Autor
CLARK DARLTON
Tradução
MARIA MADALENA WÜRTH TEIXEIRA
Digitalização
DENISE BARTOLO
Revisão
ARLINDO_SAN
As etapas até agora percorridas
por Perry Rhodan e seus seguidores na busca ao planeta da vida eterna poderiam ser
encaradas como simples passatempo, diante do que os aguarda ainda.
Ao menos, os desconhecidos guardiães
do segredo da imortalidade recorrem a toda a gama de truques psicológicos para desencorajar
os tímidos entre os perseguidores.
Perry Rhodan, entretanto, convicto
do alto destino da Humanidade, não desiste tão facilmente. Seguindo obstinadamente
em seu rumo, acaba deparando com a CHARADA GALÁCTICA.
= = = = = = = = = = Personagens Principais:
= = = = = = = = = =
Perry Rhodan — Elemento número um de poder, não
só na Terra, mas também no sistema Vega.
Reginald Bell — Confidente e amigo íntimo de Rhodan.
Dr. Frank M. Haggard — Ministro da
saúde da Terceira Potência e fundador da Clínica Arcônida.
Sargento Groll — Com seu caça, vasculha o sistema
Vega em companhia de Lossos.
Crest e Thora — Dois arcônidas genuínos.
Ras Tshubai, Anne Sloane, Betty Toufry, John Marshall — Membros do Exército de Mutantes
da Terceira Potência.
Lossos — Cientista-chefe
dos ferrônios.
1
O Sol era um minúsculo ponto luminoso no espaço
cósmico, perdendo-se completamente entre a multidão de estrelas. Estava exatamente
a vinte e sete anos-luz de distância.
Em seu lugar, outro sol ocupava o firmamento.
Uma imensa bola de fogo, de dimensões inacreditáveis, cujos raios branco-azulados
estorricavam os planetas mais próximos. Mas a estrela Vega tinha planetas de sobra,
e podia dar-se ao luxo daquele desperdício. A zona habitável do sistema restringia-se
à faixa contendo os planetas de número sete a onze.
O objeto, um gigantesco globo de metal opaco,
distanciou-se do sol, ultrapassou a órbita do novo planeta e foi se aproximando
do décimo. Seus movimentos denotavam nitidamente que se tratava de uma máquina voadora
tripulada por seres inteligentes. Para o observador superficial, poderia ser tomado
por algum satélite artificial, girando perpetuamente em torno de Vega; porém as
deliberadas mudanças de rumo e a velocidade inconstante desfaziam logo tal impressão.
Aquela esfera vinha a ser a espaçonave de uma raça altamente desenvolvida no setor
tecnológico.
Seu diâmetro devia medir bem oitocentos metros.
E a central de comando era ocupada por seres humanos. Estes observavam atentamente
as numerosas telas de imagens convexas, engenhosamente distribuídas de modo a cobrir
cada centímetro do espaço circundante externo. Um desenhador eletrônico zumbia incessantemente,
traçando num grande papel branco os resultados gráficos dos cálculos feitos. Aos
poucos se delineava um esquema que parecia interessar extraordinariamente aos presentes.
— Isto viria confirmar suas suposições, segundo
tudo indica — disse um dos homens, serenamente. Mantinha-se um tanto afastado e
destacava-se dos demais por sua alta estatura. Os cabelos brancos não o faziam parecer
mais velho, apenas mais sábio Apesar da semelhança física com os habitantes terrestres,
provinha de um sistema estelar muito distante, centro do decadente Império Galáctico
dos arcônidas.
— Que concluiu disto, Perry?
Perry Rhodan abandonou o escrutínio do mapa
que estava sendo traçado, e encarou Crest, respondendo:
— Ainda não podemos dar por confirmadas as
informações de Lossos, porém isso não demorará. Em breve saberemos ao certo se são
exatas ou não. Mas também podemos estar seguindo uma pista errada.
Lossos, o cientista-chefe do oitavo planeta
do sistema Vega, expressou seu pesar por não poder contribuir com esclarecimentos
mais decisivos. Era o único vivente a bordo que denotava à primeira vista a origem
extraterrena. O físico baixo e atarracado revelada a existência de gravidade mais
elevada em seu planeta natal. A testa anormalmente saliente protegia os olhos, profundamente
enterrados nas órbitas, da intensidade de luz solar; a basta cabeleira servia de
defesa contra a forte radiação ultravioleta dos raios de Vega. Seres humanos não
podiam dispensar a cobertura da cabeça no planeta-mãe de Lossos.
— Apenas constatei uma curiosidade astronômica
— disse o ferrônio, quase como quem se desculpa. — O senhor me fez perguntas sobre
determinado assunto, e procurei me tornar útil.
— Por favor, não me entenda mal! — interveio
Rhodan, conciliador. — Como sabe, viemos para este sistema em busca de um planeta
que deveria estar aqui; segundo consta, na décima órbita em torno do sol Vega.
Rhodan lançou um olhar ao mapa que estava sendo
traçado; a pena registradora desenhava agora a órbita do trigésimo nono planeta.
Como Vega possuía quarenta e dois planetas, o mapa estaria concluído dentro de mais
alguns minutos.
— Segundo nos foi dado observar até agora —
continuou Rhodan — não há vida no décimo planeta. Mas eu vou mais além: jamais existiu
vida no décimo planeta deste sistema, sob forma alguma. Nossa intenção é apenas
tentar esclarecer tal contradição.
Um homem adiantou-se dos fundos da central
de comando, empurrando levemente para o lado os doutores Frank M. Haggard e Eric
Manoli. Era baixote, de rosto redondo com traços pouco marcados, no qual boiavam
dois olhos de um azul muito pálido. Os cabelos ruivos eriçados lembravam cerdas
de escova. Ignorando os protestos dos dois médicos, postou-se diante de Rhodan.
— Prezado comandante! Um humilde e insignificante
auxiliar tem permissão de externar sua opinião? Em caso afirmativo, gostaria de
dizer que não percebo contradição alguma. O arquivo central arcônida menciona o
décimo planeta de um sistema que é inegavelmente idêntico ao de Vega. Diz ainda
que neste planeta existiram seres que descobriram o segredo da conservação celular,
e, com isto, o da vida eterna. Uma vez que achamos o referido planeta, constatando
que não há vida nele, não seria o caso de se pensar em contradições, e sim num erro
do arquivo. Erramos de sistema, só isso. Em algum ponto do espaço, daqui a Árcon,
deve existir outro sistema de características semelhantes às deste. Meu ponto de
vista é este!
Rhodan sorriu misteriosamente. Trocou um rápido
olhar com Crest, aflorou Thora com os olhos e acenou para Lossos. Depois voltou-se
para o mapa que os registradores traçavam. A órbita do quadragésimo segundo planeta
acabava de ser desenhada.
