sábado, 20 de outubro de 2012

P-015 - Pista no Tempo e no Espaço - Clark Darlton [parte 3]

Os homens podem construir robôs, estes, porém, continuarão sempre como obras humanas. Agem como lhes é ordenado, não conhecem pensamento independente, pois não são inteligentes.
Os robôs dos arcônidas são diferentes. Dispõem de um cérebro capaz de pensamento autônomo. Não precisam de instruções para reconhecer o perigo. Agem com independência, porque são capazes de ter pensamento independente.
Robby estava ao lado de Bell. Viu que estava sendo efetuado um visível ataque contra ele e agiu de acordo com as circunstâncias.
Bogar teve um momento de hesitação, ao ver o estranho ser caminhando em sua direção. No fundo, aquele estranho era o único que não parecia tão estranho assim, pois também usava uma armadura de metal. Como os bárbaros poderiam saber que Robby era um ser metálico?
Um verdadeiro adversário”, pensou Bogar. Só estranhava que não usasse arma alguma. Teria intenção de lutar de mãos nuas contra uma espada?
Bogar não se preocupou mais com Bell. Concentrou toda sua atenção no robô, que se encaminhava lentamente para ele, com os braços estendidos. Bell observava a cena com o canto dos olhos. Tinha de continuar prestando atenção para que os raios permanecessem dirigidos sobre os bárbaros.
Bogar, inteiramente coberto pela armadura, ergueu a espada com as duas mãos e desceu-a sobre a cabeça de Robby. A força do embate teria rachado qualquer elmo. Mesmo um escudo não teria sido de grande utilidade.
Bell não sabia como poderia absorver tantas impressões ao mesmo tempo. Primeiro a espada do bárbaro se transformou num pedaço de ferro retorcido. Em seguida, foram os dois pulsos de Bogar que se quebraram. Com um grito, deixou cair as armas, agora inúteis, e caiu de joelhos. Lágrimas de dor corriam-lhe pelas faces. Não perdia, porém, de vista o maravilhoso guerreiro que se mostrara tão invulnerável.
Robby não prestou mais atenção em Bogar. Nem parecia ter sentido o golpe. Com passos quase mecânicos foi em frente, passando pelo meio do feixe de raios das pistolas positrônicas, contra os quais tinha uma proteção automática. Com um movimento súbito, pegou a espada levantada do bárbaro mais próximo e bateu-lhe nas costas com o lado chato. O soldado cambaleou, conseguiu reerguer-se e saiu correndo, soltando um urro assustador.
Dois bárbaros se decidiram. Do seu ponto de vista, a escolha não era difícil. Ou morreriam sem poder reagir, ou tentariam chegar guerreando a algum lugar seguro. Lançaram-se com toda a sua força contra o robô. Bell teve que admitir, surpreso, que o robô era um extraordinário esgrimista, e para isso a blindagem de arconita revelava-se uma proteção eficiente. Os golpes de espada ricocheteavam, sem fazer efeito algum. Por outro lado, dois golpes de Robby arrebentaram as armaduras dos bárbaros. Saíram faíscas quando as finas paredes de metal se despedaçaram. Os dois bárbaros procuraram salvar-se pela fuga.
Isso foi suficiente para os demais.
— Os deuses estão do nosso lado! — gritou-lhes Lesur, que assim também esclarecia a situação para os seus próprios homens, prontos a sair em disparada.
Bell suspendeu o fogo. Bogar foi aprisionado. Por precaução, Robby pôs a espada danificada numa saliência do muro e disse para Bell:
— Um modo muito interessante de combater. É preciso uma certa habilidade para isso.
Crest se meteu na conversa.
— Você também tem suas partes vulneráveis, Robby! Se algum golpe de espada tivesse por acaso atingido alguma delas, estaria liquidado.
— Ele tinha de correr o risco — defendeu-o Bell, que cada vez simpatizava mais com o robô.
Enquanto isso, Lesur chegava à entrada do salão. Seu aviso de que os deuses haviam expulsado os inimigos e libertado os ferrônios provocou um júbilo indescritível. As mulheres e os jovens, ainda quase meninos, apinharam-se no corredor e caíram de joelhos diante de Bell e do robô. Crest e Haggar se mantiveram na retaguarda. Observavam o quadro tão fora do comum com um misto de emoções. No centro de uma multidão em adoração, estavam Bell e Robby, um homem e um ser de metal e positrons. Em algum lugar, Bogar estava gemendo. No andar de cima ainda se ouvia o tinir das armas. Os ferrônios expulsavam os inimigos em fuga.
Lesur saiu do salão. Ao chegar diante de Bell, também se jogou ao solo. Ergueu os braços, numa súplica.
— Obrigado, ó deuses! Sabemos que sempre aparecem nos momentos de grande perigo. O inimigo foi derrotado. E agora, digam qual o seu preço. Estamos prontos a pagá-lo.
Bell raciocinou febrilmente. O que Rhodan teria respondido em seu lugar? Por que razão estavam ali?
Havia sido pela nave espacial da expedição arcônida de dez mil anos atrás.
— Nobre Lesur — começou com precaução — não desejamos agradecimentos. Mas é nossa intenção passarmos alguns dias entre vocês. Dê-nos um aposento, onde possamos ficar. Iremos de novo embora, assim que saudarmos nossos amigos que em breve descerão do céu.
— Amigos do céu! — balbuciou Lesur, com veneração. — De volta à câmara fechada?
— É — assentiu Bell, olhando por sobre as cabeças abaixadas a seus pés.
E soltou um suspiro profundo. “Que pena”, pensou, “que Rhodan não possa ver isto.”



