De uma maneira geral, era preciso
reconhecer que os ferrônios eram muito superiores aos homens em todos os
sentidos. Jamais a Humanidade havia alcançado um estágio tão avançado. Porém
ferrônio algum podia medir-se com a técnica superior dos arcônidas.
Assim que o ferrônio foi embarcado e
quando seus processos mentais começaram a emergir da letargia da exaustão
total, Rhodan comunicara pelo intercom a toda a tripulação:
— Ele está voltando a si. Os mutantes vão
lançar as primeiras bases para a comunicação, por meio da telepatia. Ordeno que
ninguém se refira ao planeta Terra. Não esqueçam que a localização de nosso
mundo deve permanecer em absoluto segredo. Muita atenção neste particular,
portanto! Para qualquer ser vivente, seja qual for seu nome ou aparência, nós
somos arcônidas! A Good Hope é prova evidente dessa afirmação. Além disso, a
aparência física com os arcônidas nos favorece. Risquem da memória, por
enquanto, o fato de sermos terrestres. Esqueçam até onde fica a Terra! É tudo!
A ordem era clara e explícita. Com uma
sensação de amargura, os dois arcônidas perceberam que Rhodan se preocupava
apenas com seu mundo e com a Humanidade. A atitude poderia passar por egoísta.
Mas a própria Thora foi obrigada a admitir, a contragosto, que a camuflagem era
absolutamente necessária. Para ela, o súbito aparecimento da raça reptílica
fora um golpe severo.
O instrumento especial, de funcionamento
totalmente positrônico, era mais uma das maravilhas da técnica arcônida. Era o
tradutor automático. Assim que registrou e classificou os primeiros sons da
língua ferrônia, a comunicação se processou com facilidade.
Fazia três horas que o ferrônio tinha sido
recolhido. Betty Toufry e John Marshall anotavam telepaticamente uma série de
dados que eram fornecidos à máquina tradutora. Assim a tarefa era relativamente
simples.
Crest e Thora, valendo-se do privilégio de
possuir memória fotográfica, já começavam a falar aos poucos a língua ferrônia.
Enquanto isso, a Good Hope continuava a descrever a ampla órbita em torno do
décimo quarto planeta.
Perry Rhodan mantinha-se à parte do grupo
empenhado na conversação, apesar de ser alvo constante dos olhares do estranho.
Este parecia ter percebido que era aquele homem alto e magro quem dava as
ordens.
Rhodan examinou-o atentamente. O ferrônio
era de estatura relativamente baixa, porém robusto e de músculos poderosos.
Ferrol, seu planeta nativo, possuía uma gravidade de 1,4 g. Portanto, o corpo
atarracado não era de surpreender.
Braços e pernas eram do tipo humanóide;
assim como a cabeça e a espessa cabeleira. Os olhos eram miúdos e afundados por
trás de uma fronte fortemente abaulada. A boca era surpreendentemente pequena.
A diferença mais flagrante com a raça humana residia na cor da pele, de um azul
pálido, o que contrastava com os cabelos cor de fogo. Enfim, não se tratava de nenhum
monstro. Devia haver, forçosamente, diferenças anatômicas, porém era mais
difícil determinar o fato de imediato.
Atento ao som das palavras que não
compreendia, Rhodan tentava analisar uma sensação indefinível que crescia
dentro dele. Nada de concreto e perceptível; apenas uma vaga e distante noção
de perigo iminente.
John Marshall acercou-se da poltrona do
comandante. O olhar do ferrônio o seguiu. Quando Rhodan se voltou, o estranho
empertigou-se, levando a mão direita ao peito. Rhodan acenou com a cabeça. O
traje espacial do ferrônio era de excelente qualidade, tão bem acabado nos
detalhes que permitia avaliar com precisão a adiantada técnica que o produzira.
Para Rhodan, era um tanto melancólico constatar o quanto a Humanidade estava
atrasada em relação àqueles seres. Não obstante, o ferrônio salvo demonstrava
claramente sua convicção de encontrar-se diante de gente infinitamente superior
ao seu povo.
— Que há? — indagou Rhodan. — Problemas? A
expressão de seu rosto não me agrada.
O telepata mostrou um sorriso contrariado.
— Crest está enchendo o espírito do
estranho com relatos fabulosos e mirabolantes acerca do poderio do Grande
Império! — queixou-se Marshall.
— Sei disso. Foi ordem minha. Que mais?
— Ordem sua? Essa não! Também deu ordem
para contornar todas as questões importantes e ficar perguntando
insistentemente sobre o tal mundo da vida eterna? Há aspectos que me parecem
muito mais merecedores de atenção no momento.
— Ele não desiste, não é? — murmurou
Rhodan. — A comunicação funciona?
— Maravilhosamente bem. A máquina é
fenomenal e Crest já formou um vocabulário bastante amplo.
— Vantagem da memória fotográfica... Que
diz o ferrônio sobre a batalha?
John Marshall lançou um olhar ao
desconhecido. Haggard acabava de administrar-lhe a segunda injeção, que o
ferrônio suportou calmamente.
— Chama-se Chaktor e comandava uma pequena
nave, destruída há cerca de vinte e quatro horas. Aqui, diante do décimo quarto
planeta, ficava a primeira linha de defesa. A segunda está sendo dispersada no
momento presente. A terceira fica em torno do planeta principal, o oitavo.
Chaktor informou que as naves inimigas surgiram há uma semana, de surpresa. O
pânico tomou conta de Ferrol. A frota espacial dos ferrônios está sendo
totalmente aniquilada. O ferrônio implora freneticamente por ajuda, baseando-se
no ilimitado exagero das palavras de Crest. Chefe, isso não me parece direito!
Marshall mordeu os lábios. Parecia estar
muito perturbado.
— Que mais possuem os ferrônios? —
perguntou Rhodan.
— Muito pouco. Não têm a menor noção de
viagens interestelares. Daí o imenso respeito que nos devotam. Para Chaktor,
você é um personagem miraculoso. Não possuem anteparos protetores de espécie
alguma. Quando uma de suas naves é atingida pelos raios energéticos, está
perdida. Dispõem de uma frota espacial muito numerosa, porém formada em sua
maioria por naves comerciais, equipadas com armas de pequeno calibre. Não
conhecem armas energéticas. Empregam principalmente projéteis-foguete dotados
de cabeçotes atômicos que explodem por impacto; e são espetacularmente
eficientes. Valeram-lhes brilhantes vitórias no começo da luta. Crest diz que
os invasores tópsidas têm armas defensivas verdadeiramente desprezíveis. Seus
anteparos protetores não valem nada. Chaktor confirmou isso. Mas os tópsidas
aprenderam gradualmente a esquivar-se dos foguetes atômicos. Estes alcançam mal
e mal 30% da velocidade da luz, e demoram a atingir o alvo. Sabendo disso, os
tópsidas tomam medidas preventivas a tempo. Acertam, também, os projéteis
ferrônios em vôo com seus raios energéticos, fazendo-os explodir muito antes de
chegar ao destino. Chefe, nós devíamos...
Rhodan interrompeu-o com um gesto da mão.
— Um momento, John! Como é que os
ferrônios possuem uma frota espacial tão vasta? Existem outros seres
inteligentes por aqui?
— Só subdesenvolvidos. Os ferrônios
povoaram, além de seu mundo principal, só os planetas sete e nove. Em especial
este último. Respiram oxigênio, porém em temperatura superior à que nós estamos
habituados. O oitavo deve ser bastante quente, mas suportaríamos viver no nono.
O Ferrônio pede para ser deixado ali. O planeta se chama Rofus.
Rhodan agradeceu. Ouvira o suficiente.
Olhou para Bell, pensativo; este se reclinava com aparente indiferença na
poltrona ao lado.
— E então? Que lhe parece?
— Grato por indagar minha opinião! —
resmungou Bell, com sarcasmo na voz. — Foi-se nosso plano de sumir sem mais nem
menos, percebe, Perry? Enquanto as coisas não estiverem em ordem por aqui, a
Terra corre perigo. Que representam os insignificantes vinte e sete anos-luz para
os tópsidas? Acho melhor explorar um pouco esta zona, principalmente para
conhecer os pontos fracos do adversário. Creio que podemos chegar a um
entendimento satisfatório com os ferrônios. E proveitoso ao mesmo tempo...
Possuem uma série de coisinhas de que a Humanidade poderia fazer bom uso.
Gostei de seus métodos de produção e fabricação; técnica e acabamento de
primeira. Não custa examiná-los mais de perto. Dificilmente correremos algum
risco. A Good Hope sobrepuja as naves tópsidas tanto em velocidade como em
poder ofensivo. E ainda nos resta o recurso de mergulhar no hiperespaço a
qualquer instante, se for preciso.
Rhodan ergueu-se com ar meditativo.
— É, seu miolo ainda funciona... Era
exatamente o que eu tencionava fazer. Localize o oitavo planeta e forneça os
dados ao computador positrônico. Não quero perder tempo. Incomoda-me saber que
o verdadeiro objetivo dos tópsidas era a Terra. Vamos olhar esses caras de
perto. Dê as ordens necessárias.
Momentos após, Rhodan estava diante do
estranho. Chaktor dobrou humildemente um joelho. Depois pôs-se a falar
apressadamente. O tradutor automático dava a versão em linguagem humana.
Crest interrompeu, excitado:
— Constatei a existência de algumas
contradições surpreendentes nesta gente! Possuem transmissores de matéria,
coisa que só é possível mediante o conhecimento da matemática pentadimensional.
No entanto, os ferrônios não têm a menor capacidade para construir tais
aparelhos, que transportam corpos desmaterializados com a velocidade da luz. O
que é indício evidente da existência de uma raça superior entre eles! Chaktor
falou qualquer coisa sobre contato com entes superiores em época muito remota.