— Gostaria de concordar com você, Bell. Pode
crer, meu velho, gostaria mesmo... No entanto, há alguns detalhes que precisam ser
levados em consideração. Os arcônidas não se enganaram há dez mil anos. E o arquivo
está certo. O planeta da vida eterna encontrava-se de fato no sistema Vega, girando
em torno de seu sol entre o nono e o décimo primeiro mundo.
— Quer dizer que...
— Calma, Bell! — advertiu Rhodan, reprimindo
o excessivo zelo do amigo. — Já vou chegar lá. Viemos parar aqui porque metemos
na cabeça a idéia de encontrar o tal mundo da vida eterna. Os ferrônios do oitavo
planeta não puderam fornecer indício algum; ou não quiseram. Mas pelo menos nos
revelaram que haviam sido visitados há dez mil anos por uma raça de viajantes do
espaço, que lhes doou transmissores de matéria. Disseram igualmente que os seres
da raça estranha viviam mais do que o sol. Mas foi só, e todas as nossas suposições
se baseiam nisto. No entanto, juntando os dados fornecidos pelo arquivo central
arcônida, forma-se um quadro bem mais delineado. O sistema Vega é a terra natal
dos imortais. E agora, considerando dois fatores novos, eu reformulo a frase: era
a terra natal dos imortais.
De relance Rhodan percebeu o acento afirmativo
de Crest.
— Que pretende dizer com isso? — resmungou
Bell.
— Um exame mais minucioso das fichas mostrou
que elas falam de um sistema com quarenta e três planetas, meu caro. Já deve ter
percebido que Vega tem apenas quarenta e dois. Portanto, poderíamos concluir que
estamos no sistema errado. Prosseguindo: o mundo indicado deveria ser o décimo,
porém certificamo-nos de que não há nem nunca houve, vida nele. Nem o menor vestígio...
Logo, algo está errado. Existe uma contradição. Mas Lossos apontou-me a solução,
mencionando a existência de uma lacuna entre o nono e o décimo planeta. Os dados
que me forneceu conferem com o mapa desenhado pelo registrador.
Rhodan tirou o papel da máquina, cujo zumbido
cessou. Os telescópios-radares recolheram-se aos seus abrigos; tinham examinado
todos os corpos celestes existentes no sistema, calculando sua velocidade de translação,
o afastamento do sol, e registrado graficamente os resultados. Agora o mapa exato
do sistema Vega se encontrava diante deles.
— Olhem bem para este mapa, meus amigos. Ele
nos responde pelo menos a uma pergunta: como é que dados corretos podem parecer
falsos.
Bell dispensou o exame do mapa.
— Não está querendo dizer que...?
— Estou, sim! É exatamente isso que penso.
No sistema Vega falta um planeta!
Havia distância suficiente entre o nono e o
décimo planeta para supor a existência de outro entre ambos.
— Como se explicaria o fato? — indagou Crest.
Seus olhos vermelhos de albino cintilavam.
Derradeiro descendente de uma raça outrora poderosa, cuja degeneração acelerara
a derrocada do poderoso Império, ele colocava todas as suas esperanças na
descoberta da civilização que conhecia o segredo da vida eterna; ou que o
conhecia supostamente. A pista os levara até ali. E perdia-se de repente no
vazio do espaço.
— Uma única resposta é imaginável — disse
Rhodan, pensativo. — O planeta que circulava outrora nesta órbita em torno de
Vega emigrou do sistema em época indefinida. O planeta inteiro, com todos os
seus moradores!
— Vá contar essa a outro! — reclamou Bell,
indignando-se contra uma hipótese que nem sua viva imaginação poderia aceitar
em sã consciência. — Vê lá se a gente pode tirar um planeta do lugar assim sem
mais nem menos!
— Você ainda não viu nada! — profetizou
Rhodan, apontando para o mapa — Olhe, velho, isto aqui prova que perdemos a
pista. Ela se perde no sistema Vega, no lugar vazio entre o nono e o décimo
planeta. A raça imortal deu o fora. Querendo guardar seu segredo para si mesma
talvez, segundo tudo indica. Porém na realidade demonstraram disposição para
partilhá-lo com uma raça de nível semelhante. Temos provas disso. Os
transmissores de matéria dos ferrônios, que eles jamais construíram nem
entenderam, representam o início de nova pista. Os imortais pretendiam despertar
com eles o interesse de alguma raça dotada de raciocínio. E só seres capazes de
pensar na quinta dimensão estariam em condições de compreender como eles
funcionam. Com o que fica estabelecida a primeira condição: apenas seres com
raciocínio pentadimensional merecem conhecer o segredo da vida eterna.
— E nós fazemos semelhante coisa? —
murmurou Bell, chateado.
— Nossos cérebros positrônicos se
encarregam disso por nós — respondeu Rhodan. — Não nos indicaram o meio de
abrir o cofre nos subterrâneos do Palácio Vermelho?
O palácio do governo dos ferrônios ficava
em Thorta. a capital, assim denominada em homenagem ao Thort, o soberano de
Ferrol. As arcadas subterrâneas abrigavam uma espécie de cofre, trancado por
uma fechadura de tempo, no qual estavam guardados os planos de construção dos
transmissores. Com a ajuda de seus mutantes Rhodan conseguira retirá-los de lá.
— O cofre — continuou Rhodan — nos
indicará sem dúvida os próximos passos a seguir. Será uma verdadeira caçada
pelo espaço essa busca ao planeta emigrado, e também uma corrida através dos
milênios. Pois os imortais devem ter tomado a decisão de abandonar o sistema
Vega já há milhares de anos. Tenho certeza de que daremos em breve com novo
indício. Pois os imortais desejam ser encontrados algum dia; só que fazem questão
de que seja o povo certo.
— Seremos o povo certo? — indagou Crest, baixinho.
— Se os encontrarmos, sim! — murmurou Rhodan,
pensativo.
A busca ao planeta da vida eterna entrara numa
fase decisiva. A imensa espaçonave esférica contornou mais uma vez o décimo planeta,
em busca de sinais de vida presente ou passada. Mas as observações anteriores foram
integralmente confirmadas: tratava-se de um mundo morto, desprovido de vida, e quase
estéril. Tanto sua aparência, quanto as condições físicas, se assemelhavam a Marte.
A Stardust-III retornou a Ferrol, aterrizando
nas proximidades da capital, no improvisado espaçoporto da base. Mal o gigantesco
globo tocou o solo, o campo de proteção energético entrou em ação; o hemisfério
de força concentrada cobriu a base inteira, tornando-a imune a qualquer ataque.
Reunindo seus colaboradores mais chegados,
Rhodan recapitulou brevemente os resultados dos esforços até então empreendidos.
