sábado, 20 de outubro de 2012

P-017 - O Planeta do Sol Moribundo - Kurt Mahr [parte 1]


Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN





Perry Rhodan e seus companheiros partiram em busca do segredo da imortalidade e pousaram em Gol, o décimo quarto planeta do sistema Vega. Lá, sem dúvida, teriam sido vitimados pelos seres luminosos, devoradores de energias, se o desconhecido não os houvesse arremessado para o espaço por meio do transmissor de objetiva.
Apesar de terem sido salvos de uma situação de perigo extremo, os ocupantes da Stardust-III sentem-se deprimidos, pois a nave se encontra numa região completamente desconhecida do Universo.
Onde ficará o mundo em que, segundo as informações do desconhecido, se encontram as coordenadas que permitirão a teleportação espaço-temporal que os conduzirá de volta ao seu mundo?
Será o Planeta do Sol Moribundo?...



= = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =


Perry Rhodan — Comandante da Stardust-III e chefe da Terceira Potência.
Thora e Crest — Que estão dispostos a desistir da busca do planeta da imortalidade.
Tama Yokida — Que faz malabarismos com uma bomba arcônida, a arma mais devastadora do universo conhecido.
Fellmer Lloyd — Cuja indisciplina coloca em risco toda a expedição.
Tenente Tanner — Que comanda o acampamento junto à colina.
Tanaka Seiko — Cujo cérebro, atingido por um processo de mutação, sente como dor física o ódio com que os intrusos são recebidos em Vagabundo.


1



— Já lhe disse — resmungou Crest decepcionado. — Não tenho certeza.
Perry Rhodan fez que sim. Tinha diante de si, sobre o painel de instrumentos, os resultados colhidos com base no espectro, na intensidade luminosa, na posição e na distância provável de uma estrela que, segundo Crest acreditava poucos minutos antes, era conhecida dos espaçonautas arcônidas.
A situação era a seguinte: a missão de Perry Rhodan em Gol, o décimo quarto planeta do sistema Vega — uma massa gigantesca de metano e amoníaco com o triplo do diâmetro de Júpiter, em cuja superfície os efeitos da gravidade eram terríveis — terminara de uma forma estranha e explosiva. A missão só servira para trazer outra indicação sobre a posição do planeta da vida eterna, que estavam procurando. Quando maior era o perigo, a missão foi interrompida através de um transmissor de objetiva. Este realizara a teleportação simultânea de vários grupos separados no espaço, ou seja, Rhodan com três homens, que se encontravam no ponto em que estava localizado o transmissor, o major Nyssen e o capitão Klein, que estavam a cerca de oitenta quilômetros dali, num carro-esteira bastante tosco, e finalmente a imensa nave espacial arcônida, a Stardust-III, retirando-os do planeta Gol e reunindo-os num ponto do Universo que ninguém conhecia, já que ficava distante das rotas de navegação espacial.
Nem mesmo uma pessoa que possuísse extensos conhecimentos científicos saberia dizer como o transmissor, que pelas suas dimensões não passava de uma minúscula partícula de pó em comparação com os oitocentos metros de diâmetro da Stardust-III, conseguira realizar tal milagre. Todavia, o acontecimento não os deixou abalados, como seria de esperar.
O que os preocupava realmente era o fato de não saberem se orientar no setor do espaço em que a Stardust-III viera parar. Não dispunham de qualquer ponto de referência que indicasse uma rota mais favorável à nave e, ao que tudo indicava, não encontrariam nenhum.
As estrelas — umas cinqüenta ou sessenta — que apareciam na tela foram rapidamente analisadas. Depois de ordenados os respectivos dados, os mesmos foram cotejados com os catálogos estelares que a Stardust-III trazia a bordo.
Constatou-se que aquelas estrelas, com exceção de uma única, não tinham a menor semelhança com as que constavam do catálogo. As esperanças de Crest apoiaram-se naquela única estrela. Revelava alguns traços que coincidiam com uma estrela conhecida pela astronomia arcônida, que se situava numa das nebulosas de Magalhães, fora da galáxia. Dessa forma se explicaria a reduzidíssima densidade estelar naquele setor do espaço: a Stardust-III teria penetrado numa área que não fica na galáxia.
Mas a suposição não resistira a um exame mais acurado. Aquela única estrela também revelou muitos traços que não coincidiam com os da estrela situada na nebulosa de Magalhães, que constava do catálogo.
Uma circunstância que causou desassossego ainda maior a Crest — e também a Rhodan, embora este não o confessasse — era a de que a maior parte das estrelas observadas apresentava traços espectrais que quase chegavam a ser aventurosos.
A ciência arcônida não contestava a afirmativa de que uma estrela fixa é um “corpo negro”, segundo a lei das radiações de Planck. Face a isso seria de esperar que todas as estrelas fixas, inclusive as poucas que naquele instante apareciam nas telas da Stardust-III emitissem um espectro de radiações constantes que, conforme o tipo da estrela, começaria no ultravioleta de ondas mais ou menos curtas, passaria pelo campo dos raios visíveis e penetraria profundamente na área do infravermelho.
Nada disso se observava nas estrelas que tanto inquietavam Crest. Muitas delas apresentavam um espectro com algum indício de se conformarem com a lei das radiações, mas de repente apresentavam uma inflexão totalmente imotivada. Outros espectros não se pareciam com qualquer coisa que Crest e Rhodan já tivessem visto. As respectivas estrelas funcionavam como radiadores seletivos, tal qual a luz de uma vela ou de uma lanterninha de bolso.
Uma das estrelas tinha um espectro fragmentário com dois pontos máximos, um deles situado na área do verde, outro na do vermelho. O efeito produzido pela conjunção dos dois fragmentos foi o de um ponto luminoso de cor marrom. Era um fenômeno jamais observado nos céus da galáxia.

* * *

— Então — disse Rhodan com um suspiro. — Não temos a menor idéia do lugar em que nos encontramos. E, se não acontecer um milagre ou coisa que o valha, nunca saberemos.
Procurou observar o efeito de suas palavras. Solicitara a presença dos dois arcônidas na sala de comando, e ainda a de Reginald Bell, dos majores Nyssen e Deringhouse; também pediu o comparecimento de Tako Kakuta, um japonês que representava o Exército de Mutantes.
Crest mergulhou no desânimo; não fez o menor esforço para disfarçar a decepção de que se sentia possuído. Thora, uma arcônida esbelta de cabelos brancos, devia sentir a mesma coisa; mas sabia que idéia o homem faz de um ser que desanima antes da hora. Por isso deu uma expressão enérgica ao seu rosto e enfrentou o olhar de Rhodan.
Os outros homens ali presentes pareciam feitos exclusivamente de curiosidade.
— E agora? — perguntou Bell. — Vamos ficar parados por aqui, esperando pelo milagre?
Rhodan, muito sério, fez que sim.
— Poderia ter a gentileza de nos dizer que milagre é esse? — gritou Thora.
Sua voz parecia irritada e nervosa.
— Espero poder lhes dizer dentro de algumas horas — respondeu Rhodan. — Vou dar uma olhada por aí. Pegarei um caça espacial.
— Acha que com um caça vai vencer a distância de alguns anos-luz que nos separa da estrela mais próxima? — disse Thora com um riso irônico.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Não. Só me afastarei algumas unidades astronômicas.
— Para quê?
— Este setor do espaço é o pedaço mais estranho do Universo que Crest e, evidentemente, também eu, jamais vimos — explicou Rhodan em tom professoral. — A mais próxima das cinqüenta e seis estrelas que vemos se encontra a cinco anos-luz do ponto em que atualmente nos encontramos, a mais distante a cento e oitenta anos-luz. Além desse limite ainda se encontra, a uma distância considerável, uma concentração de matéria quase imperceptível. Talvez se trate de uma galáxia. A densidade estelar nesta região é menor do que seria de esperar no interior de uma galáxia, porém maior que a que costuma ocorrer fora dela. Os espectros das cinqüenta e seis estrelas que temos diante de nós provocariam risos em qualquer analista espectral. Por tudo que conseguimos saber até hoje, espectros dessa espécie não deviam existir. Logo nos acode uma suspeita, a de que a estrutura do espaço em que nos encontramos não é aquela à qual estamos acostumados. Como até mesmo os instrumentos de maior precisão não constataram nada de anormal, pretendo dar uma olhada do lado de fora da nave.
Deringhouse levantou-se de um salto.
— Essa tarefa não caberia a mim?
Rhodan repeliu-o com um gesto.
— Esqueça-se! — respondeu em tom sério. — Se minhas suposições forem corretas...
Preferiu não completar a frase. A passos lentos, todo pensativo, foi em direção ao intercomunicador e mandou que um dos pequenos caças rápidos fosse preparado para a decolagem e colocado na comporta norte da Stardust-III.

