou Rhodan, com um gesto displicente da mão. — Então, vai me contar quem são estes seres, e onde vivem?
O Thort sacudiu, desconsolado, a cabeça:
— Eu não poderia, mesmo que quisesse. Isso foi há muito tempo, e os relatos a respeito se perdem na origem dos tempos. Mas estou disposto a lhe obter informações a respeito para podermos discutir o assunto. No entanto, duvido que possa ajudá-lo.
— Pois eu acho que pode — disse Rhodan, aliviado, lançando um olhar a Bell. — Não percamos mais tempo. Já esperamos demais.
Dirigindo-se novamente ao Thort, continuou:
— Não vou esquecer sua promessa. E não julgue que se trata de algum capricho meu. Caso estes misteriosos seres vivam efetivamente mais do que o sol, eles devem existir ainda. Pois o sol continua existindo...

* * *

Convocado por uma mensagem de Rhodan, Quequéler se materializou na cabina do transmissor em Rofus, com suas costumeiras roupas coloridas. Rhodan, Bell e os mutantes já estavam à espera, cumprimentando-o alegremente.
— Prazer em rever nosso aliado! — disse Rhodan. — Como vai a luta de libertação?
— Exigindo baixas, sem nos levar um passo adiante — queixou-se Quequéler. — Os tópsidas se tornam cada vez mais desconfiados; dispensaram todos os empregados nativos, e redobraram a vigilância em todo canto. Fizemos contato com diversos outros grupos de resistência, e organizamos melhor nossas atividades; em troca, as medidas de represália dos tópsidas se tornaram mais rigorosas. Recentemente, uma aldeia ferrônia inteira foi arrasada; mataram todos os habitantes, sem exceção, por suporem que havia entre eles um guerrilheiro da resistência.
— Métodos bem parecidos com os aplicados na Terra... — murmurou Rhodan, em tom melancólico, com rugas profundas na testa. — Que mais há de novo?
— Nada de importante. Vamos continuar lutando até que o Thort possa regressar, ou até... — engolindo em seco, completou com voz sumida: — estarmos todos mortos.
— Não se preocupe, isso jamais acontecerá! — afirmou Rhodan. — Trago comigo reforços. Os sichas já tiveram ocasião de conhecer alguns dos integrantes do meu Exército de Mutantes. Tako Kakuta, por exemplo. Devem se recordar igualmente de Wuriu Sengu. Os nomes não importam, todos eles são amigos dos ferrônios, e, conseqüentemente, dos sichas. O quartel-general da resistência será transferido para Sic-Horum, a capital montanhesa. De lá, Reginald Bell comandará a ação dos mutantes conforme for conveniente.
— Temos tudo preparado para recebê-los — informou Quequéler.
— Obrigado. Combinei com Bell todos os detalhes, e ele sabe como agir. Dentro de três dias irei pessoalmente a Sic-Horum, para acompanhar a última fase da guerra de libertação. Por enquanto, adeus, e boa sorte!
Com ligeira hesitação, Quequéler falou:
— Faltam-nos armas, Rhodan. Sem armas...
— Armas? — indagou Rhodan, distraidamente. Mas logo um sorriso de compreensão lhe iluminou o rosto. — Ah, sim! Quase me esqueci de mencionar este aspecto. As armas são dispensáveis, Quequéler. A partir deste instante, a luta contra os invasores será travada com as forças da mente. Usaremos o cérebro. E acho que nossos cérebros são muito superiores aos dos tópsidas.
A cabina do transmissor se abriu, admitindo os primeiros mutantes.


III



Tequer-On estava em presença de seu chefe supremo, o almirante Crek-Orn. Estivera praticamente morto há algumas semanas, quando sua nave-capitânia foi destruída no embate com o cruzador arcônida. Uma nave tópsida extraviada o encontrara vagando no espaço, puramente por acaso, tendo-o recolhido.
O aspecto daqueles dois reptilóides, cobertos de escamas negras acinzentadas, fazia pensar num pesadelo. As fisionomias de batráquios, com bocarras imensas, os olhos negros e salientes, as cabeças achatadas e os membros de lagarto não contribuíam em nada para lhes conquistar as simpatias; nem dos homens, nem dos ferrônios. Além disso, não era só sua aparência que transmitia a impressão de crueldade, eram cruéis mesmo.
— A ofensiva terá início amanhã — declarou Crek-Orn, em tom incisivo. — Podemos assumir como bastante provável a certeza de que o cruzador arcônida roubado se acidentou. Sem saber manobrá-lo, os ferrônios devem ter sumido irremediavelmente no hiperespaço com ele. O que aumenta nossas chances de obter uma vitória rápida sobre essa raça, e tomar posse do sistema inteiro. E então encontraremos finalmente aquela nave que emitiu os pedidos de socorro, determinando nossa vinda para cá.
— Às vezes penso — comentou Tequer-On — que nos enganamos, e aterrissamos no sistema errado. Afinal, um erro de cálculo seria desculpável no cômputo de distâncias tão imensas.