— Podemos afirmar que a raça imortal habitava
o décimo planeta deste sistema, a não ser que tenham vindo de fora para se estabelecer
nele. Também podemos estar certos de que o atual décimo planeta era o décimo primeiro
no tempo dos imortais, enquanto o mundo da vida eterna se afastou do sistema. Considerando
os inimagináveis conhecimentos técnicos e científicos de uma civilização que descobriu
o segredo da perene renovação celular, não é de surpreender que pudessem igualmente
deslocar à vontade todo um planeta. Desconhecemos os motivos de tal decisão, porém
é permissível supor que equiparam seu inundo para viajar no espaço, como se fosse
uma nave, dando as costas ao sistema solar original. Ignoramos o rumo tomado, mas
Crest e eu julgamos que o cofre sob o Palácio Vermelho talvez nos forneça uma pista
a respeito. Interrogamos exaustivamente nosso cérebro positrônico. E ele afirma,
inequivocamente, que a raça desconhecida não pretende sumir sem deixar rastros...
Retirou-se deste sistema apenas para dar a quem a procura a oportunidade de demonstrar
sua inteligência e capacidade. Não foi difícil chegar ao décimo planeta do sistema
Vega. Nossa tarefa real será seguir, através da quinta dimensão, a pista que se
iniciou lá. Estamos apenas no início de nossa busca à vida eterna.
— Ora, a coisa é simples! — exclamou Bell,
triunfante. — Ras Tshubai já entrou na arca uma vez; não vejo impedimento para ele
repetir a proeza. É só entrar, e apanhar os indícios necessários.
Crest sorriu indulgentemente. Ao seu lado encontrava-se
Thora, a ex-comandante da expedição arcônida malograda que fora forçada a pousar
na Lua. Sua opinião sobre o primitivismo da raça humana não se modificara muito
desde então. Sentia a constante necessidade de salientar a superioridade dos arcônidas
diante dos terráqueos. Mesmo segundo os padrões destes, Thora era uma mulher bela,
de idade indefinível. Seu íntimo era um conflito turbilhonante de ódio e admiração,
repulsa e amor, violenta oposição e incondicional aceitação. Detestava Bell. E às
vezes detestava-se a si mesma.
— Você recebeu, assim como Rhodan, o treinamento
hipnopédico arcônida — disse ela, com acentuado desdém. — Não compreendo por que
faz observações tão impensadas. Mais uma prova da imaturidade da raça humana...
— Não nos reunimos para discutir a maturidade
ou imaturidade de nossas respectivas raças — interrompeu Rhodan, piscando apaziguadoramente
para Bell. — Reginald não está a par do resultado de minha conferência com o cérebro
positrônico. Leve este fato em consideração, Thora. Talvez seja interessante ouvir
de Crest uma exposição a respeito.
O cientista arcônida prontificou-se a falar.
— Com a ajuda de alguns dos mutantes, principalmente
da telecineta Anne Sloane, do teleportador Ras Tshubai e do vidente Sengu, Rhodan
conseguiu abrir a arca durante alguns segundos. Alguns segundos, nada mais. Com
isso foi constatado que todos os objetos nela guardados pelos desconhecidos não
estavam depositados em determinado espaço, porém no tempo. O africano Ras Tshubai
foi lançado ao passado, milhares de anos para trás, e ali encontrou a caixa contendo
os planos de construção dos transmissores de matéria. O processo todo não durou
mais de dez segundos. Sabemos agora que a arca é formada na realidade por raios
cósmicos enfeixados, e que não pertence ao plano de tempo presente. Sabemos também
que todo e qualquer objeto depositado na arca pode ser trazido de volta ao presente,
onde, ou melhor, em que época se encontre. As informações encontradas na caixa foram
suficientes para fornecer ao cérebro positrônico os pontos de referência necessários.
Com isto, nossa próxima etapa está determinada.
Bell encontrou os olhares dos médicos Haggard
e Manoli. Deu de ombros. Que culpa tinha, se eles não acreditavam na vida eterna?
Pessoalmente não se importaria nem um pouco de atingir os mil anos de idade ou mais.
— Continua sendo importante manter a posição
galáctica da Terra em sigilo — disse Rhodan, retomando a palavra. — Portanto, as
comunicações hiper-radiofônicas entre a base e a Terra serão limitadas. O Universo
não é vazio e deserto, porém povoado por muitas raças inteligentes. E elas estão
atentas para todo o atrevido que começa a apontar suas antenas para as estrelas.
Nem todas elas são de índole pacífica, conforme verificamos pessoalmente. Mediante
os chamados sensores estruturais, algumas delas são até capazes de registrar o hipersalto
de nossa Stardust-III através de milhares de anos-luz. Mas nada disso é novidade
para nenhum de nós. E justamente por esta razão, eu prefiro não retornar à Terra
por enquanto. Uma breve mensagem radiofônica será suficiente. Depois disso, traremos
o conteúdo da arca para o presente, a fim de estudá-lo com toda a calma.
— Há mais objetos na arca, além daquela caixa?
— indagou Haggard.
— É provável — confirmou Rhodan. — Porém estão
em planos de tempo diversos.
A nova fórmula trará todos eles simultaneamente
para o presente. Será restabelecida a situação existente por ocasião da criação
da arca.
— Esconderijo genial, pensando bem! — comentou
Bell, impressionado. — Estou verdadeiramente curioso por ver que tesouros encontraremos.
Por mim, a festa poderia começar com a receita da imortalidade.
— Possível, mas pouco provável, velho. Creio
que os imortais imporão condições bem mais severas aos possíveis herdeiros...
— Como é que a gente pode ser herdeiro de gente
imortal? — perguntou Bell, julgando a pergunta perfeitamente lógica.
— Para não confundir sua mentalidade jurídica,
reformulo a questão — disse Rhodan, bem-humorado. — A raça desconhecida faz exigências
severas àqueles com quem se dispõe a repartir seu segredo.
— Porém o caminho até eles é longo — disse
Crest, compenetrado. — Muito mais longo do que o caminho para Árcon.
— Precisamos conversar sobre isso em particular,
Crest — observou Rhodan. — A quatro olhos. Ou melhor, a seis, pois Thora vai querer
estar presente também.
— Faço questão disso, Rhodan — afirmou a comandante
arcônida. — E trate de arranjar argumentos convincentes.
* * *
A vinte e sete anos-luz dali, a Terra transitava
inalterada em torno de seu sol. No entanto, naqueles últimos anos a estrutura política
de seus países sofrera sensíveis modificações, impostas pelas circunstâncias. A
expedição arcônida malograda colocara entre as mãos de Perry Rhodan, Reginald Bell
e Eric Manoli, os primeiros lunautas terrestres, um poder incomensurável. A nova
tecnologia capacitou-os a evitar a eclosão da guerra atômica, e a unificar as nações
do globo terrestre. Ainda continuavam existindo três grandes blocos de poder, na
verdade — o Leste, o Oeste e a Federação Asiática — porém a potência criada por
Rhodan impunha a paz. A base inicial no deserto de Gobi expandira-se grandemente,
fazendo surgir a cidade de Galáxia, a mais moderna do mundo, com gigantescos arranha-céus
e estradas de inigualável perfeição.
