Haveria
alguma relação entre esses fatos? Seria a energia utilizada nas transmissões do
desconhecido aquela pela qual o major Nyssen procurava há várias horas?
Crest
chamou.
— Rhodan,
nestas circunstâncias... ainda pretende passar por aí?
— Se
pretendo! — asseverou Rhodan. — Praticamente não existem envoltórios
energéticos em torno dos nossos carros; quer dizer que não há quase nada que
possa aguçar o apetite desses seres luminosos.
Esperava que
ninguém percebesse a mentira. Os seres luminosos haviam engolido os raios
infravermelhos do holofote, que continham pouca energia. Por isso era de
esperar que demonstrassem um interesse bem maior por um campo de neutralização
gravitacional, que era muito mais substancioso.
Mas Rhodan teve uma idéia.
— Coluna
marcha! — ordenou em tom seco.
Seu carro
continuou na ponta. Numa velocidade moderada aproximou-se do front armado pelos seres luminosos,
que continuavam a dançar aos milhares na escuridão do vale.
Rhodan
desligara o holofote. Podia sentar-se pelas figuras luminosas.
— O que está
fazendo a esfera atrás de nós? — perguntou, dirigindo-se a Bell.
— A mesma
coisa que vem fazendo o tempo todo — respondeu este. — Dança e balança.
— Não notou
nada de especial?
— Nada.
Seu carro
atingiu a primeira linha dos seres luminosos. Dali em diante não teve tempo
para pensar em outra coisa além dos problemas que exigiam sua atenção imediata.
De início os
seres luminosos pareciam não tomar conhecimento da presença dos carros.
Mantinham entre si uma distância suficiente para permitir a passagem
confortável dos pesados veículos.
— Então! —
disse Bell admirado. — Nem são tão ruins como parecem!
Rhodan fez
girar a lente do rastreador ótico. Haviam penetrado tão profundamente no front que não se via mais nenhum
terreno livre. Na frente, dos lados, atrás, em todos os pontos, as superfícies
luminosas daquelas inconcebíveis criaturas energéticas executavam seus
movimentos indolentes.
Rhodan
cerrou os dentes.
Olhou para o
relógio: dez minutos haviam passado.
Sabia que a
boa sorte de passarem incólumes entre as fileiras dos seres luminosos não
duraria muito. A qualquer hora chegaria ao fim; mas quando?
Quinze
minutos.
— Já
consegue enxergar o fim? — perguntou a Bell.
— Ainda não.
A visão que
se descortinava diante do carro ainda era idêntica à que se lhes oferecera no
momento em que haviam penetrado naquele front.
A área do
vale era imensa, e todo ele parecia estar repleto das criaturas luminosas.
Rhodan
gostaria de saber por que haviam escolhido justamente essa área como ponto de
reunião, e não qualquer outra. Haveria por aqui alguma coisa que os atraía? Ou
teriam desenvolvido, tal qual as inteligências normais, um tipo de hábito que
os fazia encontrarem-se sempre no mesmo lugar?
Vinte e
cinco minutos.
Rhodan não
avançara muito depressa. Sua preocupação principal não consistia em atravessar
a linha daquelas manchas de névoa luminosa. Estava interessado principalmente
em realizar uma experiência. Acreditava dispor de meios para evitar que seus
homens corressem qualquer risco em virtude da experiência.
Trinta
minutos.
Desde o
início da experiência haviam percorrido uns dezoito quilômetros. O terreno
pouco acidentado teria permitido uma velocidade muito maior.
A coisa
começou aos trinta e dois minutos.
Rhodan foi o
primeiro a perceber que as manchas de névoa luminosa encontravam-se menos
distantes uma da outra como poucos minutos antes. Era necessário realizar
manobras vigorosas para passar entre elas sem provocar colisões.
— Todas as
peças prontas para disparar! — ordenou Rhodan.
Ouvia-se a
respiração pesada de Crest.
— Qual será
o alvo? Não venha me dizer que pretende atirar nesses seres energéticos.
— Isso
mesmo. Prestem atenção: concentraremos o fogo de todas as peças, com exceção
dos tubos de oxigênio, por enquanto, num ponto situado aproximadamente na
altura do carro de Crest, e que fica a uns duzentos metros a oeste da linha
imaginária que une nossos carros. Aguardem a ordem de abrir fogo. Ninguém deve
disparar antes da hora.
Não tinha a
intenção de fazer segredo; mas não havia tempo para explanações. Os seres
luminosos juntaram-se numa linha quase compacta, Rhodan imaginava o que
aconteceria nos próximos segundos.
Tanaka Seiko
desmaiou; seu cérebro não resistiu à estafa.
Rhodan não
tinha alternativa. O front fechara-se
diante dele. Se quisesse prosseguir, teria de atravessar a cortina luminosa
formada por aqueles seres.
Não hesitou.
Na sua opinião o corpo dos seres energéticos pertencia a uma categoria espacial
superior, e a luz que irradiavam não faria mal aos veículos.
— Anne,
assuma o controle dos geradores!
Rhodan teve
de repetir a ordem para despertar Anne do torpor em que se achava mergulhada.
— Não tenha
medo, minha filha! — disse com um sorriso, ao ver seu rosto pálido.
Foi então
que aconteceu.
Houve um
solavanco, e o carro parou. Não é que alguém o segurasse, mas o motor já não
estava em condições de deslocar o peso do veículo.
— Aumente a
potência, Anne! — fungou Rhodan.
Contara com
um efeito menos intenso. Sabia que os seres luminosos haviam começado a saciar
seu apetite no campo de neutralização gravitacional do veículo.
Fizeram-no
com uma voracidade incrível. A cada segundo que passava a força gravitacional
no interior do carro crescia vertiginosamente. Já era de 9 g , segundo seus cálculos.
Lembrou-se
de Crest e de seu organismo arcônida, que já não estaria em condições de
suportar tamanha pressão.
— Fogo!
Disparem todas as peças!
Deringhouse
manipulou a chave. Por alguns segundos a armação do carro vibrou com o raio
energético superpotente do desintegrados O radiador de nêutrons trabalhava com
um zumbido fino, e o canhão de impulsos térmicos completava o concerto com um
ruído surdo.
Na tela
Rhodan percebeu que os outros carros também haviam reagido ao seu comando.
Raios energéticos brilhantes partiam dos veículos e penetravam na confusão das
figuras luminosas, cruzando-se na distância que Rhodan fixara antecipadamente.
Demorou
algum tempo até que surgisse o efeito esperado por Rhodan.
O tempo,
durante o qual a pressão aflitiva parecia manter presos os ocupantes dos
veículos, mostrou-se interminável. Na verdade tudo não durara mais que alguns
minutos, conforme Rhodan pôde verificar no relógio.
Finalmente a
pressão começou a ceder.
Ao mesmo
tempo o front compacto dos
seres luminosos começou a desintegrar-se diante de Rhodan. Surgiu uma brecha, e
na voz de comando de Rhodan era perceptível o triunfo:
— Vamos
adiante! Velocidade máxima!
O carro saiu
aos solavancos. Ainda não voltara ao peso primitivo. Alguns poucos entre os
seres luminosos ainda não haviam percebido que em outro ponto, situado a
duzentos metros ao oeste, na altura do carro do meio, dispunham de uma
substância muito mais abundante para saciar a fome que a representada pelos
débeis campos antigravitacionais dos veículos.
Mas a cada
segundo que passava o carro ficava mais leve, sua velocidade aumentava, até que
disparou à velocidade máxima. Os seres luminosos concentravam-se em outro
ponto. Embora o foco dos disparos das peças montadas nos veículos se deslocasse
com a mesma rapidez destes, aquelas criaturas preferiram evidentemente saciar
seu apetite na fonte mais abundante, já que tinham de optar entre duas fontes
móveis.
Quarenta e
um minutos depois de se terem aventurado para dentro da linha dos seres
luminosos os carros romperam o front na
extremidade oposta. Subitamente a escuridão cinzenta voltou a estender-se
diante do veículo de Rhodan, e este teve de executar um giro de quase cento e
oitenta graus no receptor de seu rastreador ótico para enxergar os seres
luminosos.
— Passamos!
— exultou Reginald Bell no intercomunicador.
Rhodan
sorriu com a alegria indômita expressa através do grito de Bell, e com a
sensação de alívio de que se sentiu possuído depois da experiência bem
sucedida.
Os seres
luminosos eram criaturas pertencentes a um mundo de ordem superior; mas um
punhado de homens — seres simplórios cujo cérebro era tão pequeno que nem
conseguiam visualizar problemas relacionados ao espaço quadridimensional, e que
não emitiam qualquer tipo de radiação com seus corpos desengonçados, além do
infravermelho de seu reduzido calor orgânico — conseguiram iludi-los.
