quarta-feira, 17 de outubro de 2012

P-010 - Batalha no Setor Vega - K. H. Scheer [parte 3]


 De uma maneira geral, era preciso reconhecer que os ferrônios eram muito superiores aos homens em todos os sentidos. Jamais a Humanidade havia alcançado um estágio tão avançado. Porém ferrônio algum podia medir-se com a técnica superior dos arcônidas.
Assim que o ferrônio foi embarcado e quando seus processos mentais começaram a emergir da letargia da exaustão total, Rhodan comunicara pelo intercom a toda a tripulação:
— Ele está voltando a si. Os mutantes vão lançar as primeiras bases para a comunicação, por meio da telepatia. Ordeno que ninguém se refira ao planeta Terra. Não esqueçam que a localização de nosso mundo deve permanecer em absoluto segredo. Muita atenção neste particular, portanto! Para qualquer ser vivente, seja qual for seu nome ou aparência, nós somos arcônidas! A Good Hope é prova evidente dessa afirmação. Além disso, a aparência física com os arcônidas nos favorece. Risquem da memória, por enquanto, o fato de sermos terrestres. Esqueçam até onde fica a Terra! É tudo!
A ordem era clara e explícita. Com uma sensação de amargura, os dois arcônidas perceberam que Rhodan se preocupava apenas com seu mundo e com a Humanidade. A atitude poderia passar por egoísta. Mas a própria Thora foi obrigada a admitir, a contragosto, que a camuflagem era absolutamente necessária. Para ela, o súbito aparecimento da raça reptílica fora um golpe severo.
O instrumento especial, de funcionamento totalmente positrônico, era mais uma das maravilhas da técnica arcônida. Era o tradutor automático. Assim que registrou e classificou os primeiros sons da língua ferrônia, a comunicação se processou com facilidade.
Fazia três horas que o ferrônio tinha sido recolhido. Betty Toufry e John Marshall anotavam telepaticamente uma série de dados que eram fornecidos à máquina tradutora. Assim a tarefa era relativamente simples.
Crest e Thora, valendo-se do privilégio de possuir memória fotográfica, já começavam a falar aos poucos a língua ferrônia. Enquanto isso, a Good Hope continuava a descrever a ampla órbita em torno do décimo quarto planeta.
Perry Rhodan mantinha-se à parte do grupo empenhado na conversação, apesar de ser alvo constante dos olhares do estranho. Este parecia ter percebido que era aquele homem alto e magro quem dava as ordens.
Rhodan examinou-o atentamente. O ferrônio era de estatura relativamente baixa, porém robusto e de músculos poderosos. Ferrol, seu planeta nativo, possuía uma gravidade de 1,4 g. Portanto, o corpo atarracado não era de surpreender.
Braços e pernas eram do tipo humanóide; assim como a cabeça e a espessa cabeleira. Os olhos eram miúdos e afundados por trás de uma fronte fortemente abaulada. A boca era surpreendentemente pequena. A diferença mais flagrante com a raça humana residia na cor da pele, de um azul pálido, o que contrastava com os cabelos cor de fogo. Enfim, não se tratava de nenhum monstro. Devia haver, forçosamente, diferenças anatômicas, porém era mais difícil determinar o fato de imediato.
Atento ao som das palavras que não compreendia, Rhodan tentava analisar uma sensação indefinível que crescia dentro dele. Nada de concreto e perceptível; apenas uma vaga e distante noção de perigo iminente.
John Marshall acercou-se da poltrona do comandante. O olhar do ferrônio o seguiu. Quando Rhodan se voltou, o estranho empertigou-se, levando a mão direita ao peito. Rhodan acenou com a cabeça. O traje espacial do ferrônio era de excelente qualidade, tão bem acabado nos detalhes que permitia avaliar com precisão a adiantada técnica que o produzira. Para Rhodan, era um tanto melancólico constatar o quanto a Humanidade estava atrasada em relação àqueles seres. Não obstante, o ferrônio salvo demonstrava claramente sua convicção de encontrar-se diante de gente infinitamente superior ao seu povo.
— Que há? — indagou Rhodan. — Problemas? A expressão de seu rosto não me agrada.
O telepata mostrou um sorriso contrariado.
— Crest está enchendo o espírito do estranho com relatos fabulosos e mirabolantes acerca do poderio do Grande Império! — queixou-se Marshall.
— Sei disso. Foi ordem minha. Que mais?
— Ordem sua? Essa não! Também deu ordem para contornar todas as questões importantes e ficar perguntando insistentemente sobre o tal mundo da vida eterna? Há aspectos que me parecem muito mais merecedores de atenção no momento.
— Ele não desiste, não é? — murmurou Rhodan. — A comunicação funciona?
— Maravilhosamente bem. A máquina é fenomenal e Crest já formou um vocabulário bastante amplo.
— Vantagem da memória fotográfica... Que diz o ferrônio sobre a batalha?
John Marshall lançou um olhar ao desconhecido. Haggard acabava de administrar-lhe a segunda injeção, que o ferrônio suportou calmamente.
— Chama-se Chaktor e comandava uma pequena nave, destruída há cerca de vinte e quatro horas. Aqui, diante do décimo quarto planeta, ficava a primeira linha de defesa. A segunda está sendo dispersada no momento presente. A terceira fica em torno do planeta principal, o oitavo. Chaktor informou que as naves inimigas surgiram há uma semana, de surpresa. O pânico tomou conta de Ferrol. A frota espacial dos ferrônios está sendo totalmente aniquilada. O ferrônio implora freneticamente por ajuda, baseando-se no ilimitado exagero das palavras de Crest. Chefe, isso não me parece direito!
Marshall mordeu os lábios. Parecia estar muito perturbado.
— Que mais possuem os ferrônios? — perguntou Rhodan.
— Muito pouco. Não têm a menor noção de viagens interestelares. Daí o imenso respeito que nos devotam. Para Chaktor, você é um personagem miraculoso. Não possuem anteparos protetores de espécie alguma. Quando uma de suas naves é atingida pelos raios energéticos, está perdida. Dispõem de uma frota espacial muito numerosa, porém formada em sua maioria por naves comerciais, equipadas com armas de pequeno calibre. Não conhecem armas energéticas. Empregam principalmente projéteis-foguete dotados de cabeçotes atômicos que explodem por impacto; e são espetacularmente eficientes. Valeram-lhes brilhantes vitórias no começo da luta. Crest diz que os invasores tópsidas têm armas defensivas verdadeiramente desprezíveis. Seus anteparos protetores não valem nada. Chaktor confirmou isso. Mas os tópsidas aprenderam gradualmente a esquivar-se dos foguetes atômicos. Estes alcançam mal e mal 30% da velocidade da luz, e demoram a atingir o alvo. Sabendo disso, os tópsidas tomam medidas preventivas a tempo. Acertam, também, os projéteis ferrônios em vôo com seus raios energéticos, fazendo-os explodir muito antes de chegar ao destino. Chefe, nós devíamos...
Rhodan interrompeu-o com um gesto da mão.
— Um momento, John! Como é que os ferrônios possuem uma frota espacial tão vasta? Existem outros seres inteligentes por aqui?
— Só subdesenvolvidos. Os ferrônios povoaram, além de seu mundo principal, só os planetas sete e nove. Em especial este último. Respiram oxigênio, porém em temperatura superior à que nós estamos habituados. O oitavo deve ser bastante quente, mas suportaríamos viver no nono. O Ferrônio pede para ser deixado ali. O planeta se chama Rofus.
Rhodan agradeceu. Ouvira o suficiente. Olhou para Bell, pensativo; este se reclinava com aparente indiferença na poltrona ao lado.
— E então? Que lhe parece?
— Grato por indagar minha opinião! — resmungou Bell, com sarcasmo na voz. — Foi-se nosso plano de sumir sem mais nem menos, percebe, Perry? Enquanto as coisas não estiverem em ordem por aqui, a Terra corre perigo. Que representam os insignificantes vinte e sete anos-luz para os tópsidas? Acho melhor explorar um pouco esta zona, principalmente para conhecer os pontos fracos do adversário. Creio que podemos chegar a um entendimento satisfatório com os ferrônios. E proveitoso ao mesmo tempo... Possuem uma série de coisinhas de que a Humanidade poderia fazer bom uso. Gostei de seus métodos de produção e fabricação; técnica e acabamento de primeira. Não custa examiná-los mais de perto. Dificilmente correremos algum risco. A Good Hope sobrepuja as naves tópsidas tanto em velocidade como em poder ofensivo. E ainda nos resta o recurso de mergulhar no hiperespaço a qualquer instante, se for preciso.
Rhodan ergueu-se com ar meditativo.
— É, seu miolo ainda funciona... Era exatamente o que eu tencionava fazer. Localize o oitavo planeta e forneça os dados ao computador positrônico. Não quero perder tempo. Incomoda-me saber que o verdadeiro objetivo dos tópsidas era a Terra. Vamos olhar esses caras de perto. Dê as ordens necessárias.
Momentos após, Rhodan estava diante do estranho. Chaktor dobrou humildemente um joelho. Depois pôs-se a falar apressadamente. O tradutor automático dava a versão em linguagem humana.