Quando ausente, Rhodan era substituído pelo
coronel Freyt. Além do nítido parentesco espiritual, os dois homens apresentavam
impressionante semelhança física. Facilmente poderiam ser tomados por irmãos.
Freyt aparentava ser um homem ainda jovem.
Alto e magro, tinha rugas profundas nos cantos da boca, mas nos olhos brilhava constantemente
uma centelha de humor. Seu posto regular era o de comandante dos esquadrões de caça
espacial.
Tudo corria normalmente. As novas instalações
industriais funcionavam plenamente, atendendo aos pedidos feitos. O mundo começava
a sujeitar-se à dependência econômica de Perry Rhodan.
O centro vital daquela imensa cidade, de aparência
quase cósmica, ficava debaixo de uma cúpula energética constantemente ativada. A
segurança era total, pois nem mesmo a mais potente bomba nuclear conseguira romper
a barreira. Por mais de uma vez ela comprovara sua resistência.
No presente, não existiam injunções políticas
que justificassem a manutenção contínua na cúpula protetora; porém não havia como
se opor à ordem explícita de Rhodan. Freyt sabia que as medidas preventivas de seu
chefe não eram motivadas por homens, mas sim por possíveis agressores extraterrenos.
Desconhecidos que poderiam a qualquer movimento descobrir a posição da Terra e vir
atacá-la.
O dia findava. Freyt contemplava o firmamento
crepuscular. Fazia semanas que não tinha notícias de Rhodan. O que estaria acontecendo
lá no sistema Vega? A invasão dos tópsidas, os cruéis lagartos gigantes, teria sido
repelida? Os ferrônios oprimidos teriam reconquistado sua liberdade? O planeta da
vida eterna já teria sido encontrado?
Perguntas e mais perguntas, e nada de respostas.
Freyt suspirou. Rhodan poderia dar-se por satisfeito
quando voltasse. O mundo inteiro estava ao seu lado, apoiando suas aspirações de
engrandecer o poderio da Terra. Surgiam os primeiros sinais para o estabelecimento
de um governo mundial devidamente planejado.
De um edifício próximo saiu um homem fardado
de tenente. Freyt reconheceu-o logo. O russo Peter Kosnow, oficial de ligação com
o Bloco Oriental. Seus cabelos louros, cortados à escovinha, mostravam reflexos
avermelhados à luz do sol poente.
Kosnow mudou de rumo ao avistar o comandante.
Saudando cordialmente, disse:
— Se eu fosse o senhor, não ficaria aí admirando
o pôr do sol, mas iria correndo à central radiofônica. Isto é, para o hiper-transmissor!
Freyt estremeceu involuntariamente.
— Notícias de Rhodan? Homem, está brincando?
— Não é do meu feitio — tranqüilizou-o Kosnow.
— A mensagem acabou de ser transmitida, e já está sendo reprisada. Se correr, ainda
pega a terceira emissão direta.
— Está tudo em ordem? — indagou Freyt, ansioso,
já acelerando o passo.
— Lógico! — respondeu o russo risonho, tomando
direção oposta.
Freyt atravessou a estrada asfaltada às carreiras;
subiu a escada na entrada saltando os degraus de dois em dois. A seguir tomou o
elevador para a cúpula da estação transmissora.
Os gravadores ligados registravam a transmissão.
O operador de plantão levantou os olhos ao ver entrar Freyt, acenou brevemente,
e voltou a ocupar-se com suas tarefas. Naquele momento iniciava-se a terceira repetição
da mensagem provinda dos confins do espaço. As hiperondas não requeriam tempo algum
para vencer a distância de vinte e sete anos-luz. Portanto, naquele preciso momento
Perry Rhodan encontrava-se diante do enorme complexo transmissor da Stardust-III,
enviando sua mensagem.
— Perry
Rhodan, falando da Stardust-III. Atenção, coronel Freyt, cidade de Galáxia Tópsidas
expulsos do sistema Vega. Ferrônios novamente livres. Tratado comercial com o mundo
deles e o nosso em andamento. Preparar instalações industriais B7A e 42C para fabricação dos bens de
troca. Continuar mantendo secreta posição de nosso planeta; requisito essencial,
mesmo para os ferrônios. Stardust-III continua em Vega por enquanto. Novas mensagens
quando necessário. Emissões hiper-radiofônicas ainda suspensas, para não chamar
as atenções sobre localização da Terra. É tudo. Tripulação da Stardust-III envia
saudações a todos os companheiros da Terceira Potência. Tudo de bom! Rhodan.
Não houve mais nenhuma repetição. O sussurro
do transmissor emudeceu.
— As primeiras transmissões foram iguais a
esta? — perguntou Freyt ao operador.
— O mesmo texto, coronel. Receberá uma cópia
escrita.
— Obrigado.
Freyt deixou a central radiofônica com passo
lento.
Um acordo comercial com os ferrônios! Um dos
objetivos de Rhodan consumado: relações comerciais pacíficas com uma raça extraterrena.
A primeira base extra-solar da Terra — para Freyt, Rhodan era indiscutivelmente
o representante legítimo da Terra — havia sido instalada. Além disso, a permanência
da Stardust-III no sistema Vega indicava que havia tarefas adicionais a cumprir.
Teriam ligação com o misterioso planeta do
qual Bell vivia falando com tanto entusiasmo por ocasião de sua última visita?
Fosse como fosse, os encargos de Freyt estavam
delineados.
O sol desaparecera. Freyt estremeceu, sentindo
frio. O sistema de ventilação soprava o ar frio do deserto para dentro da cúpula
energética. O antigo isolamento do mundo exterior já não era tão completo.
— Um novo capítulo de nossa História começa
— murmurou Freyt para si mesmo, enquanto se encaminhava vagarosamente para o bangalô
no qual morava. — Só que a Humanidade ainda não sabe disso...
2
Lossos, o cientista ferrônio, não ocultara
a Rhodan suas dúvidas. Solicitara uma audiência, logo concedida, porque Rhodan apreciava
o simpático velho. Porém a entrevista teria que aguardar o término da conferência
particular com Thora e Crest, ainda em andamento.
A ex-comandante arcônida resumiu:
— Portanto, nossas respectivas posições estão
claramente delineadas, Perry Rhodan. Você quer usar a Stardust-III, uma nave de
guerra arcônida, para expandir seu reino terreno. Nós queremos retornar com ela
ao nosso planeta natal. E em conjunto desejamos achar o planeta da vida eterna,
valendo-nos da Stardust-III e do cérebro positrônico. Teremos que tentar a consecução
destes três objetivos sem prejudicar nenhuma das partes. Logo, será preciso estabelecer
as respectivas prioridades.
— Certo, Thora — interrompeu Crest, gravemente.
— Alegro-me ver que pensa assim. Mas, antes de precipitar qualquer decisão, poderíamos
pôr-nos de acordo num ponto: procurar em primeiro lugar o planeta da vida eterna.
