Os homens podem construir robôs, estes,
porém, continuarão sempre como obras humanas. Agem como lhes é ordenado, não
conhecem pensamento independente, pois não são inteligentes.
Os robôs dos arcônidas são diferentes.
Dispõem de um cérebro capaz de pensamento autônomo. Não precisam de instruções
para reconhecer o perigo. Agem com independência, porque são capazes de ter
pensamento independente.
Robby estava ao lado de Bell. Viu que
estava sendo efetuado um visível ataque contra ele e agiu de acordo com as
circunstâncias.
Bogar teve um momento de hesitação, ao ver
o estranho ser caminhando em sua direção. No fundo, aquele estranho era o único
que não parecia tão estranho assim, pois também usava uma armadura de metal.
Como os bárbaros poderiam saber que Robby era um ser metálico?
“Um
verdadeiro adversário”, pensou Bogar. Só estranhava que não usasse arma alguma.
Teria intenção de lutar de mãos nuas contra uma espada?
Bogar não se preocupou mais com Bell.
Concentrou toda sua atenção no robô, que se encaminhava lentamente para ele,
com os braços estendidos. Bell observava a cena com o canto dos olhos. Tinha de
continuar prestando atenção para que os raios permanecessem dirigidos sobre os
bárbaros.
Bogar, inteiramente coberto pela armadura,
ergueu a espada com as duas mãos e desceu-a sobre a cabeça de Robby. A força do
embate teria rachado qualquer elmo. Mesmo um escudo não teria sido de grande
utilidade.
Bell não sabia como poderia absorver
tantas impressões ao mesmo tempo. Primeiro a espada do bárbaro se transformou
num pedaço de ferro retorcido. Em seguida, foram os dois pulsos de Bogar que se
quebraram. Com um grito, deixou cair as armas, agora inúteis, e caiu de
joelhos. Lágrimas de dor corriam-lhe pelas faces. Não perdia, porém, de vista o
maravilhoso guerreiro que se mostrara tão invulnerável.
Robby não prestou mais atenção em Bogar.
Nem parecia ter sentido o golpe. Com passos quase mecânicos foi em frente,
passando pelo meio do feixe de raios das pistolas positrônicas, contra os quais
tinha uma proteção automática. Com um movimento súbito, pegou a espada
levantada do bárbaro mais próximo e bateu-lhe nas costas com o lado chato. O
soldado cambaleou, conseguiu reerguer-se e saiu correndo, soltando um urro
assustador.
Dois bárbaros se decidiram. Do seu ponto
de vista, a escolha não era difícil. Ou morreriam sem poder reagir, ou
tentariam chegar guerreando a algum lugar seguro. Lançaram-se com toda a sua
força contra o robô. Bell teve que admitir, surpreso, que o robô era um
extraordinário esgrimista, e para isso a blindagem de arconita revelava-se uma
proteção eficiente. Os golpes de espada ricocheteavam, sem fazer efeito algum.
Por outro lado, dois golpes de Robby arrebentaram as armaduras dos bárbaros.
Saíram faíscas quando as finas paredes de metal se despedaçaram. Os dois
bárbaros procuraram salvar-se pela fuga.
Isso foi suficiente para os demais.
— Os deuses estão do nosso lado! —
gritou-lhes Lesur, que assim também esclarecia a situação para os seus próprios
homens, prontos a sair em disparada.
Bell suspendeu o fogo. Bogar foi
aprisionado. Por precaução, Robby pôs a espada danificada numa saliência do
muro e disse para Bell:
— Um modo muito interessante de combater.
É preciso uma certa habilidade para isso.
Crest se meteu na conversa.
— Você também tem suas partes vulneráveis,
Robby! Se algum golpe de espada tivesse por acaso atingido alguma delas,
estaria liquidado.
— Ele tinha de correr o risco — defendeu-o
Bell, que cada vez simpatizava mais com o robô.
Enquanto isso, Lesur chegava à entrada do
salão. Seu aviso de que os deuses haviam expulsado os inimigos e libertado os
ferrônios provocou um júbilo indescritível. As mulheres e os jovens, ainda
quase meninos, apinharam-se no corredor e caíram de joelhos diante de Bell e do
robô. Crest e Haggar se mantiveram na retaguarda. Observavam o quadro tão fora
do comum com um misto de emoções. No centro de uma multidão em adoração,
estavam Bell e Robby, um homem e um ser de metal e positrons. Em algum lugar,
Bogar estava gemendo. No andar de cima ainda se ouvia o tinir das armas. Os
ferrônios expulsavam os inimigos em fuga.
Lesur saiu do salão. Ao chegar diante de
Bell, também se jogou ao solo. Ergueu os braços, numa súplica.
— Obrigado, ó deuses! Sabemos que sempre
aparecem nos momentos de grande perigo. O inimigo foi derrotado. E agora, digam
qual o seu preço. Estamos prontos a pagá-lo.
Bell raciocinou febrilmente. O que Rhodan
teria respondido em seu lugar? Por que razão estavam ali?
Havia sido pela nave espacial da expedição
arcônida de dez mil anos atrás.
— Nobre Lesur — começou com precaução —
não desejamos agradecimentos. Mas é nossa intenção passarmos alguns dias entre
vocês. Dê-nos um aposento, onde possamos ficar. Iremos de novo embora, assim
que saudarmos nossos amigos que em breve descerão do céu.
— Amigos do céu! — balbuciou Lesur, com
veneração. — De volta à câmara fechada?
— É — assentiu Bell, olhando por sobre as
cabeças abaixadas a seus pés.
E soltou um suspiro profundo. “Que pena”, pensou, “que Rhodan não possa ver isto.”
5
Passaram-se dois dias.
Hóspedes do Vice-Thort dos ferrônios, os
membros da expedição através do tempo continuavam a vagar pelo castelo
reconquistado. Servidores diligentes lhes traziam tudo de que precisavam.
Enquanto isso, Ras Tshubai fechara por dentro a câmara onde estava o conversor
de tempo, de modo a que ninguém pudesse ali penetrar. Não queriam perder, por
obra de leviandade, sua única possibilidade de voltar ao presente.
Através de uma conversa com Lesur, havia
sido confirmado que os arcônidas não teriam sido os primeiros astronautas a
pousarem em Ferrol.
— Há muitos sóis — informou o Vice-Thort,
todo mistério — vieram dos céus os primeiros deuses. Nossos antepassados os
ajudaram. Em troca, receberam maravilhosos presentes que ainda hoje podem ser
vistos por toda a região. Lá embaixo, no porão do castelo, há uma dessas
gaiolas. Ninguém deve se aproximar delas, pois seu significado se perdeu. Já
houve muitos valentes que entraram nela e desapareceram diante de nossos olhos,
sem nunca mais voltarem.
— Nunca mais? — redargüiu Rhodan, erguendo
as sobrancelhas. Podia entender bem o antecessor do futuro Thort, mas ainda não
tudo. Era evidente que, nessa época, os ferrônios ainda não tinham conhecimento
dos hipertransmissores da matéria. Passariam milhares de anos antes que
obtivessem os conhecimentos necessários para isso.
— Houve um que voltou — retorquiu Lesur. —
Uma história estranha. Era um sábio. Entrou na gaiola, lá embaixo no porão,
moveu a alavanca e desapareceu. Dois anos depois é que ressurgiu no castelo,
com as roupas rasgadas e meio morto de fome. Afirmou ter vagado por boa parte
do planeta, não quis revelar, no entanto, como fora parar tão longe.
Rhodan teve um aceno afirmativo.
