sábado, 20 de outubro de 2012

P-013 - A Fortaleza das Seis Luas - K. H. Scheer [parte 3]


— Não deixarão de lançar mão de um couraçado — observou Crest com a voz tranqüila. — Aliás, o senhor desempenhou muito bem seu papel de comandante arcônida.
Lá fora Chaktor ordenou a um comando ferrônio que Chren-Tork fosse colocado num veículo de superfície. No dia seguinte retornaria à pequena lua. Todavia, segundo os planos de Rhodan isso não devia acontecer.
— Vivo dizendo que o homem é uma criatura admirável. Apenas tem de ser dirigido e orientado — disse Rhodan com um sorriso cansado. — Dispomos de todos os talentos e capacidades. Apenas precisamos de tempo para aprimorar nossas qualidades. É por isso que os tópsidas nunca devem descobrir a Terra. Ao menos não devem descobri-la antes que a Humanidade amadureça e alcance a união. Em virtude disso torna-se necessário que esses elementos sejam desalojados do sistema Vega. A cada instante ocorrem alterações estruturais na contextura do espaço quadridimensional. Dali se conclui que esses sujeitos ficam vagando alegremente pelo Universo. Dentro de poucas horas saberemos se nossa atuação foi bem sucedida.
— Mas se...
— Neste caso não haverá outra alternativa senão um ataque decisivo — interveio Rhodan em tom indiferente, interrompendo a exposição de Crest. — É claro que de qualquer maneira teremos que aparecer. Não temos outra alternativa senão reforçar a atividade de nossos agentes. Apesar disso a luta não será tão séria como seria sem as providências que adotamos. Concorda comigo?
Crest permaneceu calado. Não conseguia acompanhar os planos de Rhodan. Só mesmo os homens estariam em condições de montar um jogo tão complicado.
Lá fora o veículo militar ferrônio afastou-se. Nele se encontrava um oficial do estado-maior tópsida, que a essa altura estava convencido de que o mundo de Rhodan ficava no sistema solar de Capela, situado a uma distância de apenas quarenta e cinco anos-luz. Pelo que diziam, Rhodan provinha do quinto planeta. Os respectivos dados astronáuticos haviam sido cuidadosamente preparados, e a atuação dos mutantes Marshall, Noir e Ishi Matsu fez com que chegassem às mãos dos membros do movimento de resistência.
Tudo dependia da habilidade de Chaktor, que teria de convencer os tópsidas estacionados nas seis luas do quadragésimo planeta de que valia a pena atacar imediatamente o pretenso mundo de Rhodan, para eliminar a raiz do perigo com um golpe de surpresa. Feito isso, poderiam voltar-se contra os ferrônios, relativamente indefesos.
Será que os tópsidas eram realmente seres dotados de um raciocínio frio e inflexível, segundo afirmara Crest? Se fossem, o plano não poderia falhar. Rhodan lembrara-se de tudo, até dos detalhes mais insignificantes.
Seria muito mais simples lançar-se ao ataque com o couraçado arcônida. Mas o acaso poderia pregar-lhes alguma peça. Se a Stardust-III sofresse avarias graves, a existência da Humanidade forçosamente correria um risco considerável.
Rhodan ainda não estava em condições de arriscar tudo; por enquanto a Terra não era capaz de construir naves do tipo da Stardust-III. Havia um lapso de tempo que tinha de ser superado.
Foi a conclusão a que chegou Rhodan, um homem que sabia desenvolver um raciocínio coerente.
Num movimento quase inconsciente raspou com as unhas a camada de plástico tão cuidadosamente elaborada que lhe cobria a testa. O Dr. Haggard esforçara-se bastante.
— Teremos de criar, no âmbito do Exército dos Mutantes, uma divisão de máscaras capaz de trabalhar em bases científicas — raciocinou em voz alta. — Bell, anote isto. Na Terra existem peritos de primeira ordem.
Atravessou a grande sala de comando, deixando os ombros pender para a frente. Os presentes seguiram-no com a vista sem proferir uma única palavra. Ao chegar à pesada escotilha blindada olhou para o relógio.
— Ordene as providências necessárias para colocar a nave em condições de decolar. Pouco antes do nascer do sol avançaremos para o centro do sistema. Lançaremos mão de todos os recursos de que dispomos. Capitão Klein!
O homem esbelto assumiu posição de sentido. Em seu rosto via-se uma expressão de profundo respeito.
— Sim senhor!
— Avise o Thort de Ferrol. Avise-o de que julgo absolutamente necessário a realização de um vôo de reconhecimento com o poderoso couraçado, já que as medições estruturais por nós efetuadas fazem suspeitar de que os tópsidas planejam um ataque de surpresa contra o nono mundo do sistema. As fortalezas ferrônias devem ser avisadas. Decolaremos exatamente duas horas antes do pôr do sol.
Klein fez continência sem proferir uma palavra.
— Mais uma coisa! — Rhodan exibiu seu sorriso constrangedor. Bell já conhecia a expressão implacável que aqueles olhos claros assumiram naquele instante.
— Pouco depois do anoitecer Chaktor fugirá num destróier ferrônio. O tópsida estará com ele. Evidentemente qualquer tentativa de explicar a fuga bem sucedida pecaria pela falta de lógica.
— Como? — disse Thora com a voz ofegante. Já não entendia mais nada.
— Não teria a menor lógica, se este couraçado veloz se encontrasse em Ferrol — explicou Rhodan em tom suave. — Chaktor não iria longe. Nossa aceleração é milhares de vezes maior e nosso potencial de combate excede a do destróier em bilhões de vezes. O comando da frota tópsida jamais acreditaria que Chaktor teria escapado contra nossa vontade naquela lesma. Nem que levasse uma vantagem de dez horas. Por isso teremos de justificar o êxito da fuga. Decolamos e desaparecemos no espaço. Se não estivermos aqui, não poderemos sair em perseguição dos fugitivos. Bell, decolaremos com uma potência elevada, mesmo que com isso o espaçoporto dos ferrônios fique reduzido a um montão de ruínas. O prisioneiro tópsida terá de ouvir perfeitamente que a Stardust-III vai embora. Só assim poderemos ter certeza de que o grande jogo em que estamos empenhados será bem sucedido.
Os presentes mantiveram-se em silêncio. Rhodan cumprimentou-os com um aceno de cabeça e retirou-se.
— Que coisa! — exclamou Klein. — Nunca teria tido uma idéia dessas.
Reginald Bell piscou os olhos em direção às luminárias. Seu nariz enrugou-se.
— O cérebro dele vai se transformando num computador — disse em tom preocupado. — Quase chego a acreditar que conseguiremos enganar aqueles répteis. Se, conforme está previsto, Nyssen ainda avisar pelo rádio de que uma gigantesca frota está avançando em direção ao sistema Vega, o almirante dos tópsidas não se sentirá muito bem. Se estivesse no lugar dele evacuaria imediatamente aquelas luas, que afinal não são tão importantes, para lançar um ataque de surpresa contra aquilo que acredita ser nosso mundo. Os dados falsificados me dariam uma indicação exata do lugar em que teria de procurar. Aliás; qualquer estrategista do estado-maior recomendaria aproveitar a oportunidade resultante do fato de estar o planeta desguarnecido temporariamente de qualquer contingente de naves mais potentes. É um plano diabólico, mas não deixa de ser arriscado.
— Antes de mais nada será necessário que captem a mensagem radiofônica de Nyssen — disse Thora com certa ironia. — Até parece que o senhor acredita que os desígnios humanos sempre têm de se cumprir, não é?
Bell distinguiu-a com um olhar significativo.
— A senhora nunca aprende — suspirou. — Se Rhodan mandasse alguma coisa no seu formidável império, esses tipos indolentes que são seus concidadãos ficariam bem admirados. Não demorariam nada em despertar de seus sonhos artísticos.
Thora retirou-se.
Bell contemplou-a com um sorriso sarcástico.

