domingo, 7 de outubro de 2012

P-002 - A Terceira Potência - Clark Dalton[parte 3]


Haggard confirmou com um aceno de cabeça.
— É claro que compreendi. Ouvi falar de uma cratera aberta no deserto do Saara. Isso foi obra de Crest?
— Foi. — Bell absteve-se de maiores explicações. — E pode fazer coisas bem mais impressionantes. Mas deixemos isso para mais tarde. Antes de mais nada, uma pergunta: está disposto a nos ajudar? Concorda em entregar o soro? Em troca dar-lhe-ei este gerador. Recebi-o dos arcônidas.
Haggard pegou um cigarro. Havia um tremor quase imperceptível nas suas mãos.
— Só o soro não adiantaria muito. Crest teria que se submeter a um tratamento em meu sanatório.
— É impossível doutor. Aqui não estaria em segurança nem por um segundo. Os agentes de todos os países estarão atrás dele.
Haggard confirmou com um leve aceno de cabeça. Depois, olhou para Bell.
— Nesse caso, irei com o senhor.
— O senhor pretende?... Mas... o hospital? As pesquisas?
— Isso pode esperar. Estou muito mais interessado nesse tal Crest. É bom que saiba que sempre tive uma inclinação para coisas incomuns. O senhor acha que eu deixaria escapar esta oportunidade de examinar o organismo de uma inteligência extraterrena? Quando partiremos?
Bell achou que Haggard estava indo muito depressa.
— O mais rápido possível. Mas tenho de resolver alguns assuntos. Preciso de dinheiro para adquirir as peças sobressalentes destinadas à nave dos arcônidas. São componentes eletrônicos. Quem sabe se o senhor poderia dar-me uma indicação a respeito disso?
— Conheço várias firmas. Por um desses geradores dar-lhe-ão um armazém cheio de peças.
— Ótimo! Amanhã faremos uma visita às grandes casas do ramo. Só disponho de um helicóptero que não pode transportar volumes muito grandes. Talvez conheça alguém que possua um meio de transporte com maior capacidade de carga.
Haggard franziu a testa.
— Um dos meus assistentes é proprietário de um confortável iate. As condições de navegabilidade do barco são muito boas. Não terá dúvidas em cedê-lo a mim. Daqui a Hong Kong são três mil quilômetros. Venceremos esta distância em uma semana.
— Muito bem! Em Hong Kong veremos o que fazer. Meu psico-irradiador saberá cuidar da situação.
— Quem?
Bell tirou o bastão prateado do bolso.
— É um aparelho formidável, doutor. Ele lhe permite impor sua vontade a qualquer pessoa até uma distância de dois quilômetros. Como vê, de qualquer maneira eu o levaria ao deserto de Gobi, mesmo que não quisesse.
— É inacreditável! — disse Haggard espantado. — Se isso funcionar não haverá mais qualquer dificuldade.
— Funciona! — tranquilizou-o Bell.
O dia seguinte foi cheio de surpresas e de preocupações para os diretores de várias fábricas. Se não fosse a presença de um médico conceituado, o Dr. Haggard, pensariam que a demonstração realizada por Bell não era mais que uma engenhosa fraude.
Convencidos da verdade, o cepticismo transformou-se em vivo entusiasmo. Bell ficou sem os aparelhos e as fábricas sem algumas caixas de peças eletrônicas.
Como se não bastasse, Bell ainda recebeu uma boa importância em dinheiro, da qual entregou cinco mil dólares a Fletcher que já estava com passagem reservada para Nova Iorque.
Haggard pediu que o iate do seu assistente entrasse na baía que ficava perto ao hospital.
Tudo correra bem até ali. Três dias mais tarde, o iate estava com toda a carga arrumada a bordo e preparado para partir. O helicóptero fora firmemente amarrado ao convés.
Os dois homens foram à terra pela última vez. Haggard, para dar algumas instruções ao seu substituto e Bell, para desentorpecer as pernas.
Subitamente, ouviu-se o uivo de uma sirena. Holofotes romperam a escuridão, mergulhando a baía numa forte claridade. Os motores de pesados helicópteros agitavam o ar plácido do lugar. Tanques surgiam por entre as moitas que ladeavam a praia e dirigiam seus canhões para o iate. Soldados apareceram entre o passadiço e o lugar em que Bell se encontrava. Estavam de armas na mão e prontos para abrir fogo. Um oficial aproximou-se, vindo de um dos lados. Parou diante de Bell.
— Seu nome é Reginald Bell?
— Será que isso é crime?
— Limite-se a responder às minhas perguntas. Bell permaneceu calado.
— Pertence à tripulação da Stardust?
— Já que sabe, por que pergunta?
Num gesto insolente, Bell colocou a mão no bolso.
— Deixe disso! — advertiu o oficial. — Qualquer resistência será inútil. A área está cercada. O Doutor Frank Haggard já foi preso. O Capitão Fletcher também está sob custódia da polícia.
— Coitado! Terá um filho — murmurou Bell, penalizado.
— O quê?
— Tanto faz. O senhor não compreenderia.
Bell já conseguira regular a intensidade. Comprimiu o botão do ativador. Olhou atentamente para o oficial.
“Execute dez flexões de joelho!” pensou, concentrando bem a mente.
Os soldados, que já tinham se acercado mais, abaixaram as armas e arregalaram os olhos. Subitamente, o oficial estendeu os braços e começou a flexionar os joelhos. Bell contou. Foram exatamente dez flexões.
“E agora, diga a esta gente que dê o fora daqui e volte para o quartel.”
O oficial virou-se e berrou para os soldados:
— Por que estão parados ai, seus idiotas? Voltem ao quartel. Vamos logo! Ou eu terei que ensiná-los a andar depressa.
— O que está acontecendo por aqui?
A voz fria e calma era de um civil que saíra inesperadamente das moitas. Seus trajes eram tão discretos que teriam dado na vista até de um elemento pouco experimentado no assunto como Bell.
— Os homens têm que voltar ao quartel — disse o oficial com uma inflexão impessoal na voz. — Têm que voltar!
O civil dirigiu-se para Bell.
— O senhor é o Capitão Reginald Bell?
— Hoje em dia todo mundo quer saber o meu nome. É interessante! Antigamente, ninguém queria saber como me chamava. Mas, desde que voltei da Lua a coisa mudou...
— Ah! Quer dizer que confessa ser Reginald Bell?
— Por que não? O senhor é da polícia?
— Sou do Serviço de Segurança. Venha comigo! — Bell virou-se ligeiramente.
— É melhor que o senhor me siga — recomendou com voz suave, enquanto caminhava em direção aos prédios do hospital. — Quem está comandando a ação contra mim?
— É o inspetor Miller, apoiado por toda a guarnição.
Disse o civil em outro tom de voz.
— E quem prendeu Haggard?
— Fui eu. Ficará na cadeia até que sua participação nos acontecimentos tenha sido esclarecida. Deseja falar com ele?
— Providencie imediatamente para que Haggard seja liberado — ordenou Bell. — Depois, o senhor mesmo o levará a bordo do iate e fará com que o inspetor Miller suspenda toda e qualquer ação. Entendido?
— Levar Haggard à bordo e cessar a ação. Entendido!
Era possível que as novas instruções não chegassem logo a todos os pontos. Provavelmente, uma ou outra unidade ainda executaria as ordens anteriores. Nesse caso, seria melhor estar a bordo do iate. De qualquer maneira, o civil levaria seu prisioneiro a bordo, a não ser que impedido pelo uso da força.
Bell colocou o neutralizador de gravidade sobre uma mesa na cabine situada no convés superior, que possibilitava, visão ampla para o lado da terra. Já que o alcance do aparelho atingia dez quilômetros, a cidade também seria atingida.
Esperou até que o civil entregasse Haggard, que estava pasmado. Depois, ligou o neutralizador. O ponto central, isto é, o iate, conservou seu peso natural. Também a superfície do mar, sobre a qual não soprava a mais leve brisa ficou como se fosse uma placa de vidro. Apenas os peixes que saltavam para o ar ofereciam um espetáculo estranho. O peixe e o repuxo d'água iam subindo lentamente, até que se perdessem na escuridão.
Bell voltou-se para Haggard.
— É uma pena que não possamos ver o que está acontecendo na cidade. Todos os. objetos que se encontrem num raio de dez quilômetros perderam o peso normal. Imagine as forças policiais suspensas no ar.
— Mas, os meus doentes... — disse Haggard preocupado.
— O setor em que fica o seu hospital foi excluído — tranquilizou-o Bell. — Mas já é hora de darmos o fora daqui. Deixarei o neutralizador ligado. Sua ação também se estende para cima. Ninguém conseguirá chegar a menos de dez quilômetros de nós.
