Ela era uma mutante das mais notáveis. Já na
mais tenra infância, suas capacidades haviam atingido pleno desenvolvimento, E agora
ela superava qualquer adulto. Rhodan gostava de apresentá-la com exemplo vivo do
futuro gênero humano. Uma precursora do homo superior!
Com um violento esforço, Betty expulsou de
sua mente todo e qualquer pensamento, concentrando-se exclusivamente na tarefa de
enfeixar suas forças cerebrais em energia telecinética. E depois agiu prontamente.
Rhodan não presenciara os esforços de Anne
Sloane para erguer o robô. Escutara apenas o efeito final. Maravilhou-se, portanto,
ao ver a eficiência com que Betty trabalhava, uma vez superado o impacto inicial.
O robô de algumas toneladas parara de repente, com um tranco. O fogo dos olhos parecia
arder com raiva. Em vão o colosso forçava a invisível barreira telecinética, com
as rodas patinando no mesmo lugar. Depois o monstro se ergueu lentamente para o
alto, como que desprovido de peso, até as antenas tocarem no teto. Betty deixou-o
suspenso por alguns instantes; parecia sentir prazer em brincar com suas forças.
Depois soltou-o.
Por entre o estrondo causado pela grande massa
metálica se espatifando no chão, fez-se ouvir um grito uníssono de várias vozes.
Rhodan voltou-se num salto, preocupado. Ouviu os apelos angustiados de Bell, os
lamentos de Marshall, e palavras esparsas de Crest, que não conseguiu entender.
Compreendeu imediatamente que algo de incomum
acontecera. De onde estava não podia avistar o grupo, oculto pela volta do corredor.
Puxando Betty pelo braço, correu rapidamente para junto deles. A jovem levou alguns
instantes para tornar a se situar no presente, mas logo acompanhou obedientemente
Rhodan. Por enquanto sua tarefa estava cumprida, e bem cumprida.
Na volta do corredor Rhodan estacou tão abruptamente
que Betty se chocou contra ele. Com um só olhar percebeu o motivo da perturbação
dos companheiros. O hipertransmissor que os havia trazido, sua única ligação com
o mundo exterior, tinha desaparecido.
*
* *
Groll e Lossos encontravam-se diante da boca
de entrada do túnel. Tinham dormido por algumas horas. O sargento muito mal, pois
seu repouso era constantemente interrompido pelo cientista ferrônio, que não conseguia
se acalmar. Seu murmúrio incessante irritava Groll, que maldizia a hora em que Deringhouse
e Rhodan lhe haviam dado o encargo de explorar o sistema Vega com o sábio.
Mas enfim o distante sol nascera, trazendo
luz novamente. O curto dia da lua 13B começava.
Após rápida refeição, os dois homens voltaram
para o platô que fora cenário do inquietante encontro na noite anterior, fortemente
armados.
A pirâmide continuava inalterada. Groll filmou
a inscrição e acompanhou Lossos até o túnel. Com um calafrio espiou para dentro
da escura passagem; nem sinal de luz ou claridade. O chão inteiriço e firme fora
evidentemente construído por seres inteligentes.
— Nós os encontramos! — sussurrou Lossos, em
tom quase reverente. — Encontramos os seres que vivem mais do que o sol! A brincadeira
de esconde-esconde não lhes valeu de nada.
— Ora, tudo que encontramos foi um túnel que
leva ao seio da terra, nada mais. Vai ver que foi construído por gente que já morreu
há anos, séculos ou até milênios. E agora? O senhor entra na frente?
O ferrônio eriçou a basta cabeleira, proeza
executada com surpreendente habilidade. Groll sabia que o gesto traduzia, além de
medo, violenta oposição.
— Você é meu piloto — murmurou o ferrônio —
e meu protetor. Eu sou um pacífico pesquisador, desacostumado ao manejo de armas.
Siga primeiro.
Mais uma vez Groll amaldiçoou sua tarefa, porém
depois o orgulho prevaleceu. Que diabo, se o ferrônio pensava que ia jactar-se mais
tarde de ser o descobridor dos imortais, sem dividir a glória com ele... Mas o sargento
reivindicaria sua parte dos louros, disso o velhote podia ter certeza! Acendendo
seu holofote portátil, entrou no túnel. Foi obrigado a curvar-se. Logo, os desconhecidos
construtores daquela toca deviam ser mais baixos do que os homens, concluiu. Mais
ou menos da altura dos ferrônios. Ótimo para Lossos, que poderia andar ali dentro
em posição normal. Mas... e o estranho da noite passada? Sua estrutura era bem maior
do que a dos terrenos... Começavam as contradições... as coisas não se encaixavam.
Groll desistiu de aprofundar suas cogitações
no momento. O túnel estendia-se à sua frente, enormemente comprido, até onde a luz
do holofote alcançava. A inclinação devia ser de cerca de vinte graus. Ainda bem
que calçava sapatos com sola de borracha antiderrapante, senão escorregaria direto
para baixo. Tinha ainda a possibilidade de se apoiar com as mãos nas paredes, em
ambos os lados, pois o túnel era estreito.
Lossos tateava desajeitadamente atrás de Groll.
Porém o caminho podia ser seguido até de olhos fechados. Impossível perder-se ali
dentro, pois não havia desvios laterais; até o holofote poderia ser dispensado,
constatação que tranqüilizou grandemente o sargento.
Pouco a pouco, a saída para o mundo exterior
transformou-se num pequeno clarão distante. Acerca de cinqüenta metros diante deles,
o foco do holofote foi refletido por uma parede lisa, que fechava o túnel. O material
de que era feita absorvia cinqüenta por cento da luz do refletor; o restante bastava
para ofuscá-los. Groll regulou o foco, diminuindo sua intensidade. Seus dedos apalparam
a superfície da parede; era fria, e parecia muito grossa. Repeliu o impulso inicial
de eliminar o obstáculo com o radiador manual. O calor produzido se tornaria insuportável
naquele local recluso; além disso, certamente a arma não teria potência suficiente
para fundir a maciça parede.
Porém ela provava que o desconhecido da noite
anterior estava familiarizado com o lugar; senão já teriam dado com ele ali dentro.
A não ser que, ocorreu de repente a Groll, ele tivesse deixado o túnel enquanto
eles estavam no caça espacial.
— O túnel continua? — indagou Lossos.
— Sim, por trás desta parede — respondeu Groll.
— Tem tanta certeza assim? — duvidou o ferrônio.
O piloto não respondeu. Se bem que não tivesse
recebido, como Rhodan, os amplos conhecimentos arcônidas transmitidos pelo treinamento
hipnopédico, era um homem dotado de raciocínio claro e agudo. Portanto, compreendeu
que não seria lógico construir passagens com término repentino. O túnel devia continuar,
forçosamente. E a sólida porta que lhes barrava o caminho indicava a existência
de algo muito valioso por trás dela. Logo, precisavam superar aquele obstáculo.
Coisa que Groll tratou de fazer sistematicamente.
Dois minutos mais tarde deu com a minúscula
saliência à sua direita, acerca de um metro de altura. Calcou-a com determinação.
De início, nada aconteceu. Mas depois a parede começou a se mover, deslizando para
cima, e recolhendo-se para dentro do teto levemente abaulado.
“Deve haver bem uma camada de vinte metros
de rocha firme aí em cima da gente”, pensou Groll consigo mesmo.
À medida que a parede subia, uma luz intensa
se revelava do outro lado. O túnel era mais largo e mais alto ali; dez metros mais
adiante desembocava numa ampla peça, repleta de instrumentos, aparelhos e máquinas.
Diante da sala, destacando-se nitidamente contra o fundo iluminado, havia um vulto.
Seu revestimento escamoso cintilava fraca, mas ameaçadoramente. O estranho estava
à espera deles. Groll viu-se diante da boca escura de uma arma apontada diretamente
para ele.
