sábado, 20 de outubro de 2012

P-016 - Os Espíritos de Gol - Kurt Mahr [parte 3]


Haveria alguma relação entre esses fatos? Seria a energia utilizada nas transmissões do desconhecido aquela pela qual o major Nyssen procurava há várias horas?
Crest chamou.
— Rhodan, nestas circunstâncias... ainda pretende passar por aí?
— Se pretendo! — asseverou Rhodan. — Praticamente não existem envoltórios energéticos em torno dos nossos carros; quer dizer que não há quase nada que possa aguçar o apetite desses seres luminosos.
Esperava que ninguém percebesse a mentira. Os seres luminosos haviam engolido os raios infravermelhos do holofote, que continham pouca energia. Por isso era de esperar que demonstrassem um interesse bem maior por um campo de neutralização gravitacional, que era muito mais substancioso.
Mas Rhodan teve uma idéia.                
— Coluna marcha! — ordenou em tom seco.
Seu carro continuou na ponta. Numa velocidade moderada aproximou-se do front armado pelos seres luminosos, que continuavam a dançar aos milhares na escuridão do vale.
Rhodan desligara o holofote. Podia sentar-se pelas figuras luminosas.
— O que está fazendo a esfera atrás de nós? — perguntou, dirigindo-se a Bell.
— A mesma coisa que vem fazendo o tempo todo — respondeu este. — Dança e balança.
— Não notou nada de especial?
— Nada.
Seu carro atingiu a primeira linha dos seres luminosos. Dali em diante não teve tempo para pensar em outra coisa além dos problemas que exigiam sua atenção imediata.
De início os seres luminosos pareciam não tomar conhecimento da presença dos carros. Mantinham entre si uma distância suficiente para permitir a passagem confortável dos pesados veículos.
— Então! — disse Bell admirado. — Nem são tão ruins como parecem!
Rhodan fez girar a lente do rastreador ótico. Haviam penetrado tão profundamente no front que não se via mais nenhum terreno livre. Na frente, dos lados, atrás, em todos os pontos, as superfícies luminosas daquelas inconcebíveis criaturas energéticas executavam seus movimentos indolentes.
Rhodan cerrou os dentes.
Olhou para o relógio: dez minutos haviam passado.
Sabia que a boa sorte de passarem incólumes entre as fileiras dos seres luminosos não duraria muito. A qualquer hora chegaria ao fim; mas quando?
Quinze minutos.
— Já consegue enxergar o fim? — perguntou a Bell.
— Ainda não.
A visão que se descortinava diante do carro ainda era idêntica à que se lhes oferecera no momento em que haviam penetrado naquele front.
A área do vale era imensa, e todo ele parecia estar repleto das criaturas luminosas.
Rhodan gostaria de saber por que haviam escolhido justamente essa área como ponto de reunião, e não qualquer outra. Haveria por aqui alguma coisa que os atraía? Ou teriam desenvolvido, tal qual as inteligências normais, um tipo de hábito que os fazia encontrarem-se sempre no mesmo lugar?
Vinte e cinco minutos.
Rhodan não avançara muito depressa. Sua preocupação principal não consistia em atravessar a linha daquelas manchas de névoa luminosa. Estava interessado principalmente em realizar uma experiência. Acreditava dispor de meios para evitar que seus homens corressem qualquer risco em virtude da experiência.
Trinta minutos.
Desde o início da experiência haviam percorrido uns dezoito quilômetros. O terreno pouco acidentado teria permitido uma velocidade muito maior.
A coisa começou aos trinta e dois minutos.
Rhodan foi o primeiro a perceber que as manchas de névoa luminosa encontravam-se menos distantes uma da outra como poucos minutos antes. Era necessário realizar manobras vigorosas para passar entre elas sem provocar colisões.
— Todas as peças prontas para disparar! — ordenou Rhodan.
Ouvia-se a respiração pesada de Crest.
— Qual será o alvo? Não venha me dizer que pretende atirar nesses seres energéticos.
— Isso mesmo. Prestem atenção: concentraremos o fogo de todas as peças, com exceção dos tubos de oxigênio, por enquanto, num ponto situado aproximadamente na altura do carro de Crest, e que fica a uns duzentos metros a oeste da linha imaginária que une nossos carros. Aguardem a ordem de abrir fogo. Ninguém deve disparar antes da hora.
Não tinha a intenção de fazer segredo; mas não havia tempo para explanações. Os seres luminosos juntaram-se numa linha quase compacta, Rhodan imaginava o que aconteceria nos próximos segundos.
Tanaka Seiko desmaiou; seu cérebro não resistiu à estafa.
Rhodan não tinha alternativa. O front fechara-se diante dele. Se quisesse prosseguir, teria de atravessar a cortina luminosa formada por aqueles seres.
Não hesitou. Na sua opinião o corpo dos seres energéticos pertencia a uma categoria espacial superior, e a luz que irradiavam não faria mal aos veículos.
— Anne, assuma o controle dos geradores!
Rhodan teve de repetir a ordem para despertar Anne do torpor em que se achava mergulhada.
— Não tenha medo, minha filha! — disse com um sorriso, ao ver seu rosto pálido.
Foi então que aconteceu.
Houve um solavanco, e o carro parou. Não é que alguém o segurasse, mas o motor já não estava em condições de deslocar o peso do veículo.
— Aumente a potência, Anne! — fungou Rhodan.
Contara com um efeito menos intenso. Sabia que os seres luminosos haviam começado a saciar seu apetite no campo de neutralização gravitacional do veículo.
Fizeram-no com uma voracidade incrível. A cada segundo que passava a força gravitacional no interior do carro crescia vertiginosamente. Já era de 9 g, segundo seus cálculos.
Lembrou-se de Crest e de seu organismo arcônida, que já não estaria em condições de suportar tamanha pressão.
— Fogo! Disparem todas as peças!
Deringhouse manipulou a chave. Por alguns segundos a armação do carro vibrou com o raio energético superpotente do desintegrados O radiador de nêutrons trabalhava com um zumbido fino, e o canhão de impulsos térmicos completava o concerto com um ruído surdo.
Na tela Rhodan percebeu que os outros carros também haviam reagido ao seu comando. Raios energéticos brilhantes partiam dos veículos e penetravam na confusão das figuras luminosas, cruzando-se na distância que Rhodan fixara antecipadamente.
Demorou algum tempo até que surgisse o efeito esperado por Rhodan.
O tempo, durante o qual a pressão aflitiva parecia manter presos os ocupantes dos veículos, mostrou-se interminável. Na verdade tudo não durara mais que alguns minutos, conforme Rhodan pôde verificar no relógio.
Finalmente a pressão começou a ceder.
Ao mesmo tempo o front compacto dos seres luminosos começou a desintegrar-se diante de Rhodan. Surgiu uma brecha, e na voz de comando de Rhodan era perceptível o triunfo:
— Vamos adiante! Velocidade máxima!
O carro saiu aos solavancos. Ainda não voltara ao peso primitivo. Alguns poucos entre os seres luminosos ainda não haviam percebido que em outro ponto, situado a duzentos metros ao oeste, na altura do carro do meio, dispunham de uma substância muito mais abundante para saciar a fome que a representada pelos débeis campos antigravitacionais dos veículos.
Mas a cada segundo que passava o carro ficava mais leve, sua velocidade aumentava, até que disparou à velocidade máxima. Os seres luminosos concentravam-se em outro ponto. Embora o foco dos disparos das peças montadas nos veículos se deslocasse com a mesma rapidez destes, aquelas criaturas preferiram evidentemente saciar seu apetite na fonte mais abundante, já que tinham de optar entre duas fontes móveis.
Quarenta e um minutos depois de se terem aventurado para dentro da linha dos seres luminosos os carros romperam o front na extremidade oposta. Subitamente a escuridão cinzenta voltou a estender-se diante do veículo de Rhodan, e este teve de executar um giro de quase cento e oitenta graus no receptor de seu rastreador ótico para enxergar os seres luminosos.
— Passamos! — exultou Reginald Bell no intercomunicador.
Rhodan sorriu com a alegria indômita expressa através do grito de Bell, e com a sensação de alívio de que se sentiu possuído depois da experiência bem sucedida.
Os seres luminosos eram criaturas pertencentes a um mundo de ordem superior; mas um punhado de homens — seres simplórios cujo cérebro era tão pequeno que nem conseguiam visualizar problemas relacionados ao espaço quadridimensional, e que não emitiam qualquer tipo de radiação com seus corpos desengonçados, além do infravermelho de seu reduzido calor orgânico — conseguiram iludi-los.
Os seres luminosos não fizeram menção de perseguir os veículos. Rhodan ordenou aos outros carros que continuassem a disparar, mas deslocassem o foco dos raios para o norte.
As manchas de névoa luminosa reuniram-se naquele ponto, continuando a devorar energia e a crescer. Os canhões dos três carros desprenderam uma quantidade enorme de energia, umas dez mil vezes mais que aquela que os seres luminosos poderiam captar se avançassem sobre os campos antigravitacionais dos veículos.
Esse fato influiu em seu tamanho. À medida que absorviam energia, o front tornava-se mais alto e a luminosidade mais intensa.
Os canhões continuaram a disparar radiações por mais quinze minutos. Depois Rhodan mandou suspender o fogo e esperou.
Subitamente os seres luminosos pararam de crescer. Por um instante a massa deles executou um movimento turbilhonante; parecia que procuravam as travessas recheadas que de repente alguém retirara de junto de suas bocas ávidas de energia.
Mas os carros já se encontravam tão longe que já não poderiam notar os débeis campos antigravitacionais que os envolviam. Por alguns minutos saltitaram desordenadamente, depois pararam. Tiveram seu repasto e cresceram para o dobro do seu tamanho. Agora havia chegado o fim! Rhodan girou o receptor.
— Como estão as coisas à nossa frente? — perguntou.
O holofote foi ligado. Quando Rhodan começou a girá-lo, o facho luminoso deslizou por uma encosta não muito íngreme. O pé da montanha distava menos de cem metros do carro.
Rhodan respirou profundamente. Os que o ouviam aguardavam nova ordem que representaria uma carga pesada para seus nervos. Mas Rhodan limitou-se a dizer:
— A montanha está à nossa frente!
Colocou tamanha ênfase na palavra, que todos sabiam a que montanha se referia.