                                                                              5            



Passaram-se dois dias.
Hóspedes do Vice-Thort dos ferrônios, os membros da expedição através do tempo continuavam a vagar pelo castelo reconquistado. Servidores diligentes lhes traziam tudo de que precisavam. Enquanto isso, Ras Tshubai fechara por dentro a câmara onde estava o conversor de tempo, de modo a que ninguém pudesse ali penetrar. Não queriam perder, por obra de leviandade, sua única possibilidade de voltar ao presente.
Através de uma conversa com Lesur, havia sido confirmado que os arcônidas não teriam sido os primeiros astronautas a pousarem em Ferrol.
— Há muitos sóis — informou o Vice-Thort, todo mistério — vieram dos céus os primeiros deuses. Nossos antepassados os ajudaram. Em troca, receberam maravilhosos presentes que ainda hoje podem ser vistos por toda a região. Lá embaixo, no porão do castelo, há uma dessas gaiolas. Ninguém deve se aproximar delas, pois seu significado se perdeu. Já houve muitos valentes que entraram nela e desapareceram diante de nossos olhos, sem nunca mais voltarem.
— Nunca mais? — redargüiu Rhodan, erguendo as sobrancelhas. Podia entender bem o antecessor do futuro Thort, mas ainda não tudo. Era evidente que, nessa época, os ferrônios ainda não tinham conhecimento dos hipertransmissores da matéria. Passariam milhares de anos antes que obtivessem os conhecimentos necessários para isso.
— Houve um que voltou — retorquiu Lesur. — Uma história estranha. Era um sábio. Entrou na gaiola, lá embaixo no porão, moveu a alavanca e desapareceu. Dois anos depois é que ressurgiu no castelo, com as roupas rasgadas e meio morto de fome. Afirmou ter vagado por boa parte do planeta, não quis revelar, no entanto, como fora parar tão longe.
Rhodan teve um aceno afirmativo.
Ainda levaria muito tempo até que esses selvagens primitivos pudessem compreender o mecanismo da teleportação. Era cedo demais para isso. E sem dúvida não competia a ele esclarecer os ferrônios. Entretanto, o hipertransmissor o interessava.
— Posso ver o aparelho?
— A gaiola? — Lesur estremeceu. Parecia ter medo de que os deuses, portadores da felicidade, pudessem desaparecer dali sem deixar vestígios. — Se assim ordena, senhor...
— Conhecemos esses aparelhos — sossegou-o Rhodan. — Caso desapareça, voltarei depois.
Rhodan aventurou-se a dar o salto ao meio-dia do segundo dia. Ao materializar-se era noite escura. O hipertransmissor realmente o levara através de meio planeta. Pelo que pôde perceber, o receptor-transmissor ficava em uma espécie de templo, sobre o pico de uma montanha, solitário e esquecido. Um falso santuário de gerações passadas.
Não, não fora esquecido!
Mal Rhodan acabara de se materializar, sombras fugidias moveram-se por entre as pedras do templo em ruínas. Alguns dos vultos lançaram-se, silenciosos, sobre ele. Em suas mãos pôde ver o brilho das espadas. Sob a luz das estrelas, Rhodan reconheceu hábitos esvoaçantes.
Sacerdotes!
Não hesitou um segundo. Com uma pressão na alavanca, acionou o mecanismo de transmissão e apareceu novamente diante do espantado Lesur, no porão do palácio.
Voltou em silêncio para o aposento que servia ao mesmo tempo de sala de estar e de dormitório para os membros da expedição através do tempo. Suas suposições se tinham confirmado. Ao naufragarem em Ferrol, os imortais haviam deixado para seus habitantes um espetacular sistema de transporte, mas era um presente de significado ainda obscuro. Ali no castelo o hiper-transmissor não tinha sentido algum, enquanto do outro lado do planeta era vigiado com veneração por sacerdotes desconfiados.
Não havia dúvida, todos os que se tinham aventurado a ousar o salto para o desconhecido haviam sido mortos por eles, com exceção do sábio.
Na manhã do terceiro dia pousaram as três naves dos arcônidas.