* * *
Pela primeira vez na vida, Rhodan conheceu
o desânimo. Sem o hipertransmissor, o caminho de volta estava cortado. Não havia
a menor possibilidade de escapar do labirinto de máquinas misteriosas no qual tinham
ido parar. A busca da vida eterna conduzira-os à morte certa.
No entanto o acesso de desatino foi breve.
O raciocínio de Rhodan logo voltou a funcionar. O cérebro positrônico não podia
ter se enganado daquela maneira. E os imortais inventores de toda aquela competição
na certa não desejariam ver os candidatos a vencedores perecerem de forma tão lastimável,
sem a menor chance de salvação.
Qual seria a próxima tarefa? Eram mil, segundo
dizia a inscrição. Qual delas seria a certa, a decisiva? Quanto ao hipertransmissor...
E repentinamente Rhodan adivinhou a verdade
cristalina: seu desaparecimento não significava grande coisa. De modo algum deviam
se deixar perturbar. Pois conservar o sangue-frio era uma das mil tarefas a cumprir.
E, afinal, não eram obrigados a resolver todas elas; talvez dessem com a certa logo
no começo.
— E agora? — perguntou Crest, surpreendentemente
sereno. — Será o fim?
— É o princípio! — respondeu Rhodan, fazendo
intimamente o voto de não estar dizendo nenhuma mentira. — Temos que prosseguir
na busca.
— O robô não vai servir para nada agora — observou
Bell. — Não se pode consertar um hipertransmissor que não existe mais.
— Em algum lugar deve esconder-se outra possibilidade
de regressar — afirmou Rhodan. E desta vez tinha certeza do que dizia.
— Se a gente soubesse pelo menos onde está
— lamentou Bell. — No interior de Ferrol? Em outro planeta? Ainda no sistema Vega?
O hipertransmissor bem pode ter nos largado nos confins do Universo.
— Certo — concordou Rhodan. — Podemos estar
em qualquer lugar, ou em lugar nenhum. E tanto faz estarmos em Ferrol, ou mil anos-luz
longe dele, o caminho de volta passa indiscutivelmente por um hipertransmissor de
matéria. Portanto, caso o antigo não reapareça, precisamos achar outro. Receio que
ele teleportou a si próprio para longe.
Pela primeira vez a pequena Betty se intrometeu
na conversa.
— Acertou, Rhodan, e foi no justo instante
em que destruímos o segundo robô dos desconhecidos.
Rhodan fitou admirando a jovem, enquanto refletia
febrilmente. Com um leve sorriso, disse:
— Mas claro, quase esquecemos disso! Uma vez
deixando de existir como maquinismos funcionantes, os dois robôs acionaram um contato.
O desaparecimento do hipertransmissor significa que avançamos um bom pedaço em direção
ao objetivo final. Minha afirmação pode parecer paradoxal, porém trata-se de uma
conclusão lógica. Obrigado, Betty. Você nos fez ganhar um bom trecho de caminho.
— Mas como? Não entendi essa! — reclamou Bell,
levantando as mãos num gesto de desalento. — A gente num beco sem saída e o patrão
afirma que avançamos um bocado! Bem que eu gostaria de partilhar de seu otimismo...
— O que faria muito bem à sua saúde, Bell —
respondeu Rhodan. — Onde vai?
— Procurar pela próxima tarefa!
E Bell afastou-se, debaixo do olhar meio irônico
de Rhodan.
— Não devíamos nos separar — interveio Crest.
— A charada só pode ser resolvida por todos juntos.
— Como foi que o cérebro positrônico adivinhou
que necessitaríamos de Betty? — indagou Rhodan, fazendo sinal ao grupo para seguir
Bell.
Crest não soube responder.
O corredor se alargava. Um pedestal vazio,
acabando em rampa, revelava a localização anterior de um dos robôs. Exatamente por
cima dele ficava a esfera incandescente que captara os tremendos raios, ainda em
brasa. Devia ser responsável pela ativação dos autômatos, pois o bombardeio de raios
começara logo após terem sido examinados pelo telepata mecânico. Um fato desencadeava
outro; uma espécie de reação em cadeia controlada. Que sucederia agora, depois de
desaparecido o hipertransmissor?
A resposta não se fez esperar.
Bell parara no meio do corredor alargado. Ali
se sentia menos o calor, que aumentava mais e mais no imenso recinto.
Não havia máquinas. Apenas um maciço bloco
metálico, com cerca de um metro cúbico. Liso e compacto, suportava um estranho aparelho.
Rhodan não perdeu tempo em examiná-lo mais
detidamente; toda sua atenção se concentrava sobre os numerosos botões, escalas
e alavancas na face dianteira. O misterioso objeto lembrava vagamente uma máquina
de filmar. A lente ovalada reforçava tal impressão.
O som de um leve zumbido ecoou pelo recinto.
Bell soltou de repente tremendo berro, sem
razão aparente. Berro que se prolongou em urros intermináveis. De permeio, gritava
palavras ininteligíveis, depois começou a amaldiçoar a si próprio e a vida em geral.
Com os braços erguidos no ar, parecia querer agarrar algo impalpável.
Rhodan deteve-se bruscamente.
— Que foi? — perguntou ao amigo. — Algum campo
de força envolveu você? Não estou vendo nada...
Como se aquelas palavras fossem uma senha,
todos viram imediatamente o que acontecia. Em torno de Bell começava a materializar-se
uma espécie de tênue neblina; rodopiando de início em farrapos esparsos, acabou
tomando o formato de uma espiral, que envolvia sistematicamente o pobre Bell. À
medida que o movimento de rotação se acelerava, ela parecia transformar-se numa
massa sólida. O vulto de Bell tornava-se indistinto, mas seus gritos desconcertados
atravessavam livremente o estranho invólucro.
— Fique parado, e bem quieto! — gritou Rhodan.
— Sente dor?
— Não sinto coisa alguma — berrou Bell, desesperado.
— Mas essa coisa não desgruda de mim. Tirem-me daqui!
— Espere, rapaz! Como não dói, não pode ser
perigosa.
Nervoso, Rhodan procurava interpretar o acontecimento.
Também aquela espiral energética devia ter significação. Parecia querer lhes chamar
a atenção para alguma coisa. Como, se não havia nada por perto?
Mas havia, sim! A “filmadora”!
Com um salto, Rhodan estava diante do cubo
metálico. A estranha filmadora, ou que outro aparelho era aquilo, parecia lançar
um desafio.
Depois, como que emergindo para a superfície
de grande profundidade, apresentou-se na memória de Rhodan uma lembrança semi-olvidada
— ou seria apenas impressão sua? Em algum lugar, em alguma ocasião, já vira aparelho
semelhante, uma vez pelo menos. O próprio aparelho, ou então sua descrição teórica.
O treinamento hipnopédico que lhe transmitira
a sabedoria arcônida! Se a vaga lembrança partisse dali, Crest devia saber mais
a respeito. Chamando o arcônida, perguntou apressadamente:
— Crest! Pense depressa! Que é isso aí? Lembro-me
de qualquer coisa parecida, citada nos ensinamentos teóricos do treinamento hipnopédico.
Chama-se jato... não, objeto... Que diabo, ajude-me, homem! É algo relacionado com
desmaterialização e quinta dimensão. Conhecido só em teoria pelos arcônidas. Pense,
Crest! Tudo depende disso!
Antes que Crest pudesse falar, Betty disse:
— Pensar é mais rápido do que falar. Crest
entendeu sua pergunta, Rhodan. Este aparelho é um transmissor de objetiva, descrito
pelos arcônidas como invenção viável; mas nunca foi testado na prática. Seu funcionamento
baseia-se na geometria pentadimensional. Teleportação mecânica mediante raios captadores-impulsores.
Sua finalidade seria transportar objetos distantes de um lugar a outro, estejam
onde estiverem.
Crest continuou calado. Para que falar, se
Betty já expressara seus pensamentos? Rhodan, porém, suspirou de alívio. Refletia
apressadamente. Bell parara com seus gritos. Por falta de fôlego, provavelmente.