Crest interrompeu, excitado:
— Constatei a existência de algumas contradições surpreendentes nesta gente! Possuem transmissores de matéria, coisa que só é possível mediante o conhecimento da matemática pentadimensional. No entanto, os ferrônios não têm a menor capacidade para construir tais aparelhos, que transportam corpos desmaterializados com a velocidade da luz. O que é indício evidente da existência de uma raça superior entre eles! Chaktor falou qualquer coisa sobre contato com entes superiores em época muito remota. Perry, você precisa ir até o planeta principal dos ferrônios! Estou convencido de que o mundo da vida eterna se encontra no sistema Vega. É de lá que procedem esses transmissores de matéria, tenho certeza!
— Bem que eles me interessariam! — disse Rhodan, secamente.
— O cavalo de batalha de sempre, não é, Perry? Tudo pelo bem da Humanidade... — interrompeu Thora com sarcasmo.
Rhodan voltou-se para Chaktor, cuja atitude era quase solene. Sentia uma impressão estranha. Há quatro anos, ele próprio era bem mais ignorante do que aquele comandante espacial ferrônio. Naquela ocasião, Rhodan seria nitidamente o inferior. Os olhos vermelhos de Thora zombavam. Parecia adivinhar o que ia pela mente do comandante.
— Vou conduzi-lo ao nono planeta de seu sistema — disse Rhodan no microfone da máquina de traduzir. — Pode providenciar que suas próprias naves não nos ataquem?
Chaktor aguardou a tradução. Depois a face achatada irradiou alegria. Novamente repetiu a embaraçosa genuflexão.
— Distância para o oitavo cerca de onze horas-luz! — informou Bell.
Chaktor confirmou a indicação, fazendo uso de símbolos já conhecidos pelo tradutor. O ferrônio olhava maravilhado para o pequeno aparelho. Pouco a pouco era levado a considerar aqueles homens como deuses. Depois sua resposta chegou. Sim, ele poderia transmitir o código adequado, caso lhe fornecessem um transmissor.
— Puxa, e agora? — exclamou Klein. — Que será que esses caras usam para transmitir?
— Mostre-lhe o funcionamento dos aparelhos terrestres, temos alguns deles instalados na nave. Talvez ele saiba como usar a onda curta normal. Garanto que não conhecem o sistema de hipertransmissão.
Três horas mais tarde, segundo o relógio de bordo, o aprendizado terminara. Chaktor não teve, aparentemente, dificuldade em entender o funcionamento do rádio terreno.
Betty Toufry, a menina telepata-, comunicou a Rhodan, com um sorriso disfarçadamente zombeteiro:
— Chaktor se pergunta em que monte de lixo vocês poderiam ter recolhido esse trambolho primitivo.
Thora explodiu numa sonora gargalhada. Rhodan fitou o estranho com ar atônito, enquanto Bell praguejava entre dentes:
— Que diabo! É o mais moderno, avançado e complexo transmissor jamais construído na Terra! E o sujeito vem me dizer que é um trambolho primitivo!
O capitão Klein disfarçou um sorriso, enquanto Rhodan, respirando fundo, procurava uma saída diplomática.
— Betty, diga-lhe que adquirimos o aparelho de uma tribo selvagem num mundo remoto, apenas por curiosidade. Nossa intenção era exibi-lo num museu.
O Doutor Haggard estava achando aquilo tudo engraçadíssimo.
Chaktor tomou conhecimento da resposta de Rhodan, o que o relegou novamente à anterior posição de inferioridade.
— Pílula amarga essa! — disse Rhodan. — Doutor, pare com essas risadas! Poderiam nos denunciar... E você, Thora, não me venha de novo com a perpétua acusação de que seríamos uns ignorantes sem sua preciosa técnica arcônida. Com o tempo isso satura, entendeu?
Rhodan ligou o sistema de radiocomunicação interna e postou-se diante do vídeo.
— Atenção! Do comandante a toda a tripulação: largada para uma curta transição de cerca de onze horas-luz. Que nos levará à área espacial entre o oitavo e o nono planeta deste sistema. Manter rigorosa prontidão de combate e não dar importância excessiva à ligeira sensação de dor. É possível que nos precipitemos bem no meio de uma violenta batalha. Fogo livre para todas as armas. Mostrem o que valemos. Major Deringhouse, de prontidão para ataque, junto com o capitão Klein. Vou ejetá-los no espaço assim que chegarmos. Ajustem os localizadores de contato dos caças aos sensores da Good Hope, para poderem nos reencontrar. Em caso de emergência, aterrissem em Rofus, o nono planeta. Chaktor anunciará nossa chegada. Verão uma cidade imensa na zona equatorial, a única do planeta, que é uma espécie de colônia dos ferrônios. Fim!
Dez minutos depois, a nave alcançava a velocidade exata da luz. O enorme mundo número quatorze ficou para trás. Não havia um só adversário à vista. O espaço interplanetário do sistema Vega parecia ter sido totalmente evacuado.





Se horas atrás tinham acreditado estar no meio de uma acirrada batalha espacial, agora se defrontavam com um verdadeiro inferno.
Os enervantes sinais dos detectores eram ininterruptos. O espaço todo estava repleto de naves. Mas não se tratava evidentemente de uma competição pacífica entre duas culturas de igual nível de civilização. E a nave subitamente surgida foi recebida com um chuveiro de cintilantes raios energéticos. Antes mesmo que Rhodan superasse a dor da transição, a Good Hope já se encontrava sob fogo cruzado.
Nos vídeos brilhava o nono planeta do sistema Vega. Pelo menos a transição de curta distância funcionara com a mais absoluta precisão. Mas bem que Rhodan teria preferido emergir no hiperespaço a alguns milhões de quilômetros dali. Mas talvez isso não viesse alterar basicamente a situação, pois a feroz batalha se desenrolara praticamente num plano. No entanto, as naves estavam espalhadas por uma área de alguns milhões de quilômetros quadrados.
Antes que o eco dos gritos de comando de Rhodan se apagasse, Bell já abria fogo contra o inimigo. Por entre o estrondoso trovejar dos raios energéticos acertando seus alvos, os torretes armados da Good Hope entraram em ação. A mira era controlada automaticamente. Todo o trabalho de Bell era conferir as coordenadas fornecidas pelos localizadores e calcar botões. Mais uma demonstração da eficiência da tecnologia arcônida.
Usando a força total dos propulsores, Rhodan arrancara a nave da área imediata do fogo cruzado dos azulados raios energéticos. Mais uma vez o superdimensionado anteparo de defesa provou ser imune a armas rotineiras, que não conseguiam nem rompê-lo, nem neutralizá-lo. Apenas as furiosas descargas não podiam ser evitadas.
Além do intenso efeito térmico, a violenta repercussão se transmitia ao casco externo da nave.
Pelo jeito, os tópsidas não possuíam armamento teledirigido mais veloz do que a luz, pois o campo de repulsão mecânico-gravitacional da Good Hope ainda não fora obrigado a entrar em ação. Ou então o inimigo preferia lutar exclusivamente com seus canhões energéticos. Quando o clamor estridente do último impacto diminuiu, ouvia-se o pipocar das armas arcônidas. Neste ponto, pelo menos a Good Hope estava muito melhor provida do que várias naves tópsidas somadas. Como nave auxiliar de um cruzador de pesquisa sempre exposto a riscos, o equipamento de defesa era suficientemente amplo para satisfazer até o mais exigente artilheiro.
John Marshall tomava conta dos detectores; Quando a primeira linha das naves cilíndricas atacantes ficou para trás da Good Hope, e os tiros de perseguição não conseguiam mais emparelhar com a nave mais rápida do que a luz, Marshall anunciou o aparecimento de novas unidades. Porém estavam mais espalhadas. Além disso, travavam luta com um infindável enxame de naves ovóides, no meio das quais as explosões se sucediam sem parar.
— Corrigir a mira! — gritou Rhodan no minúsculo microfone do radiotransmissor embutido no capacete. Já não havia condições para a comunicação normal diante da ensurdecedora barulheira reinante. — Temos que forçar passagem a qualquer custo, senão nunca nos livraremos desse inferno! Thora, dê uma mãozinha a Bell. Acione as bombas gravitacionais. Vejamos do que elas são capazes.
Bell espiou rapidamente para a sua esquerda, onde a mulher arcônida assumia o comando dos manipuladores de controle.
Bombas de gravidade”, pensou ele, com um ligeiro arrepio. “A mais poderosa arma criada pelos arcônidas.”
Na realidade, não se tratava de bombas na acepção usual do termo. Ao menos Bell achava impróprio dar o nome de bomba a um campo em espiral de energia estabilizada, projetada com a velocidade da luz. Campos que eram quanta energéticos extradimensionais, com a extraordinária capacidade de dissolver matéria comum, arrancando-a da estrutura curva do espaço.
Luzes vermelhas brilharam na tela de mira de Bell. O localizador automático detectara três alvos. Quando apertou os botões, os três pulsocanhões abriram fogo simultaneamente, sacudindo com violência a nave de ponta a ponta, por efeito da força de recuo dos tiros. Faixas roxas de energia se lançaram pela perpétua escuridão do espaço, com a velocidade exata da luz. Não deixavam ao adversário tempo para percebê-las. Antes que qualquer instrumento chegasse a acusar seu brilho, elas atingiam o alvo visado.
O inimigo ainda se encontrava a cerca de dois milhões de quilômetros de distância. Precisamente sete segundos após o disparo, viu-se um relampejar por entre as densas fileiras das naves tópsidas. Os impactos foram registrados pelos hipersensores antes que o brilho ofuscante das explosões se tornasse visível, sete segundos mais tarde.
