Autor
K.
H. SCHEER
Tradução
MARIA
M. WÜRTH TEIXEIRA
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Gucky, o inteligente ser peludo do planeta Vagabundo, é o
responsável pelo involuntário desvio por Tuglan, antes de Perry Rhodan poder retornar
ao sistema Vega.
E, quando o senhor da Terceira Potência emerge do hiperespaço com
a possante Stardust-III, depara com um caos: Vega, o sol estável, está se
transformando em estrela nova!
Resta uma única possibilidade de salvar os ferrônios, caso seja
esta a intenção de Perry Rhodan: cumprir as tarefas restantes, impostas pelo
Imortal.
=
= = = = = = = = = Personagens
Principais: = = = = = = = = = =
Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell — Ministro da segurança da Terceira
Potência.
Manuel Garand — Engenheiro-chefe da
Stardust-III.
John Marshall — Membro do Exército de
Mutantes da Terceira Potência, telepata.
Betty Toufry — Membro do Exército de Mutantes
da Terceira Potência, telecineta.
Gucky — O
animal inteligente do planeta Vagabundo.
Thora e Crest — Dois arcônidas que Perry Rhodan
conduz ao objetivo desejado.
“Ele” ou “Aquilo” — Um ser despojado, há muito
tempo, do invólucro material.
No aparelho estava o engenheiro, Dr.
Manuel Garand. O murmúrio de uma voz de som quase irreal inundou o ambiente,
atingiu os órgãos dos sentidos transmissores e impôs-se ao cérebro, de onde
partiram as reações.
A rechonchuda face de querubim de Garand
irradiava contentamento interior.
Perry Rhodan sorriu inconscientemente. Não
havia o que criticar na aparência de Garand. Toda sua personalidade transmitia
otimismo, exercendo ação tranqüilizadora sobre os nervos de seus congêneres.
No entanto, a voz tinha som estranho.
Rhodan ficou escutando o insinuante cochicho até sentir a violenta onda de dor
lhe percorrer o corpo.
Um homem contorceu-se, gemendo na poltrona
de encosto alto do piloto. Duas mãos crisparam-se sobre os pulmões doloridos.
Tudo em vão, tão inútil quanto as torturadas exclamações de agonia ditadas pelo
subconsciente.
— Para onde quer que eu olhe, não vejo
nada que não seja perfeito! — disse Garand, solenemente.
Um espiralado clarão luminoso tomou o
lugar de seu rosto. Na tela só ficou um borrão branco acinzentado.
Perry Rhodan, senhor da Terceira Potência
e comandante da nave espacial de guerra Stardust-III, recuperou-se finalmente
da caótica confusão de sentidos resultante de uma transição em grande escala.
De repente viu claramente, e com assustadora objetividade. Dificilmente um
ambiente tecnificado poderia ter aparência aconchegante.
Abrindo os olhos, confuso, Rhodan percebeu
uma imagem palpitante nos refulgentes aparelhos à sua frente; levou alguns
instantes para reconhecer nela seu próprio rosto.
Reginald Bell, o capitão Klein e Crest
pareciam estar inconscientes. A única realidade palpável era a enorme central
de comando de uma nave ainda mais imensa.
— Alô, Garand! Está me ouvindo? —
balbuciou Rhodan, com dificuldade. — Alô, Garand! Que foi que disse há pouco?
A tela do intercom permaneceu vazia.
Manuel Garand, engenheiro-chefe da nave espacial, não tinha falado.
Perry Rhodan afugentou as últimas
alucinações. Seu cérebro voltou espontaneamente a raciocinar com clareza. Na
face havia tensão; os lábios deixaram escapar uma imprecação apenas murmurada.
Forçou o corpo entorpecido a deixar o assento do piloto. Nas amplas telas
panorâmicas dianteiras luzia um gigantesco sol.
Uma chamejante estrela azul, de
inacreditável luminosidade. Mesmo o sistema automático de filtragem parecia
deixar passar boa parte de intensa radiação ultravioleta. Os olhos de Rhodan
começaram a doer.
Seria Vega? Seria de fato o sol daquele
sistema planetário de onde tinham partido há pouco tempo, esta inflada bola de
fogo?
Uma onda de pânico descoloriu a face de
Rhodan. Sem se voltar sequer, berrou o nome do amigo:
— Bell!
Mas o homem atarracado não se mexia. Só o
rosto largo estremecia; o sistema nervoso perturbado causava reflexos
musculares incontroláveis.
Rhodan, classificado pelos psicólogos da
Força Espacial dos Estados Unidos, já há anos, como tipo psíquico de adaptação
imediata, reagiu com a precisão de uma máquina.
Sua mão calcou o botão vermelho-vivo do
sistema de alarma. Apesar de não poder avaliar imediatamente o que acontecera,
sua intuição lhe dizia de que se tratava.
Algo estava errado; alguma coisa saíra
exatamente ao contrário do que fora planejado. O salto através do plano
superior da quinta dimensão parecia ter dado certo. As pessoas inconscientes
dentro da vasta central da nave ainda podiam ser encaradas como estados de matéria
mais ou menos concebíveis e reais. Em hipersaltos de mais de trinta e cinco mil
anos-luz era bem possível que a rematerialização dos organismos totalmente
desintegrados acarretasse algumas complicações. Ele próprio estivera
aparentemente sem sentidos, só que voltara a si mais depressa.
A Stardust-III fora requisitada até o
limite máximo de sua capacidade de resistência. Por que esperar desempenho
melhor por parte dos homens?
Rhodan podia aguardar tranqüilamente o
despertar dos membros da tripulação. Pois tudo que parecia errado na situação
era aquela gigantesca estrela azul, que parecia pulsar fortemente, e
apresentava vaga semelhança com Vega.
O botão acionado por Rhodan desencadeara o
alarma para situações de catástrofe. Mesmo com os homens incapacitados para
qualquer reação, os robôs positrônicos da supernave de guerra se encarregariam
das providências necessárias.
— Determinar posição, baseando-se nos
valores das coordenadas da transição. Levar em conta tempo relativístico do
salto. Medir a estrela avistada, transmitir os valores. Estender sondas de
massa, a fim de localizar eventuais planetas. Fim. Avaliar imediatamente.
O cérebro-robô de bordo confirmou o
recebimento da programação a jato por via acústica. Nas profundezas da
gigantesca nave, as palavras foram transformadas em símbolos matemáticos,
fornecendo ao cérebro positrônico os elementos básicos para operar.
