sábado, 20 de outubro de 2012

P-014 - Charada Galáctica - Clark Darlton [parte 1]


Autor
CLARK DARLTON


Tradução
MARIA MADALENA WÜRTH TEIXEIRA


Digitalização
DENISE BARTOLO


Revisão
ARLINDO_SAN




As etapas até agora percorridas por Perry Rhodan e seus seguidores na busca ao planeta da vida eterna poderiam ser encaradas como simples passatempo, diante do que os aguarda ainda.
Ao menos, os desconhecidos guardiães do segredo da imortalidade recorrem a toda a gama de truques psicológicos para desencorajar os tímidos entre os perseguidores.
Perry Rhodan, entretanto, convicto do alto destino da Humanidade, não desiste tão facilmente. Seguindo obstinadamente em seu rumo, acaba deparando com a CHARADA GALÁCTICA.









= = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =

Perry Rhodan — Elemento número um de poder, não só na Terra, mas também no sistema Vega.
Reginald Bell — Confidente e amigo íntimo de Rhodan.
Dr. Frank M. Haggard — Ministro da saúde da Terceira Potência e fundador da Clínica Arcônida.
Sargento Groll — Com seu caça, vasculha o sistema Vega em companhia de Lossos.
Crest e Thora — Dois arcônidas genuínos.
Ras Tshubai, Anne Sloane, Betty Toufry, John Marshall — Membros do Exército de Mutantes da Terceira Potência.
Lossos — Cientista-chefe dos ferrônios.