* * *

A semelhança do comandante Kerlon com Crest era apenas exterior.
A raça dos arcônidas ainda não mostrava sinais de degenerescência, pois ainda se encontrava no auge de seu desenvolvimento. O Grande Império florescia e aumentava a cada expedição bem sucedida.
E Kerlon sabia estar perseguindo um segredo aparentemente impossível: a imortalidade, a vida eterna!
Em algum lugar, nessa parte da galáxia, existia um planeta habitado por uma raça que descobrira o segredo da renovação celular. Os indícios haviam sido obtidos nas diversas escalas feitas. Todas as pistas conduziam a esse sistema. E igualmente, a distância de vinte e sete anos-luz, a um outro, de uma estrela amarela e nove planetas, um dos quais se distinguia por seus três anéis.
Kerlon pousou inicialmente num continente desabitado do oitavo planeta desse primeiro sistema, que possuía quarenta e três planetas. Essa escolha fora involuntária e inteiramente casual. O planalto rochoso não apresentava sinal algum de vida. Apenas a alta pirâmide de base quadrangular de metal desconhecido, denunciava a presença anterior de seres inteligentes.
Há mil anos? Há dez mil anos?
A pirâmide era oca e a entrada podia ser aberta com facilidade. Sem hesitar, corajoso e audaz. Kerlon entrou com alguns cientistas. Não sabia o que o esperava, nem qual era o seu destino. Agia por obra do instinto.
Muito abaixo da superfície, encontrou um pequeno aposento pentagonal. No centro havia uma mesa, tendo em cima um objeto.
As paredes emitiam com regularidade uma luz incandescente, refletida pelo objeto, levando a supor que possuísse luz própria.
Um tubo de metal, talvez um cilindro oco.
Os companheiros de Kerlon observaram o comandante adiantar-se, de mão estendida para o objeto. Pareceu-lhes que a paciência dos desconhecidos se esgotaria agora. Não teriam sido vítimas de uma cilada bem preparada?
Nada aconteceu, entretanto, quando Kerlon ergueu o tubo de metal e levou-o consigo. Era leve e fácil de carregar. Talvez tivesse uns trinta centímetros de comprimento e no máximo uns dez centímetros de diâmetro. Uma cápsula vedava uma das extremidades, desafiando todos os esforços para retirá-la.
Kerlon voltou impaciente para sua nave. A contragosto, entregou o tubo a seus cientistas, verificando com alguma satisfação que também eles nada conseguiram.
Voltou mais uma vez à pirâmide, sem encontrar, todavia, mais nada de importante. A não ser uma estranha gaiola que seus cientistas descobriram num aposento lateral.
Mais uma vez, Kerlon não hesitou em arriscar sua vida pelo bem de seu povo. Conhecia a função daquela alavanca no interior da gaiola. Entrou e puxou-a para baixo.
Seus companheiros tiveram então a certeza de que os desconhecidos agora atacariam, e desta vez Kerlon não escaparia de sua ira. Desaparecendo o comandante diante de seus olhos, dissiparam-se as últimas dúvidas. Tinham perdido seu chefe.
Kerlon, no entanto, não ficou muito tempo desaparecido. Dez segundos mais tarde já estava de volta, um pouco pálido e assustado, mas, para surpresa e alegria dos arcônidas, sem um arranhão sequer. Atacado de perguntas, Kerlon apenas balançou distraidamente a cabeça, olhou para o sol quase a pino lá fora e deixou-se cair sentado sobre uma pedra perto da entrada da pirâmide. Percebeu não mais ser possível deixar de falar.
— Meio-dia agora — disse lentamente. — Por alguns segundos, do outro lado do planeta, em algum lugar, estive sob a noite mais escura. Aquilo lá dentro da pirâmide é um hipertransmissor de matéria. Conhecê-mo-lo teoricamente, mas nunca conseguimos construir um. Como é possível existir um aparelho assim num planeta habitado apenas por selvagens primitivos?
Ninguém lhe pôde responder.
Claro que naquele mundo não havia alguém de inteligência capaz de compreender o que representava esse hipertransmissor. Mesmo os arcônidas. Estava em perigo o nascente império galático. Subitamente surgira um adversário a ser levado a sério. Só que inteiramente desconhecido.
Urgia descobrir, não fosse mediante o tubo, talvez através do hipertransmissor: um dos dois os levaria a seus construtores. Cumpria, portanto, experimentar todos os hipertransmissores daquele planeta.
Tarefa difícil, pois se uma parte de seus habitantes era assustadiça e respeitosa, a outra agia com manifesta hostilidade. Ainda mais que os arcônidas consideravam indigno deles lutar contra raças inferiores, havendo mesmo uma proibição a respeito. Assim, não restava margem à organização eficaz de um sistema defensivo.
Era uma questão de sorte. Para uns eram deuses os viajantes espaciais que ali desciam, para outros, inimigos encarniçados que deveriam ser combatidos. Portanto, restava era procurar os que ainda davam valor às tradições religiosas.
Kerlon partiu com sua frota e, depois de muita procura, pousou exatamente ao lado de um castelo construído no topo de uma pequena colina. Os vastos campos até as montanhas distantes indicavam a presença de uma administração planificada.
Apesar de certa esta conclusão de Kerlon, não deixava, no entanto, de ser falsa.
Não poderia adivinhar que nos bosques próximos se escondiam bárbaros, à espera apenas de uma oportunidade de se vingarem da derrota. Kerlon ignorava também que nesse meio tempo Gagat já se recuperara do choque de ter lutado contra deuses. Aliás, nesse meio tempo chegara à conclusão de que isso eles não eram. O mundo era grande e nele viviam mágicos poderosos. Não bastava a força para vencê-los num ataque de surpresa. Também eram necessárias a astúcia e a inteligência.
Sendo assim, reuniu ao seu redor os sobreviventes do ataque malogrado e juntos puseram-se à espreita. Chegaria um momento que esses forasteiros teriam de deixar o castelo e então seriam liquidados.
Mas qual não foi a surpresa dos bárbaros quando, no terceiro dia, de madrugada, três gigantescas esferas prateadas surgiram no céu matutino! Muito maiores que o sol, o olho do deus. E se aproximavam cada vez mais. Pousaram bem longe do bosque.
Gagat teve de usar toda a sua força de persuasão e autoridade para impedir a fuga imediata de seus guerreiros, que não primavam pela coragem. Contudo, não podiam ser mesmo levados a mal os soldados derrotados. No castelo havia deuses e agora outros mais chegavam do céu como reforço. Pareciam impossíveis de combater.
Mas Gagat era de outra opinião. E os acontecimentos que se seguiram lhe dariam razão, ou ao menos assim se afigurava no princípio.
Quando Rhodan e sua gente foram avisados da chegada das três naves, logo atinaram que a pista dos imortais era infalível.
Os acontecimentos haviam sido fixados em todos os seus pormenores há dez mil anos. Só não atingiria a meta quem perdesse a pista. Uma coisa estava, pois, subordinada à outra.
E Rhodan queria alcançar essa meta.
O próprio Lesur foi quem trouxe as novidades. Estava muito agitado.
— Senhor, eles chegaram, conforme disse.
Somente por fora Rhodan manteve sua calma. Por dentro, desencadeava-se uma tormenta. Haviam chegado os arcônidas, os mesmos que há quase dez mil anos pousaram no sistema solar e construíram sua base em Vênus.
O tempo girara ao contrário. Só agora Rhodan compreendia isso em todo o seu alcance e significado.
— Onde desceram, Lesur?
— Lá fora na planície. Deseja cumprimentá-los?
Rhodan lançou um olhar interrogativo a Crest. O arcônida balançou a cabeça de modo quase imperceptível. Rhodan admirou-se mas não fez perguntas.
— Nós lhe mandaremos um representante. Espere lá fora perto do portão.
Quando o ferrônio saiu, Rhodan olhou interrogativamente para Crest. O arcônida sorriu levemente.
— Não queremos despertar sem necessidade a desconfiança de Kerlon. Além disso, não consta no Arquivo Central que a expedição tenha descoberto seres humanos no sistema Vega. Portanto, eu mesmo irei.
— E será menos suspeito?
— Claro que sim — asseverou Crest. — Há dez mil anos, havia muitas naves arcônidas que exploravam o universo conhecido e o desconhecido. Nem sempre mantinham comunicação entre si. Portanto, Kerlon não me conhece. Direi a ele que chegamos há meses e pesquisamos bem todo o planeta. Talvez o convença a prosseguir até a Terra.
— Isso seria... — ia dizendo Rhodan, mas faltou-lhe o fôlego.
Olhou admirado para Crest. O arcônida continuava a sorrir.
— Isso explicaria o fato de Kerlon ter se dirigido tão depressa para o sistema solar de vocês e levado tanto tempo lá, à procura do planeta da imortalidade, até ser surpreendido pela morte. Posteriormente, devia ter suspeitado de alguma coisa, mas era tarde. A verdade é que nunca confessou ter sido ludibriado.
— Você está tentando influir no futuro.
— De modo algum — contraveio Crest.
— Só estou tentando arranjar as coisas para que daqui a dez mil anos encontremos em Vênus as respostas às nossas perguntas. Como se poderia denominar isso? Realmente não sei.
Rhodan calou-se. Aliás, o que poderia responder?
Crest foi tomado de uma atividade fora do comum. Reacendia-se nele a antiga energia que tinha tornado possível para a sua raça a conquista de um reino estelar. Fora ultrapassado o período de inatividade e o subseqüente aparecimento da degenerescência. Era novamente um daqueles arcônidas que com um simples aceno anexavam ao Grande Império sistemas solares inteiros.
Talvez isto se devesse ao fato de ter voltado ao tempo do apogeu de sua raça. Como saber das influências psicológicas de uma tal viagem?
— Levarei o robô comigo — disse Crest, verificando a carga da sua pistola de radiação. — Naquela época havia robôs desse mesmo modelo.
— A pistola de radiação também vai? — indagou Rhodan, na esperança de ter surpreendido uma negligência de Crest. O arcônida, porém, sorriu com indulgência e bateu de leve na coronha da arma.
— É o mesmo modelo usado há dez mil anos. A arma é perfeita, o que haveriam de mudar nela? Portanto, quem vai mesmo sou eu. Marshall, pode permanecer em contato comigo?
O telepata hesitou, assentindo em seguida.
— Acho que poderia dar certo se me concentrasse em você. Espero que a distância não seja muito grande.
— Há de conseguir, sim — assegurou Crest, dirigindo-se depois ao robô. — Acompanhe-me.
Rhodan, pensativo, seguiu-os com o olhar. Detestava ter de ficar para trás, inútil. Pela primeira vez a iniciativa lhe fugia das mãos pela força da lógica.

* * *

Kerlon estava organizando uma expedição, quando avistou três vultos se aproximando da nave pousada.
Eram três homens vestidos de maneira diversa.
Caminhavam pela extensa planície, provenientes do castelo. Na frente vinha um monstro prateado que pareceu familiar a Kerlon, tanto por sua forma, quanto pelos movimentos. Primeiro julgou tratar-se de um homem com armadura, mas logo reconheceu um robô.
Robô? Num mundo primitivo?
Voltou-se para os oficiais.
— Gradue o visor para uma ampliação da imagem. Tenho a leve impressão de que chegamos tarde demais.
De início, ninguém entendeu o que ele queria dizer com aquilo, mas quando o visor oval mostrou os três vultos, o oficial finalmente compreendeu.
O ser de metal que se encaminhava para eles era um robô arcônida.
Ao mesmo tempo divisaram Crest, que vinha empertigado, com todo o orgulho inato de sua raça. Trazia roupas estranhas, ao invés dos trajes espaciais usados pelos arcônidas, mas sua origem era inconfundível. Ao seu lado caminhava um homem miúdo, de vistosa capa colorida, certamente um habitante do planeta.
— Que pena — murmurou Kerlon, visivelmente decepcionado. — E eu que nos julgava os primeiros a descobrir este sistema. Estou curioso de saber quem terá chegado na nossa frente.
— Vamos ao seu encontro? — propôs o oficial.
— Seria um gesto de amizade — acedeu Kerlon, erguendo-se. — Desligue o visor e me acompanhe.
Kerlon não mais tinha dúvidas. Uma das muitas expedições que exploravam o universo atrás de sistemas solares habitados chegara àquele planeta, estabelecendo contato com os nativos. Inteiramente normal. Assim, mais cedo ou mais tarde, mais este sistema gigantesco seria incorporado ao Grande Império. Desta vez, porém, não seria por mérito de Kerlon. Pena, mas nada a fazer.
— Dou o alarma? — o oficial perguntou já sabendo a resposta.
Kerlon meneou a cabeça.
— Para quê? Evidentemente são amistosos os habitantes deste planeta. Não fosse assim, o arcônida e o robô não poderiam se movimentar tão livremente. Não há perigo algum, é certo.
Kerlon e seu oficial deixaram, pois, a nave, e foram ao encontro de Crest.