John Marshall manejava agora os pesados projetores neutrônicos. Seu efeito só se tornava aparente quando se via a nave inimiga perder o rumo e vagar desarvorada no espaço, por falta de mãos nos controles. Pois os ultraconcentrados raios neutrônicos afetavam apenas a vida orgânica.
Thora lançou duas bombas gravitacionais. A tripulação acompanhou com o olhar o trajeto das tremeluzentes espirais, afundando nas trevas. Duas unidades inimigas desintegraram-se por entre ofuscantes explosões.
Rhodan nunca vira a bela e estranha mulher em tal estado. Absolutamente imóvel, ela se limitava a tocar com as pontas dos dedos os botões de controle das terríveis armas. Apenas nos olhos transparecia o fogo interior que a consumia. Sua educação inflexível vinha à tona naquele momento e ela agia de acordo com a máxima fundamental da dinastia arcônida soberana: quem quer que se oponha ao poder do Grande Império deve perecer.
— Eles devem ter percebido agora com quem lidam! — murmurou ela, com voz fria e impessoal. — Cabeças ocas! Vou acabar com eles antes que consigam fugir!
Rhodan gritou nova série de ordens. A trajetória em arco iniciada não podia ser alterada. A Good Hope ia ter que passar bem no meio das fileiras cada vez mais densas do adversário, a toda a velocidade.
— Deringhouse! Aprontar para ejeção! — berrou ele no radiofone. — Abra uma brecha nas fileiras, depois cubra nosso flanco. Fique perto de nós, entendido?
Deringhouse confirmou a ordem recebida. Jamais imaginara possíveis os acontecimentos que presenciava. Enquanto a Good Hope em pleno vôo mantinha o fogo e o decrescente bombardeio energético do inimigo totalmente confuso era neutralizado pelos anteparos de defesa, os dois caças com Deringhouse e Klein chisparam para fora dos tubos de lançamento. Já lançados com a velocidade da nave-mãe, ainda levavam a vantagem da mobilidade maior. Afastaram-se da Good Hope em ângulo agudo e segundos após os canhões fixos da popa despejaram fogo. Tratava-se de pulso-canhões de grosso calibre, ocupando com seu volume a maior parte do espaço dos pequenos aviões. A apenas dois segundos-luz das naves tópsidas, ambos os caças acertaram nos alvos pela primeira vez.
Depois a Good Hope emparelhou com eles e o grupo cruzou velozmente através de nuvens de fogo, que instantes atrás haviam sido pesadas astronaves.
Também desta vez precisaram apenas de alguns instantes para atravessar as cerradas filas inimigas. Todas as armas concentravam o fogo sobre a área que acabavam de cruzar. A tripulação sentiu-se invadida por incontrolável sensação de euforia, incrementada pelo excitado ferrônio, que saudava cada tiro com estridentes berros de alegria ou apoio.
Rhodan sabia dos riscos implícitos contidos naquela sensação de superconfidência. A situação poderia sofrer uma súbita reviravolta. O mutante Tako Kakuta devia ter lido seu pensamento. Arrancou o ferrônio de seu lugar diante das telas, empurrando-o para diante do equipamento tele-radiofônico pronto para funcionar. Rhodan manejava os controles com gestos rápidos e enérgicos. Os quatro propulsores em plena ação aumentavam ainda mais o fragor da fantástica batalha.
— Diga a ele que envie sua mensagem! — gritou Rhodan para Betty Toufry. — Depressa! As naves dos ferrônios começam a apontar na nossa frente. Meu Deus, como são lerdas! Vou desacelerar!
Enquanto a Good Hope reduzia sua velocidade igual à da luz com o máximo poder de repulsão, disponível, Chaktor começou a falar rapidamente no microfone. Ainda não era certo que o captassem imediatamente. Devido à desaceleração, produzia-se um fenômeno curioso: os raios energéticos das naves tópsidas, apesar de menos velozes do que a luz, ganhavam terreno agora. Aproximavam-se mais e mais da nave em processo de desaceleração constante.
Impossível pensar em manobras de esquivamento durante o processo de frenagem. Portanto, Rhodan recebeu com estóica tranqüilidade os dois impactos — o homem desprovido de nervos, o comandante que observava com calma férrea e não perdia um só detalhe.
A nave recomeçou a vibrar. Apesar da maior abertura do foco do raio, devido à distância percorrida, o impacto foi tremendo. Mas o destrutivo efeito térmico não chegou a alcançar o casco da nave. O pessoal da central de força comunicou uma sobrecarga passageira nos diversos reatores de corrente. O hipercampo de alta tensão devorava imensa quantidade de energia, que nem o aparelhamento arcônida estava em condições de fornecer.
— Não exagere! — gemeu Crest. — Lembre-se de que tem em mãos uma simples nave auxiliar e não um cruzador equipado com máquinas poderosas!
Rhodan teve que rir. Crest tinha conceitos muito peculiares sobre potência e capacidade destrutiva.
No rastro da Good Hope reinava a maior balbúrdia. Thora acionara também os canhões desintegradores, capazes de desmanchar totalmente qualquer estrutura cristalina. Os incansáveis aparelhos positrônicos acusavam fielmente os resultados obtidos.
— Passamos! — anunciou Bell, com voz neutra. Mas tinha o corpo todo banhado em suor. — Os anteparos defensivos deles não resistem a uma só de nossas armas.
— Obtivemos contato! — gritou Tako Kakuta, agitando as mãos, excitado. — Chaktor conseguiu se comunicar! O pessoal dele já nos percebeu. Temos permissão para atravessar as linhas dos ferrônios quando for preciso.
Rhodan virou-se. Na ampla tela do videofone via-se o rosto sorridente de um Ferrônio idoso. Um oficial superior, obviamente. Apontando para o painel de controle, Chaktor despejou nova torrente de palavras no microfone. O som das palavras se perdia por entre o fragor das armas em ação e do rugido dos motores. Apenas os dois telepatas se encontravam em condições de inteirar-se do conteúdo mental do nervoso ferrônio.
Betty alinhavou uma explicação através do fone de seu capacete.
— Aquele é o comandante da frota ferrônia. Comunicou nossa aparição ao quartel-general no nono planeta. Chaktor está combinando um código suplementar, válido especialmente para nós... Espere! O comandante está fazendo um pedido insistente: quer que continuemos a prestar-lhe ajuda na batalha. Perry, ele diz que está disposto a passar-lhe o comando geral!
Rhodan não conseguiu reprimir uma praga. O alucinante ímpeto da Good Hope dificilmente poderia ser contido antes de chegar às linhas das naves ovóides. Os propulsores já sobrecarregados não se prestariam de maneira alguma a uma desaceleração superior aos quinhentos quilômetros por segundo que vinha fazendo.
— Diga a ele que se defenda! — ordenou Rhodan. — Vou atacar o inimigo pelos flancos e do alto. E mande Chaktor dar o recado de que é impraticável organizar uma frente de defesa eficiente com uma única nave. Nossa atuação terá que reduzir-se a ataques de provocação, mais não podemos fazer.
Concretizara-se, pois, o dilema sempre presente no subconsciente de Rhodan. O observador neutro, vindo apenas para avaliar a situação, acabara se tornando participante ativo de acontecimentos que, por enquanto, não representavam risco iminente para a Humanidade. Porém forçavam Rhodan a tomar medidas preventivas, rechaçando os agressores tópsidas.
Eles não eram humanos. Quando se compenetrou desse fato, sua própria condição de homem tornava inevitável sua intervenção no conflito. Pela primeira vez na sua existência concordou com a máxima arcônida de que entes não-humanos só poderiam ser tolerados em circunstâncias muito excepcionais. Pois regiam-se por uma ética muito diversa, alimentando conceitos existenciais incrivelmente estranhos. Se apareciam com más intenções, não havia outra alternativa a não ser a guerra de extermínio.
A Good Hope encontrava-se a apenas alguns segundos-luz das oscilantes linhas ferrônias quando ecoou o clamoroso som de alarme emitido pelos hipersensores. Junto com o berreiro dos alto-falantes, a tremenda zoeira se transformava em algo quase palpável. Depois os alto-falantes emudeceram de repente, assim como as indicações luminosas da tela dos instrumentos.
Algo de proporções monstruosas devia ter abalado a curvatura estrutural do universo normal nas imediações. O anteparo protetor da Good Hope foi percorrido por cintilante luminescência. Por segundos, o campo energético entrou em completo colapso. Os reatores de corrente giraram em seco, sem carga alguma. Descargas coruscantes saltavam intermitentemente dos fusíveis dos conversores de energia. Os supersensíveis sensores estruturais se fundiram. O odor acre e penetrante invadiu a cabina de comando. Compreendendo intuitivamente o acontecido, Rhodan deu ordem para a colocação dos capacetes pressurizados. As esferas transparentes foram encaixadas nos aros magnéticos dos trajes espaciais. Automaticamente entraram em funcionamento os sistemas vitais de fornecimento de ar condicionado, oxigênio e radiocomunicação.
Reduzida a uma velocidade correspondente a apenas 25% da da luz, a Good Hope viu-se de repente no meio de uma descarga energética de inacreditável intensidade. Chamas azuis envolveram o casco externo de aço. Todo o poder ofensivo até então desenvolvido pelas naves invasoras tornava-se insignificante diante daquela força titânica.
