Autoria
KURT
MAHR
Tradução de
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
'■-
Terceira
Potência de Perry Rhodan foi reconhecida como Estado legítimo pelas potências
da Terra, e com isso as lutas em torno da cúpula energética montada no deserto
de Gobi cessaram como por encanto.
Mas nem
por isso termina a luta secreta, pois os potentados da Terra ainda alimentam
uma desconfiança extrema face à Terceira Potência. Não querem conformar-se com
o fato de que depois de ter realizado sua missão na Lua, a bordo da Stardust,
onde descobriu o cruzador espacial dos arcônidas, Perry Rhodan manipula os
acontecimentos deste mundo.
Mas
Perry segue seu caminho, imperturbável. E o próximo passo dessa caminhada, que
conduzirá à transformação da Terra numa potência interestelar, é a instalação
da Base em Vênus...
= = = = = = = = PERSONAGENS PRINCIPAIS: = = = = = = =
=
Perry Rhodan — Comandante da nave Good Hope e chefe
da Terceira Potência.
Reginald Bell — O melhor amigo de Perry Rhodan.
Crest e Thora
— Únicos sobreviventes de uma expedição espacial do Império Arcônida.
Tako Kakuta — Subchefe do Exército de Mutantes da Terceira Potência.
Anne Sloane — Jovem mutante que possui o dom da telecinese.
Michael Freyt, Conrad Deringhouse e Rod Nyssen
— Astronautas da Força Espacial dos Estados Unidos. Viajam à Lua a bordo da
nave Greyhound e acabam em Vênus.
O “Comandante” — Que há 10.000 anos
não se cansa de cumprir seu dever.
I
Aquele deserto nunca vira
tamanha atividade, desde que as hordas de Gengis Khan passaram por ali.
Por entre os grupos de
especialistas que haviam chegado ao interior da cúpula energética e começavam a
executar as ordens de Rhodan, mal se notavam os robôs dos arcônidas.
Embora há bastante tempo se
encontrassem em minoria, ainda executavam o maior volume de trabalho. Mas os
especialistas e as máquinas terrenas continuavam a chegar ininterruptamente.
Dentro de alguns dias os pratos da balança se inclinariam para o outro lado.
Nesses dias de nervosismo
causado pelo inimigo extraterreno, a visão do trabalho que se desenvolvia
naquele lugar proporcionava certa satisfação a Perry Rhodan. Tudo corria de
acordo com seus desejos. A indústria de acabamento ali instalada que, no entendimento
dele, era o único fator que poderia conferir à humanidade a preponderância que
teria de exercer nessa área da galáxia, crescia com o máximo de rapidez. O
complexo de edifícios estava quase concluído. Dentro de uns quinze a vinte dias
se defrontariam com o problema de saber se Homer G. Adams conseguiria realizar
em tempo a planejada fusão das indústrias terrenas de acessórios, a fim de que
o fornecimento de máquinas-ferramentas não sofresse interrupções.
Rhodan procurou convencer-se
de que o tempo trabalhava a seu favor. Chegara o momento em que potências
estranhas começavam a se interessar pela Terra. Conseguiram repelir o ataque da
nave-fuso de Fantan, e também conseguiriam defender-se dos Deformadores
Individuais, sem que a Terra corresse um risco excessivo. Mas tudo isso
representava apenas o princípio de uma série de confrontos; e, ao que tudo
indicava, muitos deles teriam um caráter hostil.
A Terra precisava de tempo.
Não era possível eliminar da noite para o dia a vantagem que as raças estranhas
haviam alcançado.
Talvez fosse possível fazê-lo
dentro de duzentos ou trezentos anos.
“Se nos deixarem esse tempo”,
pensou Rhodan, “não teremos nada a temer.”
Nos últimos dias seus
pensamentos muitas vezes se moviam num verdadeiro torvelinho, pois não sabia de
que problema devia ocupar-se em primeiro lugar. Compreendia o espanto que a
atividade febril realizada nas margens do lago salgado produzia em Crest.
Quem se desse ao trabalho de
pensar nisso veria que era incrível que coisas tão fabulosas tivessem sido
realizadas por tão poucos homens num espaço de tempo tão reduzido.
Mas esse punhado de homens o
havia feito. Impusera sua vontade aos homens, deixara a economia terrena de
pernas para o ar. Fizeram com que as grandes potências os reconhecessem e se convencessem
de que sem eles, isto é, sem a Terceira Potência, nada poderia ser feito na
Terra e nos seus arredores.
* * *
— Não devemos esperar muito,
Rhodan! — insistiu Bell, enrijecendo o corpo musculoso e arrepiando os cabelos
ruivos numa atitude de desafio. — Precisamos antes de mais nada de um posto de
reserva. Temos de...
Rhodan fez um gesto
tranqüilizador.
— Não vamos precipitar nada,
Bell. Decolaremos daqui a duas horas.
— Está bem — respondeu Bell.
— Quais são os planos?
— Pousaremos na Lua. Não quero
que o velho cruzador espacial espere por mais tempo. Precisamos de muita coisa
que anda jogada por lá. Da Lua iremos diretamente a Vênus.
Interrompeu-se. Parecia
pensativo.
— Você tem razão — disse
depois de algum tempo. — Antes de mais nada precisamos de um posto de reserva.
A idéia era clara e simples.
Fossem quais fossem as condições na Terra e nas suas proximidades, não havia
nada que pudesse garanti-los contra um ataque maciço de uma raça estranha,
lançado de surpresa. Rhodan achava que seria uma leviandade correr o risco de
um extermínio total por um tempo maior que o estritamente necessário. Se
instalasse uma base da Terceira Potência em Vênus não estaria eliminando o
perigo, mas evitaria que a catástrofe fosse total.
Crest e Thora, antigos comandantes
do cruzador espacial dos arcônidas, destruído na Lua pelos foguetes dos
terráqueos, concordavam com o plano de Rhodan, embora não se interessassem
muito por ele. Só desejavam que a tecnologia terrena, que passava por um
desenvolvimento vertiginoso, logo atingisse uma fase que lhe permitisse
construir uma nave semelhante àquela com que haviam pousado na Lua. Crest
costumava dizer com certa ironia:
— Tivemos de parar no canto
mais afastado da galáxia para compreender que a situação do Império não é nada
boa. Ninguém poderá levar a mal que queiramos voltar para casa quanto antes. É
bem verdade — costumava acrescentar em tom sério — que devemos agradecer ao
destino. O Império precisa de um aliado, para enfrentar as situações que
surgirão no futuro. E não poderíamos encontrar aliado melhor que a humanidade
terrena.
Thora hesitaria em fazer coro
com estas palavras. A luta que sua razão travava, com intensidade variável,
contra o desprezo intuitivo e emocional que nutria pela humanidade, ainda não
estava finda. Thora ainda não se conformara com a idéia de lidar com os homens
de igual para igual. Não se sabia se no seu pensamento Perry Rhodan constituía
uma exceção.
* * *
A nave auxiliar Good Hope
decolou ao escurecer. As calculadoras automáticas não levaram mais que alguns
minutos para determinar a rota da Lua e regular o dispositivo direcional
automático. O único trabalho da tripulação consistia em comprimir um botão que
dava início à operação de decolagem.
A Good Hope decolou com
empuxo máximo. O impulso produzido pelos feixes corpusculares que saíam dos
reatores à velocidade da luz conferiu-lhe uma aceleração inicial de quase 500 g .
A pressão formidável gerada
por essa aceleração foi neutralizada no interior da nave. A força de aceleração
reinante a bordo da Good Hope nunca era superior a l g. Uma circunstância que
favorecia a tripulação era a de que os valores da aceleração da queda nos
mundos Árcon e Terra só divergiam de poucos por cento. Nessas condições uma
viagem à Lua só durava alguns minutos.
Rhodan deixara a Terra
tranqüilo, quase alegre. Tako Kakuta, teleportador e subchefe do Exército dos
Mutantes, trouxera boas notícias. O comando do exército fora transferido a Ras
Tshubai, pois Tako participaria da expedição. Ras Tshubai dispunha como que de
um de cão de fila na pessoa da pequena Betty Toufry, uma menina dotada de
capacidades espantosas. Rhodan estava convencido de que Ras com sua atividade
incansável, mas prudente, seria o homem indicado para dirigir a ação contra os
Deformadores Individuais. Além disso, não haveria a menor dificuldade em
interromper a expedição e voltar à Terra pelo caminho mais breve, se surgissem
notícias alarmantes.