Ainda levaria muito tempo até que esses
selvagens primitivos pudessem compreender o mecanismo da teleportação. Era cedo
demais para isso. E sem dúvida não competia a ele esclarecer os ferrônios. Entretanto,
o hipertransmissor o interessava.
— Posso ver o aparelho?
— A gaiola? — Lesur estremeceu. Parecia
ter medo de que os deuses, portadores da felicidade, pudessem desaparecer dali
sem deixar vestígios. — Se assim ordena, senhor...
— Conhecemos esses aparelhos — sossegou-o
Rhodan. — Caso desapareça, voltarei depois.
Rhodan aventurou-se a dar o salto ao
meio-dia do segundo dia. Ao materializar-se era noite escura. O
hipertransmissor realmente o levara através de meio planeta. Pelo que pôde
perceber, o receptor-transmissor ficava em uma espécie de templo, sobre o pico
de uma montanha, solitário e esquecido. Um falso santuário de gerações
passadas.
Não, não fora esquecido!
Mal Rhodan acabara de se materializar,
sombras fugidias moveram-se por entre as pedras do templo em ruínas. Alguns dos
vultos lançaram-se, silenciosos, sobre ele. Em suas mãos pôde ver o brilho das
espadas. Sob a luz das estrelas, Rhodan reconheceu hábitos esvoaçantes.
Sacerdotes!
Não hesitou um segundo. Com uma pressão na
alavanca, acionou o mecanismo de transmissão e apareceu novamente diante do
espantado Lesur, no porão do palácio.
Voltou em silêncio para o aposento que
servia ao mesmo tempo de sala de estar e de dormitório para os membros da
expedição através do tempo. Suas suposições se tinham confirmado. Ao
naufragarem em Ferrol, os imortais haviam deixado para seus habitantes um
espetacular sistema de transporte, mas era um presente de significado ainda
obscuro. Ali no castelo o hiper-transmissor não tinha sentido algum, enquanto do
outro lado do planeta era vigiado com veneração por sacerdotes desconfiados.
Não havia dúvida, todos os que se tinham
aventurado a ousar o salto para o desconhecido haviam sido mortos por eles, com
exceção do sábio.
Na manhã do terceiro dia pousaram as três
naves dos arcônidas.
* * *
A semelhança do comandante Kerlon com
Crest era apenas exterior.
A raça dos arcônidas ainda não mostrava
sinais de degenerescência, pois ainda se encontrava no auge de seu
desenvolvimento. O Grande Império florescia e aumentava a cada expedição bem
sucedida.
E Kerlon sabia estar perseguindo um
segredo aparentemente impossível: a imortalidade, a vida eterna!
Em algum lugar, nessa parte da galáxia,
existia um planeta habitado por uma raça que descobrira o segredo da renovação
celular. Os indícios haviam sido obtidos nas diversas escalas feitas. Todas as
pistas conduziam a esse sistema. E igualmente, a distância de vinte e sete
anos-luz, a um outro, de uma estrela amarela e nove planetas, um dos quais se
distinguia por seus três anéis.
Kerlon pousou inicialmente num continente
desabitado do oitavo planeta desse primeiro sistema, que possuía quarenta e
três planetas. Essa escolha fora involuntária e inteiramente casual. O planalto
rochoso não apresentava sinal algum de vida. Apenas a alta pirâmide de base
quadrangular de metal desconhecido, denunciava a presença anterior de seres
inteligentes.
Há mil anos? Há dez mil anos?
A pirâmide era oca e a entrada podia ser
aberta com facilidade. Sem hesitar, corajoso e audaz. Kerlon entrou com alguns
cientistas. Não sabia o que o esperava, nem qual era o seu destino. Agia por
obra do instinto.
Muito abaixo da superfície, encontrou um pequeno
aposento pentagonal. No centro havia uma mesa, tendo em cima um objeto.
As paredes emitiam com regularidade uma
luz incandescente, refletida pelo objeto, levando a supor que possuísse luz
própria.
Um tubo de metal, talvez um cilindro oco.
Os companheiros de Kerlon observaram o
comandante adiantar-se, de mão estendida para o objeto. Pareceu-lhes que a
paciência dos desconhecidos se esgotaria agora. Não teriam sido vítimas de uma
cilada bem preparada?
Nada aconteceu, entretanto, quando Kerlon
ergueu o tubo de metal e levou-o consigo. Era leve e fácil de carregar. Talvez
tivesse uns trinta centímetros de comprimento e no máximo uns dez centímetros
de diâmetro. Uma cápsula vedava uma das extremidades, desafiando todos os
esforços para retirá-la.
Kerlon voltou impaciente para sua nave. A
contragosto, entregou o tubo a seus cientistas, verificando com alguma satisfação
que também eles nada conseguiram.
Voltou mais uma vez à pirâmide, sem
encontrar, todavia, mais nada de importante. A não ser uma estranha gaiola que
seus cientistas descobriram num aposento lateral.
Mais uma vez, Kerlon não hesitou em arriscar
sua vida pelo bem de seu povo. Conhecia a função daquela alavanca no interior
da gaiola. Entrou e puxou-a para baixo.
Seus companheiros tiveram então a certeza
de que os desconhecidos agora atacariam, e desta vez Kerlon não escaparia de
sua ira. Desaparecendo o comandante diante de seus olhos, dissiparam-se as
últimas dúvidas. Tinham perdido seu chefe.
Kerlon, no entanto, não ficou muito tempo
desaparecido. Dez segundos mais tarde já estava de volta, um pouco pálido e
assustado, mas, para surpresa e alegria dos arcônidas, sem um arranhão sequer.
Atacado de perguntas, Kerlon apenas balançou distraidamente a cabeça, olhou
para o sol quase a pino lá fora e deixou-se cair sentado sobre uma pedra perto
da entrada da pirâmide. Percebeu não mais ser possível deixar de falar.
— Meio-dia agora — disse lentamente. — Por
alguns segundos, do outro lado do planeta, em algum lugar, estive sob a noite
mais escura. Aquilo lá dentro da pirâmide é um hipertransmissor de matéria.
Conhecê-mo-lo teoricamente, mas nunca conseguimos construir um. Como é possível
existir um aparelho assim num planeta habitado apenas por selvagens primitivos?
Ninguém lhe pôde responder.
Claro que naquele mundo não havia alguém
de inteligência capaz de compreender o que representava esse hipertransmissor.
Mesmo os arcônidas. Estava em perigo o nascente império galático. Subitamente
surgira um adversário a ser levado a sério. Só que inteiramente desconhecido.
Urgia descobrir, não fosse mediante o
tubo, talvez através do hipertransmissor: um dos dois os levaria a seus
construtores. Cumpria, portanto, experimentar todos os hipertransmissores
daquele planeta.
Tarefa difícil, pois se uma parte de seus
habitantes era assustadiça e respeitosa, a outra agia com manifesta
hostilidade. Ainda mais que os arcônidas consideravam indigno deles lutar
contra raças inferiores, havendo mesmo uma proibição a respeito. Assim, não
restava margem à organização eficaz de um sistema defensivo.
Era uma questão de sorte. Para uns eram
deuses os viajantes espaciais que ali desciam, para outros, inimigos
encarniçados que deveriam ser combatidos. Portanto, restava era procurar os que
ainda davam valor às tradições religiosas.
Kerlon partiu com sua frota e, depois de
muita procura, pousou exatamente ao lado de um castelo construído no topo de
uma pequena colina. Os vastos campos até as montanhas distantes indicavam a
presença de uma administração planificada.
Apesar de certa esta conclusão de Kerlon,
não deixava, no entanto, de ser falsa.