Envolto numa bolha protetora de completa imponderabilidade, o iate, batizado com o nome de Zéfiro, deixou o porto natural e foi navegando mar afora.
Se Bell pudesse ver o que resultou com o uso do neutralizador, talvez não ficasse tão alegre. O caos tomou conta da cidade de Darwin. O chão fugiu de debaixo dos homens e dos veículos que foram subindo lentamente, frente à baixa ação da gravidade. Se tivessem sorte, alcançariam logo o teto da zona antigravitacional que foi baixando gradativamente. Nesse caso, o impulso contrário, fazia-os tornar suavemente à terra. Mas houve alguns que não tiveram tanta sorte. E as quedas se sucederam, com maior ou menor número de ferimentos ou fraturas.
Naquela mesma noite, a notícia de tão incrível ocorrência deu a volta ao mundo. E o alarme geral voltou. Unidades das esquadras das três grandes potências mudaram de rumo. Tomaram a direção da Célebes, onde se supunha se encontrava o iate que levava a bordo um dos tripulantes da nave espacial.
No dia seguinte, dois porta-aviões e sete destróieres da Federação Asiática deixaram seu elemento natural. Privados do seu peso normal subiram a quase três mil metros antes de voltarem lentamente ao mar. Diante disso, resolveram desistir da perseguição. E os mísseis, disparados de uma distância segura, também não tiveram êxito. Nenhum deles atingiu o alvo. Detonaram a grande altitude ou sob a superfície do oceano sem causar qualquer dano. Bell conseguiu dirigir o curso dos mísseis modificando as condições gravitacionais. Porém, ele sabia que as grandes dificuldades estavam, ainda, por vir. Uma vez que estavam sendo perseguidos por todo mundo, dificilmente conseguiriam entrar no porto de Hong Kong sem serem notados. Só com muita sorte voltaria a ver a Stardust.


Fletcher olhava fixamente para a luz ofuscante da lâmpada. Não compreendia o que estava acontecendo; tinha os olhos arregalados.
— Basta falar — disse uma voz áspera vinda de­trás da lâmpada. Não viu o rosto da pessoa que lhe falava. Estava imerso na escuridão. — Por que pretende voltar aos Estados Unidos?
— É por causa de minha esposa; ela está esperando um filho.
— Foi o que o senhor já disse. Mas deve ter outros motivos. Ninguém arrisca a vida por causa de um bebê.
— Como pode afirmar isso? É casado?
O homem invisível pigarreou.
— Por que não ficou com Perry Rhodan?
— Não sei de quem está falando. Não conheço nenhum Rhodan. E não sei nada a respeito de uma nave espacial. Pare de me torturar com suas perguntas incompreensíveis!
— O que Rhodan pretende fazer com a Stardust?
— Não sei.
— O que encontraram na Lua?
Fletcher procurou mover os braços. Não conseguiu; estavam presos ao encosto da cadeira por fitas de aço. O suor gotejava-lhe da testa. Sentia sede. Fechou os olhos, mas a luz ofuscante atravessou-lhe as pálpebras.
— Não sei.
— Ouça, capitão Fletcher. Não desistiremos. Se não disser logo a verdade, teremos que usar métodos mais desagradáveis.
— Não posso dizer o que não sei.
Ouviram-se vozes baixas vindas de um canto da sala. Depois disso a lâmpada foi apagada. A iluminação normal, vinda do teto, parecia triste e escura. Mãos brutais arrancaram Fletcher da cadeira, depois de soltarem as fitas de aço. Apático, deixou que o levassem. Não via as portas por onde passava, nem as paredes do corredor ou os rostos dos seus algozes. Só pensava no avião que, no dia anterior, devia tê-lo levado para os Estados Unidos. Nem mesmo a sala de operações com sua iluminação profusa conseguiu remover a rigidez que tomara conta do seu ser.
Deitaram-no sobre uma mesa. Homens de avental branco amarraram-no. Suportou tudo com a maior indiferença. Suas articulações foram envolvidas por placas de cobre. Cabos condutores de energia, com seus frios contatos, cingiram-lhe as têmporas. Depois disso, uma máquina enorme e estranha começou a funcionar.
Os primeiros reflexos coloridos surgiram numa tela. Alguns homens à paisana estavam sentados diante da mesma. Seus rostos exprimiam a tensão de que se achavam possuídos.
— Acha que isso nos ajudará a descobrir alguma coisa?
— O projetor mental é infalível, inspetor. Infelizmente, sua utilização pode acarretar um certo perigo para o acusado. Mas se falar, ou melhor, pensar, nada de prejudicial poderá acontecer.
— Seus pensamentos são projetados na tela?
— Isso mesmo. Trata-se de um aperfeiçoamento do detetor de mentiras que costumava ser empregado até aqui, mas tem pouca semelhança com o mesmo. Se o homem que se encontra sob a ação deste aparelho não quiser responder a uma pergunta que lhe fizermos, ao menos pensará na mesma. Na tela de imagem aparecerá um quadro que corresponde ao que ele concebe na sua imaginação.
— Acho que já estou compreendendo. Vamos começar.
Fletcher estava com os olhos fechados. Ficou quieto, como se quisesse dormir. Seu peito subia e descia ao ritmo normal da respiração.
Um dos homens inclinou-se sobre ele.
— Está me ouvindo, Fletcher. Pode deixar de responder, se preferir. De qualquer maneira, formularei algumas perguntas. Só fale se desejar. O que pretende fazer nos Estados Unidos?
Os homens olharam para a tela de imagem. Pela primeira vez, um quadro nítido começou a se delinear. Surgiu o rosto de uma mulher jovem e bela, que sorria e acenava. Fletcher parecia gemer. O quadro modificou-se. Camas, enfermeiras, médicos. Depois, a mulher voltou a aparecer. Estava deitada numa cama. Perto dela via-se uma criança.
— É verdade! — murmurou o inspetor. — Só pensa no bebê. É uma idéia fixa. Continue a perguntar, chefe.
O homem designado como chefe acenou com a cabeça.
— Fletcher, o que aconteceu na Lua? Precisa­mos saber o que aconteceu na Lua!
O quadro com a criança desfez-se imediatamente. Figuras em cores vivas percorriam a tela, formavam quadros abstratos e desfaziam-se em manchas irreconhecíveis. Depois formou-se uma espiral que começou a girar rápido, cada vez mais rápido, até transformar-se num disco rodopiante.
— O que sabe a respeito da Stardust?
O disco girou mais depressa. Raios passavam sobre a tela. Fletcher gemeu. Sua respiração era cada vez mais apressada. O suor corria-lhe da testa.
Um dos homens de avental branco adiantou-se e colocou a mão sobre o braço do chefe.
— Devemos fazer uma pausa — recomendou. — O prisioneiro está exausto. O coração não agüenta mais.
— Mal começamos — interveio o inspetor. — Só mais algumas perguntas.
— O senhor está vendo que o homem não sabe nada. As imagens da tela indicam um estado de amnésia total. Está bem! Dar-lhes-ei mais duas tentativas, mas sob sua responsabilidade.
O círculo rodopiante na tela de imagem tinha desaparecido. A mulher jovem voltou a aparecer. Atravessava um jardim florido, levando uma menina pela mão.
— Fletcher, quais são as intenções de Perry Rhodan?
A mulher com a menina desapareceu imediatamente. O circulo voltou a rodopiar. Reflexos coloridos surgiam e desapareciam.
— É inútil! — disse o médico. — O homem não sabe nada.
— Tem de saber! — berrou o inspetor fora de si. — Pois não perdeu a razão.
— Talvez tenha perdido a memória.
— Precisamos descobrir o que aconteceu. Não existe nenhum meio de restituir-lhe a memória?
— Com o tempo talvez conseguiríamos. Teria de ficar em sossego absoluto durante vários meses; se possível devia ser posto em liberdade.
— É impossível! Ele representaria um perigo para o mundo. Lembre-se do tal de Bell, que ontem diminuiu expressivamente a ação da gravidade na cidade. Nada disso! Fletcher não pode ficar fora da nossa vigilância um instante sequer.
O médico suspirou.
— Muito bem. Formule a última pergunta.
O chefe acenou com a cabeça. Sua atitude diferia sensivelmente da conduta imoderada do inspetor. Encostou a boca ao ouvido de Fletcher e perguntou:
— Quem é Crest?
Haggard revelara esse nome durante sua prisão, que só durara alguns minutos. O inspetor ouvira-o, mas não sabia o que significava.
