Autor
KURT MAHR
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Perry Rhodan e seus companheiros partiram em busca do segredo da
imortalidade e pousaram em Gol, o décimo quarto planeta do sistema Vega. Lá,
sem dúvida, teriam sido vitimados pelos seres luminosos, devoradores de
energias, se o desconhecido não os houvesse arremessado para o espaço por meio
do transmissor de objetiva.
Apesar de terem sido salvos de uma situação de perigo extremo, os
ocupantes da Stardust-III sentem-se deprimidos, pois a nave se encontra numa
região completamente desconhecida do Universo.
Onde ficará o mundo em que, segundo as informações do
desconhecido, se encontram as coordenadas que permitirão a teleportação
espaço-temporal que os conduzirá de volta ao seu mundo?
Será o Planeta do
Sol Moribundo?...
= = = = = = = = = = Personagens Principais: = =
= = = = = = = =
Perry Rhodan — Comandante da
Stardust-III e chefe da Terceira Potência.
Thora e Crest — Que estão
dispostos a desistir da busca do planeta da imortalidade.
Tama Yokida — Que faz malabarismos com uma bomba arcônida, a arma mais devastadora do
universo conhecido.
Fellmer Lloyd — Cuja indisciplina
coloca em risco toda a expedição.
Tenente Tanner — Que comanda o
acampamento junto à colina.
Tanaka Seiko
— Cujo cérebro, atingido por um
processo de mutação, sente como dor física o ódio com que os intrusos são
recebidos em Vagabundo.
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— Já lhe disse — resmungou Crest
decepcionado. — Não tenho certeza.
Perry Rhodan
fez que sim. Tinha diante de si, sobre o painel de instrumentos, os resultados
colhidos com base no espectro, na intensidade luminosa, na posição e na
distância provável de uma estrela que, segundo Crest acreditava poucos minutos
antes, era conhecida dos espaçonautas arcônidas.
A situação
era a seguinte: a missão de Perry Rhodan em Gol, o décimo quarto planeta do
sistema Vega — uma massa gigantesca de metano e amoníaco com o triplo do
diâmetro de Júpiter, em cuja superfície os efeitos da gravidade eram terríveis
— terminara de uma forma estranha e explosiva. A missão só servira para trazer
outra indicação sobre a posição do planeta da vida eterna, que estavam
procurando. Quando maior era o perigo, a missão foi interrompida através de um
transmissor de objetiva. Este realizara a teleportação simultânea de vários
grupos separados no espaço, ou seja, Rhodan com três homens, que se encontravam
no ponto em que estava localizado o transmissor, o major Nyssen e o capitão
Klein, que estavam a cerca de oitenta quilômetros dali, num carro-esteira
bastante tosco, e finalmente a imensa nave espacial arcônida, a Stardust-III,
retirando-os do planeta Gol e reunindo-os num ponto do Universo que ninguém
conhecia, já que ficava distante das rotas de navegação espacial.
Nem mesmo
uma pessoa que possuísse extensos conhecimentos científicos saberia dizer como
o transmissor, que pelas suas dimensões não passava de uma minúscula partícula
de pó em comparação com os oitocentos metros de diâmetro da Stardust-III, conseguira
realizar tal milagre. Todavia, o acontecimento não os deixou abalados, como
seria de esperar.
O que os
preocupava realmente era o fato de não saberem se orientar no setor do espaço
em que a Stardust-III viera parar. Não dispunham de qualquer ponto de
referência que indicasse uma rota mais favorável à nave e, ao que tudo
indicava, não encontrariam nenhum.
As estrelas
— umas cinqüenta ou sessenta — que apareciam na tela foram rapidamente analisadas.
Depois de ordenados os respectivos dados, os mesmos foram cotejados com os
catálogos estelares que a Stardust-III trazia a bordo.
Constatou-se
que aquelas estrelas, com exceção de uma única, não tinham a menor semelhança
com as que constavam do catálogo. As esperanças de Crest apoiaram-se naquela
única estrela. Revelava alguns traços que coincidiam com uma estrela conhecida
pela astronomia arcônida, que se situava numa das nebulosas de Magalhães, fora
da galáxia. Dessa forma se explicaria a reduzidíssima densidade estelar naquele
setor do espaço: a Stardust-III teria penetrado numa área que não fica na
galáxia.
Mas a
suposição não resistira a um exame mais acurado. Aquela única estrela também
revelou muitos traços que não coincidiam com os da estrela situada na nebulosa
de Magalhães, que constava do catálogo.
Uma
circunstância que causou desassossego ainda maior a Crest — e também a Rhodan,
embora este não o confessasse — era a de que a maior parte das estrelas
observadas apresentava traços espectrais que quase chegavam a ser aventurosos.
A ciência
arcônida não contestava a afirmativa de que uma estrela fixa é um “corpo negro”,
segundo a lei das radiações de Planck. Face a isso seria de esperar que todas
as estrelas fixas, inclusive as poucas que naquele instante apareciam nas telas
da Stardust-III emitissem um espectro de radiações constantes que, conforme o
tipo da estrela, começaria no ultravioleta de ondas mais ou menos curtas,
passaria pelo campo dos raios visíveis e penetraria profundamente na área do
infravermelho.
Nada disso
se observava nas estrelas que tanto inquietavam Crest. Muitas delas
apresentavam um espectro com algum indício de se conformarem com a lei das
radiações, mas de repente apresentavam uma inflexão totalmente imotivada.
Outros espectros não se pareciam com qualquer coisa que Crest e Rhodan já
tivessem visto. As respectivas estrelas funcionavam como radiadores seletivos,
tal qual a luz de uma vela ou de uma lanterninha de bolso.
Uma das
estrelas tinha um espectro fragmentário com dois pontos máximos, um deles
situado na área do verde, outro na do vermelho. O efeito produzido pela
conjunção dos dois fragmentos foi o de um ponto luminoso de cor marrom. Era um
fenômeno jamais observado nos céus da galáxia.
* * *
— Então —
disse Rhodan com um suspiro. — Não temos a menor idéia do lugar em que nos
encontramos. E, se não acontecer um milagre ou coisa que o valha, nunca
saberemos.
Procurou
observar o efeito de suas palavras. Solicitara a presença dos dois arcônidas na
sala de comando, e ainda a de Reginald Bell, dos majores Nyssen e Deringhouse;
também pediu o comparecimento de Tako Kakuta, um japonês que representava o
Exército de Mutantes.
Crest
mergulhou no desânimo; não fez o menor esforço para disfarçar a decepção de que
se sentia possuído. Thora, uma arcônida esbelta de cabelos brancos, devia
sentir a mesma coisa; mas sabia que idéia o homem faz de um ser que desanima
antes da hora. Por isso deu uma expressão enérgica ao seu rosto e enfrentou o
olhar de Rhodan.
Os outros
homens ali presentes pareciam feitos exclusivamente de curiosidade.
— E agora? —
perguntou Bell. — Vamos ficar parados por aqui, esperando pelo milagre?
Rhodan,
muito sério, fez que sim.
— Poderia
ter a gentileza de nos dizer que milagre é esse? — gritou Thora.
Sua voz
parecia irritada e nervosa.
— Espero
poder lhes dizer dentro de algumas horas — respondeu Rhodan. — Vou dar uma
olhada por aí. Pegarei um caça espacial.
— Acha que
com um caça vai vencer a distância de alguns anos-luz que nos separa da estrela
mais próxima? — disse Thora com um riso irônico.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Não. Só me
afastarei algumas unidades astronômicas.
— Para quê?