Não poderia adivinhar que nos bosques
próximos se escondiam bárbaros, à espera apenas de uma oportunidade de se
vingarem da derrota. Kerlon ignorava também que nesse meio tempo Gagat já se
recuperara do choque de ter lutado contra deuses. Aliás, nesse meio tempo
chegara à conclusão de que isso eles não eram. O mundo era grande e nele viviam
mágicos poderosos. Não bastava a força para vencê-los num ataque de surpresa.
Também eram necessárias a astúcia e a inteligência.
Sendo assim, reuniu ao seu redor os
sobreviventes do ataque malogrado e juntos puseram-se à espreita. Chegaria um
momento que esses forasteiros teriam de deixar o castelo e então seriam
liquidados.
Mas qual não foi a surpresa dos bárbaros
quando, no terceiro dia, de madrugada, três gigantescas esferas prateadas
surgiram no céu matutino! Muito maiores que o sol, o olho do deus. E se
aproximavam cada vez mais. Pousaram bem longe do bosque.
Gagat teve de usar toda a sua força de
persuasão e autoridade para impedir a fuga imediata de seus guerreiros, que não
primavam pela coragem. Contudo, não podiam ser mesmo levados a mal os soldados
derrotados. No castelo havia deuses e agora outros mais chegavam do céu como
reforço. Pareciam impossíveis de combater.
Mas Gagat era de outra opinião. E os acontecimentos
que se seguiram lhe dariam razão, ou ao menos assim se afigurava no princípio.
Quando Rhodan e sua gente foram avisados
da chegada das três naves, logo atinaram que a pista dos imortais era
infalível.
Os acontecimentos haviam sido fixados em
todos os seus pormenores há dez mil anos. Só não atingiria a meta quem perdesse
a pista. Uma coisa estava, pois, subordinada à outra.
E Rhodan queria alcançar essa meta.
O próprio Lesur foi quem trouxe as
novidades. Estava muito agitado.
— Senhor, eles chegaram, conforme disse.
Somente por fora Rhodan manteve sua calma.
Por dentro, desencadeava-se uma tormenta. Haviam chegado os arcônidas, os
mesmos que há quase dez mil anos pousaram no sistema solar e construíram sua
base em Vênus.
O tempo girara ao contrário. Só agora
Rhodan compreendia isso em todo o seu alcance e significado.
— Onde desceram, Lesur?
— Lá fora na planície. Deseja
cumprimentá-los?
Rhodan lançou um olhar interrogativo a
Crest. O arcônida balançou a cabeça de modo quase imperceptível. Rhodan
admirou-se mas não fez perguntas.
— Nós lhe mandaremos um representante.
Espere lá fora perto do portão.
Quando o ferrônio saiu, Rhodan olhou
interrogativamente para Crest. O arcônida sorriu levemente.
— Não queremos despertar sem necessidade a
desconfiança de Kerlon. Além disso, não consta no Arquivo Central que a expedição
tenha descoberto seres humanos no sistema Vega. Portanto, eu mesmo irei.
— E será menos suspeito?
— Claro que sim — asseverou Crest. — Há
dez mil anos, havia muitas naves arcônidas que exploravam o universo conhecido
e o desconhecido. Nem sempre mantinham comunicação entre si. Portanto, Kerlon
não me conhece. Direi a ele que chegamos há meses e pesquisamos bem todo o
planeta. Talvez o convença a prosseguir até a Terra.
— Isso seria... — ia dizendo Rhodan, mas
faltou-lhe o fôlego.
Olhou admirado para Crest. O arcônida
continuava a sorrir.
— Isso explicaria o fato de Kerlon ter se
dirigido tão depressa para o sistema solar de vocês e levado tanto tempo lá, à
procura do planeta da imortalidade, até ser surpreendido pela morte.
Posteriormente, devia ter suspeitado de alguma coisa, mas era tarde. A verdade
é que nunca confessou ter sido ludibriado.
— Você está tentando influir no futuro.
— De modo algum — contraveio Crest.
— Só estou tentando arranjar as coisas
para que daqui a dez mil anos encontremos em Vênus as respostas às nossas
perguntas. Como se poderia denominar isso? Realmente não sei.
Rhodan calou-se. Aliás, o que poderia
responder?
Crest foi tomado de uma atividade fora do
comum. Reacendia-se nele a antiga energia que tinha tornado possível para a sua
raça a conquista de um reino estelar. Fora ultrapassado o período de
inatividade e o subseqüente aparecimento da degenerescência. Era novamente um
daqueles arcônidas que com um simples aceno anexavam ao Grande Império sistemas
solares inteiros.
Talvez isto se devesse ao fato de ter
voltado ao tempo do apogeu de sua raça. Como saber das influências psicológicas
de uma tal viagem?
— Levarei o robô comigo — disse Crest,
verificando a carga da sua pistola de radiação. — Naquela época havia robôs
desse mesmo modelo.
— A pistola de radiação também vai? — indagou
Rhodan, na esperança de ter surpreendido uma negligência de Crest. O arcônida,
porém, sorriu com indulgência e bateu de leve na coronha da arma.
— É o mesmo modelo usado há dez mil anos.
A arma é perfeita, o que haveriam de mudar nela? Portanto, quem vai mesmo sou
eu. Marshall, pode permanecer em contato comigo?
O telepata hesitou, assentindo em seguida.
— Acho que poderia dar certo se me
concentrasse em você. Espero que a distância não seja muito grande.
— Há de conseguir, sim — assegurou Crest,
dirigindo-se depois ao robô. — Acompanhe-me.
Rhodan, pensativo, seguiu-os com o olhar.
Detestava ter de ficar para trás, inútil. Pela primeira vez a iniciativa lhe
fugia das mãos pela força da lógica.
* * *
Kerlon estava organizando uma expedição,
quando avistou três vultos se aproximando da nave pousada.
Eram três homens vestidos de maneira
diversa.
Caminhavam pela extensa planície,
provenientes do castelo. Na frente vinha um monstro prateado que pareceu familiar
a Kerlon, tanto por sua forma, quanto pelos movimentos. Primeiro julgou
tratar-se de um homem com armadura, mas logo reconheceu um robô.
Robô? Num mundo primitivo?
Voltou-se para os oficiais.
— Gradue o visor para uma ampliação da
imagem. Tenho a leve impressão de que chegamos tarde demais.
De início, ninguém entendeu o que ele
queria dizer com aquilo, mas quando o visor oval mostrou os três vultos, o
oficial finalmente compreendeu.
O ser de metal que se encaminhava para
eles era um robô arcônida.
Ao mesmo tempo divisaram Crest, que vinha
empertigado, com todo o orgulho inato de sua raça. Trazia roupas estranhas, ao
invés dos trajes espaciais usados pelos arcônidas, mas sua origem era
inconfundível. Ao seu lado caminhava um homem miúdo, de vistosa capa colorida,
certamente um habitante do planeta.
— Que pena — murmurou Kerlon, visivelmente
decepcionado. — E eu que nos julgava os primeiros a descobrir este sistema.
Estou curioso de saber quem terá chegado na nossa frente.
— Vamos ao seu encontro? — propôs o
oficial.
— Seria um gesto de amizade — acedeu
Kerlon, erguendo-se. — Desligue o visor e me acompanhe.
Kerlon não mais tinha dúvidas. Uma das
muitas expedições que exploravam o universo atrás de sistemas solares habitados
chegara àquele planeta, estabelecendo contato com os nativos. Inteiramente
normal. Assim, mais cedo ou mais tarde, mais este sistema gigantesco seria
incorporado ao Grande Império. Desta vez, porém, não seria por mérito de
Kerlon. Pena, mas nada a fazer.
