Inicialmente
introduziu na máquina os cartões perfurados e positrogramas que tinha em seu
poder. Na primeira passagem formulou a pergunta em termos muito gerais. O
cérebro tinha de ser conduzido ao núcleo do problema numa progressão e
logicamente coerente. Não que lhe faltasse capacidade de solucionar problemas
complexos num tempo muito reduzido. O caso era que tudo dependia do
equacionamento correto do problema por parte do homem.
— Como
poderei identificar o cérebro de um homem? — principiou Rhodan.
— Pergunte-lhe
quem é.
— Neste caso
não existe a possibilidade de perguntar. O cérebro que se pretende identificar
não libera a informação.
— Cada
cérebro possui uma freqüência individual, identificável através da medição do
comprimento das ondas — respondeu o cérebro.
— Nossa
tarefa consiste em identificar certas características de determinado grupo de
cérebros — prosseguiu Rhodan. — Não se trata de um indivíduo isolado.
— Isso não
altera nada na resposta que acabo de dar
Rhodan
refletiu. Dessa forma nunca chegaria ao fim.
— O estímulo
transmitido de molécula a molécula irradia um espectro mensurável. Nossa sonda
cerebral permite a medição das freqüências. A constituição e o funcionamento da
sonda são conhecidos?
— São
conhecidos — respondeu prontamente o cérebro positrônico.
— Mas por
essa forma só conseguimos apurar desvios em princípio. Não conhecemos nenhuma
análise qualitativa. A mesma não pode ser realizada por meio do exame do modelo
cerebral. Este fato já foi constatado. Minha pergunta é a seguinte: Quais são
os dados utilizáveis, além do espectro de ondas cerebrais?
— Não
dispomos de informações a este respeito.
Mais uma vez
Rhodan havia chegado a um ponto morto. O cérebro positrônico não fora concebido
exclusivamente para o armazenamento de experiências; também possuía áreas
dedicadas ao pensamento criativo.
Rhodan pegou
um exemplar dos positrogramas e introduziu-o na máquina.
— O que
resulta deste estímulo?
— Recomenda-se
a utilização de telepatas.
— Neste caso
não dispomos de telepatas.
— A
verificação da atividade cerebral só pode ser realizada por meio do exame das
freqüências, pois qualquer fluido tem um caráter eletromagnético. Recomenda-se
o aperfeiçoamento do receptor. A modulação proporciona a melhor possibilidade
para a determinação do caráter individual.
— A
modulação por meio de uma onda?
— Sim.
— Como faço
para conseguir a onda?
— Ela já
existe. O cérebro a ser identificado faz o papel de emissor.
— Quer dizer
que todo segredo está no fato de que as sondas cerebrais dos arcônidas
trabalham numa faixa de freqüências muito restrita. A onda portadora deve ser
incluída na área de ressonância.
— É muito
provável que seja assim.
— Quais são
as freqüências que devem ser incluídas?
A resposta
do cérebro positrônico foi abafada por um uivo ensurdecedor. Perry Rhodan
endireitou o corpo. Seu espírito vivaz logo se adaptou à nova situação. Uma
sereia de alarma era mais importante que qualquer resposta do cérebro
positrônico, por mais vital que fosse. Não se podia perder a sabedoria da
máquina positrônica. Mas num alarma, cada segundo podia representar uma perda
irreparável.
Rhodan
correu para o portão e olhou para fora.
Os homens
corriam pelas ruas arenosas ladeadas de barracos. Isso não tinha nada de
estranhável, pois o alarma no território cercado significava que de início cada
um tinha de deslocar-se para um ponto indicado, onde aguardaria instruções.
O ponto de
Rhodan ficava no escritório, que servia de quartel-general da Terceira
Potência. Só ali podia ser dado o alarma.
Do ponto em
que Rhodan se encontrava era apenas um pulo. Por isso preferiu não usar seu
rádio de bolso. Saiu correndo sem perder tempo.
Na entrada
do escritório Reginald Bell aguardava-o em traje de viagem.
— Foi você
que deu o alarma?
— Entre. Ali
fora, além da área bloqueada, o diabo está solto.
— São os DI?
— É o que
dizem. Pelo menos é uma das coisas que dizem. Estão fazendo uma pequena
revolução. Num caso destes é difícil conseguir uma informação precisa.
— É uma nova
invasão? Será que os caças espaciais deixaram passar alguém?
— Nada
disso. Se forem DI, os mesmos já estão na Terra há alguns dias. Olhe!
Rhodan
aproximou-se da tela.
Bell
modificou a regulagem. O olho energético da antena direciona foi penetrando no
espaço e colocou-se numa perspectiva que lhe permitia abranger todo o território
submetido à soberania da Terceira Potência.
— Onde foi
que aconteceu? — perguntou Rhodan.
— Aqui —
respondeu Bell, trazendo para a tela um setor ampliado. — Bem ao noroeste.
Perto do posto número trinta e sete.
Não precisou
dar outras explicações. A imagem dizia mais que as palavras.
Verdadeiras
massas humanas comprimiam-se junto à cúpula energética. Via-se perfeitamente
que se tratava de dois grupos inimigos.
— Você disse
que é uma revolução?
— É, sim.
Ras pode dar maiores detalhes.
Rhodan
voltou-se ao africano.
— O que
aconteceu?
— Eu estava
fazendo uma inspeção de rotina. Encontrava-me no posto número trinta e sete,
que fica na área número dois, isto é, a menos de dois quilômetros da cúpula.
Naquele lugar a Harris Corporation
está construindo dez pavilhões de montagem para agregados de refrigeração de
plástico endurecido e outras peças padronizadas para o interior das naves.
Junto às betoneiras havia um grupo de pessoas que conversava animadamente.
Algumas delas discutiram e passaram às vias de fato. Naturalmente resolvi intervir,
mas logo me ameaçaram de pancada. Mas nenhum dos briguentos chegou a bater em
mim, pois não estavam de acordo. Alguns elementos menos agressivos perguntaram
se era verdade que havia gente possuída no território da Terceira Potência.
— E você
respondeu alguma coisa?
— Não,
outros responderam no meu lugar, afirmando insistentemente que havia prova
disso. Um dos técnicos apontou para dois homens, acusando-os abertamente de
serem possuídos. Quando fizeram menção de saltar sobre ele, apontou-lhes uma
arma. Em torno dos acusados logo se formou um grande grupo de pessoas. Todos
procuraram afastar-se deles, com exceção de quatro homens que, ao que tudo
indicava, pertenciam ao grupo dos seus colegas de trabalho mais chegados. Estes
também foram acusados, e disseram-lhes que rezassem, porque iriam morrer.
Subitamente alguém me empurrou para junto dos acusados e ouvi gente gritar: “Também
é um deles. Vamos liquidá-lo!” Vi o fanatismo escrito nos rostos, e sabia
perfeitamente que esses sujeitos que portavam armas estariam dispostos a tudo.
Ouvi um tiro atrás de mim; um dos trabalhadores caiu ferido. Logo me teleportei
para cá.
— Fez bem.
Mais alguém tem alguma coisa a dizer?
— Ninguém —
disse Bell, fazendo um gesto inequívo em direção à tela. — Mas receio que já
tenha havido mortos. Pela imagem ótica parece que os dois grupos têm
aproximadamente a mesma força. Evidentemente o partido dos acusadores está
armado. Por isso tem certa superioridade que lhe permite acusar muitos dos
outros de serem possuídos.
Rhodan pegou
o microfone de seu emissor particular e ligou o sistema de alto-falantes.
