Autor
K. H. SCHEER
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Com o auxílio de seus mutantes, Perry Rhodan, chefe da Terceira
Potência, conseguiu não apenas conquistar um gigantesco couraçado espacial, mas
ainda expulsou os invasores em forma de réptil do planeta principal do sistema
Vega.
Mas os comandantes da frota tópsida sabem perfeitamente que para o
ditador de seu mundo qualquer derrota representa um crime imperdoável. Por
isso, retiram-se com os remanescentes de sua frota para os confins do sistema
Vega, onde constroem A FORTALEZA DAS SEIS LUAS, destinada a servir de base a um novo
ataque.
Porém mais uma vez não se lembraram dos mutantes de Perry Rhodan —
nem de Crest, o arcônida.
= = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =
Perry Rhodan — Elemento número um de
poder, não só na Terra, mas também no sistema Vega.
Reginald Bell — Confidente e amigo íntimo de
Rhodan.
Sargento Calvermann — Cuja missão o conduz à
morte: mas ele morre com um sorriso nos lábios.
Thort — Soberano
dos ferrônios. Acredita que Rhodan é um arcônida.
Chaktor — Um ferrônio que, na decisão
que se aproxima, desempenha um papel mais importante que o que lhe deveria
caber como oficial de ligação.
Thora e Crest — Dois arcônidas genuínos.
Ishi Matsu, John Marshall e André Noir — Membros do Exército de Mutantes, comandado por Rhodan,
que são “fuzilados” segundo o figurino.
I
O chiado e
trovejar estridentes, provocados pela manobra de ejeção, tiveram o efeito duma
chibatada física e psíquica. Suportaram o efeito arrasador da potência
mecanizada com uma calma estóica, enquanto namoravam a idéia de fazer o vôo de
aproximação com o maior conforto possível.
Assim que os
mecanismos de propulsão ajustaram os minúsculos caças espaciais para o empuxo
máximo, e o dispositivo positrônico de direção automática foi regulado para o
alvo predeterminado, chegou o momento de descontração.
Dessa forma
atravessaram, em queda livre e numa velocidade aproximada à da luz, o
gigantesco sistema planetário de uma estrela que, segundo o pronunciamento
categorizado dos astrônomos, distava vinte e sete anos-luz da Terra, de onde
provinham aqueles homens.
Aqueles três
homens não pertenciam à classe de gente que costuma refletir sobre o acerto ou
desacerto das ordens que recebem. Além disso, tudo indicava que o vôo de
patrulhamento da pequena esquadrilha de caças espaciais era realmente
necessário. Então, por que dar tratos à bola?
A nave S-7, a capitania da esquadrilha
que acabava de ser ejetada, mantinha-se em posição de espera nas proximidades
do trigésimo oitavo planeta do gigantesco sol Vega. Mantinha as comportas
abertas, prontas para receber os caças, e os comandos dos projetores de raios
de sucção eram manobrados por homens de confiança e bons camaradas. Uma vez
cumprida a missão, o ingresso dos três caças a bordo seria uma simples operação
de rotina. Uma vez na nave-capitânia, os tripulantes disporiam de todas as
amenidades de um serviço de bordo bem organizado.
Os três
homens que haviam sido designados para empreender a longa viagem eram elementos
de destaque, que só por um acaso quase inacreditável chegaram a ver de perto o
gigantesco sistema planetário de Vega, poucos anos depois de terem visto pela
primeira vez a luz de seu mundo distante.
O major
Deringhouse exercia as funções de comandante da patrulha espacial. Os sargentos
Rous e Calvermann pertenciam ao grupo de pilotos de caça que já haviam
realizado mais de cinqüenta ataques contra as naves singulares duma raça
estranha.
Decolaram
com um sentimento de autoconfiança. Nem de leve pensaram nos perigos que sem
dúvida os aguardavam nas proximidades do quadragésimo planeta. Confiavam na
grande aceleração dos caças que se deslocavam à velocidade da luz, na força dos
seus nervos, e principalmente nos canhões de raios de impulso, embutidos
rigidamente na ponta dos caças.
Depois de
descansarem cerca de doze horas nos seus assentos reclinados, o dispositivo
automático detectou e localizou o quadragésimo planeta.
Logo
despertaram. Perceberam nitidamente quatro das seis luas. A lua número quatro
acabara de surgir de trás da bola brilhante e avermelhada que era o
quadragésimo planeta. Esse mundo situava-se nos confins do sistema Vega. Por
isso devia estar morto e desabitado, mal sendo atingido pelos raios solares,
embora estes fossem emitidos por uma enorme fornalha atômica existente numa
estrela que podia ser considerada a maior estrela do setor norte do firmamento,
isso para quem se encontrasse na Terra.
Quando o
grito estridente de Rous foi transmitido pelo telecomunicador que trabalhava a
velocidade superior à da luz, o mecanismo propulsor do caça de Calvermann já
havia sido transformado numa tocha atômica que cuspia raios.
O corpo de
Calvermann contorcia-se na pequena cabina, cheia de vapores e gases
incandescentes. O capacete de pressão, que por pura comodidade havia sido
atirado para trás, obedeceu ao impulso automático do mecanismo de compensação,
encaixando-se com uma forte pancada no suporte magnético embutido na altura do
pescoço.
Com isso o
traje espacial de Calvermann fechou-se hermeticamente. Tudo funcionava
perfeitamente até então; só o corpo de Calvermann falhou. Além disso, também o
componente mais importante de um caça espacial — o potentíssimo mecanismo
propulsor — deixou de funcionar.
E foi assim
que um caça gravemente danificado começou a se precipitar em parafuso na
direção do quadragésimo planeta, tão próximo, que sua força gravitacional já
não podia ser evitada.
O abalo
estrutural sofrido pela máquina logo inutilizou o dispositivo positrônico de
direção. Além disso, o aparelho de condicionamento de ar não funcionava, e o
reator de emergência deixou de fornecer energia. Apenas o aparelho de
comunicação audiovisual continuava a funcionar. Era alimentado por um pequeno
carregador de emergência.
Poucos
minutos depois do impacto direto ainda reinava uma temperatura de três mil
duzentos e dezoito graus centígrados no interior da cabina do sargento
Calvermann. Se não estivesse protegido pelo traje espacial, o calor já teria
transformado seu corpo em cinzas.
Da forma que
estava, praticamente não sentiu o calor, ainda mais que a cápsula incandescente
logo irradiou o mesmo para o vácuo do espaço.
Por trás do
astronauta reduzido à impotência, as fúrias do inferno pareciam estar soltas.
O major
Deringhouse e o sargento Rous lutavam encarniçadamente para defender sua pele.
Enquanto conseguissem fazer uso adequado das vantagens estruturais dos
minúsculos caças, extremamente rápidos e fáceis de manobrar, pouco ou nada lhes
poderia acontecer. Todavia, não lhes poderia acontecer aquilo que havia levado
Calvermann à beira do abismo — um impacto casual de um dos numerosos canhões de
radiações do inimigo, surgido inesperadamente das profundezas do hiperespaço.
O major
Deringhouse, um homem jovem, alto e esguio, estava de costas para a chapa de
blindagem de radiações, que o separava do compartimento de máquinas de seu
caça.
Praticamente
o aparelho consistia apenas numa longa cela em forma de torpedo que, além da cabina
do piloto, de dimensões modestas, só abrigava grandes mecanismos propulsores e
conjuntos auxiliares. Os caças não tinham condições de oferecer alojamentos
confortáveis ao piloto.
Não passavam
de vespas espaciais repletas de armas. Podiam ser conduzidas a bordo de naves
espaciais muito maiores para ocasionalmente desempenharem missões especiais.
A mais
importante dessas missões consistia no reconhecimento de determinados setores
do espaço, onde os veículos maiores não podiam penetrar.
Deringhouse
já não confiou exclusivamente nas telas óticas e goniométricas do seu
localizador automático. Onde quer que lançasse os olhos, via enxames de
unidades inimigas que, numa manobra tresloucada, haviam saltado diretamente
para o interior do sistema planetário Vega.
Só assim
tornou-se possível a surpresa total. Não havia possibilidade de detectar a tempo
qualquer espaçonave que, durante a aproximação, se mantivesse no hiperespaço
pentadimensional.
O pequeno
grupo de combate espacial de Deringhouse encontrara-se justamente no ponto em
que a esquadrilha de espaçonaves dos tópsidas, uma classe de seres não-humanos,
penetrara no universo normal.