Os seres
luminosos não fizeram menção de perseguir os veículos. Rhodan ordenou aos
outros carros que continuassem a disparar, mas deslocassem o foco dos raios
para o norte.
As manchas
de névoa luminosa reuniram-se naquele ponto, continuando a devorar energia e a
crescer. Os canhões dos três carros desprenderam uma quantidade enorme de
energia, umas dez mil vezes mais que aquela que os seres luminosos poderiam
captar se avançassem sobre os campos antigravitacionais dos veículos.
Esse fato
influiu em seu tamanho. À medida que absorviam energia, o front tornava-se mais alto e a
luminosidade mais intensa.
Os canhões
continuaram a disparar radiações por mais quinze minutos. Depois Rhodan mandou
suspender o fogo e esperou.
Subitamente
os seres luminosos pararam de crescer. Por um instante a massa deles executou
um movimento turbilhonante; parecia que procuravam as travessas recheadas que
de repente alguém retirara de junto de suas bocas ávidas de energia.
Mas os
carros já se encontravam tão longe que já não poderiam notar os débeis campos
antigravitacionais que os envolviam. Por alguns minutos saltitaram
desordenadamente, depois pararam. Tiveram seu repasto e cresceram para o dobro
do seu tamanho. Agora havia chegado o fim! Rhodan girou o receptor.
— Como estão
as coisas à nossa frente? — perguntou.
O holofote
foi ligado. Quando Rhodan começou a girá-lo, o facho luminoso deslizou por uma
encosta não muito íngreme. O pé da montanha distava menos de cem metros do
carro.
Rhodan
respirou profundamente. Os que o ouviam aguardavam nova ordem que representaria
uma carga pesada para seus nervos. Mas Rhodan limitou-se a dizer:
— A montanha está à nossa frente!
Colocou
tamanha ênfase na palavra, que todos
sabiam a que montanha se referia.
6
Depois de
uma busca de meia hora realizada à luz reunida dos três holofotes, todos tinham
certeza de que aquilo que se encontrava sobre aquele morro, ou dentro dele, não
devia ser procurado ao pé da encosta norte.
Concordaram
com a sugestão de Rhodan, segundo o qual os carros deviam subir pelo morro o
mais que pudessem.
Rhodan
estava convencido de que numa altitude maior encontraria aquilo que procurava.
Ainda acreditava firmemente que o desconhecido lhe forneceria alguma indicação
sobre o lugar do esconderijo, ou que não haveria esconderijo algum, tratando-se
de alguma coisa fácil de encontrar desde que ficasse de olhos abertos.
A encosta
norte da imensa montanha ofereceu poucas dificuldades aos veículos.
Além disso,
os seres nebulosos mantinham-se calmos no fundo do vale e a esfera luminosa que
os seguira há horas desistira.
A uns dois
mil metros acima do nível do vale a inclinação da encosta tornou-se ainda menor
até terminar num planalto de dimensões espantosas. Por onde quer que girasse o
holofote, Rhodan só encontrava o vazio, o que provava que numa extensão de mil
metros em torno dele não havia qualquer matéria sólida, nenhum paredão, nenhuma
encosta, nada além do terreno plano em que se encontravam os carros.
Rhodan
decidiu fazer uma pausa.
Chamou a
Stardust.
Thora
respondeu imediatamente.
Conforme
suas ordens, a nave subira do solo, mantendo-se imóvel numa altitude de dois
mil quilômetros.
Rhodan
informou a comandante sobre os acontecimentos dos últimos noventa minutos e
concluiu desta forma:
— Isso
significa que descobrimos dois fatos de suma importância, um deles se tornou
plausível, outro foi demonstrado. A faculdade de reagir a fenômenos que se
desenrolam exclusivamente no espaço de três dimensões é muito reduzida nos
seres energéticos. Levaram mais de meia hora para perceber que estávamos
passando entre eles e que tínhamos alguma coisa com que podiam saciar a fome. O
fato que tornamos plausível é a lentidão de suas reações. Provamos que
realmente se alimentam de energia. Antes de mais nada, não conhecem quaisquer
escrúpulos de ordem moral e provavelmente não têm noção do dano que causam com
sua voracidade. Agarram o que encontram.
“Acredito
que, se é que tal idéia pode ser aplicada a seres desse tipo, na verdade são
criaturas sem inteligência. Thora, antes de prosseguirmos gostaria de realizar
outra experiência, se não tiver nenhuma objeção.”
— Que
experiência é essa? — perguntou Thora.
— Deve estar
lembrada de que o ataque à Stardust cessou no instante em que o desconhecido começou
a transmitir e nosso antigo sensor estrutural captou o sinal.
— Sim,
naturalmente.
— Pois bem.
Ligue o instrumento adaptado a uma corrente bem forte. Transmita com ele com a
potência máxima que puder suportar e dirija as emissões sobre os seres luminosos.
Gostaria de conhecer a reação deles.
A idéia
nunca ocorrera a Thora, embora estivesse na palma da mão.
— Para isso
terei que descer, não é? — perguntou um tanto teimosa e contrariada por sua
falta de capacidade de perceber coisas que se encontravam diante do seu nariz.
—
Perfeitamente! — respondeu Rhodan em tom sério. — Se fizer o sensor estrutural
funcionar a plena carga, gerará um alcance de pelo menos cinco quilômetros. Não
precisa descer mais que isso. Outra coisa!
— O que é?
— Mergulhe o
terreno em luz infravermelha. Nossa visão está muito fraca.
* * *
“Será que você o compreenderá algum dia?”,
perguntou Thora de si para si.
O que teria
feito se estivesse no lugar de Rhodan? Ficaria satisfeita por ter escapado aos
seres luminosos e seguir pelo caminho mais rápido em direção ao objetivo.
Quanto antes o alcançasse, melhor para todos que participavam do
empreendimento.
E o que
fazia ele? Intercalava uma pausa, como se estivesse realizando um passeio ou
uma excursão; e, para júbilo dos espectadores, realizava uma experiência com os
seres luminosos, cujo perigo mortal todos já haviam experimentado.
Era
impossível compreender Rhodan: sua atividade incansável, seu espírito
implacável diante de si mesmo e dos outros, a extrema agilidade do seu
pensamento e sua capacidade espantosa de passar diretamente de um assunto muito
sério para uma brincadeira ou mesmo uma atitude marota.
Thora
sacudiu a cabeça e pôs a Stardust-III em movimento.
Cautelosamente,
como da primeira vez, a nave mergulhou na atmosfera turbilhonante de Gol e foi
perdendo altitude.
Thora sabia
perfeitamente no que teria de prestar atenção. De quatrocentos quilômetros para
baixo surgia o perigo: os seres luminosos poderiam tentar saciar sua fome nos
envoltórios protetores, que representavam um verdadeiro manancial de energia.
Ao que parecia, podiam afastar-se até essa distância da superfície do imenso
planeta.
O sensor
estrutural adaptado fora instalado. Estava em condições de emitir com uma
potência de dois megawats; era o
máximo que suas peças sensíveis poderiam suportar.
Thora fitou
a caixinha, absorta em pensamentos.
Rhodan! Era
o homem que desmontara um sensor estrutural arcônida e voltara a montá-lo de
tal forma que era capaz de fazer uma coisa desconhecida mesmo para a física dos
arcônidas.
— Faltam
quatrocentos mil metros, madame! — anunciou o encarregado da vigilância.
Thora
sobressaltou-se. Estavam entrando na zona de perigo; e o medo começou a surgir
nela.
* * *
— A
Stardust! — murmurou Deringhouse.
Uma névoa
branca e transparente foi entrando na tela, vinda do lado de cima. Rhodan
desligara o holofote, que não lhe servia de nada, e observou o quadro que se
tornava cada vez mais nítido à medida que a Stardust descia.
Thora não
tivera nenhum incidente. A nave descera sobre o vale sem ser molestada e
flutuava numa altitude de dez quilômetros, mantendo uma velocidade mínima de
descida.
Rhodan a
instruíra a irradiar de forma difusa a luz infravermelha destinada à iluminação
da cena, e logo viram que se tratava de uma medida recomendável.
A luz difusa
é uma fonte de energia muito fraca que se espalha de forma isotrópica, sem
manifestar preferência por qualquer direção. O estímulo de absorver a energia
irradiada difusamente pelas lâmpadas infravermelhas por certo era muito
reduzido para fazer com que os seres luminosos se mexessem.
Rhodan não
poderia desejar um quadro mais nítido. Pela primeira vez sua vista abrangeu
aquele vale circular com sua extensão impressionante. O diâmetro alcançava
perto de trinta quilômetros e de todos os lados — no oeste, no norte, no leste
— estava cercado por paredões quase verticais que em alguns lugares eram
encimados por montanhas, enquanto em outros lugares só subiam até atingir uma
pequena borda, atrás da qual se estendia um planalto cintilante coberto de metano.
