sexta-feira, 12 de outubro de 2012

P-009 - Socorro Para a Terra - W. W. Shols [parte 2]


Inicialmente introduziu na máquina os cartões perfurados e positrogramas que tinha em seu poder. Na primeira passagem formulou a pergunta em termos muito gerais. O cérebro tinha de ser conduzido ao núcleo do problema numa progressão e logicamente coerente. Não que lhe faltasse capacidade de solucionar problemas complexos num tempo muito reduzido. O caso era que tudo dependia do equacionamento correto do problema por parte do homem.
— Como poderei identificar o cérebro de um homem? — principiou Rhodan.
— Pergunte-lhe quem é.
— Neste caso não existe a possibilidade de perguntar. O cérebro que se pretende identificar não libera a informação.
— Cada cérebro possui uma freqüência individual, identificável através da medição do comprimento das ondas — respondeu o cérebro.
— Nossa tarefa consiste em identificar certas características de determinado grupo de cérebros — prosseguiu Rhodan. — Não se trata de um indivíduo isolado.
— Isso não altera nada na resposta que acabo de dar
Rhodan refletiu. Dessa forma nunca chegaria ao fim.
— O estímulo transmitido de molécula a molécula irradia um espectro mensurável. Nossa sonda cerebral permite a medição das freqüências. A constituição e o funcionamento da sonda são conhecidos?
— São conhecidos — respondeu prontamente o cérebro positrônico.
— Mas por essa forma só conseguimos apurar desvios em princípio. Não conhecemos nenhuma análise qualitativa. A mesma não pode ser realizada por meio do exame do modelo cerebral. Este fato já foi constatado. Minha pergunta é a seguinte: Quais são os dados utilizáveis, além do espectro de ondas cerebrais?
— Não dispomos de informações a este respeito.
Mais uma vez Rhodan havia chegado a um ponto morto. O cérebro positrônico não fora concebido exclusivamente para o armazenamento de experiências; também possuía áreas dedicadas ao pensamento criativo.
Rhodan pegou um exemplar dos positrogramas e introduziu-o na máquina.
— O que resulta deste estímulo?
— Recomenda-se a utilização de telepatas.
— Neste caso não dispomos de telepatas.
— A verificação da atividade cerebral só pode ser realizada por meio do exame das freqüências, pois qualquer fluido tem um caráter eletromagnético. Recomenda-se o aperfeiçoamento do receptor. A modulação proporciona a melhor possibilidade para a determinação do caráter individual.
— A modulação por meio de uma onda?
— Sim.
— Como faço para conseguir a onda?
— Ela já existe. O cérebro a ser identificado faz o papel de emissor.
— Quer dizer que todo segredo está no fato de que as sondas cerebrais dos arcônidas trabalham numa faixa de freqüências muito restrita. A onda portadora deve ser incluída na área de ressonância.
— É muito provável que seja assim.
— Quais são as freqüências que devem ser incluídas?
A resposta do cérebro positrônico foi abafada por um uivo ensurdecedor. Perry Rhodan endireitou o corpo. Seu espírito vivaz logo se adaptou à nova situação. Uma sereia de alarma era mais importante que qualquer resposta do cérebro positrônico, por mais vital que fosse. Não se podia perder a sabedoria da máquina positrônica. Mas num alarma, cada segundo podia representar uma perda irreparável.
Rhodan correu para o portão e olhou para fora.
Os homens corriam pelas ruas arenosas ladeadas de barracos. Isso não tinha nada de estranhável, pois o alarma no território cercado significava que de início cada um tinha de deslocar-se para um ponto indicado, onde aguardaria instruções.
O ponto de Rhodan ficava no escritório, que servia de quartel-general da Terceira Potência. Só ali podia ser dado o alarma.
Do ponto em que Rhodan se encontrava era apenas um pulo. Por isso preferiu não usar seu rádio de bolso. Saiu correndo sem perder tempo.
Na entrada do escritório Reginald Bell aguardava-o em traje de viagem.
— Foi você que deu o alarma?
— Entre. Ali fora, além da área bloqueada, o diabo está solto.
— São os DI?
— É o que dizem. Pelo menos é uma das coisas que dizem. Estão fazendo uma pequena revolução. Num caso destes é difícil conseguir uma informação precisa.
— É uma nova invasão? Será que os caças espaciais deixaram passar alguém?
— Nada disso. Se forem DI, os mesmos já estão na Terra há alguns dias. Olhe!
Rhodan aproximou-se da tela.
Bell modificou a regulagem. O olho energético da antena direciona foi penetrando no espaço e colocou-se numa perspectiva que lhe permitia abranger todo o território submetido à soberania da Terceira Potência.
— Onde foi que aconteceu? — perguntou Rhodan.
— Aqui — respondeu Bell, trazendo para a tela um setor ampliado. — Bem ao noroeste. Perto do posto número trinta e sete.
Não precisou dar outras explicações. A imagem dizia mais que as palavras.
Verdadeiras massas humanas comprimiam-se junto à cúpula energética. Via-se perfeitamente que se tratava de dois grupos inimigos.
— Você disse que é uma revolução?
— É, sim. Ras pode dar maiores detalhes.
Rhodan voltou-se ao africano.
— O que aconteceu?
— Eu estava fazendo uma inspeção de rotina. Encontrava-me no posto número trinta e sete, que fica na área número dois, isto é, a menos de dois quilômetros da cúpula. Naquele lugar a Harris Corporation está construindo dez pavilhões de montagem para agregados de refrigeração de plástico endurecido e outras peças padronizadas para o interior das naves. Junto às betoneiras havia um grupo de pessoas que conversava animadamente. Algumas delas discutiram e passaram às vias de fato. Naturalmente resolvi intervir, mas logo me ameaçaram de pancada. Mas nenhum dos briguentos chegou a bater em mim, pois não estavam de acordo. Alguns elementos menos agressivos perguntaram se era verdade que havia gente possuída no território da Terceira Potência.
— E você respondeu alguma coisa?
— Não, outros responderam no meu lugar, afirmando insistentemente que havia prova disso. Um dos técnicos apontou para dois homens, acusando-os abertamente de serem possuídos. Quando fizeram menção de saltar sobre ele, apontou-lhes uma arma. Em torno dos acusados logo se formou um grande grupo de pessoas. Todos procuraram afastar-se deles, com exceção de quatro homens que, ao que tudo indicava, pertenciam ao grupo dos seus colegas de trabalho mais chegados. Estes também foram acusados, e disseram-lhes que rezassem, porque iriam morrer. Subitamente alguém me empurrou para junto dos acusados e ouvi gente gritar: “Também é um deles. Vamos liquidá-lo!” Vi o fanatismo escrito nos rostos, e sabia perfeitamente que esses sujeitos que portavam armas estariam dispostos a tudo. Ouvi um tiro atrás de mim; um dos trabalhadores caiu ferido. Logo me teleportei para cá.
— Fez bem. Mais alguém tem alguma coisa a dizer?
— Ninguém — disse Bell, fazendo um gesto inequívo em direção à tela. — Mas receio que já tenha havido mortos. Pela imagem ótica parece que os dois grupos têm aproximadamente a mesma força. Evidentemente o partido dos acusadores está armado. Por isso tem certa superioridade que lhe permite acusar muitos dos outros de serem possuídos.