Rhodan pensou em Ernst
Ellert. Sentiu-se possuído pela contrariedade que costumava apossar-se dele
sempre que se lembrava da perda desse elemento tão valioso. Ellert era um
mutante que possuía um dom singular. Teletemporação era o nome que Rhodan dera
à capacidade de que o mesmo se achava investido. Reginald Bell usava uma
expressão mais prosaica. Costumava dizer que Ellert era um homem que sabia
passear, em espírito, no futuro.
Ellert parecia morto, e as
esperanças haviam morrido com ele. Às vezes Rhodan chegava a pensar que,
seguindo uma lei metafísica ainda desconhecida, a natureza havia corrigido a si
mesma, eliminando Ellert. Ellert era um monstro na verdadeira acepção da
palavra; chegava a ser mais monstruoso que os Dl.
Quando Rhodan espantou esses
pensamentos com um movimento cansado da mão, a Good Hope já se preparava para
as manobras de alunissagem. Depois de realizar um movimento de translação
correspondente a um quarto da circunferência da Lua, a nave se dirigiu para o
montão de destroços formado pelos restos do antigo cruzador espacial dos
arcônidas. Os instrumentos de medição revelaram que a radiatividade dos
destroços já se reduzira a um grau que não oferecia o menor perigo.
O som estridente do aparelho
localizador constituiu um acontecimento um tanto sensacional. Bell, que
manejava o localizador, relatou:
— Objeto desconhecido em Pi
zero-cinco, Teta três-três-seis. Não se percebe qualquer movimento na
superfície lunar.
Rhodan procurou na tela as
coordenadas indicadas por Bell. O objeto parecia miseravelmente pequeno. Não
passava de um pontinho reluzente em meio à solidão da Lua.
Rhodan desligou o dispositivo
direcional automático e passou a pilotar a nave. Sem olhar, comprimiu a chave
do telecomunicador. A voz do Dr. Manoli fez-se ouvir.
— O que houve, Rhodan?
— Localizamos alguma coisa,
Manoli — explicou Rhodan. — Procure comunicar-se com o objeto e verifique se há
alguma resposta. Bell lhe dará as coordenadas.
— Entendido.
Enquanto a Good Hope
sobrevoava os destroços do cruzador espacial e o pequeno ponto reluzente
situado à sua margem, Bell murmurava as coordenadas que sempre mudavam no
aparelho de telecomunicação.
O Dr. Manoli trabalhava com o
raio direcional, usando um ângulo bem aberto. Depois de algum tempo informou:
— Nenhuma resposta, Rhodan!
Rhodan gritou em direção ao
aparelho de telecomunicação de Bell:
— Mantenha o contato.
Descerei mais. Descrevendo uma curva bem ampla e aproximando-se dos destroços
em outra direção, a Good Hope perdia altitude.
A distância da superfície
lunar ainda era de oitenta quilômetros. Apesar disso os telescópios de bordo
deviam ser capazes de identificar o objeto reluzente.
Rhodan duvidava de que se
tratasse de um sinal da existência dos Deformadores Individuais. Não havia
nenhum motivo especial para esse tipo de dúvida, a não ser a esperteza
super-humana dos Dl, que não lhes permitiria deixar um objeto tão visível numa área
em que mais cedo ou mais tarde surgiria um veículo humano. Seria uma armadilha?
Rhodan virou-se. Crest estava
deitado num dos leitos que se encontravam junto à parede da sala de comando;
Thora encontrava-se a seu lado.
— Thora, quer fazer o favor
de assumir o posto de combate?
Uma expressão de tédio surgiu
no rosto da arcônida. Levantou-se com um breve aceno de cabeça e dirigiu-se a
um painel de menos de um metro quadrado, que incluía as chaves de comando de
todas as armas que a Good Hope trazia a bordo.
Rhodan manteve a nave na
vertical do ponto cintilante.
— Bell, já descobriu o que é?
Bell ajustou o telescópio e
projetou a imagem sobre uma das telas.
— Santo Deus! — gemeu. — É
uma nave terrena igual à Stardust!
Rhodan, num movimento rápido,
girou a poltrona.
— Pousar! — ordenou.
O grito de Bell fez com que a
mão que se preparava para acionar a chave de comando parasse a meio caminho:
— Espere...!
Todos os olhares
concentraram-se sobre a tela localizadora de microondas, onde a nave estranha
aparecia sob a forma de uma mancha luminosa. Dois pontos brancos destacaram-se
dessa mancha e, deslocando-se numa velocidade formidável, dirigiam-se para o
centro da tela.
Bell virou a cabeça. Seus
olhos estavam arregalados de espanto.
— Não é possível! — disse com
a voz baixa, em tom quase solene. — Estão atirando contra nós!
* * *
A nave Greyhound, da mesma
classe da Stardust, que representava a última tentativa das potências
ocidentais de romper o monopólio energético-científico da Terceira Potência,
conseguira deslocar-se até a Lua sem ser detectada e, segundo as instruções
ministradas à tripulação, manobrara para além da área em que se encontravam os
destroços do cruzador espacial dos arcônidas. Ali a tripulação esperava
encontrar os remanescentes da maravilhosa tecnologia arconídica.
Uma vez atingido o ponto
escolhido, a nave iniciou as operações de alunissagem.
Para a Greyhound o pouso
representava a manobra mais difícil. O dispositivo direcional automático,
alimentado ininterrupta e cuidadosamente pelos sinais emitidos da Terra,
encarregara-se do vôo, que decorreu sem o menor problema. Mas o ponto de
alunissagem ficava fora do alcance dos sinais de rádio. Por isso a manobra
exigia toda a habilidade de dois pilotos submetidos a um treinamento de vários
meses.
Esses pilotos eram os
tenentes Michael Freyt e Conrad Deringhouse. Foram eles que comandaram toda a
atividade que o foguete desenvolveu durante a alunissagem. O capitão Rod
Nyssen, oficial de armas, e o major William Sheldon, especialistas incumbidos
do recolhimento do material que esperavam encontrar entre os destroços do
cruzador espacial, não teriam nenhuma tarefa a executar e continuavam deitados
nos acolchoados antipressionais.
Deringhouse relatou com a voz
embaraçada:
— Todas as velocidades ao
nível zero, com exceção do deslocamento vertical.
O tenente Freyt respondeu:
— Deslocamento vertical de
dez metros por segundo, velocidade constante. Pode-se dizer que descemos como
uma folha.
Freyt saíra da mesma escola
que o major Perry Rhodan deixara um ano antes. Parecia ser do mesmo tipo que
este: grande e sério, mas com pequenas rugas nos cantos dos olhos, que vez por
outra tiravam toda a seriedade daquele rosto que ostentava uma severidade
militar.
Os dois pilotos envergavam os
trajes espaciais. Mantinham os capacetes ligeiramente abertos; o que lhes
permitia comunicarem-se sem o auxílio do microfone.
— Distância quatro mil —
anunciou Deringhouse.
Pela primeira vez lançou um
olhar em direção a Freyt e permitiu-se um sorriso jovial. O capacete jogado na
nuca dava-lhe o aspecto de um escolar que pretendia andar de ônibus sem pagar
passagem.
— Dê outra freada! — disse
Freyt.
O solavanco produzido pela
desaceleração percorreu a nave. Dali a alguns segundos o reduzido campo
gravitacional da Lua voltou a fazer-se sentir.
— Deslocamento vertical de
seis por segundo. Qual é a distância?
— Distância de três mil e
trezentos.
Freyt acenou com a cabeça;
parecia satisfeito. A manobra de alunissagem estava decorrendo segundo as
previsões.
A Greyhound levaria perto de
dez minutos para percorrer a distância que ainda a separava da superfície da
Lua. Para a tripulação parecia um tempo imenso. De qualquer maneira, até aqui
não tinha havido qualquer falha e, na opinião de Freyt, seria coisa do diabo se
o pouso não fosse bem sucedido.