1



O Sol era um minúsculo ponto luminoso no espaço cósmico, perdendo-se completamente entre a multidão de estrelas. Estava exatamente a vinte e sete anos-luz de distância.
Em seu lugar, outro sol ocupava o firmamento. Uma imensa bola de fogo, de dimensões inacreditáveis, cujos raios branco-azulados estorricavam os planetas mais próximos. Mas a estrela Vega tinha planetas de sobra, e podia dar-se ao luxo daquele desperdício. A zona habitável do sistema restringia-se à faixa contendo os planetas de número sete a onze.
O objeto, um gigantesco globo de metal opaco, distanciou-se do sol, ultrapassou a órbita do novo planeta e foi se aproximando do décimo. Seus movimentos denotavam nitidamente que se tratava de uma máquina voadora tripulada por seres inteligentes. Para o observador superficial, poderia ser tomado por algum satélite artificial, girando perpetuamente em torno de Vega; porém as deliberadas mudanças de rumo e a velocidade inconstante desfaziam logo tal impressão. Aquela esfera vinha a ser a espaçonave de uma raça altamente desenvolvida no setor tecnológico.
Seu diâmetro devia medir bem oitocentos metros. E a central de comando era ocupada por seres humanos. Estes observavam atentamente as numerosas telas de imagens convexas, engenhosamente distribuídas de modo a cobrir cada centímetro do espaço circundante externo. Um desenhador eletrônico zumbia incessantemente, traçando num grande papel branco os resultados gráficos dos cálculos feitos. Aos poucos se delineava um esquema que parecia interessar extraordinariamente aos presentes.
— Isto viria confirmar suas suposições, segundo tudo indica — disse um dos homens, serenamente. Mantinha-se um tanto afastado e destacava-se dos demais por sua alta estatura. Os cabelos brancos não o faziam parecer mais velho, apenas mais sábio Apesar da semelhança física com os habitantes terrestres, provinha de um sistema estelar muito distante, centro do decadente Império Galáctico dos arcônidas.
— Que concluiu disto, Perry?
Perry Rhodan abandonou o escrutínio do mapa que estava sendo traçado, e encarou Crest, respondendo:
— Ainda não podemos dar por confirmadas as informações de Lossos, porém isso não demorará. Em breve saberemos ao certo se são exatas ou não. Mas também podemos estar seguindo uma pista errada.
Lossos, o cientista-chefe do oitavo planeta do sistema Vega, expressou seu pesar por não poder contribuir com esclarecimentos mais decisivos. Era o único vivente a bordo que denotava à primeira vista a origem extraterrena. O físico baixo e atarracado revelada a existência de gravidade mais elevada em seu planeta natal. A testa anormalmente saliente protegia os olhos, profundamente enterrados nas órbitas, da intensidade de luz solar; a basta cabeleira servia de defesa contra a forte radiação ultravioleta dos raios de Vega. Seres humanos não podiam dispensar a cobertura da cabeça no planeta-mãe de Lossos.
— Apenas constatei uma curiosidade astronômica — disse o ferrônio, quase como quem se desculpa. — O senhor me fez perguntas sobre determinado assunto, e procurei me tornar útil.
— Por favor, não me entenda mal! — interveio Rhodan, conciliador. — Como sabe, viemos para este sistema em busca de um planeta que deveria estar aqui; segundo consta, na décima órbita em torno do sol Vega.
Rhodan lançou um olhar ao mapa que estava sendo traçado; a pena registradora desenhava agora a órbita do trigésimo nono planeta. Como Vega possuía quarenta e dois planetas, o mapa estaria concluído dentro de mais alguns minutos.
— Segundo nos foi dado observar até agora — continuou Rhodan — não há vida no décimo planeta. Mas eu vou mais além: jamais existiu vida no décimo planeta deste sistema, sob forma alguma. Nossa intenção é apenas tentar esclarecer tal contradição.
Um homem adiantou-se dos fundos da central de comando, empurrando levemente para o lado os doutores Frank M. Haggard e Eric Manoli. Era baixote, de rosto redondo com traços pouco marcados, no qual boiavam dois olhos de um azul muito pálido. Os cabelos ruivos eriçados lembravam cerdas de escova. Ignorando os protestos dos dois médicos, postou-se diante de Rhodan.
— Prezado comandante! Um humilde e insignificante auxiliar tem permissão de externar sua opinião? Em caso afirmativo, gostaria de dizer que não percebo contradição alguma. O arquivo central arcônida menciona o décimo planeta de um sistema que é inegavelmente idêntico ao de Vega. Diz ainda que neste planeta existiram seres que descobriram o segredo da conservação celular, e, com isto, o da vida eterna. Uma vez que achamos o referido planeta, constatando que não há vida nele, não seria o caso de se pensar em contradições, e sim num erro do arquivo. Erramos de sistema, só isso. Em algum ponto do espaço, daqui a Árcon, deve existir outro sistema de características semelhantes às deste. Meu ponto de vista é este!
Rhodan sorriu misteriosamente. Trocou um rápido olhar com Crest, aflorou Thora com os olhos e acenou para Lossos. Depois voltou-se para o mapa que os registradores traçavam. A órbita do quadragésimo segundo planeta acabava de ser desenhada.
— Gostaria de concordar com você, Bell. Pode crer, meu velho, gostaria mesmo... No entanto, há alguns detalhes que precisam ser levados em consideração. Os arcônidas não se enganaram há dez mil anos. E o arquivo está certo. O planeta da vida eterna encontrava-se de fato no sistema Vega, girando em torno de seu sol entre o nono e o décimo primeiro mundo.
— Quer dizer que...
— Calma, Bell! — advertiu Rhodan, reprimindo o excessivo zelo do amigo. — Já vou chegar lá. Viemos parar aqui porque metemos na cabeça a idéia de encontrar o tal mundo da vida eterna. Os ferrônios do oitavo planeta não puderam fornecer indício algum; ou não quiseram. Mas pelo menos nos revelaram que haviam sido visitados há dez mil anos por uma raça de viajantes do espaço, que lhes doou transmissores de matéria. Disseram igualmente que os seres da raça estranha viviam mais do que o sol. Mas foi só, e todas as nossas suposições se baseiam nisto. No entanto, juntando os dados fornecidos pelo arquivo central arcônida, forma-se um quadro bem mais delineado. O sistema Vega é a terra natal dos imortais. E agora, considerando dois fatores novos, eu reformulo a frase: era a terra natal dos imortais.
De relance Rhodan percebeu o acento afirmativo de Crest.
— Que pretende dizer com isso? — resmungou Bell.
— Um exame mais minucioso das fichas mostrou que elas falam de um sistema com quarenta e três planetas, meu caro. Já deve ter percebido que Vega tem apenas quarenta e dois. Portanto, poderíamos concluir que estamos no sistema errado. Prosseguindo: o mundo indicado deveria ser o décimo, porém certificamo-nos de que não há nem nunca houve, vida nele. Nem o menor vestígio... Logo, algo está errado. Existe uma contradição. Mas Lossos apontou-me a solução, mencionando a existência de uma lacuna entre o nono e o décimo planeta. Os dados que me forneceu conferem com o mapa desenhado pelo registrador.
Rhodan tirou o papel da máquina, cujo zumbido cessou. Os telescópios-radares recolheram-se aos seus abrigos; tinham examinado todos os corpos celestes existentes no sistema, calculando sua velocidade de translação, o afastamento do sol, e registrado graficamente os resultados. Agora o mapa exato do sistema Vega se encontrava diante deles.
— Olhem bem para este mapa, meus amigos. Ele nos responde pelo menos a uma pergunta: como é que dados corretos podem parecer falsos.
Bell dispensou o exame do mapa.
— Não está querendo dizer que...?
— Estou, sim! É exatamente isso que penso. No sistema Vega falta um planeta!
Havia distância suficiente entre o nono e o décimo planeta para supor a existência de outro entre ambos.
— Como se explicaria o fato? — indagou Crest.
Seus olhos vermelhos de albino cintilavam. Derradeiro descendente de uma raça outrora poderosa, cuja degeneração acelerara a derrocada do poderoso Império, ele colocava todas as suas esperanças na descoberta da civilização que conhecia o segredo da vida eterna; ou que o conhecia supostamente. A pista os levara até ali. E perdia-se de repente no vazio do espaço.
— Uma única resposta é imaginável — disse Rhodan, pensativo. — O planeta que circulava outrora nesta órbita em torno de Vega emigrou do sistema em época indefinida. O planeta inteiro, com todos os seus moradores!
— Vá contar essa a outro! — reclamou Bell, indignando-se contra uma hipótese que nem sua viva imaginação poderia aceitar em sã consciência. — Vê lá se a gente pode tirar um planeta do lugar assim sem mais nem menos!