— Aqui fala
Rhodan. Não foi dada nenhuma ordem para um alarma geral. Os que não foram
convocados devem ficar de prontidão. Comando de vigilância da Good Hope,
preparar para decolagem. Estou chamando o comando de terra dos astronautas.
Favor responder.
— Aqui fala
o tenente Deringhouse.
— Também se
prepare para decolar. Você deixará o território bloqueado juntamente com a nave
esférica. A contagem regressiva será iniciada no máximo dentro de cinco
minutos. Por motivos de segurança a cúpula só será aberta por dois segundos. É
bem possível que toda essa revolução não passe de uma trama do inimigo, que nos
quer fazer sair do abrigo. Tenente, sua missão consistirá em cruzar sobre o
território da Terceira Potência, dando aviso de qualquer movimentação suspeita
em terra e no ar.
— Sim,
Rhodan.
Dirigindo-se
ao Dr. Manoli, Rhodan prosseguiu:
— Eric, você
vai exercer o comando até nosso regresso. Manteremos contato ininterrupto pelo
som e pela imagem. Capitão Klein, você assumirá o controle da cúpula
energética, uma vez que já está conosco. Sempre se desempenhou muito bem desse
serviço. Mas não confie na sua capacidade de reação. A contagem positrônica
será iniciada a partir do segundo menos sessenta.
— Entendido!
— Bell, você
irá comigo.
— O.K.!
Sugiro que usemos trajes arconídicos.
— Isso não é
necessário. Precisamos de projetores mentais e neutralizadores gravitacionais.
Reginald
Bell obedeceu. Os instrumentos a que Rhodan acabara de aludir sempre se
encontravam ao alcance das mãos. O mesmo acontecia com os trajes arconídicos,
que Rhodan e Bell só usaram para atingir sem perda de tempo a nave Good Hope,
que se encontrava a mil metros de distância.
A nave
recebeu-os como uma catedral deserta. Os passos dos homens apressados
retumbavam pelos corredores e produziam eco. Thora e Crest estavam na sala de
comando. Encontravam-se ali, como se fossem acessórios imprescindíveis da nave.
A Good Hope era o último vestígio da pátria arconídica. Era ali que residiam os
dois arcônidas, que a tudo assistiam com um interesse dúbio, quando um alarma
colocava os homens em estado de exaltação. Faziam papel de espectadores, sempre
que não se encontrava em jogo uma questão do seu interesse.
Thora, a
comandante do gigantesco cruzador arconídico, destruído na Lua, raramente fazia
uso do seu direito inato. Sua vida sempre desembocava no conflito entre o
passado orgulhoso e a situação atual, sempre mutável, que lhe era imposta pela
convivência com os terráqueos.
Rhodan atirou-se
no assento do piloto e começou a manipular os comandos. A Good Hope despertou
para a vida. Ergueu-se do solo e subiu com ligeira aceleração.
A uma
altitude de dois mil metros encontrava-se o zênite da abóbada energética.
— Rhodan
chamando o capitão Klein. Altitude: duzentos metros. Estou ligando o piloto
automático. Mude para o contador positrônico. Alô, Deringhouse! Mantenha a
mesma altitude. Quando atingir os quinhentos metros, acelere l g. Transmita a
contagem regressiva pelo emissor, capitão Klein.
Uma voz
mecânica iniciou a contagem em direção a zero. A decolagem das naves e a
retirada da cúpula energética estavam conectadas a uma reação positrônica
automática, que seria expedida a partir da central. Tudo daria certo. E deu.
Pelo menos no que dizia respeito à decolagem. Na terra a série de manipulações
não deixou de provocar seus incidentes.
O televisor
orientado para a área critica do posto 37 revelou tudo.
A massa
enfurecida, cujos fronts estavam
separados por uma estreita faixa de terra, comprimia-se junto à cúpula
energética. Um dos grupos levantara barricadas, apoiando-as contra o muro
invisível. Dois homens subiram nelas, para apresentar uma demonstração tola.
Quando a
energia foi retirada da cúpula, a armação ruiu. Dois segundos depois a mesma
energia retornou, impelindo tudo que se colocava ao seu alcance. A reação lenta
dos homens não conseguiu aproveitar esses dois segundos.
A cúpula que
voltou a funcionar depois da interrupção teve o efeito de uma catapulta. A
massa de energia “limpa”, livre de radiações, que só funcionava de forma cinética,
golpeou como um punho de ferro. Homens que iam cambaleando para a frente foram
atirados para trás, aterrizando de forma nada suave. A reação da barricada
desmoronada foi semelhante. Tábuas e pranchas caíram em meio às massas que se
aglomeravam, completando o caos.
Bell
interpretou as minúcias que conseguiu captar na tela.
— Agora
precisamos de médicos e enfermeiros.
— Eles terão
de procurar imediatamente eventuais corpos de DI que foram abandonados — interrompeu
uma voz vinda dos fundos da sala. Era Crest.
— Procurar
corpos de DI em nosso território?
— Esses
sujeitos preferem a escuridão. A divisa exterior do nosso território não é
totalmente intransponível. É bem possível que os DI tenham escondido seus corpos
nas proximidades.
— Eles
precisam disso?
— Nunca se
deve subestimar um inimigo, é o que ouço os homens dizerem — disse Crest,
dirigindo-se para a frente da sala. — É uma regra que muitos táticos e
estrategistas entre as diversas inteligências da galáxia já descobriram. Mas
toda e qualquer sabedoria só tem validade dentro de certos limites. Além desses
limites ficam as exceções que, ainda segundo um dos seus provérbios, confirmam
a regra.
— Que
exceção poderia ocorrer no presente caso?
— Para os
terráqueos as qualidades naturais dos Deformadores Individuais são
verdadeiramente sobre-humanas. Por isso a raça dos homens tenderá a atribuir
uma superioridade infinita aos DI, e essa atitude já envolve uma disposição
inconsciente para a capitulação. Sempre que um obstáculo pareça intransponível,
somos tentados a desistir.
— Acho que
você está aludindo antes às qualidades arconídicas que às terrenas — corrigiu
Bell.
O arcônida
ergueu os ombros num gesto de dúvida.
— Se fosse
você, não me sentiria tão seguro.
Rhodan
insistiu para que atacassem logo o núcleo da questão. Não havia tempo para
pesquisas demoradas sobre as características das diversas raças.
— Quer dizer
que você recomenda que os DI sejam avaliados com base em critérios objetivos,
para que suas limitações naturais possam ser conhecidas.
Crest fez
que sim.
— Superestimá-los
seria um erro tão grave como não dar atenção às suas manhas traiçoeiras. Os DI
são uma raça obstinada, mas o heroísmo não ocupa um lugar de destaque entre
eles. Possuem um instinto de autoconservação muito desenvolvido, que os põe em
alerta diante de qualquer risco. São bons intrigantes, dotados de grande
inteligência e flexibilidade. Mas, como acabo de dizer, prezam antes de tudo
sua segurança pessoal. Vocês já sabem de que forma os DI costumam apossar-se de
suas vítimas. Chegam bem perto e sem maiores esforços realizam a troca de
identidades. Mas sempre estão dispostos a bater em retirada. Para isso é
necessário que seu corpo fique o mais perto possível, muito embora o salto para
dentro do homem seja muito mais difícil que o regresso ao próprio eu.
— É por isso
que acredita que devíamos procurar corpos de DI nas proximidades da cúpula?
— Isso
mesmo. Quando se sentem seguros, preferem procurar um esconderijo para seu
corpo o mais perto possível do homem em que se recolhem. Em média, pode-se
contar com uma área situada num raio de duzentos metros. É bem verdade que já
se verificaram casos em que os DI se afastaram alguns milhares de quilômetros
com o corpo por eles possuído.