— Os técnicos do Déspota jamais cometem erros! — protestou o almirante, severamente; e sua atitude arrogante relembrou ao subordinado que entre os tópsidas as ações dos superiores hierárquicos são inquestionáveis. — Este sistema é o correto! — continuou Crek-Orn. — Nós encontraremos a nave avariada, que vai compensar a que perdemos. Ou pensa, por acaso, que pode regressar a Topsid sem seu barco? Sabe muito bem o que o esperaria...
Sim, Tequer-On sabia.
— O Déspota é um imbecil! — declarou Tequer-On, com a maior naturalidade. — É um indivíduo perverso, e também muito bobo. Insisto nisso.
O almirante fitou, estarrecido, seu oficial, emitindo um assobio agudo como sinal da ilimitada surpresa que o dominava. Suas escamas arrepiadas estrelejaram nervosamente e mudaram de cor.
— O quê? — arquejou ele, inspirando com esforço. Jamais alguém ousara enunciar palavras tão ofensivas em sua presença. O jovem oficial teria que ser submetido a conselho de guerra imediatamente. E era dever iniludível do almirante recomendar sua condenação. A sentença era uma só: a morte. — Que foi que disse?
— O senhor também não passa de um idiota, almirante! Não percebe o quanto estamos sendo injustos? Afinal, os ferrônios são gente simpática e amistosa, com todo o direito de viverem em paz nos seus planetas. Não é nada correto de nossa parte querer lhes roubar a pátria e nos instalar no mundo deles. Portanto, repito: o senhor é idiota por executar as ordens do Déspota sem a menor objeção. E terá que responder por isso mais tarde, quando for julgado e chamado à responsabilidade.
O almirante procurou aquietar as escamas arrepiadas. Nunca em toda a sua carreira tinha visto um oficial se amotinar diante de seus próprios olhos. Aquilo só podia ser loucura; Tequer-On tinha perdido o juízo.
— Em nome do Déspota, considere-se preso! — berrou Crek-Orn.
Calcou o botão do intercomunicador e aguardou a entrada do ordenança.
— Soldado, chame os guardas! Tequer-On foi degradado de seu posto, e exonerado de todas as suas funções. Será colocado diante da Corte Marcial.
— Almirante, me parece que o senhor não está regulando bem! — disse o ordenança, sem se mover do lugar.
Crek-Orn se sentiu à beira de um colapso. Todo o seu mundo interior ruiu. Por tradição, sua raça só conhecia a obediência. O menor indício de rebelião sempre fora suprimido com as medidas adequadas. E agora... Fez soar o alarma. Guardas armados se precipitaram no recinto, empunhando as mortíferas pistolas de raios.
— Prendam esses dois! — grunhiu Crek-Orn, ofegante. — Eles insultaram o Déspota. Convoquem a Corte Marcial! Eles devem ser...
Não conseguiu continuar, se abateu em sua poltrona. Era idoso demais para suportar por mais tempo aquela aberração. Os dois acusados foram desarmados em silêncio pelos guardas. Deixaram-se levar sem reação; em suas faces reptilóides lia-se ilimitada surpresa e incompreensão.
— Ué, que será que aconteceu? — murmurou Tequer-On. Porém não recebeu resposta.

* * *

Aquilo era apenas o prelúdio da ofensiva dos mutantes.
Bell tinha posto novamente em funcionamento o transmissor individual no Palácio Vermelho. Assim poderia levar seu pessoal, um a um, diretamente para a central dos tópsidas. O receptor ficava num compartimento secreto, entre paredes falsas, e ainda não havia sido descoberto pelo inimigo. Passagens estreitas davam acesso a um sem-número de salas, gabinetes e corredores. Arranjo que permitia aos mutantes aparecer inesperadamente em qualquer ponto do palácio, no momento que escolhessem, e desaparecer rapidamente do cenário. Os construtores tinham pensado, efetivamente, em tudo. Porém na certa nunca lhes ocorrera que aquelas engenhosas providências serviriam um dia para repelir invasores estranhos.
Wuriu Sengu era mais uma vez a figura-chave. Acocorado ao lado de Bell no vão, dentro das paredes, punha em ação suas incríveis capacidades. O robusto japonês tinha um rosto redondo, com cabelos curtos e eriçados cobrindo o crânio. Era o vidente do Exército de Mutantes. Matéria sólida não representava obstáculo para seus olhos. Enxergava através de tudo, sendo capaz de focar qualquer objeto em cuja estrutura atômica se concentrasse. Assim que se desinteressava dele, o objeto voltava a ser invisível.
— Como é? — sussurrou Bell, agitado. Achava enormemente divertida aquela arriscada briga de bastidores, no próprio seio do quartel-general dos reptilóides. Vinha bem de encontro à sua natural tendência de complicar o mais possível as coisas, a fim de que o resultado final fosse mais sensacional. Por isso não tomara logo a providência mais simples: enviar sumariamente os mutantes para determinar aos soldados do exército inimigo que se amotinassem. Já que se tinha metido naquilo, queria ao menos se divertir um pouco, e resolveu agir por etapas. Os tópsidas deviam recordar o episódio pelo resto de suas vidas.