O grito de pavor foi ouvido por todos. Alastrando-se por intermédio dos alto-falantes embutidos nos capacetes, acendeu nos cérebros humanos uma centelha de pânico. Rhodan viu Crest correr para o painel do hipercomunicador. Antes que as oscilações da nave se estabilizassem, o cientista arcônida começou a falar diante das telas transmissoras iluminadas.
Até então Rhodan estivera entregue à tarefa de manter a Good Hope mais ou menos sob controle. Deu, então, com o monstruoso vulto de metal e energia que emergia do hiperespaço, a cerca de cinqüenta quilômetros de distância dali.
— Não! — gemeu ele. Depois berrou: — Thora, isso é...?
— Uma nave de guerra arcônida! — completou ela, afobada. — Da classe imperial, o último modelo desenvolvido pelo Império. Conheço bem o tipo. Eu poderia conquistar um sistema solar inteiro com ela. Perry, nossa gente está chegando! Crest, transmita o código de reconhecimento. Lá em Árcon devem ter percebido o que ocorre em Vega. Veja só, Perry! Um gigante invencível, equipado com magníficas armas. Deve ter um diâmetro mínimo de oitocentos metros, segundo os padrões terrestres. Eu...! O que está fazendo?
As juntas dos dedos crispados de Rhodan se abateram sobre o reostato que comandava os quatro propulsores principais. Luzes de controle piscantes indicavam uma reversão de cento e oitenta graus nos campos de força dos jatos. Mal acabara a manobra de frenagem, a nave retomou impulso com o máximo de velocidade. O rosto de Rhodan estava contraído. Reginald Bell foi o primeiro a compreender. Seu grito rouco de alerta se transmitiu através do intercom. Apenas os dois arcônidas continuavam radiantes. Mas momentos depois Crest caiu em si e afastou-se do hipercomunicador, profundamente perturbado.
— Contato nulo! — queixou-se ele. — Mas o computador central da nave de guerra deveria ter identificado imediatamente o código dado. Não compreendo o que...!
— Ainda não percebeu que naquela nave não há um só arcônida? — gritou Rhodan, exaltado.
— Ela está dando volta e abre fogo contra as linhas ferrônias! — anunciou a voz do mutante Ralf Marten que estava tomando conta dos detectores.
Rhodan não podia fazer mais do que já fizera. O gigante espacial, produto máximo da técnica arcônida, não perdia terreno para a Good Hope em fuga. Apesar de suas impressionantes dimensões, conseguia uma taxa de aceleração idêntica. Quando o raio violeta se projetou da gigantesca esfera, era tarde demais para desviar. Disparado com a velocidade exata da luz, percepção e impacto do raio foram simultâneos na relativamente minúscula nave auxiliar do ex-cruzador arcônida. O artilheiro da nave de guerra não lhe concedera a menor chance.
A potente faixa energética, ultraconcentrada, media bem quarenta metros de diâmetro. Caso tivesse atingido a Good Hope em cheio, esta se transformaria instantaneamente numa nuvem gasosa. Porém a nave resistiu ao tremendo impacto produzido pelo tiro de raspão. Descargas flamejantes explodiram ruidosamente nos anteparos de defesa; o campo energético desmoronou, impotente para opor-se a forças tão poderosas. Reduzida agora a uma simples partícula de pó, a esfera espacial virou joguete indefeso de uma tremenda onda energética, desferida pelo gigante voador sem maiores preocupações, apenas de passagem, para aproveitar a situação.
Rhodan ainda chegou a perceber que quase toda a maquinaria da Good Hope tinha deixado de funcionar. O baque violento de comportas de segurança fechando-se automaticamente provava que mesmo o tiro de raspão provocara tremendos estragos. Antes de ser arrancado de seu assento diante dos controles, ainda escutou o incipiente zumbido da reversão dos campos de força. Processo automático, cuja finalidade era canalizar, em caso de catástrofe, a energia disponível para os amortecedores de inércia. Se isso não tivesse acontecido, não haveria mais vida na nave violentamente arrancada de seu rumo por uma força extraordinária.
O major Deringhouse, cujo veloz caça se havia aproximado até uma distância de cerca de dois quilômetros da Good Hope em virtude da manobra de frenagem desta, viu que a nave esférica rodava desarvorada pelo espaço, como uma bola chutada com violência.
Só Deringhouse se encontrava em posição de verificar que o terrível raio energético tocara apenas a curvatura do pólo inferior da nave. No entanto, ele estava incandescente. O aço arcônida derretera como manteiga ao sol ardente do deserto. Cintilantes vapores metálicos se desprendiam ainda da parte inferior da esfera. A Good Hope arrastava consigo pelo espaço uma extensa cauda luminosa, como se fosse um cometa.
A luminescência dos anteparos defensivos se extinguira. A única avaria visível agora era o pólo inferior em brasa.
Deringhouse chamou desesperadamente Rhodan e os outros tripulantes a bordo da Good Hope, porém não obteve resposta alguma. Só lhe restava acompanhar a pobre nave ferida em sua trajetória de fuga forçada. Muito adiante o supergigante esférico deslizava pela escuridão do espaço, com os torretes armados espalhando destruição. Estava transformando as semi-organizadas linhas ferrônias num confuso amontoado de vultos fugitivos, dominados pelo pânico total. O número das naves ovóides reduzia-se aceleradamente sob o impacto dos tremendos golpes desferidos por um atacante de poder ofensivo infinitamente superior.
Era um golpe fatal para os ferrônios. Pálido e desfeito, Deringhouse tinha os olhos fixos nas telas de seu caça. A Good Hope corria em direção do nono planeta, com a avaria mortal em seu casco brilhantemente rubra.
— Acho que eles sobreviveram ao tiro! — disse de repente uma voz no alto-falante do telecomunicador de bordo do caça. Era o capitão Klein, no segundo aparelho. — Aguardemos, está bem? Foi apenas um tiro de raspão. Se for preciso, posso tentar engatar no canal de lançamento superior. Eles voam apenas com 30% da velocidade da luz.
— Tiro de raspão?! — exclamou Deringhouse, com um riso sarcástico. — De onde será que surgiu o diabo daquele monstro espacial? Apareceu de repente... Ande, acerquemo-nos deles. Vão direto para o planeta nove!





Reduzida a dois propulsores em funcionamento precário, a Good Hope precisou de oito horas para completar a viagem. Poderia ter desenvolvido velocidade maior caso os neutralizadores de inércia estivessem funcionando; mas estavam seriamente avariados. E com eles fora de ação, a desaceleração tinha que se limitar à capacidade de absorção dos projetores, cujo funcionamento era intermitente.
A penetração na densa atmosfera do nono planeta assemelhou-se a um mergulho do alto na água. Rhodan viu-se obrigado a submeter a tripulação a uma desaceleração de gravidade extremamente severa, pois as forças de inércia geradas não podiam mais ser absorvidas. Também tivera que ligar rapidamente a carga máxima de retropropulsão, pois ao primeiro contato com as moléculas de ar deixaram de funcionar os projetores de campos de absorção.
Portanto a nave auxiliar se precipitou através das massas de ar cada vez mais densas como um meteoro em brasa. Caso os aparelhos antigravitacionais tivessem recusado igualmente funcionar, a Good Hope se espatifaria contra o solo do planeta. No entanto, com a nave quase desprovida de peso, foi possível equilibrá-la ainda, se bem que a aterrissagem não fosse das mais suaves.
Todas as instalações da metade inferior da nave haviam sido destruídas. Seria impraticável fazer reparos durante a morosa operação de frenagem; além da elevada temperatura reinante na zona avariada, surgira nela uma mortal radiação gama.
Numa fração de segundo, a Good Hope fora transformada num destroço indefeso. Já não havia condições para pensar em vôos mais rápidos do que a luz. Os hiperconversores, essenciais para a formação dos campos estruturais de defesa, haviam sido totalmente destruídos. O grupo de reparos, protegido por trajes espaciais, só encontrou montinhos de metal fundido por ocasião da vistoria feita posteriormente. Os demais aparelhos poderiam ser consertados, mas aquele equipamento essencial estava definitivamente perdido.
Antes de mergulhar na atmosfera, sob a orientação de Chaktor, Perry Rhodan tomara consciência do irreversível fato de que se tornara prisioneiro do sistema Vega.
Após a descida no espaçoporto da cidade principal do nono planeta, foram recebidos com bastante frieza pelos oficiais ferrônios. Estes limitaram-se a providenciar a retirada da nave severamente avariada da pista de aterrissagem desprotegida. Agora a Good Hope repousava num hangar subterrâneo, estalando em todas as juntas enquanto se processava gradualmente o resfriamento da massa superaquecida. O recinto não apresentava nada de extraordinário; em qualquer ponto da Terra se encontraria um semelhante.
Klein e Deringhouse tinham aterrissado sem maiores problemas. Rhodan enviara-os novamente ao espaço, a fim de prestar apoio à frota ferrônia em sua precipitada retirada e escoltá-la até a volta ao oitavo planeta. Aquela pequena colaboração em prol da defesa comum lhe parecera imprescindível.
Quando Deringhouse anunciou pelo hiperrádio que a gigantesca nave aparecida de surpresa se juntara às fileiras dos tópsidas, um sorriso frio surgiu nos lábios de Rhodan. Dali em diante, pouco falou. Encontravam-se num mundo alheio, entre seres estranhos, que pareciam encarar o desastre ocorrido com a Good Hope com sentimentos contraditórios.
