Haggard confirmou com um aceno de
cabeça.
— É claro que compreendi. Ouvi falar
de uma cratera aberta no deserto do Saara. Isso foi obra de Crest?
— Foi. — Bell absteve-se de maiores
explicações. — E pode fazer coisas bem mais impressionantes. Mas deixemos isso
para mais tarde. Antes de mais nada, uma pergunta: está disposto a nos ajudar?
Concorda em entregar o soro? Em troca dar-lhe-ei este gerador. Recebi-o dos
arcônidas.
Haggard pegou um cigarro. Havia um
tremor quase imperceptível nas suas mãos.
— Só o soro não adiantaria muito.
Crest teria que se submeter a um tratamento em meu sanatório.
— É impossível doutor. Aqui não
estaria em segurança nem por um segundo. Os agentes de todos os países estarão
atrás dele.
Haggard confirmou com um leve aceno
de cabeça. Depois, olhou para Bell.
— Nesse caso, irei com o senhor.
— O senhor pretende?... Mas... o
hospital? As pesquisas?
— Isso pode esperar. Estou muito
mais interessado nesse tal Crest. É bom que saiba que sempre tive uma
inclinação para coisas incomuns. O senhor acha que eu deixaria escapar esta
oportunidade de examinar o organismo de uma inteligência extraterrena? Quando partiremos?
Bell achou que Haggard estava indo
muito depressa.
— O mais rápido possível. Mas tenho
de resolver alguns assuntos. Preciso de dinheiro para adquirir as peças
sobressalentes destinadas à nave dos arcônidas. São componentes eletrônicos.
Quem sabe se o senhor poderia dar-me uma indicação a respeito disso?
— Conheço várias firmas. Por um
desses geradores dar-lhe-ão um armazém cheio de peças.
— Ótimo! Amanhã faremos uma visita
às grandes casas do ramo. Só disponho de um helicóptero que não pode
transportar volumes muito grandes. Talvez conheça alguém que possua um meio de
transporte com maior capacidade de carga.
Haggard franziu a testa.
— Um dos meus assistentes é
proprietário de um confortável iate. As condições de navegabilidade do barco
são muito boas. Não terá dúvidas em cedê-lo a mim. Daqui a Hong Kong são três
mil quilômetros. Venceremos esta distância em uma semana.
— Muito bem! Em Hong Kong veremos o
que fazer. Meu psico-irradiador saberá cuidar da situação.
— Quem?
Bell tirou o bastão prateado do
bolso.
— É um aparelho formidável, doutor.
Ele lhe permite impor sua vontade a qualquer pessoa até uma distância de dois quilômetros.
Como vê, de qualquer maneira eu o levaria ao deserto de Gobi, mesmo que não
quisesse.
— É inacreditável! — disse Haggard
espantado. — Se isso funcionar não haverá mais qualquer dificuldade.
— Funciona! — tranquilizou-o Bell.
O dia seguinte foi cheio de
surpresas e de preocupações para os diretores de várias fábricas. Se não fosse a
presença de um médico conceituado, o Dr. Haggard, pensariam que a demonstração
realizada por Bell não era mais que uma engenhosa fraude.
Convencidos da verdade, o cepticismo
transformou-se em vivo entusiasmo. Bell ficou sem os aparelhos e as fábricas
sem algumas caixas de peças eletrônicas.
Como se não bastasse, Bell ainda
recebeu uma boa importância em dinheiro, da qual entregou cinco mil dólares a
Fletcher que já estava com passagem reservada para Nova Iorque.
Haggard pediu que o iate do seu
assistente entrasse na baía que ficava perto ao hospital.
Tudo correra bem até ali. Três dias
mais tarde, o iate estava com toda a carga arrumada a bordo e preparado para
partir. O helicóptero fora firmemente amarrado ao convés.
Os dois homens foram à terra pela
última vez. Haggard, para dar algumas instruções ao seu substituto e Bell, para
desentorpecer as pernas.
Subitamente, ouviu-se o uivo de uma
sirena. Holofotes romperam a escuridão, mergulhando a baía numa forte
claridade. Os motores de pesados helicópteros agitavam o ar plácido do lugar.
Tanques surgiam por entre as moitas que ladeavam a praia e dirigiam seus
canhões para o iate. Soldados apareceram entre o passadiço e o lugar em que
Bell se encontrava. Estavam de armas na mão e prontos para abrir fogo. Um
oficial aproximou-se, vindo de um dos lados. Parou diante de Bell.
— Seu nome é Reginald Bell?
— Será que isso é crime?
— Limite-se a responder às minhas
perguntas. Bell permaneceu calado.
— Pertence à tripulação da Stardust?
— Já que sabe, por que pergunta?
Num gesto insolente, Bell colocou a
mão no bolso.
— Deixe disso! — advertiu o oficial.
— Qualquer resistência será inútil. A área está cercada. O Doutor Frank Haggard
já foi preso. O Capitão Fletcher também está sob custódia da polícia.
— Coitado! Terá um filho — murmurou
Bell, penalizado.
— O quê?
— Tanto faz. O senhor não
compreenderia.
Bell já conseguira regular a
intensidade. Comprimiu o botão do ativador. Olhou atentamente para o oficial.
“Execute dez flexões de joelho!”
pensou, concentrando bem a mente.
Os soldados, que já tinham se
acercado mais, abaixaram as armas e arregalaram os olhos. Subitamente, o
oficial estendeu os braços e começou a flexionar os joelhos. Bell contou. Foram
exatamente dez flexões.
“E agora, diga a esta gente que dê o
fora daqui e volte para o quartel.”
O oficial virou-se e berrou para os
soldados:
— Por que estão parados ai, seus
idiotas? Voltem ao quartel. Vamos logo! Ou eu terei que ensiná-los a andar
depressa.
— O que está acontecendo por aqui?
A voz fria e calma era de um civil
que saíra inesperadamente das moitas. Seus trajes eram tão discretos que teriam
dado na vista até de um elemento pouco experimentado no assunto como Bell.
— Os homens têm que voltar ao quartel
— disse o oficial com uma inflexão impessoal na voz. — Têm que voltar!
O civil dirigiu-se para Bell.
— O senhor é o Capitão Reginald
Bell?
— Hoje em dia todo mundo quer saber
o meu nome. É interessante! Antigamente, ninguém queria saber como me chamava.
Mas, desde que voltei da Lua a coisa mudou...
— Ah! Quer dizer que confessa ser
Reginald Bell?
— Por que não? O senhor é da
polícia?
— Sou do Serviço de Segurança. Venha
comigo! — Bell virou-se ligeiramente.
— É melhor que o senhor me siga —
recomendou com voz suave, enquanto caminhava em direção aos prédios do
hospital. — Quem está comandando a ação contra mim?
— É o inspetor Miller, apoiado por
toda a guarnição.
Disse o civil em outro tom de voz.
— E quem prendeu Haggard?
— Fui eu. Ficará na cadeia até que
sua participação nos acontecimentos tenha sido esclarecida. Deseja falar com
ele?
— Providencie imediatamente para que
Haggard seja liberado — ordenou Bell. — Depois, o senhor mesmo o levará a bordo
do iate e fará com que o inspetor Miller suspenda toda e qualquer ação.
Entendido?
— Levar Haggard à bordo e cessar a
ação. Entendido!
Era possível que as novas instruções
não chegassem logo a todos os pontos. Provavelmente, uma ou outra unidade ainda
executaria as ordens anteriores. Nesse caso, seria melhor estar a bordo do
iate. De qualquer maneira, o civil levaria seu prisioneiro a bordo, a não ser
que impedido pelo uso da força.
Bell colocou o neutralizador de
gravidade sobre uma mesa na cabine situada no convés superior, que
possibilitava, visão ampla para o lado da terra. Já que o alcance do aparelho
atingia dez quilômetros, a cidade também seria atingida.
Esperou até que o civil entregasse
Haggard, que estava pasmado. Depois, ligou o neutralizador. O ponto central,
isto é, o iate, conservou seu peso natural. Também a superfície do mar, sobre a
qual não soprava a mais leve brisa ficou como se fosse uma placa de vidro.
Apenas os peixes que saltavam para o ar ofereciam um espetáculo estranho. O
peixe e o repuxo d'água iam subindo lentamente, até que se perdessem na
escuridão.
Bell voltou-se para Haggard.
— É uma pena que não possamos ver o
que está acontecendo na cidade. Todos os. objetos que se encontrem num raio de
dez quilômetros perderam o peso normal. Imagine as forças policiais suspensas
no ar.
— Mas, os meus doentes... — disse
Haggard preocupado.
— O setor em que fica o seu hospital
foi excluído — tranquilizou-o Bell. — Mas já é hora de darmos o fora daqui.
Deixarei o neutralizador ligado. Sua ação também se estende para cima. Ninguém
conseguirá chegar a menos de dez quilômetros de nós.