Completamente imóvel no centro da alucinante espiral de energia, parecia aguardar
o milagre salvador. Seus pés pairavam uns dez centímetros acima do piso metálico,
conforme Rhodan notou de passagem. Bell fora liberado das leis da gravidade.
Sem pensar, puramente por um movimento reflexo,
Rhodan abateu o punho sobre uma das alavancas da filmadora quando ela começara a
brilhar com luminosidade opaca. Desta vez, os imortais lhe tinham dado uma mãozinha.
Certamente consideravam a tarefa complicada demais para ser resolvida sem uma pequena
ajuda.
O efeito imediato foi surpreendente: a filmadora
girou em seu suporte. A lente apontava agora diretamente para Bell, que acompanhava
o processo com os olhos arregalados, apesar de não enxergar muito nitidamente através
do turbilhão que o envolvia.
Assim que a câmara completou seu giro, um dos
botões brilhou com luz avermelhada. Sem hesitar, Rhodan apertou-o. Um sussurro se
fez ouvir no interior do cubo. Rhodan sentiu nitidamente o chão vibrar-lhe debaixo
dos pés.
Bell lançou um grito. Por meio de contorções
incríveis, tentava escapar da imaterial prisão. Sem o menor êxito, no entanto. Betty
Toufry mantinha-se absorta, como que esperando escutar em seu íntimo palavras que
não vinham.
E então, o redemoinho da espiral se tornou
mais lento. O invólucro nebuloso foi perdendo intensidade, ficando ralo e transparente.
Em poucos instantes se desfez totalmente. Precipitando-se dos dez centímetros, Bell
caiu de joelhos no chão. Pálido como um cadáver, e com os traços alterados. Os cabelos
ruivos estavam de pé na cabeça, e pareciam estremecer febrilmente. Os lábios até
então comprimidos deixaram escapar uma única palavra, e não foi uma palavra bonita.
Pelo menos não de gratidão pela liberdade reconquistada, conforme seria de esperar.
Porém a série de fatos assombrosos ainda não
terminara.
Bell mal teve tempo de pôr-se de pé, enquanto
Rhodan emitia um suspiro de contentamento, quando os acontecimentos prosseguiram
em cadeia.
Bell encontrava-se junto à parede dos fundos
do recinto das máquinas. Parede inteiramente lisa, sem a menor junta. Parecia ser
feita de metal, e muito espessa.
Pois a parede começou a dissolver-se. Primeiro
perdeu a cor, assumindo aparência leitosa. Depois fluiu em ondas, como se a matéria
sólida tivesse se transformado em vapores. O processo era semelhante ao da espiral
energética, e, como esta, a parede acabou desaparecendo.
O recinto dobrara de tamanho. Diante do grupo
assombrado estendia-se a continuação do segredo, o setor até então oculto aos seus
olhos curiosos. À primeira vista, parecia não se diferenciar da sala já conhecida,
porém Rhodan logo percebeu que continha muito menos equipamento. Por entre cubos
e pedestais de formato diverso, recipientes arredondados e colunas espiraladas,
destacava-se uma enorme esfera, apoiada sobre pés delgados e de aparência frágil,
em cima de uma maciça plataforma retangular. Parecia até uma miniatura da Stardust-III;
com seu diâmetro de cinco metros dava a impressão de ser gigantesca.
Olhando de perto, Rhodan viu que a forma esférica
não era perfeita; havia ressaltos, saliências, suportes para antenas e anexos diversos.
Depois viu algo que lhe pareceu familiar: na extremidade de um grande nariz metálico
havia uma enorme lente oval embutida; cintilando em todas as cores, ela parecia
encará-lo fixamente.
— Um transmissor de objetiva... — murmurou
ele, perplexo. De pé ao seu lado, Crest acenou pensativamente com a cabeça. Os demais
estavam imóveis e calados. Bell ainda se mostrava pálido. Anne Sloane, já restabelecida,
segurava a mão de Betty. John Marshall fitava a esfera com os olhos semicerrados.
Apenas o robô arcônida ficara passivamente
na retaguarda, aguardando ordens que não vinham. Haggard conservava-se junto a ele.
Adiantando-se, Rhodan foi o primeiro a cruzar
o ponto ainda impassável há pouco, porque uma sólida parede de metal ocupava o lugar.
Um novo indício?
Rhodan tinha certeza de que era isso; sabia
igualmente que deviam ver no desaparecimento da parede não um obstáculo, porém um
convite.
Só após John Marshall e Betty Toufry terem
atravessado a fronteira invisível é que se revelou o elo seguinte da cadeia de acontecimentos.
Os dois mutantes telepatas estancaram abruptamente. Anne soltou depressa a mão de
Betty.
Crest pôs a mão sobre o braço de Rhodan. Ambos
compreenderam logo que seus telepatas recebiam nova mensagem; algum aviso que nenhum
dos dois conseguia ver nem entender.
Reinava um silêncio quase irreal, no qual apenas
se ouvia a respiração pesada dos presentes, e os arquejos de Bell. Aos poucos, a
cor voltava às suas faces pálidas.
Betty fez um sinal a Marshall.
— Entendeu, John? Então diga.
O australiano passou a mão sobre os olhos,
como que querendo afastar uma visão desagradável. Depois falou, em tom calmo e incisivo:
— É uma nova mensagem. Diz: Vocês têm quinze
minutos de prazo para deixar este lugar. Porém só encontrarão a luz se puderem voltar.
Só isso. Foi uma voz telepática que falou.
— Se pudermos voltar — murmurou Rhodan pensativo,
enquanto seu olhar inquisitivo examinava a esfera. — O transmissor de objetiva!
E apenas quinze minutos de prazo!
— Agora são só quatorze! — Eram as primeiras
palavras de Bell desde o incidente com a espiral energética. — Vai ser uma parada
braba!
E a situação tornou-se de fato mais do que
séria.
Num ponto ignorado qualquer foi crescendo um
sussurro mal e mal percebido de início. Aos poucos transformou-se numa vibração
rítmica, cujo volume aumentou até tinir-lhes nos ouvidos. Era preciso berrar para
se fazer ouvir. Simultaneamente, o recinto era atravessado por raios fulgurantes;
espalhou-se forte cheiro de ozônio, enquanto o calor aumentava. O ar tornou-se opressivo
e asfixiante.
Um gongo soou funebremente. As batidas se repetiam
em intervalos regulares, como que contando os minutos decorridos, e avisando que
os restantes se esgotavam depressa.
— Doze minutos ainda — murmurou Crest, em voz
baixa.
Ninguém o escutou. O barulho agora era ensurdecedor.
Haggard, que até então permanecera discretamente
de lado, adiantou-se. Rhodan quase chegara a esquecer que o médico participava da
expedição. Sua intervenção naquele momento era bastante oportuna, pois os companheiros
pareciam prontos a sucumbir à tensão nervosa, levando-os ao descontrole. E, além
de médico, Haggard era excelente psicólogo.
— Não há motivo para alarme! — gritou ele no
ouvido de Rhodan. Ao perceber o sorriso sardônico do amigo, acrescentou; — Eles
pretendem testar nossa resistência física! Guerra de nervos, entendeu? Os pretensos
herdeiros da imortalidade devem ter saúde física, além dos conhecimentos de plano
superior. Despistamento, se prefere.
— Acha? — replicou Rhodan, igualmente gritando.
— Bem que gostaria de poder tapar os ouvidos.
— Tenho certeza! — disse Haggard. — Procure
um meio de voltar, nada mais. Não ligue para o barulho e os raios. O calor só se
tornará insuportável quando o prazo de quinze minutos concedido se tiver esgotado.
E depois...
— Restam apenas dez! — avisou Marshall, que
acompanhara o diálogo telepaticamente. — Precisamos nos apressar.
Rhodan não lhe deu resposta. Aproximando-se
da esfera, reconheceu uma ampliação imperfeita do aparelho na sala vizinha — aquele
que eliminara a espiral energética e a parede. Demonstração que constituía um indício.
Era preciso interpretá-lo, a fim de aplicar agora processo semelhante. Mas o que
devia ser teleportado?