Rhodan pegou o microfone de seu emissor particular e ligou o sistema de alto-falantes.
— Aqui fala Rhodan. Não foi dada nenhuma ordem para um alarma geral. Os que não foram convocados devem ficar de prontidão. Comando de vigilância da Good Hope, preparar para decolagem. Estou chamando o comando de terra dos astronautas. Favor responder.
— Aqui fala o tenente Deringhouse.
— Também se prepare para decolar. Você deixará o território bloqueado juntamente com a nave esférica. A contagem regressiva será iniciada no máximo dentro de cinco minutos. Por motivos de segurança a cúpula só será aberta por dois segundos. É bem possível que toda essa revolução não passe de uma trama do inimigo, que nos quer fazer sair do abrigo. Tenente, sua missão consistirá em cruzar sobre o território da Terceira Potência, dando aviso de qualquer movimentação suspeita em terra e no ar.
— Sim, Rhodan.
Dirigindo-se ao Dr. Manoli, Rhodan prosseguiu:
— Eric, você vai exercer o comando até nosso regresso. Manteremos contato ininterrupto pelo som e pela imagem. Capitão Klein, você assumirá o controle da cúpula energética, uma vez que já está conosco. Sempre se desempenhou muito bem desse serviço. Mas não confie na sua capacidade de reação. A contagem positrônica será iniciada a partir do segundo menos sessenta.
— Entendido!
— Bell, você irá comigo.
— O.K.! Sugiro que usemos trajes arconídicos.
— Isso não é necessário. Precisamos de projetores mentais e neutralizadores gravitacionais.
Reginald Bell obedeceu. Os instrumentos a que Rhodan acabara de aludir sempre se encontravam ao alcance das mãos. O mesmo acontecia com os trajes arconídicos, que Rhodan e Bell só usaram para atingir sem perda de tempo a nave Good Hope, que se encontrava a mil metros de distância.
A nave recebeu-os como uma catedral deserta. Os passos dos homens apressados retumbavam pelos corredores e produziam eco. Thora e Crest estavam na sala de comando. Encontravam-se ali, como se fossem acessórios imprescindíveis da nave. A Good Hope era o último vestígio da pátria arconídica. Era ali que residiam os dois arcônidas, que a tudo assistiam com um interesse dúbio, quando um alarma colocava os homens em estado de exaltação. Faziam papel de espectadores, sempre que não se encontrava em jogo uma questão do seu interesse.
Thora, a comandante do gigantesco cruzador arconídico, destruído na Lua, raramente fazia uso do seu direito inato. Sua vida sempre desembocava no conflito entre o passado orgulhoso e a situação atual, sempre mutável, que lhe era imposta pela convivência com os terráqueos.
Rhodan atirou-se no assento do piloto e começou a manipular os comandos. A Good Hope despertou para a vida. Ergueu-se do solo e subiu com ligeira aceleração.
A uma altitude de dois mil metros encontrava-se o zênite da abóbada energética.
— Rhodan chamando o capitão Klein. Altitude: duzentos metros. Estou ligando o piloto automático. Mude para o contador positrônico. Alô, Deringhouse! Mantenha a mesma altitude. Quando atingir os quinhentos metros, acelere l g. Transmita a contagem regressiva pelo emissor, capitão Klein.
Uma voz mecânica iniciou a contagem em direção a zero. A decolagem das naves e a retirada da cúpula energética estavam conectadas a uma reação positrônica automática, que seria expedida a partir da central. Tudo daria certo. E deu. Pelo menos no que dizia respeito à decolagem. Na terra a série de manipulações não deixou de provocar seus incidentes.
O televisor orientado para a área critica do posto 37 revelou tudo.
A massa enfurecida, cujos fronts estavam separados por uma estreita faixa de terra, comprimia-se junto à cúpula energética. Um dos grupos levantara barricadas, apoiando-as contra o muro invisível. Dois homens subiram nelas, para apresentar uma demonstração tola.
Quando a energia foi retirada da cúpula, a armação ruiu. Dois segundos depois a mesma energia retornou, impelindo tudo que se colocava ao seu alcance. A reação lenta dos homens não conseguiu aproveitar esses dois segundos.
A cúpula que voltou a funcionar depois da interrupção teve o efeito de uma catapulta. A massa de energia “limpa”, livre de radiações, que só funcionava de forma cinética, golpeou como um punho de ferro. Homens que iam cambaleando para a frente foram atirados para trás, aterrizando de forma nada suave. A reação da barricada desmoronada foi semelhante. Tábuas e pranchas caíram em meio às massas que se aglomeravam, completando o caos.
Bell interpretou as minúcias que conseguiu captar na tela.
— Agora precisamos de médicos e enfermeiros.
— Eles terão de procurar imediatamente eventuais corpos de DI que foram abandonados — interrompeu uma voz vinda dos fundos da sala. Era Crest.
— Procurar corpos de DI em nosso território?
— Esses sujeitos preferem a escuridão. A divisa exterior do nosso território não é totalmente intransponível. É bem possível que os DI tenham escondido seus corpos nas proximidades.
— Eles precisam disso?
— Nunca se deve subestimar um inimigo, é o que ouço os homens dizerem — disse Crest, dirigindo-se para a frente da sala. — É uma regra que muitos táticos e estrategistas entre as diversas inteligências da galáxia já descobriram. Mas toda e qualquer sabedoria só tem validade dentro de certos limites. Além desses limites ficam as exceções que, ainda segundo um dos seus provérbios, confirmam a regra.
— Que exceção poderia ocorrer no presente caso?
— Para os terráqueos as qualidades naturais dos Deformadores Individuais são verdadeiramente sobre-humanas. Por isso a raça dos homens tenderá a atribuir uma superioridade infinita aos DI, e essa atitude já envolve uma disposição inconsciente para a capitulação. Sempre que um obstáculo pareça intransponível, somos tentados a desistir.
— Acho que você está aludindo antes às qualidades arconídicas que às terrenas — corrigiu Bell.
O arcônida ergueu os ombros num gesto de dúvida.
— Se fosse você, não me sentiria tão seguro.
Rhodan insistiu para que atacassem logo o núcleo da questão. Não havia tempo para pesquisas demoradas sobre as características das diversas raças.
— Quer dizer que você recomenda que os DI sejam avaliados com base em critérios objetivos, para que suas limitações naturais possam ser conhecidas.
Crest fez que sim.
— Superestimá-los seria um erro tão grave como não dar atenção às suas manhas traiçoeiras. Os DI são uma raça obstinada, mas o heroísmo não ocupa um lugar de destaque entre eles. Possuem um instinto de autoconservação muito desenvolvido, que os põe em alerta diante de qualquer risco. São bons intrigantes, dotados de grande inteligência e flexibilidade. Mas, como acabo de dizer, prezam antes de tudo sua segurança pessoal. Vocês já sabem de que forma os DI costumam apossar-se de suas vítimas. Chegam bem perto e sem maiores esforços realizam a troca de identidades. Mas sempre estão dispostos a bater em retirada. Para isso é necessário que seu corpo fique o mais perto possível, muito embora o salto para dentro do homem seja muito mais difícil que o regresso ao próprio eu.
— É por isso que acredita que devíamos procurar corpos de DI nas proximidades da cúpula?