Envolto numa bolha protetora de
completa imponderabilidade, o iate, batizado com o nome de Zéfiro, deixou o
porto natural e foi navegando mar afora.
Se Bell pudesse ver o que resultou
com o uso do neutralizador, talvez não ficasse tão alegre. O caos tomou conta
da cidade de Darwin. O chão fugiu de debaixo dos homens e dos veículos que
foram subindo lentamente, frente à baixa ação da gravidade. Se tivessem sorte,
alcançariam logo o teto da zona antigravitacional que foi baixando
gradativamente. Nesse caso, o impulso contrário, fazia-os tornar suavemente à
terra. Mas houve alguns que não tiveram tanta sorte. E as quedas se sucederam,
com maior ou menor número de ferimentos ou fraturas.
Naquela mesma noite, a notícia de tão
incrível ocorrência deu a volta ao mundo. E o alarme geral voltou. Unidades das
esquadras das três grandes potências mudaram de rumo. Tomaram a direção da
Célebes, onde se supunha se encontrava o iate que levava a bordo um dos
tripulantes da nave espacial.
No dia seguinte, dois porta-aviões e
sete destróieres da Federação Asiática deixaram seu elemento natural. Privados
do seu peso normal subiram a quase três mil metros antes de voltarem lentamente
ao mar. Diante disso, resolveram desistir da perseguição. E os mísseis,
disparados de uma distância segura, também não tiveram êxito. Nenhum deles
atingiu o alvo. Detonaram a grande altitude ou sob a superfície do oceano sem
causar qualquer dano. Bell conseguiu dirigir o curso dos mísseis modificando as
condições gravitacionais. Porém, ele sabia que as grandes dificuldades estavam,
ainda, por vir. Uma vez que estavam sendo perseguidos por todo mundo,
dificilmente conseguiriam entrar no porto de Hong Kong sem serem notados. Só
com muita sorte voltaria a ver a Stardust.
Fletcher olhava fixamente para a luz
ofuscante da lâmpada. Não compreendia o que estava acontecendo; tinha os olhos
arregalados.
— Basta falar — disse uma voz áspera
vinda detrás da lâmpada. Não viu o rosto da pessoa que lhe falava. Estava
imerso na escuridão. — Por que pretende voltar aos Estados Unidos?
— É por causa de minha esposa; ela
está esperando um filho.
— Foi o que o senhor já disse. Mas
deve ter outros motivos. Ninguém arrisca a vida por causa de um bebê.
— Como pode afirmar isso? É casado?
O homem invisível pigarreou.
— Por que não ficou com Perry
Rhodan?
— Não sei de quem está falando. Não
conheço nenhum Rhodan. E não sei nada a respeito de uma nave espacial. Pare de
me torturar com suas perguntas incompreensíveis!
— O que Rhodan pretende fazer com a
Stardust?
— Não sei.
— O que encontraram na Lua?
Fletcher procurou mover os braços.
Não conseguiu; estavam presos ao encosto da cadeira por fitas de aço. O suor
gotejava-lhe da testa. Sentia sede. Fechou os olhos, mas a luz ofuscante atravessou-lhe
as pálpebras.
— Não sei.
— Ouça, capitão Fletcher. Não
desistiremos. Se não disser logo a verdade, teremos que usar métodos mais
desagradáveis.
— Não posso dizer o que não sei.
Ouviram-se vozes baixas vindas de um
canto da sala. Depois disso a lâmpada foi apagada. A iluminação normal, vinda
do teto, parecia triste e escura. Mãos brutais arrancaram Fletcher da cadeira,
depois de soltarem as fitas de aço. Apático, deixou que o levassem. Não via as
portas por onde passava, nem as paredes do corredor ou os rostos dos seus
algozes. Só pensava no avião que, no dia anterior, devia tê-lo levado para os
Estados Unidos. Nem mesmo a sala de operações com sua iluminação profusa
conseguiu remover a rigidez que tomara conta do seu ser.
Deitaram-no sobre uma mesa. Homens
de avental branco amarraram-no. Suportou tudo com a maior indiferença. Suas
articulações foram envolvidas por placas de cobre. Cabos condutores de energia,
com seus frios contatos, cingiram-lhe as têmporas. Depois disso, uma máquina
enorme e estranha começou a funcionar.
Os primeiros reflexos coloridos
surgiram numa tela. Alguns homens à paisana estavam sentados diante da mesma.
Seus rostos exprimiam a tensão de que se achavam possuídos.
— Acha que isso nos ajudará a
descobrir alguma coisa?
— O projetor mental é infalível,
inspetor. Infelizmente, sua utilização pode acarretar um certo perigo para o
acusado. Mas se falar, ou melhor, pensar, nada de prejudicial poderá acontecer.
— Seus pensamentos são projetados na
tela?
— Isso mesmo. Trata-se de um
aperfeiçoamento do detetor de mentiras que costumava ser empregado até aqui,
mas tem pouca semelhança com o mesmo. Se o homem que se encontra sob a ação
deste aparelho não quiser responder a uma pergunta que lhe fizermos, ao menos
pensará na mesma. Na tela de imagem aparecerá um quadro que corresponde ao que
ele concebe na sua imaginação.
— Acho que já estou compreendendo.
Vamos começar.
Fletcher estava com os olhos
fechados. Ficou quieto, como se quisesse dormir. Seu peito subia e descia ao
ritmo normal da respiração.
Um dos homens inclinou-se sobre ele.
— Está me ouvindo, Fletcher. Pode
deixar de responder, se preferir. De qualquer maneira, formularei algumas
perguntas. Só fale se desejar. O que pretende fazer nos Estados Unidos?
Os homens olharam para a tela de
imagem. Pela primeira vez, um quadro nítido começou a se delinear. Surgiu o
rosto de uma mulher jovem e bela, que sorria e acenava. Fletcher parecia gemer.
O quadro modificou-se. Camas, enfermeiras, médicos. Depois, a mulher voltou a
aparecer. Estava deitada numa cama. Perto dela via-se uma criança.
— É verdade! — murmurou o inspetor.
— Só pensa no bebê. É uma idéia fixa. Continue a perguntar, chefe.
O homem designado como chefe acenou
com a cabeça.
— Fletcher, o que aconteceu na Lua?
Precisamos saber o que aconteceu na Lua!
O quadro com a criança desfez-se
imediatamente. Figuras em cores vivas percorriam a tela, formavam quadros
abstratos e desfaziam-se em manchas irreconhecíveis. Depois formou-se uma
espiral que começou a girar rápido, cada vez mais rápido, até transformar-se
num disco rodopiante.
— O que sabe a respeito da Stardust?
O disco girou mais depressa. Raios
passavam sobre a tela. Fletcher gemeu. Sua respiração era cada vez mais apressada.
O suor corria-lhe da testa.
Um dos homens de avental branco
adiantou-se e colocou a mão sobre o braço do chefe.
— Devemos fazer uma pausa —
recomendou. — O prisioneiro está exausto. O coração não agüenta mais.
— Mal começamos — interveio o inspetor.
— Só mais algumas perguntas.
— O senhor está vendo que o homem
não sabe nada. As imagens da tela indicam um estado de amnésia total. Está bem!
Dar-lhes-ei mais duas tentativas, mas sob sua responsabilidade.
O círculo rodopiante na tela de
imagem tinha desaparecido. A mulher jovem voltou a aparecer. Atravessava um
jardim florido, levando uma menina pela mão.
— Fletcher, quais são as intenções
de Perry Rhodan?
A mulher com a menina desapareceu
imediatamente. O circulo voltou a rodopiar. Reflexos coloridos surgiam e
desapareciam.
— É inútil! — disse o médico. — O
homem não sabe nada.
— Tem de saber! — berrou o inspetor
fora de si. — Pois não perdeu a razão.
— Talvez tenha perdido a memória.
— Precisamos descobrir o que
aconteceu. Não existe nenhum meio de restituir-lhe a memória?
— Com o tempo talvez conseguiríamos.
Teria de ficar em sossego absoluto durante vários meses; se possível devia ser
posto em liberdade.
— É impossível! Ele representaria um
perigo para o mundo. Lembre-se do tal de Bell, que ontem diminuiu
expressivamente a ação da gravidade na cidade. Nada disso! Fletcher não pode
ficar fora da nossa vigilância um instante sequer.
O médico suspirou.
— Muito bem. Formule a última
pergunta.
O chefe acenou com a cabeça. Sua
atitude diferia sensivelmente da conduta imoderada do inspetor. Encostou a boca
ao ouvido de Fletcher e perguntou:
— Quem é Crest?
Haggard revelara esse nome durante
sua prisão, que só durara alguns minutos. O inspetor ouvira-o, mas não sabia o
que significava.
