domingo, 7 de outubro de 2012

P-003 - A Abóboda Energética - K. H. Scheer [parte 3]


Fazia poucos minutos que a senha fora recebida. Reginald Bell realizara a manobra estrutural segundo as instruções que lhe haviam sido ministradas e três vultos humanos saíram em disparada.
O capitão Albrecht Klein nunca correra tanto. O salto com que transpôs a pequena abertura da cúpula energética, parecia de um louco.
A figura de Rhodan, alta e ereta, parecia tão misteriosa e ameaçadora em meio à luminosidade ofuscante do horrível temporal de fogo que Peter Kosnow, num gesto instintivo, pôs a mão na arma.
Mas, no mesmo instante, Kosnow viu-se reduzido à impotência pelo cintilante bastão de prata. A ordem, que não poderia ser contrariada por qualquer ato de sua vontade, ainda lhe ressoava no ouvido.
— Fique parado, não se mova, não realize qualquer tipo de ação.
Só isso. Perry Rhodan já não era o homem que pousara na Terra poucas semanas antes. Seu rosto esguio trazia as marcas da preocupação e do sofrimento. Os lábios trêmulos constituíam um sinal evidente de que caminhava em direção a um colapso nervoso.
Klein lançou os olhos em torno; parecia atordoado. Nunca imaginaria o efeito do fogo cerrado de artilharia. A cúpula energética transformara-se numa câmara de som. Ele sentia como se sua cabeça fosse explodir devido ao tremendo barulho.
Li Shai-tung também fora privado de sua vontade. O irradiador psíquico dos arcônidas conservara toda sua eficácia.
O único que continuava perfeitamente lúcido era Albrecht Klein. Em compensação, viu-se diante do cano de uma arma automática que só conhecera nos últimos estágios do seu treinamento.
Tratava-se de uma pistola-foguete, cuja eficiência já se tornara conhecida dos membros do exército e da força espacial.
Por cautela, Klein resolvera erguer as mãos; o gesto tinha algo de irreal em meio àquele inferno. Dentro de poucos segundos, percebeu que seria impossível conduzir o diálogo com a rapidez e a exatidão que seriam necessárias. Não conseguia entender as próprias palavras.
Ao voltarem para a tenda, Klein dirigiu o caminhão. E só quando chegaram lá ele recebeu o capacete que lhe permitiu transmitir algumas informações através dos intercomunicadores.
Lá fora soava a música ensurdecedora da artilharia, que continuava a disparar com uma rapidez extraordinária. Os ocupantes do abrigo do comandante Tai-tiang mordiam os lábios e forçavam os olhos numa tentativa vã de perceber os acontecimentos que se desenrolavam no interior da cúpula.
Três altos oficiais do Serviço Secreto procuraram calcular as probabilidades de êxito dos agentes. Bastaria espalhar o conteúdo de um dos recipientes para que a queda da terceira potência se tornasse um fato consumado.
O capitão Klein olhou atentamente em torno. Não lhe escapou o reator, que emitia uma luminosidade assustadora, nem sombras dos médicos que deslizavam atrás da cortina.
Sentiu o olhar de Rhodan, que retribuiu com um certo nervosismo e constrangimento. Depois de engolir em seco, disse, com voz gutural:
— Muito obrigado, senhor. E, antes de fazer qualquer pergunta, queira pôr as mãos nos bolsos internos de nossas jaquetas. Em cada um deles encontrará um recipiente metálico de pressão com uns vinte centímetros de comprimento por quatro de diâmetro. As ordens que recebemos são no sentido de soltar o conteúdo dos mesmos no interior da cúpula.
Bell virou-se bruscamente. Seu rosto largo contorceu-se e o dedo brincou no gatilho da pistola-foguete. Rhodan continuou na posição rígida de antes. Apenas a expressão de seus olhos estavam modificadas. Pareciam dissecar minuciosamente o agente secreto.
— Está nos bolsos internos — repetiu Klein. — Vamos logo! Não temos tempo a perder. Se nossos superiores desconfiarem de que estamos batendo papo tranqüilamente com vocês, será preferível ficarmos aqui.
Rhodan não formulou qualquer pergunta. Kosnow e Li não esboçaram a menor reação quando as cargas perigosas passaram às mãos de Rhodan. Klein contemplou os cilindros sem dizer uma palavra. Quando a voz sonora de Rhodan se fez ouvir, estremeceu.
— Certo, Klein! O que há nesses recipientes?
— Um agente radiobacteriológico que os inutilizaria dentro de poucas horas. A idéia foi minha.
Klein admirou a tranqüilidade de Rhodan. Até o cano da arma foi abaixado.
— A idéia foi sua? — perguntou Bell com voz fria. — E agora quer bancar o herói, não é? Qual é o truque? Para seu governo, Klein, se dependesse de mim, você não entraria nessa cúpula.
— Isso é uma questão de ponto de vista — interrompeu Rhodan asperamente. — Capitão, o senhor concebeu este plano para entrar em contato conosco sem despertar suspeitas? Se eu estivesse no seu lugar, bem que seria capaz de uma idéia dessas!
A admiração de Klein subiu ao infinito. O tom irreal da situação foi realçado pelas estranhas instalações da tenda. Klein estava contente por saber que a impulsividade de Kosnow havia sido neutralizada por meio de recursos psicológicos.
— Foi isso mesmo, senhor. Recebemos instruções para iludi-los através de dados fictícios sobre um pretenso grupo de resistência. Mas, deixemos isso para mais tarde. E, para que tenha certeza da lealdade dos nossos propósitos, fique sabendo que poderíamos ter aberto o recipiente no percurso até aqui. O chiado teria sido imperceptível em meio ao fogo de artilharia.
O rosto enrijecido de Rhodan descontraiu-se. Por baixo do grosso capacete acústico viam-se as rugas da testa. Respondeu em tom calmo.
— Klein, ao menor movimento você estaria morto. Tenho Um detector radioscópico portátil que revelou a presença da garrafinha com todos os detalhes. Asseguro-lhe que não chegaria a tocar na válvula com o dedo mínimo.
O rosto de Klein contorceu-se num sorriso.
— Então, o senhor sabia? Acontece que nem eu desconfiava. Creia, nem pensamos em soltar essa mistura infernal aqui. Viemos apenas para falar-lhe.
— Já passa das quatro. Quando voltarem, perguntar-lhes-ão o porquê da demora. Não é evidente?
— É, mas posso inventar uma desculpa qualquer. Direi que lhes contei uma história comprida sobre um movimento que estaria disposto a ajudá-lo e que aproveitei para observar os recursos de que vocês dispõem.
— Afinal, o que deseja? — perguntou Rhodan. Seus olhos pareciam brasas vivas.
Klein ficou tranqüilo. Sentiu a grandeza desse personagem que desafiava, praticamente só, o poderio compacto de toda a Terra.