* * *

Gagat e seus guerreiros mais corajosos conseguiram se esgueirar até junto das três naves, utilizando habilmente os arbustos e as falhas do terreno. Os onze homens agrupavam-se, bem escondidos pela grama alta, à espera dos acontecimentos.
Viram três vultos saírem do castelo e vir caminhando, enquanto da esquerda dois homens iam ao seu encontro. A menos de vinte metros de seu esconderijo, os dois grupos se encontraram. Conversaram, sem que Gagat e seus homens conseguissem compreender nenhuma palavra. Apertaram-se as mãos.
— Eles se conhecem — sussurrou Gagat, decepcionado. — Vieram se apoderar de nosso mundo. E Lesur é seu aliado. Precisamos matá-los.
Radgar, o seu novo comandante, pousou a mão direita no braço do seu chefe. Com voz rouca, segredou:
— Talvez fosse melhor levá-los como prisioneiros, ao invés de matá-los. Enquanto estiverem em nosso poder, os outros deuses não irão arriscar um ataque contra nós.
Gagat assentiu lentamente.
— Muito sagaz que você é — reconheceu. — Mortos, não nos serviriam de nada, mas como reféns, sim. Cuide que nenhum deles seja ferido. Espere até que eu dê o sinal para nos lançarmos sobre eles, num ataque de surpresa.
Tomaram posição novamente no fundo da depressão do terreno, na expectativa de que os forasteiros se aproximassem mais.