Perry, você precisa ir até o planeta principal dos ferrônios! Estou convencido
de que o mundo da vida eterna se encontra no sistema Vega. É de lá que procedem
esses transmissores de matéria, tenho certeza!
— Bem que eles me interessariam! — disse
Rhodan, secamente.
— O cavalo de batalha de sempre, não é,
Perry? Tudo pelo bem da Humanidade... — interrompeu Thora com sarcasmo.
Rhodan voltou-se para Chaktor, cuja
atitude era quase solene. Sentia uma impressão estranha. Há quatro anos, ele
próprio era bem mais ignorante do que aquele comandante espacial ferrônio.
Naquela ocasião, Rhodan seria nitidamente o inferior. Os olhos vermelhos de
Thora zombavam. Parecia adivinhar o que ia pela mente do comandante.
— Vou conduzi-lo ao nono planeta de seu
sistema — disse Rhodan no microfone da máquina de traduzir. — Pode providenciar
que suas próprias naves não nos ataquem?
Chaktor aguardou a tradução. Depois a face
achatada irradiou alegria. Novamente repetiu a embaraçosa genuflexão.
— Distância para o oitavo cerca de onze
horas-luz! — informou Bell.
Chaktor confirmou a indicação, fazendo uso
de símbolos já conhecidos pelo tradutor. O ferrônio olhava maravilhado para o
pequeno aparelho. Pouco a pouco era levado a considerar aqueles homens como
deuses. Depois sua resposta chegou. Sim, ele poderia transmitir o código
adequado, caso lhe fornecessem um transmissor.
— Puxa, e agora? — exclamou Klein. — Que
será que esses caras usam para transmitir?
— Mostre-lhe o funcionamento dos aparelhos
terrestres, temos alguns deles instalados na nave. Talvez ele saiba como usar a
onda curta normal. Garanto que não conhecem o sistema de hipertransmissão.
Três horas mais tarde, segundo o relógio
de bordo, o aprendizado terminara. Chaktor não teve, aparentemente, dificuldade
em entender o funcionamento do rádio terreno.
Betty Toufry, a menina telepata-,
comunicou a Rhodan, com um sorriso disfarçadamente zombeteiro:
— Chaktor se pergunta em que monte de lixo
vocês poderiam ter recolhido esse trambolho primitivo.
Thora explodiu numa sonora gargalhada.
Rhodan fitou o estranho com ar atônito, enquanto Bell praguejava entre dentes:
— Que diabo! É o mais moderno, avançado e
complexo transmissor jamais construído na Terra! E o sujeito vem me dizer que é
um trambolho primitivo!
O capitão Klein disfarçou um sorriso,
enquanto Rhodan, respirando fundo, procurava uma saída diplomática.
— Betty, diga-lhe que adquirimos o aparelho
de uma tribo selvagem num mundo remoto, apenas por curiosidade. Nossa intenção
era exibi-lo num museu.
O Doutor Haggard estava achando aquilo
tudo engraçadíssimo.
Chaktor tomou conhecimento da resposta de
Rhodan, o que o relegou novamente à anterior posição de inferioridade.
— Pílula amarga essa! — disse Rhodan. —
Doutor, pare com essas risadas! Poderiam nos denunciar... E você, Thora, não me
venha de novo com a perpétua acusação de que seríamos uns ignorantes sem sua
preciosa técnica arcônida. Com o tempo isso satura, entendeu?
Rhodan ligou o sistema de radiocomunicação
interna e postou-se diante do vídeo.
— Atenção! Do comandante a toda a tripulação:
largada para uma curta transição de cerca de onze horas-luz. Que nos levará à
área espacial entre o oitavo e o nono planeta deste sistema. Manter rigorosa
prontidão de combate e não dar importância excessiva à ligeira sensação de dor.
É possível que nos precipitemos bem no meio de uma violenta batalha. Fogo livre
para todas as armas. Mostrem o que valemos. Major Deringhouse, de prontidão
para ataque, junto com o capitão Klein. Vou ejetá-los no espaço assim que
chegarmos. Ajustem os localizadores de contato dos caças aos sensores da Good
Hope, para poderem nos reencontrar. Em caso de emergência, aterrissem em Rofus,
o nono planeta. Chaktor anunciará nossa chegada. Verão uma cidade imensa na
zona equatorial, a única do planeta, que é uma espécie de colônia dos
ferrônios. Fim!
Dez minutos depois, a nave alcançava a
velocidade exata da luz. O enorme mundo número quatorze ficou para trás. Não
havia um só adversário à vista. O espaço interplanetário do sistema Vega
parecia ter sido totalmente evacuado.
Se horas atrás tinham acreditado estar no
meio de uma acirrada batalha espacial, agora se defrontavam com um verdadeiro
inferno.
Os enervantes sinais dos detectores eram
ininterruptos. O espaço todo estava repleto de naves. Mas não se tratava
evidentemente de uma competição pacífica entre duas culturas de igual nível de
civilização. E a nave subitamente surgida foi recebida com um chuveiro de
cintilantes raios energéticos. Antes mesmo que Rhodan superasse a dor da
transição, a Good Hope já se encontrava sob fogo cruzado.
Nos vídeos brilhava o nono planeta do
sistema Vega. Pelo menos a transição de curta distância funcionara com a mais
absoluta precisão. Mas bem que Rhodan teria preferido emergir no hiperespaço a
alguns milhões de quilômetros dali. Mas talvez isso não viesse alterar
basicamente a situação, pois a feroz batalha se desenrolara praticamente num plano.
No entanto, as naves estavam espalhadas por uma área de alguns milhões de
quilômetros quadrados.
Antes que o eco dos gritos de comando de
Rhodan se apagasse, Bell já abria fogo contra o inimigo. Por entre o estrondoso
trovejar dos raios energéticos acertando seus alvos, os torretes armados da
Good Hope entraram em ação. A mira era controlada automaticamente. Todo o
trabalho de Bell era conferir as coordenadas fornecidas pelos localizadores e
calcar botões. Mais uma demonstração da eficiência da tecnologia arcônida.
Usando a força total dos propulsores,
Rhodan arrancara a nave da área imediata do fogo cruzado dos azulados raios
energéticos. Mais uma vez o superdimensionado anteparo de defesa provou ser
imune a armas rotineiras, que não conseguiam nem rompê-lo, nem neutralizá-lo.
Apenas as furiosas descargas não podiam ser evitadas.
Além do intenso efeito térmico, a violenta
repercussão se transmitia ao casco externo da nave.
Pelo jeito, os tópsidas não possuíam
armamento teledirigido mais veloz do que a luz, pois o campo de repulsão
mecânico-gravitacional da Good Hope ainda não fora obrigado a entrar em ação.
Ou então o inimigo preferia lutar exclusivamente com seus canhões energéticos.
Quando o clamor estridente do último impacto diminuiu, ouvia-se o pipocar das
armas arcônidas. Neste ponto, pelo menos a Good Hope estava muito melhor
provida do que várias naves tópsidas somadas. Como nave auxiliar de um cruzador
de pesquisa sempre exposto a riscos, o equipamento de defesa era
suficientemente amplo para satisfazer até o mais exigente artilheiro.
John Marshall tomava conta dos detectores;
Quando a primeira linha das naves cilíndricas atacantes ficou para trás da Good
Hope, e os tiros de perseguição não conseguiam mais emparelhar com a nave mais
rápida do que a luz, Marshall anunciou o aparecimento de novas unidades. Porém
estavam mais espalhadas. Além disso, travavam luta com um infindável enxame de
naves ovóides, no meio das quais as explosões se sucediam sem parar.
— Corrigir a mira! — gritou Rhodan no
minúsculo microfone do radiotransmissor embutido no capacete. Já não havia
condições para a comunicação normal diante da ensurdecedora barulheira
reinante. — Temos que forçar passagem a qualquer custo, senão nunca nos
livraremos desse inferno! Thora, dê uma mãozinha a Bell. Acione as bombas
gravitacionais. Vejamos do que elas são capazes.
Bell espiou rapidamente para a sua
esquerda, onde a mulher arcônida assumia o comando dos manipuladores de
controle.
“Bombas
de gravidade”, pensou ele, com um ligeiro arrepio. “A mais poderosa arma criada pelos arcônidas.”
Na realidade, não se tratava de bombas na
acepção usual do termo. Ao menos Bell achava impróprio dar o nome de bomba a um
campo em espiral de energia estabilizada, projetada com a velocidade da luz.
Campos que eram quanta energéticos
extradimensionais, com a extraordinária capacidade de dissolver matéria comum,
arrancando-a da estrutura curva do espaço.
Luzes vermelhas brilharam na tela de mira
de Bell. O localizador automático detectara três alvos. Quando apertou os
botões, os três pulsocanhões abriram fogo simultaneamente, sacudindo com
violência a nave de ponta a ponta, por efeito da força de recuo dos tiros.
Faixas roxas de energia se lançaram pela perpétua escuridão do espaço, com a
velocidade exata da luz. Não deixavam ao adversário tempo para percebê-las.
Antes que qualquer instrumento chegasse a acusar seu brilho, elas atingiam o
alvo visado.
O inimigo ainda se encontrava a cerca de
dois milhões de quilômetros de distância. Precisamente sete segundos após o
disparo, viu-se um relampejar por entre as densas fileiras das naves tópsidas.
Os impactos foram registrados pelos hipersensores antes que o brilho ofuscante
das explosões se tornasse visível, sete segundos mais tarde.