— Dou o alarma? — o oficial perguntou já
sabendo a resposta.
Kerlon meneou a cabeça.
— Para quê? Evidentemente são amistosos os
habitantes deste planeta. Não fosse assim, o arcônida e o robô não poderiam se
movimentar tão livremente. Não há perigo algum, é certo.
Kerlon e seu oficial deixaram, pois, a
nave, e foram ao encontro de Crest.
* * *
Gagat e seus guerreiros mais corajosos
conseguiram se esgueirar até junto das três naves, utilizando habilmente os
arbustos e as falhas do terreno. Os onze homens agrupavam-se, bem escondidos
pela grama alta, à espera dos acontecimentos.
Viram três vultos saírem do castelo e vir
caminhando, enquanto da esquerda dois homens iam ao seu encontro. A menos de
vinte metros de seu esconderijo, os dois grupos se encontraram. Conversaram,
sem que Gagat e seus homens conseguissem compreender nenhuma palavra.
Apertaram-se as mãos.
— Eles se conhecem — sussurrou Gagat,
decepcionado. — Vieram se apoderar de nosso mundo. E Lesur é seu aliado.
Precisamos matá-los.
Radgar, o seu novo comandante, pousou a
mão direita no braço do seu chefe. Com voz rouca, segredou:
— Talvez fosse melhor levá-los como
prisioneiros, ao invés de matá-los. Enquanto estiverem em nosso poder, os
outros deuses não irão arriscar um ataque contra nós.
Gagat assentiu lentamente.
— Muito sagaz que você é — reconheceu. —
Mortos, não nos serviriam de nada, mas como reféns, sim. Cuide que nenhum deles
seja ferido. Espere até que eu dê o sinal para nos lançarmos sobre eles, num
ataque de surpresa.
Tomaram posição novamente no fundo da
depressão do terreno, na expectativa de que os forasteiros se aproximassem
mais.
* * *
Crest não se admirou muito de ver os dois arcônidas se encaminharem
para ele, sem conseguir reprimir, entretanto, uma estranha emoção.
Há dez mil anos aqueles dois estavam
mortos. Apesar desse abismo, logo estariam frente a frente. A morte fora
vencida e se tornava possível influir no futuro.
Mas, seria isso verdadeiro? O que ia fazer
agora acaso não constituiria algo de inelutável que possibilitaria o que já
acontecera dez mil anos depois?
“Contudo,
como seria, se eu não estivesse agora aqui e se Kerlon nunca me houvesse
encontrado?”, perguntava-se Crest, maravilhado. Descobriu imediatamente a
resposta. Outra pessoa estaria em seu lugar e aconselharia Kerlon a seguir para
o sistema solar.
Já se encontravam frente a frente.
— Vejo — Kerlon sorriu levemente — que
chegamos tarde demais. Você nos passou a frente.
Crest compreendeu imediatamente, assumindo
o papel.
— Encontramos este sistema por puro acaso,
Kerlon, e nos pareceu possível anexá-lo ao Grande Império. Seus habitantes se
acham prontos a se tornarem súditos.
No mesmo instante percebeu que cometera um
erro decisivo. De onde saberia o nome de Kerlon?
O outro ergueu as sobrancelhas.
— Conhece-me? Não me lembro de já nos
termos encontrado antes.
Crest logo se recobrou.
— Crest é o meu nome. Minha nave explora
os outros planetas e fiquei para trás com alguns homens. A Central de Árcon
comunicou-nos que você estava a caminho.
Kerlon meneou a cabeça.
— Seria difícil — retorquiu. — Ninguém
sabia da minha intenção de explorar esse sistema. Só se for pura suposição.
Encontramo-nos por acaso.
— Desde quando fazemos explorações sem
ordens? — Crest simulava uma leve censura, a fim de esconder seu embaraço.
Sabia que Kerlon evitaria perguntar à Central. Estar ali sem ordens seria um
procedimento ilegal. — Deixemos isso de lado — tornou Crest, sorrindo
significativamente. — Para ser sincero, não comuniquei à Central onde estou.
Julgam que apenas passei pela orla do sistema; Portanto, reivindique para si o
mérito da descoberta. Espero que assim sua simpatia por mim aumente.
Kerlon trocou um olhar de surpresa com o
seu oficial e em seguida estendeu a mão para Crest.
— Você é muito amável, Crest. Será melhor
então não comunicarmos coisa alguma à Central sobre nosso encontro. E para ser
sincero, dou grande valor ao fato de poder constar como descobridor oficial
desse sistema. Tenho minhas razões. Saiba que estou na pista de um grande
segredo, cuja posse dará aos arcônidas o domínio de todo o Universo.
Crest assentiu com a cabeça, pensativo.
— Se quer se referir à imortalidade, posso
lhe dar um bom conselho.
Os olhos de Kerlon arregalaram-se de
espanto e abalo. O que considerava como segredo seu era mencionado por aquele
comandante desconhecido como algo de secundário. Crest viu que talvez tivesse
ido um pouco longe demais. Como poderia amenizar o choque?
— Encontrei indícios — disse — de que deve
haver no Universo uma raça que descobriu o segredo da renovação das células, o
que considero uma loucura. Vejo, porém, que levou a história mais a sério do
que eu. Está bem, que cuide disso. Como não pretendo continuar a seguir a
pista, passo a lhe transmitir minhas suspeitas. A vinte e sete anos-luz daqui,
há um sistema solar...
— Eu sei — retorquiu Kerlon, para espanto
de Crest. — A pista leva até lá. Agradeço sua gentileza, Crest. Assim que tiver
registrado este sistema, o que será feito imediatamente através do cérebro positrônico,
procurarei o outro, que fica a vinte e sete anos-luz daqui. E você, o que fará?
Crest sorriu.
— Minha missão consiste em explorar o
setor AM53Y. Uma de nossas naves parece ter caído lá.
Era uma coordenada que Crest escolhera ao
acaso.
— Ótimo — assentiu Kerlon, satisfeito. —
Então podemos nos unir. Vai deixar este mundo assim que sua nave voltar?
— Pretendo.
— Como conseguiu fazer boas relações com
os nativos?
— Existem várias raças. Os habitantes
daquele castelo lá em cima pensam que somos deuses e nos são dedicados.
Ajudamo-los contra um ataque de seus inimigos, os chamados bárbaros.
— Está se intrometendo nos assuntos de um
povo inferior? — admirou-se Kerlon.
— Tivemos de nos defender.
— É proibido lutar contra raças primitivas
— ponderou Kerlon.
— Não nos casos de legítima defesa —
contraveio Crest.
Kerlon quis dizer alguma coisa, mas as
palavras ficaram presas na garganta, pois exatamente naquele momento Gagat
resolveu aprisionar os valiosos reféns.
À frente de seus guerreiros, lançou-se
sobre o pequeno grupo, cercando-o em poucos segundos. As espadas erguidas não
deram tempo a Crest de puxar a pistola de radiação que balançava em seu
cinturão. O assalto fora tão perfeito a ponto de não poder oferecer a menor
resistência, sem pôr em risco a própria vida.
Até mesmo Robby percebeu aquilo
imediatamente. Sabia que se quisesse lutar, provocaria uma situação perigosa.
Alguém certamente encontraria oportunidade para matar um dos arcônidas ou mesmo
Lesur.
Por isso manteve-se na expectativa. Para
ele pessoalmente não havia perigo, porém, a vida de seus criadores estaria
acima da sua própria. Mas, ainda que assim não fosse, não poderia ter agido de
outra forma.