— Está ouvindo Fletcher? Quem é Crest? Fletcher esforçou-se para romper as faixas que o prendiam. De olhos arregalados fitou o homem que o interrogava. No seu rosto via-se o medo, mas, também alguma coisa parecida com uma recordação que despontava do subconsciente. Seus punhos cerraram-se. Os lábios murmuraram palavras inaudíveis.
Na tela de imagem fez-se o caos.
A roda colorida girava cada vez mais depressa, até que suas cores se fundissem num cinza monótono. Depois estourou. As lascas coloridas deslocaram-se para os lados e deslizaram para fora da tela. Depois esta se tornou negra. E assim continuou.
Um dos médicos inclinou-se e examinou os olhos enrijecidos de Fletcher. Segurou-lhe o pulso. Depois ergueu-se e falou com a voz muito séria.
— Está morto!
O inspetor empalideceu.
— Morto? Mas como? Seu coração estava perfeito.
O médico encolheu os ombros.
— Pode ser que o coração estivesse perfeito. Acontece que morreu de um derrame cerebral.
Nenhum dos presentes disse mais nada.
Fletcher estava estendido na mesa, imóvel. Não mais teria a alegria de assistir ao nascimento do seu filho. E não saberia que seria uma menina.


O tenente Klein parou diante da barreira invisível.
Suas mãos sentiram o obstáculo, mas seus olhos não o viram. Dois mil metros além dele estava a Stardust, símbolo do orgulho e da esperança frustrada do mundo ocidental. Já agora transformara-se no pavor de toda a humanidade.
Uma figura solitária veio ao seu encontro. Era o major Rhodan, que já conhecia de numerosos filmes. Parou a menos de dois metros. Tinha lápis e papel na mão.
— O que deseja? Quem é o senhor? — estava escrito no papel.
Klein nem se lembrara disso. Se o anteparo energético detinha uma explosão atômica, evidentemente não deixaria passar as ondas sonoras. Revirou os bolsos; acabou encontrando lápis e papel. Pelo menos havia possibilidade de comunicar-se.
— Sou o tenente Klein. Vim por ordem de Mercant e Pounder, para negociar com o senhor.
Perry Rhodan sorriu e escreveu:
— Tire a roupa. Depois disso suspenderei o anteparo por alguns segundos.
— Tirar a roupa?
— Sim. Para que não possa trazer nenhuma arma.
Klein olhou instintivamente para os lados, mas não viu ninguém. É verdade que Li e Kosnow, escondidos atrás das moitas, de outro lado do rio, arregalariam os olhos. Mas isso pouco lhe importava. O importante era atravessar o anteparo, façanha que até então ninguém conseguira realizar. Tirou a roupa e empilhou-a cuidadosamente.
Perry acenou com a cabeça. Levantou o braço direito e fez um sinal em direção à nave. Subitamente, Klein ouviu sua voz.
— Venha depressa. Chegue perto de mim. Sentiu que o ar quente e o frio se misturaram quando a cúpula energética foi levantada. Logo chegou perto de Perry.
No mesmo instante o vento cessou por completo. A cúpula invisível voltara a cobrir a nave. Estava isolada do resto do mundo.
— Quer dizer que Pounder o mandou? — disse Perry, enquanto lhe apertava a mão. — Já imaginava que um dia o velho me mandaria um mensageiro. Como conseguiu atravessar o território inimigo?
— Não foi difícil — confessou Klein. — A vigilância diminuiu muito.
— Será? — disse Perry em tom de dúvida. — Venha, empresto-lhe uma calça.
Foram andando devagar em direção à Stardust.
Klein sentia uma simpatia inexplicável pelo homem que se encontrava ao seu lado. Recebera ordem de matá-lo de qualquer maneira, se não quisesse submeter-se às ordens de Mercant. No momento, nem se podia pensar nisso. Dificilmente conseguiria mata-lo com as mãos desarmadas. E como faria para destruir a Stardust? Sabia da carga explosiva existente a bordo da mesma. Mas ainda havia três homens além de Rhodan. Não seria fácil, mesmo que quisesse.
Será que queria?
Sentaram numa pedra lisa que ficava perto da nave.
— Agora fale com franqueza, tenente Klein. Qual foi a ordem que recebeu? O que mandam dizer? Foi realmente Pounder que o mandou?
O agente sacudiu a cabeça.
— Não foi o próprio Pounder. Pertenço ao Conselho Internacional de Defesa, dirigido por Mercant. Recebi ordem para convencê-lo a abandonar a Stardust e acompanhar-me para Nevada Fields. Caso se recuse, devo matá-lo e destruir a nave.
Perry gritou algumas palavras para Manoli, que apontou na escotilha. O médico trouxe uma calça de uniforme. Klein vestiu-a.
— Este é o Dr. Manoli. O tenente Klein, do Conselho Internacional de Defesa. Fique com Crest, Eric. Diga-lhe que temos visita.
Esperou até que o médico desaparecesse. Depois respondeu às palavras de Klein.
— Então suas ordens são estas? Por que me contou?
— Porque confio em você, Rhodan. E porque nestes últimos dias passei por alguma coisa que me abalou.
— O que foi?
— Daqui a pouco contarei, Rhodan. Antes disso responda a uma pergunta minha.
— As perguntas e as respostas surgem espontaneamente no curso da nossa palestra. Você responde, eu respondo, e o quadro vai se traçando por si. O general Pounder ficou muito decepcionado comigo?
— Ficou. Não compreende os motivos que o fizeram agir assim. Mas procura compreender, enquanto a opinião de Mercant é inabalável. Para ele, você é um traidor.
— Para Pounder, não? E para você? Qual é a sua opinião?
— Você é um traidor aos olhos de Mercant, e talvez aos olhos da maior parte dos homens do Ocidente. Na opinião dessas pessoas, devia ter entregue ao seu país as invenções que descobriu na Lua. Isso seria de justiça até mesmo do ponto de vista econômico, pois você nunca teria chegado à Lua sem os recursos financeiros proporcionados pelos Estados Unidos. No entanto, pode haver motivos que invalidem todas as leis morais. Mas esses motivos teriam de ser muito sérios.
— Os meus motivos são sérios — disse Perry decidido. — Minha consciência e meu senso lógico não me permitem entregar a uma potência terrena os imensos recursos tecnológicos que descobri na Lua. Qual seria a conseqüência disso, tenente Klein? Pense bem antes de responder.
— Não há muito que pensar. Antes que os Estados Unidos, acho que é o país de que teríamos de cogitar em primeiro lugar, tivessem tempo de experimentar as novas armas, o medo e o pânico fariam com que os outros países disparassem seus foguetes atômicos. A guerra e o extermínio total dela decorrente seriam inevitáveis. Já compreendi onde pretende chegar, major Rhodan. Será que os outros também compreenderão?
— Terão de compreender! — retrucou Perry em tom áspero. Seus olhos exprimiam uma decisão inabalável. — O que está em jogo é muito mais que a manutenção da paz. Como sabe, encontramos uma tecnologia estranha na Lua. O que o senhor não sabe é que os criadores dessa tecnologia, os arcônidas, ainda vivem. Um dos seus cientistas encontra-se a bordo da Stardust.
Klein precisou de um minuto inteiro para recuperar-se do espanto.
— Não estão extintos? Ainda vivem? E podem fabricar maior quantidade dessas armas, se desejarem?
— Não apenas armas, mas também coisas úteis: fontes de energia inesgotáveis em forma de geradores portáteis, veículos movidos com as mesmas, navios, aeronaves de transporte, espaçonaves. Poderia prosseguir indefinidamente na enumeração. Provavelmente agora já compreende por que me vi obrigado a pousar aqui, e por que tenho de repelir toda e qualquer pessoa que queira chegar aqui. Você é a primeira exceção.
— Por quê?
— Porque vem da parte de Mercant e de Pounder. Prezo bastante esses homens, e gostaria que compreendessem os meus motivos. Tenente Klein, você só estará em condições de explicar os meus motivos aos outros se chegar a compreendê-los por si. Não os explicarei.
Klein sorriu.
— Compreendo. Até compreendo muito bem. E acredito que sei onde o senhor pretende chegar. Ali junto ao rio, do outro lado do anteparo energético, dois colegas estão esperando por mim. Não são americanos ou europeus ocidentais. Um é agente da Federação Asiática e outro do bloco oriental. Unimo-nos para solucionar um problema comum. Há poucos dias a irrupção da guerra parecia iminente. Hoje os inimigos mortais de ontem estão colaborando entre si, para combater um poder mais forte.
Perry acenou com a cabeça e retribuiu o sorriso.
— Muito bem. Continue. Parece que já nos entendemos.