— Este setor
do espaço é o pedaço mais estranho do Universo que Crest e, evidentemente,
também eu, jamais vimos — explicou Rhodan em tom professoral. — A mais próxima
das cinqüenta e seis estrelas que vemos se encontra a cinco anos-luz do ponto
em que atualmente nos encontramos, a mais distante a cento e oitenta anos-luz.
Além desse limite ainda se encontra, a uma distância considerável, uma
concentração de matéria quase imperceptível. Talvez se trate de uma galáxia. A
densidade estelar nesta região é menor do que seria de esperar no interior de
uma galáxia, porém maior que a que costuma ocorrer fora dela. Os espectros das
cinqüenta e seis estrelas que temos diante de nós provocariam risos em qualquer
analista espectral. Por tudo que conseguimos saber até hoje, espectros dessa
espécie não deviam existir.
Logo nos acode uma suspeita, a de que a estrutura do espaço em que nos
encontramos não é aquela à qual estamos acostumados. Como até mesmo os
instrumentos de maior precisão não constataram nada de anormal, pretendo dar
uma olhada do lado de fora da nave.
Deringhouse
levantou-se de um salto.
— Essa
tarefa não caberia a mim?
Rhodan
repeliu-o com um gesto.
—
Esqueça-se! — respondeu em tom sério. — Se minhas suposições forem corretas...
Preferiu não
completar a frase. A passos lentos, todo pensativo, foi em direção ao
intercomunicador e mandou que um dos pequenos caças rápidos fosse preparado
para a decolagem e colocado na comporta norte da Stardust-III.
* * *
O caça deu
um verdadeiro salto ao sair do enorme compartimento da comporta. Rhodan
imprimiu uma aceleração média à sua máquina; apesar disso a imensa esfera
formada pela nave encolheu-se com uma rapidez assustadora.
Dentro de
poucos minutos o caça atingiu a velocidade de 500 km/s. Rhodan reduziu a
potência do mecanismo propulsor e regulou o neutralizador de pressão de tal
forma que, mesmo em vôo livre, a força gravitacional no interior da minúscula
cabina equivalesse à da Terra.
Os
instrumentos mantinham-se imóveis. Indicavam a massa da Stardust-III, nada
mais.
Depois de
ter se afastado da Stardust-III em linha reta durante quinze minutos, sem que
tivesse notado nada de extraordinário, aumentou a velocidade do caça.
Descreveu
uma curva a cerca de 200 km/s, saiu da rota primitiva e acabou deslocando-se
num ângulo de noventa graus em relação à sua trajetória anterior.
Depois de
decorridos outros quinze minutos transmitiu nova potência aos jatos, aumentando
a velocidade para 10.000 km/s. Efetuou nova mudança de rota, que agora
descrevia um ângulo de quarenta e cinco graus tanto com a direção de vôo
imediatamente anterior como com a primitiva.
O
instrumento ainda registrava nitidamente a massa representada pela
Stardust-III, e o envoltório da nave brilhava atrás dele como se fosse uma
estrela.
“É uma estrela irreal”, pensou Rhodan. A
luz refletida pela Stardust-III irritava-o; gostaria de saber por quê. Não
havia nada mais natural que a visão de uma nave transformada numa espécie de
estrela, desde que o observador se encontrasse a uma distância adequada.
Seus
pensamentos foram interrompidos pela voz um tanto nervosa de Bell.
— Por que
não dá sinal de vida? O que aconteceu aí fora?
— Nada;
absolutamente nada.
Bell
resmungou, satisfeito:
— O que você
esperava?
— Não sei.
Alguma coisa...
— Alô! Está
ouvindo? Eu perguntei: O que você esperava?
— E eu
respondi: Não sei — disse Rhodan.
Alguns
segundos depois, soou a voz áspera de Bell:
— Não o ouço
mais, chefe. O que aconteceu?
Perplexo,
Rhodan olhou para o painel. Ao que parecia, o mecanismo de controle não tomara
conhecimento de qualquer avaria. Todas as peças que se encontravam a bordo do
caça estavam em perfeito estado, inclusive o transmissor.
— Rhodan
para Stardust-III — berrou Rhodan. — Vocês me ouvem?
A única
resposta foi um zumbido monótono. O receptor permanecia inerte. Do outro lado
não tinham desligado, mas não o ouviam mais.
Não havia
dúvida de que podiam acompanhar sua trajetória por meio do detector de matéria.
Sabiam, portanto, que o caça espacial ainda se encontrava dentro da área de
alcance dos instrumentos da Stardust-III. Rhodan sentiu-se preocupado ao pensar
no que Bell seria capaz de fazer na sua precipitação.
A
Stardust-III não devia deslocar-se!
Rhodan
acionou os jatos de frenagem. Partículas brilhantes, que se deslocavam à
velocidade da luz, saíram dos bocais amplos e achatados, reduzindo
progressivamente a velocidade do jato.
As idéias
precipitaram-se no cérebro de Rhodan.
Poderia
transmitir um sinal à Stardust-III através do feixe luminoso do canhão de
impulsos; dessa forma saberiam que ainda estava vivo. Para o mesmo fim poderia
fazer explodir uma bomba de detonação rápida, ou então...
Subitamente
lembrou-se de que qualquer sinal dessa espécie levaria Bell à conclusão de que
se defrontava com um inimigo invisível. Por isso desistiu da idéia.
Os jatos de
frenagem, trabalhando a toda potência, levaram alguns minutos para neutralizar
a velocidade do caça. Ainda durante a frenagem Rhodan fez o aparelho descrever
uma curva fechada, que exigiu o máximo do neutralizador gravitacional. Cerca de
dez minutos depois de terem sido interrompidas as comunicações com a
Stardust-III, o caça passou a deslocar-se em direção à nave.
A nave
continuava no mesmo lugar. Pelos dados registrados no painel de instrumentos,
Rhodan viu que se encontrava aproximadamente a uma unidade astronômica, ou
seja, a cento e cinqüenta milhões de quilômetros da nave. Se prosseguisse com o
máximo de aceleração, talvez ainda a atingisse antes que Bell mandasse dar partida
à Stardust-III, para libertá-lo das aparentes dificuldades.
Pela tela do
detector de matéria deviam perceber que ele voltara a aproximar-se da nave e,
se conservassem o sangue-frio, esperariam.
Imprimiu o
máximo de aceleração ao aparelho. Dessa forma não levaria mais de trinta
minutos.
O indicador
de trajetória, regulado para a rota da Stardust-III, marcava um ângulo igual a
zero. Mas o fino traço de luz não se mantinha imóvel na marca zero, como devia
acontecer. Tremulava, desviava-se alguns décimos de milímetros para a esquerda,
voltava à posição original e desandava de novo.
Rhodan
esqueceu-se do que pretendia fazer e desligou os jatos. O caça reagiu
imediatamente. O fio de luz foi-se desviando, devagar, mas ininterruptamente e
sem voltar atrás.
Rhodan
fitou-o estupefato. Um grau negativo, dois graus negativos; o aparelho
submetia-se documente à influência de uma força vinda de alguma fonte
invisível. Rhodan sabia que todas as indicações dos instrumentos eram
registradas. Portanto, poderia interpretar os dados a bordo da Stardust-III.
Mas sentiu-se tomado de impaciência. Enquanto o caça se desviava traço após
traço, grau após grau, procurou localizar a estranha fonte de energia.
Os
rastreadores não indicavam nada, além da massa formada pela nave, que permanecia
imóvel no espaço.
O
gravímetro, porém, registrava pequenas influências gravitacionais, e indicava a
direção em que se processava o respectivo efeito de aceleração. Rhodan sondou o
respectivo setor espacial com todos os instrumentos de que dispunha, mas não
encontrou nada.
Era uma
fonte gravitacional situada no nada!