O vale
propriamente dito estava repleto de seres luminosos. Sua luminosidade era tão
forte que sobressaíam à luz dos holofotes. Mantinham-se imóveis.
— Basta,
Thora — disse Rhodan depois que a Stardust havia descido a uma altitude de
cinco quilômetros. — Ligue o aparelho.
— Vou ligar
— confirmou Thora.
O resultado
foi fulminante, conforme todo mundo esperara, mas ninguém se atrevera a
acreditar seriamente.
De início a
massa de seres luminosos começou a mover-se. Ao contrário dos campos protetores
e antigravitacionais da nave e dos carros, as vibrações do novo transmissor
pareciam ser algo que aquelas criaturas sentiam imediatamente, e à qual reagiam
sem demora.
Por alguns
segundos o movimento não parecia ter um objetivo definido. Mas logo surgiu uma
abertura em meio às fileiras dos seres luminosos, abertura que foi crescendo
rapidamente para todos os lados.
— Estão
fugindo! — gritou Deringhouse exultante. — Estão dando o fora!
Não havia a
menor dúvida. Thora fez o feixe de ondas projetado por seu emissor girar de um
lado para outro em meio ao exército de criaturas energéticas, e provocou o
pânico quase simultaneamente em vários pontos.
Os flancos
do exército atingiram os paredões que limitavam o vale e... desapareceram no
interior dos mesmos. A matéria sólida não representava qualquer obstáculo para
seus corpos energéticos. Enquanto disparavam aos milhares numa velocidade
espantosa em direção aos paredões e desapareciam nos mesmos, estes pareciam
emitir uma luminosidade vinda de dentro. Essa luminosidade ainda durou algum
tempo depois que o último desses seres havia fugido, mas foi empalidecendo e
finalmente desapareceu por completo.
Não havia
mais nada no vale.
— Está bem,
Thora — disse Rhodan em tom tranqüilo. — Pode pousar no vale.
* * *
Ainda
observaram o pouso da Stardust, mas Rhodan logo insistiu para que partissem.
Estava
prestes a dar a respectiva ordem quando Tanaka Seiko despertou. Ao ouvir seu
gemido, Rhodan voltou-se.
Tanaka
segurou a cabeça nas mãos e lançou um olhar indagador para Rhodan.
— O que é
isso? — perguntou.
— O que é o
quê?
— Esse
zumbido e esse ronco forte; não está ouvindo?
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— O que
poderia ser? — perguntou.
Tanaka
aguçou o ouvido. Sacudiu a cabeça.
— Parece um
bando de marimbondos enfurecidos. Quase juraria que aqui por perto existe um,
mas evidentemente é tolice.
Rhodan
refletiu.
Não havia a
menor dúvida de que Tanaka “ouvia”
graças às suas capacidades parapsicológicas. Assim sendo, a essa altura, quando
Thora já havia desligado o emissor, restavam duas fontes de onde podia provir o
ruído: o desconhecido que tinha seu esconderijo na montanha, ou os seres
luminosos postos em fuga.
— Entende
alguma coisa? — perguntou Rhodan.
— Não. É
apenas um ruído.
Então eram
os seres luminosos. Rhodan acreditava que se tratasse de seres não dotados de
inteligência. Se emitissem sons que correspondessem a estrutura energética de
seu corpo, os mesmos só poderiam ser inarticulados.
Rhodan
refletiu sobre esses fatos. Teria que tomar uma decisão, e quanto mais cedo o
fizesse, melhor seria para ele e seus companheiros.
Pegou o
microfone.
— Crest e
Bell. Voltem à Stardust. Não tenho certeza se conseguimos afugentar os seres
luminosos para sempre. Gostaria que ajudassem Thora quando houver outro ataque.
Bell
protestou.
— Até parece
que você quer pintar o diabo! — disse com a voz zangada. — Acho que lhes
estragamos o apetite para sempre.
— É o que você acha! — respondeu Rhodan em tom
sério. — Não admito discussões. Você e Crest voltarão. Preste atenção!
— Pois não.
— Você e
Crest farão o possível para construir quanto antes um emissor do mesmo tipo do
sensor estrutural adaptado. No momento você está em condições de desligar os
envoltórios protetores para obter um número suficiente de antipartículas
destinadas ao segundo sensor. E esse novo emissor deverá ser mandado atrás de
mim num dos dois carros em que vocês retornarão à nave. Emitirei sinais
goniométricos. O carro será dirigido pelo major Nyssen, que levará um
acompanhante. Entendido?
— Entendido.
— Está bem.
Boa viagem.
Rhodan aguardou
até que os dois veículos fizessem meia-volta e desaparecessem atrás da borda
ligeiramente abaulada que encimava a encosta norte da montanha. Chamou Thora e
pediu-lhe que preparasse tudo para a construção do segundo emissor.
Foi passando
os olhos por seus homens.
— Tanaka!
Como está o zumbido?
— Continua
inalterado.
Rhodan
respondeu com um aceno de cabeça.
— Anne,
procure fazer uma cara mais alegre. Ganhamos uma batalha e devemos nos sentir
felizes.
— Mas...
— Não há mas
nem porém. O objetivo está próximo, e quando o tivermos atingido, nossas
preocupações terão chegado ao fim.
“É tão fácil dizer isto”, pensou. Mas não
adiantava expor as dificuldades da situação com todos os matizes da realidade a
alguém que já sentisse medo. A tarefa mais nobre de um comandante consiste em
inspirar coragem e confiança aos subordinados.
Viu que Anne
lhe lançava um olhar indagador.
Rhodan
contorceu o rosto num sorriso.
— Vamos
prosseguir! — disse em tom áspero.
No mesmo
instante o motor deu partida com um uivo.
A hora que se
seguiu decorreu sem maiores novidades, tanto a bordo da Stardust como no
carro-esteira de Rhodan.
Crest e Bell
chegaram à nave e logo se puseram a trabalhar. Thora preparara tudo que podia
ser preparado; além disso, Crest já executara o mesmo trabalho, embora apenas
como assistente de Rhodan. Por isso acreditavam que concluiriam o serviço
dentro de duas ou três horas. O emissor teria uma potência menor que o
primeiro, pois não se arriscaram a retirar a energia dos envoltórios protetores
e dos campos antigravitacionais por mais de quarenta minutos, para utilizá-la
na produção de antipartículas. Mesmo esse lapso de tempo levou Crest à beira do
pânico.
Enquanto
isso o carro de Rhodan avançara rapidamente pelo planalto. Depois de uma hora
chegou a um tipo de barranco que, num aclive suave, transpunha uma diferença de
altitude de cerca de cinco metros e se estendia em linha bem reta na direção
leste—oeste, até onde alcançava a vista.
Rhodan ficou
admirado. Nada indicava a maneira pela qual surgira naquela forma precisa em
meio ao planalto, nem havia indício de qualquer fenômeno da natureza que a
pudesse ter criado.
Rhodan
desceu com o carro e constatou que além do barranco o terreno ainda era um
pouco mais plano que aquele que tinham percorrido até então.
Deu a potência
máxima ao motor e fez o carro correr aos solavancos pela superfície lisa.
* * *
Dali a uma
hora Bell anunciou pelo intercomunicador que o emissor estava pronto e que se
poria a caminho em companhia do major Nyssen.
Rhodan
sentiu um certo alívio, embora os seres luminosos não tivessem dado nenhum
sinal de sua presença.
A Stardust
também não voltara a ser molestada.
Para o major
Nyssen a incumbência representava um tipo de esporte. Escolhera o capitão Klein
como seu acompanhante, e este lhe ficou muito grato.
Dentro de
poucos minutos atravessaram o trecho do vale em que poucas horas antes se
encontravam os seres luminosos, e iniciaram a subida da encosta a plena
potência.
* * *
Rhodan foi a
primeira pessoa atingida pelo azar, um azar ridículo, mas nem por isso menos
perigoso.
Perto de
três horas se haviam passado desde que Bell e Crest voltaram à Stardust. O
terreno continuava muito plano, permitindo que Rhodan desenvolvesse a
velocidade máxima.
Mas de
repente reduziu a velocidade, pois teve a impressão de que a direção não
obedecia como antes.
Olhou para a
tela e examinou o solo em que o carro se movia. Não constatou nada de
extraordinário. Reduziu a velocidade mais um pouco e de repente percebeu.
O solo
afundou sob o peso do carro.
Parecia que
se deslocava sobre um pano esticado.
Rhodan parou
e ficou dando tratos à bola para descobrir a natureza do fenômeno. Deringhouse
veio rastejando e também fitou a tela. O fenômeno tornara-se bem patente. O
peso do carro fez com que o solo formasse uma depressão que, se a observação de
Deringhouse era correta, estendia-se por uns cinqüenta metros.
Subitamente
Rhodan recuperou a atividade. Com um uivo ensurdecedor o motor voltou a
funcionar, fazendo o carro dar um salto para a frente.