Freyt estava atento à sua
tarefa, embora não aprovasse os motivos que ditaram sua missão. Estivera
presente quando, nos primeiros tempos de existência da Terceira Potência, todos
os canhões e bombardeiros da Terra dispararam suas cargas contra a cúpula energética.
Mas neste meio tempo convencera-se de que nenhum poder terreno alheio a Rhodan
teria possibilidade de assumir parte da herança dos arcônidas.
Aceitara a incumbência por
ser oficial, e principalmente porque não se exigia dele que praticasse qualquer
ato de hostilidade caso tivesse que defrontar-se com Rhodan ou algum dos seus
auxiliares.
Sheldon rolou seu corpo
desajeitado para o lado o tanto que os cintos de segurança o permitiam e
reclamou:
— Ainda vai demorar muito?
Estou morrendo de ansiedade!
Freyt limitou-se a esboçar um
gesto. Um sorriso de escárnio aflorou no seu rosto.
— Alguns minutos. Qual é a
distância?
— Mil e oitocentos.
— Ótimo!
A superfície da Lua
desenhava-se como uma bacia rasa, na qual a Greyhound ia afundando aos poucos.
Freyt e seus homens haviam sido informados sobre o “efeito de panela” que
invariavelmente atinge os astronautas que pousam em astros de pequeno diâmetro.
No lugar em que a Greyhound iria pousar o solo parecia ser liso e firme.
Freyt, porém, não se limitou
a uma avaliação superficial. Além de controlar a distância que os separava da
superfície lunar, Deringhouse ficava de olho num instrumento capaz de, a uma
distância de cem metros, registrar acidentes do solo de um centímetro e até
menos.
Tal qual a Stardust, a Greyhound
dispunha de suportes hidromecãnicos para o pouso. Esse aparelho compensava
facilmente desníveis de até três metros, e com menor facilidade os que
alcançavam até sete metros.
— Que tal lhe parece o solo?
— perguntou Freyt.
— Por enquanto parece ser
bom. Não existem desníveis de mais de quatro metros.
— Qual é a altitude?
— Novecentos.
— Avise quando atingirmos a
marca dos quatrocentos metros. Realizaremos mais uma frenagem.
Deringhouse confirmou com um
aceno de cabeça. Freyt dirigiu o olhar para os instrumentos.
Indicador de combustível: o
tanque estava com sessenta por cento da capacidade, até um pouco mais.
Isso representava um fator
favorável. No seu pouso final sobre a Terra, a Greyhound recorreria à frenagem
aerodinâmica, com uma utilização mínima dos foguetes. Na decolagem da Lua,
Freyt poderia consumir quase todo o hidrogênio que ainda se encontrava nos
tanques.
“Pois bem”, pensou, “quando
tivermos chegado lá embaixo o ponteiro indicará uns cinqüenta e cinco por
cento, mas isso ainda é muito bom.”
— Quatrocentos metros! —
anunciou Deringhouse.
— Cuidado, frear! — soou a
voz de Freyt como um eco.
Mais um solavanco atravessou
a nave. Deringhouse ajustou o capacete. Freyt olhou-o.
— Fechar os capacetes! —
disse.
Dali em diante a comunicação
teve de ser mantida por meio dos microfones embutidos nos capacetes.
— Duzentos!
A mão esquerda de Freyt
descansava sobre a perna inflada de seu traje espacial. Só a direita ainda
tinha algumas tarefas a executar. Segurava a chave-mestra do acelerador de
emergência, que controlava a temperatura do reator e o suprimento de
hidrogênio.
— Nenhum desnível superior a
um metro! — disse Deringhouse.
Os segundos arrastavam-se.
Deringhouse iniciou a contagem:
— Oitenta metros...
setenta... sessenta...
— Controle de desnível —
pediu Freyt.
— Não há nenhum superior a
oitenta centímetros — respondeu Deringhouse e prosseguiu: — quarenta...
trinta...
Seguiu-se uma pausa. Um
minuto depois a voz de Deringhouse voltou a soar:
— Suportes apoiados no solo.
Completamos o pouso.
— Silêncio! — pediu Freyt.
Os suportes agüentaram parte
do peso da nave. Os dispositivos hidráulicos deslizaram pelos braços
cintilantes de aço.
Deringhouse, cujo triunfo
fora interrompido de modo tão brusco, anunciou:
— Suportes B e C estão no
mesmo nível. Suporte A a menos oitenta centímetros.
Freyt repeliu-o com um gesto.
— Com menos de um metro não
compensa.
Foi então que aconteceu.
Ouviram o terrível solavanco
e o toque estridente dos alarmas, que fez a nave estremecer.
— A está abaixando! — gritou
Deringhouse. — Ligue a compensação.
Freyt levantou a mão esquerda
num gesto instantâneo e empurrou o regulador hidráulico. Sentiu-se outro
solavanco, quando os suportes B e C procuraram compensar a diferença com A, e
depois mais outro.
— A continua a descer! — gritou
o tenente. — Estamos... o chão está rompendo.
Freyt notara-o no mesmo
instante. O chão quebradiço por baixo da Greyhound estava riscado por fendas
negras, que se ampliavam sob o peso da nave.
— Cuidado! — gritou Freyt. —
Darei a aceleração máxima.
Deringhouse reclinou-se na
poltrona. Freyt apertou a chave que já vinha segurando na mão direita, e
puxou-a para trás.
A Greyhound inclinou-se com
tamanha rapidez que não houve tempo de reagir ao empuxo dos reatores.
Deringhouse mantinha os olhos arregalados presos à tela.
— Não! — berrou com a voz
rouca.
Freyt empurrou a chave para
trás.
— Cuidado! Estamos tombando!
Não adiantava mais. A
aceleração de emergência teria provocado o deslocamento horizontal da nave
sobre a planície pedregosa, fazendo-a espatifar-se contra a cratera mais
próxima.
O suporte A, que afundara no
solo, rompeu-se com um ruído semelhante a um tiro de canhão. Na parte posterior
do corpo da nave um dos agregados desprendeu-se e caiu ao chão. O envoltório da
nave deformou-se, provocando um inferno de ruídos uivantes. Seguiu-se o
verdadeiro impacto.
Alguém gritou. Na parede da
cabina surgiu uma fenda, por onde o ar escapou com um silvo agudo.
O subconsciente de Freyt
aguardava o golpe final, que representaria o verdadeiro fim, mas este não veio.
Passou-se um minuto. Freyt
abriu os olhos, fechados na expectativa da morte. Incrédulo, levantou-se.
Na cabina reinava uma
confusão terrível de instrumentos destroçados e turbilhões de poeira lunar que
penetrara pela fenda.
— Deringhouse! — chamou Freyt
com a voz assustada. — Sheldon. Nyssen. Onde estão?
Ouviu-se um gemido.
— Se estiver falando comigo,
ainda estou por aqui.
Era a voz rouca de Nyssen.
— Onde você se meteu, Nyssen?
Saia daí. Onde estão os outros?
— Não faço a menor idéia —
resmungou Nyssen. — Irei até aí assim que conseguir tirar estes cintos. Parece
que foram eles que me seguraram. Pronto!
Parte dos destroços começou a
movimentar-se. A cabeça de Nyssen, envolta no capacete disforme, foi surgindo
por entre um equipamento amassado de alta tensão e uma caixa deformada a ponto
de tornar-se irreconhecível.
— Tudo em ordem? — perguntou
Freyt.
— Por enquanto sim.
Nyssen levantou-se.
— Nosso quarto está mudado —
observou. — Há pouco havia uma parede por aqui.
Freyt desatara os cintos e
levantara-se. Seu assento de piloto acompanhara a vira-volta da cabina.
— Venha ajudar-me.
Afastaram os destroços,
abrindo caminho para a parte dos fundos. Nyssen pôs a mão na perna de um traje
espacial.
— Só pode ser o tenente.
Arrastaram-no para fora
daquela confusão. O impacto arrancara-o do assento e atirara-o para trás.
Provavelmente ficara inconsciente. Ainda respirava.
— Vamos continuar.
