domingo, 7 de outubro de 2012

P-004 - O Crepúsculo dos Deuses - Clark Darlton [parte 1]

Autoria
CLARK DARLTON


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN




Perry Rhodan, comandante da nave Stardust, descobriu, na Lua, a nave gigantesca dos arcônidas que realizou um pouso forçado. Foi um acontecimento feliz para a humanidade.
Rhodan prestou auxílio aos arcônidas, uma raça em decadência que dominava um império galático que entrara em declínio. Na verdade, prestou auxílio aos homens, ao empregar o enorme poderio de Árcon para impedir a eclosão da terceira guerra mundial. Já existem muitos homens que compreendem os esforços de Rhodan em prol da união do mundo. Mas falta percorrer um caminho longo até o Crepúsculo dos Deuses, representado pelo abandono do pensamento mesquinho que até então prevalecia...







- - - - - - - - - -   Personagens Principais:   - - - - - - - - - -


Perry Rhodan — Salvador da humanidade e inimigo público número um.

Reginald Bell — Engenheiro eletrônico da Stardust. É o melhor amigo de Rhodan.

Dr. Eric Manoli e Dr. Frank M. Haggard — Em suas mãos repousava a vida do arcônida Crest — e da humanidade.

Crest e Thora — Os únicos sobreviventes da expedição espacial dos arcônidas.

Albrecht Klein, Li Shai-tung e Peter Kosnow — Três agentes secretos que juraram dar apoio a Perry Rhodan.

Allan D. Mercant, Ivan Kosselov e Mao Tsen — Chefes dos serviços secretos das três superpotências. Graças à intervenção de Rhodan a inimizade que os separava teve um fim súbito.

Tako Kakuta — Filho de sobreviventes da explosão atômica de Hiroxima.



