terça-feira, 30 de outubro de 2012

P-019 - O Imortal - K. H. Scheer [parte 1]


Autor
K. H. SCHEER



Tradução
MARIA M. WÜRTH TEIXEIRA



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN






Gucky, o inteligente ser peludo do planeta Vagabundo, é o responsável pelo involuntário desvio por Tuglan, antes de Perry Rhodan poder retornar ao sistema Vega.
E, quando o senhor da Terceira Potência emerge do hiperespaço com a possante Stardust-III, depara com um caos: Vega, o sol estável, está se transformando em estrela nova!
Resta uma única possibilidade de salvar os ferrônios, caso seja esta a intenção de Perry Rhodan: cumprir as tarefas restantes, impostas pelo Imortal.







= = = = = = = = = =  Personagens Principais:  = = = = = = = = = =


Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.

Reginald Bell — Ministro da segurança da Terceira Potência.

Manuel Garand — Engenheiro-chefe da Stardust-III.

John Marshall — Membro do Exército de Mutantes da Terceira Potência, telepata.

Betty Toufry — Membro do Exército de Mutantes da Terceira Potência, telecineta.

Gucky — O animal inteligente do planeta Vagabundo.

Thora e Crest — Dois arcônidas que Perry Rhodan conduz ao objetivo desejado.

EleouAquilo” — Um ser despojado, há muito tempo, do invólucro material.