Depois de atirarem para o
lado os últimos destroços, encontraram Sheldon.
De início pensaram que apenas
estivesse inconsciente. Mas ao virá-lo encontraram o rasgo comprido no seu
traje, que ia do ombro até a altura dos quadris.
Freyt ergueu-se. Cambaleava
naquele chão desigual. A voz rouca de Nyssen disse:
— Sinto muito, Sheldon.
Continuaram a afastar os destroços, até chegar à entrada da comporta. A escada
soltara-se e suas peças estavam contorcidas, mas não precisariam mais dela. A
comporta estava em posição horizontal.
— Cuide do tenente — ordenou
Freyt enquanto engatinhava pelo túnel de saída.
Parecia ter chegado a um
mundo diferente. Fora da escada, nenhuma parte da comporta fora danificada.
Freyt começou a nutrir alguma esperança. Na popa o impacto por certo fora menos
violento.
Chegou à comporta e abriu o
compartimento interior. Realizou um controle. Não havia mais ar. Ligou o
acionador de emergência. Uma lâmpada iluminou-se segundo as previsões. A
comporta estava em ordem.
Freyt preferiu não realizar
outros exames. Retornou à cabina. Deringhouse estava acordando.
— Como está? — perguntou
Freyt.
— Bem, obrigado — gemeu o
tenente. Levantou-se com auxílio de Nyssen.
Apalpou o traje espacial,
procurando descobrir em que ponto do corpo se localizavam as dores.
— Parece que tudo está em
ordem — murmurou.
Freyt parecia satisfeito.
— Vamos ao trabalho.
Iniciaram uma atividade
febril. Era o melhor meio de apagar o primeiro impacto da catástrofe.
As informações surgiram numa
rápida sucessão:
— Equipamento de
radiocomunicação totalmente destruído.
— Eletrônica dos reatores não
funciona.
— Conduto de emergência em
ordem. Finalmente ouviu-se o grito de triunfo de Nyssen:
— O armamento está intacto!
Freyt constatou que o
depósito de mantimentos estava praticamente intacto. Encontrou um reservatório
de oxigênio que não fora danificado. Poderia encher de ar um dos compartimentos
da nave, se é que havia algum que não apresentasse nenhuma rachadura.
As avarias dos dispositivos
eletrônicos dos reatores poderiam ser reparadas. Mas seria inútil realizar
esses reparos, porque não havia possibilidade de colocar a Greyhound na
vertical.
Saíram. O envoltório externo
apresentava-se ondulado e abaulado. No lugar em que o suporte A deveria
apoiar-se havia um buraco profundo. O solo lunar na beira desse buraco só tinha
alguns centímetros de espessura.
Freyt tomou a palavra:
— Estamos preparados para uma
permanência de quinze dias na Lua. Só depois de vinte dias o pessoal em Terra
começará a preocupar-se conosco. Não agüentaremos até lá. Não nos resta outra
alternativa senão pôr-nos a caminho.
Sentiu-se irritado pela
direção em que Deringhouse fitou os olhos.
— Olhe ali!
O tenente atirou o braço para
o alto. Freyt virou-se abruptamente. Estreitou os olhos. No firmamento negro
havia um ponto cintilante, que se deslocava numa velocidade vertiginosa.
— É aquela raça maldita! —
chiou Nyssen.
— Que raça?
— Os Dl, aqueles insetos.
Freyt hesitou.
— Nyssen! Assuma seu posto
junto aos canhões. Só atire quando eu der ordem.
— Certo.
Nyssen saiu correndo.
— Tenente, nós dois ficaremos
aqui mesmo. Não temos nada a fazer lá dentro.
Deringhouse confirmou com um
aceno de cabeça, sem tirar os olhos daquele ponto cintilante.
— Desceu mais — disse o
tenente.
— A que altitude se encontra
agora?
Nyssen respondeu prontamente.
— Se os instrumentos ainda
estão em ordem, deve estar a oitenta quilômetros.
— Quantos projéteis pode
disparar ao mesmo tempo com a corrente de emergência?
— Dois.
— Pois atire.
Os canos de disparo dos
foguetes estavam em posição horizontal, tal qual o resto da nave. Quando Nyssen
atirou o solo estremeceu e a nave inclinou-se ligeiramente. Mas, apesar do
ângulo de disparo desfavorável, os projéteis descreveram uma curva e subiram na
vertical.
II
— Não há dúvida — disse
Rhodan com a voz áspera. — Devem ter enlouquecido ou então...
Virou-se. Viu que Thora
manipulava o comando do armamento, com uma rapidez algo suspeita.
— Thora!
A palma da mão de Thora bateu
numa chave. Rhodan deu um salto, mas chegou tarde. Agarrou-a nos ombros e
atirou-a para o lado. Thora deu um grito furioso e caiu ao solo.
Rhodan colocou a chave na
posição inicial.
— Bell!
— Sim, Rhodan. Ela atirou com
um dos desintegradores. O ponto desapareceu.
A voz de Manoli fez-se ouvir:
— Cuidado. Acionar o
dispositivo de defesa.
Os dois foguetes disparados
pela Greyhound aproximaram-se, mas tiveram a trajetória modificada pela tela
protetora. Passaram ao lado da nave e desapareceram no espaço.
Thora levantou-se.
— É bom que nunca mais se
esqueça de que mesmo você deve aguardar ordens antes de atirar — disse Rhodan
com a voz tranqüila, mas ameaçadora. — Você terá de haver-se comigo se qualquer
coisa tiver acontecido a essa gente.
Thora encarava-o de frente.
— Terei de haver-me coisa
alguma! — chiou entre os dentes. — Fomos atacados, e costumo defender-me contra
qualquer agressão.
— Acha que isso foi um
ataque? Desde que a conheço vive debochando da tecnologia subdesenvolvida dos
terráqueos, e agora vem me dizer que essa tecnologia representa uma ameaça?
— Acontece que essa gente
destruiu meu cruzador.
— Isso só aconteceu porque
você não foi capaz de defendê-lo — vociferou Rhodan. — Você sabe perfeitamente
que esta nave dispõe de proteção eficaz contra qualquer arma terrena.
Thora ficou calada. O
vermelho de seus olhos flamejava por entre as pálpebras entreabertas.
— Está bem — disse Rhodan com
a voz cansada. — Vamos pousar.
* * *
O grito de Nyssen despertou
os outros.
— Meu Deus, o que é isso?
Estavam acompanhando a trajetória dos foguetes, para observar a explosão.
Viraram a cabeça e viram a modificação que se processava em silêncio nos
destroços de sua nave.
Deringhouse soltou um gemido,
o que fez com que Freyt recuperasse o autocontrole.
— Não se mova!
— Está bem; esperarei —
respondeu Nyssen.
“Meu Deus”, pensou Freyt
apavorado, “atacamos as pessoas erradas.”
A Terra já estava bem
informada sobre as armas dos arcônidas, motivo por que Freyt pôde identificar o
tipo de destruição que estava sendo levada a efeito em sua nave. Sob a
influência de um campo elétrico cuja microestrutura correspondia àquela que
mantém as moléculas unidas sob a forma de cristais, esses cristais se
desintegravam, liberando as moléculas. O que sobrava era um gás rarefeito,
cujas componentes eram as mesmas da matéria sólida de que se originara.
Esticando a cabeça para a frente,
Deringhouse contemplou a obra de destruição. As paredes da Greyhound entraram
em decomposição; dali a pouco não sobrava nada. Todo o processo não durara mais
que quatro ou cinco segundos. O reator, os mecanismos propulsores e os tanques
de combustível, privados de apoio, começaram a escorregar e caíram ao chão.
Retendo a respiração, Freyt
percebeu que nenhuma dessas peças foi atacada. Quando o pesado reator, depois
de alguns sacolejos, atingiu a posição de repouso, começou a acreditar em
milagres. Não estavam atirando mais.
— Nyssen — disse com a voz
tão débil que o capitão mal podia ouvi-lo. — Venha cá!
Nesse instante uma enorme
sombra negra projetou-se sobre a planície ensolarada. Soltando um grito de
pavor, o tenente virou-se e tropeçou.
Mas era apenas a nave
esférica dos arcônidas que se preparava para pousar.