John Marshall manejava agora os pesados
projetores neutrônicos. Seu efeito só se tornava aparente quando se via a nave
inimiga perder o rumo e vagar desarvorada no espaço, por falta de mãos nos
controles. Pois os ultraconcentrados raios neutrônicos afetavam apenas a vida
orgânica.
Thora lançou duas bombas gravitacionais. A
tripulação acompanhou com o olhar o trajeto das tremeluzentes espirais,
afundando nas trevas. Duas unidades inimigas desintegraram-se por entre
ofuscantes explosões.
Rhodan nunca vira a bela e estranha mulher
em tal estado. Absolutamente imóvel, ela se limitava a tocar com as pontas dos
dedos os botões de controle das terríveis armas. Apenas nos olhos transparecia
o fogo interior que a consumia. Sua educação inflexível vinha à tona naquele
momento e ela agia de acordo com a máxima fundamental da dinastia arcônida
soberana: quem quer que se oponha ao poder do Grande Império deve perecer.
— Eles devem ter percebido agora com quem
lidam! — murmurou ela, com voz fria e impessoal. — Cabeças ocas! Vou acabar com
eles antes que consigam fugir!
Rhodan gritou nova série de ordens. A
trajetória em arco iniciada não podia ser alterada. A Good Hope ia ter que
passar bem no meio das fileiras cada vez mais densas do adversário, a toda a
velocidade.
— Deringhouse! Aprontar para ejeção! — berrou
ele no radiofone. — Abra uma brecha nas fileiras, depois cubra nosso flanco.
Fique perto de nós, entendido?
Deringhouse confirmou a ordem recebida.
Jamais imaginara possíveis os acontecimentos que presenciava. Enquanto a Good
Hope em pleno vôo mantinha o fogo e o decrescente bombardeio energético do
inimigo totalmente confuso era neutralizado pelos anteparos de defesa, os dois
caças com Deringhouse e Klein chisparam para fora dos tubos de lançamento. Já
lançados com a velocidade da nave-mãe, ainda levavam a vantagem da mobilidade
maior. Afastaram-se da Good Hope em ângulo agudo e segundos após os canhões
fixos da popa despejaram fogo. Tratava-se de pulso-canhões de grosso calibre,
ocupando com seu volume a maior parte do espaço dos pequenos aviões. A apenas
dois segundos-luz das naves tópsidas, ambos os caças acertaram nos alvos pela
primeira vez.
Depois a Good Hope emparelhou com eles e o
grupo cruzou velozmente através de nuvens de fogo, que instantes atrás haviam
sido pesadas astronaves.
Também desta vez precisaram apenas de
alguns instantes para atravessar as cerradas filas inimigas. Todas as armas
concentravam o fogo sobre a área que acabavam de cruzar. A tripulação sentiu-se
invadida por incontrolável sensação de euforia, incrementada pelo excitado ferrônio,
que saudava cada tiro com estridentes berros de alegria ou apoio.
Rhodan sabia dos riscos implícitos
contidos naquela sensação de superconfidência. A situação poderia sofrer uma
súbita reviravolta. O mutante Tako Kakuta devia ter lido seu pensamento.
Arrancou o ferrônio de seu lugar diante das telas, empurrando-o para diante do
equipamento tele-radiofônico pronto para funcionar. Rhodan manejava os
controles com gestos rápidos e enérgicos. Os quatro propulsores em plena ação
aumentavam ainda mais o fragor da fantástica batalha.
— Diga a ele que envie sua mensagem! —
gritou Rhodan para Betty Toufry. — Depressa! As naves dos ferrônios começam a
apontar na nossa frente. Meu Deus, como são lerdas! Vou desacelerar!
Enquanto a Good Hope reduzia sua velocidade
igual à da luz com o máximo poder de repulsão, disponível, Chaktor começou a
falar rapidamente no microfone. Ainda não era certo que o captassem
imediatamente. Devido à desaceleração, produzia-se um fenômeno curioso: os
raios energéticos das naves tópsidas, apesar de menos velozes do que a luz,
ganhavam terreno agora. Aproximavam-se mais e mais da nave em processo de
desaceleração constante.
Impossível pensar em manobras de
esquivamento durante o processo de frenagem. Portanto, Rhodan recebeu com estóica
tranqüilidade os dois impactos — o homem desprovido de nervos, o comandante que
observava com calma férrea e não perdia um só detalhe.
A nave recomeçou a vibrar. Apesar da maior
abertura do foco do raio, devido à distância percorrida, o impacto foi tremendo.
Mas o destrutivo efeito térmico não chegou a alcançar o casco da nave. O
pessoal da central de força comunicou uma sobrecarga passageira nos diversos
reatores de corrente. O hipercampo de alta tensão devorava imensa quantidade de
energia, que nem o aparelhamento arcônida estava em condições de fornecer.
— Não exagere! — gemeu Crest. — Lembre-se
de que tem em mãos uma simples nave auxiliar e não um cruzador equipado com
máquinas poderosas!
Rhodan teve que rir. Crest tinha conceitos
muito peculiares sobre potência e capacidade destrutiva.
No rastro da Good Hope reinava a maior
balbúrdia. Thora acionara também os canhões desintegradores, capazes de
desmanchar totalmente qualquer estrutura cristalina. Os incansáveis aparelhos positrônicos
acusavam fielmente os resultados obtidos.
— Passamos! — anunciou Bell, com voz
neutra. Mas tinha o corpo todo banhado em suor. — Os anteparos defensivos deles
não resistem a uma só de nossas armas.
— Obtivemos contato! — gritou Tako Kakuta,
agitando as mãos, excitado. — Chaktor conseguiu se comunicar! O pessoal dele já
nos percebeu. Temos permissão para atravessar as linhas dos ferrônios quando
for preciso.
Rhodan virou-se. Na ampla tela do videofone
via-se o rosto sorridente de um Ferrônio idoso. Um oficial superior, obviamente.
Apontando para o painel de controle, Chaktor despejou nova torrente de palavras
no microfone. O som das palavras se perdia por entre o fragor das armas em ação
e do rugido dos motores. Apenas os dois telepatas se encontravam em condições
de inteirar-se do conteúdo mental do nervoso ferrônio.
Betty alinhavou uma explicação através do
fone de seu capacete.
— Aquele é o comandante da frota ferrônia.
Comunicou nossa aparição ao quartel-general no nono planeta. Chaktor está
combinando um código suplementar, válido especialmente para nós... Espere! O
comandante está fazendo um pedido insistente: quer que continuemos a
prestar-lhe ajuda na batalha. Perry, ele diz que está disposto a passar-lhe o
comando geral!
Rhodan não conseguiu reprimir uma praga. O
alucinante ímpeto da Good Hope dificilmente poderia ser contido antes de chegar
às linhas das naves ovóides. Os propulsores já sobrecarregados não se
prestariam de maneira alguma a uma desaceleração superior aos quinhentos
quilômetros por segundo que vinha fazendo.
— Diga a ele que se defenda! — ordenou
Rhodan. — Vou atacar o inimigo pelos flancos e do alto. E mande Chaktor dar o
recado de que é impraticável organizar uma frente de defesa eficiente com uma
única nave. Nossa atuação terá que reduzir-se a ataques de provocação, mais não
podemos fazer.
Concretizara-se, pois, o dilema sempre
presente no subconsciente de Rhodan. O observador neutro, vindo apenas para
avaliar a situação, acabara se tornando participante ativo de acontecimentos
que, por enquanto, não representavam risco iminente para a Humanidade. Porém
forçavam Rhodan a tomar medidas preventivas, rechaçando os agressores tópsidas.
Eles não eram humanos. Quando se
compenetrou desse fato, sua própria condição de homem tornava inevitável sua
intervenção no conflito. Pela primeira vez na sua existência concordou com a
máxima arcônida de que entes não-humanos só poderiam ser tolerados em
circunstâncias muito excepcionais. Pois regiam-se por uma ética muito diversa,
alimentando conceitos existenciais incrivelmente estranhos. Se apareciam com
más intenções, não havia outra alternativa a não ser a guerra de extermínio.
A Good Hope encontrava-se a apenas alguns
segundos-luz das oscilantes linhas ferrônias quando ecoou o clamoroso som de
alarme emitido pelos hipersensores. Junto com o berreiro dos alto-falantes, a
tremenda zoeira se transformava em algo quase palpável. Depois os alto-falantes
emudeceram de repente, assim como as indicações luminosas da tela dos
instrumentos.
Algo de proporções monstruosas devia ter abalado
a curvatura estrutural do universo normal nas imediações. O anteparo protetor
da Good Hope foi percorrido por cintilante luminescência. Por segundos, o campo
energético entrou em completo colapso. Os reatores de corrente giraram em seco,
sem carga alguma. Descargas coruscantes saltavam intermitentemente dos fusíveis
dos conversores de energia. Os supersensíveis sensores estruturais se fundiram.
O odor acre e penetrante invadiu a cabina de comando. Compreendendo intuitivamente
o acontecido, Rhodan deu ordem para a colocação dos capacetes pressurizados. As
esferas transparentes foram encaixadas nos aros magnéticos dos trajes
espaciais. Automaticamente entraram em funcionamento os sistemas vitais de
fornecimento de ar condicionado, oxigênio e radiocomunicação.
Reduzida a uma velocidade correspondente a
apenas 25% da da luz, a Good Hope viu-se de repente no meio de uma descarga
energética de inacreditável intensidade. Chamas azuis envolveram o casco
externo de aço. Todo o poder ofensivo até então desenvolvido pelas naves
invasoras tornava-se insignificante diante daquela força titânica.
O grito de pavor foi ouvido por todos.