No aparelho estava o engenheiro, Dr. Manuel Garand. O murmúrio de uma voz de som quase irreal inundou o ambiente, atingiu os órgãos dos sentidos transmissores e impôs-se ao cérebro, de onde partiram as reações.
A rechonchuda face de querubim de Garand irradiava contentamento interior.
Perry Rhodan sorriu inconscientemente. Não havia o que criticar na aparência de Garand. Toda sua personalidade transmitia otimismo, exercendo ação tranqüilizadora sobre os nervos de seus congêneres.
No entanto, a voz tinha som estranho. Rhodan ficou escutando o insinuante cochicho até sentir a violenta onda de dor lhe percorrer o corpo.
Um homem contorceu-se, gemendo na poltrona de encosto alto do piloto. Duas mãos crisparam-se sobre os pulmões doloridos. Tudo em vão, tão inútil quanto as torturadas exclamações de agonia ditadas pelo subconsciente.
— Para onde quer que eu olhe, não vejo nada que não seja perfeito! — disse Garand, solenemente.
Um espiralado clarão luminoso tomou o lugar de seu rosto. Na tela só ficou um borrão branco acinzentado.
Perry Rhodan, senhor da Terceira Potência e comandante da nave espacial de guerra Stardust-III, recuperou-se finalmente da caótica confusão de sentidos resultante de uma transição em grande escala. De repente viu claramente, e com assustadora objetividade. Dificilmente um ambiente tecnificado poderia ter aparência aconchegante.
Abrindo os olhos, confuso, Rhodan percebeu uma imagem palpitante nos refulgentes aparelhos à sua frente; levou alguns instantes para reconhecer nela seu próprio rosto.
Reginald Bell, o capitão Klein e Crest pareciam estar inconscientes. A única realidade palpável era a enorme central de comando de uma nave ainda mais imensa.
— Alô, Garand! Está me ouvindo? — balbuciou Rhodan, com dificuldade. — Alô, Garand! Que foi que disse há pouco?
A tela do intercom permaneceu vazia. Manuel Garand, engenheiro-chefe da nave espacial, não tinha falado.
Perry Rhodan afugentou as últimas alucinações. Seu cérebro voltou espontaneamente a raciocinar com clareza. Na face havia tensão; os lábios deixaram escapar uma imprecação apenas murmurada. Forçou o corpo entorpecido a deixar o assento do piloto. Nas amplas telas panorâmicas dianteiras luzia um gigantesco sol.
Uma chamejante estrela azul, de inacreditável luminosidade. Mesmo o sistema automático de filtragem parecia deixar passar boa parte de intensa radiação ultravioleta. Os olhos de Rhodan começaram a doer.
Seria Vega? Seria de fato o sol daquele sistema planetário de onde tinham partido há pouco tempo, esta inflada bola de fogo?
Uma onda de pânico descoloriu a face de Rhodan. Sem se voltar sequer, berrou o nome do amigo:
— Bell!
Mas o homem atarracado não se mexia. Só o rosto largo estremecia; o sistema nervoso perturbado causava reflexos musculares incontroláveis.
Rhodan, classificado pelos psicólogos da Força Espacial dos Estados Unidos, já há anos, como tipo psíquico de adaptação imediata, reagiu com a precisão de uma máquina.
Sua mão calcou o botão vermelho-vivo do sistema de alarma. Apesar de não poder avaliar imediatamente o que acontecera, sua intuição lhe dizia de que se tratava.
Algo estava errado; alguma coisa saíra exatamente ao contrário do que fora planejado. O salto através do plano superior da quinta dimensão parecia ter dado certo. As pessoas inconscientes dentro da vasta central da nave ainda podiam ser encaradas como estados de matéria mais ou menos concebíveis e reais. Em hipersaltos de mais de trinta e cinco mil anos-luz era bem possível que a rematerialização dos organismos totalmente desintegrados acarretasse algumas complicações. Ele próprio estivera aparentemente sem sentidos, só que voltara a si mais depressa.
A Stardust-III fora requisitada até o limite máximo de sua capacidade de resistência. Por que esperar desempenho melhor por parte dos homens?
Rhodan podia aguardar tranqüilamente o despertar dos membros da tripulação. Pois tudo que parecia errado na situação era aquela gigantesca estrela azul, que parecia pulsar fortemente, e apresentava vaga semelhança com Vega.
O botão acionado por Rhodan desencadeara o alarma para situações de catástrofe. Mesmo com os homens incapacitados para qualquer reação, os robôs positrônicos da supernave de guerra se encarregariam das providências necessárias.
— Determinar posição, baseando-se nos valores das coordenadas da transição. Levar em conta tempo relativístico do salto. Medir a estrela avistada, transmitir os valores. Estender sondas de massa, a fim de localizar eventuais planetas. Fim. Avaliar imediatamente.
O cérebro-robô de bordo confirmou o recebimento da programação a jato por via acústica. Nas profundezas da gigantesca nave, as palavras foram transformadas em símbolos matemáticos, fornecendo ao cérebro positrônico os elementos básicos para operar.
Rhodan lançou um olhar ao indicador de controle do enorme robô. A máquina estava funcionando; portanto trabalhava. Muito mais depressa do que todo um grupo de cientistas, ela diria se a transição se processara de acordo com o desejado, onde se encontravam agora, e o porquê da fenomenologia resultante.
Rhodan deixou-se cair novamente no pesado assento de piloto. Os propulsores da nave esférica com oitocentos metros de diâmetro roncavam de leve, com rendimento nulo. Só a estação de força no setor B funcionava com capacidade plena. Sua tarefa era abastecer a gigantesca nave com a corrente necessária ao funcionamento da inúmera aparelhagem auxiliar, e dos anteparos protetores, gulosos devoradores de energia. Portanto, a reentrada na estrutura habitual do espaço quadridimensional se efetuara com total êxito. A Stardust-III disparou, logo depois, com velocidade quase idêntica à da luz na direção do ainda distante sol.
A estrela brilhava nas telas fronteiras do visor panorâmico em glorioso e quase irreal fulgor. Tremendas explosões pareciam estar ocorrendo nela. As protuberâncias, fora do alcance das telas, deviam projetar-se a fabulosas distâncias no espaço cósmico.
— Engulo a Stardust-III inteirinha, a título de analgésico, se essa bola de fogo não virar bomba atômica tamanho família daqui a pouco! — disse uma voz rouca e rascante.