Uma vez conseguido isto, as circunstâncias resultantes determinarão o empreendimento
seguinte.
— Concordo plenamente com sua sugestão — disse
Rhodan, satisfeito. — Uma vez alcançado este objetivo, não haveria inconveniente
algum de minha parte em realizar o vôo para Árcon, denunciando assim à sua raça
a posição da Terra.
— Revelando-a — corrigiu Crest, com um ligeiro
sorriso. — Eu diria que no caso não se aplicaria o termo “denunciar”.
— Façamos um pacto, então — disse Thora, estendendo
ambas as mãos para Rhodan. — A seqüência será: a busca ao planeta da vida eterna,
Árcon, e depois a Terra, com todas as conseqüências resultantes. De acordo?
Tomando as mãos dela entre as suas, Rhodan
concordou.
— Certo, meus amigos. Mas eu gostaria de acrescentar
uma pequena condição ao nosso pacto, caso nada tenham a opor.
— Que condição? — perguntou Thora, desconfiada.
— Nada de grave, não se preocupe — replicou
Rhodan, com um sorriso compreensivo. — Eu gostaria que os arcônidas só tomassem
conhecimento das coordenadas espaciais da Terra quando eu julgar o momento apropriado.
Pois nós terrenos não temos a menor vontade de ver nosso planeta tornar-se colônia
de um reino estelar em decadência. Afinal, por mais duro que seja confessá-lo, vocês
não podem deixar de reconhecer que a raça arcônida degenerou. Concordamos em comerciar
com ela e apoiar os arcônidas na conservação do Império, porém não queremos criar
novas fontes de atrito. Que acham?
— De acordo — disse Crest.
Os dois homens fitaram Thora. Após curta hesitação,
ela respondeu:
— Pois bem, também estou de acordo. Estou certa
de que o conselho de nosso esclarecido governo compreenderá suas ponderações. Estamos
entendidos, então, e podemos partir para a realização do nosso objetivo comum. Quanto
mais depressa encontrarmos o misterioso planeta, tanto mais depressa poderemos rever
Árcon, nossa pátria.
— Fico-lhes grato por confiarem em mim. Logo
após a palestra com Lossos poremos mãos à obra.
— Que é que o ferrônio quer de você? — indagou
Crest, curioso.
— Ainda não sei Disse que queria conversar
comigo. Talvez ainda tenha se lembrado de algum detalhe importante. Quem sabe?
Deixando os dois arcônidas sozinhos, Rhodan
dirigiu-se a outra peça, onde Lossos já esperava impaciente. Sem sequer erguer-se
ao ver Rhodan entrar, o ferrônio começou precipitadamente, sem introdução alguma:
— Eu devia ter pensado nisto antes! Porém só
agora me ocorreu esta possibilidade.
— Que possibilidade?
— Que nosso sistema continue com todos os quarenta
e três planetas originais.
Rhodan não respondeu. Visivelmente perplexo,
não entendeu. Fato que o ferrônio constatou com muda satisfação, sem, no entanto,
deixar transparecê-la. Excitado, prosseguiu:
— Não manifestou a hipótese de que os misteriosos
desconhecidos, inopinadamente aparecidos em Ferrol há dez mil anos, deixando-nos
os hipertransmissores, foram capazes de levar seu planeta para onde bem entendessem?
E nós todos supusemos, implicitamente, que eles abandonaram nosso sistema, aceitando
sua hipótese como tecnicamente realizável. Pois bem, nossa suposição pode ser falsa.
Acho que eles talvez continuaram neste sistema, mudando apenas de local.
Rhodan sentara-se enquanto Lossos expunha sua
teoria.
— E que local seria este? — indagou, com a
testa enrugada.
O ferrônio sorriu evasivamente.
— Pergunta-me demais, pois também não sei.
É um mero palpite... Numa das luas gigantes que gravitam em torno dos nossos planetas
maiores, talvez. Ou podem ter empurrado algum planeta desabitado para fora do sistema,
ocupando seu lugar. Desta forma, quem tencionasse procurá-los seguiria instintivamente
na pista do planeta emigrado. Não é exatamente isso que você pretende fazer?
— Seus argumentos não deixam de ter fundamento
— disse Rhodan, cautelosamente — mas não passam de hipótese. Por que motivo seres
possuidores de tecnologia tão avançada se dariam tanto trabalho só para mistificar
alguém? Sem dúvida possuíam armas suficientemente eficientes para manter à distância
qualquer oponente. Pessoalmente, acho que eles fazem toda essa brincadeira de esconde-esconde
apenas para se divertir; porém a brincadeira no fundo é séria. Eles desejam ser
encontrados; e é por aí que precisamos começar. Deixaram uma pista, e a pista aponta
para fora deste sistema.
— Então permita-me ao menos procurar eu mesmo
o tal planeta, no âmbito do sistema Vega! Assim que o encontrar, mando-lhe imediatamente
aviso.
Rhodan refletiu. A teoria de Lossos não era
totalmente desprezível nem absurda; apenas pouco provável. Não seria justo impedi-lo
de fazer suas próprias explorações; pelo contrário, seria até suspeito. Os ferrônios
possuíam uma frota espacial bem aparelhada, e nada os impedia de iniciar espontaneamente
tal empreendimento. E se o planeta da vida eterna efetivamente...
— Não tenho nada a opor — replicou, portanto,
Rhodan. — Pode contar com o apoio de um de meus caças espaciais, naturalmente. As
cabinas são um tanto apertadas, mas conseguiremos acomodar duas pessoas nelas, retirando
algum equipamento de menos importância. Vou ordenar a Deringhouse que mande aprontar
um caça espacial com o respectivo piloto. Mantenha-se em contato radiofônico constante
conosco.
O idoso ferrônio empertigou o corpo baixo.
A estatura reduzida fazia-o parecer mais jovem.
— Agradeço-lhe, Rhodan. O sucesso que eu puder
obter será igualmente seu.
Sob o olhar pensativo de Rhodan, Lossos se
retirou.
* * *
Seguiu-se ainda uma terceira conferência.
Reginald Bell reunira o Exército de Mutantes
para planejar a ação. A reunião realizou-se nas primeiras horas da tarde do longo
dia ferrônio. Perry Rhodan não tomaria parte nela, porém dera a Bell as instruções
necessárias. Os mutantes foram chegando um a um.
As emissões radioativas provocadas pelas explosões
atômicas das grandes nações terrestres tinham passado despercebidas de início; porém
já nas primeiras gerações vindas ao mundo depois delas foram constatados defeitos
genéticos. Nem todos eram de natureza negativa. Faculdades inéditas, até então adormecidas
em estado latente no homem, ativavam-se de repente. Rhodan percebera prontamente
a potencial utilidade daqueles mutantes, e selecionara os melhores entre eles, colocando-os
a seu serviço. Por mais de uma vez todo o poderio de Rhodan fora protegido e mantido
por obra exclusiva de seus mutantes.