A análise psicológica da situação efetuada pelo Dr. Haggard fora quase desnecessária. Mesmo sem ela, Rhodan sabia que o vivo entusiasmo inicial da tripulação por ele, e a confiança no poder ofensivo da Good Hope tinham diminuído consideravelmente.
Chaktor, o ferrônio resgatado do vácuo, ocupava passivamente uma poltrona na cabina de controle. Bell e uma equipe de técnicos tentavam recuperar pelo menos a aparelhagem de controle mais importante. Crest parecia ter desmoronado interiormente; matinha-se num canto, silencioso e apático. Thora, ainda mais suscetível do que o sábio arcônida, debatia-se contra um incipiente colapso nervoso.
Os mutantes circulavam, procurando avaliar as circunstâncias. Ralf Marten, o homem dotado das qualidades mais peculiares em todo o grupo, rondava ã sua maneira, por perto e por longe: há mais de uma hora não se movia da poltrona, rígido e hirto como se estivesse em transe. Periodicamente relatava, em voz impessoal, o que observara através dos olhos de algum chefe ferrônio, ou o que escutara pelos ouvidos dele. Pelo que informava, os habitantes do planeta não nutriam intenções malévolas contra os visitantes humanos. O sentimento predominante era de profunda desilusão, diante do súbito fim das esperanças despertadas pelo aparecimento da espaçonave terrena. Os telepatas confirmaram as observações de Ralf Marten.
Diante disso. Rhodan deu ordem para recolher os guerreiros-robôs, prontos para entrar em ação, ao compartimento de carga da nave. Reginald Bell emergiu da estreita portinhola das escadas de emergência. Os elevadores antigravitacionais já não funcionavam. Resmungando baixinho, ele se desembaraçou do pesado traje protetor e estendeu a mão para um cigarro. Entrementes, as pessoas presentes na cabina de comando tinham adquirido a impressão de que Rhodan se transformara de repente num calado sonhador. Fazia horas que não pronunciava uma só palavra.
Mas ergueu a cabeça com a chegada de Bell. Vagarosamente ele se levantou do assento que ocupava. Os olhares dos dois homens se cruzaram.
— E agora?
As palavras ficaram no ar, carregadas de inquietação.
Bell deu de ombros. Esmagou o cigarro recém-aceso sob a sola do sapato.
— Fim da linha para nós! — declarou, sem o menor traço de emoção no rosto. — Aquele raio energético da supernave acabou com a Good Hope. Começo a compreender agora as contínuas alusões de Crest, classificando nosso veículo de nave auxiliar. Não passava de porcaria diante de uma nave de guerra autêntica, apesar de nos julgarmos possuidores de uma arma poderosa.
— Foi suficiente para revidar o ataque das naves tópsidas!
— Certo, mas faríamos feio diante de um cruzador arcônida. E quando se topa de cara com uma supernave que lança raios energéticos de diâmetro quase superior ao da Good Hope, então...
Bell interrompeu-se, com uma risada seca. Depois concluiu:
— Pois é, que mais posso dizer? Estamos encalacrados. Foi quase um milagre conseguirmos aterrissar mais ou menos inteiros. Os pulsopropulsores precisam de completa revisão. Viagens interestelares estão fora de cogitação. E como os ferrônios desconhecem os princípios envolvidos no sistema, nosso destino é ficar em Vega até o fim de nossos dias. Em resumo: a pior calamidade jamais sofrida até hoje pela Terceira Potência. A central de força pode ser reparada. Portanto poderemos pelo menos notificar a Terra. Daqui por diante, vai depender do coronel Freyt mantê-la forte e unida. Se a sorte nos favorecer de maneira extraordinária, nosso pessoal talvez venha nos buscar daqui a uns dois anos, quando concluírem a construção das novas espaçonaves.
— A idéia é sedutora, mas improvável — corrigiu Rhodan, friamente. — Lembre-se de que as novas naves jamais levantarão vôo sem nossos conhecimentos especializados.
— Intensa comoção em área próxima! — avisou Betty Toufry, a telepata. De olhos fechados, ela continuou a dizer: — Grande consternação entre os ferrônios. Pensamentos confusos se cruzando. Um alto dignitário abandonou seu povo.
— Marten, tente introduzir-se na mente de um ferrônio bem informado. De preferência um dos que se encontram no local que Betty estuda. Ajude-o, menina! Marshall, entre no circuito também.
Entre Rhodan e Bell surgiu uma aura luminosa, que deu lugar ao aparecimento do teleportador Tako Kakuta. O frágil rosto infantil mostrava evidentes sinais de cansaço. Desde a aterrissagem o rapaz estivera constantemente em movimento.
— Caos em todo o planeta! — anunciou ele. — Mas parece que os tópsidas desistiram de um ataque direto; colocaram apenas algumas naves de observação em órbitas bem afastadas. O planeta é jovem, o clima terrestre, o povoamento escasso. Há oceanos, montanhas e planícies muito semelhantes às da Terra. Esta cidade se chama Chuguinor, a única concentração populacional mais densa do planeta, que leva o nome de Rofus. É aqui que fica o espaçoporto principal, só que não vi muitas naves ferrônias. Devem estar todas no espaço. Apenas uma ou outra unidade avariada ficou em terra. Novas ordens, chefe?
— Descanse um pouco, Tako — murmurou Rhodan, absorto. — Você parece fatigado. Por enquanto pouco nos interessa o aspecto da paisagem. Este planeta não deve diferir muito de dez mil outros da mesma espécie. Interessante... aos poucos começo a raciocinar em termos cósmicos. — Rhodan riu, depois acrescentou, com um sorriso: — Nada de esforços desnecessários agora, Tako! Em breve vou ter que destacá-lo para uma missão bem difícil.
Alertado pelo tom da voz de Rhodan, Bell fitou-o, intrigado. Depois comentou:
— Você anda tramando alguma coisa, não é?
O hipertransmissor trazia uma mensagem do major Deringhouse, cuja.face se tornou visível na tela. Foi um bom pretexto para poupar Rhodan de responder.
— Estamos perto do planeta principal — informou Deringhouse. — A derradeira linha de defesa dos ferrônios está sendo destroçada. Abatemos sete naves tópsidas, mas agora a grandona anda olhando para o nosso lado. Parece não estar gostando de nossa interferência. Que faço, chefe? O gigante vem em minha direção. Estou com ele na mira. Ataco?
—Você ficou louco? — gritou Rhodan.
— Trate é de dar o fora, e depressa, ouviu? Com toda a potência das máquinas! Tática de esquivamento e cuidado para não se deixar espetar pelas setas de fogo do gigante. Ainda vou precisar de você, rapaz! Volte imediatamente!
— Chefe, os ferrônios não vão gostar! Cada caça nosso vale por cem das naves ovóides. Por incrível que pareça, acabamos sendo a espinha dorsal da frota ferrônia.
— Caia fora, já disse! Klein também! Se a nave de guerra não for no encalço de vocês, podem voltar para a luta. Mas por enquanto tomem distância. Que tal a cena em torno do oitavo planeta?
— Os tópsidas começam a aterrissar. Sem lançar grandes ataques. Contentam-se com o bombardeio de locais determinados; centros militares, provavelmente. Estão poupando as cidades. Posso contar nos dedos as explosões nucleares lá embaixo. E nem são das grandes.
Rhodan desligou, comentando:
— Bem que acertei quando preferi não pousar em Ferrol. Aquilo virou um inferno. As lagartixas vão aterrissar, instalar-se na área e dar início à conquista dos planetas-colônias vizinhos. Por enquanto estamos seguros aqui. Que tem ele?
Rhodan percebera que Chaktor dialogava diante do videofone comum com um companheiro de raça.
Bell prestou atenção. Crest mantinha-se na mesma atitude de apática resignação, desinteressado do que acontecia.
Ninguém aguardava novidades naquele momento. Deringhouse anunciou alegremente que a nave gigante se desinteressara de vez pelos caças, aprestando-se, pelo jeito, para aterrissar no oitavo planeta.
— Não ganhamos em velocidade, mas somos mais ágeis do que ela — continuou a informar Deringhouse.
— Crest!
O chamado foi tão enérgico que o arcônida se ergueu num pulo. Viu-se diante de um homem de expressão dura e decidida.
— Antes que torne a mergulhar novamente na letargia, quero uma curta informação. Tem certeza de que a nave gigante é um vaso de guerra de sua raça?
— Claro! Que outra espaçonave seria capaz de nos derrotar?
— É pouco provável que arcônidas participem de uma invasão promovida por seres não-humanos. Portanto, a nave deve ter tripulação tópsida. Sabe me dizer como é que esses indivíduos conseguiram se apoderar de uma das naves mais poderosas da frota imperial?
Crest deu de ombros, desanimado, sem encontrar resposta. Thora fitava com olhar ausente a parede mais próxima.
— Existem duas possibilidades — continuou Rhodan. — Ou a nave foi entregue aos tópsidas por oficiais arcônidas decadentes, indiferentes ao destino de sua raça, ou foi simplesmente capturada pelo inimigo. O que não seria de admirar, diante da inigualável passividade e apatia de seu povo. Em qualquer dos casos, porém, pergunto-me como é que os tópsidas conseguem manejar tão bem o complexo aparelhamento de uma espaçonave de guerra arcônida. Talvez as duas hipóteses sejam válidas: arcônidas cativos passaram seus conhecimentos aos tópsidas.
— Isto é um insulto! — protestou Thora.