O fenômeno
era tão esdrúxulo quanto os espectros estelares que havia observado.
Durante meia
hora Rhodan abandonou o aparelho à influência do misterioso fenômeno. Nesse
intervalo sofreu um desvio de dez graus e correu o risco de precipitar-se para
além da Stardust-III.
Decorridos
os trinta minutos, de súbito, a trajetória não mais sofreu qualquer
modificação. O gravímetro não registrava mais nada, e a trajetória do caça
passou a ser a de um corpo em queda livre num sistema submetido exclusivamente
à força da inércia.
A influência
da força gravitacional cessara. Alguém a desligara.
Alguém a
desligara?
Enquanto
procedia à correção da rota, a fim de voltar a popa do caça em definitivo na direção
da Stardust-III, Rhodan procurou calcular o volume de energia que seria
necessário para produzir um campo gravitacional igual àquele que acabara de
exercer sua influência sobre o caça. O fato de que a alteração da trajetória se
realizara de forma constante e em progressão linear em relação ao tempo,
indicava que a fonte geradora do campo gravitacional se situava a uma distância
muito grande: ao menos três unidades astronômicas. Quem quisesse gerar um campo
gravitacional artificial capaz de exercer uma influência tão pronunciada a uma
distância daquelas, precisaria de um volume de energia superior...
Superior a
quê? Superior, por exemplo, ao da energia total de que dispunha o planeta
Terra. Tratava-se de um campo equivalente ao que seria irradiado por um sol.
Mas o campo gravitacional de um sol não estava sujeito a uma modificação tão
abrupta como a que acabava de se verificar aqui.
“Não existe nenhuma explicação”, pensou
Rhodan numa atitude resignada.
Fez mais uma
tentativa de estabelecer contato com a Stardust-III. Ainda desta vez não
conseguiu.
Lembrou-se
de que estivera refletindo sobre algum problema no momento em que Bell o
chamara. Procurou lembrar-se. Alguma coisa o incomodara. O que era mesmo?
Ah, sim! Era
a luz irradiada pela Stardust-III.
Lançou um
olhar pensativo sobre o ponto luminoso fulgurante que o imenso corpo esférico
da nave projetava sobre a tela.
A lembrança
sacudiu-o como uma descarga elétrica.
Em algum
lugar nas proximidades havia uma fonte de luz cuja irradiação era refletida
pela nave. Seria um contra-senso pensar que cinqüenta e seis estrelas, das
quais a mais próxima se situava a cinco e a mais distante a cento e oitenta
anos-luz, pudessem irradiar uma quantidade de luz suficiente para fazer com
que, a uma distância de mais de cem milhões de quilômetros, a Stardust-III
ainda se mostrasse sob a forma de um ponto luminoso.
A nave não
emitia qualquer luminosidade própria.
“E então?”, perguntou Rhodan de si para
si, nervoso e impaciente.
Nas
circunstâncias presentes, qualquer pessoa que se afastasse alguns milhares de
quilômetros da nave a perderia de vista. Um objeto que não pode refletir
nenhuma luz, porque a mesma não existe, e que não emite luminosidade própria é
simplesmente invisível.
Acontece que
via nitidamente a nave. E havia mais: emitia uma luminosidade mais intensa que
a da estrela mais próxima, e isso acontecera mesmo quando o caça se encontrava
no ponto mais afastado de sua trajetória.
Haveria uma
solução para o mistério?
Por mais que
refletisse, nada ocorreu a Rhodan, até que este não pôde pensar em outra coisa
senão realizar uma aproximação correta do caça — de direção apenas
semi-automática — ao gigantesco corpo esférico da Stardust-III. Num gesto
semi-consciente, procurou localizar na superfície convexa da nave o reflexo do
corpo luminoso que permitia uma visão tão nítida da Stardust-III, mas não
encontrou nada.
Subitamente
o telecomunicador voltou a funcionar.
— Se não
obtivermos resposta, não permitiremos a entrada do aparelho! — disse a voz
exaltada de Bell.
— Tudo em ordem
— informou Rhodan em tom de alívio. — Cá estou.
Ouviu Bell
fungar.
— Por que
não respondeu esse tempo todo?
— Não pude.
O telecomunicador não funcionava.
— E agora de
repente...
— Sim.
Depois falaremos a respeito disso.
Devagar,
quase se poderia dizer metro por metro, o caça espacial foi se deslocando em
direção à abertura da imensa comporta norte. No último trecho do percurso foi
recebido por um raio direcional, que o conduziu para dentro da nave, sem que
Rhodan precisasse fazer mais nada.
Depois de realizado
o controle regulamentar dos instrumentos, Rhodan desceu do caça. Nesse meio
tempo a comporta se enchera de ar respirável. Livrou-se do traje espacial,
enquanto se dirigia à sala de comando pelas fitas transportadoras e pelos
elevadores antigravitacionais.
* * *
— Temos mais
três enigmas — disse Rhodan em tom sério. — A visibilidade da nave, a
existência de uma fonte de gravitação de intensidade variável e a falha do
telecomunicador. Alguém tem uma explicação?
Era uma
pergunta puramente retórica. Percebeu-o pelos rostos dos companheiros.
Esperavam que ele lhes desse a explicação.
Mas da mesma
forma que eles, não tinha nenhuma.
— Muito bem
— prosseguiu. — Não sabemos. Encontramo-nos diante de um enigma, ou melhor, de
uma série de enigmas que nem mesmo a ciência arcônida sabe explicar. Só nos
resta esperar.
Acontece que
essa idéia não se harmonizou com a impaciência de Thora. Seus olhos
avermelhados brilharam numa expressão de arrojo e um pouco de ressentimento
quando disse:
— Esperar o
quê? Temos cinqüenta e seis estrelas que podemos examinar. Por que não
começamos logo?
“É linda”, pensou Rhodan, que não teve
pressa de responder.
— Porque
levaria muito tempo — acabou dizendo — se quiséssemos examinar cada estrela e
cada planeta à procura de algum indício. Ainda acontece que este setor do
espaço está cheio de enigmas dos quais por enquanto nada sabemos, muito menos
estamos em condições de solucioná-los.
Thora não
concordou com estas palavras. Dispôs-se a responder, mas Crest cortou-lhe a
palavra.
— Por falar
nisso — começou, lançando um olhar rápido sobre Thora, como se estivesse
pedindo paciência à mesma — talvez estejam interessados em saber o que descobri
neste meio tempo.
Entregou
algumas fitas de plástico a Rhodan. Eram do tipo das que costumavam ser
ejetadas pelo interpretador do cérebro positrônico, um gigantesco aparelho de
cálculo e processamento de dados que a Stardust-III trazia a bordo. A resposta
a qualquer indagação, inicialmente emitida pelo cérebro positrônico sob a forma
de impulsos codificados, era registrada nas fitas em caracteres da escrita
arcônida, ou em símbolos matemáticos, quando se tratasse de um problema de
matemática pura.
— Tive muita
dificuldade em encontrar uma formulação sensata para as perguntas e introduzir
todas as informações na máquina — disse Crest com um sorriso. — Aqui estão as
perguntas — disse, enquanto entregava a Rhodan uma folha de papel em que
estavam escritas as perguntas. — As respostas estão nas fitas que você tem na
mão.
Rhodan
começou a ler.
— De que
serve nossa caminhada progressiva e perigosa em busca da civilização que
conhece o mistério da conservação das células?
Era a
primeira pergunta. A resposta dizia o seguinte:
— A
civilização desconhecida só transmite seu saber a quem, face a algumas regras
de seleção, prove ser portador de uma civilização (85,179 % de probabilidade).
Crest pôs os
dedos no papel em que estavam escritas as perguntas por ele formuladas.