Alastrando-se por intermédio dos alto-falantes embutidos nos capacetes, acendeu
nos cérebros humanos uma centelha de pânico. Rhodan viu Crest correr para o
painel do hipercomunicador. Antes que as oscilações da nave se estabilizassem,
o cientista arcônida começou a falar diante das telas transmissoras iluminadas.
Até então Rhodan estivera entregue à
tarefa de manter a Good Hope mais ou menos sob controle. Deu, então, com o
monstruoso vulto de metal e energia que emergia do hiperespaço, a cerca de
cinqüenta quilômetros de distância dali.
— Não! — gemeu ele. Depois berrou: —
Thora, isso é...?
— Uma nave de guerra arcônida! — completou
ela, afobada. — Da classe imperial, o último modelo desenvolvido pelo Império.
Conheço bem o tipo. Eu poderia conquistar um sistema solar inteiro com ela.
Perry, nossa gente está chegando! Crest, transmita o código de reconhecimento.
Lá em Árcon devem ter percebido o que ocorre em Vega. Veja só, Perry! Um
gigante invencível, equipado com magníficas armas. Deve ter um diâmetro mínimo
de oitocentos metros, segundo os padrões terrestres. Eu...! O que está fazendo?
As juntas dos dedos crispados de Rhodan se
abateram sobre o reostato que comandava os quatro propulsores principais. Luzes
de controle piscantes indicavam uma reversão de cento e oitenta graus nos
campos de força dos jatos. Mal acabara a manobra de frenagem, a nave retomou
impulso com o máximo de velocidade. O rosto de Rhodan estava contraído.
Reginald Bell foi o primeiro a compreender. Seu grito rouco de alerta se
transmitiu através do intercom. Apenas os dois arcônidas continuavam radiantes.
Mas momentos depois Crest caiu em si e afastou-se do hipercomunicador,
profundamente perturbado.
— Contato nulo! — queixou-se ele. — Mas o
computador central da nave de guerra deveria ter identificado imediatamente o
código dado. Não compreendo o que...!
— Ainda não percebeu que naquela nave não
há um só arcônida? — gritou Rhodan, exaltado.
— Ela está dando volta e abre fogo contra
as linhas ferrônias! — anunciou a voz do mutante Ralf Marten que estava tomando
conta dos detectores.
Rhodan não podia fazer mais do que já
fizera. O gigante espacial, produto máximo da técnica arcônida, não perdia
terreno para a Good Hope em fuga. Apesar de suas impressionantes dimensões,
conseguia uma taxa de aceleração idêntica. Quando o raio violeta se projetou da
gigantesca esfera, era tarde demais para desviar. Disparado com a velocidade
exata da luz, percepção e impacto do raio foram simultâneos na relativamente
minúscula nave auxiliar do ex-cruzador arcônida. O artilheiro da nave de guerra
não lhe concedera a menor chance.
A potente faixa energética,
ultraconcentrada, media bem quarenta metros de diâmetro. Caso tivesse atingido
a Good Hope em cheio, esta se transformaria instantaneamente numa nuvem gasosa.
Porém a nave resistiu ao tremendo impacto produzido pelo tiro de raspão.
Descargas flamejantes explodiram ruidosamente nos anteparos de defesa; o campo
energético desmoronou, impotente para opor-se a forças tão poderosas. Reduzida
agora a uma simples partícula de pó, a esfera espacial virou joguete indefeso
de uma tremenda onda energética, desferida pelo gigante voador sem maiores preocupações,
apenas de passagem, para aproveitar a situação.
Rhodan ainda chegou a perceber que quase
toda a maquinaria da Good Hope tinha deixado de funcionar. O baque violento de
comportas de segurança fechando-se automaticamente provava que mesmo o tiro de raspão
provocara tremendos estragos. Antes de ser arrancado de seu assento diante dos
controles, ainda escutou o incipiente zumbido da reversão dos campos de força.
Processo automático, cuja finalidade era canalizar, em caso de catástrofe, a
energia disponível para os amortecedores de inércia. Se isso não tivesse
acontecido, não haveria mais vida na nave violentamente arrancada de seu rumo
por uma força extraordinária.
O major Deringhouse, cujo veloz caça se
havia aproximado até uma distância de cerca de dois quilômetros da Good Hope em
virtude da manobra de frenagem desta, viu que a nave esférica rodava
desarvorada pelo espaço, como uma bola chutada com violência.
Só Deringhouse se encontrava em posição de
verificar que o terrível raio energético tocara apenas a curvatura do pólo
inferior da nave. No entanto, ele estava incandescente. O aço arcônida
derretera como manteiga ao sol ardente do deserto. Cintilantes vapores
metálicos se desprendiam ainda da parte inferior da esfera. A Good Hope
arrastava consigo pelo espaço uma extensa cauda luminosa, como se fosse um
cometa.
A luminescência dos anteparos defensivos
se extinguira. A única avaria visível agora era o pólo inferior em brasa.
Deringhouse chamou desesperadamente Rhodan
e os outros tripulantes a bordo da Good Hope, porém não obteve resposta alguma.
Só lhe restava acompanhar a pobre nave ferida em sua trajetória de fuga
forçada. Muito adiante o supergigante esférico deslizava pela escuridão do
espaço, com os torretes armados espalhando destruição. Estava transformando as
semi-organizadas linhas ferrônias num confuso amontoado de vultos fugitivos, dominados
pelo pânico total. O número das naves ovóides reduzia-se aceleradamente sob o
impacto dos tremendos golpes desferidos por um atacante de poder ofensivo infinitamente
superior.
Era um golpe fatal para os ferrônios.
Pálido e desfeito, Deringhouse tinha os olhos fixos nas telas de seu caça. A
Good Hope corria em direção do nono planeta, com a avaria mortal em seu casco
brilhantemente rubra.
— Acho que eles sobreviveram ao tiro! —
disse de repente uma voz no alto-falante do telecomunicador de bordo do caça.
Era o capitão Klein, no segundo aparelho. — Aguardemos, está bem? Foi apenas um
tiro de raspão. Se for preciso, posso tentar engatar no canal de lançamento
superior. Eles voam apenas com 30% da velocidade da luz.
— Tiro de raspão?! — exclamou Deringhouse,
com um riso sarcástico. — De onde será que surgiu o diabo daquele monstro
espacial? Apareceu de repente... Ande, acerquemo-nos deles. Vão direto para o
planeta nove!
Reduzida a dois propulsores em
funcionamento precário, a Good Hope precisou de oito horas para completar a
viagem. Poderia ter desenvolvido velocidade maior caso os neutralizadores de
inércia estivessem funcionando; mas estavam seriamente avariados. E com eles
fora de ação, a desaceleração tinha que se limitar à capacidade de absorção dos
projetores, cujo funcionamento era intermitente.
A penetração na densa atmosfera do nono
planeta assemelhou-se a um mergulho do alto na água. Rhodan viu-se obrigado a
submeter a tripulação a uma desaceleração de gravidade extremamente severa,
pois as forças de inércia geradas não podiam mais ser absorvidas. Também tivera
que ligar rapidamente a carga máxima de retropropulsão, pois ao primeiro
contato com as moléculas de ar deixaram de funcionar os projetores de campos de
absorção.
Portanto a nave auxiliar se precipitou
através das massas de ar cada vez mais densas como um meteoro em brasa. Caso os
aparelhos antigravitacionais tivessem recusado igualmente funcionar, a Good
Hope se espatifaria contra o solo do planeta. No entanto, com a nave quase
desprovida de peso, foi possível equilibrá-la ainda, se bem que a aterrissagem
não fosse das mais suaves.
Todas as instalações da metade inferior da
nave haviam sido destruídas. Seria impraticável fazer reparos durante a morosa
operação de frenagem; além da elevada temperatura reinante na zona avariada,
surgira nela uma mortal radiação gama.
Numa fração de segundo, a Good Hope fora
transformada num destroço indefeso. Já não havia condições para pensar em vôos
mais rápidos do que a luz. Os hiperconversores, essenciais para a formação dos
campos estruturais de defesa, haviam sido totalmente destruídos. O grupo de
reparos, protegido por trajes espaciais, só encontrou montinhos de metal
fundido por ocasião da vistoria feita posteriormente. Os demais aparelhos
poderiam ser consertados, mas aquele equipamento essencial estava
definitivamente perdido.
Antes de mergulhar na atmosfera, sob a
orientação de Chaktor, Perry Rhodan tomara consciência do irreversível fato de
que se tornara prisioneiro do sistema Vega.
Após a descida no espaçoporto da cidade
principal do nono planeta, foram recebidos com bastante frieza pelos oficiais ferrônios.
Estes limitaram-se a providenciar a retirada da nave severamente avariada da
pista de aterrissagem desprotegida. Agora a Good Hope repousava num hangar
subterrâneo, estalando em todas as juntas enquanto se processava gradualmente o
resfriamento da massa superaquecida. O recinto não apresentava nada de
extraordinário; em qualquer ponto da Terra se encontraria um semelhante.
Klein e Deringhouse tinham aterrissado sem
maiores problemas. Rhodan enviara-os novamente ao espaço, a fim de prestar
apoio à frota ferrônia em sua precipitada retirada e escoltá-la até a volta ao
oitavo planeta. Aquela pequena colaboração em prol da defesa comum lhe parecera
imprescindível.
Quando Deringhouse anunciou pelo
hiperrádio que a gigantesca nave aparecida de surpresa se juntara às fileiras
dos tópsidas, um sorriso frio surgiu nos lábios de Rhodan. Dali em diante,
pouco falou. Encontravam-se num mundo alheio, entre seres estranhos, que
pareciam encarar o desastre ocorrido com a Good Hope com sentimentos
contraditórios.