* * *

O caça deu um verdadeiro salto ao sair do enorme compartimento da comporta. Rhodan imprimiu uma aceleração média à sua máquina; apesar disso a imensa esfera formada pela nave encolheu-se com uma rapidez assustadora.
Dentro de poucos minutos o caça atingiu a velocidade de 500 km/s. Rhodan reduziu a potência do mecanismo propulsor e regulou o neutralizador de pressão de tal forma que, mesmo em vôo livre, a força gravitacional no interior da minúscula cabina equivalesse à da Terra.
Os instrumentos mantinham-se imóveis. Indicavam a massa da Stardust-III, nada mais.
Depois de ter se afastado da Stardust-III em linha reta durante quinze minutos, sem que tivesse notado nada de extraordinário, aumentou a velocidade do caça.
Descreveu uma curva a cerca de 200 km/s, saiu da rota primitiva e acabou deslocando-se num ângulo de noventa graus em relação à sua trajetória anterior.
Depois de decorridos outros quinze minutos transmitiu nova potência aos jatos, aumentando a velocidade para 10.000 km/s. Efetuou nova mudança de rota, que agora descrevia um ângulo de quarenta e cinco graus tanto com a direção de vôo imediatamente anterior como com a primitiva.
O instrumento ainda registrava nitidamente a massa representada pela Stardust-III, e o envoltório da nave brilhava atrás dele como se fosse uma estrela.
É uma estrela irreal”, pensou Rhodan. A luz refletida pela Stardust-III irritava-o; gostaria de saber por quê. Não havia nada mais natural que a visão de uma nave transformada numa espécie de estrela, desde que o observador se encontrasse a uma distância adequada.
Seus pensamentos foram interrompidos pela voz um tanto nervosa de Bell.
— Por que não dá sinal de vida? O que aconteceu aí fora?
— Nada; absolutamente nada.
Bell resmungou, satisfeito:
— O que você esperava?
— Não sei. Alguma coisa...
— Alô! Está ouvindo? Eu perguntei: O que você esperava?
— E eu respondi: Não sei — disse Rhodan.
Alguns segundos depois, soou a voz áspera de Bell:
— Não o ouço mais, chefe. O que aconteceu?
Perplexo, Rhodan olhou para o painel. Ao que parecia, o mecanismo de controle não tomara conhecimento de qualquer avaria. Todas as peças que se encontravam a bordo do caça estavam em perfeito estado, inclusive o transmissor.
— Rhodan para Stardust-III — berrou Rhodan. — Vocês me ouvem?
A única resposta foi um zumbido monótono. O receptor permanecia inerte. Do outro lado não tinham desligado, mas não o ouviam mais.
Não havia dúvida de que podiam acompanhar sua trajetória por meio do detector de matéria. Sabiam, portanto, que o caça espacial ainda se encontrava dentro da área de alcance dos instrumentos da Stardust-III. Rhodan sentiu-se preocupado ao pensar no que Bell seria capaz de fazer na sua precipitação.
A Stardust-III não devia deslocar-se!
Rhodan acionou os jatos de frenagem. Partículas brilhantes, que se deslocavam à velocidade da luz, saíram dos bocais amplos e achatados, reduzindo progressivamente a velocidade do jato.
As idéias precipitaram-se no cérebro de Rhodan.
Poderia transmitir um sinal à Stardust-III através do feixe luminoso do canhão de impulsos; dessa forma saberiam que ainda estava vivo. Para o mesmo fim poderia fazer explodir uma bomba de detonação rápida, ou então...
Subitamente lembrou-se de que qualquer sinal dessa espécie levaria Bell à conclusão de que se defrontava com um inimigo invisível. Por isso desistiu da idéia.
Os jatos de frenagem, trabalhando a toda potência, levaram alguns minutos para neutralizar a velocidade do caça. Ainda durante a frenagem Rhodan fez o aparelho descrever uma curva fechada, que exigiu o máximo do neutralizador gravitacional. Cerca de dez minutos depois de terem sido interrompidas as comunicações com a Stardust-III, o caça passou a deslocar-se em direção à nave.
A nave continuava no mesmo lugar. Pelos dados registrados no painel de instrumentos, Rhodan viu que se encontrava aproximadamente a uma unidade astronômica, ou seja, a cento e cinqüenta milhões de quilômetros da nave. Se prosseguisse com o máximo de aceleração, talvez ainda a atingisse antes que Bell mandasse dar partida à Stardust-III, para libertá-lo das aparentes dificuldades.
Pela tela do detector de matéria deviam perceber que ele voltara a aproximar-se da nave e, se conservassem o sangue-frio, esperariam.
Imprimiu o máximo de aceleração ao aparelho. Dessa forma não levaria mais de trinta minutos.
O indicador de trajetória, regulado para a rota da Stardust-III, marcava um ângulo igual a zero. Mas o fino traço de luz não se mantinha imóvel na marca zero, como devia acontecer. Tremulava, desviava-se alguns décimos de milímetros para a esquerda, voltava à posição original e desandava de novo.
Rhodan esqueceu-se do que pretendia fazer e desligou os jatos. O caça reagiu imediatamente. O fio de luz foi-se desviando, devagar, mas ininterruptamente e sem voltar atrás.
Rhodan fitou-o estupefato. Um grau negativo, dois graus negativos; o aparelho submetia-se documente à influência de uma força vinda de alguma fonte invisível. Rhodan sabia que todas as indicações dos instrumentos eram registradas. Portanto, poderia interpretar os dados a bordo da Stardust-III. Mas sentiu-se tomado de impaciência. Enquanto o caça se desviava traço após traço, grau após grau, procurou localizar a estranha fonte de energia.
Os rastreadores não indicavam nada, além da massa formada pela nave, que permanecia imóvel no espaço.
O gravímetro, porém, registrava pequenas influências gravitacionais, e indicava a direção em que se processava o respectivo efeito de aceleração. Rhodan sondou o respectivo setor espacial com todos os instrumentos de que dispunha, mas não encontrou nada.
Era uma fonte gravitacional situada no nada!
O fenômeno era tão esdrúxulo quanto os espectros estelares que havia observado.
Durante meia hora Rhodan abandonou o aparelho à influência do misterioso fenômeno. Nesse intervalo sofreu um desvio de dez graus e correu o risco de precipitar-se para além da Stardust-III.
Decorridos os trinta minutos, de súbito, a trajetória não mais sofreu qualquer modificação. O gravímetro não registrava mais nada, e a trajetória do caça passou a ser a de um corpo em queda livre num sistema submetido exclusivamente à força da inércia.
A influência da força gravitacional cessara. Alguém a desligara.
Alguém a desligara?
Enquanto procedia à correção da rota, a fim de voltar a popa do caça em definitivo na direção da Stardust-III, Rhodan procurou calcular o volume de energia que seria necessário para produzir um campo gravitacional igual àquele que acabara de exercer sua influência sobre o caça. O fato de que a alteração da trajetória se realizara de forma constante e em progressão linear em relação ao tempo, indicava que a fonte geradora do campo gravitacional se situava a uma distância muito grande: ao menos três unidades astronômicas. Quem quisesse gerar um campo gravitacional artificial capaz de exercer uma influência tão pronunciada a uma distância daquelas, precisaria de um volume de energia superior...
Superior a quê? Superior, por exemplo, ao da energia total de que dispunha o planeta Terra. Tratava-se de um campo equivalente ao que seria irradiado por um sol. Mas o campo gravitacional de um sol não estava sujeito a uma modificação tão abrupta como a que acabava de se verificar aqui.
Não existe nenhuma explicação”, pensou Rhodan numa atitude resignada.
Fez mais uma tentativa de estabelecer contato com a Stardust-III. Ainda desta vez não conseguiu.
Lembrou-se de que estivera refletindo sobre algum problema no momento em que Bell o chamara. Procurou lembrar-se. Alguma coisa o incomodara. O que era mesmo?
Ah, sim! Era a luz irradiada pela Stardust-III.
Lançou um olhar pensativo sobre o ponto luminoso fulgurante que o imenso corpo esférico da nave projetava sobre a tela.
A lembrança sacudiu-o como uma descarga elétrica.
Em algum lugar nas proximidades havia uma fonte de luz cuja irradiação era refletida pela nave. Seria um contra-senso pensar que cinqüenta e seis estrelas, das quais a mais próxima se situava a cinco e a mais distante a cento e oitenta anos-luz, pudessem irradiar uma quantidade de luz suficiente para fazer com que, a uma distância de mais de cem milhões de quilômetros, a Stardust-III ainda se mostrasse sob a forma de um ponto luminoso.
A nave não emitia qualquer luminosidade própria.
E então?”, perguntou Rhodan de si para si, nervoso e impaciente.
Nas circunstâncias presentes, qualquer pessoa que se afastasse alguns milhares de quilômetros da nave a perderia de vista. Um objeto que não pode refletir nenhuma luz, porque a mesma não existe, e que não emite luminosidade própria é simplesmente invisível.
Acontece que via nitidamente a nave. E havia mais: emitia uma luminosidade mais intensa que a da estrela mais próxima, e isso acontecera mesmo quando o caça se encontrava no ponto mais afastado de sua trajetória.
Haveria uma solução para o mistério?
Por mais que refletisse, nada ocorreu a Rhodan, até que este não pôde pensar em outra coisa senão realizar uma aproximação correta do caça — de direção apenas semi-automática — ao gigantesco corpo esférico da Stardust-III. Num gesto semi-consciente, procurou localizar na superfície convexa da nave o reflexo do corpo luminoso que permitia uma visão tão nítida da Stardust-III, mas não encontrou nada.
Subitamente o telecomunicador voltou a funcionar.
— Se não obtivermos resposta, não permitiremos a entrada do aparelho! — disse a voz exaltada de Bell.
— Tudo em ordem — informou Rhodan em tom de alívio. — Cá estou.
Ouviu Bell fungar.
— Por que não respondeu esse tempo todo?
— Não pude. O telecomunicador não funcionava.
— E agora de repente...
— Sim. Depois falaremos a respeito disso.
Devagar, quase se poderia dizer metro por metro, o caça espacial foi se deslocando em direção à abertura da imensa comporta norte. No último trecho do percurso foi recebido por um raio direcional, que o conduziu para dentro da nave, sem que Rhodan precisasse fazer mais nada.
Depois de realizado o controle regulamentar dos instrumentos, Rhodan desceu do caça. Nesse meio tempo a comporta se enchera de ar respirável. Livrou-se do traje espacial, enquanto se dirigia à sala de comando pelas fitas transportadoras e pelos elevadores antigravitacionais.