— O almirante mandou deter o oficial e o ordenança — sussurrou o japonês, em resposta. — André Noir trabalhou direitinho.
O filho de franceses radicados do Japão sorriu, lisonjeado. Era um hipno, e podia impor sua vontade a quem quisesse. Não só a pessoas, mas também a animais e a seres extraterrenos, conforme acabava de demonstrar mais uma vez.
— Que gozado! Liberei agora o tal Tequer-On de minha influência. Claro que ele não se lembra de nada, e está quebrando a cabeça para saber por que diabos o general lhe deu voz de prisão.
— Almirante — corrigiu Sengu, delicadamente.
— Ora, tanto faz, Wuriu. O essencial é que o cacique das lagartixas está vendo a disciplina de sua gente ir por água abaixo. Sem encontrar explicação para o fato, vai começar a duvidar da própria sanidade. Seria ótimo se conseguíssemos fazê-lo acreditar em fantasmas.
— Chegaremos lá! — afirmou Bell, com um largo sorriso, perceptível até à fraca luz da lanterna que os iluminava. — O exército tópsida inteiro vai acabar acreditando em fantasmas. Pois é o que Rhodan deseja.
Sengu fixou a parede. Pouco depois informava:
— Os guardas levaram os dois prisioneiros para a cadeia, trancando-os numa cela. Estou curioso por ver o que o almirante vai fazer agora. Será mesmo que vai condenar seu melhor colaborador à morte?
— A moral das lagartixas não lhe permite outra saída — disse Bell. — É uma raça bem doida essa.
— Por quê? — indagou André Noir, em tom sério. — Ainda me recordo de que na Terra houve tempos...
— Psiu! — fez Anne Sloane, que até então se mantivera calada. A frágil americana era uma telecineta. Com sua força mental podia erguer e deslocar qualquer objeto, a grandes distâncias. Sua mão direita estava entrelaçada com a de Sengu; assim ela podia também ver o que o japonês via. Aquela capacidade de combinação entre os poderes dos mutantes ampliava consideravelmente seu campo de ação.
— O almirante volta a si — continuou Sengu. — Fala qualquer coisa no comunicador. Claro que não entendo o que ele diz.
— Mas eu entendo — interrompeu André Noir, segurando a outra mão de Sengu. Isolado em seu canto, apenas o não-mutante Reginald Bell ficou sem ver nem ouvir nada. — Ele está ordenando a convocação de uma conferência extraordinária. Todos os comandantes das naves em terra devem comparecer. Ao mesmo tempo, mandou aquecer os hipertransmissores. Pretende se comunicar diretamente com o Déspota em Topsid após a conferência. Puxa, essa eu quero ver! São mais de oitocentos anos-luz...
— Ora, será que ele já entregou os pontos? — indagou Bell, com tal desapontamento que Anne Sloane foi forçada a rir involuntariamente. — Quero que ele sinta bastante medo antes de...
— Não tem por que se preocupar — interrompeu o francês, com um brilho de excitação nos olhos. Partilhava do ponto de vista de Bell. — Muito pelo contrário! Quer permissão para sacrificar o oitavo planeta, destruindo Ferrol. Na hora de desligar o aparelho ainda resmungou qualquer coisa, a meia voz, só que não entendi o que ele queria dizer.
— Que foi que ele disse? — perguntou Bell, vivamente interessado.
— Algo como o mundo errado, mas hei de descobrir o certo!
— Referia-se à Terra — resmungou Sengu.
— Lá na Terra a gente vive mais do que o sol?
Bell se levantou num pulo.
— O quê?! — perguntou, ofegante. — Repita isso!
André Noir sorriu triunfalmente.
— Até que um dia consegui abalar sua habitual fleuma, não? Sim, foi exatamente isso que o almirante murmurou: o mundo certo, onde os habitantes vivem mais do que o sol. Isso significa algo?
— Rhodan vai gostar demais dessa informação — respondeu Bell, voltando ao seu canto. — Quando é a conferência?
— Dentro de uma hora. Logo depois, a comunicação com Topsid.
Bell remexeu em seu minúsculo rádio de pulso.
— Pois eles vão ver uma coisa — resmungou, aborrecido. Parecia ter esquecido que pretendia se divertir com aquela aventura.

* * *

O silêncio caiu sobre a audiência quando o almirante Crek-Orn entrou na pequena sala de reuniões. Ele percebeu imediatamente a atmosfera tensa; o ceticismo e a desconfiança dos oficiais presentes era quase palpável. Com uma curta saudação, Crek-Orn pediu que ficassem à vontade. Depois, com o maior desembaraço, como se fosse a coisa mais natural do mundo, o digno almirante, de escamas descoradas pelo nervosismo, emitiu um som totalmente estranho para os presentes. Com um cocoricó sonoro, começou a bater com os braços, e singrou serenamente para o pesado lustre suspenso no teto, se aninhando entre os braços metálicos. Lá do alto, fitando seus oficiais estarrecidos, iniciou sua fala:
— Senhores oficiais! Nossos inimigos, os ferrônios, lançam mão dos recursos mais abjetos para se opor à nossa soberania. Há poucos minutos, Tequer-On insultou nosso Déspota na minha própria presença. Chamou-o de imbecil, o que, na minha opinião, é subestimar as coisas. Por isso mandei prendê-lo, e ele será condenado à morte. Não podemos admitir que...