— Você ainda não viu nada! — profetizou Rhodan, apontando para o mapa — Olhe, velho, isto aqui prova que perdemos a pista. Ela se perde no sistema Vega, no lugar vazio entre o nono e o décimo planeta. A raça imortal deu o fora. Querendo guardar seu segredo para si mesma talvez, segundo tudo indica. Porém na realidade demonstraram disposição para partilhá-lo com uma raça de nível semelhante. Temos provas disso. Os transmissores de matéria dos ferrônios, que eles jamais construíram nem entenderam, representam o início de nova pista. Os imortais pretendiam despertar com eles o interesse de alguma raça dotada de raciocínio. E só seres capazes de pensar na quinta dimensão estariam em condições de compreender como eles funcionam. Com o que fica estabelecida a primeira condição: apenas seres com raciocínio pentadimensional merecem conhecer o segredo da vida eterna.
— E nós fazemos semelhante coisa? — murmurou Bell, chateado.
— Nossos cérebros positrônicos se encarregam disso por nós — respondeu Rhodan. — Não nos indicaram o meio de abrir o cofre nos subterrâneos do Palácio Vermelho?
O palácio do governo dos ferrônios ficava em Thorta. a capital, assim denominada em homenagem ao Thort, o soberano de Ferrol. As arcadas subterrâneas abrigavam uma espécie de cofre, trancado por uma fechadura de tempo, no qual estavam guardados os planos de construção dos transmissores. Com a ajuda de seus mutantes Rhodan conseguira retirá-los de lá.
— O cofre — continuou Rhodan — nos indicará sem dúvida os próximos passos a seguir. Será uma verdadeira caçada pelo espaço essa busca ao planeta emigrado, e também uma corrida através dos milênios. Pois os imortais devem ter tomado a decisão de abandonar o sistema Vega já há milhares de anos. Tenho certeza de que daremos em breve com novo indício. Pois os imortais desejam ser encontrados algum dia; só que fazem questão de que seja o povo certo.
— Seremos o povo certo? — indagou Crest, baixinho.
— Se os encontrarmos, sim! — murmurou Rhodan, pensativo.
A busca ao planeta da vida eterna entrara numa fase decisiva. A imensa espaçonave esférica contornou mais uma vez o décimo planeta, em busca de sinais de vida presente ou passada. Mas as observações anteriores foram integralmente confirmadas: tratava-se de um mundo morto, desprovido de vida, e quase estéril. Tanto sua aparência, quanto as condições físicas, se assemelhavam a Marte.
A Stardust-III retornou a Ferrol, aterrizando nas proximidades da capital, no improvisado espaçoporto da base. Mal o gigantesco globo tocou o solo, o campo de proteção energético entrou em ação; o hemisfério de força concentrada cobriu a base inteira, tornando-a imune a qualquer ataque.
Reunindo seus colaboradores mais chegados, Rhodan recapitulou brevemente os resultados dos esforços até então empreendidos.
— Podemos afirmar que a raça imortal habitava o décimo planeta deste sistema, a não ser que tenham vindo de fora para se estabelecer nele. Também podemos estar certos de que o atual décimo planeta era o décimo primeiro no tempo dos imortais, enquanto o mundo da vida eterna se afastou do sistema. Considerando os inimagináveis conhecimentos técnicos e científicos de uma civilização que descobriu o segredo da perene renovação celular, não é de surpreender que pudessem igualmente deslocar à vontade todo um planeta. Desconhecemos os motivos de tal decisão, porém é permissível supor que equiparam seu inundo para viajar no espaço, como se fosse uma nave, dando as costas ao sistema solar original. Ignoramos o rumo tomado, mas Crest e eu julgamos que o cofre sob o Palácio Vermelho talvez nos forneça uma pista a respeito. Interrogamos exaustivamente nosso cérebro positrônico. E ele afirma, inequivocamente, que a raça desconhecida não pretende sumir sem deixar rastros... Retirou-se deste sistema apenas para dar a quem a procura a oportunidade de demonstrar sua inteligência e capacidade. Não foi difícil chegar ao décimo planeta do sistema Vega. Nossa tarefa real será seguir, através da quinta dimensão, a pista que se iniciou lá. Estamos apenas no início de nossa busca à vida eterna.
— Ora, a coisa é simples! — exclamou Bell, triunfante. — Ras Tshubai já entrou na arca uma vez; não vejo impedimento para ele repetir a proeza. É só entrar, e apanhar os indícios necessários.
Crest sorriu indulgentemente. Ao seu lado encontrava-se Thora, a ex-comandante da expedição arcônida malograda que fora forçada a pousar na Lua. Sua opinião sobre o primitivismo da raça humana não se modificara muito desde então. Sentia a constante necessidade de salientar a superioridade dos arcônidas diante dos terráqueos. Mesmo segundo os padrões destes, Thora era uma mulher bela, de idade indefinível. Seu íntimo era um conflito turbilhonante de ódio e admiração, repulsa e amor, violenta oposição e incondicional aceitação. Detestava Bell. E às vezes detestava-se a si mesma.
— Você recebeu, assim como Rhodan, o treinamento hipnopédico arcônida — disse ela, com acentuado desdém. — Não compreendo por que faz observações tão impensadas. Mais uma prova da imaturidade da raça humana...
— Não nos reunimos para discutir a maturidade ou imaturidade de nossas respectivas raças — interrompeu Rhodan, piscando apaziguadoramente para Bell. — Reginald não está a par do resultado de minha conferência com o cérebro positrônico. Leve este fato em consideração, Thora. Talvez seja interessante ouvir de Crest uma exposição a respeito.
O cientista arcônida prontificou-se a falar.
— Com a ajuda de alguns dos mutantes, principalmente da telecineta Anne Sloane, do teleportador Ras Tshubai e do vidente Sengu, Rhodan conseguiu abrir a arca durante alguns segundos. Alguns segundos, nada mais. Com isso foi constatado que todos os objetos nela guardados pelos desconhecidos não estavam depositados em determinado espaço, porém no tempo. O africano Ras Tshubai foi lançado ao passado, milhares de anos para trás, e ali encontrou a caixa contendo os planos de construção dos transmissores de matéria. O processo todo não durou mais de dez segundos. Sabemos agora que a arca é formada na realidade por raios cósmicos enfeixados, e que não pertence ao plano de tempo presente. Sabemos também que todo e qualquer objeto depositado na arca pode ser trazido de volta ao presente, onde, ou melhor, em que época se encontre. As informações encontradas na caixa foram suficientes para fornecer ao cérebro positrônico os pontos de referência necessários. Com isto, nossa próxima etapa está determinada.
Bell encontrou os olhares dos médicos Haggard e Manoli. Deu de ombros. Que culpa tinha, se eles não acreditavam na vida eterna? Pessoalmente não se importaria nem um pouco de atingir os mil anos de idade ou mais.
— Continua sendo importante manter a posição galáctica da Terra em sigilo — disse Rhodan, retomando a palavra. — Portanto, as comunicações hiper-radiofônicas entre a base e a Terra serão limitadas. O Universo não é vazio e deserto, porém povoado por muitas raças inteligentes. E elas estão atentas para todo o atrevido que começa a apontar suas antenas para as estrelas. Nem todas elas são de índole pacífica, conforme verificamos pessoalmente. Mediante os chamados sensores estruturais, algumas delas são até capazes de registrar o hipersalto de nossa Stardust-III através de milhares de anos-luz. Mas nada disso é novidade para nenhum de nós. E justamente por esta razão, eu prefiro não retornar à Terra por enquanto. Uma breve mensagem radiofônica será suficiente. Depois disso, traremos o conteúdo da arca para o presente, a fim de estudá-lo com toda a calma.
— Há mais objetos na arca, além daquela caixa? — indagou Haggard.
— É provável — confirmou Rhodan. — Porém estão em planos de tempo diversos.
A nova fórmula trará todos eles simultaneamente para o presente. Será restabelecida a situação existente por ocasião da criação da arca.
— Esconderijo genial, pensando bem! — comentou Bell, impressionado. — Estou verdadeiramente curioso por ver que tesouros encontraremos. Por mim, a festa poderia começar com a receita da imortalidade.
— Possível, mas pouco provável, velho. Creio que os imortais imporão condições bem mais severas aos possíveis herdeiros...
— Como é que a gente pode ser herdeiro de gente imortal? — perguntou Bell, julgando a pergunta perfeitamente lógica.
— Para não confundir sua mentalidade jurídica, reformulo a questão — disse Rhodan, bem-humorado. — A raça desconhecida faz exigências severas àqueles com quem se dispõe a repartir seu segredo.
— Porém o caminho até eles é longo — disse Crest, compenetrado. — Muito mais longo do que o caminho para Árcon.
— Precisamos conversar sobre isso em particular, Crest — observou Rhodan. — A quatro olhos. Ou melhor, a seis, pois Thora vai querer estar presente também.
— Faço questão disso, Rhodan — afirmou a comandante arcônida. — E trate de arranjar argumentos convincentes.