Nyssen teve tempo de
admirá-la à vontade. Já a vira antes. Foi há cerca de nove meses, quando
acompanhara Freyt no ataque ao cruzador cujos destroços se encontravam diante
deles. Acontece que naquela oportunidade a distância fora muito maior.
— Meu Deus, que coisa
monstruosa! — disse com a voz espantada.
Freyt olhou-o. Ao que
parecia, já recuperara a calma.
— Muito bem. Vamos até lá
para pedir desculpas.
* * *
Rhodan viu os três vultos que
caminhavam por entre os destroços. A distância era tão reduzida que se podia
estabelecer contato pelo rádio de capacete.
— Deixem de tolices! —
ordenou Rhodan com a voz áspera.
— Está bem, Rhodan — soou a
voz de Freyt depois de algum tempo. — Três náufragos como nós só podem ser
razoáveis.
Rhodan espantou-se ao ouvir
aquela voz.
— Quem está falando? Será que
é Freyt?
— Sim, sou eu.
— Quem são os outros?
— O capitão Nyssen e o
tenente Deringhouse.
— Muito bem. Entrem.
Rhodan virou-se. Ouvira um
ruído às suas costas. Era Thora. Ao ouvir o nome Freyt exaltara-se, jogando
para trás o leito em que estivera sentada.
— Então é Freyt! — chiou,
quando Rhodan lançou os olhos sobre ela. — O homem que destruiu meu cruzador.
Rhodan não permitiu que
prosseguisse.
— Não foi só Freyt. Não é o
único culpado, ainda mais se considerarmos que apenas estava cumprindo ordens.
Os olhos de Thora chisparam
um fogo avermelhado.
— O que pretende fazer com
essa gente?
— Recebê-los a bordo. Tem
alguma outra idéia?
— Isso está fora de
cogitação. Não o permitirei! Quem comanda o cruzador sou eu.
— O cruzador não existe mais.
— Esta nave auxiliar pertence
ao cruzador. Essa gente não será recebida a bordo.
De tão furiosa que se achava,
parecia não ter dúvida de ter dito a última palavra.
Mas houve um epílogo, e um
epílogo que se revestia de uma importância decisiva. Os presentes tiveram a
impressão de que testemunhavam uma luta singular e extraordinária.
Rhodan virou-se para Bell.
— Bell, abra a comporta A.
— Pois não.
Thora, que lhe dera as
costas, virou-se abruptamente.
— Acabo de dizer...
— O que você diz não me
interessa — respondeu Rhodan.
Crest, tomado de uma dor
súbita, gemeu. Ninguém lhe deu atenção.
— Esses homens não subirão a
bordo da minha nave — disse Thora, atropelando as palavras. — Acho que fui
bastante explícita. Proíbo...
— Você não pode proibir coisa
alguma — advertiu-a Rhodan em tom enérgico.
As palavras que Thora ainda
quis proferir transformaram-se num murmúrio ininteligível.
Deixou cair os ombros. Crest
levantou-se, pegou-a pelo braço e levou-a para fora.
Rhodan passou a mão pela
testa. Bell deu um suspiro.
No corredor ouviram-se passos.
A figura esbelta de Freyt surgiu junto à escotilha.
Fez continência.
— Você tem diante de si um
homem contrito — disse, dirigindo-se a Rhodan. — Peço desculpas pelo engano.
Sorriu ligeiramente. As
feições de Rhodan permaneceram sérias.
— Que engano?
— Pensamos que sua nave fosse
dos Dl e procuramos destruí-la.
— Por que não responderam às
nossas mensagens?
— Nem sabíamos que haviam
enviado mensagens. Nossa nave sofreu avarias durante o pouso; o aparelho de
radiocomunicação ficou inutilizado.
— O que veio fazer na Lua?
Freyt baixou os olhos.
— Não é necessário responder
— prosseguiu Rhodan com a voz zangada. — Pretendiam remexer os destroços do
cruzador para ver se não poderiam conseguir algumas armas aproveitáveis para o
Estado-Maior da OTAN. Não é isso?
Freyt não respondeu.
Empurrando-o para o lado, o capitão Nyssen postou-se diante de Rhodan.
— Major Rhodan, você já foi
um dos nossos. Quando saiu da escola de cadetes, eu já era capitão.
Infelizmente sou...
— Não se desvie do assunto!
Nyssen sorriu.
— Você terá que ouvir-me até
o fim, tal qual fazia quando ainda não passava de um simples cadete. Sabe
perfeitamente como trabalha a Força Espacial. Recebemos ordem de voar até a Lua
e remexer estes destroços. Não venha me dizer que não sabe o que teriam feito
de nós se não tivéssemos embarcado imediatamente.
— Poderiam ter-me avisado —
respondeu Rhodan.
Subitamente o rosto de Nyssen
assumiu uma expressão séria. Falando um pouco mais baixo, disse:
— Acontece que não é qualquer
um que pode dar as costas à pátria e fundar um clube só para ele.
As pessoas que se encontravam
na sala de comando retiveram a respiração. Todos entenderam o sentido das
palavras de Nyssen; esperavam a reação de Rhodan.
Este ficou imóvel como uma
estátua. Não se saberia dizer se a censura lhe causara qualquer impressão.
Depois de algum tempo deu de
ombros e estendeu a mão para Nyssen.
— Está bem, capitão — disse
com um sorriso. — Você ganhou.
* * *
— Como vai ela?
— Tudo em ordem — respondeu
Crest. — Se eu fosse você, não faria uma coisa dessas pela segunda vez.
Rhodan deu de ombros.
— Não tive outra alternativa.
Crest confirmou com um
vigoroso aceno de cabeça.
— Você não imagina que
energia terrível há no olhar dessa mulher. Acho que fui a única pessoa que
sentiu todo o impacto desse olhar. Até parecia que alguém queria varrer meu
cérebro com uma vassoura de aço.
Sorriu para Rhodan.
— Você devia estar com muita
raiva. Não se esqueça de que os cérebros dos arcônidas são mais treinados e
melhor utilizados que os dos homens mas, em virtude da degenerescência da raça,
são menos resistentes. Os seus ataques brutais podem levar Thora à loucura.
Estou falando sério.
Rhodan confirmou com um aceno
de cabeça. Estava muito contrariado.
— Sei disso. Talvez minha
intenção fosse essa mesma naquele momento.
Crest olhou-o. Parecia
assustado.
— Mas isso...
Rhodan interrompeu-o com um
gesto.
— Isso não se repetirá —
disse para tranqüilizá-lo. — Tenho outros meios para obrigar Thora a agir
razoavelmente.
Crest seguiu-o com os olhos
enquanto atravessava o corredor, em direção à sala de comando. Num gesto
inconsciente procurou dar aos seus ombros caídos uma expressão tão orgulhosa
como a de Rhodan. Quando se deu conta disso, sorriu.
* * *
Rhodan despendeu algum tempo
em subir com a Good Hope até colocá-la numa posição que lhe permitisse
estabelecer contato radiofônico com Washington. Manteve uma conversa demorada
com os homens que, segundo supunha, tinham ordenado a Freyt que voasse à Lua.
Ninguém assumiu a responsabilidade, mas todos exprimiram seu pesar pelo incidente.
Rhodan não se deu por satisfeito; fez seu preço. Do outro lado houve algum
espanto, mas logo se chegou à conclusão de que não havia nada a objetar às
exigências de Rhodan.
Este logo fez a Good Hope
pousar novamente no solo lunar e pediu que comparecessem à sala de comando os
três sobreviventes da Greyhound, aos quais haviam sido destinados camarotes
individuais.
— Tive uma conversa com o
pessoal de Washington — principiou. — Pediram desculpas, mas isso não me serve
de nada. Manifestei um desejo e, face à situação atual, resolveram me atender.
Lançou um olhar significativo
para Freyt e Nyssen, e finalmente para o tenente.
— Gostaria que vocês ficassem
comigo — disse.
Freyt estreitou os olhos.
Deringhouse ergueu-se de um salto. O único que não reagiu foi Nyssen. Em
compensação foi quem falou primeiro.