— Não tenho mais nada a dizer. Absolutamente nada. Apenas gostaria que você confirmasse que este acontecimento relativamente insignificante constitui o início da grande transformação que tem em mente.
— É isso mesmo. Posso representar uma ameaça séria para o mundo, mas não para a paz duvidosa que reina no mesmo. O medo de mim e do poder dos arcônidas unirá os povos do mundo. Uma vez realizada essa união, nada impedirá a entrega da tecnologia galáctica a um governo mundial estável. Tenente Klein, peço-lhe que relate isto a Mercant e ao general Pounder. Agora gostaria de apresentar-lhe meu hóspede, o arcônida Crest. Peço-lhe que me acompanhe ao interior da nave.
Duas horas depois, quando o tenente Klein voltou a encontrar-se com os dois colegas que o esperavam à margem do rio, nada poderia modificar a decisão que tomara. Era o primeiro homem disposto a lutar pela idéia de Perry Rhodan, idéia essa que constituiria a base moral do futuro Império Estelar.
— Então? — perguntou Kosnow e levantou-se.
— O que aconteceu? — indagou Li.
Klein ficou andando entre os dois. À sua esquerda o russo avançava a passos vigorosos, levantando pequenas nuvens de pó com as botas. À sua direita, Li, o chinês, andava a passos saltitantes. Nos seus olhos lia-se a desconfiança.
— Conte logo, tenente. Conseguiu alguma coisa? — Klein confirmou com um aceno de cabeça.
— Consegui praticamente tudo. Minha missão está finda. E acredito que a de vocês também esteja. Explicarei por quê. Li, acho que somos bons companheiros, não somos? Compreendemo-nos muito bem. Kosnow, você acha que seríamos capazes de matar-nos uns aos outros só por termos idéias diferentes sobre determinados assuntos? Estão sacudindo a cabeça. Tanto melhor! Vocês sabem dizer o que aconteceria se essa nave espacial deixasse de existir juntamente com as invenções fabulosas trazidas da Lua? Ou se caísse nas mãos de qualquer das grandes potências?
Nenhum dos dois respondeu.
— Pois eu lhes digo. No mesmo instante apontaríamos as armas uns para os outros. Voltaríamos a ser inimigos ferrenhos. E isso apenas porque a ameaça maior deixou de existir. Isso que aconteceria conosco também aconteceria aos governos das grandes potências. O fim da Stardust seria o fim da paz. Compreenderam? Enquanto a terceira potência, a potência dos arcônidas, estiver por aqui, o nosso mundo continuará a existir. A nós três foi dada a chance de conservar a paz mundial. Para isso teremos de retornar aos nossos países e comunicar que é impossível alcançar a Stardust. Dessa forma continuaremos amigos, e as potências que representamos também continuarão.
Li esboçou um sorriso imperscrutável.
— Há seis dias já me ocorreu uma idéia semelhante, mas não tive coragem de exprimi-la. Hoje digo que concordo com o que você acaba de dizer.
Klein e o chinês lançaram um olhar de expectativa para o russo. Kosnow ficou parado. Retribuiu o olhar dos companheiros.
— Acredito que no mar Negro a extração do sal será mais rendosa que aqui. Mudaremos de acampamento.
Os três riram. Depois apertaram-se as mãos.
A cidade de Hong Kong parecia um acampamento militar quando o iate Zéfiro entrou no porto.
Bell desligara o neutralizador, mas ficou com ele ao alcance da mão; queria estar prevenido no caso de um ataque. Haggard instruíra a.tripulação no sentido “de atracar”. Os dois homens estavam de pé na proa!
— A situação parece um pouco crítica — murmurou o médico num tom de ceticismo. — Como poderemos desembarcar sem que nos peguem? O mundo inteiro já sabe que estamos aqui.
— E daí? — Bell mostrou-se espantado. Estava brincando com o psico-irradiador. — Com este aparelho posso fazer a cidade inteira mergulhar num sono bem profundo. Poderei transmitir uma ordem a qualquer habitante da cidade, inclusive aos soldados, e a ordem será cumprida à risca. Não vejo nenhum motivo para preocupações. Ainda mais que aqui não é possível utilizar armas atômicas táticas, que são as únicas que poderiam representar um perigo para nós.
— Como vai fazer para descarregar o meu laboratório? Como pretende transportar as peças sobressalentes até o deserto de Gobi?
— Com o tempo encontramos um meio — tranquilizou-o Bell. — Faremos com que o administrador do porto venha até aqui assim que atracarmos. Por que resolveu trazer seu laboratório gigante? Ainda não tive tempo de lhe fazer esta pergunta.
— Laboratório gigante? Trata-se de um pequeno laboratório transportável, dotado do equipamento mais moderno, como instrumentos óticos, aparelhos de análise de metabolismo e amostras de medicamentos de toda espécie. Não se esqueça de que teremos de lidar com um ser biologicamente diferente, que provavelmente reagirá de forma diferente de nós. Também existe um aparelho de raios X, e...
— E eu que pensava que tudo ficaria resolvido com uma seringa e algumas ampolas de soro — disse Bell com um suspiro.
— É engano, meu caro Bell. Mas olhe os tanques parados ali no cais. Estão esperando a oportunidade de afundar o nosso iate.
— Que nada! Se quisessem, já teriam tentado. Sabem muito bem que, se o fizerem, eu os mando para os ares, no sentido literal da palavra. Muito bem. Estamos atracados. E agora vou usar minha varinha mágica.
Dirigiu o irradiador com meia intensidade sobre o edifício baixo que ficava junto ao cais e pensou intensamente:
“O administrador do porto deve comparecer imediatamente ao pier número sete. Administrador do porto no pier número sete. Urgente. Suba a bordo do iate Zéfiro.”
Provavelmente Bell estouraria de rir, se visse o que fez com sua ordem mental. No entanto, não pôde presenciar o espetáculo. No edifício da administração do porto trabalhavam cerca de duzentas pessoas. De repente todas elas se sentiram na obrigação de avisar o administrador de que devia comparecer imediatamente ao píer número sete, onde o iate Zéfiro esperava por ele. O administrador que, seguindo a ordem interior, já se pusera a caminho, teve de conter todo o funcionalismo, que se interpunha no caminho, para dar o aviso.
— Já sei, já sei — disse em voz alta, para que todos ouvissem. Correu para o cais, onde teve de abrir caminho entre uma multidão de trabalhadores do porto, que o assediavam para avisá-lo de que devia comparecer imediatamente ao píer número sete, onde um iate...
Chegou esbaforido ao local em que se encontrava o iate. No caminho o comandante das forças blindadas reunira-se a ele em silêncio. Subiram juntos no estreito passadiço.
Bell deixara ligado o psico-irradiador, colocando-o num lugar de onde alcançava o píer e o convés. Não podia ser visto, mas produzia seus efeitos.
Haggard não conseguiu disfarçar o nervosismo. Bell, todavia, recebeu os visitantes sem o menor constrangimento.
— Fico muito satisfeito com a sua visita — disse em tom convicto. — E agradeço pela parada formidável que fizeram realizar em minha ordem. Não havia necessidade disso. Senhor administrador, dentro de duas horas preciso de vinte trabalhadores para descarregar o iate. Quer tomar as providências necessárias? Obrigado. Pode retirar-se.
O administrador fez uma ligeira mesura e retirou-se. O oficial das forças blindadas ficou parado. Parecia estar esperando alguma coisa.
— Quem está comandando as tropas mobilizadas em Hong Kong? — perguntou Bell.
— O marechal Roon.
— Roon? Não é aquele oficial que subiu ao ar com tanta pompa quando Perry ligou o neutralizador? É claro que é ele! Este helicóptero é dele. Podia aproveitar a oportunidade para vir buscá-lo.
— Perfeitamente. Avisarei imediatamente o marechal Roon.
Dez minutos depois um grupo de oficiais de patente elevada passou pelo píer estreito, vindo do cais. Viam-se luzir as faixas douradas. Devia ser o marechal Roon.
O psico-irradiador estava escondido por baixo de uma amarra enrolada. Sua ação atingia todo o grupo, mas ninguém perceberia seus efeitos enquanto alguém não dirigisse a palavra a Bell.
Depois de confabular ligeiramente, Roon subiu a bordo acompanhado de dois oficiais. Já se esquecera do que o tinha trazido até aqui. Só se guiava pela ordem de que sua mente tinha tomado consciência.
Bell projetou o peito para a frente, o que conferiu linhas mais arredondadas ao corpo. Os cabelos cortados rente estavam de pé. Colocou a mão na boina.