VI



Cerca de uma hora depois do pôr do sol Tako Kakuta, um homem dotado da capacidade formidável da teleportação individual saltara diretamente para o interior da prisão.
No mesmo instante o mutante positivo japonês soltou um gemido de pavor. Os homens de Chaktor agiram conforme fora previsto, mas não se afastaram das instruções terminantes que mandavam poupar a vida dos guardas inocentes.
O traje arcônida que envergava dispunha de um campo de deflexão de raios luminosos que o tornava invisível aos olhos normais. Encontrava-se num canto escondido da pequena casa de sentinelas situada nas proximidades do espaçoporto, e que só fora concebida como casa de detenção para prisioneiros em trânsito.
Havia poucas celas. Uma delas fora destinada ao tópsida. Tako Kakuta viu os guardas tombarem. Os disparos de impulsos saídos dos super-irradiadores ferrônios eram de uma luminosidade ofuscante, mas praticamente não causavam qualquer ruído. Funcionavam em base puramente térmica, segundo o princípio da luz ultra-reforçada reunida em feixes estreitos, quase sem nenhuma dispersão.
Tako estava a ponto de gritar, de dar expressão ao horror de que se sentia possuído. Antes que o fizesse, Chaktor veio correndo pelo corredor estreito. A porta da cela abriu-se de um golpe. Chren-Tork, muito nervoso, surgiu na abertura. Foi assim que Tako compreendeu as palavras apressadas trocadas entre o tópsida e o oficial ferrônio. O tópsida falava o idioma ferrônio muito bem. Essa raça também dispunha de métodos especiais de aprendizado, que lhes permitiam adquirir num tempo muito curto o domínio de qualquer língua.
Tako aproximou-se mais. Ninguém o via, ninguém o ouvia. Nem mesmo Chaktor sabia que Perry Rhodan confiara a um dos seus mutantes as funções de vigia secreto.
— Faça o que quiser — disse Chaktor com a voz abafada. — Já deve saber pela TV que somos contra a permanência dos arcônidas em nosso planeta. Venho por ordem do movimento de resistência. Se eu o libertar, arrisco minha cabeça.
— O Thort está informado sobre isso? — perguntou o réptil, falando ponderadamente.
— Não. Será destituído assim que tivermos firmado um acordo com o comando de sua esquadra espacial. Não queremos nem os senhores nem os arcônidas por aqui. Abandone nosso sistema, garanta-nos a celebração de tratados, e os ajudaremos a conseguir a derrota definitiva de seus inimigos.
— Mas como? Eu não posso decidir sobre isso.
— Sei perfeitamente. Ofereço-lhes os dados galactonáuticos sobre a posição do planeta de onde provêm os arcônidas que pousaram aqui. Não vêm de Árcon, mas de um mundo colonial que conquistou sua independência sob o comando de Rhodan.
— Então é por isso que desenvolvem uma atividade tão surpreendente — chiou o tópsida em tom nervoso. — Isso nos deixou admirados. Em Árcon estão dormindo há muito tempo. Liberte-me. Garanto-lhe que entraremos em negociações. Dispõe de uma nave espacial bastante veloz?
— Tenho um destróier novo. Rhodan decolou antes do pôr do sol em direção ao nono planeta. Temos de aproveitar a oportunidade, do contrário nunca conseguiremos fugir. O senhor dispõe de uma oportunidade única. Já soube que a traição de uma mulher arcônida fez chegar às nossas mãos os dados galactonáuticos? Não estou mentindo.
— Já soube. Contaram na prisão. Não fale tanto.
— O senhor tem de garantir que suas forças se retirarão do nosso sistema — insistiu Chaktor. — De outra forma não poderei libertá-lo; seria um absurdo.
— Garantimos — disse o réptil.
Tako Kakuta deu um sorriso amargo. Tudo aquilo era transparente demais para ser levado a sério. O tópsida lutava febrilmente pela vida. Naquele instante teria concordado com qualquer coisa.
— Não pense em nos lograr. Terá de entrar em acordo conosco, não com o Thort. É muito fraco e transige demais. Preferimos entrar em acordo com o senhor a permitir que Rhodan transforme nosso mundo progressivamente numa propriedade sua. Estamos à mercê desse homem. Os senhores têm de agir imediatamente. Sabemos de fonte segura que Rhodan colocou em prontidão toda sua frota espacial.
Está se dirigindo ao nosso sistema. Se não partir imediatamente, seu povo estará perdido.
Chren-Tork recebeu a notícia surpreendente sob a forma duma onda de pânico.
— Quero provas! — gemeu.
— O senhor as terá. O contrato entre seu povo e o nosso está garantido?
Tako notou que a arma de Chaktor continuava apontada contra o corpo do tópsida. A conversa apressada terminou tão de repente como havia começado.
Chaktor nem olhou para os guardas mortos. Perry Rhodan lhe entregara um projetor mental arcônida, que lhe teria permitido livrar-se dos homens sem causar-lhes qualquer dano. Mas ao que tudo indicava houve complicações inesperadas.
Os ferrônios desapareceram juntamente com o oficial do estado-maior tópsida com a graduação de tubtor.
Tako aguardou mais alguns minutos. Depois concentrou-se sobre um ponto externo do espaçoporto e desmaterializou-se mediante suas inacreditáveis energias espirituais. Era um tipo de transferência do corpo para outro ponto. Os arcônidas já sabiam há tempo que as forças parapsicológicas constituem um dos melhores meios de dominar as unidades energéticas pentadimensionais.
No espaçoporto o ar cintilou ligeiramente. Tako Kakuta materializou-se junto à pista de decolagem em que estava estacionado o destróier novinho em folha de Chaktor.
Também aqui tudo parecia em ordem. Os guardas haviam sido informados de que Chaktor decolaria para um rápido vôo de reconhecimento.
Apesar do campo defletor de luz, Tako tiritou de frio. Nuvens espessas voltavam a se acumular por cima das montanhas situadas nas proximidades. A tormenta rotineira daquela hora do dia estava para desabar.
Assim que as primeiras rajadas de vento varreram as pistas, Chaktor surgiu num carro deslizador. Alguns instantes depois três ferrônios desapareceram na nave em forma de ovo. Um deles era muito maior que seus acompanhantes.
O mutante retirou-se antes que a nave iluminasse os jatos de popa e disparasse para o céu escuro. Sentiu uma ligeira onda de calor, uma profusão de luz de um enorme poder ofuscante e um ruído ensurdecedor que terminou numa série de ribombos, que acabaram sendo suplantados pelas rajadas cada vez mais violentas.
Tako vira o suficiente. A fuga fora bem sucedida. Com um ligeiro salto de teleportação transportou-se para o edifício baixo que Perry Rhodan mandara erigir na zona limítrofe da cúpula protetora. No momento o anteparo energético não existia. Tako pôde entrar livremente na sala comprida.
Ishi Matsu, uma telepata extremamente competente do Exército de Mutantes, ergueu os olhos. Já há tempo captara as vibrações cerebrais de Tako.
— Lá fora fez muito barulho. Deu tudo certo?
Tako limitou-se a acenar com a cabeça. Logo sentou diante do aparelho de comunicação audiovisual que trabalhava a velocidade superior à da luz. O hipercomunicador arcônida não teria nenhuma dificuldade em atingir o couraçado, estacionado num ponto longínquo do espaço.
Quando a tempestade se transformou num furacão e uma chuva fortíssima caiu, Tako começou a falar.
— Chamo a Stardust-III. Tako falando. Chamo...
Os robôs de combate postados junto à porta cuidavam para que as duas pessoas solitárias não fossem perturbadas. Com exceção da tempestade, tudo continuava em silêncio do lado de fora. A fuga do tópsida ainda não havia sido notada.