— Considero os seus objetivos muito honrosos — disse laconicamente. — Já falamos a esse respeito. Não vejo, pois, nenhuma razão para que a terceira potência seja eliminada. A guerra nuclear que não chegou a eclodir foi, para mim, a gota que faltava nas minhas convicções. A união de todos os povos resultou da sua atuação. Com isso, o senhor realizou alguma coisa que até então não passava de um sonho. Da minha parte, já tinha chegado à conclusão de que só mesmo uma ameaça formidável, vinda de fora, isto é, do espaço, seria capaz de provocar a fusão dos povos. Hoje em dia, as frases de cunho ideológico já não valem mais nada. O senhor, ou melhor, o perigo que o senhor representa, passou a ser o ponto central. Os homens já raciocinam, mas deixarão de fazê-lo se o senhor fracassar. Há de compreender que, na qualidade de oficial do CID, muitas vezes passei por situações com que um homem comum jamais se defrontaria. A atuação dos serviços secretos sempre foi um negócio muito sujo. Nós, isto é Kosnow, Li e eu, chegamos à conclusão de que o senhor deve continuar a existir como terceira potência. É esta a nossa posição.
Rhodan não refletiu muito. Ao que parecia, não havia a menor dúvida quanto aos propósitos de Klein. Apenas, ele deixava de lado um dado de suma importância: ao que tudo indicava, a terceira potência que tanto admirava e desejava, estava prestes a chegar ao fim.
Rhodan lançou os olhos em direção à parte da tenda em que se encontrava o enfermo. Dentro de poucas horas chegaria o momento do relatório diário a ser fornecido a Thora... E Crest continuava naquela rigidez inexplicável.
— O senhor tem de fazer alguma coisa — irrompeu Klein sem que qualquer coisa lhe fosse dita. — Estou informado de que há poucas horas decolaram três naves espaciais. Não sei informar o momento exato da chegada, mas conheço o destino. A missão dos tripulantes consiste em atacar sua base na Lua com uma nova arma nuclear. Faça alguma coisa!
Reginald Bell comprimiu o encosto fino de sua banqueta. Os lampejos das explosões cintilavam na tela do radar. Rhodan arregalou os olhos numa expressão de incredulidade.
— Três naves decolaram? — repetiu em tom perplexo. — Sabe o que está dizendo? Nenhum reator nuclear entraria em funcionamento na Terra, eu lhe garanto.
— Mas funcionará além de 120 quilômetros de altura — disse Klein, sentando-se numa banqueta, com um sorriso embaraçado. Sentia suas pernas tremerem.
— Acho que não sabia, não é? Cada um de nós, isto é, o Ocidente, o Bloco Oriental e a Federação Asiática, fez decolar uma nave espacial gigante. O primeiro e o segundo estágios funcionarão exclusivamente à base de reações químicas. Depois que tiverem transposto a zona crítica, os propulsores químico-nucleares entrarão em funcionamento. Major Rhodan, o senhor cometeu um erro imperdoável. Foi por isso que vim. Deixe de fazer perguntas sobre os motivos dos meus atos. A única coisa que importa é a conservação da base lunar.
Bell umedeceu os lábios. Estava muito pálido. Rhodan também sentou-se.
— Conte-me tudo — disse em tom raivoso. — O que aconteceu? Conte tudo.
Klein não omitiu nenhum detalhe. Mencionou a conferência da Groenlândia. Rhodan não teve dificuldades em compreender o funcionamento da bomba catalítica H. Acontecera exatamente aquilo que temia.
Klein concluiu o seu relato com as informações da tarefa realizada pelo maior computador da Terra. Quando se calou, voltou a ouvir o rumor surdo das salvas de artilharia. O reator brilhava num tom azulado. Seu aspecto era inquietador. Desesperado, Rhodan perguntou de si para si que tipo de reação se desenrolaria no seu interior. Só Crest saberia dar este tipo de informação; se é que esta informação ainda resolveria alguma coisa. Ele achou mais provável que o reator não demorasse muito para entrar em pane.
Antes de falar, dirigiu o irradiador psíquico sobre os outros visitantes. Li e Kosnow despertaram imediatamente. Algumas palavras foram suficientes para pô-los a par da situação.
— Queiram abster-se de perguntas e lamentações — soou a voz nos fones dos capacetes. — O capitão Klein orientou-me sobre todos os detalhes. Não vamos perder tempo.
Apontou para o reator.
— Estão vendo? O brilho que este aparelho está emitindo não é normal. Receio que sua potência esteja no fim.
Klein sobressaltou-se. Lançou um olhar de incredulidade sobre o major Rhodan, cujos lábios indicavam um sorriso amargo.
— O equipamento de telefonia dos arcônidas já está fora de ação. Deve ser a trepidação. Crest, que com toda a razão é tido como doente pelo computador eletrônico, continua mergulhado num torpor misterioso. Com isso, as comunicações com a Lua estão interrompidas. Se Crest não despertar até às oito horas da manhã, capitularei, ou, ao menos, solicitarei um armistício. Vocês nem imaginam as desgraças que poderão desabar sobre a espécie humana se alguma coisa acontecer a esta criatura. Não façam perguntas. As coisas são por demais complicadas para que possamos discuti-las agora.
— E as três naves? — gemeu Kosnow. — Será possível inutilizá-las? O que acontecerá com as tripulações, se os que estiverem na base lunar partirem para o ataque?
— Façamos votos para que as coisas se resolvam de forma bastante humana — disse Rhodan. — A decisão final caberá à comandante da nave dos arcônidas. Afinal, ela se verá colocada diante de um grupo de agressores.
— E se as bombas forem lançadas? — exclamou Li, nervoso. — O que acontecerá? Será que os arcônidas dispõem de alguma defesa?
Rhodan esforçou-se para não trair o nervosismo que o dominava. Só desejava uma coisa: ficar a sós o quanto antes. Aqueles três homens não deveriam saber demais, quando não fosse por outra coisa, para que não perdessem a fé que os animava.
— Uma reação nuclear a frio não pode ser impedida por meio de um campo anti-neutrônico. Até aí, está certo. No entanto, os seres que estão na Lua encontrarão algum meio de defender-se das três naves. Não se preocupem com isso. Klein, antes de retirar-se, eu gostaria de lhe fazer um pedido.
O capitão Klein levantou-se. Tinha o rosto pálido e cansado. Desconfiava de que alguma coisa não estava certa. Bell não conseguiu disfarçar o nervosismo. Rhodan olhou para o relógio.
— Aguarde meu chamado pelo rádio às oito em ponto. Farei o possível para reparar o nosso emissor antes disso. Se não conseguir, só me resta uma alternativa: desistir. De outra forma, a catástrofe seria inevitável. Faça tudo o que estiver ao seu alcance para que concordem com um armistício. Envie delegados; procure ganhar tempo. De qualquer maneira, faça com que este fogo de artilharia seja suspenso imediatamente. Acha que conseguirá?
Os olhos de Rhodan pareciam despedir faíscas. Li retrucou, pausadamente:
— O senhor não conhece minha gente. O general Tai-tiang não suspenderá a barreira de fogo enquanto o senhor não desativar a cúpula. Se solicitar um armistício, não concordará. Desconfiará de que o senhor quer ganhar tempo para reparar o seu equipamento. No abrigo que lhes serve de quartel-general, temos psicólogos de primeira ordem. Não os subestime. Isso só se poderá resolver passo a passo.
Klein confirmou com um gesto. Rhodan baixou a cabeça.
— Certo. Aguarde a minha chamada. Se não chegar até as oito da manhã, é sinal de que conseguimos salvar a situação. Mas, se receber o meu chamado, aja imediatamente.
— Este reator ainda pode agüentar alguns meses — ironizou Klein, embora sem poder ocultar o nervosismo da voz. — Por que desistir? O fogo de artilharia não pode durar para sempre. A esta altura, as dificuldades de reabastecimento já são enormes. Afinal, não é fácil suprir seis mil peças de artilharia. Agüente mais um pouco... digamos, vinte e quatro horas!