— É o marechal Roon? Fico satisfeito em ver que compareceu tão depressa. Senhores oficiais, dou-lhes as boas-vindas a bordo do Zéfiro. Marechal, permite que lhe pergunte se apreciou aquela viagem aérea? Deve estar lembrado. A Stardust, o deserto de Gobi. Um certo major Butaan também se encontrava presente.
— É claro que me lembro. Foi um fenômeno estranho. Uma invenção dos demônios brancos. Além disso, roubaram meu helicóptero. Se não me engano o senhor é o capitão Reginald Bell. Devo intimá-lo para que se renda.
— Mas, marechal, logo nós que somos tão amigos; só pode estar brincando. Eu lhe devolvo o helicóptero e damos o incidente por encerrado. Está de acordo?
— De acordo! — respondeu Roon sem a menor hesitação.
— Além disso, o senhor vai retirar suas tropas de Hong Kong, e expedirá uma ordem ao exército. A Stardust não mais será atacada. O senhor ainda assegurará livre transito e dispensa toda proteção ao comboio de transporte dirigido por Reginald Bell. Entendido?
— Entendido.
— Muito bem. Providencie para que dentro de uma hora estejam aqui três caminhões. Um deles será ocupado pelo senhor juntamente com dez oficiais de alta patente. Levem cobertores ou sacos de dormir. Os outros deverão estar vazios pois transportarão a carga. Certo?
O marechal Roon prestou continência para Bell.
— As ordens serão executadas. Mais alguma coisa?
— Sim, marechal. Desautorize qualquer ordem que tenham em vista um ataque contra a Stardust ou seus tripulantes. Expeça as respectivas instruções aos seus escalões inferiores.
Roon ficou em posição de sentido. Deu meia-volta e saiu do iate. Chegando ao píer, os outros oficiais começaram a falar-lhe com insistência. Roon, porém, berrou com eles de tal forma que encolheram a cabeça e ficaram quietos. Afinal, o marechal era ele; devia saber o que estava fazendo.
E Roon sabia.
Finalmente, Haggard conseguiu fechar a boca.
— É formidável! — principiou, mas Bell interrompeu-o.
— O senhor ficará muito mais admirado quando falar com Crest. Eu lhe disse que conseguiríamos.
Ficaram aguardando com toda a calma. Viram os tanques se reunirem perto do cais e começarem a se afastar em direção a leste da cidade. As tropas de infantaria começaram a se retirar, também. Apenas o pessoal da polícia hesitou e, por isso, Bell não teve contemplação. Pegou o psico-irradiador e ordenou:
— Atenção todos os membros da polícia, inclusive serviço secreto, deitem-se todos!
Ficou espantado ao ver quantas pessoas se deitaram. Até mesmo respeitáveis senhores de idade que pareciam passear para espantar o tédio atiraram-se desassombradamente na lama da rua. Trabalhadores aparentemente inofensivos e vários pescadores fizeram a mesma coisa. Evidentemente também foram acompanhados por policiais uniformizados.
— Arrastar-se! — ordenou Bell numa alegria incontida. Jurou que nunca mais largaria o psico-irradiador. — Arrastar-se até o alojamento.
Bandos ruidosos de crianças acompanhavam os temíveis policiais que se arrastavam colados ao chão. Ninguém sabia explicar o fato, mas todos achavam que era perfeitamente natural. É que todos tinham compreendido a ordem, embora não soubessem de onde tinha vindo. Mas quem não pertencesse à polícia não era atingido por ela.
A zona portuária ficou literalmente deserta.
Depois de algum tempo, chegaram cerca de vinte trabalhadores e os três caminhões. Dois oficiais estavam sentados na carroçaria do último deles, numa atitude de expectativa.
— Fiquem quietos aguardando novas ordens. Os senhores formarão a escolta do comboio. Rechaçarão qualquer ataque com suas pistolas. É só.
O transbordo da carga não levou muito tempo. Dali a uma hora estava tudo pronto. O iate suspendeu âncoras e foi deslizando mar afora. Bell desejou-lhe um feliz regresso.
Ele mesmo tomou o lugar na cabine do primeiro caminhão. Haggard foi no segundo, que transportava seu precioso laboratório. O comboio pôs-se em movimento e saiu sacolejando pela rua esburacada. Só na periferia da cidade as condições da pista de rolamento começaram a melhorar; aumentaram a velocidade. Não se via nenhum soldado, nenhum policial.
Em Cantão, atingiram a larga e bem asfaltada rodovia que, numa extensão de dois mil quilômetros, ligava aquela cidade a Lan-Shou. Dali em diante, teriam que rumar para o norte, passando pelo vale do Hwang-Ho e pela cordilheira de Alaschan. Chegando à altura do meridiano 38, penetrariam no deserto, seguindo em direção ao oeste. Se tudo corresse bem, a viagem demoraria cerca de três dias.


De Pequim para Washington:
Diversas ocorrências parecem provar que, contrariamente à opinião mais recente, segundo a qual as informações do major Rhodan poderiam ser verdadeiras, a Stardust na verdade é uma base ocidental. Segundo os nossos cientistas, é perfeitamente possível que a eliminação gradativa da gravidade seja uma invenção terrena. Por isso voltamos a exigir que a base situada no deserto de Gobi seja evacuada imediatamente.
De Washington para Pequim:
Qual é a explicação que seus cientistas fornecem para o novo vulcão no Saara, que ainda continua ativo? Asseveramos que nada temos a ver com a Stardust. Estamos tão interessados na eliminação dessa ameaça quanto os senhores.
De Pequim para Washington:
A cratera pode ser o resultado de uma ação bem planejada que nada tem a ver com o raio energético. Nossa opinião de que a Stardust é uma base americana foi reforçada pelo fato de que nossos agentes se viram impedidos pelos seus de se aproximarem da nave espacial. Por outro lado, seus agentes têm livre acesso à Stardust. Reiteramos nossa advertência.
De Washington para Pequim:
Não temos conhecimento de que qualquer dos nossos agentes tenha entrado em contato com o major Rhodan. Deve haver algum engano. O incidente será esclarecido.
De Moscou para Washington:
Exigimos retirada imediata de sua base no deserto de Gobi.
De Moscou para Pequim:
Exigimos remoção imediata base americana do território de seu país.
O ataque verificou-se três dias após a partida de Hong Kong. O comboio tinha passado pela cordilheira de Alaschan e estava se deslocando em direção ao oeste. A antiga estrada de caravanas estava em péssimo estado; não permitia sequer uma velocidade de dez quilômetros horários. Era necessário . contornar buracos enormes. Sulcos profundos abertos pelas rodas dos veículos ou pelas águas das chuvas obrigavam a manobras extremamente difíceis.
Felizmente, naquele momento, estavam atravessando uma depressão do terreno. Se não fosse assim, a primeira rajada teria atingido o alvo. Nessas condições, porém, as pesadas granadas passaram zunindo por cima de suas cabeças e foram detonar na vertente norte da cadeia de Richthofen.
Bell mandou que o comboio parasse imediata­mente. Fez com que os veículos encostassem do lado direito da estrada, onde o precipício íngreme os protegia contra o impacto direto das granadas disparadas do norte. Pegou o neutralizador de gravidade e foi subindo. Chegado ao topo da colina, descansou a caixinha e olhou em direção ao deserto.
“Diabo! Esses camaradas já deviam ter aprendi­do”, pensou Bell. As tropas encontravam-se mais de dez quilômetros de distância. Haviam montado uma verdadeira posição de combate. Bell pediu a um dos oficiais que lhe desse um binóculo.
Havia, pelo menos, oito canhões de grosso calibre. Mais à direita, uma bateria de peças leves. Em meio a isso, tinham sido montados ninhos de metralhadoras.
O neutralizador de gravidade não alcançaria o adversário.
Outra rajada passou por cima de sua cabeça, numa altura menor. Os impactos estavam mais próximos.
— Haggard! No caminhão da frente há um transmissor. Pegue um dos oficiais e procure entrar em conta to com a Stardust. Faixa de 37,3 metros. Avise-me assim que responderem. Mas ande depressa, senão essa gente acaba acertando a pontaria. Não posso fazer nada para impedi-lo.
Entre os oficiais, Haggard encontrou um telegrafista. Assim mesmo, dez intermináveis minutos passaram-se até que chegasse a resposta da Stardust. Bell escorregou encosta abaixo e pediu a Haggard que subisse. Tinham que estar prevenidos contra um ataque de surpresa da infantaria.
— Perry, é você?
— Bell, meu velho! Você ainda está vivo? Onde está metido? Deu tudo certo?
— Até agora sim. Encontro-me a menos de cem quilômetros da Stardust. Estou com três caminhões cheios de peças para Crest. O doutor Haggard, descobridor do soro anti-leucêmico, está comigo. Acontece que os chineses estão desfechando um ataque de artilharia contra nós.