6



Depois de uma busca de meia hora realizada à luz reunida dos três holofotes, todos tinham certeza de que aquilo que se encontrava sobre aquele morro, ou dentro dele, não devia ser procurado ao pé da encosta norte.
Concordaram com a sugestão de Rhodan, segundo o qual os carros deviam subir pelo morro o mais que pudessem.
Rhodan estava convencido de que numa altitude maior encontraria aquilo que procurava. Ainda acreditava firmemente que o desconhecido lhe forneceria alguma indicação sobre o lugar do esconderijo, ou que não haveria esconderijo algum, tratando-se de alguma coisa fácil de encontrar desde que ficasse de olhos abertos.
A encosta norte da imensa montanha ofereceu poucas dificuldades aos veículos.
Além disso, os seres nebulosos mantinham-se calmos no fundo do vale e a esfera luminosa que os seguira há horas desistira.
A uns dois mil metros acima do nível do vale a inclinação da encosta tornou-se ainda menor até terminar num planalto de dimensões espantosas. Por onde quer que girasse o holofote, Rhodan só encontrava o vazio, o que provava que numa extensão de mil metros em torno dele não havia qualquer matéria sólida, nenhum paredão, nenhuma encosta, nada além do terreno plano em que se encontravam os carros.
Rhodan decidiu fazer uma pausa.
Chamou a Stardust.
Thora respondeu imediatamente.
Conforme suas ordens, a nave subira do solo, mantendo-se imóvel numa altitude de dois mil quilômetros.
Rhodan informou a comandante sobre os acontecimentos dos últimos noventa minutos e concluiu desta forma:
— Isso significa que descobrimos dois fatos de suma importância, um deles se tornou plausível, outro foi demonstrado. A faculdade de reagir a fenômenos que se desenrolam exclusivamente no espaço de três dimensões é muito reduzida nos seres energéticos. Levaram mais de meia hora para perceber que estávamos passando entre eles e que tínhamos alguma coisa com que podiam saciar a fome. O fato que tornamos plausível é a lentidão de suas reações. Provamos que realmente se alimentam de energia. Antes de mais nada, não conhecem quaisquer escrúpulos de ordem moral e provavelmente não têm noção do dano que causam com sua voracidade. Agarram o que encontram.
“Acredito que, se é que tal idéia pode ser aplicada a seres desse tipo, na verdade são criaturas sem inteligência. Thora, antes de prosseguirmos gostaria de realizar outra experiência, se não tiver nenhuma objeção.”
— Que experiência é essa? — perguntou Thora.
— Deve estar lembrada de que o ataque à Stardust cessou no instante em que o desconhecido começou a transmitir e nosso antigo sensor estrutural captou o sinal.
— Sim, naturalmente.
— Pois bem. Ligue o instrumento adaptado a uma corrente bem forte. Transmita com ele com a potência máxima que puder suportar e dirija as emissões sobre os seres luminosos. Gostaria de conhecer a reação deles.
A idéia nunca ocorrera a Thora, embora estivesse na palma da mão.
— Para isso terei que descer, não é? — perguntou um tanto teimosa e contrariada por sua falta de capacidade de perceber coisas que se encontravam diante do seu nariz.
— Perfeitamente! — respondeu Rhodan em tom sério. — Se fizer o sensor estrutural funcionar a plena carga, gerará um alcance de pelo menos cinco quilômetros. Não precisa descer mais que isso. Outra coisa!
— O que é?
— Mergulhe o terreno em luz infravermelha. Nossa visão está muito fraca.

* * *

Será que você o compreenderá algum dia?”, perguntou Thora de si para si.
O que teria feito se estivesse no lugar de Rhodan? Ficaria satisfeita por ter escapado aos seres luminosos e seguir pelo caminho mais rápido em direção ao objetivo. Quanto antes o alcançasse, melhor para todos que participavam do empreendimento.
E o que fazia ele? Intercalava uma pausa, como se estivesse realizando um passeio ou uma excursão; e, para júbilo dos espectadores, realizava uma experiência com os seres luminosos, cujo perigo mortal todos já haviam experimentado.
Era impossível compreender Rhodan: sua atividade incansável, seu espírito implacável diante de si mesmo e dos outros, a extrema agilidade do seu pensamento e sua capacidade espantosa de passar diretamente de um assunto muito sério para uma brincadeira ou mesmo uma atitude marota.
Thora sacudiu a cabeça e pôs a Stardust-III em movimento.
Cautelosamente, como da primeira vez, a nave mergulhou na atmosfera turbilhonante de Gol e foi perdendo altitude.
Thora sabia perfeitamente no que teria de prestar atenção. De quatrocentos quilômetros para baixo surgia o perigo: os seres luminosos poderiam tentar saciar sua fome nos envoltórios protetores, que representavam um verdadeiro manancial de energia. Ao que parecia, podiam afastar-se até essa distância da superfície do imenso planeta.
O sensor estrutural adaptado fora instalado. Estava em condições de emitir com uma potência de dois megawats; era o máximo que suas peças sensíveis poderiam suportar.
Thora fitou a caixinha, absorta em pensamentos.
Rhodan! Era o homem que desmontara um sensor estrutural arcônida e voltara a montá-lo de tal forma que era capaz de fazer uma coisa desconhecida mesmo para a física dos arcônidas.
— Faltam quatrocentos mil metros, madame! — anunciou o encarregado da vigilância.
Thora sobressaltou-se. Estavam entrando na zona de perigo; e o medo começou a surgir nela.