— Somos uns
idiotas! — resmungou Rhodan. — É gelo. Há uma hora e meia estamos andando sobre
um lago congelado, e ninguém percebeu nada!
Dessa forma
já tinha explicação o barranco que os deixara tão admirados. Era a margem do
lago.
Rhodan
suspirou aliviado, quando ao sul viu um barranco idêntico que se aproximava
dele. Devia estar a uns oitocentos metros de distância. Se tivessem sorte...
Acontece que
não tiveram sorte.
A carroçaria
assumiu as vibrações acústicas e transmitiu com uma nitidez surpreendente o
forte estalo com que o gelo se rompeu. Na tela se via que subitamente no chão
se abriram fendas; eram fendas negras, que se alargavam com uma rapidez
assustadora.
O quadro
inclinou-se. O carro começou a tombar.
— Anne! —
gritou Rhodan. — Ponha a potência máxima nos geradores.
O uivo dos
motores que giravam no vazio misturou-se ao zumbido forte que os geradores
emitiram quando, utilizando toda a potência, procuraram reforçar o campo
antigravitacional a ponto de evitar que o carro afundasse.
Rhodan sabia
que havia pouca esperança. O carro tinha um espaço vazio preenchido com ar à
pressão normal; mas esse espaço vazio era mais que compensado pelo peso dos
revestimentos do carro, dos geradores e do motor. A densidade do metano de que
era formado o lago em que começavam a afundar era enorme e tinha um poder de
suspensão muito superior ao da água terrena, mas ainda assim não havia dúvida
de que o carro afundaria dentro de poucos minutos.
Se soubesse
que naquele ponto a profundidade do lago não era superior a quinze metros,
Rhodan não teria feito o menor esforço para evitar que o carro afundasse. A
estrutura do carro suportaria a pressão de quinze metros de metano líquido. Com
uma camada de vinte metros de metano a pressão provavelmente já começaria a
tornar-se crítica.
As esteiras
reviraram o líquido viscoso, produzindo correntezas no mesmo. Rhodan manteve o
motor à rotação máxima. Tudo que concorresse para atirar o metano líquido da
proa para a popa produzia uma força propulsora, por menor que fosse. Numa
situação dessas cada metro que avançassem representava uma fortuna.
Tanaka
preparou seu emissor de grande alcance, para colocá-lo em condições de transmitir
um sinal de emergência à Stardust assim que o aparelho de Rhodan não pudesse
vencer mais a distância. Alguns metros de metano bastavam para tornar
impossível a ligação radiofônica mais perfeita, se esta não dispusesse de
energia suficiente.
Rhodan ficou
observando. Metade da tela estava coberta de metano, que se movimentava
lentamente. Na outra metade via a margem que representava a salvação. Não se
aproximara sensivelmente.
Os geradores
antigravitacionais retardaram o afundamento, mas não puderam detê-lo. E as
esteiras que giravam loucamente não transmitiam ao carro qualquer velocidade
mensurável em relação ao metano viscoso em que estavam prestes a afundar.
Rhodan
chamou a Stardust através de seu próprio transmissor. A ligação ainda era
perfeita. Por enquanto a antena sobressaía acima do nível do metano.
—
Decolaremos imediatamente e tiraremos vocês de lá! — asseverou Bell.
— Vocês
terão de colocar-se bem perto do carro e reforçar o campo antigravitacional da
nave até que consiga levantar o veículo — explicou Rhodan apressadamente. — É a
única possibilidade.
— Está bem —
respondeu Bell. — Transmita sinais goniométricos com o outro emissor.
Rhodan
voltou-se para Tanaka.
— Apronte
o...
Neste
momento houve um solavanco. O carro emitiu um leve chiado, balançou
ligeiramente e ficou imóvel.
A tela só
mostrou a massa turva do metano, com exceção de uma faixa de um centímetro na
borda superior.
— O que foi
isso? — perguntou Deringhouse esbaforido.
Rhodan
pôs-se a rir.
— Chegamos
ao fundo do lago.
Estavam
salvos. Naquele ponto a profundidade do lago não ultrapassava a marca dos três
metros. Uns oitenta por cento do carro estavam mergulhados no metano. Apesar
disso as esteiras firmaram-se no solo do fundo do lago e impeliram o veículo
para a frente.
Rhodan
suspendeu o alarma. Bell respirou aliviado.
O carro
funcionava como quebra-gelo. Rhodan dirigia cautelosamente, escolhendo de
preferência os lugares em que o gelo de metano já estava rachado.
Levou meia
hora para percorrer os oitocentos metros que o separavam da margem do lago. O
carro saiu do lago gotejando e subiu lentamente pelo barranco suave.
Rhodan
pretendia dizer algumas palavras animadoras, mas sentiu-se fascinado pelo
quadro que se desenhava na tela.
A quinhentos
metros de distância uma rocha erguia-se em forma de agulha. Só depois de
dirigir o holofote para ela, Rhodan percebeu que tinha esta forma. Seu diâmetro
era considerável e sua altura ultrapassava o alcance do holofote. Rhodan
lembrou-se de que o sensor da Stardust só conseguira detectar a copa da
montanha quando a nave se encontrara a uma altitude relativamente pequena. Era
um indício de que o cume era pouco extenso; como o dessa agulha, por exemplo.
Seria esta a
montanha?
Tanaka Seiko
soltou um grito. Rhodan virou-se abruptamente. O rosto do japonês contorcia-se
de dor e as mãos comprimiam as têmporas.
Rhodan
dirigiu-lhe a palavra, mas Tanaka não respondeu. Durante alguns segundos ninguém
sabia o que fazer.
Subitamente
o japonês parou de gritar, deixou cair as mãos e olhou para a frente com uma
expressão de alívio.
— O que foi
isso?
— Uma
mensagem.
— O que
dizia? — perguntou Rhodan.
— Dizia o
seguinte: “Estás no caminho certo.
Continua! Mas será que possuis a sabedoria do plano superior?”
Rhodan
limitou-se a resmungar. Não esperara que o desconhecido voltasse a entrar em
contato com ele. Mas era um consolo. Aquele complexo de montanhas era de uma
extensão descomunal, e deviam agradecer a qualquer um que lhes dissesse que se
encontravam no caminho certo.
O
carro-esteira rolou tranqüilamente em direção ao cume pontudo.
Rhodan
transmitiu a informação à Stardust e ao major Nyssen que seguia no seu carro.
— O zumbido
está cada vez mais forte — disse subitamente Tanaka Seiko.
No mesmo
instante Rhodan viu aquela figura estranha na encosta norte da imensa montanha,
que se encontrava a menos de duzentos metros.
Tal qual
todas as formações rochosas daquele mundo, a rocha pontuda estava coberta com
uma camada de metano e amoníaco congelado. Mas, como as encostas fossem muito
íngremes, a camada não era tão espessa que encobrisse as características mais
importantes da montanha.
Reconhecia-se
perfeitamente o sulco em forma de ferradura que começava ao pé da montanha e
atingia seu ponto mais elevado a uns vinte metros de altitude. O gelo fixara-se
no sulco, mas refletia a luz infravermelha do holofote sob outro ângulo; por
isso a ferradura destacava-se nitidamente.
Rhodan
acreditava que sabia interpretar a ferradura.
— É o portão
de entrada! — disse em tom sério. — Anne, tenho a impressão de que só
conseguiremos abrir com um golpe de habilidade telecinética. Aplique sua sabedoria
do plano superior!
Virou-se e
sorriu para Anne. Deringhouse completou o pensamento de Rhodan:
— Faça um
esforço, Anne! Ali estão nossos amigos
vindos de uma outra dimensão.
Rhodan
virou-se abruptamente.
Do lado
direito aproximava-se um verdadeiro exército de luzes dançantes e tremeluzentes.
Pareciam conhecer seu objetivo, pois marchavam diretamente pelo flanco da
montanha, em direção ao portão em forma de ferradura. O carro não chegaria
antes delas.
* * *
— Quero que
esse tempo vá para o inferno! — resmungou Nyssen em tom irritado.
De alguns
minutos para cá a tempestade tornara-se mais intensa. O carro, protegido apenas
pelo campo antigravitacional, praticamente se via indefeso diante da mesma. Só
seu peso extraordinário e sua pequena altura, que não oferecia uma área muito
extensa à tormenta, evitavam que fosse arrastado.
Nyssen transmitira
à Stardust o aviso da tormenta. A bordo da nave não haviam percebido nada.
Se estivesse
mais familiarizado com a aerodinâmica de alta pressão daquele planeta, Nyssen
saberia que a enorme pressão e a intensa força gravitacional reinante em Gol
criavam aquilo que se poderia chamar de áreas de grandes tormentas. A
tempestade nunca cessava, mas as variações de intensidade da mesma ficavam
restritas a uma superfície de poucos quilômetros quadrados. Para além dos
limites dessa área a mudança do tempo passava despercebida. A mesma coisa
acontecia com as modificações da temperatura.