— E mesmo assim
conseguem regressar?
— Só com um
esforço extremo. E isso se torna ainda mais difícil quando o corpo em que se
abrigaram é ameaçado de morte. A morte do mesmo significaria sua própria morte.
O DI não sabe saltar de um homem para outro. Tem de regressar ao seu corpo, e
isso enquanto o corpo possuído estiver vivo. Se matarmos um homem possuído por
um DI, o DI também morre.
— Faço votos
de que isso seja verdade — disse Bell em tom desconfiado.
— Você não
tem motivo para duvidar da veracidade do que acabo de dizer — retrucou Crest.
— Não estou
falando por mal. Acontece que você já se enganou quando viu tudo sob a
perspectiva dos arcônidas. Afirmou que um homem possuído cujo eu retorna ao
corpo a que pertence acaba enlouquecendo.
— Isso diz
respeito a homens e arcônidas, entre cujas mentalidades existem diferenças
enormes. Enquanto estivermos falando nos DI, você pode confiar nos meus
conhecimentos.
* * *
Quando
surgiu a Good Hope, houve certa agitação entre as massas que se aglomeravam
junto ao posto trinta e sete. A divisão entre os dois fronts já se tornara menos nítida com o desmoronamento das
barricadas. A essa altura a consciência pesada parecia unir os homens. A esfera
dos arcônidas corporificava uma autoridade toda especial.
Rhodan
pousou e pediu a Thora que mantivesse a nave em condições de decolar a qualquer
momento. Olhou para Bell e fez-lhe um sinal.
— Vamos,
Bell! Tenha cuidado com o neutralizador. Só utilize feixes de raios estreitos e
bem concentrados, e isso mesmo só quando não tiver outra alternativa. Não quero
que um setor amplo do território onde estão sendo erguidas nossas construções
fique subtraído de repente aos efeitos da gravidade. Se todas as cargas
verticais perderem sua posição estática, gastaremos várias semanas na
reconstrução.
— Não se
preocupe — disse Bell com um sorriso cordial. — Acho que não teremos
necessidade de recorrer a isso. Só carrego estas coisinhas comigo por uma
questão de tranqüilidade de espírito.
Foram para a
frente da nave. A massa humana recuara um pouco, enfileirando-se como um muro
compacto. Rhodan aproximou-se. Reginald Bell seguiu-o.
— Vejo mil
rostos estranhos — suspirou enquanto caminhava.
Era o que
Rhodan estava pensando. A maior parte desses homens haviam sido colocados ali
durante a expedição a Vênus. Quase todos viam Rhodan pela primeira vez.
Sentiu-se envolvido por uma onda de reverência, desconfiança e insegurança. Até
mesmo o pensamento falso e traiçoeiro podia estar presente. Mas Rhodan e Bell
prosseguiram imperturbáveis. Agora, a uma distância de cinqüenta metros, já
tivera início um duelo espiritual; os dois homens mais proeminentes da Terceira
Potência tinham de provar que realmente possuíam a autoridade que
corporificavam.
Perry Rhodan
levou o jogo ao máximo. Sabia que a essa altura nenhum exagero seria demasiado.
Quando chegou junto à massa, não parou. Prosseguiu como um robô; Reginald Bell
seguiu-o com a mesma obstinação.
A muralha
humana recuou. Ninguém tocou nos dois homens. Uma passagem estreita abriu-se
diante deles.
Subitamente
Rhodan parou.
— Quem é o
chefe da seção?
Silêncio.
Rhodan
encarou o homem que se encontrava mais próximo.
— Será que
você perdeu a língua?
— É o
professor Morton — gaguejou o homem, olhando em torno com uma expressão de
insegurança.
— Desejo
falar com o professor Morton! — disse Rhodan com a voz alta. — Queiram abrir
caminho.
Mais para os
fundos houve uma movimentação. Todos se afastaram para deixar o chefe de seção
passar.
— Bom dia,
professor. Sou Perry Rhodan. O que houve?
— Não posso
explicar. Parece que tudo não passa de um mal-entendido, ou então é obra de um
pequeno grupo de fanáticos. Terei muito prazer em dar-lhe todas as informações
de que disponho. Mas ficarei muito grato ao senhor se me der oportunidade de
cuidar primeiro dos feridos.
— Há um
hospital nas proximidades. Por que ainda não tomou nenhuma providência?
— Não
disponho de autoridade para isso, senhor Rhodan. Peço seu apoio.
— Ordene aos
homens que retornem aos seus locais de trabalho, professor. Não me importo de
aguardar com as minhas perguntas.
Morton
transmitiu as instruções que acabara de receber. Aos poucos os homens da frente
foram recuando, empurrando os colegas que se encontravam atrás. Bell segurou um
dos homens pela manga do paletó.
— Como é seu
nome?
— Brian —
respondeu o homem com a voz tímida.
— Muito bem,
Brian. Você fica responsável pelos feridos. Dentro de dois minutos deverá haver
por aqui um número suficiente de médicos e enfermeiros. Pode retirar-se. Como é
o seu nome?
— Schley.
— Schley,
você será responsável pela remoção das barricadas. Pegue quantos homens
precisar. Quero que termine em vinte minutos.
O homem
desapareceu, proferindo um “sim senhor” com a voz rouca. Mas não foi só este.
De repente todos pareciam empenhados em dar o fora o mais rápido possível. Num
instante toda a área foi evacuada. Rhodan, Bell e Morton estavam a sós.
— Isto não
deixa de ser uma arma — disse Bell com um sorriso de satisfação.
— Uma arma
psicológica — confirmou Morton. — Fico-lhes muito grato. Há alguns minutos a
situação ainda era muito ameaçadora. Tudo começou há meia hora.
Encontrava-me...
— Não vamos
entrar em detalhes, professor. Da central e da nave observamos tudo. Se hoje
ouvimos homens acusarem-se mutuamente de serem possuídos pelos DI, isso parece
muito perigoso, mas tudo indica que se trata de uma reação de pânico em cadeia.
Será que você tem base para afirmar o contrário?
— De forma
alguma, senhor Rhodan. Já lhe disse que para mim tudo não passa de um
mal-entendido.
— Foi o que
você disse. Mas é o que pensa? — interveio Bell.
— Não
entendo.
— Se é que
não me entende, será que tudo está bem com você?
— Por que
não estaria?
— Ora,
professor. Há pouco você teve uma verdadeira revolução. E agora vem nos dizer
que tudo não passa de uma bagatela. Talvez com isso queira livrar-se de nós.
Você é um dos possuídos, não é?
Morton ficou
rubro de raiva. Demorou a encontrar as palavras.
— Isso é um
absurdo. Será que até o senhor está apoiando essa campanha sub-reptícia?
Bell
continuou, muito gentil.
— Não é
nenhum absurdo, professor. Os DI sempre procuram apossar-se das pessoas mais
influentes. E no posto trinta e sete a pessoa mais influente é você.
— No momento
não, se é que me permite dizer isso na minha modéstia. Se eu fosse um DI, já
teria procurado apossar-me do seu corpo ou, melhor ainda, do corpo do senhor
Rhodan.
— Teria
saltado para nós?
— É o que
minha lógica humana diz.
— O que
acha, Perry? Parece que tudo está em ordem com ele, não é?
— Acredito
que sim. Você passou pelo exame, professor.
— Muito
obrigado — Morton respirou aliviado. Mas seu rosto também exprimiu certa
perturbação. — Sua maneira de examinar os homens é muito estranha. Gostaria de
conhecer o método.
