— Não
deixarão de lançar mão de um couraçado — observou Crest com a voz tranqüila. —
Aliás, o senhor desempenhou muito bem seu papel de comandante arcônida.
Lá fora
Chaktor ordenou a um comando ferrônio que Chren-Tork fosse colocado num veículo
de superfície. No dia seguinte retornaria à pequena lua. Todavia, segundo os
planos de Rhodan isso não devia acontecer.
— Vivo
dizendo que o homem é uma criatura admirável. Apenas tem de ser dirigido e
orientado — disse Rhodan com um sorriso cansado. — Dispomos de todos os
talentos e capacidades. Apenas precisamos de tempo para aprimorar nossas
qualidades. É por isso que os tópsidas nunca devem descobrir a Terra. Ao menos
não devem descobri-la antes que a Humanidade amadureça e alcance a união. Em
virtude disso torna-se necessário que esses elementos sejam desalojados do
sistema Vega. A cada instante ocorrem alterações estruturais na contextura do
espaço quadridimensional. Dali se conclui que esses sujeitos ficam vagando
alegremente pelo Universo. Dentro de poucas horas saberemos se nossa atuação
foi bem sucedida.
— Mas se...
— Neste caso
não haverá outra alternativa senão um ataque decisivo — interveio Rhodan em tom
indiferente, interrompendo a exposição de Crest. — É claro que de qualquer
maneira teremos que aparecer. Não temos outra alternativa senão reforçar a
atividade de nossos agentes. Apesar disso a luta não será tão séria como seria
sem as providências que adotamos. Concorda comigo?
Crest
permaneceu calado. Não conseguia acompanhar os planos de Rhodan. Só mesmo os
homens estariam em condições de montar um jogo tão complicado.
Lá fora o
veículo militar ferrônio afastou-se. Nele se encontrava um oficial do
estado-maior tópsida, que a essa altura estava convencido de que o mundo de
Rhodan ficava no sistema solar de Capela, situado a uma distância de apenas
quarenta e cinco anos-luz. Pelo que diziam, Rhodan provinha do quinto planeta.
Os respectivos dados astronáuticos haviam sido cuidadosamente preparados, e a
atuação dos mutantes Marshall, Noir e Ishi Matsu fez com que chegassem às mãos
dos membros do movimento de resistência.
Tudo
dependia da habilidade de Chaktor, que teria de convencer os tópsidas
estacionados nas seis luas do quadragésimo planeta de que valia a pena atacar
imediatamente o pretenso mundo de Rhodan, para eliminar a raiz do perigo com um
golpe de surpresa. Feito isso, poderiam voltar-se contra os ferrônios,
relativamente indefesos.
Será que os
tópsidas eram realmente seres dotados de um raciocínio frio e inflexível,
segundo afirmara Crest? Se fossem, o plano não poderia falhar. Rhodan
lembrara-se de tudo, até dos detalhes mais insignificantes.
Seria muito
mais simples lançar-se ao ataque com o couraçado arcônida. Mas o acaso poderia
pregar-lhes alguma peça. Se a Stardust-III sofresse avarias graves, a existência
da Humanidade forçosamente correria um risco considerável.
Rhodan ainda
não estava em condições de arriscar tudo; por enquanto a Terra não era capaz de
construir naves do tipo da Stardust-III. Havia um lapso de tempo que tinha de
ser superado.
Foi a
conclusão a que chegou Rhodan, um homem que sabia desenvolver um raciocínio
coerente.
Num movimento
quase inconsciente raspou com as unhas a camada de plástico tão cuidadosamente
elaborada que lhe cobria a testa. O Dr. Haggard esforçara-se bastante.
— Teremos de
criar, no âmbito do Exército dos Mutantes, uma divisão de máscaras capaz de
trabalhar em bases científicas — raciocinou em voz alta. — Bell, anote isto. Na
Terra existem peritos de primeira ordem.
Atravessou a
grande sala de comando, deixando os ombros pender para a frente. Os presentes
seguiram-no com a vista sem proferir uma única palavra. Ao chegar à pesada
escotilha blindada olhou para o relógio.
— Ordene as
providências necessárias para colocar a nave em condições de decolar. Pouco
antes do nascer do sol avançaremos para o centro do sistema. Lançaremos mão de
todos os recursos de que dispomos. Capitão Klein!
O homem
esbelto assumiu posição de sentido. Em seu rosto via-se uma expressão de
profundo respeito.
— Sim
senhor!
— Avise o
Thort de Ferrol. Avise-o de que julgo absolutamente necessário a realização de
um vôo de reconhecimento com o poderoso couraçado, já que as medições
estruturais por nós efetuadas fazem suspeitar de que os tópsidas planejam um
ataque de surpresa contra o nono mundo do sistema. As fortalezas ferrônias
devem ser avisadas. Decolaremos exatamente duas horas antes do pôr do sol.
Klein fez
continência sem proferir uma palavra.
— Mais uma
coisa! — Rhodan exibiu seu sorriso constrangedor. Bell já conhecia a expressão
implacável que aqueles olhos claros assumiram naquele instante.
— Pouco
depois do anoitecer Chaktor fugirá num destróier ferrônio. O tópsida estará com
ele. Evidentemente qualquer tentativa de explicar a fuga bem sucedida pecaria
pela falta de lógica.
— Como? —
disse Thora com a voz ofegante. Já não entendia mais nada.
— Não teria
a menor lógica, se este couraçado veloz se encontrasse em Ferrol — explicou
Rhodan em tom suave. — Chaktor não iria longe. Nossa aceleração é milhares de
vezes maior e nosso potencial de combate excede a do destróier em bilhões de
vezes. O comando da frota tópsida jamais acreditaria que Chaktor teria escapado
contra nossa vontade naquela lesma. Nem que levasse uma vantagem de dez horas.
Por isso teremos de justificar o êxito da fuga. Decolamos e desaparecemos no
espaço. Se não estivermos aqui, não poderemos sair em perseguição dos fugitivos.
Bell, decolaremos com uma potência elevada, mesmo que com isso o espaçoporto
dos ferrônios fique reduzido a um montão de ruínas. O prisioneiro tópsida terá
de ouvir perfeitamente que a Stardust-III vai embora. Só assim poderemos ter
certeza de que o grande jogo em que estamos empenhados será bem sucedido.
Os presentes
mantiveram-se em silêncio. Rhodan cumprimentou-os com um aceno de cabeça e
retirou-se.
— Que coisa!
— exclamou Klein. — Nunca teria tido uma idéia dessas.
Reginald
Bell piscou os olhos em direção às luminárias. Seu nariz enrugou-se.
— O cérebro
dele vai se transformando num computador — disse em tom preocupado. — Quase
chego a acreditar que conseguiremos enganar aqueles répteis. Se, conforme está
previsto, Nyssen ainda avisar pelo rádio de que uma gigantesca frota está
avançando em direção ao sistema Vega, o almirante dos tópsidas não se sentirá
muito bem. Se estivesse no lugar dele evacuaria imediatamente aquelas luas, que
afinal não são tão importantes, para lançar um ataque de surpresa contra aquilo
que acredita ser nosso mundo. Os dados falsificados me dariam uma indicação
exata do lugar em que teria de procurar. Aliás; qualquer estrategista do
estado-maior recomendaria aproveitar a oportunidade resultante do fato de estar
o planeta desguarnecido temporariamente de qualquer contingente de naves mais
potentes. É um plano diabólico, mas não deixa de ser arriscado.
— Antes de
mais nada será necessário que captem a mensagem radiofônica de Nyssen — disse
Thora com certa ironia. — Até parece que o senhor acredita que os desígnios
humanos sempre têm de se cumprir, não é?
Bell
distinguiu-a com um olhar significativo.
— A senhora
nunca aprende — suspirou. — Se Rhodan mandasse alguma coisa no seu formidável
império, esses tipos indolentes que são seus concidadãos ficariam bem
admirados. Não demorariam nada em despertar de seus sonhos artísticos.
Thora
retirou-se.
Bell
contemplou-a com um sorriso sarcástico.
VI
Cerca de uma
hora depois do pôr do sol Tako Kakuta, um homem dotado da capacidade formidável
da teleportação individual saltara diretamente para o interior da prisão.
No mesmo
instante o mutante positivo japonês soltou um gemido de pavor. Os homens de
Chaktor agiram conforme fora previsto, mas não se afastaram das instruções
terminantes que mandavam poupar a vida dos guardas inocentes.
O traje
arcônida que envergava dispunha de um campo de deflexão de raios luminosos que
o tornava invisível aos olhos normais. Encontrava-se num canto escondido da
pequena casa de sentinelas situada nas proximidades do espaçoporto, e que só
fora concebida como casa de detenção para prisioneiros em trânsito.
Havia poucas
celas. Uma delas fora destinada ao tópsida. Tako Kakuta viu os guardas
tombarem. Os disparos de impulsos saídos dos super-irradiadores ferrônios eram
de uma luminosidade ofuscante, mas praticamente não causavam qualquer ruído.
Funcionavam em base puramente térmica, segundo o princípio da luz
ultra-reforçada reunida em feixes estreitos, quase sem nenhuma dispersão.