— Apenas repetição do que ocorreu conosco. Vocês estavam em situação difícil e compartilharam sua ciência conosco. Só que caíram nas mãos de seres humanos e não de tópsidas. Nisto reside a diferença. Thora, peço que inicie imediatamente o treinamento dos meus homens!
Ela ergueu a cabeça, surpresa. Rhodan encaminhou-se para o ferrônio, que prosseguia em sua animada palestra diante do videofone. Na tela, além do rosto de seu interlocutor, via-se um vasto recinto abobadado.
— Que treinamento? — indagou a arcônida, com evidente incompreensão. O interesse de Crest parecia despertar, se bem que sua testa se enrugasse de preocupação. Bell sorriu. Conhecia a fundo seu ex-capitão. Para ele, a palavra impossível não existia.
— Perdi sete homens na batalha. Portanto você, que já comandou um cruzador de guerra vai se encarregar de instruir os quarenta e três sobreviventes no manejo dos principais instrumentos de uma supernave bélica. Ou ela pode ser controlada por um só homem?
— Nunca! Seriam imprescindíveis pelo menos trezentos homens especialmente treinados, apesar da automatização quase total. Perry, você enlouqueceu! Não pode...
— Posso e não vai demorar muito! — interrompeu Rhodan, secamente. — Ou acha que pretendo passar o resto de meus dias num planeta de Vega? As naves ferrônias não ultrapassam a velocidade da luz; portanto não me interessam. E jamais entenderemos o funcionamento daqueles trambolhos tópsidas. Logo, só nos resta a opção de pensar na supernave arcônida, pelo menos seu manejo nos deve ser mais familiar. Vamos abocanhar o naco maior, entendeu? Inicie o treinamento imediatamente. Obrigado!
O chefe falara. Os presentes trocaram olhares significativos. Os dois arcônidas ainda não haviam se recuperado da surpresa. Por fim, Thora murmurou:
— Já lhe ocorreu que a nave de guerra está aterrissando no oitavo planeta?
Rhodan sorriu de leve.
— Estou começando a me preocupar com este aspecto do problema — disse, mansamente. — Já olhou para esta tela? Observe aqueles imensos aparelhos em formato de coluna ligados a potentes cabos de força. Deve estar lembrada de que Crest se referiu a algo semelhante a transmissores de matéria, com os quais os ferrônios poderiam transladar qualquer espécie de matéria. Pois bem, o que cintila naqueles campos energéticos bem pode ser vida orgânica!
O zumbido surdo proveniente dos alto-falantes chamou-lhe a atenção. Chaktor apontava excitado para a tela, gritando algumas palavras para Betty Toufry. Ela traduziu sem demora:
— Vejo na mente dele que pensa numa pessoa altamente colocada. Está se definindo... Dá ao dignitário o nome de Thort. Não é um nome próprio, e sim um título.
Assim como rei ou imperador. Não, não é bem isso... O Thort é o Senhor, o governante.
— Estão abandonando o barco que soçobra — murmurou Rhodan, semicerrando os olhos. — Chegam mulheres e crianças, também. Portanto, a família governante evacua a pátria ameaçada para vir refugiar-se aqui. As coisas estão ficando interessantes. Que foi?
Chaktor dirigia-se a Rhodan, numa arenga nervosa. Betty captou o sentido das palavras lendo a mente do ferrônio.
— O Thort quer conferenciar com você, imediatamente. O comandante da frota ferrônia fez um relato completo há algumas horas. O Thort está perfeitamente a par de nossa atuação. Sabe igualmente que fomos alvejados. Não vai ter que perder tempo em explicações.
Rhodan engoliu em seco; depois pigarreou. Bell foi menos reticente. Respirando fundo, opinou:
— Puxa, se o chefão em pessoa se digna pisar num transmissor só para falar com você, estamos feitos! Essa gente é bem superior ao gênero humano. Caso consigamos um entendimento com o Thort, o futuro pode ser risonho. Nós...
— Em primeiro lugar, temos que voltar para a Terra — interrompeu Rhodan, com sarcasmo. — No momento, precisamos manter a aparência de superioridade. Aliás, não nos resta outra alternativa; temos que poupar o coitado de uma tremenda desilusão. Parece que nós e a Good Hope representamos o recurso derradeiro para a salvação deles. Além disso... — Rhodan fez uma pausa para pensar, e continuou: — ...além disso, é muito fácil negociar com oprimidos e refugiados. Costumam ser acessíveis a argumentos lógicos. Prefiro tratar com o Thort aqui na cabina de comando. Eu me sentiria inseguro demais lá fora. Bell, ligue a máquina de traduzir. Precisamos aprender o idioma ferrônio. Crest pode nos dar uma mão com um breve hipnotreinamento. A memória do aparelho já possui um bom estoque de vocábulos.
Rhodan fitou Chaktor que fremia de reverente antecipação. Evidentemente este seria o primeiro encontro de sua vida com o Thort.
— Vamos com calma, Perry! — observou Bell. — Afinal, o homem domina todo um sistema planetário!
Rhodan aproximou-se do tradutor automático. Chaktor seguiu-o, emocionado.
— Betty, diga que o comandante desta espaçonave solicita a visita do Thort, uma vez que só aqui poderão ser superadas as dificuldades de comunicação; o aparelho destinado a isso não é portátil.
A telepata transmitiu o recado a Chaktor, através da máquina; imediatamente, o ferrônio repetiu a mensagem no telecom, em seu próprio idioma. A confirmação levou apenas alguns segundos: sim, o Thort viria. Na tela do vídeo surgiu um ferrônio de meia-idade.
— É Lossos, o mais eminente cientista ferrônio — informou Betty.
Rhodan murmurou algumas palavras no minúsculo transmissor em seu pulso. No compartimento de carga da nave, os guerreiros-robô despertaram. Com passos pesados, mas surpreendentemente rápidos, marcharam pela ampla rampa de descarga para o ar livre.
— Não faça bobagens! — cochichou Bell, preocupado. — Para que isso?
— Para impressionar, mais nada! — respondeu Rhodan. — Marshall, seu uniforme é bastante decorativo. Sabe berrar?
— Como um touro, chefe, se for preciso.
— Pois então, poste-se no alto da rampa e comande os robôs. Quero cerimônias militares em grande estilo, apesar de achá-las ridículas há alguns dias. O Thort deve ser recebido com todas as honras.
O mutante desapareceu.
— Será que vai dar certo? — indagou Thora, nervosa. — O que vai dizer ao Thort? Não se esqueça de que lida com uma raça superiormente civilizada.
— Sei disso! — concordou Rhodan, com franqueza. — Os conhecimentos deles são superiores aos dos homens, exceto nós mesmos. Peço-lhe que não me contradiga enquanto falo com eles. Para os ferrônios, somos todos arcônidas, vindo de um planeta a trinta e quatro mil anos-luz daqui...
— Como quiser — disse ela, ironicamente.
Rhodan ajustou seu uniforme. Os dois guerreiros-robôs de pé na cabina de comando receberam instruções especiais. As luzes de controle dos poderosos geradores de pulsos se acenderam. As máquinas estavam prontas para funcionar.
— Tudo deve ter a aparência de estar em perfeita ordem — disse Rhodan. — Bell, o tradutor automático está ligado? Obrigado! Betty, sonde o conteúdo mental do governante ferrônio. Gostaria de saber o que se oculta por trás de seus gestos e palavras.
A menina aquiesceu, com um leve sorriso lhe brincando nos lábios.
Do lado de fora ouviu-se um brado sonoro:
— A-pre-sen-taaar armas! Realmente, Marshall berrava como se quisesse alertar o mundo inteiro contra um ataque inesperado.
Seguiu-se um rumor surdo. Os braços armados dos robôs perfilados haviam se erguido simultaneamente, atendendo à ordem dada.
O ferrônio idoso estacou. Os oficiais de sua comitiva demonstravam profunda admiração. A figura de Marshall surgiu nas telas. Em rígida posição de sentido, prestando uma continência que arrancaria louvores até do general Pounder, caso estivesse presente. O Thort agradeceu, com as mãos estendidas para a frente. Era um belo quadro.
— Senhores! Não esqueçam por um só instante que representamos o gênero humano. Portem-se com urbanidade, mas com dignidade. Evitem dar a impressão de se sentirem superiores. Bell, você se encarrega das formalidades de recepção e introdução.
— E como você quer que eu o apresente? — gemeu Bell, transpirando nervosamente.
— Como presidente da Terceira Potência, idêntica com o Grande Império. Para o Thort, o título de presidente vale tanto como qualquer outro. Deve achá-lo tão estranho quanto a denominação Thort é para nós. Aí vem ele!
— Pretensioso! — murmurou Thora. Mas Crest sorriu, compreensivo. O eminente sábio arcônida adivinhara as intenções de Rhodan.
Este postou-se imóvel ao lado do aparelho tradutor. Quando a saudação de Bell, em idioma ferrônio, ecoou através do alto-falante, o Thort recebeu o segundo choque de surpresa. Evidentemente atônito, fitou a extraordinária máquina. Rhodan sorriu-lhe com cordialidade. Sua saudação foi respeitosa, porém ligeiramente mais condescendente do que a de Bell.
Depois os dois representantes de culturas tão diversas se viram frente a frente. O Thort, idoso, baixo e acabrunhado; Perry Rhodan, alto, esbelto, senhor de si da cabeça aos pés.