Mais uma vez
Deringhouse viu o feixe de raios, que se deslocava em sua direção a velocidade
pouco inferior à da luz. Os seres extraterrenos tinham pontaria precisa, um
fato que já se deduzira das excelentes posições de fogo das naves inimigas apresadas.
Deringhouse não teve outra alternativa senão bater em retirada. O conversor de
rumo uivou, o jato de estibordo cuspiu fogo e a nave saiu da linha de tiro.
O rosto do
sargento Rous surgiu na pequena tela do intercomunicador. Estava branco como
cera. Os lábios pareciam traços sem sangue, distorcidos pelos reflexos
produzidos pela lâmina do capacete de pressão.
Rous
encontrava-se a menos de mil quilômetros atrás do caça do chefe da esquadrilha.
Mas adiante, entre, acima e abaixo dos dois caças, viam-se os pontinhos
luminosos que representavam as gigantescas naves espaciais dos tópsidas, para
cujo comandante os três caças pareciam mosquitos inoportunos. E as três naves
que Deringhouse e Rous já haviam conseguido destruir no curso da sua
desesperada ação de defesa em nada modificaram a situação. Os destroços
incandescentes das três naves tópsidas atingidas por disparos de impulso
derivaram na direção do quadragésimo planeta, tal qual o caça de Calvermann. A
imensa força gravitacional do gigantesco planeta nada representava para uma
nave intacta, mas exercia uma influência tremenda sobre as danificadas, cujos
mecanismos propulsores haviam sido postos fora de funcionamento. Além disso, a
velocidade de todas as naves inimigas era tão reduzida que a força cada vez
mais intensa da gravidade não podia ser considerada um fator desprezível, face
à energia cinética desenvolvida pelas naves em movimento.
O aparelho
de Calvermann ficou sujeito aos efeitos da mesma lei. O fato é que não fora
intenção de Deringhouse passar pelas luas a serem investigadas a uma velocidade
próxima à da luz, pois dessa forma as condições para a telefotografia seriam as
piores possíveis.
O chefe da
esquadrilha assumira um grande risco. Sabia-se que o inimigo instalara sua base
nas seis luas do quadragésimo planeta. Ao menos essa base estava sendo
instalada, o que explicava o repentino aparecimento dos reforços vindos do
hiperespaço.
No momento
em que se verificou o abalo estrutural quadridimensional, Deringhouse
lembrou-se de que as notícias teriam de ser levadas de qualquer maneira à
nave-capitânia, que se mantinha à espera, de onde seriam transmitidas a Perry
Rhodan, chefe da audaciosa expedição.
Naquele
momento pensou na única coisa razoável: a sobrevivência. O inimigo não teria a
menor compaixão.
Ouviu o som
estridente partido do débil envoltório energético que protegia seu caça. O
disparo de radiações de uma das naves gigantescas, que mal conseguia avistar,
só fora percebido no último instante; devia ter a potência de um sol em
miniatura.
— Estamos
devagar, muito devagar — berrou o alto-falante do telecomunicador.
O
instrumento dos arcônidas, que funcionava a velocidade superior à da luz,
continuava a transmitir com toda perfeição. Seus impulsos sobrepostos não
podiam ser atingidos por qualquer tipo de interferência normal.
— Estou
metido num montão — continuou a berrar Rous. — Qualquer hora destas me apanham.
Os tiros já não são disparados a esmo. Dentro de cinco minutos no máximo estou
no centro de um fogo cruzado. E agora?
Deringhouse
voltou a mudar violentamente o curso de seu caça. De tanto que teve que
manobrar para se esquivar dos disparos do inimigo, mal conseguia colocar seu
aparelho em posição de tiro.
Rous ouviu
um gemido abafado. Logo se ouviram estas palavras:
— Continue
no meio do montão; não saia. Assim que voarmos em linha reta, seremos
atingidos. Não conseguiremos acelerar com bastante rapidez para escapar aos disparos.
Como vai Cal...?
— Está
descendo em parafuso. Caiu na área de influência do número quarenta. Mal
consigo vê-lo.
Deringhouse
voltou-se. O uivo furioso de seu depósito de energia constituía indício claro e
evidente de que dificilmente seria possível absorver a força da inércia gerada
pelas manobras tresloucadas. Por certo o limite de desempenho já fora excedido
algumas vezes. Se o instrumento de absorção de pressões viesse a falhar em
virtude da sobrecarga, ele, Deringhouse, se esfacelaria em átomos por ocasião
da próxima manobra de esquiva. Tratava-se de uma lei física que não podia ser
desprezada, ainda mais por um organismo relativamente débil.
A visão das
naves dos tópsidas através das telas do aparelho de observação global só se
tornava possível quando as torres giratórias relampejavam com os disparos. Mas,
geralmente, quando a claridade o atingia, alguns segundos ou mesmo minutos já
haviam se passado. As naves penetravam no sistema Vega em largos intervalos,
para não se expor a qualquer risco.
— Vamos
escapar em direção a Vega — transmitiu Deringhouse. — Devagar. Mudar
progressivamente de rumo, apenas com direção manual. Estarão em condições de
calcular qualquer manobra do autômato com base nos princípios conhecidos.
Vou...
Ouviu o
grito de Rous. Desta vez a coisa chamejante, ofuscante, infinitamente longa,
veio numa trajetória inclinada e descendente. Deslocava-se em velocidade quase
igual à da luz, e por isso só se tornou perceptível no último instante.
Já não valia
a pena recorrer à localização energética.
Deringhouse
voltou a erguer o caça por meio dos jatos de popa. A velocidade reduzida, que
mal atingia cinco mil quilômetros por segundo, permitia curvas relativamente
estreitas. Sobretudo para um piloto de caça espacial, que não se impressionaria
em absoluto com uma curva de uns vinte mil quilômetros de raio. A uma
velocidade mais elevada esse raio teria de atingir milhões de quilômetros.
Aqui, no
espaço vazio e aparentemente infinito, as distâncias não importavam mais.
Encolhiam-se e, à medida que se aumentava a velocidade, transformavam-se em
nada.
O
localizador reagiu. Na tela do rastreador energético, cujo tamanho não excedia
o da palma de uma mão, surgiram os contornos característicos de uma nave
tópsida. Era comprida e fina como um lápis. O centro, visivelmente abaulado.
Deringhouse já sabia que o inimigo — descendentes de uma raça de répteis, cujo
raciocínio de que eram dotados funcionava de forma diferente do homem — montara
nessa parte abaulada os mecanismos propulsores e as máquinas mais importantes
da nave. Os homens e os arcônidas, que a eles se assemelhavam, preferiam a
montagem na popa.
O
microcérebro positrônico do caça trabalhou com uma rapidez inacreditável. Mediu
a distância, calculou o tempo de percurso do tiro de radiações e determinou o
ponto diante da nave inimiga para o qual devia ser apontado o canhão. Tudo isso
só levou uma fração de segundo. Sem o dispositivo positrônico, Deringhouse
nunca conseguiria acertar, pois o inimigo mantinha uma velocidade de cerca de
quinhentos quilômetros por segundo, e se deslocava num outro plano do espaço.
Assim que a
luz verde piscou, Deringhouse comprimiu obstinadamente e com um grito histérico
o mecanismo de disparo do canhão de impulso, que a rigor era grande e potente
demais para o pequeno caça.
Soltou ainda
um grito e fechou os olhos, ofuscados pela incandescência deslumbrante, quando
o raio de impulso, que tinha a grossura de um homem, saiu do bocal daquele cano
estranho, emitindo um rugido primitivo.
Não percebeu
as energias atômicas subitamente liberadas, que deslizavam pelo espaço à
velocidade da luz, e que, além da força tremenda do impacto, ainda encerravam o
calor de um sol.
A nave que
acabara de ser localizada encontrava-se a uma distância ridícula: apenas trinta
mil quilômetros.
A furiosa
trepidação do caça ainda não havia cessado quando lá adiante o impacto ocorreu
com uma precisão enorme. Deringhouse só percebeu o ponto incandescente, que
aumentou num crescendo vertiginoso, até se transformar numa nuvem energética de
tonalidade violeta.
Rous berrou
algumas palavras incompreensíveis. Eram os gritos loucos, de alegria, de um
homem perseguido, que naquela altura só pensava numa coisa: fugir, colocar-se
em segurança.
Deringhouse
passou vertiginosamente pela extremidade da bola de gases atômicos. Não se via
mais nada da grande nave tópsida; a única coisa que sobrava era aquele pequeno
sol artificial.