Rhodan lançou um olhar ao indicador de
controle do enorme robô. A máquina estava funcionando; portanto trabalhava.
Muito mais depressa do que todo um grupo de cientistas, ela diria se a
transição se processara de acordo com o desejado, onde se encontravam agora, e
o porquê da fenomenologia resultante.
Rhodan deixou-se cair novamente no pesado
assento de piloto. Os propulsores da nave esférica com oitocentos metros de
diâmetro roncavam de leve, com rendimento nulo. Só a estação de força no setor
B funcionava com capacidade plena. Sua tarefa era abastecer a gigantesca nave
com a corrente necessária ao funcionamento da inúmera aparelhagem auxiliar, e
dos anteparos protetores, gulosos devoradores de energia. Portanto, a reentrada
na estrutura habitual do espaço quadridimensional se efetuara com total êxito.
A Stardust-III disparou, logo depois, com velocidade quase idêntica à da luz na
direção do ainda distante sol.
A estrela brilhava nas telas fronteiras do
visor panorâmico em glorioso e quase irreal fulgor. Tremendas explosões
pareciam estar ocorrendo nela. As protuberâncias, fora do alcance das telas,
deviam projetar-se a fabulosas distâncias no espaço cósmico.
— Engulo a Stardust-III inteirinha, a
título de analgésico, se essa bola de fogo não virar bomba atômica tamanho
família daqui a pouco! — disse uma voz rouca e rascante.
Rhodan virou-se com um movimento brusco.
Reginald Bell devia ter acordado sem emitir um som. A cara larga e sardenta
parecia uma mancha de tinta desbotada. As cerdas dos cabelos cor de ferrugem
contrastavam ainda mais do que o habitual com a impressionante palidez da
testa.
Bell tossiu, repuxando para baixo os
cantos da boca.
— Dores? — indagou Rhodan, preocupado. —
Onde é que dói?
— Neca — replicou Bell, laconicamente. —
Sinto-me como o franguinho renitente que escapuliu da panela do cozinheiro no
último instante. Depenado, claro... Entende o que quero dizer?
Rhodan sorriu, divertido. Típico de Bell,
aquilo.
— A vizinhança ainda dorme, não é? —
grunhiu o homem atarracado. — Empreste-me sua seringa de energia, chefe. A
minha ficou guardada no armário de armas.
Rhodan franziu o cenho. Não estava
gostando do sorriso de Bell. Era fixo demais para ser natural.
— Para quê?
Gemendo, Bell se ergueu do assento do
co-piloto. Depois de lançar um breve olhar à fiel reprodução do sol flamejante,
disse, calmamente:
— Sinto muito, mas vou fuzilar Gucky. Já
deve ter percebido que o rato-castor nos pregou mais uma de suas peças. Na
transição anterior, que ia nos fazer transpor desprezíveis dois mil e
quatrocentos anos-luz e nos deixar em Vega, o bicharoco usou seu tremendo potencial
telecinético para nos jogar sem mais nem menos a trinta e cinco mil anos-luz no
hiperespaço, nos fazendo topar com uma raça inteligente que não tínhamos a
menor intenção de conhecer. Tempo perdido, entende? Tempo precioso e
irrecuperável, jogado fora num mundo que não é nem nosso, nem de ninguém.
Garanto que, pouco antes do salto, o rato-castor andou brincando de novo. Ele
simplesmente não pode deixar disso. Assim como eu não posso deixar de comer. É
inerente à natureza dele.
— Ora, ora...
Bell ficou rubro, e suas mãos rechonchudas
se crisparam.
— É, fique fazendo pouco! — reclamou. —
Você se encantou por esse bicho maluco. A ponto de esquecer os perigos em que
ele já nos meteu com sua clássica mania de brincar. Mas eu vou fuzilar aquele
gambá de beiços arreganhados!
— Ele vai fazer você olhar para dentro do
cano de sua arma — zombou Rhodan. — Não esqueça que Gucky é um ser inteligente.
A bordo de minha nave não se fuzila ninguém.
— Pouparia também o autor de um
assassinato em massa? O rato-castor poderia aniquilar a nave toda. Temos
quinhentas pessoas a bordo!
— Um assassino seria posto diante de um
tribunal de bordo. Gucky não é responsável por isso aí...
A mão de Rhodan abrangeu com um gesto
circular as telas. O sol inchava gradualmente. A avaliação do cérebro positrônico
ainda não chegara.
Mais adiante, à direita, sentava-se Crest,
o mais destacado cientista arcônida. O corpo magro, de estatura mais elevada do
que a comum, estava caído para a frente; os traços fisionômicos estavam
distorcidos. O brilho das multicoloridas sinaleiras luminosas arrancava
reflexos fluorescentes de seus cabelos brancos.
— Não agüentam grande coisa, esses
arcônidas — murmurou Rhodan, pensativo. — Alcançaram o extremo final de seu
ciclo positivo de evolução. Seu reino estelar se desintegra sob os golpes sucessivos
dos povos coloniais amotinados.
— Nós absorvemos a sabedoria arcônida, e
isso basta — rosnou Bell. — Crest veio procurar a vida eterna em nosso setor
espacial. Mas teve que fazer um pouso forçado na Lua, onde o encontramos. Com
os incríveis conhecimentos que nos transmitiu, erigimos a Terceira Potência.
Conseguimos evitar uma guerra atômica, unificar satisfatoriamente a Humanidade,
e extrair do chão, em pleno deserto de Gobi, uma supermoderna cidade, com avançadíssimas
instalações industriais. Tudo por conta da sabedoria arcônida. Certo, chefe,
sei disso tudo há séculos! Não fuja do assunto! Fizemos o possível e o
impossível, mas não podemos tornar inócuo um rato-castor biruta, equipado com
qualidades altamente perigosas, não é?
Rhodan pigarreou. Mais adiante, o capitão
Klein recuperava os sentidos. Gemendo, e de olhos vidrados, se endireitou na
poltrona.
— Humm!. — exclamou, perplexo, sem dizer
mais nada.
A nave voltava à vida. Alguém clamou, alto
e estridentemente, através do sistema de comunicação interna, que a
Stardust-III se precipitava para dentro de um sol. Instantes após, o ar junto à
poltrona de Rhodan começou a tremeluzir. Do nada emergiu Tako Kakuta, o mutante
japonês dotado da espantosa capacidade da teleportação. Com um sorriso inocente
acenou para o segundo astronauta, que se afastara num pulo.