A análise psicológica da situação efetuada
pelo Dr. Haggard fora quase desnecessária. Mesmo sem ela, Rhodan sabia que o
vivo entusiasmo inicial da tripulação por ele, e a confiança no poder ofensivo
da Good Hope tinham diminuído consideravelmente.
Chaktor, o ferrônio resgatado do vácuo,
ocupava passivamente uma poltrona na cabina de controle. Bell e uma equipe de
técnicos tentavam recuperar pelo menos a aparelhagem de controle mais
importante. Crest parecia ter desmoronado interiormente; matinha-se num canto,
silencioso e apático. Thora, ainda mais suscetível do que o sábio arcônida,
debatia-se contra um incipiente colapso nervoso.
Os mutantes circulavam, procurando avaliar
as circunstâncias. Ralf Marten, o homem dotado das qualidades mais peculiares
em todo o grupo, rondava ã sua
maneira, por perto e por longe: há mais de uma hora não se movia da poltrona,
rígido e hirto como se estivesse em transe. Periodicamente relatava, em voz
impessoal, o que observara através dos olhos de algum chefe ferrônio, ou o que
escutara pelos ouvidos dele. Pelo que informava, os habitantes do planeta não
nutriam intenções malévolas contra os visitantes humanos. O sentimento
predominante era de profunda desilusão, diante do súbito fim das esperanças
despertadas pelo aparecimento da espaçonave terrena. Os telepatas confirmaram
as observações de Ralf Marten.
Diante disso. Rhodan deu ordem para
recolher os guerreiros-robôs, prontos para entrar em ação, ao compartimento de
carga da nave. Reginald Bell emergiu da estreita portinhola das escadas de
emergência. Os elevadores antigravitacionais já não funcionavam. Resmungando
baixinho, ele se desembaraçou do pesado traje protetor e estendeu a mão para um
cigarro. Entrementes, as pessoas presentes na cabina de comando tinham
adquirido a impressão de que Rhodan se transformara de repente num calado
sonhador. Fazia horas que não pronunciava uma só palavra.
Mas ergueu a cabeça com a chegada de Bell.
Vagarosamente ele se levantou do assento que ocupava. Os olhares dos dois
homens se cruzaram.
— E agora?
As palavras ficaram no ar, carregadas de
inquietação.
Bell deu de ombros. Esmagou o cigarro
recém-aceso sob a sola do sapato.
— Fim da linha para nós! — declarou, sem o
menor traço de emoção no rosto. — Aquele raio energético da supernave acabou
com a Good Hope. Começo a compreender agora as contínuas alusões de Crest,
classificando nosso veículo de nave auxiliar. Não passava de porcaria diante de
uma nave de guerra autêntica, apesar de nos julgarmos possuidores de uma arma
poderosa.
— Foi suficiente para revidar o ataque das
naves tópsidas!
— Certo, mas faríamos feio diante de um
cruzador arcônida. E quando se topa de cara com uma supernave que lança raios
energéticos de diâmetro quase superior ao da Good Hope, então...
Bell interrompeu-se, com uma risada seca.
Depois concluiu:
— Pois é, que mais posso dizer? Estamos
encalacrados. Foi quase um milagre conseguirmos aterrissar mais ou menos
inteiros. Os pulsopropulsores precisam de completa revisão. Viagens
interestelares estão fora de cogitação. E como os ferrônios desconhecem os princípios
envolvidos no sistema, nosso destino é ficar em Vega até o fim de nossos dias.
Em resumo: a pior calamidade jamais sofrida até hoje pela Terceira Potência. A
central de força pode ser reparada. Portanto poderemos pelo menos notificar a
Terra. Daqui por diante, vai depender do coronel Freyt mantê-la forte e unida.
Se a sorte nos favorecer de maneira extraordinária, nosso pessoal talvez venha
nos buscar daqui a uns dois anos, quando concluírem a construção das novas
espaçonaves.
— A idéia é sedutora, mas improvável —
corrigiu Rhodan, friamente. — Lembre-se de que as novas naves jamais levantarão
vôo sem nossos conhecimentos especializados.
— Intensa comoção em área próxima! —
avisou Betty Toufry, a telepata. De olhos fechados, ela continuou a dizer: —
Grande consternação entre os ferrônios. Pensamentos confusos se cruzando. Um
alto dignitário abandonou seu povo.
— Marten, tente introduzir-se na mente de
um ferrônio bem informado. De preferência um dos que se encontram no local que
Betty estuda. Ajude-o, menina! Marshall, entre no circuito também.
Entre Rhodan e Bell surgiu uma aura
luminosa, que deu lugar ao aparecimento do teleportador Tako Kakuta. O frágil
rosto infantil mostrava evidentes sinais de cansaço. Desde a aterrissagem o
rapaz estivera constantemente em movimento.
— Caos em todo o planeta! — anunciou ele.
— Mas parece que os tópsidas desistiram de um ataque direto; colocaram apenas
algumas naves de observação em órbitas bem afastadas. O planeta é jovem, o
clima terrestre, o povoamento escasso. Há oceanos, montanhas e planícies muito
semelhantes às da Terra. Esta cidade se chama Chuguinor, a única concentração
populacional mais densa do planeta, que leva o nome de Rofus. É aqui que fica o
espaçoporto principal, só que não vi muitas naves ferrônias. Devem estar todas
no espaço. Apenas uma ou outra unidade avariada ficou em terra. Novas ordens,
chefe?
— Descanse um pouco, Tako — murmurou
Rhodan, absorto. — Você parece fatigado. Por enquanto pouco nos interessa o
aspecto da paisagem. Este planeta não deve diferir muito de dez mil outros da
mesma espécie. Interessante... aos poucos começo a raciocinar em termos
cósmicos. — Rhodan riu, depois acrescentou, com um sorriso: — Nada de esforços
desnecessários agora, Tako! Em breve vou ter que destacá-lo para uma missão bem
difícil.
Alertado pelo tom da voz de Rhodan, Bell
fitou-o, intrigado. Depois comentou:
— Você anda tramando alguma coisa, não é?
O hipertransmissor trazia uma mensagem do
major Deringhouse, cuja.face se tornou visível na tela. Foi um bom pretexto
para poupar Rhodan de responder.
— Estamos perto do planeta principal — informou
Deringhouse. — A derradeira linha de defesa dos ferrônios está sendo
destroçada. Abatemos sete naves tópsidas, mas agora a grandona anda olhando
para o nosso lado. Parece não estar gostando de nossa interferência. Que faço,
chefe? O gigante vem em minha direção. Estou com ele na mira. Ataco?
—Você ficou louco? — gritou Rhodan.
— Trate é de dar o fora, e depressa,
ouviu? Com toda a potência das máquinas! Tática de esquivamento e cuidado para
não se deixar espetar pelas setas de fogo do gigante. Ainda vou precisar de
você, rapaz! Volte imediatamente!
— Chefe, os ferrônios não vão gostar! Cada
caça nosso vale por cem das naves ovóides. Por incrível que pareça, acabamos
sendo a espinha dorsal da frota ferrônia.
— Caia fora, já disse! Klein também! Se a
nave de guerra não for no encalço de vocês, podem voltar para a luta. Mas por
enquanto tomem distância. Que tal a cena em torno do oitavo planeta?
— Os tópsidas começam a aterrissar. Sem
lançar grandes ataques. Contentam-se com o bombardeio de locais determinados;
centros militares, provavelmente. Estão poupando as cidades. Posso contar nos
dedos as explosões nucleares lá embaixo. E nem são das grandes.
Rhodan desligou, comentando:
— Bem que acertei quando preferi não
pousar em Ferrol. Aquilo virou um inferno. As lagartixas vão aterrissar,
instalar-se na área e dar início à conquista dos planetas-colônias vizinhos.
Por enquanto estamos seguros aqui. Que tem ele?
Rhodan percebera que Chaktor dialogava
diante do videofone comum com um companheiro de raça.
Bell prestou atenção. Crest mantinha-se na
mesma atitude de apática resignação, desinteressado do que acontecia.
Ninguém aguardava novidades naquele
momento. Deringhouse anunciou alegremente que a nave gigante se desinteressara
de vez pelos caças, aprestando-se, pelo jeito, para aterrissar no oitavo
planeta.
— Não ganhamos em velocidade, mas somos
mais ágeis do que ela — continuou a informar Deringhouse.
— Crest!
O chamado foi tão enérgico que o arcônida
se ergueu num pulo. Viu-se diante de um homem de expressão dura e decidida.
— Antes que torne a mergulhar novamente na
letargia, quero uma curta informação. Tem certeza de que a nave gigante é um
vaso de guerra de sua raça?
— Claro! Que outra espaçonave seria capaz
de nos derrotar?
— É pouco provável que arcônidas
participem de uma invasão promovida por seres não-humanos. Portanto, a nave
deve ter tripulação tópsida. Sabe me dizer como é que esses indivíduos
conseguiram se apoderar de uma das naves mais poderosas da frota imperial?
Crest deu de ombros, desanimado, sem
encontrar resposta. Thora fitava com olhar ausente a parede mais próxima.
— Existem duas possibilidades — continuou
Rhodan. — Ou a nave foi entregue aos tópsidas por oficiais arcônidas decadentes,
indiferentes ao destino de sua raça, ou foi simplesmente capturada pelo
inimigo. O que não seria de admirar, diante da inigualável passividade e apatia
de seu povo. Em qualquer dos casos, porém, pergunto-me como é que os tópsidas
conseguem manejar tão bem o complexo aparelhamento de uma espaçonave de guerra
arcônida. Talvez as duas hipóteses sejam válidas: arcônidas cativos passaram
seus conhecimentos aos tópsidas.
— Isto é um insulto! — protestou Thora.
— Apenas repetição do que ocorreu conosco.
