Autor
CLARK
DARLTON
Tradução de
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
EDIÇÕES DE OURO
A
energia humana e a tecnologia superior dos arcônidas uniram-se num super-poder
conhecido como a Terceira Potência.
E não foi
sem razão que lhe deram esse nome. Pois essa Terceira Potência, chefiada por
Perry Rhodan, já conseguiu evitar as piores catástrofes para a Terra.
Mas agora
os velhos inimigos dos arcônidas, os Deformadores Individuais, penetram no
sistema solar. A Terceira Potência vê-se diante duma ameaça contra a qual nem
mesmo os cientistas do planeta Árcon conhecem qualquer defesa...
- - - - - - - - - - Personagens principais: -
- - - - - - - - -
Perry
Rhodan — Chefe da Terceira Potência.
Reginald
Bell — Engenheiro eletrônico da Stardust e melhor amigo de Perry.
Crest
e Thora — Únicos sobreviventes da expedição
dos arcônidas.
Tako Kakuta — Membro do exército dos mutantes.
Possui o dom da teleportação.
Homer G. Adams
— “Ministro das Finanças” da Terceira Potência. Seu campo de trabalho é o mundo,
e as somas por ele manipuladas atingem a casa dos bilhões.
Ernst Ellert — Um homem cujo espírito sabe deslocar-se
no tempo. Perry diz que é um teletemporador.
Allan D. Mercant
— Chefe do Conselho Internacional de Defesa e simpatizante de Rhodan.
I
Subitamente os olhos daquele homem se arregalaram
numa expressão de horror, como se tivessem enxergado uma coisa inconcebível. Mas
fitavam o vazio, o azul infinito do céu que se espelhava na superfície do pequeno
lago escondido no mato. Logo tornaram-se rígidos e apáticos.
A mão que segurava a vara de pescar não tremia.
Parecia petrificada. Não reagiu quando a bóia foi arrastada abruptamente para o
fundo. Só a vara envergou sob a tração pela qual Sammy Derring esperara em vão a
manhã inteira. E agora nem reagiu.
Quem pudesse contemplar seus olhos naquele
instante recuaria horrorizado. O pavor infinito misturou-se com o espanto. Isso
durante cinco segundos.
Nesses cinco segundos ninguém reconheceria
naquele homem o estatístico; Sammy Derring, funcionário, já há alguns anos, do Ministério
da Defesa do Bloco Ocidental. Era solteiro. Nos fins de semana ia invariavelmente
ao pequeno lago situado no meio da floresta, para pescar trutas que entregava à
dona da casa em que ocupava um quarto. Não gostava de peixe, mas era de opinião
que o esporte da pesca acalmava os nervos e fazia bem à saúde. Mais adiante. à margem
duma estradinha, achava-se estacionado seu carro, que era o segundo hobby de Sammy. Não conhecia outras paixões
Por cinco segundos Sammy Derring estava praticamente
morto.
Seu espírito, sua inteligência, ou sua alma,
conforme o termo que se prefira usar abandonara o corpo. Mas não o abandonara voluntariamente.
Fora forçado. Alguma coisa mais forte que ele, alguma coisa inconcebível apossara-se
de seu cérebro, penetrara nele e expelira o que antes se encontrava em seu interior.
Durante esses segundos inconcebíveis Sammy
Derring via a si mesmo sentado à margem do lago. Invisível, flutuou a alguns metros
de altura e olhou para seu corpo. Não compreendeu, mas viu. E também viu que estava
morto, mas continuava sentado no mesmo lugar. Ele, ou melhor, seu corpo, deveria
ter caído. Mas continuou sentado e nem se interessou pelo peixe que mordera a isca.
No espírito de Sammy surgiu o desejo de levantar
o caniço, mas o corpo que se encontrava ali embaixo já não obedecia ao seu comando.
Além disso, não havia mais tempo. Os cinco segundos tinham chegado ao fim. O quadro
bucólico do lago desvaneceu-se diante dos olhos de Sammy — será que ele ainda tinha
olhos? — e desapareceu.
Uma força invisível arrastou-o. As cores tremeluziram.
Por um instante julgou ver uma esfera imensa abaixo de si. Logo após sentiu-se envolvido
pela escuridão. Percebeu que estava sendo arrastado para dentro de alguma coisa.
Subitamente os reflexos físicos retornaram. Sentiu os membros. Pôde movê-los.
Apesar da escuridão conseguiu enxergar. Notou
que a escuridão não era completa; uma luminosidade fraca enchia o espaço no qual
se encontrava. A pergunta de como tinha chegado até ali surgiu vagamente em seu
espírito, mas logo se desinteressou pela resposta. Sofrera um esgotamento total
e encontrava-se num hospital. Não havia outra explicação.
Estava doente. O cansaço envolveu-o e apoderou-se
de todo o seu ser. Por que ninguém cuidava dele? Desconfiou de que devia haver alguém
por perto. Esforçou-se para erguer o corpo, mas não conseguiu. Será que o tinham
encontrado junto ao lago e o trazido até ali? Não se vira a si mesmo, sentado junto
à margem do lago? Seus olhos já se haviam acostumado à semi-escuridão; voltara a
enxergar. Mas o cansaço tornava-se cada vez mais forte. Sentiu que iria adormecer.
Mas alguma coisa remoía no seu cérebro e não lhe dava sossego. Constatara algo.
Mas preciosos segundos se passaram até que a percepção atingisse sua consciência
e se transformasse em realidade. Os dedos... as pernas. Reunindo as últimas energias,
abriu os olhos uma última vez e, apavorado, fitou as extremidades dos quatro braços
presos ao seu corpo. Viu garras bem afiadas, com ventosas.
Depois olhou para o corpo. Era um corpo de
marimbondo, coberto duma fina penugem, que se estreitava no centro. O monstro terrível
em que se transformara subitamente era tão irreal que Sammy deu um suspiro de alívio,
fechou os olhos negros e esticou as pernas.
Era claro que tudo não passava de um sonho.
Como não pensara nisso antes?
Quando se deu conta do fato de que jamais o
homem, enquanto sonha, percebe que se encontra nesse estado, já era tarde.
Seu espírito, aprisionado num organismo extraterreno,
mergulhou num sono profundo.
* * *
Decorridos os cinco segundos, Sammy Derring
recolheu a vara de pescar. Contemplou sem maior interesse a truta de quase um quilo
e, depois de ligeira hesitação, tirou-a do anzol e voltou a atirá-la à água. Colocou
a vara distraidamente no gramado e, em passos um tanto inseguros, como se tivesse
estado de cama por algumas semanas, dirigiu-se ao carro. Mais uma vez hesitou ligeiramente.
Mas logo o centro de memória do intelecto que antes habitara aquele corpo forneceu-lhe
as informações desejadas.
Sammy Derring, que já não era o verdadeiro
Sammy Derring, deu partida no motor do carro e, guiando cautelosamente pelo caminho
esburacado, conduziu-o em direção à rodovia. Lançou um olhar ligeiro sobre as placas
indicativas. Logo disparou em direção à cidade.
A senhora Sarah Wabble admirou-se de ver seu
inquilino de volta antes da hora de costume. Sua admiração cresceu bastante quando
Sammy se limitou a cumprimentá-la com um ligeiro movimento de cabeça e se trancou
no quarto. Nenhuma palavra nada de trutas.
O ser que já fora Sammy Derring sentiu-se aliviado
ao perceber que a porta trancada o separava dos homens. Sua experiência no comando
de organizações estranhas ainda deixava a desejar. Além disso os habitantes deste
planeta dispunham de uma boa dose de inteligência que não era fácil excluir nem
conservar. Teria sido fácil eliminar aquele homem, mas as ordens do comandante tinham
de ser cumpridas.
Esse comandante não se encontrava na Terra.
Bem longe, no espaço cósmico, urn objeto oval que emitia um brilho metálico percorria,
em queda livre, sua órbita era torno da Terra sem que ninguém pudesse perceber seus
movimentos. Essa nave não fora concebida pelo cérebro de qualquer homem, nem construída
por mãos humanas. Garras de inseto e patas de ventosa que não eram humanas, mas
nem por isso menos hábeis que as mãos dos homens, haviam executado o serviço. A
inteligência que comandava os movimentos dos membros de seis articulações daqueles
insetos de quase dois metros de comprimento, cujo aspecto lembrava ligeiramente
o das vespas, não ficava a dever nada à dos homens.
Uma faculdade permitia ao espírito desses seres
extraterrenos abandonar seu próprio corpo e apossar-se de um organismo estranho.
Com isso realizava-se uma verdadeira troca. Felizmente ainda desta vez a natureza
cuidara para que houvesse um ponto fraco. O espírito que habitava o corpo no qual
pretendiam penetrar só poderia ser banido e aprisionado enquanto ficasse encerrado
no corpo da própria vespa. Só assim os DI adquiriam liberdade de ação e conseguiam
realizar qualquer movimento com o corpo que passavam a habitar. Se o hospedeiro
falecesse antes que abandonassem seu corpo, a vespa teria que falecer com ele. E
a destruição do corpo do inseto que encerrasse o espírito humano também se tornaria
fatal.