— Isso mesmo. Quando se sentem seguros, preferem procurar um esconderijo para seu corpo o mais perto possível do homem em que se recolhem. Em média, pode-se contar com uma área situada num raio de duzentos metros. É bem verdade que já se verificaram casos em que os DI se afastaram alguns milhares de quilômetros com o corpo por eles possuído.
— E mesmo assim conseguem regressar?
— Só com um esforço extremo. E isso se torna ainda mais difícil quando o corpo em que se abrigaram é ameaçado de morte. A morte do mesmo significaria sua própria morte. O DI não sabe saltar de um homem para outro. Tem de regressar ao seu corpo, e isso enquanto o corpo possuído estiver vivo. Se matarmos um homem possuído por um DI, o DI também morre.
— Faço votos de que isso seja verdade — disse Bell em tom desconfiado.
— Você não tem motivo para duvidar da veracidade do que acabo de dizer — retrucou Crest.
— Não estou falando por mal. Acontece que você já se enganou quando viu tudo sob a perspectiva dos arcônidas. Afirmou que um homem possuído cujo eu retorna ao corpo a que pertence acaba enlouquecendo.
— Isso diz respeito a homens e arcônidas, entre cujas mentalidades existem diferenças enormes. Enquanto estivermos falando nos DI, você pode confiar nos meus conhecimentos.

* * *

Quando surgiu a Good Hope, houve certa agitação entre as massas que se aglomeravam junto ao posto trinta e sete. A divisão entre os dois fronts já se tornara menos nítida com o desmoronamento das barricadas. A essa altura a consciência pesada parecia unir os homens. A esfera dos arcônidas corporificava uma autoridade toda especial.
Rhodan pousou e pediu a Thora que mantivesse a nave em condições de decolar a qualquer momento. Olhou para Bell e fez-lhe um sinal.
— Vamos, Bell! Tenha cuidado com o neutralizador. Só utilize feixes de raios estreitos e bem concentrados, e isso mesmo só quando não tiver outra alternativa. Não quero que um setor amplo do território onde estão sendo erguidas nossas construções fique subtraído de repente aos efeitos da gravidade. Se todas as cargas verticais perderem sua posição estática, gastaremos várias semanas na reconstrução.
— Não se preocupe — disse Bell com um sorriso cordial. — Acho que não teremos necessidade de recorrer a isso. Só carrego estas coisinhas comigo por uma questão de tranqüilidade de espírito.
Foram para a frente da nave. A massa humana recuara um pouco, enfileirando-se como um muro compacto. Rhodan aproximou-se. Reginald Bell seguiu-o.
— Vejo mil rostos estranhos — suspirou enquanto caminhava.
Era o que Rhodan estava pensando. A maior parte desses homens haviam sido colocados ali durante a expedição a Vênus. Quase todos viam Rhodan pela primeira vez. Sentiu-se envolvido por uma onda de reverência, desconfiança e insegurança. Até mesmo o pensamento falso e traiçoeiro podia estar presente. Mas Rhodan e Bell prosseguiram imperturbáveis. Agora, a uma distância de cinqüenta metros, já tivera início um duelo espiritual; os dois homens mais proeminentes da Terceira Potência tinham de provar que realmente possuíam a autoridade que corporificavam.
Perry Rhodan levou o jogo ao máximo. Sabia que a essa altura nenhum exagero seria demasiado. Quando chegou junto à massa, não parou. Prosseguiu como um robô; Reginald Bell seguiu-o com a mesma obstinação.
A muralha humana recuou. Ninguém tocou nos dois homens. Uma passagem estreita abriu-se diante deles.
Subitamente Rhodan parou.
— Quem é o chefe da seção?
Silêncio.
Rhodan encarou o homem que se encontrava mais próximo.
— Será que você perdeu a língua?
— É o professor Morton — gaguejou o homem, olhando em torno com uma expressão de insegurança.
— Desejo falar com o professor Morton! — disse Rhodan com a voz alta. — Queiram abrir caminho.
Mais para os fundos houve uma movimentação. Todos se afastaram para deixar o chefe de seção passar.
— Bom dia, professor. Sou Perry Rhodan. O que houve?
— Não posso explicar. Parece que tudo não passa de um mal-entendido, ou então é obra de um pequeno grupo de fanáticos. Terei muito prazer em dar-lhe todas as informações de que disponho. Mas ficarei muito grato ao senhor se me der oportunidade de cuidar primeiro dos feridos.
— Há um hospital nas proximidades. Por que ainda não tomou nenhuma providência?
— Não disponho de autoridade para isso, senhor Rhodan. Peço seu apoio.
— Ordene aos homens que retornem aos seus locais de trabalho, professor. Não me importo de aguardar com as minhas perguntas.
Morton transmitiu as instruções que acabara de receber. Aos poucos os homens da frente foram recuando, empurrando os colegas que se encontravam atrás. Bell segurou um dos homens pela manga do paletó.
— Como é seu nome?
— Brian — respondeu o homem com a voz tímida.
— Muito bem, Brian. Você fica responsável pelos feridos. Dentro de dois minutos deverá haver por aqui um número suficiente de médicos e enfermeiros. Pode retirar-se. Como é o seu nome?
— Schley.
— Schley, você será responsável pela remoção das barricadas. Pegue quantos homens precisar. Quero que termine em vinte minutos.
O homem desapareceu, proferindo um “sim senhor” com a voz rouca. Mas não foi só este. De repente todos pareciam empenhados em dar o fora o mais rápido possível. Num instante toda a área foi evacuada. Rhodan, Bell e Morton estavam a sós.
— Isto não deixa de ser uma arma — disse Bell com um sorriso de satisfação.
— Uma arma psicológica — confirmou Morton. — Fico-lhes muito grato. Há alguns minutos a situação ainda era muito ameaçadora. Tudo começou há meia hora. Encontrava-me...
— Não vamos entrar em detalhes, professor. Da central e da nave observamos tudo. Se hoje ouvimos homens acusarem-se mutuamente de serem possuídos pelos DI, isso parece muito perigoso, mas tudo indica que se trata de uma reação de pânico em cadeia. Será que você tem base para afirmar o contrário?
— De forma alguma, senhor Rhodan. Já lhe disse que para mim tudo não passa de um mal-entendido.
— Foi o que você disse. Mas é o que pensa? — interveio Bell.
— Não entendo.
— Se é que não me entende, será que tudo está bem com você?
— Por que não estaria?
— Ora, professor. Há pouco você teve uma verdadeira revolução. E agora vem nos dizer que tudo não passa de uma bagatela. Talvez com isso queira livrar-se de nós. Você é um dos possuídos, não é?
Morton ficou rubro de raiva. Demorou a encontrar as palavras.
— Isso é um absurdo. Será que até o senhor está apoiando essa campanha sub-reptícia?
Bell continuou, muito gentil.
— Não é nenhum absurdo, professor. Os DI sempre procuram apossar-se das pessoas mais influentes. E no posto trinta e sete a pessoa mais influente é você.
— No momento não, se é que me permite dizer isso na minha modéstia. Se eu fosse um DI, já teria procurado apossar-me do seu corpo ou, melhor ainda, do corpo do senhor Rhodan.
— Teria saltado para nós?
— É o que minha lógica humana diz.
— O que acha, Perry? Parece que tudo está em ordem com ele, não é?
— Acredito que sim. Você passou pelo exame, professor.