Um furacão
rugia em seu envoltório protetor, formado de unidades energéticas
pentadimensionais. Mal havia passado e acostumado os olhos ao negrume do
Universo, Deringhouse teve de esquivar-se de outro tiro.
O sargento
Rous encontrava-se atrás dele. Dali a alguns segundos seu caça passou,
expelindo fogo pela popa. Só então Deringhouse compreendeu que com a destruição
da nave tópsida abrira um caminho.
Com um
rápido movimento reflexivo empurrou para a frente o regulador do mecanismo de
propulsão. Só a aceleração muito superior dos caças poderia salvá-los. À razão
de quinhentos quilômetros por segundo ao quadrado, alcançariam a velocidade da
luz em cerca de dez minutos.
Num louco
ziguezague disparou atrás de Rous. Bem à frente e à sua direita reluzia a
gigantesca massa vermelha do quadragésimo planeta de Vega. O sol de seu mundo
só tinha nove planetas, enquanto essa estrela gigantesca tinha quarenta e dois.
Deringhouse
viu-se rodeado por uma filigrana de raios térmicos branco-azulados. O inimigo
disparava furiosamente, embora soubesse que, com as manobras loucas que os
caças executavam, só por acaso conseguiriam um impacto direto.
—
Calvermann, o que houve? — gritou Deringhouse no telecomunicador de bordo, com
a voz desesperada. — Calv, responda, Calv, estamos nos afastando, Calvermann.
O
alto-falante soou na cabina do caça que continuava a descer em parafuso. As
palavras de Deringhouse saíram nítidas do receptor embutido no capacete.
Alguns
segundos depois, os dois pilotos ouviram a respiração difícil de Calvermann. Ao
mesmo tempo as telas de seus telecomunicadores iluminaram-se. Concluíram que
Calvermann ainda estava vivo.
Quando o
rosto desfigurado do companheiro surgiu na tela, Deringhouse teve de reprimir
um gemido. A transmissão foi realizada no espaço tridimensional, reproduzindo
as cores naturais.
A pele
escura, quase negra, do rosto de Calv estava coberta de manchas e estrias
vermelhas.
— Descompressão
explosiva — as palavras soaram debilmente no receptor. — Que diabo! Tirei o
capacete. Sinto pontadas no pulmão. O ar foi arrancado da minha boca. Dêem o
fora. Vamos logo, dêem o fora!
As últimas
palavras eram quase incompreensíveis. O capacete de Calvermann bateu contra o
dispositivo positrônico de captação, embutido no emissor. Só seus olhos
escuros, semicerrados numa expressão de dor, continuavam nas telas de imagem.
— Você está
penetrando na atmosfera — gritou Deringhouse com a voz desesperada. — Sua
velocidade não é suficiente para entrar em órbita. Como vai seu jato-propulsor?
Calv
limitou-se a rir. Foi um riso áspero, que mais parecia uma tosse, mas um riso.
E dizia mais que muitas palavras.
— Dêem o
fora. Lembranças ao chefe. Na terceira lua há uma pequena base dos tópsidas.
Mal consegui reconhecê-la. Dêem o fora. Nem pensem em arrancar-me da minha
máquina. Quando chegarem aqui, já estarei lá embaixo. Dêem o fora!
A última
palavra parecia uma súplica. Seus olhos fecharam-se.
— Rous,
continue a se afastar — ordenou Deringhouse em tom apressado. — Vou buscá-lo.
Terei de alojá-lo na cabina. Daremos um jeito. Vou...
Um impacto
cruel atirou-o contra os cintos largos da poltrona. O mecanismo propulsor de
seu caça, que já havia atingido setenta e cinco por cento da velocidade da luz,
uivou antes de parar sob uma série de ruídos retumbantes.
Deringhouse
ouviu o chiado do mecanismo de absorção de pressões. Apesar disso voltou a ser
comprimido de encontro aos cintos. O espaço salpicado de estrelas transformou-se
numa centrífuga que descrevia uma rotação vertiginosa. Nas telas de seu
aparelho de observação global surgiu um círculo de fogos de artifício. O caça descrevia
um vertiginoso movimento de rotação em torno de seu eixo longitudinal.
Uma
luminosidade vermelho-clara penetrou na cabina. Deringhouse teve a impressão de
sentir a temperatura interna, embora seu traje espacial pudesse resistir às
mais elevadas temperaturas.
Teve a mesma
sorte de Calvermann, ao qual um instante antes pretendia dar socorro, com a
única diferença de que não sofrerá nenhuma descompressão explosiva. Sua cabina
pressurizada permaneceu intacta, e o condicionador de ar também continuava a
funcionar.
Não fosse
isso e seu caça seria transformado, no espaço de poucos segundos, num montão de
destroços. Atrás da nave, que se deslocava numa velocidade tremenda, partículas
de gases incandescentes enchiam o espaço.
Deringhouse
levou algum tempo para ouvir os gritos desesperados do sargento.
Rous
interrompera imediatamente sua pesada manobra de aceleração. Ia atravessando o
espaço em queda livre. A menos de mil quilômetros, o aparelho do chefe de sua
esquadrilha balouçava pelo vácuo.
— Tudo bem —
respondeu Deringhouse pelo telecomunicador. — Tudo bem. Não estou ferido. Ainda
estão atirando?
— Não. Mas
seu aparelho gira que nem um pião — trovejou a voz do sargento no alto-falante.
— Se continuarem a nos perseguir, eles nos agarrarão durante a manobra de
salvamento. Estabilize essa geringonça. Vou calcular minha manobra.
Deringhouse
não disse mais nada. Com alguns movimentos de mão, pôs a funcionar a centrífuga
de alta rotação do mecanismo estabilizador.
Aos poucos
conseguiram controlar e equilibrar o caça atingido na popa. O impacto não podia
ter sido muito forte. Devia ser um tiro de raspão que penetrou no fraco
envoltório protetor. Apesar disso, fora o bastante para inutilizar aquela
máquina ultra-sensível.
Bem longe, à
sua frente, Rous, cuja máquina só se tornava visível pela luminosidade intensa
dos jatos de correção, iniciava as difíceis manobras de aproximação. Teria de
reduzir a velocidade e se colocar bem ao lado da máquina de Deringhouse. Só
assim o chefe poderia ser colocado a bordo de seu caça.
— Calv! O
que houve com Calv? — a voz saiu do alto-falante de Rous como se fosse um
sopro. — Pretendia buscá-lo.
O sargento
cerrou os dentes. Sabia tão bem quanto Deringhouse que não havia mais
possibilidade de socorrer o piloto. O inimigo ocupava o setor do espaço em que
ele se encontrava. O quadragésimo planeta ia se tornando cada vez menor.
Deringhouse
esperou calmamente pelo subordinado, que naquele instante se transformara em
amigo. Rous era um elemento de confiança. Tudo dependia dos tópsidas os
deixarem em paz.
Enquanto o
sargento se esforçava para equilibrar sua máquina por meio de pequenas correções
de empuxo, alguns milhões de quilômetros atrás deles um objeto incandescente
mergulhou na espessa atmosfera venenosa de um planeta hostil a qualquer forma
de vida.
O capacete
pressurizado de Calvermann continuava visível na tela do telecomunicador. Seus
olhos amortecidos mantinham-se fixos sobre a tela. Não sentia mais nada, mas
seus lábios sorriam.
II
Chamavam-no de
Thort. Pouco importava qual fosse o nome do soberano. A única coisa que
interessava aos homens, que haviam pousado no planeta principal do sistema
Vega, era que do outro lado da mesa de negociações estivesse um interlocutor
investido dos poderes necessários. E no presente caso acontecia precisamente
isso.
No curso das
prolongadas negociações, Perry Rhodan, antigo piloto da Força Espacial dos
Estados Unidos e o primeiro homem a dominar a lua terrestre, não perdeu por um
instante sua calma proverbial e sua nítida superioridade.
Desta vez o
antigo major da Força Espacial dos Estados Unidos não admitira nenhuma solução
de compromisso. Os seres inteligentes que habitavam o oitavo planeta de Vega,
chamado de Ferrol, haviam solicitado ajuda militar, prometendo a conclusão de
um acordo comercial.
Perry Rhodan
achou que já havia chegado a hora de levar a termo o tratado.
Encontravam-se
na chamada sala das decisões, situada no Palácio Vermelho, considerado a
construção mais monumental da capital dos ferrônios. A capital costumava ser
designada pela palavra Thorta, derivada do título conferido ao soberano.