* * *

A mensagem de Kakuta fora recebida há três horas, tempo de bordo. Os instrumentos extremamente potentes da Stardust-III chegaram mesmo a localizar o destróier fugitivo, embora o mesmo se encontrasse a mais de cinqüenta milhões de quilômetros de distância, no espaço interplanetário de Vega.
Longe do supergigante, o nono planeta descrevia sua órbita pré-traçada em torno do gigantesco sol flamejante. O couraçado mantinha-se quase imóvel no negrume do espaço vazio.
Rhodan sabia que o novo modelo de destróier dos ferrônios precisava de cerca de vinte e duas horas tempo de bordo para alcançar a velocidade da luz. As outras naves ferrônias levavam cerca de cem horas. Nessas condições era impossível que Chaktor fosse alcançado por qualquer das unidades da frota espacial dos ferrônios. Nesse ponto não tinha nada a temer.
Apenas acontecia que o próprio Rhodan ainda não poderia aparecer nas proximidades do mundo central. A fuga fora descoberta há muito tempo. Segundo Tako Kakuta avisou pelo hipercomunicador, o Thort estava todo alarmado, procurando se comunicar com Rhodan pelo rádio. No entanto, os ferrônios não dispunham de instrumentos que funcionassem a velocidade superior à da luz, e assim também neste ponto Rhodan podia esquivar-se. Não via nem ouvia nada.
As telas da gigantesca nave estavam em plena atividade. A tripulação de trezentos homens encontrava-se de sobreaviso. Só os homens da sala de rádio estavam de prontidão. Todos os postos estavam ocupados com uma guarnição dobrada.
Aparentando uma calma inexplicável e enervante, Rhodan se mantinha junto às telas diagramáticas do sensor estrutural dos arcônidas. Tratava-se de um aparelho de elevada eficiência, capaz de medir e localizar os inevitáveis abalos estruturais ocorridos no espaço quadridimensional.
O sensor havia reagido diversas vezes. Todas as medidas de posição indicavam o quadragésimo planeta do sistema. Isso significava que os tópsidas continuavam empenhados em reforçar suas posições. Por certo as naves que chegavam traziam materiais de abastecimento do sistema tópsida, situado a oitocentos e quinze anos-luz.
Rhodan aguardava, cada vez mais impaciente.
Oito horas depois da fuga de Chaktor os potentes hiperreceptores do couraçado finalmente reagiram. Os cálculos positrônicos instantâneos revelaram que a transmissão de hiperondas vinha exatamente do setor espacial em que se localizaria o pretenso sistema planetário dos arcônidas. O raio direcional provinha do sistema de Capela.
Era ao menos a conclusão a que se chegava, prolongando-se a linha imaginária que une os sóis de Vega e Capela. A força com que a mensagem era recebida era justamente a que resultaria de uma transmissão a plena potência do emissor da nave auxiliar, realizada num dos planetas do sistema de Capela.
Rhodan dirigiu-se com passos rígidos ao autômato decodificador. Seu rosto parecia indiferente.
Ficou parado atrás do interpretador. O mecanismo positrônico estava decifrando os grupos de símbolos que acabavam de ser captados. O código escolhido era um dos mais aperfeiçoados. Acontece que Rhodan sabia perfeitamente que o inimigo já conhecia as respectivas chaves. Em certa época o código fora usado pela frota imperial.
— Decodificação concluída; texto em linguagem comum — soou a voz do locutor mecânico.
Almirante de esquadra Nyssen para Sua Eminência, o Grande Administrador Rhodan. Ordem no 3/1219 recebida. S-7 chegou era perfeitas condições sob o comando de Tsen. Ordenamos alarma geral em Capela 5. Frota equipada, objetivo conhecido. Coordenadas de salto calculadas e programadas. Forças disponíveis: vinte e dois couraçados classe império, trinta e um cruzadores classe árcon, setenta e sete cruzadores ligeiros, cento e uma unidades menores. Decolo dentro de sete horas tempo oficial galático. Solicito novas instruções e confirmação presente mensagem. Assinado Nyssen, almirante de esquadra.”
Foram exatamente estas as palavras que o autômato berrou para dentro da grande sala.
Rhodan voltou-se com uma expressão indiferente. Só depois de alguns segundos os outros descobriram seu sorriso bonachão:
— Então — disse, esticando as palavras. — Nyssen promoveu-se a almirante, e de mim fez um eminente grande administrador.
— Nunca vi tamanha desfaçatez! — gritou Thora fora de si. Seu corpo tremia. — Como se atreve a usar os títulos honrosos de minha raça para atingir seus objetivos? Seu bárbaro! Sua coisa subdesenvolvida! Vou...
Calou-se ao ver que os ombros de Crest tremiam. O grande cientista estava encolhido numa poltrona, perto de um representante ruivo da raça humana, e ocultava o rosto nas mãos. Enquanto isso Bell berrava de um jeito pouco condizente com o respeito que deve ser dispensado ao ministro da segurança da Terceira Potência.
Thora recuou apavorada. Seus lindos olhos chamejavam. A essa altura já estava ficando para trás, sua inteligência falhava. E o pior de tudo era que até Crest havia perdido sua seriedade compenetrada.
— Eu o odeio! — gritou, rubra de raiva.
O capitão Klein acompanhou a arcônida, totalmente abatida, quando a mesma se retirou da sala de rádio.
— Graças a Deus! — suspirou Rhodan. — Não é uma mulher admirável? Ao menos está sendo honesta, e é o que mais prezo. Até poderia ser uma mulher do nosso planeta.
Subitamente Crest ergueu os olhos. Um sorriso matreiro brincou em torno dos lábios daquele homem idoso.
— Perry, acho que este foi o maior elogio que o senhor poderia ter feito a uma mulher da minha raça, não foi?
Os homens nunca haviam visto seu comandante tão embaraçado como se encontrava naquele instante. Todos permaneceram em silêncio.
— Esqueça-se disso — disse Rhodan, que sentia a garganta seca.
Seus olhos brilhavam. Subitamente voltou-se aos telegrafistas do hipercomunicador.
— Transmitam a seguinte resposta pelo raio direcional: “Rhodan ao almirante de esquadra Nyssen. Decole assim que os preparativos estiverem concluídos. Alarma número um para toda a esquadra. Prepare-se para um ataque maciço contra unidades tópsidas. Espere-me nas proximidades do trigésimo oitavo planeta de Vega. Faça a nave mensageira retornar. Assinado Rhodan, Grande Administrador de Capela 5.
Alguns minutos depois a mensagem codificada foi transmitida pelos formidáveis raios direcionais do couraçado. Era a única coisa que podiam fazer.
— Isto é de enlouquecer — resmungou Reginald Bell. — Com quantos couraçados Nyssen diz que vai aparecer por aqui? Com vinte e dois? Escute aí, chefe, para mim...
— Isso não importa — interrompeu-o Rhodan em tom suave. — A única coisa que importa é que a mensagem de Nyssen tenha sido captada nas seis luas. Sob o ponto de vista técnico isso é perfeitamente possível. Com essa distância a dispersão é suficiente para isso. Nyssen avançou quinhentos anos-luz pelo espaço afora. Uma vez que os tópsidas conhecem o código, o terreno estará preparado quando Chaktor chegar lá. E se, acima de tudo, isso ainda apresentar os dados sobre aquilo que seria nosso mundo, duvido que haveria um comandante de esquadra que não reagiria favoravelmente. Nós os venceremos, porque seu raciocínio se desenvolve por linhas estritamente lógicas. É só. Não deve haver mais nenhuma troca de mensagens pelo rádio. Isso poderia provocar suspeitas. Duas são o suficiente.
— O que acontecerá se os tópsidas não tiverem captado e decifrado as mensagens? — indagou Crest em tom preocupado.
— Captaram e decifraram, sim! Conhecem a chave do código, mas esse fato poderia não ter chegado ao nosso conhecimento. Portanto, não há nisso qualquer motivo para desconfiança. E o raciocínio deve dizer-lhes que nunca poderíamos ter vindo do cansado planeta de Árcon. Os habitantes do mesmo já não têm ânimo para se lançar a uma empresa deste tipo. Se o almirante dos tópsidas for inteligente, desocupará a área o quanto antes. Sabe perfeitamente que nem sequer está em condições de enfrentar nossa Stardust-III. E o que se dirá quando surgir toda uma frota de naves deste tipo? Bell!
O baixote sobressaltou-se. Já conhecia esse tom de voz.
— Dentro de cerca de dez horas, tempo de bordo, partiremos de volta para o planeta Ferrol. Chegando lá, ouviremos o relato da fuga de Chaktor, e sairemos imediatamente em sua perseguição. Antes que chegue ao quadragésimo planeta, nós estaremos lá. Suas manobras de aceleração e desaceleração levam quarenta horas. Nós fazemos tudo isso em vinte minutos. Crest, queira acompanhar-me à sala de cálculo. Quero saber quando Chaktor poderá chegar com seu destróier. Não seria nada mau se chegássemos um pouco antes.
— Pretende realizar o hipersalto? Rhodan refletiu ligeiramente.
— É preferível não fazê-lo. Faremos uma perseguição normal aproximadamente à velocidade da luz. Dessa forma Chaktor se manterá na nossa dianteira. Só poderemos compensar a desvantagem com nossa manobra de desaceleração, que é muito mais rápida. Com isso passaremos por ele sem vê-lo. Bell, prepare os homens para algumas horas bem difíceis. É só.
Rhodan retirou-se da sala de rádio. Mais uma vez acompanharam-no com os olhos sem dizer uma palavra.
— Se este homem não conseguir unir a Humanidade, ninguém mais o conseguirá — constatou o Dr. Haggard laconicamente. — Venha comigo, Manoli. Bem que eu sabia que toda essa história não se desenrolaria sem algumas medidas “pacíficas”.
— De qualquer maneira...
— Sim, eu sei — interrompeu-o o grande pesquisador médico, que havia descoberto o soro antileucêmico. — O custo teria sido muito maior se não tivesse arriscado este jogo. É uma idéia maluca, inconcebível.
O homem corpulento sacudiu a cabeça e foi caminhando em direção à escotilha blindada.