I

Pelo meio-dia, o ribombar do canhoneio ininterrupto diminuiu um pouco. Só vez por outra uma granada detonava sobre a cúpula energética, liberava suas forças sob a forma de um relâmpago refulgente e não produzia qualquer outro efeito.
Depois de algum tempo, o silêncio começou a reinar.
Os quatro homens que se encontravam na sala de comando da nave terrena olharam-se. Com um movimento indolente, o capitão Reginald Bell, co-piloto da Stardust e perito em mecanismos de propulsão nuclear, afastou o tabuleiro de xadrez. Seus olhos cor de gelo refletiam a pergunta que acabou por formular:
— O que significa isso?
Seu parceiro lançou um olhar triste sobre as peças derrubadas e deu de ombros.
— Sei lá! Resolveram fazer uma pausa.
— Depois de nos terem bombardeado dias a fio? Aposto que têm um bom motivo para isso.
— Tenho certeza de que você ganharia a aposta — confirmou o homem que se encontrava diante dele. — Tudo tem seu motivo — disse, apontando para as peças do tabuleiro. — Aliás, isso foi um truque infame, pois você teria perdido o jogo.
— Caro Dr. Manoli — disse Bell em tom professoral — o que teria acontecido é exatamente o contrário. A partida estava praticamente ganha.
— Estava... para mim — respondeu o médico em tom tranqüilo.
— Talvez seja melhor deixarmos a solução do problema do xadrez para depois — interveio o homem alto e magro de olhos cinzentos, que se levantara e chegara perto da vigia redonda, para examinar o quadro que se oferecia no exterior. — Pelo que vejo, os asiáticos se retiraram.
Perry Rhodan, que já fora símbolo de um mundo entusiasmado pelas viagens cósmicas, passara a ser o inimigo público número um. Reforçou suas palavras com um lento aceno de cabeça. Passou uma das mãos pelos cabelos, enquanto mantinha a outra no bolso da calça. Depois de algum tempo, dirigiu-se ao outro homem que ali se encontrava e que, até então, estivera em silêncio:
— Doutor, como está Crest?
O Dr. Frank Haggard esboçou um sorriso bastante expressivo. Há algumas semanas, Bell trouxera-o da Austrália numa missão arriscada, a fim de curar Crest, que sofria de leucemia.
— Sob o ponto de vista médico, poderíamos afirmar que Crest está curado. Pelo menos a fase aguda da leucemia foi vencida.
— Quer dizer que continuará vivo?
— É claro que sim. É bem verdade que não sei quanto tempo costumam viver os arcônidas mas, como estão à procura do planeta da imortalidade, é de supor que sua vida tenha um limite. De qualquer maneira, seus órgãos demonstram — como direi? — demonstram um extraordinário vigor juvenil. Pelo aspecto exterior dir-se-ia que Crest tem cinqüenta anos.
— É mais velho, muito mais velho, tal qual Thora — disse Perry.
Thora, a comandante da nave exploradora dos arcônidas, era uma fonte perene de mistérios para os homens. Sua aparência fascinaria qualquer observador. O cabelo claro, quase branco, os olhos grandes que reluziam numa estranha tonalidade vermelho-dourada em nada serviam para diminuir o fascínio que ela exercia. E, além do mais, era muito bonita. No entanto, Rhodan estava convencido de que era formada apenas de uma inteligência cristalina e de um perfeito raciocínio lógico, não possuindo quaisquer outros sentimentos. Jamais concordaria em ajudar os homens, quanto mais considerá-los em pé de igualdade com sua raça, se a isso não tivesse sido forçada pelas circunstâncias. A nave pousada na Lua, que representava a única possibilidade de retornar à pátria, fora destruída. É verdade que a nave auxiliar — um gigantesco veículo espacial esférico de sessenta metros de diâmetro — era dotada de um mecanismo propulsor de velocidade superior à da luz, mas seu raio de ação não ultrapassava quinhentos anos-luz, o que não seria suficiente para estabelecer contato com a base arcônida mais próxima.
— Thora irrita meus nervos — constatou Bell e levantou-se. — É duro saber que, no íntimo, sente um desprezo profundo por nós, e apenas nos ajuda porque quer ajudar a si mesma. Não sei, não...
— É verdade que os arcônidas precisam de nós — confirmou Rhodan. Levantando a voz, acrescentou:
— Mas não devemos esquecer que também precisamos do auxílio deles. Trata-se de uma espécie de intercâmbio, sem o qual jamais alcançaríamos nossos objetivos. E um desses objetivos é a união da humanidade. O perigo aparente fez com que, pela primeira vez na história, todas as nações do mundo se unissem — mesmo que essa união só tivesse por fim destruir-nos.
Haggard foi para. junto de Rhodan e olhou pela vigia. A nave esférica dos arcônidas estava pousada bem perto da Stardust. No seu interior ficava o gerador que produzia o enorme campo energético que envolvia a base com uma cúpula protetora cujas bordas só tocavam o solo a uma distância de cinco quilômetros. Era uma fortaleza inexpugnável. Até mesmo o impacto produzido por uma bomba atômica seria inútil face a essa muralha invisível.
Os robôs, que emitiam um brilho metálico, andavam apressadamente de um lado para outro. Ancoraram a nave esférica ao solo e realizaram outros trabalhos. Fora Crest e Thora, eram os únicos sobreviventes da gigantesca nave destruída na Lua, marcando o final de uma expedição espacial que partira de um império estelar cujos domínios dificilmente poderiam ser imaginados pela mente humana.
Nave auxiliar: era assim que Crest e Thora designavam aquele veículo espacial, capaz de percorrer em poucos dias uma distância de quinhentos anos-luz; um percurso inconcebível para a mente humana; porém, para os arcônidas, uma distância quase insignificante, embora inatingível.
Eles estavam na mesma situação de um náufrago preso numa ilha do Pacífico que escava um tronco para fabricar uma canoa.
Todavia, nos porões da nave auxiliar haviam pilhas de máquinas e peças sobressalentes que possibilitariam a construção de naves maiores, desde que pudessem recorrer ao potencial das indústrias da Terra.
Foi esse fato que levou Crest e Thora a se aliarem a Perry Rhodan. Seria possível construir uma nave capaz de atingir o planeta que girava em torno de um sol quente e azulado, situado no grupo estelar M-13, que ficava a uma distância de mais de trinta e quatro mil anos-luz. Árcon — era esse o nome do planeta — era o centro de um império de dimensões incalculáveis.
Haggard apontou em direção à nave esférica.
— Estão se instalando na Terra, Perry. Como é que vão construir uma nave aqui no deserto, longe de tudo e de todos?
— Ainda não sei, mas começo a ter uma idéia — disse o comandante. — Não se esqueça de que nos encontramos numa cúpula energética de dez quilômetros de diâmetro. É uma área bastante ampla. Não acredita que seja suficiente para a montagem de uma usina?
— Uma usina? — Haggard arregalou os olhos. — Quer dizer...
— Apenas estou insinuando uma possibilidade — disse Rhodan com a voz suave. — Não conheço todos os detalhes do plano de Crest, mas tenho certeza de que precisará de nossa assistência técnica. Veremos.
Bell também se levantara. Estava bocejando.
— Para ser franco, este silêncio me deixa preocupado. Enquanto os chineses estavam atirando, não poderiam fazer outra coisa.
De repente, Rhodan franziu a testa.
— Fazer outra coisa? Rapaz, você fez surgir uma idéia desagradável em minha cabeça. Que tal se fizerem alguma coisa de que nem desconfiamos?
Bell empalideceu.
— Não foi o que eu quis dizer.
— Mas é bem possível que lancem mão de outros meios para extirpar este tumor maligno; pois é exatamente isso o que somos aos seus olhos. Infelizmente, daqui de dentro, não podemos saber o que se passa lá fora. Não temos amigos.
Bell interrompeu-o.
— Você se esquece do capitão Klein, do Conselho Internacional de Defesa. Não se lembra de que se colocou inequivocamente ao nosso lado, juntamente com o tenente Kosnov e o tenente Li, quando haviam recebido ordem para dar cabo de nós com aqueles microorganismos? Tenho certeza de que não deixariam de nos prevenir, se soubessem que estamos correndo algum risco.
— É verdade, temos o capitão Klein. Quase me esqueço dele. Mantém boas relações com o Comando Supremo na Groenlândia e está diretamente subordinado a Mercant. Se soubesse de alguma ameaça séria contra nós, não deixaria de nos comunicar.
Voltou a olhar pela vigia e estremeceu. Uma sombra passou pelo seu rosto; mas não era de contrariedade. Por um instante pareceu embaraçado, mas logo se controlou. Dirigiu-se aos companheiros:
— Thora quer falar comigo — disse, dirigindo-se à porta da sala de comando.
Bell olhou para a vigia. Lá fora, perto da esfera gigantesca, via-se uma figura delicada, alta e esbelta. Os cabelos claros mal se destacavam do fundo metálico da nave. A orgulhosa comandante da expedição cósmica frustrada mantinha-se numa atitude de tranqüila expectativa. Sua presunção não lhe permitia ir ao encontro dos homens.
Rhodan não saberia dizer o que o atraía naquela mulher. Nunca se encontrara com uma criatura mais inteligente, orgulhosa e inacessível. Nunca percebera tamanho desprezo e repugnância, tamanha antipatia e desconfiança. Esse ser, vindo de um mundo estranho e que tinha a forma de uma bela mulher, não possuía alma; talvez não tivesse nem idéia do que isso significasse.
Mas não era a beleza que atraía Perry Rhodan; era a altivez. No início, achou que devia convencê-la de que os homens também são seres dotados de inteligência e que, por isso mesmo, tinham o direito de viver. Mas acabou percebendo que, uma mulher como Thora, só poderia ser convencida por uma lógica fria. Logo, teria de provar-lhe que os homens não eram apenas inteligentes, mas também indispensáveis à execução dos seus planos.
Ela não avançou um milímetro ao seu encontro. Permaneceu imóvel até que o visse diante de si.
— Suspenderam o fogo — disse em tom indiferente. Rhodan percebeu que evitava as palavras homem ou terreno. Em sua voz. sentia-se o desprezo. Acrescentou: — Por que será?
— Talvez a ampliação da cúpula energética os levasse a modificar seus planos — respondeu Rhodan, tranqüilamente. — Afinal, quintuplicamos o nosso território. Depois da advertência que receberam, viram-se obrigados a uma retirada precipitada. E bem verdade que prosseguiram o bombardeio. Provavelmente, nesse meio tempo, terão elaborado novos planos.
— Não conseguirão nada com eles.
— Você ainda subestima os homens? — disse Perry Rhodan lentamente. — Já incidiu nesse erro e perdeu a nave estacionada na Lua. Por que insistir nele?
— Nunca cometo erros, não se esqueça. A responsabilidade da catástrofe na Lua cabe aos robôs.
— Que apenas seguiram suas instruções — retrucou Rhodan, sem alterar o tom de voz. Sentia prazer em humilhá-la. — Será que a cúpula não é muito grande? Receio que a extensão possa reduzir a estabilidade.
— Deixe isso por minha conta. Acho que a maior bomba dos terráqueos não produzirá o menor efeito ao explodir sobre ela. Você subestima a capacidade do reator dos arcônidas. Ele é capaz de gerar energia suficiente para arrancar o planeta Terra da sua órbita.
Perry sabia que ela não estava exagerando.
— De qualquer maneira, fico-lhe grato por limitar-se às medidas defensivas — reconheceu. — Se quisesse poderia reduzir a pó os exércitos que nos cercam. Por que não o faz?
Um ar de contrariedade se fez notar na beleza fria daquele rosto.
— Crest não quer. Acha que lhes deve uma certa gratidão pela sua cura.
— E não deve?
— A pergunta está mal formulada. Ao ajudá-los, apenas estamos pagando uma dívida. É verdade que, na medicina, estão à nossa frente em alguns pontos, mas na técnica...
Deixou a frase em meio e Rhodan continuou:
— Sei perfeitamente que, sob o ponto de vista de tecnologia, estão muito mais avançados do que podemos imaginar. Mas, apesar de todo esse adiantamento técnico e científico, estarão perdidos se não puderem contar com o nosso auxílio. Embora, para nós, uma distância de quinhentos anos-luz só possa ser concebida em sonho, ela nada representa para você. Mas, mesmo assim, é muito pouca para que possa alcançar seu planeta natal. Você sabe muito bem que só a cooperação com os terrenos tornará possível a viagem de volta. E é por isso, só por isso, que concorda com a aliança. Não é por gratidão. Por que fingir?
Thora nem chegou a sorrir.
— Aos poucos está aprendendo a raciocinar logicamente, Rhodan. Formamos uma comunhão de interesses; nada mais. Assim que você tiver atingido o seu objetivo e nós, o nosso, separamo-nos. Não haverá motivos para agradecimento, pois ambos teremos lucrado com a aliança. É assim que eu vejo as coisas.
— Crest pensa em termos muito mais humanos, se é que se pode usar esta expressão. Tem alma.
— Alma? O que é isso?
Perry fez um gesto de desprezo.
— É possível que, em outra oportunidade, eu tente lhe explicar. No momento, seria pura perda de tempo. Por que deseja falar comigo.
Thora sentiu-se decepcionada com a frieza com que ele proferiu estas palavras. Nem desconfiava do esforço que Rhodan fazia para manter esta atitude. Um brilho ameaçador surgiu nos olhos da mulher.
— O comando automático estabilizou a cúpula. Podemos aguardar tranqüilamente novos ataques. Quando é que providenciará a mão-de-obra prometida para que possamos iniciar a construção da nossa nave?
— Assim que a humanidade tiver desistido de lutar contra mim. Só então poderemos começar a trabalhar. Infelizmente seu auxílio constitui uma condição necessária para o nosso; não posso modificar isso.
— E quanto tempo levará a humanidade para compreender a inutilidade da luta que está travando contra nós?
— Pelo que conheço a respeito do espírito humano, isso não acontecerá nunca, a não ser que sejam convencidos por meios radicais. Somos uma raça guerreira — acrescentou com um sorriso frio.
Thora olhou-o. Por um segundo, Rhodan acreditou ler uma certa simpatia nos seus olhos. Mas talvez fosse um engano.
— Também já fomos guerreiros — disse. — Quando éramos jovens e imaturos. Isso só passa quando a raça alcança a sabedoria e a maturidade.
— E a velhice — observou Rhodan.
Para sua surpresa, Thora concordou sem que se mostrasse zangada.
— Tem razão. Infelizmente.
Deu-lhe as costas e dirigiu-se à nave esférica.