Aqueles que conheciam os insetos chamavam-nos
de Deformadores Individuais, ou simplesmente DI, isso por causa de suas qualidades
terrificantes.
Os DI haviam encontrado a Terra. Esse planeta
totalmente desconhecido, situado nos confins da Via Láctea, transformara-se de uma
hora para outra no centro duma série de acontecimentos cujas conseqüências ainda
eram imprevisíveis. Os DI foram atraídos pelos sinais de socorro de um cruzador
espacial dos arcônidas, que dominavam um imenso império espacial e eram os
inimigos natos das “vespas”. Não havia a menor possibilidade de vitória na luta
contra elas, a não ser que conseguissem localizar e destruir suas naves. Uma dessas
naves exploradoras devia ter realizado um pouso de emergência no sistema solar.
No entanto, uma surpresa estava reservada aos DI. A Terra era habitada por uma raça
inteligente, que já chegara mesmo a ultrapassar os primeiros estágios
da navegação espacial.
Estava na hora de cuidar dos terrenos antes
que os arcônidas o fizessem.
Fora só por esse motivo que o comandante dos
DI ordenara a infiltração no planeta Terra. Tinha certeza absoluta de conquistar
em pouco tempo as posições-chaves da ciência e da política terrena.
Decidira levar a efeito a invasão.
Os homens não desconfiavam de nada. Sabiam
que nas proximidades da órbita lunar surgira uma nave espacial desconhecida, que
fora destruída, mas não sabiam que os DI possuíam mais de uma nave. E. mais do que
isso, com exceção de umas poucas pessoas, não sabiam quem eram os DI e quais eram
suas intenções.
* * *
Quando Sammy Derring entrou no escritório na
segunda-feira de manhã e cumprimentou seus colegas, ninguém percebeu a transformação
que havia experimentado. Remexeu os papéis e subitamente chamou a secretária.
A jovem entrou e segurou o bloco de ditado.
Sammy sacudiu a cabeça e disse em tom sério:
— Traga-me todos os documentos relativos à
defesa terrestre. Além disso desejo examinar os relatórios sobre os progressos alcançados
nos setores da pesquisa espacial e da tecnologia dos foguetes. Estou interessado
principalmente na eficiência da nossa defesa. Por que me olha desse jeito? Vamos
logo, mexa-se!
A secretária engoliu em seco e ficou com o
rosto vermelho.
— Mas, senhor Derring...
— Não entendeu o que eu disse?
A secretária quis dizer mais alguma coisa,
mas logo viu a expressão nos olhos de Sammy. Essa expressão era tão estranha, tão
distante, que a fez estremecer. Ficou sem saber o que dizer. Com um aceno de cabeça
saiu da sala. Deixou para trás um Sammy Derring muito satisfeito. Ou melhor, o aspecto
externo de Sammy Derring.
A secretária fechou a porta e ficou parada
por um instante. Depois sacudiu a cabeça e tomou uma decisão: dirigiu-se ao seu
chefe de seção, um certo John Mantell.
Mantell ouviu em silêncio o que aquela linda
jovem tinha a dizer. Em sua testa surgiram algumas rugas. Parecia refletir intensamente.
Depois de algum tempo sacudiu a cabeça.
— Tem certeza absoluta de que Sammy não estava
gracejando?
— Absoluta. Estava falando sério. Além disso,
aquela expressão nos seus olhos. Nunca vi uma expressão dessas no rosto de ninguém.
Mantell contemplou-a com olhos perscrutadores.
— Isso é muito estranho! Quer os dados relativos
à defesa nacional. Deve saber perfeitamente que só o ministro da defesa tem acesso
a eles. Não irão entregá-los a qualquer funcionariozinho. Será que ficou megalomaníaco?
Pela primeira vez a secretária sorriu.
— Lembro-me de que certa vez, em brincadeira,
o senhor Derring disse que seu nome era parecido com o do ministro da defesa. Disse
que um dia poderia ser confundido com ele.
— O ministro Samuel Daring não teria gostado
disso nem um pouco — conjeturou Mantell. — A semelhança de nomes não justifica esse
tipo de brincadeira. Falarei com Derring. Diga-lhe que se apresente no meu escritório
às onze horas.
A secretária hesitou.
— O que devo dizer-lhe agora?
— Diga o que quiser. E agora deixe-me em paz;
tenho muito que fazer.
A secretária foi saindo devagar, mas não voltou
à sua mesa. Ficou indecisa por alguns instantes; depois pediu que a anunciassem
ao encarregado dos serviços de defesa.
O senhor Smith ficou surpreso ao saber do incidente.
Levou o caso muito mais a sério que John Mantell, que provavelmente já o havia esquecido.
Pediu à secretária que aguardasse na ante-sala. Mal a porta fechou-se atrás dela,
começou a desenvolver uma atividade intensa. Retirou um telefone trancado num cofre,
discou um número e esperou impaciente. Teve de repetir o número duas vezes. Finalmente
a pessoa com que desejava falar respondeu ao chamado.
— Aqui fala Smith, do Ministério da Defesa.
Aconteceu uma coisa estranha, senhor. É totalmente incompreensível, a não ser que
se trate de uma brincadeira. Acontece que há poucos dias recebi instruções do senhor
no sentido de observar qualquer pessoa que revele um comportamento anormal e...
A voz interrompeu-o. Formulou uma pergunta
precisa. Smith encolheu-se e assumiu um porte mais rígido na poltrona. Seu interlocutor
devia incutir-lhe um respeito fora do comum.
— Perfeitamente, senhor. O funcionário Sammy
Derring exige que lhe entreguem os planos secretos da defesa nacional. Além disso,
quer ser informado sobre os detalhes do nosso programa espacial. Manifestou esse
desejo com toda a seriedade. Sua secretária afirma que nunca viu tamanha determinação
em sua pessoa. Além disso, ela declara ter notado uma expressão muito estranha nos
olhos dele.
Houve outra pergunta lacônica, mas desta vez
em voz bastante alta:
— Qual é o nome do funcionário?
— Sammy Derring, senhor.
— E como é o nome do ministro da defesa?
— Senhor?!
— Quero saber como se chama o ministro da defesa.
— Samuel Daring, senhor. Mas o senhor já sabia
disso...
— Obrigado, Smith. Anote minhas instruções.
Não deixe que ninguém desconfie de nada. A secretária entregará os documentos a
Derring. É claro que lhe entregará documentos já superados. Derring não deve suspeitar
de nada. Entendido?
— Perfeitamente, senhor. Mais alguma coisa?
— Não fale sobre isso com ninguém, ouviu? Dentro
de duas horas estarei aí.
— O senhor pretende vir pessoalmente? A voz
de Smith falhou. Era uma coisa nunca vista. Allan D. Mercant, o chefe todo-poderoso
dos serviços de defesa do Ocidente, se daria ao incômodo dessa viagem. E ainda por
cima tratava-se duma bagatela. Por certo acabariam por descobrir que o tal do Sammy
Derring se permitira um gracejo, já que seu nome era semelhante ao do ministro da
defesa.
— Sim, irei pessoalmente. E não se esqueça:
o sigilo deve ser absoluto! Avise a secretária.
Smith voltou a colocar o telefone no cofre.
Quando chamou a jovem, parecia pensativo. Pediu-lhe que sentasse. Depois falou em
tom indiferente:
— Não fale com ninguém sobre o incidente. Ao
que parece, Sammy está... Bem, está doente. Provavelmente se trata de um tipo de
alucinação. Daqui a dez minutos lhe mandarei um monte de documentos, que você entregará
ao seu chefe. Compreendeu?
— Compreendi, mas...
— Não há nenhum mas! Diga a Sammy que já solicitou
os documentos ao arquivo. E não fale com ninguém sobre o assunto.
A secretária lembrou-se do chefe de seção.
Já contara alguma coisa a ele. Mas Mantell parecia não se interessar por isso. Talvez
até acabasse esquecendo. Acenou com a cabeça.
— Muito bem, senhor Smith. Avisarei o senhor
Derring. Tomara que não volte a olhar-me de forma tão estranha. Tenho medo dele.
— Que tolice...
— Thompson. Clara Thompson.
— Não há nada a recear, Clara. Acredito que
Derring esteja sofrendo de uma perturbação psíquica passageira. Ontem fez muito
calor; quem sabe se não passou muito tempo no sol.
Para Clara Thompson isso não justificaria o
fato de que subitamente alguém se julgasse o ministro da defesa em pessoa. No entanto,
achou preferível não responder. Despediu-se com um aceno de cabeça e voltou à sua
mesa. Não se lembrou mais de Mantell.
Quando bateu na porta, Sammy levantou os olhos.
— Ah, está trazendo os documentos?
— Ainda não, senhor. Devem chegar dentro de
dez minutos.