— Seja bem-vindo, Senhor. Tome lugar, por favor.
Os dois guerreiros-robôs postaram-se silenciosamente ao lado do comandante, com as bocas de suas armas apontando para o alto. Após examiná-los demoradamente, o governante ferrônio deixou-se cair numa das poltronas. Rhodan expressou ainda algumas frases de cortesia, por meio do aparelho automático.
O Thort aguardou a tradução. Sua resposta foi breve e surpreendente. Parecia compreender o que se ocultava por trás daquelas demonstrações e aceitava plenamente as implicações nelas contidas. Tinha consciência de estar diante de um ser totalmente estranho, conforme ocorria igualmente com Rhodan. Mas sabia que os humanos tinham corrido em socorro dos ferrônios durante a luta.
— Sua espaçonave está seriamente avariada — dizia o aparelho, traduzindo as palavras do Thort. — E o senhor sabe que, sem sua ajuda, nós estaremos perdidos. Portanto, em que posso ajudá-lo? Meu império está à sua disposição. A nave pode ser reparada?
Palavras claras e explícitas, que não causaram estranheza a Rhodan. O Thort não era um fraco e sim um pensador lúcido. A resposta ainda mais breve e sucinta correspondia ao caráter de Rhodan. A situação exigia a mais absoluta franqueza.
Mas antes que Rhodan pudesse responder, o hiperrádio trouxe a notícia de que a imensa nave esférica tinha aterrissado no oitavo planeta. O major Deringhouse aguardava novas ordens. Rhodan mandou-o prosseguir na missão de observação, pedindo ao mesmo tempo que procurasse obter boas telefotos da nave. Depois desligou.
— Eram os pilotos daquelas naves minúsculas? — indagou um dos altos oficiais, excitado. Rhodan confirmou.
— Mas como é que conseguem comunicar-se com tal rapidez?
— Distância não tem significação para nós. Assim como viajamos com velocidade superior à da luz, dominamos a comunicação audiovisual hiperrápida.
Ao ser divulgada a tradução, o oficial ferrônio olhou em torno, triunfante. Aparentemente já fizera afirmações naquele sentido antes, deparando com a incredulidade de seus colegas. Rhodan bem podia imaginar o que se passava no íntimo daquela gente. Dali por diante, os oficiais ferrônios guardaram respeitoso silêncio. Apenas os olhos atentos do Thort examinavam tudo com a maior atenção.
— Com sua licença, posso saber se chegou até aqui por meio de um transmissor de matéria? — perguntou Rhodan.
Percebeu uma reação estranha no regente de pele azul.
— Claro! Fui forçado a deixar o oitavo mundo. Que sabe sobre os transmissores? Conhece o princípio que os faz funcionar? É o maior segredo do universo!
— Nem tanto! — replicou Rhodan, suavemente, porém sem acrescentar mais nenhum comentário. A perturbação do Thort já era suficiente. — Oferece-me sua assistência, senhor. Sim, minha nave não tem mais condições de vôo. Não pode ser reparada com os recursos de que dispõe. O tiro da espaçonave bélica que surgiu tão inesperadamente foi fatal.
— Quer dizer que sou obrigado a renunciar ao seu auxílio?
Rhodan viu a face azul entristecer-se. Nos olhos mortiços refletia-se o desespero.
— De maneira nenhuma. Seria necessário apenas que me cedesse sua estação transmissora de matéria. Acabei de saber que a nave gigante pousou no oitavo planeta. Preciso de uma oportunidade para ir até lá e os transmissores resolverão este problema. Caso não possa utilizá-lo para transportar meus homens, serei obrigado a recorrer à alternativa mais trabalhosa de usar meus dois caças.
O Thort parecia assombrado. Porém concordou imediatamente. No entanto, ainda alimentava uma dúvida:
— Que pretende fazer lá? O planeta está ocupado pelos inimigos.
— Vou apoderar-me da nave de guerra! Depois disso faremos novos planos.
Rhodan sorria.
— Conforme já disse, esta pequena nave já não me serve. Era apropriada para a curta expedição exploratória que empreendíamos. Caso eu tivesse sabido que se processava uma invasão por aqui, teria vindo com uma frota inteira. Lamento...
Bell dominava-se a custo. Os ferrônios faziam perguntas excitadas. Rhodan explicou detalhadamente quem eram os tópsidas, de onde vinham e qual era sua natureza. O Thort prometeu toda a assistência possível. Rhodan recebeu permissão para usar os transmissores. Depois veio a pergunta embaraçosa:
— Vai ser capaz de manejar a nave gigante?
— Trata-se de um vaso de guerra de meu povo, senhor! — disse Rhodan, tranqüilamente. A reação foi violenta. Os oficiais imobilizaram-se em respeitoso silêncio. Apenas o Thort não se alterou. Sabia raciocinar.
— Mas não tripulado por gente de sua raça, não é verdade?
— Claro que não. Não imagino como foi parar nas mãos dos tópsidas. Portanto, necessito urgentemente de um tópsida vivo, custe o que custar. Existem prisioneiros?
Não, os ferrônios não tinham conseguido capturar um só tópsida vivo. No entanto, um oficial mais jovem informou ter visto um bote salva-vidas tópsida destacar-se de uma das naves abatidas. Havia descido na região do pólo norte do planeta. Os soldados ferrônios destacados para aprisionar a tripulação não conseguiam aproximar-se pois eram repelidos com armas desconhecidas.
Rhodan não hesitou um momento.
— Senhor, mande levar dois de meus homens ao local, o mais rápido possível e dê ordem de retirada às suas próprias tropas. Preciso daqueles sujeitos vivos!
— Eles possuem armas terríveis! — objetou Lossos, o cientista ferrônio.
— As nossas são melhores. Tome as providências necessárias, Senhor, e ponha à disposição de meu pessoal sua aeronave mais veloz, ou uma pequena nave espacial. Não podemos perder tempo.
Enquanto o Thort agia, Rhodan pôs-se a examinar com atenção os membros presentes de sua tripulação. Por fim decidiu:
— Tako Kakuta e Betty, aprontem-se. Equipem-se com psicorradiadores e convençam aqueles tópsidas a sair de suas tocas como meninos obedientes. Aguardo aqui. Quero de preferência os oficiais. Deve haver alguns entre eles. Tako, se for preciso, salte para a retaguarda dos tópsidas. E procurem voltar inteiros!
Os mutantes aprontaram-se. O japonês sorria, Betty era a calma personificada.
— Como? É com estas pessoas que pretende dominar uma tripulação fortemente armada?! — exclamou o Thort, com o rosto azul se tingindo de sombras escuras. Pela primeira vez Rhodan o via descontrolado.
— São mais do que suficientes. Dispomos de poderes que o senhor desconhece. O transporte está pronto?
Tako retirou-se, piscando um olho. O Thort tornou a sentar-se, calado.
— Isso ultrapassa minha compreensão — murmurou ele no microfone do aparelho de tradução. — Quem são vocês? De onde vêm? Infundem temor com suas capacidades aparentemente ilimitadas...
Rhodan forneceu as explicações necessárias, porém sem aludir à Terra. Para os ferrônios, eles eram e continuariam a passar por arcônidas. As palavras de Rhodan foram aceitas sem a menor sombra de dúvida.
Ele procurou aproveitar o período de espera. Gradualmente estabeleceu um excelente relacionamento com o Thort, cujo cargo não era hereditário, conforme depreendeu da conversa. Após sua morte, um novo Thort seria eleito entre os homens mais capazes do reino. Intrigas políticas pareciam ser coisa desconhecida. Rhodan entrevia um futuro brilhante para aquela raça mas percebia que faltava algo indefinível para concretizá-lo.
Duas horas mais tarde, segundo o relógio de bordo, Tako manifestou-se por meio do microtransmissor que levara.
— Conseguimos, chefe! Cinco tópsidas vivos, sendo que dois deles são oficiais. Foi brincadeira. Betty localizou-os e eu saltei para perto deles. Reagiram logo aos psicorradiadores. Dentro de meia hora estaremos de volta. A aeronave é bem veloz.
— Vamos ver o que acontecerá agora — disse Rhodan, em tom neutro.
O Thort estremeceu. De repente via aquele homem com outros olhos. Toda a urbanidade desaparecera. Com um sorriso apenas perceptível, o governante observou:
— Começo a compreender que não passo de um insignificante funcionário de província diante de sua elevada posição. Disponha de mim, mas só lhe peço que ajude meu povo.
Nunca em toda a sua vida Rhodan sentira tão embaraçosa comoção. Bell mordeu os lábios e o Dr. Haggard mal disfarçava o constrangimento.





— Se há mesmo oficiais tópsidas entre os prisioneiros, devem falar o idioma intercosmo, conhecido em todos os sistemas do Grande Império — disse Crest. — Todo oficial tópsida é obrigado a conhecê-lo.
Momentos após, os prisioneiros foram introduzidos, completamente submissos à vontade do mutante Kakuta. O profundo efeito pós-hipnótico do raio psíquico fazia dos estranhos obedientes autômatos.
Com uma exclamação de susto, o Thort ergueu-se da poltrona. Nunca vira um tópsida de perto e os ferrônios ignoravam a natureza de seus agressores.