— O tempo
está esfriando — queixou-se Klein, que mantinha um controle constante sobre os
instrumentos.
— Estou
percebendo — respondeu Nyssen enquanto desviava o carro de um bloco de gelo que
mal começara a erguer-se acima do solo.
Subitamente
o terreno deixou de ser plano. Colinas, blocos de gelo e verdadeiras montanhas
cresciam vertiginosamente em todos os quadrantes, roubando a visão de Nyssen.
Este imprimiu maior velocidade ao seu veículo, para livrar-se quanto antes daquela
confusão que se ia estabelecendo; mas dali
a pouco viu-se obrigado a andar mais devagar. O risco de uma colisão era muito
grande.
O carro ia
contornando um bloco de gelo de mais de dois metros de altura quando diante
dele surgiu com uma rapidez incrível uma montanha de metano congelado. Klein
olhou para o termômetro: a temperatura era de setenta graus absolutos, não era
de admirar que a atmosfera de metano se condensasse às toneladas, mas o
crescimento daquela montanha oferecia um espetáculo espantoso.
Nyssen
soltou uma praga e parou. Recuou um pedaço para dobrar à esquerda; mas quando
havia percorrido alguns metros alguma coisa segurava-o atrás. Girou o receptor
de imagem e viu que atrás do carro outra montanha crescia para o alto. À
direita ficava a colina que pretendia contornar, e agora também do lado
esquerdo uma montanha começava a erguer-se com uma rapidez espantosa.
— Que
porcaria! — disse Nyssen. — Estamos presos.
Entrou em
contato com a Stardust e relatou a situação em que se encontrava.
— Iremos
tirá-los — prometeu Bell. — Pelo que deduzimos das últimas mensagens, Rhodan
parece ter atingido o objetivo. Dessa forma não haverá nenhum inconveniente em
decolarmos e irmos até aí.
— Está bem —
respondeu Nyssen em tom de alívio. — Aguardaremos.
Desligou o
motor. O silêncio que se seguiu foi deprimente.
A tempestade
cessara com as quatro montanhas de gelo que opunham um obstáculo à mesma.
Nyssen fitou
a tela até que os olhos começaram a doer. Depois reclinou-se no assento e
acendeu um cigarro.
Klein
manteve-se ocupado com os instrumentos. Parecia interessar-se imensamente pelo
que acontecia com os mesmos.
Nunca antes
temperaturas tão baixas haviam sido constatadas em Gol.
Ninguém se
preocupou com os geradores montados na parte traseira do veículo, que só era
separada do compartimento de passageiros por uma chapa de plástico.
O interior
do veículo só era iluminado por uma lâmpada muito fraca, para não perturbar a
observação ótica.
Subitamente
Nyssen teve a impressão de que a luz projetada pela lâmpada se tornara mais
forte. Ficou espantado e virou-se. No mesmo instante Klein soltou um grito:
— Olhe!
Nyssen logo
viu. Uma pequena nuvem luminosa saiu da placa que fechava o espaço destinado
aos geradores. Balançava de um lado para outro, que nem a fumaça do cigarro de
Nyssen, e sua luminosidade aumentava a cada segundo que passava.
Nyssen e
Klein mantiveram-se imóveis, pasmos de susto.
A nuvem
parecia não saber o que estava querendo. Virou-se de um lado para outro, sem
desprender-se da chapa. Aumentou um pouco, mas voltou a encolher. Todavia, sua
luminosidade crescia constantemente.
Nyssen
percebeu que uma força invisível comprimia-o fortemente contra o assento. A mão
que segurava o cigarro e o próprio cigarro aumentaram de peso. Levou algum
tempo para compreender.
— Está
sugando a energia dos geradores! — gritou.
Klein
sobressaltou-se.
Ao que
parecia, a figura luminosa sentiu-se ameaçada. Encolheu e não demorou a
desaparecer. Klein voltou a afundar na poltrona e soltou um gemido ao perceber
que seu peso havia dobrado.
— Vamos
tirar a chapa! — ordenou Nyssen.
A chapa
estava presa por quatro parafusos fáceis de soltar. Klein conseguiu tirá-los
sem levantar-se do assento. A chapa caiu para a frente.
Nyssen
lançou os olhos para o compartimento dos geradores.
O gerador
que servia ao motor e ao equipamento acessório estava reduzido a um montão
disforme de plástico metalizado.
O gerador do
campo antigravitacional estava danificado, mas ainda funcionava com parte de
sua capacidade original.
— Dê uma
olhada! — gritou para Klein. — Precisamos saber se agüentará.
Gemendo,
Klein engatinhou para a parte traseira do carro. Demorou algum tempo. Depois
virou pesadamente a cabeça e falou por cima do ombro:
— Está
bastante roído. Pode falhar a qualquer momento.
Nyssen
engoliu em seco.
— Pois
então...
O carro
estava imobilizado. O emissor, que fora a causa da viagem, não serviria de mais
nada, pois estava ligado ao gerador que alimentava o motor. A lâmpada estava
apagada; a única luz existente no interior do carro provinha da tela. O
receptor estava ligado ao gerador do campo antigravitacional.
Nyssen
desligou-o.
Sabia que o
intercomunicador também funcionava com a energia fornecida pelo gerador do
campo antigravitacional. Nessas condições poderia enviar uma mensagem à
Stardust.
Com um
movimento lento estendeu a mão em direção ao microfone.
Nesse
instante outro solavanco sacudiu o carro. Klein e Nyssen soltaram um gemido. A
mão de Nyssen caiu e bateu ruidosamente no painel de comando.
A gravitação
aumentara de mais l g. o desempenho dos geradores diminuíra ainda mais. Pelos
cálculos de Nyssen, a força gravitacional no interior do carro devia ser de 3 g .
Voltou a
estender a mão e segurou o microfone. Seu peso aumentara muito, mas ainda
funcionava.
Chamou a
Stardust.
Porém a
Stardust não respondia mais.
* * *
— Vamos
decolar! — anunciara Bell há poucos segundos.
Logo
comprimiu todos os botões de comando do painel para dar início à decolagem.
Mas a
Stardust não se movia.
Bell sabia
que não havia cometido nenhum engano. Alguém que tivesse o direito de comandar
uma nave como aquela não poderia cometer enganos.
Além dele
encontravam-se na sala de comando Thora e mais algumas pessoas de que
eventualmente poderia precisar.
Imediatamente
Bell anulou os comandos e fez as máquinas parar.
Sem dar a
perceber o susto, chamou o engenheiro.
O engenheiro
não respondeu. Thora já percebera que alguma coisa não estava em ordem.
— Há algo de
errado?
Bell sacudiu
a cabeça.
— Vou descer
até a sala do comando técnico — disse. — Aguarde alguns instantes. Logo estarei
de volta.
Disse e
saiu.
Percorreu
num tempo recorde a distância considerável entre a sala de comando e a central
de comando técnico. Passou correndo pelas fitas transportadoras dos corredores
e lutou com a força reduzida dos elevadores gravitacionais.
O comando
técnico ficava a uns duzentos metros abaixo da sala de comando. Bell
espremeu-se pela porta que se abriu com dificuldade e passou os olhos pela sala
recheada de mesas de comando.
Não havia
ninguém.
De um lado a
sala era fechada por uma parede transparente, que a separava do compartimento
de geradores. Bell lançou os olhos para o outro lado e examinou os gigantes
reluzentes dos imensos reatores de hidrogênio e hélio, dos geradores do campo
protetor e o exército dos instrumentos auxiliares.
Os geradores
do campo protetor funcionavam com um leve zumbido, que se transmitia à parede e
era perceptível no centro de comando técnico. No compartimento dos geradores
não se via ninguém. Com exceção do zumbido leve reinava um silêncio completo
naquelas salas vazias.
Andando
ruidosamente, Bell dirigiu-se à extremidade oposta do centro de comando técnico
e fez com que a porta se abrisse. Atrás dela estendia-se uma fita
transportadora estreita, que descia ao nível da sala dos geradores. Subiu à
fita e desceu.
Uma sensação
medonha e repugnante de perigo apoderou-se dele, enquanto a fita o transportou
para a enorme sala. Tirou a arma e engatilhou-a. Mas por enquanto não havia
ninguém em quem valesse a pena atirar.
Os reatores
e os geradores enfileiravam-se em longas colunas. Os corredores que os
separavam tinham alguns metros de largura. Mas como os aparelhos tivessem vinte
metros de altura e mais, havia uma dificuldade desanimadora de abranger o
recinto com a vista.
A sensação
de perigo iminente aumentou no instante em que Bell saiu da fita, cujo
movimento logo cessou, e começou a andar pelo primeiro corredor. À sua direita
e à sua esquerda erguiam-se os dois reatores para o mecanismo de propulsão do
setor A. Seguiram-se os dois geradores do campo protetor, também do setor A, e
uma longa fileira de aparelhos auxiliares. A fileira devia ter um comprimento
total de cerca de oitenta metros.