Vocês estavam em situação difícil e compartilharam sua ciência conosco. Só que
caíram nas mãos de seres humanos e não de tópsidas. Nisto reside a diferença.
Thora, peço que inicie imediatamente o treinamento dos meus homens!
Ela ergueu a cabeça, surpresa. Rhodan
encaminhou-se para o ferrônio, que prosseguia em sua animada palestra diante do
videofone. Na tela, além do rosto de seu interlocutor, via-se um vasto recinto
abobadado.
— Que treinamento? — indagou a arcônida,
com evidente incompreensão. O interesse de Crest parecia despertar, se bem que
sua testa se enrugasse de preocupação. Bell sorriu. Conhecia a fundo seu
ex-capitão. Para ele, a palavra impossível não existia.
— Perdi sete homens na batalha. Portanto
você, que já comandou um cruzador de guerra vai se encarregar de instruir os
quarenta e três sobreviventes no manejo dos principais instrumentos de uma
supernave bélica. Ou ela pode ser controlada por um só homem?
— Nunca! Seriam imprescindíveis pelo menos
trezentos homens especialmente treinados, apesar da automatização quase total.
Perry, você enlouqueceu! Não pode...
— Posso e não vai demorar muito! —
interrompeu Rhodan, secamente. — Ou acha que pretendo passar o resto de meus
dias num planeta de Vega? As naves ferrônias não ultrapassam a velocidade da
luz; portanto não me interessam. E jamais entenderemos o funcionamento daqueles
trambolhos tópsidas. Logo, só nos resta a opção de pensar na supernave
arcônida, pelo menos seu manejo nos deve ser mais familiar. Vamos abocanhar o
naco maior, entendeu? Inicie o treinamento imediatamente. Obrigado!
O chefe falara. Os presentes trocaram
olhares significativos. Os dois arcônidas ainda não haviam se recuperado da
surpresa. Por fim, Thora murmurou:
— Já lhe ocorreu que a nave de guerra está
aterrissando no oitavo planeta?
Rhodan sorriu de leve.
— Estou começando a me preocupar com este
aspecto do problema — disse, mansamente. — Já olhou para esta tela? Observe
aqueles imensos aparelhos em formato de coluna ligados a potentes cabos de
força. Deve estar lembrada de que Crest se referiu a algo semelhante a
transmissores de matéria, com os quais os ferrônios poderiam transladar
qualquer espécie de matéria. Pois bem, o que cintila naqueles campos
energéticos bem pode ser vida orgânica!
O zumbido surdo proveniente dos alto-falantes
chamou-lhe a atenção. Chaktor apontava excitado para a tela, gritando algumas
palavras para Betty Toufry. Ela traduziu sem demora:
— Vejo na mente dele que pensa numa pessoa
altamente colocada. Está se definindo... Dá ao dignitário o nome de Thort. Não
é um nome próprio, e sim um título.
Assim como rei ou imperador. Não, não é
bem isso... O Thort é o Senhor, o governante.
— Estão abandonando o barco que soçobra —
murmurou Rhodan, semicerrando os olhos. — Chegam mulheres e crianças, também.
Portanto, a família governante evacua a pátria ameaçada para vir refugiar-se
aqui. As coisas estão ficando interessantes. Que foi?
Chaktor dirigia-se a Rhodan, numa arenga
nervosa. Betty captou o sentido das palavras lendo a mente do ferrônio.
— O Thort quer conferenciar com você,
imediatamente. O comandante da frota ferrônia fez um relato completo há algumas
horas. O Thort está perfeitamente a par de nossa atuação. Sabe igualmente que
fomos alvejados. Não vai ter que perder tempo em explicações.
Rhodan engoliu em seco; depois pigarreou.
Bell foi menos reticente. Respirando fundo, opinou:
— Puxa, se o chefão em pessoa se digna
pisar num transmissor só para falar com você, estamos feitos! Essa gente é bem
superior ao gênero humano. Caso consigamos um entendimento com o Thort, o
futuro pode ser risonho. Nós...
— Em primeiro lugar, temos que voltar para
a Terra — interrompeu Rhodan, com sarcasmo. — No momento, precisamos manter a
aparência de superioridade. Aliás, não nos resta outra alternativa; temos que
poupar o coitado de uma tremenda desilusão. Parece que nós e a Good Hope
representamos o recurso derradeiro para a salvação deles. Além disso... — Rhodan
fez uma pausa para pensar, e continuou: — ...além disso, é muito fácil negociar
com oprimidos e refugiados. Costumam ser acessíveis a argumentos lógicos.
Prefiro tratar com o Thort aqui na cabina de comando. Eu me sentiria inseguro
demais lá fora. Bell, ligue a máquina de traduzir. Precisamos aprender o idioma
ferrônio. Crest pode nos dar uma mão com um breve hipnotreinamento. A memória
do aparelho já possui um bom estoque de vocábulos.
Rhodan fitou Chaktor que fremia de
reverente antecipação. Evidentemente este seria o primeiro encontro de sua vida
com o Thort.
— Vamos com calma, Perry! — observou Bell.
— Afinal, o homem domina todo um sistema planetário!
Rhodan aproximou-se do tradutor
automático. Chaktor seguiu-o, emocionado.
— Betty, diga que o comandante desta
espaçonave solicita a visita do Thort, uma vez que só aqui poderão ser
superadas as dificuldades de comunicação; o aparelho destinado a isso não é
portátil.
A telepata transmitiu o recado a Chaktor,
através da máquina; imediatamente, o ferrônio repetiu a mensagem no telecom, em
seu próprio idioma. A confirmação levou apenas alguns segundos: sim, o Thort
viria. Na tela do vídeo surgiu um ferrônio de meia-idade.
— É Lossos, o mais eminente cientista
ferrônio — informou Betty.
Rhodan murmurou algumas palavras no
minúsculo transmissor em seu pulso. No compartimento de carga da nave, os
guerreiros-robô despertaram. Com passos pesados, mas surpreendentemente
rápidos, marcharam pela ampla rampa de descarga para o ar livre.
— Não faça bobagens! — cochichou Bell,
preocupado. — Para que isso?
— Para impressionar, mais nada! —
respondeu Rhodan. — Marshall, seu uniforme é bastante decorativo. Sabe berrar?
— Como um touro, chefe, se for preciso.
— Pois então, poste-se no alto da rampa e
comande os robôs. Quero cerimônias militares em grande estilo, apesar de
achá-las ridículas há alguns dias. O Thort deve ser recebido com todas as
honras.
O mutante desapareceu.
— Será que vai dar certo? — indagou Thora,
nervosa. — O que vai dizer ao Thort? Não se esqueça de que lida com uma raça
superiormente civilizada.
— Sei disso! — concordou Rhodan, com
franqueza. — Os conhecimentos deles são superiores aos dos homens, exceto nós
mesmos. Peço-lhe que não me contradiga enquanto falo com eles. Para os
ferrônios, somos todos arcônidas, vindo de um planeta a trinta e quatro mil
anos-luz daqui...
— Como quiser — disse ela, ironicamente.
Rhodan ajustou seu uniforme. Os dois
guerreiros-robôs de pé na cabina de comando receberam instruções especiais. As
luzes de controle dos poderosos geradores de pulsos se acenderam. As máquinas
estavam prontas para funcionar.
— Tudo deve ter a aparência de estar em
perfeita ordem — disse Rhodan. — Bell, o tradutor automático está ligado?
Obrigado! Betty, sonde o conteúdo mental do governante ferrônio. Gostaria de
saber o que se oculta por trás de seus gestos e palavras.
A menina aquiesceu, com um leve sorriso
lhe brincando nos lábios.
Do lado de fora ouviu-se um brado sonoro:
— A-pre-sen-taaar armas! Realmente,
Marshall berrava como se quisesse alertar o mundo inteiro contra um ataque
inesperado.
Seguiu-se um rumor surdo. Os braços
armados dos robôs perfilados haviam se erguido simultaneamente, atendendo à
ordem dada.
O ferrônio idoso estacou. Os oficiais de
sua comitiva demonstravam profunda admiração. A figura de Marshall surgiu nas
telas. Em rígida posição de sentido, prestando uma continência que arrancaria
louvores até do general Pounder, caso estivesse presente. O Thort agradeceu,
com as mãos estendidas para a frente. Era um belo quadro.
— Senhores! Não esqueçam por um só
instante que representamos o gênero humano. Portem-se com urbanidade, mas com
dignidade. Evitem dar a impressão de se sentirem superiores. Bell, você se
encarrega das formalidades de recepção e introdução.
— E como você quer que eu o apresente? —
gemeu Bell, transpirando nervosamente.
— Como presidente da Terceira Potência,
idêntica com o Grande Império. Para o Thort, o título de presidente vale tanto
como qualquer outro. Deve achá-lo tão estranho quanto a denominação Thort é
para nós. Aí vem ele!
— Pretensioso! — murmurou Thora. Mas Crest
sorriu, compreensivo. O eminente sábio arcônida adivinhara as intenções de
Rhodan.
Este postou-se imóvel ao lado do aparelho
tradutor. Quando a saudação de Bell, em idioma ferrônio, ecoou através do
alto-falante, o Thort recebeu o segundo choque de surpresa. Evidentemente
atônito, fitou a extraordinária máquina. Rhodan sorriu-lhe com cordialidade.
Sua saudação foi respeitosa, porém ligeiramente mais condescendente do que a de
Bell.
Depois os dois representantes de culturas
tão diversas se viram frente a frente. O Thort, idoso, baixo e acabrunhado;
Perry Rhodan, alto, esbelto, senhor de si da cabeça aos pés.
— Seja bem-vindo, Senhor. Tome lugar, por
favor.