* * *

— A Stardust! — murmurou Deringhouse.
Uma névoa branca e transparente foi entrando na tela, vinda do lado de cima. Rhodan desligara o holofote, que não lhe servia de nada, e observou o quadro que se tornava cada vez mais nítido à medida que a Stardust descia.
Thora não tivera nenhum incidente. A nave descera sobre o vale sem ser molestada e flutuava numa altitude de dez quilômetros, mantendo uma velocidade mínima de descida.
Rhodan a instruíra a irradiar de forma difusa a luz infravermelha destinada à iluminação da cena, e logo viram que se tratava de uma medida recomendável.
A luz difusa é uma fonte de energia muito fraca que se espalha de forma isotrópica, sem manifestar preferência por qualquer direção. O estímulo de absorver a energia irradiada difusamente pelas lâmpadas infravermelhas por certo era muito reduzido para fazer com que os seres luminosos se mexessem.
Rhodan não poderia desejar um quadro mais nítido. Pela primeira vez sua vista abrangeu aquele vale circular com sua extensão impressionante. O diâmetro alcançava perto de trinta quilômetros e de todos os lados — no oeste, no norte, no leste — estava cercado por paredões quase verticais que em alguns lugares eram encimados por montanhas, enquanto em outros lugares só subiam até atingir uma pequena borda, atrás da qual se estendia um planalto cintilante coberto de metano.
O vale propriamente dito estava repleto de seres luminosos. Sua luminosidade era tão forte que sobressaíam à luz dos holofotes. Mantinham-se imóveis.
— Basta, Thora — disse Rhodan depois que a Stardust havia descido a uma altitude de cinco quilômetros. — Ligue o aparelho.
— Vou ligar — confirmou Thora.
O resultado foi fulminante, conforme todo mundo esperara, mas ninguém se atrevera a acreditar seriamente.
De início a massa de seres luminosos começou a mover-se. Ao contrário dos campos protetores e antigravitacionais da nave e dos carros, as vibrações do novo transmissor pareciam ser algo que aquelas criaturas sentiam imediatamente, e à qual reagiam sem demora.
Por alguns segundos o movimento não parecia ter um objetivo definido. Mas logo surgiu uma abertura em meio às fileiras dos seres luminosos, abertura que foi crescendo rapidamente para todos os lados.
— Estão fugindo! — gritou Deringhouse exultante. — Estão dando o fora!
Não havia a menor dúvida. Thora fez o feixe de ondas projetado por seu emissor girar de um lado para outro em meio ao exército de criaturas energéticas, e provocou o pânico quase simultaneamente em vários pontos.
Os flancos do exército atingiram os paredões que limitavam o vale e... desapareceram no interior dos mesmos. A matéria sólida não representava qualquer obstáculo para seus corpos energéticos. Enquanto disparavam aos milhares numa velocidade espantosa em direção aos paredões e desapareciam nos mesmos, estes pareciam emitir uma luminosidade vinda de dentro. Essa luminosidade ainda durou algum tempo depois que o último desses seres havia fugido, mas foi empalidecendo e finalmente desapareceu por completo.
Não havia mais nada no vale.
— Está bem, Thora — disse Rhodan em tom tranqüilo. — Pode pousar no vale.

* * *

Ainda observaram o pouso da Stardust, mas Rhodan logo insistiu para que partissem.
Estava prestes a dar a respectiva ordem quando Tanaka Seiko despertou. Ao ouvir seu gemido, Rhodan voltou-se.
Tanaka segurou a cabeça nas mãos e lançou um olhar indagador para Rhodan.
— O que é isso? — perguntou.
— O que é o quê?
— Esse zumbido e esse ronco forte; não está ouvindo?
Rhodan sacudiu a cabeça.
— O que poderia ser? — perguntou.
Tanaka aguçou o ouvido. Sacudiu a cabeça.
— Parece um bando de marimbondos enfurecidos. Quase juraria que aqui por perto existe um, mas evidentemente é tolice.
Rhodan refletiu.
Não havia a menor dúvida de que Tanaka “ouvia” graças às suas capacidades parapsicológicas. Assim sendo, a essa altura, quando Thora já havia desligado o emissor, restavam duas fontes de onde podia provir o ruído: o desconhecido que tinha seu esconderijo na montanha, ou os seres luminosos postos em fuga.
— Entende alguma coisa? — perguntou Rhodan.
— Não. É apenas um ruído.
Então eram os seres luminosos. Rhodan acreditava que se tratasse de seres não dotados de inteligência. Se emitissem sons que correspondessem a estrutura energética de seu corpo, os mesmos só poderiam ser inarticulados.
Rhodan refletiu sobre esses fatos. Teria que tomar uma decisão, e quanto mais cedo o fizesse, melhor seria para ele e seus companheiros.
Pegou o microfone.
— Crest e Bell. Voltem à Stardust. Não tenho certeza se conseguimos afugentar os seres luminosos para sempre. Gostaria que ajudassem Thora quando houver outro ataque.
Bell protestou.
— Até parece que você quer pintar o diabo! — disse com a voz zangada. — Acho que lhes estragamos o apetite para sempre.
— É o que você acha! — respondeu Rhodan em tom sério. — Não admito discussões. Você e Crest voltarão. Preste atenção!
— Pois não.
— Você e Crest farão o possível para construir quanto antes um emissor do mesmo tipo do sensor estrutural adaptado. No momento você está em condições de desligar os envoltórios protetores para obter um número suficiente de antipartículas destinadas ao segundo sensor. E esse novo emissor deverá ser mandado atrás de mim num dos dois carros em que vocês retornarão à nave. Emitirei sinais goniométricos. O carro será dirigido pelo major Nyssen, que levará um acompanhante. Entendido?
— Entendido.
— Está bem. Boa viagem.
Rhodan aguardou até que os dois veículos fizessem meia-volta e desaparecessem atrás da borda ligeiramente abaulada que encimava a encosta norte da montanha. Chamou Thora e pediu-lhe que preparasse tudo para a construção do segundo emissor.
Foi passando os olhos por seus homens.
— Tanaka! Como está o zumbido?
— Continua inalterado.
Rhodan respondeu com um aceno de cabeça.
— Anne, procure fazer uma cara mais alegre. Ganhamos uma batalha e devemos nos sentir felizes.
— Mas...
— Não há mas nem porém. O objetivo está próximo, e quando o tivermos atingido, nossas preocupações terão chegado ao fim.
É tão fácil dizer isto”, pensou. Mas não adiantava expor as dificuldades da situação com todos os matizes da realidade a alguém que já sentisse medo. A tarefa mais nobre de um comandante consiste em inspirar coragem e confiança aos subordinados.
Viu que Anne lhe lançava um olhar indagador.
Rhodan contorceu o rosto num sorriso.
— Vamos prosseguir! — disse em tom áspero.
No mesmo instante o motor deu partida com um uivo.
A hora que se seguiu decorreu sem maiores novidades, tanto a bordo da Stardust como no carro-esteira de Rhodan.
Crest e Bell chegaram à nave e logo se puseram a trabalhar. Thora preparara tudo que podia ser preparado; além disso, Crest já executara o mesmo trabalho, embora apenas como assistente de Rhodan. Por isso acreditavam que concluiriam o serviço dentro de duas ou três horas. O emissor teria uma potência menor que o primeiro, pois não se arriscaram a retirar a energia dos envoltórios protetores e dos campos antigravitacionais por mais de quarenta minutos, para utilizá-la na produção de antipartículas. Mesmo esse lapso de tempo levou Crest à beira do pânico.
Enquanto isso o carro de Rhodan avançara rapidamente pelo planalto. Depois de uma hora chegou a um tipo de barranco que, num aclive suave, transpunha uma diferença de altitude de cerca de cinco metros e se estendia em linha bem reta na direção leste—oeste, até onde alcançava a vista.
Rhodan ficou admirado. Nada indicava a maneira pela qual surgira naquela forma precisa em meio ao planalto, nem havia indício de qualquer fenômeno da natureza que a pudesse ter criado.
Rhodan desceu com o carro e constatou que além do barranco o terreno ainda era um pouco mais plano que aquele que tinham percorrido até então.
Deu a potência máxima ao motor e fez o carro correr aos solavancos pela superfície lisa.

* * *

Dali a uma hora Bell anunciou pelo intercomunicador que o emissor estava pronto e que se poria a caminho em companhia do major Nyssen.
Rhodan sentiu um certo alívio, embora os seres luminosos não tivessem dado nenhum sinal de sua presença.
A Stardust também não voltara a ser molestada.
Para o major Nyssen a incumbência representava um tipo de esporte. Escolhera o capitão Klein como seu acompanhante, e este lhe ficou muito grato.
Dentro de poucos minutos atravessaram o trecho do vale em que poucas horas antes se encontravam os seres luminosos, e iniciaram a subida da encosta a plena potência.