II



Atrás da escrivaninha, via-se um homem de aspecto despretensioso. Era baixo, parecia jovem e dava a impressão de uma profunda ingenuidade. Uma coroa rala de cabelos castanho-dourados cercava a cabeça calva. Só nas têmporas notavam-se algumas manchas grisalhas. Os olhos contemplavam o mundo com uma expressão pacata.
No momento, esse mundo consistia apenas de um escritório, dotado de todos os requisitos exigidos pelo conforto e pela segurança, montado três mil metros abaixo do nível do solo, sob a calota de gelo que cobre as terras da Groenlândia. Era o local onde estava estabelecida a sede do Conselho Internacional de Defesa, o mais bem organizado serviço secreto do mundo.
Tratava-se de uma equipe especializada, surgida no tempo da guerra fria. Estava subordinada à OTAN e o homem de aparência inofensiva que se encontrava atrás da escrivaninha era o chefe da organização, Allan D. Mercant, uma das pessoas mais temidas do século XX.
Uma tela iluminou-se.
— Os chefes dos serviços secretos acabam de chegar, senhor.
— Do Bloco Oriental e da Federação Asiática?
— Ivan Kosselov, do Bloco Oriental, e Mao Tsen, da Federação Asiática — confirmou a voz no intercomunicador. — O general Tai-tiang acaba de aterrisar na pista Davis. Já foi conduzido ao elevador eletrônico.
— Então o clube está quase completo — disse Mercant com um aceno de cabeça e reclinou-se na poltrona. Esperou que a tela se apagasse antes de esboçar um ligeiro sorriso. Há poucas semanas teria sido um absurdo sonhar com aquilo que estava acontecendo. Os homens que se combatiam encarniçadamente, os chefes supremos dos serviços secretos e das organizações de espionagem, encontravam-se no quartel-general do CID do Ocidente. Desta vez, havia um inimigo comum que teria de ser eliminado.
De repente, uma expressão de amargura misturou-se ao sorriso de Mercant.
O que aconteceria se o conseguissem? No mesmo instante, a resposta surgiu em sua mente. Um fogo estranho brilhou em seus olhos quando se inclinou para comprimir um botão. Outra tela iluminou-se. A cabeça de uma moça linda apareceu.
— Senhor Mercant?
— Providencie para que os três homens alojados no hotel dos visitantes sejam convocados à conferência. Trata-se do capitão Albrecht Klein, do tenente Li Shai-tung e do tenente Peter Kosnow. Quero que aguardem numa das ante-salas até que eu os chame. Entendido?
— Certo, senhor — confirmou a moça e desapareceu da tela. Mercant continuou a fitar a tela vazia por um segundo. Depois, levantou-se bastante contrariado.
Desta vez, a sala das sessões não seria a mesma em que se reuniram quando da discussão e planejamento da expedição lunar. Agora, Mercant fazia questão de que fosse mantido sigilo absoluto. Não haveria nenhum microfone oculto, nem qualquer gravador ou filmadora que registrasse a reunião. A sala era pequena, só tinha uma porta e nela não havia aparelhagem de renovação de ar. Um simples aspirador purificaria o ar, que seria substituído progressivamente por meio de garrafas que se encontravam no próprio recinto. Era um ambiente primitivo, ninguém o contestaria; mas oferecia segurança absoluta contra qualquer tipo de escuta.
Mercant sabia perfeitamente por que desta vez não desejava a presença de outros agentes de segurança.
Quando entrou na sala, os três homens já estavam sentados em torno da mesa. Interromperam a palestra conduzida em russo e levantaram-se. Mercant exibiu seu sorriso ingênuo.
— Tenho muito prazer em cumprimentá-los aqui, cavalheiros. Mais uma vez é o inimigo comum que nos une. É uma pena que, um belo dia, tenhamos de liquidar esse inimigo, não acham?
O general Tai-tiang, comandante das tropas que cercavam a cúpula, parecia perplexo. Não sabia como reagir a essa observação.
A reação de Ivan Kosselov, chefe da defesa do Bloco Oriental, foi totalmente diferente. Um sorriso largo surgiu em seu rosto. Bateu com a palma da mão na nuca carnuda e disse com voz retumbante:
— Tenho certeza de que o presidente de seu país não gostaria de ouvir esta observação. Mas isso vai ficar entre nós, não é?
Mao Tsen, da Federação Asiática, esboçou um sorriso significativo, mas não fez qualquer comentário.
Mercant apertou a mão dos três homens e pediu-lhes que sentassem. Subitamente, seu sorriso bonachão apagou-se. Olhou para Kosselov.
— Pode ficar tranqüilo, colega Kosselov. Ninguém, a não ser nós, saberá o que vai ser dito nesta sala. Estamos completamente isolados do mundo. A porta foi lacrada eletronicamente. Estamos sós. Se neste instante um ataque cardíaco me matasse, as organizações dirigidas pelos senhores ficariam acéfalas, pois ninguém os tiraria daqui. Talvez dentro de alguns meses alguém se perguntasse por que nossa conversa estava demorando tanto e, até que se desarmassem os dispositivos de travamento eletrônico da porta, seria tarde demais.
— O senhor tem um estranho senso de humor — observou Mao, sorrindo. — Mas vamos ao que importa. Talvez seja melhor ouvirmos em primeiro lugar o relato de nosso amigo Tai-tiang.
O general estremeceu. Ao que parecia, ainda estava refletindo sobre as palavras de Mercant. Mas logo se controlou. Sua voz, que a princípio parecia insegura, aos poucos adquiriu firmeza.
— Seguimos as recomendações dos peritos. Orientamos o ângulo de tiro de tal maneira que as granadas atingissem a cúpula energética de Rhodan na vertical e sempre no mesmo ponto. Observamos um certo afrouxamento, mas o resultado não durou muito. Há poucos dias, Rhodan ampliou seu domínio. O diâmetro da cúpula, que era de quatro quilômetros, passou a dez. Com isso, Rhodan ocupou uma área de quase oitenta quilômetros quadrados no território da Federação Asiática. É uma situação intolerável.
— Não só para os senhores — confirmou Mercant. — Que providências adotaram?
— Assim que Rhodan nos preveniu, retiramos nossas tropas. Depois, reiniciamos o bombardeio. Mas, embora tivéssemos intensificado o fogo, a cúpula não apresentou mais qualquer ponto fraco. Os geradores da nave esférica dos arcônidas devem produzir quantidades inconcebíveis de energia. Devo reconhecer que estamos reduzidos à impotência. Há alguns dias vimo-nos obrigados a suspender o fogo por falta de munição. Uma atividade bastante intensa começou a se desenvolver no interior da cúpula. Assistimos à construção de casinhas, cuja finalidade desconhecemos. Existem robôs em quantidade, mas só vimos os quatro homens e dois arcônidas. A base está cercada e, ao que sabemos, ninguém entrou nela ou dela saiu.
Mercant, tranqüilo, confirmou com um movimento de cabeça.
— Ninguém a não ser nossos agentes Klein, Li e Kosnow.
— Infelizmente sem o menor êxito — reboou a voz de Kosselov. — Devíamos repetir a experiência.
— Foi por isso que os convidei a vir até aqui — disse Mercant. — Mas, antes de tudo, quero saber a quantas andamos. General Tai, o senhor acha possível vencer a fortaleza por meio de um ataque vindo de fora? Está convencido de que nenhuma das bombas existentes na Terra conseguiria romper a cúpula energética?
Tai-tiang confirmou com um movimento de cabeça. Mercant encarou o chefe da defesa da Federação Asiática.
— Então, Mao, o que acha? Tem alguma idéia?
O chinês sorriu.
— Nossos agentes não conseguiram nada. Ninguém chegou tão perto da base como o tenente Li. E não sabe mais que o senhor ou eu. Sinto muito, mas não sei mais o que fazer.
O olhar de Mercant continuou a vagar. Parou no russo.
— E o senhor, Kosselov?