Rhodan virou-se com um movimento brusco. Reginald Bell devia ter acordado sem emitir um som. A cara larga e sardenta parecia uma mancha de tinta desbotada. As cerdas dos cabelos cor de ferrugem contrastavam ainda mais do que o habitual com a impressionante palidez da testa.
Bell tossiu, repuxando para baixo os cantos da boca.
— Dores? — indagou Rhodan, preocupado. — Onde é que dói?
— Neca — replicou Bell, laconicamente. — Sinto-me como o franguinho renitente que escapuliu da panela do cozinheiro no último instante. Depenado, claro... Entende o que quero dizer?
Rhodan sorriu, divertido. Típico de Bell, aquilo.
— A vizinhança ainda dorme, não é? — grunhiu o homem atarracado. — Empreste-me sua seringa de energia, chefe. A minha ficou guardada no armário de armas.
Rhodan franziu o cenho. Não estava gostando do sorriso de Bell. Era fixo demais para ser natural.
— Para quê?
Gemendo, Bell se ergueu do assento do co-piloto. Depois de lançar um breve olhar à fiel reprodução do sol flamejante, disse, calmamente:
— Sinto muito, mas vou fuzilar Gucky. Já deve ter percebido que o rato-castor nos pregou mais uma de suas peças. Na transição anterior, que ia nos fazer transpor desprezíveis dois mil e quatrocentos anos-luz e nos deixar em Vega, o bicharoco usou seu tremendo potencial telecinético para nos jogar sem mais nem menos a trinta e cinco mil anos-luz no hiperespaço, nos fazendo topar com uma raça inteligente que não tínhamos a menor intenção de conhecer. Tempo perdido, entende? Tempo precioso e irrecuperável, jogado fora num mundo que não é nem nosso, nem de ninguém. Garanto que, pouco antes do salto, o rato-castor andou brincando de novo. Ele simplesmente não pode deixar disso. Assim como eu não posso deixar de comer. É inerente à natureza dele.
— Ora, ora...
Bell ficou rubro, e suas mãos rechonchudas se crisparam.
— É, fique fazendo pouco! — reclamou. — Você se encantou por esse bicho maluco. A ponto de esquecer os perigos em que ele já nos meteu com sua clássica mania de brincar. Mas eu vou fuzilar aquele gambá de beiços arreganhados!
— Ele vai fazer você olhar para dentro do cano de sua arma — zombou Rhodan. — Não esqueça que Gucky é um ser inteligente. A bordo de minha nave não se fuzila ninguém.
— Pouparia também o autor de um assassinato em massa? O rato-castor poderia aniquilar a nave toda. Temos quinhentas pessoas a bordo!
— Um assassino seria posto diante de um tribunal de bordo. Gucky não é responsável por isso aí...
A mão de Rhodan abrangeu com um gesto circular as telas. O sol inchava gradualmente. A avaliação do cérebro positrônico ainda não chegara.
Mais adiante, à direita, sentava-se Crest, o mais destacado cientista arcônida. O corpo magro, de estatura mais elevada do que a comum, estava caído para a frente; os traços fisionômicos estavam distorcidos. O brilho das multicoloridas sinaleiras luminosas arrancava reflexos fluorescentes de seus cabelos brancos.
— Não agüentam grande coisa, esses arcônidas — murmurou Rhodan, pensativo. — Alcançaram o extremo final de seu ciclo positivo de evolução. Seu reino estelar se desintegra sob os golpes sucessivos dos povos coloniais amotinados.
— Nós absorvemos a sabedoria arcônida, e isso basta — rosnou Bell. — Crest veio procurar a vida eterna em nosso setor espacial. Mas teve que fazer um pouso forçado na Lua, onde o encontramos. Com os incríveis conhecimentos que nos transmitiu, erigimos a Terceira Potência. Conseguimos evitar uma guerra atômica, unificar satisfatoriamente a Humanidade, e extrair do chão, em pleno deserto de Gobi, uma supermoderna cidade, com avançadíssimas instalações industriais. Tudo por conta da sabedoria arcônida. Certo, chefe, sei disso tudo há séculos! Não fuja do assunto! Fizemos o possível e o impossível, mas não podemos tornar inócuo um rato-castor biruta, equipado com qualidades altamente perigosas, não é?
Rhodan pigarreou. Mais adiante, o capitão Klein recuperava os sentidos. Gemendo, e de olhos vidrados, se endireitou na poltrona.
— Humm!. — exclamou, perplexo, sem dizer mais nada.
A nave voltava à vida. Alguém clamou, alto e estridentemente, através do sistema de comunicação interna, que a Stardust-III se precipitava para dentro de um sol. Instantes após, o ar junto à poltrona de Rhodan começou a tremeluzir. Do nada emergiu Tako Kakuta, o mutante japonês dotado da espantosa capacidade da teleportação. Com um sorriso inocente acenou para o segundo astronauta, que se afastara num pulo.
— Um dia ainda acabo com você! — arfou o indignado Bell, fora de fôlego. — Só falta você aterrizar em cima de minha barriga, desastrado! Será que todo mundo ficou maluco por aqui?
Rhodan prestava atenção aos comunicados de “Todos a postos!”, que chegavam, em rápida sucessão, das diversas partes da nave.
Desta vez, era realmente o engenheiro-chefe Garand quem falava. Com sua voz aguda, que parecia jubilar, anunciou calmamente:
— Tudo em ordem, senhor — sorrindo, indagou: — Alguém andou fazendo tolices por aqui?
— viu?! — exclamou Bell. — Ele pensa como eu. Quem sabe aquele bicho é capaz de empurrar o enorme sol azul para fora de nosso caminho, não acha?
Rhodan cortou o contato audiovisual com a seção do engenheiro-chefe. Pelo visto, a situação a bordo não sofrerá alteração alguma.
O Dr. Haggard entrara discreta e silenciosamente na central. O medicamento estabilizador jorrou da pistola de pressão para a circulação sangüínea de Crest.
— Muito instável... — comentou, baixinho. — Thora ainda está bastante abalada. Que foi que houve? Nunca passei por transição igual a essa.
— O limite de capacidade dos conversores para o hipercampo situa-se em torno de trinta e cinco mil anos-luz. Arriscamos a transposição num só salto. Jamais repetirei a experiência.
Haggard, o médico que curara a leucemia de Crest com o novo soro descoberto, deu de ombros sem falar. O comandante devia saber o que fazia. O treinamento hipnopédico arcônida lhe transmitira tudo que a outrora ativa e empreendedora raça, tão semelhante à humana, criara e desenvolvera.