— Se fosse
um DI, nunca lhe teria passado pela cabeça transferir-se do professor Morton
para o corpo de Perry Rhodan. Isso não é possível.
Caminharam
até a muralha energética e viram que só quatro pessoas haviam recebido
ferimentos sem maior gravidade.
Brian estava
junto dos enfermeiros, conforme lhe fora ordenado.
— Como vê,
tive razão — disse Reginald Bell satisfeito.
— Mais que
isso. Você tinha a intenção de prender três cabeças da revolução, mas não houve
necessidade disso. Tudo isso só demonstra o estado de ânimo que hoje deve
prevalecer em toda a humanidade. O resultado é a insegurança, a desconfiança, a
disposição para os atos irrefletidos. Não temos tempo a perder, Bell; devemos
salvar a Terra do caos.
— É verdade!
— confirmou Bell.
O sorriso já
desaparecera do seu rosto largo.
— Tive muito
prazer em conhecê-lo, professor — prosseguiu Rhodan, estendendo a mão a Morton.
— Mas não quero que se sinta em segurança só porque o conflito foi dominado com
tamanha facilidade. Ainda existe a possibilidade de que entre seus homens
exista algum DI. Não adianta ficar perguntando a todo mundo. O mais importante
é procurar os corpos abandonados daqueles seres. Ainda hoje transmitirei
instruções nesse sentido a todos os grupos de trabalho situados fora da cúpula.
Espero que me avise pelo rádio quando tiver apurado algo de concreto. A
qualquer momento estaremos prontos para revidar um golpe.
* * *
A Good Hope
regressou para a cúpula energética. O tenente Deringhouse pousou ao mesmo tempo
que ela. Não descobrira nada de suspeito durante sua missão de reconhecimento
aéreo.
— Uma missão
de patrulhamento sempre é uma coisa tediosa — procurou consolá-lo Bell. — Mas
um dia colhe-se a recompensa. Tem alguma ordem para Marshall e para mim, Perry?
— Tudo
continua conforme foi combinado. Primeira escala: Chicago, em casa de Clive
Cannon. Preciso de um homem possuído e de um abandonado. Em Nova Iorque você se
encontrará com Homer G. Adams, que lhe prestará ajuda no recrutamento da nossa
força policial. Acho que não preciso fornecer outros detalhes.
— Quanto ao
resto saberei arranjar-me. Até a volta, Perry.
— Boa sorte!
Depois que
Allan D. Mercant e Tako Kakuta tinham saído, também Reginald Bell e John
Marshall abandonaram sua nova pátria no deserto de Gobi. Enquanto isso, Rhodan
refletiu no seu escritório.
“Fico para
trás. Sou o homem do segundo plano.”
Depois
levantou-se, endireitou o corpo e dirigiu-se ao pavilhão onde o cérebro positrônico
já o aguardava. A palestra recomeçou no ponto em que terminara por ocasião do
alarma.
— Modulação,
onda portadora, campo espectral completo com valores elevados em angstrom.
— O velho
detector dos arcônidas só pode determinar o modelo cerebral — explicou o robô.
— Já um telepata lê os pensamentos. Sugere-se a construção de um
pseudotelepata.
Esse
telepata artificial seria um detector completo de ondas cerebrais.
Rhodan
recordou a primeira carga da Good Hope, que trouxera de Vênus uma série de
robôs de trabalho construídos segundo suas concepções. Entre eles havia
máquinas idênticas. Havia robôs-engenheiros cuja capacidade ia da de um
mecânico até a de um positrônico.
Ainda hoje
seriam iniciados os trabalhos de construção do primeiro modelo experimental. A
Terra precisava do detector telepático, para não ter que capitular diante dos DI.
IV
Quem
passasse pela Michigan Avenue teria que inclinar a cabeça bem para trás para
enxergar o céu por cima dos grandes edifícios.
John Marshall
voltou a baixar o queixo, depois de ter feito suas observações sobre Chicago em
geral e a Michigan Avenue em particular. Ele e Reginald Bell tinham descido
perto da esquina com a Congress Street e, guardando certa distância,
dirigiram-se ao hotel de igual nome. Bell registrara-se no Congress Hotel com
seu nome completo, enquanto Marshall adotara o nome de John Linker, embora
ocupasse um quarto do sétimo andar, logo ao lado do de Bell. Oficialmente não
se conheciam.
Do lado que
dava para o pátio interno do Congress Hotel havia uma sacada que ocupava todo
aquele lado. Era verdade que uma parede alta e grossa de vidro fosco separava a
parte correspondente a cada apartamento, mas não era necessário ser um grande
alpinista para escalar esse obstáculo.
As janelas
vizinhas estavam escuras. John Marshall arriscou a entrada no apartamento de
Bell. Fechou as cortinas e disse:
— Pronto! Já
pode acender a luz.
Bell acendeu
o abajur que se encontrava perto da poltrona. Sugou a fumaça do cigarro que
acabara de acender e ofereceu o estojo ao telepata. Este serviu-se em silêncio
e sentou.
— Afinal, o
que há com Cannon? — perguntou Bell, já que Marshall não demonstrou a menor
pressa.
— Não estive
com ele.
— Mas como?
— Peço-lhe
que guarde seu juízo a meu respeito para depois. Cannon está preso numa
fortaleza. Para falar com ele a gente tem de atravessar três ante-salas, e cada
uma delas representa uma verdadeira corrida de obstáculos.
— Será que
estou condenado a ouvir uma ladainha de desculpas? — interrompeu Bell. —
Afinal, para que serve sua telepatia?
Marshall não
se abalou.
— Pelo que
se nota nas cercanias de Cannon, o homem caiu numa armadilha dupla — informou.
— Você
examinou essas cercanias?
— Afinal,
minha missão de telepata consistiu nisso. E descobri uma porção de coisas.
Provavelmente essas coisas são mais importantes que as que poderia ter
descoberto se tivesse falado com o chefão em pessoa.
— Faça o
favor de contar.
— A cem
metros do edifício Kreysky, que fica nesta rua, do mesmo lado do nosso hotel,
existe um restaurante subterrâneo. Nesse restaurante estão os primeiros
guardas. Tanto os da polícia como os do Blue
Bird Syndicate. Às vezes até ficam sentados na mesma mesa, conversando
entre si.
— Será que é
um acordo secreto?
— Não
acredito. Ambas as partes conservam a linha. Ficam brincando de gato e rato, e
às vezes nem sabem direito se foram reconhecidos uns pelos outros. Quase
chegaria a dizer que guardam uma desconfiança instintiva entre si.
— Onde é que
a coisa começa a ficar mais interessante?
— No
edifício Kreysky, evidentemente. E, o que é de surpreender, também no prédio
vizinho. O pavimento térreo de ambos os imóveis foi construído para abrigar
lojas independentes. No edifício Kreysky existe um auto-serviço para a venda de
sabonetes e cosméticos. Além disso, há uma representação geral da Mix Centry.
— Essa gente
instala seus motores em qualquer coisa que possa rodar por aí.
— Isso
mesmo. Cheguei a ver veículos de rua para uma pessoa, lanchas e hélices
individuais que cabem numa pasta.
— Espero que
não se tenha limitado a olhar, mas também tenha procurado investigar
pensamentos. A loja da Mix Centry
pode se tornar muito interessante para nós.
— Por quê?
— Adams
manifestou um interesse bastante intenso pelas ações dessa empresa. Por
enquanto a usina continua firme nas mãos do grupo Kreysky. Mas pelo que sei
nossa General Cosmic Company já
conseguiu tirar suas casquinhas. Mas continuemos! No edifício ao lado há uma
loja de cerâmica e decorações comerciais. Já passei por lá. Acho que já chegou
a hora de passarmos aos detalhes.