Bell assustou-se, como sempre, quando o teleportador
japonês Tako Kakuta se materializou repentinamente ao seu lado. Emergindo do nada,
quase lhe pisou nos pés.
— Tomara que algum dia você calcule mal a distância
e vã parar numa fornalha! — resmungou ele, furioso. Não se conformava com o fato
de ser sempre surpreendido com o conhecido processo. Em voz formal, acrescentou:
— Caso se atreva, mais uma só vez, a assustar seu superior, Tako, vou providenciar
sua detenção em solitária por três dias!
— Será um prazer — respondeu o japonês, arreganhando
os dentes num imenso sorriso, e piscando para seu colega Ras Tshubai, que acabava
de entrar de maneira normal. — Mas não se esqueça de providenciar o competente campo
energético pentadimensional em torno da cela, com cadeado de tempo, senão escapulo
quando bem entender.
Bell preferiu não responder; sabia que não
adiantaria nada. Prevenindo novos aborrecimentos, dirigiu-se a Anne Sloane e a Betty
Toufry, a jovem mutante. Tanto ela como Anne eram excepcionais telecinetas. Usando
unicamente sua força mental, elas podiam movimentar matéria a qualquer distância.
Betty era, além disso, telepata; geralmente trabalhava em conjunto com John Marshall,
o outro telepata do Exército de Mutantes. Quinze deles encontravam-se reunidos ali.
Tirando um pedaço de papel do bolso, Bell tentou
decifrar a própria letra por dois minutos. Depois tornou a enfiá-lo no bolso, fazendo
votos de não ter esquecido item algum.
— Meus amigos!— exclamou ele, saltando com
surpreendente agilidade para cima de uma mesa, de onde poderia supervisionar comodamente
os presentes. — Perry Rhodan precisa da colaboração de vocês. Serei breve, pois
dispomos de pouco tempo. Vocês todos conhecem, pelo menos de fama, a arca pentadimensional
do Palácio Vermelho. Ras Tshubai conseguiu penetrar nela, sendo arrastado a uma
involuntária viagem pelo tempo, que o fez regredir até as origens do Universo. Nós
vamos entrar novamente nesta arca, mas desta vez sem o risco de sermos lançados
ao passado ou, talvez, ao futuro. O cérebro positrônico avaliou e explanou os dados
recebidos. Com a fórmula resultante, um gerador arcônida produzirá um feixe de raios
neutralizadores da atuação dos raios cósmicos que formam a arca. Com isso, todos
os objetos nela guardados, num plano temporal variado, retornarão ao presente. Só
teremos o trabalho de recolhê-los.
“Nenhum de vocês terá tarefa específica por
enquanto. Porém é necessário que se mantenham de prontidão nas proximidades da arca
durante a experiência, para intervir assim que a ocasião o exigir.
“É tudo que tenho a dizer. Aguardem a chamada
em seus alojamentos. Seguiremos daqui para Thorta com o transmissor grande, diretamente
para onde se encontra a arca. Agradeço a presença de todos.”
Saltando lentamente da mesa, Bell deixou o
recinto.
* * *
O sargento Groll não demonstrou o menor entusiasmo
pela missão recebida. Ao receber o chamado do comandante Deringhouse, pensara logo
numa sortida ou vôo de reconhecimento com alguns colegas. Grandemente decepcionado,
soube que seria obrigado a vasculhar os planetas e luas do sistema Vega em companhia
de um velhote ferrônio.
Groll não teve outro recurso senão submeter-se
ao inevitável. Auxiliado pelo pessoal técnico da Stardust-III e por alguns pilotos,
desmontou as armas de bordo de seu caça, a fim de acomodar o cientista na apertada
cabina. Até o rádio foi retirado. Em troca Groll recebeu um pequeno e prático micro
transmissor, suficientemente potente para a comunicação de emergência dentro do
âmbito do sistema Vega. A cama de repouso sumiu, dando lugar a mais um assento.
Lossos embarcou com um maço de manuscritos
debaixo do braço, e indicou ao piloto que estava pronto para a partida. Graças a
um rápido treinamento hipnopédico, falava razoavelmente o idioma de Groll, mesmo
sem saber em que parte do Universo se falava tal língua. Mas pelo menos podia comunicar-se
com seu piloto.
— Os planetas internos nem entram em consideração,
por causa do clima pouco saudável, mas claro que ninguém pode saber o que seria
considerado saudável ou insalubre para os imortais — emendou rapidamente, — Diz
a tradição que eles provém de um mundo de clima frio. O décimo segundo planeta possui
três grandes luas. Vamos começar por elas, em primeiro lugar.
— Pois então vamos lá! — concordou o sargento
Groll, resignado.
Como uma gota prateada, o esguio aparelho mergulhou
no mar de estrelas diante deles.
* * *
Thora desistira no último momento de sua intenção
inicial de entrar na arca com os demais. Portanto, o grupo que na manhã seguinte
embarcou no hipertransmissor da base compunha-se apenas de Rhodan, Bell, Crest e
os mutantes.
O aparelho parecia uma enorme gaiola gradeada.
A apreciável quantidade de energia requerida para o transporte, em estado de desmaterialização,
através do hiperespaço, era fornecida por geradores. O manejo era simples, mas o
modo de funcionamento ninguém compreendia.
A porta foi fechada. Rhodan ajustou as coordenadas
e ativou a máquina. Não sucedeu absolutamente nada, o que conferia com o esperado.
Em distâncias curtas, não se fazia sentir o costumeiro efeito doloroso da desmaterialização.
Ao abrir a porta, encontravam-se em Thorta,
a capital de Ferrol. A guarda pessoal do Thort já os aguardava. Entre manifestações
da maior deferência, o grupo foi conduzido às arcadas subterrâneas, onde foram deixados
à própria sorte. Ferrônio algum se sentia disposto a enfrentar desnecessariamente
os espectros que assombravam o local.
Ras Tshubai realizou alguns saltos teleportados
a fim de sondar o terreno. John Marshall captava-lhe os pensamentos, transmitindo
o conteúdo aos demais. Desta maneira, Rhodan sempre estava informado sobre o que
tinha à sua frente.