* * *

A vinte e sete anos-luz dali, a Terra transitava inalterada em torno de seu sol. No entanto, naqueles últimos anos a estrutura política de seus países sofrera sensíveis modificações, impostas pelas circunstâncias. A expedição arcônida malograda colocara entre as mãos de Perry Rhodan, Reginald Bell e Eric Manoli, os primeiros lunautas terrestres, um poder incomensurável. A nova tecnologia capacitou-os a evitar a eclosão da guerra atômica, e a unificar as nações do globo terrestre. Ainda continuavam existindo três grandes blocos de poder, na verdade — o Leste, o Oeste e a Federação Asiática — porém a potência criada por Rhodan impunha a paz. A base inicial no deserto de Gobi expandira-se grandemente, fazendo surgir a cidade de Galáxia, a mais moderna do mundo, com gigantescos arranha-céus e estradas de inigualável perfeição.
Quando ausente, Rhodan era substituído pelo coronel Freyt. Além do nítido parentesco espiritual, os dois homens apresentavam impressionante semelhança física. Facilmente poderiam ser tomados por irmãos.
Freyt aparentava ser um homem ainda jovem. Alto e magro, tinha rugas profundas nos cantos da boca, mas nos olhos brilhava constantemente uma centelha de humor. Seu posto regular era o de comandante dos esquadrões de caça espacial.
Tudo corria normalmente. As novas instalações industriais funcionavam plenamente, atendendo aos pedidos feitos. O mundo começava a sujeitar-se à dependência econômica de Perry Rhodan.
O centro vital daquela imensa cidade, de aparência quase cósmica, ficava debaixo de uma cúpula energética constantemente ativada. A segurança era total, pois nem mesmo a mais potente bomba nuclear conseguira romper a barreira. Por mais de uma vez ela comprovara sua resistência.
No presente, não existiam injunções políticas que justificassem a manutenção contínua na cúpula protetora; porém não havia como se opor à ordem explícita de Rhodan. Freyt sabia que as medidas preventivas de seu chefe não eram motivadas por homens, mas sim por possíveis agressores extraterrenos. Desconhecidos que poderiam a qualquer movimento descobrir a posição da Terra e vir atacá-la.
O dia findava. Freyt contemplava o firmamento crepuscular. Fazia semanas que não tinha notícias de Rhodan. O que estaria acontecendo lá no sistema Vega? A invasão dos tópsidas, os cruéis lagartos gigantes, teria sido repelida? Os ferrônios oprimidos teriam reconquistado sua liberdade? O planeta da vida eterna já teria sido encontrado?
Perguntas e mais perguntas, e nada de respostas.
Freyt suspirou. Rhodan poderia dar-se por satisfeito quando voltasse. O mundo inteiro estava ao seu lado, apoiando suas aspirações de engrandecer o poderio da Terra. Surgiam os primeiros sinais para o estabelecimento de um governo mundial devidamente planejado.
De um edifício próximo saiu um homem fardado de tenente. Freyt reconheceu-o logo. O russo Peter Kosnow, oficial de ligação com o Bloco Oriental. Seus cabelos louros, cortados à escovinha, mostravam reflexos avermelhados à luz do sol poente.
Kosnow mudou de rumo ao avistar o comandante. Saudando cordialmente, disse:
— Se eu fosse o senhor, não ficaria aí admirando o pôr do sol, mas iria correndo à central radiofônica. Isto é, para o hiper-transmissor!
Freyt estremeceu involuntariamente.
— Notícias de Rhodan? Homem, está brincando?
— Não é do meu feitio — tranqüilizou-o Kosnow. — A mensagem acabou de ser transmitida, e já está sendo reprisada. Se correr, ainda pega a terceira emissão direta.
— Está tudo em ordem? — indagou Freyt, ansioso, já acelerando o passo.
— Lógico! — respondeu o russo risonho, tomando direção oposta.
Freyt atravessou a estrada asfaltada às carreiras; subiu a escada na entrada saltando os degraus de dois em dois. A seguir tomou o elevador para a cúpula da estação transmissora.
Os gravadores ligados registravam a transmissão. O operador de plantão levantou os olhos ao ver entrar Freyt, acenou brevemente, e voltou a ocupar-se com suas tarefas. Naquele momento iniciava-se a terceira repetição da mensagem provinda dos confins do espaço. As hiperondas não requeriam tempo algum para vencer a distância de vinte e sete anos-luz. Portanto, naquele preciso momento Perry Rhodan encontrava-se diante do enorme complexo transmissor da Stardust-III, enviando sua mensagem.
Perry Rhodan, falando da Stardust-III. Atenção, coronel Freyt, cidade de Galáxia Tópsidas expulsos do sistema Vega. Ferrônios novamente livres. Tratado comercial com o mundo deles e o nosso em andamento. Preparar instalações industriais B7A e 42C para fabricação dos bens de troca. Continuar mantendo secreta posição de nosso planeta; requisito essencial, mesmo para os ferrônios. Stardust-III continua em Vega por enquanto. Novas mensagens quando necessário. Emissões hiper-radiofônicas ainda suspensas, para não chamar as atenções sobre localização da Terra. É tudo. Tripulação da Stardust-III envia saudações a todos os companheiros da Terceira Potência. Tudo de bom! Rhodan.
Não houve mais nenhuma repetição. O sussurro do transmissor emudeceu.
— As primeiras transmissões foram iguais a esta? — perguntou Freyt ao operador.
— O mesmo texto, coronel. Receberá uma cópia escrita.
— Obrigado.
Freyt deixou a central radiofônica com passo lento.
Um acordo comercial com os ferrônios! Um dos objetivos de Rhodan consumado: relações comerciais pacíficas com uma raça extraterrena. A primeira base extra-solar da Terra — para Freyt, Rhodan era indiscutivelmente o representante legítimo da Terra — havia sido instalada. Além disso, a permanência da Stardust-III no sistema Vega indicava que havia tarefas adicionais a cumprir.
Teriam ligação com o misterioso planeta do qual Bell vivia falando com tanto entusiasmo por ocasião de sua última visita?
Fosse como fosse, os encargos de Freyt estavam delineados.
O sol desaparecera. Freyt estremeceu, sentindo frio. O sistema de ventilação soprava o ar frio do deserto para dentro da cúpula energética. O antigo isolamento do mundo exterior já não era tão completo.
— Um novo capítulo de nossa História começa — murmurou Freyt para si mesmo, enquanto se encaminhava vagarosamente para o bangalô no qual morava. — Só que a Humanidade ainda não sabe disso...