— Você não avalia a situação corretamente — disse Rhodan. — Se dependesse de nós, aguardaríamos o colapso do aparelho, que é bastante provável. Mas existe outro perigo que não quero provocar. Se a comandante da nave dos arcônidas chamar em vão, e se verificar que aqui está sendo levado a efeito um bombardeio, perderá o controle. E, se isso acontecer, só poderemos rezar para que Deus tenha piedade dos homens. Compreende por que não podemos assumir um risco desses?
Compreenderam. As razões que poderiam animar a comandante dos arcônidas eram imprevisíveis.
Rhodan levou os três homens até o limite da cúpula. Antes de despedir-se e pedir que lhe devolvessem os capacetes acústicos, disse em tom cordial:
— Muito obrigado, Klein. Suas intenções foram as melhores possíveis. Mas, a menos que aconteça um milagre, terei de decepcioná-lo. Assim que esse fogo seja suspenso, aja depressa: ligue imediatamente para Nevada Fields. Peça a Pounder que emita uma mensagem não codificada. Não assuma o menor risco. Avise Mercant de que em hipótese alguma deverá tocar em Crest, pois, com isso, provocaria uma catástrofe. Não se justifica que ele seja preso sem mais nem menos. Compreendeu? A manobra estrutural foi repetida. Em apenas três segundos os homens saíram da cúpula. Mal se encontraram do lado de fora, Rhodan disparou em direção à tenda.
— Esses rapazes terão problemas — disse Bell. — Esqueceram seus cilindros bacteriológicos.
— Isso já estava mais ou menos previsto. Dirão que espalharam o plasma. Se não ficarmos doentes, a culpa não será deles. Não há nada que a terceira potência não possa fazer, não é verdade?
O sorriso mordaz e irônico fez com que Bell rompesse numa série de imprecações. Seu rosto pálido encarou o comandante.
— Venha comigo — soou a voz indiferente nos fones.
Ao chegarem no interior da enfermaria improvisada, encontraram os médicos conversando. Os homens pareciam esgotados. A resistência de seus nervos parecia perto do fim.
— São exatamente oito minutos para as cinco horas — constatou Rhodan. Lançou os olhos em torno. Crest jazia imóvel na estreita cama de campanha.
— Klein não soube dizer a hora em que as três naves decolaram. Mas, como conheço a eficiência dessa gente, acho que o ataque na Lua será hoje.
— Afinal, qual é a idéia? — exaltou-se Bell. Suas mãos comprimiram o braço de Rhodan. — Fale logo!
— A presunção doentia de Thora fará com que subestime o perigo. Acreditará que uma simples cúpula protetora e um campo anti-neutrônico serão suficientes para impedir toda e qualquer reação nuclear. Acho que, mesmo que conseguisse comunicar-me diretamente com ela, não conseguiria nada. Daí se conclui que a destruição da nave dos arcônidas é só uma questão de tempo.
— Você está imaginando coisas — balbuciou Bell. — Não é possível! Aquela coisa é indestrutível!
— Só se lhe for dispensado o tratamento adequado. Se em vez daqueles seres apáticos, a nave tivesse a bordo uma tripulação ativa, eu não me preocuparia. Mas, do jeito que estão as coisas, até mesmo as providências mais simples serão omitidas. Vejo a situação muito ruim. Cada bomba catalítica H libera energia equivalente a cem megatons de TNT. Não gostaria de estar na esfera incandescente de gases de uma explosão desse tipo. Se não tomarmos providências imediatas, um sol terrível surgirá por cima da nave, Dr. Haggard!
O médico estremeceu. Ergueu a cabeça. Fitou aqueles olhos penetrantes.
— Dr. Haggard, o senhor tentará despertar Crest desse sono estranho. Eric, você dará assistência ao seu colega. Seria absurdo esperarmos mais. Arrisquem tudo.
Haggard esteve a ponto de explodir. Mas, quanto mais fitava aqueles olhos chamejantes, mais seu ânimo, se enfraquecia.
— Como queira, major — disse com voz monótona.
Rhodan retirou-se. Eram cinco em ponto. Lá fora o fogo de artilharia mantinha-se na mesma intensidade.


Muito além da cúpula protetora, os três homens foram recebidos pelos oficiais das forças armadas. Klein apresentou o relato.
— Cremos que Rhodan acreditou nas nossas explicações. Os três recipientes de pressão ficaram no interior da cúpula. Eu e Kosnow conseguimos abrir as válvulas. Li viu-se obrigado a desistir no último instante. Mas duas cargas devem ser suficientes.
Os homens foram colocados num helicóptero que os levou ao posto de desinfecção. Dali em diante, Klein começou a padecer todos os tormentos do inferno. Se os médicos achassem necessário que eles ficassem em quarentena, então...
Quase no mesmo instante o primeiro-tenente Freyt transmitiu sua última mensagem para o controle de terra:
— Entramos em órbita conforme previsto. Iniciamos a desaceleração. O mecanismo propulsor funciona satisfatoriamente. A tripulação está bem. Rezem por nós. Fim.
Três peritos em armamentos calcularam o momento exato em que as bombas deveriam estar prontas para serem lançadas.
— Cerca de três horas — disse o capitão Nyssen em voz alta. Nesse instante sofreu o primeiro impacto formidável da força de desaceleração.

VII


Quietos e apáticos, estavam sentados nas banquetas da enorme tenda. Procuravam dar a impressão de que o fogo cerrado que rugia lá fora não significava nada.
O sol nascera algumas horas antes. Seu brilho ardente ao menos apagara a cintilação extenuante das inúmeras explosões. Mas o trovejar continuava. A cúpula energética oscilava num ritmo estranho, que a qualquer momento poderia terminar num verdadeiro colapso.
Desde as cinco da manhã os médicos esforçavam-se para despertar Crest do profundo sono em que estava mergulhado. Depois de alguns êxitos aparentes, que se manifestaram através de uma aceleração do ritmo respiratório e de um tremor das pálpebras, os sintomas da esperança desvaneceram-se.
Finalmente, pelas sete horas, o Dr. Haggard recorreu ao mais perigoso dos psicoestimulantes da época. O medicamento agia diretamente sobre as funções conscientes do indivíduo. Além disso, produzia um aumento bastante acentuado da função circulatória e dos reflexos nervosos. O psicoestimulante era o último remédio de que os médicos podiam lançar mão.
Crest reagiu ao estímulo tal qual um homem reagiria a uma xícara de café. Por isso, Haggard resolveu aplicar outra injeção.
Eram sete e quarenta e cinco. Antes de pôr lentamente as mãos no equipamento portátil de telefonia, Rhodan lançou mais um olhar sobre o enfermo. No mesmo instante o arcônida levantou-se do leito num movimento repentino, como se algum impulso estranho o tivesse chicoteado.
Rhodan deteve-se em meio ao movimento. Um gemido abafado soou nos fones de ouvido. Era o Dr. Haggard que, perplexo, acompanhava a inexplicável reação do paciente. Nunca antes, o fato de Crest ser uma criatura completamente estranha se impusera à sua consciência com tamanha nitidez.
Aconteceu exatamente aquilo que Manoli previra. O sono de Crest podia aprofundar-se até a morte, ou então ele despertaria para um estado de plena consciência num reflexo tão rápido que o cérebro humano dificilmente conseguiria entender de imediato.