Tako estava
a ponto de gritar, de dar expressão ao horror de que se sentia possuído. Antes
que o fizesse, Chaktor veio correndo pelo corredor estreito. A porta da cela
abriu-se de um golpe. Chren-Tork, muito nervoso, surgiu na abertura. Foi assim
que Tako compreendeu as palavras apressadas trocadas entre o tópsida e o
oficial ferrônio. O tópsida falava o idioma ferrônio muito bem. Essa raça
também dispunha de métodos especiais de aprendizado, que lhes permitiam
adquirir num tempo muito curto o domínio de qualquer língua.
Tako
aproximou-se mais. Ninguém o via, ninguém o ouvia. Nem mesmo Chaktor sabia que
Perry Rhodan confiara a um dos seus mutantes as funções de vigia secreto.
— Faça o que
quiser — disse Chaktor com a voz abafada. — Já deve saber pela TV que somos
contra a permanência dos arcônidas em nosso planeta. Venho por ordem do
movimento de resistência. Se eu o libertar, arrisco minha cabeça.
— O Thort
está informado sobre isso? — perguntou o réptil, falando ponderadamente.
— Não. Será
destituído assim que tivermos firmado um acordo com o comando de sua esquadra
espacial. Não queremos nem os senhores nem os arcônidas por aqui. Abandone
nosso sistema, garanta-nos a celebração de tratados, e os ajudaremos a
conseguir a derrota definitiva de seus inimigos.
— Mas como?
Eu não posso decidir sobre isso.
— Sei
perfeitamente. Ofereço-lhes os dados galactonáuticos sobre a posição do planeta
de onde provêm os arcônidas que pousaram aqui. Não vêm de Árcon, mas de um
mundo colonial que conquistou sua independência sob o comando de Rhodan.
— Então é
por isso que desenvolvem uma atividade tão surpreendente — chiou o tópsida em
tom nervoso. — Isso nos deixou admirados. Em Árcon estão dormindo há muito
tempo. Liberte-me. Garanto-lhe que entraremos em negociações. Dispõe de uma
nave espacial bastante veloz?
— Tenho um
destróier novo. Rhodan decolou antes do pôr do sol em direção ao nono planeta.
Temos de aproveitar a oportunidade, do contrário nunca conseguiremos fugir. O
senhor dispõe de uma oportunidade única. Já soube que a traição de uma mulher
arcônida fez chegar às nossas mãos os dados galactonáuticos? Não estou
mentindo.
— Já soube.
Contaram na prisão. Não fale tanto.
— O senhor
tem de garantir que suas forças se retirarão do nosso sistema — insistiu
Chaktor. — De outra forma não poderei libertá-lo; seria um absurdo.
— Garantimos
— disse o réptil.
Tako Kakuta
deu um sorriso amargo. Tudo aquilo era transparente demais para ser levado a
sério. O tópsida lutava febrilmente pela vida. Naquele instante teria
concordado com qualquer coisa.
— Não pense
em nos lograr. Terá de entrar em acordo conosco, não com o Thort. É muito fraco
e transige demais. Preferimos entrar em acordo com o senhor a permitir que
Rhodan transforme nosso mundo progressivamente numa propriedade sua. Estamos à
mercê desse homem. Os senhores têm de agir imediatamente. Sabemos de fonte
segura que Rhodan colocou em prontidão toda sua frota espacial.
Está se
dirigindo ao nosso sistema. Se não partir imediatamente, seu povo estará
perdido.
Chren-Tork
recebeu a notícia surpreendente sob a forma duma onda de pânico.
— Quero
provas! — gemeu.
— O senhor
as terá. O contrato entre seu povo e o nosso está garantido?
Tako notou
que a arma de Chaktor continuava apontada contra o corpo do tópsida. A conversa
apressada terminou tão de repente como havia começado.
Chaktor nem
olhou para os guardas mortos. Perry Rhodan lhe entregara um projetor mental
arcônida, que lhe teria permitido livrar-se dos homens sem causar-lhes qualquer
dano. Mas ao que tudo indicava houve complicações inesperadas.
Os ferrônios
desapareceram juntamente com o oficial do estado-maior tópsida com a graduação
de tubtor.
Tako
aguardou mais alguns minutos. Depois concentrou-se sobre um ponto externo do
espaçoporto e desmaterializou-se mediante suas inacreditáveis energias
espirituais. Era um tipo de transferência do corpo para outro ponto. Os
arcônidas já sabiam há tempo que as forças parapsicológicas constituem um dos
melhores meios de dominar as unidades energéticas pentadimensionais.
No
espaçoporto o ar cintilou ligeiramente. Tako Kakuta materializou-se junto à
pista de decolagem em que estava estacionado o destróier novinho em folha de
Chaktor.
Também aqui
tudo parecia em ordem. Os guardas haviam sido informados de que Chaktor
decolaria para um rápido vôo de reconhecimento.
Apesar do campo
defletor de luz, Tako tiritou de frio. Nuvens espessas voltavam a se acumular
por cima das montanhas situadas nas proximidades. A tormenta rotineira daquela
hora do dia estava para desabar.
Assim que as
primeiras rajadas de vento varreram as pistas, Chaktor surgiu num carro
deslizador. Alguns instantes depois três ferrônios desapareceram na nave em
forma de ovo. Um deles era muito maior que seus acompanhantes.
O mutante
retirou-se antes que a nave iluminasse os jatos de popa e disparasse para o céu
escuro. Sentiu uma ligeira onda de calor, uma profusão de luz de um enorme
poder ofuscante e um ruído ensurdecedor que terminou numa série de ribombos,
que acabaram sendo suplantados pelas rajadas cada vez mais violentas.
Tako vira o suficiente.
A fuga fora bem sucedida. Com um ligeiro salto de teleportação transportou-se
para o edifício baixo que Perry Rhodan mandara erigir na zona limítrofe da
cúpula protetora. No momento o anteparo energético não existia. Tako
pôde entrar livremente na sala comprida.
Ishi Matsu,
uma telepata extremamente competente do Exército de Mutantes, ergueu os olhos.
Já há tempo captara as vibrações cerebrais de Tako.
— Lá fora
fez muito barulho. Deu tudo certo?
Tako
limitou-se a acenar com a cabeça. Logo sentou diante do aparelho de comunicação
audiovisual que trabalhava a velocidade superior à da luz. O hipercomunicador
arcônida não teria nenhuma dificuldade em atingir o couraçado, estacionado num
ponto longínquo do espaço.
Quando a
tempestade se transformou num furacão e uma chuva fortíssima caiu, Tako começou
a falar.
— Chamo a
Stardust-III. Tako falando. Chamo...
Os robôs de
combate postados junto à porta cuidavam para que as duas pessoas solitárias não
fossem perturbadas. Com exceção da tempestade, tudo continuava em silêncio do
lado de fora. A fuga do tópsida ainda não havia sido notada.
* * *
A mensagem
de Kakuta fora recebida há três horas, tempo de bordo. Os instrumentos
extremamente potentes da Stardust-III chegaram mesmo a localizar o destróier
fugitivo, embora o mesmo se encontrasse a mais de cinqüenta milhões de
quilômetros de distância, no espaço interplanetário de Vega.
Longe do
supergigante, o nono planeta descrevia sua órbita pré-traçada em torno do
gigantesco sol flamejante. O couraçado mantinha-se quase imóvel no negrume do
espaço vazio.
Rhodan sabia
que o novo modelo de destróier dos ferrônios precisava de cerca de vinte e duas
horas tempo de bordo para alcançar a velocidade da luz. As outras naves
ferrônias levavam cerca de cem horas. Nessas condições era impossível que
Chaktor fosse alcançado por qualquer das unidades da frota espacial dos
ferrônios. Nesse ponto não tinha nada a temer.
Apenas
acontecia que o próprio Rhodan ainda não poderia aparecer nas proximidades do
mundo central. A fuga fora descoberta há muito tempo. Segundo Tako Kakuta
avisou pelo hipercomunicador, o Thort estava todo alarmado, procurando se
comunicar com Rhodan pelo rádio. No entanto, os ferrônios não dispunham de
instrumentos que funcionassem a velocidade superior à da luz, e assim também neste
ponto Rhodan podia esquivar-se. Não via nem ouvia nada.
As telas da
gigantesca nave estavam em plena atividade. A tripulação de trezentos homens
encontrava-se de sobreaviso. Só os homens da sala de rádio estavam de
prontidão. Todos os postos estavam ocupados com uma guarnição dobrada.
Aparentando
uma calma inexplicável e enervante, Rhodan se mantinha junto às telas
diagramáticas do sensor estrutural dos arcônidas. Tratava-se de um aparelho de
elevada eficiência, capaz de medir e localizar os inevitáveis abalos
estruturais ocorridos no espaço quadridimensional.
O sensor
havia reagido diversas vezes. Todas as medidas de posição indicavam o
quadragésimo planeta do sistema. Isso significava que os tópsidas continuavam
empenhados em reforçar suas posições. Por certo as naves que chegavam traziam
materiais de abastecimento do sistema tópsida, situado a oitocentos e quinze
anos-luz.
Rhodan
aguardava, cada vez mais impaciente.
Oito horas
depois da fuga de Chaktor os potentes hiperreceptores do couraçado finalmente reagiram.
Os cálculos positrônicos instantâneos revelaram que a transmissão de hiperondas
vinha exatamente do setor espacial em que se localizaria o pretenso sistema
planetário dos arcônidas. O raio direcional provinha do sistema de Capela.