* * *

— Temos mais três enigmas — disse Rhodan em tom sério. — A visibilidade da nave, a existência de uma fonte de gravitação de intensidade variável e a falha do telecomunicador. Alguém tem uma explicação?
Era uma pergunta puramente retórica. Percebeu-o pelos rostos dos companheiros. Esperavam que ele lhes desse a explicação.
Mas da mesma forma que eles, não tinha nenhuma.
— Muito bem — prosseguiu. — Não sabemos. Encontramo-nos diante de um enigma, ou melhor, de uma série de enigmas que nem mesmo a ciência arcônida sabe explicar. Só nos resta esperar.
Acontece que essa idéia não se harmonizou com a impaciência de Thora. Seus olhos avermelhados brilharam numa expressão de arrojo e um pouco de ressentimento quando disse:
— Esperar o quê? Temos cinqüenta e seis estrelas que podemos examinar. Por que não começamos logo?
É linda”, pensou Rhodan, que não teve pressa de responder.
— Porque levaria muito tempo — acabou dizendo — se quiséssemos examinar cada estrela e cada planeta à procura de algum indício. Ainda acontece que este setor do espaço está cheio de enigmas dos quais por enquanto nada sabemos, muito menos estamos em condições de solucioná-los.
Thora não concordou com estas palavras. Dispôs-se a responder, mas Crest cortou-lhe a palavra.
— Por falar nisso — começou, lançando um olhar rápido sobre Thora, como se estivesse pedindo paciência à mesma — talvez estejam interessados em saber o que descobri neste meio tempo.
Entregou algumas fitas de plástico a Rhodan. Eram do tipo das que costumavam ser ejetadas pelo interpretador do cérebro positrônico, um gigantesco aparelho de cálculo e processamento de dados que a Stardust-III trazia a bordo. A resposta a qualquer indagação, inicialmente emitida pelo cérebro positrônico sob a forma de impulsos codificados, era registrada nas fitas em caracteres da escrita arcônida, ou em símbolos matemáticos, quando se tratasse de um problema de matemática pura.
— Tive muita dificuldade em encontrar uma formulação sensata para as perguntas e introduzir todas as informações na máquina — disse Crest com um sorriso. — Aqui estão as perguntas — disse, enquanto entregava a Rhodan uma folha de papel em que estavam escritas as perguntas. — As respostas estão nas fitas que você tem na mão.
Rhodan começou a ler.
— De que serve nossa caminhada progressiva e perigosa em busca da civilização que conhece o mistério da conservação das células?
Era a primeira pergunta. A resposta dizia o seguinte:
— A civilização desconhecida só transmite seu saber a quem, face a algumas regras de seleção, prove ser portador de uma civilização (85,179 % de probabilidade).
Crest pôs os dedos no papel em que estavam escritas as perguntas por ele formuladas.
— De posse da primeira resposta, formulei a segunda pergunta.
Rhodan leu:
— Quais são as regras de seleção?
A resposta foi a seguinte:
— As regras de seleção aplicadas pela civilização desconhecida não são exclusivamente de natureza técnico-científica (probabilidade de 100%).
— É claro que isso não passa de uma verdade trivial — observou Crest. — O cérebro positrônico não soube o que fazer com a pergunta.
A última pergunta foi esta:
— Que regras de seleção ainda se tornarão conhecidas a nós, que andamos em busca do segredo?
A resposta dizia o seguinte:
— Para os que andam à procura, as provas (regras de seleção) de natureza técnico-científica estão concluídas (52,112 % de probabilidade).
Rhodan lançou um olhar pensativo sobre a fita em que estavam gravadas as respostas, antes de devolvê-la a Crest.
— A última resposta é quase inútil, não é mesmo? — disse Crest.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Seria inútil, se só contasse com cinqüenta por cento de probabilidade. Mas deve haver alguma informação, que nós não entendemos bem, que fez com que a máquina deduzisse que o imortal, provavelmente, no futuro ainda nos colocará diante de outros enigmas além dos que já tivemos oportunidade de conhecer. Os transmissores de objetiva e conversores de tempo já ficaram para trás. Ainda não sabemos o que virá daqui por diante. Talvez aquilo que descobrimos lá fora seja o começo.
Thora interveio na conversa:
— Acha que, se resolvêssemos não perder mais tempo e começássemos a agir, isso alteraria alguma coisa?
— Perder tempo? — disse Rhodan com um sorriso irônico. — Você está a caminho da vida eterna e fala em perder tempo?
— Acabo de fazer uma proposta séria e aguardo uma resposta séria — disse Thora com a voz amarga.
— Ainda receberá uma resposta séria — disse Rhodan. — Neste momento você ainda acharia que minhas suposições são ridículas.