— De posse
da primeira resposta, formulei a segunda pergunta.
Rhodan leu:
— Quais são
as regras de seleção?
A resposta
foi a seguinte:
— As regras
de seleção aplicadas pela civilização desconhecida não são exclusivamente de
natureza técnico-científica (probabilidade de 100%).
— É claro
que isso não passa de uma verdade trivial — observou Crest. — O cérebro
positrônico não soube o que fazer com a pergunta.
A última
pergunta foi esta:
— Que regras
de seleção ainda se tornarão conhecidas a nós, que andamos em busca do segredo?
A resposta
dizia o seguinte:
— Para os
que andam à procura, as provas (regras de seleção) de natureza
técnico-científica estão concluídas (52,112 % de probabilidade).
Rhodan
lançou um olhar pensativo sobre a fita em que estavam gravadas as respostas,
antes de devolvê-la a Crest.
— A última
resposta é quase inútil, não é mesmo? — disse Crest.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Seria
inútil, se só contasse com cinqüenta por cento de probabilidade. Mas deve haver
alguma informação, que nós não entendemos bem, que fez com que a máquina
deduzisse que o imortal, provavelmente, no futuro ainda nos colocará diante de
outros enigmas além dos que já tivemos oportunidade de conhecer. Os
transmissores de objetiva e conversores de tempo já ficaram para trás. Ainda
não sabemos o que virá daqui por diante. Talvez aquilo que descobrimos lá fora
seja o começo.
Thora
interveio na conversa:
— Acha que,
se resolvêssemos não perder mais tempo e começássemos a agir, isso alteraria
alguma coisa?
— Perder
tempo? — disse Rhodan com um sorriso irônico. — Você está a caminho da vida
eterna e fala em perder tempo?
— Acabo de
fazer uma proposta séria e aguardo uma resposta séria — disse Thora com a voz
amarga.
— Ainda
receberá uma resposta séria — disse Rhodan. — Neste momento você ainda acharia
que minhas suposições são ridículas.
* * *
Tanaka Seiko
ocupava um camarote individual.
Na verdade,
a Stardust-III era uma nave de guerra, ou melhor, um couraçado, criada pela
tecnologia arcônida como resposta definitiva às ameaças ao Grande Império
partidas de mundos revoltados. Sua tripulação completa era de mil homens. Os
praças residiam em alojamentos coletivos, os cabos e sargentos em camarotes de
duas pessoas e os oficiais em camarotes individuais.
Tanaka Seiko
ocupava um desses camarotes individuais, que por motivos óbvios não ficava
muito distante da sala de comando.
No correr da
última semana Tanaka transformara-se num dos elementos mais importantes da
equipe de Rhodan. Graças a um processo de mutação era capaz de captar ondas
hertzianas, da mesma maneira que qualquer um de nós capta as vibrações sonoras.
Não precisava de aparelho receptor para compreender as emissões de rádio.
Além disso,
por enquanto, era o único entre os subordinados de Rhodan que sabia captar as
mensagens do imortal e traduzi-las numa linguagem inteligível. No planeta Gol,
Rhodan obtivera indícios de que as vibrações de que o imortal se valia para a
transmissão de suas mensagens eram fenômenos situados numa dimensão
espaço-temporal de ordem superior. Se quisessem descobrir o mistério da vida
eterna, que o imortal detinha, teriam de entender as mensagens do mesmo. E
Tanaka era o único que possuía essa faculdade.
Assim que a
Stardust-III emergiu do hiperespaço depois de um processo extraordinário de
teleportação, Rhodan incumbira o japonês de prestar atenção as mensagens do
imortal. Dali em diante Tanaka Seiko permaneceu no camarote. O estoicismo da
raça asiática revelou-se um auxiliar útil naquela atividade, que consistia em
não fazer nada.
De início
instalara-se confortavelmente numa macia poltrona articulada dos arcônidas, mas
constatou que esse tipo de comodidade lhe provocava sonolência, motivo pelo
qual passou a usar uma banqueta de trabalho um pouco mais dura. Apoiou os
cotovelos na mesa e descansou a cabeça nas mãos.
Assim ficou
sentado por horas a fio; levou meio dia nessa posição.
Reprimiu a
sonolência conforme pôde.
Os
pensamentos de Tanaka executavam uma dança confusa. Faziam desfilar diante dele
quadros do passado. Os olhos de sua mente viram Fukabori, uma pequena aldeia
situada junto à baía de Amakusa, a menos de vinte quilômetros de Nagasaki. Viu
algumas casas velhas espalhadas pela paisagem.
Mas uma
delas despertou sua atenção.
Nunca a
vira.
Concentrou-se
na visão que os pensamentos lhe ofereciam; procurou reconhecer aquela
construção. Ficava no centro da aldeia e parecia um arranha-céu.
Um arranha-céu
em Fukabori!
Por lá nunca
houvera arranha-céu, e nunca haveria. Afinal, Fukabori não passava de uma
aldeia de pescadores.
Parecia
antes uma torre com uma altura equivalente a mais de duzentos andares. Será que
na Terra existia algum edifício desse tipo?
O campo de
visão de Tanaka estreitou-se. A casa paterna, as outras casas, as cabanas dos
pescadores, tudo desapareceu do quadro desenhado por seus pensamentos. Só
restou a torre, o arranha-céu.
A torre
tinha janelas redondas... redondas! De
um instante para outro Tanaka sentiu que alguma coisa estranha penetrara em seu
cérebro e desenhava um quadro ilusório que sua mente jamais teria concebido.
Sentiu-se
tomado de pânico e procurou afastar a coisa estranha. Lutou contra o espírito
que lhe incutia o quadro de uma torre de oitocentos metros de altura com
janelas redondas.
Mas
sucumbiu. No mesmo instante lembrou-se de que isso poderia ser o início de
outra mensagem do imortal. Este nunca se revelara por essa forma; mas ninguém
saberia dizer de quantas maneiras diferentes dispunha o mesmo para transmitir
suas mensagens.
A torre foi
crescendo. Parecia aproximar-se de Tanaka numa velocidade tremenda — ou então
era Tanaka que se aproximava dela. No fim só restou um trecho do quadro, uma
janela redonda. De repente pôde enxergar através da janela. Tanaka viu uma sala
pequena, cujo único mobiliário consistia num tipo de escrivaninha. Sobre a
escrivaninha havia uma folha de papel. Seria mesmo papel? E ainda havia um
objeto fino e comprido, parecido com um lápis.
Tanaka pegou
o lápis e começou a escrever.
Pegou o
lápis? Que tolice! Viu todo esse quadro desenhado diante dos olhos de sua mente
— ou da mente de outro indivíduo, de um desconhecido.
Seja como
for, pegou o lápis e começou a escrever. Alguém parecia conduzir sua mão; ele
mesmo não sabia o que estava escrevendo, nem conseguia ler.
De repente!
Como Tanaka
não respondesse ao chamado de Rhodan, Reginald Bell foi ao camarote do japonês
para ver o que estava acontecendo.
Tanaka,
desmaiado, estava estendido diante da mesa. Tudo indicava que caíra da banqueta
e batera com a cabeça num dos pés da escrivaninha.
Tudo isso
parecia estranho a Bell. Por que Tanaka teria caído?
Sobre a
escrivaninha havia um montão de folhas de papel. Era papel genuíno de
fabricação terrena, de um tipo idêntico ao que, desde sua permanência na Terra,
a Stardust-III trazia a bordo às toneladas.
Havia alguma
coisa escrita na primeira folha. Bell olhou-a e já ia pô-la de lado. Parecia
uma série de desenhos insensatos, traçados por alguém que não soubesse o que
fazer.