2



Lossos, o cientista ferrônio, não ocultara a Rhodan suas dúvidas. Solicitara uma audiência, logo concedida, porque Rhodan apreciava o simpático velho. Porém a entrevista teria que aguardar o término da conferência particular com Thora e Crest, ainda em andamento.
A ex-comandante arcônida resumiu:
— Portanto, nossas respectivas posições estão claramente delineadas, Perry Rhodan. Você quer usar a Stardust-III, uma nave de guerra arcônida, para expandir seu reino terreno. Nós queremos retornar com ela ao nosso planeta natal. E em conjunto desejamos achar o planeta da vida eterna, valendo-nos da Stardust-III e do cérebro positrônico. Teremos que tentar a consecução destes três objetivos sem prejudicar nenhuma das partes. Logo, será preciso estabelecer as respectivas prioridades.
— Certo, Thora — interrompeu Crest, gravemente. — Alegro-me ver que pensa assim. Mas, antes de precipitar qualquer decisão, poderíamos pôr-nos de acordo num ponto: procurar em primeiro lugar o planeta da vida eterna. Uma vez conseguido isto, as circunstâncias resultantes determinarão o empreendimento seguinte.
— Concordo plenamente com sua sugestão — disse Rhodan, satisfeito. — Uma vez alcançado este objetivo, não haveria inconveniente algum de minha parte em realizar o vôo para Árcon, denunciando assim à sua raça a posição da Terra.
— Revelando-a — corrigiu Crest, com um ligeiro sorriso. — Eu diria que no caso não se aplicaria o termo “denunciar”.
— Façamos um pacto, então — disse Thora, estendendo ambas as mãos para Rhodan. — A seqüência será: a busca ao planeta da vida eterna, Árcon, e depois a Terra, com todas as conseqüências resultantes. De acordo?
Tomando as mãos dela entre as suas, Rhodan concordou.
— Certo, meus amigos. Mas eu gostaria de acrescentar uma pequena condição ao nosso pacto, caso nada tenham a opor.
— Que condição? — perguntou Thora, desconfiada.
— Nada de grave, não se preocupe — replicou Rhodan, com um sorriso compreensivo. — Eu gostaria que os arcônidas só tomassem conhecimento das coordenadas espaciais da Terra quando eu julgar o momento apropriado. Pois nós terrenos não temos a menor vontade de ver nosso planeta tornar-se colônia de um reino estelar em decadência. Afinal, por mais duro que seja confessá-lo, vocês não podem deixar de reconhecer que a raça arcônida degenerou. Concordamos em comerciar com ela e apoiar os arcônidas na conservação do Império, porém não queremos criar novas fontes de atrito. Que acham?
— De acordo — disse Crest.
Os dois homens fitaram Thora. Após curta hesitação, ela respondeu:
— Pois bem, também estou de acordo. Estou certa de que o conselho de nosso esclarecido governo compreenderá suas ponderações. Estamos entendidos, então, e podemos partir para a realização do nosso objetivo comum. Quanto mais depressa encontrarmos o misterioso planeta, tanto mais depressa poderemos rever Árcon, nossa pátria.
— Fico-lhes grato por confiarem em mim. Logo após a palestra com Lossos poremos mãos à obra.
— Que é que o ferrônio quer de você? — indagou Crest, curioso.
— Ainda não sei Disse que queria conversar comigo. Talvez ainda tenha se lembrado de algum detalhe importante. Quem sabe?
Deixando os dois arcônidas sozinhos, Rhodan dirigiu-se a outra peça, onde Lossos já esperava impaciente. Sem sequer erguer-se ao ver Rhodan entrar, o ferrônio começou precipitadamente, sem introdução alguma:
— Eu devia ter pensado nisto antes! Porém só agora me ocorreu esta possibilidade.
— Que possibilidade?
— Que nosso sistema continue com todos os quarenta e três planetas originais.
Rhodan não respondeu. Visivelmente perplexo, não entendeu. Fato que o ferrônio constatou com muda satisfação, sem, no entanto, deixar transparecê-la. Excitado, prosseguiu:
— Não manifestou a hipótese de que os misteriosos desconhecidos, inopinadamente aparecidos em Ferrol há dez mil anos, deixando-nos os hipertransmissores, foram capazes de levar seu planeta para onde bem entendessem? E nós todos supusemos, implicitamente, que eles abandonaram nosso sistema, aceitando sua hipótese como tecnicamente realizável. Pois bem, nossa suposição pode ser falsa. Acho que eles talvez continuaram neste sistema, mudando apenas de local.
Rhodan sentara-se enquanto Lossos expunha sua teoria.
— E que local seria este? — indagou, com a testa enrugada.
O ferrônio sorriu evasivamente.
— Pergunta-me demais, pois também não sei. É um mero palpite... Numa das luas gigantes que gravitam em torno dos nossos planetas maiores, talvez. Ou podem ter empurrado algum planeta desabitado para fora do sistema, ocupando seu lugar. Desta forma, quem tencionasse procurá-los seguiria instintivamente na pista do planeta emigrado. Não é exatamente isso que você pretende fazer?
— Seus argumentos não deixam de ter fundamento — disse Rhodan, cautelosamente — mas não passam de hipótese. Por que motivo seres possuidores de tecnologia tão avançada se dariam tanto trabalho só para mistificar alguém? Sem dúvida possuíam armas suficientemente eficientes para manter à distância qualquer oponente. Pessoalmente, acho que eles fazem toda essa brincadeira de esconde-esconde apenas para se divertir; porém a brincadeira no fundo é séria. Eles desejam ser encontrados; e é por aí que precisamos começar. Deixaram uma pista, e a pista aponta para fora deste sistema.
— Então permita-me ao menos procurar eu mesmo o tal planeta, no âmbito do sistema Vega! Assim que o encontrar, mando-lhe imediatamente aviso.
Rhodan refletiu. A teoria de Lossos não era totalmente desprezível nem absurda; apenas pouco provável. Não seria justo impedi-lo de fazer suas próprias explorações; pelo contrário, seria até suspeito. Os ferrônios possuíam uma frota espacial bem aparelhada, e nada os impedia de iniciar espontaneamente tal empreendimento. E se o planeta da vida eterna efetivamente...
— Não tenho nada a opor — replicou, portanto, Rhodan. — Pode contar com o apoio de um de meus caças espaciais, naturalmente. As cabinas são um tanto apertadas, mas conseguiremos acomodar duas pessoas nelas, retirando algum equipamento de menos importância. Vou ordenar a Deringhouse que mande aprontar um caça espacial com o respectivo piloto. Mantenha-se em contato radiofônico constante conosco.
O idoso ferrônio empertigou o corpo baixo. A estatura reduzida fazia-o parecer mais jovem.
— Agradeço-lhe, Rhodan. O sucesso que eu puder obter será igualmente seu.
Sob o olhar pensativo de Rhodan, Lossos se retirou.