— Se eu soubesse pelo menos onde estamos, afinal! — lamuriou Klein, com voz rouca. Ainda falava com dificuldade. — Isto aí é Vega?
O alarma se manifestou enquanto Rhodan tentava ligar para a seção astronômica. O processo decorreu da forma usual, sempre que o sistema de detecção positrônico fazia soar as sirenas sem interferência humana.
Cabeças se levantaram para o alto, escutando; conversas foram interrompidas, corpos até então relaxados enrijeciam sob a ação de músculos reagindo puramente por reflexo.
Um bem treinado time de quinhentos homens entrou em atividade febril. Dez segundos após o primeiro uivo das sirenas, as pesadas portas blindadas da nave bélica encaixavam firmemente nos respectivos lugares, hermeticamente vedadas. A avolumada esfera se transformara numa massa mil vezes subdividida; sua resistência mecânica era indubitável. As naves arcônidas gigantes do renomado tipo império não poderiam ser abatidas com um único tiro. Nem mesmo com cinqüenta tiros!
Muito abaixo da central principal, encravada no centro geométrico do invólucro externo, os reatores a fusão, de construção arcônida, começaram a funcionar. Todas as estações de força aumentaram a carga até o máximo de sua capacidade.
No incomensurável espaço vazio entre as estrelas, as dimensões externas de uma nave só adquirem significação quando ela é capaz de gerar em seu bojo a força necessária para alimentar propulsores, armamento e aparelhagem secundária.
Rhodan viu os brilhantes pontinhos luminosos luzirem em sua escala de controle. Os torretes armados da Stardust-III foram projetados para fora automaticamente. Em seu posto de comandante de tiro, Klein observava o surgir das pulsações dos ecos retornantes nas telas registradoras.
A computação automática entrou em ação. Naquele caos tecnificado o homem representava papel apenas subalterno.
— Detecção no setor verde, a 86,4 graus horizontais e 22,8 graus verticais — guinchou a voz humanóide do macrocalculador. Klein calcou um botão, ligando os sensores automáticos para detecção de corpos estranhos.
— Central de armamento pronta para ação! — anunciou, com voz impassível. Repentinamente raciocinava com a maior lucidez.
Uma calma irreal espalhou-se nas diversas dependências. O equipamento automático cumprira sua função. Porém em última instância a iniciativa ia depender do comandante.
Rhodan observava estaticamente as telas frontais. Os corpos estranhos detectados pelos sensores mais rápidos do que a luz deviam estar diretamente à frente, para a direita, em plano superior ao da nave.
Segundos após chegavam mais informações. O cérebro-robô concluíra seus cálculos.
Avaliação segundo instrução recebida oralmente, às 13:52 h, hora de bordo, do comandante em pessoa. A nave se encontra no sistema Vega. Transição efetuada com absoluto êxito. A estrela pulsante é a própria Vega, já conhecida. Foi determinado, com 100% de certeza, que este sol está em vias de se transformar numa estrela nova. Desaconselhável prosseguir no curso de aproximação. O processo ocorre com rapidez anormal, totalmente em desacordo com os conhecimentos da ciência astronômica. Mensagem encerrada.
Bell arregalou enormemente os olhos, olhando perplexo para Rhodan, que demonstrava profunda preocupação.
— Nova? O quê? Vega pode ter se tornado, no espaço de tão pouco tempo, uma pré-nova? Qual! Isso não existe! Processos desta natureza costumam durar uma pequena eternidade!
Bell olhou em torno desalentado. Tomou ciência, apenas superficialmente, do despertar do cientista arcônida. Crest, porém, não tardou a apreender a situação. Sua constituição, diferente da dos habitantes da Terra, sobrepujara instantaneamente a debilidade.
— Grande Império! Exatamente o que eu receava! — murmurou ele.
Seus olhos vermelhos procuraram os de Rhodan.
— O quê? — perguntou o comandante.
As fortes rugas entre o queixo e o nariz tornaram-se ainda mais profundas.
— A última charada do imortal ameaça explodir todo um sistema solar. Vega é ponto de referência essencial para o cálculo posicional. Caso a estrela desapareça, jamais encontraremos a posição do planeta procurado. Incendiar uma estrela! A que ponto ele chegou!
— E os ferrônios que habitam aqui? — balbuciou Bell. — Os pobres-diabos vão torrar no planeta que está virando lava incandescente. E as naves deles alcançam mal e mal a velocidade da luz. Nunca conseguirão se pôr a salvo de seu sol que explode. Será que o imortal ficou louco?
— Apenas chegamos um pouco tarde — disse Rhodan, deprimido. — Tarde demais. A transição errada nos custou semanas. E neste espaço de tempo, os fatos continuaram a acontecer. Crest, por favor, determine o curso para o oitavo planeta. Manobra de volta de três minutos. Grato...
Mais de quinhentas pessoas se entreolharam dentro da nave. Os controles do armamento permaneceram intocados. Os corpos estranhos detectados eram naves espaciais ferrônias. Os contornos externos em forma de ovo eram tão inconfundíveis quanto o fato de que se tratava de uma frota imensa, com mais de seiscentas unidades.
— Fogem para o planeta mais afastado — gemeu Bell. — Meu Deus, o que foi que se passou por aqui?
Rhodan não respondeu. Parecia saber, ou pelo menos adivinhar, o que sucedera naquela estrela de respeitáveis dimensões.
Exatamente três minutos após, os propulsores da supernave de guerra começaram a rugir. A alteração de curso, calculada positronicamente, implicava numa curva de correção de cerca de vinte e um milhões de quilômetros, percorridos em velocidade próxima à da luz.
A flamejante Vega deslizou vagarosamente para fora das telas frontais, onde sua imagem foi substituída pela profunda escuridão do espaço interestelar, com sua multidão de estrelas. O oitavo planeta de Vega, denominado Ferrol, ainda estava a sete bilhões de quilômetros dali.
Depois de corrigir o curso, Rhodan decidiu-se por uma transição curta, a velocidade acima da da luz. Mesmo voando tão depressa quanto a luz, levariam cerca de sete horas para alcançar o oitavo mundo do gigantesco sistema.
O espaço foi abalado quando a nave de guerra sumiu por entre refulgente clarão luminoso. Era como se nunca tivesse existido uma Stardust-III.