Mas Bell
voltou a olhar. Os desenhos estavam enquadrados em linhas bem ordenadas, e
alguns dos sinais insensatos repetiam-se a intervalos regulares.
Bell pôs o
papel no bolso e chamou o serviço médico, pedindo que cuidasse de Tanaka Seiko.
* * *
Rhodan
reconheceu a escrita. Já a vira duas vezes: da primeira vez no Palácio
Vermelho, juntamente com Thora, e de outra vez no cilindro metálico de que se
apoderara durante a viagem pelo tempo.
O cérebro
positrônico decifrara ambas as mensagens. Possuía os dados básicos, e por isso
também devia ser capaz de interpretar os rabiscos de Tanaka.
Rhodan
mandou elaborar uma programação ótica do registro e introduziu-a na máquina.
Esta não teve muita pressa. Dali a uma hora forneceu a tradução numa fita de
plástico:
Tu, que queres enfrentar o perigo, demonstraste paciência e não
queres fugir à sedução, presta atenção ao mundo de grau superior. Lá chegando,
faze o que deve ser feito. A luz já não está distante. (Seguem alguns sinais
indecifráveis. Probabilidade de transmissão correta: 91,998 %.).
Quase ao
mesmo tempo em que o cérebro positrônico forneceu a interpretação, Tanaka Seiko
despertou do seu desmaio.
Informou o
que lhe havia acontecido. Sua lembrança chegava até o ponto em que começara a
escrever; dali em diante não se recordava de mais nada.
A
interpretação do fenômeno ficou a cargo de Rhodan. Este não teve a menor dúvida
de que o imortal, através de um meio que constituía um mistério, como tanta
coisa acontecida durante esse empreendimento, apoderara-se do cérebro de Tanaka
e obrigara o mesmo a registrar uma mensagem numa folha de papel, que não se
encontrava no centésimo octogésimo andar de uma torre, mas na escrivaninha do
próprio Tanaka, no interior de um dos camarotes individuais do Stardust-III.
Foi o que
Tanaka fez, e nesse meio tempo a mensagem havia sido traduzida. Mas, ao que
parecia, a mesma não tinha o menor sentido. Pelo menos não encerrava um
significado que Rhodan pudesse reconhecer ao primeiro golpe de vista.
Rhodan
desceu à divisão médica para conversar com Tanaka.
— ...presta
atenção ao mundo de grau superior — murmurou, contemplando a fita de plástico
que trouxera consigo.
O mundo de
ordem superior? Em torno de qual das cinqüenta e seis estrelas visíveis nas
telas giraria esse mundo?
O
telecomunicador chamou.
— Segundo
piloto ao comandante!
Era a voz de
Reginald Bell, que parecia bastante nervosa.
Rhodan pegou
o microfone mais próximo.
— Pronto! O
que houve?
Ouviu Bell
respirar profundamente.
— Peço-lhe
que venha imediatamente à sala de comando. As telas...
Rhodan não
ouviu o resto. Com dois ou três saltos atingiu a porta, que para seu gosto se
abriu muito devagar, esgueirou-se pela abertura, e correu por cima da fita
transportadora que percorria o corredor. Forçando as mãos na parede do poço do
elevador antigravitacional, fez este subir mais depressa. Chegou tão depressa à
sala de comando que Bell lhe lançou um olhar estupefato.
As telas!
Acreditara
naquilo, porque de outra forma nada mais teria um sentido. Sabia que um dia veria
esse quadro — e ali o tinha diante de si.
Era o
negrume profundo dos confins do espaço, semeado de bilhões de luzinhas
coloridas, com longas estrelas brilhantes que representavam as aglomerações
estelares distantes e crateras negras formadas pelos espaços vazios ou pelas
nebulosas.
Era o quadro
que se apresentava a qualquer astronauta, enquanto se encontrasse na galáxia. E
também era o quadro que, depois dos dias intermináveis de espera extenuante,
conferia um sentido às coisas.
— O que
aconteceu? — perguntou com a voz rouca.
Bell deu de
ombros. Ainda não se recuperara do susto.
— Não faço a
menor idéia. Estava olhando a tela; o quadro era o mesmo de sempre. Voltei a
olhar, e o que vi foi isto.
Com um gesto
de desespero apontou para a grande parede em que estavam montadas as telas dos
visores óticos.
Rhodan
recuperou a atividade. Transmitiu ordens precisas ao setor de rastreamento. Os
homens ficaram surpresos. Mas, quando puseram a funcionar os instrumentos,
perceberam que o quadro estava totalmente modificado.
Enquanto se
puseram a procurar, Rhodan, com os olhos pensativos, contemplou as telas.
Houve alguma
coisa que despertou sua atenção, no início de forma inconsciente. Teve de
passar os olhos por várias vezes pelo respectivo lugar na tela, para captar a
imagem.
Era um disco
vermelho! Seu tamanho correspondia aproximadamente ao que o Sol devia ter
quando visto da órbita de Plutão. Era um disco vermelho-púrpura; até parecia
que não emitia luminosidade própria, mas havia sido pintado com essa cor ou
recebia sua luz de outra fonte.
Um sol!
Rhodan
chamou a atenção dos rastreadores. A Stardust-III mantinha uma velocidade
relativa face ao disco vermelho; essa velocidade não devia ultrapassar uns 400
ou 500 km/s em relação ao periélio da trajetória da nave. Com base nesses dados
os homens do setor de rastreamento puderam efetuar a triangulação. Dali a dois
minutos o resultado foi entregue a Rhodan:
O sol
vermelho ficava a cerca de duas unidades astronômicas da nave. Isso equivalia a
uns trezentos milhões de quilômetros, menos que a distância que separa Plutão
do Sol. Dali se concluía que o astro vermelho era menor que o sol terreno.
Duas
unidades astronômicas! Era apenas um pulo para uma nave como a Stardust-III.
Rhodan ajustou a rota.
—
Rastreamento ao comandante! O sol tem um planeta; provavelmente é o único.
Distância do sol: 0,78 unidades astronômicas. Diâmetro: 0,6 do diâmetro da
Terra. Distância do ponto em que nos encontramos: 1,2 unidades. É semelhante a
Marte.
A memória do
cérebro positrônico forneceu os dados direcionais ao piloto automático, que
realizou a respectiva correção da rota. A Stardust-III dispôs-se a dar mais um
passo na sua caminhada em busca da pedra filosofal
2
— Não havia
outra solução, não é mesmo? — perguntou Rhodan.
Crest
parecia um tanto perplexo.
— Ao que
parece o senhor sabe mais que eu. A que solução está se referindo? Só vejo que,
de repente, a situação complicou-se ainda mais.
Rhodan riu.
— É um
engano. Não sei como o imortal conseguiu hipnotizar a tripulação e os
instrumentos da nave, fazendo com que acreditássemos que víamos um espaço
impossível, cinqüenta e seis estrelas também impossíveis e bem ao longe uma
aglomeração grotesca de matéria. Não deve se tratar de um processo hipnótico
como nós o conhecemos. Ele deve dispor de muitas possibilidades de iludir
alguém. Na verdade, durante todo esse tempo a Stardust-III não saiu deste setor
do espaço. Apenas acontece que tanto nós como os instrumentos vimos uma ilusão
perfeita.
— Mas o que
terá havido com o telecomunicador de seu caça? De onde veio aquele campo
gravitacional? E o que iluminou a nave?
Rhodan
ergueu os ombros.