VII



Ferrol, o oitavo mundo do sistema Vega e o planeta principal da raça intelectual ali radicada, levara menos de vinte e quatro horas de tempo terreno para colocar no espaço todas as unidades de sua frota.
Tratava-se de uma quantidade enorme daquelas naves em forma de ovo, que haviam falhado tão miseravelmente por ocasião do primeiro ataque dos tópsidas.
Não dispunham de cúpulas protetoras energéticas. O armamento era extremamente pobre, pois não possuíam canhões de radiação dotados de impulsos que funcionavam à velocidade da luz. Poucas eram as unidades equipadas com armas térmicas arcônidas.
Além disso, as naves ferrônias eram muito lentas e a sua flexibilidade era tão reduzida que não permitia as manobras que se tornavam necessárias durante os combates. Quase noventa e nove por cento das unidades disponíveis precisavam de cem horas de tempo terreno para atingir a velocidade da luz. Isso resultava da densidade reduzida dos impulsos utilizados. Tais desvantagens não eram compensadas pela qualidade excelente dos mecanismos propulsores.
Para o Thort de Ferrol a fuga de Chren-Tork era a maior catástrofe da história. Quando Rhodan partiu para o espaço na Stardust-III, uma série de implacáveis atividades policiais e investigações secretas tivera início em Ferrol e no mundo colonial vizinho, Rofus.
A verdadeira oposição lançara mão de meios criminosos para derrubar o governo legítimo dirigido pelo Thort.
Rhodan não assistira a esses acontecimentos. Além disso, não achara aconselhável que naquele momento o Thort já fosse informado sobre as funções de duplo agente exercidas por Chaktor. Aliás, isso pouco tinha a ver com o verdadeiro movimento de resistência.
A frota ferrônia encontrava-se no espaço, formada em profundidade. Isso representava uma cobertura insignificante e tecnicamente deficiente para um único couraçado arcônida que, à plena potência dos seus mecanismos propulsores, atingia a velocidade da luz em apenas dez minutos.
Face à enorme extensão do sistema Vega, o quadragésimo planeta ficava a uma distância média de cerca de quarenta e oito bilhões de quilômetros do sol. Em queda livre e a 99,5% da velocidade da luz a Stardust-III levaria cerca de 48,8 h de tempo standard, incluídas as manobras de aceleração e desaceleração, para atingir o quadragésimo mundo.
Com a transição para o mundo do supercontínuo pentadimensional isso teria sido questão de poucos segundos. Face aos aspectos do planejamento global, Rhodan teve de abster-se desse procedimento. Teria sido sobremaneira arriscado aproximar-se das seis luas numa única nave espacial. Ninguém sabia quantas unidades tópsidas se encontravam por lá.
Pela natureza das coisas a frota dos seres não-humanos não teria a menor chance contra o supergigante arcônida. Só mesmo uma coincidência tola poderia ocasionar um impacto efetivo. Uma coincidência tola ou então uma ironia do destino.
Rhodan lembrava-se de tudo. Não excluía a possibilidade de que os tópsidas se tivessem apoderado de outras naves espaciais arcônidas. Afinal, por algum tempo tiveram a Stardust-III em seu poder.
Essas reflexões foram o motivo principal da ampla manobra diversionista. Ainda acontecia que a tripulação era suficiente para guarnecer o supercouraçado, mas não possibilitaria o emprego simultâneo das oito naves auxiliares.
Os trezentos tripulantes bem treinados eram suficientes apenas para manobrar o couraçado. As grandes naves auxiliares teriam de permanecer nos hangares. Quando muito seria possível realizar uma ação rápida com um grupo de caças espaciais, mas os respectivos tripulantes fariam falta nas operações da nave.
Tratava-se de problemas reais, que não podiam ser solucionados apressadamente.

* * *

Num espaço de pouco mais de quarenta e oito horas o gigante esférico avançara para além da órbita do trigésimo nono planeta. Nas telas de posicionamento o quadragésimo planeta já aparecia sob a forma dum ponto luminoso.
A interpretação matemática da fuga de Chaktor já fora realizada. O cérebro positrônico de bordo apurara todos os dados. Neste ponto não haveria qualquer falha.
Segundo esses dados, já deviam ter passado pelo destróier de Chaktor, embora este contasse com uma vantagem de quase vinte e quatro horas. Enquanto a Stardust-III ainda se deslocava a uma velocidade próxima à da luz, Chaktor já devia ter iniciado as manobras de desaceleração há 20,3 h.
Segundo a interpretação matemática, isso significava que sua mensagem radiofônica, dirigida ao comandante da frota tópsida, devia ter sido captado cerca de quarenta e quatro horas antes de sua chegada.
Essas quarenta e quatro horas representavam a diferença entre o tempo de aceleração e desaceleração e a mensagem que percorria o espaço à velocidade da luz. Também este fato fora considerado a bordo da Stardust-III.
A nave auxiliar S-7, comandada pelo major Nyssen, retornara a Ferrol pouco antes da decolagem do couraçado. Nyssen tivera que forçar ao extremo as máquinas da pequena nave. De qualquer maneira, as duas transições realizadas a plena potência foram coroadas de êxito. A resposta de Rhodan, transmitida pelo hipercomunicador, havia sido captada corretamente a bordo da S-7. Apesar disso a ordem para a decolagem imediata da frota de Capela também devia ter sido captada nas seis luas do quadragésimo planeta.
Era uma situação desesperada, cheia de incógnitas. A equação cambaleante exigia solução imediata. Os tópsidas tinham de ser desalojados do sistema Vega; de outra forma, mais dia menos dia, localizariam a Terra.