* * *

Seguiu-se ainda uma terceira conferência.
Reginald Bell reunira o Exército de Mutantes para planejar a ação. A reunião realizou-se nas primeiras horas da tarde do longo dia ferrônio. Perry Rhodan não tomaria parte nela, porém dera a Bell as instruções necessárias. Os mutantes foram chegando um a um.
As emissões radioativas provocadas pelas explosões atômicas das grandes nações terrestres tinham passado despercebidas de início; porém já nas primeiras gerações vindas ao mundo depois delas foram constatados defeitos genéticos. Nem todos eram de natureza negativa. Faculdades inéditas, até então adormecidas em estado latente no homem, ativavam-se de repente. Rhodan percebera prontamente a potencial utilidade daqueles mutantes, e selecionara os melhores entre eles, colocando-os a seu serviço. Por mais de uma vez todo o poderio de Rhodan fora protegido e mantido por obra exclusiva de seus mutantes.
Bell assustou-se, como sempre, quando o teleportador japonês Tako Kakuta se materializou repentinamente ao seu lado. Emergindo do nada, quase lhe pisou nos pés.
— Tomara que algum dia você calcule mal a distância e vã parar numa fornalha! — resmungou ele, furioso. Não se conformava com o fato de ser sempre surpreendido com o conhecido processo. Em voz formal, acrescentou: — Caso se atreva, mais uma só vez, a assustar seu superior, Tako, vou providenciar sua detenção em solitária por três dias!
— Será um prazer — respondeu o japonês, arreganhando os dentes num imenso sorriso, e piscando para seu colega Ras Tshubai, que acabava de entrar de maneira normal. — Mas não se esqueça de providenciar o competente campo energético pentadimensional em torno da cela, com cadeado de tempo, senão escapulo quando bem entender.
Bell preferiu não responder; sabia que não adiantaria nada. Prevenindo novos aborrecimentos, dirigiu-se a Anne Sloane e a Betty Toufry, a jovem mutante. Tanto ela como Anne eram excepcionais telecinetas. Usando unicamente sua força mental, elas podiam movimentar matéria a qualquer distância. Betty era, além disso, telepata; geralmente trabalhava em conjunto com John Marshall, o outro telepata do Exército de Mutantes. Quinze deles encontravam-se reunidos ali.
Tirando um pedaço de papel do bolso, Bell tentou decifrar a própria letra por dois minutos. Depois tornou a enfiá-lo no bolso, fazendo votos de não ter esquecido item algum.
— Meus amigos!— exclamou ele, saltando com surpreendente agilidade para cima de uma mesa, de onde poderia supervisionar comodamente os presentes. — Perry Rhodan precisa da colaboração de vocês. Serei breve, pois dispomos de pouco tempo. Vocês todos conhecem, pelo menos de fama, a arca pentadimensional do Palácio Vermelho. Ras Tshubai conseguiu penetrar nela, sendo arrastado a uma involuntária viagem pelo tempo, que o fez regredir até as origens do Universo. Nós vamos entrar novamente nesta arca, mas desta vez sem o risco de sermos lançados ao passado ou, talvez, ao futuro. O cérebro positrônico avaliou e explanou os dados recebidos. Com a fórmula resultante, um gerador arcônida produzirá um feixe de raios neutralizadores da atuação dos raios cósmicos que formam a arca. Com isso, todos os objetos nela guardados, num plano temporal variado, retornarão ao presente. Só teremos o trabalho de recolhê-los.
“Nenhum de vocês terá tarefa específica por enquanto. Porém é necessário que se mantenham de prontidão nas proximidades da arca durante a experiência, para intervir assim que a ocasião o exigir.
“É tudo que tenho a dizer. Aguardem a chamada em seus alojamentos. Seguiremos daqui para Thorta com o transmissor grande, diretamente para onde se encontra a arca. Agradeço a presença de todos.”
Saltando lentamente da mesa, Bell deixou o recinto.

* * *

O sargento Groll não demonstrou o menor entusiasmo pela missão recebida. Ao receber o chamado do comandante Deringhouse, pensara logo numa sortida ou vôo de reconhecimento com alguns colegas. Grandemente decepcionado, soube que seria obrigado a vasculhar os planetas e luas do sistema Vega em companhia de um velhote ferrônio.
Groll não teve outro recurso senão submeter-se ao inevitável. Auxiliado pelo pessoal técnico da Stardust-III e por alguns pilotos, desmontou as armas de bordo de seu caça, a fim de acomodar o cientista na apertada cabina. Até o rádio foi retirado. Em troca Groll recebeu um pequeno e prático micro transmissor, suficientemente potente para a comunicação de emergência dentro do âmbito do sistema Vega. A cama de repouso sumiu, dando lugar a mais um assento.
Lossos embarcou com um maço de manuscritos debaixo do braço, e indicou ao piloto que estava pronto para a partida. Graças a um rápido treinamento hipnopédico, falava razoavelmente o idioma de Groll, mesmo sem saber em que parte do Universo se falava tal língua. Mas pelo menos podia comunicar-se com seu piloto.
— Os planetas internos nem entram em consideração, por causa do clima pouco saudável, mas claro que ninguém pode saber o que seria considerado saudável ou insalubre para os imortais — emendou rapidamente, — Diz a tradição que eles provém de um mundo de clima frio. O décimo segundo planeta possui três grandes luas. Vamos começar por elas, em primeiro lugar.
— Pois então vamos lá! — concordou o sargento Groll, resignado.
Como uma gota prateada, o esguio aparelho mergulhou no mar de estrelas diante deles.