Instintivamente, os oficiais levaram as mãos às suas armas. Eram pistolas de raios, altamente eficientes: seu funcionamento baseava-se em quanta luminosos de alta concentração. As passivas criaturas que penetravam na cabina de comando viram-se diante de uma bateria de bocais finos como agulhas, até que Rhodan disse, com um suspiro nervoso:
— Por favor, baixem essas armas! Poderiam precipitar um acidente. Seus homens estão preocupados, senhor. Diga-lhes que eu me responsabilizo por sua segurança.
O Thort transmitiu as ordens necessárias. As pequenas pistolas de raios foram recolocadas nos respectivos coldres.
O interrogatório foi realizado na cabina de comando semidestruída. Os doutores Haggard e Manoli ausentaram-se brevemente, a fim de irem buscar algum instrumental médico na enfermaria de bordo.
Não havia a menor dúvida; aqueles seres nada tinham de humanos! Percebia-se claramente que descendiam de répteis. Rhodan examinou-os de cima a baixo. Vestiam uniformes justos, que acentuavam ainda mais as linhas dos corpos altos e delgados.
— Tako, mande o da esquerda tirar a roupa. E depressinha! Marshall, sonde as mentes desses indivíduos.
Tako dirigiu o foco do psicoirradiador, em leque bem aberto, para o tópsida colocado à esquerda do grupo. Com gestos ágeis, ele começou a despir as peças da farda. Rhodan mordeu os lábios, a fim de não deixar escapar um gemido, conforme sucedia com o regente ferrônio. Pela primeira vez lhes era revelada a verdadeira natureza dos tópsidas. Os dois médicos, que acabavam de retornar, complementariam as observações.
— Meu Deus! — suspirou o Dr. Haggard, com a face congestionada. — Por isso eu não esperava!
— Diga-lhe que pode tornar a vestir-se — ordenou Rhodan, com voz rouca. — Bell! Thora e Betty podem voltar à cabina. O caso está resolvido. Tako, regule o radiador para bloco-hipnose. Transmita ordem permanente para responderem com a verdade às nossas perguntas.
Enquanto Tako regulava o aparelho, Rhodan lançou um último olhar perscrutador aos estranhos indivíduos. Apesar de possuírem dois braços, duas pernas e andarem eretos, não eram humanóides. Respiravam igualmente oxigênio, porém com isso acabava a semelhança com seres humanos. A pele escamosa, marrom-escura, já constituía prova insofismável. Também a constituição orgânica devia ser radicalmente diferente e Rhodan nem se arriscava a conjeturar sobre seu sistema metabólico.
Os crânios achatados e calvos eram nitidamente de répteis, com lábios finos como lâminas de faca e enormes olhos protuberantes, de surpreendente mobilidade. A intensa luminosidade de Vega devia ser-lhes bastante desconfortável.
Sua grande inteligência não ocultava o fato de possuírem caráter frio e desumano, com conceitos radicalmente diversos sobre tolerância, ética e moral. Compaixão e piedade eram sentimentos inexistentes neles. No entanto, tinham suas próprias regras de conduta, que aos olhos dos homens eram estranhas e até ridículas. Só com a maior cautela se poderia tratar com aqueles reptilóides providos de seis dedos nos membros. Conforme Crest já observara anteriormente, qualquer acordo ou tratado feito com eles não conservava a validade por muito tempo.
Rhodan começou a interrogar um dos oficiais. O prisioneiro respondeu em fluente intercosmo, o que dissipou qualquer dúvida por ventura ainda existente quanto à sua real identidade. Após algumas perguntas rotineiras, Rhodan foi ao âmago do problema:
— Declara que sua nave foi abatida por um pequeno veículo arcônida nas proximidades do nono planeta. O senhor era o comandante. Portanto, deve saber de onde veio aquela nave gigante arcônida, do tipo Império, de modo tão inesperado. Como é que foi parar nas mãos dos tópsidas? Quem são seus tripulantes? Há arcônidas a bordo?
— Foram mortos! — explicou o oficial, em tom monótono.
Os enormes olhos mortiços pareciam não enxergar, sob a influência constante do psicoirradiador.
— Capturamos a nave de guerra no planeta Topsid III. Ela desceu lá para se reabastecer com água potável. A tripulação dormia. Dominamos as sentinelas com gás. Os arcônidas foram forçados a nos treinar. Aquela nave representa o sustentáculo de nossa frota espacial.
As explicações vinham aos arrancos, interrompidas por numerosas perguntas. Rhodan deu-se por satisfeito; guardas ferrônios levaram os prisioneiros.
— Bem que gostaria de saber o que os levou a atacar o sistema Vega. Mas esse sujeito parece não ter a menor idéia. O almirante-chefe dos tópsidas é que deve saber. Como se chama?
— Crek-Orn — informou o cientista arcônida. — Nome bastante conhecido; o homem está em vias de tornar-se uma personalidade importante no reino tópsida. Seria bom ficar de olho nele.
Assim que os tópsidas saíram, Rhodan entrou imediatamente em contato radiofônico com o major Deringhouse. Os dois caças já rumavam para o nono planeta.
O Thort acompanhava atentamente o diálogo.
— Calma em toda a frente — informou Deringhouse. — A nave de guerra pousou num imenso espaçoporto. A invasão encontra resistência quase nula. Em terra travam-se violentas lutas, mas os ferrônios estão em desvantagem. No setor do espaço em que me encontro, não há sombra de naves inimigas. Concentraram-se exclusivamente sobre o mundo principal. Cerca de cento e cinqüenta unidades da frota ferrônia, entre naves grandes e pequenas, regressam conosco. Não podemos acelerar muito, senão ficam para trás. Portanto, ainda temos um bom tempo de viagem. Estamos exaustos.
Deringhouse esperou a resposta de Rhodan, que não tardou:
— Não espere pelas outras naves. Acelere o mais que puder e venha logo. Os caças estão intactos?
— De ponta a ponta. Apenas Klein tem uns arranhões na pintura externa, escapou por pouco de um tiro energético.
O sorriso de Deringhouse iluminava sua face coberta de sardas. Acenou alegremente para o Thort, quando este se mostrou na tela do caça. Rhodan sorriu imperceptivelmente e desligou.
— Meus homens estão prontos, senhor! — disse ele ao Thort. — Ficar-lhe-ia muito grato se providenciasse a fim de que sejam instruídos no uso dos transmissores.
O Thort respondeu:
— Vou ter que deixá-los agora. Mas logo contarão com a assistência do engenheiro-chefe de uma fortaleza secreta do deserto. Trata-se de fortificações subterrâneas, construídas na época em que os diversos grupos de minha raça ainda viviam desunidos. Eu recomendaria o transporte da nave avariada para esse local. Os transmissores daqui terão que ser inativados, pois estão ligados diretamente ao meu palácio. Meus homens não conseguirão defendê-lo por muito tempo, o que poderia ocasionar uma utilização indesejável dos transmissores. Portanto, em hipótese alguma vocês poderiam usar os daqui. A fortaleza no deserto possui equipamento similar, plenamente utilizável. Vou tomar as providências necessárias imediatamente.
Com isso, o senhor supremo de um sistema planetário inteiro se retirou.
— Bem, este caso está resolvido! — exclamou Rhodan. — Crest, calcule onda e direção para um hiperchamado à Terra. Vou ditar a mensagem ao codificador. Quero que seja enviada em freqüência muito alta, com condensação máxima. E mande repeti-la várias vezes, pois o coronel Freyt não poderá acusar o recebimento de modo algum sob risco de sermos localizados. Temos que enviá-la ao acaso, esperando que seja devidamente captada. Capriche nos cálculos, Crest!
Para a Good Hope iniciava-se um período de repouso. Quando Rhodan se encaminhou para sua cabina foi interpelado por Bell, que parecia fatigado.
— Não acha bom a gente se interessar de perto por esses transmissores de matéria, chefe? Estou vindo do laboratório de controle dos ditos cujos. Os troços são enormes e, pelo jeito, funcionam com velocidade superior à da luz. A Humanidade poderia fazer bom uso deles...
Rhodan esforçou-se por sorrir. Bell semicerrou os olhos, resignado, ao escutar o leve suspiro do comandante.
— Meu caro, até você dar pela coisa, eu já agi. Por que acha que insisti tanto em usar as máquinas? Pois, em caso de emergência, poderíamos voar para o oitavo planeta nos caças, espremendo quatro pessoas em cada um, não é verdade? Mas é hora de dormir! Quando você tornar a ver Vega surgir no firmamento amanhã, com todo o seu esplendor, terá com que se ocupar.
Rhodan desapareceu. Reginald Bell afastou-se, resmungando, em direção à sua própria cabina.
Não, Rhodan não era homem de deixar passar despercebida qualquer coisa que, em última instância, pudesse beneficiar a Humanidade. Porém mesmo um homem loucamente temerário como Bell era forçado a confessar que não seria tarefa fácil apoderar-se da nave gigante arcônida. Mas tinham que tentar! Antes de qualquer outro empreendimento, era preciso garantir a retaguarda.
A noite caía sobre o nono planeta de Vega. O espaço estava tão vazio como se jamais houvesse existido uma frota tópsida. Só se via as estrelas, e elas eram eternas.


***




A Good Hope não passa de um destroço incapaz de voltar ao sistema solar. Perry Rhodan está consciente disso. Mas sabe que os tópsidas possuem uma espaçonave que corresponderia aos planos que tem em mente.
Portanto, Rhodan concebe algo incrivelmente arrojado e ataca de surpresa com seus mutantes.
A próxima aventura de Perry Rhodan intitula-se MUTANTES EM AÇÃO.

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