Crek-Orn foi impedido de continuar. Com um silvo agudo um dos oficiais se levantou, deixando apressadamente a sala. Outros dos reptilóides lhe seguiram o exemplo, inteiramente abalados. Porém um oficial mais idoso aproveitou a oportunidade pela qual certamente já vinha esperando há muitos anos.
— Calma! — gritou, com voz potente. — Não se deixem perturbar. Os estranhos que ajudam os ferrônios usam de bruxaria. Mantenham-se firmes e tranqüilos como eu. O adversário deve ser...
O oficial não foi além disso. Como desta vez André Noir não interviesse, para fazê-lo ver miragens, o tópsida sofreu tudo plenamente consciente, assim como os demais militares presentes. De repente o chão lhe fugiu debaixo dos pés, e ele levitou diagonalmente para o teto, na direção do almirante medrosamente encolhido entre as lâmpadas do lustre. Estreitamente abraçados, os dois reptilóides se agarravam ao precário suporte, com as escamas eriçadas e olhando com ar esgazeado para o caos que se estabelecia abaixo deles.
Os reptilóides presentes tinham visto o quanto bastava. Seus dois superiores mais graduados tinham se aliado às forças do mal, pretendendo levar todos eles à perdição. Era preferível enfrentar os ferrônios, que pelo menos podiam ser combatidos com meios naturais. Em fuga desordenada, abandonaram a sala. Nela ficaram apenas Crek-Orn e seu oficial veterano, à espera de que alguém viesse tirá-los do lustre.
Cerca de uma hora depois, o Déspota de Topsid recebia um comunicado detalhado, porém bastante confuso, dos acontecimentos ocorridos no sistema Vega. Deu ordem para sustentar a todo o custo a ocupação do planeta, até a chegada da comissão de inquérito que seria despachada imediatamente. Foi designado um novo comandante supremo, investido de plenos poderes.
O novo comandante, Rok-Gor, iniciou sua gestão mandando preparar sem demora o ataque ao planeta Rofus; um forte contingente militar devia bater e aniquilar as tropas ferrônias lá aquarteladas.
Lamentavelmente, com isso incorreu no erro de precipitar o desenrolar de fatos que seriam funestos para os tópsidas; mas claro que não poderia ter previsto isso.
Em seu esconderijo, Bell sacudiu energicamente a cabeça.
— Não, Rhodan disse que era para deixá-los em paz. Eles que ataquem. Deringhouse está de vigia com sua esquadrilha de caças. Ras Tshubai acompanha-o. Para mim é um mistério saber como é que ambos se acomodaram na apertada cabina do caça. Mas posso imaginar mais ou menos o que vai acontecer. Afinal, minha fantasia é bastante viva...
Mas desta vez Bell superestimara o poder de sua imaginação. Pois a realidade dos fatos acabou superando até seus sonhos mais fantasiosos.
Em seu pequeno avião, Deringhouse estava atento aos controles. A exígua cabina mal oferecia espaço para um homem se acomodar com relativo conforto. Ras Tshubai, o africano, possuía estatura avantajada. Espremido por trás da poltrona do piloto, esforçava-se por espiar pela escotilha; contorcendo-se todo, conseguia avistar um bom trecho do espaço cósmico. Ras Tshubai era um dos teleportadores do Exército de Mutantes; recorrendo unicamente à sua força mental, podia se transportar para qualquer lugar, desde que o conhecesse bem, ou pudesse enxergá-lo a olho nu.
Rhodan se comunicava diretamente com Deringhouse através da estação central em Rofus. Assim ficou sabendo da aproximação da frota encarregada de atacar o planeta.
Os cinqüenta e três outros componentes da esquadrilha de Deringhouse se mantinham perto dele, sem formação rígida. De vez em quando se espalhavam, para confundir eventuais sentinelas avançadas dos tópsidas, porém ficavam sempre a uma distância média entre Rofus e Ferrol.
Tequer-On, restituído à liberdade, comandava o esquadrão tópsida. Ainda sem conseguir explicar o que lhe acontecera, se esforçava para não deixar vir à tona o terror íntimo que o dominava. Mas estava firmemente decidido a eliminar a origem de todo o mal, que para ele residia em Rofus. Jamais poderia adivinhar que tais forças funestas se haviam aquartelado exatamente em seu próprio quartel-general.
Os vinte cruzadores bojudos emergiram da sombra planetária de Ferrol para o mar luminoso de Vega. Seus detectores acusaram imediatamente a presença dos caças espaciais, e Tequer-On mandou atacá-los.