* * *

Há uma hora de tempo de bordo, Perry Rhodan encontrava-se num dos postos de combate. Diante dele reluziam as telas da sondagem ótica de trezentos e sessenta graus. Além disso, havia as telas da localização energética e dos rastreadores de velocidade superior à da luz.
Os instrumentos já forneciam um desenho nítido do planeta que crescia vertiginosamente. Bem atrás da nave a estrela gigante de Vega pendia no negrume do Universo, reduzida a uma bola luminosa aparentemente inofensiva.
Só os instrumentos ultra-sensíveis conseguiam distinguir o quadragésimo planeta dos inúmeros pontos luminosos que se viam no céu. A Via Láctea incluía bilhões de sóis. Muitos deles se encontravam no campo de visão. Naquele torvelinho havia um mundo que não possuía luminosidade própria. Era o planeta número quarenta, um gigante de gases gélidos, que recebia pouquíssimo calor do distante sol de Vega.
— A desaceleração será iniciada dentro de oito segundos — soou a voz metálica vinda dos alto-falantes do autômato direcional.
Rhodan levantou os olhos. Havia uma abundância perturbadora de instrumentos e aparelhos de controle. Todavia, Rhodan poderia comandar as unidades mais importantes da nave a partir do seu assento de piloto de espaldar alto. Perto dele Reginald Bell descansava no assento do co-piloto.
O capitão Klein fora incumbido do comando da central de combate. A central de máquinas já avisara que tudo estava preparado. A central energética estava pronta para a direção manual. As armas haviam sido colocadas em posição de tiro.
A superfície lisa da parte exterior da esfera estava coberta com numerosas protuberâncias. Não havia ninguém nas torres de armas. A direção de fogo inteiramente automatizada comandava tudo. O capitão Klein sabia que dispunha de um poder que nenhum homem jamais tivera em mãos. Os instrumentos de comando eram de dimensões minúsculas. Poderiam parecer ridículos. Mas um botão comprimido poderia significar bilhões de mortes. As naves da classe império representavam verdadeiros monstros criados pelos arcônidas. Eram capazes de destruir mundos inteiros. Com seu auxílio fora levantado o Grande Império.
Decorridos exatamente oito segundos, um ruído ensurdecedor encheu a Stardust-III. As unidades energéticas números um e dois entraram em funcionamento com todos os circuitos de força. Um instante depois luzes intermitentes davam conta da ereção do necessário campo de compressão e absorção.
Rhodan comandava a nave com movimentos de mão que revelavam uma segurança fantástica. Na tela gigante que ficava diante dele brilhava o setor do espaço situado diante da nave.
— Localização ao comandante — soou uma voz saída de um alto-falante. — Naves estranhas no vermelho 32 graus, vertical verde 18,5 graus. Exatamente sessenta e duas unidades, formação densa. Velocidade segundo cálculo positrônico 2: 118 km/seg. Fim.
Rhodan não se perturbou. Parecia não notar a testa suarenta de Bell.
Os mecanismos propulsores começaram a urrar na protuberância circular da nave arcônida. Reações nucleares extremamente complexas foram controladas pelo mecanismo automático com uma precisão tamanha que a força de empuxo dos vários mecanismos propulsores atingiu uma sincronização perfeita. Não houve o menor desvio, não se percebeu a mais ligeira sacudidela da nave.
Ninguém sentiu a força da inércia que teria de se manifestar a uma desaceleração de quinhentos quilômetros por segundo quadrado. Os campos de absorção mantiveram as relações de peso em exatamente l g. Era o valor da gravidade normal da Terra.
Torrentes cintilantes de luz precipitaram-se no espaço. As partículas expelidas deslocavam-se à velocidade da luz, mas a velocidade da nave reduzia-se a cada segundo que passava.
Notou-se um fenômeno estranho. Quando a Stardust-III ainda se deslocava a uma velocidade próxima à da luz, parecia que os feixes de impulsos ficavam grudados nos bocais dos jatos energéticos. À medida que a velocidade se reduzia, a luminosidade ofuscante ia tomando a dianteira da nave. Por fim empalideceram no espaço.
Depois de um longo vôo quase totalmente silencioso, a Stardust-III transformara-se num montão de máquinas uivantes.
Os rapidíssimos movimentos de comando de Rhodan desencadeavam verdadeiras reações em cadeia. Bastava comprimir um botão para que dispositivos semi-automáticos cuidadosamente programados despertassem, desdobrando um impulso singular em milhares de comandos mais detalhados.
Um número cada vez maior de reatores despertava para a vida. Era a primeira vez que os homens se encontravam a bordo de um couraçado espacial em plena ação.
Numa atitude devota, prestavam atenção aos ruídos ensurdecedores.
Novos anúncios de localização foram transmitidos pelos alto-falantes.
— Estamos correndo para o meio deles — disse Bell pelo radiocomunicador. Era o único meio de contato possível em meio a esse barulho infernal. Todos os homens usavam os capacetes com os microtransmissores e receptores. Os oficiais ainda possuíam um microcomunicador visual.
— Eles também já perceberam isso — respondeu Rhodan. — Quero ver se têm respeito por nós. Capitão Klein, aguarde permissão para abrir fogo. Localização, descobriu o destróier de Chaktor?
— Bem atrás de nós uma nave solitária se encontra no espaço. O desempenho energético indica que a propulsão é realizada por um mecanismo de quanta.
— São eles. Vamos atravessar a linha. Quando Chaktor chegar, deveremos estar muito ocupados. Os tópsidas farão questão de escoltá-lo.
Um gemido soou no alto-falante do capacete. Logo a voz de Crest fez-se ouvir.
— Não arrisque demais, Perry. Quem lhe garante que a mensagem em que Chaktor comunica a fuga foi interpretada da forma prevista?
— É o instinto, meu amigo, o faro. Os homens têm isso. Nas seis luas já estão informados sobre o pretenso ataque de minha esquadra estacionada em Capela. Se não me engano muito, a posição perdida ainda é mantida porque fazem questão de levar Chaktor e o tópsida que acaba de fugir. Para conseguir isso, o comandante da esquadra tópsida lança mão da maior parte das unidades de que dispõe. Klein, dentro de três minutos será transmitida a permissão para abrir fogo. Ali nos encontraremos a uma distância de apenas dez segundos-luz. Crest, será que a densidade de eficácia das nossas armas de radiação tem este alcance?
— O senhor não sabe de nada! — soou a voz de Thora, que vibrava numa excitação entremeada de orgulho. — Está brincando com um instrumento de poderio de que não entende coisa alguma.
— A senhora vai ver uma coisa — prometeu Rhodan com a voz resmunguenta.
Seu rosto estava transformado numa máscara inexpressiva. Os olhos estavam grudados na tela que tinha diante de si.
As ligeiras ordens transmitidas pelo rádio cessaram. Só as máquinas titânicas continuaram a emitir seu rugido.
A Stardust-III já estava envolta na cúpula protetora pentadimensional. As unidades energéticas normais-universais não representavam nenhum perigo para a nave. Em virtude de sua estrutura, essa arma defensiva absorvia ou refletia qualquer força de nível inferior, quer se tratasse de corpos materiais estáveis ou de reações nucleares que desencadeavam um calor solar. E a nave ainda oferecia outras surpresas.
A cúpula penetrava quase cem quilômetros no espaço. As naves tópsidas também puderam ser identificadas oticamente na tela frontal. Sua velocidade era bem inferior à da luz. Por isso a luminosidade dos mecanismos propulsores era visível rápida e perfeitamente.
Desenvolvendo ainda metade da velocidade da luz, o couraçado aproximou-se vertiginosamente das naves inimigas dispostas em forma de cunha defensiva. Desta vez as coisas ficariam sérias. Todos sabiam.
A aproximação foi rápida; tão rápida que seria impossível desviar-se. A única coisa era romper a formação.
— Os répteis estão seguindo uma tática errada — disse alguém. — Se estivesse no lugar deles, já teria parado, feito meia-volta e partido na direção oposta. Só verão em nós uma sombra que passará num instante.
— Quem foi que disse isso? — soou a voz retumbante de Rhodan nos alto-falantes dos capacetes.
— O major Deringhouse.
— Mesmo que tivesse razão, deveria ter calado a boca. Está pronto?
— Pronto para a ejeção. Desta vez já conheço a confusão. Fui atacado nesta mesma área juntamente com Rous e Calvermann. É aqui que começa o setor de decolagem dos tópsidas.
Tudo levou apenas alguns segundos. Foi tão rápido, óbvio e fatal que só lhes restava esperar e, se necessário, gritar.
A velocidade da Stardust-III ainda era de oitenta mil quilômetros por segundo. Com os jatos chamejantes a nave precipitou-se em direção à frota tópsida, atingiu-a e rompeu suas formações.
Isso não durou mais de um segundo. A positrônica de tiro de Klein reagira dois segundos antes que atingissem as linhas inimigas. Com os dez dedos comprimiu os botões que emitiam um brilho fosco.
Rhodan ouviu Bell gritar. Ao rugido terrível das torres que disparavam misturou-se tamanho uivo e chiado que até parecia que o Universo estava acabando.
Os sentidos mal conseguiram captar o objeto que surgiu de sopetão. Foi muito rápido. Só perceberam que um cruzador tópsida penetrou em sentido exatamente oposto no campo de defesa estrutural da Stardust-III.
Juntamente com o uivo estridente percebeu-se uma nuvem energética violenta que ofuscava os olhos bem diante da nave. A mesma não conseguiu romper o anteparo. Foi atirada para fora da trajetória, deslocada com uma força tremenda e parcialmente neutralizada.
Do cruzador tópsida não se via mais nada. Só o compartimento blindado do setor exterior da nave ressoou como um enorme sino.
Bem atrás da Stardust-III duas nuvens incandescentes pendiam no espaço. Ainda mais ao longe via-se o que Klein havia feito com seus dedos tão débeis.
Dezessete pequenos sóis haviam surgido no espaço. As nuvens de gases em expansão eram a única coisa que sobrava das naves atingidas. Se não fossem elas, ninguém teria dado pela destruição das naves.
A Stardust-III havia rompido a linha densa das formações inimigas.
— Oh, não! — gemeu o capitão Klein. Estava com uma expressão de perplexidade no olhar. Não conseguiu proferir mais que este “oh, não”.
— O que é que o senhor pensava? — gritou Thora pelo rádio. Tinha o rosto desfigurado. — Acreditava que os técnicos de minha raça teriam montado uns esguichos de água nesta nave? Sabe lá com o que está lidando?
— Preparar ataque — soou a voz retumbante de Rhodan. — Klein, ligue o mecanismo de bombas gravitacionais. O objetivo é a terceira lua. Lá não existe vida; está desabitada. Só há uma estação tópsida de rastreamento espacial. Dispare quando a nave se encontrar em posição oposta à da lua. Aproximar-nos-emos a três segundos-luz.
O quadragésimo planeta começou a brilhar diante da nave que ainda desenvolvia velocidade bastante elevada. Já aparecia com o tamanho de uma abóbora. Rhodan iniciara a manobra de aceleração no último instante, para atacar com a maior velocidade possível. Das naves tópsidas não se via mais nada.
Dali a pouco o quadragésimo mundo de Vega encheu toda a tela frontal. Percebiam-se quatro das seis luas. A de número três, que era o menor dos satélites, estava emergindo da sombra do planeta.
Os rastreadores de pontaria, manejados por Klein, estavam em pleno funcionamento. Um ligeiro sinal de luz indicava que a nave se encontrava em posição de fogo. O tiro não poderia deixar de atingir o alvo.
Klein esperou mais alguns segundos. Logo a pequena lua assumiu uma posição firme na tela redonda do mecanismo automático de comando de tiro. Mais uma vez moveu um dos dedos. Apenas um, e este comprimiu um minúsculo botão.
Das torres de armamentos da região polar da nave desprenderam-se duas figuras em espiral que emitiam uma luminosidade pálida, e nada tinha em comum com aquilo que nós entendemos por bomba.
Deslocavam-se à velocidade da luz e não eram constituídas de matéria. Nem pertenciam ao universo normal, pois situavam-se num plano energético mais elevado.
Antes que o couraçado, que naquela altura desenvolvia velocidade inferior à da luz, passasse pela lua, esta se desfez em meio a uma luminosidade imensa.
Não entrou em incandescência, nem explodiu. Simplesmente desapareceu de sua trajetória, como se nunca tivesse existido.
As duas bombas gravitacionais dissolveram a matéria e, seguindo uma lei peremptória da hipermatemática, lançaram-na ao hiperespaço. Era a arma mais potente da Stardust-III e representava o estágio mais avançado da evolução da ciência arcônida.
A menos de cinco milhões de quilômetros além da trajetória do planeta a nave espacial imobilizou-se.
A manobra de desaceleração consumira dez minutos. E nesses dez minutos aconteceram coisas que deixaram atônito o próprio Crest.
— Esperaremos aqui — disse Rhodan com a voz ofegante, como se tivesse realizado um enorme esforço físico. — Mesmo que os tópsidas sejam desumanos, malvados e não sei mais o quê, uma coisa destas eu não faço mais uma vez. Ficaremos à espera numa velocidade muito reduzida; pouco importa o que pensem a respeito. Devemos aguardar o pouso de Chaktor. Klein, só atire se formos atacados. Entendido?
— Nem tenha dúvida — respondeu Klein com a voz entrecortada. — Santo Deus, se não pudesse justificar-me perante minha consciência com o fato de termos sido atacados, não sei se conseguiria ficar sentado mais um segundo nesta cadeira.
— Comunicado da divisão de logística — disse a voz de Thora. — Nossa espera passiva tem fundamento lógico. Desde que o comandante dos tópsidas esteja informado sobre a anunciada chegada de nossa frota, ele compreenderá o motivo de nossa inatividade. Considerará a destruição da lua desabitada uma simples demonstração de força. Motivo fundamental: esperamos a chegada de nossa frota. Portanto, não teríamos motivo de assumir qualquer risco antes disso.
Rhodan deu uma risadinha. A mesma não passava de uma horrível contorção dos lábios, expressão de um enorme nervosismo.
Nem mesmo Perry Rhodan contara com tamanha eficácia do armamento da nave. E já se acostumara a pensar em termos de superlativo. Acontece que a realidade os transformara numa insignificância.
Poucos instantes depois a Stardust-III reiniciou seu movimento, que em caso de necessidade poderia ser acelerado mediante o emprego da potência máxima dos propulsores. Não se via qualquer nave tópsida. Só junto ao planeta distante o localizador energético constatou a existência de forças maciças.
— Muita coisa acontecerá nas cinco luas que restaram — disse Bell com a voz áspera. — A relação de forças foi gravemente afetada. Mesmo que a lua número três tenha sido muito pequena, sua destruição causará fortes tremores de terra. Alguns dias se passarão até que tudo volte a se ajeitar.
— É justamente nisso que ponho minha esperança — cochichou Rhodan. — Santo Deus, por que não vão embora? Por que me obrigam a pôr em ação este couraçado? Deviam desaparecer, reconhecendo que contra uma nave espacial como esta não existe defesa eficaz.
— O senhor se esquece da mentalidade tópsida — respondeu Crest com a voz baixa. — Admirar-se-ão do senhor não realizar uma série ininterrupta de ataques, pois sabe perfeitamente que nada lhe pode acontecer. Nem tenha dúvida, conheço essas inteligências.
— Seja como for, não voltarei a atacar — disse Rhodan em tom firme, comprimindo os lábios. — Deringhouse e Nyssen, seus caças estão prontos para entrar em ação? Os mutantes encontram-se a bordo?
— Tudo preparado — surgiu a voz de Nyssen no intercomunicador.
— Obrigado! Tako e Ras Tshubai, não deixem de tirar Chaktor da armadilha em que se meteu. O fogo da Stardust-III lhes dará cobertura até que chegue o momento de saltar. Seus radiogoniômetros estão em ordem? Sem eles nunca os encontraremos.
Tudo havia sido verificado. Quatro homens solitários sentados nas cabinas de dois minúsculos caças espaciais aguardavam o momento do engajamento final. Desta vez a palavra estaria com eles, os inconcebíveis.