— Muito bem.
Uma vez que já conhece as fachadas, estará interessado em saber que na loja de
cosméticos trabalham duas agentes da polícia federal secreta. Uma delas é
supervisora, outra trabalha na caixa. No entanto, o gerente só fica pensando em
coisas tais como o Kreysky, Cannon e umas idéias muito desligadas sobre
eventuais atacantes. O gerente do posto de vendas da Mix Centry pertence à mesma categoria de pessoas. Há dois dias
viu-se obrigado a contratar outro empregado, já que a policia prendeu um antigo
colaborador seu. Quer dizer que o velho está preso para investigações. O novo
funcionário é um agente que trabalha para Kaats. É bem verdade que essa
alteração no pessoal da empresa deu na vista, tanto que o chefão desconfiou.
— Percebeu
que o novo funcionário é um homem de Kaats?
— Não chegou
a tanto. Mas desconfia dele por uma questão de princípio.
— Nesse caso
não vamos dramatizar a situação. Como estão as coisas nas outras lojas?
— Fiz uma
lista, Bell — Marshall tirou um papel do bolso e colocou-o sobre a mesa. — Na
primeira coluna estão registrados os nomes, na segunda a organização a que
pertencem: à polícia ou à gangue do Blue
Bird. A seguir vem a indicação de sua relação de emprego. Verá que em quase
todos os pavimentos encontrei pessoas suspeitas. Principalmente no escritório
de advocacia de Smith & Smith,
que fica logo ao lado.
— Ao que
parece Kaats não conseguiu penetrar no escritório de Smith. Os doze
funcionários que trabalham ali simpatizam com Cannon. Receio que, se começarmos
por ali, poremos as mãos numa casa de marimbondos.
Reginald
Bell submeteu a lista a um exame demorado. Finalmente levou o papel até a
lareira, encostou a chama do isqueiro e espalhou as cinzas.
— Quer dizer
que existem vários círculos de bloqueio, que se interpenetram. Cada um protege
para fora, enquanto outro procura penetrar para o interior e isolar. Kaats
vigia cada passo de Cannon. Será muito difícil seqüestrá-lo.
— Por que
não procura o apoio de Kaats?
Bell repeliu
a idéia com um gesto.
— Uma série
de negociações com a polícia consumiria muito tempo e provavelmente não levaria
a nada. Kaats não é nenhum Mercant. Serve aos Estados Unidos da América e nem
chega a simpatizar com a Terceira Potência. Quando muito utiliza as informações
fornecidas por Mercant, mas de resto a ambição leva-o a querer fazer tudo
sozinho.
— Então
acredita que não concordaria em que levássemos Cannon ao deserto de Gobi?
— Tenho
certeza, Marshall. Portanto, elimine o caminho mais fácil. Devemos seguir as
instruções de Rhodan. Uma colaboração de Kaats significaria uma adaptação dos
respectivos interesses.
— Quer dizer
que teremos de agir fora da lei.
— Não se
trata de respeitar determinadas normas legais, mas de salvar toda a Terra dos DI.
E para isso só podemos fazer uma coisa: cumprir as ordens de Rhodan.
— Concordo
plenamente.
— Não
esperava outra coisa. Afinal, você realizou um trabalho preliminar muito
valioso, criando condições para a elaboração de um plano de combate bastante
promissor. Tenho na cabeça a relação que acabo de queimar. No futuro
recorreremos o menos possível a quaisquer registros escritos. Mais uma
pergunta: existe alguma suspeita de que qualquer das pessoas observadas por
você seja possuída pelos DI?
— Não.
Excluo essa possibilidade. Só temos um conhecimento positivo disso em relação a
Clive Cannon. Acredito que os DI devem ter lançado seu ataque num front bastante amplo, que se estende por
toda a Terra. O primeiro contingente invasor deve ter sido relativamente fraco,
motivo por que os indivíduos tiveram de ser bastante espalhados. Aliás, para
eles basta ocuparem as posições-chaves. Cannon é o chefe da gangue Blue Bird, cuja direção intelectual
provavelmente é idêntica à do Kreysky Syndicate. Todos os outros não desconfiam
de nada, e seguem suas instruções sem pestanejar.
— O.K.!
Vamos ao que importa. Pelo que acaba de dizer, o edifício vizinho é bastante
suspeito, por estar ocupado pelos gângsteres. Já notou que o escritório de
advocacia de Smith & Smith fica à
mesma altura que a secretaria do Kreysky Syndicate?
— É verdade.
As coisas combinam tão bem que podemos ter certeza de que encontraremos uma
ligação entre os dois edifícios. Só resta saber de que lado devemos começar.
— De ambos
os lados ao mesmo tempo. Além disso, você fica encarregado de entrar em contato
com Clive Cannon. Enquanto isso darei uma olhada no pessoal de Smith & Smith.
No dia
seguinte John Marshall compareceu ao edifício Kreysky trinta minutos antes do
início do expediente. Assim mesmo teve de esperar, pois havia dois cavalheiros
que tinham levantado antes dele.
De início
não se importou, ainda mais que resolveu fazer um exame da vida psíquica dos
dois indivíduos.
“...fui o primeiro. Terminarei antes do
meio-dia... Falar pessoalmente com Cannon... estará de bom humor? Trago uma
recomendação do secretário... Posso ameaçá-lo com a GCC. Em Nova Iorque Adams
compra tudo em que consegue pôr as mãos. Mesmo empresas duvidosas... Será que
já posso fumar? Antes disso devia comer alguma coisa... Tolice! Cannon terá que
dar-se por satisfeito com as condições que vou oferecer. Os Kreysky não deviam
bancar os importantes. Se não quiserem ser engolidos pela GCC, precisarão de
toda substância que conseguirem assimilar... mesmo que as condições não sejam
tão favoráveis... É claro que ontem ficou muito tarde.”
No cérebro
do homem ao lado um problema financeiro parecia ocupar o lugar de maior
destaque.
O outro
homem encontrava-se mais afastado. Marshall teve dificuldades em alcançar a
área dos seus fluidos. Acabou se levantando e andando pela sala, como se
estivesse profundamente entediado. Ainda de pé, remexeu num montão de jornais,
e assim conseguiu estabelecer um contato telepático de primeira ordem. Não só
isso: também era muito precioso.
“...esse jovem parece um executivo. Roupa muito
elegante. Deve ser uma pessoa de influência, do contrário não andaria por
aqui... Mas o dinheiro do seu carro deve ter saído do bolso do velho...”
John
Marshall não se sentiu muito lisonjeado. Mas no momento não lhe interessava o
que os outros pensavam dele. A próxima série de pensamentos provou que havia
algo melhor.
“...ordens são ordens. Gostaria de ver como
Kaats me dará cobertura. É uma estranha forma de execução num estado de
direito... Tomara que não me submetam a uma revista muito detalhada. Da
terceira vez devo dar um jeito de chegar ao chefão... Este rapaz deixa a gente
nervoso. Talvez ele mesmo esteja nervoso. Por que não senta?... Evidentemente,
se Cannon é um dos possuídos, nada me poderá acontecer. Cabe exclusivamente a
Kaats decidir como se elimina uma fera dessas. Além disso todas as portas estão
trancadas... Nada me pode acontecer... Nada me pode acontecer... Devia ler um
pouco...”
— Com
licença! — disse o policial e pegou um dos jornais que talvez pertencessem ao
montão que Marshall parecia ter reservado para seu uso exclusivo.