Era ao menos
a conclusão a que se chegava, prolongando-se a linha imaginária que une os sóis
de Vega e Capela. A força com que a mensagem era recebida era justamente a que
resultaria de uma transmissão a plena potência do emissor da nave auxiliar,
realizada num dos planetas do sistema de Capela.
Rhodan
dirigiu-se com passos rígidos ao autômato decodificador. Seu rosto parecia
indiferente.
Ficou parado
atrás do interpretador. O mecanismo positrônico estava decifrando os grupos de
símbolos que acabavam de ser captados. O código escolhido era um dos mais
aperfeiçoados. Acontece que Rhodan sabia perfeitamente que o inimigo já
conhecia as respectivas chaves. Em certa época o código fora usado pela frota
imperial.
—
Decodificação concluída; texto em linguagem comum — soou a voz do locutor
mecânico.
“Almirante de esquadra Nyssen para Sua
Eminência, o Grande Administrador Rhodan. Ordem no 3/1219
recebida. S-7 chegou era perfeitas condições sob o comando de Tsen. Ordenamos
alarma geral em Capela 5. Frota equipada, objetivo conhecido. Coordenadas de
salto calculadas e programadas. Forças disponíveis: vinte e dois couraçados
classe império, trinta e um cruzadores classe árcon, setenta e sete cruzadores
ligeiros, cento e uma unidades menores. Decolo dentro de sete horas tempo
oficial galático. Solicito novas instruções e confirmação presente mensagem.
Assinado Nyssen, almirante de esquadra.”
Foram
exatamente estas as palavras que o autômato berrou para dentro da grande sala.
Rhodan
voltou-se com uma expressão indiferente. Só depois de alguns segundos os outros
descobriram seu sorriso bonachão:
— Então —
disse, esticando as palavras. — Nyssen promoveu-se a almirante, e de mim fez um
eminente grande administrador.
— Nunca vi
tamanha desfaçatez! — gritou Thora fora de si. Seu corpo tremia. — Como se
atreve a usar os títulos honrosos de minha raça para atingir seus objetivos?
Seu bárbaro! Sua coisa subdesenvolvida! Vou...
Calou-se ao
ver que os ombros de Crest tremiam. O grande cientista estava encolhido numa
poltrona, perto de um representante ruivo da raça humana, e ocultava o rosto
nas mãos. Enquanto isso Bell berrava de um jeito pouco condizente com o
respeito que deve ser dispensado ao ministro da segurança da Terceira Potência.
Thora recuou
apavorada. Seus lindos olhos chamejavam. A essa altura já estava ficando para
trás, sua inteligência falhava. E o pior de tudo era que até Crest havia
perdido sua seriedade compenetrada.
— Eu o
odeio! — gritou, rubra de raiva.
O capitão
Klein acompanhou a arcônida, totalmente abatida, quando a mesma se retirou da
sala de rádio.
— Graças a
Deus! — suspirou Rhodan. — Não é uma mulher admirável? Ao menos está sendo
honesta, e é o que mais prezo. Até poderia ser uma mulher do nosso planeta.
Subitamente
Crest ergueu os olhos. Um sorriso matreiro brincou em torno dos lábios daquele
homem idoso.
— Perry,
acho que este foi o maior elogio que o senhor poderia ter feito a uma mulher da
minha raça, não foi?
Os homens
nunca haviam visto seu comandante tão embaraçado como se encontrava naquele
instante. Todos permaneceram em silêncio.
— Esqueça-se
disso — disse Rhodan, que sentia a garganta seca.
Seus olhos
brilhavam. Subitamente voltou-se aos telegrafistas do hipercomunicador.
— Transmitam
a seguinte resposta pelo raio direcional: “Rhodan
ao almirante de esquadra Nyssen. Decole assim que os preparativos estiverem
concluídos. Alarma número um para toda a esquadra. Prepare-se para um ataque
maciço contra unidades tópsidas. Espere-me nas proximidades do trigésimo oitavo
planeta de Vega. Faça a nave mensageira retornar. Assinado Rhodan, Grande
Administrador de Capela 5.”
Alguns
minutos depois a mensagem codificada foi transmitida pelos formidáveis raios
direcionais do couraçado. Era a única coisa que podiam fazer.
— Isto é de
enlouquecer — resmungou Reginald Bell. — Com quantos couraçados Nyssen diz que
vai aparecer por aqui? Com vinte e dois? Escute aí, chefe, para mim...
— Isso não
importa — interrompeu-o Rhodan em tom suave. — A única coisa que importa é que
a mensagem de Nyssen tenha sido captada nas seis luas. Sob o ponto de vista
técnico isso é perfeitamente possível. Com essa distância a dispersão é
suficiente para isso. Nyssen avançou quinhentos anos-luz pelo espaço afora. Uma
vez que os tópsidas conhecem o código, o terreno estará preparado quando
Chaktor chegar lá. E se, acima de tudo, isso ainda apresentar os dados sobre
aquilo que seria nosso mundo, duvido que haveria um comandante de esquadra que
não reagiria favoravelmente. Nós os venceremos, porque seu raciocínio se
desenvolve por linhas estritamente lógicas. É só. Não deve haver mais nenhuma
troca de mensagens pelo rádio. Isso poderia provocar suspeitas. Duas são o
suficiente.
— O que
acontecerá se os tópsidas não tiverem captado e decifrado as mensagens? —
indagou Crest em tom preocupado.
— Captaram e
decifraram, sim! Conhecem a chave do código, mas esse fato poderia não ter
chegado ao nosso conhecimento. Portanto, não há nisso qualquer motivo para
desconfiança. E o raciocínio deve dizer-lhes que nunca poderíamos ter vindo do
cansado planeta de Árcon. Os habitantes do mesmo já não têm ânimo para se
lançar a uma empresa deste tipo. Se o almirante dos tópsidas for inteligente,
desocupará a área o quanto antes. Sabe perfeitamente que nem sequer está em
condições de enfrentar nossa Stardust-III. E o que se dirá quando surgir toda
uma frota de naves deste tipo? Bell!
O baixote
sobressaltou-se. Já conhecia esse tom de voz.
— Dentro de
cerca de dez horas, tempo de bordo, partiremos de volta para o planeta Ferrol.
Chegando lá, ouviremos o relato da fuga de Chaktor, e sairemos imediatamente em
sua perseguição. Antes que chegue ao quadragésimo planeta, nós estaremos lá.
Suas manobras de aceleração e desaceleração levam quarenta horas. Nós fazemos
tudo isso em vinte minutos. Crest, queira acompanhar-me à sala de cálculo. Quero
saber quando Chaktor poderá chegar com seu destróier. Não seria nada mau se
chegássemos um pouco antes.
— Pretende
realizar o hipersalto? Rhodan refletiu ligeiramente.
— É
preferível não fazê-lo. Faremos uma perseguição normal aproximadamente à
velocidade da luz. Dessa forma Chaktor se manterá na nossa dianteira. Só
poderemos compensar a desvantagem com nossa manobra de desaceleração, que é
muito mais rápida. Com isso passaremos por ele sem vê-lo. Bell, prepare os
homens para algumas horas bem difíceis. É só.
Rhodan
retirou-se da sala de rádio. Mais uma vez acompanharam-no com os olhos sem
dizer uma palavra.
— Se este homem
não conseguir unir a Humanidade, ninguém mais o conseguirá — constatou o Dr.
Haggard laconicamente. — Venha comigo, Manoli. Bem que eu sabia que toda essa
história não se desenrolaria sem algumas medidas “pacíficas”.
— De
qualquer maneira...
— Sim, eu
sei — interrompeu-o o grande pesquisador médico, que havia descoberto o soro
antileucêmico. — O custo teria sido muito maior se não tivesse arriscado este
jogo. É uma idéia maluca, inconcebível.
O homem
corpulento sacudiu a cabeça e foi caminhando em direção à escotilha blindada.
VII
Ferrol, o
oitavo mundo do sistema Vega e o planeta principal da raça intelectual ali
radicada, levara menos de vinte e quatro horas de tempo terreno para colocar no
espaço todas as unidades de sua frota.
Tratava-se
de uma quantidade enorme daquelas naves em forma de ovo, que haviam falhado tão
miseravelmente por ocasião do primeiro ataque dos tópsidas.
Não dispunham
de cúpulas protetoras energéticas. O armamento era extremamente pobre, pois não
possuíam canhões de radiação dotados de impulsos que funcionavam à velocidade
da luz. Poucas eram as unidades equipadas com armas térmicas arcônidas.
Além disso,
as naves ferrônias eram muito lentas e a sua flexibilidade era tão reduzida que
não permitia as manobras que se tornavam necessárias durante os combates. Quase
noventa e nove por cento das unidades disponíveis precisavam de cem horas de
tempo terreno para atingir a velocidade da luz. Isso resultava da densidade
reduzida dos impulsos utilizados. Tais desvantagens não eram compensadas pela
qualidade excelente dos mecanismos propulsores.
Para o Thort
de Ferrol a fuga de Chren-Tork era a maior catástrofe da história. Quando
Rhodan partiu para o espaço na Stardust-III, uma série de implacáveis
atividades policiais e investigações secretas tivera início em Ferrol e no
mundo colonial vizinho, Rofus.
A verdadeira
oposição lançara mão de meios criminosos para derrubar o governo legítimo
dirigido pelo Thort.