— Obrigado. Quando chegarem, não me faça perder
mais tempo.
— Perfeitamente, senhor.
Clara sentiu-se feliz quando pôde fechar a
porta atrás de si. Sammy Derring tinha uma aparência normal. O brilho estranho dos
olhos desaparecera. Mas aquela ordem estúpida sobre os documentos secretos continuava
de pé.
Dali a dez minutos os documentos foram trazidos.
Estavam guardados numa pasta vermelha, na qual se liam as palavras Estritamente
confidencial.
Clara fitou a pasta. Sentia-se muito importante
ao carregá-la nas mãos, embora soubesse quão pouco importante devia ser seu conteúdo.
Por que Smith estaria entrando nessa brincadeira infantil? Haveria algo mais que
um simples capricho atrás de tudo isso?
Pegou a pasta vermelha, bateu à porta da sala
de Derring e entrou ao ouvir a voz dele. Sem dizer uma palavra, colocou os documentos
sobre a mesa e fitou-o. Notou que em seus olhos surgiu um brilho de triunfo. E viu
mais alguma coisa, que não conseguiu interpretar. Havia algo de distante, de infinito.
Teve a impressão de olhar num abismo tão profundo que através dele poderia precipitar-se
para a eternidade. Saiu perturbada e voltou à sua mesa.
Sammy Derring esperou que a porta se fechasse
antes de abrir a pasta e examinar os documentos. Logo percebeu que sua missão fora
bem sucedida. Ali estavam os maiores segredos deste mundo, ou ao menos os segredos
de uma das superpotências. Outros DI seriam bem sucedidos em várias partes do mundo.
No dia seguinte o comandante saberia quais os meios de defesa dos homens e em que
lugar a invasão poderia ser lançada com maiores possibilidades de êxito. Não bastava
apossar-se do corpo desses bípedes desajeitados. Deviam conservar sua independência,
mesmo que estivessem submetidos às ordens de outro chefe.
Enquanto examinava os documentos e constatava
que haviam superestimado os recursos dos terráqueos, o tempo passava inexoravelmente.
Os ponteiros do relógio aproximavam-se da marca das onze horas.
Algumas salas adiante John Mantell lembrou-se
duma palestra que tivera com Clara Thompson. Por um instante a idéia de deixar as
coisas como estavam e não perder tempo com uma brincadeira parecia impor-se à sua
mente, mas o sentimento do dever acabou vencendo. Era bem possível que uma brincadeira
dessas acabasse em complicações bastante desagradáveis. Comprimiu um botão do interfone.
Dentro de poucos segundos ouviu-se uma voz feminina.
— Clara? Como está Derring? Já lhe disse que
desejo falar com ele?
Clara, que quase chegara a esquecer-se de Mantell,
balbuciou:
— Acho que seria preferível que o senhor não
se incomodasse mais com este incidente, senhor Mantell. Deve ter sido uma brincadeira
do senhor Derring. É melhor não ligar e...
— Nesse caso não deveria ter falado comigo.
Quer fazer o favor de avisar Sammy de que desejo falar com ele.
— Eu, eu...
Com uma expressão de espanto no rosto, Mantell
desligou. Ergueu-se de chofre e saiu. Dez segundos depois encontrou-se com Clara
na porta da ante-sala. A secretária assustou-se.
— O que houve? Aonde o senhor vai? — sentia-se
cada vez mais confusa. — Eu queria falar com o senhor. Gostaria de pedir-lhe que
agora não perturbasse o senhor Derring. Ele está ocupado num trabalho muito importante...
Mantell, surpreso, ergueu as sobrancelhas.
— Ah, é? Tem trabalho importante para fazer?
Bem, vejamos.
Passou junto a Clara e abriu a porta da sala
de Sammy sem bater. Viu que seu subordinado estava debruçado sobre um montão de
documentos. Levantou os olhos bastante contrariado e fitou o recém-vindo com uma
expressão de perplexidade. Levou perto de cinco segundos antes de reconhecer seu
interlocutor.
— Ora, senhor Mantell. Posso ser-lhe útil em
alguma coisa?
Mantell apoiou os punhos sobre a mesa.
— Diga-me uma coisa, Sammy. Será que você enlouqueceu?
Desde quando se permite brincadeiras desse tipo com nosso pessoal? Anda solicitando
os documentos mais secretos como quem pede papel higiênico! Faz de conta que é o
ministro da defesa. E nem ele tem o direito de, sem mais esta nem aquela... O que
houve com você?
Sammy passara por uma transformação apavorante.
De início seus olhos perplexos fitavam o chefe de seção enfurecido, depois tornaram-se
vazios e apáticos. Quando o brilho retornou, ele se desenhava sobre um fundo implacável.
A voz áspera de Sammy perguntou:
— Como é o nome do ministro da defesa?
Mantell respirava com dificuldade. Não compreendia
mais nada.
— Sammy! Você está maluco! Não vá me dizer
que esqueceu o nome de nosso chefe!
— Esqueci, sim. Como é o nome dele?
— Daring. Samuel Daring. Você devia saber,
Sammy, pois a semelhança com seu nome já deu causa a alguns enganos bem desagradáveis.
Mas nem por isso...
Calou-se. Sammy saltou sobre os pés. Apontou
para o monte de documentos que havia em sua mesa.
— Se não sou o ministro da defesa, por que
me deram os documentos que pedi?
Mantell lançou os olhos sobre os documentos.
Não sabia. Antes que fizesse alguma observação menos acertada, a porta abriu-se
atrás dele. Smith entrou, seguido por Clara Thompson. Logo compreendeu a situação.
Em seu rosto via-se uma expressão de contrariedade. Mantell assustou-se. Sabia que
Smith com seu aspecto despretensioso possuía uma soma muito maior de poderes que
ele. Teria cometido algum erro?
— O que está acontecendo por aqui? — perguntou
Smith, embora imaginasse o que estava havendo. Dirigiu-se a John Mantell. — Clara
não o avisou de que devia abster-se de qualquer providência?
— Ele não quis dar-me atenção — interveio Clara.
— Ela veio me dizer que Sammy se havia permitido
um gracejo — defendeu-se Mantell. — Ia pedir a ele que no futuro se abstivesse desse
tipo de brincadeira. A semelhança de seu nome com o do ministro da defesa não deve
levá-lo a...
Ninguém estava prestando atenção a Sammy Derring,
que voltara a sentar-se. Subitamente toda vida desapareceu de seus olhos. Estava
sentado atrás da escrivaninha, mantendo a cabeça numa posição rígida. Os olhos inexpressivos
fitavam o vazio, tal qual no dia anterior haviam contemplado o céu, onde não havia
nada para ver. Tudo isso não demorou mais que cinco segundos. Depois disso a vida
retornou àquele par de olhos.
Nesses cinco segundos repetiram-se exatamente
os mesmos acontecimentos do dia anterior, apenas em sentido inverso. Depois de reconhecer
seu engano, o DI saíra precipitadamente do corpo em que se hospedara. Agiu num estado
de pânico; se tivesse usado alguma habilidade, poderia ter corrigido seu erro. Mas
preferiu retornar ao seu corpo adormecido e libertar o intelecto que se achava preso
no mesmo. O espírito de Sammy voltou ao corpo que lhe pertencia. Perdera toda a
lembrança do que havia acontecido, a não ser alguns detalhes sem importância que
lhe pareciam um sonho.
Ainda há pouco estivera sentado junto ao lago,
segurando a vara de pescar, e agora estava acomodado atrás de sua mesa. Via diante
de si Mantell, o chefe de seção, Smith, e mais atrás Clara Thompson, que o encarava
um tanto perplexa.
O que havia acontecido nesse meio tempo?
— O que desejam, cavalheiros? — perguntou em
tom indiferente.
Seus olhos caíram sobre os documentos que se
abriam diante dele. Examinou a pasta vermelha. Estupefato, contemplou seus interlocutores.
— Como isso veio parar aqui?
Smith interveio antes que Mantell pudesse dar
expressão à sua fúria plenamente justificada. Seu raciocínio cristalino fez com
que reagisse instantaneamente. Não conhecia todos os detalhes da situação, mas lembrou-se
de que seu chefe Allan D. Mercant estava a caminho. E também isso não acontecia
sem um motivo muito poderoso. Havia muito mais coisa atrás daquele incidente aparentemente
inofensivo do que qualquer um dos presentes poderia suspeitar.
— Trata-se de alguns relatórios antigos, já
superados. Gostaria que você os examinasse, Sammy. O ministro pediu-nos que confiássemos
esse serviço a um funcionário de toda confiança.
Sammy ainda parecia perplexo, mas confirmou
com um movimento de cabeça.
— Agradeço ao senhor e ao ministro a confiança
com que me distinguiram. Até quando devo terminar o serviço?
— Não se apresse, Sammy. Venha, John. Você
também, Clara. Não vamos perturbar Sammy.
Arrastou Mantell, que não compreendia mais
nada, e fechou a porta atrás de Clara. Depois suspirou aliviado.