— Um dia ainda acabo com você! — arfou o
indignado Bell, fora de fôlego. — Só falta você aterrizar em cima de minha
barriga, desastrado! Será que todo mundo ficou maluco por aqui?
Rhodan prestava atenção aos comunicados de
“Todos a postos!”, que chegavam, em
rápida sucessão, das diversas partes da nave.
Desta vez, era realmente o
engenheiro-chefe Garand quem falava. Com sua voz aguda, que parecia jubilar,
anunciou calmamente:
— Tudo em ordem, senhor — sorrindo,
indagou: — Alguém andou fazendo tolices por aqui?
— viu?! — exclamou Bell. — Ele pensa como
eu. Quem sabe aquele bicho é capaz de empurrar o enorme sol azul para fora de
nosso caminho, não acha?
Rhodan cortou o contato audiovisual com a
seção do engenheiro-chefe. Pelo visto, a situação a bordo não sofrerá alteração
alguma.
O Dr. Haggard entrara discreta e
silenciosamente na central. O medicamento estabilizador jorrou da pistola de
pressão para a circulação sangüínea de Crest.
— Muito instável... — comentou, baixinho.
— Thora ainda está bastante abalada. Que foi que houve? Nunca passei por
transição igual a essa.
— O limite de capacidade dos conversores
para o hipercampo situa-se em torno de trinta e cinco mil anos-luz. Arriscamos
a transposição num só salto. Jamais repetirei a experiência.
Haggard, o médico que curara a leucemia de
Crest com o novo soro descoberto, deu de ombros sem falar. O comandante devia
saber o que fazia. O treinamento hipnopédico arcônida lhe transmitira tudo que
a outrora ativa e empreendedora raça, tão semelhante à humana, criara e
desenvolvera.
— Se eu soubesse pelo menos onde estamos,
afinal! — lamuriou Klein, com voz rouca. Ainda falava com dificuldade. — Isto
aí é Vega?
O alarma se manifestou enquanto Rhodan
tentava ligar para a seção astronômica. O processo decorreu da forma usual,
sempre que o sistema de detecção positrônico fazia soar as sirenas sem
interferência humana.
Cabeças se levantaram para o alto,
escutando; conversas foram interrompidas, corpos até então relaxados enrijeciam
sob a ação de músculos reagindo puramente por reflexo.
Um bem treinado time de quinhentos homens
entrou em atividade febril. Dez segundos após o primeiro uivo das sirenas, as
pesadas portas blindadas da nave bélica encaixavam firmemente nos respectivos
lugares, hermeticamente vedadas. A avolumada esfera se transformara numa massa
mil vezes subdividida; sua resistência mecânica era indubitável. As naves
arcônidas gigantes do renomado tipo império não poderiam ser abatidas com um
único tiro. Nem mesmo com cinqüenta tiros!
Muito abaixo da central principal,
encravada no centro geométrico do invólucro externo, os reatores a fusão, de
construção arcônida, começaram a funcionar. Todas as estações de força
aumentaram a carga até o máximo de sua capacidade.
No incomensurável espaço vazio entre as
estrelas, as dimensões externas de uma nave só adquirem significação quando ela
é capaz de gerar em seu bojo a força necessária para alimentar propulsores,
armamento e aparelhagem secundária.
Rhodan viu os brilhantes pontinhos
luminosos luzirem em sua escala de controle. Os torretes armados da
Stardust-III foram projetados para fora automaticamente. Em seu posto de
comandante de tiro, Klein observava o surgir das pulsações dos ecos retornantes
nas telas registradoras.
A computação automática entrou em ação.
Naquele caos tecnificado o homem representava papel apenas subalterno.
— Detecção no setor verde, a 86,4 graus
horizontais e 22,8 graus verticais — guinchou a voz humanóide do
macrocalculador. Klein calcou um botão, ligando os sensores automáticos para
detecção de corpos estranhos.
— Central de armamento pronta para ação! —
anunciou, com voz impassível. Repentinamente raciocinava com a maior lucidez.
Uma calma irreal espalhou-se nas diversas
dependências. O equipamento automático cumprira sua função. Porém em última
instância a iniciativa ia depender do comandante.
Rhodan observava estaticamente as telas
frontais. Os corpos estranhos detectados pelos sensores mais rápidos do que a
luz deviam estar diretamente à frente, para a direita, em plano superior ao da
nave.
Segundos após chegavam mais informações. O
cérebro-robô concluíra seus cálculos.
— Avaliação
segundo instrução recebida oralmente, às 13:52 h, hora de bordo, do comandante
em pessoa. A nave se encontra no sistema Vega. Transição efetuada com absoluto
êxito. A estrela pulsante é a própria Vega, já conhecida. Foi determinado, com 100%
de certeza, que este sol está em vias de se transformar numa estrela nova.
Desaconselhável prosseguir no curso de aproximação. O processo ocorre com
rapidez anormal, totalmente em desacordo com os conhecimentos da ciência
astronômica. Mensagem encerrada.
Bell arregalou enormemente os olhos,
olhando perplexo para Rhodan, que demonstrava profunda preocupação.
— Nova? O quê? Vega pode ter se tornado,
no espaço de tão pouco tempo, uma pré-nova? Qual! Isso não existe! Processos
desta natureza costumam durar uma pequena eternidade!
Bell olhou em torno desalentado. Tomou
ciência, apenas superficialmente, do despertar do cientista arcônida. Crest,
porém, não tardou a apreender a situação. Sua constituição, diferente da dos
habitantes da Terra, sobrepujara instantaneamente a debilidade.
— Grande Império! Exatamente o que eu
receava! — murmurou ele.
Seus olhos vermelhos procuraram os de
Rhodan.
— O quê? — perguntou o comandante.
As fortes rugas entre o queixo e o nariz
tornaram-se ainda mais profundas.
— A última charada do imortal ameaça
explodir todo um sistema solar. Vega é ponto de referência essencial para o
cálculo posicional. Caso a estrela desapareça, jamais encontraremos a posição
do planeta procurado. Incendiar uma estrela! A que ponto ele chegou!
— E os ferrônios que habitam aqui? —
balbuciou Bell. — Os pobres-diabos vão torrar no planeta que está virando lava
incandescente. E as naves deles alcançam mal e mal a velocidade da luz. Nunca
conseguirão se pôr a salvo de seu sol que explode. Será que o imortal ficou
louco?