Rhodan não
assistira a esses acontecimentos. Além disso, não achara aconselhável que
naquele momento o Thort já fosse informado sobre as funções de duplo agente
exercidas por Chaktor. Aliás, isso pouco tinha a ver com o verdadeiro movimento
de resistência.
A frota
ferrônia encontrava-se no espaço, formada em profundidade. Isso representava
uma cobertura insignificante e tecnicamente deficiente para um único couraçado arcônida
que, à plena potência dos seus mecanismos propulsores, atingia a velocidade da
luz em apenas dez minutos.
Face à
enorme extensão do sistema Vega, o quadragésimo planeta ficava a uma distância
média de cerca de quarenta e oito bilhões de quilômetros do sol. Em queda livre
e a 99,5% da velocidade da luz a Stardust-III levaria cerca de 48,8 h de tempo standard,
incluídas as manobras de aceleração e desaceleração, para atingir o
quadragésimo mundo.
Com a
transição para o mundo do supercontínuo pentadimensional isso teria sido
questão de poucos segundos. Face aos aspectos do planejamento global, Rhodan
teve de abster-se desse procedimento. Teria sido sobremaneira arriscado
aproximar-se das seis luas numa única nave espacial. Ninguém sabia quantas
unidades tópsidas se encontravam por lá.
Pela
natureza das coisas a frota dos seres não-humanos não teria a menor chance
contra o supergigante arcônida. Só mesmo uma coincidência tola poderia
ocasionar um impacto efetivo. Uma coincidência tola ou então uma ironia do
destino.
Rhodan
lembrava-se de tudo. Não excluía a possibilidade de que os tópsidas se tivessem
apoderado de outras naves espaciais arcônidas. Afinal, por algum tempo tiveram
a Stardust-III em seu poder.
Essas
reflexões foram o motivo principal da ampla manobra diversionista. Ainda
acontecia que a tripulação era suficiente para guarnecer o supercouraçado, mas
não possibilitaria o emprego simultâneo das oito naves auxiliares.
Os trezentos
tripulantes bem treinados eram suficientes apenas para manobrar o couraçado. As
grandes naves auxiliares teriam de permanecer nos hangares. Quando muito seria
possível realizar uma ação rápida com um grupo de caças espaciais, mas os
respectivos tripulantes fariam falta nas operações da nave.
Tratava-se
de problemas reais, que não podiam ser solucionados apressadamente.
* * *
Num espaço
de pouco mais de quarenta e oito horas o gigante esférico avançara para além da
órbita do trigésimo nono planeta. Nas telas de posicionamento o quadragésimo
planeta já aparecia sob a forma dum ponto luminoso.
A
interpretação matemática da fuga de Chaktor já fora realizada. O cérebro
positrônico de bordo apurara todos os dados. Neste ponto não haveria qualquer
falha.
Segundo
esses dados, já deviam ter passado pelo destróier de Chaktor, embora este
contasse com uma vantagem de quase vinte e quatro horas. Enquanto a
Stardust-III ainda se deslocava a uma velocidade próxima à da luz, Chaktor já
devia ter iniciado as manobras de desaceleração há 20,3 h.
Segundo a
interpretação matemática, isso significava que sua mensagem radiofônica,
dirigida ao comandante da frota tópsida, devia ter sido captado cerca de
quarenta e quatro horas antes de sua chegada.
Essas
quarenta e quatro horas representavam a diferença entre o tempo de aceleração e
desaceleração e a mensagem que percorria o espaço à velocidade da luz. Também
este fato fora considerado a bordo da Stardust-III.
A nave
auxiliar S-7, comandada pelo major Nyssen, retornara a Ferrol pouco antes da
decolagem do couraçado. Nyssen tivera que forçar ao extremo as máquinas da
pequena nave. De qualquer maneira, as duas transições realizadas a plena
potência foram coroadas de êxito. A resposta de Rhodan, transmitida pelo
hipercomunicador, havia sido captada corretamente a bordo da S-7. Apesar disso
a ordem para a decolagem imediata da frota de Capela também devia ter sido
captada nas seis luas do quadragésimo planeta.
Era uma
situação desesperada, cheia de incógnitas. A equação cambaleante exigia solução
imediata. Os tópsidas tinham de ser desalojados do sistema Vega; de outra
forma, mais dia menos dia, localizariam a Terra.
* * *
Há uma hora
de tempo de bordo, Perry Rhodan encontrava-se num dos postos de combate. Diante
dele reluziam as telas da sondagem ótica de trezentos e sessenta graus. Além
disso, havia as telas da localização energética e dos rastreadores de
velocidade superior à da luz.
Os
instrumentos já forneciam um desenho nítido do planeta que crescia
vertiginosamente. Bem atrás da nave a estrela gigante de Vega pendia no negrume
do Universo, reduzida a uma bola luminosa aparentemente inofensiva.
Só os
instrumentos ultra-sensíveis conseguiam distinguir o quadragésimo planeta dos
inúmeros pontos luminosos que se viam no céu. A Via Láctea incluía bilhões de
sóis. Muitos deles se encontravam no campo de visão. Naquele torvelinho havia
um mundo que não possuía luminosidade própria. Era o planeta número quarenta,
um gigante de gases gélidos, que recebia pouquíssimo calor do distante sol de
Vega.
— A
desaceleração será iniciada dentro de oito segundos — soou a voz metálica vinda
dos alto-falantes do autômato direcional.
Rhodan
levantou os olhos. Havia uma abundância perturbadora de instrumentos e
aparelhos de controle. Todavia, Rhodan poderia comandar as unidades mais
importantes da nave a partir do seu assento de piloto de espaldar alto. Perto
dele Reginald Bell descansava no assento do co-piloto.
O capitão
Klein fora incumbido do comando da central de combate. A central de máquinas já
avisara que tudo estava preparado. A central energética estava pronta para a
direção manual. As armas haviam sido colocadas em posição de tiro.
A superfície
lisa da parte exterior da esfera estava coberta com numerosas protuberâncias.
Não havia ninguém nas torres de armas. A direção de fogo inteiramente
automatizada comandava tudo. O capitão Klein sabia que dispunha de um poder que
nenhum homem jamais tivera em mãos. Os instrumentos de comando eram de
dimensões minúsculas. Poderiam parecer ridículos. Mas um botão comprimido
poderia significar bilhões de mortes. As naves da classe império representavam
verdadeiros monstros criados pelos arcônidas. Eram capazes de destruir mundos
inteiros. Com seu auxílio fora levantado o Grande Império.
Decorridos
exatamente oito segundos, um ruído ensurdecedor encheu a Stardust-III. As
unidades energéticas números um e dois entraram em funcionamento com todos os
circuitos de força. Um instante depois luzes intermitentes davam conta da
ereção do necessário campo de compressão e absorção.
Rhodan
comandava a nave com movimentos de mão que revelavam uma segurança fantástica.
Na tela gigante que ficava diante dele brilhava o setor do espaço situado
diante da nave.
—
Localização ao comandante — soou uma voz saída de um alto-falante. — Naves
estranhas no vermelho 32 graus, vertical verde 18,5 graus. Exatamente sessenta
e duas unidades, formação densa. Velocidade segundo cálculo positrônico 2: 118 km/seg.
Fim.
Rhodan não
se perturbou. Parecia não notar a testa suarenta de Bell.
Os
mecanismos propulsores começaram a urrar na protuberância circular da nave arcônida.
Reações nucleares extremamente complexas foram controladas pelo mecanismo
automático com uma precisão tamanha que a força de empuxo dos vários mecanismos
propulsores atingiu uma sincronização perfeita. Não houve o menor desvio, não
se percebeu a mais ligeira sacudidela da nave.
Ninguém
sentiu a força da inércia que teria de se manifestar a uma desaceleração de
quinhentos quilômetros por segundo quadrado. Os campos de absorção mantiveram
as relações de peso em exatamente l g. Era o valor da gravidade normal da
Terra.
Torrentes
cintilantes de luz precipitaram-se no espaço. As partículas expelidas
deslocavam-se à velocidade da luz, mas a velocidade da nave reduzia-se a cada
segundo que passava.
Notou-se um
fenômeno estranho. Quando a Stardust-III ainda se deslocava a uma velocidade
próxima à da luz, parecia que os feixes de impulsos ficavam grudados nos bocais
dos jatos energéticos. À medida que a velocidade se reduzia, a luminosidade
ofuscante ia tomando a dianteira da nave. Por fim empalideceram no espaço.
Depois de um
longo vôo quase totalmente silencioso, a Stardust-III transformara-se num
montão de máquinas uivantes.
Os
rapidíssimos movimentos de comando de Rhodan desencadeavam verdadeiras reações
em cadeia. Bastava comprimir um botão para que dispositivos semi-automáticos
cuidadosamente programados despertassem, desdobrando um impulso singular em
milhares de comandos mais detalhados.
Um número
cada vez maior de reatores despertava para a vida. Era a primeira vez que os
homens se encontravam a bordo de um couraçado espacial em plena ação.
Numa atitude
devota, prestavam atenção aos ruídos ensurdecedores.
Novos
anúncios de localização foram transmitidos pelos alto-falantes.
— Estamos
correndo para o meio deles — disse Bell pelo radiocomunicador. Era o único meio
de contato possível em meio a esse barulho infernal. Todos os homens usavam os
capacetes com os microtransmissores e receptores. Os oficiais ainda possuíam um
microcomunicador visual.