Os dois guerreiros-robôs postaram-se
silenciosamente ao lado do comandante, com as bocas de suas armas apontando
para o alto. Após examiná-los demoradamente, o governante ferrônio deixou-se
cair numa das poltronas. Rhodan expressou ainda algumas frases de cortesia, por
meio do aparelho automático.
O Thort aguardou a tradução. Sua resposta
foi breve e surpreendente. Parecia compreender o que se ocultava por trás daquelas
demonstrações e aceitava plenamente as implicações nelas contidas. Tinha
consciência de estar diante de um ser totalmente estranho, conforme ocorria
igualmente com Rhodan. Mas sabia que os humanos tinham corrido em socorro dos ferrônios
durante a luta.
— Sua espaçonave está seriamente avariada
— dizia o aparelho, traduzindo as palavras do Thort. — E o senhor sabe que, sem
sua ajuda, nós estaremos perdidos. Portanto, em que posso ajudá-lo? Meu império
está à sua disposição. A nave pode ser reparada?
Palavras claras e explícitas, que não
causaram estranheza a Rhodan. O Thort não era um fraco e sim um pensador
lúcido. A resposta ainda mais breve e sucinta correspondia ao caráter de
Rhodan. A situação exigia a mais absoluta franqueza.
Mas antes que Rhodan pudesse responder, o
hiperrádio trouxe a notícia de que a imensa nave esférica tinha aterrissado no
oitavo planeta. O major Deringhouse aguardava novas ordens. Rhodan mandou-o
prosseguir na missão de observação, pedindo ao mesmo tempo que procurasse obter
boas telefotos da nave. Depois desligou.
— Eram os pilotos daquelas naves
minúsculas? — indagou um dos altos oficiais, excitado. Rhodan confirmou.
— Mas como é que conseguem comunicar-se
com tal rapidez?
— Distância não tem significação para nós.
Assim como viajamos com velocidade superior à da luz, dominamos a comunicação
audiovisual hiperrápida.
Ao ser divulgada a tradução, o oficial
ferrônio olhou em torno, triunfante. Aparentemente já fizera afirmações naquele
sentido antes, deparando com a incredulidade de seus colegas. Rhodan bem podia
imaginar o que se passava no íntimo daquela gente. Dali por diante, os oficiais
ferrônios guardaram respeitoso silêncio. Apenas os olhos atentos do Thort
examinavam tudo com a maior atenção.
— Com sua licença, posso saber se chegou
até aqui por meio de um transmissor de matéria? — perguntou Rhodan.
Percebeu uma reação estranha no regente de
pele azul.
— Claro! Fui forçado a deixar o oitavo
mundo. Que sabe sobre os transmissores? Conhece o princípio que os faz funcionar?
É o maior segredo do universo!
— Nem tanto! — replicou Rhodan,
suavemente, porém sem acrescentar mais nenhum comentário. A perturbação do
Thort já era suficiente. — Oferece-me sua assistência, senhor. Sim, minha nave
não tem mais condições de vôo. Não pode ser reparada com os recursos de que
dispõe. O tiro da espaçonave bélica que surgiu tão inesperadamente foi fatal.
— Quer dizer que sou obrigado a renunciar
ao seu auxílio?
Rhodan viu a face azul entristecer-se. Nos
olhos mortiços refletia-se o desespero.
— De maneira nenhuma. Seria necessário
apenas que me cedesse sua estação transmissora de matéria. Acabei de saber que
a nave gigante pousou no oitavo planeta. Preciso de uma oportunidade para ir
até lá e os transmissores resolverão este problema. Caso não possa utilizá-lo
para transportar meus homens, serei obrigado a recorrer à alternativa mais
trabalhosa de usar meus dois caças.
O Thort parecia assombrado. Porém
concordou imediatamente. No entanto, ainda alimentava uma dúvida:
— Que pretende fazer lá? O planeta está
ocupado pelos inimigos.
— Vou apoderar-me da nave de guerra!
Depois disso faremos novos planos.
Rhodan sorria.
— Conforme já disse, esta pequena nave já
não me serve. Era apropriada para a curta expedição exploratória que
empreendíamos. Caso eu tivesse sabido que se processava uma invasão por aqui,
teria vindo com uma frota inteira. Lamento...
Bell dominava-se a custo. Os ferrônios
faziam perguntas excitadas. Rhodan explicou detalhadamente quem eram os
tópsidas, de onde vinham e qual era sua natureza. O Thort prometeu toda a
assistência possível. Rhodan recebeu permissão para usar os transmissores.
Depois veio a pergunta embaraçosa:
— Vai ser capaz de manejar a nave gigante?
— Trata-se de um vaso de guerra de meu
povo, senhor! — disse Rhodan, tranqüilamente. A reação foi violenta. Os
oficiais imobilizaram-se em respeitoso silêncio. Apenas o Thort não se alterou.
Sabia raciocinar.
— Mas não tripulado por gente de sua raça,
não é verdade?
— Claro que não. Não imagino como foi
parar nas mãos dos tópsidas. Portanto, necessito urgentemente de um tópsida
vivo, custe o que custar. Existem prisioneiros?
Não, os ferrônios não tinham conseguido
capturar um só tópsida vivo. No entanto, um oficial mais jovem informou ter
visto um bote salva-vidas tópsida destacar-se de uma das naves abatidas. Havia
descido na região do pólo norte do planeta. Os soldados ferrônios destacados
para aprisionar a tripulação não conseguiam aproximar-se pois eram repelidos
com armas desconhecidas.
Rhodan não hesitou um momento.
— Senhor, mande levar dois de meus homens
ao local, o mais rápido possível e dê ordem de retirada às suas próprias
tropas. Preciso daqueles sujeitos vivos!
— Eles possuem armas terríveis! — objetou
Lossos, o cientista ferrônio.
— As nossas são melhores. Tome as
providências necessárias, Senhor, e ponha à disposição de meu pessoal sua
aeronave mais veloz, ou uma pequena nave espacial. Não podemos perder tempo.
Enquanto o Thort agia, Rhodan pôs-se a
examinar com atenção os membros presentes de sua tripulação. Por fim decidiu:
— Tako Kakuta e Betty, aprontem-se.
Equipem-se com psicorradiadores e convençam aqueles tópsidas a sair de suas
tocas como meninos obedientes. Aguardo aqui. Quero de preferência os oficiais.
Deve haver alguns entre eles. Tako, se for preciso, salte para a retaguarda dos
tópsidas. E procurem voltar inteiros!
Os mutantes aprontaram-se. O japonês
sorria, Betty era a calma personificada.
— Como? É com estas pessoas que pretende
dominar uma tripulação fortemente armada?! — exclamou o Thort, com o rosto azul
se tingindo de sombras escuras. Pela primeira vez Rhodan o via descontrolado.
— São mais do que suficientes. Dispomos de
poderes que o senhor desconhece. O transporte está pronto?
Tako retirou-se, piscando um olho. O Thort
tornou a sentar-se, calado.
— Isso ultrapassa minha compreensão —
murmurou ele no microfone do aparelho de tradução. — Quem são vocês? De onde
vêm? Infundem temor com suas capacidades aparentemente ilimitadas...
Rhodan forneceu as explicações
necessárias, porém sem aludir à Terra. Para os ferrônios, eles eram e
continuariam a passar por arcônidas. As palavras de Rhodan foram aceitas sem a
menor sombra de dúvida.
Ele procurou aproveitar o período de
espera. Gradualmente estabeleceu um excelente relacionamento com o Thort, cujo
cargo não era hereditário, conforme depreendeu da conversa. Após sua morte, um
novo Thort seria eleito entre os homens mais capazes do reino. Intrigas
políticas pareciam ser coisa desconhecida. Rhodan entrevia um futuro brilhante
para aquela raça mas percebia que faltava algo indefinível para concretizá-lo.
Duas horas mais tarde, segundo o relógio
de bordo, Tako manifestou-se por meio do microtransmissor que levara.
— Conseguimos, chefe! Cinco tópsidas
vivos, sendo que dois deles são oficiais. Foi brincadeira. Betty localizou-os e
eu saltei para perto deles. Reagiram logo aos psicorradiadores. Dentro de meia
hora estaremos de volta. A aeronave é bem veloz.
— Vamos ver o que acontecerá agora — disse
Rhodan, em tom neutro.
O Thort estremeceu. De repente via aquele
homem com outros olhos. Toda a urbanidade desaparecera. Com um sorriso apenas
perceptível, o governante observou:
— Começo a compreender que não passo de um
insignificante funcionário de província diante de sua elevada posição. Disponha
de mim, mas só lhe peço que ajude meu povo.
Nunca em toda a sua vida Rhodan sentira
tão embaraçosa comoção. Bell mordeu os lábios e o Dr. Haggard mal disfarçava o
constrangimento.
— Se há mesmo oficiais tópsidas entre os
prisioneiros, devem falar o idioma intercosmo, conhecido em todos os sistemas
do Grande Império — disse Crest. — Todo oficial tópsida é obrigado a
conhecê-lo.
Momentos após, os prisioneiros foram
introduzidos, completamente submissos à vontade do mutante Kakuta. O profundo
efeito pós-hipnótico do raio psíquico fazia dos estranhos obedientes autômatos.
Com uma exclamação de susto, o Thort
ergueu-se da poltrona. Nunca vira um tópsida de perto e os ferrônios ignoravam
a natureza de seus agressores.