Rhodan
sentiu-se decepcionado ao saber que o Thort, considerado um soberano
onipotente, recorrera ao seu conselho de ministros. Ao que parecia tinha as
mãos ligeiramente amarradas. Dessa forma as negociações arrastaram-se por
alguns dias ferrônios.
A comissão
de homens terrenos era pequena. Dela faziam parte unicamente Perry Rhodan,
Reginald Bell, ministro da segurança da Terceira Potência, e um observador, o
mutante John Marshall, cujas qualidades telepáticas lhe permitiriam conhecer
perfeitamente os pensamentos e o estado de espírito dos ferrônios que
participassem das negociações. Para Marshall seria fácil transmitir diretamente
a Rhodan as idéias por ele captadas, ainda que se tratassem de idéias
encobertas.
Rhodan
mantinha um perfeito autodomínio. Suas idéias, observações e objeções eram bem
ponderadas e convincentes.
Não tinha a
intenção de lograr os ferrônios. Desejava um acordo limpo, inequívoco e
moralmente inatacável.
No momento,
Thort estava examinando os contratos bem redigidos. Era um direito que lhe
cabia. Tanto física como psiquicamente, Reginald Bell era o extremo oposto de
seu comandante. A desconfiança e um toque de contrariedade brilhavam nos seus
olhos claros, aparentemente descoloridos.
Só Marshall
era a atenção em pessoa. Não tinha tempo para descansar. A sucessão de pensamentos
dos participantes da reunião devia ser observado ininterruptamente, segundo
ordenara Rhodan. Ao menos nesse ponto quis ter certeza.
Ninguém, e
muito menos as pessoas que ali estavam refletindo, desconfiava da atividade
daquele homem esbelto com o uniforme verde-claro da Terceira Potência. Um homem
comum acharia bastante estranho tanto o distintivo que trazia do lado esquerdo
do peito, na altura do ombro, como o capacete de rádio abaulado, com a tela do
microtelevisor aberta para o lado.
Tratava-se
de objetos que nesse acabamento singular não foram concebidos pela ciência
terrena, nem construídos pela tecnologia dos terráqueos.
Ao que
parecia, no momento era este o fator dominante no cérebro de Rhodan. Já não
havia muita coisa a dizer sobre os tratados. Mas o comandante sentiu os
impulsos irresistíveis do subconsciente que dele costumavam apossar-se em
momentos como este.
Ele, um
homem nascido na Terra, via-se diante dos representantes de uma raça totalmente
estranha, num planeta longínquo, que realizava suas evoluções em torno de um
sol gigantesco situado a vinte e sete anos-luz do mundo a que pertencia.
Esse fato só
por si convidava à reflexão, talvez à contrição. Rhodan, um homem conhecido por
sua autocrítica implacável, reconhecera logo no início das negociações, com uma
nitidez martirizante, que seu lugar não era este.
Seu lugar
não era este porque a Humanidade, tão distante ainda, procurava adivinhar as
leis naturais que os ferrônios já haviam descoberto e vinham utilizando há
milênios.
Como poderia
ter acontecido isso? Como era possível que um homem se visse subitamente diante
de um soberano que dominava praticamente um sistema solar inteiro e uma
gigantesca frota espacial?
Quando
voltou a pensar em tudo isso, Rhodan sentiu um sabor amargo sobre a língua. Sem
que o percebesse, seus olhos dirigiram-se a Bell. Aquele homem de pequena
estatura parecia não conhecer qualquer tipo de inibição. Naquele instante
objetou no seu ferrônio arranhado que não gostava nem um pouco do
terceiro parágrafo do chamado protocolo de trocas. Ouviram-no e respeitaram-no,
como se fosse o representante de uma raça dotada de inteligência infinitamente
superior.
Rhodan
pigarreou. John Marshall esboçou um sorriso quase imperceptível. Percebera o
que se passava na cabeça do comandante. Era precisamente essa a qualidade de
seu caráter que o ajudara a conquistar tamanho êxito entre os homens. Seus
companheiros adoravam-no, na Terra distante era considerado o principal fator
de poder.
Rhodan não
devia pensar em certas minúcias do seu passado, se não quisesse se arriscar a
lançar uma luz difamadora sobre seus próprios sucessos.
Naquele dia
de um passado não muito longínquo, quando ainda era um modesto major, altamente
especializado, da Força Espacial dos Estados Unidos, decolara na primeira nave
espacial de propulsão nuclear construída pelo homem, num vôo tripulado para a
Lua. Foram quatro homens, todos eles pertencentes aos primeiros grupos de
astronautas que há anos vinham sendo treinados em manobras de acoplamento e
vôos orbitais que duravam várias semanas. A Lua já fora atingida então por duas
sondas robotizadas, uma russa e outra americana. Só faltava o homem.
Essa
situação modificou-se naquela data. A Stardust penetrara no espaço, e
Perry Rhodan, chefe da primeira expedição lunar, realizara um pouso perfeito e
sem incidentes.
A Humanidade
nunca teria despertado do seu torpor se pouco antes não tivesse pousado na Lua
a gigantesca nave de uma estranha raça espacial.
Era bem
verdade que se tratava de um simples pouso de emergência dos arcônidas, nome
que se dava aos habitantes do longínquo planeta de Árcon. Não haviam penetrado
no sistema solar para trazer a felicidade aos homens, muito menos para
combatê-los. Tudo não passava de uma coincidência, mas essa coincidência faria
com que Perry Rhodan servisse de catalisador do poderio galático exercido pelo
homem terreno.
Rhodan
descobrira os ocupantes da nave gigantesca, cujo chefe científico foi conduzido
à Terra em virtude da grave enfermidade de que padecia.
Ninguém
melhor que Rhodan percebera a superioridade infinita da ciência e da tecnologia
dos arcônidas. Enquanto a Humanidade se encontrava no limiar da guerra nuclear,
nas profundezas da Via Láctea existia uma raça que há dezenas de milênios
erigira um gigantesco império espacial, dotado de um ativo comércio
interestelar e de grandiosos centros administrativos.
Com uma
clareza martirizante, Rhodan percebeu que além dos homens existiam outras
raças, de nível mental infinitamente superior. Teve uma reação coerente com as
características de sua personalidade. Contrariando as ordens que recebera,
pousou com a Stardust em pleno deserto de Gobi.
Os
equipamentos arcônidas que trazia a bordo protegeram-no contra visitas
indesejáveis.
Dali em
diante, a Terceira Potência passou a existir sobre a Terra.
Rhodan
evocou a luta implacável pela sobrevivência, forma pela qual a guerra nuclear
fora impedida por meio da supertécnica arcônida. Demorou bastante para que os
ataques desfechados contra sua base fossem suspensos.
Todavia, a
Humanidade conseguiu destruir a nave espacial exploradora dos arcônidas,
estacionada na Lua, fazendo uso das novas bombas H. Dessa forma os dois únicos
sobreviventes do cruzador espacial dos arcônidas viram-se forçados a permanecer
na Terra em companhia de Rhodan. Transmitiram-no seu saber. Nisso havia certa
dose de interesse, pois algum dia os arcônidas desejariam regressar ao seu
mundo.
A
dificuldade eram os transportes. Na época só restava uma nave auxiliar do
cruzador espacial destruído, na qual o comandante escapara à destruição. Essa
nave auxiliar que, com seus sessenta metros de diâmetro era um artefato
gigantesco para as concepções terrenas, desenvolvia velocidade superior à da
luz, mas seu raio de ação não ultrapassava quinhentos anos-luz. E o mundo dos
arcônidas ficava a uma distância de trinta e quatro mil anos-luz.
Com isso
estavam isolados. Rhodan realizara seu trabalho para superar as dificuldades
geradas pelas limitações terrenas. Dentro de pouco tempo conseguira montar um
pequeno Estado na Ásia Central, em pleno deserto de Gobi.
Foi quando
surgiram as primeiras notícias inquietadoras sobre os acontecimentos que se
desenrolavam no sistema Vega, situado a pouca distância. Rhodan sabia que a
posição galáctica da Terra corria grave perigo, uma vez que o emissor
automático de emergência, embutido no cruzador espacial, destruído pelos
homens, transmitia sinais de socorro a velocidade superior à da luz. Há muito
Rhodan contava com o surgimento de seres estranhos, nem que viessem apenas para
satisfazer a curiosidade.
Nem poderia
ser diferente, pois nas profundezas do espaço galático existia um império
interestelar conhecido como Grande Império. Fora construído pelos arcônidas.