— Eles
também já perceberam isso — respondeu Rhodan. — Quero ver se têm respeito por
nós. Capitão Klein, aguarde permissão para abrir fogo. Localização, descobriu o
destróier de Chaktor?
— Bem atrás
de nós uma nave solitária se encontra no espaço. O desempenho energético indica
que a propulsão é realizada por um mecanismo de quanta.
— São eles.
Vamos atravessar a linha. Quando Chaktor chegar, deveremos estar muito
ocupados. Os tópsidas farão questão de escoltá-lo.
Um gemido
soou no alto-falante do capacete. Logo a voz de Crest fez-se ouvir.
— Não
arrisque demais, Perry. Quem lhe garante que a mensagem em que Chaktor comunica
a fuga foi interpretada da forma prevista?
— É o
instinto, meu amigo, o faro. Os homens têm isso. Nas seis luas já estão
informados sobre o pretenso ataque de minha esquadra estacionada em Capela. Se
não me engano muito, a posição perdida ainda é mantida porque fazem questão de
levar Chaktor e o tópsida que acaba de fugir. Para conseguir isso, o comandante
da esquadra tópsida lança mão da maior parte das unidades de que dispõe. Klein,
dentro de três minutos será transmitida a permissão para abrir fogo. Ali nos
encontraremos a uma distância de apenas dez segundos-luz. Crest, será que a
densidade de eficácia das nossas armas de radiação tem este alcance?
— O senhor
não sabe de nada! — soou a voz de Thora, que vibrava numa excitação entremeada
de orgulho. — Está brincando com um instrumento de poderio de que não entende
coisa alguma.
— A senhora
vai ver uma coisa — prometeu Rhodan com a voz resmunguenta.
Seu rosto
estava transformado numa máscara inexpressiva. Os olhos estavam grudados na
tela que tinha diante de si.
As ligeiras
ordens transmitidas pelo rádio cessaram. Só as máquinas titânicas continuaram a
emitir seu rugido.
A
Stardust-III já estava envolta na cúpula protetora pentadimensional. As
unidades energéticas normais-universais não representavam nenhum perigo para a
nave. Em virtude de sua estrutura, essa arma defensiva absorvia ou refletia
qualquer força de nível inferior, quer se tratasse de corpos materiais estáveis
ou de reações nucleares que desencadeavam um calor solar. E a nave ainda oferecia
outras surpresas.
A cúpula
penetrava quase cem quilômetros no espaço. As naves tópsidas também puderam ser
identificadas oticamente na tela frontal. Sua velocidade era bem inferior à da
luz. Por isso a luminosidade dos mecanismos propulsores era visível rápida e
perfeitamente.
Desenvolvendo
ainda metade da velocidade da luz, o couraçado aproximou-se vertiginosamente
das naves inimigas dispostas em forma de cunha defensiva. Desta vez as coisas
ficariam sérias. Todos sabiam.
A
aproximação foi rápida; tão rápida que seria impossível desviar-se. A única
coisa era romper a formação.
— Os répteis
estão seguindo uma tática errada — disse alguém. — Se estivesse no lugar deles,
já teria parado, feito meia-volta e partido na direção oposta. Só verão em nós
uma sombra que passará num instante.
— Quem foi
que disse isso? — soou a voz retumbante de Rhodan nos alto-falantes dos
capacetes.
— O major
Deringhouse.
— Mesmo que
tivesse razão, deveria ter calado a boca. Está pronto?
— Pronto
para a ejeção. Desta vez já conheço a confusão. Fui atacado nesta mesma área
juntamente com Rous e Calvermann. É aqui que começa o setor de decolagem dos
tópsidas.
Tudo levou
apenas alguns segundos. Foi tão rápido, óbvio e fatal que só lhes restava
esperar e, se necessário, gritar.
A velocidade
da Stardust-III ainda era de oitenta mil quilômetros por segundo. Com os jatos
chamejantes a nave precipitou-se em direção à frota tópsida, atingiu-a e rompeu
suas formações.
Isso não
durou mais de um segundo. A positrônica de tiro de Klein reagira dois segundos
antes que atingissem as linhas inimigas. Com os dez dedos comprimiu os botões
que emitiam um brilho fosco.
Rhodan ouviu
Bell gritar. Ao rugido terrível das torres que disparavam misturou-se tamanho
uivo e chiado que até parecia que o Universo estava acabando.
Os sentidos
mal conseguiram captar o objeto que surgiu de sopetão. Foi muito rápido. Só
perceberam que um cruzador tópsida penetrou em sentido exatamente oposto no
campo de defesa estrutural da Stardust-III.
Juntamente
com o uivo estridente percebeu-se uma nuvem energética violenta que ofuscava os
olhos bem diante da nave. A mesma não conseguiu romper o anteparo. Foi atirada
para fora da trajetória, deslocada com uma força tremenda e parcialmente
neutralizada.
Do cruzador
tópsida não se via mais nada. Só o compartimento blindado do setor exterior da
nave ressoou como um enorme sino.
Bem atrás da
Stardust-III duas nuvens incandescentes pendiam no espaço. Ainda mais ao longe
via-se o que Klein havia feito com seus dedos tão débeis.
Dezessete pequenos
sóis haviam surgido no espaço. As nuvens de gases em expansão eram a única
coisa que sobrava das naves atingidas. Se não fossem elas, ninguém teria dado
pela destruição das naves.
A
Stardust-III havia rompido a linha densa das formações inimigas.
— Oh, não! —
gemeu o capitão Klein. Estava com uma expressão de perplexidade no olhar. Não
conseguiu proferir mais que este “oh, não”.
— O que é
que o senhor pensava? — gritou Thora pelo rádio. Tinha o rosto desfigurado. —
Acreditava que os técnicos de minha raça teriam montado uns esguichos de água
nesta nave? Sabe lá com o que está lidando?
— Preparar
ataque — soou a voz retumbante de Rhodan. — Klein, ligue o mecanismo de bombas
gravitacionais. O objetivo é a terceira lua. Lá não existe vida; está desabitada.
Só há uma estação tópsida de rastreamento espacial. Dispare quando a nave se
encontrar em posição oposta à da lua. Aproximar-nos-emos a três segundos-luz.
O
quadragésimo planeta começou a brilhar diante da nave que ainda desenvolvia
velocidade bastante elevada. Já aparecia com o tamanho de uma abóbora. Rhodan
iniciara a manobra de aceleração no último instante, para atacar com a maior
velocidade possível. Das naves tópsidas não se via mais nada.
Dali a pouco
o quadragésimo mundo de Vega encheu toda a tela frontal. Percebiam-se quatro
das seis luas. A de número três, que era o menor dos satélites, estava
emergindo da sombra do planeta.
Os
rastreadores de pontaria, manejados por Klein, estavam em pleno funcionamento.
Um ligeiro sinal de luz indicava que a nave se encontrava em posição de fogo. O
tiro não poderia deixar de atingir o alvo.
Klein
esperou mais alguns segundos. Logo a pequena lua assumiu uma posição firme na
tela redonda do mecanismo automático de comando de tiro. Mais uma vez moveu um
dos dedos. Apenas um, e este comprimiu um minúsculo botão.
Das torres
de armamentos da região polar da nave desprenderam-se duas figuras em espiral
que emitiam uma luminosidade pálida, e nada tinha em comum com aquilo que nós
entendemos por bomba.
Deslocavam-se
à velocidade da luz e não eram constituídas de matéria. Nem pertenciam ao
universo normal, pois situavam-se num plano energético mais elevado.
Antes que o
couraçado, que naquela altura desenvolvia velocidade inferior à da luz,
passasse pela lua, esta se desfez em meio a uma luminosidade imensa.
Não entrou
em incandescência, nem explodiu. Simplesmente desapareceu de sua trajetória,
como se nunca tivesse existido.
As duas
bombas gravitacionais dissolveram a matéria e, seguindo uma lei peremptória da
hipermatemática, lançaram-na ao hiperespaço. Era a arma mais potente da
Stardust-III e representava o estágio mais avançado da evolução da ciência arcônida.
A menos de
cinco milhões de quilômetros além da trajetória do planeta a nave espacial
imobilizou-se.
A manobra de
desaceleração consumira dez minutos. E nesses dez minutos aconteceram coisas
que deixaram atônito o próprio Crest.
—
Esperaremos aqui — disse Rhodan com a voz ofegante, como se tivesse realizado
um enorme esforço físico. — Mesmo que os tópsidas sejam desumanos, malvados e
não sei mais o quê, uma coisa destas eu não faço mais uma vez. Ficaremos à
espera numa velocidade muito reduzida; pouco importa o que pensem a respeito.
Devemos aguardar o pouso de Chaktor. Klein, só atire se formos atacados.
Entendido?
— Nem tenha
dúvida — respondeu Klein com a voz entrecortada. — Santo Deus, se não pudesse
justificar-me perante minha consciência com o fato de termos sido atacados, não
sei se conseguiria ficar sentado mais um segundo nesta cadeira.
— Comunicado
da divisão de logística — disse a voz de Thora. — Nossa espera passiva tem
fundamento lógico. Desde que o comandante dos tópsidas esteja informado sobre a
anunciada chegada de nossa frota, ele compreenderá o motivo de nossa
inatividade. Considerará a destruição da lua desabitada uma simples
demonstração de força. Motivo fundamental: esperamos a chegada de nossa frota.