Os geradores
do campo protetor estavam funcionando. Bell examinou seus instrumentos de registro
e não encontrou nada de anormal.
Sentiu-se
irritado pelo fato de não encontrar ninguém naquela sala. A divisão técnica
recebera instruções para manter permanentemente um contingente de pelo menos
dez vigias na sala de geradores. Por mais difícil que fosse a visão, a essa
altura já deveria ter encontrado ao menos um desses homens.
Bell
prosseguiu. Seus passos produziram um ruído oco e abafado. Pisou com mais
força, e não se deu conta de que assim procedia apenas para ouvir outro ruído
além daquele zumbido deprimente.
Estava
parado diante de um dos dois geradores do campo protetor quando ouviu um ruído
estranho. Não sabia de onde vinha; parecia uma série de toques de sino.
Antes que
pudesse preparar-se, a nave foi sacudida por um solavanco. Perdeu o equilíbrio
e caiu pesadamente ao chão. Quando tentou levantar-se, viu que o piso se
inclinara.
Ergueu-se
num instante. Abaixou-se para apanhar a arma que lhe caíra das mãos. Quando
voltou a erguer a cabeça, viu perfeitamente.
De repente
os pensamentos desfilaram pesadamente em sua mente, como se estivesse sonhando.
“É apenas uma”, pensou. “Pelo menos por enquanto...”
Olhava de um
canto, bem ao longe, e executava movimentos lentos e indefinidos, como uma
nuvem de pesada fumaça. Finalmente saiu lentamente do canto.
“Inventaram outro truque”, pensou Bell
com amargura. “Por que iriam saciar a
fome lá fora, nos campos energéticos, se não têm nenhuma dificuldade em
atravessar as paredes e sorver a energia na fonte? Você mesmo já viu que uma
parede sólida não representa nada para eles, não viu?”
Num
movimento instintivo ergueu a mão que segurava a arma.
A nuvem
luminosa aproximou-se.
“Sugou a energia do reator”, pensou, “foi por isso que não conseguimos decolar. Além
disso, esvaziou um dos geradores, e é este o motivo por que a nave afundou. Se
não der cabo dela, isso nos custará a cabeça.”
Alguma coisa
fez com que se virasse e olhasse para o outro lado do corredor.
Era outro
ser luminoso. Também foi contornando o canto e veio em sua direção.
Bell perdeu
o controle dos nervos e começou a disparar.
Atingiu o
ser que havia visto em primeiro lugar. Ao que parecia, o mesmo alegrou-se com o
tiro. Emitiu uma luminosidade mais intensa no lugar em que fora atingido. Além
disso, aumentou a velocidade com que se aproximava de Bell.
Com um grito
selvagem, que exprimia um misto de raiva e pavor, Bell virou-se e disparou
contra o segundo inimigo. O efeito foi o mesmo. Subitamente as nuvens luminosas
encontravam-se junto dele.
Muito
admirado percebeu que um formigamento percorreu seu corpo, como se tivesse
entrado em contato com uma fonte de eletricidade de baixa voltagem. A sensação
era agradável; ao menos por algum tempo. Mas cresceu de intensidade. Bell
arregalou os olhos e notou que os seres luminosos lhe roubavam toda visão. Apenas
percebeu uma massa luminosa trêmula e disforme.
A dor foi
aumentando. Crescia e crescia, até que um ruído retumbante encheu sua cabeça.
Finalmente foi libertado por um desmaio benfazejo.
* * *
Thora já não
compreendia mais nada.
Procurara
entrar em contato com Rhodan, mas este não respondia. A mesma coisa acontecia
com Nyssen, que em algum lugar, lá longe, esperava ser socorrido pela Stardust.
As telas
tornaram-se negras, depois que a nave abaixou num solavanco repentino e o
soalho se tornou inclinado.
“Estamos sitiados”, pensou Thora. “Estão engolindo toda energia que entra nesta
nave ou sai dela.”
Nem
desconfiava de que aqueles seres estranhos já haviam penetrado na nave.
Esteve a
ponto de chamar Crest e admirou-se por não ter o mesmo vindo assim que a nave
estremeceu com um forte solavanco.
Naquele
instante Thora teve a sensação de que seu corpo era feito de chumbo, tal qual
acontecera por ocasião do primeiro ataque das criaturas luminosas.
Os geradores
estavam trabalhando a potência reduzida!
Ouviu os homens
gritarem e praguejarem em torno dela. A luz começou a piscar e apagou-se.
Thora não
resistiu mais ao peso enorme de seu corpo: caiu ao chão e não se moveu mais.
Ainda não estava inconsciente, mas na situação em que se encontrava julgou mais
conveniente abandonar-se completamente ao desamparo total em que se encontrava.
* * *
— Conseguiu?
— perguntou Rhodan.
— Daqui a
pouco — ofegou Anne. — Vejo um canal na rocha e... Oh! Mais nada.
Pelo que
Anne conseguira descobrir com seu sentido telecinético, havia naquele paredão
algumas centenas de canais da grossura de um braço humano, que percorriam a
rocha nas direções mais variadas e terminavam sem que tivessem chegado a
qualquer lugar.
Anne teria
que dar busca em todos eles para descobrir o mecanismo que abria o portão.
Mas até
lá...
Deringhouse
resmungou cheio de impaciência. Ocupara o lugar de Tanaka, já que o japonês
voltara a ser torturado por dores de cabeça insuportáveis depois que os seres
luminosos voltaram a aparecer. Com seu intercomunicador de potência reduzida
Rhodan não conseguira mais estabelecer contacto com Nyssen ou com a Stardust.
Há dez minutos Deringhouse vinha tentando com um emissor bem mais potente, mas
também sem resultado.
O exército
de seres luminosos postara-se diante do portão-ferradura e parecia aguardar
alguma coisa.
Rhodan
receava que as forças abandonassem Anne antes que descobrisse o mecanismo.
Ainda temia um segundo ataque contra a Stardust, e algum incidente com o carro
de Nyssen.
Anne atirou
a cabeça para a frente. Oferecia um aspecto irreal.
— Descobri!
— disse com um gemido abafado.
Rhodan
virou-se abruptamente.
— Não abra!
— gritou. — Aguarde um pouco.
O carro saiu
aos solavancos. Parará a cem metros do portão; agora ainda faltavam oitenta
metros, sessenta...
Os seres luminosos
não se moviam. Bloqueavam o portão; Rhodan estava preocupado em saber quantos
deles conseguiriam penetrar no interior da montanha quando Anne a abrisse.
—
...quarenta metros, vinte...
— Abra! —
berrou Rhodan com a voz rouca.
Anne rangeu
os dentes.
Durante meia
hora nada se alterou. De repente surgiu uma fenda no lugar em que a ferradura
tocava o solo. Rhodan fitou-o e viu que o portão se abria para cima, como uma
cortina de palco.
Procurou
calcular a velocidade do carro e a altura que a abertura teria quando o veículo
chegasse lá. Por um instante sentiu vontade de frear, porque o portão se abria
muito devagar, mas logo desistiu desse intento.
Não teve
tempo para observar os seres luminosos. Quando o carro esbarrou na parte
superior do portão houve um solavanco ligeiro, mas forte, e um estalo
assustador.
Haviam
passado.
— Feche o
portão! — gritou Rhodan.
Descreveu um
grande círculo sem procurar saber para onde estava indo e fez uma curva de
noventa graus. Sentiu-se tranqüilizado ao perceber na tela que o portão se
fechara e que tudo fora muito rápido para os seres luminosos. Sua reduzida
capacidade de reação não permitiu que compreendessem em tempo o que estava
acontecendo.
Ouviu perto
de si um ligeiro farfalhar de roupas e um baque.
Os esforços
dos últimos quinze minutos fizeram com que Anne Sloane perdesse os sentidos.
Rhodan ia
dizer alguma coisa, mas nesse instante a tela emitiu uma luz tão intensa que
todos fecharam os olhos.
Rhodan
piscou os olhos. Por entre as pálpebras semicerradas procurou estudar o quadro
que se desenhava na tela.
O carro
encontrava-se num grande pavilhão circular. Tinha trinta metros de diâmetro e
sua altura era considerável.
A fonte de
luz que iluminava a cena fora concebida para olhos acostumados ao esplendor
branco-azulado de Vega, não para olhos terrenos.
Rhodan
sentiu-se estupefato ao notar que o pavilhão estava completamente vazio, com
exceção de um aparelho que não era muito grande.
Logo
percebeu de que se tratava. Era um transmissor de objetiva, igual ao que haviam
visto quando procuravam seguir a pista do desconhecido. Naquela oportunidade
encontravam-se num recinto que parecia uma fábrica e Bell, que se arriscara
demais, subira para o ar, transformado numa cintilante espiral energética.