VIII



Vira com os próprios olhos o monstro chamejante, quando este cuspia seu fogo mortal. Dali em diante Chaktor sabia perfeitamente de que lado devia se manter.
Quando seu destróier, que se deslocava com velocidade cada vez menor, passou pelo local do desastre, teve de empenhar toda sua habilidade de comandante para escapar às nuvens de gases incandescentes. Após isso assistira à destruição do astro desabitado.
Aguardaram-no com o que restava da frota e, unidos numa falange cuidadosamente fechada, acompanharam-no até a sexta lua do planeta, que era o maior satélite do gigante de gases gélidos.
A ação desenvolvera-se numa pressa excessiva. A troca de mensagens radiofônicas entre o oficial tópsida Chren-Tork, recém-libertado, e o comando da esquadra assumira formas febris nos últimos momentos que precederam o pouso.
Os répteis estavam empenhados em transformar a lua numa fortaleza. Os trabalhos estavam no início, tudo era muito primitivo. Chaktor notou perfeitamente que o posto avançado dos tópsidas ainda era bastante vulnerável. As unidades geradoras de energia ainda não estavam funcionando. O suprimento era realizado provisoriamente pelos geradores das naves espaciais.
Não se via mais nenhuma nave cargueira. As que tinham vindo já deviam ter sido mandadas de volta.
Chaktor e o outro membro do movimento de resistência ferrônio foram literalmente arrancados da pequena nave. Mal lhes deram tempo para colocar os trajes espaciais.
Ao ver-se separado de seu companheiro de forma tão inesperada e violenta, Chaktor percebeu que sua vida pendia por um fio. Antes que desaparecesse no túnel e a comporta de ar se fechasse atrás dele, ainda ouviu os gritos do outro homem.
Viu-se numa grande sala sextavada em que havia numerosos aparelhos de comando. Um cheiro acre e opressivo enchia o ar, demasiadamente pobre em oxigênio para os pulmões de Chaktor, que respirava com dificuldade. Ao ver os vultos que deslizavam ao seu lado, sentiu-se tomado de pânico.
Era claro que não sabia distinguir aquelas criaturas inumanas. Só os uniformes davam alguma indicação da identidade de cada uma delas. O silvo estridente do campo de ultra-som maltratou seus ouvidos. Mais adiante Chren-Tork falava a outro tópsida. Chaktor viu que se tratava de Crek-Orn, almirante e chefe da esquadra invasora tópsida.
Em conformidade com as regras de disciplina extremamente rígidas, Crek-Orn tinha poder de vida e morte sobre seus subordinados. Não havia nada que pudesse ser contraposto a uma ordem sua. Só o ditador distante ficava acima dele.
— Pare! — soou a voz estridente de um guarda armado.
Chaktor ficou imóvel diante do formato estranho das mesas de comando. Sabia que tinha no bolso a pequena cápsula com a fita magnética que continha a programação. Nela se encontravam os dados referentes ao sistema de Capela.
Dedos finos e duros como aço cravaram-se em seus braços. Mal conseguia se mover. Seguravam-no inexoravelmente. Faltava-lhes tudo aquilo que caracteriza os homens ou os seres quase-humanos. Seu pensamento era condicionado exclusivamente pelos objetivos. Não conheciam o menor traço humano, que sempre depende de uma certa dose de sentimento. Para Chaktor apenas eram cruéis. Eles mesmos se julgavam apenas inteligentes. Era uma diferença.
Quando se ouviu o rugido e o chão começou a oscilar, saltaram dos seus assentos baixos. Ordens foram proferidas pela boca do almirante. Os abalos foram diminuindo, até que o próximo tremor teve início. Chaktor desconfiava de que aquilo tinha alguma ligação com a destruição da terceira lua.
Continuou esperando. Os sinais estridentes de alarma começaram a soar. Lá fora as naves espaciais dispararam para o vazio, que começava no vácuo reinante ao nível do solo. Chaktor riu para dentro. Sentiu-se muito mais aliviado ao ver o tópsida que se aproximava. Não havia a menor dúvida de que a gigantesca Stardust-III se aproximava.
— Os dados. Estão com o senhor? — chiou a voz de Chren-Tork.
— Exijo um contrato escrito. Antes disso não posso revelar...
Foi atirado ao solo. Dedos duros e flexíveis estraçalharam seu uniforme. Poucos segundos depois o almirante segurava o rolo de fita. Alguns oficiais levaram-na às pressas. Mais uma vez Chaktor teve vontade de rir. Sem dúvida os dados seriam submetidos a um teste eletrônico.
Depois foi arrastado para junto do comandante. Chaktor viu os olhos frios e fulgurantes do réptil. Chren-Tork funcionou como intérprete.
— O que pode informar sobre a próxima chegada de uma frota arcônida vinda do sistema que costuma designar como Capela?
— Rhodan enviou um mensageiro — gemeu Chaktor, machucado pelos dedos dos guardas.
— Diga a verdade. Seu subordinado está sendo interrogado. Seu cérebro morrerá, mas contará tudo. Eu o previno.
O rosto de Chaktor contorceu-se.
— Estou dizendo a verdade. O mensageiro saiu numa pequena nave esférica. Soube da mulher que me entregou os dados retirados do banco de memória da nave espacial. Ela foi morta. Rhodan aguarda a frota. O Thort foi informado.
Seguiram-se discussões acaloradas entre os oficiais do estado-maior. Crek-Orn, que era responsável pela frota, tomou sua decisão de um instante para outro.
— Isso confirma a mensagem que conseguimos decifrar — ponderou o oficial recém-libertado em atitude respeitosa. — Dali se conclui que o mundo desse Rhodan ficará desguarnecido de naves de maior porte. Peço licença para assinalar que...
Crek-Orn fez sinal para que se calasse. As normas inflexíveis da lógica revelavam-lhe que não conseguiria manter as seis luas.
Novas mensagens continuaram a chegar. A Stardust-III passou em velocidade vertiginosa pela órbita do quadragésimo planeta, mas não atacou.
— Estão aguardando. A chegada da frota deve estar iminente.
— Qual foi o depoimento do outro ser primitivo?
O comandante lançou um olhar para Chaktor. Poucos minutos depois obteve a informação. Um oficial entrou e disse laconicamente:
— O cérebro do outro ferrônio continha os dados que já conhecemos. Rhodan aguarda reforços. Trata-se de couraçados pesados da classe império e de cruzadores da classe árcon.
Só mais tarde Chaktor soube que seu companheiro já estava morto. Ninguém deu atenção aos seus protestos violentos pela falta de conclusão do acordo que lhe fora prometido. Foi arrastado para fora da sala e introduzido numa nave espacial através duma comporta situada ao nível do solo. Não viu mais os responsáveis.