Planetas inteiros foram abertos à colonização. As disputas pelo poder
realizadas entre os arcônidas e outras raças foram travadas com recursos
apavorantes, isso numa época em que o homem ainda habitava as cavernas.
Assim que
recebeu notícias sobre a localização dos seres estranhos, Rhodan agiu sem perda
de tempo. Dirigiu-se ao sistema Vega a bordo da nave auxiliar arcônida. Esse
artefato esférico recebera o nome de Good Hope.
Rhodan
apenas pretendia verificar o que estava acontecendo no sistema Vega, situado a
vinte e sete anos-luz da Terra. Receava que uma raça estranha pudesse ter
captado e localizado a origem dos sinais de emergência, emitidos pelo cruzador
arcônida destruído.
Era de
estranhar que as naves invasoras surgissem nas proximidades do sistema Vega, e
não perto do Sol. Rhodan vira nisso uma espécie de prazo de tolerância.
Acreditava que possivelmente os seres extraterrenos tivessem cometido algum
engano nos seus cálculos positrônicos.
Era isso
mesmo! Assim que a Good Hope chegou perto da estrela gigante, foi “condignamente”
recepcionada. As naves espaciais de duas raças diferentes” fizeram sua aparição.
Uma delas residia no sistema Vega. Já era conhecida face aos relatos das
expedições arcônidas realizadas em tempos bastante remotos.
Eram os
ferrônios. Provinham do oitavo planeta, denominado Ferrol, semelhante à Terra.
Os veículos espaciais em forma de ovo dos ferrônios foram reconhecidos
imediatamente. Acontece que ainda havia aquelas naves alongadas e de centro abaulado.
Crest, o
cientista arcônida, também identificara estas. Eram artefatos construídos por
uma raça absolutamente inumana, que há cerca de mil anos do calendário terreno
estava empenhada em minar o poderio do Grande Império através de revoltas e
ataques-relâmpago, desfechados contra redutos afastados.
Crest dera a
esses descendentes de répteis o nome de tópsidas. Seu mundo ficava a uma distância
de oitocentos e quinze anos-luz, no sistema Orion-Delta.
Suas naves,
de velocidade superior à da luz, haviam penetrado no sistema de Vega, onde
supunham encontrar uma nave arcônida que emitia sinais de emergência. Fora um
erro de cálculo.
Contra sua
vontade, Rhodan se vira envolvido numa violenta batalha espacial, que a Good
Hope teria vencido galhardamente, se de repente não tivesse surgido um
gigantesco couraçado arcônida, que desfechou um tiro arrasador contra a nave de
dimensões muito mais reduzidas.
Não
perceberam em tempo que o couraçado representava uma presa dos seres inumanos.
Rhodan refugiou-se no nono planeta do sistema, entrou em contato com o chefe
dos ferrônios e, num golpe extremamente arriscado, conseguiu apoderar-se do
couraçado estacionado no oitavo mundo.
Após isso,
as tropas tópsidas foram desalojadas da área central desse mundo, sem qualquer
derramamento de sangue, através de uma única atuação do Exército de Mutantes.
Todavia, acabaram instalando-se nas seis luas do longínquo planeta número
quarenta.
Era essa a
situação no momento em que Perry Rhodan esforçava-se para concluir o tratado
comercial.
Se
refletisse nos antecedentes, chegaria à conclusão de que, se não tivesse
encontrado por acaso a supertécnica dos arcônidas, ainda seria piloto da Força
Espacial dos Estados Unidos.
Os
ferrônios, que para Reginald Bell eram “um tanto subdesenvolvidos”, estavam
alguns milênios à frente da Humanidade no que dizia respeito às conquistas
técnico-científicas. Mas não dominavam a técnica da navegação espacial a
velocidade superior à da luz; provavelmente seus cérebros não sabiam pensar em
termos do plano pentadimensional.
Rhodan
sentiu-se um tanto envergonhado. Mas, o que se encontrava em jogo era a
transformação da Humanidade num dos elementos do poder galático. A presença dos
tópsidas constituía uma prova flagrante da fraqueza da Terra, e da força que
teria de adquirir a curto prazo se quisesse sobreviver.
Há alguns
anos ainda teria sido inconcebível o contato de Rhodan com os representantes de
outra raça espacial. Agora via-se diante dos ferrônios atarracados, bastante
parecidos com os homens. Até parecia que nunca fora diferente. A descoberta de
inteligências estranhas fora um choque. Mas agora as considerações pragmáticas
estavam levando a melhor.
Os produtos
da indústria ferrônia deviam representar um valor imenso na Terra. Tudo
dependia da manutenção das relações que estavam sendo estabelecidas.
Não haveria
o menor problema se Rhodan não soubesse que nas seis luas do quadragésimo
planeta estavam alojados os representantes de uma raça totalmente estranha à
sua. Era este o único fato que obscurecia o desenrolar dos acontecimentos. E
era um fato que não devia ser subestimado.
Cinco das
oito naves auxiliares encontravam-se em viagem. O supercouraçado que estivera
em poder dos tópsidas tinha a bordo doze dessas naves auxiliares de sessenta
metros de diâmetro. Cada uma delas tinha o tamanho e a força da velha Good
Hope, que a essa altura não passava de um montão de destroços guardados num dos
hangares do nono planeta de Vega.
A nave S-7,
comandada pelo major Nyssen, estava estacionada nas proximidades do trigésimo
oitavo planeta. Era imprescindível averiguar os movimentos táticos e
estratégicos realizados pelo invasor.
* * *
As palavras
cochichadas chegaram ao seu ouvido. Perry Rhodan despertou sobressaltado do
automartírio dos seus pensamentos. Evidentemente o mutante Marshall não
conseguira estabelecer contato direto com a consciência de Rhodan. Por isso
pôs-se a cochichar.
Rhodan virou
os olhos claros. Não modificou a posição do corpo.
— A base
comercial terrena que estamos planejando incomoda o senhor — cochichou o
mutante, cujas capacidades supersensoriais eram conseqüência da explosão
atômica de Hiroshima.
Além de
Marshall, havia dezesseis mutantes a bordo do couraçado arcônida. Foi difícil
separar das massas humanas esses seres que sofriam os efeitos retardados das
intensas radiações. Antes de tudo era necessário localizá-los. Marshall
pertencia aos mutantes positivos, que só sofreram alterações no plano
espiritual e alcançaram a revelação dos seus dons através da auto-observação.
Agora estava
sondando cuidadosamente o conteúdo do pensamento dos mais importantes ferrônios.
Não estavam de acordo! Era o que Rhodan receava. Ninguém gosta de acolher em
sua terra o representante de uma grande potência, menos ainda um soberano como
Thort.
— Vamos
aguardar — respondeu Rhodan com a voz baixa. — Eles acabarão reconhecendo que
sem uma base não conseguirão se arranjar. Já chegou alguma notícia da nossa nave?
Marshall
respondeu com uma ligeira sacudidela da cabeça. Não. Ao que parecia os mutantes
que lá se encontravam ainda não haviam ouvido nada, pois de outra forma
Marshall teria sido informado imediatamente.
Reginald
Bell soltou um suspiro abafado. Uma raiva contida chamejava nos seus olhos.
Mais uma vez lutava para conservar o autodomínio, esquecendo que ficava bem aos
homens demonstrar uma boa dose de discrição e autodomínio num lugar como
Ferrol.
— Tomara que
não resolvam tomar novamente esse banho de vapor, resmungou em voz baixa. — O
que será que ainda têm que pensar?
Lançou um
olhar furioso em direção ao vulto encolhido do Thort. Já fazia muito tempo que
o soberano exercia o poder. Ainda não se sabia quem seria seu sucessor. O cargo
não era hereditário.
Rhodan
procurou captar o olhar do velho ferrônio. A pele azul-pálida daqueles seres já
não incomodava os homens. Também não reparavam no contraste representado pelos
espessos cabelos cor de cobre.
Os olhos
muito pequenos e encovados, que ficavam muito atrás da enorme testa
protuberante, representavam um aspecto muito mais desagradável para o homem.
Era bem
verdade que essa característica talvez fosse uma resultante biológica do
gigantesco sol ofuscante e escaldante. Os olhos estavam protegidos contra as
radiações ultravioletas, e a cabeleira espessa protegia o crânio contra as
queimaduras. As coisas não poderiam ser diferentes; dificilmente a Natureza
comete um engano.