— Está ouvindo Fletcher? Quem é
Crest? Fletcher esforçou-se para romper as faixas que o prendiam. De olhos
arregalados fitou o homem que o interrogava. No seu rosto via-se o medo, mas,
também alguma coisa parecida com uma recordação que despontava do
subconsciente. Seus punhos cerraram-se. Os lábios murmuraram palavras
inaudíveis.
Na tela de imagem fez-se o caos.
A roda colorida girava cada vez mais
depressa, até que suas cores se fundissem num cinza monótono. Depois estourou.
As lascas coloridas deslocaram-se para os lados e deslizaram para fora da tela.
Depois esta se tornou negra. E assim continuou.
Um dos médicos inclinou-se e
examinou os olhos enrijecidos de Fletcher. Segurou-lhe o pulso. Depois
ergueu-se e falou com a voz muito séria.
— Está morto!
O inspetor empalideceu.
— Morto? Mas como? Seu coração
estava perfeito.
O médico encolheu os ombros.
— Pode ser que o coração estivesse
perfeito. Acontece que morreu de um derrame cerebral.
Nenhum dos presentes disse mais
nada.
Fletcher estava estendido na mesa,
imóvel. Não mais teria a alegria de assistir ao nascimento do seu filho. E não
saberia que seria uma menina.
O tenente Klein parou diante da
barreira invisível.
Suas mãos sentiram o obstáculo, mas
seus olhos não o viram. Dois mil metros além dele estava a Stardust, símbolo do
orgulho e da esperança frustrada do mundo ocidental. Já agora transformara-se
no pavor de toda a humanidade.
Uma figura solitária veio ao seu
encontro. Era o major Rhodan, que já conhecia de numerosos filmes. Parou a
menos de dois metros. Tinha lápis e papel na mão.
— O que deseja? Quem é o senhor? —
estava escrito no papel.
Klein nem se lembrara disso. Se o
anteparo energético detinha uma explosão atômica, evidentemente não deixaria
passar as ondas sonoras. Revirou os bolsos; acabou encontrando lápis e papel.
Pelo menos havia possibilidade de comunicar-se.
— Sou o tenente Klein. Vim por ordem
de Mercant e Pounder, para negociar com o senhor.
Perry Rhodan sorriu e escreveu:
— Tire a roupa. Depois disso
suspenderei o anteparo por alguns segundos.
— Tirar a roupa?
— Sim. Para que não possa trazer
nenhuma arma.
Klein olhou instintivamente para os
lados, mas não viu ninguém. É verdade que Li e Kosnow, escondidos atrás das moitas,
de outro lado do rio, arregalariam os olhos. Mas isso pouco lhe importava. O
importante era atravessar o anteparo, façanha que até então ninguém conseguira
realizar. Tirou a roupa e empilhou-a cuidadosamente.
Perry acenou com a cabeça. Levantou
o braço direito e fez um sinal em direção à nave. Subitamente, Klein ouviu sua
voz.
— Venha depressa. Chegue perto de
mim. Sentiu que o ar quente e o frio se misturaram quando a cúpula energética
foi levantada. Logo chegou perto de Perry.
No mesmo instante o vento cessou por
completo. A cúpula invisível voltara a cobrir a nave. Estava isolada do resto
do mundo.
— Quer dizer que Pounder o mandou? —
disse Perry, enquanto lhe apertava a mão. — Já imaginava que um dia o velho me
mandaria um mensageiro. Como conseguiu atravessar o território inimigo?
— Não foi difícil — confessou Klein.
— A vigilância diminuiu muito.
— Será? — disse Perry em tom de
dúvida. — Venha, empresto-lhe uma calça.
Foram andando devagar em direção à
Stardust.
Klein sentia uma simpatia
inexplicável pelo homem que se encontrava ao seu lado. Recebera ordem de
matá-lo de qualquer maneira, se não quisesse submeter-se às ordens de Mercant.
No momento, nem se podia pensar nisso. Dificilmente conseguiria mata-lo com as
mãos desarmadas. E como faria para destruir a Stardust? Sabia da carga
explosiva existente a bordo da mesma. Mas ainda havia três homens além de
Rhodan. Não seria fácil, mesmo que quisesse.
Será que queria?
Sentaram numa pedra lisa que ficava
perto da nave.
— Agora fale com franqueza, tenente Klein.
Qual foi a ordem que recebeu? O que mandam dizer? Foi realmente Pounder que o
mandou?
O agente sacudiu a cabeça.
— Não foi o próprio Pounder.
Pertenço ao Conselho Internacional de Defesa, dirigido por Mercant. Recebi
ordem para convencê-lo a abandonar a Stardust e acompanhar-me para Nevada
Fields. Caso se recuse, devo matá-lo e destruir a nave.
Perry gritou algumas palavras para
Manoli, que apontou na escotilha. O médico trouxe uma calça de uniforme. Klein
vestiu-a.
— Este é o Dr. Manoli. O tenente
Klein, do Conselho Internacional de Defesa. Fique com Crest, Eric. Diga-lhe que
temos visita.
Esperou até que o médico
desaparecesse. Depois respondeu às palavras de Klein.
— Então suas ordens são estas? Por
que me contou?
— Porque confio em você, Rhodan. E
porque nestes últimos dias passei por alguma coisa que me abalou.
— O que foi?
— Daqui a pouco contarei, Rhodan.
Antes disso responda a uma pergunta minha.
— As perguntas e as respostas surgem
espontaneamente no curso da nossa palestra. Você responde, eu respondo, e o
quadro vai se traçando por si. O general Pounder ficou muito decepcionado
comigo?
— Ficou. Não compreende os motivos
que o fizeram agir assim. Mas procura compreender, enquanto a opinião de
Mercant é inabalável. Para ele, você é um traidor.
— Para Pounder, não? E para você?
Qual é a sua opinião?
— Você é um traidor aos olhos de
Mercant, e talvez aos olhos da maior parte dos homens do Ocidente. Na opinião
dessas pessoas, devia ter entregue ao seu país as invenções que descobriu na
Lua. Isso seria de justiça até mesmo do ponto de vista econômico, pois você
nunca teria chegado à Lua sem os recursos financeiros proporcionados pelos Estados
Unidos. No entanto, pode haver motivos que invalidem todas as leis morais. Mas
esses motivos teriam de ser muito sérios.
— Os meus motivos são sérios — disse
Perry decidido. — Minha consciência e meu senso lógico não me permitem entregar
a uma potência terrena os imensos recursos tecnológicos que descobri na Lua.
Qual seria a conseqüência disso, tenente Klein? Pense bem antes de responder.
— Não há muito que pensar. Antes que
os Estados Unidos, acho que é o país de que teríamos de cogitar em primeiro lugar,
tivessem tempo de experimentar as novas armas, o medo e o pânico fariam com que
os outros países disparassem seus foguetes atômicos. A guerra e o extermínio
total dela decorrente seriam inevitáveis. Já compreendi onde pretende chegar,
major Rhodan. Será que os outros também compreenderão?
— Terão de compreender! — retrucou
Perry em tom áspero. Seus olhos exprimiam uma decisão inabalável. — O que está
em jogo é muito mais que a manutenção da paz. Como sabe, encontramos uma
tecnologia estranha na Lua. O que o senhor não sabe é que os criadores dessa
tecnologia, os arcônidas, ainda vivem. Um dos seus cientistas encontra-se a
bordo da Stardust.
Klein precisou de um minuto inteiro
para recuperar-se do espanto.
— Não estão extintos? Ainda vivem? E
podem fabricar maior quantidade dessas armas, se desejarem?
— Não apenas armas, mas também
coisas úteis: fontes de energia inesgotáveis em forma de geradores portáteis,
veículos movidos com as mesmas, navios, aeronaves de transporte, espaçonaves.
Poderia prosseguir indefinidamente na enumeração. Provavelmente agora já
compreende por que me vi obrigado a pousar aqui, e por que tenho de repelir
toda e qualquer pessoa que queira chegar aqui. Você é a primeira exceção.
— Por quê?
— Porque vem da parte de Mercant e
de Pounder. Prezo bastante esses homens, e gostaria que compreendessem os meus
motivos. Tenente Klein, você só estará em condições de explicar os meus motivos
aos outros se chegar a compreendê-los por si. Não os explicarei.
Klein sorriu.
— Compreendo. Até compreendo muito
bem. E acredito que sei onde o senhor pretende chegar. Ali junto ao rio, do
outro lado do anteparo energético, dois colegas estão esperando por mim. Não
são americanos ou europeus ocidentais. Um é agente da Federação Asiática e
outro do bloco oriental. Unimo-nos para solucionar um problema comum. Há poucos
dias a irrupção da guerra parecia iminente. Hoje os inimigos mortais de ontem
estão colaborando entre si, para combater um poder mais forte.
Perry acenou com a cabeça e
retribuiu o sorriso.
— Muito bem. Continue. Parece que já
nos entendemos.
— Não tenho mais nada a dizer.