Era próprio dos sensores estruturais arcônidas acusar instantaneamente qualquer alteração na conformação habitual do espaço quadridimensional.
O hiperespaço, cujas leis totalmente diferentes não admitiam o conceito tempo, transmitia no mesmo momento a onda de choque provocada por corpos que nele penetravam.
Em conseqüência, as sonoras pragas de John MacClears foram abafadas por um enervante estrondo. A central de seu módulo de sessenta metros de diâmetro, nave auxiliar do tipo da Good Hope, parecia ter se transformado de repente num veículo sacolejante e mal vedado. A micro-sintonização dos sensores estruturais embutidos estourou; o setor de macro-sintonização ameaçava se destruir igualmente, sob a repercussão tonitroante dos sinais acústicos recebidos.
O pé de MacClears adiantou-se ao seu pensamento; o comutador principal foi apertado para baixo. Os rugidos cessaram.
— Um abalo estrutural, não é? — comentou impressionado o tenente Everson, comandante substituto do girino número 3. — Um barulhão dos diabos, sem dúvida.
— Ora, não enche! — rosnou o capitão MacClears.
Pachorrentamente, Everson deslocou o imenso corpanzil para perto do sensor estrutural agora imprestável. Em tom displicente, falou:
— Muito bem, vamos deixar a banheira em condições de brigar. Parece que o tiroteio vai começar! E eu que achei que tínhamos enxotado de vez aquelas crias de lagartixas do sistema Vega! Pelo estouro, eu diria que o hiperespaço nos mandou dez naves das grandes de uma só vez.
— Ou uma só, mas descomunal — resfolegou MacClears, deixando-se cair exausto em seu assento de controle. O girino número 3 dispunha de uma tripulação de dez homens apenas. Ninguém contara seriamente com o aparecimento de dificuldades daquela espécie.
MacClears era do grupo de jovens pilotos espaciais a quem a Academia Espacial de Perry Rhodan dera o polimento final. Outrora, seu mais ardente desejo era poder voar para a Lua, pelo menos uma vez na vida, a bordo de um dos estrondeantes foguetes da Força Espacial dos Estados Unidos. Até a Lua apenas... Sua ambição não ia além disso.
Perry Rhodan, ainda major da Força Espacial, fora o primeiro homem a pousar no satélite terrestre com sua tripulação. Naquela ocasião, MacClears era ainda um modesto tenente, sem qualquer privilégio.
Situação rapidamente modificada depois de concluir sua formação. Num período de apenas quatro anos Perry Rhodan criara a Terceira Potência. E MacClears fora um dos primeiros oficiais a embarcar, sob o comando de Rhodan, na Good Hope, a nave agora destruída. Assim fora parar no sistema Vega. E presentemente via-se no comando de uma nave que algum tempo atrás o deixara boquiaberto de espanto. A seu ver, o girino número 3 representava uma maravilha tecnológica, de dimensões titânicas. Maravilhosa ela era, sem dúvida alguma; porém para ser chamada de titânica faltava-lhe tamanho. Fato que MacClears acabava de constatar.
Já levara à boca o microfone do telecomunicador, que funcionava com velocidade superior à da luz.
— MacClears a todos os girinos, urgente! Cancelar imediatamente operação resgate. Reunir-se no espaçoporto de Ferrol. Preparar para decolagem de emergência. Quero saber o que é que vem zunindo lá de fora. Se for o chefe, demos graças a Deus. Em caso contrário, preparem-se para enfrentar barulho. Fim.
Sete outras naves auxiliares confirmaram o recebimento da mensagem. Em toda parte no oitavo planeta interrompeu-se o trabalho de salvamento. Escotilhas blindadas eram fechadas, e propulsores puseram-se a uivar.
Os habitantes daquele mundo corriam em pânico das naves que decolavam. Seguiram-se cenas de desespero, ao perceber que a única alternativa era refugiar-se apressadamente nas cidades e vias de circulação subterrâneas, únicos pontos onde ainda era possível sobreviver.
Sobre o planeta Ferrol pairava uma bola de sangue de tremendo potencial luminoso. Sempre sofrerá intensa radiação ultravioleta, porém nunca tão violenta como agora.
Os comandantes das oito naves auxiliares da Stardust-III sabiam perfeitamente que seria inviável evacuar a tempo seis bilhões de ferrônios. Além disso, o aniquilamento atingiria o sistema inteiro, com todos os seus quarenta e dois planetas, caso a até então pacífica Vega estivesse realmente se transformando numa estrela nova. Os cientistas ferrônios debatiam, perplexos, sobre a impossibilidade do fenômeno. Os fatos provavam exatamente o contrário.
MacClears, cuja nave estava pousada no imenso espaçoporto de Thorta, acompanhava no telecom a rápida decolagem das demais naves. Em toda a parte havia transmissores ligados. Fazia-se muita questão de se manter permanentemente em contato mútuo.
MacClears tinha os cabelos cor de fogo grudados na testa. Emitia seus comandos com compreensível rispidez; ninguém poderia recriminá-lo por seu nervosismo. Ao dispensar os oito girinos, já há algum tempo pelo calendário terrestre, Perry Rhodan pusera MacClears no comando. E infelizmente ninguém o liberara ainda do encargo. Pois Rhodan sumira de repente, junto com a nave-mãe.
Everson remendava, resmungando, os sensores estruturais arcônidas. Recebera treinamento hipnopédico apenas suficiente para poder entender a função do aparelho. Delicadamente levou a extremidade fundida de um cabo ao ponto de contato.
Luzes de controle vermelhas se acenderam. A centelha ziguezagueante não perturbava um homem como Everson.
— Funciona! — exclamou ele, jubilante.
Um milisegundo mais tarde a coisa não funcionava mais. Em troca, Everson foi violentamente lançado contra as pernas de um soldado robô, parado num canto. O aparelho emitira um único e curto estalido. Depois rendeu definitivamente seu hiper-freqüente espírito, a despeito dos selecionados materiais arcônidas de que era feito.
— Quero ser mico se isso não é outra transição! — lamentou-se Everson. — Da primeira vez, alguém emergiu do hiperespaço. Lindo! E desta vez? Mas nada disso me obriga a ficar aqui jogado no canto.
— MacClears, é você? — gemeu uma voz no alto-falante. — Stardust-III para todos os girinos, onde quer que se encontrem no momento. Instruções: Aterrizar imediatamente no espaçoporto de Thorta. Aprontar-se para recolhimento a bordo, sem delongas. Estavam auxiliando na evacuação da população?
— Sim, senhor! — berrou MacClears no microfone, com radiante sorriso. — As naves encontram-se todas em Ferrol. Comuniquei-me já com os respectivos comandantes, assim que detectamos seu salto.
— Sorte sua! — veio a lacônica resposta. — Atrasamos um bocadinho. Esqueça, sim? Preciso de cada homem a bordo. Mais perguntas?
MacClears teve a indefinida impressão de que os acontecimentos se precipitavam. Sensação idêntica dominou o tenente Everson.
— Sim, uma única — gritou o capitão, nervoso. — Por que é que Vega começou a fazer papel de doida nos últimos trinta e dois dias? Está virando nova!
— É mesmo?
MacClears engoliu em seco, aborrecido. Everson abriu um largo sorriso. Se aquilo não era típico do velho, estava disposto a voltar a pé para casa.
— Mas é verdade, senhor! — suspirou MacClears. — Temos voado para o planeta mais afastado, dia após dia, levando ferrônios para as bases ali existentes. O Thort vai ficar possesso se sumirmos de repente com a nave de guerra. O regente continua aqui ainda. A temperatura média de Ferrol subiu exatamente dezoito graus nestes trinta e dois dias. Não nos aventuramos mais ao ar livre sem trajes de proteção; se decolarmos realmente, adeus acordo comercial com o Thort.
— Se não decolarmos imediatamente, em breve não existirá mais Thort algum, capitão MacClears — respondeu Rhodan impassivelmente. — Siga minhas instruções. Farei uma rápida visita ao Thort. Fim.
A ligação foi interrompida. Rhodan se portara como se sua ausência tivesse durado apenas algumas poucas horas.
MacClears voltou-se vagarosamente. O radiotelegrafista de plantão demonstrava espanto; o tenente Everson franzira o cenho. Os homens entreolharam-se, confusos; MacClears murmurou, pensativo:
— Que será que ele queria dizer?
Everson ergueu de leve um ombro.
— Sei lá! Mas desconfio que a coisa tem relação com aquele maluco jogo de charadas.
MacClears riu nervosamente. Depois concedeu-se o primeiro cigarro em quatro semanas. Começava a sentir alívio. O chefe estava de volta. Agora tudo estava em ordem.