Crest havia acordado, não restava a menor dúvida. Seu primeiro gesto consistiu numa contorção dolorosa do rosto. Pôs a mão ossuda na cabeça.
Rhodan compreendeu a situação antes dos outros. Com um ligeiro movimento, colocou na cabeça do arcônida o capacete acústico com o equipamento de telefonia que fora deixado bem à mão. A ligação já havia sido estabelecida.
— Crest, o senhor me ouve? Compreende o que estou dizendo? — soou a voz nervosa.
Bell mal reconheceu a voz de Rhodan. Muito mais aguda que de costume, revelava a enorme tensão a que ele estava submetido.
Rhodan sabia que não havia muito tempo para explicações demoradas. Desde que Crest tivesse alcançado alguma lucidez, teriam de agir imediatamente.
— Ouço... ouço, sim — veio a resposta. — Estes ruídos! O que...
— Deixemos isso para depois — interrompeu Rhodan. — Daqui a pouco dar-lhe-ei todas as explicações. Acabamos de despertá-lo de um sono prolongado. O senhor está curado. Conseguimos dominar a leucemia. Mas, agora, temos de agir sem demora. Há algumas horas estamos sendo alvo de um bombardeio ininterrupto. O reator está emitindo uma luz azulada. Receio um colapso. Além disso, o equipamento de telefonia entrou em pane por causa da trepidação. Estamos...
Ninguém poderia imaginar que este relato, vindo logo após o despertar e que teria sido prejudicial ao equilíbrio de qualquer ser humano em situação semelhante, fosse representar a terapia mais eficaz para o arcônida.
Crest compreendeu em poucos segundos todos os detalhes de uma situação que, na opinião de Haggard, lhe deveria ser revelada aos poucos e com muita cautela.
Os médicos estavam estupefatos. Manoli ficou pronto para a prestação de socorro imediato, até que percebeu que seus receios eram infundados.
Exausto, sacudiu a cabeça e largou a seringa. Seu saber havia chegado ao fim. Haggard preferiu manter-se em atitude de observador. Como cientista que era, não havia nada que lhe causasse espanto.
— Desligue imediatamente! — soou a voz clara de Crest. — Há o risco do superaquecimento. Desligue!
Rhodan recuperou a calma. Não era por nada que era chamado de comutador psicológico instantâneo. Compreendeu o medo que se desenhava nos olhos do arcônida.
— Se assim for, estamos liquidados, Crest — disse laconicamente. — São sete horas e cinqüenta e cinco minutos. Dentro de cinco minutos Thora procurará entrar em contato conosco. O reator terá de agüentar até lá. Se Thora intervier imediatamente, tudo estará salvo. Só depende de pormos a funcionar o equipamento de rádio. E só o senhor é capaz de fazer isso.
— Dentro de cinco minutos? — balbuciou Crest. Seus olhos procuraram o aparelho que se encontrava junto à cama. — O que houve? É impossível que ocorram defeitos de funcionamento. Ligou a chave de reparos?
Rhodan mudou de cor. Bell soltou um palavrão. Crest respirou com dificuldade. A atividade cardíaca aumentara bastante. Ao que parecia, estava sofrendo de falta de ar.
— Que chave é esta? — perguntou Rhodan, torcendo os dedos. — Não faço a menor idéia.
— O microautômato — respondeu Crest. — Elimina instantaneamente qualquer defeito, que só pode surgir em circunstâncias excepcionais nos contatos. As baterias e as células energéticas são indestrutíveis, desde que no interior do aparelho seja mantido o vácuo absoluto.
Sem dizer uma palavra, Rhodan saltou para a caixa em forma de cubo. Não havia nenhuma conexão visível que estabelecesse ligação com alguma fonte de energia. Só mesmo pela antena de extremidade esférica percebia-se que se tratava de um emissor.
A tela oval e côncava continuava apagada. Enquanto Bell, impotente e torturado pela autocensura, olhava para o arcônida, Rhodan colocou o aparelho ao alcance das suas mãos. Não perdeu um único segundo.
— Faça a ligação! Rápido! — insistiu sem a menor tonalidade de calma na voz. — Não desconfiávamos de que este aparelho tivesse um serviço automático e autônomo de reparos. Ainda dispomos de três minutos.
Mais uma vez, Crest compreendeu de imediato a situação. A manobra da chave era extremamente simples. Rhodan fechou os olhos para não revelar o nervosismo. Um sinal verde surgiu na tela.
— Os reparos estão em andamento — disse Crest, com a voz ofegante. — Temos de esperar. Deixe-me ver o reator. Devíamos desligá-lo.
Com um movimento rápido, Bell afastou a cortina. Crest arregalou os olhos avermelhados.
— Ele não agüentará mais de uma hora, segundo sua escala de tempo — disse, tranqüilamente. — Há horas que está trabalhando em regime de sobrecarga, do que resulta um aumento das reações nucleares. Os conversores térmicos estão trabalhando com a potência máxima. Por que está acontecendo uma coisa dessas?
Rhodan começou a dar-lhe uma rápida explicação. As indicações de Crest eram bastante complicadas. Esclareceu que sob o fogo concentrado ininterrupto, a estrutura energética do campo protetor ficou sujeita a uma oscilação excessiva, uma vez que o modelo simplificado não dispunha de um conversor que aumentasse a intensidade dos trechos submetidos a uma carga mais forte.
Rhodan compreendeu o essencial, mas isso não resolvia nada. Poucas vezes sentira-se tão desesperado.
O sinal verde apagou-se um minuto antes das oito. Rhodan fez a ligação com as mãos trêmulas. A tela começou a cintilar. Ouviram-se ruídos crepitantes. Repentinamente, som e imagem surgiram com tamanha nitidez que o Dr. Haggard recordou o súbito despertar do cientista arcônida. O mecanismo automático de reparos funcionara perfeitamente. Era provável que o defeito consistisse apenas de um contato que se soltara com a trepidação ininterrupta.
Crest e Rhodan contemplaram a imagem tremeluzente. O aparelho representava uma maravilha no campo das comunicações.
O comandante poderia contar com tudo, menos com os fatos que se seguiram. O relato resumido que concebera tornara-se inútil, pois a voz estridente daquela mulher nervosa não admitia a menor interrupção.
Thora parecia próxima à prostração total. Seu belo rosto ardia de cólera.
— Quero saber o que houve!
As palavras, saídas dos alto-falantes invisíveis, pareciam chicotadas. Num instante, Rhodan compreendeu que já devia estar falando há algum tempo. Certamente procurara estabelecer contato antes que a chave de reparos fosse ligada.
— Ouça, Thora, ouça! — gritou. — O reator está emitindo uma luz azulada. Se não agir imediatamente, o campo energético entrará em colapso.
— Onde está Crest? — interrompeu aos gritos. — Minha generosidade chegou ao fim. Dispenso suas explicações, major Rhodan. Se alguma coisa aconteceu a Crest, abandoná-lo-ei sem a menor contemplação e atacarei com todos os meios de que disponho.
Rhodan afastou-se para o lado. Seu rosto pálido traduzia suas emoções. O sorriso gélido apareceu no rosto de Bell. Sem trocarem uma palavra prestaram atenção à conversa entre Crest e Thora, travada numa linguagem, para eles, totalmente incompreensível.