Apesar
disso, aqueles olhos quase invisíveis incomodavam Rhodan. Não havia possibilidade
de atingir o olhar de um ferrônio. Era dificílimo adivinhar seus pensamentos.
Ao que
parecia, alguma coisa estava atraindo a atenção do Thort. Seu crânio ergueu-se.
A minúscula boca contorceu-se num sorriso amável. Também este tinha um aspecto
estranho.
— Estou
sendo aguardado a bordo da minha nave — ressaltou Rhodan. — Será que podia
chegar a uma decisão? Ainda existe algum ponto obscuro?
Rhodan
falava bem a língua dos ferrônios. O treinamento hipnótico dos arcônidas
continuava a dar mostras de suas excelentes qualidades. Sem ela os homens nunca
teriam sido capazes de compreender, num espaço de apenas três anos, a
tecnologia imensamente superior dos arcônidas, quanto menos dominá-la. Mas, os
únicos homens que haviam sido submetidos ao treinamento global foram Rhodan e
Reginald Bell. Os pilotos, por exemplo, só foram instruídos no seu setor
especializado. Bastava que soubessem lidar com seus caças e entendessem alguém
que lhes falasse em termos de matemática pentadimensional.
— Pedimos
mais um pouco de paciência — respondeu o Thort. — O tratado acarretará mudanças
profundas na vida de todos os ferrônios. Nossa indústria, que em grande parte
foi destruída pela invasão, mal está começando a funcionar. Teremos de estudar
se as relações comerciais entre seu mundo e o nosso devem ser controladas pelo
Estado ou se podemos consentir num sistema de trocas livres, não submetidas ao
controle estatal.
Finalmente,
o homem estava falando claro. Rhodan compreendeu perfeitamente os problemas que
o Thort estava enfrentando. De qualquer maneira, tratava-se de assunto interno
dos ferrônios. Para Rhodan não importava que tipo de leis fossem promulgadas
sobre a matéria.
— Sugiro um
prazo de reflexão. Seu sol é poderoso e escaldante. O senhor se incomodaria se
passássemos as horas do meio-dia no ambiente favorável de nossa nave?
Com um
sorriso acrescentou:
— Pedimos
sua compreensão. A força gravitacional de seu mundo é de 1,4 g , isto é, 0,4 g a mais do que estamos
acostumados.
O Thort
levantou-se imediatamente. Lossos, cientista-chefe dos ferrônios e membro do
Conselho Legislador Ministerial, estava interessado no limite de resistência do
organismo humano. Era um gesto reconfortante.
Reginald
Bell e Marshall colocaram os capacetes-rádio. Fizeram uma continência modelar.
— Os senhores
serão avisados por nosso oficial de comunicações, Chaktor — avisou o Thort. — O
tratado será concluído ainda hoje.
— É evidente
que não nos intrometeremos nos seus assuntos internos — asseverou Rhodan. —
Permite que indague em que fase está o reparo das unidades de sua frota que
foram danificadas. As notícias recebidas dos meus pilotos de reconhecimento não
são nada tranqüilizadoras. O comando de sua frota espacial devia se preparar
para enfrentar novas dificuldades.
O rostinho
do Thort anuviou-se.
— Estamos
montando os canhões de radiações, construídos segundo suas instruções —
explicou um dos oficiais da frota espacial. — A nossa indústria está
trabalhando a todo vapor. Será que poderia ceder-nos logo os dados para a
fabricação dos projetores energéticos dos arcônidas?
Bell
pigarreou. O ligeiro olhar que lançou para Rhodan era supérfluo.
— Uma vez
assinado o tratado, poderemos falar sobre isso — lembrou Rhodan com um sorriso
gentil. — Permitem que me despeça?
Voltaram a
fazer continência e retiraram-se. O Thort não disse uma palavra, seus olhos
seguiram aqueles seres, os quais não sabia de onde vinham. Rhodan
apresentara-se como um arcônida.
Tudo isso
tinha por fim apenas manter em segredo a posição galáctica da Terra. Rhodan não
estava disposto a expor a Humanidade, ainda vacilante, às dificuldades causadas
por uma falha eventual. Neste ponto, era um egoísta empedernido.
Saíram pelo
labirinto de corredores. Lá fora o ar do planeta Ferrol, respirável para o
homem, parecia ferver. Vega, o sol gigante, resplandecia em todo esplendor num
céu quase sem nuvens. Despejava torrentes de radiações ultravioletas
extremamente rigorosas. Rhodan cerrou os olhos.
A
temperatura média à sombra devia ser ligeiramente superior a quarenta e sete
graus.
— Chega —
disse Rhodan com a voz exausta. — A força da gravidade juntamente com este
calor torna-se quase insuportável. Daqui a uma hora teremos cinqüenta e três
graus à sombra.
Estava
andando em direção ao planador que o aguardava, quando um uivo suave o fez
estacar. Viu que Marshall se imobilizara. Por certo o mutante estaria captando
uma mensagem telepática vinda do couraçado.
Bell fitou o
céu com os olhos semicerrados. O uivo suave cresceu até se transformar num
trovejar e logo num bramido ensurdecedor.
Um objeto
que parecia brilhar numa incandescência branca surgiu de detrás da cadeia de
montanhas mais próxima.
As massas
atmosféricas deslocadas comprimiam-se diante da gigantesca esfera. Parecia que
um meteoro estava caindo diretamente sobre o porto espacial da capital.
As moléculas
de ar, incandescentes, eram rompidas pelos feixes de impulsos saídos dos jatos
direcionais. A imobilização quase total da nave foi tão rápida que não houve
necessidade de esclarecer Rhodan o grau de desaceleração aplicado pelo piloto.
Com um ruído
estrondoso, as massas de ar penetraram no vácuo formado atrás da nave.
— Se não for
o Nyssen, engulo meu capacete — berrou Bell fora de si. — Quem dera que esse
sujeito aprendesse a realizar um pouso decente.
— É um pouso
a moda dos arcônidas — disse Rhodan, esticando as palavras. — Estou lembrado de
que você já conseguiu pousos bem piores.
— Foi por
necessidade — resmungou Bell. — Ora, o que houve com Nyssen? Esta é a S-7.
Bell começou
a correr.
O mutante
despertou da sua rigidez. Havia uma expressão séria em seu rosto estreito.
— É um pouso
de emergência. Nyssen traz Deringhouse a bordo. Queimaduras graves. Dizem que o
inferno está às soltas nas seis luas. Nyssen desistiu de um regresso normal.
Saltou da órbita do trigésimo oitavo planeta até aqui. Na minha opinião foi um
ato arriscado.
Rhodan não
disse mais nada. Seu corpo esguio disparou sobre as pedras bem polidas da área situada
junto à entrada. Dali a alguns segundos o planador subiu. Os ferrônios usavam
minúsculos propulsores radiais semi-automatizados para possibilitar a decolagem
vertical.
Na produção
de excelentes micro-reatores nucleares chegavam a ser mais avançados que os
arcônidas com sua supertecnologia. Conseguiam realizar, num volume
correspondente a uma caixa de fósforos, um processo de fusão nuclear
perfeitamente controlado. Eis o motivo pelo qual Rhodan insistia num tratado de
comércio e de trocas. A Humanidade bem que estava precisando de uns artefatos
desse tipo.
O aparelho
ferrônio disparou pouco acima das massas de edifícios da capital. O piloto
estava encolhido atrás da estranha alavanca dupla de direção. Havia uma
singularidade: o suprimento de energia era controlado com o pé. Provavelmente
os homens teriam feito o contrário.
O aparelho
ultrapassou os controles radiogoniométricos do espaçoporto. As superpotências
terrenas utilizavam uma técnica meticulosa para controlar os espaçoportos, mas
os ferrônios haviam transformado os mesmos num verdadeiro santuário, que só
podia ser atingido depois de passar por vários tipos de controle.
Diante das
janelas ovais da cabina abriu-se a imensidão do espaçoporto central dos
ferrônios. Esses seres quase humanos alojados num habitat distante haviam
realizado uma obra grandiosa.
Só há cinco
dias ferrônios Rhodan dera ordem para que a nave apresada, até então
cuidadosamente guardada no hangar escavado na montanha, fosse transferida para
o espaçoporto central. A partir dali a cidade ganhara mais um fator de
altitude.
Aquilo que
se erguia sobre o solo na extremidade norte do campo de pouso era a própria imagem
do superlativo. As comparações corriqueiras já não se prestariam à descrição
daquele objeto enorme e empolgante.