Então era um
transmissor de objetiva, um aparelho que transmitia através do hiperespaço, sem
que aquele que quisesse fazer uso da teleportação tivesse de estar num lugar
determinado ou precisasse estar ligado com o aparelho. Esse transmissor, que
funcionava com base em raios captadores-impulsores pentadimensionais,
constituía um aperfeiçoamento do aparelho usado pelos ferrônios.
O aparelho,
diante do qual se encontravam agora, era maior que aquele que haviam visto no
recinto da fábrica. Tinha ao menos cinco vezes o tamanho daquele, mas parecia
perdido em meio ao imenso pavilhão.
Rhodan
virou-se abruptamente. A gravitação existente no interior do pavilhão era
idêntica à da superfície do planeta Gol.
Subitamente
o carro começou a tremer. Rhodan percebeu que a direção girava; procurou
descobrir a causa. Olhou para a tela e viu que o transmissor de objetiva havia
descido.
Teria
descido mesmo?
Fora o carro
que se movera. Flutuava cinqüenta centímetros acima do solo e continuava a
subir.
— Está
vendo, Deringhouse?
— Sim.
— Regule o
gerador antigravitacional. Alguém está eliminando a gravidade. Compense com a
regulagem antes que o carro saia voando por aí.
Deringhouse
cumpriu a incumbência com muita habilidade. Alguns minutos de angústia se
passaram enquanto o carro ora se mantinha, mal e mal, no solo, ora subia alguns
centímetros.
— Não há
mais nada — anunciou Deringhouse depois de algum tempo. — Terminou.
O carro
estava equipado com um gravímetro. A força gravitacional reinante do lado de
fora era de 1,2 g .
Rhodan
fechou o capacete. Deringhouse fez o mesmo, e também Tanaka Seiko, que voltara
a recuperar as forças, depois que tinham deixado para trás os seres luminosos.
Anne Sloane continuava inconsciente; seu capacete foi fechado sem que ela o
percebesse.
Teriam de
sair. O carro possuía uma saída, mas não dispunha de comporta, pois ninguém
contara com a possibilidade de que os ocupantes teriam de abandonar o veículo
fora da nave.
Não sabiam o
que havia lá fora. Talvez a atmosfera fosse respirável, talvez não fosse, e era
possível que não houvesse nenhuma.
— Vamos! —
ordenou Rhodan.
Abriu a
portinhola. Não houve qualquer dificuldade; só houve um pequeno solavanco,
quase imperceptível.
Isso
significava que no pavilhão havia uma atmosfera, e a diferença de pressão entre
a mesma e a de que dispunham no interior do veículo não era muito grande. De
que seria formada?
Rhodan não
assumiu qualquer risco. Os capacetes dos trajes espaciais continuaram fechados.
Examinou o
transmissor de objetiva. Ao que tudo indicava o princípio de seu funcionamento
era idêntico ao que tinham visto em outro lugar. Havia uma fileira de botões
coloridos, um regulador direcional, concebido segundo o princípio do ângulo
espacial, dotado de uma lente que reproduzia numa tela o alvo apontado.
Rhodan sabia
manejar aquilo. Aprendera. Sabia localizar um alvo a ser teleportado e
contemplá-lo na tela.
Mas havia
uma coisa que não sabia fazer: pôr o transmissor a funcionar.
Durante a
primeira atuação compreendera que para isso precisava de um mutante dotado de
capacidades telecinéticas. Não havia outro meio de fazer o contato.
Rhodan
comprimiu os botões com as luvas rígidas de seu traje espacial. A tela
iluminou-se. Parecia dispor de uma observação ótica do alvo dotada de elevada
potência. Fosse qual fosse o alvo escolhido, o quadro sempre era nítido e
luminoso, mais luminoso que o resultante de uma irradiação de luz
infravermelha.
Viu áreas
desconhecidas da superfície de Gol. Havia planícies formadas por cristais de
metano congelado e montanhas enormes e entrecortadas, que se erguiam para o
infinito. Girou o regulador direcional para o ponto que sua intuição lhe dizia
corresponder ao norte. Ao que tudo indicava sua intuição não fora totalmente
correta; mas um ligeiro movimento e o apertar de um botão que regulava a
distância do alvo bastou para fazer a Stardust-III aparecer na tela de imagem.
Deringhouse
soltou um grito de surpresa:
— A nave
está inclinada!
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça. Depois que fora interrompido o contato com a
Stardust-III, não esperava outra coisa.
A inclinação
da nave não era muito acentuada. Se nada mais tivesse acontecido à Stardust-III,
não haveria o que temer.
Mas havia
outro detalhe que prendia a atenção de Rhodan.
O
dispositivo ótico de localização do alvo parecia trabalhar com uma objetiva de
ângulo bem amplo. Na tela não se via apenas a Stardust-III, mas também o lago
em que o carro de Rhodan quase afundara, o caminho que este havia percorrido do
vale em diante e numerosas montanhas de gelo formadas nos últimos trinta
minutos na margem norte do lago em virtude de uma repentina queda de
temperatura.
— Anne
Sloane está recuperando os sentidos! — disse o japonês com a voz baixa.
Rhodan olhou
para o lado. Anne começou a se mexer.
Só ela
poderia fazer funcionar o transmissor de objetiva.
“Seria isso mesmo que estavam procurando?”,
perguntou Rhodan de si para si. “Um
simples transmissor de objetiva?”
Nunca tivera
uma idéia muito clara do que os esperaria no planeta Gol. Mais uma indicação,
acreditava. Um sinal que lhes mostraria o próximo trecho do caminho que teriam
de percorrer.
“Seria o transmissor? Será que dali sairia a
indicação?”
Parecia que
sim. No pavilhão não havia nada além do transmissor. Rhodan não sabia o que
aconteceria quando Anne o pusesse a funcionar.
Mas confiava
no desconhecido. Sabia perfeitamente da situação que todos aqueles que
seguissem sua pista teriam de enfrentar em Gol. O transmissor devia representar
um meio de livrar-se dos perigos que ali os aguardavam.
* * *
Anne pôs-se
de joelhos. Rhodan ajudou-a a levantar-se.
— Ficou boa?
— perguntou em tom delicado.
Anne fez que
sim.
— Tenho de
ficar, não é verdade?
Sorriu
através do visor do capacete.
— Muito bem.
Já conhece o mecanismo. O alvo foi regulado. Pode ligar.
Anne fechou
os olhos.
Os músculos
de Rhodan crisparam-se, na expectativa da dor cruciante que logo se faria
sentir.
E a dor
veio.
Numa fração
de segundo a luminosidade dolorida desvaneceu-se. Uma dor martirizante
apossou-se de Rhodan, que teria gritado, se durante a transição houvesse
possibilidade de gritar.
Quanto
tempo?...
7
... Um tempo
infinito.
Ninguém
sabia dizer como funcionava o sentido temporal do homem durante a teleportação.
Mas Rhodan teve a impressão de que nunca uma teleportação durara tanto quanto
esta.
Parecia que
várias horas se tinham passado até que voltou a surgir a dor martirizante que
indicava o fim da teleportação e a claridade começou a surgir diante do visor
do capacete.
Aquilo
era...
Sentiu uma
pancada, como se tivesse caído; mas estava firmemente apoiado nas pernas.
Deringhouse
surgiu perto dele. Desequilibrou-se ligeiramente e esbarrou em Rhodan. Atrás
deles apareceram Tanaka Seiko e Anne Sloane.
E o lugar em
que se encontravam era a sala de comando da Stardust-III.
Seria mesmo?
Thora estava
estendida no chão. Apoiou-se sobre os braços, levantou a cabeça e olhou
espantada em torno de si. Seu olhar caiu sobre as pernas de Rhodan, subiu por
elas, reconheceu o rosto.
— Você?!
Naquele
momento de enorme surpresa Rhodan deu prova de sua capacidade extraordinária,
que há algum tempo, em Nevada Fields, quando seu treinamento de piloto espacial
chegou ao estágio final, fizeram com que entre os psicólogos da equipe
científica gozasse da fama de ser um monstro.
Foram
transportados de maneira totalmente inexplicável do interior da montanha para
bordo da Stardust-III. Pois bem! Era um mistério sobre o qual quebrariam a
cabeça mais tarde. Por enquanto havia coisa mais importante a fazer.
— Tudo em
ordem a bordo da nave? — perguntou em tom áspero.
Thora
levantou-se.
— Como...
como chegou até aqui?
— Tudo em
ordem por aqui? — repetiu Rhodan em tom ainda mais áspero.
Thora
fitou-o, boquiaberta.
— Não —
gaguejou depois de algum tempo. — Bell... aqueles seres luminosos...
— Onde está
Bell?
Thora teve
de refletir.