— Pois não!
John
Marshall pegou o jornal que segurava na mão e dirigiu-se à sua poltrona.
Não
conseguiu concentrar-se na leitura. O homem sentado naquela poltrona era um
policial. Recebera a incumbência de matar Cannon e hoje faria sua terceira tentativa
de penetrar no santuário do Kreysky
Syndicate. Quem sabe se Kaats já teve a intenção de guiar-se pelos desejos
de Mercant.
Provavelmente
com o tempo o encargo de vigiar um único possuído representaria um peso muito
grato. Um DI morto era um DI bom. Provavelmente haveria algumas centenas deles
perambulando pelo país, e seria necessário cuidar de todos eles com os meios
dos serviços de identificação.
Sob essa
perspectiva o coronel Kaats não deixava de ter razão.
Acontece que
até então Clive Cannon era o único homem possuído pelos DI que havia sido
identificado com alguma segurança. Por isso era uma pessoa muito importante
para ser abatida sem mais aquela.
John
Marshall percebeu que Bell tivera toda razão ao desaconselhar qualquer tipo de
colaboração com a polícia federal secreta. Os interesses e os planos da
Terceira Potência eram ligeiramente diferentes. Era bem verdade que o fato de
que Marshall deveria depender cada vez mais de si mesmo, representava um
consolo muito fraco. Lembrou-se da pasta que continha vários instrumentos de
origem arconídica, e que lhe serviriam de proteção num perigo extremo. Mas
teria de fazer o possível para evitar seu uso, a fim de não provocar suspeitas.
Além disso,
seria necessário modificar os planos primitivos. Ninguém contara com a
possibilidade de um atentado. O próprio Bell, que pretendia dar uma olhada no escritório
de advocacia Smith & Smith, não
tinha a menor idéia de que a situação se modificara dessa fora. Por isso mesmo
Marshall não poderia seguir um caminho inteiramente novo. Enquanto os ponteiros
iam se aproximando das nove, esforçou-se para ordenar seus pensamentos. Ficou
satisfeito em ter mais um prazo, já que o outro cavalheiro foi convidado a
entrar antes dele.
Com pequenos
intervalos apareceram mais cinco visitantes que depois de um ligeiro
cumprimento sentaram e pegaram os matutinos.
Marshall
procurou fazer uma ronda disfarçada num passeio inofensivo, mas teve
dificuldades em sondar os pensamentos dos homens que se encontravam tão
próximos uns aos outros. As impressões sobrepunham-se. Tudo indicava que um dos
cinco simpatizava com o policial e estava informado sobre sua missão. Mas
Marshall não conseguiu descobrir qual deles era. Aquela gente nem chegou a
trair-se por meio de ligeiros olhares. Estavam bem treinados e não assumiam o
menor risco. Bem, era claro que para um golpe desses Kaats devia ter destacado
os melhores elementos de que dispunha.
“Brown será o seguinte”, foi o pensamento
nítido que surgiu de repente. Então o nome do policial era Brown.
A recepcionista
voltou a aparecer e convidou Brown a entrar.
Os nervos de
Marshall quase chegavam a arrebentar de tamanha tensão. O assassino contratado
iria subtrair-se ao seu controle. Nem sequer poderia vigiá-lo com os olhos.
Será que
teria de perder a oportunidade?
Se os
agentes de Kaats matassem o homem possuído pelos DI na sua presença, Bell e
Marshall levariam um sabão daqueles quando retornassem ao deserto de Gobi. Além
disso, tal ato representaria uma grande vitória para os DI, mesmo que por algum
tempo perdessem uma posição importante.
Era
imprescindível impedir a execução dos planos de Kaats.
Marshall
teria de concentrar-se, evitando qualquer tipo de pânico interior.
O policial
Brown ainda não poderia estar perto de Cannon. Enquanto o primeiro visitante
não saísse, Brown teria de lutar obstinadamente pelo seu objetivo nas três ante
salas. Talvez nem conseguisse chegar à posição de tiro.
Quem sabe se
chegaria a conseguir?
Marshall
sentiu que deveria eliminar esta última restrição. Representava um consolo
produzido pelo desejo, que não podia merecer a menor confiança.
A porta
abriu-se e o primeiro visitante saiu com uma expressão nada satisfeita no
rosto.
A porta
fechou-se.
Ninguém
convidou Marshall a entrar. Decidiu tomar a iniciativa.
Levantou-se
e bateu à porta. Entrou sem esperar pelo convite. A moça sentada atrás da mesa
era a recusa e a indignação personificadas.
— Aqui não é
costume entrar sem ser convidado. Peço-lhe que espere lá fora até que chegue
sua vez.
— Já está na
minha vez, senhorita.
— Não espere
outras explicações de minha parte, cavalheiro. Tenho minhas instruções.
Recomendo-lhe que se adapte às peculiaridades desta casa. Aliás, o senhor já
foi anunciado? Posso verificar se para o senhor vale a pena esperar.
— Essas
palavras não foram apenas francas, mas descorteses, senhorita — respondeu
Marshall com uma expressão de ironia no rosto e, num movimento suave, tirou a
agenda das mãos da recepcionista. — Não fui anunciado, tal qual a morte não é.
E tal qual a morte ninguém me pode pôr para fora. Será que a senhorita entendeu
a comparação?
No rosto da
recepcionista lia-se o pânico. Como uma das colaboradoras mais chegadas do
círculo de Clive Cannon, porém, pertencia à classe das pessoas que se
distinguem pela inteligência e capacidade de decisão. Alarma! Era este o elemento principal dos pensamentos que se
atropelavam em sua cabeça. Mas hesitou. Era muito comum que por ali aparecessem
blefadores que recorriam a falas imponentes para forçar a entrada. Chegou a
hesitar tanto que Marshall teve de animá-la.
— Não se
acanhe em apertar o botão da campainha, senhorita! Não perca tempo, se é que
está interessada em salvar a vida de seu chefe.
— Cavalheiro...!
Marshall
procurou frustrar a iniciativa da moça com um movimento semelhante ao que
executara pouco antes. Mas ela foi mais rápida. Não anunciou sua decisão
através de uma série de pensamentos que pudessem traí-la; agiu imediatamente.
Marshall
defrontou-se com o cano de uma pistola.
— Suas
brincadeiras vão longe demais. Já que escolheu um tema macabro, vamos
prosseguir por esta forma. Saia imediatamente!
— Não está
mesmo interessada em salvar a vida de Clive Cannon?
— Acho que
ela não corre o menor perigo, enquanto o senhor não conseguir chegar perto
dele.
— É engano,
senhorita! A vida de seu chefe correrá perigo assim que o capitão Brown entrar
na sua sala. E, para evitar qualquer dúvida, quero realçar que Brown entrou bem
à minha frente. Só faço votos de que ainda esteja numa das ante-salas. Pelo que
estou informado, não foi anunciado diretamente a Cannon; apenas vem com uma
recomendação de certo secretario. Será que falei bastante claro para fazer com
que a senhorita dirija sua atenção ao lugar certo?
— Um
momento.
A
recepcionista levantou-se e abriu apressadamente a porta.
— Lem! Onde
está o cavalheiro que eu lhe trouxe por último?
— Acabo
fazê-lo avançar mais uma casa — respondeu uma voz masculina vinda da peça
contígua.
— Fale
imediatamente com Mac Phan e faça-o esperar mais um pouco. Tenho uma notícia
muito importante para o chefe. Não permita em nenhuma circunstância que esse
homem se aproxime dele.