* * *

Tanaka Seiko ocupava um camarote individual.
Na verdade, a Stardust-III era uma nave de guerra, ou melhor, um couraçado, criada pela tecnologia arcônida como resposta definitiva às ameaças ao Grande Império partidas de mundos revoltados. Sua tripulação completa era de mil homens. Os praças residiam em alojamentos coletivos, os cabos e sargentos em camarotes de duas pessoas e os oficiais em camarotes individuais.
Tanaka Seiko ocupava um desses camarotes individuais, que por motivos óbvios não ficava muito distante da sala de comando.
No correr da última semana Tanaka transformara-se num dos elementos mais importantes da equipe de Rhodan. Graças a um processo de mutação era capaz de captar ondas hertzianas, da mesma maneira que qualquer um de nós capta as vibrações sonoras. Não precisava de aparelho receptor para compreender as emissões de rádio.
Além disso, por enquanto, era o único entre os subordinados de Rhodan que sabia captar as mensagens do imortal e traduzi-las numa linguagem inteligível. No planeta Gol, Rhodan obtivera indícios de que as vibrações de que o imortal se valia para a transmissão de suas mensagens eram fenômenos situados numa dimensão espaço-temporal de ordem superior. Se quisessem descobrir o mistério da vida eterna, que o imortal detinha, teriam de entender as mensagens do mesmo. E Tanaka era o único que possuía essa faculdade.
Assim que a Stardust-III emergiu do hiperespaço depois de um processo extraordinário de teleportação, Rhodan incumbira o japonês de prestar atenção as mensagens do imortal. Dali em diante Tanaka Seiko permaneceu no camarote. O estoicismo da raça asiática revelou-se um auxiliar útil naquela atividade, que consistia em não fazer nada.
De início instalara-se confortavelmente numa macia poltrona articulada dos arcônidas, mas constatou que esse tipo de comodidade lhe provocava sonolência, motivo pelo qual passou a usar uma banqueta de trabalho um pouco mais dura. Apoiou os cotovelos na mesa e descansou a cabeça nas mãos.
Assim ficou sentado por horas a fio; levou meio dia nessa posição.
Reprimiu a sonolência conforme pôde.
Os pensamentos de Tanaka executavam uma dança confusa. Faziam desfilar diante dele quadros do passado. Os olhos de sua mente viram Fukabori, uma pequena aldeia situada junto à baía de Amakusa, a menos de vinte quilômetros de Nagasaki. Viu algumas casas velhas espalhadas pela paisagem.
Mas uma delas despertou sua atenção.
Nunca a vira.
Concentrou-se na visão que os pensamentos lhe ofereciam; procurou reconhecer aquela construção. Ficava no centro da aldeia e parecia um arranha-céu.
Um arranha-céu em Fukabori!
Por lá nunca houvera arranha-céu, e nunca haveria. Afinal, Fukabori não passava de uma aldeia de pescadores.
Parecia antes uma torre com uma altura equivalente a mais de duzentos andares. Será que na Terra existia algum edifício desse tipo?
O campo de visão de Tanaka estreitou-se. A casa paterna, as outras casas, as cabanas dos pescadores, tudo desapareceu do quadro desenhado por seus pensamentos. Só restou a torre, o arranha-céu.
A torre tinha janelas redondas... redondas! De um instante para outro Tanaka sentiu que alguma coisa estranha penetrara em seu cérebro e desenhava um quadro ilusório que sua mente jamais teria concebido.
Sentiu-se tomado de pânico e procurou afastar a coisa estranha. Lutou contra o espírito que lhe incutia o quadro de uma torre de oitocentos metros de altura com janelas redondas.
Mas sucumbiu. No mesmo instante lembrou-se de que isso poderia ser o início de outra mensagem do imortal. Este nunca se revelara por essa forma; mas ninguém saberia dizer de quantas maneiras diferentes dispunha o mesmo para transmitir suas mensagens.
A torre foi crescendo. Parecia aproximar-se de Tanaka numa velocidade tremenda — ou então era Tanaka que se aproximava dela. No fim só restou um trecho do quadro, uma janela redonda. De repente pôde enxergar através da janela. Tanaka viu uma sala pequena, cujo único mobiliário consistia num tipo de escrivaninha. Sobre a escrivaninha havia uma folha de papel. Seria mesmo papel? E ainda havia um objeto fino e comprido, parecido com um lápis.
Tanaka pegou o lápis e começou a escrever.
Pegou o lápis? Que tolice! Viu todo esse quadro desenhado diante dos olhos de sua mente — ou da mente de outro indivíduo, de um desconhecido.
Seja como for, pegou o lápis e começou a escrever. Alguém parecia conduzir sua mão; ele mesmo não sabia o que estava escrevendo, nem conseguia ler.
De repente!
Como Tanaka não respondesse ao chamado de Rhodan, Reginald Bell foi ao camarote do japonês para ver o que estava acontecendo.
Tanaka, desmaiado, estava estendido diante da mesa. Tudo indicava que caíra da banqueta e batera com a cabeça num dos pés da escrivaninha.
Tudo isso parecia estranho a Bell. Por que Tanaka teria caído?
Sobre a escrivaninha havia um montão de folhas de papel. Era papel genuíno de fabricação terrena, de um tipo idêntico ao que, desde sua permanência na Terra, a Stardust-III trazia a bordo às toneladas.
Havia alguma coisa escrita na primeira folha. Bell olhou-a e já ia pô-la de lado. Parecia uma série de desenhos insensatos, traçados por alguém que não soubesse o que fazer.
Mas Bell voltou a olhar. Os desenhos estavam enquadrados em linhas bem ordenadas, e alguns dos sinais insensatos repetiam-se a intervalos regulares.
Bell pôs o papel no bolso e chamou o serviço médico, pedindo que cuidasse de Tanaka Seiko.