— Apenas chegamos um pouco tarde — disse
Rhodan, deprimido. — Tarde demais. A transição errada nos custou semanas. E
neste espaço de tempo, os fatos continuaram a acontecer. Crest, por favor,
determine o curso para o oitavo planeta. Manobra de volta de três minutos.
Grato...
Mais de quinhentas pessoas se entreolharam
dentro da nave. Os controles do armamento permaneceram intocados. Os corpos
estranhos detectados eram naves espaciais ferrônias. Os contornos externos em
forma de ovo eram tão inconfundíveis quanto o fato de que se tratava de uma
frota imensa, com mais de seiscentas unidades.
— Fogem para o planeta mais afastado —
gemeu Bell. — Meu Deus, o que foi que se passou por aqui?
Rhodan não respondeu. Parecia saber, ou
pelo menos adivinhar, o que sucedera naquela estrela de respeitáveis dimensões.
Exatamente três minutos após, os
propulsores da supernave de guerra começaram a rugir. A alteração de curso,
calculada positronicamente, implicava numa curva de correção de cerca de vinte
e um milhões de quilômetros, percorridos em velocidade próxima à da luz.
A flamejante Vega deslizou vagarosamente
para fora das telas frontais, onde sua imagem foi substituída pela profunda
escuridão do espaço interestelar, com sua multidão de estrelas. O oitavo
planeta de Vega, denominado Ferrol, ainda estava a sete bilhões de quilômetros
dali.
Depois de corrigir o curso, Rhodan
decidiu-se por uma transição curta, a velocidade acima da da luz. Mesmo voando
tão depressa quanto a luz, levariam cerca de sete horas para alcançar o oitavo
mundo do gigantesco sistema.
O espaço foi abalado quando a nave de
guerra sumiu por entre refulgente clarão luminoso. Era como se nunca tivesse
existido uma Stardust-III.
Era próprio dos sensores estruturais
arcônidas acusar instantaneamente qualquer alteração na conformação habitual do
espaço quadridimensional.
O hiperespaço, cujas leis totalmente
diferentes não admitiam o conceito tempo, transmitia no mesmo momento a onda de
choque provocada por corpos que nele penetravam.
Em conseqüência, as sonoras pragas de John
MacClears foram abafadas por um enervante estrondo. A central de seu módulo de
sessenta metros de diâmetro, nave auxiliar do tipo da Good Hope, parecia ter se
transformado de repente num veículo sacolejante e mal vedado. A
micro-sintonização dos sensores estruturais embutidos estourou; o setor de
macro-sintonização ameaçava se destruir igualmente, sob a repercussão tonitroante
dos sinais acústicos recebidos.
O pé de MacClears adiantou-se ao seu
pensamento; o comutador principal foi apertado para baixo. Os rugidos cessaram.
— Um abalo estrutural, não é? — comentou
impressionado o tenente Everson, comandante substituto do girino número 3. — Um
barulhão dos diabos, sem dúvida.
— Ora, não enche! — rosnou o capitão
MacClears.
Pachorrentamente, Everson deslocou o
imenso corpanzil para perto do sensor estrutural agora imprestável. Em tom
displicente, falou:
— Muito bem, vamos deixar a banheira em
condições de brigar. Parece que o tiroteio vai começar! E eu que achei que
tínhamos enxotado de vez aquelas crias de lagartixas do sistema Vega! Pelo
estouro, eu diria que o hiperespaço nos mandou dez naves das grandes de uma só
vez.
— Ou uma só, mas descomunal — resfolegou
MacClears, deixando-se cair exausto em seu assento de controle. O girino número
3 dispunha de uma tripulação de dez homens apenas. Ninguém contara seriamente
com o aparecimento de dificuldades daquela espécie.
MacClears era do grupo de jovens pilotos
espaciais a quem a Academia Espacial de Perry Rhodan dera o polimento final.
Outrora, seu mais ardente desejo era poder voar para a Lua, pelo menos uma vez
na vida, a bordo de um dos estrondeantes foguetes da Força Espacial dos Estados
Unidos. Até a Lua apenas... Sua ambição não ia além disso.
Perry Rhodan, ainda major da Força
Espacial, fora o primeiro homem a pousar no satélite terrestre com sua
tripulação. Naquela ocasião, MacClears era ainda um modesto tenente, sem
qualquer privilégio.
Situação rapidamente modificada depois de
concluir sua formação. Num período de apenas quatro anos Perry Rhodan criara a
Terceira Potência. E MacClears fora um dos primeiros oficiais a embarcar, sob o
comando de Rhodan, na Good Hope, a nave agora destruída. Assim fora parar no
sistema Vega. E presentemente via-se no comando de uma nave que algum tempo
atrás o deixara boquiaberto de espanto. A seu ver, o girino número 3
representava uma maravilha tecnológica, de dimensões titânicas. Maravilhosa ela
era, sem dúvida alguma; porém para ser chamada de titânica faltava-lhe tamanho.
Fato que MacClears acabava de constatar.
Já levara à boca o microfone do
telecomunicador, que funcionava com velocidade superior à da luz.
— MacClears a todos os girinos, urgente!
Cancelar imediatamente operação resgate. Reunir-se no espaçoporto de Ferrol.
Preparar para decolagem de emergência. Quero saber o que é que vem zunindo lá
de fora. Se for o chefe, demos graças a Deus. Em caso contrário, preparem-se
para enfrentar barulho. Fim.
Sete outras naves auxiliares confirmaram o
recebimento da mensagem. Em toda parte no oitavo planeta interrompeu-se o
trabalho de salvamento. Escotilhas blindadas eram fechadas, e propulsores
puseram-se a uivar.
Os habitantes daquele mundo corriam em
pânico das naves que decolavam. Seguiram-se cenas de desespero, ao perceber que
a única alternativa era refugiar-se apressadamente nas cidades e vias de
circulação subterrâneas, únicos pontos onde ainda era possível sobreviver.
Sobre o planeta Ferrol pairava uma bola de
sangue de tremendo potencial luminoso. Sempre sofrerá intensa radiação
ultravioleta, porém nunca tão violenta como agora.