Absolutamente nada. Apenas gostaria que você confirmasse que este acontecimento
relativamente insignificante constitui o início da grande transformação que tem
em mente.
— É isso mesmo. Posso representar
uma ameaça séria para o mundo, mas não para a paz duvidosa que reina no mesmo.
O medo de mim e do poder dos arcônidas unirá os povos do mundo. Uma vez
realizada essa união, nada impedirá a entrega da tecnologia galáctica a um governo
mundial estável. Tenente Klein, peço-lhe que relate isto a Mercant e ao general
Pounder. Agora gostaria de apresentar-lhe meu hóspede, o arcônida Crest.
Peço-lhe que me acompanhe ao interior da nave.
Duas horas depois, quando o tenente
Klein voltou a encontrar-se com os dois colegas que o esperavam à margem do
rio, nada poderia modificar a decisão que tomara. Era o primeiro homem disposto
a lutar pela idéia de Perry Rhodan, idéia essa que constituiria a base moral do
futuro Império Estelar.
— Então? — perguntou Kosnow e
levantou-se.
— O que aconteceu? — indagou Li.
Klein ficou andando entre os dois. À
sua esquerda o russo avançava a passos vigorosos, levantando pequenas nuvens de
pó com as botas. À sua direita, Li, o chinês, andava a passos saltitantes. Nos
seus olhos lia-se a desconfiança.
— Conte logo, tenente. Conseguiu
alguma coisa? — Klein confirmou com um aceno de cabeça.
— Consegui praticamente tudo. Minha
missão está finda. E acredito que a de vocês também esteja. Explicarei por quê.
Li, acho que somos bons companheiros, não somos? Compreendemo-nos muito bem.
Kosnow, você acha que seríamos capazes de matar-nos uns aos outros só por
termos idéias diferentes sobre determinados assuntos? Estão sacudindo a cabeça.
Tanto melhor! Vocês sabem dizer o que aconteceria se essa nave espacial
deixasse de existir juntamente com as invenções fabulosas trazidas da Lua? Ou
se caísse nas mãos de qualquer das grandes potências?
Nenhum dos dois respondeu.
— Pois eu lhes digo. No mesmo
instante apontaríamos as armas uns para os outros. Voltaríamos a ser inimigos
ferrenhos. E isso apenas porque a ameaça maior deixou de existir. Isso que
aconteceria conosco também aconteceria aos governos das grandes potências. O
fim da Stardust seria o fim da paz. Compreenderam? Enquanto a terceira
potência, a potência dos arcônidas, estiver por aqui, o nosso mundo continuará
a existir. A nós três foi dada a chance de conservar a paz mundial. Para isso
teremos de retornar aos nossos países e comunicar que é impossível alcançar a Stardust.
Dessa forma continuaremos amigos, e as potências que representamos também
continuarão.
Li esboçou um sorriso
imperscrutável.
— Há seis dias já me ocorreu uma idéia
semelhante, mas não tive coragem de exprimi-la. Hoje digo que concordo com o
que você acaba de dizer.
Klein e o chinês lançaram um olhar
de expectativa para o russo. Kosnow ficou parado. Retribuiu o olhar dos
companheiros.
— Acredito que no mar Negro a extração
do sal será mais rendosa que aqui. Mudaremos de acampamento.
Os três riram. Depois apertaram-se
as mãos.
A cidade de Hong Kong parecia um
acampamento militar quando o iate Zéfiro entrou no porto.
Bell desligara o neutralizador, mas
ficou com ele ao alcance da mão; queria estar prevenido no caso de um ataque.
Haggard instruíra a.tripulação no sentido “de atracar”. Os dois homens estavam
de pé na proa!
— A situação parece um pouco crítica
— murmurou o médico num tom de ceticismo. — Como poderemos desembarcar sem que
nos peguem? O mundo inteiro já sabe que estamos aqui.
— E daí? — Bell mostrou-se
espantado. Estava brincando com o psico-irradiador. — Com este aparelho posso
fazer a cidade inteira mergulhar num sono bem profundo. Poderei transmitir uma
ordem a qualquer habitante da cidade, inclusive aos soldados, e a ordem será
cumprida à risca. Não vejo nenhum motivo para preocupações. Ainda mais que aqui
não é possível utilizar armas atômicas táticas, que são as únicas que poderiam
representar um perigo para nós.
— Como vai fazer para descarregar o
meu laboratório? Como pretende transportar as peças sobressalentes até o
deserto de Gobi?
— Com o tempo encontramos um meio —
tranquilizou-o Bell. — Faremos com que o administrador do porto venha até aqui
assim que atracarmos. Por que resolveu trazer seu laboratório gigante? Ainda
não tive tempo de lhe fazer esta pergunta.
— Laboratório gigante? Trata-se de
um pequeno laboratório transportável, dotado do equipamento mais moderno, como
instrumentos óticos, aparelhos de análise de metabolismo e amostras de
medicamentos de toda espécie. Não se esqueça de que teremos de lidar com um ser
biologicamente diferente, que provavelmente reagirá de forma diferente de nós.
Também existe um aparelho de raios X, e...
— E eu que pensava que tudo ficaria
resolvido com uma seringa e algumas ampolas de soro — disse Bell com um
suspiro.
— É engano, meu caro Bell. Mas olhe
os tanques parados ali no cais. Estão esperando a oportunidade de afundar o
nosso iate.
— Que nada! Se quisessem, já teriam
tentado. Sabem muito bem que, se o fizerem, eu os mando para os ares, no sentido
literal da palavra. Muito bem. Estamos atracados. E agora vou usar minha
varinha mágica.
Dirigiu o irradiador com meia
intensidade sobre o edifício baixo que ficava junto ao cais e pensou
intensamente:
“O administrador do porto deve
comparecer imediatamente ao pier número sete. Administrador do porto no pier
número sete. Urgente. Suba a bordo do iate Zéfiro.”
Provavelmente Bell estouraria de
rir, se visse o que fez com sua ordem mental. No entanto, não pôde presenciar o
espetáculo. No edifício da administração do porto trabalhavam cerca de duzentas
pessoas. De repente todas elas se sentiram na obrigação de avisar o
administrador de que devia comparecer imediatamente ao píer número sete, onde o
iate Zéfiro esperava por ele. O administrador que, seguindo a ordem interior,
já se pusera a caminho, teve de conter todo o funcionalismo, que se interpunha
no caminho, para dar o aviso.
— Já sei, já sei — disse em voz
alta, para que todos ouvissem. Correu para o cais, onde teve de abrir caminho
entre uma multidão de trabalhadores do porto, que o assediavam para avisá-lo de
que devia comparecer imediatamente ao píer número sete, onde um iate...
Chegou esbaforido ao local em que se
encontrava o iate. No caminho o comandante das forças blindadas reunira-se a
ele em silêncio. Subiram juntos no estreito passadiço.
Bell deixara ligado o
psico-irradiador, colocando-o num lugar de onde alcançava o píer e o convés.
Não podia ser visto, mas produzia seus efeitos.
Haggard não conseguiu disfarçar o
nervosismo. Bell, todavia, recebeu os visitantes sem o menor constrangimento.
— Fico muito satisfeito com a sua
visita — disse em tom convicto. — E agradeço pela parada formidável que fizeram
realizar em minha ordem. Não havia necessidade disso. Senhor administrador,
dentro de duas horas preciso de vinte trabalhadores para descarregar o iate.
Quer tomar as providências necessárias? Obrigado. Pode retirar-se.
O administrador fez uma ligeira
mesura e retirou-se. O oficial das forças blindadas ficou parado. Parecia estar
esperando alguma coisa.
— Quem está comandando as tropas
mobilizadas em Hong Kong? — perguntou Bell.
— O marechal Roon.
— Roon? Não é aquele oficial que
subiu ao ar com tanta pompa quando Perry ligou o neutralizador? É claro que é
ele! Este helicóptero é dele. Podia aproveitar a oportunidade para vir
buscá-lo.
— Perfeitamente. Avisarei
imediatamente o marechal Roon.
Dez minutos depois um grupo de
oficiais de patente elevada passou pelo píer estreito, vindo do cais. Viam-se
luzir as faixas douradas. Devia ser o marechal Roon.
O psico-irradiador estava escondido
por baixo de uma amarra enrolada. Sua ação atingia todo o grupo, mas ninguém
perceberia seus efeitos enquanto alguém não dirigisse a palavra a Bell.
Depois de confabular ligeiramente,
Roon subiu a bordo acompanhado de dois oficiais. Já se esquecera do que o tinha
trazido até aqui. Só se guiava pela ordem de que sua mente tinha tomado
consciência.
Bell projetou o peito para a frente,
o que conferiu linhas mais arredondadas ao corpo. Os cabelos cortados rente
estavam de pé. Colocou a mão na boina.