* * *

Uma monstruosidade esférica, composta de aço arcônida e energia concentrada, lançou-se através da atmosfera incandescente do oitavo planeta de Vega. Perry Rhodan executava uma violenta aterrizagem direta segundo o padrão arcônida. Isto é, dispensava a elipse inicial de frenagem, fazendo a nave rumar diretamente para o corpo celeste. Processo que só o produto de uma tecnologia excepcionalmente avançada tornava possível.
Nas camadas superiores da atmosfera de Ferrol formou-se tremendo turbilhão. Gases incandescentes e ionizados eram arrancados com furiosa violência do trajeto do vôo, e comprimidos para o lado. A Stardust-III tinha pista livre. E nem chegava a formar-se calor de fricção sobre seu invólucro externo.
Em troca, ficava no rastro da nave um imenso vácuo, no qual os gases antes expulsos se precipitavam com estrondo.
Nas centrais de força da supernave de guerra rugiam os reatores, produzindo corrente. Rhodan fez os propulsores girarem, com a taxa de retardamento de 20 km/s2. O que era suficiente para frear a nave suspensa no campo antigravitacional. Só não era possível evitar o aquecimento adicional das massas de ar já bastante quentes do planeta tão achegado ao sol. Disso se encarregavam os flamejantes feixes de impulsos que jorravam dos escapes dos jatos.
A pressa de Rhodan era justificada, mesmo diante do cataclisma que parecia querer consumir todo um mundo lá embaixo.
Thora, a esbelta arcônida, derradeiro rebento da dinastia outrora reinante em Árcon, estava de pé por trás do assento do piloto. A arrogância de seu porte não conseguia disfarçar a inquietação de que estava possuída. Sua estranha atração-repulsão por Perry Rhodan começara no momento em que seu cruzador de pesquisa, forçado a pousar na Lua, fora destruído por uma bomba de hidrogênio de fabricação terrestre. Thora conseguira se salvar no último instante, a bordo de uma nave auxiliar, do tipo girino, com sessenta metros de diâmetro. Como a nave, batizada com o nome de Good Hope, fosse incapaz de vencer os trinta e quatro mil anos-luz até Árcon, sua pátria, Thora vira-se à mercê da ajuda dos homens.
O ódio inicial por Rhodan desfizera-se gradualmente. Só em ocasiões especiais é que o antigo sentimento voltava a se manifestar. Como agora.
Vibrando de reprimida indignação, encontrava-se junto a um homem que classificara de bárbaro subdesenvolvido, com o cérebro de um macaco semi-inteligente, pouco após travar conhecimento com ele na Lua. Porém houve modificações depois. A despeito da oposição maciça da Humanidade, Rhodan constituíra um Estado soberano: a Terceira Potência. Um feroz ataque oriundo dos confins da galáxia fora rechaçado.
Na Terra surgira agora, em moldes arcônidas, portentosa obra. Há menos de um ano, os sensores estruturais postados em Plutão tinham acusado vastos abalos espaciais no setor da estrela Vega, a vinte e sete anos-luz de distância. Levado por profunda preocupação, e receando que alienígenas mais poderosos descobrissem a ainda débil Terra, Rhodan levantara vôo na pequena nave auxiliar, a fim de dar uma olhada. A olhada acabara envolvendo-o em sério conflito com a raça reptilóide dos tópsidas; com a ajuda de seu Exército de Mutantes, Rhodan conseguira expulsá-los do sistema Vega.
Porém, Crest desejou depois conhecer o segredo da conservação celular. Dirigira-se àquele distante setor da Via Láctea a fim de procurar a vida eterna. O pouso na Lua fora puramente acidental, forçado pelas circunstâncias. Nos planetas de Vega tinham dado com pistas do mundo cujos habitantes diziam conhecer a conservação celular.
Rhodan, por sua vez, conseguira se apoderar de uma supernave bélica arcônida. Seus mutantes a arrancaram das mãos dos entes reptilóides, que a tinham tomado dos arcônidas.
A partir de então, toda a preocupação de Rhodan se concentrara em solucionar as intrincadas charadas propostas por inteligências desconhecidas. Alguém parecia muito interessado em examinar a fundo as mentes empenhadas na descoberta de seus segredos.
Fora uma árdua tarefa, cujas diversas fases haviam sobrecarregado incrivelmente os nervos de todos eles.
E agora, quando se julgavam prestes a encontrar o desaparecido planeta da vida eterna, depois de retornarem de um involuntário desvio, deparavam com um sol em chamas, em nada parecido com a estrela que haviam visto de perto pela primeira vez há tão pouco tempo.
Thora remoía na lembrança os enervantes acontecimentos vividos durante a caça às charadas galácticas, apresentadas por uma inteligência que lhes era sem dúvida ilimitadamente superior. Sem os mutantes de Rhodan, teriam perecido já em Gol, o planeta gigante. Os seres constituídos de energia que o habitavam concediam escassa chance aos homens.
O mesmo se dera num mundo solitário chamado Vagabundo, habitado pelos pitorescos ratos-castores. Eles seriam completamente inofensivos, não fosse sua irreprimível tendência de aplicar a incrível capacidade telecinética de que eram dotados. Brincavam com todo e qualquer objeto ao seu alcance. Era o traço característico daqueles entes providos de inteligência. E tinham brincado com o armamento.
Gucky, o rato-castor que, em Vagabundo, se introduzira na nave, colocara Rhodan em sério risco. O atraso no retorno ao sistema Vega era culpa exclusiva de Gucky.
Thora cerrou os lábios, amargurada. Sua única reação ao discreto olhar perscrutador de Bell foi lançar arrogantemente a cabeça para trás.
Caso Thora, a comandante do cruzador de pesquisa aniquilado, alimentasse algum resquício de consideração por pessoa nascida na Terra, o objeto dela só poderia ser Perry Rhodan. Lidar com ele era como tocar em rocha viva.
— Se fosse você, eu iria mais devagar — disse ela, incontida. — Deste jeito, vai arrasar extensas porções da superfície.
Rhodan se limitou a erguer as sobrancelhas. Impassível, continuou a ditar ordens para a casa de máquinas. Depois fitou os ardentes olhos de Thora. Possuíam reflexos levemente avermelhados, o que formava estranho contraste com o cabelo mais branco do que louro. A arcônida era, realmente, uma mulher fascinante.
— Ferrol agüenta — replicou ele. — Vai ter que desistir da planejada excursão. Decolamos assim que eu recolher a bordo as naves auxiliares.
— Com uma nave arcônida do possante tipo império — observou ela, com sarcasmo. — Uma nave que, de direito, é minha.
— Engano seu, minha cara. Seu dorminhoco povo a perdeu para os tópsidas. Eu a tomei às lagartixas, pondo-a novamente em condições de combater. O Império perdeu a Stardust-III quando ele caiu nas mãos dos invasores. Parece-me que já discutimos durante horas a fio sobre o assunto, não?
Crest sorriu com a suavidade habitual.
Nos seus olhos lia-se compreensão por ambas as facções. Em voz baixa, e um tanto deprimida, disse:
— Rhodan, apesar de ter vindo para este setor galático com a intenção de explorar um planeta misterioso, cheguei à conclusão de que seria melhor desistir. Regressamos tarde demais, segundo seu calendário terrestre.
— Bem que eu queria acabar com as manhas daquele rato-castor — interrompeu Bell, acremente. — Mas não deixaram...
Seu olhar acusador alvejava o comandante.
— Uma coisa não tem nada com a outra — apaziguou Crest, meneando vagarosamente a cabeça de testa alta; seu cérebro suplementar, característica que o diferenciava dos homens, possuía o dom da memória fotográfica. — Devíamos desistir, Rhodan, tornou a insistir Crest. — Tenho certeza que os inteligentes imortais estão transformando Vega numa pré-nova. Sabemos, por melancólica experiência própria, que todas as tarefas e charadas tinham limite de tempo. Vega vai explodir. Perderemos o tão arduamente determinado local de referência; sob o ponto de vista matemático, isso significa que jamais acharemos o planeta errante.