Os comandantes das oito naves auxiliares
da Stardust-III sabiam perfeitamente que seria inviável evacuar a tempo seis bilhões
de ferrônios. Além disso, o aniquilamento atingiria o sistema inteiro, com
todos os seus quarenta e dois planetas, caso a até então pacífica Vega
estivesse realmente se transformando numa estrela nova. Os cientistas ferrônios
debatiam, perplexos, sobre a impossibilidade do fenômeno. Os fatos provavam exatamente
o contrário.
MacClears, cuja nave estava pousada no
imenso espaçoporto de Thorta, acompanhava no telecom a rápida decolagem das
demais naves. Em toda a parte havia transmissores ligados. Fazia-se muita
questão de se manter permanentemente em contato mútuo.
MacClears tinha os cabelos cor de fogo
grudados na testa. Emitia seus comandos com compreensível rispidez; ninguém
poderia recriminá-lo por seu nervosismo. Ao dispensar os oito girinos, já há
algum tempo pelo calendário terrestre, Perry Rhodan pusera MacClears no
comando. E infelizmente ninguém o liberara ainda do encargo. Pois Rhodan sumira
de repente, junto com a nave-mãe.
Everson remendava, resmungando, os
sensores estruturais arcônidas. Recebera treinamento hipnopédico apenas
suficiente para poder entender a função do aparelho. Delicadamente levou a
extremidade fundida de um cabo ao ponto de contato.
Luzes de controle vermelhas se acenderam.
A centelha ziguezagueante não perturbava um homem como Everson.
— Funciona! — exclamou ele, jubilante.
Um milisegundo mais tarde a coisa não funcionava
mais. Em troca, Everson foi violentamente lançado contra as pernas de um
soldado robô, parado num canto. O aparelho emitira um único e curto estalido.
Depois rendeu definitivamente seu hiper-freqüente espírito, a despeito dos
selecionados materiais arcônidas de que era feito.
— Quero ser mico se isso não é outra
transição! — lamentou-se Everson. — Da primeira vez, alguém emergiu do
hiperespaço. Lindo! E desta vez? Mas nada disso me obriga a ficar aqui jogado
no canto.
— MacClears, é você? — gemeu uma voz no alto-falante.
— Stardust-III para todos os girinos, onde quer que se encontrem no momento. Instruções:
Aterrizar imediatamente no espaçoporto de Thorta. Aprontar-se para recolhimento
a bordo, sem delongas. Estavam auxiliando na evacuação da população?
— Sim, senhor! — berrou MacClears no
microfone, com radiante sorriso. — As naves encontram-se todas em Ferrol.
Comuniquei-me já com os respectivos comandantes, assim que detectamos seu
salto.
— Sorte sua! — veio a lacônica resposta. —
Atrasamos um bocadinho. Esqueça, sim? Preciso de cada homem a bordo. Mais
perguntas?
MacClears teve a indefinida impressão de
que os acontecimentos se precipitavam. Sensação idêntica dominou o tenente
Everson.
— Sim, uma única — gritou o capitão,
nervoso. — Por que é que Vega começou a fazer papel de doida nos últimos trinta
e dois dias? Está virando nova!
— É mesmo?
MacClears engoliu em seco, aborrecido.
Everson abriu um largo sorriso. Se aquilo não era típico do velho, estava
disposto a voltar a pé para casa.
— Mas é verdade, senhor! — suspirou
MacClears. — Temos voado para o planeta mais afastado, dia após dia, levando ferrônios
para as bases ali existentes. O Thort vai ficar possesso se sumirmos de repente
com a nave de guerra. O regente continua aqui ainda. A temperatura média de
Ferrol subiu exatamente dezoito graus nestes trinta e dois dias. Não nos
aventuramos mais ao ar livre sem trajes de proteção; se decolarmos realmente, adeus
acordo comercial com o Thort.
— Se não decolarmos imediatamente, em
breve não existirá mais Thort algum, capitão MacClears — respondeu Rhodan
impassivelmente. — Siga minhas instruções. Farei uma rápida visita ao Thort.
Fim.
A ligação foi interrompida. Rhodan se
portara como se sua ausência tivesse durado apenas algumas poucas horas.
MacClears voltou-se vagarosamente. O
radiotelegrafista de plantão demonstrava espanto; o tenente Everson franzira o
cenho. Os homens entreolharam-se, confusos; MacClears murmurou, pensativo:
— Que será que ele queria dizer?
Everson ergueu de leve um ombro.
— Sei lá! Mas desconfio que a coisa tem
relação com aquele maluco jogo de charadas.
MacClears riu nervosamente. Depois
concedeu-se o primeiro cigarro em quatro semanas. Começava a sentir alívio. O
chefe estava de volta. Agora tudo estava em ordem.
* * *
Uma monstruosidade esférica, composta de
aço arcônida e energia concentrada, lançou-se através da atmosfera
incandescente do oitavo planeta de Vega. Perry Rhodan executava uma violenta
aterrizagem direta segundo o padrão arcônida. Isto é, dispensava a elipse
inicial de frenagem, fazendo a nave rumar diretamente para o corpo celeste.
Processo que só o produto de uma tecnologia excepcionalmente avançada tornava
possível.
Nas camadas superiores da atmosfera de
Ferrol formou-se tremendo turbilhão. Gases incandescentes e ionizados eram
arrancados com furiosa violência do trajeto do vôo, e comprimidos para o lado.
A Stardust-III tinha pista livre. E nem chegava a formar-se calor de fricção
sobre seu invólucro externo.
Em troca, ficava no rastro da nave um
imenso vácuo, no qual os gases antes expulsos se precipitavam com estrondo.
Nas centrais de força da supernave de
guerra rugiam os reatores, produzindo corrente. Rhodan fez os propulsores
girarem, com a taxa de retardamento de 20 km/s2. O que era
suficiente para frear a nave suspensa no campo antigravitacional. Só não era
possível evitar o aquecimento adicional das massas de ar já bastante quentes do
planeta tão achegado ao sol. Disso se encarregavam os flamejantes feixes de
impulsos que jorravam dos escapes dos jatos.
A pressa de Rhodan era justificada, mesmo
diante do cataclisma que parecia querer consumir todo um mundo lá embaixo.