* * *

Com o silvo estridente dos trilhos de ejeção era inevitável que surgissem alguns g de força gravitacional. Era impossível ativar o campo de absorção no interior da comporta.
Os minúsculos caças dispararam espaço afora. Seus mecanismos propulsores despertaram subitamente.
Ao lado deles a massa imensa da Stardust-III deslizava pelo negrume do espaço. Era um vulto fantasmagórico, um signo do poder.
O major Deringhouse conhecia todos os detalhes da situação. O grande planeta ficava em posição lateral e “inferior”. A sexta lua surgia diante dos bicos dos caças.
Deringhouse e Nyssen engatilharam os canhões de impulso. Só a cobertura do couraçado proporcionava alguma possibilidade de êxito à missão que lhes fora confiada.
Atrás de Deringhouse o mutante Tako Kakuta estava agachado num assento provisório. Alguns instrumentos não totalmente indispensáveis tiveram de ser retirados para conseguir mais um lugar naquele caça de um homem.
Mais à esquerda a máquina de Nyssen corria pelo espaço por entre as luas. Praticamente só era reconhecível pela luminosidade brilhante desprendida pelo mecanismo propulsor. Sem eles os pequeninos caças não passariam de sombras quase imperceptíveis. Eram minúsculos, mas muito velozes.
Os contornos do couraçado desenharam-se nas telas do caça tripulado por Nyssen. Rhodan, que, face à velocidade reduzida da nave, conseguira descrever uma curva rápida, também se deslocava em direção à sexta lua. Dessa forma dava cobertura aos caças e desviava a atenção das estações rastreadoras.
— Preparem-se — ouviu-se a voz de Deringhouse no radiofone. — Kakuta e Tchubai, atenção: o salto será executado precisamente dentro de sessenta e dois segundos. Terão de vencer uma distância de cerca de trinta e dois mil quilômetros. Não poderemos aproximar-nos mais. Acham que conseguirão?
A pergunta se justificava, pois não fora possível determinar antecipadamente a distância que teria de ser vencida.
— Santo Deus, trinta e dois mil quilômetros! — gemeu o africano. — Isso consumirá uma força tremenda. Ainda terei de levar o equipamento. Mas darei um jeito.
— OK — disse o japonês laconicamente. — Ainda bem que passamos pelo treinamento rigoroso em Vênus. Atualmente minha capacidade-limite é de cinqüenta mil quilômetros. Mas terei de transportar dois trajes especiais. Aproximem-se o mais que puderem. Está bem?
Deringhouse limitou-se a acenar com a cabeça.
Aceleraram para o máximo de quinhentos quilômetros por segundo ao quadrado. Assim que a sexta lua surgiu na tela frontal, foi crescendo rapidamente.
— Localização — soou a voz nos alto-falantes de capacete. Era Rhodan. — Cuidado. Estão enviando naves para o espaço. Não entrem em suas linhas de tiro. Darei a volta. Boa sorte.
A Stardust-III mudou de rumo. Descreveu uma curva de alguns milhões de quilômetros. O gigante passou rente à sexta lua. Enquanto isso dois objetos minúsculos desceram em direção ao astro que tinha as dimensões do Mercúrio do sistema solar.
Deringhouse sabia que um único impacto poderia pô-lo fora de combate. O suor porejou em sua testa. O dispositivo automático de refrigeração de seu capacete começou a funcionar.
— Aguardem mais um pouco! — berrou Deringhouse no microfone de capacete. — Só estão de olho na Stardust. Atenção, Ras e Tako: assim que eu avisar, saltem ao mesmo tempo.
Ras Tshubai já ligara o micro-reator de seu traje de combate arcônida.
Viu o rosto de Kakuta na tela que se estendia diante do piloto. O japonês também estava preparado. Os dois homens começaram a se concentrar.
— É perto da grande cúpula avermelhada — transmitiu Tako. — Identificou o objetivo, Ras?
Mais alguns segundos se passaram. Deringhouse forçou a ponta do caça para baixo. No chamejar dos jatos viu as fortalezas que se aproximavam vertiginosamente. Perto dele — perigosamente perto — a máquina de Nyssen disparou em direção à superfície da lua.
Já se encontravam muito mais perto do que previam. Ainda não estavam atirando contra eles. A cerca de cinco mil quilômetros da superfície, Nyssen apontou o polegar para baixo. O bramido dos canhões de impulso rigidamente montados nas máquinas superou o uivo do mecanismo propulsor. Deringhouse também atirou.
Duas trajetórias luminosas desenharam-se sobre a superfície lunar. Aproximaram-se das fortalezas numa velocidade tresloucada, atingiram-nas e trouxeram consigo a morte e a destruição. Naves explodiam, massas de metal derretido subiam para o vácuo. Finalmente tudo aquilo passou.
— Saltem! — gritou Deringhouse.
No mesmo instante forçou o nariz do caça para cima. Atrás dele a lua ia caindo no espaço.
Quando olhou para trás, Tako Kakuta havia desaparecido. Parecia que o assento de emergência sempre estivera vazio.
— Meu companheiro já desapareceu — soou a voz nervosa de Nyssen. — Tudo em ordem?
— Tudo em ordem. Chegaram bem. Mas vou tratar de dar o fora. Lá embaixo o pessoal já está acordando.
Para a defesa tópsida era tarde. Quando a fortaleza ainda intacta abriu fogo, os dois caças já se haviam transformado em minúsculos pontos luminosos que corriam atrás da Stardust-III, que voltara à sua posição do outro lado do planeta.