— Muito obrigado — Morton respirou aliviado. Mas seu rosto também exprimiu certa perturbação. — Sua maneira de examinar os homens é muito estranha. Gostaria de conhecer o método.
— Se fosse um DI, nunca lhe teria passado pela cabeça transferir-se do professor Morton para o corpo de Perry Rhodan. Isso não é possível.
Caminharam até a muralha energética e viram que só quatro pessoas haviam recebido ferimentos sem maior gravidade.
Brian estava junto dos enfermeiros, conforme lhe fora ordenado.
— Como vê, tive razão — disse Reginald Bell satisfeito.
— Mais que isso. Você tinha a intenção de prender três cabeças da revolução, mas não houve necessidade disso. Tudo isso só demonstra o estado de ânimo que hoje deve prevalecer em toda a humanidade. O resultado é a insegurança, a desconfiança, a disposição para os atos irrefletidos. Não temos tempo a perder, Bell; devemos salvar a Terra do caos.
— É verdade! — confirmou Bell.
O sorriso já desaparecera do seu rosto largo.
— Tive muito prazer em conhecê-lo, professor — prosseguiu Rhodan, estendendo a mão a Morton. — Mas não quero que se sinta em segurança só porque o conflito foi dominado com tamanha facilidade. Ainda existe a possibilidade de que entre seus homens exista algum DI. Não adianta ficar perguntando a todo mundo. O mais importante é procurar os corpos abandonados daqueles seres. Ainda hoje transmitirei instruções nesse sentido a todos os grupos de trabalho situados fora da cúpula. Espero que me avise pelo rádio quando tiver apurado algo de concreto. A qualquer momento estaremos prontos para revidar um golpe.

* * *

A Good Hope regressou para a cúpula energética. O tenente Deringhouse pousou ao mesmo tempo que ela. Não descobrira nada de suspeito durante sua missão de reconhecimento aéreo.
— Uma missão de patrulhamento sempre é uma coisa tediosa — procurou consolá-lo Bell. — Mas um dia colhe-se a recompensa. Tem alguma ordem para Marshall e para mim, Perry?
— Tudo continua conforme foi combinado. Primeira escala: Chicago, em casa de Clive Cannon. Preciso de um homem possuído e de um abandonado. Em Nova Iorque você se encontrará com Homer G. Adams, que lhe prestará ajuda no recrutamento da nossa força policial. Acho que não preciso fornecer outros detalhes.
— Quanto ao resto saberei arranjar-me. Até a volta, Perry.
— Boa sorte!
Depois que Allan D. Mercant e Tako Kakuta tinham saído, também Reginald Bell e John Marshall abandonaram sua nova pátria no deserto de Gobi. Enquanto isso, Rhodan refletiu no seu escritório.
“Fico para trás. Sou o homem do segundo plano.”
Depois levantou-se, endireitou o corpo e dirigiu-se ao pavilhão onde o cérebro positrônico já o aguardava. A palestra recomeçou no ponto em que terminara por ocasião do alarma.
— Modulação, onda portadora, campo espectral completo com valores elevados em angstrom.
— O velho detector dos arcônidas só pode determinar o modelo cerebral — explicou o robô. — Já um telepata lê os pensamentos. Sugere-se a construção de um pseudotelepata.
Esse telepata artificial seria um detector completo de ondas cerebrais.
Rhodan recordou a primeira carga da Good Hope, que trouxera de Vênus uma série de robôs de trabalho construídos segundo suas concepções. Entre eles havia máquinas idênticas. Havia robôs-engenheiros cuja capacidade ia da de um mecânico até a de um positrônico.
Ainda hoje seriam iniciados os trabalhos de construção do primeiro modelo experimental. A Terra precisava do detector telepático, para não ter que capitular diante dos DI.
IV


Quem passasse pela Michigan Avenue teria que inclinar a cabeça bem para trás para enxergar o céu por cima dos grandes edifícios.
John Marshall voltou a baixar o queixo, depois de ter feito suas observações sobre Chicago em geral e a Michigan Avenue em particular. Ele e Reginald Bell tinham descido perto da esquina com a Congress Street e, guardando certa distância, dirigiram-se ao hotel de igual nome. Bell registrara-se no Congress Hotel com seu nome completo, enquanto Marshall adotara o nome de John Linker, embora ocupasse um quarto do sétimo andar, logo ao lado do de Bell. Oficialmente não se conheciam.
Do lado que dava para o pátio interno do Congress Hotel havia uma sacada que ocupava todo aquele lado. Era verdade que uma parede alta e grossa de vidro fosco separava a parte correspondente a cada apartamento, mas não era necessário ser um grande alpinista para escalar esse obstáculo.
As janelas vizinhas estavam escuras. John Marshall arriscou a entrada no apartamento de Bell. Fechou as cortinas e disse:
— Pronto! Já pode acender a luz.
Bell acendeu o abajur que se encontrava perto da poltrona. Sugou a fumaça do cigarro que acabara de acender e ofereceu o estojo ao telepata. Este serviu-se em silêncio e sentou.
— Afinal, o que há com Cannon? — perguntou Bell, já que Marshall não demonstrou a menor pressa.
— Não estive com ele.
— Mas como?
— Peço-lhe que guarde seu juízo a meu respeito para depois. Cannon está preso numa fortaleza. Para falar com ele a gente tem de atravessar três ante-salas, e cada uma delas representa uma verdadeira corrida de obstáculos.
— Será que estou condenado a ouvir uma ladainha de desculpas? — interrompeu Bell. — Afinal, para que serve sua telepatia?
Marshall não se abalou.
— Pelo que se nota nas cercanias de Cannon, o homem caiu numa armadilha dupla — informou.
— Você examinou essas cercanias?
— Afinal, minha missão de telepata consistiu nisso. E descobri uma porção de coisas. Provavelmente essas coisas são mais importantes que as que poderia ter descoberto se tivesse falado com o chefão em pessoa.
— Faça o favor de contar.
— A cem metros do edifício Kreysky, que fica nesta rua, do mesmo lado do nosso hotel, existe um restaurante subterrâneo. Nesse restaurante estão os primeiros guardas. Tanto os da polícia como os do Blue Bird Syndicate. Às vezes até ficam sentados na mesma mesa, conversando entre si.
— Será que é um acordo secreto?
— Não acredito. Ambas as partes conservam a linha. Ficam brincando de gato e rato, e às vezes nem sabem direito se foram reconhecidos uns pelos outros. Quase chegaria a dizer que guardam uma desconfiança instintiva entre si.
— Onde é que a coisa começa a ficar mais interessante?
— No edifício Kreysky, evidentemente. E, o que é de surpreender, também no prédio vizinho. O pavimento térreo de ambos os imóveis foi construído para abrigar lojas independentes. No edifício Kreysky existe um auto-serviço para a venda de sabonetes e cosméticos. Além disso, há uma representação geral da Mix Centry.
— Essa gente instala seus motores em qualquer coisa que possa rodar por aí.
— Isso mesmo. Cheguei a ver veículos de rua para uma pessoa, lanchas e hélices individuais que cabem numa pasta.
— Espero que não se tenha limitado a olhar, mas também tenha procurado investigar pensamentos. A loja da Mix Centry pode se tornar muito interessante para nós.
— Por quê?