Bruscamente lhe ocorreu a resposta: ele e os
demais!
O colossal transmissor de objetiva não apresentava
uma só abertura. Ou a esfera era maciça, ou estava recheada de instrumentos. Não
se embarcava nele, como nos hipertransmissores ferrônios. Ele é que fazia a transmissão,
mediante raios captadores-impulsores pentadimensionais, por ele próprio produzidos.
E um simples botão o punha em funcionamento. Um único, cintilando rubramente no
pedestal; mesmo semi-afundado no metal, ele não podia passar despercebido.
Um lampejo de dúvida passou pela mente de Rhodan.
A solução lhe parecia simples demais. Só dar um passo e apertar um botão? Sua intuição
lhe dizia que calcar o botão significaria voltar... mas voltar para onde? E no entanto
seu raciocínio objetava, julgando que a charada galáctica havia exigido deles até
então provas duras demais para permitir que se safassem daquela sem mais nem menos.
Qual seria o truque?
— Mais oito minutos! — avisou Marshall em voz
alta.
A temperatura aumentava. Os raios continuavam
a explodir estrondosamente por sobre suas cabeças. O ribombar do gongo era cada
vez mais alto, com intervalos mais curtos. À distância recomeçaram as batidas regulares
do robô em marcha.
Mais sete minutos!
Rhodan decidiu-se. Nada tinha a perder, porém
tudo a ganhar.
— Fiquem parados aqui! — gritou ele, para se
fazer ouvir entre a barulheira reinante. — Os raios captadores apanharão tudo que
se encontra neste recinto, ou então apenas o que for matéria orgânica. Não sei ao
certo... Aquele botão ali...
Só então viu algo que até então lhe passara
despercebido. Ou que só naquele momento se tornara visível. O botão vermelho continuava
aceso; não se modificara. Mas agora parecia cintilar, como se alguma cúpula de vidro
invisível o tivesse recoberto.
— Raios! — resmungou Bell, inaudivelmente.
— Só cinco minutos ainda! Se a gente não se apressar...
Rhodan leu os lábios em movimento de Bell.
Não podia hesitar por mais tempo.
Sem voltar-se, caminhou para a esfera. O pedestal
lhe chegava à altura do peito; o botão vermelho embutido ficava exatamente defronte
de seu olhar perscrutador. Seu corpo encobria as fontes de luz, e também o fulgor
dos raios. A cúpula de vidro parecia ter sumido.
Tomando impulso, Rhodan levou a mão ao botão,
enquanto gotas de suor brotavam na testa. O próximo instante decidiria o destino
deles todos. Ou retornavam a Thorta, ou pereciam naquele inferno de autômatos desatinados.
A cinco centímetros do botão, a mão de Rhodan
esbarrou num obstáculo liso, frio e invisível. Ao tato parecia vidro, porém Rhodan
compreendeu logo que não se tratava de vidro comum. O esquisito material vibrava,
como se fosse vivo. Rhodan julgou sentir uma débil corrente elétrica percorrer-lhe
o corpo.
Não conseguia alcançar o botão.
— Mais três minutos! — Bell clamara tão alto
que seus berros superavam até as estrepitosas batidas do gongo. Porém mesmo assim
Rhodan percebeu o tom de desespero e desalento na voz do amigo. Fora-se a última
chance que lhes restava!
Apesar de estar a apenas cinco centímetros
de distância, o botão salvador era inatingível. Uma barreira impenetrável de energia
pura, porém neutralizada, o protegia. Mão alguma podia se introduzir através dela.
O calor no recinto era agora bastante forte.
O ar sufocante dificultava a respiração; semi-asfixiada, a pequena Betty arquejava,
ansiando por oxigênio. As funestas pancadas do autômato em marcha ressoavam maior
intensidade, infundindo terror no espírito dos expedicionários. Sua perdição se
aproximava, assumindo múltiplas formas.
— Praga! — explodiu Bell. — Mais noventa segundos!
Noventa segundos para a eternidade. E eles
que tinham vindo em busca da eternidade, da vida eterna!... Agora só lhes restava
a morte, que é eterna. Teriam alcançado seu objetivo?
Repentinamente, os raios cessaram. O gongo
ainda se fazia ouvir, porém surdamente. As pancadas do robô emudeceram.
Em seguida todos eles perceberam a voz inaudível
que lhes falava. Vinda do nada, formulava pensamentos nítidos em suas mentes. Era
o que devia ocorrer com quem possuísse o dom da telepatia. No entanto, todos os
integrantes do grupo compreenderam a mensagem:
“Restam poucos instantes! Recorram à sabedoria
do plano superior, ou estarão perdidos!”
No auge da excitação, Rhodan exclamou:
— Betty! O botão vermelho! Aperte-o, depressa!
A jovem compreendeu instantaneamente. Nenhuma
mão humana seria capaz de alcançar o botão; mas, se raios luminosos atravessavam
a barreira energética, o fluxo de pensamentos telecinéticos do plano superior poderia
fazer o mesmo.
E, enquanto Bell marcava, com crescente desalento,
os trinta segundos derradeiros, Betty calcou o botão vermelho salvador com toda
a concentração de que era capaz.
Rhodan viu nitidamente o botão afundar no encaixe,
como que pressionado por mão fantasma. Simultaneamente, contatos se faziam no interior
da gigantesca bola. Correntes de energia foram canalizadas para transmutadores,
que as dirigiam para a quarta e quinta dimensão; o mecanismo entrou em ação, fazendo
girar a lente, que agora enfocava o grupo de pessoas; todo aquele complexo e ainda
incompreensível processo fora posto em funcionamento, e não mais podia ser detido.
E então, decorridos os últimos segundos do
prazo, os raios recomeçaram. As batidas do gongo reboavam outra vez. Ruidosamente,
o robô retomou sua marcha. O calor aumentou rapidamente, tornando-se insuportável;
o ar foi privado das últimas partículas de oxigênio.
Porém todos sentiram naquele momento a conhecida
dor cruciante em todo o corpo. Diante de seus olhos turvos, o cenário ficou indistinto;
a grande esfera dissolveu-se num benfazejo vácuo.
Em estado desmaterializado, eles foram projetados
através da quinta dimensão. Nem chegaram a perceber que o gigantesco recinto de
máquinas, com o transmissor de objetiva incluído, se evaporava no inferno de uma
explosão atômica em cadeia, repentinamente desencadeada.
6
Por alguns segundos, que lhe pareceram eternos,
Groll ficou olhando para a boca da arma desconhecida. Esqueceu até a existência
de Lossos, parado logo atrás dele, em completa imobilidade. Só via à sua frente
o vulto ameaçador do desconhecido, agora transformado em adversário e guarda do
labirinto.
O vulto hesitou, o que foi sua perdição.
Os olhos do ferrônio ajustaram-se mais rapidamente
à repentina claridade do que os do terrano. Enquanto Groll só enxergava a arma,
Lossos já distinguira o que estava por trás dela.
— É um tópsida! — sibilou, apavorado. — Atire,
depressa!
E simultaneamente o ferrônio se atirou no chão.
Groll não saberia explicar, posteriormente,
como é que a arma passara tão rapidamente do cinto para sua mão. Devia ter sido
a palavra “tópsida” que o levara a agir instintivamente, com a rapidez do raio.
O ser antes desconhecido revelava-se um inimigo mortal.
Os tópsidas! Os reptilóides dotados de inteligência,
vindos de um sistema solar a mais de oitocentos anos-luz de distância, por terem
captado os sinais de socorro do cruzador arcônida acidentado na lua terrestre há
anos. No entanto, tinham calculado mal as coordenadas espaciais, indo dar no sistema
Vega, onde toparam com violenta reação por parte dos ferrônios. Mas só com a intervenção
de Rhodan a invasão pudera ser finalmente repelida.
E agora deparavam com um tópsida na lua externa
do décimo terceiro planeta!