* * *

Rhodan foi a primeira pessoa atingida pelo azar, um azar ridículo, mas nem por isso menos perigoso.
Perto de três horas se haviam passado desde que Bell e Crest voltaram à Stardust. O terreno continuava muito plano, permitindo que Rhodan desenvolvesse a velocidade máxima.
Mas de repente reduziu a velocidade, pois teve a impressão de que a direção não obedecia como antes.
Olhou para a tela e examinou o solo em que o carro se movia. Não constatou nada de extraordinário. Reduziu a velocidade mais um pouco e de repente percebeu.
O solo afundou sob o peso do carro.
Parecia que se deslocava sobre um pano esticado.
Rhodan parou e ficou dando tratos à bola para descobrir a natureza do fenômeno. Deringhouse veio rastejando e também fitou a tela. O fenômeno tornara-se bem patente. O peso do carro fez com que o solo formasse uma depressão que, se a observação de Deringhouse era correta, estendia-se por uns cinqüenta metros.
Subitamente Rhodan recuperou a atividade. Com um uivo ensurdecedor o motor voltou a funcionar, fazendo o carro dar um salto para a frente.
— Somos uns idiotas! — resmungou Rhodan. — É gelo. Há uma hora e meia estamos andando sobre um lago congelado, e ninguém percebeu nada!
Dessa forma já tinha explicação o barranco que os deixara tão admirados. Era a margem do lago.
Rhodan suspirou aliviado, quando ao sul viu um barranco idêntico que se aproximava dele. Devia estar a uns oitocentos metros de distância. Se tivessem sorte...
Acontece que não tiveram sorte.
A carroçaria assumiu as vibrações acústicas e transmitiu com uma nitidez surpreendente o forte estalo com que o gelo se rompeu. Na tela se via que subitamente no chão se abriram fendas; eram fendas negras, que se alargavam com uma rapidez assustadora.
O quadro inclinou-se. O carro começou a tombar.
— Anne! — gritou Rhodan. — Ponha a potência máxima nos geradores.
O uivo dos motores que giravam no vazio misturou-se ao zumbido forte que os geradores emitiram quando, utilizando toda a potência, procuraram reforçar o campo antigravitacional a ponto de evitar que o carro afundasse.
Rhodan sabia que havia pouca esperança. O carro tinha um espaço vazio preenchido com ar à pressão normal; mas esse espaço vazio era mais que compensado pelo peso dos revestimentos do carro, dos geradores e do motor. A densidade do metano de que era formado o lago em que começavam a afundar era enorme e tinha um poder de suspensão muito superior ao da água terrena, mas ainda assim não havia dúvida de que o carro afundaria dentro de poucos minutos.
Se soubesse que naquele ponto a profundidade do lago não era superior a quinze metros, Rhodan não teria feito o menor esforço para evitar que o carro afundasse. A estrutura do carro suportaria a pressão de quinze metros de metano líquido. Com uma camada de vinte metros de metano a pressão provavelmente já começaria a tornar-se crítica.
As esteiras reviraram o líquido viscoso, produzindo correntezas no mesmo. Rhodan manteve o motor à rotação máxima. Tudo que concorresse para atirar o metano líquido da proa para a popa produzia uma força propulsora, por menor que fosse. Numa situação dessas cada metro que avançassem representava uma fortuna.
Tanaka preparou seu emissor de grande alcance, para colocá-lo em condições de transmitir um sinal de emergência à Stardust assim que o aparelho de Rhodan não pudesse vencer mais a distância. Alguns metros de metano bastavam para tornar impossível a ligação radiofônica mais perfeita, se esta não dispusesse de energia suficiente.
Rhodan ficou observando. Metade da tela estava coberta de metano, que se movimentava lentamente. Na outra metade via a margem que representava a salvação. Não se aproximara sensivelmente.
Os geradores antigravitacionais retardaram o afundamento, mas não puderam detê-lo. E as esteiras que giravam loucamente não transmitiam ao carro qualquer velocidade mensurável em relação ao metano viscoso em que estavam prestes a afundar.
Rhodan chamou a Stardust através de seu próprio transmissor. A ligação ainda era perfeita. Por enquanto a antena sobressaía acima do nível do metano.
— Decolaremos imediatamente e tiraremos vocês de lá! — asseverou Bell.
— Vocês terão de colocar-se bem perto do carro e reforçar o campo antigravitacional da nave até que consiga levantar o veículo — explicou Rhodan apressadamente. — É a única possibilidade.
— Está bem — respondeu Bell. — Transmita sinais goniométricos com o outro emissor.
Rhodan voltou-se para Tanaka.
— Apronte o...
Neste momento houve um solavanco. O carro emitiu um leve chiado, balançou ligeiramente e ficou imóvel.
A tela só mostrou a massa turva do metano, com exceção de uma faixa de um centímetro na borda superior.
— O que foi isso? — perguntou Deringhouse esbaforido.
Rhodan pôs-se a rir.
— Chegamos ao fundo do lago.
Estavam salvos. Naquele ponto a profundidade do lago não ultrapassava a marca dos três metros. Uns oitenta por cento do carro estavam mergulhados no metano. Apesar disso as esteiras firmaram-se no solo do fundo do lago e impeliram o veículo para a frente.
Rhodan suspendeu o alarma. Bell respirou aliviado.
O carro funcionava como quebra-gelo. Rhodan dirigia cautelosamente, escolhendo de preferência os lugares em que o gelo de metano já estava rachado.
Levou meia hora para percorrer os oitocentos metros que o separavam da margem do lago. O carro saiu do lago gotejando e subiu lentamente pelo barranco suave.
Rhodan pretendia dizer algumas palavras animadoras, mas sentiu-se fascinado pelo quadro que se desenhava na tela.
A quinhentos metros de distância uma rocha erguia-se em forma de agulha. Só depois de dirigir o holofote para ela, Rhodan percebeu que tinha esta forma. Seu diâmetro era considerável e sua altura ultrapassava o alcance do holofote. Rhodan lembrou-se de que o sensor da Stardust só conseguira detectar a copa da montanha quando a nave se encontrara a uma altitude relativamente pequena. Era um indício de que o cume era pouco extenso; como o dessa agulha, por exemplo.
Seria esta a montanha?
Tanaka Seiko soltou um grito. Rhodan virou-se abruptamente. O rosto do japonês contorcia-se de dor e as mãos comprimiam as têmporas.
Rhodan dirigiu-lhe a palavra, mas Tanaka não respondeu. Durante alguns segundos ninguém sabia o que fazer.
Subitamente o japonês parou de gritar, deixou cair as mãos e olhou para a frente com uma expressão de alívio.
— O que foi isso?
— Uma mensagem.
— O que dizia? — perguntou Rhodan.
— Dizia o seguinte: “Estás no caminho certo. Continua! Mas será que possuis a sabedoria do plano superior?
Rhodan limitou-se a resmungar. Não esperara que o desconhecido voltasse a entrar em contato com ele. Mas era um consolo. Aquele complexo de montanhas era de uma extensão descomunal, e deviam agradecer a qualquer um que lhes dissesse que se encontravam no caminho certo.
O carro-esteira rolou tranqüilamente em direção ao cume pontudo.
Rhodan transmitiu a informação à Stardust e ao major Nyssen que seguia no seu carro.
— O zumbido está cada vez mais forte — disse subitamente Tanaka Seiko.
No mesmo instante Rhodan viu aquela figura estranha na encosta norte da imensa montanha, que se encontrava a menos de duzentos metros.
Tal qual todas as formações rochosas daquele mundo, a rocha pontuda estava coberta com uma camada de metano e amoníaco congelado. Mas, como as encostas fossem muito íngremes, a camada não era tão espessa que encobrisse as características mais importantes da montanha.
Reconhecia-se perfeitamente o sulco em forma de ferradura que começava ao pé da montanha e atingia seu ponto mais elevado a uns vinte metros de altitude. O gelo fixara-se no sulco, mas refletia a luz infravermelha do holofote sob outro ângulo; por isso a ferradura destacava-se nitidamente.
Rhodan acreditava que sabia interpretar a ferradura.
— É o portão de entrada! — disse em tom sério. — Anne, tenho a impressão de que só conseguiremos abrir com um golpe de habilidade telecinética. Aplique sua sabedoria do plano superior!
Virou-se e sorriu para Anne. Deringhouse completou o pensamento de Rhodan:
— Faça um esforço, Anne! Ali estão nossos amigos vindos de uma outra dimensão.
Rhodan virou-se abruptamente.
Do lado direito aproximava-se um verdadeiro exército de luzes dançantes e tremeluzentes. Pareciam conhecer seu objetivo, pois marchavam diretamente pelo flanco da montanha, em direção ao portão em forma de ferradura. O carro não chegaria antes delas.