A
Stardust-III, nome com o qual Perry Rhodan batizara a nave em homenagem ao
primeiro foguete lunar tripulado e lançado da Terra, não era apenas um símbolo
de grandeza científica e supermaturidade tecnológica. Também era um símbolo de
poder incomensurável; de um poder que colonizou e pacificou pela força uma
extensão galáctica incompreensível para a mente humana. Todavia, para esse fim
foram construídos couraçados espaciais da classe império. Não foi por esse
motivo que se empreendeu a construção extremamente custosa e laboriosa desse
titãs do espaço. Foram concebidos e criados para destruir mundos inteiros.
Por um
instante Rhodan procurou a nave auxiliar S-7, que acabara de pousar. Poucos
minutos antes, ao ver a nave esférica durante a manobra arriscada do pouso, a
mesma lhe parecera grande, inexpugnável e ameaçadora.
Agora, que a
Stardust-III cobria toda a linha do horizonte, a nave auxiliar, que antes lhe
parecera tão grandiosa, fora degradada num nada. Embora com seu diâmetro de
sessenta metros representasse uma massa respeitável sobre as pernas telescópicas
estendidas, causavam uma impressão miserável ao lado do supergigante.
A parte
esférica do couraçado media pelo menos oitocentos metros de diâmetro. Jamais
qualquer outra raça da galáxia construíra naves espaciais desse tamanho e
potência.
O planador
aproximou-se. A nave auxiliar foi crescendo, enquanto a massa imensa da
Stardust-III já não podia ser abrangida com a vista. Era necessário torcer o
pescoço para ver as cúpulas polares superiores.
Era uma
verdadeira massa azulada de aço arcônida que se erguia por cima do plástico
ultra-resistente do pavimento da pista. Era um monstro, um ente cujas máquinas
titânicas conferiam uma potência que lhe permitiria suprir de energia qualquer
dos planetas do sistema solar.
Quando o
planador pousou, a parede lisa da blindagem externa que envolvia a esfera
ergueu-se diante dele. Muito acima da cabeça dos homens que acabavam de descer
começou a protuberância que cercava a linha equatorial do gigantesco objeto
esférico.
Era ali que
se alojavam os mecanismos propulsores do couraçado. As aberturas dos jatos que
tinham o tamanho de crateras estavam fechadas. Apesar disso, a qualquer momento
a Stardust-III estaria pronta para uma decolagem de emergência.
Formava a
espinha dorsal da frota dos tópsidas. Perry Rhodan ainda não conseguira
compreender como os seres reptilídeos e inumanos conseguiram se apoderar daquela
supernave. De qualquer maneira tripularam-na e utilizaram-na para seus fins
agressivos. Só os mutantes que trabalhavam sob as ordens de Rhodan, dotados de
capacidades supersensoriais, conseguiram derrotar a tripulação tópsida de tal
forma que a Stardust-III não foi danificada.
Dali em
diante a Terceira Potência, comandada por Rhodan, possuía um artefato ao qual
só os produtos equivalentes dos arcônidas poderiam fazer face. Mas não era
disso que se tratava. O longo braço do Grande Império nunca chegaria até ali, e
a partir de então nunca estaria em condições de atingir o sistema Vega. Não
restava a menor dúvida: a raça dos arcônidas, antes tão arrojada, estava fadada
a desaparecer. A degenerescência espiritual daqueles seres já progredira tanto
que eram raros os que ainda conservavam as excelentes qualidades dos seus
antepassados ávidos de conquistas. Crest e Thora pertenciam a esse grupo.
Bell e
Marshall desapareceram entre as colunas imensas formadas pelos suportes das
naves. Cada um dos pratos circulares em que os suportes se apoiavam cobria uma
área de mais de quinhentos metros quadrados. Não havia nada que pudesse servir
de comparação à grandiosidade dessa nave, que Rhodan, depois de uma reflexão
objetiva, avaliara em cem bilhões de dólares. O custo do supergigante
ultrapassava o das frotas marítimas e aéreas de ambas as guerras mundiais.
Rhodan
caminhou devagar. Quando mergulhou na enorme sombra projetada pela nave, onde o
envoltório esférico cobria totalmente o sol Vega, viu que um homem gravemente
ferido estava sendo transportado às pressas.
A nave
auxiliar S-7, que acabara de pousar, expeliu a tripulação, que discutia
animadamente. Os homens pareciam pálidos e esgotados.
O vulto
pequeno e ressequido do major Nyssen desprendeu-se da confusão. Segurava o
capacete-rádio por baixo do braço. Seus cabelos ralos estavam empapados de
suor.
Fez uma
ligeira continência. O gesto com que pegou o cigarro que lhe era oferecido
parecia uma fuga para o secundário.
O rosto
magro de Rhodan irradiava uma tranqüilidade benfazeja. Piscando os olhos,
contemplou a altura de mais de sessenta metros da S-7, que com alguma boa
vontade poderia ser abrigada sob a forma esférica do supercouraçado. Esperou.
Nyssen aproximou-se.
— Tivemos um
tempo quente — disse o baixote entre duas tragadas. — Foi quente demais para os
pequenos caças. O sargento Calvermann tombou. Foi um dos meus melhores homens.
Nyssen não
poderia conferir um elogio mais significativo ao americano. Rhodan continuava
calado. Sentia que Nyssen estava fervendo por dentro.
— Aqueles
répteis instalaram-se nas seis luas do quadragésimo planeta. A maior dessas
luas está sendo transformada febrilmente numa fortaleza cósmica. Os outros
cinco blocos de pedra servem principalmente como baluartes protetores;
provavelmente só disporão de pequenas guarnições e de um ótimo equipamento de
localização. Uma esquadrilha de reforço dos tópsidas saltou diretamente para
dentro do sistema. De repente Calvermann, Rous e Deringhouse viram-se no meio
da confusão. Enviara-os para uma missão-relâmpago de reconhecimento. Rous pegou
Deringhouse. Fui ao encontro deles uma hora-luz, tomei a bordo a máquina deles
e dei um hipersalto até a órbita de Ferrol. É só. Colhemos um excelente
material ótico.
Era um
relato lacônico para um acontecimento de tamanho vulto. Nyssen não era homem de
muitas palavras. Supunha que assim mesmo deviam entendê-lo.
Rhodan
respondeu com um gesto de cabeça. Logo formulou a grande pergunta:
— E
Deringhouse, será que conseguirá escapar?
Nyssen deu
de ombros; parecia cansado. O cigarro foi atirado sobre o pavimento do
espaçoporto.
— Seu caça
foi atingido por um raio térmico. Devíamos reforçar as capas protetoras dos
aparelhos. Sofreu graves queimaduras.
— Descanse,
Nyssen. Alguém se encarregará de levar sua nave para o hangar. Muito obrigado!
Rhodan
seguiu com os olhos o comandante que se afastava a passos rápidos; parecia
pensativo. Depois caminhou pesadamente em direção à comporta de entrada da
nave, que se encontrava aberta. Ainda teria de percorrer uns quatrocentos
metros para atingir o pólo inferior, onde ficava a comporta. Por cima de sua
cabeça erguia-se a catedral de aço da Stardust-III.
— Gostaria
de conhecê-los em combate — disse o sargento Rous. — Já teve notícias do major
Deringhouse?
Nyssen
sacudiu a cabeça. Os robôs arconídicos preparados para a interpretação do
material ótico passaram em disparada. Desapareceram no tremeluzir suave do
campo antigravitacional, que os elevou suavemente para o interior da nave.
— Daqui a
pouco o tempo vai esquentar, Rous — profetizou Nyssen, com os olhos
entreabertos. — Esses caras ainda dispõem de alguns trunfos. Quero ver como é
que desta vez o velho vai utilizar seus mutantes. Precisam de uma base a partir
da qual possam operar. Não acha?
A indagação
pesava no ar escaldante do planeta Ferrol. O sargento Rous engoliu em seco.
Preferiu não responder. Pensou vagamente em certo vale tranqüilo situado na
parte ocidental dos Alpes franceses. Ali tivera muito mais sossego.
III
O homem inconsciente
jazia imóvel na banheira especial. O corpo queimado estava coberto até o
pescoço por um líquido leitoso, o soro biossintético de ativação celular. O
organismo do major Deringhouse recebia o seu suprimento de oxigênio através de
um aparelho robotizado de respiração, que também controlava a circulação e, se
necessário, a estimulava.
Os médicos
de bordo, Dr. Haggard e Dr. Manoli, falavam pouco.
— Ele vai
escapar — dissera o Dr. Haggard.