Thora, a esbelta arcônida, derradeiro rebento
da dinastia outrora reinante em Árcon, estava de pé por trás do assento do
piloto. A arrogância de seu porte não conseguia disfarçar a inquietação de que
estava possuída. Sua estranha atração-repulsão por Perry Rhodan começara no
momento em que seu cruzador de pesquisa, forçado a pousar na Lua, fora
destruído por uma bomba de hidrogênio de fabricação terrestre. Thora conseguira
se salvar no último instante, a bordo de uma nave auxiliar, do tipo girino, com
sessenta metros de diâmetro. Como a nave, batizada com o nome de Good Hope,
fosse incapaz de vencer os trinta e quatro mil anos-luz até Árcon, sua pátria,
Thora vira-se à mercê da ajuda dos homens.
O ódio inicial por Rhodan desfizera-se
gradualmente. Só em ocasiões especiais é que o antigo sentimento voltava a se
manifestar. Como agora.
Vibrando de reprimida indignação,
encontrava-se junto a um homem que classificara de bárbaro subdesenvolvido, com
o cérebro de um macaco semi-inteligente, pouco após travar conhecimento com ele
na Lua. Porém houve modificações depois. A despeito da oposição maciça da
Humanidade, Rhodan constituíra um Estado soberano: a Terceira Potência. Um
feroz ataque oriundo dos confins da galáxia fora rechaçado.
Na Terra surgira agora, em moldes
arcônidas, portentosa obra. Há menos de um ano, os sensores estruturais
postados em Plutão tinham acusado vastos abalos espaciais no setor da estrela
Vega, a vinte e sete anos-luz de distância. Levado por profunda preocupação, e
receando que alienígenas mais poderosos descobrissem a ainda débil Terra,
Rhodan levantara vôo na pequena nave auxiliar, a fim de dar uma olhada. A
olhada acabara envolvendo-o em sério conflito com a raça reptilóide dos
tópsidas; com a ajuda de seu Exército de Mutantes, Rhodan conseguira
expulsá-los do sistema Vega.
Porém, Crest desejou depois conhecer o
segredo da conservação celular. Dirigira-se àquele distante setor da Via Láctea
a fim de procurar a vida eterna. O pouso na Lua fora puramente acidental,
forçado pelas circunstâncias. Nos planetas de Vega tinham dado com pistas do
mundo cujos habitantes diziam conhecer a conservação celular.
Rhodan, por sua vez, conseguira se
apoderar de uma supernave bélica arcônida. Seus mutantes a arrancaram das mãos
dos entes reptilóides, que a tinham tomado dos arcônidas.
A partir de então, toda a preocupação de
Rhodan se concentrara em solucionar as intrincadas charadas propostas por
inteligências desconhecidas. Alguém parecia muito interessado em examinar a
fundo as mentes empenhadas na descoberta de seus segredos.
Fora uma árdua tarefa, cujas diversas
fases haviam sobrecarregado incrivelmente os nervos de todos eles.
E agora, quando se julgavam prestes a encontrar
o desaparecido planeta da vida eterna, depois de retornarem de um involuntário
desvio, deparavam com um sol em chamas, em nada parecido com a estrela que
haviam visto de perto pela primeira vez há tão pouco tempo.
Thora remoía na lembrança os enervantes
acontecimentos vividos durante a caça às charadas galácticas, apresentadas por
uma inteligência que lhes era sem dúvida ilimitadamente superior. Sem os
mutantes de Rhodan, teriam perecido já em Gol, o planeta gigante. Os seres
constituídos de energia que o habitavam concediam escassa chance aos homens.
O mesmo se dera num mundo solitário
chamado Vagabundo, habitado pelos pitorescos ratos-castores. Eles seriam
completamente inofensivos, não fosse sua irreprimível tendência de aplicar a
incrível capacidade telecinética de que eram dotados. Brincavam com todo e
qualquer objeto ao seu alcance. Era o traço característico daqueles entes
providos de inteligência. E tinham brincado com o armamento.
Gucky, o rato-castor que, em Vagabundo, se
introduzira na nave, colocara Rhodan em sério risco. O atraso no retorno ao
sistema Vega era culpa exclusiva de Gucky.
Thora cerrou os lábios, amargurada. Sua
única reação ao discreto olhar perscrutador de Bell foi lançar arrogantemente a
cabeça para trás.
Caso Thora, a comandante do cruzador de
pesquisa aniquilado, alimentasse algum resquício de consideração por pessoa
nascida na Terra, o objeto dela só poderia ser Perry Rhodan. Lidar com ele era
como tocar em rocha viva.
— Se fosse você, eu iria mais devagar —
disse ela, incontida. — Deste jeito, vai arrasar extensas porções da
superfície.
Rhodan se limitou a erguer as
sobrancelhas. Impassível, continuou a ditar ordens para a casa de máquinas.
Depois fitou os ardentes olhos de Thora. Possuíam reflexos levemente
avermelhados, o que formava estranho contraste com o cabelo mais branco do que
louro. A arcônida era, realmente, uma mulher fascinante.
— Ferrol agüenta — replicou ele. — Vai ter
que desistir da planejada excursão. Decolamos assim que eu recolher a bordo as
naves auxiliares.
— Com uma nave arcônida do possante tipo
império — observou ela, com sarcasmo. — Uma nave que, de direito, é minha.
— Engano seu, minha cara. Seu dorminhoco
povo a perdeu para os tópsidas. Eu a tomei às lagartixas, pondo-a novamente em
condições de combater. O Império perdeu a Stardust-III quando ele caiu nas mãos
dos invasores. Parece-me que já discutimos durante horas a fio sobre o assunto,
não?
Crest sorriu com a suavidade habitual.
Nos seus olhos lia-se compreensão por
ambas as facções. Em voz baixa, e um tanto deprimida, disse:
— Rhodan, apesar de ter vindo para este
setor galático com a intenção de explorar um planeta misterioso, cheguei à
conclusão de que seria melhor desistir. Regressamos tarde demais, segundo seu
calendário terrestre.
— Bem que eu queria acabar com as manhas
daquele rato-castor — interrompeu Bell, acremente. — Mas não deixaram...
Seu olhar acusador alvejava o comandante.
— Uma coisa não tem nada com a outra —
apaziguou Crest, meneando vagarosamente a cabeça de testa alta; seu cérebro
suplementar, característica que o diferenciava dos homens, possuía o dom da
memória fotográfica. — Devíamos desistir, Rhodan, tornou a insistir Crest. —
Tenho certeza que os inteligentes imortais estão transformando Vega numa
pré-nova. Sabemos, por melancólica experiência própria, que todas as tarefas e
charadas tinham limite de tempo. Vega vai explodir. Perderemos o tão arduamente
determinado local de referência; sob o ponto de vista matemático, isso
significa que jamais acharemos o planeta errante.