A comandante parecia mais calma. Porém, antes que Rhodan pudesse voltar a falar, a comunicação foi interrompida por ela. Em vão, ele comprimiu o botão vermelho. Depois, virou-se rubro de cólera.
— As reações de sua gente são muito estranhas! — disse, em tom mordaz. — Quais são as intenções da jovem filha da dinastia todo-poderosa dos arcônidas?
Crest esboçou um sorriso quase imperceptível. Descansava no leito e surpreendeu Rhodan com esta resposta:
— Acaba de decolar com a maior das naves auxiliares. Chamou alguns minutos antes da hora combinada porque os instrumentos haviam detectado o bombardeio. Está preocupada, major. Pense na situação de Thora e na nossa. Se não intervier imediatamente com os aparelhos que se encontram a bordo da nave auxiliar estaremos perdidos. Acho que o senhor não tem o menor interesse em provocar uma expedição punitiva contra a humanidade que representa. Portanto, não assuma o risco de me fazer cair nas mãos de qualquer potência da Terra. Dentro de dez minutos, Thora surgirá por cima da cúpula.
— Dez minutos? — repetiu Rhodan, surpreso. — Conseguem fazer em dez minutos a viagem da Lua até aqui, inclusive o pouso?
A respiração de Crest estava mais tranqüila, porém, os médicos permaneciam alertas.
— É inacreditável! — murmurou o Dr. Haggard. — Ele resistiu. Se eu soubesse disso, teria injetado o psicoestimulante logo. Como se sente, Crest?
— É uma pergunta importante, mas a pergunta que vou formular é muito mais urgente — interveio Perry Rhodan em tom frio.
Um ligeiro estremecimento passou pelo corpo de Crest. Olhou atentamente para Rhodan.
— Explicou a Thora que três naves terrestres com um novo tipo de bomba nuclear estão a caminho da Lua? É claro que não! E nem me deu tempo para informá-la a respeito. Essa louca furiosa preferiu interromper a comunicação antes que pudesse preveni-la. Talvez vocês nem ao menos possam conceber a idéia de que os homens consigam, através de um ato inteligente, eliminar os feitos de um campo anti-neutrônico. Se Thora não agir imediatamente, daqui a pouco sua nave estará no centro de uma bola incandescente gerada por três bombas H de alta potência. Não venha me dizer que as reações nucleares são impossíveis. Não são. Os homens desenvolveram a ignição nuclear a frio, com base na catálise provocada pelos átomos do mésio. As três bombas não darão a menor importância ao campo anti-neutrônico de Thora. Crest, nunca falei tão sério como agora! Ligue imediatamente para Thora e faça com que ela adote as medidas defensivas que se fazem necessárias.
Crest mudara de cor.
— Fusão a frio? — disse com voz débil. — As três naves serão localizadas a tempo de se evitar o ataque. O robô do nosso cruzador espacial agirá independentemente da interferência de Thora e defenderá a nave.
Rhodan deu uma risada amarga.
— Muito bem, Crest. Só resta saber se o computador está bem programado. O cérebro positrônico ainda baseia seus cálculos em seres vivos primitivos, não é? Na sua lógica puramente mecânica, abster-se-á de qualquer medida defensiva, embora estas se tornassem naturais se a memória positrônica recebesse uma regulagem adequada. O computador subestimará o perigo porque não é capaz de um raciocínio pessoal. Nenhum dos cálculos considerará a existência de superbombas catalíticas cuja potência total chega a trezentos milhões de toneladas de TNT. O robô só pode agir erradamente. Foi regulado para os dados da primeira nave terrena que pousou na Lua. De acordo com esses dados, o dispositivo positrônico interromperá a teledireção, montará um campo anti-neutrônico comum e, quando muito, levantará uma cúpula protetora do tipo que já conhecemos. O computador não poderá fazer mais que isso, porque a lógica mecânica de que é dotado não lhe permite fazer mais do que o estritamente necessário. Ninguém vai matar pardais a tiro de canhão, não é? Para isso, usa-se espingarda de chumbo fino. Crest, ligue imediatamente para Thora! Deve voltar. As bombas podem ser arremessadas a qualquer instante. Tenho um pressentimento. E tenho bons conhecimentos de cibernética. Ligue agora mesmo!
O arcônida jazia imóvel na cama. Seus olhos pareciam expressar uma indagação muda. Neles se lia a descrença e a dúvida. Por mais tolerante que pudesse ser, dificilmente o representante de uma raça infinitamente mais desenvolvida compreenderia que as armas construídas por um povo classificado no grupo de inteligência D pudessem ser tão eficazes.
— Espere, por favor — cochichou. — Ainda me sinto um pouco fraco. Além disso, no momento, não tenho meios para entrar em contato com Thora. O emissor está regulado exclusivamente para contatos com minha nave exploradora.
— Pois procure entrar em contato com algum membro da tripulação! — exclamou Rhodan em desespero. — Procure compreender, Crest! Os homens atacarão com todos os meios de que dispõem. Faça alguma coisa!
— É inútil — objetou o arcônida. Sua boca assumiu uma expressão amarga. — Devem estar deitados diante das telas dos simuladores, admirando uma nova obra-prima. Ninguém perceberá o sinal.
Rhodan respirou com dificuldade. Teve de esforçar-se para reprimir uma censura mais violenta. A raça dos arcônidas estava no fim; não havia a menor dúvida. O comandante preferiu não dizer nada. A passos lentos, dirigiu-se para a saída. Seu olhar percorria o céu matutino. Se as informações de Crest fossem corretas, dentro de poucos instantes uma coisa monstruosa surgiria por cima da cúpula. Rhodan imaginava perfeitamente o que os arcônidas deviam entender por nave auxiliar. Sem dúvida, ela seria capaz de abrigar mais de vinte das grandes naves da Terra.
E o rugido infernal começou. Com um gemido, Rhodan fechou os olhos. Um poder supraterreno começou a se revelar.

VIII


Era inútil procurar abrigo. As aberturas estreitas dos abrigos de concreto tinham sido transformadas em apitos infernais.
Um furacão teria sido rebaixado a um fenômeno insignificante. No último instante, Thora desistira da destruição das diversas divisões que cercavam a cúpula. Mas, face aos princípios que adotara, não poderia deixar de dar uma lição dura nos seres inferiores.
Para Crest, o procedimento de Thora era natural. Rhodan mal conseguiu compreender por que teve de desencadear uma tempestade tão terrível. Como representante de uma grande potência galáctica, sentia-se humilhada pelo quase sucesso do bombardeio ininterrupto à cúpula energética que erigira. Seus sentimentos eram idênticos aos da figura antiquada de um oficial das forças coloniais do planeta Terra que veria, numa revolta promovida pelos povos subdesenvolvidos da colônia, uma forma de blasfêmia contra as classes dominantes.
A enorme nave esférica flutuava pouco acima da cúpula energética. Rhodan não saberia dizer de que forma foi desencadeado o furacão. Aliás, quando se tratava de qualquer medida dos arcônidas, nem seria capaz de esperar que fosse diferente.
As formidáveis ondas de pressão varriam tudo diante de si. O fogo das inúmeras baterias cessou tão repentinamente que até parecia nunca ter representado um perigo mortal para os homens que se achavam cercados. Os soldados das divisões de elite das forças asiáticas conseguiram agarrar-se nos excelentes abrigos até que os efeitos da falta de gravidade se somaram ao furacão.