* * *

O funcionamento do micro-reator de Ras Tshubai era inteiramente silencioso. O minitransformador também não produzia o menor ruído. O campo defletor de raios luminosos tornava-o invisível também aos olhos de um tópsida. Tudo não passava de um truque. Desde que se encontrava a bordo da nave capitania dos tópsidas, desligara a poderosa capa protetora destinada à manutenção da pressão exterior. O ar era respirável.
Há cinco horas o almirantado tópsida estava reunido na nave. Não havia dúvida de que estavam sendo tomados os últimos preparativos para a decolagem. As ordens expedidas acumulavam-se. As chaves de comando eram estranhas e perturbadoras. Ras Tshubai teve que desistir do plano de modificar a regulagem automática da nave capitania para provocar um hipersalto incontrolável.
Além disso, não conseguia aproximar-se do gigantesco computador. Em compensação fizera alguma coisa que se encontrava no âmbito das suas possibilidades.
Há algumas horas Crek-Orn, o comandante tópsida, encontrava-se sob os efeitos de um projetor mental arcônida. Sugeriram-lhe que se lançasse imediatamente, fossem quais fossem as circunstâncias, ao ataque do sistema de Capela, onde supunha situar-se o mundo de Rhodan. Empenhando todas as forças disponíveis naquela operação.
Ras também cuidara para que o comandante da invasão seguisse estritamente os dados que lhe haviam sido fornecidos por Chaktor. Com isso fizera o que estava ao seu alcance para compensar a desregulagem do dispositivo automático que não pudera ser levada a efeito.
Ras só tinha que cuidar para não ser descoberto por acaso. Era um trabalho complicado, mas não colocava sua vida em perigo. Poderia abandonar o local a qualquer momento. Uma parede não representaria o menor obstáculo.
Há pouco menos de uma hora o mutante soubera que o comandante da esquadra ordenara a programação das coordenadas de salto. Os autômatos de regulagem estavam trabalhando em todas as naves tópsidas, que se encontravam prontas para decolar. Os dados fundamentais foram transmitidos pelo cérebro eletrônico da nave capitania. Ras Tshubai não compreendia por que Crest fizera tanta questão de que justamente essa operação fosse acompanhada atentamente. Também Rhodan se admirara ligeiramente com o desejo do cientista arcônida, mas não formulara qualquer objeção. Por isso o teleportador continuou a observar. As horas passavam. Aos poucos a missão transformava-se num verdadeiro martírio.
Depois de se terem materializado exatamente no ponto combinado, Tako Kakuta desapareceu imediatamente. Sob seu traje espacial trazia outro exemplar da mesma espécie. O japonês estava incumbido de encontrar o ferrônio Chaktor e ajudá-lo a escapar são e salvo.
Até então Ras não recebera nenhuma notícia de seu companheiro. A nave capitania dos tópsidas tinha cerca de quatrocentos metros de comprimento. Não seria fácil encontrar Chaktor. Ainda acontecia que nem sabiam se o ferrônio se encontrava a bordo. Podia estar preso ou ter sido morto em outro lugar.
Tako Kakuta procurava desesperadamente. Há horas vagava pelos corredores e procurava ouvir qualquer sinal do pequeno receptor que bem antes da missão fora ajustado para as vibrações cerebrais de Chaktor.
Se um dos telepatas tivesse penetrado na nave tópsida, tudo estaria resolvido dentro de dez minutos. Acontece que só os dois teleportadores conseguiram alcançar a sexta lua. E eles não possuíam dons telepáticos. Tako bem que gostaria que John Marshall estivesse por ali.
No seu ouvido direito havia uma maravilha da micromecânica ferrônia. Fora fácil alojar o receptor e o transmissor. O perigo de algum contato não desejado crescia de minuto para minuto.
Tako parou ofegante. O pequeno instrumento preso ao pulso esquerdo reagira ligeiramente, mas voltara a perder o contato.
— Está ouvindo, Tako? — foi como um sopro no seu micro-receptor. — É Ras. Está na hora. Decolarão dentro de dez minutos. Já o encontrou?
— Tive que me desviar — cochichou Tako. — Tudo em ordem com você?
— Tudo perfeito. Ainda estou mantendo o homem sob o projetor mental. Estou transmitindo a idéia de que a frota de Capela deve chegar de um instante para outro. Acha que a idéia é dele. Está furioso, exigindo a maior pressa. Não quer ser destruído na lua. Estou aguardando. Continue a procurar.
Tako voltou a avançar no corredor que se esvaziara. Depois de dar alguns passos o instrumento voltou a reagir. Isso significava que Tako se encontrava muito próximo. O alcance do micro-rastreador não ultrapassava dez metros.
O mutante continuou a avançar, cada vez mais cauteloso. Não viu nenhuma sentinela. Em compensação o corredor se estreitava. Numerosas portas abriam-se para a direita e para a esquerda.
Tako parou diante de uma delas. Foi aqui que o instrumento reagiu com maior intensidade. O chiado suave poderia tornar-se perigoso. Por isso desligou o rastreador de ondas. Bateu cautelosamente contra o metal frio: três batidas breves, duas longas, três breves.
Chaktor saltou fora de si. O sinal combinado voltou a soar. Respondeu, invertendo a ordem, das batidas. Já sabia que um dos mutantes de Rhodan se encontrava do lado de fora.
Tako agiu com pressa e reflexão. Sabia que não adiantaria procurar o mecanismo da fechadura, motivo por que a arrancou com o desintegrador. A porta abriu-se.
Não falaram muito. Enquanto Chaktor ficou de sentinela, com a arma na mão, Tako tirou seu traje espacial. Por baixo dele trazia um equipamento exatamente igual.
— Coloque isso, rápido. O senhor sabe como deve fazer — cochichou apressadamente. — Depressa, não temos muito tempo. Há sentinelas por aí?
— Ninguém preocupou-se comigo. Tem alguma coisa para beber?
— Pegue o aparelho de sucção do refrigerador. Há um litro de um líquido. É só. Mais depressa, ali vem gente.
Chaktor trabalhava à luz de uma pequena lâmpada. Se fosse descoberto a essa hora, estaria perdido. Lá fora alguns corpos esguios passaram deslizando. Antes que Chaktor terminasse e Tako pudesse controlar o ajustamento do traje, o rugido tremendo começou a soar.
— Estão decolando. Que situação maldita! — surgiu uma voz alta demais nos receptores de Tako. — Já estão prontos?
— Iremos até a sala de comando. Espere-nos — respondeu Tako esgotado. — Tenho de recuperar-me. Eles têm um campo de absorção de pressão?
— Naturalmente. Também não querem ser feitos em pedaços. Espero por vocês.
Poucos minutos depois estavam a caminho.
Quando encontraram uma oportunidade favorável, a frota tópsida já havia mergulhado no espaço. Entraram na sala de comando, passando pela escotilha que se abriu automaticamente. Encontraram Ras Tshubai no ponto combinado.
Não podiam se ver, apenas sentir-se. Mantendo-se bem próximos uns aos outros, podiam conversar em voz baixa.
— Não falem muito — disse Ras, que já não mantinha o projetor mental dirigido contra o almirante. — Chaktor, o senhor sabe manejar esse traje? Se cometer qualquer engano, estará perdido.
— Sei — disse a voz trêmula do ferrônio. — O que pretende fazer? Não se esqueça de que não sou tão forte como os senhores.
— Bem atrás de nós há uma escotilha de emergência. Já investiguei. O corredor que se abre atrás dela leva a um hangar de botes salva-vidas. Vamos cortar a parede externa com o desintegrador e deixaremos que o ar nos leve para o espaço.
Sem maiores dificuldades atingiram o compartimento com os pequenos botes salva-vidas. Quando a escotilha interna se fechou atrás deles, estavam praticamente seguros. Enquanto isso a velocidade das naves tópsidas ia crescendo a cada segundo que passava. Dentro de menos de três horas atingiriam a velocidade da luz. Depois iniciariam a transição espacial.
Viram diante de si a parede externa da nave. Numa cabina aberta, três tópsidas estavam sentados juntos aos quadros de comando. Prestavam atenção às instruções vindas pelo alto-falante.
— Não posso fazer nada por eles — disse Ras Tshubai com a voz abafada. — Estão prontos?
Seu desintegrador, que desagregava qualquer estrutura, começou a funcionar a plena potência. A parede começou a brilhar, tornou-se transparente e subitamente desapareceu.
Chaktor ainda chegou a ouvir os gritos estridentes dos tópsidas que se encontravam de sentinela. Logo foi agarrado pela sucção explosiva do ar que escapava pela abertura. Foi atirado para o espaço com tamanha violência que gritou para dar vazão ao pavor.
Dali a alguns segundos tudo havia passado. A nave capitania fora reduzida a um ponto brilhante seguido por inúmeros pontos menores que corriam pelo espaço interestelar. Já haviam saído do sistema planetário Vega.
Três homens indefesos vagavam pelo espaço. Só podiam contar com seus potentes emissores.
Naturalmente não sentiam que se deslocavam espaço afora a uma velocidade imensa. Conservavam a velocidade que a nave desenvolvia no momento em que dela foram expelidos. O ajustamento preciso de uma grande nave a essa velocidade devia constituir um problema matemático. Mas Rhodan conseguiria resolvê-lo. Ras não tinha a menor dúvida.

* * *

Atenção. Transição será realizada exatamente dentro de 10,2375726 segundos”, soou o aviso do autômato.
Perry Rhodan manteve-se encurvado diante da tela de localização ótica. Haviam alcançado a velocidade da luz, tal qual a frota fugitiva dos tópsidas.
— Se der o salto agora, estará seguindo a programação resultante dos cálculos por mim realizados — disse Crest. Seu rosto estava indiferente. Nos seus olhos havia uma dureza descomunal. Rhodan começou a estranhar. Lançou um olhar perscrutador para o cientista.
— Só lhe pedi que conferisse os dados elaborados por mim e os gravasse em fita. Acho...
Rhodan não concluiu a frase. O salto dos tópsidas foi realizado com a exatidão de uma fração de segundo. O ribombar tremendo da cúpula energética até causava problemas a uma nave como a Stardust-III.
Quando a situação voltou ao normal, mais de trezentas unidades da frota tópsida haviam desaparecido sem deixar o menor vestígio.
Rhodan olhou para o relógio.
— Dentro de poucos segundos chegarão ao sistema de Capela. Sua programação foi excelente. Estamos livres deles. Resta saber o que farão naquele sistema deserto. Naturalmente logo perceberão que caíram num logro.
Crest afastou-se devagar.
— Não voltarão! E não saberão como conseguimos afastá-los. Uma vez que se guiaram exatamente pelos meus dados, saltarão do hiperespaço para o núcleo do sol de Capela. Sinto muito, Perry! Sou um arcônida e represento o Grande Império. Apenas cumpri o meu dever. O senhor não tem nenhuma responsabilidade por isso.
Saiu. Rhodan parou estupefato. Thora acompanhou o homem de sua raça. Havia um certo mistério em seus olhos, quando disse com a voz arrastada:
— Meus antepassados sempre agiram assim, Perry. Não acredite que conseguirá criar um império estelar apenas com belas palavras. Ninguém o conseguiu, ninguém o consegue e o senhor também não conseguirá. Cuidarei de Chaktor, que está exausto.
Rhodan lançou um olhar para Bell.
— Ainda teremos de aprender alguma coisa — disse o Dr. Haggard depois de um instante. — Em princípio ela tem razão.
— Sou um ser humano e nunca deixarei de sê-lo, doutor — disse Rhodan com a voz grave. — Esperemos, Só por meio da inteligência tornou-se possível a retirada dos tópsidas sem qualquer derramamento de sangue. No futuro poderemos agir da mesma forma. Bell, vamos voltar ao sistema.
O homem esbelto retirou-se. Apenas seus ombros estavam ligeiramente encurvados. Pensava na gigantesca estrela chamejante de Capela, e numa frota imensa que atingira o objetivo com uma exatidão excessiva.




* * *
* *
*






Falsificando os dados de transição espacial, Crest, o arcônida, conseguiu levar a frota tópsida à destruição. Com isso Perry Rhodan pôde empenhar-se novamente na busca do planeta da vida eterna.
Acontece que os desconhecidos que possuem o segredo da vida eterna fazem exigências enormes a todos aqueles que partem em busca do mesmo. Colocaram a Charada Galáctica no caminho de Rhodan...
CHARADA GALÁCTICA é o título do próximo volume da coleção Perry Rhodan.

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