* * *

Thora desistira no último momento de sua intenção inicial de entrar na arca com os demais. Portanto, o grupo que na manhã seguinte embarcou no hipertransmissor da base compunha-se apenas de Rhodan, Bell, Crest e os mutantes.
O aparelho parecia uma enorme gaiola gradeada. A apreciável quantidade de energia requerida para o transporte, em estado de desmaterialização, através do hiperespaço, era fornecida por geradores. O manejo era simples, mas o modo de funcionamento ninguém compreendia.
A porta foi fechada. Rhodan ajustou as coordenadas e ativou a máquina. Não sucedeu absolutamente nada, o que conferia com o esperado. Em distâncias curtas, não se fazia sentir o costumeiro efeito doloroso da desmaterialização.
Ao abrir a porta, encontravam-se em Thorta, a capital de Ferrol. A guarda pessoal do Thort já os aguardava. Entre manifestações da maior deferência, o grupo foi conduzido às arcadas subterrâneas, onde foram deixados à própria sorte. Ferrônio algum se sentia disposto a enfrentar desnecessariamente os espectros que assombravam o local.
Ras Tshubai realizou alguns saltos teleportados a fim de sondar o terreno. John Marshall captava-lhe os pensamentos, transmitindo o conteúdo aos demais. Desta maneira, Rhodan sempre estava informado sobre o que tinha à sua frente.
O gerador, instalado na véspera, encontrava-se na entrada do recinto abobadado em cujo centro ficava a arca. E ela se encontrava realmente ali, apesar de invisível a olhos humanos e impenetrável a qualquer objeto material. O invólucro protetor, erigido há milhares de anos por seres desconhecidos, e repleto de inconcebíveis segredos, formava uma espécie de campânula de energia pura no meio da peça. Ondas de rádio, emitidas do cosmo por fontes desconhecidas, enfeixadas de alguma forma por algum equipamento invisível, formavam a invisível arca. A telecineta Anne Sloane conseguira desviar estas ondas por instantes durante a primeira experiência; a arca se abrira, permitindo a entrada de Ras Tshubai. No entanto, aqueles poucos segundos não haviam sido suficientes para tomar conhecimento de todo o conteúdo da arca. Fora, pois, com a maior satisfação que Rhodan recebera do cérebro positrônico a fórmula neutralizadora dos raios provindos do cosmo. Um efeito de polarização, conforme observara muito acertadamente Crest. E podia-se fazê-lo durar à vontade, por quanto tempo se quisesse. Além disso, o cérebro positrônico informara que o processo levantava simultaneamente a barreira de tempo. O que era, evidentemente, o ponto mais importante no caso. Pois que lhes adiantaria penetrar na arca se os objetos nela guardados se encontrassem a milhares ou milhões de anos no passado ou no futuro?
Rhodan distribuiu os mutantes, posicionando-os de modo que qualquer deles pudesse chegar à arca com poucos passos, em caso de necessidade. Depois inclinou-se para o gerador. A regulagem estava correta. Voltando-se para Crest, avisou:
— Bell e eu vamos entrar. Do Exército de Mutantes levaremos inicialmente apenas Anne Sloane e John Marshall. Os demais ficam de prontidão. Ainda não sabemos que espécie de capacidade será exigida, mas caso...
Todos compreenderam o que Rhodan pensava, de modo que ele poderia ter dispensado o resto da frase.
— ...surgir alguma dificuldade, o mutante com o dom apropriado precisa intervir sem demora, a fim de eliminá-la.
Após uma derradeira hesitação, Rhodan tornou a se inclinar para o gerador. Calcou um botão, e com um leve clique o aparelho começou a funcionar. A bateria atômica embutida forneceria a energia necessária para a geração do feixe de raios polarizantes.
Em tensa expectativa o grupo aguardou.
Estariam corretos os cálculos do cérebro positrônico? Os dados fornecidos seriam adequados? Um erro mínimo, e...
A sala subterrânea com suas paredes de pedra natural parecia vazia. A visão era livre de lado a lado, até a parede oposta. Mas Rhodan sabia que se tratava de urna ilusão ótica. Os raios luminosos, habilmente desviados, eram distribuídos de tal maneira que o observador se julgava num recinto vazio. Porém na realidade o centro da peça era ocupado pela invisível cúpula de raios enfeixados. E ela oferecia resistência idêntica tanto a matéria sólida, quanto a luz e ondas.
Rhodan repassava em pensamento aqueles detalhes técnicos, quando seus olhos perceberam os primeiros sinais de alteração no ambiente. No meio do salão o ar apresentava estranha cintilação. A parede oposta começou a esfumar-se, as pedras pareciam oscilar, mudando de formato e posição. Depois dissolveu-se, desaparecendo totalmente. O desvio dos raios luminosos deixava de existir.
Novos fatos surpreenderam o grupo.
Atônito, Bell viu surgir à sua frente objetos misteriosos, materializando-se do nada. Quanto mais nítidos e concretos esses objetos se tornavam, tanto mais diminuía a cintilação do ar. A barreira de raios cósmicos se desfazia lenta e constantemente. Por fim cessou de todo.
Simultaneamente, os objetos por ela protegidos do mundo exterior retornavam ao presente. Vindos do passado e do futuro, despojavam-se de todas as características próprias da quarta e da quinta dimensão — tempo e dilação de tempo — podendo agora ser vistos e tocados. Situando-se de repente no presente, passavam a ser concretos e materiais. Transformavam-se em realidade.
— Puxa, que truque fantástico! — observou Bell.
— E no entanto é real... — replicou Rhodan, num sussurro. — O melhor meio de guardar um objeto de maneira completamente segura é enviá-lo para o futuro longínquo, onde ninguém pode se apoderar dele. Ele fica lá, esperando, até que seja alcançado. Mas se fosse enviado para o passado...
— ...estaria perdido para sempre — completou Crest. — A menos que se possa trazê-lo de volta, ou viajar fisicamente para trás no tempo.
— Quer dizer que viagens no tempo são viáveis? Sempre me pareceram mera ficção ou imaginação.
— Constituem o fundamento da quinta dimensão — replicou Crest. — Assim como o espaço é o fundamento da terceira. Mas não me pergunte demais por enquanto, Perry. Espere até chegar a hora de tratarmos deste assunto, antes que se sinta tentado a fazer pouco caso dele. Se as viagens espaciais fossem fáceis, nós, os arcônidas, já teríamos reagido há séculos à ameaça de desmoronamento de nossa cultura.
Rhodan satisfez-se com a explicação. Parecia lógica. Bell gemeu, desconsolado, enquanto Anne e John se mantinham imparcialmente calados.
No meio do salão antes vazio surgira um novo recinto, nitidamente delineado por caixotes e baús, cuidadosamente dispostos em pilhas e filas. Era fácil visualizar junto a eles os seres desconhecidos, acumulando ali, há milhares de anos, seus mais preciosos tesouros, para guardá-los no futuro. Mas tratar-se-ia realmente de tesouros? Afinal, aquilo lembrava muito mais um depósito. E no meio de tudo havia algo bastante familiar: um hipertransmissor de matéria!
Era do tipo médio, pois acomodava mais de uma pessoa. Sua altura permitia deduzir que a raça desconhecida possuía estatura mais ou menos semelhante à humana. Os mecanismos de controle não diferiam dos já conhecidos.
Um hipertransmissor... ali?!
A mesma pergunta se formou na mente de todos os presentes: onde estaria o anti-transmissor, ou hiper-receptor, correspondente? Onde iriam parar, caso entrassem naquele aparelho e o ativassem? Ou melhor, quando se processaria a rematerialização?