Portanto, não teríamos motivo de assumir qualquer risco antes disso.
Rhodan deu
uma risadinha. A mesma não passava de uma horrível contorção dos lábios,
expressão de um enorme nervosismo.
Nem mesmo
Perry Rhodan contara com tamanha eficácia do armamento da nave. E já se
acostumara a pensar em termos de superlativo. Acontece que a realidade os
transformara numa insignificância.
Poucos
instantes depois a Stardust-III reiniciou seu movimento, que em caso de
necessidade poderia ser acelerado mediante o emprego da potência máxima dos
propulsores. Não se via qualquer nave tópsida. Só junto ao planeta distante o
localizador energético constatou a existência de forças maciças.
— Muita
coisa acontecerá nas cinco luas que restaram — disse Bell com a voz áspera. — A
relação de forças foi gravemente afetada. Mesmo que a lua número três tenha
sido muito pequena, sua destruição causará fortes tremores de terra. Alguns dias
se passarão até que tudo volte a se ajeitar.
— É
justamente nisso que ponho minha esperança — cochichou Rhodan. — Santo Deus,
por que não vão embora? Por que me obrigam a pôr em ação este couraçado? Deviam
desaparecer, reconhecendo que contra uma nave espacial como esta não existe
defesa eficaz.
— O senhor
se esquece da mentalidade tópsida — respondeu Crest com a voz baixa. —
Admirar-se-ão do senhor não realizar uma série ininterrupta de ataques, pois
sabe perfeitamente que nada lhe pode acontecer. Nem tenha dúvida, conheço essas
inteligências.
— Seja como
for, não voltarei a atacar — disse Rhodan em tom firme, comprimindo os lábios.
— Deringhouse e Nyssen, seus caças estão prontos para entrar em ação? Os
mutantes encontram-se a bordo?
— Tudo
preparado — surgiu a voz de Nyssen no intercomunicador.
— Obrigado!
Tako e Ras Tshubai, não deixem de tirar Chaktor da armadilha em que se meteu. O
fogo da Stardust-III lhes dará cobertura até que chegue o momento de saltar.
Seus radiogoniômetros estão em ordem? Sem eles nunca os encontraremos.
Tudo havia
sido verificado. Quatro homens solitários sentados nas cabinas de dois
minúsculos caças espaciais aguardavam o momento do engajamento final. Desta vez
a palavra estaria com eles, os inconcebíveis.
VIII
Vira com os
próprios olhos o monstro chamejante, quando este cuspia seu fogo mortal. Dali
em diante Chaktor sabia perfeitamente de que lado devia se manter.
Quando seu
destróier, que se deslocava com velocidade cada vez menor, passou pelo local do
desastre, teve de empenhar toda sua habilidade de comandante para escapar às
nuvens de gases incandescentes. Após isso assistira à destruição do astro
desabitado.
Aguardaram-no
com o que restava da frota e, unidos numa falange cuidadosamente fechada,
acompanharam-no até a sexta lua do planeta, que era o maior satélite do gigante
de gases gélidos.
A ação
desenvolvera-se numa pressa excessiva. A troca de mensagens radiofônicas entre
o oficial tópsida Chren-Tork, recém-libertado, e o comando da esquadra assumira
formas febris nos últimos momentos que precederam o pouso.
Os répteis
estavam empenhados em transformar a lua numa fortaleza. Os trabalhos estavam no
início, tudo era muito primitivo. Chaktor notou perfeitamente que o posto
avançado dos tópsidas ainda era bastante vulnerável. As unidades geradoras de
energia ainda não estavam funcionando. O suprimento era realizado
provisoriamente pelos geradores das naves espaciais.
Não se via
mais nenhuma nave cargueira. As que tinham vindo já deviam ter sido mandadas de
volta.
Chaktor e o
outro membro do movimento de resistência ferrônio foram literalmente arrancados
da pequena nave. Mal lhes deram tempo para colocar os trajes espaciais.
Ao ver-se
separado de seu companheiro de forma tão inesperada e violenta, Chaktor
percebeu que sua vida pendia por um fio. Antes que desaparecesse no túnel e a
comporta de ar se fechasse atrás dele, ainda ouviu os gritos do outro homem.
Viu-se numa
grande sala sextavada em que havia numerosos aparelhos de comando. Um cheiro
acre e opressivo enchia o ar, demasiadamente pobre em oxigênio para os pulmões
de Chaktor, que respirava com dificuldade. Ao ver os vultos que deslizavam ao
seu lado, sentiu-se tomado de pânico.
Era claro
que não sabia distinguir aquelas criaturas inumanas. Só os uniformes davam alguma
indicação da identidade de cada uma delas. O silvo estridente do campo de
ultra-som maltratou seus ouvidos. Mais adiante Chren-Tork falava a outro
tópsida. Chaktor viu que se tratava de Crek-Orn, almirante e chefe da esquadra
invasora tópsida.
Em conformidade
com as regras de disciplina extremamente rígidas, Crek-Orn tinha poder de vida
e morte sobre seus subordinados. Não havia nada que pudesse ser contraposto a
uma ordem sua. Só o ditador distante ficava acima dele.
— Pare! —
soou a voz estridente de um guarda armado.
Chaktor
ficou imóvel diante do formato estranho das mesas de comando. Sabia que tinha
no bolso a pequena cápsula com a fita magnética que continha a programação.
Nela se encontravam os dados referentes ao sistema de Capela.
Dedos finos
e duros como aço cravaram-se em seus braços. Mal conseguia se mover.
Seguravam-no inexoravelmente. Faltava-lhes tudo aquilo que caracteriza os
homens ou os seres quase-humanos. Seu pensamento era condicionado
exclusivamente pelos objetivos. Não conheciam o menor traço humano, que sempre
depende de uma certa dose de sentimento. Para Chaktor apenas eram cruéis. Eles
mesmos se julgavam apenas inteligentes. Era uma diferença.
Quando se
ouviu o rugido e o chão começou a oscilar, saltaram dos seus assentos baixos. Ordens
foram proferidas pela boca do almirante. Os abalos foram diminuindo, até que o
próximo tremor teve início. Chaktor desconfiava de que aquilo tinha alguma
ligação com a destruição da terceira lua.
Continuou
esperando. Os sinais estridentes de alarma começaram a soar. Lá fora as naves
espaciais dispararam para o vazio, que começava no vácuo reinante ao nível do
solo. Chaktor riu para
dentro. Sentiu-se muito mais aliviado ao ver o tópsida que se aproximava. Não
havia a menor dúvida de que a gigantesca Stardust-III se aproximava.
— Os dados.
Estão com o senhor? — chiou a voz de Chren-Tork.
— Exijo um
contrato escrito. Antes disso não posso revelar...
Foi atirado
ao solo. Dedos duros e flexíveis estraçalharam seu uniforme. Poucos segundos
depois o almirante segurava o rolo de fita. Alguns oficiais levaram-na às
pressas. Mais uma vez Chaktor teve vontade de rir. Sem dúvida os dados seriam
submetidos a um teste eletrônico.
Depois foi
arrastado para junto do comandante. Chaktor viu os olhos frios e fulgurantes do
réptil. Chren-Tork funcionou como intérprete.
— O que pode
informar sobre a próxima chegada de uma frota arcônida vinda do sistema que
costuma designar como Capela?
— Rhodan
enviou um mensageiro — gemeu Chaktor, machucado pelos dedos dos guardas.
— Diga a
verdade. Seu subordinado está sendo interrogado. Seu cérebro morrerá, mas
contará tudo. Eu o previno.
O rosto de
Chaktor contorceu-se.
— Estou
dizendo a verdade. O mensageiro saiu numa pequena nave esférica. Soube da
mulher que me entregou os dados retirados do banco de memória da nave espacial.
Ela foi morta. Rhodan aguarda a frota. O Thort foi informado.
Seguiram-se
discussões acaloradas entre os oficiais do estado-maior. Crek-Orn, que era
responsável pela frota, tomou sua decisão de um instante para outro.
— Isso
confirma a mensagem que conseguimos decifrar — ponderou o oficial
recém-libertado em atitude respeitosa. — Dali se conclui que o mundo desse
Rhodan ficará desguarnecido de naves de maior porte. Peço licença para
assinalar que...
Crek-Orn fez
sinal para que se calasse. As normas inflexíveis da lógica revelavam-lhe que
não conseguiria manter as seis luas.
Novas
mensagens continuaram a chegar. A Stardust-III passou em velocidade vertiginosa
pela órbita do quadragésimo planeta, mas não atacou.
— Estão
aguardando. A chegada da frota deve estar iminente.
— Qual foi o
depoimento do outro ser primitivo?
O comandante
lançou um olhar para Chaktor. Poucos minutos depois obteve a informação. Um
oficial entrou e disse laconicamente:
— O cérebro
do outro ferrônio continha os dados que já conhecemos. Rhodan aguarda reforços.
Trata-se de couraçados pesados da classe império e de cruzadores da classe
árcon.
Só mais
tarde Chaktor soube que seu companheiro já estava morto. Ninguém deu atenção
aos seus protestos violentos pela falta de conclusão do acordo que lhe fora
prometido. Foi arrastado para fora da sala e introduzido numa nave espacial
através duma comporta situada ao nível do solo. Não viu mais os responsáveis.