—- E daí? Até agora você conseguiu se defender.
— É, mas não se esqueça de que os outros também aprendem. Já sabem que não devem aproximar-se a menos de dez quilômetros. Também deixaram de empregar mísseis; sabem que posso desviá-los. Todavia, nem mesmo eu estou livre do impacto casual de uma granada, por mais que procure desviá-la. Você tem que me ajudar e depressa.
Fez uma rápida pausa.
— Um instante. Ei, motorista! O mapa.
Dentro de poucos minutos, Perry soube a localização exata do comboio e das posições da artilharia inimiga. Prometeu pedir auxílio imediato a Crest. Bell ficou com o receptor ligado.
Os impactos das granadas foram se aproximando de forma assustadora. Alguns projéteis menores passaram sibilando bem por cima dos caminhões. Um deles chegou a detonar na colina que limitava a depressão ao sul. Embora tivesse sido por puro acaso, era conveniente sair dali antes que o pior acontecesse.
Perry voltou a falar.
— Crest pensou em pedir a Thora que lançasse o raio energético, mas a Lua ainda se encontra abaixo do horizonte. É impossível. Daqui também não podemos fazer nada. Mas existe uma possibilidade. Vendeu todos os geradores?
— Não, ainda fiquei com dois.
— Então agradeça aos céus, meu velho. Você prefere utilizar o psico-irradiador ou o neutralizador?
— Mas a distância é muito...
— Não fique nervoso, pois isso faz mal à saúde.
Então, qual dos dois prefere? Aliás, tendo dois geradores também pode usar ambos. Para encurtar a conversa: a reserva de energia do psico-irradiador e do neutralizador é muito reduzida para atingir uma distância superior à prevista. Se forem ligados ao gerador, seu alcance decuplicará. É verdade que só por uns poucos minutos. É necessário intercalar uma pausa, para evitar a sobrecarga do aparelho. Entendido?
— E como faço a ligação?
— Basta um cabo que ligue o neutralizador ao gerador. Na parte posterior há uma tampa. Retire-a. Por baixo dela encontrará uma tomada. Basta enfiar os pinos do gerador e...
— Está bem, mestre e senhor. Muito obrigado. Que pena que você não poderá assistir ao que vai acontecer daqui a pouco.
— Não se preocupe. Assistirei. Para isso, até me arrisco a desligar o anteparo energético. Acho que você chegará aqui antes do anoitecer.
Bell já não estava escutando. Agora que sabia o que fazer, não quis perder um único minuto. Os oficiais e motoristas receberam ordem para ficar em silêncio. Haggard segurou o neutralizador com o gerador ligado ao mesmo. Bell ficou com o psico-irradiador cuja potência também fora aumentada.
Rhodan, que estava sentado diante da tela em companhia de Manoli e Crest, certamente se divertiu muito com o espetáculo que se seguiu. Contemplaram a cena de cima. A microssonda estava flutuando três mil metros acima das posições inimigas.
No início, nada aconteceu.
Mas quando os canhões pesados dispararam, os espectadores viram-se diante de um quadro grotesco. Diminuída a ação da gravidade, as granadas saíram em linha reta, até que se perdessem junto às montanhas distantes. Os canhões, submetidos a uma força de recuo equivalente, foram deslizando devagar em sentido oposto, subindo aos poucos. A queda gradual que se seguiu revelou que Bell devia ter mantido um décimo da gravitação comum, para que retornassem ao solo são e salvos, sem correrem o risco de morrer em virtude de uma queda mais violenta. Crest registrou o fato com um gesto de aprovação.
Os canhões menores não tiveram melhor sorte.
Mas o melhor ainda estava por vir. Como se estivessem obedecendo a um comando único, todos os soldados — os artilheiros, os oficiais, os motoristas e as guarnições das metralhadoras — viraram-se subitamente e começaram a correr. Em direção ao norte. Realizavam saltos enormes, como se fossem pulgas gigantescas. Só atingiam o solo centenas de metros mais adiante, e logo voltavam a saltar. Os saltos foram se tornando mais curtos. Certamente Bell estava desligando o neutralizador aos poucos. Finalmente os coitados estavam apenas correndo. Corriam e corriam, como se fugissem do demônio. Provavelmente teriam continuado a correr, mesmo que Bell não lhes tivesse dado ordem para se refrescarem com um banho no lago salgado mais próximo do deserto de Ning-Hsia.
Perry girou um botão do receptor.
A sonda desceu. A imagem de Bell apareceu na tela, grandemente ampliada. Perto dele via-se um tipo atlético de cabelos castanho-escuros. Ambos riam tanto que as lágrimas lhes desciam pela face. Desceram a encosta e entraram nos seus veículos.
No momento em que deram a partida Bell ainda estava rindo.
Perry desligou. Olhou para Crest. Nos olhos do arcônida via-se um sorriso delicado. Acenou lentamente com a cabeça.
— Admiro você e a sua raça — disse. — Mas talvez esteja enganado; pode ser que você seja uma exceção. Seu amigo poderia ter matado os inimigos. Por que não o fez?
— Porque está em situação de superioridade de armas.
Crest respondeu com novo aceno de cabeça.
— Era o que eu imaginava. E sei que não há ninguém melhor que vocês para receber o nosso legado. Você conseguirá, Perry. Alcançará o seu objetivo.
— Obrigado — respondeu Perry em tom caloroso.
Quatro horas depois dois caminhões entraram por baixo do anteparo energético que tinha sido levantado. O terceiro voltou para o leste com três motoristas e dez oficiais.
Receberam ordens estritas para apresentar-se ao Comando Geral em Pequim, e informar o mesmo de que a terceira potência desejava estabelecer relações diplomáticas com a Federação Asiática.
De Pequim para Washington:
O novo incidente prova que seu governo não pretende atender às nossas exigências. Por isso decidimos romper as relações diplomáticas amanhã ao meio-dia, hora local, a não ser que até então a situação tenha sido esclarecida. A Federação Asiática dispõe de meios para repelir qualquer ataque.
De Pequim para Moscou:
Aguardamos um pronunciamento claro sobre sua posição quanto à presença de uma base americana no deserto de Gobi. A resposta deverá estar aqui amanhã ás dez horas da manhã.
De Pequim para a Stardust:
Consideramos ridícula sua proposta de estabelecer relações diplomáticas com uma nave espacial. Intimamo-los pela última vez a se renderem através de mensagem telegráfica. Saiam da nave sem armas e desliguem o anteparo energético. Caso sua resposta seja negativa, as relações diplomáticas com os países do bloco ocidental serão rompidas amanhã ao meio-dia.
De Washington para Pequim:
Voltamos a assegurar que não temos qualquer explicação para a situação atual. Propomos a realização de uma conferência dos dirigentes dos países interessados...
Da Stardust para Pequim:
Reiteramos nossa oferta. Comunicamos ainda que utilizaremos os meios de que dispomos para evitar qualquer conflito armado entre as potências.
De Moscou para Pequim:
Acusamos o recebimento da sua nota.
A lua minguante seguia o sol, que já descera atrás da linha do horizonte. A posição favorável permitia uma comunicação visual direta com Thora.
Apesar do seu vigoroso autodomínio, Perry não conseguiu reprimir a sensação estranha que se apossou dele ao ver aquela mulher, que era de uma beleza extraordinária. Seu cabelo claro, quase branco, contrastava de forma agradável com os olhos vermelho-dourados, que o olharam com uma expressão fria e realista.
Num tom arrogante que fez com que Perry ficasse rubro de raiva disse:
— Por que chamou?
— Crest quer falar-lhe — respondeu Perry em tom gélido.
— Pois então vá buscá-lo.
Perry não respondeu. Lançou-lhe mais um olhar e retirou-se. Crest ocupou o lugar diante da tela de imagem com o rosto indiferente. Começou a falar numa língua desconhecida, altamente melódica. Sua voz era insistente. Às vezes parecia ordenar, outras vezes pedir. Vez por outra Thora dava uma resposta ou formulava alguma pergunta. Finalmente disse alguma coisa e acenou com a cabeça. Depois disso a imagem desapareceu. A tela de imagem apagou-se.
Crest ficou sentado mais cinco segundos diante do receptor, imóvel. Depois levantou-se. Suspirou.
— Por enquanto fará o que mandei. Mas estou prevendo que mais tarde teremos dificuldades com ela. Fica aferrada às leis antigas; não compreende a necessidade de uma modificação. Fará tudo para impedir uma aproximação entre sua raça e a minha.
— Quem sabe se devo conversar com ela por alguns minutos, de psico-irradiador na mão — sugeriu Bell em tom decidido. — Depois disso ficará tão comportada como os oficiais do exército asiático.