Surpreendidos pela ausência de gravidade, não havia mais como segurar homens e material. Mais de cento e cinqüenta mil soldados foram varridos das trincheiras que nem folhas secas, e tangidos para a imensidão do deserto.
As grandes peças de artilharia e as pilhas de munição ofereceram uma área de impacto muito mais ampla. Foram arrancadas dos embasamentos pelas vagas uivantes dos ventos em fúria.
Nada mais aconteceu. Thora empregara uma arma que talvez considerasse primitiva. Além disso, seu procedimento foi relativamente humano. Até Rhodan teve de reconhecer isso, mesmo contra a vontade.
De qualquer forma, o fogo de artilharia cessou de um instante para outro. Nada mais havia com que se pudesse atirar.
Só os grandes abrigos de concreto resistiram à ventania infernal. Todos os objetos que não estavam bem cimentados ao solo foram largados suavemente no chão, além dos limites do campo antigravitacional. Ali, o furor do furacão também perdeu sua força. E assim, homens e materiais viram-se reunidos em boa harmonia em meio ao deserto. Ainda se via a cúpula energética, mas não mais se viam as posições de artilharia.
Assim que o capitão Klein sentiu o chão firme sob os pés, e quando o mal-estar que sentia desapareceu, viu a cúpula energética encolher-se. Um objeto arredondado desceu lentamente no território cercado e, agora, desimpedido. De espaço a espaço, a guarnição de um abrigo abria fogo com armas leves de infantaria. Mas os projéteis nem chegavam a alcançar a área visada.
Daí em diante. Klein absteve-se de olhar o relógio. O momento decisivo havia passado. Rhodan já não teria necessidade de solicitar o armistício.
Klein ajudou o comandante das forças chinesas a afastar uma mesa despedaçada. Só depois disso, o general Tai-tiang conseguiu pôr-se de pé.
O apito das aberturas cessara. Lá fora, o sol voltara a brilhar. Só no interior dos abrigos continuava a reinar o caos. Homens erguiam-se do solo, praguejando. Outros estavam muito quietos. Alguns dos cientistas pareciam curiosos; outros, apavorados. Foi a primeira vez que o capitão Klein conseguiu ler a gama inteira dos sentimentos humanos nos rostos pálidos e embrutecidos.
O coronel Donald Cretcher, oficial de ligação das forças do Ocidente, subiu a passos cambaleantes das profundezas do abrigo de comando. Estava pálido. A testa sangrava abundantemente.
Um ligeiro relancear de olhos colocou-o a par do estado dos presentes. Aquilo que Klein jamais esperaria, tornou-se realidade com algumas palavras de Cretcher. Ajudando o general chinês a pôr alguma ordem no abrigo, o coronel do CID declarou, laconicamente:
— General, nas circunstâncias em que nos encontramos, acho preferível suspender o fogo, que, de qualquer maneira, se revelou ineficaz.
— Quê? — balbuciou Tai-tiang. — As baterias...?
— Foram arrancadas dos embasamentos. O pânico tomou conta de todas as posições. Pouco antes do pouso dessa nave espacial desconhecida recebi uma mensagem importante do quartel-general na Groenlândia. Meus colegas e eu chegamos à conclusão de que é preferível aguardar os acontecimentos.
O major Butaan, do Serviço de Defesa da Federação Asiática, foi ainda mais lacônico:
— Suspenda o fogo! Assumo a responsabilidade.
Tai-tiang compreendeu que perdera em definitivo. Não havia como rebelar-se contra a ordem do major Butaan.
Cambaleante, o general dirigiu-se à fresta de observação mais próxima. A cúpula energética voltara a ser erguida, maior e mais potente que antes.
As mensagens radiofônicas dos comandantes das diversas unidades começaram a ser recebidas. O círculo de tropas que cercava a cúpula fora desmantelado. As unidades estavam em plena dissolução.
Klein enxugou as palmas das mãos nas calças. Kosnow retribuiu seu olhar. O leve sorriso do oficial das forças orientais falava por si. Rhodan vencera... Ao menos, por enquanto.


Thora chegara ostentando o poderio do Grande Império e a arrogância de uma deusa ofendida.
Perto dela, Rhodan tornara-se insignificante. Suas palavras perderam toda a força. Seus argumentos não mereceram a menor atenção. A única resposta que obteve foi um ligeiro franzir de testa.
O comandante desistiu. Seguiu-a com os olhos até que desaparecesse no interior da tenda; trazia um sorriso estranho no rosto.
Bell não compreendia mais nada. Tomado de um acesso de fúria, contorcia-se nos braços de ferro de um robô armado que deixara a nave logo após o pouso juntamente com outras máquinas do mesmo tipo.
A chamada nave auxiliar, que o raciocínio lógico de qualquer ser humano conceberia como uma coisinha qualquer a ser utilizada em caso de emergência, revelou-se um gigante de sessenta metros de diâmetro, dotado de máquinas e geradores de força de grande potência.
Era uma miniatura da nave exploradora, mas ultrapassava em tamanho qualquer nave terrestre.
Vistos de longe, os robôs dos arcônidas pareciam formigas. Saíram em formação compacta pela escotilha do compartimento existente na parte inferior da nave.
Ao que parecia, tratava-se de construções de diversos tipos. Só os robôs armados eram dotados de quatro braços com muitas juntas. Tudo indicava que um par dos mesmo era destinado à manipulação de armas. Rhodan sabia perfeitamente que uma única dessas máquinas poderia enfrentar uma companhia inteira de soldados da Terra. Era difícil aceitar essa idéia. Para que se pudesse conscientizar alguém dessa realidade, seria necessário uma demonstração. O cérebro humano não foi feito para aceitar como válidas as indicações não comprovadas de uma super-técnica extraterrena.
Uma ordem proferida em tom áspero fez com que Bell se calasse. Assim que deixou de resistir à mão de ferro que o comprimia, o robô relaxou a pressão.
— Ordeno-lhe que se mantenha em atitude tranqüila e humilde. Não saia do lugar — soou a voz metálica do robô.
Bell cambaleou em direção a Rhodan. Uma luminosidade surgiu na cúpula superior da nave esférica. A cúpula energética que começou a se formar reluzia numa tonalidade violeta. O instinto disse a Rhodan que não haveria mais problemas.
Além do território bloqueado, reinava um silêncio de morte. Com um receio crescente, Rhodan se perguntava o que teria acontecido aos homens das divisões asiáticas. Ao ouvir as imprecações de Bell, mudou de atitude. Seu rosto descontraiu-se.
— Não perca o controle — disse com uma tranqüilidade estudada. Apertou os olhos e contemplou a tenda, onde Thora estava examinando o estado de saúde de Crest.
Bell calou-se. O tremor de seus ombros desapareceu aos poucos.
— Nossa prezada amiga está prestes a cometer o maior erro de sua vida. Muito bem. Que cometa! Se não me engano, daqui a dez horas, no máximo, ela não será mais que um feixe de nervos. Não mais que uma mulher ferida. Não diga nenhuma palavra. Deixe tudo por minha conta. Esperaremos aqui mesmo até que ela venha. Certo?
— Palavra de honra, não entendo nada! — disse Bell, com a voz áspera.