Nas telas surgiram as primeiras cadeias de montanhas, aproximando-se com alucinante rapidez. A Stardust-III ainda sobrevoava Ferrol em vertiginosa velocidade.
— Mesmo que eu quisesse desistir, não me resta outra escolha a não ser esvaziar a taça até o amargo fim, Crest. Puramente por culpa e curiosidade nossa, por nosso ambicioso desejo de conhecer o maior segredo biológico da onipotente natureza, Vega se transformou em tocha ardente. E eu não tenho condições de resgatar alguns bilhões de ferrônios.
— Criaturas subdesenvolvidas — interveio Thora, friamente. Tornava a ser a descendente da dinastia arcônida. Aquela gente devia alimentar conceitos bastante estranhos!
Funda ruga surgiu entre as sobrancelhas de Rhodan. Mordazmente replicou:
— Grato pelo esclarecimento, madame! É traço inerente à natureza dos homens prestar auxílio sempre que puder. Sob este aspecto, parecemos ser bem diferentes! Minha consciência me força a fazer todo o possível, mas tudo realmente, para salvar os ferrônios ameaçados. Os planetas de Vega se dissolverão em lava ardente assim que a estrela entrar em erupção ativa. Ainda nos resta um pouco de tempo, mesmo que se trate de processo provocado artificialmente, com decurso milhões de vezes mais acelerado do que o natural. Só poderemos socorrer os ferrônios se resolvermos nossa derradeira tarefa.
— E qual seria ela? — indagou Thora, hostilmente.
— O encontro do planeta desaparecido que, segundo os cálculos finais do cérebro-robô, transita em rumo bem determinado pela galáxia.
— Absurdo! Mundo algum pode subsistir sem sol!
Havia piedade na voz de Rhodan quando falou:
— Thora, afinal você é uma cientista altamente qualificada; já devia ter percebido na muito tempo que estamos lidando com entes do mais elevado gabarito tecnológico os mais avançados do Universo. Gente que solucionou os derradeiros mistérios da natureza. Com toda minha sabedoria arcônida, nem com a melhor boa vontade eu conseguiria fazer de uma estrela, já em si imensa, uma nova. Os desconhecidos nos superam ilimitadamente.
— Ora, que dúvida! Claro que são superiores aos bárbaros terrestres!
Rhodan foi obrigado a rir. Thora voltava a velha chapa, a que costumava brandir quando esgotava os argumentos lógicos
— Certo, você tem toda a razão — suspirou ele. — Mas não lhe parece estranho que esses bárbaros tenham apreendido tão depressa a tecnologia arcônida?
Pouso em dois minutos! — guirichou o automático.
O rugido dos propulsores aumentou de volume. Em ângulo agudo a nave de guerra precipitava-se estrondosamente para o espaçoporto já à vista. Thora acabara se calando.
Apesar dos tremendamente elevados índices de frenagem, seus movimentos individuais não sofriam limitação alguma, pois os campos de deformação absorviam toda a pressão.
— Não adianta bater a porta! — berrou Bell, por sobre o ombro, para Thora. — Ela é de aço reforçado, com um metro de espessura! Crest abaixou a cabeça. Aquela expedição à remota região do sol terrestre representava a mais amarga decepção de toda a sua existência. A raça humana era jovem demais, excessivamente impulsiva e ávida por novos conhecimentos, para poder ser integralmente compreendida pelo rebento de uma raça em processo de degeneração. Mesmo assim, Crest esforçava-se por chegar a um nível de tolerância aceitável. Em seu mais recôndito íntimo, sabia de há muito que o homem estava em vias de assumir a herança do Grande Império. Pessoas como Rhodan pareciam talhadas para a tarefa. Descomprometidos e ansiosos por aprender, suportavam galhardamente os mais rudes golpes do destino. Era fácil imaginar que uma raça representada por tais espécimes seria capaz de arrancar o próprio universo dos eixos. Qualidades que os arcônidas tinham perdido há muito tempo, apesar de terem constituído outrora parte do patrimônio espiritual de seus remotos antepassados. Mas isso tudo era letra morta e esquecida.
A Stardust-III pousou com a violência de um meteoro gigante abatendo-se sobre o solo. A poucos metros do chão, a velocidade foi totalmente anulada. Nos pontos onde os jatos de impulso dos monstruosos propulsores, instalados no cinturão equatorial da nave, açoitavam o solo, formavam-se crateras de lava de apreciável diâmetro. Primeiro esmagando, e depois arrebentando o revestimento plástico duro como rocha do espaçoporto, as largas placas de pouso na extremidade dos pés telescópicos afundaram no chão. A Stardust-III retornava à primeira base cósmica de trocas da raça humana. Cerca de vinte e sete anos-luz separavam a imensa Vega do sol terrestre. Para naves do gabarito da Stardust-III isso não representava problema técnico.
Os propulsores foram parando, porém seguiu-se o turbilhão. Ondas de choque superaquecidas varriam ritmicamente o terreno plano, com tamanho ímpeto que chegavam a arrancar das rampas de lançamento pequenas naves ferrônias. Pousada, a nave esférica era o que sempre fora naquele espaçoporto: uma montanha subitamente aparecida, impossível de abranger com o olhar, de harmonia perfeita.
Dentro das naves auxiliares idênticas à Good Hope, que se aproximavam do gigante recém-aterrizado, os homens se encolhiam em instintiva reação.
O tenente Everson regulou os receptores de imagem para recepção normal, com um ar conformado. De estágio em estágio, circunspectamente, girou o botão da ampliação ótica para a direita. Mesmo assim, não pôde captar toda a imagem da nave pousada a apenas quinhentos metros de distância. Conseguiu focalizar apenas uma seção metálica da gigantesca esfera de oitocentos metros de diâmetro, cujo vulto preenchia totalmente o campo de visão lá fora.
— É, fomos novamente rebaixados a gafanhotos! — comentou, chateado. — Puxa, há alguns dias eu considerava os girinos espaçonaves mais do que respeitáveis! Ligeiramente deprimente isso, não acham?
Lançou um olhar ao capitão MacClears, afobado em envergar seu uniforme das grandes ocasiões.
— Graças a Deus que o velho está de volta! — suspirou MacClears. — Homem, me ajuda aqui!
— Estou com fome! — objetou Everson. — E viro pamonha quando meus requisitos biológicos fundamentais não recebem o devido atendimento. O fecho está dois milímetros à esquerda da pontinha de seus dedos.
MacClears praguejava escandalosamente. O tenente balançou a cabeça desconsolado.
— É isso aí, rapaz! — disse, com voz sepulcral. — Mas nem por isso você vai conseguir correr o fecho mais depressa. A gente devia mandar chamar um dos mutantes telecinetas.
— A obrigação de me ajudar é sua! — berrou o capitão, fora de si. — Tenho que ir para bordo sem demora. O velho me engole vivo se não der as caras lá dentro de cinco minutos!
— Uma trágica perda para a Humanidade, sem dúvida — replicou Everson. — Está bem, chegue para cá. Não estou em condições de levantar no momento.
Rindo às gargalhadas, Everson escutou xingamentos sem conta. Rhodan sabia muito bem que espécie de homens escolhera para tripular sua nave. Nada seria capaz de abalar aqueles homens temerários, a não ser que não lhes dessem nada para fazer. Everson e MacClears ilustravam claramente o espírito reinante no grupo de caça espacial. Digladiavam-se constantemente no dia-a-dia, mas se fundiam por assim dizer num só homem e numa só cabeça quando era preciso. E era isso que importava!