* * *

A lua interna do décimo segundo planeta ainda recebia calor suficiente da constelação-mãe para torná-la um mundo tolerável, livre da total esterilidade. Também sua gravidade era bastante forte para sustentar considerável camada atmosférica. O satélite 12A, conforme Lossos o batizara, poderia, em dadas circunstâncias, ser portador de vida.
Groll sacudiu a cabeça quando Lossos lhe pediu para sobrevoar lentamente, a baixa altitude, a lua 12A.
— Acha mesmo que uma raça imortal escolheria lugar tão inóspito para passar o resto eterno de sua existência?
Espremido em seu apertado assento, Lossos perscrutava, através da escotilha, o mundo escassamente iluminado. À sua esquerda, o vulto imenso do décimo segundo planeta ocupava o campo de visão, em seu giro pelo espaço.
— O que penso é secundário, sargento. Nossa obrigação é não deixar nada despercebido. Nada mesmo, entendeu? Essa raça esquisita, que parecia ter como única preocupação a de propor enigmas aos outros, pode ter conceitos radicalmente diversos dos nossos. Sabe lá, podem ter se recolhido ao interior de seu planeta. Neste caso, e acho que concordará com o meu ponto de vista, a localização do mundo em que vivem seria completamente indiferente. Poderiam vagar solitários pelo Universo, sem sol, sem planetas vizinhos, sem luz nem calor. Por que não aqui?
Sem encontrar argumentos em contrário, Groll preferiu calar-se.
Vista do alto, a lua 12A parecia morta e sem vida. No deserto rochoso apenas esporadicamente se avistava alguma vegetação — único sinal de vida orgânica. De raro em raro, magros fios de águas serpenteavam pelas pedras, embebendo-se logo no chão ressequido. Não havia mares nem oceanos, e a lua toda formava um só continente. Talvez existissem depósitos de água subterrâneos, formados pela acumulação das infiltrações esparsas. Fato, no entanto, que não exerceria a menor influência sobre o clima da superfície.
Depois de contornar a lua duas vezes, Lossos disse:.
— Vamos pousar.
Groll reprimiu uma imprecação. Porém lembrou-se a tempo das ordens do major Deringhouse: todos os desejos do cientista ferrônio deviam ser atendidos sem objeções.
E justamente ele tinha que receber um encargo daqueles!
O aparelho foi perdendo altura, circulando a poucas centenas de metros por cima da paisagem morta.
— Onde?
— Aguarde mais um pouco — respondeu Lossos. Atento e tenso, o sábio parecia procurar ansiosamente alguma coisa. — Prossiga a esta altura, voando um pouco mais devagar, caso isso não lhe cause problemas.
Groll reduziu a velocidade, e o caça deslizou mansamente por sobre os rochedos, cuja aparência era mais desoladora do que qualquer outra cena presenciada pelo piloto em toda a sua vida.
Lossos, no entanto, parecia ser de opinião contrária. Seus olhos não se desgrudavam da escotilha ovalada, perscrutando atentamente o exterior. Duas horas depois o cientista reclinou-se por fim em seu assento.
— Acho que podemos dispensar o pouso. É pouco provável que encontremos alguma coisa aqui. Siga para a lua 12B. Talvez tenhamos melhor sorte lá.
O sargento Groll suspirou aliviado. Consultando seu mapa, alçou-se de novo, vertiginosamente, para o espaço infinito. A lua 12A desapareceu rapidamente abaixo deles.

* * *

— Creio que agora podemos ir — disse Rhodan, pondo a mão sobre o braço de Crest. — O gerador garante o afastamento da barreira. Enquanto a energia continuar a fluir, nada pode acontecer. E como você me afirmou que isto continuará acontecendo pelos próximos milênios, temos tempo de sobra. Vamos, pessoal!
Rhodan tomou a dianteira. Crest seguiu-o, após imperceptível hesitação. Bell demorou mais a decidir-se, porém acabou avançando igualmente, acompanhado de perto pelos dois mutantes. Os demais componentes do Exército de Mutantes presenciavam a cena imóveis e silenciosos.
Rhodan alcançou o ponto em que anteriormente a barreira invisível impedia a passagem. Agora o obstáculo já não existia, e Rhodan penetrou na arca. Contornando um enorme baú, viu-se diante do hiper-transmissor. Meramente por seu volume, este se destacava dos demais objetos ali acumulados. Instintivamente, a mão de Rhodan procurou no bolso o pedaço de papel que trouxera consigo. Ele continha uma frase misteriosa, traduzida e escrita pelo cérebro positrônico. As instruções diziam que uma frase idêntica apareceria em algum lugar dentro da arca. Seria a nova pista.
Crest parou ao lado de Rhodan. Nos olhos avermelhados brilhava algo semelhante à incerteza. As mãos de dedos delgados tremiam levemente.
— Não pretende...?
Rhodan fitou Crest com um olhar quase dominador.
— Você desistiria agora, Crest? Assim tão perto do objetivo? Não vai querer que eu acredite nisso, não é? Pelos menos nós, terrenos, não entregamos os pontos com tamanha facilidade, quando o prêmio é alto. E este é alto: a vida eterna...
— Ela não adianta nada quando se está morto, Perry...
— Não deve ser esta a intenção dos desconhecidos, Crest. Deixaram uma pista que leva inegavelmente até eles. Não se arriscam nem um pouco. Pois apenas seres de natureza semelhante à deles serão capazes de encontrá-los. Bárbaros incultos jamais atingiriam o planeta da vida eterna. Portanto pode estar certo, Crest, de que os desconhecidos não tramam nenhum ardil mortal para nos apanhar. Haverá obstáculos, sim, mas isso é parte da missão. Porém não marchamos ao encontro da morte.
O inusitadamente calado Bell decidiu-se a falar:
— Sabe lá quando foi que esses seres deixaram o hipertransmissor aqui, Rhodan! Você disse que foi há dez mil anos, quando abandonaram o sistema Vega. Quanta coisa não prevista por eles pode ter acontecido desde então? É bem capaz do hipertransmissor nos jogar em plena Vega!
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Fora de cogitação! Você subestima a inteligência destes seres. Deviam saber, forçosamente, que se passariam séculos, ou até milênios, antes que alguém desse com o início da pista. Calcularam as contingências astronômicas. Nem se preocupe, eles não deixaram nada ao acaso.
Avançando alguns passos, Rhodan abriu a porta gradeada do hipertransmissor. Os poucos controles correspondiam exatamente aos que observara em Ferrol, sem a menor diferença. O hipertransmissor era idêntico aos usados pelos ferrônios, com a diferença de que estivera até aquele momento em plano de tempo diverso, no passado ou no futuro.
— Fiquem aqui! — ordenou Rhodan, com voz rouca. — Eu vou sozinho. Se ele funcionar, deixando-me em local seguro, volto imediatamente para buscar vocês.
— E em caso contrário? — exclamou Bell, aflito. Rhodan deu de ombros, sem responder. Com um rápido olhar para Crest, entrou na espaçosa cabina, onde caberiam folgadamente quatro a cinco pessoas.
— Quando eu tiver desaparecido — recomendou Rhodan — aguardem um pouco. Não tomem iniciativa alguma, a fim de não pôr em risco minha volta. Entendido?
Crest discordou.
— Não seria preferível que um de nós...?
— Não, Crest! Creio na boa vontade dos imortais. Eles querem que alguém decifre este enigma. Eu não poderia desapontá-los, não acha?
Crest silenciou. Sorrindo para ele e Bell, Rhodan acenou tranqüilizadoramente para Anne Sloane e para John Marshall, e baixou a alavanca.
Deu-se algo surpreendente. Rhodan não se tornou invisível nem desapareceu. Continuou de pé dentro da cabina, assim como entrara.
O hipertransmissor de matéria não funcionava.

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