* * *

— Quero que esse tempo vá para o inferno! — resmungou Nyssen em tom irritado.
De alguns minutos para cá a tempestade tornara-se mais intensa. O carro, protegido apenas pelo campo antigravitacional, praticamente se via indefeso diante da mesma. Só seu peso extraordinário e sua pequena altura, que não oferecia uma área muito extensa à tormenta, evitavam que fosse arrastado.
Nyssen transmitira à Stardust o aviso da tormenta. A bordo da nave não haviam percebido nada.
Se estivesse mais familiarizado com a aerodinâmica de alta pressão daquele planeta, Nyssen saberia que a enorme pressão e a intensa força gravitacional reinante em Gol criavam aquilo que se poderia chamar de áreas de grandes tormentas. A tempestade nunca cessava, mas as variações de intensidade da mesma ficavam restritas a uma superfície de poucos quilômetros quadrados. Para além dos limites dessa área a mudança do tempo passava despercebida. A mesma coisa acontecia com as modificações da temperatura.
— O tempo está esfriando — queixou-se Klein, que mantinha um controle constante sobre os instrumentos.
— Estou percebendo — respondeu Nyssen enquanto desviava o carro de um bloco de gelo que mal começara a erguer-se acima do solo.
Subitamente o terreno deixou de ser plano. Colinas, blocos de gelo e verdadeiras montanhas cresciam vertiginosamente em todos os quadrantes, roubando a visão de Nyssen. Este imprimiu maior velocidade ao seu veículo, para livrar-se quanto antes daquela confusão que se ia estabelecendo; mas dali a pouco viu-se obrigado a andar mais devagar. O risco de uma colisão era muito grande.
O carro ia contornando um bloco de gelo de mais de dois metros de altura quando diante dele surgiu com uma rapidez incrível uma montanha de metano congelado. Klein olhou para o termômetro: a temperatura era de setenta graus absolutos, não era de admirar que a atmosfera de metano se condensasse às toneladas, mas o crescimento daquela montanha oferecia um espetáculo espantoso.
Nyssen soltou uma praga e parou. Recuou um pedaço para dobrar à esquerda; mas quando havia percorrido alguns metros alguma coisa segurava-o atrás. Girou o receptor de imagem e viu que atrás do carro outra montanha crescia para o alto. À direita ficava a colina que pretendia contornar, e agora também do lado esquerdo uma montanha começava a erguer-se com uma rapidez espantosa.
— Que porcaria! — disse Nyssen. — Estamos presos.
Entrou em contato com a Stardust e relatou a situação em que se encontrava.
— Iremos tirá-los — prometeu Bell. — Pelo que deduzimos das últimas mensagens, Rhodan parece ter atingido o objetivo. Dessa forma não haverá nenhum inconveniente em decolarmos e irmos até aí.
— Está bem — respondeu Nyssen em tom de alívio. — Aguardaremos.
Desligou o motor. O silêncio que se seguiu foi deprimente.
A tempestade cessara com as quatro montanhas de gelo que opunham um obstáculo à mesma.
Nyssen fitou a tela até que os olhos começaram a doer. Depois reclinou-se no assento e acendeu um cigarro.
Klein manteve-se ocupado com os instrumentos. Parecia interessar-se imensamente pelo que acontecia com os mesmos.
Nunca antes temperaturas tão baixas haviam sido constatadas em Gol.
Ninguém se preocupou com os geradores montados na parte traseira do veículo, que só era separada do compartimento de passageiros por uma chapa de plástico.
O interior do veículo só era iluminado por uma lâmpada muito fraca, para não perturbar a observação ótica.
Subitamente Nyssen teve a impressão de que a luz projetada pela lâmpada se tornara mais forte. Ficou espantado e virou-se. No mesmo instante Klein soltou um grito:
— Olhe!
Nyssen logo viu. Uma pequena nuvem luminosa saiu da placa que fechava o espaço destinado aos geradores. Balançava de um lado para outro, que nem a fumaça do cigarro de Nyssen, e sua luminosidade aumentava a cada segundo que passava.
Nyssen e Klein mantiveram-se imóveis, pasmos de susto.
A nuvem parecia não saber o que estava querendo. Virou-se de um lado para outro, sem desprender-se da chapa. Aumentou um pouco, mas voltou a encolher. Todavia, sua luminosidade crescia constantemente.
Nyssen percebeu que uma força invisível comprimia-o fortemente contra o assento. A mão que segurava o cigarro e o próprio cigarro aumentaram de peso. Levou algum tempo para compreender.
— Está sugando a energia dos geradores! — gritou.
Klein sobressaltou-se.
Ao que parecia, a figura luminosa sentiu-se ameaçada. Encolheu e não demorou a desaparecer. Klein voltou a afundar na poltrona e soltou um gemido ao perceber que seu peso havia dobrado.
— Vamos tirar a chapa! — ordenou Nyssen.
A chapa estava presa por quatro parafusos fáceis de soltar. Klein conseguiu tirá-los sem levantar-se do assento. A chapa caiu para a frente.
Nyssen lançou os olhos para o compartimento dos geradores.
O gerador que servia ao motor e ao equipamento acessório estava reduzido a um montão disforme de plástico metalizado.
O gerador do campo antigravitacional estava danificado, mas ainda funcionava com parte de sua capacidade original.
— Dê uma olhada! — gritou para Klein. — Precisamos saber se agüentará.
Gemendo, Klein engatinhou para a parte traseira do carro. Demorou algum tempo. Depois virou pesadamente a cabeça e falou por cima do ombro:
— Está bastante roído. Pode falhar a qualquer momento.
Nyssen engoliu em seco.
— Pois então...
O carro estava imobilizado. O emissor, que fora a causa da viagem, não serviria de mais nada, pois estava ligado ao gerador que alimentava o motor. A lâmpada estava apagada; a única luz existente no interior do carro provinha da tela. O receptor estava ligado ao gerador do campo antigravitacional.
Nyssen desligou-o.
Sabia que o intercomunicador também funcionava com a energia fornecida pelo gerador do campo antigravitacional. Nessas condições poderia enviar uma mensagem à Stardust.
Com um movimento lento estendeu a mão em direção ao microfone.
Nesse instante outro solavanco sacudiu o carro. Klein e Nyssen soltaram um gemido. A mão de Nyssen caiu e bateu ruidosamente no painel de comando.
A gravitação aumentara de mais l g. o desempenho dos geradores diminuíra ainda mais. Pelos cálculos de Nyssen, a força gravitacional no interior do carro devia ser de 3 g.
Voltou a estender a mão e segurou o microfone. Seu peso aumentara muito, mas ainda funcionava.
Chamou a Stardust.
Porém a Stardust não respondia mais.