* * *
Rhodan reconheceu a escrita. Já a vira duas vezes: da primeira vez no Palácio Vermelho, juntamente com Thora, e de outra vez no cilindro metálico de que se apoderara durante a viagem pelo tempo.
O cérebro positrônico decifrara ambas as mensagens. Possuía os dados básicos, e por isso também devia ser capaz de interpretar os rabiscos de Tanaka.
Rhodan mandou elaborar uma programação ótica do registro e introduziu-a na máquina. Esta não teve muita pressa. Dali a uma hora forneceu a tradução numa fita de plástico:

Tu, que queres enfrentar o perigo, demonstraste paciência e não queres fugir à sedução, presta atenção ao mundo de grau superior. Lá chegando, faze o que deve ser feito. A luz já não está distante. (Seguem alguns sinais indecifráveis. Probabilidade de transmissão correta: 91,998 %.).

Quase ao mesmo tempo em que o cérebro positrônico forneceu a interpretação, Tanaka Seiko despertou do seu desmaio.
Informou o que lhe havia acontecido. Sua lembrança chegava até o ponto em que começara a escrever; dali em diante não se recordava de mais nada.
A interpretação do fenômeno ficou a cargo de Rhodan. Este não teve a menor dúvida de que o imortal, através de um meio que constituía um mistério, como tanta coisa acontecida durante esse empreendimento, apoderara-se do cérebro de Tanaka e obrigara o mesmo a registrar uma mensagem numa folha de papel, que não se encontrava no centésimo octogésimo andar de uma torre, mas na escrivaninha do próprio Tanaka, no interior de um dos camarotes individuais do Stardust-III.
Foi o que Tanaka fez, e nesse meio tempo a mensagem havia sido traduzida. Mas, ao que parecia, a mesma não tinha o menor sentido. Pelo menos não encerrava um significado que Rhodan pudesse reconhecer ao primeiro golpe de vista.
Rhodan desceu à divisão médica para conversar com Tanaka.
— ...presta atenção ao mundo de grau superior — murmurou, contemplando a fita de plástico que trouxera consigo.
O mundo de ordem superior? Em torno de qual das cinqüenta e seis estrelas visíveis nas telas giraria esse mundo?
O telecomunicador chamou.
— Segundo piloto ao comandante!
Era a voz de Reginald Bell, que parecia bastante nervosa.
Rhodan pegou o microfone mais próximo.
— Pronto! O que houve?
Ouviu Bell respirar profundamente.
— Peço-lhe que venha imediatamente à sala de comando. As telas...
Rhodan não ouviu o resto. Com dois ou três saltos atingiu a porta, que para seu gosto se abriu muito devagar, esgueirou-se pela abertura, e correu por cima da fita transportadora que percorria o corredor. Forçando as mãos na parede do poço do elevador antigravitacional, fez este subir mais depressa. Chegou tão depressa à sala de comando que Bell lhe lançou um olhar estupefato.
As telas!
Acreditara naquilo, porque de outra forma nada mais teria um sentido. Sabia que um dia veria esse quadro — e ali o tinha diante de si.
Era o negrume profundo dos confins do espaço, semeado de bilhões de luzinhas coloridas, com longas estrelas brilhantes que representavam as aglomerações estelares distantes e crateras negras formadas pelos espaços vazios ou pelas nebulosas.
Era o quadro que se apresentava a qualquer astronauta, enquanto se encontrasse na galáxia. E também era o quadro que, depois dos dias intermináveis de espera extenuante, conferia um sentido às coisas.
— O que aconteceu? — perguntou com a voz rouca.
Bell deu de ombros. Ainda não se recuperara do susto.
— Não faço a menor idéia. Estava olhando a tela; o quadro era o mesmo de sempre. Voltei a olhar, e o que vi foi isto.
Com um gesto de desespero apontou para a grande parede em que estavam montadas as telas dos visores óticos.
Rhodan recuperou a atividade. Transmitiu ordens precisas ao setor de rastreamento. Os homens ficaram surpresos. Mas, quando puseram a funcionar os instrumentos, perceberam que o quadro estava totalmente modificado.
Enquanto se puseram a procurar, Rhodan, com os olhos pensativos, contemplou as telas.
Houve alguma coisa que despertou sua atenção, no início de forma inconsciente. Teve de passar os olhos por várias vezes pelo respectivo lugar na tela, para captar a imagem.
Era um disco vermelho! Seu tamanho correspondia aproximadamente ao que o Sol devia ter quando visto da órbita de Plutão. Era um disco vermelho-púrpura; até parecia que não emitia luminosidade própria, mas havia sido pintado com essa cor ou recebia sua luz de outra fonte.
Um sol!
Rhodan chamou a atenção dos rastreadores. A Stardust-III mantinha uma velocidade relativa face ao disco vermelho; essa velocidade não devia ultrapassar uns 400 ou 500 km/s em relação ao periélio da trajetória da nave. Com base nesses dados os homens do setor de rastreamento puderam efetuar a triangulação. Dali a dois minutos o resultado foi entregue a Rhodan:
O sol vermelho ficava a cerca de duas unidades astronômicas da nave. Isso equivalia a uns trezentos milhões de quilômetros, menos que a distância que separa Plutão do Sol. Dali se concluía que o astro vermelho era menor que o sol terreno.
Duas unidades astronômicas! Era apenas um pulo para uma nave como a Stardust-III. Rhodan ajustou a rota.
— Rastreamento ao comandante! O sol tem um planeta; provavelmente é o único. Distância do sol: 0,78 unidades astronômicas. Diâmetro: 0,6 do diâmetro da Terra. Distância do ponto em que nos encontramos: 1,2 unidades. É semelhante a Marte.
A memória do cérebro positrônico forneceu os dados direcionais ao piloto automático, que realizou a respectiva correção da rota. A Stardust-III dispôs-se a dar mais um passo na sua caminhada em busca da pedra filosofal