Nas telas surgiram as primeiras cadeias de
montanhas, aproximando-se com alucinante rapidez. A Stardust-III ainda
sobrevoava Ferrol em vertiginosa velocidade.
— Mesmo que eu quisesse desistir, não me
resta outra escolha a não ser esvaziar a taça até o amargo fim, Crest.
Puramente por culpa e curiosidade nossa, por nosso ambicioso desejo de conhecer
o maior segredo biológico da onipotente natureza, Vega se transformou em tocha
ardente. E eu não tenho condições de resgatar alguns bilhões de ferrônios.
— Criaturas subdesenvolvidas — interveio
Thora, friamente. Tornava a ser a descendente da dinastia arcônida. Aquela
gente devia alimentar conceitos bastante estranhos!
Funda ruga surgiu entre as sobrancelhas de
Rhodan. Mordazmente replicou:
— Grato pelo esclarecimento, madame! É
traço inerente à natureza dos homens prestar auxílio sempre que puder. Sob este
aspecto, parecemos ser bem diferentes! Minha consciência me força a fazer todo
o possível, mas tudo realmente, para salvar os ferrônios ameaçados. Os planetas
de Vega se dissolverão em lava ardente assim que a estrela entrar em erupção ativa.
Ainda nos resta um pouco de tempo, mesmo que se trate de processo provocado
artificialmente, com decurso milhões de vezes mais acelerado do que o natural.
Só poderemos socorrer os ferrônios se resolvermos nossa derradeira tarefa.
— E qual seria ela? — indagou Thora,
hostilmente.
— O encontro do planeta desaparecido que,
segundo os cálculos finais do cérebro-robô, transita em rumo bem determinado
pela galáxia.
— Absurdo! Mundo algum pode subsistir sem
sol!
Havia piedade na voz de Rhodan quando
falou:
— Thora, afinal você é uma cientista
altamente qualificada; já devia ter percebido na muito tempo que estamos
lidando com entes do mais elevado gabarito tecnológico os mais avançados do
Universo. Gente que solucionou os derradeiros mistérios da natureza. Com toda
minha sabedoria arcônida, nem com a melhor boa vontade eu conseguiria fazer de
uma estrela, já em si imensa, uma nova. Os desconhecidos nos superam
ilimitadamente.
— Ora, que dúvida! Claro que são
superiores aos bárbaros terrestres!
Rhodan foi obrigado a rir. Thora voltava a
velha chapa, a que costumava brandir quando esgotava os argumentos lógicos
— Certo, você tem toda a razão — suspirou
ele. — Mas não lhe parece estranho que esses bárbaros tenham apreendido tão
depressa a tecnologia arcônida?
— Pouso
em dois minutos! — guirichou o automático.
O rugido dos propulsores aumentou de
volume. Em ângulo agudo a nave de guerra precipitava-se estrondosamente para o
espaçoporto já à vista. Thora acabara se calando.
Apesar dos tremendamente elevados índices
de frenagem, seus movimentos individuais não sofriam limitação alguma, pois os
campos de deformação absorviam toda a pressão.
— Não adianta bater a porta! — berrou
Bell, por sobre o ombro, para Thora. — Ela é de aço reforçado, com um metro de
espessura! Crest abaixou a cabeça. Aquela expedição à remota região do sol
terrestre representava a mais amarga decepção de toda a sua existência. A raça
humana era jovem demais, excessivamente impulsiva e ávida por novos
conhecimentos, para poder ser integralmente compreendida pelo rebento de uma
raça em processo de degeneração. Mesmo assim, Crest esforçava-se por chegar a
um nível de tolerância aceitável. Em seu mais recôndito íntimo, sabia de há
muito que o homem estava em vias de assumir a herança do Grande Império.
Pessoas como Rhodan pareciam talhadas para a tarefa. Descomprometidos e
ansiosos por aprender, suportavam galhardamente os mais rudes golpes do
destino. Era fácil imaginar que uma raça representada por tais espécimes seria
capaz de arrancar o próprio universo dos eixos. Qualidades que os arcônidas tinham
perdido há muito tempo, apesar de terem constituído outrora parte do patrimônio
espiritual de seus remotos antepassados. Mas isso tudo era letra morta e
esquecida.
A Stardust-III pousou com a violência de
um meteoro gigante abatendo-se sobre o solo. A poucos metros do chão, a
velocidade foi totalmente anulada. Nos pontos onde os jatos de impulso dos
monstruosos propulsores, instalados no cinturão equatorial da nave, açoitavam o
solo, formavam-se crateras de lava de apreciável diâmetro. Primeiro esmagando,
e depois arrebentando o revestimento plástico duro como rocha do espaçoporto,
as largas placas de pouso na extremidade dos pés telescópicos afundaram no
chão. A Stardust-III retornava à primeira base cósmica de trocas da raça
humana. Cerca de vinte e sete anos-luz separavam a imensa Vega do sol
terrestre. Para naves do gabarito da Stardust-III isso não representava
problema técnico.
Os propulsores foram parando, porém
seguiu-se o turbilhão. Ondas de choque superaquecidas varriam ritmicamente o
terreno plano, com tamanho ímpeto que chegavam a arrancar das rampas de
lançamento pequenas naves ferrônias. Pousada, a nave esférica era o que sempre
fora naquele espaçoporto: uma montanha subitamente aparecida, impossível de
abranger com o olhar, de harmonia perfeita.
Dentro das naves auxiliares idênticas à
Good Hope, que se aproximavam do gigante recém-aterrizado, os homens se
encolhiam em instintiva reação.
O tenente Everson regulou os receptores de
imagem para recepção normal, com um ar conformado. De estágio em estágio,
circunspectamente, girou o botão da ampliação ótica para a direita. Mesmo
assim, não pôde captar toda a imagem da nave pousada a apenas quinhentos metros
de distância. Conseguiu focalizar apenas uma seção metálica da gigantesca
esfera de oitocentos metros de diâmetro, cujo vulto preenchia totalmente o
campo de visão lá fora.
— É, fomos novamente rebaixados a gafanhotos!
— comentou, chateado. — Puxa, há alguns dias eu considerava os girinos
espaçonaves mais do que respeitáveis! Ligeiramente deprimente isso, não acham?