— Poderia dizer que faço minhas as palavras do senhor Mao Tsen, mas isso seria uma frase muito banal. Para falar com franqueza, nos últimos dias fiquei pensando muito sobre a nossa situação. Procurei descobrir qual é a utilidade que poderíamos extrair desse problema confuso. E, vejam só, cheguei à conclusão de que até mesmo as coisas aparentemente más têm um lado vantajoso. No início da nossa palestra, o senhor fez uma observação no mesmo sentido. Vejam o que Rhodan já conseguiu: aqui estamos nós, reunidos em torno de uma mesa de conferências. A necessidade fez com que nos uníssemos, não é? Antes desses acontecimentos éramos inimigos, hoje somos amigos.
— Ora essa! — exclamou o general Tai-tiang. Sentiu-se, porém, atingido pelo olhar duro de Mao Tsen e, logo, voltou ao silêncio.
— É isso mesmo: somos amigos! — repetiu Kosselov em tom sério. — E por quê? Só porque Rhodan nos mete medo. Porque sabemos que, diante dos recursos tecnológicos de que dispõe somos impotentes. Porque sabemos que pode nos destruir assim que o desejar. Quase chego a sentir-me perturbado porque ainda não o fez.
— É uma constatação macabra — Mercant deu um sorriso suave. — Mas retrata precisamente a nossa situação. Prossiga, Kosselov. Muito me interessam as conclusões que extrai dos fatos que acaba de expor.
— Nem penso em contar-lhe isso. Mas posso pôr as cartas na mesa em relação a outro ponto. O general Tai é de opinião que nunca conseguiremos destruir a base de Rhodan por meio de um ataque desencadeado de fora. Se é assim, por que não atacamos do lado de dentro?
O olhar de Mercant revelou uma sombra de interesse.
— Muito interessante! Como faremos isso?
— Quase sempre, as idéias mais práticas e óbvias surgem por último. Pense na sua situação, Mercant. Onde é que está? Onde é que se sente seguro? Bem embaixo da terra. Se quiséssemos lançar um ataque contra o senhor e seu quartel-general, tal ataque teria de ser subterrâneo. E o que vem a ser a tal cúpula energética de Rhodan senão uma defesa aérea, tal qual uma camada de rocha de mil metros ou mais de espessura? Se quisermos destruir Rhodan, teremos de atacar sua base por baixo.
Por um instante o silêncio reinou na sala. Só se ouvia a respiração dos quatro homens. Kosselov recostara-se, aguardando o efeito de suas palavras.
Mercant falou:
— Kosselov, já chegamos a um acordo em dois pontos. No terreno político chegamos a mesma conclusão, embora não a enunciássemos; e no terreno estratégico também. Até parece que adivinhou meu plano. Permite que chame três homens que conhecem a base de Rhodan melhor do que nós?
Não esperou resposta. Comprimiu o botão da campainha que se encontrava no canto da mesa. Após alguns segundos, a porta se abriu. Alguém enfiou a cabeça pela abertura. Mercant fez um sinal. A cabeça desapareceu.
O capitão Klein, o tenente Kosnow e o tenente Li entraram no recinto. A porta tomou a se fechar.
Mercam, apontou para três cadeiras vazias.
— Não há necessidade de apresentações, pois todos já se conhecem muito bem. Mas, dentro de alguns minutos, verão um homem que não conhecem. Kosselov, o senhor ficara admirado de ver como estamos de acordo em vários pontos. Capitão Klein, o senhor ia explicou o motivo do fracasso de sei; plano de vencer Rhodan por meio de bactérias. A missão não teve o êxito que esperávamos. Acho que não se oporão a nova tentativa no mesmo sentido. Só que, desta vez. não usaremos bactérias.
Klein não respondeu. Como é que Mercant sabia que ele pensara em bactérias. A idéia não era tão evidente assim.
A porta se abriu. Um homem que envergava a farda de coronel entrou, ficou em posição de sentido e fez continência. Depois, ficou imóvel, em atitude de expectativa. Mercant levantou-se.
— Cavalheiros, permitam que lhes apresente o coronel Donald Cretcher, do CID. O coronel Cretcher, perito em trabalhos subterrâneos, teve participação destacada na construção deste quartel-general.
Os presentes apertaram a mão do coronel com certo constrangimento, especialmente o general Tai-tiang, que não se esforçou em ocultar a desconfiança. Só Kosselov ficou atento ao ouvir a especialidade de Cretcher.
Mercant tomou a palavra.
— Conforme Kosselov já sugeriu, devemos atacar Rhodan por baixo da terra. A cúpula energética só funciona na atmosfera; não penetra no solo. É claro que não dispomos de provas de que não tenha certa eficácia embaixo do solo. Mas, para falar com franqueza, não acredito nisso. Se conseguirmos cavar uma galeria bastante profunda e fizermos avançá-la até um ponto situado embaixo da base, uma única explosão atômica deverá bastar para mandar todo esse feitiço para o inferno. Em resumo, este é o meu plano. Eu os convoquei para discutirmos os detalhes da execução, pois sem a cooperação de todas as grandes potências não conseguiremos levar avante o empreendimento. Em primeiro lugar, teremos de contar com a boa vontade da Federação Asiática, em cujo território vamos agir.
O cérebro de Klein trabalhava febrilmente. Também Kosnow e Li refletiam. Os três agentes se haviam encontrado quando seus governos os haviam incumbido de estabelecer o primeiro contato com Rhodan. Como nada conseguissem agindo isoladamente, resolveram unir-se. Klein conseguira penetrar na cúpula energética, mas uma palestra com Perry Rhodan deixara-o convencido de que este só desejava o bem da humanidade. Daí em diante, passara para o campo oposto, juntamente com seus colegas. Não havia ninguém no mundo que suspeitasse desse ato de alta traição.
Ninguém mesmo?
Allan D. Mercant olhou para Klein. Havia um brilho estranho em seus olhos. Mas, logo, os mesmos voltaram a sorrir numa expressão suave e compreensiva. Com um aceno de cabeça, disse:
— Se o plano for coroado de êxito, isso significará o fim de um temor que nos tornou amigos. Sei perfeitamente que existem homens para os quais este temor é uma bênção, pois preferem o medo de Rhodan ao pavor constante de uma guerra nuclear e do fim do mundo que será a conseqüência da mesma. Conheço, pessoalmente, algumas dessas pessoas. Talvez chegue mesmo a partilhar da opinião delas — mas nosso dever é eliminar Rhodan. É que nossa existência se vê ameaçada por um perigo contra o qual não nos podemos defender. Falei claro, capitão Klein?
Sete pares de olhos fitaram o agente do serviço secreto, que sentiu o chão oscilar por baixo dos seus pés. Mercant não poderia saber...
— Não entendo, senhor Mercant.
Um sorriso amável surgiu no rosto de Mercant.
— É claro que entende, Klein. Entende muito bem. E não acredite que os motivos nobres que o animam poderão levar-me a fazer vista grossa aos seus atos criminosos. Confiar-lhe-emos uma missão através da qual poderá provar que considera as ordens recebidas mais importantes que suas opiniões pessoais. E a mesma coisa aplica-se a Li e Kosnow.
Kosselov indignou-se.
— Ponho a mão no fogo pelo meu agente!
— Cuidado para não se queimar — observou Mercant com a voz tranqüila.
— O senhor não tem provas! — insistiu o russo.
— Mas tenho um ótimo faro, e um instinto infalível.
Infelizmente era verdade. Klein sabia que justamente por isso Mercant era temido pelos subordinados. Durante os interrogatórios, nunca precisava recorrer a detetores de mentiras ou outros métodos. Sabia perfeitamente se o interrogado falava a verdade ou não. Havia agentes que afirmavam seriamente que Mercant sabia ler os pensamentos.
Mao Tsen interveio.
— Reunimo-nos para elaborar nossos planos de ataque contra Rhodan e não para lançar acusações mútuas contra nossos melhores agentes. Nem quero saber o que vai fazer com seu subordinado, Mercant. Mas deixe o tenente Li fora disso. Ele goza da minha irrestrita confiança. Sugiro que passemos ao que nos interessa.