— Ainda tivemos sorte. Mantell. Você quase
faz uma tremenda tolice. Não sei o que há atrás disso, mas o senhor Mercant está
a caminho daqui.
— O chefe dos serviços de defesa do Ocidente?
— disse Mantell com a voz espantada. — Não é possível!
— Acontece que é verdade. Você vai voltar ao
seu escritório e não se preocupará mais com Sammy Derring. É uma ordem. O ministro
da defesa não deve ser informado sobre o incidente. Você, Clara, também vai ficar
com a boca calada. Hoje vamos jantar juntos, e então explicarei tudo.
— Mas...
— Às oito, no dancing do Pedro. Combinado?
— Bem...
— Ótimo! E agora você vai sentar bonitinha
atrás da sua mesa e fazer de conta que não houve nada. E, de fato, não aconteceu
nada, não é mesmo?
Enquanto o avião-foguete que decolara da Groenlândia
aproximava-se em velocidade supersônica da sede do Ministério da Defesa, e enquanto
o cérebro de Mercant examinava e rejeitava as hipóteses mais fantásticas, Sammy
Derring estava debruçado sobre documentos inválidos e não sabia o que fazer com
tanta tolice.
Pelo que se lembrava, há poucos instantes se
encontrara junto ao lago, aproveitando o fim de semana. Não sabia explicar como
viera parar subitamente no escritório. Lembrou-se de que acontecera uma coisa muito
esquisita. Tinha a impressão de que sonhara acordado. Essa caverna enorme e estranha
com... Sim, com quê? Ah, sim! Com um monstro que parecia uma enorme vespa. E ele
mesmo fora o monstro.
Teria perdido o juízo? Mas nesse caso não estaria
ali, e não mereceria a confiança de seus chefes.
Suspirou e resolveu não pensar mais naquele
mistério. Qualquer pergunta seria inútil e só despertaria suspeitas. O ministério
não teria lugar para um colaborador que se encontrasse à beira da loucura. De qualquer
maneira devia ter dormido, pois não se lembrava de que alguém lhe tivesse trazido
aqueles documentos.
* * *
Uma coroa de cabelos castanho-dourados e ralos
rodeava a calva de brilho fosco daquele homem incrivelmente jovem, cujo rosto tranqüilo
poderia pertencer a um jardineiro. Não era nada disso. Tratava-se de um dos homens
mais temíveis do Bloco Ocidental, cujo nome até poucas semanas atrás fazia tremer
todos os agentes do Bloco Oriental e da Federação Asiática.
Allan D. Mercant, chefe do Conselho Internacional
de Defesa, preparava-se para uma entrevista com o homem cujo corpo fora ocupado
por um DI. Não seria seu primeiro contato com uma pessoa dessas. Há poucos dias
um DI, encarnado num dos seus colaboradores mais chegados, tentara pô-lo fora de
combate. Só se salvara graças à sua reação instantânea e a um princípio de capacidade
telepática de que era dotado.
Afinal, já começara a invasão de que poucos
homens desconfiavam. Começara inesperadamente, mas não de surpresa. A contradição
aparente podia ser explicada: há pouco tempo uma nave espacial dos DI fora avistada
e destruída nas proximidades da órbita lunar; segundo se acreditava, era a única
nave invasora que havia penetrado no sistema solar. Assim os homens se preparavam
para novos ataques, mas não contavam com eles.
Mercant sabia perfeitamente que, se não fosse
a Terceira Potência, a Terra estaria perdida. A primeira nave lunar tripulada, chefiada
pelo major Perry Rhodan, encontrara no satélite da Terra uma expedição malograda
de uma raça extraterrena muito inteligente, que se encontrava em franca decadência.
O chefe científico da expedição, de nome Crest, fora acometido de leucemia. Recorrendo
a um especialista, o Dr. Haggard, Rhodan conseguira curá-lo. Os arcônidas, era este
o nome dos seres ex-traterrenos, vinham de um sistema planetário situado a trinta
e quatro mil anos-luz da Terra, e estavam à procura do planeta legendário da vida
eterna. Aliaram-se a Rhodan e criaram no deserto de Gobi uma potência que em poucos
meses conseguira unir os três blocos antagônicos da Terra. Seguiu-se o primeiro
ataque vindo do espaço. Os DI haviam captado os sinais emitidos pelo cruzador dos
arcônidas, que fora destruído na superfície lunar, e acorreram às pressas para desferir
o golpe final em seu inimigo. Mas encontraram a resistência denodada dos terráqueos,
e foram destruídos. Era esta a situação. Mercant sabia perfeitamente que Perry Rhodan
era o único homem que poderia salvar a Terra. Embora os três blocos de superpotências
ainda nutrissem certa desconfiança por ele, o medo dos DI e das armas dos arcônidas
controladas por Rhodan era mais forte. E havia outro detalhe, conhecido de pouquíssimas
pessoas além de Mercant”. Perry Rhodan conseguira reunir alguns dos mutantes produzidos
pelas explosões nucleares levadas a efeito na Terra. Esses mutantes, cujas qualidades
extraordinárias ainda foram aperfeiçoadas, formavam o núcleo de um exército dedicado
à proteção de Perry Rhodan. O próprio Mercant, dotado de capacidade telepática,
também pertencia a esse exército. Só ele mesmo e Rhodan tinham conhecimento desse
fato, além dos outros membros do exército secreto dos mutantes.
O aparelho pousou. Um carro veloz levou Mercant
à sede do Ministério da Defesa. Foi conduzido imediatamente à presença de Smith,
que já o aguardava.
— Então, Smith, o que houve? Onde está o homem?
— Ele não sabe de nada. Quer que o leve à presença
dele?
— Quero, sim.
Smith ficou muito espantado ao ver que Mercant
engatilhou sua pistola e a enfiou no bolso da túnica. Ia avisá-lo de que não havia
ninguém que fosse mais inofensivo que Sammy Derring, mas preferiu calar-se. Calado,
foi andando à frente do outro. Mercant seguiu-o, também sem dizer uma palavra.
Derring ergueu os olhos quando a porta se abriu
subitamente, sem qualquer aviso. Havia uma expressão de espanto em seu rosto. Conhecia
Smith, mas não sabia quem era aquele homem de rosto pacato. Mas logo percebeu que
ele não devia ser tão pacato assim. Aqueles olhos pareciam espreitá-lo.
— O senhor é Sammy Derring? — perguntou o desconhecido.
— Fique sentado bem quieto e responda às minhas perguntas. E responda sem demora.
Ao menor sinal de um movimento suspeito eu lhe dou um tiro. Meu nome é Mercant.
Sammy ficou estupefato; seu rosto assumiu uma
expressão idiota. Deixou cair o queixo e, sem compreender o que se passava, encarou
a pistola que Mercant lhe apontava. Com grande esforço gaguejou:
— O que, o que deseja de mim?
— Por que pediu aqueles documentos aos quais
só o ministro da defesa tem acesso?
— Os documentos? Santo Deus! O senhor Smith
e o senhor Mantell acabam de trazê-los. Querem que os examine. Eu os pedi? É impossível.
— Quer dizer que os trouxeram? Você nega tê-los
pedido?
— Não sei de mais nada. Tudo isso é muito estranho.
Até parece que estou sonhando.
— Explique-se — ordenou Mercant, inclinando-se
para a frente.
Parecia muito interessado no que seu interlocutor
iria dizer. Não tirou os olhos dele. Smith continuava a seu lado.
Sammy hesitou. Tudo aquilo lhe pareceu muito
estranho.
— Eu estava pescando — principiou. Ao ver a
expressão de espanto no rosto de Mercant, apressou-se em acrescentar: — Estava pescando
no lago onde costumo ir nos fins de semana. Deve ter sido ontem. Subitamente tive
uma sensação estranha. Parecia que seria capaz de abandonar meu corpo. E foi o que
fiz. Alguns segundos depois encontrava-me numa enorme caverna. Por um instante acreditei
ver a Terra bem abaixo de mim. Foi um sonho maluco. Ao despertar vi-me sentado neste
escritório. O senhor Smith acabara de trazer estes documentos. Posso afirmar que
é a pura verdade, embora não compreenda. Não sei o que houve de ontem para hoje.
Mercant confirmou com um movimento de cabeça.
— São coisas que acontecem — confirmou em tom
cortês. — Mas no seu caso seria conveniente se descobríssemos.
— A dona da casa em que moro... poderíamos
perguntar a ela.
— Faremos isso.
Mercant deu algumas instruções a Smith. Este
foi à ante-sala e falou com Clara, que neste meio tempo havia voltado à sua mesa.
Dali a cinco minutos voltou.
— Sammy passou a noite em casa. Voltou do seu
passeio ao lago ontem de tarde, antes da hora de costume, mas não trouxe nenhum
peixe, coisa que nunca acontecera. A senhora Wabble fez questão de ressaltar este
ponto. Parecia mudado; foi para a cama imediatamente. Hoje de manhã não notou nada
de estranho nele.