* * *
Com o silvo
estridente dos trilhos de ejeção era inevitável que surgissem alguns g de
força gravitacional. Era impossível ativar o campo de absorção no interior da
comporta.
Os
minúsculos caças dispararam espaço afora. Seus mecanismos propulsores
despertaram subitamente.
Ao lado
deles a massa imensa da Stardust-III deslizava pelo negrume do espaço. Era um
vulto fantasmagórico, um signo do poder.
O major
Deringhouse conhecia todos os detalhes da situação. O grande planeta ficava em
posição lateral e “inferior”. A sexta
lua surgia diante dos bicos dos caças.
Deringhouse
e Nyssen engatilharam os canhões de impulso. Só a cobertura do couraçado
proporcionava alguma possibilidade de êxito à missão que lhes fora confiada.
Atrás de
Deringhouse o mutante Tako Kakuta estava agachado num assento provisório. Alguns
instrumentos não totalmente indispensáveis tiveram de ser retirados para
conseguir mais um lugar naquele caça de um homem.
Mais à
esquerda a máquina de Nyssen corria pelo espaço por entre as luas. Praticamente
só era reconhecível pela luminosidade brilhante desprendida pelo mecanismo
propulsor. Sem eles os pequeninos caças não passariam de sombras quase
imperceptíveis. Eram minúsculos, mas muito velozes.
Os contornos
do couraçado desenharam-se nas telas do caça tripulado por Nyssen. Rhodan, que,
face à velocidade reduzida da nave, conseguira descrever uma curva rápida,
também se deslocava em direção à sexta lua. Dessa forma dava cobertura aos
caças e desviava a atenção das estações rastreadoras.
—
Preparem-se — ouviu-se a voz de Deringhouse no radiofone. — Kakuta e Tchubai,
atenção: o salto será executado precisamente dentro de sessenta e dois
segundos. Terão de vencer uma distância de cerca de trinta e dois mil
quilômetros. Não poderemos aproximar-nos mais. Acham que conseguirão?
A pergunta
se justificava, pois não fora possível determinar antecipadamente a distância
que teria de ser vencida.
— Santo
Deus, trinta e dois mil quilômetros! — gemeu o africano. — Isso consumirá uma
força tremenda. Ainda terei de levar o equipamento. Mas darei um jeito.
— OK — disse
o japonês laconicamente. — Ainda bem que passamos pelo treinamento rigoroso em Vênus.
Atualmente minha capacidade-limite é de cinqüenta mil quilômetros. Mas terei de
transportar dois trajes especiais. Aproximem-se o mais que puderem. Está bem?
Deringhouse
limitou-se a acenar com a cabeça.
Aceleraram
para o máximo de quinhentos quilômetros por segundo ao quadrado. Assim que a
sexta lua surgiu na tela frontal, foi crescendo rapidamente.
—
Localização — soou a voz nos alto-falantes de capacete. Era Rhodan. — Cuidado.
Estão enviando naves para o espaço. Não entrem em suas linhas de tiro. Darei a
volta. Boa sorte.
A
Stardust-III mudou de rumo. Descreveu uma curva de alguns milhões de
quilômetros. O gigante passou rente à sexta lua. Enquanto isso dois objetos
minúsculos desceram em direção ao astro que tinha as dimensões do Mercúrio do
sistema solar.
Deringhouse
sabia que um único impacto poderia pô-lo fora de combate. O suor porejou em sua
testa. O dispositivo automático de refrigeração de seu capacete começou a
funcionar.
— Aguardem
mais um pouco! — berrou Deringhouse no microfone de capacete. — Só estão de
olho na Stardust. Atenção, Ras e Tako: assim que eu avisar, saltem ao mesmo
tempo.
Ras Tshubai
já ligara o micro-reator de seu traje de combate arcônida.
Viu o rosto
de Kakuta na tela que se estendia diante do piloto. O japonês também estava
preparado. Os dois homens começaram a se concentrar.
— É perto da
grande cúpula avermelhada — transmitiu Tako. — Identificou o objetivo, Ras?
Mais alguns
segundos se passaram. Deringhouse forçou a ponta do caça para baixo. No
chamejar dos jatos viu as fortalezas que se aproximavam vertiginosamente. Perto
dele — perigosamente perto — a máquina de Nyssen disparou em direção à
superfície da lua.
Já se
encontravam muito mais perto do que previam. Ainda não estavam atirando contra
eles. A cerca de cinco mil quilômetros da superfície, Nyssen apontou o polegar
para baixo. O bramido dos canhões de impulso rigidamente montados nas máquinas
superou o uivo do mecanismo propulsor. Deringhouse também atirou.
Duas
trajetórias luminosas desenharam-se sobre a superfície lunar. Aproximaram-se
das fortalezas numa velocidade tresloucada, atingiram-nas e trouxeram consigo a
morte e a destruição. Naves explodiam, massas de metal derretido subiam para o
vácuo. Finalmente tudo aquilo passou.
— Saltem! —
gritou Deringhouse.
No mesmo
instante forçou o nariz do caça para cima. Atrás dele a lua ia caindo no
espaço.
Quando olhou
para trás, Tako Kakuta havia desaparecido. Parecia que o assento de emergência
sempre estivera vazio.
— Meu
companheiro já desapareceu — soou a voz nervosa de Nyssen. — Tudo em ordem?
— Tudo em
ordem. Chegaram bem. Mas vou tratar de dar o fora. Lá embaixo o pessoal já está
acordando.
Para a
defesa tópsida era tarde. Quando a fortaleza ainda intacta abriu fogo, os dois
caças já se haviam transformado em minúsculos pontos luminosos que corriam
atrás da Stardust-III, que voltara à sua posição do outro lado do planeta.
* * *
O
funcionamento do micro-reator de Ras Tshubai era inteiramente silencioso. O
minitransformador também não produzia o menor ruído. O campo defletor de raios
luminosos tornava-o invisível também aos olhos de um tópsida. Tudo não passava
de um truque. Desde que se encontrava a bordo da nave capitania dos tópsidas,
desligara a poderosa capa protetora destinada à manutenção da pressão exterior.
O ar era respirável.
Há cinco
horas o almirantado tópsida estava reunido na nave. Não havia dúvida de que
estavam sendo tomados os últimos preparativos para a decolagem. As ordens
expedidas acumulavam-se. As chaves de comando eram estranhas e perturbadoras.
Ras Tshubai teve que desistir do plano de modificar a regulagem automática da
nave capitania para provocar um hipersalto incontrolável.
Além disso,
não conseguia aproximar-se do gigantesco computador. Em compensação fizera
alguma coisa que se encontrava no âmbito das suas possibilidades.
Há algumas
horas Crek-Orn, o comandante tópsida, encontrava-se sob os efeitos de um
projetor mental arcônida. Sugeriram-lhe que se lançasse imediatamente, fossem
quais fossem as circunstâncias, ao ataque do sistema de Capela, onde supunha
situar-se o mundo de Rhodan. Empenhando todas as forças disponíveis naquela
operação.
Ras também
cuidara para que o comandante da invasão seguisse estritamente os dados que lhe
haviam sido fornecidos por Chaktor. Com isso fizera o que estava ao seu alcance
para compensar a desregulagem do dispositivo automático que não pudera ser
levada a efeito.
Ras só tinha
que cuidar para não ser descoberto por acaso. Era um trabalho complicado, mas
não colocava sua vida em perigo. Poderia abandonar o local a qualquer momento.
Uma parede não representaria o menor obstáculo.
Há pouco
menos de uma hora o mutante soubera que o comandante da esquadra ordenara a
programação das coordenadas de salto. Os autômatos de regulagem estavam
trabalhando em todas as naves tópsidas, que se encontravam prontas para
decolar. Os dados fundamentais foram transmitidos pelo cérebro eletrônico da
nave capitania. Ras Tshubai não compreendia por que Crest fizera tanta questão
de que justamente essa operação fosse acompanhada atentamente. Também Rhodan se
admirara ligeiramente com o desejo do cientista arcônida, mas não formulara
qualquer objeção. Por isso o teleportador continuou a observar. As horas
passavam. Aos poucos a missão transformava-se num verdadeiro martírio.
Depois de se
terem materializado exatamente no ponto combinado, Tako Kakuta desapareceu
imediatamente. Sob seu traje espacial trazia outro exemplar da mesma espécie. O
japonês estava incumbido de encontrar o ferrônio Chaktor e ajudá-lo a escapar
são e salvo.
Até então
Ras não recebera nenhuma notícia de seu companheiro. A nave capitania dos
tópsidas tinha cerca de quatrocentos metros de comprimento. Não seria fácil
encontrar Chaktor. Ainda acontecia que nem sabiam se o ferrônio se encontrava a
bordo. Podia estar preso ou ter sido morto em outro lugar.
Tako Kakuta
procurava desesperadamente. Há horas vagava pelos corredores e procurava ouvir
qualquer sinal do pequeno receptor que bem antes da missão fora ajustado para
as vibrações cerebrais de Chaktor.
Se um dos
telepatas tivesse penetrado na nave tópsida, tudo estaria resolvido dentro de
dez minutos. Acontece que só os dois teleportadores conseguiram alcançar a
sexta lua. E eles não possuíam dons telepáticos. Tako bem que gostaria que John
Marshall estivesse por ali.