— É o marechal Roon? Fico satisfeito
em ver que compareceu tão depressa. Senhores oficiais, dou-lhes as boas-vindas
a bordo do Zéfiro. Marechal, permite que lhe pergunte se apreciou aquela viagem
aérea? Deve estar lembrado. A Stardust, o deserto de Gobi. Um certo major
Butaan também se encontrava presente.
— É claro que me lembro. Foi um fenômeno
estranho. Uma invenção dos demônios brancos. Além disso, roubaram meu
helicóptero. Se não me engano o senhor é o capitão Reginald Bell. Devo
intimá-lo para que se renda.
— Mas, marechal, logo nós que somos
tão amigos; só pode estar brincando. Eu lhe devolvo o helicóptero e damos o
incidente por encerrado. Está de acordo?
— De acordo! — respondeu Roon sem a
menor hesitação.
— Além disso, o senhor vai retirar
suas tropas de Hong Kong, e expedirá uma ordem ao exército. A Stardust não mais
será atacada. O senhor ainda assegurará livre transito e dispensa toda proteção
ao comboio de transporte dirigido por Reginald Bell. Entendido?
— Entendido.
— Muito bem. Providencie para que
dentro de uma hora estejam aqui três caminhões. Um deles será ocupado pelo
senhor juntamente com dez oficiais de alta patente. Levem cobertores ou sacos
de dormir. Os outros deverão estar vazios pois transportarão a carga. Certo?
O marechal Roon prestou continência
para Bell.
— As ordens serão executadas. Mais alguma
coisa?
— Sim, marechal. Desautorize
qualquer ordem que tenham em vista um ataque contra a Stardust ou seus
tripulantes. Expeça as respectivas instruções aos seus escalões inferiores.
Roon ficou em posição de sentido.
Deu meia-volta e saiu do iate. Chegando ao píer, os outros oficiais começaram a
falar-lhe com insistência. Roon, porém, berrou com eles de tal forma que
encolheram a cabeça e ficaram quietos. Afinal, o marechal era ele; devia saber
o que estava fazendo.
E Roon sabia.
Finalmente, Haggard conseguiu fechar
a boca.
— É formidável! — principiou, mas
Bell interrompeu-o.
— O senhor ficará muito mais
admirado quando falar com Crest. Eu lhe disse que conseguiríamos.
Ficaram aguardando com toda a calma.
Viram os tanques se reunirem perto do cais e começarem a se afastar em direção
a leste da cidade. As tropas de infantaria começaram a se retirar, também.
Apenas o pessoal da polícia hesitou e, por isso, Bell não teve contemplação.
Pegou o psico-irradiador e ordenou:
— Atenção todos os membros da
polícia, inclusive serviço secreto, deitem-se todos!
Ficou espantado ao ver quantas
pessoas se deitaram. Até mesmo respeitáveis senhores de idade que pareciam
passear para espantar o tédio atiraram-se desassombradamente na lama da rua.
Trabalhadores aparentemente inofensivos e vários pescadores fizeram a mesma
coisa. Evidentemente também foram acompanhados por policiais uniformizados.
— Arrastar-se! — ordenou Bell numa
alegria incontida. Jurou que nunca mais largaria o psico-irradiador. —
Arrastar-se até o alojamento.
Bandos ruidosos de crianças
acompanhavam os temíveis policiais que se arrastavam colados ao chão. Ninguém
sabia explicar o fato, mas todos achavam que era perfeitamente natural. É que
todos tinham compreendido a ordem, embora não soubessem de onde tinha vindo.
Mas quem não pertencesse à polícia não era atingido por ela.
A zona portuária ficou literalmente
deserta.
Depois de algum tempo, chegaram
cerca de vinte trabalhadores e os três caminhões. Dois oficiais estavam
sentados na carroçaria do último deles, numa atitude de expectativa.
— Fiquem quietos aguardando novas
ordens. Os senhores formarão a escolta do comboio. Rechaçarão qualquer ataque
com suas pistolas. É só.
O transbordo da carga não levou
muito tempo. Dali a uma hora estava tudo pronto. O iate suspendeu âncoras e foi
deslizando mar afora. Bell desejou-lhe um feliz regresso.
Ele mesmo tomou o lugar na cabine do
primeiro caminhão. Haggard foi no segundo, que transportava seu precioso
laboratório. O comboio pôs-se em movimento e saiu sacolejando pela rua
esburacada. Só na periferia da cidade as condições da pista de rolamento
começaram a melhorar; aumentaram a velocidade. Não se via nenhum soldado,
nenhum policial.
Em Cantão, atingiram a larga e bem
asfaltada rodovia que, numa extensão de dois mil quilômetros, ligava aquela
cidade a Lan-Shou. Dali em diante, teriam que rumar para o norte, passando pelo
vale do Hwang-Ho e pela cordilheira de Alaschan. Chegando à altura do meridiano
38, penetrariam no deserto, seguindo em direção ao oeste. Se tudo corresse bem,
a viagem demoraria cerca de três dias.
De Pequim para Washington:
Diversas ocorrências parecem provar
que, contrariamente à opinião mais recente, segundo a qual as informações do
major Rhodan poderiam ser verdadeiras, a Stardust na verdade é uma base
ocidental. Segundo os nossos cientistas, é perfeitamente possível que a
eliminação gradativa da gravidade seja uma invenção terrena. Por isso voltamos
a exigir que a base situada no deserto de Gobi seja evacuada imediatamente.
De Washington para Pequim:
Qual é a explicação que seus
cientistas fornecem para o novo vulcão no Saara, que ainda continua ativo?
Asseveramos que nada temos a ver com a Stardust. Estamos tão interessados na
eliminação dessa ameaça quanto os senhores.
De Pequim para Washington:
A cratera pode ser o resultado de
uma ação bem planejada que nada tem a ver com o raio energético. Nossa opinião
de que a Stardust é uma base americana foi reforçada pelo fato de que nossos
agentes se viram impedidos pelos seus de se aproximarem da nave espacial. Por
outro lado, seus agentes têm livre acesso à Stardust. Reiteramos nossa
advertência.
De Washington para Pequim:
Não temos conhecimento de que
qualquer dos nossos agentes tenha entrado em contato com o major Rhodan. Deve
haver algum engano. O incidente será esclarecido.
De Moscou para Washington:
Exigimos retirada imediata de sua
base no deserto de Gobi.
De Moscou para Pequim:
Exigimos remoção imediata base
americana do território de seu país.
O ataque verificou-se três dias após
a partida de Hong Kong. O comboio tinha passado pela cordilheira de Alaschan e
estava se deslocando em direção ao oeste. A antiga estrada de caravanas estava
em péssimo estado; não permitia sequer uma velocidade de dez quilômetros
horários. Era necessário . contornar buracos enormes. Sulcos profundos abertos
pelas rodas dos veículos ou pelas águas das chuvas obrigavam a manobras
extremamente difíceis.
Felizmente, naquele momento, estavam
atravessando uma depressão do terreno. Se não fosse assim, a primeira rajada
teria atingido o alvo. Nessas condições, porém, as pesadas granadas passaram
zunindo por cima de suas cabeças e foram detonar na vertente norte da cadeia de
Richthofen.
Bell mandou que o comboio parasse
imediatamente. Fez com que os veículos encostassem do lado direito da estrada,
onde o precipício íngreme os protegia contra o impacto direto das granadas
disparadas do norte. Pegou o neutralizador de gravidade e foi subindo. Chegado
ao topo da colina, descansou a caixinha e olhou em direção ao deserto.
“Diabo! Esses camaradas já deviam
ter aprendido”, pensou Bell. As tropas encontravam-se mais de dez quilômetros
de distância. Haviam montado uma verdadeira posição de combate. Bell pediu a um
dos oficiais que lhe desse um binóculo.
Havia, pelo menos, oito canhões de
grosso calibre. Mais à direita, uma bateria de peças leves. Em meio a isso,
tinham sido montados ninhos de metralhadoras.
O neutralizador de gravidade não
alcançaria o adversário.
Outra rajada passou por cima de sua
cabeça, numa altura menor. Os impactos estavam mais próximos.
— Haggard! No caminhão da frente há
um transmissor. Pegue um dos oficiais e procure entrar em conta to com a
Stardust. Faixa de 37,3 metros. Avise-me assim que responderem. Mas ande
depressa, senão essa gente acaba acertando a pontaria. Não posso fazer nada
para impedi-lo.
Entre os oficiais, Haggard encontrou
um telegrafista. Assim mesmo, dez intermináveis minutos passaram-se até que
chegasse a resposta da Stardust. Bell escorregou encosta abaixo e pediu a
Haggard que subisse. Tinham que estar prevenidos contra um ataque de surpresa
da infantaria.
— Perry, é você?
— Bell, meu velho! Você ainda está
vivo? Onde está metido? Deu tudo certo?
— Até agora sim. Encontro-me a menos
de cem quilômetros da Stardust. Estou com três caminhões cheios de peças para
Crest. O doutor Haggard, descobridor do soro anti-leucêmico, está comigo.