— Na sala de
comando técnico.
Rhodan
dirigiu-se a Deringhouse.
— Tome conta
da sala de comando. Procure descobrir o que aconteceu. Logo estarei de volta.
* * *
Encontrou
Bell. Estava estendido na sala dos geradores, inconsciente com um choque
elétrico. Foi submetido a tratamento e dali a trinta minutos estava totalmente
recuperado.
Relatou o
que lhe acontecera. Após isso procuraram localizar os seres luminosos, mas a
bordo da Stardust não havia mais nenhum.
Poucos
minutos depois que Bell havia terminado seu relato, o major Nyssen e o capitão
Klein entraram na sala de comando. Pareciam bastante perturbados. Disseram que
ficaram presos com o carro danificado em meio a algumas montanhas de gelo. Um
ser luminoso havia penetrado no veículo; o gerador do motor fora destruído
totalmente e o do campo antigravitacional em parte. A última impressão que
tiveram do planeta Gol foi a de que a força gravitacional no interior do carro
subira para cerca de 10 g .
Em pensamento fizeram uma espécie de testamento, já que da Stardust não chegava
qualquer resposta. Até que...
Era um relato
desconexo. Subitamente tiveram a impressão de que o carro entrara em transição.
Depois de algum tempo recuperaram os sentidos e viram-se no interior de uma das
comportas da Stardust, juntamente com o carro. Saíram do veículo com as pernas
trêmulas e subiram correndo para a sala de comando. Ali estavam eles!
Os complexos
energéticos da Stardust funcionavam perfeitamente. A invasão dos seres
luminosos não lhes causara qualquer dano.
Onde foram
parar os seres luminosos?
“A pergunta não é esta”, pensou Rhodan. “Onde é que nós fomos parar?”
* * *
As telas
enormes da sala de comando mostravam um setor do espaço que nenhum deles jamais
havia visto, nem mesmo Crest e Thora.
Podiam-se
contar as estrelas, deviam ser umas cinqüenta ou sessenta em todo o trecho do espaço
abrangido pelo ângulo de visão.
Quem já
tinha visto o céu luminoso da galáxia, com os bilhões de pontos luminosos,
sabia o que significava o quadro que via diante de si.
Ao sair da
teleportação provocada pelo transmissor de objetiva guardado no interior da
montanha do planeta Gol, a Stardust encontrava-se num ponto do espaço que não
pertencia mais à galáxia por eles habitada.
Em nenhum
ponto da Via Láctea existia um céu com sessenta estrelas.
Rhodan
percebera-o imediatamente. Por um instante entreteve a esperança enganosa de que
Crest pudesse descobrir em que região espacial foram parar. Mas o volume de
saber arcônida que Crest dominava era igual ao de Rhodan. Não conhecia aquele
setor do espaço, mas com a ajuda dos mapas procurou descobrir algum ponto de
referência pelo qual a Stardust-III pudesse se orientar.
* * *
Em meio
àquela incerteza deprimente Tanaka Seiko captou uma mensagem do desconhecido.
Subitamente o japonês viu uma bola incandescente em meio à sala de comando. De
início levou um susto tremendo, pois pensava que se tratasse de um dos seres
luminosos.
Mas ninguém
a não ser ele viu aquela bola, e só ele entendeu a mensagem que irradiava:
— A
advertência foi dirigida a você. “Procura
encontrar o mundo em que foram depositadas as coordenadas. Sabe que não
conseguirás voltar se não descobrires o caminho certo. O objetivo está muito
longe!”
Traduziu a
mensagem para Rhodan, que respondeu com um aceno de cabeça.
Crest
procurou encontrar algum ponto de referência.
Depois que a
calma voltou a reinar e ninguém podia fazer outra coisa senão aguardar o
resultado dos esforços de Crest, Rhodan procurou fazer um sumário dos
acontecimentos que se desenrolaram em Gol.
Teve alguns
ouvintes atentos, que eram as pessoas que tiveram participação ativa nos acontecimentos
do planeta Gol. Entre eles se encontrava, por exemplo, o engenheiro, que os
seres luminosos arrastaram para um canto da sala dos geradores, juntamente com
doze homens do serviço de vigilância, depois de deixá-los desacordados.
— Gol é um
mundo cujas características se afastam dos demais — principiou Rhodan. — Sua
densidade média é de cerca de cento e cinqüenta gramas por centímetro cúbico. É
uma densidade superior à do ósmio, que é o metal mais denso que conhecemos.
“Gol deve
ser uma espécie de sol esfriado, embora percorra sua órbita em torno de Vega
como qualquer planeta. Em seu interior devem existir campos gravitacionais que
não se baseiam exclusivamente nos princípios de Newton, mas têm outras causas.
“No meu
entender os seres luminosos são uma emanação da natureza extraordinária desse
planeta. Certamente provêm da gravisfera não-newtoniana situada no núcleo de
Gol.
“Não são
dotados de inteligência, ou melhor, sua inteligência não é superior à de um
cachorro ou de um gato. Consistem em, como direi, energia individualizada ou
indivíduos energéticos.
“Sabem o que
pretendo dizer. Nossa língua não dispõe de palavras para descrever uma coisa
como esses seres energéticos.
“Quando os
expulsamos do vale, por meio do emissor recém-construído, cujas vibrações não
suportavam, comportaram-se tal qual um bando de marimbondos espantados.
Entraram em forma e voltaram ao ataque. Adotaram um comportamento diferente
daquele ao qual estávamos acostumados e conseguiram nos lograr.
“Entraram na
Stardust sem que ninguém desse pela coisa. Penetraram, ou melhor, um deles
penetrou no carro do major Nyssen, inutilizou o gerador que movimentava o
veículo e com isso cortou o suprimento de energia do segundo emissor, que
Nyssen levava com ele. Também se interpuseram no nosso caminho, mas não
conseguiram nada.”
Ficou calado
por algum tempo e sugou no seu cigarro.
— O que
sabemos sobre os seres luminosos é só isto — concluiu. — E uma parte não passa
de suposição. Ainda teremos interesse em saber mais a seu respeito, mas por enquanto
nosso objetivo é outro.
Todos
mantinham a cabeça abaixada e refletiam.
Estiveram no
mundo que ultrapassava a capacidade imaginativa dos homens e mesmo dos
arcônidas. Foram salvos de uma maneira tão estranha que até parecia ridícula.
A maior
parte deles achou que a missão realizada em Gol não servira para muita coisa.
Os que tinham uma visão mais ampla perceberam que ao menos haviam aprendido
duas coisas:
Em nosso
universo existe muito mais saber do que que nosso cérebro consegue imaginar. A
fantasia do Criador não se esgotara com a criação do homem, dos arcônidas, dos
habitantes de Fantan, dos DI, dos ferrônios, dos tópsidas e de outros seres
mais. Criara seres que não eram formados de sangue de carne e destinara-lhes um
espaço de ordem superior. O Universo apresentava uma multiplicidade tremenda, e
quem, ao retornar de uma série de viagens espaciais, afirmasse que não poderia
encontrar mais nada de novo, cometeria um sacrilégio.
E ainda:
Andavam no
encalço de um desconhecido que dispunha de recursos técnicos cuja
potencialidade ultrapassava a fantasia mais ousada. Com um aparelho
relativamente minúsculo realizara a teleportação de uma nave até então
considerada a conquista máxima da técnica, de um pesado veículo de esteira e de
um grupo de quatro pessoas, e reunira tudo aquilo em outro ponto do espaço. Não
havia explicação para o fenômeno; qualquer pessoa cônscia das possibilidades de
sua mente não quebraria a cabeça com o problema.
Talvez um
dia o desconhecido lhes oferecesse a solução, quando o tivessem alcançado.
Talvez nessa oportunidade também revelasse a finalidade do jogo de passos
pequenos, que vinha arrastando Rhodan e seus homens metro após metro pelas
pegadas do desconhecido.
Talvez...
* * *
A escotilha
se abriu. Crest entrou. Rhodan olhou-o.
— Acredito
que encontrei alguma coisa — disse Crest, com uma certa insegurança na voz. —
Mas não se alegre antes da hora. Não tenho a menor certeza.
Rhodan
levantou-se e, enquanto caminhava em direção a Crest, seu rosto contorceu-se
num sorriso.
— Coragem! —
disse em tom firme. — Já enfrentamos inseguranças piores que esta.
* * *
A Stardust-III voltou ao espaço livre, muito
embora por algum tempo parecesse que aquele objeto titânico, fabricado com o
aço de Árcon, jamais se ergueria do planeta Gol.
Mas de que serve o espaço livre a quem não conhece sua posição, a
quem não enxerga a luz de qualquer constelação conhecida?
Mas acredita-se que as coordenadas se encontram no Planeta do Sol Moribundo.
O Planeta do
Sol Moribundo, é este o título do
próximo volume da série Perry Rhodan.

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