2



— Não havia outra solução, não é mesmo? — perguntou Rhodan.
Crest parecia um tanto perplexo.
— Ao que parece o senhor sabe mais que eu. A que solução está se referindo? Só vejo que, de repente, a situação complicou-se ainda mais.
Rhodan riu.
— É um engano. Não sei como o imortal conseguiu hipnotizar a tripulação e os instrumentos da nave, fazendo com que acreditássemos que víamos um espaço impossível, cinqüenta e seis estrelas também impossíveis e bem ao longe uma aglomeração grotesca de matéria. Não deve se tratar de um processo hipnótico como nós o conhecemos. Ele deve dispor de muitas possibilidades de iludir alguém. Na verdade, durante todo esse tempo a Stardust-III não saiu deste setor do espaço. Apenas acontece que tanto nós como os instrumentos vimos uma ilusão perfeita.
— Mas o que terá havido com o telecomunicador de seu caça? De onde veio aquele campo gravitacional? E o que iluminou a nave?
Rhodan ergueu os ombros.
— Não tenho nenhuma resposta, por enquanto. Se quisermos ver no fenômeno que nos fez contemplar o espaço ilusório um tipo de hipnose, talvez a Stardust-III fosse cercada por uma espécie de campo hipnótico esférico. Enquanto eu me encontrava de um lado do limite desse campo e a nave do outro lado, não havia nenhuma comunicação. Talvez fosse assim. Talvez o campo hipnótico não tivesse nenhuma influência sobre a luz refletida, e assim vi sobre a nave os reflexos de um sol que não pude ver. Quanto ao campo gravitacional, por enquanto não disponho de qualquer explicação para o mesmo.
— Pois bem — disse Thora com uma ligeira ironia na voz. — Quer dizer que já sabia de tudo. Será que agora poderia me dizer ao menos que mal teria feito se tivéssemos adotado minha sugestão e saído à procura de alguma coisa?
— Desde logo — respondeu Rhodan — por uma questão de princípio, quando me encontro com minha nave num setor desconhecido do espaço e ainda por cima sei que não consigo realmente enxergar esse espaço, fico bem quieto. A probabilidade de me perder por aí não é muito grande, visto que a densidade da matéria é muito reduzida, mas por que iria aceitar um risco, por menor que fosse, enquanto posso evitá-lo? Há outra coisa. Se a Stardust-III tivesse se deslocado, que direção teria tomado?
— Provavelmente a direção da estrela mais próxima entre as cinqüenta e seis que estavam ao alcance da nossa vista — respondeu Thora.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Pois é isso. Teríamos colocado a nave em movimento e tomado o impulso costumeiro para a teleportação espaço-temporal. Mas não chegaríamos muito longe, pois esse sol vermelho ficaria bem na rota da transição. Teríamos assistido a um fim de mundo brilhante e bem quente.
Thora olhou-o espantada.
— Já acredita que meus motivos foram válidos? — perguntou Rhodan com um sorriso. — É claro que não sabia da existência desse sol vermelho.

* * *
O planeta era um mundo monótono, bem visível e muito frio. Rhodan contornou-o duas vezes com a nave. Com isso adquiriu o conhecimento de todos os detalhes interessantes sobre a configuração de sua superfície, a temperatura ali reinante, a velocidade da rotação e, principalmente, ficou sabendo que naquele mundo não havia qualquer ser inteligente, ao menos na superfície.
Sentiu-se decepcionado. Esperava que esse planeta lhe desse mais alguma indicação sobre a posição galáctica do mundo da vida eterna. Quem lhe daria tal indicação, se ali não existia nenhum ser inteligente?
O planeta recebeu o nome de Vagabundo, porque se movia sozinho e sem destino num imenso espaço sem estrelas.
Era tão semelhante a Marte que até parecia que o Criador se guiara por um molde. Não havia oceanos. A temperatura média na superfície era de cerca de oito graus negativos. Nenhuma montanha tinha mais que algumas centenas de “metros de altura e ao menos três quartas partes da superfície eram formadas por desertos vermelhos de oxido de ferro.
Rhodan escolheu um desses desertos como local de pouso da Stardust-III. Lembrou-se de que o cérebro positrônico previra que não haveria outras surpresas de ordem técnica; por isso os mutantes que se encontravam a bordo foram mantidos em estado permanente de alerta.
Mas não aconteceu nada. A Stardust-III pousou sem problemas e sem obstáculos. O chão era firme e a força da gravitação não ultrapassava 0,53 g.
Começaram as conjecturas sobre quais seriam as próximas intenções do imortal.

* * *

Tu, que queres enfrentar o perigo, mostraste paciência e não foges à sedução... — disse Rhodan em tom pensativo, recitando o texto da mensagem que Tanaka Seiko registrara num estado hipnótico. — Até parece que o imortal considera a paciência uma das virtudes que quer encontrar em seu sucessor, não é mesmo?
Era uma pergunta um tanto retórica.
— Pode ser — respondeu Bell. — De qualquer maneira desta vez não teríamos escapado tão bem se tivéssemos reagido àquela ilusão maluca. E não lhe levo isso a mal.
Crest concordou.
— Nunca canso de perguntar — disse — se não nos envolvemos numa coisa que é difícil demais para nós. O que nos adiantará a vida eterna, se antes...
Fez um gesto de dúvida e não terminou a frase. Rhodan não respondeu. Pretendia falar em outra coisa quando o intercomunicador deu sinal.
O rosto do tenente Tanner surgiu na tela. Parecia assustado e perplexo.
— Desculpe — disse Tanner apressadamente — quero pedir um conselho.
— Pois não!
Subitamente a perspectiva do quadro modificou-se. O rosto do tenente Tanner desapareceu. Em seu lugar surgiu o interior de um dos pequenos depósitos auxiliares do convés F, situado junto ao pólo norte do corpo esférico da nave.
— Viu? — perguntou Tanner.
Rhodan viu. Naquele depósito haviam sido guardados alguns aparelhos portáteis de telecomunicação do tipo usado pelos destacamentos de choque, que costumavam sair da nave em missões de reconhecimento. Os aparelhos não eram maiores que um rádio transistorizado. Estavam cuidadosamente guardados num tipo de prateleira.
Apenas um deles saíra do lugar e flutuava no centro da sala, a cerca de um metro acima do solo.
O quadro chegava a ser doloroso de tão insensato que era. Até Rhodan passou a mão pelo rosto e voltou a olhar uma segunda vez antes de acreditar no que estava vendo.
— Tem alguma explicação para isso? — perguntou a voz exaltada de Tanner, depois que Rhodan levara algum tempo sem dar sinal de sua presença.
— Não — respondeu Rhodan em tom áspero. — Espere! Já subo até aí!
No interior da Stardust-III os geradores produziram uma gravitação artificial, que se regulava pelo peso normal reinante em Árcon e, portanto, também na Terra. Rhodan praguejou contra os geradores e tudo mais que o impedia de avançar mais rapidamente pelas fitas transportadoras dos corredores.
Tanner, perplexo, estava de pé junto ao aparelho amassado que se encontrava no chão, bem no centro do depósito.
— Caiu?
Tanner fez que sim.
— Sim. De repente ouvi um barulho, e ali estava o aparelho no chão.
Os olhos de Tanner estavam arregalados de susto.
— Isso poderia ser obra de um dos mutantes — murmurou Rhodan. — Mas não acredito.
Meia hora depois teve certeza. A bordo da Stardust-III havia três mutantes que possuíam o dom da telecinésia: Anne Sloane, Betty Toufry, e o japonês Yokida. Betty e Anne passaram as últimas horas lendo, e Yokida examinara os registros de bordo da nave, que estavam ao alcance de qualquer um, procurando catálogos astronômicos que pudesse decifrar com seus reduzidos conhecimentos da escrita arcônida. Yokida era astrônomo.
Nenhum deles permitira-se uma brincadeira, exibindo ao tenente Tanner um telecomunicador de bolso voador.
Rhodan lembrou-se de que Tanner fora ao convés F numa inspeção de rotina. Poderia perfeitamente ter entrado no depósito auxiliar alguns minutos antes ou depois; nesse caso não teria percebido o incidente, ou o mesmo teria causado uma impressão muito menor.
A constatação desse fato não o deixou mais tranqüilo. Levava à conclusão de que possivelmente fatos idênticos poderiam estar ocorrendo em outros pontos da nave, e que os mesmos só seriam percebidos se por acaso alguém abrisse os olhos no lugar e tempo exatos.
Rhodan ordenou imediatamente uma inspeção geral da nave, que foi realizada principalmente por robôs, já que nestes a capacidade de perceber imediatamente qualquer anomalia, por menor que fosse, era mais acentuada que nos homens.
O resultado foi o seguinte:
Havia duas prateleiras derrubadas nos depósitos de acessórios para instrumentos medidores situados no convés E, quinze luminárias acesas em vários compartimentos e uma grande instalação de refrigeração, que com uma eficiência espantosa produzia muitos metros cúbicos de gás carbônico congelado, de que ninguém precisava.
Este último exemplo mostrou a Rhodan que esses incidentes — à primeira vista apenas estranhos, talvez até ridículos — poderiam resvalar para um terreno perigoso. Fosse quem fosse que mexia nas instalações da nave, poderia perfeitamente levar a Stardust-III a uma decolagem catapultada, ou sobrecarregar os geradores a ponto de provocar sua queima.
Rhodan tomou as medidas que o caso requeria. O exemplo do telecomunicador de bolso parecia demonstrar que o estranho inimigo possuía o dom da telecinésia, ou então dispunha de faculdades hipnóticas que lhe permitiam tornar-se invisível. Rhodan ligou o dispositivo automático de prontidão da Stardust-III e mandou que toda a tripulação comparecesse à sala dos oficiais.
Após isso, fez o mutante Fellmer Lloyd percorrer a nave vazia.
Lloyd possuía uma capacidade estranha: sabia identificar as radiações de cérebros estranhos. A primeira impressão era de que Lloyd era um telepata, tal qual John Marshall, que sabia decifrar os pensamentos de outras pessoas. Mas a capacidade de Lloyd era de natureza mais exata e analítica. Sabia desenhar de memória aquilo que “via”. Eram modelos de ondas cerebrais que, segundo Lloyd, haviam sido irradiados pelo cérebro por ele observado. Só esse modelo lhe permitia uma conclusão sobre a natureza dos pensamentos. Conhecia o código que servia à decifração da amostra, sem saber como.
Rhodan batizara-o de localizador, porque sabia constatar a presença de um cérebro estranho a uma distância muito maior que um telepata. De forma que o localizador foi percorrendo a nave muito devagar, sempre atento às suas percepções.
A Stardust-III era uma nave imensa. Estava dividida em seis conveses sobrepostos, e quatro deles subdividiam-se em convés inferior, médio e superior. Havia mais de dois mil corredores, sem contar os estreitos corredores laterais, e uma multidão de salas grandes, médias e pequenas. Alguém que quisesse olhar todas as salas teria de trabalhar durante dois meses, à razão de oito horas por dia.
Fellmer Lloyd, porém, confiou em sua capacidade de reconhecer a emissão de ondas cerebrais a uma distância considerável.
Por isso a inspeção não demorou mais de duas horas. Informou a Rhodan que não encontrara nada de anormal a bordo, e Rhodan concluiu que realmente nada de anormal se encontrava a bordo.