— É o que faremos agora mesmo — confirmou Mercant e tirou um mapa do bolso. Estendeu-o sobre a mesa. As cabeças dos outros homens inclinaram-se para a frente. — Neste mapa está assinalado a posição exata da base de Rhodan no deserto de Gobi. O círculo mostra a extensão da cúpula energética. Conforme vêem, ela chega a cobrir parte do lago. Ali haveria possibilidade de se penetrar na cúpula por meio de equipamento de mergulho, passando por baixo de sua borda. Mas de nada nos adiantaria introduzir alguns homens sob a capa protetora; sabemos de que armas Rhodan dispõe. Só poderemos alcançar êxito através de medidas radicais. Discuti todos os detalhes com o coronel Cretcher. Talvez seja preferível que ele mesmo exponha seus pontos de vista.
O coronel confirmou com um ligeiro aceno de cabeça. Aproximou o mapa do lugar em que estava sentado e colocou a mão sobre uma área situada ao norte do círculo.
— Neste ponto, situado a cerca de dois quilômetros da cúpula, existem algumas colinas. São mais íngremes na face norte. É essa encosta que pode servir de ponto de partida da galeria que vamos cavar, pois não pode ser vista das naves espaciais. Teríamos de fazer a galeria avançar sete quilômetros para atingir o ponto central da base. A profundidade terá de ser de quinhentos metros no mínimo, a fim de reduzir ao mínimo a detecção por meio de instrumentos de escuta. Confesso que se trata de um plano audacioso, mas é absolutamente seguro.
Kosselov e Mao Tsen se olharam. A admiração e o reconhecimento brilhavam nos seus olhos. O general Tai-tiang apontou para o mapa.
— Conheço perfeitamente estas colinas; minha posição de combate fica ali. Aliás, coronel Cretcher, como foi que o senhor teve conhecimento da existência delas?
O coronel do CID deu um sorriso misterioso.
— Ora, general! É claro que tenho homens da minha confiança que servem no seu exército. Além disso, há de estar lembrado de que alguns oficiais das forças ocidentais tiveram permissão oficial para examinar o terreno. Como vê, isso tem uma explicação lógica.
— Naturalmente, queira desculpar. Quer dizer que, na sua opinião, essas colinas, situadas ao norte da base constituirão o melhor ponto de partida para um empreendimento como esse?
— Sem dúvida! Quando estivermos exatamente abaixo das duas naves, faremos explodir uma bomba de hidrogênio. Acha que, depois disso, sobrará alguma coisa de Rhodan e seus amigos extraterrenos?
— Não sobrará muita coisa — confessou Kosselov, cocando a cabeça. — Só vejo um inconveniente. Não acredito que esses arcônidas sejam tolos a ponto de não lhes ter ocorrido a mesma idéia. Para isso, bastará um pouco de senso lógico. E devem ter adotado providências para se protegerem.
— Já pensamos nisso — asseverou Mercant. — É claro que cometeríamos um erro se, daqui por diante, nos mantivéssemos numa expectativa tranqüila. Muito pelo contrário. Assim que iniciarmos as escavações, o general Tai-tiang deverá reiniciar os bombardeios. Não é necessário que seja tão intenso como da outra vez, mas deverá ser suficiente para manter Rhodan e seus aliados ocupados. Além disso, a detonação das granadas abafará o ruído que for causado pelas cargas de dinamite que tivermos de usar sob o solo. Por outro lado, é impossível que Rhodan seja avisado das nossas intenções. A base foi isolada hermeticamente do mundo exterior. Até mesmo a comunicação pelo rádio tornou-se impossível, pois as potentes emissoras de interferência que instalamos não permitem qualquer forma de recepção no interior da cúpula. Rhodan não poderá ser prevenido por quem quer que seja.
Ao dizer isso, o brilho suave voltou a surgir em seus olhos. Seu olhar dirigiu-se para Klein, em quem demorou-se um pouco, para depois dirigir-se a Li e Kosnow.
O coronel Cretcher apontou para o mapa.
— Formaremos um comando internacional. Todas as nações deverão colocar seus recursos à disposição. Unidos, conseguiremos dar cabo desse inimigo comum.
— De qualquer maneira, Rhodan é americano — disse Mao Tsen, pensativo.
— Foi americano! — disse Mercant em tom penetrante. — Conforme sabe, foi privado dos seus cargos e direitos. Mas isso não importa. Na verdade, deparamo-nos com uma invasão vinda do espaço cósmico, que deverá ser repelida de qualquer maneira. Se não conseguirmos isso, dentro de pouco tempo não seremos mais os donos da Terra.
Houve uma ligeira pausa. O tenente Kosnow rompeu o silêncio:
— Qual será a nossa missão?
Mercant sorriu.
— Já esperava esta pergunta. É claro que Rhodan possui amigos entre os homens; ninguém pode negar isso. Talvez alguns desses homens venham participar dos comandos encarregados das explosões subterrâneas, mesmo que ali não lhe possam prestar muito auxílio. De qualquer maneira, seria conveniente que os homens do comando especial fossem continuamente vigiados. Como não podemos nos encarregar disso sozinhos, gostaria de lançar mão de uma equipe de agentes incumbida exclusivamente da segurança do empreendimento. Acho que todos me entenderam, não?
Klein observou Mercant enquanto este falava. Os olhos não traíam nada do que se passava em seu cérebro. Mesmo assim, Klein pensou que sentia a ironia provocadora que se ocultava nas palavras do chefe do CID.
O general Tai-tiang bateu no mapa.
— Assim que os comboios de abastecimento forem colocados em movimento, poderei reiniciar o bombardeio. Em quanto tempo a galeria ficará pronta?
O coronel Cretcher deu de ombros.
— A organização do comando durará alguns dias. Quanto ao trabalho propriamente dito... bem, meus cálculos vão a quinze dias, se pudermos utilizar os recursos mais avançados. Também depende da constituição do solo. Se encontrarmos muita rocha...
— Nas camadas mais profundas deverão encontrar.
— Bem, digamos, umas três semanas! Mais ou menos daqui a um mês, uma enorme cratera se abrirá no deserto de Gobi e Perry Rhodan com seus arcônidas logo se transformará numa lenda que não demorará a cair no esquecimento...
— E que, de qualquer maneira, nos trouxe um período de paz — concluiu Kosselov em tom seco.
Mais tarde, quando voltou a estar a sós no seu escritório, recapitulando os acontecimentos, Mercant evocou principalmente estas palavras. Sabia perfeitamente que Kosselov não se sentia seguro. Mao Tsen era o único que raciocinava claramente e sem paixões. Para o chinês, Rhodan era o grande inimigo; e teria que ser destruído, custasse o que custasse. Mao não pensava no que viria depois; Kosselov pensava, tal qual ele mesmo.
Também Klein era um homem dotado de enorme capacidade de raciocínio. Talvez fosse por isso mesmo que Mercant conseguira captar algumas das emanações mais poderosas daquele cérebro e interpretá-las vagamente.
Mercant sorriu. Sabia do falatório dos seus subordinados, que diziam que ele era um feiticeiro quando lhes dizia face a face o que estavam pensando. Ele não lia propriamente os pensamentos, mas sabia sentir determinadas emoções dos outros. O cérebro possuía tantas partes ociosas que um pequeno estímulo poderia ser suficiente para pôr em funcionamento uma delas. Era o que devia ter acontecido com ele. Se realizasse um esforço dirigido a si mesmo, sem dúvida seria capaz de desenvolver mais intensamente a capacidade, ainda limitada, de adivinhar os pensamentos alheios.
Mercant contemplou seus dedos esguios. Depois, sacudiu a cabeça. Não, não era mais que um homem igual aos outros. Mas era dotado de poderes extraordinários, que lhe permitiam distinguir entre a mentira e a verdade.
Foi por isso que teve segurança absoluta de que, dos oito participantes da reunião, exatamente a metade tinha, ao menos, alguma simpatia pela causa de Perry Rhodan.
Quase teria acontecido o quinto homem, que obedecia incondicionalmente as ordens dos governos a que estava submetido, mas já sentia vacilar o coração e preocupava-se com os verdadeiros objetivos de Rhodan.
Era ele mesmo.