Marshall
ouviu um arrastar de cadeira e uma voz que emitia um som de surpresa. De
qualquer maneira as instruções foram cumpridas. Outra fechadura abriu-se.
— Desculpe a
interrupção, Bill. Peça a esse cavalheiro que aguarde mais cinco minutos. O
chefe está recebendo um telefonema importante e não pode ser perturbado.
— Quando o
chefe fala pelo telefone, eu fico sabendo.
— O
telefonema vem diretamente da central. Portanto, você está informado.
O homem que
a recepcionista chamara de Lem surgiu na ante-sala.
— Agora você
vai fazer o favor de explicar o que significa isso, Marge!
— Quem vai
explicar é este cavalheiro. Ele ainda está me devendo a mesma explicação.
— Meu nome é
Linker — disse John Marshall com uma ligeira inclinação do corpo. — Podemos ter
certeza de que o capitão Brown não se aproximará do senhor Cannon?
— Meu nome é
Steinberg — disse o homem cujo prenome era Lem, com a mesma cortesia. — O que
tem para nos contar?
— Gostaria
que antes respondesse à minha pergunta, Steinberg. No momento o senhor Cannon
se encontra em segurança?
Marshall já
o sabia face aos pensamentos de seu interlocutor. Até sabia que Cannon fora
prevenido por uma lâmpada de advertência vermelha, ativada a partir da mesa de
Steinberg, de que alguma coisa não estava em ordem. Por isso o sistema de
travamento automático da porta não seria liberado antes que o perigo tivesse
sido eliminado. Marshall sabia tudo isso. Acontece que ali não poderia revelar
sua qualidade de telepata, motivo por que tinha de formular perguntas como
qualquer homem normal.
Steinberg
deu um sorriso irônico.
— Você faz
perguntas muito estranhas, Linker. É claro que Clive Cannon está em absoluta
segurança. Justamente por isso você terá que se dar ao incômodo de relatar
tudo.
— Reviste o
capitão Brown. Encontrarão uma pistola, provavelmente até mais de uma. Penetrou
aqui com a finalidade de matar Cannon.
— Ora! Você
diz que Brown é policial. O fato é que manteve contatos comigo como
representante de uma empresa privada. E hoje não foi a primeira vez. Como pode
afirmar que pertence à polícia?
— Não só
pertence a ela, mas está agindo a seu mando.
— Linker,
pensei que você fosse mais inteligente. Então a polícia estaria tramando um
assassinato! E ainda espera que eu acredite que faz isso oficialmente.
— Fornecerei
os detalhes ao senhor Cannon. A esta hora já deve ter compreendido que são
muito importantes.
A expressão
de ironia no rosto de Steinberg aumentou.
— Se está
interessado em convencer-nos da sua ingenuidade, Linker, pode ficar tranqüilo:
já o conseguiu. Apenas receio que o senhor Cannon não o queira receber hoje,
nem qualquer outro dia. Mas sente por um instante. Vamos cuidar do capitão
Brown.
Steinberg
transmitiu ordens a várias pessoas através do interfone. Dali a pouco houve uma
verdadeira invasão. Cinco homens saíram da segunda ante-sala, onde deviam ter
entrado por um corredor lateral. A seguir o capitão Brown foi introduzido no
recinto. Seus pensamentos revelavam que se sentia descoberto. Mas seu rosto não
traía nada.
— Revistem
estes homens — ordenou Steinberg.
John
Marshall notou que receberia um tratamento tão ríspido como o que era
dispensado a Brown. A revista pessoal realizada em sua pessoa até parecia dar
mais resultado. Enquanto o capitão só trazia três armas comuns, uma delas
artisticamente costurada no forro do paletó, nas roupas de Linker foram
descobertos instrumentos que ninguém ali sabia para que serviam, mas que por
causa de suas formas estranhas tinham um aspecto bastante perigoso.
— Hum! — disse
a recepcionista. — Acho que encontramos um par muito interessante.
— Também
acho. É claro que estes bonecos nunca vão confessar que trabalham juntos. Mas
terão tempo para refletir sobre isso. Queira explicar para que serve isto!
— Não vou
explicar coisa alguma. Estes instrumentos são meus e vocês nada têm que ver com
eles.
— Vamos
confiscar essa sua propriedade, até que o chefe decida a respeito. Knox, será
que você dispõe de dois quartos separados e bem seguros para os dois?
Um dos cinco
homens armados deu um sorriso.
— Sempre
temos lugar para umas belezinhas como estas, Steinberg. Permite que os leve
logo?
— Protesto!
— indignou-se o capitão Brown. — Vocês não podem privar um homem de sua
liberdade pelo simples fato de carregar armas a serviço do Estado. Previno-os
de que estão assumindo uma posição ilegal, que pode sujeitá-los a um castigo
bem pesado. Se tiverem alguma coisa contra mim, ajam dentro da lei. Estou
pronto a prestar declarações perante qualquer corte de justiça regular.
— Acredito —
interveio Marshall. — A promotoria sempre vai defender as posições sancionadas
pela polícia. Mas você vai pagar pelo fato de eu ter sido identificado com suas
intenções. E quem vai fazer você pagar serei eu; assim que conseguir sair
daqui. Disponho dos meios, e também disponho de relações para isso. Basta olhar
sobre os instrumentos que estão em cima daquela mesa. Nossos amigos não têm a
menor idéia do que venham a ser, muito menos sobre a maneira de lidar com eles.
O homem
chamado Knox, que carregava a pistola automática, aproximou-se para olhar de
perto os instrumentos de Marshall. Chegou a estender a mão para pegar o
neutralizador.
— Deixe de
ser tolo! — gritou Marshall a plenos pulmões. — Não ponha a mão nisso, se não
quiser fazer desta casa seu túmulo.
A advertência
parecia tão exagerada que quase chegava a dar a impressão do ridículo. Mas
Steinberg continuou a falar objetivamente.
— Que
instrumentos são estes, Linker? Serão armas?
— São armas,
sim. E quero dirigir a todos a advertência que acabo de fazer a Knox. Faço-a no
seu interesse e no meu.
— Explique-se
melhor.
— Não há
nada a explicar. Não vim dar aulas a você. Ainda acontece que estes
instrumentos são muito caros para vocês.
— São de
procedência terrena? — Steinberg atirou verde para colher maduro.
— Vejam só!
— John Marshall procurou dar à sua voz um tom de tranqüila ironia. — Já começa
a compreender. Continue a pensar. Com toda essa inteligência, você acabará
descobrindo um dia.
— Picaremos
com você até que resolva falar.
— Isso é
chantagem! E provavelmente ainda furto e cárcere privado. Acha que Cannon está
de acordo com isso?
— Acredito
que sim.
— Em
absoluto! — a voz saiu abruptamente dos alto-falantes. — Mande os homens
embora, Steinberg. Prenda Brown e traga Linker à minha presença.
— Sim
senhor!
Pelo
comportamento daqueles homens Marshall concluiu imediatamente que quem acabara
de falar não era outro senão Clive Cannon. Dentro de poucos segundos a sala
ficou vazia. Lem Steinberg fez um gesto convidativo.
— Faça o
favor, linker!
John
Marshall estava esperando.
— Você
esqueceu uma coisa — disse com um sorriso, apontando para o neutralizador e o
projetor mental.
— Não sei se
o senhor Cannon estará de acordo em que você leve isso.
— Estou de
acordo, Steinberg, desde que Linker nos garanta que você vai trazer esses
instrumentos e os colocará sobre minha mesa.
— De acordo
— confirmou John Marshall.
Clive Cannon
recebeu-o como se fosse um velho conhecido.