Mercant olhou para Sammy Derring.
— Você seria capaz de jurar que é você mesmo?
Sammy fitou-o sem compreender.
— Jurar o quê?
— Quero saber se já se encontra em condições
normais. É evidente que há uma lacuna em sua memória. De ontem de tarde até duas
horas atrás você andou dizendo e fazendo coisas de que não sabe mais nada. Alguém
apossou-se de seu corpo e fez de conta que era você.
— Não é...
— É possível, sim. É verdade que nenhum ser
humano seria capaz disso. Mas você já deve ter ouvido falar que no universo existem
outros seres além dos homens.
— Ouvi, sim. São os arcônidas.
— Estou me referindo aos DI, uma raça assemelhada
aos insetos, que sabe transplantar seu espírito para outro corpo. No seu caso, o
DI cometeu um erro fundamental. Achou que você era o ministro da defesa, cujo nome
é semelhante ao seu. Não conhecemos os meios de comunicação deles, mas ao que tudo
indica são acústicos. E na língua inglesa o nome Derring é pronunciado da mesma
forma que Daring. O ser extraterreno enfiou-se no corpo do homem errado. É só isso.
Sammy. Você prestou um serviço inestimável à humanidade. Por causa de seu nome.
Mercant já voltara a guardar a arma. Percebera
que o DI já abandonara o corpo em que se havia instalado. Sammy Derring tinha um
aspecto sadio e normal. Isso significava que a idéia de que ninguém conseguia sobreviver
a esse processo de troca não era verdadeira. Logo se deu conta de que o próximo
ataque seria dirigido contra o ministro da defesa, cujo nome era Daring. O mesmo
devia ser submetido imediatamente a uma rigorosa vigilância. Além disso, Perry Rhodan
devia ser avisado, antes que ocorressem novos ataques.
Deu algumas instruções a Smith. O agente retirou-se
para tomar as providências necessárias. Não compreendia o que havia atrás daquilo,
mas estava acostumado a executar prontamente as ordens que lhe eram dadas, mesmo
que não as compreendesse.
* * *
Smith dirigiu-se imediatamente a Miller, secretário
particular de Daring. Miller estava muito ocupado. Transmitia ordens pelos aparelhos
de intercomunicações, mensageiros traziam envelopes lacrados, pastas com documentos
eram retiradas dos cofres. Miller mostrou-se contrariado quando Smith se atreveu
a interrompê-lo:
— Deixe-me em paz. Volte mais tarde. O chefe
não tem tempo.
— Não me conhece mais?
— Claro que o conheço, mas no momento isto
não importa. Será que quer prender o senhor Daring?
— Quem sabe? — respondeu Smith e sorriu ao
ver que Miller quase engasgou de raiva. — Não fique nervoso. Apenas gostaria de
formular algumas perguntas.
— Vamos depressa!
— Que azáfama é essa? Por que estão carregando
todos esses documentos?
— São ordens do chefe. Pediu toda a documentação
sobre os serviços de defesa e a pesquisa espacial. Afinal, o homem não pode carregar
tudo isso na cabeça.
— Será? — observou Smith e desapareceu antes
que Miller compreendesse o que havia acontecido.
Nesse meio tempo Mercant obtivera uma ligação
com seu quartel-general situado na Groenlândia. De lá o ligaram com a base de operações
de Perry Rhodan, situada no deserto de Gobi. Era ali que ficava o centro da Terceira
Potência, formado num espaço de poucos meses. Estava abrigado sob uma cúpula energética
invisível.
Mercant ficou sabendo que não seria possível
falar com Perry Rhodan. É que este se encontrava em Vênus.
No momento em que Smith entrou, Mercant desligou.
Levantou os olhos. Depois disse em tom grave:
— Aconteça o que acontecer, Smith, teremos
de resolver tudo sozinhos. Pode comunicar logo que Samuel Daring, ou melhor, aquilo
em que Samuel Daring acaba de transformar-se, solicitou todos os documentos secretos.
Não foi o que descobriu?
Perplexo, Smith confirmou com um movimento
de cabeça.
II
O enorme bloco de pedra jazia em meio à planície
desértica. Os raios de sol o fustigavam. O ar quente tremeluzia, mas não soprava
a menor brisa que o espalhasse.
Subitamente aconteceu uma coisa inacreditável.
O bloco de pedra moveu-se, como se uma mão
invisível o tivesse levantado. Subiu ao ar com uma lentidão incrível.
Se alguém pudesse assistir ao espetáculo, seus
cabelos se teriam arrepiado. O bloco pesava pelo menos duas toneladas, mas comportava-se
como se a lei da gravidade não se aplicasse a ele. Subiu que nem um balão de gás,
deslocou-se ligeiramente na lateral e subitamente despencou para a terra com um
ruído tremendo. Até parecia que a mão invisível o soltara. Aos poucos a poeira foi-se
assentando.
O bloco de pedra jazia imóvel, como se nunca
tivesse saído do lugar. Os raios de sol voltaram a atingi-lo, aquecendo a face que
antes ficara na sombra.
Mas a calma não durou muito. O bloco de pedra
não teve sossego. Voltou a mover-se, desta vez com maior rapidez e segurança. Subiu
a dez metros de altura deslocou-se para o lado. Aproximava-se inexoravelmente das
margens de um lago salgado, cuja superfície lisa não era perturbada pela menor brisa.
Só quando o bloco de pedra despencou no lago e desapareceu sob a água formaram-se
algumas ondas que se deslocaram em círculo e foram morrer nas margens.
A dois quilômetros dali alguns homens estavam
reunidos e olhavam em direção ao lago. O mais idoso deles, um gigante de cabelos
claros, quase brancos, e crânio alongado, demonstrou sua satisfação com um aceno
de cabeça. Perto dele estava uma jovem, que também fez um gesto de aprovação. O
japonesinho a quem eram dirigidos os louvores limitou-se a dar de ombros. Parecia
embaraçado.
— Sou um fracasso — confessou, sem dar-se conta
de que estava fazendo pouco de suas extraordinárias capacidades. — Não consigo,
Anne.
A jovem Anne Sloane dirigiu-se ao homem de
cabelos brancos.
— Não podemos fazer nada, Crest. Tama Yokida
é muito modesto. O detector de freqüência mental apontou-o como um mutante, e não
há dúvida de que realmente o é. Conseguiu levantar uma pedra de algumas toneladas
a dois quilômetros de distância, e isso exclusivamente com a força mental. Possui
o dom da telecinese, muito embora o mesmo ainda se encontre no estágio inicial.
Afinal, levei muitos anos para atingir a perfeição nesse terreno. Tama, se você
for um aluno persistente, também conseguirá.
O cientista dos arcônidas, que participara
da expedição malograda que ficara presa na Lua e atualmente era colaborador de Rhodan
e dominava as instalações técnicas, voltou a confirmar com um movimento de cabeça.
— Não desanime, Tama. Só lhe falta treino.
Não se perturbe pelo fato de Anne ter alcançado uma perfeição muito maior que você.
Afinal, ela vem treinando há anos, enquanto você só há pouco tempo teve conhecimento
de seu dom. Ficará admirado com o que daqui a alguns anos fará com a maior naturalidade.
Tenha paciência!
Como sempre, Tama Yokida respondeu com um sorriso
de modéstia.
— Concordo com você, Crest. Devo agradecer
à natureza pelo dom com que me presenteou. Quer prosseguir logo no treinamento?
Crest lançou um olhar pensativo sobre a superfície
do lago salgado, que voltara à calma. Confirmou com um movimento lento de cabeça.
Ao falar, olhou para Anne Sloane.
— Anne, você fez a rocha cair na água. Suas
forças telecinéticas são espantosas. Será que Tama conseguirá exercer uma influência
telecinética sobre a rocha a partir daqui?
Anne olhou para o japonês.
— Não sei. Sei que eu conseguiria fazer o bloco
de pedra subir ao ar a qualquer momento. Será que Tama conseguiria alcançá-lo no
lugar em que se encontra agora? O lago não é muito fundo.
— Qual é a profundidade? — perguntou Tama.
— Preciso saber desse detalhe.
Crest ligou um aparelho que trazia preso ao
braço.
— Dr. Haggard? Será que você pode nos mandar
Ishi Matsu? Sim, é para o treinamento.
Anne Sloane compreendeu.
— Não é aquela japonesinha que sabe olhar através
de objetos opacos?
Crest sorriu.
— Anne, você está exagerando. Ishi Matsu não
sabe olhar através da matéria opaca. É uma telecineta, nada mais. É diferente de
você porque sabe realizar um rastreamento telecinético mesmo com os olhos fechados,
tal qual um cego faria com a bengala. Infelizmente essa sensibilidade tática diminuirá
à medida em que Ishi dominar a telecinese propriamente dita.
Tama sorriu.
— Minha coleguinha e eu completamo-nos muito
bem. Quando nosso trabalho tiver sido coordenado, não haverá poder no mundo que
nos possa resistir.