Groll repassava aqueles fatos na memória enquanto
caía ao solo. Antes de tocar o chão, calcou o disparador. Viu a ofuscante seta energética
se lançar contra o vulto indistinto, e fechou os olhos, feridos pela excessiva luminosidade.
Também o tópsida reconhecera o perigo. Hesitara,
por motivos inexplicáveis, durante mais alguns segundos. E só por isso é que Groll
e Lossos estavam vivos agora.
O reptilóide abrira fogo ao mesmo tempo que
Groll, porém suas reações haviam sido mais lentas. Enquanto o terrano mirava num
alvo relativamente fixo, o tópsida apontava para um adversário que já mudara de
lugar. O feixe energético de sua arma assobiou por cima dos dois homens estendidos,
perdendo-se nas trevas do fundo do túnel. Logo após, o mesmo feixe executou um tonto
e descoordenado bailado de morte, e apagou-se.
Groll tirou o dedo do disparador e abriu os
olhos. A enorme sombra sumira; em seu lugar, ardia no chão um montinho de algo semelhante
a cinza, que logo desapareceu, desprendendo espessas nuvens de fumaça. As luzes
da peça vizinha lhe pareciam agora mais fracas e mortiças; o que, no entanto, era
mera ilusão. Seus olhos ainda afetados pelos fulgurantes lampejos energéticos precisavam
adaptar-se novamente a condições normais.
Lossos ergueu-se penosamente.
— Um tópsida! Que será que fazia um tópsida
aqui?
Groll era, certamente, a pessoa menos indicada
para fornecer-lhe resposta. Segundo lhe haviam informado, os invasores tinham sido
expulsos do sistema.
— Algum sobrevivente das batalhas espaciais,
quem sabe, que encontrou refúgio aqui. Mas neste caso, teríamos que achar em algum
lugar seu bote salva-vidas. Talvez fosse esse o motivo de sua hesitação. Na certa
esperava que o socorrêssemos.
O ferrônio ajudou Groll a se levantar igualmente.
— Será que era o único?
Groll deu de ombros. Como ia saber? De qualquer
forma preferiu conservar a arma na mão ao prosseguir. O túnel acabava dez metros
adiante. Tendo-os percorrido, os dois homens se viram diante de um fabuloso complexo
tecnológico, totalmente incompreensível para eles.
Toda uma parede da sala baixa, porém muito
longa, estava recoberta de telas opalescentes. Transistores da altura de um homem
alternavam com blocos maciços de metal acobreado, unidos uns aos outros mediante
ligações prateadas. De permeio, globos negros providos de antenas pontudas. O extremo
da peça consistia num gigantesco painel de controle. A abundância de botões, chaves
e luzes de controle tornava o conjunto ainda mais intrigante.
— Que é isso? — gemeu Groll, que aguardava
coisa bem diferente. Nem ele próprio sabia o que esperava encontrar, no entanto.
Apesar de completamente desarvorado, Lossos disse:
— Uma central técnica dos imortais! Que mais
poderia ser?
Depois de observar por momentos o ininteligível
conjunto de instalações misteriosas, Groll tomou sua decisão:
— Temos que voltar imediatamente a Ferrol,
a fim de informar Rhodan sobre isso. Só ele e os arcônidas, com seus conhecimentos,
serão capazes de compreender a finalidade e a utilidade deste equipamento. Venha,
Lossos, os segundos perdidos jamais poderão ser recuperados.
O ferrônio prosseguira, detendo-se diante da
primeira tecla. Parecia procurar em vão os botões reguladores.
— Deixe disso! — exclamou Groll, severamente.
— Poderia causar tremenda catástrofe mexendo em tecnologia que desconhece. Venha,
não podemos desperdiçar tempo.
Com grande relutância o cientista se desprendeu
das maravilhas de um inconcebível passado. Pois não havia a menor dúvida de que
aquelas instalações eram anteriores à espaçonáutica ferrônia.
— Deve ser o que Rhodan procura — murmurou
ele. — Tem razão, sargento, vamos embora.
Assim que passaram pelo local onde se encontrava
a parede, marcado por um encaixe, as luzes da sala se apagaram. As misteriosas instalações
mergulharam nas trevas. Groll acendeu precipitadamente seu holofote portátil; a
repentina escuridão lhe clava arrepios.
Segundos depois do apagar das luzes, a parede
divisória tornou a descer vagarosamente, isolando a sala do mundo exterior.
Calados, os dois homens refizeram o percurso
anteriormente percorrido. Muito ao longe, sob a forma de um orifício claro ovalado,
avistavam a claridade do dia. Em breve voltavam à brilhante luz de Vega.
Groll estremeceu repentinamente. Nem mesmo
seu quente macacão espacial conseguia protegê-lo daquele frio. Um frio que não tinha
causas físicas. Pois só então se conscientizou de que matara um ser vivo, apesar
do fato ter ocorrido há mais de meia hora. Começou a recriminar-se por sua precipitação.
Afinal, aquele tópsida podia ser um náufrago do espaço, com direito a auxílio e
proteção, conforme mandavam as leis interestelares. Porém logo reformulou seu modo
de pensar. O tópsida não morrera de arma na mão?
Lossos afastara-se um pouco, a fim de ir olhar
a pirâmide. Com os olhos semicerrados, estudava a inscrição. A semelhança com os
símbolos que Rhodan mandara decifrar no cérebro positrônico era indubitável.
— Eis a prova de que nos encontramos na pista
certa, sargento! Agora não me oponho a decolar o quanto antes, e voltar para Ferrol.
Groll não respondeu. Compreendia a euforia
do ferrônio; porém, estranhamente, não conseguia compartilhar de seu entusiasmo.
No entanto, deveria sentir-se satisfeito por ter podido prestar um favor a Rhodan...
“Bem, esperemos até saber o que diz a inscrição
na pirâmide”, pensou intimamente. O filme já revelado encontrava-se no seu bolso.
A imagem era nítida e clara.
Em silêncio, os dois homens dirigiram-se para
o caça espacial. A fechadura não fora tocada. Embarcaram na apertada cabina e fecharam
a portinhola. Dez segundos depois, a paisagem rochosa foi ficando para trás.
Lossos emitiu de repente uma exclamação de
surpresa, apontando para baixo, através da escotilha.
— Olhe, sargento! Perto daquele rochedo isolado!
Algo cintilando ao sol!
Fazendo uma curva fechada, Groll fez o caça
baixar novamente. E identificaram logo o objeto brilhante, quando voaram por cima
dele. Eram os destroços camuflados de um minúsculo bote salva-vidas espacial, do
tipo usado em emergências por náufragos, no âmbito de um sistema solar.
— Portanto, aquele tópsida era o único por
estas bandas! — constatou Groll, objetivamente. Porém, em pensamento, acrescentou:
“O último neste sistema, e eu acabei com ele...”
Depois acelerou, e o esguio aparelho disparou
para o alto, mergulhando no firmamento escuro do cosmo.
* * *
Trevas!
E no meio delas, redemoinhos de cores cintilantes
e vivos relâmpagos. Dores repuxantes em todos os músculos. Queda interminável no
espaço sem fim. Terrível solidão dentro da eternidade. Nem frio, nem calor — apenas
nada.
Mas do nada, algo começava a emergir: a consciência.
Tempo? Perdera toda a significação; era um
abstrato absoluto. Segundos... anos... milhões de anos...
Distâncias? Já não existiam. Quilômetros...
anos-luz... bilhões de anos-luz...
E de repente, o presente outra vez!
Rhodan sentiu as dores diminuírem. Os olhos
muito abertos enxergavam de novo. Sentiu o chão firme debaixo dos pés. Seu corpo
lhe pertencia novamente. Podia ouvir, também. E escutou a voz rouca de Bell:
— Conseguimos! A arca! Perry, voltamos para
a arca!
Rhodan viu então, igualmente. Através das grades
do hipertransmissor tão conhecido, reconheceu o salão subterrâneo de Thorta. Três
de seus quatro mutantes guardavam a entrada. Suas fisionomias revelavam evidente
surpresa.
Sem saber por quê, Rhodan olhou para seu relógio.