* * *

Rhodan formou um comboio de três veículos de superfície. Em cada um deles foram colocados cinco tripulantes. Os homens estavam bem armados e levaram mantimentos para vários dias. Envergavam trajes espaciais, já que a atmosfera de Vagabundo era muito rarefeita para os pulmões humanos e a temperatura muito baixa. Rhodan chamara os carros de câmbio, face à capacidade de modificar o elemento motor; tratava-se de veículos completamente fechados, que dispunham de minúsculas comportas de ar para uma pessoa.
O próprio Rhodan assumiu o comando da pequena expedição. O major Deringhouse dirigia o segundo carro, o tenente Tanner o terceiro.
Thora não pôde deixar de formular suas objeções contra a expedição.
— O que espera conseguir com isso? — perguntou em tom irônico. — Acredita que o inimigo invisível se enterrou na areia do deserto, e só espera que o senhor o desenterre?
— O que espera conseguir se ficarmos à espera? — retrucou Rhodan.
— Ora essa! Até pouco tempo o senhor era a pessoa que mais gostava de esperar.
— Até pouco tempo. Acontece que a situação mudou.
— Desta vez também tem algum motivo secreto?
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Desta vez não. Apenas tenho a impressão de que lá fora encontrarei mais depressa o que estou procurando do que no interior da nave.
Rhodan realizara todos os preparativos para a expedição. Deringhouse e mais dois dos seus pilotos de caça fizeram vários vôos de reconhecimento em torno da Stardust-III. A natureza do solo já era conhecida, e os vôos nada acrescentaram ao que já sabiam. Havia uma pequena cadeia de colinas ao nordeste, a cerca de oitenta quilômetros da nave. Fora disso só havia o deserto num raio de mais de mil quilômetros.
Houve um incidente. Pouco depois da decolagem de bordo da Stardust-III o motor de um dos três jatos se regulara, ao que tudo indicava espontaneamente, para a potência máxima, levando o aparelho para além das camadas superiores da atmosfera. O piloto procurou dominar o mecanismo rebelde, mas não o conseguiu. Quando já estava perdendo todas as esperanças, o regulador de potência voltou — mais uma vez espontaneamente — à posição normal, deixando a escolha da rota a cargo do piloto, que naquela altura estava mortalmente assustado.
Não houve outras anomalias, mas o incidente ocorrido deu o que pensar a Rhodan.
Fellmer Lloyd participou da expedição. Mas tudo estava preparado para que pudesse voltar à Stardust-III pelo caminho mais rápido, se precisassem dele por lá. O comando da nave ficou a cargo de Reginald Bell.