* * *

Crest não se admirou muito de ver os dois arcônidas se encaminharem para ele, sem conseguir reprimir, entretanto, uma estranha emoção.
Há dez mil anos aqueles dois estavam mortos. Apesar desse abismo, logo estariam frente a frente. A morte fora vencida e se tornava possível influir no futuro.
Mas, seria isso verdadeiro? O que ia fazer agora acaso não constituiria algo de inelutável que possibilitaria o que já acontecera dez mil anos depois?
Contudo, como seria, se eu não estivesse agora aqui e se Kerlon nunca me houvesse encontrado?”, perguntava-se Crest, maravilhado. Descobriu imediatamente a resposta. Outra pessoa estaria em seu lugar e aconselharia Kerlon a seguir para o sistema solar.
Já se encontravam frente a frente.
— Vejo — Kerlon sorriu levemente — que chegamos tarde demais. Você nos passou a frente.
Crest compreendeu imediatamente, assumindo o papel.
— Encontramos este sistema por puro acaso, Kerlon, e nos pareceu possível anexá-lo ao Grande Império. Seus habitantes se acham prontos a se tornarem súditos.
No mesmo instante percebeu que cometera um erro decisivo. De onde saberia o nome de Kerlon?
O outro ergueu as sobrancelhas.
— Conhece-me? Não me lembro de já nos termos encontrado antes.
Crest logo se recobrou.
— Crest é o meu nome. Minha nave explora os outros planetas e fiquei para trás com alguns homens. A Central de Árcon comunicou-nos que você estava a caminho.
Kerlon meneou a cabeça.
— Seria difícil — retorquiu. — Ninguém sabia da minha intenção de explorar esse sistema. Só se for pura suposição. Encontramo-nos por acaso.
— Desde quando fazemos explorações sem ordens? — Crest simulava uma leve censura, a fim de esconder seu embaraço. Sabia que Kerlon evitaria perguntar à Central. Estar ali sem ordens seria um procedimento ilegal. — Deixemos isso de lado — tornou Crest, sorrindo significativamente. — Para ser sincero, não comuniquei à Central onde estou. Julgam que apenas passei pela orla do sistema; Portanto, reivindique para si o mérito da descoberta. Espero que assim sua simpatia por mim aumente.
Kerlon trocou um olhar de surpresa com o seu oficial e em seguida estendeu a mão para Crest.
— Você é muito amável, Crest. Será melhor então não comunicarmos coisa alguma à Central sobre nosso encontro. E para ser sincero, dou grande valor ao fato de poder constar como descobridor oficial desse sistema. Tenho minhas razões. Saiba que estou na pista de um grande segredo, cuja posse dará aos arcônidas o domínio de todo o Universo.
Crest assentiu com a cabeça, pensativo.
— Se quer se referir à imortalidade, posso lhe dar um bom conselho.
Os olhos de Kerlon arregalaram-se de espanto e abalo. O que considerava como segredo seu era mencionado por aquele comandante desconhecido como algo de secundário. Crest viu que talvez tivesse ido um pouco longe demais. Como poderia amenizar o choque?
— Encontrei indícios — disse — de que deve haver no Universo uma raça que descobriu o segredo da renovação das células, o que considero uma loucura. Vejo, porém, que levou a história mais a sério do que eu. Está bem, que cuide disso. Como não pretendo continuar a seguir a pista, passo a lhe transmitir minhas suspeitas. A vinte e sete anos-luz daqui, há um sistema solar...
— Eu sei — retorquiu Kerlon, para espanto de Crest. — A pista leva até lá. Agradeço sua gentileza, Crest. Assim que tiver registrado este sistema, o que será feito imediatamente através do cérebro positrônico, procurarei o outro, que fica a vinte e sete anos-luz daqui. E você, o que fará?
Crest sorriu.
— Minha missão consiste em explorar o setor AM53Y. Uma de nossas naves parece ter caído lá.
Era uma coordenada que Crest escolhera ao acaso.
— Ótimo — assentiu Kerlon, satisfeito. — Então podemos nos unir. Vai deixar este mundo assim que sua nave voltar?
— Pretendo.
— Como conseguiu fazer boas relações com os nativos?
— Existem várias raças. Os habitantes daquele castelo lá em cima pensam que somos deuses e nos são dedicados. Ajudamo-los contra um ataque de seus inimigos, os chamados bárbaros.
— Está se intrometendo nos assuntos de um povo inferior? — admirou-se Kerlon.
— Tivemos de nos defender.
— É proibido lutar contra raças primitivas — ponderou Kerlon.
— Não nos casos de legítima defesa — contraveio Crest.
Kerlon quis dizer alguma coisa, mas as palavras ficaram presas na garganta, pois exatamente naquele momento Gagat resolveu aprisionar os valiosos reféns.
À frente de seus guerreiros, lançou-se sobre o pequeno grupo, cercando-o em poucos segundos. As espadas erguidas não deram tempo a Crest de puxar a pistola de radiação que balançava em seu cinturão. O assalto fora tão perfeito a ponto de não poder oferecer a menor resistência, sem pôr em risco a própria vida.
Até mesmo Robby percebeu aquilo imediatamente. Sabia que se quisesse lutar, provocaria uma situação perigosa. Alguém certamente encontraria oportunidade para matar um dos arcônidas ou mesmo Lesur.
Por isso manteve-se na expectativa. Para ele pessoalmente não havia perigo, porém, a vida de seus criadores estaria acima da sua própria. Mas, ainda que assim não fosse, não poderia ter agido de outra forma.
Gagat encostou a ponta de sua espada no peito de Lesur.
— Será que os deuses poderiam ajudá-lo agora? — perguntou, zombeteiro. — Não tenha medo, nada irá acontecer com você ou com seus amigos. Logo que entreguem as três esferas que vieram do céu, deixo-os livres.
Ao contrário de Kerlon, naturalmente, Crest compreendeu aquelas palavras. Desconfiava das intenções dos bárbaros, sem fazer a mínima idéia, contudo, do que fariam com as naves.
— Estou lhe avisando, Gagat — disse Lesur corajosamente, pois jamais estivera tão perto da morte em sua vida. — Nossos deuses podem acabar com vocês se quiserem. Se não o fazem, é porque desejam dar a você uma oportunidade. Liberte-nos ou se arrependerá.
Kerlon não via possibilidade de salvação. Certamente o pessoal das naves observara o incidente, impossibilitados, entretanto, de ajudá-los, a menos que se colocassem em perigo. Além do mais, havia a proibição do uso de armas mortais contra povos primitivos.
Com uma gargalhada sardônica, Gagat guardou de volta a espada, num aceno à sua gente.
— Cada prisioneiro segue no meio de dois homens. Prestem atenção, estejam prontos a matá-los a qualquer momento, não se deixem surpreender.
Kerlon olhou para Crest.
— Certamente ainda não está a par dos costumes dos nativos — proferiu, numa leve censura — para que isso possa ter acontecido. O que tem a dizer?
— Não se preocupe, Kerlon. Sem demora estaremos livres. Meus amigos já sabem o que aconteceu e podem intervir a qualquer momento. Talvez aguardem apenas uma ocasião mais propícia. Caso isso aconteça, Kerlon, é favor não se espantar, nem fazer indagações.
— Como assim?
— Silêncio, agora! Os bárbaros podem desconfiar. Mais uma coisa apenas: meus amigos mantêm contato permanente comigo, ouvem cada palavra que dizemos. Devem atacar imediatamente, só espero que enquanto isso os seus homens fiquem quietos nas naves.
— Se desobedecerem à ordem e tentarem me libertar, não posso censurá-los.
— Claro que não, mas observe apenas! Nossa prisão está prestes a findar. Mais uma vez lhe peço para não fazer perguntas.
O conselho era necessário, pois os acontecimentos subseqüentes deviam parecer inverossímeis aos olhos de Kerlon.
A espada de Gagat como que adquiriu vida própria. Escapou de sua mão e subiu lentamente, a poucos centímetros acima da grama, flutuando no ar. Os bárbaros mostraram-se tão estupefatos a ponto de esquecerem inteiramente de suas intenções, desapercebidos de que o mesmo poderia ocorrer com eles. Portanto, não foi de espantar quando nove outras espadas acompanharam a primeira. Aparentemente sem peso, formavam no alto uma figura bem delineada contra o céu claro. Suspensas, as pontas encostando umas nas outras, num círculo. Uma lacuna indicava a falta da décima primeira espada.
Apesar de toda a mágica, seu dono não parecia disposto a desistir facilmente. Aferrava-se convulsivamente à arma em sua mão.
Os dons telecinéticos de Anne Sloane eram, porém, mais fortes.
A espada subiu, arrebatando o bárbaro, agarrado a ela com desespero. O valente soldado esperneava, tentando alcançar o chão com os pés. Tudo inútil! Já a dois ou três metros do solo, continuava sendo puxado inexoravelmente pelo ar. Finalmente, deve ter compreendido que não adiantava contrariar a vontade dos deuses.
Soltou-se, caindo para o chão. Anne não se esforçou para suavizar-lhe a queda. Já era trabalho demais manter paradas em ornamento as onze espadas.
Os bárbaros estavam desarmados.
Crest puxou tranqüilamente a pistola de radiação e apontou-a para Gagat.
— Vejam como é inútil insurgirem-se contra nós. E agora o melhor é desaparecerem o mais depressa que puderem. No próximo encontro, posso perder a paciência.
Gagat lançou um último olhar para a espada fora de seu alcance, recordou-se do efeito da fantástica arma na mão do super-homem de cabelos brancos e seguiu o conselho. À frente de seus guerreiros, iniciou a retirada para a orla do bosque.
Kerlon pouco tempo tinha para se ocupar dos bárbaros em retirada. Perplexo de todo, continuava a fitar as onze espadas suspensas. Via-se que seu cérebro trabalhava febrilmente para compreender.
Crest viu-se forçado a dar uma explicação.
— Já disse, Kerlon, para não se surpreender. Deve ter notado como os bárbaros não ficaram muito admirados com o que aconteceu. Apesar do primitivismo, há neste mundo coisas que mal conhecemos. O que está vendo é o trabalho de um telecineta.
— Foi o que pensei — assentiu Kerlon placidamente. — Você o conhece?
— É um ferrônio, cujo cérebro está adiante de seu tempo, só isso. Como sabemos, há raças inteiras de telecinetas. Nossos sábios...
— Eu sei — atalhou Kerlon, resignado. — Nunca compreenderemos de todo, o que é pena. Agora, esse a quem se refere nos salvou de uma situação perigosa. Devemos agradecer-lhe.
— Faremos isso esquecendo o incidente — advertiu Crest. — Os ferrônios acreditam que fomos nós que lhes conferimos esse dom. Se fizermos muito estardalhaço a respeito, poderão suspeitar.
Kerlon acedeu, olhando mais uma vez para as espadas lá no alto. Em seguida, apontou para as naves à espera.
— Pode me dar a honra de uma visita?
Crest aceitou.
Ainda não sabia o que precisava obter de Kerlon, para encontrar o caminho para a luz.