Instintivamente, os oficiais levaram as
mãos às suas armas. Eram pistolas de raios, altamente eficientes: seu
funcionamento baseava-se em quanta luminosos
de alta concentração. As passivas criaturas que penetravam na cabina de comando
viram-se diante de uma bateria de bocais finos como agulhas, até que Rhodan disse,
com um suspiro nervoso:
— Por favor, baixem essas armas! Poderiam
precipitar um acidente. Seus homens estão preocupados, senhor. Diga-lhes que eu
me responsabilizo por sua segurança.
O Thort transmitiu as ordens necessárias.
As pequenas pistolas de raios foram recolocadas nos respectivos coldres.
O interrogatório foi realizado na cabina
de comando semidestruída. Os doutores Haggard e Manoli ausentaram-se
brevemente, a fim de irem buscar algum instrumental médico na enfermaria de
bordo.
Não havia a menor dúvida; aqueles seres
nada tinham de humanos! Percebia-se claramente que descendiam de répteis.
Rhodan examinou-os de cima a baixo. Vestiam uniformes justos, que acentuavam
ainda mais as linhas dos corpos altos e
delgados.
— Tako, mande o da esquerda tirar a roupa.
E depressinha! Marshall, sonde as mentes desses indivíduos.
Tako dirigiu o foco do psicoirradiador, em
leque bem aberto, para o tópsida colocado à esquerda do grupo. Com gestos
ágeis, ele começou a despir as peças da farda. Rhodan mordeu os lábios, a fim
de não deixar escapar um gemido, conforme sucedia com o regente ferrônio. Pela
primeira vez lhes era revelada a verdadeira natureza dos tópsidas. Os dois
médicos, que acabavam de retornar, complementariam as observações.
— Meu Deus! — suspirou o Dr. Haggard, com
a face congestionada. — Por isso eu não esperava!
— Diga-lhe que pode tornar a vestir-se —
ordenou Rhodan, com voz rouca. — Bell! Thora e Betty podem voltar à cabina. O
caso está resolvido. Tako, regule o radiador para bloco-hipnose. Transmita
ordem permanente para responderem com a verdade às nossas perguntas.
Enquanto Tako regulava o aparelho, Rhodan
lançou um último olhar perscrutador aos estranhos indivíduos. Apesar de
possuírem dois braços, duas pernas e andarem eretos, não eram humanóides.
Respiravam igualmente oxigênio, porém com isso acabava a semelhança com seres
humanos. A pele escamosa, marrom-escura, já constituía prova insofismável.
Também a constituição orgânica devia ser radicalmente diferente e Rhodan nem se
arriscava a conjeturar sobre seu sistema metabólico.
Os crânios achatados e calvos eram
nitidamente de répteis, com lábios finos como lâminas de faca e enormes olhos protuberantes,
de surpreendente mobilidade. A intensa luminosidade de Vega devia ser-lhes
bastante desconfortável.
Sua grande inteligência não ocultava o
fato de possuírem caráter frio e desumano, com conceitos radicalmente diversos
sobre tolerância, ética e moral. Compaixão e piedade eram sentimentos
inexistentes neles. No entanto, tinham suas próprias regras de conduta, que aos
olhos dos homens eram estranhas e até ridículas. Só com a maior cautela se poderia tratar com aqueles reptilóides
providos de seis dedos nos membros. Conforme Crest já observara anteriormente,
qualquer acordo ou tratado feito com eles não conservava a validade por muito
tempo.
Rhodan começou a interrogar um dos
oficiais. O prisioneiro respondeu em fluente intercosmo, o que dissipou
qualquer dúvida por ventura ainda existente quanto à sua real identidade. Após
algumas perguntas rotineiras, Rhodan foi ao âmago do problema:
— Declara que sua nave foi abatida por um
pequeno veículo arcônida nas proximidades do nono planeta. O senhor era o
comandante. Portanto, deve saber de onde veio aquela nave gigante arcônida, do
tipo Império, de modo tão inesperado. Como é que foi parar nas mãos dos
tópsidas? Quem são seus tripulantes? Há arcônidas a bordo?
— Foram mortos! — explicou o oficial, em
tom monótono.
Os enormes olhos mortiços pareciam não
enxergar, sob a influência constante do psicoirradiador.
— Capturamos a nave de guerra no planeta
Topsid III. Ela desceu lá
para se reabastecer com água potável. A tripulação dormia. Dominamos as
sentinelas com gás. Os arcônidas foram forçados a nos treinar. Aquela nave
representa o sustentáculo de nossa frota espacial.
As explicações vinham aos arrancos,
interrompidas por numerosas perguntas. Rhodan deu-se por satisfeito; guardas ferrônios
levaram os prisioneiros.
— Bem que gostaria de saber o que os levou
a atacar o sistema Vega. Mas esse sujeito parece não ter a menor idéia. O
almirante-chefe dos tópsidas é que deve saber. Como se chama?
— Crek-Orn — informou o cientista
arcônida. — Nome bastante conhecido; o homem está em vias de tornar-se uma
personalidade importante no reino tópsida. Seria bom ficar de olho nele.
Assim que os tópsidas saíram, Rhodan
entrou imediatamente em contato radiofônico com o major Deringhouse. Os dois
caças já rumavam para o nono planeta.
O Thort acompanhava atentamente o diálogo.
— Calma em toda a frente — informou
Deringhouse. — A nave de guerra pousou num imenso espaçoporto. A invasão
encontra resistência quase nula. Em terra travam-se violentas lutas, mas os
ferrônios estão em desvantagem. No setor do espaço em que me encontro, não há
sombra de naves inimigas. Concentraram-se exclusivamente sobre o mundo
principal. Cerca de cento e cinqüenta unidades da frota ferrônia, entre naves
grandes e pequenas, regressam conosco. Não podemos acelerar muito, senão ficam
para trás. Portanto, ainda temos um bom tempo de viagem. Estamos exaustos.
Deringhouse esperou a resposta de Rhodan,
que não tardou:
— Não espere pelas outras naves. Acelere o
mais que puder e venha logo. Os caças estão intactos?
— De ponta a ponta. Apenas Klein tem uns
arranhões na pintura externa, escapou por pouco de um tiro energético.
O sorriso de Deringhouse iluminava sua
face coberta de sardas. Acenou alegremente para o Thort, quando este se mostrou
na tela do caça. Rhodan sorriu imperceptivelmente e desligou.
— Meus homens estão prontos, senhor! —
disse ele ao Thort. — Ficar-lhe-ia muito grato se providenciasse a fim de que
sejam instruídos no uso dos transmissores.
O Thort respondeu:
— Vou ter que deixá-los agora. Mas logo
contarão com a assistência do engenheiro-chefe de uma fortaleza secreta do
deserto. Trata-se de fortificações subterrâneas, construídas na época em que os
diversos grupos de minha raça ainda viviam desunidos. Eu recomendaria o
transporte da nave avariada para esse local. Os transmissores daqui terão que
ser inativados, pois estão ligados diretamente ao meu palácio. Meus homens não
conseguirão defendê-lo por muito tempo, o que poderia ocasionar uma utilização
indesejável dos transmissores. Portanto, em hipótese alguma vocês poderiam usar
os daqui. A fortaleza no deserto possui equipamento similar, plenamente
utilizável. Vou tomar as providências necessárias imediatamente.
Com isso, o senhor supremo de um sistema
planetário inteiro se retirou.
— Bem, este caso está resolvido! —
exclamou Rhodan. — Crest, calcule onda e direção para um hiperchamado à Terra.
Vou ditar a mensagem ao codificador. Quero que seja enviada em freqüência muito
alta, com condensação máxima. E mande repeti-la várias vezes, pois o coronel
Freyt não poderá acusar o recebimento de modo algum sob risco de sermos
localizados. Temos que enviá-la ao acaso, esperando que seja devidamente
captada. Capriche nos cálculos, Crest!
Para a Good Hope iniciava-se um período de
repouso. Quando Rhodan se encaminhou para sua cabina foi interpelado por Bell,
que parecia fatigado.
— Não acha bom a gente se interessar de
perto por esses transmissores de matéria, chefe? Estou vindo do laboratório de
controle dos ditos cujos. Os troços são enormes e, pelo jeito, funcionam com
velocidade superior à da luz. A Humanidade poderia fazer bom uso deles...
Rhodan esforçou-se por sorrir. Bell
semicerrou os olhos, resignado, ao escutar o leve suspiro do comandante.
— Meu caro, até você dar pela coisa, eu já
agi. Por que acha que insisti tanto em usar as máquinas? Pois, em caso de
emergência, poderíamos voar para o oitavo planeta nos caças, espremendo quatro
pessoas em cada um, não é verdade? Mas é hora de dormir! Quando você tornar a
ver Vega surgir no firmamento amanhã, com todo o seu esplendor, terá com que se
ocupar.
Rhodan desapareceu. Reginald Bell
afastou-se, resmungando, em direção à sua própria cabina.
Não, Rhodan não era homem de deixar passar
despercebida qualquer coisa que, em última instância, pudesse beneficiar a
Humanidade. Porém mesmo um homem loucamente temerário como Bell era forçado a
confessar que não seria tarefa fácil apoderar-se da nave gigante arcônida. Mas
tinham que tentar! Antes de qualquer outro empreendimento, era preciso garantir
a retaguarda.
A noite caía sobre o nono planeta de Vega.
O espaço estava tão vazio como se jamais houvesse existido uma frota tópsida.
Só se via as estrelas, e elas eram eternas.
***
A Good
Hope não passa de um destroço incapaz de voltar ao sistema solar. Perry Rhodan
está consciente disso. Mas sabe que os tópsidas possuem uma espaçonave que
corresponderia aos planos que tem em mente.
Portanto,
Rhodan concebe algo incrivelmente arrojado e ataca de surpresa com seus
mutantes.
A próxima
aventura de Perry Rhodan intitula-se MUTANTES
EM AÇÃO.

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