Gagat encostou a ponta de sua espada no
peito de Lesur.
— Será que os deuses poderiam ajudá-lo
agora? — perguntou, zombeteiro. — Não tenha medo, nada irá acontecer com você
ou com seus amigos. Logo que entreguem as três esferas que vieram do céu,
deixo-os livres.
Ao contrário de Kerlon, naturalmente,
Crest compreendeu aquelas palavras. Desconfiava das intenções dos bárbaros, sem
fazer a mínima idéia, contudo, do que fariam com as naves.
— Estou lhe avisando, Gagat — disse Lesur
corajosamente, pois jamais estivera tão perto da morte em sua vida. — Nossos
deuses podem acabar com vocês se quiserem. Se não o fazem, é porque desejam dar
a você uma oportunidade. Liberte-nos ou se arrependerá.
Kerlon não via possibilidade de salvação.
Certamente o pessoal das naves observara o incidente, impossibilitados,
entretanto, de ajudá-los, a menos que se colocassem em perigo. Além do mais,
havia a proibição do uso de armas mortais contra povos primitivos.
Com uma gargalhada sardônica, Gagat
guardou de volta a espada, num aceno à sua gente.
— Cada prisioneiro segue no meio de dois
homens. Prestem atenção, estejam prontos a matá-los a qualquer momento, não se
deixem surpreender.
Kerlon olhou para Crest.
— Certamente ainda não está a par dos
costumes dos nativos — proferiu, numa leve censura — para que isso possa ter
acontecido. O que tem a dizer?
— Não se preocupe, Kerlon. Sem demora
estaremos livres. Meus amigos já sabem o que aconteceu e podem intervir a qualquer
momento. Talvez aguardem apenas uma ocasião mais propícia. Caso isso aconteça,
Kerlon, é favor não se espantar, nem fazer indagações.
— Como assim?
— Silêncio, agora! Os bárbaros podem
desconfiar. Mais uma coisa apenas: meus amigos mantêm contato permanente
comigo, ouvem cada palavra que dizemos. Devem atacar imediatamente, só espero
que enquanto isso os seus homens fiquem quietos nas naves.
— Se desobedecerem à ordem e tentarem me
libertar, não posso censurá-los.
— Claro que não, mas observe apenas! Nossa
prisão está prestes a findar. Mais uma vez lhe peço para não fazer perguntas.
O conselho era necessário, pois os
acontecimentos subseqüentes deviam parecer inverossímeis aos olhos de Kerlon.
A espada de Gagat como que adquiriu vida
própria. Escapou de sua mão e subiu lentamente, a poucos centímetros acima da
grama, flutuando no ar. Os bárbaros mostraram-se tão estupefatos a ponto de
esquecerem inteiramente de suas intenções, desapercebidos de que o mesmo
poderia ocorrer com eles. Portanto, não foi de espantar quando nove outras
espadas acompanharam a primeira. Aparentemente sem peso, formavam no alto uma
figura bem delineada contra o céu claro. Suspensas, as pontas encostando umas
nas outras, num círculo. Uma lacuna indicava a falta da décima primeira espada.
Apesar de toda a mágica, seu dono não
parecia disposto a desistir facilmente. Aferrava-se convulsivamente à arma em
sua mão.
Os dons telecinéticos de Anne Sloane eram,
porém, mais fortes.
A espada subiu, arrebatando o bárbaro,
agarrado a ela com desespero. O valente soldado esperneava, tentando alcançar o
chão com os pés. Tudo inútil! Já a dois ou três metros do solo, continuava
sendo puxado inexoravelmente pelo ar. Finalmente, deve ter compreendido que não
adiantava contrariar a vontade dos deuses.
Soltou-se, caindo para o chão. Anne não se
esforçou para suavizar-lhe a queda. Já era trabalho demais manter paradas em
ornamento as onze espadas.
Os bárbaros estavam desarmados.
Crest puxou tranqüilamente a pistola de
radiação e apontou-a para Gagat.
— Vejam como é inútil insurgirem-se contra
nós. E agora o melhor é desaparecerem o mais depressa que puderem. No próximo
encontro, posso perder a paciência.
Gagat lançou um último olhar para a espada
fora de seu alcance, recordou-se do efeito da fantástica arma na mão do
super-homem de cabelos brancos e seguiu o conselho. À frente de seus
guerreiros, iniciou a retirada para a orla do bosque.
Kerlon pouco tempo tinha para se ocupar
dos bárbaros em retirada. Perplexo de todo, continuava a fitar as onze espadas
suspensas. Via-se que seu cérebro trabalhava febrilmente para compreender.
Crest viu-se forçado a dar uma explicação.
— Já disse, Kerlon, para não se
surpreender. Deve ter notado como os bárbaros não ficaram muito admirados com o
que aconteceu. Apesar do primitivismo, há neste mundo coisas que mal
conhecemos. O que está vendo é o trabalho de um telecineta.
— Foi o que pensei — assentiu Kerlon
placidamente. — Você o conhece?
— É um ferrônio, cujo cérebro está adiante
de seu tempo, só isso. Como sabemos, há raças inteiras de telecinetas. Nossos
sábios...
— Eu sei — atalhou Kerlon, resignado. — Nunca
compreenderemos de todo, o que é pena. Agora, esse a quem se refere nos salvou
de uma situação perigosa. Devemos agradecer-lhe.
— Faremos isso esquecendo o incidente —
advertiu Crest. — Os ferrônios acreditam que fomos nós que lhes conferimos esse
dom. Se fizermos muito estardalhaço a respeito, poderão suspeitar.
Kerlon acedeu, olhando mais uma vez para
as espadas lá no alto. Em seguida, apontou para as naves à espera.
— Pode me dar a honra de uma visita?
Crest aceitou.
Ainda não sabia o que precisava obter de
Kerlon, para encontrar o caminho para a luz.
6
Enquanto isso, Rhodan se via diante de uma
difícil decisão.
— A última indicação nos induzia a não
esperarmos mais de três dias para voltar ao conversor de tempo. Hoje é o
terceiro dia, mas de Ferrol. Os três dias terrestres já se escoaram.
Bell empalideceu.
— E se queriam dizer dias da Terra, e
interpretamos a informação de maneira errada?
— Nesse caso não poderemos sair daqui —
respondeu Rhodan calmamente. — Acho, entretanto, que o imortal deve ter se
guiado pelo tempo do planeta onde estávamos. Com isso, nosso prazo termina hoje
à tarde. Marshall, o que está acontecendo agora?
O telepata estava sentado num sofá, a um
canto do aposento a eles reservado. Guardava silêncio, numa grande
concentração.
— Crest e Lesur acompanham Kerlon na nave
capitania da expedição. Robby ficou esperando do lado de fora. Kerlon diz que
quer mostrar uma coisa a Crest.
— Olhe! — fez Bell. — É isso aí!
— Isso o quê? — Rhodan ergueu as
sobrancelhas.
— O que procuramos, é claro. O caminho
para a luz. Ralf Marten não poderia atacar? De qualquer modo, não está fazendo
mesmo nada, só se aborrecendo por aí.
O mutante de olhos amendoados sorriu.
— Aborrecendo? Um pouco de exagero.
Contudo, talvez fosse realmente uma boa idéia se eu pudesse me apossar por
algum tempo dos sentidos de Kerlon. Marshall poderia ler meus pensamentos e
comunicar-lhes o que vejo e escuto. Para isso, deixarei no meu corpo uma
pequena parte de minha consciência. A outra parte deverá ser suficiente para
controlar Kerlon. Ele nada perceberá, e assim teremos uma boa visão do que
acontece lá na nave capitania dos arcônidas.