— Hoje já é assim — disse Crest.
Olhou para o complexo de edifícios baixos que
rodeavam a nave espacial Stardust, pousada há alguns meses. Acima de tudo estendia-se,
num raio de dez quilômetros, uma cúpula energética invisível, alimentada pelos reatores
inesgotáveis dos arcônidas.
Uma figura franzina veio em direção ao grupo.
— O caso é que nosso exército terá de enfrentar
não apenas as forças humanas — prosseguiu Crest. — Antes de mais nada, deverá estar
em condições de fazer face a inimigos extraterrenos. Os sinais de emergência emitidos
por nosso cruzador, destruído na lua terrestre, atrairão outras raças de astronautas.
Receio que o isolamento do planeta Terra tenha chegado ao fim. Ali vem Ishi.
A bela japonezinha usava jeans e blusa
branca, que realçava sua figura delicada e bem formada. Tama Yokida lançou um olhar
de admiração para a colega. Até um cego notaria que algo estava se preparando entre
os dois.
— Mandou chamar-me, Crest? — perguntou com
a voz gentil e aveludada.
— Mandei, embora por hoje seu treinamento já
esteja concluído. Tama fez uma proposta muito interessante sobre a coordenação das
capacidades dos mutantes. Está vendo o lago salgado? Pois no lugar em que está aquele
arbusto seco. a uns duzentos metros da margem, há uma pedra de cerca de duas toneladas
no fundo da água. Peço-lhe que procure determinar a profundidade do lago naquele
lugar. Seu amigo Tama precisa desse dado para solucionar seu problema. Compreendeu?
A moça fez que sim. Deu um sorriso animador
ao patrício e colocou-se numa posição tal que seu rosto apontava para o lugar indicado.
Fechou os olhos. A concentração de seu espírito projetou rugas profundas sobre a
testa normalmente lisa. Tama Yokida estava parado bem junto a ela. Quase chegou
a tocá-la. Mas a proximidade dele parecia não distrair Ishi; pelo contrário. Ela
deu um passo para o lado e segurou seu braço. Cravou os dedos nele como se procurasse
apoiar-se. Subitamente...
— Sinto a pedra! — exclamou Tama. Arregalou
os olhos e fitou o lago. — Sinto-a. Está em meio a outras pedras. A profundidade
é de vinte metros, no máximo.
Crest fez um gesto de aprovação.
— Muito bem, Ishi! Vejo que os mutantes podem
completar-se uns aos outros. Tama, vamos ao trabalho. Tire a pedra da água e volte
a colocá-la em terra, em qualquer lugar. Já conhece a posição dela.
Tama compreendeu o que Crest desejava. O treinamento
dos mutantes cabia aos arcônidas. Perry Rhodan confiara seu exército especial a
Crest, porque este reunia todas as qualidades para ensinar alguma coisa a gente
como os mutantes.
O grupo ficou imóvel. Passaram-se cinco minutos.
Dez minutos.
Quinze minutos.
Subitamente um esguicho subiu no lugar em que
a pedra havia desaparecido. As ondas foram-se afastando em círculo para morrer na
margem do lado. Algumas se perderam na imensidão de sua superfície. Alguns segundos
depois a pedra subiu acima da água, flutuou por algum tempo, voltou a firmar-se,
depois de oscilar ligeiramente, e deslocou-se lentamente em direção à margem. Ali
despencou para o solo.
— Excelente! — exclamou Crest. — Melhorou bastante.
Meus parabéns, Tama.
— Não fale nisso, Crest — disse Tama Yokida
em tom modesto.
Crest estava a ponto de prosseguir, quando
foi interrompido por um ligeiro zumbido. Vinha do aparelho em seu braço.
— Alô! É Crest.
Era o Dr. Frank M. Haggard, médico australiano
que havia descoberto o soro antileucêmico que curara Crest. Falava da Stardust.
— Crest, temos notícias desagradáveis de Mercant.
Os DI voltaram a agir.
— Já previa isso. Onde foi?
— Nos Estados Unidos houve um caso. Apossaram-se
do ministro da defesa. No último instante Mercant conseguiu evitar o pior, mas nada
pode fazer nos casos que ainda nâo chegaram ao seu conhecimento. Ele quer saber
se podemos ajudar em alguma coisa.
Crest franziu a testa.
— É claro que vamos ajudar. Mas é uma pena
que Perry ainda não esteja de volta. Tem tido contato com ele?
— Desde a última mensagem radiofônica não tive
mais. Já devem ter iniciado a viagem de volta.
— Tente estabelecer contato com a nave Good
Hope. Se conseguir, avise Rhodan. Talvez consiga localizar e destruir a nave oval
dos DI. Tako Kakuta está com ele.
Tako Kakuta era um teleportador. Certa vez
já conseguira transferir-se com uma bomba para o interior de uma nave oval do inimigo
e destruí-la. Tal qual acontecera com os outros mutantes, também no seu caso as
radiações intensas provocadas pelas explosões nucleares de Hiroshima e Nagasaki,
durante a Segunda Guerra Mundial, haviam provocado uma modificação da estrutura
cerebral e despertado potencialidades até então não reveladas.
— Manterei o receptor ligado, e ao mesmo tempo
emitirei o sinal de chamada. Mas devemos fazer alguma coisa enquanto não conseguirmos
estabelecer contato.
Crest lançou um olhar para Anne Sloane.
— Devemos, sim. Afinal, para que serve o exército
de mutantes? Acho que chegou a hora dele dar prova da sua eficiência.
* * *
Os pântanos fumegantes de Vênus foram-se desvanecendo;
o planeta transformou-se na foice prateada cujo brilho excedia o do Sol. Evidentemente
tratava-se de uma ilusão ótica, pois na realidade o Sol emitia uma luminosidade
mais intensa. Mas a espessa camada de nuvens refletia a luz solar com tamanha intensidade
que se tornava quase impossível contemplar Vênus com o olho desguarnecido.
O vulto esguio mantinha-se imóvel diante das
telas. Seus olhos sonhadores contemplavam o planeta que ia recuando, e que acabara
de ser incluído nos seus planos. Perry Rhodan compreendera que a Terra se tornara
pequena para ele, e que precisava dum mundo exclusivamente seu para construir seu
império.
Eric Manoli, que já de si era um homem calado,
estava sentado numa poltrona perto de Perry. Sua figura mirrada quase desaparecia
atrás do encosto. Também dedicava toda a atenção ao planeta que ia mergulhando no
infinito, e que tanto se parecia com aquilo que a Terra devia ter sido há cem milhões
de anos.
O terceiro homem que se encontrava na sala
de comando da nave Good Hope parecia menos impressionado. Todo encolhido, Reginald
Bell, engenheiro de bordo da nave Stardust, jazia no leito dobrável. Seus olhos
cor de gelo deslizavam rápidos sobre as linhas do livro que estava lendo. Notava-se
perfeitamente que seus cabelos se arrepiavam, como se estivesse lendo uma história
de fantasmas. Às vezes um sorriso irônico passava pelo rosto largo. Não parecia
interessar-se pelo planeta que ia recuando na tela.
Foi ele que rompeu o silêncio compenetrado
que reinava naquele recinto. Sacudiu a cabeça, fechou o livro e deitou sobre a volumosa
barriga. A capa do livro ficou à vista. Nela se via a paisagem selvática de um pantanal.
Num dos pântanos via-se uma nave esguia, que afundara até a metade. Um homem parado
numa das comportas de ar defendia sua vida com um fuzil de radiações contra alguns
monstros horrendos que pareciam dinossauros.
— Este sujeito devia ser preso — declarou com
um profundo suspiro. — A meu ver isso é uma fantasia doentia.
Perry Rhodan não tirou os olhos da tela. Sem
virar a cabeça, perguntou:
— Quem devia ser preso?
— O sujeito que cometeu o crime de escrever
este romance.
— Que romance?
Reginald Bell voltou a suspirar.
— Este aqui: “Base em Vênus”. É um romance
utópico. Imagine que foi escrito há dez anos. Naquela época ninguém teria pensado
em fazer uma viagem a Vênus. E esse camarada vai escrevendo sem mais aquela, faz
alguém construir uma nave e instala-se confortavelmente em Vênus, depois de ter
atolado com sua nave. Trava lutas heróicas contra o calor e os dinossauros, até
que seu amigo aparece com outra nave e o liberta. É inacreditável!
Perry Rhodan girou a poltrona e fitou o rosto
de Bell. Sempre se admirava com o aspecto ingênuo do mesmo. Todavia, não havia ninguém
que tivesse um QI tão elevado como ele e Bell. Deviam isso ao treinamento hipnótico
dos arcônidas, através do qual lhes foi ministrado em poucos dias um volume de saber
superior ao de toda a humanidade. As conquistas de uma cultura e de uma civilização
milenar estavam armazenadas nos cérebros daqueles homens. A aparência de Bell não
revelava nada disso. Muitas vezes Perry sentia-se tentado a subestimá-lo, quando
olhava aquele rosto inocente. Mas sabia perfeitamente o que havia atrás de seus
olhos cor de gelo.