O gerador, instalado na véspera, encontrava-se
na entrada do recinto abobadado em cujo centro ficava a arca. E ela se encontrava
realmente ali, apesar de invisível a olhos humanos e impenetrável a qualquer objeto
material. O invólucro protetor, erigido há milhares de anos por seres desconhecidos,
e repleto de inconcebíveis segredos, formava uma espécie de campânula de energia
pura no meio da peça. Ondas de rádio, emitidas do cosmo por fontes desconhecidas,
enfeixadas de alguma forma por algum equipamento invisível, formavam a invisível
arca. A telecineta Anne Sloane conseguira desviar estas ondas por instantes durante
a primeira experiência; a arca se abrira, permitindo a entrada de Ras Tshubai. No
entanto, aqueles poucos segundos não haviam sido suficientes para tomar conhecimento
de todo o conteúdo da arca. Fora, pois, com a maior satisfação que Rhodan recebera
do cérebro positrônico a fórmula neutralizadora dos raios provindos do cosmo. Um
efeito de polarização, conforme observara muito acertadamente Crest. E podia-se
fazê-lo durar à vontade, por quanto tempo se quisesse. Além disso, o cérebro positrônico
informara que o processo levantava simultaneamente a barreira de tempo. O que era,
evidentemente, o ponto mais importante no caso. Pois que lhes adiantaria penetrar
na arca se os objetos nela guardados se encontrassem a milhares ou milhões de anos
no passado ou no futuro?
Rhodan distribuiu os mutantes, posicionando-os
de modo que qualquer deles pudesse chegar à arca com poucos passos, em caso de necessidade.
Depois inclinou-se para o gerador. A regulagem estava correta. Voltando-se para
Crest, avisou:
— Bell e eu vamos entrar. Do Exército de Mutantes
levaremos inicialmente apenas Anne Sloane e John Marshall. Os demais ficam de prontidão.
Ainda não sabemos que espécie de capacidade será exigida, mas caso...
Todos compreenderam o que Rhodan pensava, de
modo que ele poderia ter dispensado o resto da frase.
— ...surgir alguma dificuldade, o mutante com
o dom apropriado precisa intervir sem demora, a fim de eliminá-la.
Após uma derradeira hesitação, Rhodan tornou
a se inclinar para o gerador. Calcou um botão, e com um leve clique o aparelho começou
a funcionar. A bateria atômica embutida forneceria a energia necessária para a geração
do feixe de raios polarizantes.
Em tensa expectativa o grupo aguardou.
Estariam corretos os cálculos do cérebro positrônico?
Os dados fornecidos seriam adequados? Um erro mínimo, e...
A sala subterrânea com suas paredes de pedra
natural parecia vazia. A visão era livre de lado a lado, até a parede oposta. Mas
Rhodan sabia que se tratava de urna ilusão ótica. Os raios luminosos, habilmente
desviados, eram distribuídos de tal maneira que o observador se julgava num recinto
vazio. Porém na realidade o centro da peça era ocupado pela invisível cúpula de
raios enfeixados. E ela oferecia resistência idêntica tanto a matéria sólida, quanto
a luz e ondas.
Rhodan repassava em pensamento aqueles detalhes
técnicos, quando seus olhos perceberam os primeiros sinais de alteração no ambiente.
No meio do salão o ar apresentava estranha cintilação. A parede oposta começou a
esfumar-se, as pedras pareciam oscilar, mudando de formato e posição. Depois dissolveu-se,
desaparecendo totalmente. O desvio dos raios luminosos deixava de existir.
Novos fatos surpreenderam o grupo.
Atônito, Bell viu surgir à sua frente objetos
misteriosos, materializando-se do nada. Quanto mais nítidos e concretos esses objetos
se tornavam, tanto mais diminuía a cintilação do ar. A barreira de raios cósmicos
se desfazia lenta e constantemente. Por fim cessou de todo.
Simultaneamente, os objetos por ela protegidos
do mundo exterior retornavam ao presente. Vindos do passado e do futuro, despojavam-se
de todas as características próprias da quarta e da quinta dimensão — tempo e dilação
de tempo — podendo agora ser vistos e tocados. Situando-se de repente no presente,
passavam a ser concretos e materiais. Transformavam-se em realidade.
— Puxa, que truque fantástico! — observou Bell.
— E no entanto é real... — replicou Rhodan,
num sussurro. — O melhor meio de guardar um objeto de maneira completamente segura
é enviá-lo para o futuro longínquo, onde ninguém pode se apoderar dele. Ele fica
lá, esperando, até que seja alcançado. Mas se fosse enviado para o passado...
— ...estaria perdido para sempre — completou
Crest. — A menos que se possa trazê-lo de volta, ou viajar fisicamente para trás
no tempo.
— Quer dizer que viagens no tempo são viáveis?
Sempre me pareceram mera ficção ou imaginação.
— Constituem o fundamento da quinta dimensão
— replicou Crest. — Assim como o espaço é o fundamento da terceira. Mas não me pergunte
demais por enquanto, Perry. Espere até chegar a hora de tratarmos deste assunto,
antes que se sinta tentado a fazer pouco caso dele. Se as viagens espaciais fossem
fáceis, nós, os arcônidas, já teríamos reagido há séculos à ameaça de desmoronamento
de nossa cultura.
Rhodan satisfez-se com a explicação. Parecia
lógica. Bell gemeu, desconsolado, enquanto Anne e John se mantinham imparcialmente
calados.
No meio do salão antes vazio surgira um novo
recinto, nitidamente delineado por caixotes e baús, cuidadosamente dispostos em
pilhas e filas. Era fácil visualizar junto a eles os seres desconhecidos, acumulando
ali, há milhares de anos, seus mais preciosos tesouros, para guardá-los no futuro.
Mas tratar-se-ia realmente de tesouros? Afinal, aquilo lembrava muito mais um depósito.
E no meio de tudo havia algo bastante familiar: um hipertransmissor de matéria!
Era do tipo médio, pois acomodava mais de uma
pessoa. Sua altura permitia deduzir que a raça desconhecida possuía estatura mais
ou menos semelhante à humana. Os mecanismos de controle não diferiam dos já conhecidos.
Um hipertransmissor... ali?!
A mesma pergunta se formou na mente de todos
os presentes: onde estaria o anti-transmissor, ou hiper-receptor, correspondente?
Onde iriam parar, caso entrassem naquele aparelho e o ativassem? Ou melhor, quando
se processaria a rematerialização?
* * *
A lua interna do décimo segundo planeta ainda
recebia calor suficiente da constelação-mãe para torná-la um mundo tolerável, livre
da total esterilidade. Também sua gravidade era bastante forte para sustentar considerável
camada atmosférica. O satélite 12A, conforme Lossos o batizara, poderia, em dadas
circunstâncias, ser portador de vida.
Groll sacudiu a cabeça quando Lossos lhe pediu
para sobrevoar lentamente, a baixa altitude, a lua 12A.
— Acha mesmo que uma raça imortal escolheria
lugar tão inóspito para passar o resto eterno de sua existência?
Espremido em seu apertado assento, Lossos perscrutava,
através da escotilha, o mundo escassamente iluminado. À sua esquerda, o vulto imenso
do décimo segundo planeta ocupava o campo de visão, em seu giro pelo espaço.