— Adams manifestou um interesse bastante intenso pelas ações dessa empresa. Por enquanto a usina continua firme nas mãos do grupo Kreysky. Mas pelo que sei nossa General Cosmic Company já conseguiu tirar suas casquinhas. Mas continuemos! No edifício ao lado há uma loja de cerâmica e decorações comerciais. Já passei por lá. Acho que já chegou a hora de passarmos aos detalhes.
— Muito bem. Uma vez que já conhece as fachadas, estará interessado em saber que na loja de cosméticos trabalham duas agentes da polícia federal secreta. Uma delas é supervisora, outra trabalha na caixa. No entanto, o gerente só fica pensando em coisas tais como o Kreysky, Cannon e umas idéias muito desligadas sobre eventuais atacantes. O gerente do posto de vendas da Mix Centry pertence à mesma categoria de pessoas. Há dois dias viu-se obrigado a contratar outro empregado, já que a policia prendeu um antigo colaborador seu. Quer dizer que o velho está preso para investigações. O novo funcionário é um agente que trabalha para Kaats. É bem verdade que essa alteração no pessoal da empresa deu na vista, tanto que o chefão desconfiou.
— Percebeu que o novo funcionário é um homem de Kaats?
— Não chegou a tanto. Mas desconfia dele por uma questão de princípio.
— Nesse caso não vamos dramatizar a situação. Como estão as coisas nas outras lojas?
— Fiz uma lista, Bell — Marshall tirou um papel do bolso e colocou-o sobre a mesa. — Na primeira coluna estão registrados os nomes, na segunda a organização a que pertencem: à polícia ou à gangue do Blue Bird. A seguir vem a indicação de sua relação de emprego. Verá que em quase todos os pavimentos encontrei pessoas suspeitas. Principalmente no escritório de advocacia de Smith & Smith, que fica logo ao lado.
— Ao que parece Kaats não conseguiu penetrar no escritório de Smith. Os doze funcionários que trabalham ali simpatizam com Cannon. Receio que, se começarmos por ali, poremos as mãos numa casa de marimbondos.
Reginald Bell submeteu a lista a um exame demorado. Finalmente levou o papel até a lareira, encostou a chama do isqueiro e espalhou as cinzas.
— Quer dizer que existem vários círculos de bloqueio, que se interpenetram. Cada um protege para fora, enquanto outro procura penetrar para o interior e isolar. Kaats vigia cada passo de Cannon. Será muito difícil seqüestrá-lo.
— Por que não procura o apoio de Kaats?
Bell repeliu a idéia com um gesto.
— Uma série de negociações com a polícia consumiria muito tempo e provavelmente não levaria a nada. Kaats não é nenhum Mercant. Serve aos Estados Unidos da América e nem chega a simpatizar com a Terceira Potência. Quando muito utiliza as informações fornecidas por Mercant, mas de resto a ambição leva-o a querer fazer tudo sozinho.
— Então acredita que não concordaria em que levássemos Cannon ao deserto de Gobi?
— Tenho certeza, Marshall. Portanto, elimine o caminho mais fácil. Devemos seguir as instruções de Rhodan. Uma colaboração de Kaats significaria uma adaptação dos respectivos interesses.
— Quer dizer que teremos de agir fora da lei.
— Não se trata de respeitar determinadas normas legais, mas de salvar toda a Terra dos DI. E para isso só podemos fazer uma coisa: cumprir as ordens de Rhodan.
— Concordo plenamente.
— Não esperava outra coisa. Afinal, você realizou um trabalho preliminar muito valioso, criando condições para a elaboração de um plano de combate bastante promissor. Tenho na cabeça a relação que acabo de queimar. No futuro recorreremos o menos possível a quaisquer registros escritos. Mais uma pergunta: existe alguma suspeita de que qualquer das pessoas observadas por você seja possuída pelos DI?
— Não. Excluo essa possibilidade. Só temos um conhecimento positivo disso em relação a Clive Cannon. Acredito que os DI devem ter lançado seu ataque num front bastante amplo, que se estende por toda a Terra. O primeiro contingente invasor deve ter sido relativamente fraco, motivo por que os indivíduos tiveram de ser bastante espalhados. Aliás, para eles basta ocuparem as posições-chaves. Cannon é o chefe da gangue Blue Bird, cuja direção intelectual provavelmente é idêntica à do Kreysky Syndicate. Todos os outros não desconfiam de nada, e seguem suas instruções sem pestanejar.
— O.K.! Vamos ao que importa. Pelo que acaba de dizer, o edifício vizinho é bastante suspeito, por estar ocupado pelos gângsteres. Já notou que o escritório de advocacia de Smith & Smith fica à mesma altura que a secretaria do Kreysky Syndicate?
— É verdade. As coisas combinam tão bem que podemos ter certeza de que encontraremos uma ligação entre os dois edifícios. Só resta saber de que lado devemos começar.
— De ambos os lados ao mesmo tempo. Além disso, você fica encarregado de entrar em contato com Clive Cannon. Enquanto isso darei uma olhada no pessoal de Smith & Smith.
No dia seguinte John Marshall compareceu ao edifício Kreysky trinta minutos antes do início do expediente. Assim mesmo teve de esperar, pois havia dois cavalheiros que tinham levantado antes dele.
De início não se importou, ainda mais que resolveu fazer um exame da vida psíquica dos dois indivíduos.
“...fui o primeiro. Terminarei antes do meio-dia... Falar pessoalmente com Cannon... estará de bom humor? Trago uma recomendação do secretário... Posso ameaçá-lo com a GCC. Em Nova Iorque Adams compra tudo em que consegue pôr as mãos. Mesmo empresas duvidosas... Será que já posso fumar? Antes disso devia comer alguma coisa... Tolice! Cannon terá que dar-se por satisfeito com as condições que vou oferecer. Os Kreysky não deviam bancar os importantes. Se não quiserem ser engolidos pela GCC, precisarão de toda substância que conseguirem assimilar... mesmo que as condições não sejam tão favoráveis... É claro que ontem ficou muito tarde.”
No cérebro do homem ao lado um problema financeiro parecia ocupar o lugar de maior destaque.
O outro homem encontrava-se mais afastado. Marshall teve dificuldades em alcançar a área dos seus fluidos. Acabou se levantando e andando pela sala, como se estivesse profundamente entediado. Ainda de pé, remexeu num montão de jornais, e assim conseguiu estabelecer um contato telepático de primeira ordem. Não só isso: também era muito precioso.
“...esse jovem parece um executivo. Roupa muito elegante. Deve ser uma pessoa de influência, do contrário não andaria por aqui... Mas o dinheiro do seu carro deve ter saído do bolso do velho...”
John Marshall não se sentiu muito lisonjeado. Mas no momento não lhe interessava o que os outros pensavam dele. A próxima série de pensamentos provou que havia algo melhor.
“...ordens são ordens. Gostaria de ver como Kaats me dará cobertura. É uma estranha forma de execução num estado de direito... Tomara que não me submetam a uma revista muito detalhada. Da terceira vez devo dar um jeito de chegar ao chefão... Este rapaz deixa a gente nervoso. Talvez ele mesmo esteja nervoso. Por que não senta?... Evidentemente, se Cannon é um dos possuídos, nada me poderá acontecer. Cabe exclusivamente a Kaats decidir como se elimina uma fera dessas. Além disso todas as portas estão trancadas... Nada me pode acontecer... Nada me pode acontecer... Devia ler um pouco...”