— Já lhe dei minha opinião,
major.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Não se trata de mudar de
campo por puro amor. Preciso de três bons pilotos espaciais, e os mesmos acabam
de cair nas minhas mãos. Se resolverem aceitar a oferta que lhes faço, a Força
Espacial lhes concederá exoneração com todas as honras. Tudo que têm que fazer
é dizer sim ou não. Dou-lhes vinte e quatro horas para refletir. Muito
obrigado, companheiros.
Levantou-se e saiu.
Duas horas depois obteve a
resposta. Era sim.
Rhodan apertou a mão dos três
homens. Estava sorridente.
— Temos muita coisa
importante a dizer — começou. — E estamos com pressa. O exame dos destroços do
cruzador espacial demorará alguns dias.
Gastaram quatro dias nesse
exame. Foi um tempo bem empregado.
Os robôs da Good Hope —
Rhodan trouxera alguns deles da Terra — tiraram do núcleo quase intacto do
cruzador tudo que parecia útil e podia ser carregado na nave. Muitos objetos
tiveram que ser empilhados. Os robôs usaram as chapas do cruzador que ainda se
encontravam em bom estado para construir um tipo de barraca, na qual abrigaram
o restante da carga.
Rhodan fez uma relação das
máquinas e aparelhos que haviam retirado do cruzador. Grande parte eram bens de
consumo destinados às trocas intergalácticas, nos quais Rhodan viu a solução
definitiva dos problemas financeiros da Terceira Potência. Assim que tivesse em
mãos o produto da venda desses artigos, Homer G. Adams poderia dedicar sua
capacidade genial à solução de problemas mais importantes.
Rhodan reservou, para uso
próprio, uma série de canhões de radiação de auto-propulsão, armas energéticas
portáteis e uma instalação completa para a produção de robôs especiais.
O exame da nave revelou outra
coisa, que o próprio Rhodan nem chegou a perceber. Foi Thora que o avisou.
Rhodan dispunha de um
camarote especial a bordo da Good Hope, o que também acontecia com os outros
tripulantes daquela nave de grandes dimensões, calculada para uma tripulação
muito maior. Por duas vezes Thora já julgara necessário procurá-lo ali; mas
alguns meses já se tinham passado desde a última visita.
Por isso Rhodan ficou
surpreso ao encontrá-la em seu camarote naquela noite. Confortavelmente
instalada numa poltrona, balançava os pés.
Era noite, de acordo com a
escala de tempo terrena. Mas lá fora, na planície pedregosa, o sol continuava a
brilhar quase com a mesma intensidade de quatro dias antes, quando a Good Hope
pousou junto aos destroços da Greyhound.
Ao que parecia, Thora não
tinha a intenção de voltar a falar no incidente havido com os tripulantes da
nave americana. Com um olhar amistoso disse:
— Acho que já é tempo de
estabelecermos um bom relacionamento.
Rhodan não dissimulou o
espanto.
— É o que vivo dizendo há
muito tempo — respondeu. — Fico satisfeito em saber que resolveu converter-se à
minha opinião. Qual foi a causa da mudança?
— A reflexão.
Rhodan procurou descobrir o
que ela queria dizer. Não acreditava que de um dia para outro compreendera as
idéias que não conseguira assimilar em um ano.
— Está bem. O que vamos
fazer?
— Da minha parte prometo que
não contestarei mais sua posição de comandante desta nave e de outras que ainda
vamos construir — respondeu Thora.
Rhodan confirmou com um aceno
de cabeça.
— Fico-lhe muito grato.
Rhodan falou devagar e
procurou dar um tom simpático à voz. Mas não o conseguiu, porque o espanto era
maior que a simpatia.
— De outro lado — prosseguiu
— dependerei de suas luzes em muitos pontos.
Thora sorriu.
— Não diga isso. Você sabe
tanto quanto qualquer comandante de cruzador arconídico, inclusive eu.
“Onde será que essa mulher
quer chegar com estes elogios?”, pensou Rhodan.
— Iremos a um planeta que
vocês chamam de Vênus, não é?
— Sim, naturalmente —
respondeu Rhodan em tom distraído.
Todas as pessoas que se
encontravam a bordo da Good Hope já sabiam disso antes de deixar a Terra.
— Será possível levarmos de
uma vez tudo que retiramos do cruzador?
— Não. Teremos de fazer três
viagens.
— Isso levará bastante tempo.
Acha que o pessoal que ficou na Terra pode ser deixado só por tanto tempo?
— Por que não? Ras Tshubai é
um elemento digno de toda confiança. Além disso serei avisado se houver algo de
anormal.
Thora continuava a balançar
os pés. Tinha o aspecto de quem procura lembrar-se de alguma coisa que ainda
possa dizer. Não se recordou de nada e levantou-se.
Seguindo os costumes humanos,
estendeu a mão em direção a Rhodan.
— Faço votos de que tenhamos
uma boa colaboração — disse.
Uma porção de idéias se
cruzaram na cabeça de Rhodan. Não sabia o que significava toda essa conversa.
Era a primeira vez em todo aquele tempo que se sentia inseguro.
— Seria formidável se
pudéssemos conversar mais vezes.
— No que depender de mim,
isso será feito — respondeu Thora com um aceno de cabeça.
* * *
Pouco antes da decolagem
Rhodan teve uma palestra com Crest. Provocara-a na esperança de descobrir
alguma coisa sobre os motivos do comportamento de Thora. Mas quando se viu
diante de Crest, não soube como traduzir suas preocupações em palavras.
Mas deixou as idéias à vista,
de modo que Crest pôde lê-las no seu rosto.
— Que tal está o cruzador? —
perguntou Crest por achar que o problema era tão melindroso que seria
preferível não abordá-lo diretamente. — Será que existe alguma possibilidade de
colocar em funcionamento ao menos o núcleo central?
— Está se referindo à nave
espacial?
Crest confirmou com um aceno
de cabeça. Rhodan respondeu prontamente com algumas sacudidelas.
— É impossível. Não sobrou
nenhuma peça do mecanismo propulsor. Conseguimos resgatar as instalações
destinadas à fabricação de robôs. Acho que elas nos serão muito úteis.
— Contando com os robôs
especiais, quanto tempo levaremos para construir na Terra uma nave que
realmente esteja em condições de enfrentar o espaço?
Rhodan deu de ombros.
— Alguns anos.
— Está vendo? — disse Crest.
— Não vejo nada. Crest
sorriu.
— Conheço alguém — disse em
tom matreiro — que apoiou seu orgulho desarrazoado numa última esperança de
encontrar o caminho de volta sem o auxílio de uma desprezível raça
subdesenvolvida. Quando percebeu que essa esperança não se realizaria... bem,
você viu.
Rhodan compreendeu.
— Quer dizer que durante todo
esse tempo ela acreditou que seria possível colocar o cruzador espacial em
condições de navegabilidade?
Crest confirmou com um aceno
de cabeça.
— Ela se agarrou a essa
esperança, mas agora tem de largá-la. Não foi fácil. Acho que está precisando
de algum apoio.
— O caminho está aberto —
respondeu Rhodan laconicamente.
* * *
Rhodan e Bell completaram o
cálculo da trajetória em quinze minutos. Na sua configuração atual, o triângulo
Terra-Sol-Vênus assumia uma posição quase vertical em relação ao Sol. Com isso
os cálculos tornavam-se mais fáceis.
Rhodan e Bell utilizaram uma
das calculadoras eletrônicas existentes a bordo da Good Hope. Ao contrário das
calculadoras terrenas, que no caso exigiriam uma programação complexa e uma
série de operações matemáticas, o aparelho arconídico trabalhava de forma
bastante simples, reduzindo as funções a um mínimo.
O vôo decorreu sem
incidentes. A distância de 180 milhões de quilômetros foi percorrida em três
horas.
Para os três astronautas
americanos tratava-se de um acontecimento que os levou ao limite da sua
capacidade de compreensão. Até Nyssen perdeu o autocontrole; o espanto deixou-o
mudo.
Freyt deu-se conta de como a
técnica dos arcônidas devia ser superior à dos terráqueos para permitir que
suas naves realizassem vôos desse tipo. Subitamente sentiu-se pequenino e
miserável. Indagou de si para si como Rhodan teria vencido esse choque, que sem
dúvida sentira da mesma forma que ele.