* * *

— Vamos decolar! — anunciara Bell há poucos segundos.
Logo comprimiu todos os botões de comando do painel para dar início à decolagem.
Mas a Stardust não se movia.
Bell sabia que não havia cometido nenhum engano. Alguém que tivesse o direito de comandar uma nave como aquela não poderia cometer enganos.
Além dele encontravam-se na sala de comando Thora e mais algumas pessoas de que eventualmente poderia precisar.
Imediatamente Bell anulou os comandos e fez as máquinas parar.
Sem dar a perceber o susto, chamou o engenheiro.
O engenheiro não respondeu. Thora já percebera que alguma coisa não estava em ordem.
— Há algo de errado?
Bell sacudiu a cabeça.
— Vou descer até a sala do comando técnico — disse. — Aguarde alguns instantes. Logo estarei de volta.
Disse e saiu.
Percorreu num tempo recorde a distância considerável entre a sala de comando e a central de comando técnico. Passou correndo pelas fitas transportadoras dos corredores e lutou com a força reduzida dos elevadores gravitacionais.
O comando técnico ficava a uns duzentos metros abaixo da sala de comando. Bell espremeu-se pela porta que se abriu com dificuldade e passou os olhos pela sala recheada de mesas de comando.
Não havia ninguém.
De um lado a sala era fechada por uma parede transparente, que a separava do compartimento de geradores. Bell lançou os olhos para o outro lado e examinou os gigantes reluzentes dos imensos reatores de hidrogênio e hélio, dos geradores do campo protetor e o exército dos instrumentos auxiliares.
Os geradores do campo protetor funcionavam com um leve zumbido, que se transmitia à parede e era perceptível no centro de comando técnico. No compartimento dos geradores não se via ninguém. Com exceção do zumbido leve reinava um silêncio completo naquelas salas vazias.
Andando ruidosamente, Bell dirigiu-se à extremidade oposta do centro de comando técnico e fez com que a porta se abrisse. Atrás dela estendia-se uma fita transportadora estreita, que descia ao nível da sala dos geradores. Subiu à fita e desceu.
Uma sensação medonha e repugnante de perigo apoderou-se dele, enquanto a fita o transportou para a enorme sala. Tirou a arma e engatilhou-a. Mas por enquanto não havia ninguém em quem valesse a pena atirar.
Os reatores e os geradores enfileiravam-se em longas colunas. Os corredores que os separavam tinham alguns metros de largura. Mas como os aparelhos tivessem vinte metros de altura e mais, havia uma dificuldade desanimadora de abranger o recinto com a vista.
A sensação de perigo iminente aumentou no instante em que Bell saiu da fita, cujo movimento logo cessou, e começou a andar pelo primeiro corredor. À sua direita e à sua esquerda erguiam-se os dois reatores para o mecanismo de propulsão do setor A. Seguiram-se os dois geradores do campo protetor, também do setor A, e uma longa fileira de aparelhos auxiliares. A fileira devia ter um comprimento total de cerca de oitenta metros.
Os geradores do campo protetor estavam funcionando. Bell examinou seus instrumentos de registro e não encontrou nada de anormal.
Sentiu-se irritado pelo fato de não encontrar ninguém naquela sala. A divisão técnica recebera instruções para manter permanentemente um contingente de pelo menos dez vigias na sala de geradores. Por mais difícil que fosse a visão, a essa altura já deveria ter encontrado ao menos um desses homens.
Bell prosseguiu. Seus passos produziram um ruído oco e abafado. Pisou com mais força, e não se deu conta de que assim procedia apenas para ouvir outro ruído além daquele zumbido deprimente.
Estava parado diante de um dos dois geradores do campo protetor quando ouviu um ruído estranho. Não sabia de onde vinha; parecia uma série de toques de sino.
Antes que pudesse preparar-se, a nave foi sacudida por um solavanco. Perdeu o equilíbrio e caiu pesadamente ao chão. Quando tentou levantar-se, viu que o piso se inclinara.
Ergueu-se num instante. Abaixou-se para apanhar a arma que lhe caíra das mãos. Quando voltou a erguer a cabeça, viu perfeitamente.
De repente os pensamentos desfilaram pesadamente em sua mente, como se estivesse sonhando.
É apenas uma”, pensou. “Pelo menos por enquanto...
Olhava de um canto, bem ao longe, e executava movimentos lentos e indefinidos, como uma nuvem de pesada fumaça. Finalmente saiu lentamente do canto.
Inventaram outro truque”, pensou Bell com amargura. “Por que iriam saciar a fome lá fora, nos campos energéticos, se não têm nenhuma dificuldade em atravessar as paredes e sorver a energia na fonte? Você mesmo já viu que uma parede sólida não representa nada para eles, não viu?
Num movimento instintivo ergueu a mão que segurava a arma.
A nuvem luminosa aproximou-se.
Sugou a energia do reator”, pensou, “foi por isso que não conseguimos decolar. Além disso, esvaziou um dos geradores, e é este o motivo por que a nave afundou. Se não der cabo dela, isso nos custará a cabeça.
Alguma coisa fez com que se virasse e olhasse para o outro lado do corredor.
Era outro ser luminoso. Também foi contornando o canto e veio em sua direção.
Bell perdeu o controle dos nervos e começou a disparar.
Atingiu o ser que havia visto em primeiro lugar. Ao que parecia, o mesmo alegrou-se com o tiro. Emitiu uma luminosidade mais intensa no lugar em que fora atingido. Além disso, aumentou a velocidade com que se aproximava de Bell.
Com um grito selvagem, que exprimia um misto de raiva e pavor, Bell virou-se e disparou contra o segundo inimigo. O efeito foi o mesmo. Subitamente as nuvens luminosas encontravam-se junto dele.
Muito admirado percebeu que um formigamento percorreu seu corpo, como se tivesse entrado em contato com uma fonte de eletricidade de baixa voltagem. A sensação era agradável; ao menos por algum tempo. Mas cresceu de intensidade. Bell arregalou os olhos e notou que os seres luminosos lhe roubavam toda visão. Apenas percebeu uma massa luminosa trêmula e disforme.
A dor foi aumentando. Crescia e crescia, até que um ruído retumbante encheu sua cabeça. Finalmente foi libertado por um desmaio benfazejo.

* * *

Thora já não compreendia mais nada.
Procurara entrar em contato com Rhodan, mas este não respondia. A mesma coisa acontecia com Nyssen, que em algum lugar, lá longe, esperava ser socorrido pela Stardust.
As telas tornaram-se negras, depois que a nave abaixou num solavanco repentino e o soalho se tornou inclinado.
Estamos sitiados”, pensou Thora. “Estão engolindo toda energia que entra nesta nave ou sai dela.
Nem desconfiava de que aqueles seres estranhos já haviam penetrado na nave.
Esteve a ponto de chamar Crest e admirou-se por não ter o mesmo vindo assim que a nave estremeceu com um forte solavanco.
Naquele instante Thora teve a sensação de que seu corpo era feito de chumbo, tal qual acontecera por ocasião do primeiro ataque das criaturas luminosas.
Os geradores estavam trabalhando a potência reduzida!
Ouviu os homens gritarem e praguejarem em torno dela. A luz começou a piscar e apagou-se.
Thora não resistiu mais ao peso enorme de seu corpo: caiu ao chão e não se moveu mais. Ainda não estava inconsciente, mas na situação em que se encontrava julgou mais conveniente abandonar-se completamente ao desamparo total em que se encontrava.