— Não tenho
nenhuma resposta, por enquanto. Se quisermos ver no fenômeno que nos fez
contemplar o espaço ilusório um tipo de hipnose, talvez a Stardust-III fosse cercada
por uma espécie de campo hipnótico esférico. Enquanto eu me encontrava de um
lado do limite desse campo e a nave do outro lado, não havia nenhuma
comunicação. Talvez fosse assim. Talvez o campo hipnótico não tivesse nenhuma
influência sobre a luz refletida, e assim vi sobre a nave os reflexos de um sol
que não pude ver. Quanto ao campo gravitacional, por enquanto não disponho de
qualquer explicação para o mesmo.
— Pois bem —
disse Thora com uma ligeira ironia na voz. — Quer dizer que já sabia de tudo.
Será que agora poderia me dizer ao menos que mal teria feito se tivéssemos
adotado minha sugestão e saído à procura de alguma coisa?
— Desde logo
— respondeu Rhodan — por uma questão de princípio, quando me encontro com minha
nave num setor desconhecido do espaço e ainda por cima sei que não consigo
realmente enxergar esse espaço, fico bem quieto. A probabilidade de me perder
por aí não é muito grande, visto que a densidade da matéria é muito reduzida,
mas por que iria aceitar um risco, por menor que fosse, enquanto posso
evitá-lo? Há outra coisa. Se a Stardust-III tivesse se deslocado, que direção
teria tomado?
—
Provavelmente a direção da estrela mais próxima entre as cinqüenta e seis que
estavam ao alcance da nossa vista — respondeu Thora.
Rhodan confirmou
com um aceno de cabeça.
— Pois é
isso. Teríamos colocado a nave em movimento e tomado o impulso costumeiro para
a teleportação espaço-temporal. Mas não chegaríamos muito longe, pois esse sol
vermelho ficaria bem na rota da transição. Teríamos assistido a um fim de mundo
brilhante e bem quente.
Thora
olhou-o espantada.
— Já
acredita que meus motivos foram válidos? — perguntou Rhodan com um sorriso. — É
claro que não sabia da existência desse sol vermelho.
* * *
O planeta
era um mundo monótono, bem visível e muito frio. Rhodan contornou-o duas vezes
com a nave. Com isso adquiriu o conhecimento de todos os detalhes interessantes
sobre a configuração de sua superfície, a temperatura ali reinante, a
velocidade da rotação e, principalmente, ficou sabendo que naquele mundo não
havia qualquer ser inteligente, ao menos na superfície.
Sentiu-se
decepcionado. Esperava que esse planeta lhe desse mais alguma indicação sobre a
posição galáctica do mundo da vida eterna. Quem lhe daria tal indicação, se ali
não existia nenhum ser inteligente?
O planeta
recebeu o nome de Vagabundo, porque se movia sozinho e sem destino num imenso
espaço sem estrelas.
Era tão
semelhante a Marte que até parecia que o Criador se guiara por um molde. Não
havia oceanos. A temperatura média na superfície era de cerca de oito graus
negativos. Nenhuma montanha tinha mais que algumas centenas de “metros de
altura e ao menos três quartas partes da superfície eram formadas por desertos
vermelhos de oxido de ferro.
Rhodan
escolheu um desses desertos como local de pouso da Stardust-III. Lembrou-se de
que o cérebro positrônico previra que não haveria outras surpresas de ordem
técnica; por isso os mutantes que se encontravam a bordo foram mantidos em
estado permanente de alerta.
Mas não
aconteceu nada. A Stardust-III pousou sem problemas e sem obstáculos. O chão
era firme e a força da gravitação não ultrapassava 0,53 g .
Começaram as
conjecturas sobre quais seriam as próximas intenções do imortal.
* * *
— Tu, que queres enfrentar o perigo, mostraste
paciência e não foges à sedução... — disse Rhodan em tom pensativo,
recitando o texto da mensagem que Tanaka Seiko registrara num estado hipnótico.
— Até parece que o imortal considera a paciência uma das virtudes que quer
encontrar em seu sucessor, não é mesmo?
Era uma
pergunta um tanto retórica.
— Pode ser —
respondeu Bell. — De qualquer maneira desta vez não teríamos escapado tão bem
se tivéssemos reagido àquela ilusão maluca. E não lhe levo isso a mal.
Crest
concordou.
— Nunca
canso de perguntar — disse — se não nos envolvemos numa coisa que é difícil
demais para nós. O que nos adiantará a vida eterna, se antes...
Fez um gesto
de dúvida e não terminou a frase. Rhodan não respondeu. Pretendia falar em
outra coisa quando o intercomunicador deu sinal.
O rosto do
tenente Tanner surgiu na tela. Parecia assustado e perplexo.
— Desculpe —
disse Tanner apressadamente — quero pedir um conselho.
— Pois não!
Subitamente
a perspectiva do quadro modificou-se. O rosto do tenente Tanner desapareceu. Em
seu lugar surgiu o interior de um dos pequenos depósitos auxiliares do convés
F, situado junto ao pólo norte do corpo esférico da nave.
— Viu? —
perguntou Tanner.
Rhodan viu.
Naquele depósito haviam sido guardados alguns aparelhos portáteis de
telecomunicação do tipo usado pelos destacamentos de choque, que costumavam
sair da nave em missões de reconhecimento. Os aparelhos não eram maiores que um
rádio transistorizado. Estavam cuidadosamente guardados num tipo de prateleira.
Apenas um
deles saíra do lugar e flutuava no centro da sala, a cerca de um metro acima do
solo.
O quadro
chegava a ser doloroso de tão insensato que era. Até Rhodan passou a mão pelo
rosto e voltou a olhar uma segunda vez antes de acreditar no que estava vendo.
— Tem alguma
explicação para isso? — perguntou a voz exaltada de Tanner, depois que Rhodan
levara algum tempo sem dar sinal de sua presença.
— Não —
respondeu Rhodan em tom áspero. — Espere! Já subo até aí!
No interior
da Stardust-III os geradores produziram uma gravitação artificial, que se
regulava pelo peso normal reinante em Árcon e, portanto, também na Terra.
Rhodan praguejou contra os geradores e tudo mais que o impedia de avançar mais
rapidamente pelas fitas transportadoras dos corredores.
Tanner,
perplexo, estava de pé junto ao aparelho amassado que se encontrava no chão,
bem no centro do depósito.
— Caiu?
Tanner fez
que sim.
— Sim. De
repente ouvi um barulho, e ali estava o aparelho no chão.
Os olhos de
Tanner estavam arregalados de susto.
— Isso
poderia ser obra de um dos mutantes — murmurou Rhodan. — Mas não acredito.
Meia hora
depois teve certeza. A bordo da Stardust-III havia três mutantes que possuíam o
dom da telecinésia: Anne Sloane, Betty Toufry, e o japonês Yokida. Betty e Anne
passaram as últimas horas lendo, e Yokida examinara os registros de bordo da
nave, que estavam ao alcance de qualquer um, procurando catálogos astronômicos
que pudesse decifrar com seus reduzidos conhecimentos da escrita arcônida.
Yokida era astrônomo.
Nenhum deles
permitira-se uma brincadeira, exibindo ao tenente Tanner um telecomunicador de
bolso voador.
Rhodan
lembrou-se de que Tanner fora ao convés F numa inspeção de rotina. Poderia
perfeitamente ter entrado no depósito auxiliar alguns minutos antes ou depois;
nesse caso não teria percebido o incidente, ou o mesmo teria causado uma
impressão muito menor.
A
constatação desse fato não o deixou mais tranqüilo. Levava à conclusão de que
possivelmente fatos idênticos poderiam estar ocorrendo em outros pontos da
nave, e que os mesmos só seriam percebidos se por acaso alguém abrisse os olhos
no lugar e tempo exatos.