— Com licença! — disse o policial e pegou um dos jornais que talvez pertencessem ao montão que Marshall parecia ter reservado para seu uso exclusivo.
— Pois não!
John Marshall pegou o jornal que segurava na mão e dirigiu-se à sua poltrona.
Não conseguiu concentrar-se na leitura. O homem sentado naquela poltrona era um policial. Recebera a incumbência de matar Cannon e hoje faria sua terceira tentativa de penetrar no santuário do Kreysky Syndicate. Quem sabe se Kaats já teve a intenção de guiar-se pelos desejos de Mercant.
Provavelmente com o tempo o encargo de vigiar um único possuído representaria um peso muito grato. Um DI morto era um DI bom. Provavelmente haveria algumas centenas deles perambulando pelo país, e seria necessário cuidar de todos eles com os meios dos serviços de identificação.
Sob essa perspectiva o coronel Kaats não deixava de ter razão.
Acontece que até então Clive Cannon era o único homem possuído pelos DI que havia sido identificado com alguma segurança. Por isso era uma pessoa muito importante para ser abatida sem mais aquela.
John Marshall percebeu que Bell tivera toda razão ao desaconselhar qualquer tipo de colaboração com a polícia federal secreta. Os interesses e os planos da Terceira Potência eram ligeiramente diferentes. Era bem verdade que o fato de que Marshall deveria depender cada vez mais de si mesmo, representava um consolo muito fraco. Lembrou-se da pasta que continha vários instrumentos de origem arconídica, e que lhe serviriam de proteção num perigo extremo. Mas teria de fazer o possível para evitar seu uso, a fim de não provocar suspeitas.
Além disso, seria necessário modificar os planos primitivos. Ninguém contara com a possibilidade de um atentado. O próprio Bell, que pretendia dar uma olhada no escritório de advocacia Smith & Smith, não tinha a menor idéia de que a situação se modificara dessa fora. Por isso mesmo Marshall não poderia seguir um caminho inteiramente novo. Enquanto os ponteiros iam se aproximando das nove, esforçou-se para ordenar seus pensamentos. Ficou satisfeito em ter mais um prazo, já que o outro cavalheiro foi convidado a entrar antes dele.
Com pequenos intervalos apareceram mais cinco visitantes que depois de um ligeiro cumprimento sentaram e pegaram os matutinos.
Marshall procurou fazer uma ronda disfarçada num passeio inofensivo, mas teve dificuldades em sondar os pensamentos dos homens que se encontravam tão próximos uns aos outros. As impressões sobrepunham-se. Tudo indicava que um dos cinco simpatizava com o policial e estava informado sobre sua missão. Mas Marshall não conseguiu descobrir qual deles era. Aquela gente nem chegou a trair-se por meio de ligeiros olhares. Estavam bem treinados e não assumiam o menor risco. Bem, era claro que para um golpe desses Kaats devia ter destacado os melhores elementos de que dispunha.
Brown será o seguinte”, foi o pensamento nítido que surgiu de repente. Então o nome do policial era Brown.
A recepcionista voltou a aparecer e convidou Brown a entrar.
Os nervos de Marshall quase chegavam a arrebentar de tamanha tensão. O assassino contratado iria subtrair-se ao seu controle. Nem sequer poderia vigiá-lo com os olhos.
Será que teria de perder a oportunidade?
Se os agentes de Kaats matassem o homem possuído pelos DI na sua presença, Bell e Marshall levariam um sabão daqueles quando retornassem ao deserto de Gobi. Além disso, tal ato representaria uma grande vitória para os DI, mesmo que por algum tempo perdessem uma posição importante.
Era imprescindível impedir a execução dos planos de Kaats.
Marshall teria de concentrar-se, evitando qualquer tipo de pânico interior.
O policial Brown ainda não poderia estar perto de Cannon. Enquanto o primeiro visitante não saísse, Brown teria de lutar obstinadamente pelo seu objetivo nas três ante salas. Talvez nem conseguisse chegar à posição de tiro.
Quem sabe se chegaria a conseguir?
Marshall sentiu que deveria eliminar esta última restrição. Representava um consolo produzido pelo desejo, que não podia merecer a menor confiança.
A porta abriu-se e o primeiro visitante saiu com uma expressão nada satisfeita no rosto.
A porta fechou-se.
Ninguém convidou Marshall a entrar. Decidiu tomar a iniciativa.
Levantou-se e bateu à porta. Entrou sem esperar pelo convite. A moça sentada atrás da mesa era a recusa e a indignação personificadas.
— Aqui não é costume entrar sem ser convidado. Peço-lhe que espere lá fora até que chegue sua vez.
— Já está na minha vez, senhorita.
— Não espere outras explicações de minha parte, cavalheiro. Tenho minhas instruções. Recomendo-lhe que se adapte às peculiaridades desta casa. Aliás, o senhor já foi anunciado? Posso verificar se para o senhor vale a pena esperar.
— Essas palavras não foram apenas francas, mas descorteses, senhorita — respondeu Marshall com uma expressão de ironia no rosto e, num movimento suave, tirou a agenda das mãos da recepcionista. — Não fui anunciado, tal qual a morte não é. E tal qual a morte ninguém me pode pôr para fora. Será que a senhorita entendeu a comparação?
No rosto da recepcionista lia-se o pânico. Como uma das colaboradoras mais chegadas do círculo de Clive Cannon, porém, pertencia à classe das pessoas que se distinguem pela inteligência e capacidade de decisão. Alarma! Era este o elemento principal dos pensamentos que se atropelavam em sua cabeça. Mas hesitou. Era muito comum que por ali aparecessem blefadores que recorriam a falas imponentes para forçar a entrada. Chegou a hesitar tanto que Marshall teve de animá-la.
— Não se acanhe em apertar o botão da campainha, senhorita! Não perca tempo, se é que está interessada em salvar a vida de seu chefe.
— Cavalheiro...!
Marshall procurou frustrar a iniciativa da moça com um movimento semelhante ao que executara pouco antes. Mas ela foi mais rápida. Não anunciou sua decisão através de uma série de pensamentos que pudessem traí-la; agiu imediatamente.
Marshall defrontou-se com o cano de uma pistola.
— Suas brincadeiras vão longe demais. Já que escolheu um tema macabro, vamos prosseguir por esta forma. Saia imediatamente!
— Não está mesmo interessada em salvar a vida de Clive Cannon?
— Acho que ela não corre o menor perigo, enquanto o senhor não conseguir chegar perto dele.
— É engano, senhorita! A vida de seu chefe correrá perigo assim que o capitão Brown entrar na sua sala. E, para evitar qualquer dúvida, quero realçar que Brown entrou bem à minha frente. Só faço votos de que ainda esteja numa das ante-salas. Pelo que estou informado, não foi anunciado diretamente a Cannon; apenas vem com uma recomendação de certo secretario. Será que falei bastante claro para fazer com que a senhorita dirija sua atenção ao lugar certo?
— Um momento.
A recepcionista levantou-se e abriu apressadamente a porta.
— Lem! Onde está o cavalheiro que eu lhe trouxe por último?
— Acabo fazê-lo avançar mais uma casa — respondeu uma voz masculina vinda da peça contígua.
— Fale imediatamente com Mac Phan e faça-o esperar mais um pouco. Tenho uma notícia muito importante para o chefe. Não permita em nenhuma circunstância que esse homem se aproxime dele.