3


Fazia cinco dias que nenhum tiro era disparado.
Rhodan e os outros sentiram que algo de estranho e decisivo estava por vir, mas não tinham a menor idéia do que se tratava. Bell estava irritado. Andava que nem uma fera enjaulada no interior da nave, quando não se dirigia para perto da nave dos arcônidas para assistir ao trabalho incessante dos robôs. Protegido pela cúpula energética onde, aos poucos, o ar foi se tornando quente e abafado, tomava seu banho diário no lago salgado. Muitas vezes, vagava horas a fio pelo deserto e arriscava-se até as proximidades da muralha invisível que os separava do mundo exterior.
Não havia vivalma por perto. De repente, pareciam estar sozinhos no mundo. As tropas que cercavam a base haviam-se retirado para posições mais afastadas. Até mesmo pelo binóculo só eram visíveis sob a forma de pontos que surgiam vez por outra. Não se via o mais leve sinal dos tanques e canhões.
Alguma coisa estava no ar.
Rhodan o sentia e, tomado de certa inquietação, saiu da Stardust no quinto dia e dirigiu-se à nave dos arcônidas. Nos últimos dias tivera pouquíssimos contatos com Crest, pois o cientista seguia à risca as recomendações do Dr. Haggard. Geralmente estava mergulhado num sono artificial, a fim de que seu sangue pudesse regenerar-se.
Um dos robôs bloqueava a escotilha de entrada.
Rhodan aguardou alguns minutos. Quando viu que o vigia metálico não saía do lugar, aproximou-se e tentou empurrá-lo para o lado. É claro que a experiência não foi bem sucedida. Lá de cima soou a voz clara e estridente de Thora:
— É muito imprudente, Rhodan! O que deseja?
— Preciso falar com Crest.
— Por quê?
— Tenho vários motivos. Um deles é que tenho certeza absoluta de que está sendo preparado um ataque contra nós.
— E daí? Acredita que não saberemos nos defender?
— Sabe que precisamos da humanidade para executar nossos planos. Se, por um ato de defesa irrefletido, destruir nossa raça, você nunca mais reverá Árcon.
Com estas palavras, ele tocou no ponto sensível de Thora. No íntimo, ela ardia para dar uma lição nos “selvagens rebeldes”. Mas Rhodan e Crest impediam-na de levar avante os seus intentos. Impediam a ela, comandante da expedição. Reconhecia que os dois homens estavam com razão. Os robôs não seriam capazes de montar um parque industrial que lhes permitisse a construção de uma nave maior e mais potente.
Proferiu uma palavra incompreensível e o robô afastou-se de onde estava, deixando o caminho livre. Rhodan subiu os degraus que conduziam à entrada da nave. Thora olhava-o com uma expressão fria no rosto.
— Crest precisa de descanso.
— Sei disso — confirmou Rhodan, tranqüilo. — Acontece que o Dr. Haggard me deu permissão para falar com ele.
— Ah, é? O Dr. Haggard deu permissão? — disse, esticando as palavras num tom de desprezo. — E acha que não é necessário consultar a mim?
— No presente caso, não é necessário — respondeu Rhodan, empurrando-a suavemente para o lado. Seguiu sem olhar para trás, achou o elevador antigravitacional e foi levado para cima.
Crest estava acordado. Jazia numa cama larga, colocada numa cabina espaçosa. Assistira a um programa de figuras coloridas abstratas que desfilavam sobre a tela. Quando Rhodan entrou, desligou o aparelho e levantou-se.
— Olá, Perry! Fico muito satisfeito em ver que arranjou tempo para fazer-me uma visita.
— A satisfação é minha Crest. Como vai? Pelos relatórios de Haggard está atravessando uma segunda juventude.
— É o que sinto, Perry. O homem é fantástico!
— Ele é um excelente profissional — disse Perry.
Também Crest tinha cabelos claros, quase brancos, e os olhos ligeiramente avermelhados. Sua cabeça, muito comprida, lhe proporcionava uma testa que tomava quase a metade da caixa craniana. De resto, as diferenças que o distinguiam dos homens eram exclusivamente de natureza orgânica. No lugar das costelas, possuía uma blindagem óssea que protegia o coração e os pulmões. Essa circunstância dificultaria eventuais operações, mas oferecia ampla proteção a esses órgãos tão sensíveis. Sob os padrões humanos, seria considerado um verdadeiro gênio. Bastava dizer que sua memória fotográfica lembrava a capacidade dos grandes computadores eletrônicos. Crest era o chefe científico da expedição malograda dos arcônidas e um dos últimos descendentes da dinastia reinante de Árcon.
— Nós não temos nenhum médico igual a Haggard — respondeu Crest. Talvez nossa raça tenha adoecido justamente por isso. Dispomos de recursos para prolongar a vida; e isso nos deixou por demais despreocupados. Degeneramos, pois nossa presunção desmedida não permitiu que nos misturássemos com outras raças. Na verdade, todos os arcônidas são parentes.
— Já lhe falei da necessidade premente de uma renovação do sangue.
— Tem uma idéia de como isso poderia ser feito? — disse Crest, com um sorriso débil. — Confesso que vocês são jovens de corpo e espírito. Se combinássemos isso com o nosso saber, obteríamos uma raça de seres superinteligentes. É claro que isso não passa de uma divagação. Os resultados de uma experiência fantástica como esta só começariam a surgir depois de algumas gerações. Acho que qualquer auxílio aos arcônidas chegaria tarde. E há mais. Acredita que Thora pudesse pensar seriamente em misturar seu sangue com o de um terreno, que a seus olhos não passa de um ser primitivo?
— Não acredito — disse Perry, sacudindo a cabeça.
Crest comprimiu um botão. Junto ao seu leito a parede côncava deslizou para o lado, fazendo surgir uma abertura oval. Estavam a cerca de quarenta metros de altura. Uma vista imponente sobre a imensidão infinita do deserto descortinava-se diante deles. Atrás da nave, o sol ainda se encontrava bem alto no céu. Ao norte, estendia-se uma série de pequenas colinas.
— Muitas vezes, este mundo me faz lembrar minha terra natal, da forma como ela já deve ter sido — disse Crest baixinho. — Depois de algum tempo tornamo-nos o centro de um império galático e já não poderíamos dar-nos ao luxo de ter a natureza ao redor de nós.
— Sabe, eu gostaria de visitar Árcon. Um sorriso condescendente esboçou-se no rosto do cientista.
— É bem possível que se sentisse decepcionado, Perry. Nosso mundo, que é do tamanho da Terra, não passa de uma grande cidade. Mas, seja como for, um dia você vai conhecer Árcon.
Perry inclinou-se para a frente; estava perplexo.
— Eu? Conhecer Árcon? Quando? Como?
Crest voltou a reclinar-se. Contemplou o teto baixo da cabina. Depois, lançou os olhos sobre Perry.
— Sim, Perry Rhodan, você verá Árcon. Talvez não me tenha expressado com clareza quando falei numa renovação do sangue dos arcônidas. Jamais deverá haver uma mistura das duas raças, pois a sua sairia perdendo. Mas é bem possível que os homens, depois de unificados, nunca antes, acabem tornando-se herdeiros do império galático, sob a orientação dos arcônidas. A imagem lhe agrada?
Rhodan respirou profundamente.
— É fantástica demais para ser levada a sério, Crest. Afinal, os arcônidas dominam um império espacial e nunca o entregariam espontaneamente. Por outro lado, os homens não estão maduros nem mesmo para sonhar com um império desses.
— Acho que desta vez é você que está subestimando os homens. Tive oportunidade de manter longas palestras com Haggard. Ele concorda comigo.
— Mesmo que acreditasse na capacidade dos homens, nunca poderia acreditar no altruísmo dos arcônidas.
— Não nos julgue por Thora — recomendou Crest com a voz suave. — Ela comanda uma expedição e foi treinada especialmente para esse tipo de missão. Sua inteligência lógica e fria é o resultado de uma doutrinação intensa.
— O que vem a ser isso?
— A doutrinação é um processo de aprendizagem hipnótica, através da qual se ativam determinados setores ociosos do cérebro e se intensificam as funções de outros.
— Trata-se de aulas hipnóticas?
— É, também poderíamos usar este nome. O método permite transformar uma criatura primitiva em um ser inteligente, desde que possua um cérebro. Pretendo usar este método para transmitir-lhe parte do saber dos arcônidas.
Rhodan recuou instintivamente.
— O quê? Pretende...? — Olhava surpreso para Crest, que continuava a sorrir. — Por quê?