Semi-reclinado em seu assento, diante dos comandos, ele observava, através da ampla escotilha, o odiado adversário; sabia muito bem que eram mais velozes do que qualquer nave tópsida. Portanto, foi com o maior espanto que não percebeu nos cinqüenta e tantos aviões a menor intenção de fuga. Será que pretendiam enfrentar o ataque unânime dos vinte cruzadores?
Com voz esperançosa ordenou, através do telecomunicador, um ligeiro desvio de rumo aos comandantes das outras naves; agora estavam em posição para o ataque.
Mostraria àqueles amigos dos arcônidas — parentes deles, certamente, já que possuíam semelhança física — a fibra dos tópsidas. Vê lá se ia permitir que aquele bando de arcônidas dominasse o Universo. Aquilo era privilégio dos tópsidas!
O primeiro-oficial da nave-capitânia entrou na central de comando. Porém, antes que conseguisse se acercar de Tequer-On para entregar a mensagem que trazia, algo de muito estranho aconteceu. O ar em torno do primeiro-oficial começou a tremeluzir, como que submetido repentinamente a forte aquecimento. Algo empurrou o reptilóide parado para o lado... e tornou-se visível. Voltando-se para trás, Tequer-On presenciava tudo boquiaberto. Bem no meio da central de comando, Ras Tshubai se materializou. Abriu um largo sorriso ao perceber o espanto dos dois reptilóides, cujos olhos saltavam das órbitas ainda mais do que o normal. Suas escamas eriçadas, em posição quase perpendicular ao couro, estrelejavam audivelmente. A cor variava do marrom ao rosa, passando depois ao esverdeado.
Com a maior calma, Ras tirou a pistola de raios da cintura do estarrecido primeiro-oficial, apontando-a contra o painel de comando. Acionou o detonador. O delgado raio energético fez dos cintilantes instrumentos uma massa incandescente e gotejante de matéria inservível, que foi se evaporando, desprendendo tremendo calor.
Apesar de não compreender o que acontecia, Tequer-On ainda encontrou força para agir. Saltando do assento, se precipitou sobre a aparição de pele escura; mas, antes que pudesse lhe deitar as garras, ela desapareceu no ar, sem deixar o menor vestígio. Apenas a pistola de raios, indevidamente utilizada, caiu com um baque seco sobre o piso metálico. O comandante e seu primeiro-oficial se encontravam novamente sós na central demolida.
Ras Tshubai, o teleportador africano, se transferiu para outro setor da imensa espaçonave. Arrancou algumas peças de artilharia de seus suportes, correu com os reptilóides completamente atordoados, abriu a comporta de ar e se desmaterializou.
Um rápido exame mostrou a Tequer-On que o tiro do inesperado invasor destruíra apenas o equipamento secundário. O sistema de comunicação com as demais naves ainda funcionava; também a comporta de ar podia ser fechada a tempo, mediante controle do painel. Mas justamente aquele detalhe o fazia refletir. A negra aparição teria deixado a nave pela comporta? Neste caso, devia ser capaz de sobreviver no vácuo!... Um estremecimento percorreu a escamosa espinha de Tequer-On. O intruso não devia ser nenhum arcônida, portanto; talvez pertencesse a uma das raças auxiliares. E desta deviam provir aqueles inexplicáveis poderes...
Através da escotilha, constatou que os pequenos aviões inimigos mantinham o mesmo afastamento. Tanto fazia tentar se aproximar deles, ou procurar ganhar distância, o intervalo não se alterava. Tequer-On se comunicou com as demais naves de sua frota:
— Curso para o nono planeta! Nada nos impedirá de executar as ordens de Rok-Gor. A ala direita...
Interrompeu-se, literalmente engasgado. Na tela diante de si, via a cabina da nave número sete; e lá se passava algo que relembrava desagradavelmente o que sucedera a ele próprio há alguns instantes.
Por trás do comandante da número sete surgiu o fantasma negro. Tequer-On não foi capaz de alertar o desavisado tópsida, tanto o fascinava o espetáculo, que podia igualmente ser presenciado pelos comandantes das demais naves, pois Ras Tshubai aterrissara bem diante da objetiva do telecomunicador.
Com um leve toque no ombro, a aparição — ou fosse lá o que fosse — comunicou sua presença. Não habituado a comportamento tão desrespeitoso, o comandante se virou, indignado. No entanto, o gesto parou no meio, quando deu com Ras Tshubai.
Tequer-On recuperou a fala finalmente.
— A pistola! Matar imediatamente! — coaxou ele no microfone. — Depressa!
O comandante da nave número sete não deu a menor demonstração de ter escutado a ordem de seu superior. Continuava sentado em sua poltrona, semivirado para trás, fitando o intruso imóvel como um coelho hipnotizado.
Com seu costumeiro sorriso, Ras se encaminhou para o painel de instrumentos. Baixou algumas alavancas ao acaso, apertou botões e comutadores. O comandante acompanhava com o olhar sua atuação, incapaz de esboçar o menor movimento.