Rhodan concordou, satisfeito.
— Também prefiro que Crest e Kerlon não
fiquem tão sozinhos. Afinal são arcônidas.
— Não confia inteiramente em Crest? —
surpreendeu-se Bell. — Ele evitará qualquer bobagem.
— Não creio que seja de propósito, Bell,
mas os arcônidas também não são infalíveis, como já vimos. Devemos estar
prontos a intervir nos acontecimentos. O que teria acontecido se Anne não
afugentasse os bárbaros?
— Ela pôde fazer isso aqui da torre do
castelo, mas não do interior da nave, onde não vê nada. Portanto,
mantenhamo-nos duplamente vigilantes, pelos menos é o que penso. Bem, Marten,
trate de enviar seu espírito.
Marten estirou-se no sofá, depois que
Marshall lhe deu lugar. Entrou logo em transe. Não foi difícil para Marshall
captar as impressões que o outro mutante, agora dentro de Kerlon, recebia e enviava.
— Crest e Lesur estão sentados com Kerlon
e seu oficial em volta de uma mesa — relatou o telepata, a voz calma. — Kerlon
fala alguma coisa sobre certa pirâmide que descobriu em algum lugar de Ferrol.
É nas montanhas. E nesta pirâmide havia um hipertransmissor de matéria que lhe
causou admiração. Achou também outra coisa, um cilindro de metal. Vai mostrá-lo
a Crest.
Rhodan olhou para Bell.
— É, acho que deve ser o que procuramos! —
proferiu devagar.
Bell assentiu.
John Marshall continuou falando.
— Prosseguiu tentando abrir a cápsula de
metal, mas até agora nada conseguiu. Crest quer pegá-la, mas Kerlon impediu-o.
Alegou que pertence a ele e que talvez venha a pôr em perigo o seu hóspede.
Ninguém está apto a saber dos perigos deste mundo desconhecido. Acabou de
passar por um deles. Crest age como se o cilindro não o interessasse. Boa
tática, pois agora Kerlon se sente logrado na sensação que pretendia causar.
Afirma que o cilindro guarda relação com a raça dos imortais, existente em
algum lugar deste universo. Crest, no entanto, acha improvável. Representa bem
o seu papel.
Marshall calou-se. Marten permanecia
imóvel. O silêncio era absoluto no aposento, sendo interrompido finalmente pela
entrada de Anne Sloane, de regresso da torre.
— Deixei que as espadas caíssem bem lá do
alto, para se arrebentarem sobre as pedras. Não poderão usá-las por enquanto.
Rhodan aprovou com a cabeça, pedindo-lhe
que se calasse, com um aceno de mão. Anne compreendeu imediatamente. Sentou-se
ao lado de Ras Tshubai, impaciente por entrar em ação.
Marshall recomeçou a falar e relatou o que
Marten via através dos olhos de Kerlon.
— Um oficial entra na cabina onde os
quatro homens se encontram sentados. Revela que um grupo de nativos se
esgueiram em direção à nave, como que para tomá-la de assalto. Pela descrição,
só podem ser bárbaros. Kerlon está preso às suas instruções. Não pode iniciar
luta alguma. Crest decide deixar imediatamente a nave. Lesur parece
desesperado. Sem a proteção da nave, julga-se perdido, apesar de toda a mágica
dos deuses. Crest ergue-se, mas hesita. A cápsula de metal, como levá-la com
ele? Kerlon parece notar seu interesse. Sorri, enfiando o cilindo no cinturão,
onde crê que esteja em segurança. Em seguida, se oferece para acompanhar seus
hóspedes até a escotilha.
Rhodan voltou-se, rápido, para Anne.
— Pode-se ver bem a nave lá da torre? A
telecineta assentiu, solícita.
— Muito bem, até. Como também a Robby.
Está debaixo da escotilha da nave central.
— Esplêndido! Ras, venha conosco. Anne,
também. Marshall, fique aqui e escute o que Marten tern a contar. Vamos! Você
também, Bell!
Passaram correndo por alguns ferrônios
espantados, e subiram os muitos degraus ascendendo à plataforma, e de lá à
torre.
Ali de cima tinha-se uma visão magnífica
até as montanhas distantes. Na planície havia três naves gigantescas
elevando-se até o céu, tampando a vista daquele lado. Saindo do bosque, cerca
de cem bárbaros se lançavam sobre as naves. A distância era ainda de meio
quilômetro. Naquela última tentativa desesperada, Gagat não procurava mais
disfarçar suas intenções. Atacava abertamente as naves espaciais com lanças e
espadas. A indulgência até agora demonstrada pelos deuses certamente o
encorajava. Confundia benevolência com fraqueza.
Crest abandonou a nave em companhia de Lesur.
Na escotilha se achava Kerlon. Via-se distintamente o cilindro em seu cinturão.
Fez um aceno, aparentemente sem se preocupar em averiguar como Crest se poria
em segurança. Talvez, no fundo, aguardasse que a testemunha do seu suposto
fracasso viesse a desaparecer.
O que seria uma loucura. Afinal Crest lhe
garantira que desistiria do direito da descoberta. Qualquer que fosse a razão,
no entanto, Kerlon seria curioso o suficiente para esperar um pouco antes de
partir, à espera de ver como o outro se sairia da situação.
O robô esperava por seu senhor. Sem se
preocupar com os bárbaros que avançavam, começou a andar em direção ao castelo.
Gagat já se atinara o bastante para não se
preocupar com os três homens que tentara agarrar inutilmente. As naves eram a
sua meta, apenas isso.
Crest sabia que falhara em sua missão.
Avistara o cilindro de metal e adivinhara instintivamente ser aquilo que
deveriam buscar no passado. Mas como tirá-lo à força de Kerlon? Que aconteceria
se Kerlon começasse a desconfiar? Seguiria em direção ao sistema solar?
Rhodan precisava intervir agora.
Kerlon acompanhou Crest com o olhar.
Começava aos poucos a sentir como era
estranho aquele encontro. Quem seria aquele homem, que sabia tanto, mas fazia
tantas perguntas? Por que desistiria espontaneamente da glória de ser
considerado o descobridor de um sistema habitado? O que saberia daquela raça, a
respeito da qual tudo se ignorava?
Perguntas e mais perguntas, sem resposta
alguma.
Kerlon verificou que os bárbaros não se
preocupavam com Crest, nem com o robô, nem com o nativo. Os três se
encaminhavam, desinteressados, em direção ao castelo próximo. Os bárbaros, no
entanto, estavam mais próximos, balançando as espadas primitivas, sedentos de
luta.
Kerlon virou-se de súbito, querendo subir
para a comporta de ar. Tropeçou e perdeu o equilíbrio por alguns segundos.
Agarrou-se na borda da escotilha., mas com esse movimento inesperado, o
cinturão afrouxou-se. O cilindro liso escorregou, caindo verticalmente lá
embaixo, sobre a grama alta, sob a escada.
Kerlon viu-o cair numa pequena depressão
do terreno, rolar para um lado e lá ficar.
Hesitou. O tubo era uma parte componente
da pista a ser seguida. Precisava reavê-lo. Além do mais, os bárbaros já se
aproximavam e começavam a jogar suas lanças sobre ele. Não podia se defender,
nem usar força. Lei é lei, e Kerlon não haveria de saber que essas leis seriam
mudadas dentro de algumas centenas de anos.