Marshall ouviu um arrastar de cadeira e uma voz que emitia um som de surpresa. De qualquer maneira as instruções foram cumpridas. Outra fechadura abriu-se.
— Desculpe a interrupção, Bill. Peça a esse cavalheiro que aguarde mais cinco minutos. O chefe está recebendo um telefonema importante e não pode ser perturbado.
— Quando o chefe fala pelo telefone, eu fico sabendo.
— O telefonema vem diretamente da central. Portanto, você está informado.
O homem que a recepcionista chamara de Lem surgiu na ante-sala.
— Agora você vai fazer o favor de explicar o que significa isso, Marge!
— Quem vai explicar é este cavalheiro. Ele ainda está me devendo a mesma explicação.
— Meu nome é Linker — disse John Marshall com uma ligeira inclinação do corpo. — Podemos ter certeza de que o capitão Brown não se aproximará do senhor Cannon?
— Meu nome é Steinberg — disse o homem cujo prenome era Lem, com a mesma cortesia. — O que tem para nos contar?
— Gostaria que antes respondesse à minha pergunta, Steinberg. No momento o senhor Cannon se encontra em segurança?
Marshall já o sabia face aos pensamentos de seu interlocutor. Até sabia que Cannon fora prevenido por uma lâmpada de advertência vermelha, ativada a partir da mesa de Steinberg, de que alguma coisa não estava em ordem. Por isso o sistema de travamento automático da porta não seria liberado antes que o perigo tivesse sido eliminado. Marshall sabia tudo isso. Acontece que ali não poderia revelar sua qualidade de telepata, motivo por que tinha de formular perguntas como qualquer homem normal.
Steinberg deu um sorriso irônico.
— Você faz perguntas muito estranhas, Linker. É claro que Clive Cannon está em absoluta segurança. Justamente por isso você terá que se dar ao incômodo de relatar tudo.
— Reviste o capitão Brown. Encontrarão uma pistola, provavelmente até mais de uma. Penetrou aqui com a finalidade de matar Cannon.
— Ora! Você diz que Brown é policial. O fato é que manteve contatos comigo como representante de uma empresa privada. E hoje não foi a primeira vez. Como pode afirmar que pertence à polícia?
— Não só pertence a ela, mas está agindo a seu mando.
— Linker, pensei que você fosse mais inteligente. Então a polícia estaria tramando um assassinato! E ainda espera que eu acredite que faz isso oficialmente.
— Fornecerei os detalhes ao senhor Cannon. A esta hora já deve ter compreendido que são muito importantes.
A expressão de ironia no rosto de Steinberg aumentou.
— Se está interessado em convencer-nos da sua ingenuidade, Linker, pode ficar tranqüilo: já o conseguiu. Apenas receio que o senhor Cannon não o queira receber hoje, nem qualquer outro dia. Mas sente por um instante. Vamos cuidar do capitão Brown.
Steinberg transmitiu ordens a várias pessoas através do interfone. Dali a pouco houve uma verdadeira invasão. Cinco homens saíram da segunda ante-sala, onde deviam ter entrado por um corredor lateral. A seguir o capitão Brown foi introduzido no recinto. Seus pensamentos revelavam que se sentia descoberto. Mas seu rosto não traía nada.
— Revistem estes homens — ordenou Steinberg.
John Marshall notou que receberia um tratamento tão ríspido como o que era dispensado a Brown. A revista pessoal realizada em sua pessoa até parecia dar mais resultado. Enquanto o capitão só trazia três armas comuns, uma delas artisticamente costurada no forro do paletó, nas roupas de Linker foram descobertos instrumentos que ninguém ali sabia para que serviam, mas que por causa de suas formas estranhas tinham um aspecto bastante perigoso.
— Hum! — disse a recepcionista. — Acho que encontramos um par muito interessante.
— Também acho. É claro que estes bonecos nunca vão confessar que trabalham juntos. Mas terão tempo para refletir sobre isso. Queira explicar para que serve isto!
— Não vou explicar coisa alguma. Estes instrumentos são meus e vocês nada têm que ver com eles.
— Vamos confiscar essa sua propriedade, até que o chefe decida a respeito. Knox, será que você dispõe de dois quartos separados e bem seguros para os dois?
Um dos cinco homens armados deu um sorriso.
— Sempre temos lugar para umas belezinhas como estas, Steinberg. Permite que os leve logo?
— Protesto! — indignou-se o capitão Brown. — Vocês não podem privar um homem de sua liberdade pelo simples fato de carregar armas a serviço do Estado. Previno-os de que estão assumindo uma posição ilegal, que pode sujeitá-los a um castigo bem pesado. Se tiverem alguma coisa contra mim, ajam dentro da lei. Estou pronto a prestar declarações perante qualquer corte de justiça regular.
— Acredito — interveio Marshall. — A promotoria sempre vai defender as posições sancionadas pela polícia. Mas você vai pagar pelo fato de eu ter sido identificado com suas intenções. E quem vai fazer você pagar serei eu; assim que conseguir sair daqui. Disponho dos meios, e também disponho de relações para isso. Basta olhar sobre os instrumentos que estão em cima daquela mesa. Nossos amigos não têm a menor idéia do que venham a ser, muito menos sobre a maneira de lidar com eles.
O homem chamado Knox, que carregava a pistola automática, aproximou-se para olhar de perto os instrumentos de Marshall. Chegou a estender a mão para pegar o neutralizador.
— Deixe de ser tolo! — gritou Marshall a plenos pulmões. — Não ponha a mão nisso, se não quiser fazer desta casa seu túmulo.
A advertência parecia tão exagerada que quase chegava a dar a impressão do ridículo. Mas Steinberg continuou a falar objetivamente.
— Que instrumentos são estes, Linker? Serão armas?
— São armas, sim. E quero dirigir a todos a advertência que acabo de fazer a Knox. Faço-a no seu interesse e no meu.
— Explique-se melhor.
— Não há nada a explicar. Não vim dar aulas a você. Ainda acontece que estes instrumentos são muito caros para vocês.
— São de procedência terrena? — Steinberg atirou verde para colher maduro.
— Vejam só! — John Marshall procurou dar à sua voz um tom de tranqüila ironia. — Já começa a compreender. Continue a pensar. Com toda essa inteligência, você acabará descobrindo um dia.
— Picaremos com você até que resolva falar.
— Isso é chantagem! E provavelmente ainda furto e cárcere privado. Acha que Cannon está de acordo com isso?
— Acredito que sim.
— Em absoluto! — a voz saiu abruptamente dos alto-falantes. — Mande os homens embora, Steinberg. Prenda Brown e traga Linker à minha presença.
— Sim senhor!
Pelo comportamento daqueles homens Marshall concluiu imediatamente que quem acabara de falar não era outro senão Clive Cannon. Dentro de poucos segundos a sala ficou vazia. Lem Steinberg fez um gesto convidativo.
— Faça o favor, linker!
John Marshall estava esperando.
— Você esqueceu uma coisa — disse com um sorriso, apontando para o neutralizador e o projetor mental.
— Não sei se o senhor Cannon estará de acordo em que você leve isso.
— Estou de acordo, Steinberg, desde que Linker nos garanta que você vai trazer esses instrumentos e os colocará sobre minha mesa.
— De acordo — confirmou John Marshall.