— Transformar-se-á numa mulher derrotada — insistiu Rhodan. — E não lhe restará outra alternativa senão confiar-nos parte de seu saber infinitamente superior, se quiser rever o seu planeta natal. Quando a nave exploradora tiver sido destruída, ver-se-á obrigada a fazer isso. Não enxerga muito longe. Costuma subestimar o inimigo e receberá, por isso, uma lição amarga. E essa lição será mais contundente, mais hu­milhante, porque lhe será ministrada por essa mesma humanidade que ela na sua in­finita arrogância, considera uma raça de seres primitivos e inferiores.
Bell fechou os lábios entreabertos. Começava a entender o porquê da tranqüilidade de Rhodan.
— Já começo a compreender. Você está convencido de que as três naves conseguirão cumprir o objetivo?
— Acho que sim — murmurou Rhodan. — Fique quieto. Daqui a pouco ela aparecerá. Crest tem uma visão muito mais exata da situação e deverá, por certo, colocá-la a par do problema.
Quando a mulher esbelta saiu correndo da tenda, de cabelos soltos ao vento, os dois homens estavam sentados no chão. Respirando pesadamente, tremendo de frio sob o calor escasso do sol terreno, demasiado fraco para seu organismo, ela estacou.
Rhodan levantou os olhos, indiferente. Seu olhar parecia misterioso. A respiração da mulher era ofegante. Pela primeira vez a inquietação desenhava-se naquele rosto belo e estranho.
— Olá, como vai? — indagou Rhodan em tom arrastado. — Muito obrigado pela ajuda. Pode levar Crest. Está restabelecido. Com boa alimentação e bastante sossego, a fraqueza passará logo. Pode partir.
Thora ficou estarrecida. Contemplou aquele homem, sentado diante dela, com um misto de pavor, desespero e indignação instintiva. Sua voz era estridente. As palavras pareciam atropelar-se.
— Por que não me informou logo sobre o ataque planejado? Por quê? Eu...
— Minha cara, seu comportamento foi o de uma colegial histérica — interrompeu Rhodan. — Suspendeu o contato comigo assim que conseguimos reparar o defeito no equipamento. Só lhe aconselho que se dirija quanto antes a sua nave, se é que ainda tem tempo para isso. Chegou a localizar três corpos estranhos? Fale logo! Recebeu aviso de localização?
Thora confirmou. A palidez do seu rosto tornou-se mais intensa. O tremor das suas mãos fez com que Rhodan se levantasse.
— Tomou alguma providência?
A pergunta continuou no ar. Em vez de responder, Thora balbuciou uma súplica.
— Venha! Venha comigo, por favor! Quando decolaram os foguetes? Que tipo de arma levam a bordo? Crest falou numa...
— ...bomba mesocatalítica — completou Rhodan. — Trata-se de uma arma de fusão nuclear que não será afetada pela cobertura anti-neutrônica. Realizou os ajustes necessários do equipamento? Poderia tê-lo feito por prevenção. Qualquer comandante de nave terrena teria feito.
Thora não perdeu mais tempo. Não deu outras explicações. Para Rhodan tornou-se evidente que ela não havia tomado as precauções mais elementares.
Corria e os homens seguiam-na. Rhodan lembrou-se da história de Davi e Golias. As circunstâncias eram parecidas. A presunção, aliada ao desleixo, poderiam perfeitamente ocasionar a destruição da poderosa nave exploradora. Ainda mais que, segundo revelara a experiência, a tripulação apática não estaria em condições de reagir com a necessária rapidez em face ao perigo.
O elevador gravitacional da nave auxiliar levou-os diretamente à sala de comando. Thora viera só. Em tom nervoso, explicou que se tratava de um veículo espacial totalmente automatizado, que poderia ser dirigido por qualquer ser vivo dotado de raciocínio.
Rhodan sentiu vertigens ao lançar os olhos em torno. Comparadas aos instrumentos que tinha diante de si, as complexas instalações da velha Stardust até pareciam uma canoa ao lado de um porta-aviões nuclear.
Não houve os demorados preparativos para a decolagem. O salto para o espaço foi tão abrupto, direto e espontâneo como o ato de um motorista que dá partida em um carro. Nunca antes o enorme abismo entre o saber dos arcônidas e o dos homens se tornara tão evidente aos olhos de Rhodan.
As manobras através das quais Thora dominou a enorme nave espacial foram rápidas e muito simples. Em compensação, numerosos robôs entraram em funcionamento. Rhodan sobressaltou-se com o rugido dos mecanismos propulsores. As telas iluminaram-se. Numa reação instintiva, ele se preparou para os efeitos temíveis da enorme aceleração. Nada aconteceu. A esfera disparou na vertical, numa velocidade de enlouquecer.
A Terra foi-se encolhendo. Antes que Rhodan relaxasse os músculos contraídos em ansiosa espera, grande parte do globo terrestre tornou-se visível. O Oceano Pacífico surgiu aos seus olhos e, logo depois, despontou a costa oeste dos Estados Unidos.
Rhodan voltou-se. Bell, perplexo, estava encolhido numa das poltronas de encosto elevado que, segundo parecia, nem sequer eram reclináveis. Daí se concluía que os arcônidas não conheciam os problemas causados pelo impacto da aceleração. Pelos cálculos de Rhodan, uma aceleração superior a l.000 g estava sendo imprimida à nave. Apesar disso, não se percebia nada.
— Como será que fazem isso, meu Deus? — perguntou Bell, surpreso. — Como será que conseguem uma coisa dessas? Vamos dar com os costados na Lua. Thora...
A última palavra saiu em forma de grito. Rhodan virou-se precipitadamente. O satélite da Terra surgiu, enorme e bem visível, na tela dianteira. Alguns segundos depois, só se viam alguns setores da superfície lunar.
O trovejar dos inconcebíveis mecanismos propulsores cresceu num uivo martirizante. Verdadeiras torrentes de fogo irromperam, em sentido oposto ao deslocamento da nave, das aberturas existentes no anel abaulado do setor equatorial da esfera.
Não havia necessidade de inverter o mecanismo propulsor para reduzir a velocidade. Rhodan estava perplexo. Lutava contra o raciocínio revoltado que, contrapondo-se a um sentimento nascido no consciente, tentou provar que uma coisa dessas era impossível e inconcebível.
As idéias desordenadas sucediam-se. Não havia meio de ordená-las num raciocínio coerente. Rhodan estava reduzido à condição de um indivíduo sacudido por sentimentos desconexos.
Foi despertado pelo grito estridente de Thora. Levantou a mão num movimento reflexo. Numa tela lateral viam-se três pontos cintilantes.
— São as naves! — disse Bell. — Encontram-se por cima do pólo sul lunar. Acho...


Estavam em queda livre. Depois que o centro de teledireção montado nas estações espaciais tripuladas preparara a entrada das naves na órbita lunar, os impulsos do computador direcional deixaram de ser transmitidos.
Este fato representara uma surpresa quase total para o major Rhodan. Mas o primeiro-tenente Freyt, comandante da Stardust-II, nem se abalou com a repentina cessação do funcionamento da teledireção. As três naves continuaram a percorrer a órbita prevista e não ocorreu qualquer outro fato que pudesse ser considerado como medida defensiva.
Depois de completadas duas órbitas de pólo a pólo, o capitão Rod Nyssen assumiu o comando. O dispositivo de pontaria funcionava com a maior exatidão. O instrumental de comando da Stardust-II transmitia impulsos constantes aos computadores eletrônicos de direção automática acoplados nas três bombas.