Acontece que os chineses estão desfechando um ataque de artilharia contra nós.
—- E daí? Até agora você conseguiu
se defender.
— É, mas não se esqueça de que os
outros também aprendem. Já sabem que não devem aproximar-se a menos de dez quilômetros.
Também deixaram de empregar mísseis; sabem que posso desviá-los. Todavia, nem
mesmo eu estou livre do impacto casual de uma granada, por mais que procure
desviá-la. Você tem que me ajudar e depressa.
Fez uma rápida pausa.
— Um instante. Ei, motorista! O
mapa.
Dentro de poucos minutos, Perry
soube a localização exata do comboio e das posições da artilharia inimiga.
Prometeu pedir auxílio imediato a Crest. Bell ficou com o receptor ligado.
Os impactos das granadas foram se
aproximando de forma assustadora. Alguns projéteis menores passaram sibilando
bem por cima dos caminhões. Um deles chegou a detonar na colina que limitava a
depressão ao sul. Embora tivesse sido por puro acaso, era conveniente sair dali
antes que o pior acontecesse.
Perry voltou a falar.
— Crest pensou em pedir a Thora que
lançasse o raio energético, mas a Lua ainda se encontra abaixo do horizonte. É
impossível. Daqui também não podemos fazer nada. Mas existe uma possibilidade.
Vendeu todos os geradores?
— Não, ainda fiquei com dois.
— Então agradeça aos céus, meu
velho. Você prefere utilizar o psico-irradiador ou o neutralizador?
— Mas a distância é muito...
— Não fique nervoso, pois isso faz
mal à saúde.
Então, qual dos dois prefere? Aliás,
tendo dois geradores também pode usar ambos. Para encurtar a conversa: a
reserva de energia do psico-irradiador e do neutralizador é muito reduzida para
atingir uma distância superior à prevista. Se forem ligados ao gerador, seu
alcance decuplicará. É verdade que só por uns poucos minutos. É necessário
intercalar uma pausa, para evitar a sobrecarga do aparelho. Entendido?
— E como faço a ligação?
— Basta um cabo que ligue o
neutralizador ao gerador. Na parte posterior há uma tampa. Retire-a. Por baixo
dela encontrará uma tomada. Basta enfiar os pinos do gerador e...
— Está bem, mestre e senhor. Muito
obrigado. Que pena que você não poderá assistir ao que vai acontecer daqui a
pouco.
— Não se preocupe. Assistirei. Para
isso, até me arrisco a desligar o anteparo energético. Acho que você chegará
aqui antes do anoitecer.
Bell já não estava escutando. Agora
que sabia o que fazer, não quis perder um único minuto. Os oficiais e
motoristas receberam ordem para ficar em silêncio. Haggard segurou o
neutralizador com o gerador ligado ao mesmo. Bell ficou com o psico-irradiador
cuja potência também fora aumentada.
Rhodan, que estava sentado diante da
tela em companhia de Manoli e Crest, certamente se divertiu muito com o
espetáculo que se seguiu. Contemplaram a cena de cima. A microssonda estava
flutuando três mil metros acima das posições inimigas.
No início, nada aconteceu.
Mas quando os canhões pesados
dispararam, os espectadores viram-se diante de um quadro grotesco. Diminuída a
ação da gravidade, as granadas saíram em linha reta, até que se perdessem junto
às montanhas distantes. Os canhões, submetidos a uma força de recuo
equivalente, foram deslizando devagar em sentido oposto, subindo aos poucos. A
queda gradual que se seguiu revelou que Bell devia ter mantido um décimo da
gravitação comum, para que retornassem ao solo são e salvos, sem correrem o
risco de morrer em virtude de uma queda mais violenta. Crest registrou o fato
com um gesto de aprovação.
Os canhões menores não tiveram
melhor sorte.
Mas o melhor ainda estava por vir.
Como se estivessem obedecendo a um comando único, todos os soldados — os
artilheiros, os oficiais, os motoristas e as guarnições das metralhadoras —
viraram-se subitamente e começaram a correr. Em direção ao norte. Realizavam
saltos enormes, como se fossem pulgas gigantescas. Só atingiam o solo centenas
de metros mais adiante, e logo voltavam a saltar. Os saltos foram se tornando
mais curtos. Certamente Bell estava desligando o neutralizador aos poucos.
Finalmente os coitados estavam apenas correndo. Corriam e corriam, como se
fugissem do demônio. Provavelmente teriam continuado a correr, mesmo que Bell
não lhes tivesse dado ordem para se refrescarem com um banho no lago salgado
mais próximo do deserto de Ning-Hsia.
Perry girou um botão do receptor.
A sonda desceu. A imagem de Bell
apareceu na tela, grandemente ampliada. Perto dele via-se um tipo atlético de
cabelos castanho-escuros. Ambos riam tanto que as lágrimas lhes desciam pela
face. Desceram a encosta e entraram nos seus veículos.
No momento em que deram a partida
Bell ainda estava rindo.
Perry desligou. Olhou para Crest.
Nos olhos do arcônida via-se um sorriso delicado. Acenou lentamente com a
cabeça.
— Admiro você e a sua raça — disse.
— Mas talvez esteja enganado; pode ser que você seja uma exceção. Seu amigo
poderia ter matado os inimigos. Por que não o fez?
— Porque está em situação de
superioridade de armas.
Crest respondeu com novo aceno de
cabeça.
— Era o que eu imaginava. E sei que
não há ninguém melhor que vocês para receber o nosso legado. Você conseguirá,
Perry. Alcançará o seu objetivo.
— Obrigado — respondeu Perry em tom
caloroso.
Quatro horas depois dois caminhões
entraram por baixo do anteparo energético que tinha sido levantado. O terceiro
voltou para o leste com três motoristas e dez oficiais.
Receberam ordens estritas para
apresentar-se ao Comando Geral em Pequim, e informar o mesmo de que a terceira
potência desejava estabelecer relações diplomáticas com a Federação Asiática.
De Pequim para Washington:
O novo incidente prova que seu
governo não pretende atender às nossas exigências. Por isso decidimos romper as
relações diplomáticas amanhã ao meio-dia, hora local, a não ser que até então a
situação tenha sido esclarecida. A Federação Asiática dispõe de meios para
repelir qualquer ataque.
De Pequim para Moscou:
Aguardamos um pronunciamento claro
sobre sua posição quanto à presença de uma base americana no deserto de Gobi. A
resposta deverá estar aqui amanhã ás dez horas da manhã.
De Pequim para a Stardust:
Consideramos ridícula sua proposta
de estabelecer relações diplomáticas com uma nave espacial. Intimamo-los pela
última vez a se renderem através de mensagem telegráfica. Saiam da nave sem
armas e desliguem o anteparo energético. Caso sua resposta seja negativa, as
relações diplomáticas com os países do bloco ocidental serão rompidas amanhã ao
meio-dia.
De Washington para Pequim:
Voltamos a assegurar que não temos
qualquer explicação para a situação atual. Propomos a realização de uma
conferência dos dirigentes dos países interessados...
Da Stardust para Pequim:
Reiteramos nossa oferta. Comunicamos
ainda que utilizaremos os meios de que dispomos para evitar qualquer conflito
armado entre as potências.
De Moscou para Pequim:
Acusamos o recebimento da sua nota.
A lua minguante seguia o sol, que já
descera atrás da linha do horizonte. A posição favorável permitia uma
comunicação visual direta com Thora.
Apesar do seu vigoroso autodomínio,
Perry não conseguiu reprimir a sensação estranha que se apossou dele ao ver
aquela mulher, que era de uma beleza extraordinária. Seu cabelo claro, quase
branco, contrastava de forma agradável com os olhos vermelho-dourados, que o
olharam com uma expressão fria e realista.
Num tom arrogante que fez com que
Perry ficasse rubro de raiva disse:
— Por que chamou?
— Crest quer falar-lhe — respondeu
Perry em tom gélido.
— Pois então vá buscá-lo.
Perry não respondeu. Lançou-lhe mais
um olhar e retirou-se. Crest ocupou o lugar diante da tela de imagem com o
rosto indiferente. Começou a falar numa língua desconhecida, altamente
melódica. Sua voz era insistente. Às vezes parecia ordenar, outras vezes pedir.
Vez por outra Thora dava uma resposta ou formulava alguma pergunta. Finalmente
disse alguma coisa e acenou com a cabeça. Depois disso a imagem desapareceu. A
tela de imagem apagou-se.
Crest ficou sentado mais cinco
segundos diante do receptor, imóvel. Depois levantou-se. Suspirou.
— Por enquanto fará o que mandei.
Mas estou prevendo que mais tarde teremos dificuldades com ela. Fica aferrada
às leis antigas; não compreende a necessidade de uma modificação. Fará tudo
para impedir uma aproximação entre sua raça e a minha.