6



Enquanto isso, Rhodan se via diante de uma difícil decisão.
— A última indicação nos induzia a não esperarmos mais de três dias para voltar ao conversor de tempo. Hoje é o terceiro dia, mas de Ferrol. Os três dias terrestres já se escoaram.
Bell empalideceu.
— E se queriam dizer dias da Terra, e interpretamos a informação de maneira errada?
— Nesse caso não poderemos sair daqui — respondeu Rhodan calmamente. — Acho, entretanto, que o imortal deve ter se guiado pelo tempo do planeta onde estávamos. Com isso, nosso prazo termina hoje à tarde. Marshall, o que está acontecendo agora?
O telepata estava sentado num sofá, a um canto do aposento a eles reservado. Guardava silêncio, numa grande concentração.
— Crest e Lesur acompanham Kerlon na nave capitania da expedição. Robby ficou esperando do lado de fora. Kerlon diz que quer mostrar uma coisa a Crest.
— Olhe! — fez Bell. — É isso aí!
— Isso o quê? — Rhodan ergueu as sobrancelhas.
— O que procuramos, é claro. O caminho para a luz. Ralf Marten não poderia atacar? De qualquer modo, não está fazendo mesmo nada, só se aborrecendo por aí.
O mutante de olhos amendoados sorriu.
— Aborrecendo? Um pouco de exagero. Contudo, talvez fosse realmente uma boa idéia se eu pudesse me apossar por algum tempo dos sentidos de Kerlon. Marshall poderia ler meus pensamentos e comunicar-lhes o que vejo e escuto. Para isso, deixarei no meu corpo uma pequena parte de minha consciência. A outra parte deverá ser suficiente para controlar Kerlon. Ele nada perceberá, e assim teremos uma boa visão do que acontece lá na nave capitania dos arcônidas.
Rhodan concordou, satisfeito.
— Também prefiro que Crest e Kerlon não fiquem tão sozinhos. Afinal são arcônidas.
— Não confia inteiramente em Crest? — surpreendeu-se Bell. — Ele evitará qualquer bobagem.
— Não creio que seja de propósito, Bell, mas os arcônidas também não são infalíveis, como já vimos. Devemos estar prontos a intervir nos acontecimentos. O que teria acontecido se Anne não afugentasse os bárbaros?
— Ela pôde fazer isso aqui da torre do castelo, mas não do interior da nave, onde não vê nada. Portanto, mantenhamo-nos duplamente vigilantes, pelos menos é o que penso. Bem, Marten, trate de enviar seu espírito.
Marten estirou-se no sofá, depois que Marshall lhe deu lugar. Entrou logo em transe. Não foi difícil para Marshall captar as impressões que o outro mutante, agora dentro de Kerlon, recebia e enviava.
— Crest e Lesur estão sentados com Kerlon e seu oficial em volta de uma mesa — relatou o telepata, a voz calma. — Kerlon fala alguma coisa sobre certa pirâmide que descobriu em algum lugar de Ferrol. É nas montanhas. E nesta pirâmide havia um hipertransmissor de matéria que lhe causou admiração. Achou também outra coisa, um cilindro de metal. Vai mostrá-lo a Crest.
Rhodan olhou para Bell.
— É, acho que deve ser o que procuramos! — proferiu devagar.
Bell assentiu.
John Marshall continuou falando.
— Prosseguiu tentando abrir a cápsula de metal, mas até agora nada conseguiu. Crest quer pegá-la, mas Kerlon impediu-o. Alegou que pertence a ele e que talvez venha a pôr em perigo o seu hóspede. Ninguém está apto a saber dos perigos deste mundo desconhecido. Acabou de passar por um deles. Crest age como se o cilindro não o interessasse. Boa tática, pois agora Kerlon se sente logrado na sensação que pretendia causar. Afirma que o cilindro guarda relação com a raça dos imortais, existente em algum lugar deste universo. Crest, no entanto, acha improvável. Representa bem o seu papel.
Marshall calou-se. Marten permanecia imóvel. O silêncio era absoluto no aposento, sendo interrompido finalmente pela entrada de Anne Sloane, de regresso da torre.
— Deixei que as espadas caíssem bem lá do alto, para se arrebentarem sobre as pedras. Não poderão usá-las por enquanto.
Rhodan aprovou com a cabeça, pedindo-lhe que se calasse, com um aceno de mão. Anne compreendeu imediatamente. Sentou-se ao lado de Ras Tshubai, impaciente por entrar em ação.
Marshall recomeçou a falar e relatou o que Marten via através dos olhos de Kerlon.
— Um oficial entra na cabina onde os quatro homens se encontram sentados. Revela que um grupo de nativos se esgueiram em direção à nave, como que para tomá-la de assalto. Pela descrição, só podem ser bárbaros. Kerlon está preso às suas instruções. Não pode iniciar luta alguma. Crest decide deixar imediatamente a nave. Lesur parece desesperado. Sem a proteção da nave, julga-se perdido, apesar de toda a mágica dos deuses. Crest ergue-se, mas hesita. A cápsula de metal, como levá-la com ele? Kerlon parece notar seu interesse. Sorri, enfiando o cilindo no cinturão, onde crê que esteja em segurança. Em seguida, se oferece para acompanhar seus hóspedes até a escotilha.
Rhodan voltou-se, rápido, para Anne.
— Pode-se ver bem a nave lá da torre? A telecineta assentiu, solícita.
— Muito bem, até. Como também a Robby. Está debaixo da escotilha da nave central.
— Esplêndido! Ras, venha conosco. Anne, também. Marshall, fique aqui e escute o que Marten tern a contar. Vamos! Você também, Bell!
Passaram correndo por alguns ferrônios espantados, e subiram os muitos degraus ascendendo à plataforma, e de lá à torre.
Ali de cima tinha-se uma visão magnífica até as montanhas distantes. Na planície havia três naves gigantescas elevando-se até o céu, tampando a vista daquele lado. Saindo do bosque, cerca de cem bárbaros se lançavam sobre as naves. A distância era ainda de meio quilômetro. Naquela última tentativa desesperada, Gagat não procurava mais disfarçar suas intenções. Atacava abertamente as naves espaciais com lanças e espadas. A indulgência até agora demonstrada pelos deuses certamente o encorajava. Confundia benevolência com fraqueza.
Crest abandonou a nave em companhia de Lesur. Na escotilha se achava Kerlon. Via-se distintamente o cilindro em seu cinturão. Fez um aceno, aparentemente sem se preocupar em averiguar como Crest se poria em segurança. Talvez, no fundo, aguardasse que a testemunha do seu suposto fracasso viesse a desaparecer.
O que seria uma loucura. Afinal Crest lhe garantira que desistiria do direito da descoberta. Qualquer que fosse a razão, no entanto, Kerlon seria curioso o suficiente para esperar um pouco antes de partir, à espera de ver como o outro se sairia da situação.
O robô esperava por seu senhor. Sem se preocupar com os bárbaros que avançavam, começou a andar em direção ao castelo.
Gagat já se atinara o bastante para não se preocupar com os três homens que tentara agarrar inutilmente. As naves eram a sua meta, apenas isso.
Crest sabia que falhara em sua missão. Avistara o cilindro de metal e adivinhara instintivamente ser aquilo que deveriam buscar no passado. Mas como tirá-lo à força de Kerlon? Que aconteceria se Kerlon começasse a desconfiar? Seguiria em direção ao sistema solar?
Rhodan precisava intervir agora.
Kerlon acompanhou Crest com o olhar.
Começava aos poucos a sentir como era estranho aquele encontro. Quem seria aquele homem, que sabia tanto, mas fazia tantas perguntas? Por que desistiria espontaneamente da glória de ser considerado o descobridor de um sistema habitado? O que saberia daquela raça, a respeito da qual tudo se ignorava?
Perguntas e mais perguntas, sem resposta alguma.
Kerlon verificou que os bárbaros não se preocupavam com Crest, nem com o robô, nem com o nativo. Os três se encaminhavam, desinteressados, em direção ao castelo próximo. Os bárbaros, no entanto, estavam mais próximos, balançando as espadas primitivas, sedentos de luta.
Kerlon virou-se de súbito, querendo subir para a comporta de ar. Tropeçou e perdeu o equilíbrio por alguns segundos. Agarrou-se na borda da escotilha., mas com esse movimento inesperado, o cinturão afrouxou-se. O cilindro liso escorregou, caindo verticalmente lá embaixo, sobre a grama alta, sob a escada.
Kerlon viu-o cair numa pequena depressão do terreno, rolar para um lado e lá ficar.
Hesitou. O tubo era uma parte componente da pista a ser seguida. Precisava reavê-lo. Além do mais, os bárbaros já se aproximavam e começavam a jogar suas lanças sobre ele. Não podia se defender, nem usar força. Lei é lei, e Kerlon não haveria de saber que essas leis seriam mudadas dentro de algumas centenas de anos.
Gritou uma ordem. Um oficial ouviu-a e passou adiante. Alguns segundos depois, as duas outras naves decolaram, ganhando lentamente altura. Apenas a capitania permanecia em seu lugar. Alguns segundos depois, entraram em ação alguns canhões caloríferos.
Os bárbaros apavoraram-se ao virem surgir a seus pés um círculo de fogo aproximando-se inexoravelmente. A grama começava a se queimar. A fumaça subia aos céus. Hesitaram no ataque, que parecia ter começado tão bem.
Kerlon soltou a escada rolante e desceu no meio da proteção do círculo de fogo que os canhões haviam formado em volta da nave. Ninguém poderia penetrar ali. Precisava pegar o cilindro de metal.
Saltou na grama ressequida, à cata da depressão no chão. Havia de ser por ali. Olhou em volta, indeciso, sem se preocupar com as poucas lanças atiradas a esmo atravessando a cortina de fumaça.
E então, ao ver o tubo no chão, próximo a seus pés, uma coisa terrível aconteceu.
No meio da fumaça, um vulto negro materializou-se.
A aparição usava uniforme, mas era de rosto escuro, assim como as mãos e os braços nus.
Kerlon quase morreu de susto, mesmo nada tendo de supersticioso. Antes que pudesse se mover, a aparição negra curvou-se para o cilindro de metal e apanhou-o. Enquanto Kerlon ainda olhava, perplexo, alguém lhe tomar a dianteira, Ras Tshubai dissipou-se novamente no ar e desapareceu.
E com ele, conforme Kerlon constatou na sua fúria impotente, o tubo de metal a que dava tanta importância.
Uma lança passou sibilando junto à sua cabeça, recordando-lhe o fato de se achar em perigo imediato. Pulou depressa na escada rolante que agora se movia em sentido contrário, alçando-se em direção à escotilha. Tinha um ódio gelado, a esse Crest, à aparição negra e a tudo o que havia nesse planeta habitado.
Mas lei continuava sendo lei.
Deu partida à nave, à procura das duas outras esferas espaciais que já o esperavam na camada superior da atmosfera.
Aterrizaram em outra região de Ferrol, onde permaneceram três dias. Só então deixaram definitivamente o planeta.
Cruzaram o sistema sem parar, passando por planetas mortos e desabitados, até alcançarem o espaço exterior, além do quadragésimo terceiro planeta, quando Kerlon ordenou a transição. A meta era um sistema a mais de vinte e sete anos-luz de distância, onde o terceiro planeta mostrava os primeiros sinais de uma civilização emergente, que procurava se livrar dos traços de primitivismo.
Ali estavam nascendo os antepassados dos que iriam construir a Torre de Babel.