Gritou uma ordem. Um oficial ouviu-a e
passou adiante. Alguns segundos depois, as duas outras naves decolaram,
ganhando lentamente altura. Apenas a capitania permanecia em seu lugar. Alguns
segundos depois, entraram em ação alguns canhões caloríferos.
Os bárbaros apavoraram-se ao virem surgir
a seus pés um círculo de fogo aproximando-se inexoravelmente. A grama começava
a se queimar. A fumaça subia aos céus. Hesitaram no ataque, que parecia ter
começado tão bem.
Kerlon soltou a escada rolante e desceu no
meio da proteção do círculo de fogo que os canhões haviam formado em volta da
nave. Ninguém poderia penetrar ali. Precisava pegar o cilindro de metal.
Saltou na grama ressequida, à cata da
depressão no chão. Havia de ser por ali. Olhou em volta, indeciso, sem se
preocupar com as poucas lanças atiradas a esmo atravessando a cortina de
fumaça.
E então, ao ver o tubo no chão, próximo a
seus pés, uma coisa terrível aconteceu.
No meio da fumaça, um vulto negro
materializou-se.
A aparição usava uniforme, mas era de
rosto escuro, assim como as mãos e os braços nus.
Kerlon quase morreu de susto, mesmo nada
tendo de supersticioso. Antes que pudesse se mover, a aparição negra curvou-se
para o cilindro de metal e apanhou-o. Enquanto Kerlon ainda olhava, perplexo,
alguém lhe tomar a dianteira, Ras Tshubai dissipou-se novamente no ar e
desapareceu.
E com ele, conforme Kerlon constatou na
sua fúria impotente, o tubo de metal a que dava tanta importância.
Uma lança passou sibilando junto à sua
cabeça, recordando-lhe o fato de se achar em perigo imediato. Pulou depressa na
escada rolante que agora se movia em sentido contrário, alçando-se em direção à
escotilha. Tinha um ódio gelado, a esse Crest, à aparição negra e a tudo o que
havia nesse planeta habitado.
Mas lei continuava sendo lei.
Deu partida à nave, à procura das duas
outras esferas espaciais que já o esperavam na camada superior da atmosfera.
Aterrizaram em outra região de Ferrol,
onde permaneceram três dias. Só então deixaram definitivamente o planeta.
Cruzaram o sistema sem parar, passando por
planetas mortos e desabitados, até alcançarem o espaço exterior, além do quadragésimo
terceiro planeta, quando Kerlon ordenou a transição. A meta era um sistema a
mais de vinte e sete anos-luz de distância, onde o terceiro planeta mostrava os
primeiros sinais de uma civilização emergente, que procurava se livrar dos
traços de primitivismo.
Ali estavam nascendo os antepassados dos
que iriam construir a Torre de Babel.
7
Rhodan fitava, indeciso, o tubo de metal.
Bell fazia suas observações costumeiras.
— Parece uma caixa de colecionar ervas —
resmungou. — O que pode ter dentro?
— Uma das muitas respostas de que
precisamos para chegar à solução da charada galáctica, um pequeno passo adiante
na pista sem fim para a eternidade. Não nos resta muito tempo para especulações
a respeito. Nosso prazo está quase terminado.
Já se tinham despedido de Lesur e dos consternados
ferrônios e se achavam de volta à câmara vazia embaixo do castelo. O bloco
metálico continuava imóvel, inalterado no centro do aposento. Mediante seu
aspecto, não se podia saber se ainda se encontravam num passado remoto ou se já
estavam de volta ao presente. A única indicação era o tamanho da abóbada. Ao
chegarem, ela havia se alargado. Deveria, portanto, estreitar-se quando
começasse a viagem para o futuro.
Rhodan consultou o relógio.
— Os três dias terminaram. Somente uma
questão de minutos e então...
Calou-se de repente e pôs-se à escuta. Em
algum lugar dos extensos corredores lá fora, diante da porta, alguém gritara.
Um grito prolongado. Em seguida, ouviu-se o tinir das espadas umas contra as
outras. Segundos mais tarde, o barulho do início de um ataque contra as tábuas
da pesada porta de madeira.
Ras Tshubai ergueu-se. Olhou Rhodan
interrogativamente. Bell lançou um olhar rápido para o tubo de metal e disse
apressadamente:
— São os bárbaros. Tomaram novamente o
castelo. Nossa ajuda aos ferrônios foi inútil.
— O destino tem cartas marcadas — retrucou
Rhodan, pensativo. — A vitória do pessoal de Lesur não tinha mesmo de
acontecer. Agora é tarde demais para ajudá-los.
Bell quis dar uma resposta, mas já não
conseguia. Violentos golpes vibravam contra a porta que os separava da abóbada
subterrânea do castelo. Vozes nervosas vociferavam. Deram-se ordens e em
seguida fez-se um silêncio repentino. Uma voz profunda disse algumas palavras e
uma gritaria de triunfo irrompeu. Passos se afastaram e retornaram segundos
depois. Colocaram-se objetos diante da porta. Homens riam na expectativa.
Rhodan olhou para Ras Tshubai.
— Vá ver o que pretendem. Mas tenha
cuidado e volte imediatamente.
Ras assentiu e o lugar onde estava ficou
vazio.
Apenas cinco segundos, porém, e logo Ras
estava de volta. Materializou-se e Rhodan imediatamente notou uma ferida que
sangrava em seu pescoço.
— Querem fazer voar a porta! — arquejou o
africano, apertando o ferimento com a mão. — Devem ter achado pólvora no castelo.
Um dos bárbaros tinha tanta presença de espírito que atirou sua espada em minha
direção. Não foi nada grave, mas temos de desaparecer imediatamente, ou
estaremos perdidos.
— Desaparecer é uma boa — gemeu Bell,
furioso. — Se esse conversor de tempo não funcionar, voaremos pelos ares. Com
todo esse cilindro de metal!
Rhodan viu de novo a hora.
— Já é tempo. Agora ou nunca.
Voltou-se para Crest:
— Como é que o imortal pode saber que
cumprimos a missão? Ele se encontra no presente ou veio conosco para o passado?
Antes que Crest pudesse responder, o robô
falou:
— Ele não veio conosco, mas seu espírito
está entre nós, no conversor do tempo. Ponha o cilindro de metal sobre o
conversor, senhor, que o sistema eletrônico verificará então se é isso o que
devemos buscar.
Rhodan obedeceu em silêncio.
Enquanto isso, lá fora diante da porta,
pairava um silêncio absoluto. Os bárbaros deviam ter se retirado. Talvez a
mecha já estivesse acesa.
— Tente apagá-la, Ras.
Enquanto isso, Anne colocara uma atadura
ligeira no ferimento do africano. Sem raciocinar muito, Ras obedeceu ao comando
de Rhodan, apesar de com isso arriscar-se a ter de ficar para trás, no caso de
uma súbita transição do aposento para o futuro.
Três segundos depois, já estava de volta.
— Impossível! — gritou, de olhos
arregalados. — Inteiramente impossível! Não dispõem de uma mecha, mas
simplesmente de pólvora espalhada por todo o porão. Acho que vão fazê-la
explodir com uma flecha incendiaria. Contra isso não posso fazer nada.
— Então temos imediatamente de impedir —
principiou Crest, mas logo foi interrompido pelo zumbido que começava a vir do
conversor do tempo. O chão sob seus pés começou a vibrar. Lentamente, o
aposento começou a encolher. As paredes se tornaram novamente lisas.
A viagem para o futuro começara.
Quase que tarde demais.