— Quem sabe se devo conversar com
ela por alguns minutos, de psico-irradiador na mão — sugeriu Bell em tom
decidido. — Depois disso ficará tão comportada como os oficiais do exército
asiático.
Crest destruiu as esperanças de
Bell.
— Os seres da nossa raça dispõem de
uma proteção contra os efeitos do irradiador. Mas um dia terá de reconhecer
onde está o futuro da sua raça. De qualquer maneira está orientada a respeito
da nossa situação. Recomendou-me que embarcasse numa pequena nave espacial que
seria enviada por ela. Depois disso, dirigiria o raio energético para todos os
cantos da Terra. Consegui convencê-la de que não alcançaria nada com isso.
Deixei claro que minha cura é o que interessa em primeiro lugar. E não se trata
apenas de minha cura, pois suponho que toda a nossa raça sofra de leucemia em
virtude da degenerescência. Este motivo já basta para obrigar-me a continuar
aqui. Amanhã, Thora vigiará a situação a bordo de uma nave auxiliar. Circulará
em torno da Terra a uma órbita constante, a mil quilômetros de altura. Um campo
de nêutrons constantemente renovado impedirá toda e qualquer explosão atômica.
Serão criados campos magnéticos que desviarão os foguetes do seu curso,
fazendo-os caírem no mar. Um raio energético de intensidade reduzida obrigará
as aeronaves que se lançarem a um ataque a pousarem no solo. O abastecimento de
energia será suspenso e as comunicações radiofônicas serão interrompidas por
linhas de sangria, que subtrairão energia. Não se preocupem, cavalheiros: não
haverá guerra, mesmo que os três blocos a desejem. Amanhã entraremos em
negociações com os governos, e eles se verão obrigados a nos reconhecer.
— E até lá? — perguntou Perry.
— Até lá só nos resta esperar.
Eric Manoli colocou a mão sobre o
ombro de Crest.
— Crest, faça o favor de voltar para
a cama. O senhor deve evitar qualquer esforço. Amanhã, quando tudo estiver
normalizado, o doutor Haggard o examinará. Estou convencido de que conseguirá
curá-lo.
Crest esboçou um sorriso de
gratidão.
— Se ele não conseguir, ninguém mais
conseguirá.
Seguiram-no com os olhos. Bell
acompanhou-o e ajudou-o a arrumar as cobertas sobre a cama.
Haggard lançou um olhar indagador
para Manoli.
— Já pôde apurar alguma coisa? Teve
oportunidade de examiná-lo e firmar um diagnóstico?
— Vamos a minha cabine. Lá poderei
relatar com mais calma as observações até aqui. Acho que se unirmos nossos
esforços, conseguiremos o seu restabelecimento. Ele não corre perigo imediato.
Perry ficou só na sala de comando.
Olhou para o céu noturno que se
erguia acima da cúpula transparente da nave. As estrelas cintilavam com uma
claridade raramente observada. A lua minguante descia para o horizonte. Dentro
de uma ou duas horas desapareceria.
Amanhã, seria o dia da decisão
final. Se nada conseguia convencer o mundo do poder dos arcônidas, os acontecimentos
desse dia o fariam. Não há nada mais difícil que evitar uma guerra decidida por
uma humanidade desesperada.
Ficou sentado, até que a lua
desapareceu detrás do horizonte.
Subitamente, sentiu frio. Teve
impressão de que juntamente com a lua desaparecera um lindo rosto de mulher,
com os cabelos claros e olhos vermelho-dourados...
O mecanismo gigantesco entrou em
funcionamento.
Durante anos ficara à espera deste
momento. Milhares de exercícios haviam demonstrado seu impecável funcionamento,
Bastava comprimir um botão, para desencadear a reação em cadeia que não poderia
ser mais detida.
Pequim: meio-dia...
O presidente da Federação Asiática
fez um sinal de cabeça para o marechal Lao Lin-to, que se encontrava no comando
supremo das Forças Armadas, em substituição ao marechal Roon, recolhido à
prisão.
Lin pegou o telefone pelo qual se
comunicava diretamente com o comando das posições de combate.
— É a constelação das Plêiades? As
esquadrilhas decolam imediatamente. Grau de mobilização número um. Bases de foguetes
ocidentais: ordem de fogo; alcance sete. Esquadra: zarpar direção leste. Daqui
a dez minutos, tudo deverá estar terminado. Recolher todas as tropas terrestres
aos abrigos antiatômicos. Aguardar contra-ataque. Fim da transmissão.
Em algum lugar uma mão aproximou-se
de um botão vermelho. Hesitou por uma fração de segundo. Depois, o polegar
comprimiu profundamente o botão.
Um continente estremeceu.
Os torpedos prateados ocultos nas
profundezas subiram para o céu azul, pareciam ir em busca do sol, depois
dirigiram-se para o leste ou para o oeste. Eram centenas, milhares, dezenas de
milhares...
Nos aeroportos militares reinava uma
atividade febril. Uma esquadrilha após a outra erguia-se pesadamente com sua
carga mortífera, entrava em formação e subia para a estratosfera, seguindo o
curso preestabelecido.
A força naval seguiu com menos
rapidez. Desferiria o golpe de misericórdia num mundo destruído. Talvez também
pretendesse escapar ao extermínio que se abateria implacavelmente sobre os
portos.
Tudo ocorreu em conformidade com o
plano.
Só houve um ato que foi praticado
independentemente de qualquer ordem, isso numa barraca montada em algum dos
aeroportos militares.
Um agente do ocidente dedilhou
febrilmente a tecla do telégrafo. Em menos de um vigésimo de segundo os sinais
deram a volta ao mundo.
Exatamente um minuto e dezoito
segundos depois que o polegar amarelo comprimiu o botão vermelho, a mesma
operação repetiu-se em Washington; uma máquina idêntica entrou em
funcionamento. Não havia nada que a distinguisse daquela montada no Extremo
Oriente. A única diferença foi que, aqui, os foguetes foram disparados para o
céu noturno, deixando caudas luminosas atrás de si e desaparecendo por entre
as estrelas.
Talvez fossem um pouco mais rápidos
que os da Federação Asiática. Nesse caso a morte não chegaria com uma diferença
de setenta e oito segundos. Golpearia simultaneamente de ambos os lados.
Apenas os projéteis disparados pelos
submarinos atômicos estacionados em todos os mares do mundo seriam mais
rápidos, pois teriam menor distância a percorrer.
Quanto tempo ainda restaria? Dez
minutos, talvez quinze. Depois chegaria o fim do mundo.
Moscou esperou exatamente dois
minutos.
Depois, também aqui alguém comprimiu
o botão vermelho. Os mísseis precipitaram-se para o céu matutino e entraram no
seu rumo. Contavam-se por milhares. E em certo momento a diferença das ações
empreendidas nas outras partes do mundo tornou-se patente.
Os mísseis do bloco oriental foram
todos disparados numa só direção — ou melhor, para um único alvo.
Se alguém prolongasse as linhas das
respectivas trajetórias, chegaria à conclusão de que todas elas convergiam num
ponto. E esse ponto correspondia ao lugar em que a Stardust se abrigava sob o
anteparo energético, isolada do mundo e da destruição que se aproximava.
O sol brilhava em Moscou.
Pelas indicações dos aparelhos de
radar, instalados nas fronteiras do gigantesco país, os mísseis da Federação
Asiática estavam passando pelas camadas da atmosfera, ainda longe do destino.
Nenhum deles desceria no território do bloco oriental.
Os primeiros mísseis do bloco
ocidental demonstravam tendência semelhante.
O marechal Petronsky acenou com a
cabeça em direção ao primeiro-ministro, numa expressão de triunfo
indissimulado.
— Conseguimos. Daqui a meia hora a Federação
Asiática não existirá mais; o bloco ocidental e a América também terão deixado
de existir. E essa maldita base no deserto de Gobi terá sido varrida da face da
Terra. Só restará uma única potência: a nossa.
— É a arte da sobrevivência, caro marechal,
apenas a arte da sobrevivência. Ela só está ao alcance de quem se mantém
neutro.
O silêncio da expectativa desceu
sobre os dois homens. Não só sobre eles. Sobre toda a Terra. Parecia que os
últimos minutos que separavam a humanidade do fim não queriam passar.
Arrastaram-se interminavelmente, transformaram-se numa eternidade. A humanidade
conteve a respiração.
Os primeiros foguetes Polaris
penetraram nas camadas mais profundas da atmosfera. Aproximaram-se da área em
que se situava o alvo. Sua trajetória assumiu a forma de uma curva balística,
tornou-se cada vez mais íngreme — e então desceram verticalmente, penetraram
profundamente na terra e tudo que deixaram foram crateras pequenas,
verdadeiramente ridículas.
Nenhuma detonação. Nenhuma explosão atômica.
Nenhum cogumelo de gases.