Crest destruiu as esperanças de Bell.
— Os seres da nossa raça dispõem de uma proteção contra os efeitos do irradiador. Mas um dia terá de reconhecer onde está o futuro da sua raça. De qualquer maneira está orientada a respeito da nossa situação. Recomendou-me que embarcasse numa pequena nave espacial que seria enviada por ela. Depois disso, dirigiria o raio energético para todos os cantos da Terra. Consegui convencê-la de que não alcançaria nada com isso. Deixei claro que minha cura é o que interessa em primeiro lugar. E não se trata apenas de minha cura, pois suponho que toda a nossa raça sofra de leucemia em virtude da degenerescência. Este motivo já basta para obrigar-me a continuar aqui. Amanhã, Thora vigiará a situação a bordo de uma nave auxiliar. Circulará em torno da Terra a uma órbita constante, a mil quilômetros de altura. Um campo de nêutrons constantemente renovado impedirá toda e qualquer explosão atômica. Serão criados campos magnéticos que desviarão os foguetes do seu curso, fazendo-os caírem no mar. Um raio energético de intensidade reduzida obrigará as aeronaves que se lançarem a um ataque a pousarem no solo. O abastecimento de energia será suspenso e as comunicações radiofônicas serão interrompidas por linhas de sangria, que subtrairão energia. Não se preocupem, cavalheiros: não haverá guerra, mesmo que os três blocos a desejem. Amanhã entraremos em negociações com os governos, e eles se verão obrigados a nos reconhecer.
— E até lá? — perguntou Perry.
— Até lá só nos resta esperar.
Eric Manoli colocou a mão sobre o ombro de Crest.
— Crest, faça o favor de voltar para a cama. O senhor deve evitar qualquer esforço. Amanhã, quando tudo estiver normalizado, o doutor Haggard o examinará. Estou convencido de que conseguirá curá-lo.
Crest esboçou um sorriso de gratidão.
— Se ele não conseguir, ninguém mais conseguirá.
Seguiram-no com os olhos. Bell acompanhou-o e ajudou-o a arrumar as cobertas sobre a cama.
Haggard lançou um olhar indagador para Manoli.
— Já pôde apurar alguma coisa? Teve oportunidade de examiná-lo e firmar um diagnóstico?
— Vamos a minha cabine. Lá poderei relatar com mais calma as observações até aqui. Acho que se unirmos nossos esforços, conseguiremos o seu restabelecimento. Ele não corre perigo imediato.
Perry ficou só na sala de comando.
Olhou para o céu noturno que se erguia acima da cúpula transparente da nave. As estrelas cintilavam com uma claridade raramente observada. A lua minguante descia para o horizonte. Dentro de uma ou duas horas desapareceria.
Amanhã, seria o dia da decisão final. Se nada conseguia convencer o mundo do poder dos arcônidas, os acontecimentos desse dia o fariam. Não há nada mais difícil que evitar uma guerra decidida por uma humanidade desesperada.
Ficou sentado, até que a lua desapareceu detrás do horizonte.
Subitamente, sentiu frio. Teve impressão de que juntamente com a lua desaparecera um lindo rosto de mulher, com os cabelos claros e olhos vermelho-dourados...


O mecanismo gigantesco entrou em funcionamento.
Durante anos ficara à espera deste momento. Milhares de exercícios haviam demonstrado seu impecável funcionamento, Bastava comprimir um botão, para desencadear a reação em cadeia que não poderia ser mais detida.
Pequim: meio-dia...
O presidente da Federação Asiática fez um sinal de cabeça para o marechal Lao Lin-to, que se encontrava no comando supremo das Forças Armadas, em substituição ao marechal Roon, recolhido à prisão.
Lin pegou o telefone pelo qual se comunicava diretamente com o comando das posições de combate.
— É a constelação das Plêiades? As esquadrilhas decolam imediatamente. Grau de mobilização número um. Bases de foguetes ocidentais: ordem de fogo; alcance sete. Esquadra: zarpar direção leste. Daqui a dez minutos, tudo deverá estar terminado. Recolher todas as tropas terrestres aos abrigos antiatômicos. Aguardar contra-ataque. Fim da transmissão.
Em algum lugar uma mão aproximou-se de um botão vermelho. Hesitou por uma fração de segundo. Depois, o polegar comprimiu profundamente o botão.
Um continente estremeceu.
Os torpedos prateados ocultos nas profundezas subiram para o céu azul, pareciam ir em busca do sol, depois dirigiram-se para o leste ou para o oeste. Eram centenas, milhares, dezenas de milhares...
Nos aeroportos militares reinava uma atividade febril. Uma esquadrilha após a outra erguia-se pesadamente com sua carga mortífera, entrava em formação e subia para a estratosfera, seguindo o curso preestabelecido.
A força naval seguiu com menos rapidez. Desferiria o golpe de misericórdia num mundo destruído. Talvez também pretendesse escapar ao extermínio que se abateria implacavelmente sobre os portos.
Tudo ocorreu em conformidade com o plano.
Só houve um ato que foi praticado independentemente de qualquer ordem, isso numa barraca montada em algum dos aeroportos militares.
Um agente do ocidente dedilhou febrilmente a tecla do telégrafo. Em menos de um vigésimo de segundo os sinais deram a volta ao mundo.
Exatamente um minuto e dezoito segundos depois que o polegar amarelo comprimiu o botão vermelho, a mesma operação repetiu-se em Washington; uma máquina idêntica entrou em funcionamento. Não havia nada que a distinguisse daquela montada no Extremo Oriente. A única diferença foi que, aqui, os foguetes foram disparados para o céu noturno, deixando caudas luminosas atrás de si e de­saparecendo por entre as estrelas.
Talvez fossem um pouco mais rápidos que os da Federação Asiática. Nesse caso a morte não chegaria com uma diferença de setenta e oito segundos. Golpearia simultaneamente de ambos os lados.
Apenas os projéteis disparados pelos submarinos atômicos estacionados em todos os mares do mundo seriam mais rápidos, pois teriam menor distância a percorrer.
Quanto tempo ainda restaria? Dez minutos, talvez quinze. Depois chegaria o fim do mundo.
Moscou esperou exatamente dois minutos.
Depois, também aqui alguém comprimiu o botão vermelho. Os mísseis precipitaram-se para o céu matutino e entraram no seu rumo. Contavam-se por milhares. E em certo momento a diferença das ações empreendidas nas outras partes do mundo tornou-se patente.
Os mísseis do bloco oriental foram todos disparados numa só direção — ou melhor, para um único alvo.
Se alguém prolongasse as linhas das respectivas trajetórias, chegaria à conclusão de que todas elas convergiam num ponto. E esse ponto correspondia ao lugar em que a Stardust se abrigava sob o anteparo energético, isolada do mundo e da destruição que se aproximava.
O sol brilhava em Moscou.
Pelas indicações dos aparelhos de radar, instalados nas fronteiras do gigantesco país, os mísseis da Federação Asiática estavam passando pelas camadas da atmosfera, ainda longe do destino. Nenhum deles desceria no território do bloco oriental.
Os primeiros mísseis do bloco ocidental demonstravam tendência semelhante.
O marechal Petronsky acenou com a cabeça em direção ao primeiro-ministro, numa expressão de triunfo indissimulado.
— Conseguimos. Daqui a meia hora a Federação Asiática não existirá mais; o bloco ocidental e a América também terão deixado de existir. E essa maldita base no deserto de Gobi terá sido varrida da face da Terra. Só restará uma única potência: a nossa.
— É a arte da sobrevivência, caro marechal, apenas a arte da sobrevivência. Ela só está ao alcance de quem se mantém neutro.
O silêncio da expectativa desceu sobre os dois homens. Não só sobre eles. Sobre toda a Terra. Parecia que os últimos minutos que separavam a humanidade do fim não queriam passar. Arrastaram-se interminavelmente, transformaram-se numa eternidade. A humanidade conteve a respiração.
Os primeiros foguetes Polaris penetraram nas camadas mais profundas da atmosfera. Aproximaram-se da área em que se situava o alvo. Sua trajetória assumiu a forma de uma curva balística, tornou-se cada vez mais íngreme — e então desceram verticalmente, penetraram profundamente na terra e tudo que deixaram foram crateras pequenas, verdadeiramente ridículas.
Nenhuma detonação. Nenhuma explosão atômica. Nenhum cogumelo de gases.