Rhodan
ordenou imediatamente uma inspeção geral da nave, que foi realizada
principalmente por robôs, já que nestes a capacidade de perceber imediatamente
qualquer anomalia, por menor que fosse, era mais acentuada que nos homens.
O resultado
foi o seguinte:
Havia duas
prateleiras derrubadas nos depósitos de acessórios para instrumentos medidores
situados no convés E, quinze luminárias acesas em vários compartimentos e uma
grande instalação de refrigeração, que com uma eficiência espantosa produzia
muitos metros cúbicos de gás carbônico congelado, de que ninguém precisava.
Este último
exemplo mostrou a Rhodan que esses incidentes — à primeira vista apenas
estranhos, talvez até ridículos — poderiam resvalar para um terreno perigoso.
Fosse quem fosse que mexia nas instalações da nave, poderia perfeitamente levar
a Stardust-III a uma decolagem catapultada, ou sobrecarregar os geradores a
ponto de provocar sua queima.
Rhodan tomou
as medidas que o caso requeria. O exemplo do telecomunicador de bolso parecia
demonstrar que o estranho inimigo possuía o dom da telecinésia, ou então
dispunha de faculdades hipnóticas que lhe permitiam tornar-se invisível. Rhodan
ligou o dispositivo automático de prontidão da Stardust-III e mandou que toda a
tripulação comparecesse à sala dos oficiais.
Após isso,
fez o mutante Fellmer Lloyd percorrer a nave vazia.
Lloyd
possuía uma capacidade estranha: sabia identificar as radiações de cérebros
estranhos. A primeira impressão era de que Lloyd era um telepata, tal qual John
Marshall, que sabia decifrar os pensamentos de outras pessoas. Mas a capacidade
de Lloyd era de natureza mais exata e analítica. Sabia desenhar de memória
aquilo que “via”. Eram modelos de
ondas cerebrais que, segundo Lloyd, haviam sido irradiados pelo cérebro por ele
observado. Só esse modelo lhe permitia uma conclusão sobre a natureza dos
pensamentos. Conhecia o código que servia à decifração da amostra, sem saber
como.
Rhodan
batizara-o de localizador, porque
sabia constatar a presença de um cérebro estranho a uma distância muito maior
que um telepata. De forma que o localizador foi percorrendo a nave muito
devagar, sempre atento às suas percepções.
A
Stardust-III era uma nave imensa. Estava dividida em seis conveses sobrepostos,
e quatro deles subdividiam-se em convés inferior, médio e superior. Havia mais
de dois mil corredores, sem contar os estreitos corredores laterais, e uma
multidão de salas grandes, médias e pequenas. Alguém que quisesse olhar todas
as salas teria de trabalhar durante dois meses, à razão de oito horas por dia.
Fellmer
Lloyd, porém, confiou em sua capacidade de reconhecer a emissão de ondas
cerebrais a uma distância considerável.
Por isso a
inspeção não demorou mais de duas horas. Informou a Rhodan que não encontrara
nada de anormal a bordo, e Rhodan concluiu que realmente nada de anormal se
encontrava a bordo.
* * *
Rhodan
formou um comboio de três veículos de superfície. Em cada um deles foram
colocados cinco tripulantes. Os homens estavam bem armados e levaram
mantimentos para vários dias. Envergavam trajes espaciais, já que a atmosfera
de Vagabundo era muito rarefeita para os pulmões humanos e a temperatura muito
baixa. Rhodan chamara os carros de câmbio, face à capacidade de modificar o
elemento motor; tratava-se de veículos completamente fechados, que dispunham de
minúsculas comportas de ar para uma pessoa.
O próprio
Rhodan assumiu o comando da pequena expedição. O major Deringhouse dirigia o
segundo carro, o tenente Tanner o terceiro.
Thora não pôde
deixar de formular suas objeções contra a expedição.
— O que
espera conseguir com isso? — perguntou em tom irônico. — Acredita que o inimigo
invisível se enterrou na areia do deserto, e só espera que o senhor o
desenterre?
— O que
espera conseguir se ficarmos à espera? — retrucou Rhodan.
— Ora essa!
Até pouco tempo o senhor era a pessoa que mais gostava de esperar.
— Até pouco
tempo. Acontece que a situação mudou.
— Desta vez
também tem algum motivo secreto?
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Desta vez
não. Apenas tenho a impressão de que lá fora encontrarei mais depressa o que
estou procurando do que no interior da nave.
Rhodan
realizara todos os preparativos para a expedição. Deringhouse e mais dois dos
seus pilotos de caça fizeram vários vôos de reconhecimento em torno da
Stardust-III. A natureza do solo já era conhecida, e os vôos nada acrescentaram
ao que já sabiam. Havia uma pequena cadeia de colinas ao nordeste, a cerca de
oitenta quilômetros da nave. Fora disso só havia o deserto num raio de mais de
mil quilômetros.
Houve um
incidente. Pouco depois da decolagem de bordo da Stardust-III o motor de um dos
três jatos se regulara, ao que tudo indicava espontaneamente, para a potência
máxima, levando o aparelho para além das camadas superiores da atmosfera. O piloto
procurou dominar o mecanismo rebelde, mas não o conseguiu. Quando já estava
perdendo todas as esperanças, o regulador de potência voltou — mais uma vez
espontaneamente — à posição normal, deixando a escolha da rota a cargo do
piloto, que naquela altura estava mortalmente assustado.
Não houve
outras anomalias, mas o incidente ocorrido deu o que pensar a Rhodan.
Fellmer
Lloyd participou da expedição. Mas tudo estava preparado para que pudesse
voltar à Stardust-III pelo caminho mais rápido, se precisassem dele por lá. O
comando da nave ficou a cargo de Reginald Bell.
* * *
No dia da
partida da expedição o calendário de bordo registrava a data de 24 de dezembro.
Mas, fora a temperatura, que segundo os termômetros externos dos câmbios era de
15 graus negativos, esse dia do planeta Vagabundo nada tinha de comum com o dia
terreno.
Os três
veículos deslocavam-se em vôo baixo por cima da areia vermelha do deserto; os
oitenta quilômetros até a extensa cadeia de colinas foram vencidos em menos de
meia hora.
As colinas
cobriam uma área de cerca de trezentos mil quilômetros quadrados. Para darem
uma busca minuciosa nessa área teriam de gastar uns dez ou quinze dias. Várias
vezes Rhodan ficou perguntando de si para si se valeria a pena. Mas sempre
chegava à conclusão de que, por algum motivo que ele mesmo não conhecia,
acreditava ter certeza de que a solução do segredo do planeta Vagabundo deveria
ser procurada naquelas colinas.
O dia do
planeta Vagabundo tinha apenas vinte e uma horas. As colinas ficavam no hemisfério
norte, entre os trinta e os quarenta graus de latitude. Pela posição do eixo do
planeta, deviam encontrar-se no fim do verão.
O primeiro
exame da superfície do solo na área adjacente às colinas não produziu outro
resultado além dos incidentes a que aqueles homens já começavam a se acostumar.
De repente houve uma falha na direção de um dos câmbios, o veículo descreveu
alguns volteios malucos, até que o condutor se recuperasse do susto e
desligasse o motor. Durante uns dez minutos a direção permaneceu bloqueada, e
após isso voltou a reagir normalmente ao comando do condutor.
Quando o
carro de Rhodan passava por um local de visibilidade reduzida, subitamente um
bloco de pedra do tamanho de uma cabeça humana veio em sua direção. Rhodan não
conseguiu desviar o veículo a tempo. Com o impacto da pedra contra a carroçaria
do câmbio, houve um baque surdo; mas o veículo fora construído para suportar
pressões mais intensas que a produzida pelo impacto de uma pedra.