* * *

— Conseguiu? — perguntou Rhodan.
— Daqui a pouco — ofegou Anne. — Vejo um canal na rocha e... Oh! Mais nada.
Pelo que Anne conseguira descobrir com seu sentido telecinético, havia naquele paredão algumas centenas de canais da grossura de um braço humano, que percorriam a rocha nas direções mais variadas e terminavam sem que tivessem chegado a qualquer lugar.
Anne teria que dar busca em todos eles para descobrir o mecanismo que abria o portão.
Mas até lá...
Deringhouse resmungou cheio de impaciência. Ocupara o lugar de Tanaka, já que o japonês voltara a ser torturado por dores de cabeça insuportáveis depois que os seres luminosos voltaram a aparecer. Com seu intercomunicador de potência reduzida Rhodan não conseguira mais estabelecer contacto com Nyssen ou com a Stardust. Há dez minutos Deringhouse vinha tentando com um emissor bem mais potente, mas também sem resultado.
O exército de seres luminosos postara-se diante do portão-ferradura e parecia aguardar alguma coisa.
Rhodan receava que as forças abandonassem Anne antes que descobrisse o mecanismo. Ainda temia um segundo ataque contra a Stardust, e algum incidente com o carro de Nyssen.
Anne atirou a cabeça para a frente. Oferecia um aspecto irreal.
— Descobri! — disse com um gemido abafado.
Rhodan virou-se abruptamente.
— Não abra! — gritou. — Aguarde um pouco.
O carro saiu aos solavancos. Parará a cem metros do portão; agora ainda faltavam oitenta metros, sessenta...
Os seres luminosos não se moviam. Bloqueavam o portão; Rhodan estava preocupado em saber quantos deles conseguiriam penetrar no interior da montanha quando Anne a abrisse.
— ...quarenta metros, vinte...
— Abra! — berrou Rhodan com a voz rouca.
Anne rangeu os dentes.
Durante meia hora nada se alterou. De repente surgiu uma fenda no lugar em que a ferradura tocava o solo. Rhodan fitou-o e viu que o portão se abria para cima, como uma cortina de palco.
Procurou calcular a velocidade do carro e a altura que a abertura teria quando o veículo chegasse lá. Por um instante sentiu vontade de frear, porque o portão se abria muito devagar, mas logo desistiu desse intento.
Não teve tempo para observar os seres luminosos. Quando o carro esbarrou na parte superior do portão houve um solavanco ligeiro, mas forte, e um estalo assustador.
Haviam passado.
— Feche o portão! — gritou Rhodan.
Descreveu um grande círculo sem procurar saber para onde estava indo e fez uma curva de noventa graus. Sentiu-se tranqüilizado ao perceber na tela que o portão se fechara e que tudo fora muito rápido para os seres luminosos. Sua reduzida capacidade de reação não permitiu que compreendessem em tempo o que estava acontecendo.
Ouviu perto de si um ligeiro farfalhar de roupas e um baque.
Os esforços dos últimos quinze minutos fizeram com que Anne Sloane perdesse os sentidos.
Rhodan ia dizer alguma coisa, mas nesse instante a tela emitiu uma luz tão intensa que todos fecharam os olhos.
Rhodan piscou os olhos. Por entre as pálpebras semicerradas procurou estudar o quadro que se desenhava na tela.
O carro encontrava-se num grande pavilhão circular. Tinha trinta metros de diâmetro e sua altura era considerável.
A fonte de luz que iluminava a cena fora concebida para olhos acostumados ao esplendor branco-azulado de Vega, não para olhos terrenos.
Rhodan sentiu-se estupefato ao notar que o pavilhão estava completamente vazio, com exceção de um aparelho que não era muito grande.
Logo percebeu de que se tratava. Era um transmissor de objetiva, igual ao que haviam visto quando procuravam seguir a pista do desconhecido. Naquela oportunidade encontravam-se num recinto que parecia uma fábrica e Bell, que se arriscara demais, subira para o ar, transformado numa cintilante espiral energética.
Então era um transmissor de objetiva, um aparelho que transmitia através do hiperespaço, sem que aquele que quisesse fazer uso da teleportação tivesse de estar num lugar determinado ou precisasse estar ligado com o aparelho. Esse transmissor, que funcionava com base em raios captadores-impulsores pentadimensionais, constituía um aperfeiçoamento do aparelho usado pelos ferrônios.
O aparelho, diante do qual se encontravam agora, era maior que aquele que haviam visto no recinto da fábrica. Tinha ao menos cinco vezes o tamanho daquele, mas parecia perdido em meio ao imenso pavilhão.
Rhodan virou-se abruptamente. A gravitação existente no interior do pavilhão era idêntica à da superfície do planeta Gol.
Subitamente o carro começou a tremer. Rhodan percebeu que a direção girava; procurou descobrir a causa. Olhou para a tela e viu que o transmissor de objetiva havia descido.
Teria descido mesmo?
Fora o carro que se movera. Flutuava cinqüenta centímetros acima do solo e continuava a subir.
— Está vendo, Deringhouse?
— Sim.
— Regule o gerador antigravitacional. Alguém está eliminando a gravidade. Compense com a regulagem antes que o carro saia voando por aí.
Deringhouse cumpriu a incumbência com muita habilidade. Alguns minutos de angústia se passaram enquanto o carro ora se mantinha, mal e mal, no solo, ora subia alguns centímetros.
— Não há mais nada — anunciou Deringhouse depois de algum tempo. — Terminou.
O carro estava equipado com um gravímetro. A força gravitacional reinante do lado de fora era de 1,2 g.
Rhodan fechou o capacete. Deringhouse fez o mesmo, e também Tanaka Seiko, que voltara a recuperar as forças, depois que tinham deixado para trás os seres luminosos. Anne Sloane continuava inconsciente; seu capacete foi fechado sem que ela o percebesse.
Teriam de sair. O carro possuía uma saída, mas não dispunha de comporta, pois ninguém contara com a possibilidade de que os ocupantes teriam de abandonar o veículo fora da nave.
Não sabiam o que havia lá fora. Talvez a atmosfera fosse respirável, talvez não fosse, e era possível que não houvesse nenhuma.
— Vamos! — ordenou Rhodan.
Abriu a portinhola. Não houve qualquer dificuldade; só houve um pequeno solavanco, quase imperceptível.
Isso significava que no pavilhão havia uma atmosfera, e a diferença de pressão entre a mesma e a de que dispunham no interior do veículo não era muito grande. De que seria formada?
Rhodan não assumiu qualquer risco. Os capacetes dos trajes espaciais continuaram fechados.
Examinou o transmissor de objetiva. Ao que tudo indicava o princípio de seu funcionamento era idêntico ao que tinham visto em outro lugar. Havia uma fileira de botões coloridos, um regulador direcional, concebido segundo o princípio do ângulo espacial, dotado de uma lente que reproduzia numa tela o alvo apontado.
Rhodan sabia manejar aquilo. Aprendera. Sabia localizar um alvo a ser teleportado e contemplá-lo na tela.
Mas havia uma coisa que não sabia fazer: pôr o transmissor a funcionar.
Durante a primeira atuação compreendera que para isso precisava de um mutante dotado de capacidades telecinéticas. Não havia outro meio de fazer o contato.
Rhodan comprimiu os botões com as luvas rígidas de seu traje espacial. A tela iluminou-se. Parecia dispor de uma observação ótica do alvo dotada de elevada potência. Fosse qual fosse o alvo escolhido, o quadro sempre era nítido e luminoso, mais luminoso que o resultante de uma irradiação de luz infravermelha.
Viu áreas desconhecidas da superfície de Gol. Havia planícies formadas por cristais de metano congelado e montanhas enormes e entrecortadas, que se erguiam para o infinito. Girou o regulador direcional para o ponto que sua intuição lhe dizia corresponder ao norte. Ao que tudo indicava sua intuição não fora totalmente correta; mas um ligeiro movimento e o apertar de um botão que regulava a distância do alvo bastou para fazer a Stardust-III aparecer na tela de imagem.
Deringhouse soltou um grito de surpresa:
— A nave está inclinada!
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. Depois que fora interrompido o contato com a Stardust-III, não esperava outra coisa.
A inclinação da nave não era muito acentuada. Se nada mais tivesse acontecido à Stardust-III, não haveria o que temer.
Mas havia outro detalhe que prendia a atenção de Rhodan.
O dispositivo ótico de localização do alvo parecia trabalhar com uma objetiva de ângulo bem amplo. Na tela não se via apenas a Stardust-III, mas também o lago em que o carro de Rhodan quase afundara, o caminho que este havia percorrido do vale em diante e numerosas montanhas de gelo formadas nos últimos trinta minutos na margem norte do lago em virtude de uma repentina queda de temperatura.
— Anne Sloane está recuperando os sentidos! — disse o japonês com a voz baixa.
Rhodan olhou para o lado. Anne começou a se mexer.
Só ela poderia fazer funcionar o transmissor de objetiva.
Seria isso mesmo que estavam procurando?”, perguntou Rhodan de si para si. “Um simples transmissor de objetiva?
Nunca tivera uma idéia muito clara do que os esperaria no planeta Gol. Mais uma indicação, acreditava. Um sinal que lhes mostraria o próximo trecho do caminho que teriam de percorrer.
Seria o transmissor? Será que dali sairia a indicação?
Parecia que sim. No pavilhão não havia nada além do transmissor. Rhodan não sabia o que aconteceria quando Anne o pusesse a funcionar.
Mas confiava no desconhecido. Sabia perfeitamente da situação que todos aqueles que seguissem sua pista teriam de enfrentar em Gol. O transmissor devia representar um meio de livrar-se dos perigos que ali os aguardavam.

* * *

Anne pôs-se de joelhos. Rhodan ajudou-a a levantar-se.
— Ficou boa? — perguntou em tom delicado.
Anne fez que sim.
— Tenho de ficar, não é verdade?
Sorriu através do visor do capacete.
— Muito bem. Já conhece o mecanismo. O alvo foi regulado. Pode ligar.
Anne fechou os olhos.
Os músculos de Rhodan crisparam-se, na expectativa da dor cruciante que logo se faria sentir.
E a dor veio.
Numa fração de segundo a luminosidade dolorida desvaneceu-se. Uma dor martirizante apossou-se de Rhodan, que teria gritado, se durante a transição houvesse possibilidade de gritar.
Quanto tempo?...

7



... Um tempo infinito.
Ninguém sabia dizer como funcionava o sentido temporal do homem durante a teleportação. Mas Rhodan teve a impressão de que nunca uma teleportação durara tanto quanto esta.
Parecia que várias horas se tinham passado até que voltou a surgir a dor martirizante que indicava o fim da teleportação e a claridade começou a surgir diante do visor do capacete.
Aquilo era...
Sentiu uma pancada, como se tivesse caído; mas estava firmemente apoiado nas pernas.
Deringhouse surgiu perto dele. Desequilibrou-se ligeiramente e esbarrou em Rhodan. Atrás deles apareceram Tanaka Seiko e Anne Sloane.
E o lugar em que se encontravam era a sala de comando da Stardust-III.
Seria mesmo?
Thora estava estendida no chão. Apoiou-se sobre os braços, levantou a cabeça e olhou espantada em torno de si. Seu olhar caiu sobre as pernas de Rhodan, subiu por elas, reconheceu o rosto.
— Você?!
Naquele momento de enorme surpresa Rhodan deu prova de sua capacidade extraordinária, que há algum tempo, em Nevada Fields, quando seu treinamento de piloto espacial chegou ao estágio final, fizeram com que entre os psicólogos da equipe científica gozasse da fama de ser um monstro.
Foram transportados de maneira totalmente inexplicável do interior da montanha para bordo da Stardust-III. Pois bem! Era um mistério sobre o qual quebrariam a cabeça mais tarde. Por enquanto havia coisa mais importante a fazer.
— Tudo em ordem a bordo da nave? — perguntou em tom áspero.
Thora levantou-se.
— Como... como chegou até aqui?
— Tudo em ordem por aqui? — repetiu Rhodan em tom ainda mais áspero.
Thora fitou-o, boquiaberta.
— Não — gaguejou depois de algum tempo. — Bell... aqueles seres luminosos...
— Onde está Bell?
Thora teve de refletir.
— Na sala de comando técnico.
Rhodan dirigiu-se a Deringhouse.
— Tome conta da sala de comando. Procure descobrir o que aconteceu. Logo estarei de volta.