No seu
ouvido direito havia uma maravilha da micromecânica ferrônia. Fora fácil alojar
o receptor e o transmissor. O perigo de algum contato não desejado crescia de
minuto para minuto.
Tako parou
ofegante. O pequeno instrumento preso ao pulso esquerdo reagira ligeiramente,
mas voltara a perder o contato.
— Está
ouvindo, Tako? — foi como um sopro no seu micro-receptor. — É Ras. Está na
hora. Decolarão dentro de dez minutos. Já o encontrou?
— Tive que
me desviar — cochichou Tako. — Tudo em ordem com você?
— Tudo
perfeito. Ainda estou mantendo o homem sob o projetor mental. Estou
transmitindo a idéia de que a frota de Capela deve chegar de um instante para outro.
Acha que a idéia é dele. Está furioso, exigindo a maior pressa. Não quer ser
destruído na lua. Estou aguardando. Continue a procurar.
Tako voltou
a avançar no corredor que se esvaziara. Depois de dar alguns passos o
instrumento voltou a reagir. Isso significava que Tako se encontrava muito
próximo. O alcance do micro-rastreador não ultrapassava dez metros.
O mutante
continuou a avançar, cada vez mais cauteloso. Não viu nenhuma sentinela. Em
compensação o corredor se estreitava. Numerosas portas abriam-se para a direita
e para a esquerda.
Tako parou
diante de uma delas. Foi aqui que o instrumento reagiu com maior intensidade. O
chiado suave poderia tornar-se perigoso. Por isso desligou o rastreador de
ondas. Bateu cautelosamente contra o metal frio: três batidas breves, duas
longas, três breves.
Chaktor
saltou fora de si. O sinal combinado voltou a soar. Respondeu, invertendo a
ordem, das batidas. Já sabia que um dos mutantes de Rhodan se encontrava do
lado de fora.
Tako agiu
com pressa e reflexão. Sabia que não adiantaria procurar o mecanismo da
fechadura, motivo por que a arrancou com o desintegrador. A porta abriu-se.
Não falaram
muito. Enquanto Chaktor ficou de sentinela, com a arma na mão, Tako tirou seu
traje espacial. Por baixo dele trazia um equipamento exatamente igual.
— Coloque
isso, rápido. O senhor sabe como deve fazer — cochichou apressadamente. —
Depressa, não temos muito tempo. Há sentinelas por aí?
— Ninguém
preocupou-se comigo. Tem alguma coisa para beber?
— Pegue o
aparelho de sucção do refrigerador. Há um litro de um líquido. É só. Mais
depressa, ali vem gente.
Chaktor
trabalhava à luz de uma pequena lâmpada. Se fosse descoberto a essa hora,
estaria perdido. Lá fora alguns corpos esguios passaram deslizando. Antes que
Chaktor terminasse e Tako pudesse controlar o ajustamento do traje, o rugido
tremendo começou a soar.
— Estão
decolando. Que situação maldita! — surgiu uma voz alta demais nos receptores de
Tako. — Já estão prontos?
— Iremos até
a sala de comando. Espere-nos — respondeu Tako esgotado. — Tenho de
recuperar-me. Eles têm um campo de absorção de pressão?
—
Naturalmente. Também não querem ser feitos em pedaços. Espero por vocês.
Poucos
minutos depois estavam a caminho.
Quando
encontraram uma oportunidade favorável, a frota tópsida já havia mergulhado no
espaço. Entraram na sala de comando, passando pela escotilha que se abriu
automaticamente. Encontraram Ras Tshubai no ponto combinado.
Não podiam
se ver, apenas sentir-se. Mantendo-se bem próximos uns aos outros, podiam
conversar em voz baixa.
— Não falem
muito — disse Ras, que já não mantinha o projetor mental dirigido contra o
almirante. — Chaktor, o senhor sabe manejar esse traje? Se cometer qualquer
engano, estará perdido.
— Sei —
disse a voz trêmula do ferrônio. — O que pretende fazer? Não se esqueça de que
não sou tão forte como os senhores.
— Bem atrás
de nós há uma escotilha de emergência. Já investiguei. O corredor que se abre
atrás dela leva a um hangar de botes salva-vidas. Vamos cortar a parede externa
com o desintegrador e deixaremos que o ar nos leve para o espaço.
Sem maiores
dificuldades atingiram o compartimento com os pequenos botes salva-vidas.
Quando a escotilha interna se fechou atrás deles, estavam praticamente seguros.
Enquanto isso a velocidade das naves tópsidas ia crescendo a cada segundo que
passava. Dentro de menos de três horas atingiriam a velocidade da luz. Depois
iniciariam a transição espacial.
Viram diante
de si a parede externa da nave. Numa cabina aberta, três tópsidas estavam
sentados juntos aos quadros de comando. Prestavam atenção às instruções vindas
pelo alto-falante.
— Não posso
fazer nada por eles — disse Ras Tshubai com a voz abafada. — Estão prontos?
Seu
desintegrador, que desagregava qualquer estrutura, começou a funcionar a plena
potência. A parede começou a brilhar, tornou-se transparente e subitamente
desapareceu.
Chaktor
ainda chegou a ouvir os gritos estridentes dos tópsidas que se encontravam de
sentinela. Logo foi agarrado pela sucção explosiva do ar que escapava pela
abertura. Foi atirado para o espaço com tamanha violência que gritou para dar
vazão ao pavor.
Dali a
alguns segundos tudo havia passado. A nave capitania fora reduzida a um ponto
brilhante seguido por inúmeros pontos menores que corriam pelo espaço
interestelar. Já haviam saído do sistema planetário Vega.
Três homens
indefesos vagavam pelo espaço. Só podiam contar com seus potentes emissores.
Naturalmente
não sentiam que se deslocavam espaço afora a uma velocidade imensa. Conservavam
a velocidade que a nave desenvolvia no momento em que dela foram expelidos. O
ajustamento preciso de uma grande nave a essa velocidade devia constituir um
problema matemático. Mas Rhodan conseguiria resolvê-lo. Ras não tinha a menor
dúvida.
* * *
“Atenção. Transição será realizada exatamente
dentro de 10,2375726 segundos”, soou o aviso do autômato.
Perry Rhodan
manteve-se encurvado diante da tela de localização ótica. Haviam alcançado a
velocidade da luz, tal qual a frota fugitiva dos tópsidas.
— Se der o
salto agora, estará seguindo a programação resultante dos cálculos por mim
realizados — disse Crest. Seu rosto estava indiferente. Nos seus olhos havia
uma dureza descomunal. Rhodan começou a estranhar. Lançou um olhar perscrutador
para o cientista.
— Só lhe
pedi que conferisse os dados elaborados por mim e os gravasse em fita. Acho...
Rhodan não
concluiu a frase. O salto dos tópsidas foi realizado com a exatidão de uma
fração de segundo. O ribombar tremendo da cúpula energética até causava
problemas a uma nave como a Stardust-III.
Quando a
situação voltou ao normal, mais de trezentas unidades da frota tópsida haviam
desaparecido sem deixar o menor vestígio.
Rhodan olhou
para o relógio.
— Dentro de
poucos segundos chegarão ao sistema de Capela. Sua programação foi excelente.
Estamos livres deles. Resta saber o que farão naquele sistema deserto.
Naturalmente logo perceberão que caíram num logro.
Crest
afastou-se devagar.
— Não
voltarão! E não saberão como conseguimos afastá-los. Uma vez que se guiaram
exatamente pelos meus dados, saltarão do hiperespaço para o núcleo do sol de
Capela. Sinto muito, Perry! Sou um arcônida e represento o Grande Império.
Apenas cumpri o meu dever. O senhor não tem nenhuma responsabilidade por isso.
Saiu. Rhodan
parou estupefato. Thora acompanhou o homem de sua raça. Havia um certo mistério
em seus olhos, quando disse com a voz arrastada:
— Meus
antepassados sempre agiram assim, Perry. Não acredite que conseguirá criar um
império estelar apenas com belas palavras. Ninguém o conseguiu, ninguém o
consegue e o senhor também não conseguirá. Cuidarei de Chaktor, que está
exausto.
Rhodan
lançou um olhar para Bell.
— Ainda
teremos de aprender alguma coisa — disse o Dr. Haggard depois de um instante. —
Em princípio ela tem razão.
— Sou um ser
humano e nunca deixarei de sê-lo, doutor — disse Rhodan com a voz grave. —
Esperemos, Só por meio da inteligência tornou-se possível a retirada dos
tópsidas sem qualquer derramamento de sangue. No futuro poderemos agir da mesma
forma. Bell, vamos voltar ao sistema.
O homem
esbelto retirou-se. Apenas seus ombros estavam ligeiramente encurvados. Pensava
na gigantesca estrela chamejante de Capela, e numa frota imensa que atingira o
objetivo com uma exatidão excessiva.
* * *
* *
*
Falsificando os dados de transição espacial, Crest, o arcônida,
conseguiu levar a frota tópsida à destruição. Com isso Perry Rhodan pôde
empenhar-se novamente na busca do planeta da vida eterna.
Acontece que os desconhecidos que possuem o segredo da vida eterna
fazem exigências enormes a todos aqueles que partem em busca do mesmo. Colocaram
a Charada Galáctica no caminho de Rhodan...
CHARADA GALÁCTICA é o título do próximo volume da coleção Perry
Rhodan.

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