Ao iniciar-se a operação de
frenagem, Vênus surgiu sob a forma de uma bola amarela bem na linha de sua
trajetória. De início surgiu apenas um vago tremeluzir na tela, mas dentro de
alguns segundos percebia-se nitidamente o planeta coberto por uma camada de nuvens.
A esfera amarela cresceu para
além das bordas da tela e seu brilho foi diminuindo. A turbulência da atmosfera
de Vênus tornou-se perceptível.
Vênus efetuava um movimento
de rotação a cada 240 horas. O dia desse planeta tinha a duração de dez dias terrenos.
Além disso, ficava trinta por cento mais próximo do centro de nosso sistema
solar que a Terra. Esses dois fatos faziam com que, apesar da atmosfera
protetora, houvesse uma diferença considerável entre a temperatura diurna e
noturna. Essa diferença ocasionava tempestades tão intensas que um furacão dos
Caribes seria como uma pá de brinquedo comparada com um trator.
Mas essas tempestades não
atingiam a Good Hope. Era bem verdade que ela oferecia um bom alvo aos
temporais que, ao penetrarem na atmosfera, atingiam velocidades de até
quinhentos quilômetros por hora; todavia, a energia de que era dotado seu
dispositivo estabilizador bastava para mantê-la na rota.
Bell encarregou-se do
localizador. Por ocasião de sua primeira visita a Vênus, realizada há poucos
meses, Rhodan efetuara um mapeamento rudimentar de toda a superfície do
planeta, fixando as coordenadas a partir de um ponto arbitrariamente escolhido.
O continente equatorial, onde Rhodan pretendia instalar a base, estendia-se dos
dezesseis graus de latitude sul aos vinte e dois graus de latitude norte, e de
zero a cinqüenta e quatro graus de longitude oeste. Sua superfície correspondia
à da América do Sul. A extremidade leste fora batizada de cabo Cabeça de Cão,
por causa de seu formato. A linha de longitude zero passava pela ponta desse
cabo.
O continente ainda não tinha
nome, tal qual os mares que o banhavam. Mas Rhodan fizera um estudo detalhado
de sua subdivisão e decidira instalar a base na costa norte, junto à foz de um
rio de mais de dez quilômetros de largura. O terreno estava coberto por um
matagal impenetrável. Ninguém desejaria montar o acampamento num ponto afastado
da costa.
Os graves acontecimentos que
se desenrolaram na Terra não permitiram que a primeira expedição fizesse um
estudo mais minucioso das formas biológicas existentes no planeta Vênus. Rhodan
e os outros membros do grupo só sabiam que o continente equatorial abrigava
várias espécies gigantescas e primitivas.
Sobre a flora não sabiam
praticamente nada. As folhas eram verdes como as da Terra, e não havia a menor
dúvida de que o ciclo da vida se desenvolvia no mesmo sentido que o do planeta
Terra.
O fator decisivo da escolha
de Vênus como sede da base foi a composição surpreendentemente favorável de sua
atmosfera. Era bastante densa para mitigar os efeitos do Sol, que ficava
bastante próximo, tornando suportável a permanência humana. Durante as duzentas
e quarenta horas do dia reinavam temperaturas que em média atingiam cinqüenta e
cinco graus centígrados. Durante a noite, que tinha a mesma duração, o
termômetro indicava treze graus. A camada de nuvens que sempre cobria o planeta
fazia com que houvesse uma luz crepuscular e um clima de estufa que se mantinha
constante por várias horas.
* * *
— Olhe o cabo Cabeça de Cão!
— anunciou Bell.
A estranha ponta de terra
apresentou-se sob a forma de uma mancha branca sobre o fundo verde reluzente da
tela.
Rhodan estava realizando a
direção manual da Good Hope. Face à reduzida exatidão dos dados consignados no
mapa, o pouso constituía um problema que não poderia ser deixado a cargo da
direção automática.
O cabo Cabeça de Cão deslizou
pela tela do localizador, arrastando atrás de si o continente com o litoral que
se desenvolvia nas direções noroeste e sudoeste. Depois de algum tempo, o cabo
desapareceu por uma das bordas da tela, e os primeiros rios tornaram-se
visíveis no trecho de terra que ficava abaixo da Good Hope.
Rhodan verificou a altitude.
Noventa e um mil metros.
Comparou o quadro que se
desenhava na tela com as linhas de seu mapa. A distância entre o ponto em que
se encontrava a nave e a foz do rio onde seria instalada a base ainda era de
quatro mil quilômetros.
— É o rio das Mil Voltas! —
exclamou Bell.
Escolheram esse nome porque
nos seus meandros intermináveis, o curso d'água descrevia inúmeras curvas e
volteios.
Bell registrava suas
observações a intervalos regulares, pois sua memória era excelente em relação a
mapas e configurações de terrenos.
Freyt, Nyssen e Deringhouse
mantinham um silêncio compenetrado. Crest e Thora, sentados num dos leitos,
observavam as telas. Tako Kakuta entrara em companhia de Anne Sloane; também
pareciam admirados. Rhodan cumprimentou Anne com um gesto amável. Ela quase não
saíra da cabina desde que decolaram da Terra.
Manoli, bastante contrariado
e olhando de vez em quando para a tela do rastreador, ocupava-se com o
equipamento de rádio, que se mantinha em silêncio. Se é que em Vênus existia
alguma forma de vida dotada de inteligência, a mesma ainda não atingira um
estágio que lhe permitisse utilizar a transmissão de mensagens sem fio.
— Aqui — exclamou Bell com a
voz alta e alegre — fica o...
Não pôde prosseguir. Um
tremendo solavanco sacudiu a nave, e o quadro na tela deu um salto para o sul.
As sereias de alarma uivaram.
“É um ataque!”, pensou
Rhodan. “Alguém nos ataca.”
Reagiu instantaneamente.
— Thora. Assuma seu posto de
armas.
— Posto de armas ocupado.
— Conseguiu localizar alguma
coisa?
— A localização não reage.
— Bell!
— Pronto!
— Coloque em posição os
instrumentos externos. Procure descobrir o que é.
— Está bem.
— Thora — gastou o tempo
necessário para voltar e encará-la — desta vez você vai aguardar minhas ordens
antes de atirar.
Thora limitou-se a confirmar
com um aceno de cabeça.
Rhodan pôs toda a potência
nos reatores. Orientou o acelerador de partículas, que produzia as ondas de
matéria. Uma simples manipulação da respectiva chave bastou para regular o
suprimento da massa de apoio.
A Good Hope opunha-se com o
empuxo máximo dos seus reatores à força estranha que a impelia para o norte.
Rhodan olhou fixamente para a tela do rastreador.
Bell anunciou:
— Campo gravitacional
orientado procedente de zero hora três minutos.
— Quero uma localização mais
precisa — disse Rhodan.
Com uma satisfação feroz,
constatou que conseguia manter a nave no mesmo lugar.
Bell calculou com uma pressa
febril. Em palavras apressadas deu a posição:
— Ponto de origem do campo em
29 graus 18 minutos norte, 15 graus 48 minutos leste.
— Thora!
— Tudo preparado.
— Fogo!
Comprimindo um botão, Thora
disparou uma série de foguetes gravitacionais, que no mesmo instante fizeram
sua aparição na tela de orientação de tiro.
No momento da explosão um
foguete gravitacional desencadeava um choque de gravidade que, conforme o grau
de estabilidade do alvo, causava graves danos ou a desagregação total do mesmo.
Uma vez que a energia gravitacional se desenvolvia num espaço de cinco
dimensões, os anteparos capazes de oferecer proteção contra os efeitos dessas
bombas eram extremamente complicados. Thora fazia votos de que o inimigo, fosse
ele quem fosse, não dispusesse desses anteparos.
Na tela de orientação viam-se
os minúsculos pontos deslocarem-se para o norte. No local calculado por Bell,
um pequeno ponto reluzente surgiu na margem da tela rastreadora.
— É um objeto metálico —
constatou Bell.