A vaga dos gigantescos mísseis
intercontinentais acabou de cruzar o Pacífico. O poder explosivo de cada um
deles era tão grande que seria capaz de destruir toda vida num raio de cem quilômetros.
Por isso, suas trajetórias foram se dispersando durante o vôo. Chegaram ao
continente americano como se fossem uma linha bastante tênue de soldados de
infantaria. Não detonaram nos pontos previstos, e seu próprio impulso tangeu-os
terra adentro até que caíssem nas montanhas, nas matas ou nas estepes. Um único
projétil da segunda série caiu em pleno centro de Los Angeles, porque o
mecanismo propulsor deixou de funcionar antes do tempo. Perfurou um edifício de
oito pavimentos e ficou enterrado nos alicerces.
Com os mísseis americanos ocorreu a
mesma coisa. Não houve um único entre eles que detonasse ou caísse em
território densamente povoado. Conforme se constatou mais tarde, só causaram
pequenos danos materiais.
Nos oceanos, desenrolou-se um quadro
grotesco.
Uma esquadrilha de aviões de bombardeio
dos Estados Unidos avistaram a esquadra da Federação Asiática a mais de
duzentos quilômetros de distância, junto ao litoral da Ásia. Os porta-aviões e
os cruzadores pesados, os destróieres e os contratorpedeiros, até mesmo os
submarinos estavam imóveis na superfície calma do mar.
O coronel-aviador Bryan Neldiss deu
ordem de ataque. Não sabia explicar o procedimento do inimigo, que surgira tão
inesperadamente, mas não quis deixar que uma presa tão gorda lhe escapasse.
Os aparelhos de rádio permaneceram mudos.
O coronel não obteve confirmação da ordem que ele expedira e sem que ele
movesse um dedo, o avião começou a descer. A esquadrilha seguiu-o e os
aparelhos pousaram n’água, bem perto dos navios inimigos.
Todo mundo apressou-se em deixar os
aviões que afundavam rapidamente. As tripulações foram recolhidas por barcos
infláveis.
O Almirante Sen Toa não expediu a
ordem de fogo que estava prevista, em lugar disso ordenou a operação de
salvamento. Os barcos foram colocados na água e mãos prestativas tiraram os
americanos do oceano que ondulava suavemente. Dentro de meia hora tudo estava
terminado. A esquadrilha de aviões de bombardeio dos Estados Unidos foi tragada
pelas águas. A esquadra asiática jazia imóvel, balançando ligeiramente nas
ondas. Parecia que uma mão invisível a segurava.
A 150 quilômetros da costa ocidental
dos Estados Unidos aconteceu a mesma coisa, apenas os papéis foram invertidos.
A única diferença foi que um dos pilotos morreu afogado por não ter conseguido
sair do avião antes que este afundasse.
Um punho invisível interrompeu a
trajetória dos mísseis russos. Estes descreveram uma curva de 180 graus e
retornaram às bases de onde tinham sido disparados e penetraram verticalmente
no solo, quase no mesmo lugar de onde tinham partido. Nenhum deles detonou,
muito menos atingiu a Stardust.
A guerra atômica terminara antes de
ter começado.
Houve até o caso de fazendeiros do
oeste dos Estados Unidos e muitos camponeses na China que nem sabiam o que
estava acontecendo. Quando souberam dos foguetes caídos no solo — depois de
restabelecidas as comunicações pelo rádio — deram vazão à sua raiva sobre a
tentativa fútil de se mandar foguetes à Lua. Mas, ao saberem de toda a verdade,
silenciaram imediatamente os protestos.
Alguém havia impedido a guerra. Um homem
revelara-se mais forte que as grandes potências. Desafiou-as e impôs-lhes a paz
pela força. Esse homem era Perry Rhodan.
Mas não foi por muito tempo que
Perry Rhodan ficou sendo o herói dos homens do povo. Para os que exerciam o
domínio do mundo, a humilhação foi insuportável. Sentiram-se tomados de pavor
quando se viram derrubados do trono do poder.
Nenhum deles conseguiria romper,
sozinho, a supremacia temível de Perry Rhodan. Mas se reunissem seus esforços?
Quem sabe...
A percepção desse estado de coisas
desencadeou uma atividade diplomática febril.
De Pequim para Washington:
Lamentamos o mal-entendido que quase
causou uma guerra mundial. Sugerimos que nossos dirigentes realizem um encontro
com a maior brevidade. Deixamos a seu cargo a indicação do local.
De Pequim para Moscou:
Convida-se o primeiro-ministro do
bloco oriental a participar do encontro entre os presidentes da Federação
Asiática e do bloco ocidental, que se realizará daqui a dois dias.
De Pequim para Washington:
Concordamos em que a conferência se
realize no Cairo.
De Washington para Pequim e Moscou:
O governo do bloco ocidental
declarou a tripulação da Stardust inimigo público número um. Propomos à
Federação Asiática que, uma vez esclarecida a situação política mundial,
prepare uma expedição lunar conjunta.
De Pequim para Washington:
Concordamos.
De Pequim para o Comando Espacial da
Federação Asiática (mensagem estritamente confidencial):
Acelerar imediatamente os
preparativos para a decolagem de outra nave espacial. Os trabalhos deverão ser
mantidos em segredo.
Do Cairo para Washington, Pequim e
Moscou:
Preparativos concluídos. Aguardamos
os presidentes das grandes potências e sentimo-nos honrados...
Dois dias depois.
— Fomos expulsos da comunhão dos
povos — lamentou-se Bell.
Quem não o conhecesse, pensaria que
dali a pouco irromperia em lágrimas.
— Somos inimigos públicos e
criminosos. Por quê? Só porque impedimos a guerra.
— Você se admira com isso? — Rhodan
ergueu as sobrancelhas. — Ao impedirmos a guerra, provamos que somos mais fortes
que eles. No Cairo, chegaram a um acordo. As grandes potências da Terra
uniram-se para nos destruir. Não poderia imaginar coisa melhor.
— Não poderia imaginar coisa melhor?
O que quer dizer com isso, meu caro?
— Nenhuma nação deve conquistar o
espaço. É o homem como habitante do nosso planeta que deve fazê-lo. A união
formada contra nós representa o primeiro passo de uma comunhão de idéias entre
todos os povos. O medo cimenta a unidade dos homens. Com o auxílio dos
arcônidas conseguimos atingir um grande objetivo. Unimos o mundo.
— E, por isso, nos expulsam?
— É o preço que temos de pagar.
Bell coçou a cabeça.
— Será que Fletcher chegou em casa?
— Não sei. De qualquer maneira, seu
nome não foi mencionado por ninguém. Só você, Manoli e eu somos inimigos públicos.
Ainda não sabem da existência de Crest. Há, ainda, uma surpresa guardada para
os homens.
Bell apontou para o céu azul.
— Thora desempenhou muito bem o seu
papel no jogo. Não posso deixar de reconhecer isso. Se não fosse ela, a esta
hora estaríamos em maus lençóis.
Rhodan abanou lentamente a cabeça.
— Não estaríamos em situação pior. Apenas
acontece que seríamos os últimos homens do planeta.
Subitamente Crest surgiu na porta da
sala do comando.
— No destino de sua raça vejo o
renascimento da minha — disse pensativo. — Vejo a evolução com toda a nitidez.
É verdade que poderão surgir incidentes; é um detalhe que não deverão esquecer.
Ainda não eliminamos totalmente o perigo, mas demos o primeiro passo nesse
sentido. Às vezes o medo é a melhor terapia.
— Mas não deve continuar a sê-lo
para sempre — objetou Perry com voz séria. — Há de chegar o dia em que a união
entre os homens não resulte do medo, mas de um imperativo da consciência, do
raciocínio lógico e, até, da voz do coração. É claro que esse estado não poderá
ser alcançado de hoje para amanhã, mas sei que um dia será assim. Farei tudo o
que estiver ao meu alcance para que...
Crest colocou-lhe a mão sobre o
ombro e disse em tom suave:
— Você já fez, Perry. Talvez você
seja um ser que eu, que venho de fora do seu mundo, designaria como terrano. É
isso mesmo! Você, Perry Rhodan, é o primeiro terrano.
— E eu? O que sou? — perguntou Bell
sentido.
O Dr. Manoli, sempre calado,
respondeu com uma observação bastante apropriada:
— Antes de sermos terranos, temos
que ser homens.
Bell fez pouco caso e deslocou seu
corpanzil em direção à saída.
— Vou nadar no lago — declarou.
Manoli limitou-se a cochichar-lhe:
— Faz bem. Vá curtir-se ao sal...
Crest sorriu em silêncio.
Perry Rhodan parecia nada ter
ouvido. Parado junto à cúpula transparente, olhava para o céu azul. Em algum
ponto, lá no alto, a Lua descrevia sua órbita solitária em torno da Terra.
* * *

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