* * *

Os girinos foram recolhidos para bordo com a habitual presteza, exaustivamente treinada. A nave de guerra engolira as esferas espaciais com a mesma facilidade com que um sáurio gigante de Vênus devorava um marisco descuidado. Os girinos eram e ficavam sendo naves auxiliares.
Cerca de quinze minutos após o pouso, o Thort de Ferrol mandou anunciar sua presença. O sábio governante de um sistema solar gigantesco ainda ignorava que Rhodan era um terrano. Por obra do poderio tecnológico de que estava investido, passava por representante supremo do Grande Império. Só assim Rhodan pudera fundamentar psicologicamente as negociações. Dificilmente os ferrônios, ilimitadamente superiores aos homens sob todos os aspectos, teriam concordado em assinar um tratado comercial se estivessem a par da verdadeira situação reinante na Terra.
O baixo e atarracado Thort quase desaparecia na imensa central de comando da nave de guerra. Apesar de ser musculoso e robusto, via-se claramente que estava seriamente abatido. A pele azul-pálida da face miúda adquirira confrangedor tom acinzentado. O Thort envelhecera, curvado pela mágoa e pela dor. Mal se distinguiam os olhos afundados nas órbitas.
A aparência do Thort lançou Rhodan num mar de auto-recriminações. O ferrônio sabia que sua raça estava votada ao extermínio.
— Que tenciona fazer? — perguntou ele a Rhodan. — Poderia cooperar na evacuação, com sua imensa nave?
Os cientistas do Grande Conselho presentes fitavam ansiosamente o homem alto e magro em seu singelo uniforme. Rhodan sabia que teria que dizer palavras aparentemente amargas. Pigarreou para ganhar tempo. Os oficiais da Stardust-III procuravam disfarçar, fingindo-se de desinteressados.
John Marshall, um dos mutantes mais destacados do Exército de Mutantes, sondou discretamente o conteúdo mental do soberano ferrônio. Sem esforço algum, o bem treinado telepata podia ler os pensamentos de inteligências alienígenas. O Thort se preocupava apenas com sua raça. Não alimentava segundas intenções de espécie alguma.
Tudo em ordem!”, sinalizou Marshall para Rhodan.
Ainda mais deprimido, Rhodan começou:
— Senhor, seria inútil ajudar na evacuação. Mesmo com minha enorme nave, eu não poderia esvaziar os principais planetas habitados de seu reino. E os planetas externos, ainda não afetados por enquanto, também desapareceriam em caso de explosão do sol. Para onde levaria sua gente?
Num gesto de desamparo, o idoso ferrônio estendeu as mãos espalmadas para diante.
— Não sei... Eu contava com vocês!
— Seu sol se transformará numa bomba dentro de mais ou menos três semanas ferrônias. Peço-lhe que aceite meus argumentos. A única solução é fazer a estrela retornar à normalidade. Coisa que não está em meu poder. Mas encontrarei meios e maneiras de poupar vocês do pior.
O Thort empertigou-se; os ombros curvados se endireitaram.
— Meios e maneiras? — repetiu, esperançoso. — Vê alguma possibilidade?
— Sei exatamente quem são os causadores disso. Vou decolar imediatamente. Cancele, por favor, esses transportes que superam a capacidade de sua frota espacial. Cada ferrônio levado para os planetas externos enfrentará condições de vida extremamente desfavoráveis, sem o costumeiro amparo de sua civilização e tecnologia avançadas. Está automaticamente condenando sua gente à morte. Fique aqui, e espere.
Ele vai perguntar”, comunicou Marshall, apressadamente.
Rhodan, no entanto, prosseguiu, antes de ouvir a pergunta:
— Eu gostaria de poder contar com sua compreensão. Lamento, mas não devo nem posso revelar onde estão os causadores do incêndio da estrela. Mas hei de encontrá-los. Pode confiar em mim.
O Thort despediu-se, recebendo de Rhodan a mais respeitosa das continências que aprendera a executar, há muitos anos atrás, na academia de pilotos da Força Espacial dos Estados Unidos. Mas, ao ver se fechar a pesada porta blindada da central sobre o desesperado Thort, Bell emitiu um profundo suspiro.
— Puxa, dá até vontade de chorar! — resmungou, sombriamente. — Jamais encontraremos o segredo da vida eterna. Por que, então, lançamos os pobres ferrônios em tão angustiosa situação? Bem que teria sido dispensável...
— Excepcionalmente, concordo com você, bárbaro! — sibilou Thora.
Bell voltou-se, indignado. Dos fundos da central veio uma risada tão estridente que o rosto contraído de Bell se alisou instantaneamente. Nenhum homem normal seria capaz de emitir risos em escala tão elevada de vibrações.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html