Tinham se demorado por quase quatro horas na misteriosa sala de máquinas. E, no
entanto, parecera-lhe uma eternidade.
Rhodan abriu a porta do hipertransmissor. O
africano Ras Tshubai veio ao seu encontro.
— Já, senhor?
Estranhando a pergunta, Rhodan replicou:
— Já? Que quer dizer?
— Ora, o senhor esteve ausente por menos de
cinco minutos!
Rhodan encarou firmemente o africano, procurando
ocultar sua perturbação. Com voz firme, disse:
— Comparar relógios, Ras!
— Exatamente 10:30 h, hora normal da Terra,
senhor — respondeu o telepata, consultando seu relógio de pulso.
Rhodan ergueu devagar o braço, a fim de olhar
para seu cronômetro. Mas poderia ter dispensado o gesto. Os ponteiros marcavam 14:25
h.
— Mal vocês sumiram — contou Ras — apareceu
de volta o robô; teleportou-se com o hipertransmissor para a base, retornando três
ou quatro minutos depois com Betty.
Não faz um minuto que ele entrou na arca com
Betty.
O restante do grupo também havia deixado o
hipertransmissor. A não ser Crest, ninguém entendia aquela discussão. Será que agora
o tempo ficara biruta também? Podiam ter vivido fisicamente quatro horas em pouco
mais de cinco minutos?
Uma amostra, um prenúncio da imortalidade?
Anne Sloane lançou repentinamente um grito
aterrado. Fora a última a sair do hipertransmissor, junto com Marshall, e olhara
casualmente para cima. E vira aquilo.
E quem não via, ouvia.
Junto ao teto flutuava uma pequena esfera luminosa.
Seu diâmetro não ultrapassava os dez centímetros. Pulsava de maneira lenta e regular.
E a cada pulsação emitia batidas, como o gongo da sala de máquinas que acabavam
de deixar. Batidas surdas e cavas.
Rhodan voltara-se rapidamente ao ouvir o grito
de Anne. Quando avistou a esfera, estarreceu.
A luz?
A mensagem falara de uma luz, que só encontrariam
caso pudessem voltar. Pois bem, tinham voltado! Aquela bola luminosa devia ser a
tal luz. Mas o que significaria?
A esfera brilhava como se estivesse em fogo.
Com infinita lentidão, começou a descer. Rhodan adivinhou instintivamente que também
naquele fenômeno devia existir um limite de tempo. Pois até então os imortais tinham
adotado sempre o princípio de determinar prazo para a execução de cada tarefa.
Os cabelos de Bell tornaram a entrar em desordem.
As cerdas avermelhadas refletiam o cintilante brilho da esfera, e por um momento
a cabeça de Bell pareceu arder. Porém Rhodan dispensou apenas alguns instantes de
atenção à estranha cena, depois perguntou a Betty:
— Você está ouvindo alguma coisa? Talvez se
trate de uma mensagem telepática. E você, Marshall?
Ambos os mutantes sacudiram a cabeça.
A não ser pelas batidas do gongo, a esfera
permanecia muda.
Crest fitava-a, intrigado.
— É formada por energia, sem a menor dúvida.
No entanto, não acredito que ela exista agora e aqui. Arde, mas não irradia calor.
Luz fria.
Bell foi obrigado a dar um passo para o lado,
pois a bola descera tanto que ameaçava pousar-lhe sobre a cabeça. E as misteriosas
batidas surdas do gongo não acabavam! Todos os presentes, sem exceção, não conseguiam
afastar os olhos da misteriosa esfera que lhes apresentava novo enigma. Parecia
ter incorporado todos os terrores da sala de máquinas da qual tinham conseguido
se safar.
Rhodan dirigiu-se a Anne Sloane:
— Será que consegue segurar ou controlar a
esfera?
A telecineta tentou, porém desta vez sua capacidade
se revelou inútil. Sem reagir aos esforços, a bola descia mais e mais, pulsando
intrigantemente, e emitindo as monótonas batidas de gongo. Cavas e fúnebres, elas
pareciam anunciar o irremediável mergulho dos preciosos segundos no mar da eternidade.
Pairava agora junto ao rosto de Bell, que se
recusava a ceder um milímetro de terreno que fosse; não se afastaria mais um só
passo. Mantinha os olhos quase fechados, a fim de resistir ao brilho que emanava
da esfera. Apesar de estar a menos de vinte centímetros dela, não sentia calor algum.
Em troca, viu alguma coisa. Foi o primeiro a avistá-la, talvez por se encontrar
tão perto da misteriosa bola. Um objeto escuro e alongado, aninhado dentro dela.
Incoerentemente, Bell se lembrou de um organismo unicelular visto através do microscópio;
sim, era àquilo que a cena se assemelhava: uma massa transparente circular, com
uma mancha escura no meio.
A mancha escura devia medir uns cinco centímetros
de comprimento.
Antes que Rhodan, ou qualquer dos outros, percebesse
suas intenções, Bell já entrara em ação. Deixando de lado qualquer hesitação, enfiou
a mão na massa luminosa, para apanhar o objeto escuro, firmemente convencido de
que se tratava da esperada mensagem. Conclusão bastante lógica, pois tinham-lhes
anunciado a vinda da luz, e aquela esfera era luz, fria e sob forma redonda. Continha
algo escuro, que só podia ser uma cápsula. A mensagem, evidentemente. A próxima
tarefa.
Seus pensamentos foram bruscamente interrompidos.
Mal encostou a ponta dos dedos na periferia
da bola luminosa, curtos raios luminosos saltaram dela, entrando pelas mãos de Bell.
Espantado, Rhodan viu os cabelos do amigo irradiar luz. As cerdas eriçadas imitavam
direitinho uma aurora boreal.
Seu berreiro apavorado deixava adivinhar que
não se sentia muito bem no papel que representava. Recolhendo apressadamente a mão,
ficou pulando feito doído de um lugar a outro. Agitava os braços, como querendo
sacudir para fora do corpo toda aquela eletricidade.
Imperturbavelmente a bola continuava a descer;
flutuava agora a apenas meio metro do chão. Rhodan receava uma catástrofe, caso
tocasse nele; mesmo que desaparecesse simplesmente, seria um contratempo. Pois vira
também a cápsula escura que Bell tentara agarrar.
Betty Toufry substituiu Anne Sloane nas tentativas
de deter a esfera por telecinésia. Porém concentrava-se em especial na cápsula,
por supor que esta se encontrasse no presente, em espaço tridimensional. Mas não
tardou a constatar que também não conseguia nada. Inexoravelmente a bola se aproximava
do chão.
Bell, já mais calmo, olhava para a esfera,
carrancudo, como se ela fosse algum adversário pessoal.
— Puxa, que susto ela me pregou! Parecia tão
amistosa no começo...
— Que quer dizer com amistosa? — indagou Rhodan,
interessado.
— Amistosa, sim — confirmou Bell. — Os choques
elétricos vieram depois. Primeiro senti só um toque, uma leve apalpadela. Como se
uma corrente muito fraca passasse da bola para meus dedos; deu uma voltinha pelo
meu corpo e voltou para a esfera. Aí começaram os fogos de artifício. Até que não
doeu, para ser franco. Com o tempo, a gente poderia se habituar.
— Ah, é? — fez Rhodan, vendo a esfera descer
abaixo da marca de um metro. Uma apalpadela? Sim, pode ter sido isso, talvez....
Vai ver que você não lhe agradou.
— Talvez você lhe agrade, então! — resmungou
Bell, amolado. Mas logo se mostrou também pensativo. Um rápido olhar para a expressão
do rosto de Rhodan fê-lo voltar novamente sua atenção para a esfera. — Caso ambos
pensemos a mesma coisa, Perry, seria mais do que tempo de...
Rhodan acenou. O risco não era muito grande,
já que Bell não sofrera nenhum dano grave por ter tocado na misteriosa aparição.