Lançou um olhar ao capitão MacClears,
afobado em envergar seu uniforme das grandes ocasiões.
— Graças a Deus que o velho está de volta!
— suspirou MacClears. — Homem, me ajuda aqui!
— Estou com fome! — objetou Everson. — E
viro pamonha quando meus requisitos biológicos fundamentais não recebem o
devido atendimento. O fecho está dois milímetros à esquerda da pontinha de seus
dedos.
MacClears praguejava escandalosamente. O
tenente balançou a cabeça desconsolado.
— É isso aí, rapaz! — disse, com voz sepulcral.
— Mas nem por isso você vai conseguir correr o fecho mais depressa. A gente devia
mandar chamar um dos mutantes telecinetas.
— A obrigação de me ajudar é sua! — berrou
o capitão, fora de si. — Tenho que ir para bordo sem demora. O velho me engole
vivo se não der as caras lá dentro de cinco minutos!
— Uma trágica perda para a Humanidade, sem
dúvida — replicou Everson. — Está bem, chegue para cá. Não estou em condições
de levantar no momento.
Rindo às gargalhadas, Everson escutou
xingamentos sem conta. Rhodan sabia muito bem que espécie de homens escolhera
para tripular sua nave. Nada seria capaz de abalar aqueles homens temerários, a
não ser que não lhes dessem nada para fazer. Everson e MacClears ilustravam
claramente o espírito reinante no grupo de caça espacial. Digladiavam-se
constantemente no dia-a-dia, mas se fundiam por assim dizer num só homem e numa
só cabeça quando era preciso. E era isso que importava!
* * *
Os girinos foram recolhidos para bordo com
a habitual presteza, exaustivamente treinada. A nave de guerra engolira as
esferas espaciais com a mesma facilidade com que um sáurio gigante de Vênus
devorava um marisco descuidado. Os girinos eram e ficavam sendo naves
auxiliares.
Cerca de quinze minutos após o pouso, o
Thort de Ferrol mandou anunciar sua presença. O sábio governante de um sistema
solar gigantesco ainda ignorava que Rhodan era um terrano. Por obra do poderio
tecnológico de que estava investido, passava por representante supremo do
Grande Império. Só assim Rhodan pudera fundamentar psicologicamente as
negociações. Dificilmente os ferrônios, ilimitadamente superiores aos homens
sob todos os aspectos, teriam concordado em assinar um tratado comercial se
estivessem a par da verdadeira situação reinante na Terra.
O baixo e atarracado Thort quase
desaparecia na imensa central de comando da nave de guerra. Apesar de ser
musculoso e robusto, via-se claramente que estava seriamente abatido. A pele
azul-pálida da face miúda adquirira confrangedor tom acinzentado. O Thort envelhecera,
curvado pela mágoa e pela dor. Mal se distinguiam os olhos afundados nas
órbitas.
A aparência do Thort lançou Rhodan num mar
de auto-recriminações. O ferrônio sabia que sua raça estava votada ao
extermínio.
— Que tenciona fazer? — perguntou ele a
Rhodan. — Poderia cooperar na evacuação, com sua imensa nave?
Os cientistas do Grande Conselho presentes
fitavam ansiosamente o homem alto e magro em seu singelo uniforme. Rhodan sabia
que teria que dizer palavras aparentemente amargas. Pigarreou para ganhar
tempo. Os oficiais da Stardust-III procuravam disfarçar, fingindo-se de
desinteressados.
John Marshall, um dos mutantes mais
destacados do Exército de Mutantes, sondou discretamente o conteúdo mental do
soberano ferrônio. Sem esforço algum, o bem treinado telepata podia ler os
pensamentos de inteligências alienígenas. O Thort se preocupava apenas com sua
raça. Não alimentava segundas intenções de espécie alguma.
“Tudo
em ordem!”, sinalizou Marshall para Rhodan.
Ainda mais deprimido, Rhodan começou:
— Senhor, seria inútil ajudar na
evacuação. Mesmo com minha enorme nave, eu não poderia esvaziar os principais
planetas habitados de seu reino. E os planetas externos, ainda não afetados por
enquanto, também desapareceriam em caso de explosão do sol. Para onde levaria
sua gente?
Num gesto de desamparo, o idoso ferrônio
estendeu as mãos espalmadas para diante.
— Não sei... Eu contava com vocês!
— Seu sol se transformará numa bomba
dentro de mais ou menos três semanas ferrônias. Peço-lhe que aceite meus
argumentos. A única solução é fazer a estrela retornar à normalidade. Coisa que
não está em meu poder. Mas encontrarei meios e maneiras de poupar vocês do
pior.
O Thort empertigou-se; os ombros curvados
se endireitaram.
— Meios e maneiras? — repetiu,
esperançoso. — Vê alguma possibilidade?
— Sei exatamente quem são os causadores disso.
Vou decolar imediatamente. Cancele, por favor, esses transportes que superam a
capacidade de sua frota espacial. Cada ferrônio levado para os planetas
externos enfrentará condições de vida extremamente desfavoráveis, sem o
costumeiro amparo de sua civilização e tecnologia avançadas. Está automaticamente
condenando sua gente à morte. Fique aqui, e espere.
“Ele
vai perguntar”, comunicou Marshall, apressadamente.
Rhodan, no entanto, prosseguiu, antes de
ouvir a pergunta:
— Eu gostaria de poder contar com sua
compreensão. Lamento, mas não devo nem posso revelar onde estão os causadores
do incêndio da estrela. Mas hei de encontrá-los. Pode confiar em mim.
O Thort despediu-se, recebendo de Rhodan a
mais respeitosa das continências que aprendera a executar, há muitos anos
atrás, na academia de pilotos da Força Espacial dos Estados Unidos. Mas, ao ver
se fechar a pesada porta blindada da central sobre o desesperado Thort, Bell
emitiu um profundo suspiro.
— Puxa, dá até vontade de chorar! —
resmungou, sombriamente. — Jamais encontraremos o segredo da vida eterna. Por que,
então, lançamos os pobres ferrônios em tão angustiosa situação? Bem que teria
sido dispensável...
— Excepcionalmente, concordo com você,
bárbaro! — sibilou Thora.
Bell voltou-se, indignado. Dos fundos da central
veio uma risada tão estridente que o rosto contraído de Bell se alisou
instantaneamente. Nenhum homem normal seria capaz de emitir risos em escala tão
elevada de vibrações.

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