O terceiro
incidente foi mais perigoso. No câmbio comandado pelo major Deringhouse um
instrumento de medição pequeno, mas pesado, destacou-se da bagagem e atingiu a
cabeça do condutor do veículo com tamanha violência que o mesmo desmaiou
imediatamente. Felizmente a reação de Deringhouse foi instantânea e conseguiu
evitar a queda do carro, que naquele instante se deslocava pelo ar a uma
velocidade de cerca de 150 km/h .
Fellmer
Lloyd, que ficava perscrutando atentamente toda a área, não percebeu nada de
anormal.
Ao pôr do
sol Rhodan montou um tipo de acampamento em meio a uma pequena depressão
cercada por três colinas, cuja altura não ultrapassava trinta metros. Os
câmbios foram estacionados e montaram-se barracas. Rhodan distribuiu
cuidadosamente as sentinelas e fez questão de frisar que, numa região daquelas,
não havia motivo para que não ficassem constantemente de olhos e ouvidos
abertos, prestando atenção em qualquer ocorrência, por mais insignificante que
parecesse.
Conferenciou
com Deringhouse e com o tenente Tanner sobre os acontecimentos do dia, depois de
ter transmitido um relato breve mas completo, à Stardust-III.
Deringhouse
disse em tom enfático:
— Na minha
opinião aqui nos defrontamos com alguém que possui capacidades telecinéticas
muito acentuadas, e além disso não gosta da nossa presença. Recorre a uma
guerra de nervos para azedar nossa vida neste planeta e nos obrigar a dar o
fora.
Estavam
sentados no interior da barraca de Rhodan. Esta, que era um produto da
indústria arcônida, nem pelo aspecto exterior nem pelas suas qualidades
assemelhava-se com os produtos similares de origem terrena. Era feita
especialmente para ser usada em mundos cuja atmosfera é hostil à vida. Fechada
hermeticamente, possuía seus próprios geradores de ar e dispunha de uma pequena
comporta aérea. As paredes eram feitas de metal plastificado de moléculas
concentradas; embora se reduzissem a uma folha extremamente fina, resistiam a
uma pressão de cem atmosferas.
Rhodan não
esperara outra interpretação dos incidentes.
— Minha
opinião é um pouco diferente, Deringhouse — respondeu. — Bem que gostaria de
concordar com você, pois minhas conclusões levam a um resultado ainda mais
maluco. Procure se colocar no lugar do inimigo. Possui uma extraordinária
capacidade telecinética, provavelmente mais acentuada que a de qualquer dos
nossos mutantes. Se não gostasse da nossa presença, poderia ter feito coisa
muito pior. O que me impressiona é o fato de que, pelo intervalo temporal,
periculosidade, espécie dos objetos e não sei mais o quê, os incidentes seguem
uma seqüência tipicamente estatística. Não sei se me fiz entendido. Não há
nenhum sistema em tudo aquilo.
Deringhouse
não se apressou com a resposta. Depois que tinha refletido bastante, não teve
tempo para responder, porque a luz do indicador de entrada da comporta
acendeu-se.
Rhodan abriu
a porta.
Uma das
sentinelas entrou. Nem chegou a tirar o capacete espacial. Sua voz veio abafada
por detrás da lâmina do visor. Teve de gritar para ser entendido:
—
Constatamos movimento entre duas colinas próximas. Parece que são animais.
Enquanto
falava, comprimiu o botão que abria o capacete. Este caiu para trás.
— Quantos
são? — perguntou Rhodan.
— Um bando.
Calculo que devem ser uns trinta.
— Está bem.
Iremos até lá.
A sentinela
voltou a firmar o capacete e saiu. Rhodan e seus dois oficiais seguiram-no,
depois de terem colocado seus trajes em condições de enfrentar o ambiente
exterior.
A sentinela
estava postada no ponto mais elevado da maior das colinas. Entre todas as
sentinelas era a que dispunha de campo de visão mais amplo. Ao norte da colina,
existia uma planície que se estendia por alguns quilômetros na direção norte e
ao menos um quilômetro para o leste.
Antes de
montar o acampamento haviam constatado a existência de vegetação nessa
planície; era a primeira que viram depois de terem pousado no planeta
Vagabundo. Rhodan não fizera questão de examinar as plantas. Teria tempo de
fazê-lo no dia seguinte, quando avançassem na direção norte.
Ao chegar ao
cimo da colina, onde a sentinela fizera uma pequena cova, percebeu a olho nu,
sem recorrer ao binóculo infravermelho, que alguma coisa se movia na savana
iluminada pelas estrelas. Ao que parecia, Deringhouse conseguia distinguir mais
alguma coisa.
— Parece que
são.... — principiou. Pôs-se de joelhos e olhou pelo binóculo. — ...castores! —
completou. — É um bando de castores bem grandes.
Rhodan
examinou os animais pelo binóculo. Eram cerca de trinta, conforme dissera a
sentinela. Sentados sobre as patas traseiras, usavam as dianteiras para, de vez
em quando, arrancarem um pedaço de vegetação e levá-lo até a boca.
Rhodan não
concordou inteiramente com a comparação estabelecida por Deringhouse. A
grossura da parte posterior do corpo e o rabo em forma de colher eram de
castores. Mas as orelhas, enormes e redondas, e o focinho pontudo lembravam um
camundongo superdimensionado. Isto porque o comprimento de seu corpo atingia
cerca de um metro.
Pareciam
inofensivos. Todavia...
— Tenente
Tanner.
— Pois não.
— Traga
Lloyd.
Tanner
desapareceu e voltou dali a três minutos em companhia de Lloyd.
— Olhe isso,
Lloyd! — ordenou Rhodan. — Veja se consegue ouvir alguma coisa.
Lloyd deitou
no solo arenoso ao lado de Rhodan. Fixou por alguns instantes a massa escura
formada pelo rebanho de animais. Depois fechou os olhos e baixou a cabeça.
Levou
bastante tempo para chegar a uma conclusão.
— Não. —
Disse finalmente. — Só vejo modelos confusos e sem sentido, como costumam ser
encontrados em animais. Estes não são os seres que está procurando.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Obrigado,
Lloyd. Volte à cama. Rhodan ficou deitado por mais algum tempo no chão arenoso
em companhia de Deringhouse, Tanner e da sentinela.
Pela
meia-noite, segundo a contagem de tempo do planeta Vagabundo, Rhodan voltou à
sua barraca.
Estava
absorto em pensamentos. A existência de formas mais elevadas de vida num mundo
que era apenas aridez, frio e oxido de ferro irritava-o e inquietava-o, sem que
quisesse confessá-lo a si mesmo, Com alguns movimentos automáticos acionou os
contatos da comporta e tirou o capacete assim que a porta se fechou atrás dele.
Ficou
refletindo se devia pedir a opinião de Crest. Mas o que Crest poderia saber que
ele mesmo, Rhodan, ainda não soubesse? Depois do treinamento hipnótico intenso
a que se submetera, possuía os mesmos conhecimentos de Crest e, já que os
adquirira de vez e de forma antinatural e compacta, sabia coordená-los melhor
que Crest, em cuja mente cresceram e se acumularam em virtude de uma evolução
progressiva e orgânica.
Não. Crest
não poderia ajudá-lo. Ele mesmo teria de encontrar a resposta.
Tirou o
cinto com o estojo do binóculo infravermelho e colocou-o sobre uma pequena
prateleira que pertencia ao mobiliário da barraca.
Alguma coisa
perturbou-o quando colocou o estojo na prateleira; não sabia o que era. Voltou
a mergulhar nos seus pensamentos e sentou na beirada da armação que lhe servia
de cama.
Seus olhos
caíram sobre a prateleira.

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