Enquanto Ras se desmaterializava, a nave número sete reagiu ainda à nova programação, passando a se portar de maneira estranha. Disparou obliquamente para fora da formação, descreveu algumas figuras abstratas, para seguir depois de costado, oscilando acentuadamente; com toda a artilharia abrindo fogo, se afastou em velocidade crescente, tomando o rumo da ofuscante luz de Vega. Tequer-On não tardou a perdê-la de vista, e a nave deixou de responder aos apelos do telecomunicador.
Ras Tshubai terminava, então, sua incursão à nave número três, onde espalhara o pânico entre a tripulação.
Tequer-On nem teve tempo de deter o pensamento nas incríveis ocorrências, pois algo ainda mais inaudito lhe reclamava a atenção: os minúsculos caças inimigos atacavam! Precipitavam-se contra os pesados cruzadores em velocidade insana, porém no último instante se desviavam deles sem motivo aparente. No entanto, conseguiam com isso colocar em total desordem a formação das naves tópsidas. Momentos após repetiam a arriscada brincadeira. Da parte dos caças, nenhum tiro foi disparado.
Tequer-On mandou fazer fogo com os potentes radiadores. Não tardou a constatar que o único efeito era o de desperdiçar sua preciosa energia. Os pequenos aviões eram ágeis e velozes demais; nem sequer um dos tiros chegou a atingir o alvo.
A situação se agravou ainda mais. O cruzador número treze se adiantou repentinamente de sua colocação; numa rápida manobra, se colocou de lado, impedindo o caminho da frota em avanço. Nas telas das demais naves apareceu a face do comandante do cruzador número treze.
— Assumo o comando da esquadra! Regressem imediatamente a Ferrol! Meia-volta imediata, que vou abrir fogo!
Antes que alguém pudesse compreender o que acontecia, os pálidos raios dos canhões energéticos alvejavam os demais cruzadores. Os anteparos protetores ligados absorveram sem maiores problemas o inesperado excesso de energia. No cruzador número nove, no entanto, devia ter ocorrido um descuido — os anteparos não se encontravam em função. A nave desapareceu. Em seu lugar, uma nuvem levemente fosforescente vagava no espaço, se espalhando com rapidez. Pouco a pouco ela se dissipou por completo.
O cruzador amotinado número treze, no entanto, voltou tranqüilamente às fileiras, sem qualquer comentário de seu comandante. Instantes após, ele indagava do paradeiro da nave número nove.
Tequer-On tremia da cabeça aos pés ao tentar lhe responder. Sabia que o comandante da número treze não tinha agido daquela forma por vontade própria. Havia sido subjugado pelo mesmo espírito mau que quase causara sua própria desgraça. Esses arcônidas pareciam dispor de poderes que pessoa alguma seria capaz de avaliar claramente.
No mesmo instante Tequer-On sentiu se desvanecer, enquanto percebia que uma personalidade alheia tomava conta de sua consciência. Mas, contrariamente à experiência anterior, ainda conservou uma fração de conhecimento. Perdera a capacidade: de tomar decisões, porém tinha sobrado discernimento suficiente para perceber que algo de diferente e inexplicável invadia seu cérebro, algo incompreensível.
“Podemos aniquilar vocês”, dizia uma voz que Tequer-On entendia, sem no entanto ouvi-la. “É o que faremos caso não desistam dessa guerra inútil. Voltem imediatamente! Comunique a Rok-Gor que o assalto a Rofus fracassou. Retirem-se do sistema Vega, ou nenhuma das naves tópsidas regressará à pátria.”
Tequer-On sentiu a pressão diminuir; tinha recuperado a capacidade de raciocínio. Suas mãos providas de garras avançaram para o microfone do telecomunicador; agarrando-o, ordenou com voz rascante e insegura aos seus comandados:
— Atacar e destruir o nono planeta! Não permitam interferência do que quer que seja. E caso eu der ordens em contrário...
Não chegou a concluir a frase. Sentiu a influência estranha voltar, desta vez com oclusão total de sua própria consciência. Uma vertigem lhe obscureceu a visão. Mas durou apenas um segundo. Depois, com voz gutural, Tequer-On continuou:
— ...terei razões para isso. Como agora. Regressem imediatamente para Ferrol! Esqueçam o ataque. Entendido?
Entender, ninguém entendia. Porém as naves deram volta obedientemente, rumando para o oitavo planeta. E ninguém se irritou mais com o caso, posteriormente, do que Tequer-On, que não soube explicar a Rok-Gor os motivos daquela decisão estapafúrdia.
— Muito bem — disse o chefe supremo, com os olhos cravados no teto. — Conte suas experiências à comissão de inquérito, daqui a alguns dias. A data da chegada já foi anunciada.

* * *

A cena fazia pensar num grotesco filme de terror. Sentado à sua mesa de trabalho, o novo comandante dos tópsidas, Rok-Gor, riscava com as afiadas garras o tampo de plástico. Os rabiscos tortuosos e embaralhados traduziam claramente seu nervosismo e confusão interior. Naquele dia devia chegar a comissão de inquérito proveniente de Topsid.