— O que penso é secundário, sargento. Nossa
obrigação é não deixar nada despercebido. Nada mesmo, entendeu? Essa raça esquisita,
que parecia ter como única preocupação a de propor enigmas aos outros, pode ter
conceitos radicalmente diversos dos nossos. Sabe lá, podem ter se recolhido ao interior
de seu planeta. Neste caso, e acho que concordará com o meu ponto de vista, a localização
do mundo em que vivem seria completamente indiferente. Poderiam vagar solitários
pelo Universo, sem sol, sem planetas vizinhos, sem luz nem calor. Por que não aqui?
Sem encontrar argumentos em contrário, Groll
preferiu calar-se.
Vista do alto, a lua 12A parecia morta e sem
vida. No deserto rochoso apenas esporadicamente se avistava alguma vegetação — único
sinal de vida orgânica. De raro em raro, magros fios de águas serpenteavam pelas
pedras, embebendo-se logo no chão ressequido. Não havia mares nem oceanos, e a lua
toda formava um só continente. Talvez existissem depósitos de água subterrâneos,
formados pela acumulação das infiltrações esparsas. Fato, no entanto, que não exerceria
a menor influência sobre o clima da superfície.
Depois de contornar a lua duas vezes, Lossos
disse:.
— Vamos pousar.
Groll reprimiu uma imprecação. Porém lembrou-se
a tempo das ordens do major Deringhouse: todos os desejos do cientista ferrônio
deviam ser atendidos sem objeções.
E justamente ele tinha que receber um encargo
daqueles!
O aparelho foi perdendo altura, circulando
a poucas centenas de metros por cima da paisagem morta.
— Onde?
— Aguarde mais um pouco — respondeu Lossos.
Atento e tenso, o sábio parecia procurar ansiosamente alguma coisa. — Prossiga a
esta altura, voando um pouco mais devagar, caso isso não lhe cause problemas.
Groll reduziu a velocidade, e o caça deslizou
mansamente por sobre os rochedos, cuja aparência era mais desoladora do que qualquer
outra cena presenciada pelo piloto em toda a sua vida.
Lossos, no entanto, parecia ser de opinião
contrária. Seus olhos não se desgrudavam da escotilha ovalada, perscrutando atentamente
o exterior. Duas horas depois o cientista reclinou-se por fim em seu assento.
— Acho que podemos dispensar o pouso. É pouco
provável que encontremos alguma coisa aqui. Siga para a lua 12B. Talvez tenhamos
melhor sorte lá.
O sargento Groll suspirou aliviado. Consultando
seu mapa, alçou-se de novo, vertiginosamente, para o espaço infinito. A lua 12A
desapareceu rapidamente abaixo deles.
* * *
— Creio que agora podemos ir — disse Rhodan,
pondo a mão sobre o braço de Crest. — O gerador garante o afastamento da barreira.
Enquanto a energia continuar a fluir, nada pode acontecer. E como você me afirmou
que isto continuará acontecendo pelos próximos milênios, temos tempo de sobra. Vamos,
pessoal!
Rhodan tomou a dianteira. Crest seguiu-o, após
imperceptível hesitação. Bell demorou mais a decidir-se, porém acabou avançando
igualmente, acompanhado de perto pelos dois mutantes. Os demais componentes do Exército
de Mutantes presenciavam a cena imóveis e silenciosos.
Rhodan alcançou o ponto em que anteriormente
a barreira invisível impedia a passagem. Agora o obstáculo já não existia, e Rhodan
penetrou na arca. Contornando um enorme baú, viu-se diante do hiper-transmissor.
Meramente por seu volume, este se destacava dos demais objetos ali acumulados. Instintivamente,
a mão de Rhodan procurou no bolso o pedaço de papel que trouxera consigo. Ele continha
uma frase misteriosa, traduzida e escrita pelo cérebro positrônico. As instruções
diziam que uma frase idêntica apareceria em algum lugar dentro da arca. Seria a
nova pista.
Crest parou ao lado de Rhodan. Nos olhos avermelhados
brilhava algo semelhante à incerteza. As mãos de dedos delgados tremiam levemente.
— Não pretende...?
Rhodan fitou Crest com um olhar quase dominador.
— Você desistiria agora, Crest? Assim tão perto
do objetivo? Não vai querer que eu acredite nisso, não é? Pelos menos nós, terrenos,
não entregamos os pontos com tamanha facilidade, quando o prêmio é alto. E este
é alto: a vida eterna...
— Ela não adianta nada quando se está morto,
Perry...
— Não deve ser esta a intenção dos desconhecidos,
Crest. Deixaram uma pista que leva inegavelmente até eles. Não se arriscam nem um
pouco. Pois apenas seres de natureza semelhante à deles serão capazes de encontrá-los.
Bárbaros incultos jamais atingiriam o planeta da vida eterna. Portanto pode estar
certo, Crest, de que os desconhecidos não tramam nenhum ardil mortal para nos apanhar.
Haverá obstáculos, sim, mas isso é parte da missão. Porém não marchamos ao encontro
da morte.
O inusitadamente calado Bell decidiu-se a falar:
— Sabe lá quando foi que esses seres deixaram
o hipertransmissor aqui, Rhodan! Você disse que foi há dez mil anos, quando abandonaram
o sistema Vega. Quanta coisa não prevista por eles pode ter acontecido desde então?
É bem capaz do hipertransmissor nos jogar em plena Vega!
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Fora de cogitação! Você subestima a inteligência
destes seres. Deviam saber, forçosamente, que se passariam séculos, ou até milênios,
antes que alguém desse com o início da pista. Calcularam as contingências astronômicas.
Nem se preocupe, eles não deixaram nada ao acaso.
Avançando alguns passos, Rhodan abriu a porta
gradeada do hipertransmissor. Os poucos controles correspondiam exatamente aos que
observara em Ferrol, sem a menor diferença. O hipertransmissor era idêntico aos
usados pelos ferrônios, com a diferença de que estivera até aquele momento em plano
de tempo diverso, no passado ou no futuro.
— Fiquem aqui! — ordenou Rhodan, com voz rouca.
— Eu vou sozinho. Se ele funcionar, deixando-me em local seguro, volto imediatamente
para buscar vocês.
— E em caso contrário? — exclamou Bell, aflito.
Rhodan deu de ombros, sem responder. Com um rápido olhar para Crest, entrou na espaçosa
cabina, onde caberiam folgadamente quatro a cinco pessoas.
— Quando eu tiver desaparecido — recomendou
Rhodan — aguardem um pouco. Não tomem iniciativa alguma, a fim de não pôr em risco
minha volta. Entendido?
Crest discordou.
— Não seria preferível que um de nós...?
— Não, Crest! Creio na boa vontade dos imortais.
Eles querem que alguém decifre este enigma. Eu não poderia desapontá-los, não acha?
Crest silenciou. Sorrindo para ele e Bell,
Rhodan acenou tranqüilizadoramente para Anne Sloane e para John Marshall, e baixou
a alavanca.
Deu-se algo surpreendente. Rhodan não se tornou
invisível nem desapareceu. Continuou de pé dentro da cabina, assim como entrara.
O hipertransmissor de matéria não funcionava.

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