— Não vejo nada de inacreditável nisso. O escritor
não tem razão? Em Vênus não existem pântanos e dinossauros? E por acaso não faz
calor?
Reginald Bell parecia decidido a exprimir suas
emoções através de suspiros.
— Pois é justamente isso! O que aquele sujeito
escreve é verdade. Até dá para desconfiar que já esteve aqui antes de nós. — Ergueu
o corpo e apoiou-se no cotovelo direito. — Isso é uma baixeza!
Um sorriso condescendente esboçou-se no rosto
de Perry.
— Você está com inveja; o problema é este.
Você não se conforma em saber que há dez anos o autor desse livro já tenha experimentado
em sua fantasia a vivência de coisas que só hoje realizamos. Andou à frente do tempo,
e isso deixa você furioso.
— Mas esse fuzil de radiações é uma verdadeira
tolice. Há dez anos não se conheciam sequer os fundamentos teóricos de uma arma
desse tipo, isso sem falar nos raios laser e maser.
— De qualquer maneira, ontem essa arma nos
serviu para espantar aquele bicho teimoso que pensou que a Good Hope fosse uma maça
e pretendia devorá-la.
Bell parecia desolado.
— Santo Deus! Não fomos nós que inventamos
essa arma de radiações!
— Que importa? Dispomos dela, embora a tenhamos
recebido dos arcônidas. Se não a tivéssemos não estaríamos aqui, pois nesse caso
a Good Hope não existiria mais.
Bell desistiu.
— Está bem, não vamos brigar por isso. Aquele
escrevinhador foi um gênio, andou à frente do seu tempo, criou obras imortais e
esteve mais adiantado que nós. Ao menos poderia ter cometido um engano, pintando
Vênus como um planeta coberto de pó. Mas não! Sua descrição é exata nos menores
detalhes. Onde já se viu? Isso me deixa nervoso! Não teremos nada para contar aos
homens.
— Se isso o aborrece tanto, por que lê essa
história?
Bell não soube o que responder. Nem teria tido
tempo. Subitamente o ar treme-luziu por uma fração de segundo entre ele e Perry,
e um homem surgiu no lugar em que antes não havia nada. Mais uma vez o mutante japonês
Tako Kakuta resolvera materializar-se sem se fazer anunciar, isso porque era tão
preguiçoso que não queria percorrer como um homem normal os poucos metros que separavam
a sala de comando do posto de radiotelefonia.
Mas não seria correto chamar o local de trabalho
de Tako um simples posto de radiotelefonia. A Good Hope era uma nave auxiliar do
gigantesco cruzador espacial dos arcônidas, que fora destruído na Lua pela união
das superpotências da Terra. Thora, comandante do cruzador e única mulher arcônida
da expedição, conseguira salvar a nave auxiliar e fugira para a Terra onde encontrara
proteção junto a Rhodan. Essa nave auxiliar era muito grande, se aplicássemos os
padrões terrenos. Seu diâmetro era de sessenta metros, tinha forma esférica e desenvolvia
velocidade superior à da luz. Os neutralizadores gravitacionais eliminavam os efeitos
da inércia, motivo por que a nave podia ser acelerada à vontade. O armamento excedia
tudo que o espírito humano poderia imaginar. No entanto, o raio de ação, segundo
asseverara Crest, atingia apenas quinhentos anos-luz, ficando abaixo do mínimo vital
dos arcônidas. Com essa nave não poderiam atingir seu planeta natal, ou qualquer
base do império arconídico.
O “posto de radiofonia” da nave era uma gigantesca
central de comunicações. Tako só compreendia o funcionamento de pequena parte dela.
Contentou-se em lidar com o pequeno aparelho de rádio, que captava e transmitia
ondas das faixas normais. Com ele, conseguia manter contato com a Terra. Levaria
meses para aprender o significado dos outros aparelhos e instrumentos.
A comunicação com a base de Gobi estivera interrompida
por algum tempo. Mas agora os sinais emitidos pelo Dr. Haggard tornaram-se tão fortes
que não poderiam deixar de ser ouvidos.
Foi por isso que o japonês se teleportou para
a sala de comando.
Como sempre, Bell levou um tremendo susto.
Não havia nenhum motivo para isso, mas não era qualquer um que conseguia ficar impassível
ao ver um homem surgir do nada.
— Com mil diabos! Será que nunca poderemos
evitar que esse gafanhoto apareça constantemente sem ser anunciado?
Tako deu um sorriso amável.
— Da próxima vez anunciarei minha chegada por
carta. Combinado?
Perry interrompeu a discussão.
— Estabeleceu contato com o Gobi?
— Foi por isso que vim — confirmou o japonês.
O sorriso desaparecera; parecia muito sério. — Há horas Haggard está tentando entrar
em contato conosco. Temos más notícias, Rhodan. A invasão dos DI já começou. Mercant
relatou vários casos em que os DI se apossaram dos corpos de personagens importantes.
Mas, segundo informa Haggard, essa descoberta não serve de nada. Os DI retiraram-se
e procuram outra vítima.
Reginald Bell afastou o livro ao qual há poucos
segundos dedicara tanta atenção. Assumiu uma posição ereta. Em seus olhos surgiu
um brilho metálico.
— A invasão? Pois destruímos a nave dos atacantes.
— Nesse caso deviam ter duas naves. — Perry
dirigiu-se a Manoli. — Deixemos Venus de lado, Eric. Faça a Terra surgir nas telas.
Aceleração máxima.
A imagem das telas modificou-se. Uma estrela
verde-azulada surgiu e ao seu lado um minúsculo ponto luminoso, a Lua. Enquanto
olhavam, os dois objetos iam aumentando quase imperceptivelmente.
Perry voltou a dirigir-se a Tako.
— Mais alguma coisa?
— Crest pede que retornemos imediatamente ao
Gobi. Quer recorrer ao exército dos mutantes; não vê outra possibilidade de enfrentar
a invasão. Deseja falar com você.
— Vamos — confirmou Perry e foi saindo.
Tako lançou um olhar ligeiro para Bell. Um
sorriso esboçou-se em seu rosto e logo desapareceu. Quando Perry entrou na sala
de radiofonia, o japonês já estava esperando junto aos aparelhos.
— Aqui fala Rhodan.
— Aqui é Haggard. Um instante. Crest quer falar
com você.
Perry esperou.
— É Crest. Ouça, Rhodan. A situação é muito
séria. Mercant está desesperado. Pediu socorro. Achei preferível não fazer nada
sem você. Dentro de quanto tempo poderá estar aqui?
— Dentro de duas ou três horas. Espero que
a nave agüente.
— Quanto a isso não se preocupe, Rhodan. Se
avistar a nave dos DI, destrua-a. Peça a Tako que se teleporte para o interior dela
com uma carga de explosivo.
— Desta vez serão mais cautelosos. Crest. Estão
prevenidos. Tomara que não tenham trazido reforços.
— É impossível. Os princípios dos DI não lhes
permitem estabelecer entendimentos com outras raças. Acham que os poderes de que
são dotados lhes permitem liquidar qualquer inimigo. Quase chego a achar impossível
que possamos conquistar uma vitória total sobre eles.
— Crest, mais uma vez você nos subestima. Aliás,
encontrei um local adequado em Vênus. É lá que instalaremos nossa base; vamos intensificar
o treinamento dos mutantes.
— Isso tem tempo. Em primeiro lugar temos de
repelir a invasão. Os homens nem desconfiam do que os espera. Receio que os DI disponham
de uma base fixa na Terra, e que estejam operando a partir dela. Seria muito complicado
se tivessem de usar uma base móvel montada numa nave.
— Não há nenhum indício quanto a isso?
— Nenhum. Fale com Mercant; talvez ele lhe
possa dar alguma informação. Afinal, manteve contato com homens que foram possuídos
pelos DI e voltaram a ser liberados.
Perry ficou estupefato.
— Sempre pensei que um homem que fosse possuído
pelos DI tivesse de morrer. Houve alguma modificação?
— Estávamos enganados. As pessoas atingidas
não dão mostras de qualquer conseqüência prejudicial.
— Excelente! É um ponto favorável. Mais uma
coisa, Crest. Acho que não preciso encarecer a necessidade de jamais sacrificarmos
nossa situação proeminente face às potências mundiais. A união dos países da Terra
foi devida à nossa existência. Se um dia deixar de existir a “ameaça” representada
pela Terceira Potência, o mundo voltará a mergulhar no caos dos conflitos que mal
acabam de ser superados. Por isso acho que a vitória imediata sobre o invasor constitui
uma necessidade vital. Se não a conseguirmos, nosso prestígio terá chegado ao fim.
Quase se chegava a ver o sorriso de Crest,
quando respondeu:
— Não será só nosso prestígio que terá chegado
ao fim, mas toda a humanidade. E nós também O cérebro positrônico diz que nos encontramos
numa situação crítica.