Os desconhecidos que a haviam enviado não eram mal-intencionados. Apenas gozadores
de marca... No entanto, apesar de brincar com as vidas de seus eventuais sucessores,
jamais os ameaçavam de maneira direta e imediata.
Bem, Bell passara pela prova sem prejuízo maior;
portanto ele podia fazer igualmente uma tentativa. Aviso não lhe faltara. Por outro
lado, a menção de Bell a “apalpadelas” era um indício que não podia ser desprezado.
Talvez seu amigo não possuísse a estrutura mental exigida.
A bola chegara a oitenta centímetros do piso
quando Rhodan se decidiu; abaixando-se, enfiou a mão na massa luminosa. Sentiu imediatamente
a débil corrente elétrica invadir-lhe o corpo. Não houve raios, no entanto; fato
que deixou Bell um tanto aborrecido, mas, ao mesmo tempo, satisfeito.
Rhodan constatou que a luz era de fato fria.
Já não percebia o fluxo elétrico. Não sentia nada. Porém seus dedos tocaram em algo
duro e material. A cápsula — se é que se tratava mesmo duma cápsula — era evidentemente
de natureza tridimensional. Rhodan não teve dificuldade em segurá-la entre o polegar
e o indicador. Era fria, sem ser fria demais. E nem procurou fugir-lhe. Rhodan puxou-a
para fora sem que nada impedisse.
Era uma cápsula metálica, com cinco centímetros
de comprimento, e um de espessura. A mensagem da luz!
Agora que tinha a cápsula em seu poder, Rhodan
recuperara a serenidade. Afastando-se da esfera, recomendou:
— Acho melhor sairmos da arca, pessoal; vamos
ficar observando, lá da entrada, o que acontecerá com a bola. O gongo já se calou.
Era a única alteração perceptível. No mais,
continuava tudo na mesma. A esfera brilhava, continuava a descer vagarosamente,
tocando por fim o chão liso e duro de pedra. Tensos e expectantes, Rhodan e os companheiros
observavam da entrada do salão subterrâneo.
A esfera afundava no chão! Passou através dele
como se não existisse, mergulhando pedra a dentro com a mesma regularidade com que
se vinha deslocando no ar. Era agora apenas um hemisfério luminoso, diminuindo mais
e mais. O processo lembrava um pôr de sol no oceano.
O último reflexo luminoso se apagou. A esfera
desaparecera.
— Fantástico! — murmurou Crest, visivelmente
impressionado. — Ela retornou à sua dimensão. Se você não tivesse agarrado a cápsula
a tempo, ela teria sumido junto com a esfera.
— Isso mesmo — confirmou Rhodan. — E com ela,
a solução da charada galáctica; ou pelo menos parte dela.
— Acha que continua?
Rhodan deu de ombros.
— Talvez o cérebro positrônico nos responda
esta pergunta. Venham!
Ao sair, Rhodan desligou o gerador que mantinha
a arca no presente. Ela desapareceu assim que o leve zumbido do aparelho cessou,
como se jamais tivesse existido.
As arcadas subterrâneas jaziam vazias e desertas.
7
Debaixo da cintilante cúpula energética, a
Stardust-III, a gigantesca espaçonave esférica, dava a impressão de ser pequena.
A nave de guerra arcônida, com seus oitocentos metros de diâmetro, abrigava em seus
enormes hangares, entre outras coisas, duas esquadrilhas completas dos supervelozes
caças espaciais. A tripulação de trezentos homens se perdia dentro do colosso, cuja
central de comando representava verdadeira maravilha tecnológica, de procedência
não-humana. Rhodan e Bell só conseguiam manejá-la graças ao treinamento hipnopédico
arcônida, que lhes transmitira no espaço de poucos dias a milenar sabedoria da raça
dominante do universo.
Porém não era o sistema de propulsão da Stardust-III
que lhe permitia vencer em instantes incontáveis anos-luz, que mais impressionava
Rhodan. Para ele, a inventiva arcônida atingira o auge ao criar o cérebro positrônico.
Em seus bancos de memória armazenavam-se os conhecimentos de meio universo, a sabedoria
de toda uma raça. E, contrariamente aos próprios arcônidas, o cérebro não degenerava;
poder-se-ia afirmar até que superara há muito tempo seus criadores.
Fato que talvez representasse um perigo em
potencial...
Rhodan sabia que as instalações do cérebro
ficavam ocultas pelo possante revestimento de arconita, liga metálica feita para
resistir durante milhões de anos. Ele próprio só conhecia os mecanismos de controle
e teclados externos; a face da suprema inteligência do universo consistia de alavancas,
botões, comutadores, escalas e alto-falantes.
A cápsula retirada da esfera luminosa deixara-se
abrir com facilidade. Continha uma lâmina enrolada, feita de material desconhecido,
e recoberta com símbolos de brilho espontâneo. Rhodan achou alguns deles familiares;
a maioria era estranha e misteriosa.
Fazia já cinco horas que o cérebro positrônico
se ocupava com a decifração. Horas de angústia, de esperança, de devastador desalento.
Finalmente veio a resposta. Mas era desencorajadora.
— A mensagem está codificada — informou o cérebro
positrônico. — Foi encaminhada ao setor competente. O resultado será dado dentro
de alguns dias apenas.
Crest, Thora e Bell acabavam de entrar e ouviram
a comunicação da voz mecânica.
— Ora, bolas! — resmungou Bell. — Em vez de
soluções, nos apresentam novas charadas.
Furiosa, Thora interrompeu:
— Escute aqui, Perry! Nunca existiu nenhum
planeta da vida eterna! Estamos seguindo uma pista que pode ter sido válida há milhares
de anos. Atualmente, ela só serve para nos mistificar e nos expor aos maiores perigos.
Caso exista de fato uma raça imortal, seria mais simples encontrá-la pelos meios
convencionais.
Rhodan voltou-se vagarosamente.
— E quais seriam estes meios convencionais,
Thora?
— Vôos espaciais! Para que temos nossa espaçonave?
No caminho de volta para Árcon, poderíamos abordar, um por um, os diversos sistemas
planetários, a fim de ver se são habitados.
— Esqueceu dois detalhes — interrompeu Rhodan,
friamente. — Em primeiro lugar, entre Vega e Árcon há uma distância de trinta e
quatro mil anos-luz, com mais sistemas solares do que jamais conseguiria explorar.
Segundo: o planeta da vida eterna, se é que existiu efetivamente, encontrava-se
no sistema Vega. Ele emigrou, e pode estar em toda a parte e em lugar algum. Quem
nos afirma que tomou o rumo de Árcon? Ele pode, da mesma forma, estar se dirigindo
em direção oposta. Conhecemos sua velocidade, por acaso? Talvez esteja em viagem
ainda, vagando pelo cosmo sem sol, como um peregrino inquieto e imortal. Não, Thora,
sua sugestão é impraticável.
— Então apresente uma melhor! — exigiu a arcônida,
inconformada. — Mas terá que ser bem melhor. Senão a prometida viagem a Árcon não
sairá tão cedo.
— Eu sei — disse Rhodan, com um sorriso fatigado
— que esta viagem para Árcon representa sua maior preocupação. Prometo-lhe que reverá
sua pátria assim que tivermos resolvido a charada galáctica e encontrado o planeta
da vida eterna.
Thora afastou-se abruptamente. Seu rosto era
uma máscara rígida e proibitiva. Crest notou-o com evidente mal-estar. Em tom conciliador,
disse;
— Precisa compreender Thora, Perry. Ela foi
encarregada pelo nosso Conselho Científico de explorar este setor da Via-Láctea.
Nosso pouso forçado na lua terrestre forneceu a você a oportunidade de absorver
a tecnologia e conhecimentos arcônidas. Concordamos com isso e prestamos-lhe toda
a colaboração, na esperança de poder algum dia regressar a Árcon. Porém este objetivo
vem sendo sempre adiado novamente...
— Sua expedição não procurava o planeta da
vida eterna?
— Sim, mas...
— Pois então! Também estou à procura dele!
Temos um objetivo comum. Não compreendo a oposição de Thora.