7



Rhodan fitava, indeciso, o tubo de metal.
Bell fazia suas observações costumeiras.
— Parece uma caixa de colecionar ervas — resmungou. — O que pode ter dentro?
— Uma das muitas respostas de que precisamos para chegar à solução da charada galáctica, um pequeno passo adiante na pista sem fim para a eternidade. Não nos resta muito tempo para especulações a respeito. Nosso prazo está quase terminado.
Já se tinham despedido de Lesur e dos consternados ferrônios e se achavam de volta à câmara vazia embaixo do castelo. O bloco metálico continuava imóvel, inalterado no centro do aposento. Mediante seu aspecto, não se podia saber se ainda se encontravam num passado remoto ou se já estavam de volta ao presente. A única indicação era o tamanho da abóbada. Ao chegarem, ela havia se alargado. Deveria, portanto, estreitar-se quando começasse a viagem para o futuro.
Rhodan consultou o relógio.
— Os três dias terminaram. Somente uma questão de minutos e então...
Calou-se de repente e pôs-se à escuta. Em algum lugar dos extensos corredores lá fora, diante da porta, alguém gritara. Um grito prolongado. Em seguida, ouviu-se o tinir das espadas umas contra as outras. Segundos mais tarde, o barulho do início de um ataque contra as tábuas da pesada porta de madeira.
Ras Tshubai ergueu-se. Olhou Rhodan interrogativamente. Bell lançou um olhar rápido para o tubo de metal e disse apressadamente:
— São os bárbaros. Tomaram novamente o castelo. Nossa ajuda aos ferrônios foi inútil.
— O destino tem cartas marcadas — retrucou Rhodan, pensativo. — A vitória do pessoal de Lesur não tinha mesmo de acontecer. Agora é tarde demais para ajudá-los.
Bell quis dar uma resposta, mas já não conseguia. Violentos golpes vibravam contra a porta que os separava da abóbada subterrânea do castelo. Vozes nervosas vociferavam. Deram-se ordens e em seguida fez-se um silêncio repentino. Uma voz profunda disse algumas palavras e uma gritaria de triunfo irrompeu. Passos se afastaram e retornaram segundos depois. Colocaram-se objetos diante da porta. Homens riam na expectativa.
Rhodan olhou para Ras Tshubai.
— Vá ver o que pretendem. Mas tenha cuidado e volte imediatamente.
Ras assentiu e o lugar onde estava ficou vazio.
Apenas cinco segundos, porém, e logo Ras estava de volta. Materializou-se e Rhodan imediatamente notou uma ferida que sangrava em seu pescoço.
— Querem fazer voar a porta! — arquejou o africano, apertando o ferimento com a mão. — Devem ter achado pólvora no castelo. Um dos bárbaros tinha tanta presença de espírito que atirou sua espada em minha direção. Não foi nada grave, mas temos de desaparecer imediatamente, ou estaremos perdidos.
— Desaparecer é uma boa — gemeu Bell, furioso. — Se esse conversor de tempo não funcionar, voaremos pelos ares. Com todo esse cilindro de metal!
Rhodan viu de novo a hora.
— Já é tempo. Agora ou nunca.
Voltou-se para Crest:
— Como é que o imortal pode saber que cumprimos a missão? Ele se encontra no presente ou veio conosco para o passado?
Antes que Crest pudesse responder, o robô falou:
— Ele não veio conosco, mas seu espírito está entre nós, no conversor do tempo. Ponha o cilindro de metal sobre o conversor, senhor, que o sistema eletrônico verificará então se é isso o que devemos buscar.
Rhodan obedeceu em silêncio.
Enquanto isso, lá fora diante da porta, pairava um silêncio absoluto. Os bárbaros deviam ter se retirado. Talvez a mecha já estivesse acesa.
— Tente apagá-la, Ras.
Enquanto isso, Anne colocara uma atadura ligeira no ferimento do africano. Sem raciocinar muito, Ras obedeceu ao comando de Rhodan, apesar de com isso arriscar-se a ter de ficar para trás, no caso de uma súbita transição do aposento para o futuro.
Três segundos depois, já estava de volta.
— Impossível! — gritou, de olhos arregalados. — Inteiramente impossível! Não dispõem de uma mecha, mas simplesmente de pólvora espalhada por todo o porão. Acho que vão fazê-la explodir com uma flecha incendiaria. Contra isso não posso fazer nada.
— Então temos imediatamente de impedir — principiou Crest, mas logo foi interrompido pelo zumbido que começava a vir do conversor do tempo. O chão sob seus pés começou a vibrar. Lentamente, o aposento começou a encolher. As paredes se tornaram novamente lisas.
A viagem para o futuro começara.
Quase que tarde demais.
Enquanto a porta de madeira desaparecia e se transformava numa parede lisa de metal, as ondas de pressão causadas por uma explosão jogavam ao chão os viajantes do tempo. Um intenso brilho luminoso fez com que fechassem os olhos, mas o calor que de repente sentiram desapareceu imediatamente. Ao mesmo tempo, voltou a escurecer.
— Estamos a caminho — disse Rhodan, aliviado, mas com tamanha naturalidade como se as viagens temporais fossem rotina em sua vida. — Acho que conseguimos.
Ao retornarem à base de Ferrol, avistaram Thora.
A arcônida olhou-os, espantada, não se mexendo ao ver Rhodan, Crest e os demais. Podia-se ver a decepção estampada em seu rosto. Mas então, ao descobrir nos rostos dos homens a barba de três dias, a decepção transformou-se em perplexidade.
Caminhou, vacilante, até o grupo e observou o rolo de metal nas mãos de Rhodan. Só com muito esforço conseguiu que as palavras lhe viessem aos lábios.
— O que significa isso? — indagou. — De onde foi que o trouxeram?
— De Kerlon — respondeu Rhodan. — Por que acha tão estranho? Nosso empreendimento não visava isso?
Thora fez que sim.
— Como poderia esquecer... em tão pouco tempo!
Acentuou particularmente as quatro últimas palavras, pousando o olhar interrogativamente nos rostos dos homens. Crest compreendeu logo. O imortal gostava de pregar peças nos mortais. Já acontecera uma vez. Para ele a modificação do conceito de tempo era apenas um brinquedo e portanto um meio de enganar e desconcertar os perseguidores voluntariamente atraídos pelas pistas.
— Quanto tempo estivemos fora? — perguntou Crest.
— Exatamente meia hora — respondeu Thora, em voz baixa.
Rhodan assentiu lentamente com a cabeça.
— Acho — observou com segurança — que devemos nos acostumar com esse tipo de coisas, enquanto tivermos de lidar com esse ser que domina o tempo e as dimensões. Muitas vezes procuro imaginar qual seria sua aparência, mas não chego a conclusão alguma.
E, para espanto de todos, o robô meteu-se de novo na conversa, sem ter sido convidado a falar.
— O imortal não tem absolutamente aparência...