Tinha diante de si Tequer-On e Crek-Orn, o comandante deposto. E mais um parceiro invisível: através dos olhos e dos ouvidos de Crek-Orn, Ralf Marten participava da sumária reunião preparatória.
Filho de um alemão e de uma japonesa. Marten herdara do pai a estatura elevada e os olhos azul-claros; a mãe lhe legara os cabelos escuros. Mas a capacidade de assumir personalidades alheias não lhe viera dos pais; era conseqüência da crescente radioatividade na atmosfera terrestre. Naquele momento, Marten se valia dela; sem que ninguém dos presentes desse por isso, se apossara dos olhos e dos ouvidos do reptilóide, vendo e ouvindo tudo o que se passava. Seu corpo rígido e imóvel, no entanto, permanecia no compartimento secreto do Palácio Vermelho, vigiado por Bell e seus mutantes.
As três avantajadas lagartixas se portavam como seres racionais, demonstrando possuir realmente inteligência, noção esta que algum tempo atrás só era defendida por visionários, que ninguém levava a sério. No entanto, era evidente que os reptilóides não se sentiam à vontade no ambiente estranho, apesar de sua incrível capacidade de adaptação. O mobiliário em seu planeta natal devia ser bem diferente, mas ali em Ferrol se contentavam com o que haviam tomado aos ferrônios humanóides.
— Trata-se de hipnose à distância — coaxava Tequer-On, tentando justificar suas duas decisões falhas. Na primeira, insultara o Déspota; na segunda, dera ordem de retirada quando o ataque procedia satisfatoriamente. — Eu não sabia o que estava fazendo, portanto não posso ser responsabilizado. Eles devem possuir aparelhos para influenciar a mente.
— E como explica a repentina capacidade de voar de Crek-Orn, e a aparição daquele fantasma negro que demoliu as instalações internas de sua nave em pleno vôo? — perguntou Rok-Gor. — Será que também foi hipnotismo?
Tequer-On ficou devendo a resposta. O que poderia dizer? O ex-comandante supremo opinou:
— O inimigo deve possuir poderes desconhecidos para nós. Conforme já observamos durante nossas expedições de conquista, raças estranhas têm às vezes características inéditas, para as quais sempre acaba aparecendo explicação. É o que acontecerá desta vez também. Amanhã a comissão...
— Pois foi exatamente por isso que foi convocada — exclamou Rok-Gor, com severidade. — Nós todos seremos considerados culpados, caso esta guerra não apresentar resultado positivo. E ela estará perdida se a comissão optar pela retirada total, o que em hipótese nenhuma pode acontecer. Portanto, precisamos encontrar uma explicação para estes fatos, e um modo de evitar sua repetição. Aguardo sugestões, já que vocês dois colheram experiências práticas que podemos analisar.
— Não lembro de nada — confessou Tequer-On. — A gente fica totalmente inconsciente, com a memória em branco. Portanto, que quer que eu diga?
— Idiotice! — berrou Rok-Gor, exaltado, jogando longe com a pata uma cadeira desocupada ao seu lado. — Na comissão existem especialistas que sabem interpretar os menores indícios. Por medida de cautela, eles só desembarcarão da nave-correio quando a ligação direta com Topsid estiver funcionando. Com isso excluem a possibilidade de cair inadvertidamente numa cilada. O pessoal em Topsid será testemunha visual das sindicâncias, receberão a imagem gravada através do hiperespaço. Repito que precisamos encontrar uma solução satisfatória. Em caso contrário, os planos de invasão podem ser cancelados, ou então seremos substituídos. O que significaria, nas duas hipóteses, o fim de nossas carreiras. Creio que estamos entendidos!
— Foi um erro convocar a tal comissão de inquérito — observou o almirante Crek-Orn, em tom reprovador. — Eu ainda poderia estar ocupando meu posto de comandante supremo, e acabaríamos encontrando uma saída. Fantasmas não existem, e...
Crek-Orn perdeu a fala. Com os olhos saltando das órbitas, fitava a cadeira jogada num canto pelo brusco gesto de Rok-Gor. Como que conduzidas por mãos invisíveis, as peças espalhadas voltavam a se juntar; depois o móvel se alçou suavemente no ar, ficando suspenso junto ao teto, exatamente sobre a cabeça do novo comandante-em-chefe. Quando Rok-Gor, alertado pelo olhar fixo de Crek-Orn, olhou para a cadeira fantasmagoricamente pendurada no vazio, esta se desprendeu de repente. Rok-Gor não reagiu com a necessária rapidez, preocupado em interpretar o absurdo da situação. Precipitando-se para baixo como uma pedra, o móvel atingiu com violência a dura cabeça blindada do tópsida; os pés torneados se entalaram em torno de seu pescoço como um colarinho.
Crek-Orn e Tequer-On presenciavam os apuros de seu superior com um misto de medo e regozijo. Aturdido pelo susto, Rok-Gor não ousava se mover. Ralf Marten, em seu esconderijo no Palácio Vermelho, relatava com lábios semicerrados tudo que via e ouvia com os sentidos surrupiados a Crek-Orn. Encolhido em seu canto, Bell ria sozinho; não lhe era difícil visualizar a cena em imaginação. Anne Sloane suspirou de alívio quando pôde soltar a cadeira.