— Sente,
Linker. Queira servir-se.
Marshall
olhou para o estojo em que havia uma dezena de cigarros de marcas diferentes.
Escolheu um.
— Para
deixá-lo logo a par, Linker, quero informá-lo de que ouvi sua palestra na
primeira ante-sala. Acompanhei o diálogo. Mas a apresentação, se é que posso
falar assim, tomou um rumo nada sério, motivo por que prefiro que os
entendimentos prossigam aqui.
Marshall
esforçou-se para conseguir uma pausa para captar alguns detalhes dos
pensamentos a que Cannon não deu expressão. Mas, se pensava que reconheceria ao
primeiro lance um homem deformado pelos DI, sentiu-se decepcionado.
— Além disso
— prosseguiu Cannon — o que acaba de ser dito não foi apenas confuso, mas
também muito estranho. Poderia dar-me uma explicação?
Cannon
lançou um olhar sobre o neutralizador e o projetor mental. Seus pensamentos
formularam definições bem reconhecíveis. Marshall viu nisso um primeiro indício
de que Cannon assumira a identidade de um DI. Um ser humano e um habitante dos
Estados Unidos jamais reconheceria esses instrumentos.
— Serei
breve, Cannon. Nas ante-salas infelizmente me vi condenado a fornecer
explicações extensas, que não levavam a nada. Conforme já deve saber, há meses
Perry Rhodan procura recrutar pessoas competentes para formar um núcleo sadio
de onde sairá a população de seu Estado. Para isso já estebeleci contatos bem
proveitosos. Tudo isso por um bom dinheiro, é evidente. É por isso que estou
aqui. O incidente com o capitão Brown não fazia parte do programa. De qualquer
maneira, só hoje de manhã tive conhecimento das intenções da polícia. Por isso
infelizmente não pude deixar de dramatizar minha presença.
— Apesar de
tudo estou perplexo — disse Cannon. — Além de não saber o que a polícia pode
ter contra mim, acho muito estranhável que a justiça seja administrada por essa
forma.
— Hoje em
dia até costumam ter alguma coisa contra os homens mais pacatos, Cannon. Não
preciso explicar a influência que a invasão dos DI exerceu sobre a mente dos
homens. Por isso não é de admirar que algum funcionário do escalão médio dê
ordens para matar este ou aquele cidadão. O medo dos DI pode justificar
qualquer assassinato.
— Medo dos DI!
Isso é muito interessante — respondeu Cannon, fazendo de conta que nada tinha
que ver com isso. Mas sua mente desenvolvia uma atividade febril.
“Descoberto? Terei sido descoberto? O que
estará pensando esse Linker? Será que faz parte do jogo? Isso seria muito
complicado. Não é possível que Linker saiba. Se simpatizasse com a polícia, não
os teria impedido de me matarem.”
— Por que
iriam suspeitar justamente de mim?
— A palavra
justamente está fora de lugar. Hoje em dia suspeitam de qualquer pessoa. Basta,
por exemplo, que ela tenha aparecido num sonho mau. Parece que todo mundo
perdeu a razão. Só nos resta um consolo: dentro de pouco tempo nossa tecnologia
nos ajudará a vencer tudo isso. Estão iniciando a construção de aparelhos que
permitem a identificação de qualquer pessoa possuída pelos DI.
Mais uma vez
o pânico tomou conta da mente de Clive Cannon. Era muito pior do que seria num
homem que se encontrasse em situação idêntica. A essa altura Marshall já tinha
certeza de que Clive era um possuído e que o caráter dos DI não era nada
heróico.
— Estão
dando início à construção — observou Clive com um sorriso de dúvida, como se
lamentasse que ainda não se dispunha desses aparelhos. — Quando nossa
tecnologia chegar lá, os DI já terão completado a conquista da Terra. Não tenha
a menor dúvida!
— Não seja
tão pessimista! — objetou Marshall. — É claro que uma coisa dessas não pode ser
feita de um dia para outro, mas com os recursos dos arcônidas, de que se dispõe
no deserto de Gobi, poderemos contar com um resultado positivo dentro de poucas
semanas. A Terceira Potência está empenhando todas as forças na solução do
problema. E um dia encontrará a solução.
— Um dia...
será amanhã?
— Amanhã
não. Mas aposto que não demora mais que uns dois ou três meses. Até lá a
humanidade tem de agüentar, e até lá qualquer um de nós terá de contar que
algum maluco o mate. Ninguém está seguro.
— Ninguém —
repetiu Cannon em tom pensativo.
Sua
exaltação de DI diminuíra sensivelmente. Já namorava outros planos, onde a
tecnologia da Terceira Potência ocupava um lugar de destaque. Marshall captou a
seguinte série de pensamentos: “dentro de
dois meses estarão em condições de reconhecer um DI. Logo, a Terceira Potência
terá de ser conquistada dentro de dois meses.”
— Ninguém.
De qualquer maneira, fico-lhe muito grato. Hoje você salvou minha vida.
— Fiz isso
no meu interesse — Marshall procurou minimizar a importância de seu ato. —
Afinal, gostaria de fazer negócios com você.
— Isso já é
uma conversa mais agradável. Que negócios seriam esses?
— Conhece
Homer G. Adams e a General Cosmic Company?
— Andam
dizendo por aí que a Terceira Potência está atrás disso. Por que fala
justamente no meu concorrente mais feroz?
— Porque a
concorrência é uma coisa boa. Vamos abrir o jogo, Cannon. É verdade que Adams é
um dos nossos melhores homens. Chega a ser bom demais. Compreendeu?
— Não posso
dizer que tenha compreendido.
— A Terceira
Potência é antes de tudo um instrumento político. Precisamos da eficiência
econômica, corporificada sob a forma da GCC. Mas no momento em que pensa em
tornar-se independente torna-se perigosa para nós. Queremos dividir nossa
indústria entre duas empresas equivalentes. Precisamos oferecer uma figura
gêmea ao nosso gênio financeiro. Cannon, você seria capaz de fazer concorrência
a Homer G. Adams com a nossa ajuda?
— Isso
representa um grande desafio. É uma pergunta que não pode ser respondida de
supetão.
Realmente
era uma pergunta difícil. Apesar disso, os dois homens chegaram a um acordo
naquela mesma manhã. Marshall teve todos os motivos para orgulhar-se de sua
tacada diplomática. Não chegou a pedir que Cannon o acompanhasse numa viagem ao
deserto de Gobi: foi Cannon que pediu. Insinuou-se com o fanatismo de um homem
possuído pelos DI que pretendia conquistar o território da Terceira Potência
para impedir a invenção de certo instrumento.
— Não sei —
disse Marshall com a voz insegura. — Não tenho competência para decidir se
posso levá-lo comigo. Segundo os planos de Rhodan, você manteria seu escritório
e todo o complexo do Kreysky Syndicate,
para construir sobre essa base.
— É
exatamente o que penso. Continuaremos a trabalhar aqui em Chicago e mostramos a
Adams que não está só no mundo. Mas você há de compreender que preciso obter
alguma orientação. Preciso colher uma impressão das coisas imensas que se ouve
falar a respeito do deserto de Gobi. Tenho de saber para quem vou trabalhar. O
lugar que me foi destinado justifica um contato pessoal com Perry Rhodan.
— Compreendo
seu ponto de vista, Cannon. Dê-me um dia, para que possa entrar em contato com
minha gente. Voltarei amanhã à mesma hora e lhe trarei a decisão de Rhodan. Se
for positiva, gostaria de decolar imediatamente.
— Estarei
pronto, Linker.

Nenhum comentário:
Postar um comentário