Clive Cannon recebeu-o como se fosse um velho conhecido.
— Sente, Linker. Queira servir-se.
Marshall olhou para o estojo em que havia uma dezena de cigarros de marcas diferentes. Escolheu um.
— Para deixá-lo logo a par, Linker, quero informá-lo de que ouvi sua palestra na primeira ante-sala. Acompanhei o diálogo. Mas a apresentação, se é que posso falar assim, tomou um rumo nada sério, motivo por que prefiro que os entendimentos prossigam aqui.
Marshall esforçou-se para conseguir uma pausa para captar alguns detalhes dos pensamentos a que Cannon não deu expressão. Mas, se pensava que reconheceria ao primeiro lance um homem deformado pelos DI, sentiu-se decepcionado.
— Além disso — prosseguiu Cannon — o que acaba de ser dito não foi apenas confuso, mas também muito estranho. Poderia dar-me uma explicação?
Cannon lançou um olhar sobre o neutralizador e o projetor mental. Seus pensamentos formularam definições bem reconhecíveis. Marshall viu nisso um primeiro indício de que Cannon assumira a identidade de um DI. Um ser humano e um habitante dos Estados Unidos jamais reconheceria esses instrumentos.
— Serei breve, Cannon. Nas ante-salas infelizmente me vi condenado a fornecer explicações extensas, que não levavam a nada. Conforme já deve saber, há meses Perry Rhodan procura recrutar pessoas competentes para formar um núcleo sadio de onde sairá a população de seu Estado. Para isso já estebeleci contatos bem proveitosos. Tudo isso por um bom dinheiro, é evidente. É por isso que estou aqui. O incidente com o capitão Brown não fazia parte do programa. De qualquer maneira, só hoje de manhã tive conhecimento das intenções da polícia. Por isso infelizmente não pude deixar de dramatizar minha presença.
— Apesar de tudo estou perplexo — disse Cannon. — Além de não saber o que a polícia pode ter contra mim, acho muito estranhável que a justiça seja administrada por essa forma.
— Hoje em dia até costumam ter alguma coisa contra os homens mais pacatos, Cannon. Não preciso explicar a influência que a invasão dos DI exerceu sobre a mente dos homens. Por isso não é de admirar que algum funcionário do escalão médio dê ordens para matar este ou aquele cidadão. O medo dos DI pode justificar qualquer assassinato.
— Medo dos DI! Isso é muito interessante — respondeu Cannon, fazendo de conta que nada tinha que ver com isso. Mas sua mente desenvolvia uma atividade febril.
Descoberto? Terei sido descoberto? O que estará pensando esse Linker? Será que faz parte do jogo? Isso seria muito complicado. Não é possível que Linker saiba. Se simpatizasse com a polícia, não os teria impedido de me matarem.”
— Por que iriam suspeitar justamente de mim?
— A palavra justamente está fora de lugar. Hoje em dia suspeitam de qualquer pessoa. Basta, por exemplo, que ela tenha aparecido num sonho mau. Parece que todo mundo perdeu a razão. Só nos resta um consolo: dentro de pouco tempo nossa tecnologia nos ajudará a vencer tudo isso. Estão iniciando a construção de aparelhos que permitem a identificação de qualquer pessoa possuída pelos DI.
Mais uma vez o pânico tomou conta da mente de Clive Cannon. Era muito pior do que seria num homem que se encontrasse em situação idêntica. A essa altura Marshall já tinha certeza de que Clive era um possuído e que o caráter dos DI não era nada heróico.
— Estão dando início à construção — observou Clive com um sorriso de dúvida, como se lamentasse que ainda não se dispunha desses aparelhos. — Quando nossa tecnologia chegar lá, os DI já terão completado a conquista da Terra. Não tenha a menor dúvida!
— Não seja tão pessimista! — objetou Marshall. — É claro que uma coisa dessas não pode ser feita de um dia para outro, mas com os recursos dos arcônidas, de que se dispõe no deserto de Gobi, poderemos contar com um resultado positivo dentro de poucas semanas. A Terceira Potência está empenhando todas as forças na solução do problema. E um dia encontrará a solução.
— Um dia... será amanhã?
— Amanhã não. Mas aposto que não demora mais que uns dois ou três meses. Até lá a humanidade tem de agüentar, e até lá qualquer um de nós terá de contar que algum maluco o mate. Ninguém está seguro.
— Ninguém — repetiu Cannon em tom pensativo.
Sua exaltação de DI diminuíra sensivelmente. Já namorava outros planos, onde a tecnologia da Terceira Potência ocupava um lugar de destaque. Marshall captou a seguinte série de pensamentos: “dentro de dois meses estarão em condições de reconhecer um DI. Logo, a Terceira Potência terá de ser conquistada dentro de dois meses.
— Ninguém. De qualquer maneira, fico-lhe muito grato. Hoje você salvou minha vida.
— Fiz isso no meu interesse — Marshall procurou minimizar a importância de seu ato. — Afinal, gostaria de fazer negócios com você.
— Isso já é uma conversa mais agradável. Que negócios seriam esses?
— Conhece Homer G. Adams e a General Cosmic Company?
— Andam dizendo por aí que a Terceira Potência está atrás disso. Por que fala justamente no meu concorrente mais feroz?
— Porque a concorrência é uma coisa boa. Vamos abrir o jogo, Cannon. É verdade que Adams é um dos nossos melhores homens. Chega a ser bom demais. Compreendeu?
— Não posso dizer que tenha compreendido.
— A Terceira Potência é antes de tudo um instrumento político. Precisamos da eficiência econômica, corporificada sob a forma da GCC. Mas no momento em que pensa em tornar-se independente torna-se perigosa para nós. Queremos dividir nossa indústria entre duas empresas equivalentes. Precisamos oferecer uma figura gêmea ao nosso gênio financeiro. Cannon, você seria capaz de fazer concorrência a Homer G. Adams com a nossa ajuda?
— Isso representa um grande desafio. É uma pergunta que não pode ser respondida de supetão.
Realmente era uma pergunta difícil. Apesar disso, os dois homens chegaram a um acordo naquela mesma manhã. Marshall teve todos os motivos para orgulhar-se de sua tacada diplomática. Não chegou a pedir que Cannon o acompanhasse numa viagem ao deserto de Gobi: foi Cannon que pediu. Insinuou-se com o fanatismo de um homem possuído pelos DI que pretendia conquistar o território da Terceira Potência para impedir a invenção de certo instrumento.
— Não sei — disse Marshall com a voz insegura. — Não tenho competência para decidir se posso levá-lo comigo. Segundo os planos de Rhodan, você manteria seu escritório e todo o complexo do Kreysky Syndicate, para construir sobre essa base.
— É exatamente o que penso. Continuaremos a trabalhar aqui em Chicago e mostramos a Adams que não está só no mundo. Mas você há de compreender que preciso obter alguma orientação. Preciso colher uma impressão das coisas imensas que se ouve falar a respeito do deserto de Gobi. Tenho de saber para quem vou trabalhar. O lugar que me foi destinado justifica um contato pessoal com Perry Rhodan.
— Compreendo seu ponto de vista, Cannon. Dê-me um dia, para que possa entrar em contato com minha gente. Voltarei amanhã à mesma hora e lhe trarei a decisão de Rhodan. Se for positiva, gostaria de decolar imediatamente.
— Estarei pronto, Linker.

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