* * *

Encontrou Bell. Estava estendido na sala dos geradores, inconsciente com um choque elétrico. Foi submetido a tratamento e dali a trinta minutos estava totalmente recuperado.
Relatou o que lhe acontecera. Após isso procuraram localizar os seres luminosos, mas a bordo da Stardust não havia mais nenhum.
Poucos minutos depois que Bell havia terminado seu relato, o major Nyssen e o capitão Klein entraram na sala de comando. Pareciam bastante perturbados. Disseram que ficaram presos com o carro danificado em meio a algumas montanhas de gelo. Um ser luminoso havia penetrado no veículo; o gerador do motor fora destruído totalmente e o do campo antigravitacional em parte. A última impressão que tiveram do planeta Gol foi a de que a força gravitacional no interior do carro subira para cerca de 10 g. Em pensamento fizeram uma espécie de testamento, já que da Stardust não chegava qualquer resposta. Até que...
Era um relato desconexo. Subitamente tiveram a impressão de que o carro entrara em transição. Depois de algum tempo recuperaram os sentidos e viram-se no interior de uma das comportas da Stardust, juntamente com o carro. Saíram do veículo com as pernas trêmulas e subiram correndo para a sala de comando. Ali estavam eles!
Os complexos energéticos da Stardust funcionavam perfeitamente. A invasão dos seres luminosos não lhes causara qualquer dano.
Onde foram parar os seres luminosos?
A pergunta não é esta”, pensou Rhodan. “Onde é que nós fomos parar?

* * *

As telas enormes da sala de comando mostravam um setor do espaço que nenhum deles jamais havia visto, nem mesmo Crest e Thora.
Podiam-se contar as estrelas, deviam ser umas cinqüenta ou sessenta em todo o trecho do espaço abrangido pelo ângulo de visão.
Quem já tinha visto o céu luminoso da galáxia, com os bilhões de pontos luminosos, sabia o que significava o quadro que via diante de si.
Ao sair da teleportação provocada pelo transmissor de objetiva guardado no interior da montanha do planeta Gol, a Stardust encontrava-se num ponto do espaço que não pertencia mais à galáxia por eles habitada.
Em nenhum ponto da Via Láctea existia um céu com sessenta estrelas.
Rhodan percebera-o imediatamente. Por um instante entreteve a esperança enganosa de que Crest pudesse descobrir em que região espacial foram parar. Mas o volume de saber arcônida que Crest dominava era igual ao de Rhodan. Não conhecia aquele setor do espaço, mas com a ajuda dos mapas procurou descobrir algum ponto de referência pelo qual a Stardust-III pudesse se orientar.

* * *

Em meio àquela incerteza deprimente Tanaka Seiko captou uma mensagem do desconhecido. Subitamente o japonês viu uma bola incandescente em meio à sala de comando. De início levou um susto tremendo, pois pensava que se tratasse de um dos seres luminosos.
Mas ninguém a não ser ele viu aquela bola, e só ele entendeu a mensagem que irradiava:
— A advertência foi dirigida a você. “Procura encontrar o mundo em que foram depositadas as coordenadas. Sabe que não conseguirás voltar se não descobrires o caminho certo. O objetivo está muito longe!
Traduziu a mensagem para Rhodan, que respondeu com um aceno de cabeça.
Crest procurou encontrar algum ponto de referência.
Depois que a calma voltou a reinar e ninguém podia fazer outra coisa senão aguardar o resultado dos esforços de Crest, Rhodan procurou fazer um sumário dos acontecimentos que se desenrolaram em Gol.
Teve alguns ouvintes atentos, que eram as pessoas que tiveram participação ativa nos acontecimentos do planeta Gol. Entre eles se encontrava, por exemplo, o engenheiro, que os seres luminosos arrastaram para um canto da sala dos geradores, juntamente com doze homens do serviço de vigilância, depois de deixá-los desacordados.
— Gol é um mundo cujas características se afastam dos demais — principiou Rhodan. — Sua densidade média é de cerca de cento e cinqüenta gramas por centímetro cúbico. É uma densidade superior à do ósmio, que é o metal mais denso que conhecemos.
“Gol deve ser uma espécie de sol esfriado, embora percorra sua órbita em torno de Vega como qualquer planeta. Em seu interior devem existir campos gravitacionais que não se baseiam exclusivamente nos princípios de Newton, mas têm outras causas.
“No meu entender os seres luminosos são uma emanação da natureza extraordinária desse planeta. Certamente provêm da gravisfera não-newtoniana situada no núcleo de Gol.
“Não são dotados de inteligência, ou melhor, sua inteligência não é superior à de um cachorro ou de um gato. Consistem em, como direi, energia individualizada ou indivíduos energéticos.
“Sabem o que pretendo dizer. Nossa língua não dispõe de palavras para descrever uma coisa como esses seres energéticos.
“Quando os expulsamos do vale, por meio do emissor recém-construído, cujas vibrações não suportavam, comportaram-se tal qual um bando de marimbondos espantados. Entraram em forma e voltaram ao ataque. Adotaram um comportamento diferente daquele ao qual estávamos acostumados e conseguiram nos lograr.
“Entraram na Stardust sem que ninguém desse pela coisa. Penetraram, ou melhor, um deles penetrou no carro do major Nyssen, inutilizou o gerador que movimentava o veículo e com isso cortou o suprimento de energia do segundo emissor, que Nyssen levava com ele. Também se interpuseram no nosso caminho, mas não conseguiram nada.”
Ficou calado por algum tempo e sugou no seu cigarro.
— O que sabemos sobre os seres luminosos é só isto — concluiu. — E uma parte não passa de suposição. Ainda teremos interesse em saber mais a seu respeito, mas por enquanto nosso objetivo é outro.
Todos mantinham a cabeça abaixada e refletiam.
Estiveram no mundo que ultrapassava a capacidade imaginativa dos homens e mesmo dos arcônidas. Foram salvos de uma maneira tão estranha que até parecia ridícula.
A maior parte deles achou que a missão realizada em Gol não servira para muita coisa. Os que tinham uma visão mais ampla perceberam que ao menos haviam aprendido duas coisas:
Em nosso universo existe muito mais saber do que que nosso cérebro consegue imaginar. A fantasia do Criador não se esgotara com a criação do homem, dos arcônidas, dos habitantes de Fantan, dos DI, dos ferrônios, dos tópsidas e de outros seres mais. Criara seres que não eram formados de sangue de carne e destinara-lhes um espaço de ordem superior. O Universo apresentava uma multiplicidade tremenda, e quem, ao retornar de uma série de viagens espaciais, afirmasse que não poderia encontrar mais nada de novo, cometeria um sacrilégio.
E ainda:
Andavam no encalço de um desconhecido que dispunha de recursos técnicos cuja potencialidade ultrapassava a fantasia mais ousada. Com um aparelho relativamente minúsculo realizara a teleportação de uma nave até então considerada a conquista máxima da técnica, de um pesado veículo de esteira e de um grupo de quatro pessoas, e reunira tudo aquilo em outro ponto do espaço. Não havia explicação para o fenômeno; qualquer pessoa cônscia das possibilidades de sua mente não quebraria a cabeça com o problema.
Talvez um dia o desconhecido lhes oferecesse a solução, quando o tivessem alcançado. Talvez nessa oportunidade também revelasse a finalidade do jogo de passos pequenos, que vinha arrastando Rhodan e seus homens metro após metro pelas pegadas do desconhecido.
Talvez...

* * *

A escotilha se abriu. Crest entrou. Rhodan olhou-o.
— Acredito que encontrei alguma coisa — disse Crest, com uma certa insegurança na voz. — Mas não se alegre antes da hora. Não tenho a menor certeza.
Rhodan levantou-se e, enquanto caminhava em direção a Crest, seu rosto contorceu-se num sorriso.
— Coragem! — disse em tom firme. — Já enfrentamos inseguranças piores que esta.



* * *






A Stardust-III voltou ao espaço livre, muito embora por algum tempo parecesse que aquele objeto titânico, fabricado com o aço de Árcon, jamais se ergueria do planeta Gol.
Mas de que serve o espaço livre a quem não conhece sua posição, a quem não enxerga a luz de qualquer constelação conhecida?
Mas acredita-se que as coordenadas se encontram no Planeta do Sol Moribundo.
O Planeta do Sol Moribundo, é este o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html