Enquanto a porta de madeira desaparecia e
se transformava numa parede lisa de metal, as ondas de pressão causadas por uma
explosão jogavam ao chão os viajantes do tempo. Um intenso brilho luminoso fez
com que fechassem os olhos, mas o calor que de repente sentiram desapareceu
imediatamente. Ao mesmo tempo, voltou a escurecer.
— Estamos a caminho — disse Rhodan,
aliviado, mas com tamanha naturalidade como se as viagens temporais fossem
rotina em sua vida. — Acho que conseguimos.
Ao retornarem à base de Ferrol, avistaram
Thora.
A arcônida olhou-os, espantada, não se
mexendo ao ver Rhodan, Crest e os demais. Podia-se ver a decepção estampada em
seu rosto. Mas então, ao descobrir nos rostos dos homens a barba de três dias,
a decepção transformou-se em perplexidade.
Caminhou, vacilante, até o grupo e
observou o rolo de metal nas mãos de Rhodan. Só com muito esforço conseguiu que
as palavras lhe viessem aos lábios.
— O que significa isso? — indagou. — De
onde foi que o trouxeram?
— De Kerlon — respondeu Rhodan. — Por que
acha tão estranho? Nosso empreendimento não visava isso?
Thora fez que sim.
— Como poderia esquecer... em tão pouco
tempo!
Acentuou particularmente as quatro últimas
palavras, pousando o olhar interrogativamente nos rostos dos homens. Crest
compreendeu logo. O imortal gostava de pregar peças nos mortais. Já acontecera
uma vez. Para ele a modificação do conceito de tempo era apenas um brinquedo e
portanto um meio de enganar e desconcertar os perseguidores voluntariamente
atraídos pelas pistas.
— Quanto tempo estivemos fora? — perguntou
Crest.
— Exatamente meia hora — respondeu Thora,
em voz baixa.
Rhodan assentiu lentamente com a cabeça.
— Acho — observou com segurança — que devemos
nos acostumar com esse tipo de coisas, enquanto tivermos de lidar com esse ser
que domina o tempo e as dimensões. Muitas vezes procuro imaginar qual seria sua
aparência, mas não chego a conclusão alguma.
E, para espanto de todos, o robô meteu-se
de novo na conversa, sem ter sido convidado a falar.
— O imortal não tem absolutamente
aparência...
* * *
Rhodan estava sentado na central do
cérebro positrônico.
Fora fácil abrir a cápsula de metal. O
fecho automático da tampa abrira-se ao chegarem ao presente. Um fecho temporal,
nada mais.
No tubo havia uma folha fina de metal,
coberta com uma escrita luminosa. Rhodan tirou apenas uma fotocópia antes de
inserir a folha original no cérebro positrônico. Em seguida, o alto-falante
anunciou:
— Não está em código. O texto será
traduzido imediatamente e fornecido por escrito. Estará pronto dentro de meia
hora.
Isso acontecera há vinte minutos.
Crest, Bell, Haggard e Thora esperavam, em
companhia de Rhodan.
O chefe da Terceira Potência voltou-se
para Crest e disse:
— Devemos ter em mente que as tarefas estão
se tornando cada vez mais difíceis. O imortal tem cada vez menos consideração
conosco. Se nos metermos em algum perigo mortal, teremos de nos livrar
sozinhos. Se morrermos... — encolheu os ombros.
Crest assentiu, em tom grave:
— A pista se torna mais confusa e mais
difícil de seguir. Disposta de tal forma, porém, que seres de inteligência
excepcional e com dons especiais não a pudessem perder. Quem não possuir essas
qualidades no grau exigido, estará perdido. E se morrer durante a busca, será
porque não merece a imortalidade. Nosso amigo desconhecido calculou tudo.
— Tenho certeza de que nossa próxima
tarefa será um pouco mais difícil, Crest.
— Pode ter certeza disso. Mas em
compensação, estaremos mais próximos de nossa meta. Isso nos deve servir de consolo.
— E da próxima vez — atalhou Thora, em tom
indiferente — irei junto. Também tenho direito a isso.
Antes que Rhodan pudesse responder,
intensificou-se o zumbido do cérebro positrônico. O cartão com o texto
traduzido, expelido através da fenda de emissão, caiu em cima da mesa, com a
parte escrita para cima. Bell agiu com rapidez e foi o primeiro a apanhá-lo.
Ergueu-o bem perto dos olhos e viu o que estava escrito:
Aquele
que quer encontrar o caminho ainda tem permissão de desistir. Mas, se quiser
prosseguir, saiba que não receberá mais auxílio. Em breve, o espaço sofrerá um
abalo. Esteja atento e procure, mas lembre-se de que este mundo é gigantesco e
desconhecido.
Bell baixou a folha de papel depois de
lê-la em voz alta, e olhou, perplexo, para Rhodan.
— Afinal o que quer dizer dessa vez? Será
que se trata mesmo de um texto compreensível?
Rhodan não respondeu. Permaneceu sentado,
imóvel, de olhos semicerrados. Crest tirou o papel da mão de Bell e leu a
misteriosa mensagem várias vezes, com toda a atenção, antes de passá-la para
Thora. A arcônida também procurou encontrar um sentido nas palavras.
Bell mais uma vez revelou sua natureza
impaciente.
— O espaço vai sofrer um abalo — berrou,
batendo na mesa com o punho cerrado. — E temos de esperar por isso? Talvez uma
explosão atômica?
— Absurdo! — exclamou Crest. — A simples
transição de uma nave grande pode abalar o espaço. Talvez surja alguma nave.
Mas o que significa a menção de um mundo gigantesco e desconhecido? Não pode
ser Ferrol.
— Minha intuição me avisa, Crest! —
proferiu Thora. — O que nos espera não é nada bom. Estamos sendo postos à
prova. Até agora temos tido sorte, muita sorte mesmo. Mas, e se ela nos
abandonar?
— Sem a esperança de ter sorte, a vida
deixa de ter sentido! — filosofou Haggard. — Quero dizer é que não devemos
desistir. O que acha, Rhodan?
Perry Rhodan fez lentamente que sim. Todos
notaram o brilho duro em seus olhos e perceberam que a busca do planeta da vida
eterna continuaria. O caminho estava diante deles, e não iriam se desviar. No
fim dele, estaria a eternidade.
— Não quebremos a cabeça quanto ao que
significa esse abalo — declarou Rhodan, com voz firme. — No tempo certo,
saberemos. Saberemos também a que mundo se refere. Há outra coisa, porém, que
me causa preocupação, outra coisa muito diferente. E vocês todos vão saber a
que me refiro. Não será preciso que cada um descubra sozinho.
Bell curvou-se para a frente.
— Como assim, Rhodan?
— Na mensagem está escrito que muito breve
o espaço sofrerá um abalo. Quando foi escrito isso? Há dez mil anos? Antes
ainda? Pergunto simplesmente o que um imortal compreenderá por “em breve”?
Ninguém foi capaz de lhe dar uma resposta.
“Em
breve” podia significar daqui a mil anos.
Mas também podia ser amanhã!
* * *
Apesar de todos os perigos trazidos pela permanência no passado
longínquo do planeta Ferrol, Perry Rhodan e seus companheiros voltaram à sua
própria época.
Mas sua procura não terminou aí. Estão novamente de posse de uma
mensagem do desconhecido, que indica novos e maiores perigos: “...em breve o
espaço sofrerá um abalo. Esteja atento e procure, mas lembre-se de que este
mundo é gigantesco e desconhecido!”
O que espera Perry Rhodan em sua etapa seguinte, vocês vão ler no
próximo volume da coleção Perry Rhodan: Os Espíritos de Gol.

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