— Meu amigo, você é todo desconfiança. Acha que sou incapaz de qualquer ação altruística; e está com razão. Mas meu pensamento vai mais longe. Vejo o futuro desenhado diante de mim, mas não é o futuro só dos arcônidas. Duas raças aparentadas dominarão a Via Láctea: os arcônidas e os terranos. Ouça bem, Rhodan: os terranos! Acho que sabe qual é a diferença entre um homem e um terrano. Você já viu o espaço cósmico e, com isso, transformou-se num terrano. Qualquer um passará por essa transformação, desde que sinta que pode envolver o mundo em que nasceu com as mãos. Mas os outros, principalmente os que nos atacam, são homens que ainda estão longe de saber que o planeta em que vivem nada é senão uma base para o futuro. Todos os seres inteligentes descendem do mar, pois lá foram geradas as células primitivas. E o mar assemelha-se ao espaço cósmico. Dessa forma, o homem, ao penetrar no espaço, retorna ao elemento que lhe deu origem. Um belo dia, quando os terranos e os arcônidas tiverem consolidado o império cósmico, a Terra não passará de uma lenda perdida em meio a milhões de pontinhos luminosos que reluzem no infinito de um mar que não conhece fronteiras.
Crest deixou passar alguns segundos, a fim de que Perry Rhodan tivesse tempo para absorver a grandiosa visão do futuro. Depois, prosseguiu:
— Dentro de poucos séculos, os arcônidas não mais estarão em condições de impedir a desagregação do império. Um e outro planeta já tentam reconquistar sua independência — uma independência que não lhes servirá para nada, pois logo se lançarão uns contra os outros. Se quisermos manter a paz dentro da galáxia, uma mão forte deve segurar as rédeas. Dentro de pouco tempo, os arcônidas não mais serão capazes disso. Antes de assistirmos à desagregação do império cósmico, ou de deixar que caia em mãos incapazes ou nas de alguém que seja mais forte e talvez mais cruel que nós, preferimos partilhá-lo com um aliado que só através de nós chegou ao que é. Preferimos partilhá-lo com um amigo que nos seja grato. Nunca encontramos alguém que esteja em melhores condições de desempenhar esse papel que os habitantes do planeta Terra, situado na extremidade da Via Láctea. Já compreende que até chego a ser egoísta quando quero fortalecê-los?
Rhodan respondeu com um ligeiro aceno de cabeça. Estava compreendendo.
— Foi por isso que decidi, contra a vontade de Thora, confiá-lo ao nosso doutrinador. Como desejo ter dois homens ao meu lado, peço-lhe que me indique o nome de seu melhor amigo. Este receberá o mesmo treinamento hipnótico. Suponho que proporá Reginald Bell, não é?
Perry confirmou.
— Em que consiste este treinamento?
— Não receie, não haverá a menor perda de tempo — disse o cientista com um sorriso. — Se começarmos hoje, amanhã, você e Bell disporão de um saber muito maior que toda a humanidade. Além disso, determinados setores do cérebro serão ativados. Se deixássemos que este desenvolvimento seguisse o curso normal, ele levaria milênios. Já lhe falei isso. Não há dúvidas de que será dotado de capacidade telepáticas, ainda restritas. Infelizmente não posso prever quais serão as outras faculdades que se desenvolverão. Talvez sejam ativadas, mas não plenamente desenvolvidas.
— É inacreditável.
— Quando dispuser do nosso saber, você compreenderá. Trazemos o doutrinador a bordo a fim de treinar raças menos inteligentes. Os indivíduos tratados por ele estarão em condições de desempenhar o papel de gênios de sua raça, transmitindo-lhe idéias progressistas. Trata-se da aceleração artificial de um processo que, em condições normais, seria muito lento. No seu caso, adotaremos um processo mais radical. Eliminaremos os estágios. Saltaremos por cima dos milênios. Você se transformará em um homem que corresponderá ao tipo normal que surgirá daqui a dez mil anos, quando tiver sido consolidado o império galático, cuja pedra fundamental foi lançada pelos arcônidas.
Crest calou-se, dando tempo para que Rhodan ordenasse seus pensamentos.
A atuação aparentemente generosa do cientista extraterreno tornou-se compreensível aos seus olhos. Ao ajudar os homens, servia em primeira linha a si mesmo e a sua raça. Descobrira o verdadeiro motivo dos seus atos. Os homens deveriam colocar-se ao lado dos arcônidas debilitados, a fim de que estes não perdessem o império.
Rhodan abanou lentamente a cabeça. Era uma conclusão lógica, resultante das circunstâncias.
— Estou de acordo — disse, tranqüilo, embora mal conseguisse dominar a emoção. — E Thora, o que dirá?
Crest deu de ombros.
— Terá de conformar-se. O cientista da expedição sou eu; é a mim que cabe decidir.
— Mas ela é a comandante — objetou Rhodan.
— É verdade. É responsável pela nave e pela viagem, mas não pelas providências de caráter científico. Sobre estas só eu decido. E também assumo a responsabilidade pelas decisões nesse campo. E, acredite, sei perfeitamente o que estou fazendo.
Rhodan estava convencido disso.
Duas horas depois, ele e Bell eram conduzidos por Crest para uma parte da nave que, até então, permanecera fechada. Em meio a um complexo de máquinas interligadas por uma enorme quantidade de cabos, havia duas poltronas isoladas, dotadas de capacetes. Os grampos metálicos presos aos mesmos iam diretamente às máquinas. Um zumbido ameaçador fez-se ouvir. Luzes acendiam-se e voltavam a se apagar.
— É o doutrinador. Queiram sentar-se nas poltronas. Perderão a consciência e não perceberão nada do que se passa ao seu redor. O funcionamento dessa instalação é totalmente automático. Nesta escala, marco o grau de transmissão de saber. Como vêem, estou escolhendo o grau mais elevado para ambos. Com isso, transfomar-se-ão espiritualmente em arcônidas. Mas os traços natos do seu caráter permanecerão inalterados.
Bell lançou um olhar desconfiado para os capacetes.
— Isso até parece uma cadeira elétrica. Tenho a impressão de estar em Sing-Sing.
— O que vem a ser isso? — perguntou Crest.
— Trata-se de uma instituição onde são presos os criminosos — esclareceu Rhodan, sarcástico. — Bell tem medo de levar um choque ao sentar nessa cadeira.
— Não sentirá nada — asseverou Crest em tom tranqüilizador.
Quando Crest apertou os grampos, Rhodan sentiu um formigamento na pele. O zumbido tornou-se mais forte. Crest pôs a mão numa chave amarela e olhou para ele.
— Daqui a alguns segundos, você adormecerá, e despertará em seguida. Ao menos, terá esta impressão. Na verdade, dormirá por vinte e quatro horas. Só faço votos para que nada aconteça durante esse tempo, pois qualquer interrupção representará um grave risco para o êxito do treinamento-relâmpago. Se surgir alguma emergência, Haggard e Manoli terão de decidir sobre as medidas a serem adotadas. E agora...
— Pare!
A voz zangada soou da porta, em cujo limiar se via Thora. A raiva e o ódio chispavam de seus olhos vermelho-dourados.
Suas mãos estavam crispadas.
— Proíbo a doutrinação, Crest. Nesta nave não se faz nada contra minha vontade. Os homens são uma raça guerreira. Se forem dotados de uma inteligência excessiva, representarão uma ameaça para a nossa existência.
Crest deixou a mão pousada na chave.
— Você está enganada, Thora. Eles nos ajudarão a salvar nosso império. Procurei explicar-lhe as minhas razões; lamento muito que não as tenha compreendido. Se não quisermos submergir, precisaremos de Perry Rhodan e de sua raça. Nossa elite está desaparecendo...
— Se encontrarmos o planeta da vida eterna, não desapareceremos.
Crest sorriu.
— Thora, nunca lhe ocorreu que o relato sobre o planeta da vida eterna talvez não passe de um símbolo? Talvez a Terra seja o planeta que procuramos, é lógico que em sentido figurado. Não me atrapalhe! Tenho muito o que fazer. Daqui a pouco conversaremos.
A voz de Thora assumiu um tom ameaçador.
— Se fizer isso, usarei o gravitador para arremessar este planeta contra o Sol.
O rosto de Crest tornou-se sério.
— Você não se atreverá a isso, Thora. Assim, estaria violando nossas leis fundamentais. Aguarde no meu camarote. Ainda conversaremos sobre isso, enquanto o doutrinador estiver trabalhando.
Antes que a comandante pudesse responder, Crest empurrou a chave. O zumbido tornou-se insuportável. O sangue martelava as têmporas de Rhodan. Ele ouviu, ainda, Bell gemer. Depois a escuridão espalhou-se por toda parte. Parecia mergulhar num abismo sem fim.
Dali a alguns segundos não tinha mais consciência do que se passava em redor.