Mas logo o
rosto daquele gigante louro assumiu uma expressão séria. Em seus olhos claros
lia-se a contrariedade. Depois de algum tempo prosseguiu:
— Do ponto
de vista médico tudo isto é muito agradável. Preferiria que nunca mais entrasse
um ferido neste hospital. Peço-lhe que não o desperte. Permanecerá em sono
hipnótico por doze horas. A dor causada por queimaduras de terceiro grau não é
nada agradável.
Perry Rhodan
refletiu sobre estas palavras lacônicas. Haggard e Manoli já haviam se
afastado. Só o robô-médico ficou de vigia, junto àquele homem que passara por
um verdadeiro inferno nos confins do sistema Vega.
Fora uma
temeridade penetrar com um minúsculo caça espacial na falange espessa de naves
inimigas, a fim de fazer o possível para executar a missão confiada àqueles
homens.
Os lábios de
Rhodan estreitaram-se. Ninguém desconfiava dos pensamentos estranhos que lhe passavam
pela mente, nem mesmo Bell que se mantinha em silêncio atrás do comandante,
contemplando o ferido com uma expressão preocupada.
— Este homem
viu o diabo — cochichou o baixote. — Devemos fazer o possível para que isso não
se repita.
Rhodan fitou
os olhos claros do amigo.
Há quatro
anos voara para a Lua em companhia de Bell. Ali encontraram os arcônidas. Eles
se conheciam muito bem; haviam passado juntos pelo duro aprendizado da Força
Espacial dos Estados Unidos.
— Faremos o
que pudermos — disse Rhodan em tom arrastado. — Vamos embora. Fui feliz; apesar
de tudo Deringhouse teve sorte.
— Como? —
espantou-se Bell com aquela formulação. — Você foi feliz?
— Isso mesmo
— respondeu Rhodan com um riso indiferente. — Ainda existem pessoas que têm
consciência. Eu sou uma delas. Não pense que considero a morte de Calvermann
uma simples fatalidade. Não foi necessária nem inevitável. Não devia ter
ordenado os vôos regulares de reconhecimento.
E antes que
Bell respondesse:
— Deixe pra
lá.
— Crest e
Thora esperam-no na pequena sala de cálculos — disse Bell em tom deprimido.
Lançaram
mais um olhar para o piloto do caça, que jazia em profundo sono hipnótico, e
retiraram-se.
Junto à
divisão médica começava o labirinto de corredores e conveses. A Stardust-III
era uma verdadeira metrópole desconcertante Só as salas de máquinas abrigadas
no seu gigantesco envoltório não tinham igual em qualquer das usinas da Terra.
As esteiras
transportadoras levaram-nos ao setor do eixo central, onde ficava o poço do
elevador. No interior do couraçado sempre havia um em cima e um embaixo, que
era criado pelos reguladores automáticos de força gravitacional, mesmo quando a
nave se deslocava em queda livre. Isso apenas representava um ponto
insignificante no conjunto das conquistas tecnológicas totalmente desconhecidas
na Terra.
Subiram
trezentos metros no elevador antigravitacional de paredes polidas. A central de
energia, embutida numa bola de aço blindada, ficava no centro geométrico do
compartimento exterior. Os arcônidas haviam feito um trabalho cuidadoso, muito
embora as gigantescas naves da classe império já tivessem sido construídas há
alguns milênios. No longínquo planeta de Árcon ninguém se lembrava dos
programas de construção espacial do passado. Os tempos áureos daquele povo galáctico
pertenciam ao passado; aquela raça estava irremediavelmente fadada ao
desaparecimento.
Restava
saber qual das numerosas raças que sobravam assumiria a herança dos arcônidas e
lhe daria novo desenvolvimento. O Grande Império era um colosso sobre pés de
barro. A revolta rugia em quase todos os setores conhecidos da Via Láctea. O
povo de Árcon não dispunha da energia necessária para reunir as unidades da
frota espacial que ainda restavam para pôr um fim duro, mas rápido, ao caos.
Anos atrás a
Humanidade não conhecia essa situação. O homem pensava que estivesse só no
Universo; tinha a pretensão de ser o único ser inteligente em toda a Via Láctea
feita por Deus. Era uma conclusão totalmente errônea. Havia inúmeras raças
inteligentes, muitas delas absolutamente inumanas.
Os dois
robôs de vigilância postados diante da pequena sala de cálculo fizeram
continência. Rhodan não lhes deu atenção. Seus pensamentos estavam ocupados com
coisa muito mais importante. A comporta abriu-se. Viram diante de si uma sala
oval com os controles da calculadora semipositrônica de reserva. Fora concebida
como equipamento de emergência, mas também desempenhava funções setoriais do
grande dispositivo positrônico central.
Crest, o
cientista arcônida cujo rosto irradiava uma estranha juventude, estava de pé
junto aos comandos codificados. Sua figura alta e magra tinha algo de
impressionante, mas o que impressionava mais eram os olhos inteligentes com seu
brilho avermelhado.
Estes olhos
eram a única coisa que indicava sua verdadeira idade. Os cabelos esbranquiçados
não constituíam uma indicação segura. Esses cabelos e a cor dos olhos
contavam-se entre os traços característicos de sua raça.
Crest era um
pouco mais alto que Rhodan. Pelo
aspecto exterior não se distinguia dos seres humanos. Só uma radiografia
revelaria algumas diferenças anatômicas de pouca importância.
Acenou com a
cabeça, muito sério e compenetrado. Rhodan não gostou da sua atitude retraída
que, depois da amizade prolongada entre ambos, não correspondia à índole do
arcônida.
A mulher
jovem que se encontrava ao seu lado corporificava exatamente aquilo que sempre
fora. Thora, comandante da nave exploradora destruída há quatro anos, ainda não
perdera sua teimosia. Era bem verdade que, segundo supunha Rhodan, essa atitude
reservada e descortês só servia para encobrir uma teimosia fingida. Já
desistira de fazer com que Rhodan compreendesse que os homens não passavam de
uns seres simiescos que, por acaso, adquiriram um pouco de esperteza. Jamais
aplicara a palavra inteligência em relação aos mesmos.
Rhodan parou
no centro da sala. Seu olhar abrangia tudo. Crest, o maior dos cientistas
espiritualmente ativos de uma raça cósmica degenerada, inclinou o crânio alto e
estreito. Rhodan não estava disposto a aguardar o fraseado interminável. Quando
Crest resolvesse tomar a palavra, a fala seria extensa.
Thora
comprimiu os lábios. Conhecia a expressão fria nos olhos daquele homem magro. A
expressão dominadora, tão conhecida, voltara aos olhos de Rhodan. Só há pouco
tempo ficara sabendo que, em certas condições, possuía o dom de uma sugestão
quase compulsiva. Durante o treinamento hipnótico recebido dos arcônidas esse
dom se tornara mais pronunciado, embora já ao tempo em que era piloto espacial
Rhodan fosse conhecido como um homem que sabia se impor aos subordinados.
— OK,
sejamos breves. Disponho de cinco minutos — disse com um sorriso gelado. —
Querem me explicar que, se os arcônidas não tivessem aparecido, os homens até
hoje estariam voando à Lua nos seus ridículos foguetes de combustível líquido.
Querem dizer ainda que, sem os senhores, seríamos de uma pequenez risível, que
foi só por um acaso lamentável que sua nave pousou na lua terrena. Queiram
desculpar, mas já conheço essa cantoria. Está bem: os senhores me transmitiram
seu saber imenso. Mas foi só. No momento encontramo-nos no oitavo mundo do
sistema Vega. Lá fora, no espaço, os representantes de uma raça não-humana ou
não-arcônida estão à espreita. Não tenho tempo a perder.
— Seu
bárbaro!
Rhodan
inclinou o corpo sem dizer uma palavra. As narinas daquela mulher alta tremiam.
O estranho amor-ódio que existia entre ela e Rhodan voltou a festejar um dos
seus triunfos.
— Muito
obrigado. Geralmente foram os bárbaros que, graças ao espírito sadio e ao corpo
vigoroso, pacificaram e reergueram os impérios decaídos depois de uma submissão
passageira. Vamos deixar isso de lado, Thora?
Crest manteve-se
calado.
— Queremos
pedir que não se esqueça das nossas exigências. Acho que está informado a
respeito das mesmas, não está? — chiou a comandante.
— A senhora
as formulou por escrito — disse Rhodan com um pigarro.
Bell sorriu.
A bela mulher fechou os olhos. Só as mãos
tremiam.

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