— Pelos deuses do Déspota! — guinchou Rok-Gor, apavorado. — Que foi isso?
— A cadeira! — murmurou Tequer-On, num fio de voz. — A cadeira se vingou porque foi chutada. Objetos inertes ganham vida, e...
— Que nada! — exclamou Crek-Orn. — Isso foi truque. Uma ilusão que...
— Chama isso de ilusão? — grunhiu Rok-Gor, arrancando os restos da cadeira do pescoço, e atirando-os longe raivosamente. — Tenho um galo na cabeça. Sabe me dizer desde quando ilusões provocam galos?
— Não foi isso que eu quis dizer — apaziguou Crek-Orn. — Claro que o acontecimento em si não pode ser classificado de ilusão. Mas é possível que exerçam influência à distância sobre nossa mente, podendo até mover coisas. Sei lá se eles fazem isso com a ajuda de máquinas, ou puramente mediante sua energia cerebral...
— Ora, isso é asneira! — protestou Rok-Gor, sacudindo desesperado a cabeçorra. — Os arcônidas não são superseres.
— Mas talvez seus aliados sejam. Pois não acha igualmente que nos defrontamos com mais de dois adversários? Para mim, são três: os ferrônios, os arcônidas, e mais alguém. E esse alguém sabe fazer mágicas.
— Impossível! Não me venha com este tipo de história! Apareça com tal versão diante da comissão de inquérito, e estaremos liquidados. Um adversário imbatível seria aceito pelos investigadores; mas magos e fantasmas? Não, meu caro, isso nunca foi desculpa para o fracasso de uma operação bélica. Além disso, ainda não achamos o cruzador arcônida que emitiu os sinais de socorro. Estou quase começando a acreditar que viemos parar no sistema errado.
— Esta estrela tem quarenta e dois planetas — observou Crek-Orn — e na certa eles ainda nos reservam muitas surpresas. Quanto ao inquérito de amanhã, tenho uma sugestão a fazer: você me substituiu no posto de chefe supremo; bem, resigno-me com isso, em vista das circunstâncias. Porém deparou com as mesmas dificuldades. Logo, não seria mais razoável entrar num acordo, a fim de não perecermos ambos? Por que não declarar à comissão, amanhã, que houve um engano, e que as assombrações cessaram? Desta forma, os investigadores se retiram, e nós podemos tratar de liquidar os ferrônios e os arcônidas, unindo nossos esforços.
— Não esqueça os mágicos! — acrescentou Tequer-On.
Rok-Gor contemplou-o com um olhar de reprovação, e esperou que Crek-Orn prosseguisse com seus comentários. Porém este nada mais tinha a dizer.
— Só isso? — perguntou Rok-Gor, desdenhosamente. — Querendo acabar esta guerra às minhas custas, é? Nada disso! A comissão vai saber a verdade, a fim de se inteirar das dificuldades que estamos enfrentando. Seu destino pessoal pouco me importa. O essencial agora é encontrar o cruzador arcônida e a raça da vida eterna.
Crek-Orn abaixou a cabeça, mas não antes de captar um fugaz olhar de esguelha de Tequer-On. Também ele não parecia estar disposto a ser sacrificado à ânsia de poder de Rok-Gor. Era evidente que a cúpula dos reptilóides entrava em dissensão.
— Até amanhã — continuou Rok-Gor — as atividades bélicas ficam suspensas. Quero que a comissão de inquérito seja recepcionada em grande estilo, com uma parada modelar. Vamos provar ao Déspota que sabemos enfrentar até circunstâncias imprevistas. Espero que executem minhas ordens com a costumeira exatidão. Mais alguma coisa?
A sessão foi encerrada, pelo menos para Ralf Marten, que voltou para junto dos companheiros. Seu corpo se reanimou; abrindo os olhos, deu com a face curiosa de Bell.
— E então?
— Esperemos até amanhã, Bell. Acho que vamos poder apresentar um espetáculo e tanto. Não esqueça que o soberano supremo dos tópsidas estará entre os espectadores.
— Vou caprichar! — prometeu Bell.

* * *

Em Sic-Horum, a capital dos sichas, Rhodan recebia os relatórios de seus homens, e os dos agentes ferrônios. Gloctor, chefe dos grupos de resistência contra os tópsidas no planeta ocupado, falava no costumeiro tom seco e lacônico. Sua aparência pouco diferia da dos habitantes da Terra; a boca era bastante menor, e os olhos vivos se enterravam profundamente nas órbitas.
Como seus patrícios ferrônios, tinha pele azulada, devido à radiação de Vega. Densa cabeleira lhe cobria a cabeça e parte do rosto.
— Os grupos em Thorta andam mais ativos. Só nos últimos três dias, mataram quatro patrulheiros tópsidas, prendendo pelo menos vinte deles. E dois veículos de transporte foram destruídos por explosões.

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