4



Nestas semanas de calma enganadora, muita coisa estranha aconteceu no mundo.
Nas colinas situadas ao norte da base, desenvolvia-se uma atividade febril. Contingentes de tropas foram retirados, outros foram trazidos. Máquinas e tratores vindos do norte estacionaram nas depressões dos terrenos especialmente preparados. Redes de camuflagem foram estendidas sobre os mesmos. Um exército de especialistas pôs-se a trabalhar. Realizaram-se medições para localizar a entrada da galeria. O general Tai-tiang providenciou o abastecimento de munições para suas peças de artilharia. Aguardava o sinal convencionado.
Enquanto isso, na nave esférica dos arcônidas, o tempo corria em disparada por cima de Perry Rhodan e Reginald Bell, deixando sua marca sob a forma de um saber concentrado no cérebro de ambos. Subitamente, células adormecidas despertaram para a vida.
Com muito esforço, Crest impediu que Thora cumprisse sua ameaça de destruir a humanidade. Ela concordou em aguardar o resultado da experiência. Crest teve a impressão de que Thora não estava falando sério quando ameaçou precipitar a Terra contra o Sol.
Houve mais quatro acontecimentos no mundo, que apressaram a evolução que se vinha processando e lhe conferiram um fundamento lógico. Embora independentes uns dos outros, esses acontecimentos guardavam uma relação estreita entre si. Suas causas situavam-se muito longe.
Naquela época, um cogumelo mortífero erguia-se sobre uma pequena cidade, um cogumelo que se transformaria no símbolo de uma nova era.

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