Nyssen aguardou até que o sinal luminoso se tornasse vermelho. Na tela localizadora, surgiu o alvo: um objeto esférico. A localização ótica, dirigida pelo tenente Recert, deu sinal de perfeita identificação do objetivo. Através de cálculos ultra-rápidos, os computadores apuraram as dimensões do alvo, considerada a distância verdadeira. O primeiro-tenente Freyt transmitiu a última mensagem antes do comando de fogo:
— Do comandante da Stardust-II para as naves companheiras: objetivo identificado. Localização perfeita. Atenção, oficiais-artilheiros: aguardem instruções para disparo. Capitão Nyssen: preparar para disparo.
Nyssen era a tranqüilidade em pessoa. Começou a contar em voz alta os últimos segundos. Nos compartimentos de carga das três naves, ouviu-se um estalo vindo dos dispositivos de direção das bombas. As últimas correções foram feitas. O objetivo, identificado pelos instrumentos de orientação de tiro, foi introduzido na memória eletrônica de direção das bombas.
— ...três... dois... um... fogo! — transmitiu Nyssen.
Com o simples movimento de uma chave, ele provocou a ignição das três bombas. O trabalho dos outros dois oficiais consistiu apenas em observar o funcionamento dos mecanismos.
Os lançadores dispararam os três arte-fatos reluzentes e, no mesmo instante os computadores de direção das três naves entraram em funcionamento. Os mecanismos propulsores uivaram, arrancando-as da órbita em uma aceleração bastante elevada.
A única preocupação do primeiro-tenente Freyt foi escapar a tempo. As explosões seriam terríveis. As naves dispararam na vertical. Lá embaixo, a mais de oitocentos quilômetros de distância, os foguetes direcionais entraram em ação. O alvo havia sido captado pelo mecanismo de direção automática. Nenhum desvio seria possível.


Uma explosão nuclear ocorrida no vácuo absoluto nunca se desenrolará da mesma forma que numa densa camada atmosférica.
Na superfície lunar, desprovida de ar, não ocorreria um dos principais efeitos destruidores, resultante do terrível deslocamento de massas de ar fortemente comprimidas e superaquecidas.
Como não se dispusesse de qualquer experiência sobre os efeitos de uma explosão nuclear no espaço cósmico, decidiu-se recorrer a três bombas H. O objetivo ficaria situado exatamente no centro da região onde os processos de fissão nuclear seriam desencadeados simultaneamente.
Com isso, tudo que estivesse na área-alvo, seria abrangido e pulverizado pela esfera gasosa das explosões conjugadas e se volatilizaria com as temperaturas geradas pelo processo.
As emissões radioativas foram consideradas um fator secundário, ao menos na hipótese específica de que se tratava. Sem dúvida, os efeitos da compressão cessariam muito mais depressa que numa atmosfera densa. Praticamente, ficaria restrita à capacidade de expansão dos gases liberados pelas explosões.
Assim, ninguém contava com o nascimento de um sol artificial. De início, a esfera incandescente, branco-azulada, surgiu em forma de um ponto, para expandir-se com incrível rapidez, até assumir a forma de uma gigantesca esfera luminosa.
O tristemente famoso cogumelo atômico deixou de aparecer. Em compensação, o pólo sul lunar foi transformado numa cratera fumegante. As detonações, ocorridas junto ao solo, atiraram massas gigantescas de pedras incandescentes para o negrume do céu.
Os tripulantes da estação espacial avistaram a esfera gerada pela liberação das tremendas forças do átomo. A massa destruidora atingiu um tamanho tal que ultrapassou o horizonte lunar.
A nave auxiliar dos arcônidas, que desenvolvia uma velocidade incrível, penetrou na extremidade da área de influência da terrível explosão. Mais tarde, Rhodan não se lembraria do que pensara ou sentira nos segundos que a nave levou para atravessar aquele inferno. Só sabia que a reação extremamente rápida do dispositivo positrônico da nave fez com que os reatores de alto desempenho fossem acionados para retirar a nave da área atingida.
A nave foi arrancada de sua trajetória e arremessada ao espaço cósmico. Só quando se encontrava fora do alcance da explosão, os autômatos conseguiram controlar seu curso e estabilizar sua posição.
Dez minutos depois do ataque, a esfera flutuava no espaço vazio. Thora demonstrava uma calma estranha. Seus olhos tristes e apagados fitavam as telas que lhe revelavam todos os detalhes da catástrofe. A nave devia estar, ou melhor, estivera, em meio àquele caldeirão borbulhante.
Rhodan esperou alguns instantes antes de perguntar:
— Por que torturar-se com sentimentos de culpa? Deixe disso! É preferível seguir o exemplo dos seres de minha raça! Não acredito que sua nave tenha resistido ao ataque. De qualquer maneira, terá de aguardar até que tenham cessado os efeitos da reação, se pensa em pousar para verificar.
Para Rhodan, homem de raciocínio lúcido, que não se entregava a ilusões, a destruição da nave exploradora dos arcônidas era um fato consumado e ele era muito realista para refletir sobre acontecimentos passados. Por isso, disse, em tom de advertência.
— Não pense em vingar-se, Thora. Sugiro que pouse imediatamente no deserto de Gobi. Resta-lhe a escolha entre a indignidade e primitivismo de uma vingança e as normas do raciocínio e das decisões tomadas dentro da lógica. Decida. Uma expedição punitiva não serviria nem a Crest nem a você. Além disso, garanto-lhe que teria de enfrentar alguns problemas criados por mim.
Thora contemplou a arma que Rhodan trazia na mão. Um traço de amargura desenhou-se em seus lábios.
— Eu os subestimei; e é só — respondeu com voz apática. — Não pense que uma comandante do Grande Império vai sucumbir por causa da destruição de uma nave espacial. Essas coisas acontecem todos os dias. Qual é a sua proposta?
Rhodan sabia que alcançara uma vitória definitiva. Agindo contra sua vontade, a humanidade, tomada de pânico, fizera alguma coisa que ele, Rhodan, considerava como uma das condições básicas para a conquista do poderio cósmico.
Os dois arcônidas, Thora e Crest, estavam isolados. Não poderiam recuar. Por isso, Rhodan, consciente da posição em que eles se encontravam, disse-lhes:
— Antes de mais nada, vamos pousar. Farei o possível para que os povos da Terra reconheçam a terceira potência como estado soberano.
Thora estava desesperada. Rhodan percebeu-o.
Algum tempo depois, a nave esférica voltou a pousar no solo pedregoso do deserto de Gobi.
Lá no espaço, bem longe da Terra, doze homens respiraram aliviados. As três naves retornavam às respectivas bases.
— Gostaria que não tivéssemos chegado a esse ponto! — murmurou o comandante Freyt, lançando um último olhar sobre as telas. — Viu aquela sombra que passou em disparada? Quando dispusermos de naves com aquela velocidade, a Galáxia será nossa.




                                                                               * * *




O ataque de surpresa desencadeado pelas potências unidas destruiu a nave dos arcônidas pousada na Lua. No entanto, a cúpula energética de Rhodan, instalada no deserto de Gobi, resistiu aos ataques maciços dos exércitos da Terra. A mudança de atitude dos governantes terrenos será apenas questão de tempo. Mais cedo ou mais tarde, terão de abandonar as mesquinhas idéias nacionalistas para pensar em termos internacionais e cósmicos. Para saber de que forma isso acontecerá, leia O Crepúsculo dos Deuses, o quarto volume da série Perry Rhodan.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html