* * *

No dia da partida da expedição o calendário de bordo registrava a data de 24 de dezembro. Mas, fora a temperatura, que segundo os termômetros externos dos câmbios era de 15 graus negativos, esse dia do planeta Vagabundo nada tinha de comum com o dia terreno.
Os três veículos deslocavam-se em vôo baixo por cima da areia vermelha do deserto; os oitenta quilômetros até a extensa cadeia de colinas foram vencidos em menos de meia hora.
As colinas cobriam uma área de cerca de trezentos mil quilômetros quadrados. Para darem uma busca minuciosa nessa área teriam de gastar uns dez ou quinze dias. Várias vezes Rhodan ficou perguntando de si para si se valeria a pena. Mas sempre chegava à conclusão de que, por algum motivo que ele mesmo não conhecia, acreditava ter certeza de que a solução do segredo do planeta Vagabundo deveria ser procurada naquelas colinas.
O dia do planeta Vagabundo tinha apenas vinte e uma horas. As colinas ficavam no hemisfério norte, entre os trinta e os quarenta graus de latitude. Pela posição do eixo do planeta, deviam encontrar-se no fim do verão.
O primeiro exame da superfície do solo na área adjacente às colinas não produziu outro resultado além dos incidentes a que aqueles homens já começavam a se acostumar. De repente houve uma falha na direção de um dos câmbios, o veículo descreveu alguns volteios malucos, até que o condutor se recuperasse do susto e desligasse o motor. Durante uns dez minutos a direção permaneceu bloqueada, e após isso voltou a reagir normalmente ao comando do condutor.
Quando o carro de Rhodan passava por um local de visibilidade reduzida, subitamente um bloco de pedra do tamanho de uma cabeça humana veio em sua direção. Rhodan não conseguiu desviar o veículo a tempo. Com o impacto da pedra contra a carroçaria do câmbio, houve um baque surdo; mas o veículo fora construído para suportar pressões mais intensas que a produzida pelo impacto de uma pedra.
O terceiro incidente foi mais perigoso. No câmbio comandado pelo major Deringhouse um instrumento de medição pequeno, mas pesado, destacou-se da bagagem e atingiu a cabeça do condutor do veículo com tamanha violência que o mesmo desmaiou imediatamente. Felizmente a reação de Deringhouse foi instantânea e conseguiu evitar a queda do carro, que naquele instante se deslocava pelo ar a uma velocidade de cerca de 150 km/h.
Fellmer Lloyd, que ficava perscrutando atentamente toda a área, não percebeu nada de anormal.
Ao pôr do sol Rhodan montou um tipo de acampamento em meio a uma pequena depressão cercada por três colinas, cuja altura não ultrapassava trinta metros. Os câmbios foram estacionados e montaram-se barracas. Rhodan distribuiu cuidadosamente as sentinelas e fez questão de frisar que, numa região daquelas, não havia motivo para que não ficassem constantemente de olhos e ouvidos abertos, prestando atenção em qualquer ocorrência, por mais insignificante que parecesse.
Conferenciou com Deringhouse e com o tenente Tanner sobre os acontecimentos do dia, depois de ter transmitido um relato breve mas completo, à Stardust-III.
Deringhouse disse em tom enfático:
— Na minha opinião aqui nos defrontamos com alguém que possui capacidades telecinéticas muito acentuadas, e além disso não gosta da nossa presença. Recorre a uma guerra de nervos para azedar nossa vida neste planeta e nos obrigar a dar o fora.
Estavam sentados no interior da barraca de Rhodan. Esta, que era um produto da indústria arcônida, nem pelo aspecto exterior nem pelas suas qualidades assemelhava-se com os produtos similares de origem terrena. Era feita especialmente para ser usada em mundos cuja atmosfera é hostil à vida. Fechada hermeticamente, possuía seus próprios geradores de ar e dispunha de uma pequena comporta aérea. As paredes eram feitas de metal plastificado de moléculas concentradas; embora se reduzissem a uma folha extremamente fina, resistiam a uma pressão de cem atmosferas.
Rhodan não esperara outra interpretação dos incidentes.
— Minha opinião é um pouco diferente, Deringhouse — respondeu. — Bem que gostaria de concordar com você, pois minhas conclusões levam a um resultado ainda mais maluco. Procure se colocar no lugar do inimigo. Possui uma extraordinária capacidade telecinética, provavelmente mais acentuada que a de qualquer dos nossos mutantes. Se não gostasse da nossa presença, poderia ter feito coisa muito pior. O que me impressiona é o fato de que, pelo intervalo temporal, periculosidade, espécie dos objetos e não sei mais o quê, os incidentes seguem uma seqüência tipicamente estatística. Não sei se me fiz entendido. Não há nenhum sistema em tudo aquilo.
Deringhouse não se apressou com a resposta. Depois que tinha refletido bastante, não teve tempo para responder, porque a luz do indicador de entrada da comporta acendeu-se.
Rhodan abriu a porta.
Uma das sentinelas entrou. Nem chegou a tirar o capacete espacial. Sua voz veio abafada por detrás da lâmina do visor. Teve de gritar para ser entendido:
— Constatamos movimento entre duas colinas próximas. Parece que são animais.
Enquanto falava, comprimiu o botão que abria o capacete. Este caiu para trás.
— Quantos são? — perguntou Rhodan.
— Um bando. Calculo que devem ser uns trinta.
— Está bem. Iremos até lá.
A sentinela voltou a firmar o capacete e saiu. Rhodan e seus dois oficiais seguiram-no, depois de terem colocado seus trajes em condições de enfrentar o ambiente exterior.
A sentinela estava postada no ponto mais elevado da maior das colinas. Entre todas as sentinelas era a que dispunha de campo de visão mais amplo. Ao norte da colina, existia uma planície que se estendia por alguns quilômetros na direção norte e ao menos um quilômetro para o leste.
Antes de montar o acampamento haviam constatado a existência de vegetação nessa planície; era a primeira que viram depois de terem pousado no planeta Vagabundo. Rhodan não fizera questão de examinar as plantas. Teria tempo de fazê-lo no dia seguinte, quando avançassem na direção norte.
Ao chegar ao cimo da colina, onde a sentinela fizera uma pequena cova, percebeu a olho nu, sem recorrer ao binóculo infravermelho, que alguma coisa se movia na savana iluminada pelas estrelas. Ao que parecia, Deringhouse conseguia distinguir mais alguma coisa.
— Parece que são.... — principiou. Pôs-se de joelhos e olhou pelo binóculo. — ...castores! — completou. — É um bando de castores bem grandes.
Rhodan examinou os animais pelo binóculo. Eram cerca de trinta, conforme dissera a sentinela. Sentados sobre as patas traseiras, usavam as dianteiras para, de vez em quando, arrancarem um pedaço de vegetação e levá-lo até a boca.
Rhodan não concordou inteiramente com a comparação estabelecida por Deringhouse. A grossura da parte posterior do corpo e o rabo em forma de colher eram de castores. Mas as orelhas, enormes e redondas, e o focinho pontudo lembravam um camundongo superdimensionado. Isto porque o comprimento de seu corpo atingia cerca de um metro.
Pareciam inofensivos. Todavia...
— Tenente Tanner.
— Pois não.
— Traga Lloyd.
Tanner desapareceu e voltou dali a três minutos em companhia de Lloyd.
— Olhe isso, Lloyd! — ordenou Rhodan. — Veja se consegue ouvir alguma coisa.
Lloyd deitou no solo arenoso ao lado de Rhodan. Fixou por alguns instantes a massa escura formada pelo rebanho de animais. Depois fechou os olhos e baixou a cabeça.
Levou bastante tempo para chegar a uma conclusão.
— Não. — Disse finalmente. — Só vejo modelos confusos e sem sentido, como costumam ser encontrados em animais. Estes não são os seres que está procurando.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Obrigado, Lloyd. Volte à cama. Rhodan ficou deitado por mais algum tempo no chão arenoso em companhia de Deringhouse, Tanner e da sentinela.
Pela meia-noite, segundo a contagem de tempo do planeta Vagabundo, Rhodan voltou à sua barraca.
Estava absorto em pensamentos. A existência de formas mais elevadas de vida num mundo que era apenas aridez, frio e oxido de ferro irritava-o e inquietava-o, sem que quisesse confessá-lo a si mesmo, Com alguns movimentos automáticos acionou os contatos da comporta e tirou o capacete assim que a porta se fechou atrás dele.
Ficou refletindo se devia pedir a opinião de Crest. Mas o que Crest poderia saber que ele mesmo, Rhodan, ainda não soubesse? Depois do treinamento hipnótico intenso a que se submetera, possuía os mesmos conhecimentos de Crest e, já que os adquirira de vez e de forma antinatural e compacta, sabia coordená-los melhor que Crest, em cuja mente cresceram e se acumularam em virtude de uma evolução progressiva e orgânica.
Não. Crest não poderia ajudá-lo. Ele mesmo teria de encontrar a resposta.
Tirou o cinto com o estojo do binóculo infravermelho e colocou-o sobre uma pequena prateleira que pertencia ao mobiliário da barraca.
Alguma coisa perturbou-o quando colocou o estojo na prateleira; não sabia o que era. Voltou a mergulhar nos seus pensamentos e sentou na beirada da armação que lhe servia de cama.
Seus olhos caíram sobre a prateleira.

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