— E o que diz sobre as nossas chances?
— São de cinqüenta por cento. Já é alguma coisa.
Perry refletiu por um instante. Depois disse:
— O raio de ação da Good Hope é de quinhentos
anos-luz. Será que não poderíamos atacar os DI em seu próprio terreno?
Crest suspirou.
— Rhodan, você está revelando um grau de atividade
assustador. Mais tarde talvez poderíamos cogitar dessa alternativa, mas acredito
que nas condições atuais ela não teria a menor chance. Os DI evitam o confronto
aberto, porque não têm necessidade de recorrer a ele, mas costumam manter suas instalações
de defesa em boas condições. Você não conseguirá nada enquanto dispuser apenas da
Good Hope.
— Bem, veremos. — Perry ainda não havia desistido
da idéia. — Por enquanto procure entrar em contato com Mercant. Quero encontrar-me
com ele, ou com um representante seu, assim que tornar à nossa base. Mais alguma
coisa?
— No momento não. Thora se comporta como uma
pessoa sensata.
Perry deu de ombros.
— Ainda bem. Até logo mais.
Voltou à sala de comando depois de ter ordenado
a Tako que mantivesse o receptor ligado. Parecia pensativo. Parou por um instante
na porta da sala. Thora! Era uma mulher extraordinária, embora estivesse impregnada
dos preconceitos doentios de uma raça superior. No entender dela, os homens não
passavam de uns semi-selvagens. Só consentira em colaborar com Rhodan por ter sido
forçada a isso. Sabia perfeitamente que encalhara num sistema solar estranho, e
que sem o auxílio dos homens nunca conseguiria voltar à sua terra. Sua própria raça,
que era altamente civilizada, mas decadente, não mexeria um dedo para procurá-la,
muito menos para salvá-la. Era bem possível que a perda do cruzador de pesquisa
científica nem fosse notada.
Thora era de uma beleza envolvente. Perry quase chegava
a acreditar que poderia amá-la, se não a odiasse tanto. Mas seria verdade que ele
a odiava, ou procurava apenas convencer-se a si mesmo de que era assim? Ainda bem
que Crest se encontrava a seu lado, e tantas vezes lhe explicava a motivação psicológica
das atitudes incompreensíveis de Thora.
Perry Rhodan deu de ombros e entrou na sala
de comando.
Na tela já se viam os continentes do planeta
Terra. Dali a pouco aterrizariam.
* * *
Mercant não viera pessoalmente. A responsabilidade
pela segurança do Bloco Ocidental representava um encargo tão pesado que preferiu
não abandonar mais a fortaleza situada sob os gelos da Groenlândia. Era a partir
dali que dirigia a atuação dos órgãos que se achavam submetidos ao seu comando e
engajava seus homens.
Um desses homens era o capitão Klein, um dos
funcionários mais competentes do serviço de defesa, e também um aliado de Rhodan.
Mercant designara-o como elemento de ligação com este último.
A cúpula energética abriu-se para deixar o
capitão Klein passar. Dentro de poucos minutos viu-se diante de Perry Rhodan.
Crest e Thora mantinham-se em silêncio, sentados
num sofá nos fundos da sala. Bell e Manoli também se encontravam ali, e ainda o
Dr. Haggard, e o telepata John Marshall, que era membro do exército dos mutantes.
Perry fez um sinal ao capitão Klein.
— Relate o que houve. Suponho que Mercant lhe
tenha conferido plenos poderes, e que esteja informado sobre a situação. É muito
grave?
— É bastante grave, embora ainda não possamos
prever as conseqüências da invasão que está sendo levada a efeito às escondidas.
Os DI vão aprendendo cada vez mais. No início agiram com pouca habilidade, o que
facilitou sua descoberta. Se bem que isso não adiantou muito, pois nesse caso logo
abandonavam o respectivo corpo e lhe restituíam seu pensamento próprio. A pessoa
atingida ficava sem a menor recordação do que tinha acontecido no meio tempo. Enquanto
isso os DI procuravam outra vítima. Hoje podemos afirmar sem receio de erro que
agem com tamanha habilidade que a descoberta se tornou quase impossível. E quando
essa descoberta ocorre... Bem, nesse caso temos de matar imediatamente o homem de
que o DI se apossou, pois só assim podemos eliminar este. Não vemos outra saída.
— Existe outra saída — disse Perry em tom sério.
— Os DI têm uma base na Terra, onde seus corpos descansam. Nesses corpos são aprisionados
os espíritos dos homens. É neles que ficam encerrados os intelectos que foram substituídos
pelos dos DI. Se conseguirmos descobrir essa base e destruirmos os corpos, os espíritos
dos DI não nos poderão causar mais nenhum prejuízo; É que precisam manter contato
com seu corpo para poderem subsistir. É uma história complexa, mas temos provas
irrefutáveis de que realmente é assim.
Perry calou-se por um instante. Atrás dele
Thora cochichava insistentemente ao ouvido de Crest. Seus olhos vermelho-dourados
emitiam um brilho suspeito. Estaria disposta mais uma vez a instigar Crest contra
os homens? Perry sentiu-se tomado pela raiva, mas conseguiu controlar-se. Um dia
ainda mostraria a essa mulher quanto ela precisava dos homens.
— Prossiga, Klein. Qual é a sugestão de Mercant?
— Uma vigilância constante sobre todos os personagens
importantes, para que desse lado não possa haver qualquer infiltração. É a única
sugestão que formulou.
— Não é muito — reconheceu Perry. Crest levantou-se
atrás dele. — Quer dizer alguma coisa, Crest?
Todos os olhares se dirigiram para o cientista,
em cujos olhos surgiu um brilho estranho, que nunca antes se observara. Falou com
a voz débil:
— Thora conseguiu convencer-me que qualquer
luta contra os DI será inútil. Já fizemos experiências com eles. Até hoje conquistaram
qualquer sistema solar que conseguiram encontrar. Se nosso império galático não
estivesse cercado de um complexo de instalações defensivas que destroem qualquer
nave oval que dele se aproxime, o mesmo já teria deixado de existir. Nenhum poder
do universo consegue deter os DI.
Perry franziu a testa.
— E daí? Por que resolveu contar-nos isso,
Crest? Foi por sugestão de Thora?
Crest lançou um olhar desajeitado para trás.
Thora veio em seu auxílio. Levantou-se de um salto. Parecia uma deusa da vingança,
com os olhos dourados chamejantes. Seu cabelo claro mal se destacava da pele, que
só aos poucos adquiria um tom amorenado sob os efeitos do sol terrestre. Era bela,
duma beleza extraterrena.
— Sim, foi por sugestão minha, Perry Rhodan.
Você sabe perfeitamente que a longa enfermidade de que padeceu enfraqueceu-o bastante.
Se continuarmos na Terra para travar uma luta sem chances contra os DI, desperdiçaremos
nossas últimas energias. Sugeri a Crest que deixemos este sistema para procurar
outro que ainda não foi descoberto pelos DI. Crest concordou com minha proposta.
Está decidido.
Perry lançou um olhar de advertência para Bell.
O engenheiro e técnico eletrônico às vezes tornava-se muito impulsivo. Estava prestes
a mover-se em direção a Thora.
— Quer dizer que pretende abandonar a Terra
— constatou Perry em tom indiferente. — A mesma Terra que se dispôs a ajudá-la.
— Quem ajudou quem? — fungou a comandante num
acesso de raiva.
— Houve reciprocidade em tudo. Se não fôssemos
nós, Crest já estaria morto.
— E se não fossem vocês, a tripulação do cruzador,
que foi sacrificada no ataque traiçoeiro à Lua, ainda estaria viva. Estamos quites.
— Ainda não, Thora. Vou formular uma pergunta,
e gostaria que você respondesse com toda sinceridade. Esses DI estão classificados
numa categoria mais elevada que a dos arcônidas? Costumam ser avaliados em nível
mais alto?
O rosto de Thora ficou rubro de raiva.
— Como se atreve a formular uma pergunta dessas?
É claro que os DI, que não passam duns insetos, pertencem a uma raça primitiva,
que não merece habitar o universo.
— Apesar disso pretende fugir deles? — interrompeu
Perry em tom irônico. — É espantoso! Isso não ofende seu orgulho, Thora?
Um sorriso perpassou pelo rosto de Crest. Era
evidente que a situação era muito penosa para ele, e que se sentia satisfeito com
o golpe que acabara de ser desferido contra Thora.
— A necessidade obriga-nos a isso. Aqui não
dispomos das armas necessárias para vencer os DI.
— Nesse caso temos de vencê-los sem as armas
necessárias. Criaremos armas adequadas. De qualquer maneira nós, os habitantes do
planeta Terra, não estamos dispostos a encarar a invasão dos DI como um fato inevitável.
Vamos defender-nos e acabaremos expulsando esses seres. E você vai nos ajudar, Thora.
— Você não pode obrigar-me.

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