* * *

Rhodan estava sentado na central do cérebro positrônico.
Fora fácil abrir a cápsula de metal. O fecho automático da tampa abrira-se ao chegarem ao presente. Um fecho temporal, nada mais.
No tubo havia uma folha fina de metal, coberta com uma escrita luminosa. Rhodan tirou apenas uma fotocópia antes de inserir a folha original no cérebro positrônico. Em seguida, o alto-falante anunciou:
— Não está em código. O texto será traduzido imediatamente e fornecido por escrito. Estará pronto dentro de meia hora.
Isso acontecera há vinte minutos.
Crest, Bell, Haggard e Thora esperavam, em companhia de Rhodan.
O chefe da Terceira Potência voltou-se para Crest e disse:
— Devemos ter em mente que as tarefas estão se tornando cada vez mais difíceis. O imortal tem cada vez menos consideração conosco. Se nos metermos em algum perigo mortal, teremos de nos livrar sozinhos. Se morrermos... — encolheu os ombros.
Crest assentiu, em tom grave:
— A pista se torna mais confusa e mais difícil de seguir. Disposta de tal forma, porém, que seres de inteligência excepcional e com dons especiais não a pudessem perder. Quem não possuir essas qualidades no grau exigido, estará perdido. E se morrer durante a busca, será porque não merece a imortalidade. Nosso amigo desconhecido calculou tudo.
— Tenho certeza de que nossa próxima tarefa será um pouco mais difícil, Crest.
— Pode ter certeza disso. Mas em compensação, estaremos mais próximos de nossa meta. Isso nos deve servir de consolo.
— E da próxima vez — atalhou Thora, em tom indiferente — irei junto. Também tenho direito a isso.
Antes que Rhodan pudesse responder, intensificou-se o zumbido do cérebro positrônico. O cartão com o texto traduzido, expelido através da fenda de emissão, caiu em cima da mesa, com a parte escrita para cima. Bell agiu com rapidez e foi o primeiro a apanhá-lo. Ergueu-o bem perto dos olhos e viu o que estava escrito:

Aquele que quer encontrar o caminho ainda tem permissão de desistir. Mas, se quiser prosseguir, saiba que não receberá mais auxílio. Em breve, o espaço sofrerá um abalo. Esteja atento e procure, mas lembre-se de que este mundo é gigantesco e desconhecido.

Bell baixou a folha de papel depois de lê-la em voz alta, e olhou, perplexo, para Rhodan.
— Afinal o que quer dizer dessa vez? Será que se trata mesmo de um texto compreensível?
Rhodan não respondeu. Permaneceu sentado, imóvel, de olhos semicerrados. Crest tirou o papel da mão de Bell e leu a misteriosa mensagem várias vezes, com toda a atenção, antes de passá-la para Thora. A arcônida também procurou encontrar um sentido nas palavras.
Bell mais uma vez revelou sua natureza impaciente.
— O espaço vai sofrer um abalo — berrou, batendo na mesa com o punho cerrado. — E temos de esperar por isso? Talvez uma explosão atômica?
— Absurdo! — exclamou Crest. — A simples transição de uma nave grande pode abalar o espaço. Talvez surja alguma nave. Mas o que significa a menção de um mundo gigantesco e desconhecido? Não pode ser Ferrol.
— Minha intuição me avisa, Crest! — proferiu Thora. — O que nos espera não é nada bom. Estamos sendo postos à prova. Até agora temos tido sorte, muita sorte mesmo. Mas, e se ela nos abandonar?
— Sem a esperança de ter sorte, a vida deixa de ter sentido! — filosofou Haggard. — Quero dizer é que não devemos desistir. O que acha, Rhodan?
Perry Rhodan fez lentamente que sim. Todos notaram o brilho duro em seus olhos e perceberam que a busca do planeta da vida eterna continuaria. O caminho estava diante deles, e não iriam se desviar. No fim dele, estaria a eternidade.
— Não quebremos a cabeça quanto ao que significa esse abalo — declarou Rhodan, com voz firme. — No tempo certo, saberemos. Saberemos também a que mundo se refere. Há outra coisa, porém, que me causa preocupação, outra coisa muito diferente. E vocês todos vão saber a que me refiro. Não será preciso que cada um descubra sozinho.
Bell curvou-se para a frente.
— Como assim, Rhodan?
— Na mensagem está escrito que muito breve o espaço sofrerá um abalo. Quando foi escrito isso? Há dez mil anos? Antes ainda? Pergunto simplesmente o que um imortal compreenderá por “em breve”?
Ninguém foi capaz de lhe dar uma resposta.
Em breve” podia significar daqui a mil anos.
Mas também podia ser amanhã!




* * *




Apesar de todos os perigos trazidos pela permanência no passado longínquo do planeta Ferrol, Perry Rhodan e seus companheiros voltaram à sua própria época.
Mas sua procura não terminou aí. Estão novamente de posse de uma mensagem do desconhecido, que indica novos e maiores perigos: “...em breve o espaço sofrerá um abalo. Esteja atento e procure, mas lembre-se de que este mundo é gigantesco e desconhecido!”
O que espera Perry Rhodan em sua etapa seguinte, vocês vão ler no próximo volume da coleção Perry Rhodan: Os Espíritos de Gol.

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