A vaga dos gigantescos mísseis intercontinentais acabou de cruzar o Pacífico. O poder explosivo de cada um deles era tão grande que seria capaz de destruir toda vida num raio de cem quilômetros. Por isso, suas trajetórias foram se dispersando durante o vôo. Chegaram ao continente americano como se fossem uma linha bastante tênue de soldados de infantaria. Não detonaram nos pontos previstos, e seu próprio impulso tangeu-os terra adentro até que caíssem nas montanhas, nas matas ou nas estepes. Um único projétil da segunda série caiu em pleno centro de Los Angeles, porque o mecanismo propulsor deixou de funcionar antes do tempo. Perfurou um edifício de oito pavimentos e ficou enterrado nos alicerces.
Com os mísseis americanos ocorreu a mesma coisa. Não houve um único entre eles que detonasse ou caísse em território densamente povoado. Conforme se constatou mais tarde, só causaram pequenos danos materiais.
Nos oceanos, desenrolou-se um quadro grotesco.
Uma esquadrilha de aviões de bombardeio dos Estados Unidos avistaram a esquadra da Federação Asiática a mais de duzentos quilômetros de distância, junto ao litoral da Ásia. Os porta-aviões e os cruzadores pesados, os destróieres e os contratorpedeiros, até mesmo os submarinos estavam imóveis na superfície calma do mar.
O coronel-aviador Bryan Neldiss deu ordem de ataque. Não sabia explicar o procedimento do inimigo, que surgira tão inesperadamente, mas não quis deixar que uma presa tão gorda lhe escapasse.
Os aparelhos de rádio permaneceram mudos. O coronel não obteve confirmação da ordem que ele expedira e sem que ele movesse um dedo, o avião começou a descer. A esquadrilha seguiu-o e os aparelhos pousaram n’água, bem perto dos navios inimigos.
Todo mundo apressou-se em deixar os aviões que afundavam rapidamente. As tripulações foram recolhidas por barcos infláveis.
O Almirante Sen Toa não expediu a ordem de fogo que estava prevista, em lugar disso ordenou a operação de salvamento. Os barcos foram colocados na água e mãos prestativas tiraram os americanos do oceano que ondulava suavemente. Dentro de meia hora tudo estava terminado. A esquadrilha de aviões de bombardeio dos Estados Unidos foi tragada pelas águas. A esquadra asiática jazia imóvel, balançando ligeiramente nas ondas. Parecia que uma mão invisível a segurava.
A 150 quilômetros da costa ocidental dos Estados Unidos aconteceu a mesma coisa, apenas os papéis foram invertidos. A única diferença foi que um dos pilotos morreu afogado por não ter conseguido sair do avião antes que este afundasse.
Um punho invisível interrompeu a trajetória dos mísseis russos. Estes descreveram uma curva de 180 graus e retornaram às bases de onde tinham sido disparados e penetraram verticalmente no solo, quase no mesmo lugar de onde tinham partido. Nenhum deles detonou, muito menos atingiu a Stardust.
A guerra atômica terminara antes de ter começado.
Houve até o caso de fazendeiros do oeste dos Estados Unidos e muitos camponeses na China que nem sabiam o que estava acontecendo. Quando souberam dos foguetes caídos no solo — depois de restabelecidas as comunicações pelo rádio — deram vazão à sua raiva sobre a tentativa fútil de se mandar foguetes à Lua. Mas, ao saberem de toda a verdade, silenciaram imediatamente os protestos.
Alguém havia impedido a guerra. Um homem revelara-se mais forte que as grandes potências. Desafiou-as e impôs-lhes a paz pela força. Esse homem era Perry Rhodan.
Mas não foi por muito tempo que Perry Rhodan ficou sendo o herói dos homens do povo. Para os que exerciam o domínio do mundo, a humilhação foi insuportável. Sentiram-se tomados de pavor quando se viram derrubados do trono do poder.
Nenhum deles conseguiria romper, sozinho, a supremacia temível de Perry Rhodan. Mas se reunissem seus esforços? Quem sabe...
A percepção desse estado de coisas desencadeou uma atividade diplomática febril.
De Pequim para Washington:
Lamentamos o mal-entendido que quase causou uma guerra mundial. Sugerimos que nossos dirigentes realizem um encontro com a maior brevidade. Deixamos a seu cargo a indicação do local.
De Pequim para Moscou:
Convida-se o primeiro-ministro do bloco oriental a participar do encontro entre os presidentes da Federação Asiática e do bloco ocidental, que se realizará daqui a dois dias.
De Pequim para Washington:
Concordamos em que a conferência se realize no Cairo.
De Washington para Pequim e Moscou:
O governo do bloco ocidental declarou a tripulação da Stardust inimigo público número um. Propomos à Federação Asiática que, uma vez esclarecida a situação política mundial, prepare uma expedição lunar conjunta.
De Pequim para Washington:
Concordamos.
De Pequim para o Comando Espacial da Federação Asiática (mensagem estritamente confidencial):
Acelerar imediatamente os preparativos para a decolagem de outra nave espacial. Os trabalhos deverão ser mantidos em segredo.
Do Cairo para Washington, Pequim e Moscou:
Preparativos concluídos. Aguardamos os presidentes das grandes potências e sentimo-nos honrados...
Dois dias depois.
— Fomos expulsos da comunhão dos povos — lamentou-se Bell.
Quem não o conhecesse, pensaria que dali a pouco irromperia em lágrimas.
— Somos inimigos públicos e criminosos. Por quê? Só porque impedimos a guerra.
— Você se admira com isso? — Rhodan ergueu as sobrancelhas. — Ao impedirmos a guerra, provamos que somos mais fortes que eles. No Cairo, chegaram a um acordo. As grandes potências da Terra uniram-se para nos destruir. Não poderia imaginar coisa melhor.
— Não poderia imaginar coisa melhor? O que quer dizer com isso, meu caro?
— Nenhuma nação deve conquistar o espaço. É o homem como habitante do nosso planeta que deve fazê-lo. A união formada contra nós representa o primeiro passo de uma comunhão de idéias entre todos os povos. O medo cimenta a unidade dos homens. Com o auxílio dos arcônidas conseguimos atingir um grande objetivo. Unimos o mundo.
— E, por isso, nos expulsam?
— É o preço que temos de pagar.
Bell coçou a cabeça.
— Será que Fletcher chegou em casa?
— Não sei. De qualquer maneira, seu nome não foi mencionado por ninguém. Só você, Manoli e eu somos inimigos públicos. Ainda não sabem da existência de Crest. Há, ainda, uma surpresa guardada para os homens.
Bell apontou para o céu azul.
— Thora desempenhou muito bem o seu papel no jogo. Não posso deixar de reconhecer isso. Se não fosse ela, a esta hora estaríamos em maus lençóis.
Rhodan abanou lentamente a cabeça.
— Não estaríamos em situação pior. Apenas acontece que seríamos os últimos homens do planeta.
Subitamente Crest surgiu na porta da sala do comando.
— No destino de sua raça vejo o renascimento da minha — disse pensativo. — Vejo a evolução com toda a nitidez. É verdade que poderão surgir incidentes; é um detalhe que não deverão esquecer. Ainda não eliminamos totalmente o perigo, mas demos o primeiro passo nesse sentido. Às vezes o medo é a melhor terapia.
— Mas não deve continuar a sê-lo para sempre — objetou Perry com voz séria. — Há de chegar o dia em que a união entre os homens não resulte do medo, mas de um imperativo da consciência, do raciocínio lógico e, até, da voz do coração. É claro que esse estado não poderá ser alcançado de hoje para amanhã, mas sei que um dia será assim. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que...
Crest colocou-lhe a mão sobre o ombro e disse em tom suave:
— Você já fez, Perry. Talvez você seja um ser que eu, que venho de fora do seu mundo, designaria como terrano. É isso mesmo! Você, Perry Rhodan, é o primeiro terrano.
— E eu? O que sou? — perguntou Bell sentido.
O Dr. Manoli, sempre calado, respondeu com uma observação bastante apropriada:
— Antes de sermos terranos, temos que ser homens.
Bell fez pouco caso e deslocou seu corpanzil em direção à saída.
— Vou nadar no lago — declarou.
Manoli limitou-se a cochichar-lhe:
— Faz bem. Vá curtir-se ao sal...
Crest sorriu em silêncio.
Perry Rhodan parecia nada ter ouvido. Parado junto à cúpula transparente, olhava para o céu azul. Em algum ponto, lá no alto, a Lua descrevia sua órbita solitária em torno da Terra.



* * *




A maior parte dos homens ainda considera Perry Rhodan um traidor, mas algumas pessoas sensatas já começam a compreender que ele só visa ao bem da humanidade. E esses homens dirigem-se à Abóbada Energética, que nem mesmo o fogo cerrado mais intenso consegue romper.

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