— Procure entender... — começou Crest, porém
foi interrompido.
Diante de Rhodan piscou uma lâmpada vermelha.
Quase automaticamente ele ligou o intercom. Na pequena tela de bordo viu-se o rosto
de um homem.
— Que foi, Deringhouse?
— Groll, meu piloto acaba de se apresentar
de regresso da expedição com Lossos.
— Sim, e como se foram?
— O ferrônio desejava lhe falar. Diz que achou
o planeta da vida eterna.
Por instantes reinou um silêncio espantado
na central. Thora arquejava, enquanto Crest permanecia impassível. Bell limitou-se
a escancarar a boca, o que não contribuía para conferir-lhe um ar muito inteligente.
Rhodan disse:
— Traga Groll e Lossos para cá.
O ferrônio chegou com ar triunfante, entregou
a Rhodan as fotografias da pirâmide. Groll mantinha-se ao lado dele, com jeito nitidamente
contrafeito. Parecia não se sentir muito à vontade.
— Achamos esta pirâmide na segunda lua do décimo
terceiro planeta — informou o cientista ferrônio — bem perto de um túnel que leva
para debaixo de um colossal platô rochoso. Entramos nele e descobrimos um complexo
tecnológico enterrado no solo da lua. Sempre nos constou que aquela lua era desabitada;
e pareceu-me mesmo que as instalações são remanescentes de uma civilização morta.
Mas também poderia tratar-se da central energética que arrancou outrora o décimo
planeta de Vega de sua órbita, transformando-o em lua do décimo terceiro planeta.
Sendo este o caso, a lua 13B seria o planeta da vida eterna.
Rhodan escutara Lossos sem interrompê-lo, com
as fotografias na mão, com ar indeciso. Com um gesto quase brusco, empurrou as fotos
para debaixo do compartimento receptor do cérebro positrônico. Calcou um botão,
fazendo o circuito adequado entrar em funcionamento. Lentes captaram os símbolos
da inscrição, transferiram-nos para apreensores de impulsos eletrônicos, de onde
foram levados adiante com velocidade prodigiosa. O processo de decodificação começara.
— Não percebeu nenhum vestígio de vida atual?
— perguntou Rhodan a Lossos.
— Só um tópsida. O sargento Groll liquidou
com ele.
Rhodan franziu o cenho.
— Um reptilóide? Como é possível?
Groll interveio:
— Um sobrevivente das batalhas de invasão.
Salvou-se numa das pequenas naves de emergência, que foi destroçada por ocasião
da aterrizagem. Ele encontrou igualmente o túnel para o subsolo, e esperava por
nós lá.
Pela primeira vez ouviu-se na voz de Rhodan
um tom de recriminação.
— E você matou um ser que esperava socorro?
Não sabe que se trata de ação punível segundo as leis da Terceira Potência? E não
só segundo nossas leis, sargento?
— Foi legítima defesa — excusou-se Groll, que
já esperava a reprimenda. — O tópsida me apontou sua arma; só que minha pontaria
foi melhor, e atirei mais depressa. Foi o que aconteceu, senhor.
— O fato ocorreu exatamente conforme o sargento
disse — confirmou Lossos. — Groll não fez mais do que cumprir seu dever: nos proteger
de um agressor.
Do teto partiu o estalido de um alto-falante
ligado automaticamente pelo sistema acústico do cérebro positrônico. A voz mecânica
e impessoal informou:
— Tradução concluída. O resultado será dado
por escrito. Mensagem encerrada.
Rhodan lançou um breve olhar a Crest.
— Surpreendentemente rápido, não? Devia ser
muito simples o código usado, para permitir tradução imediata. O que me deixa concluir
que se trata de mensagem pouco importante. Lossos, parece-me que você sofrerá dentro
de instantes amarga decepção.
O ferrônio ia replicar, porém naquele momento
o cérebro positrônico expeliu um bilhete branco, bem diante das mãos de Rhodan.
A face escrita estava virada para cima, e todos os presentes puderam ler o que se
encontrava gravado na pirâmide da lua 13B.
“Muitos caminhos conduzem à luz; mas às vezes por rodeios. Porém a
pista aponta a direção.”
— E então? — indagou Lossos, pressuroso. —
Que quer dizer isso?
Rhodan sorriu.
— Uma espécie de prêmio de consolação para
quem perdeu a pista certa, ou jamais a encontrou. Há rodeios para se chegar à solução
da charada galáctica. Tenho a impressão, no entanto, de que o caminho direto é o
mais curto, apesar de ser mais árduo. Agradeço-lhe, Lossos, prestou-me um valioso
serviço. Obrigado também, Groll!
Groll retirou-se impassível, enquanto o ferrônio
não teve habilidade suficiente para disfarçar sua decepção. Quando a porta se fechou,
Crest disse:
— Lamento por ele, pois esperava trazer indício
mais útil. Julga sem significação a descoberta de Lossos, Perry?
— Indiretamente sim, Crest. Puro despistamento...
Imagine só: escavar uma lua inteira, que se prestaria a suportar vida, só para despistar!
Incrível a capacidade dos seres que nos propõem as tarefas!
— Uma raça de gigantes mentais! — concordou
Crest, com tom de profundo respeito e veneração. — Será um grande momento aquele
em que os encontrarmos pela primeira vez. Espero que sejamos dignos...
— Se chegarmos a encontrá-los, seremos dignos
— afirmou Rhodan, gravemente.
— Às vezes acho que seria melhor desistir da
busca, em vista das circunstâncias. Porém não é só a imortalidade que está em jogo.
É muito mais... O contato com inteligências tão superiores, com seres senhores de
todas as dimensões, capazes de lançar uma pista através de milênios, poderia contribuir
para salvar ainda o decadente império arcônida.
— Ou promover o nascente império terrano, Crest!
Nem Crest nem Thora responderam. Trocando um
rápido olhar, acenaram uma despedida e retiraram-se.
Bell viu-os sair com ar preocupado.
— Não devia ser tão franco com eles, Perry
— avisou. — Por enquanto, eles ainda acreditam que seu império continua poderoso
e estável. Nem suspeitam de que você pretende se tornar sucessor deles. E caso se
tornassem inimigos nossos...
— Crest sabe muito bem o que o futuro reserva
a Árcon — respondeu Rhodan, sacudindo a cabeça. — Está consciente do fato de que
a raça arcônida é fraca demais atualmente para continuar representando o papel de
dominadores do universo. Sabe que os homens assumirão a herança dos arcônidas, e
está convencido de que não poderia haver solução melhor. Está do nosso lado.
Fitando o amigo pensativamente, Bell concordou
após alguns momentos.
— Sim, deve sabê-lo, senão não estaríamos ocupando
a cabina de comando de uma nave que poderia levá-lo de volta à pátria hoje mesmo.
Que pensa fazer agora, Rhodan?
— Aguardar, que mais? — respondeu o interpelado.
— Jamais solucionaremos uma charada galáctica complexa saltando uma das etapas.
A arca em Thorta era apenas uma etapa.
Bell retirou-se. Rhodan ficou sozinho.
Sentado diante do imenso painel do cérebro
positrônico, ficou observando as piscantes luzes que acendiam e apagavam continuamente;
escutou o inescrutável zumbido que emanava de dentro do invólucro de arconita; sentiu
a vibração debaixo de seus pés. O cérebro positrônico trabalhava. Encontraria a
solução.
No entanto, o caminho que se estendia à sua
frente ainda era longo. Rhodan sabia que esse caminho o levaria pelo tempo e pelo
espaço antes de deixá-lo no limiar da eternidade.
Teria coragem de ultrapassar tal limiar?
* * *
A charada galáctica foi solucionada literalmente no último minuto,
porém o desconhecido que guarda o segredo da imortalidade ainda não esgotou todos
os seus recursos.
Ele,
para quem milênios não passam de segundos, lançou uma Pista no Tempo e no Espaço.

Estou acompanhando essa serie. Boa iniciativa. Gostaria q vc postasse o resrante.
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