Os foguetes de Thora
prosseguiam na sua trajetória. Aproximavam-se inexoravelmente do alvo. Na
atmosfera desenvolviam uma velocidade de Mach 10. Dentro de um ou dois minutos
o inimigo deixaria de existir.
Rhodan reduziu a energia do
mecanismo de propulsão da nave; a velocidade aumentou. Ao mesmo tempo dirigiu-a
para baixo. Uma explosão pesada como a que seria desencadeada por aquela série
de foguetes era uma coisa linda e muito breve. Cinco minutos após a explosão
pousariam junto à base inimiga para verificar o que sobrara.
Bell concentrou a atenção
sobre a tela do rastreador, enquanto Rhodan controlava os instrumentos de
controle de viagem várias vezes por minuto. Thora foi a primeira que, através
da imagem da tela de orientação de tiro, tomou conhecimento dos acontecimentos
espantosos que se verificaram com os foguetes por ela disparados.
Toda a formação, constituída
de seis projéteis, que até então desenvolviam trajetórias paralelas e bastante
próximas, orientadas para o norte, descreveu subitamente uma curva para o
leste, aumentou de velocidade e dali a poucos segundos, sob a influência do
inimigo, deslocou-se para fora do campo de alcance da tela de orientação de
tiro.
O susto deixou Thora
paralisada. Demorou tanto em virar-se e soltar um grito abafado que Rhodan
chegou tarde para ver o que havia acontecido com os foguetes.
Thora fez seu relato em
palavras confusas. Rhodan correu de volta para o assento do piloto, pôs toda a
força no mecanismo propulsor e voltou a imobilizar a nave, submetida à ação de
dois campos energéticos opostos.
As idéias cruzavam-se
vertiginosamente em seu cérebro, originando um quadro bastante vago: os Dl!
Era apenas uma suposição, mas
entre todas as hipóteses possíveis era a mais provável e racional. Os Dl
possuíam uma base ainda desconhecida na Lua. Era perfeitamente possível que
também tivessem concebido a idéia de instalar uma base alternativa em Vênus.
Havia uma única contradição
que não sabia explicar. Por que não realizaram um ataque direto contra a Good
Hope? O raio direcional, consistente de um campo gravitacional orientado, era
uma força relativamente suave face aos recursos de que certamente dispunha um
inimigo que sem mais aquela desviava seis foguetes gravitacionais.
Rhodan não se deixou
perturbar pela confusão causada pelas sucessivas hipóteses levantadas por
Thora. Fez o que lhe parecia mais acertado: aos poucos foi conduzindo para
baixo a Good Hope, que com toda a força dos seus mecanismos lutava contra o
raio direcional. De um momento para outro aguardava um ataque mais eficaz da
parte do inimigo desconhecido, mas nada aconteceu. Rhodan procurou compreender
a mentalidade daqueles seres que, ao que tudo indicava, desejavam apoderar-se
da nave inimiga, mas nada faziam para impedir que a mesma se libertasse de sua
influência.
A força tremenda arrastara a
Good Hope além do paralelo quarenta de latitude norte. Já haviam passado pelo
litoral do continente ártico, que se localizava quase exatamente no paralelo
trinta e oito.
Rhodan pôs fim à discussão
que se desenvolvia atrás de suas costas.
— Vamos pousar — anunciou. —
Espero que com isso consigamos nos subtrair à influência estranha.
Provavelmente será mais fácil nos aproximarmos do inimigo pela superfície do
planeta. Não temos outra alternativa. O inimigo é superior a nós, ao menos na
quantidade de energia de que pode dispor; tomara que não o seja também nos
aperfeiçoamentos técnicos. Se estiver no mesmo nível que nós, não terá
possibilidade de localizar-nos depois que tivermos pousado. Naturalmente o
continente ártico deve oferecer muitas possibilidades de ocultar uma nave como
a nossa. Enquanto estivermos dentro do matagal, ou pouco acima dele, seremos
invisíveis. Por outro lado, não podemos nos dar ao luxo de deixar completamente
fora das nossas vistas um inimigo que se encontra em nossa área de atuação.
Assim nada nos resta senão nos arrastarmos pelo matagal.
Bell estava a ponto de
responder. Mas nesse exato instante os acontecimentos tomaram um rumo
completamente novo: o receptor a cargo do Dr. Manoli começou a dar sinal de
vida.
O equipamento funcionava com
base em hiperondas. Isso significava que o inimigo possuía um emissor capaz de
operar nessa faixa. Dali se concluía que sua técnica era bastante desenvolvida.
Do receptor saíram palavras
acusticamente perfeitas, distinguíveis uma das outras. Acontece que ninguém as
entendia, nem mesmo Crest.
— Responda — disse Rhodan,
dirigindo-se a Manoli. — Nossas intenções são pacíficas. Não admitimos qualquer
intromissão em nossa rota.
Manoli fez o que lhe fora
ordenado. Mal terminara, quando a resposta começou a sair do receptor. Rhodan
esperara que conseguisse analisar aquela língua. Mas as palavras continuavam
ininteligíveis.
Afastando Manoli, Rhodan
repetiu a mensagem na língua dos arcônidas. Mais uma vez a resposta veio sob a
forma de uma série de sons incompreensíveis. Teve a impressão de que o
interlocutor desconhecido repetia constantemente as mesmas palavras. O fato de
ser ele mesmo o destinatário da mensagem não o impressionava.
— Crest! — gritou. — Vou
retirar a fita. Coloque-a no tradutor e procure descobrir que língua é essa.
Abriu o registrador de fita
acoplado com o emissor-receptor e cortou a parte da fita que registrara a
mensagem do desconhecido. Crest inseriu-a na tradutora automática.
O estranho desistiu de
transmitir suas mensagens. Com uma certa inquietação Rhodan deu-se conta de que
esse gesto poderia ser o prenúncio de um ataque. Talvez o raio direcional não
passasse de uma forma de orientação da nave inimiga. Talvez só agora, quando
não obtinha resposta satisfatória às suas mensagens, compreendesse que uma nave
estranha se aproximava.
Rhodan fez a Good Hope baixar
o mais rápido possível. A altitude ia diminuindo, e a dez mil metros do solo
também diminuiu subitamente a intensidade do campo gravitacional do inimigo. A
mil metros desapareceu praticamente, e a Good Hope recuperou sua capacidade de
manobrar.
Bell, que reassumira seu
posto, observava o trecho de terreno projetado sobre a tela do rastreador. A
essa altitude também as telas óticas começaram a funcionar. A camada compacta
de nuvens ficara para trás a uma altitude de cerca de cinco quilômetros, e o
terreno acidentado, talvez montanhoso, do continente polar ofereceu-se, nas
telas, à visão dos observadores.
— Montanhas até seiscentos
metros de altura — anunciou Bell.
Rhodan respondeu com um aceno
de cabeça; parecia satisfeito.
— Isso basta para esconder
uma nave de sessenta metros.
Crest, que concluíra o exame
da fita, aproximou-se do assento do piloto. Rhodan afastou-o com um gesto,
antes que começasse a falar.
— Um instante, por favor.
Dentro de cinco minutos minhas mãos estarão livres.
Bell começou a comparar as
imagens projetadas na tela do rastreador e do visor ótico. A nave continuava a
descer.
— Olhe! — exclamou. — Nosso
lugar é ali.
Rhodan levantou os olhos. Na
direção nordeste, ligeiramente fora da trajetória da Good Hope, uma série de
colinas estendia-se pelo terreno, subindo suavemente até o cume da primeira
montanha. A uns dois terços da distância que separava a planície do cume
abria-se uma cratera. Era redonda e seu diâmetro media uns duzentos metros.
Suas bordas desciam para as profundidades das colinas. No lugar em que se
encontravam não era possível determinar a profundidade.
Rhodan respondeu com um aceno
de cabeça e modificou o curso da nave. Passou junto à montanha, seguiu a linha
da cumeeira e parou acima do centro da cratera.
A visibilidade era boa. A Good Hope estava
estacionada a menos de cem metros acima da borda da cratera. A profundidade da
mesma era de cerca de oitenta metros. Rhodan sentiu-se tranqüilizado ao
perceber que as paredes não eram muito íngremes, como as crateras vulcânicas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário