segunda-feira, 8 de outubro de 2012

P-005 - Alarma Galático - Kurt Mahr [parte 3]


O’Healey disse:
— Lá em cima, no décimo quinto andar, aconteceu uma coisa estranha, senhor. Alguém fez o elevador descer lá, mas quando os guardas o examinaram, não havia ninguém.
Mercant ergueu o olhos.
— Não havia ninguém? O que diz Zimmermann?
— O capitão Zimmermann chamou alguns especialistas que deverão procurar impressões digitais e não sei mais o quê no interior da cabina.
Mercant levantou-se.
— Levarão três meses para examinar todas as impressões digitais. Onde foi mesmo que isso aconteceu? No décimo quinto andar?
— Sim, senhor.
— Venha comigo. Vamos subir até lá.

* * *

Rhodan já constatara que o décimo quinto andar não era o último. Foi ao encontro do capitão Zimmermann quando este se aproximou pelo corredor, e procurou descobrir de onde ele viera. Descobriu dois elevadores que conduziam apenas para baixo.
Esses elevadores eram vigiados com maior rigor que aqueles por onde ele descera. Não havia a menor dúvida de que os guardas reagiriam ao mais leve movimento de qualquer das cabinas.
Rhodan esperou. Dali a pouco, o capitão Zimmermann voltou em companhia de um sargento. Os guardas fizeram continência. Zimmermann e o sargento entraram no elevador do lado direito.
Rhodan seguiu-os sem fazer o menor ruído e comprimiu-se contra a parede do elevador para não tocar em nenhum deles.
Zimmermann disse:
— Que coisa estranha! Até dá para desconfiar que o sujeito saltou do elevador no meio da viagem. Mas isso é impossível!
O elevador parou de repente. Pela contagem de Rhodan, haviam descido mais seis andares.
Rhodan não saltou do elevador com a necessária rapidez, pois receava que os sapatos de seu traje fizessem ruído. O sargento, que não tinha nenhum motivo para esse tipo de receio, passou por ele e esbarrou em seu corpo.
Parou de chofre. Zimmermann esbarrou nele. Rhodan conteve a respiração e desviou-se para o lado em passos minúsculos.
— O que houve? — perguntou Zimmermann.
— Es... esbarrei em alguma coisa, capitão.
Zimmermann franziu a testa.
— Onde?
— Aqui, capitão — gaguejou o sargento, apontando para o nada.
Rhodan viu que se encontravam no fim do corredor. A parede ficava a dois metros dos elevadores. Comprimiu-se contra ela. Os guardas postados por ali aproximaram-se do elevador.
Zimmermann riu.
— Há quanto tempo está conosco, sargento?
— Há dois anos, capitão.
Este mostrou-se compreensivo.
— Isso explica tudo. Quando eu estava aqui dois anos, via pequeninos homens verdes marchando por estes corredores.
Com um gesto de mão procurou mostrar o tamanho dos homens, a fim de alegrar o sargento.
— De tanto segredo que se faz por aqui — disse em tom benevolente — todo mundo acaba sofrendo de alucinações. Isso só passa quando se está acostumado ao movimento que há por aqui.
O sargento retesou o corpo.
— Sim, senhor.
Rhodan sentiu-se aliviado. Zimmermann afastou-se em companhia do sargento. Os guardas sorriram. Andando cautelosamente, Rhodan seguiu os dois.
— Aí vem o capitão Zimmermann, coronel — avisou O’Healey ao abrir uma das portas de aço que dividiam a galeria inferior em vários setores distintos.
— Ah! — disse Mercant. Zimmermann fez continência.
— Este é o sargento Threash, coronel. Foi a primeira pessoa que notou a ocorrência.
Mercant cumprimentou o sargento com um movimento de cabeça.
— Deu instruções para que se procurassem impressões na cabina do elevador? — perguntou, dirigindo-se a Zimmermann.
— Sim, senhor. Não mandei examinar toda a cabina; apenas o botão de comando para o décimo quinto andar.
— Foi uma medida muito inteligente — observou Mercant em tom irônico. — Isso representa um tipo de terapia ocupacional para o staff de especialistas, não acha?
Ao ouvir a reprimenda, Zimmermann piscou os olhos.
— Achei...
— Ora, capitão. O senhor não vai me dizer que o homem — se é que esse homem existe — que foi bastante inteligente para penetrar no posto de Umanaque, não se valeu do velho recurso das luvas.
— É possível, coronel — concordou Zimmermann.
— É certo — disse Mercant em tom triunfante. — Sargento, quem mais viu a cabina vazia?
— Todos os guardas que se encontravam diante dos elevadores do décimo quinto pavimento, coronel — respondeu Threash em posição de sentido.
— Já mandou chamar os técnicos em eletrônica? — perguntou Mercant, dirigindo-se a Zimmermann. — Talvez seja um defeito do elevador.
— Ainda não, coronel. Mas providenciarei...
Nesse instante o inferno irrompeu por ali. Um uivo estridente superou todos os ruídos. A porta de aço sob a qual Mercant e O’Healey se encontravam pôs-se em movimento, deu um empurrão em Mercant, que arrastou O’Healey consigo, e fechou-se com um ruído seco. Zimmermann e Threash ficaram do outro lado.
— Alarma de radar! — disse Mercant com a voz ofegante. — Venha, O’Healey.
Saiu correndo pelo corredor. Não poderia chegar ao seu corredor. Durante o alarma, as portas de aço só se abririam mediante uma ordem especial e Mercant não pretendia transmitir essa ordem enquanto não soubesse de que se tratava. De qualquer maneira podia dispor das salas situadas no setor em que se encontrava.
Tomou lugar em uma mesa desocupada às pressas. Através do aparelho de intercomunicação entrou em contato com a central de vigilância.
— É Mercant! O que houve na galeria inferior?
— Alarma de radar no setor A, coronel.
— O que foi que desencadeou?
— Não sabemos, coronel. Captei todo o setor na tela de imagem que tenho diante de mim, mas não vejo nada de anormal.
— Entrou em contato com as salas do setor?
— Sim, coronel. Mas ninguém viu nada de extraordinário.
Mercant refletiu. O setor A era o primeiro a partir dos elevadores. Se alguém tivesse vindo de cima...
— Está bem! — disse com a voz áspera. — Pode suspender o alarma.
A sereia voltou a uivar no corredor. Mercant saiu em companhia de O’Healey e abriu a porta na qual dois minutos antes conversara com Zimmermann.
Este e o sargento Threash continuavam no mesmo lugar.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Mercant laconicamente.
— Nada, coronel. Permite que lhe pergunte...
— Há um fantasma por aí — respondeu Mercant com um sorriso. — Um homem que sabe tornar-se invisível.
Passando por Zimmermann, avançou cautelosamente pela galeria. Zimmermann e os dois sargentos fizeram menção de segui-lo, mas Mercant fez sinal para que continuassem onde estavam.
Uma das portas do lado esquerdo abriu-se. Com um gesto zangado, Mercant fez com que o homem que pretendia sair para o corredor voltasse.
Subitamente parou, como se tivesse encontrado alguma coisa. Voltou o rosto para o chão, depois para cima. Finalmente virou-se e voltou com um sorriso no rosto.
— Acho que fizemos papel de palhaço — disse em tom alegre. — Não há nada. Zimmermann!
— Sim, coronel!
— Mande esse pessoal das impressões digitais para casa. Acho que o caso será esclarecido de outra forma.
— Sim, senhor.
— O’Healey e Threash, voltem aos seus postos. O’Healey, o senhor me apresentará o relatório na hora de costume.
Voltou ao seu gabinete, sem dar atenção aos rostos espantados que deixou para trás.
Cautelosamente abriu a porta. Um sorriso de contentamento passou pelo seu rosto. Foi até a mesa, afundou na poltrona e abriu uma das gavetas. Tirou uma pesada pistola.
Apontou a arma para um ponto situado entre a porta e o armário mais próximo. Depois disse:
— Seja quem for o senhor, pode tirar seu disfarce. Não sei o que pretende aqui. Se quiser matar o velho Mercant, é bom que saiba que ainda terei forças para apertar o gatilho desta pistola. Já deve ter visto que sei perfeitamente onde está. Então?
Passaram-se alguns segundos. Subitamente uma espécie de nuvem começou a formar-se no lugar para o qual Mercant estava apontando sua arma. A nuvem assumiu formas definidas e acabou transformando-se num homem que envergava um traje estranho.
Mercant arregalou os olhos.
— Major Rhodan!
— Já não sou major! O major deu baixa. Meu Deus, como foi que você descobriu?
Mercant sorriu.
— Dizem que descubro a presença de um homem pelo faro. Nunca senti isso tanto como hoje. Sente-se, Rhodan.
Rhodan sentou. Mercant ofereceu-lhe um cigarro. Parecia inteiramente à vontade.
— Seu uniforme não o protege contra o radar, não é? — disse depois de algum tempo.
— Não; e não sabia que aqui embaixo existem detetores de radar.
— Assim mesmo é uma coisa extraordinária.
Rhodan descansou o cigarro no cinzeiro.
— Vamos logo ao que importa, Mercant. A coisa é muito mais séria do que você pensa.
— Muito bem; pode falar.
Rhodan relatou tudo que havia ocorrido na Lua. Concluiu da seguinte forma:
— Procure compreender: o que virá por aí é uma frota de naves robotizadas, e nenhuma delas estará interessada em saber se tínhamos algum direito de destruir o cruzador espacial dos arcônidas. Dispararão seus mísseis e não temos como defender-nos.
Se Mercant ficou impressionado, não o deixou perceber.
— E sua nave? Você não disse que está muito bem equipada? Não pode repelir o ataque com ela?
— Está bem equipada sob os padrões terrenos — respondeu Rhodan. — Mas as naves robotizadas que estão a caminho têm um equipamento muito superior. Faremos o que estiver ao nosso alcance, mas seria conveniente que o planeta Terra se preparasse.
— E quem me garante que você não está blefando para arrancar umas tantas vantagens para si e seus comparsas? — retrucou Mercant.
— Ninguém lhe garante — respondeu Rhodan em tom indiferente. — Acredite se quiser. Quando chegar o momento, verá que não estou blefando.
Mercant abanou a cabeça. Ainda não se mostrava impressionado. Parecia refletir. Na verdade, esforçou-se por captar tudo que era possível dos pensamentos de Rhodan. Mercant sabia perfeitamente que possuía um princípio do dom da telepatia. Podia perceber um pensamento muito intenso, desde que o indivíduo não estivesse muito distante dele. Às vezes conseguia captar a concepção geral de um fluxo de pensamentos, para saber se era verdadeiro ou falso.
O cérebro de Rhodan tinha algo de muito especial. Mercant conseguira perceber onde ele se encontrava; foi assim que pôde localizá-lo no corredor e no escritório. Mas Rhodan parecia ter posto uma tranca nos seus pensamentos. Mercant não conseguiu captar nenhum deles; mas percebeu que ele dizia a verdade.
Levantou-se.
— Esqueça-se disso. O que sugere?
— Divulgue o assunto entre as pessoas responsáveis — respondeu Rhodan. — Diga-lhes o que nos espera e faça-os compreender que só através da cooperação de todos conseguiremos montar uma defesa eficiente. Mais uma coisa: faça com que seja suspenso esse ridículo bloqueio de suprimentos decretado contra nós. Ainda que consigamos repelir o primeiro ataque, outros se seguirão. Para manter-nos, precisaremos de pelo menos uma nave de grande capacidade. Mesmo que as indústrias sejam autorizadas imediatamente a iniciar os fornecimentos, levaremos alguns meses para montar uma nave com as matérias-primas e os produtos semi-acabados que recebermos. Se tivermos de arranjar o material às escondidas, levaremos dois anos. Mercant olhou para o chão.
— Farei o possível, Rhodan. Sabe o que está pedindo de mim? Imagine só! Chego a Washington e digo ao pessoal: Escutem, Rhodan encontrou na Lua um hiperemissor que emite sinais de emergência. Dentro de quinze dias o mais tardar chegará uma frota de naves robotizadas e bombardeará a Terra. Rhodan quer que suspendam todo e qualquer embargo contra seu grupo. Já pensou no que dirá essa gente?
Como um movimento discreto Rhodan ativou o hipnorradiador oculto sob seu traje.
— Mercant, você tem uma influência pessoal extraordinária — disse com a voz baixa, mas em tom penetrante, fitando os olhos de seu interlocutor. — Usará essa influência para convencer aquela gente. Tomará todas as providências para que os preparativos de defesa sejam iniciados sem a menor demora. Compreendeu, Mercant? Não se dirija ao Senado, mas ao Presidente. Fale com as pessoas que confiam em você pelas suas qualidades pessoais, não por ser chefe do Serviço Secreto. Entendido?
Mercant confirmou com um movimento dócil da cabeça. Nem se deu conta de que, até então, ninguém se atrevera a falar-lhe nesse tom, isso porque a incumbência transmitida por Rhodan era de natureza pós-hipnótica. Mercant não poderia deixar de cumpri-la à risca.
Rhodan descontraiu-se.
Libertou Mercant da constrição mental a que o submetera.
— Ficarei muito grato se puder conduzir-me em segurança até lá em cima.
Mercant abriu a porta.
— Enquanto estiver comigo, ninguém o deterá.
Enquanto passavam pela galeria, Mercant disse:
— Terei de manter contato com você, Rhodan. Instrua o capitão Klein a transmitir qualquer comunicação dirigida a você pelo código ANP. Não se esquecerá?
Rhodan estacou. Mercant sorriu quando notou sua surpresa.
— A quem devo instruir? — perguntou Rhodan. — Klein? O capitão Klein?
— Isso mesmo.
— Como sabe que trabalha conosco?
— Não sei — respondeu Mercant. — Apenas suponho. É como lhe digo: farejo uma porção de coisas nas pessoas.
Rhodan dominou o espanto.
— Klein ficará satisfeito em saber disso. Anda com um medo terrível de uma lavagem cerebral.
Mercant riu.
— Não deve ter medo. Continuo a considerá-lo um dos melhores elementos de que disponho.
Quando chegaram ao elevador, os guardas, espantados, fizeram continência. Rhodan perguntou em voz baixa:
— Você poderia explicar isso, Mercant? Quero dizer, sua atitude para com Klein.
Mercant hesitou, mas acabou dando uma resposta franca e singela:
— Estou convencido de que a humanidade devia colaborar com você. Acredito que não quer nada de condenável, e que seria de vantagem para todo mundo se fizéssemos as pazes com a Terceira Potência.
Rhodan encarou-o estupefato. Quando o elevador chegou ao décimo quinto andar, disse:
— Obrigado, Mercant!

VII


Allan D. Mercant era uma das pessoas que o Presidente dos Estados Unidos recebia a qualquer hora.
Quanto à soma dos poderes que enfeixavam em suas mãos, nenhum dos dois ficava devendo nada ao outro. Desta vez, porém, Mercant via-se diante de um caso especial, no qual precisava do auxílio do Presidente. Só este tinha o privilégio de desencadear um alarma nuclear.
O Presidente convocara seu conselheiro pessoal para a conferência. Tal qual Mercant, Wildinger era um dos homens do mundo livre dotados de maior dose de sangue-frio.
Mercant ainda não conseguira convencer o Presidente.
— Ninguém há de exigir que eu dê o alarma nuclear com base numa simples suspeita, atirando o dinheiro do povo pela janela — protestou o Presidente. — Sabe que um ato desses nos custa um bilhão de dólares?
Mercant sacudiu a cabeça.
— Não sabia. Mas também não sabia que num caso desses isso é tão importante — disse em tom indiferente.
— Wildinger! Abra a boca!
Até então, Wildinger se mantivera confortavelmente reclinado na sua poltrona. Agora deslocou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— É difícil dar um conselho — disse. — É bem possível que economizemos um bilhão de dólares, para sacrificar a vida dentro de poucos dias. Mas também é possível que o mais acertado seja não desencadear o alarma. Enquanto Mercant não nos fornecer informações mais precisas, nada podemos aventurar com uma probabilidade razoável, muito menos com um mínimo de certeza.
Acendeu um cigarro e prosseguiu:
— Poderíamos adotar uma solução conciliatória. Deixaríamos tudo preparado, para que o alarma pudesse ser desencadeado num tempo muito breve. Dessa forma só gastamos a décima parte e conservamos nossa liberdade de movimentos.
Mercant suspirou aliviado. Desde o início não esperara conseguir mais que isso. Insistira no alarma, para obter, ao menos, os preparativos.
O Presidente concordou com a sugestão que acabara de ser formulada. Mercant parecia indeciso; consentiu com uma expressão preocupada no rosto.
— Informarei os demais interessados — disse ao levantar-se. — Não quero que acreditem que estamos preparando uma guerra às escondidas.
Os “demais interessados” eram os homens de Pequim e Moscou. Johnston nada objetou contra as intenções de Mercant.

* * *

Em Pequim e Moscou o aviso de Mercant provocou o mesmo espanto que em Washington. Todavia, os agentes informaram que realmente o mundo ocidental se preparava para um alarma nuclear.
Para a manutenção do equilíbrio das forças tornava-se indispensável que as duas outras grandes potências seguissem o exemplo. Fizeram-no sem saber o que estava acontecendo.
A população não foi informada. Na Terra reinava a calma.

* * *

A nave dos arcônidas voltou à base, onde os robôs estavam concluindo seu trabalho.
Tako Kakuta regressara um dia antes. Trouxera a notícia do hiperemissor, que estava prestes a fazer desabar a desgraça sobre a Terra. Manoli e Haggard, isolados de outras notícias, tinham chegado ao auge do nervosismo quando a nave pousou junto à Stardust.
Rhodan chamou-os e informou-os de todos os detalhes. Para Manoli e o australiano, que não dispunham dos conhecimentos admiráveis de Rhodan e Bell, a notícia do perigo que os ameaçava foi um choque. Participaram calados e cabisbaixos da conferência dos membros da Terceira Potência, que Rhodan fez realizar imediatamente.
Também Thora manteve-se calada, mas não cabisbaixa. O triunfo continuava a brilhar nos seus olhos. Rhodan a compreendia. Estava para chegar o dia em que não dependeria mais da Terra. A nave decolaria para escapar ao ataque iminente, e uma das naves robotizadas colocaria a bordo o único remanescente aproveitável do cruzador dos arcônidas, garantindo a todos o regresso a Árcon.
Rhodan abriu a conferência com as seguintes palavras:
— Sabemos perfeitamente que não podemos exercer qualquer influência sobre as naves robotizadas. Em outras palavras, não temos nenhuma possibilidade de impedir que desencadeiem o ataque contra a Terra. A reação das naves robotizadas a um sinal de emergência processa-se de tal maneira que o inimigo cujo ataque deu origem à mensagem não tem a menor possibilidade de subtrair-se às medidas punitivas. Portanto, não devemos quebrar a cabeça com isso. A pergunta que tem de ser respondida é esta: temos alguma possibilidade de atacar os robôs antes que transformem a Terra num montão de cinzas?
A pergunta ficou no ar. Só Thora, Crest, Bell e Rhodan estavam em condições de conceber qualquer idéia a respeito. Tako, Haggard e Manoli não possuíam a capacidade necessária para isso. Uma das quatro pessoas que possuía essa capacidade — Thora — encerrou-se num obstinado mutismo. Um segundo, Crest, estava com a capacidade de raciocínio perturbada em virtude de idéias preconcebidas sobre a fatalidade da situação. Bell e Rhodan eram os únicos que podiam empenhar toda a capacidade intelectual na solução do problema.
— Vamos encarar a situação sob o ponto de vista tático — sugeriu Bell. — Segundo o código de emergência, devemos contar com a presença de cinco naves. O que nos interessa saber é como se comporta uma nave robotizada.
“Se ficarmos aqui sem fazer nada, aguardando os acontecimentos, se dirigirão em primeiro lugar ao cruzador destroçado, descobrirão a causa de sua destruição, verificarão que essa causa se localiza na Terra e atacarão nosso planeta. As naves robotizadas do Império Galático pensam em termos de mundos. Não devemos esperar que procurem saber se três foguetes provêm da China, da Rússia ou do Ocidente. Destruirão a Terra, não esta ou aquela nação.
“E se interferirmos com os robôs? O que farão as cinco naves robotizadas ao constatarem que o inimigo ainda se encontra nas proximidades do alvo destruído? O atacarão. Sabemos, ou melhor, quatro de nós sabem que os robôs possuem elevada habilidade tática. Não se lançarão todos de vez na perseguição de uma navezinha como a nossa. Calcularão que uma das suas naves será suficiente para nos destruir.
“Acho que aí está nossa única chance. Seria uma temeridade lutar contra cinco naves ao mesmo tempo. Mas se conseguirmos separá-las, para lidar com uma de cada vez, a situação mudará de figura.
Rhodan concordou. A idéia até chegou a despertar Crest da sua letargia. Via-se que recobrava as esperanças.
Thora continuou calada. Mas parecia que já não se sentia tão segura.
Continuaram a discutir o plano de Reginald Bell. Rhodan acrescentou alguns detalhes. Assim surgiu um projeto, que poderia ser introduzido nos computadores para ser interpretado. Rhodan traduziu-o em impulsos registrados em fitas que foram colocadas nos autômatos. Dessa forma seria informado sobre qualquer erro e poderia realizar as correções que se tornassem necessárias.

* * *

Na noite daquele dia, Rhodan teve uma palestra muito estranha. De tarde, o capitão Klein transmitira a informação de que nos três blocos de superpotências da Terra estavam sendo realizados preparativos para um alarma nuclear, a fim de que as áreas sujeitas a ataque pudessem ser evacuadas em poucas horas. Rhodan ficou satisfeito ao saber disso. A partir da localização ótica das naves robotizadas, que sem dúvida estariam imunes à localização pelo radar, tal qual a nave auxiliar, ainda passariam algumas horas até que descobrissem o que havia acontecido na Lua e iniciassem o ataque à Terra.
À noite, recebeu a visita de Thora. Era a primeira vez que ela entrava em seu camarote.
Rhodan ficou perplexo, tão perplexo que ela notou.
— É de admirar, não é? — disse Thora com uma ponta de ironia.
— É verdade! — confirmou Rhodan. — O que a traz aqui?
— Quero fazer-lhe uma proposta.
Rhodan apontou para uma poltrona.
— Queria sentar. Não imagina que prazer sinto ao ouvi-la.
Thora entesou o corpo, mas não havia o menor tom de zombaria nas palavras que ouvira. Sentou na poltrona que Rhodan lhe oferecera e reclinou-se profundamente.
— Dentro de cinco ou seis dias — principiou Thora — seu belo sonho da humanidade unida e da herança do Império Galático terá chegado ao fim.
Rhodan não a interrompeu, embora não concordasse com ela.
— Dentro de poucos dias — prosseguiu — nossos cruzadores robotizados chegarão, descobrirão as causas da destruição de nossa nave e transformarão a Terra num montão de rochas altamente radioativas — a Terra e todos que vivem nela. Existem algumas pessoas que merecem ser salvas da catástrofe. Você é uma dessas pessoas.
Rhodan sobressaltou-se. Inclinou o corpo para a frente, como se pudesse perseguir as palavras para voltar a introduzi-las no ouvido.
— Eu?
Thora confirmou com um gesto enfático.
— Sim, você. Talvez ainda seu companheiro Bell, que também recebeu nosso treinamento, e Haggard, que sabe curar a leucemia, e finalmente Tako Kakuta, por causa de suas faculdades extraordinárias. Ofereço-lhes a salvação. Minha posição de comandante de uma nave exploradora me dá esse direito. Irão a Árcon conosco e lá encontraremos uma maneira de aproveitá-los.
Rhodan começou a desconfiar do que havia atrás disso.
— Por que acha que justamente nós merecemos ser salvos? — perguntou.
— É por causa das faculdades que possuem — respondeu Thora prontamente. — Representariam uma aquisição valiosa para o Império. Poderiam ser utilizados em setores nos quais é necessária uma boa dose de energia. Dispõem dos conhecimentos necessários. Ainda poderíamos transmitir esses conhecimentos a Tako e Haggard.
Rhodan ficou em silêncio.
— Será que não pensa em utilizar-nos para criar uma nova raça?
Thora não percebeu o tom de sua voz.
— Não acredito — respondeu Thora com voz mais fria que antes — que qualquer mulher arcônida se prestasse a manter relações com um ser terreno.
Rhodan confirmou com um movimento de cabeça e esperou.
Thora dispunha de uma extraordinária reserva de paciência. Levou uns quinze minutos para perguntar:
— Então?
Rhodan levantou-se. Foi para junto da tela que substituía a janela e olhou para a imensidão de areia do deserto de Gobi. As estrelas espalhavam um brilho mortiço e produziam sombras difusas, que faziam os sulcos feitos pelo vento parecerem mais fundos do que realmente eram.
— Ouça, Thora! — disse depois de algum tempo. — Para mim, uma mão de areia deste deserto vale mais que todo o seu império podre. Não tenho o menor interesse em ocupar um cargo mais ou menos importante nele. A única coisa que me preocupa é a Terra. Quer saber por quê?
Girou sobre os saltos dos sapatos.
— Não teremos de esperar muito; apenas uns trezentos ou quatrocentos anos, que afinal não representam nada em comparação com o longo caminho que trilhamos desde a Idade da Pedra, para que o monturo do seu império nos caia nas mãos em troca de nada. Não serei eu quem vai ensinar aos arcônidas os truques através dos quais poderão perturbar o progresso da humanidade terrena. Perturbar, não impedir.
Deu dois passos em sua direção.
Thora sentiu-se tomada por uma fúria cruel. Quis sair para deixá-lo falando só, mas aquela voz a prendia. Foi a primeira vez que Rhodan, sem que o soubesse, colocou nas palavras dirigidas à mulher toda a força de persuasão que lhe fora conferida pelo treinamento hipnótico.
— Preste atenção — prosseguiu. — O que acontecerá se não conseguirmos rechaçar suas naves robotizadas? Atacarão a Terra e a destruirão. Mas sempre sobrarão alguns homens — cem, mil, dez mil ou um milhão, pouco importa. Esses homens nunca se esquecerão do que aconteceu aos demais. Cuidarão para que nada de semelhante aconteça a eles ou aos seus descendentes. Acho que você ainda não conhece a energia que possuímos. Dentro de dois mil anos a Terra voltará a ser o que é hoje. E o Império Galático, que já está podre até a medula dos ossos, terá um inimigo encarniçado nessa Terra. E não haverá a menor dúvida de como terminará essa inimizade. Até onde atingem nossas recordações, sempre combatemos nossos inimigos até matá-los. Nesse caso acontecerá a mesma coisa, e o controle da Galáxia passará às nossas mãos.
Thora reuniu todas as forças para sair. Mas antes que atingisse a escotilha, Rhodan voltou a falar, deixando-a como que pregada ao solo.
— As coisas ainda não chegaram a este ponto. Você sabe perfeitamente que temos uma possibilidade real de destruir as naves robotizadas. No início, pensarão que somos sobreviventes inofensivos da expedição espacial. Talvez até nos recebam a bordo antes de atacar a Terra. Assim teremos a chance de que precisamos. A Terra ainda não está perdida; falta muito para isso.
Thora deu mais dois passos. Já se encontrava perto da escotilha, quando Rhodan deu um grito:
— Pare!
A energia brutal da voz do terreno, que quase chegava a exercer uma constrição física, causou-lhe dor de cabeça. Virou-se rapidamente.
Ficou espantada ao ver que Rhodan sorria.
— Aqui na Terra conhecemos casos semelhantes aos seus. Certas mocinhas criadas em casas ricas e bem cuidadas ficam apavoradas ao saberem que nem todos vivem como elas e seus pais; há muita gente pobre que tem de lutar pela vida.
“Você é igualzinha a essas moças. Acha que deve desprezar-nos só por sermos mais jovens que sua raça. No dia em que você chegar perto de mim para confessar que nestas últimas semanas tem sido muito tola, eu lhe direi quanto a amo.
Thora ficou perplexa. Perdeu alguns segundos preciosos antes de decidir se devia responder ou não.
Finalmente o orgulho venceu. Virou-se abruptamente e saiu.
A insinuação chocara-a mais do que ela mesma gostaria de admitir. No planeta de Árcon as regras do jogo do amor haviam sido adaptadas no curso dos milênios aos ditames da inteligência. Se em Árcon um homem fizesse uma declaração de amor a uma mulher que pouco antes insultara, isso seria encarado como sintoma de doença mental.
Apesar da raiva que a dominava, Thora não deixou de reconhecer que na Terra não se podiam aplicar os mesmos padrões. Compreendeu que a declaração que Rhodan proferira naquele instante constituía parte da manobra que engendrara. Sentiu-se impotente diante desse tipo de ilogismo programado.
Pela primeira vez reconheceu com toda a clareza — e com todo o pavor que esse conhecimento lhe despertava — a juventude incrível da raça terrena e as forças espantosas e assustadoras que se ocultavam detrás dessa juventude.

* * *

A sensação surgiu dali a dois dias. Rhodan não tivera mais notícias de Mercant. Isso significava que na Terra não havia maiores novidades. Os dirigentes aguardavam a concretização das ameaças vindas de fora.
Manoli operava o rádio. Os robôs tinham concluído seu trabalho, e voltaram para os depósitos onde Crest os desativou.
Thora aparecia raras vezes. Evitava Rhodan. Este compreendia.
Bell e Haggard dedicavam-se ao jogo de xadrez.
Geralmente Manoli não sabia o que fazer. A nave auxiliar possuía receptores excelentes. Captava tudo sem a menor dificuldade, desde a emissora da polícia de Pequim até as notícias transmitidas pela estação espacial Freedom I e os programas de ondas longas das emissoras inter-regionais. E, como nas últimas semanas as notícias sensacionais fossem uma raridade, o cargo de radioperador não oferecia maiores atrativos.
Mas, nesse dia, as coisas mudaram por completo. Manoli estava ouvindo um programa da estação espacial na faixa de 305 megahertz. Subitamente o mesmo foi interrompido para a transmissão de um comunicado urgente:
Esquilo para raposa, esquilo para raposa. Localizamos objeto não identificável na direção Pi dois-um-zero. Teta zero-nove-cinco. Distância duas vezes dez na sexta potência metros, velocidade cerca de duas vezes dez na quarta potência metros por segundo, forma indefinível. Objeto prossegue em direção à Lua. Fim.
Raposa confirmou imediatamente e deu a seguinte indicação:
Pedimos que comunicados subseqüentes sejam transmitidos em código.
Manoli taquigrafara o comunicado. Arrancou a folha do bloco e saiu correndo. Percorreu o corredor às escorregadelas. Mal a escotilha do camarote de Rhodan se abriu, precipitou-se para dentro e leu a notícia para Rhodan. Este ficou muito mais exaltado do que Manoli esperava.
— É inacreditável!
Sem dar a menor atenção a Manoli, que nada entendia do assunto, ligou para Crest. Só após isso voltou a falar com o médico para dar-lhe uma incumbência:
— Avise Tako para que preste atenção aos sinais de Klein. Daqui a pouco receberemos informações mais detalhadas.
Manoli confirmou com um movimento de cabeça e saiu correndo. Depois de algum tempo Crest chegou.
— A estação espacial anuncia um corpo estranho vindo da órbita de Marte, que se dirige à Lua — explicou Rhodan com a voz tranqüila. — Gostaria de saber o que acha disso.
Crest mostrou-se interessado.
— Dispõe de outras informações?
— A velocidade é de 2 vezes 104 m/seg.
— Qual é a forma do objeto?
— Desconhecida.
Crest olhou-o.
— Face ao treinamento que recebeu, deve supor a mesma coisa que eu.
Rhodan fez que sim.
— Qual é a sua suposição?
— A base situada em Mira-4 não se encontra mais em poder do Império. O que vem por aí não é nenhum cruzador robotizado, mas uma nave pertencente a alguma unidade rebelde da frota colonial, pilotada por uma tripulação inexperiente.
Crest confirmou.
— Tomara que seja só essa — acrescentou Rhodan.
Dali a meia hora, Klein forneceu outras informações. O objeto estranho aproximara-se mais da estação espacial, que pôde identificar sua forma. Enquanto Klein conversava com Tako Kakuta no limite da cúpula energética, as notícias chegavam constantemente e eram logo decifradas por Klein, que trouxera a chave de decodificação, e transmitidas à nave.
O objeto estranho tinha a forma de um fuso. Era parecido com dois torpedos cortados ao meio e ligados pelas extremidades pontudas.
A medida que Klein decifrava as mensagens, Rhodan ouvia. Sabia que as naves em forma de fuso pertenciam aos tipos mais antigos da frota do Império, usados quase exclusivamente nos mundos coloniais. Isso confirmava a suposição de que o objeto que fora localizado não podia ser um cruzador robotizado.
Crest acrescentou:
— Os habitantes de Fantan possuem várias naves em forma de fuso, porque não estão em condições de adquirir veículos mais dispendiosos. Aposto — sorriu para Rhodan e procurou descobrir se este ficara satisfeito com a expressão tomada de empréstimo à fala dos terrenos — aposto que é uma nave de Fantan. O grupo de Fantan não fica muito distante da base de Mira. É bem possível que tenham conquistado Mira-4 e captado o sinal de emergência.
O que mais reforçava essa suposição era o fato de que a nave em forma de fuso não se resguardava contra o radar, nem contra a localização ótica. Além disso, aproximava-se da Lua com uma lentidão incrível, como se estivesse só no mundo e não precisasse recear coisa alguma.
Nenhum outro objeto foi localizado.
Thora pusera-se em comunicação com o circuito e ouvira tudo que o capitão Klein informara lá de fora. Assim que Tako voltou, Rhodan pediu-lhe que fosse ao camarote de Thora para solicitar uma entrevista destinada a esclarecer a situação. O japonês encontrou a comandante caída ao solo. Estava inconsciente.
A decepção fora um golpe pesado demais para ela.

VIII


Os acontecimentos começaram a precipitar-se. Dali a uma hora o capitão Klein voltou a chamar:
— Os chefes do Serviço de Defesa pedem uma conferência com o senhor Rhodan.
Rhodan estava estupefato.
— Os chefes? — perguntou. — Que chefes são estes?
Klein parecia divertir-se com o espanto de Rhodan.
— Há alguns minutos existe um comitê de segurança internacional. Os dirigentes são Ivan Kosselov, do Serviço Secreto do Bloco Oriental, Mao Tsen, do Serviço Secreto da Federação Asiática, e Allan D. Mercant.
Rhodan compreendeu a situação.
— Estou pronto para receber os cavalheiros a qualquer momento. A que hora poderão estar aqui?
— Todos eles são de opinião que o assunto é muito urgente. Mercant já se encontra em Pequim. Ele e Mao Tsen não levarão mais que quarenta e cinco minutos na viagem até aqui. E Kosselov também não demorará mais que isso.
Rhodan refletiu.
— Ouça, capitão! Anuncie essa gente assim que tiverem chegado. Se necessário deixarei que entrem, um por um.
Dali a uma hora os chefes dos serviços secretos terrenos compareceram à nave auxiliar dos arcônidas.
Rhodan pediu que Crest participasse da conferência.
Soube que a evacuação da população e dos equipamentos industriais mais importantes estava sendo levada avante a todo vapor.
— Gostaríamos de saber — disse Mercant — para que servirão essas providências. Será que o ataque das naves robotizadas não transformará a Terra num reator superativado?
Rhodan expôs as suposições a que ele e Crest haviam chegado em relação à nave.
— Mostro-lhes as coisas como realmente são — acrescentou. — Temos uma boa chance de rechaçar esse atacante com um único tiro bem dirigido. Mas nem por isso acho que seria aconselhável suspender o alarma. Em primeiro lugar, apesar de tudo existe a possibilidade de uma falha. Depois, não teremos de lidar apenas com essa nave. Mesmo que consigamos destruí-la, outras, que também captaram o sinal de emergência, surgirão. Se conseguirmos nos livrar do primeiro atacante teremos uma pausa de algumas semanas, no máximo alguns meses. E nesse intervalo teremos de preparar-nos para enfrentar o novo ataque sem o menor risco.
Olhou para Mercant.
— O senhor sabe a que me refiro. A Terra não está em condições de manter o embargo que pesa sobre nós. Somos a única coisa que pode fazer alguma coisa pela defesa da Terra. Precisamos ter plena liberdade de ação; só assim poderemos explorar todas as possibilidades que se oferecem.
Mercant olhou para os seus acompanhantes. Depois voltou a encarar Rhodan.
— No setor da OTAN, consideramos findo o embargo. Depositamos nossa confiança irrestrita no senhor em tudo aquilo que diz respeito às medidas de defesa contra um ataque vindo de fora.
Rhodan encarou-o; parecia surpreso. Kosselov falou em seguida:
— Nosso governo coloca-se na mesma posição no que diz respeito ao senhor.
Mao Tsen concordou com um sorriso:
— A Federação Asiática assume a mesma posição, senhor Rhodan.
Rhodan oferecia o quadro de uma estupefação incontida. Finalmente um sorriso esboçou-se nos cantos da sua boca. Com um ligeiro tom de ironia na voz disse:
— Cavalheiros! No instante em que seus governos estiverem dispostos a estender sua confiança para além dos preparativos de defesa contra um ataque vindo de fora, no instante em que depositarem confiança plena em nós, em todos os setores, a Terceira Potência deixará de manter-se isolada. Estaremos dispostos a abrir nossa base e a colocar aquilo que temos à disposição de toda a Humanidade.
Passaram a discutir os detalhes. Rhodan explicou de que maneira pretendia rechaçar lá fora, no espaço, o ataque da nave em forma de fuso. Deu instruções sobre as medidas de proteção à população, que deveriam ser adotadas se não conseguisse seu intento. Mercant, Kosselov e Mao Tsen faziam anotações.
Ao concluir, disse:
— Não sei se já se deram conta de que não poderão contar mais com o apoio da Terceira Potência caso falhe nossa tentativa de destruir a nave no espaço ou sobre a Lua. Estaremos empenhados numa luta de vida e morte. De qualquer maneira, temos de encarar essa possibilidade. Por isso anotei várias coisas que julgo importantes para a Humanidade. O documento será depositado num lugar adequado a fim de que possa resistir ao eventual ataque à Terra. Acho que minhas informações lhes serão úteis. Se a Terra for destroçada, as anotações representarão um bom ponto de partida para os sobreviventes. Nunca mais devemos esquecer que não estamos sós no universo. Temos de conformar-nos com a existência de outras raças e devemos preparar-nos para a eventualidade de que algumas delas nos sejam hostis.
“Peço que os acontecimentos que lhes transmito através das minhas anotações sejam encarados nesta perspectiva.”

* * *

As anotações representaram um trabalho extenso, cuja confecção consumiu horas preciosas de Rhodan. A nave atingira a órbita lunar e realizava evoluções a uma distância constante de dez mil quilômetros do satélite da Terra.
Rhodan teve uma ligeira palestra com seus companheiros. Thora manteve-se afastada. Precisava de sossego. A sugestão de Rhodan, de que Tako Kakuta e o Dr. Manoli permanecessem na Terra, mereceu apoio de todos. Na cúpula energética ficariam protegidos contra qualquer agressão, e contra as conseqüências de uma eventual contaminação radioativa. Tako guardou as anotações de Rhodan, prometendo entregá-las à humanidade — ou aos seus remanescentes — somente quando não restasse a menor dúvida de que a nave dos arcônidas fora destruída na luta contra os seres estranhos.
Tako e Manoli instalaram-se na Stardust. Rhodan decolou imediatamente.
Subiu a cem quilômetros. O cumprimento dos seus objetivos não poderia ficar a cargo dos dispositivos automáticos. Bell serviu de co-piloto. Haggard e Crest permaneceram na sala de comando.
A nave permaneceu imóvel. Os bulbos das lâmpadas de controle automático emitiam um brilho negro. Uma pequena imagem projetada numa tela embutida no painel indicava a posição da nave em relação à superfície da Terra. Todos os instrumentos, com exceção do altímetro, indicavam o valor zero.
Só no painel de Bell se via a luz de cinco lâmpadas verdes. Bell virou a cabeça e disse, tranqüilo:
— Reatores a plena potência, chefe!
Rhodan confirmou com um movimento de cabeça, sem se voltar. Nos compartimentos de máquinas, cinco reatores de fusão, que eram verdadeiros gigantes na sua classe, forneciam energia a um depósito, que a liberaria no momento adequado.
A energia armazenada seria suficiente para envolver a nave num campo hipergravitacional que a isolaria do ambiente exterior e — para utilizarmos uma imagem — a retiraria do complexo quadridimensional tempo-espaço. Um corpo circundado por um campo hipergravitacional deixava de existir no espaço normal; era trasladado para uma ordem espacial superior, onde prevaleciam as mesmas leis do espaço ao qual acabava de subtrair-se, mas os princípios da Física estavam sujeitos a uma interpretação totalmente diversa. Depois de ter adquirido os conhecimentos dos arcônidas através do treinamento hipnótico, Rhodan passou a designar esse superespaço como “o caminho situado atrás da curva espacial”. O problema do hipervôo encontrava sua explicação nesse contexto. Um corpo, como, por exemplo, uma nave, rompia a superfície convexa do conjunto tempo-espaço, prosseguia em trajetória reta e, uma vez atingido o destino, voltava a ingressar no citado conjunto.
Até então, ninguém tentara vencer um trajeto de pouco mais de um segundo-luz num hipersalto dessa espécie. No presente caso havia uma dificuldade. A nave auxiliar, pequena e dotada de pouca energia em comparação com a nave principal, levaria algum tempo para acumular energia depois de terminado o salto. Os depósitos haviam sido dimensionados de tal forma que apenas eram suficientes à dupla travessia da superfície do conjunto tempo-espaço. Terminado o salto, teria de haver uma pausa antes que a nave pudesse reencetar a viagem. Se o salto não atingisse o lugar programado, essa pausa seria aproveitada pelo inimigo, que estaria em condições de localizar a nave e colocar-se em posição favorável para o combate.
Pelos cálculos de Rhodan, o salto terminaria na sombra projetada pela Lua. A nave dos habitantes de Fantan prosseguia na mesma trajetória. Continuaria em órbita lunar, dez mil quilômetros atrás da Lua. A nave auxiliar surgiria à frente da Lua.
Rhodan moveu a mão em direção à tecla vermelha que faria a nave dar o salto.
Apertou-a. A tecla deu um estalo e as telas de imagem apagaram-se imediatamente.
Dali a um segundo voltaram a entrar em atividade. A imagem era totalmente diferente. Diante da nave surgiu a foice lunar, iluminada pelo sol que acabava de surgir detrás da Terra.
— Alguma localização? — perguntou Rhodan.
— Nada! — respondeu Bell.
— Intensidade do salto?
— Correta.
Rhodan reclinou-se na poltrona. Dali a pouco virou-se e olhou para Crest, que estava radiante.
— Excelente! — disse.
Rhodan não descansou. Assim que terminaram os cinco minutos de que os reatores precisavam para reabastecer o depósito com a quantidade mínima de energia, pôs a nave em movimento; em direção à Lua.
O resto foi brincadeira. Rhodan conduziu a nave para um vale profundo, cheio de sombras. No centro deste vale encontravam-se os destroços da nave dos arcônidas. Estava convencido de que um dia os homens de Fantan se arriscariam a aproximar-se do cruzador espacial. A nave por ele tripulada correria um risco menor se aguardasse esse momento.
Crest pedira que não fosse obrigado a desempenhar qualquer papel nesse empreendimento. Rhodan concordara por conhecer a mentalidade de um cientista, de Árcon. A época em que os arcônidas eram uma raça guerreira como os homens e construíram seu império, ficava muito longe. A luta passara a ser uma coisa terrível.
Rhodan manteve Haggard ocupado nos aparelhos de localização, fáceis de operar, enquanto Bell permanecia a postos nos instrumentos de pontaria. Ele mesmo manteve-se no assento do piloto, pois era perfeitamente possível que surgisse a necessidade de manobrar a nave.
O armamento da nave podia ser dividido em duas categorias.
Havia as armas de grande alcance, isto é, até um minuto-luz, e as de pequeno raio de ação. Face às suas características as armas de longo alcance estavam rigidamente fixadas ao corpo da nave; os projéteis dispunham de dispositivos direcionais automáticos. Já as armas de pequeno raio de ação eram móveis. Possuíam um dispositivo de pontaria automático, mas também podiam ser orientadas oticamente.
Rhodan não estava disposto a lançar mão dos foguetes de grande alcance. Embora a nave de Fantan fosse um veículo antiquado, equipado com campos defensivos de reduzida potência, era de todo provável que nesse exemplar, destinado a uma viagem tão arriscada, tivessem sido introduzidos alguns aperfeiçoamentos. Um foguete teleguiado podia ser localizado antes do tempo. E, face à mentalidade de sua tripulação, a nave de Fantan provavelmente se poria em fuga. Acontece que Rhodan estava interessado numa vitória decisiva, não num triunfo passageiro que deixasse em aberto o risco do retorno do inimigo.
Passaram-se algumas horas. Crest deitara-se e fechara os olhos.
Ninguém proferiu uma única palavra. Haggard estava sentado diante dos instrumentos, mas estes não revelavam coisa alguma. Bell permanecia no lugar que poderia ser designado como o posto de combate, mas que na verdade não passava de um painel com uma série de botões e manivelas.
Bell abriu a boca uma única vez:
— Não estou gostando disso, chefe! Devíamos decolar e atacá-los. Não gosto de atirar à traição em alguém.
— Silêncio! — interrompeu Rhodan. — Não podemos assumir qualquer risco. Você conhece essa gente de Fantan, não conhece?
Depois disso não houve mais discussão. Algumas horas se passaram. Rhodan teve vontade de levantar-se para cuidar de Thora. Mas sabia perfeitamente que a calma de um segundo não lhe permitiria tirar conclusões sobre o caráter dos outros, ao menos nessa expedição.

* * *

— Localização! — anunciou Haggard com a voz embaraçada.
Não disse mais nada.
— Quem sabe se você não quer nos dizer onde? Que diabo! — resmungou Bell.
— Pi zero-um-cinco, Teta zero-três-zero. Distância oitocentos mil metros.
Bell manipulou os instrumentos do painel.
— Velocidade?
— Cinqüenta metros por segundo na direção Pi-zero. Seguem em direção ao cruzador.
Rhodan virou-se.
— Que tal nossa posição, Bell?
— Favorável. Mas poderíamos subir mais alguns metros em direção à beira do vale, para qualquer eventualidade.
— Combinado!
A nave obedeceu ao comando. Deslizando rente ao solo negro, subiu em direção ao cume das montanhas que cercavam o vale.
— Pare! — disse Bell. — Assim está bom.
No mesmo instante a nave de Fantan surgiu na tela. Rhodan examinou-a; parecia pensativo. Ainda se encontrava a uma distância de cerca de oitocentos quilômetros e a velocidade com que se aproximava não era muito superior à de um automóvel. O pessoal de Fantan estava desconfiado e, ao que parecia, achava que devia aproximar-se sorrateiramente para não assumir um risco excessivo.
A nave foi deslizando na altura do cume das montanhas. Teriam de levantá-la um pouco para ultrapassá-las. Embora a manobra pudesse ser completada com alguns movimentos das chaves de comando, ela exigiria um pouco de sua atenção. Seria, portanto, o momento adequado de atacar.
Face à reduzida velocidade da nave de Fantan, algumas horas poderiam passar-se até que isso acontecesse. A cadeia de montanhas em que se encontravam era uma das menores; a área por ela cercada tinha um diâmetro de cem quilômetros.
Rhodan fazia votos de que dedicassem toda sua atenção à cratera, não lançando os olhos para mais longe. Não havia dúvida de que a parte superior da nave auxiliar ultrapassava a cumeeira das montanhas por cerca de dois metros. Era pouco em comparação com aquele complexo de rochas, mas poderia ser o suficiente para um inimigo atento.
Virou-se.
— O que pretende fazer? — perguntou a Bell.
Este apontou para um botão amarelo e uma manivela.
— Usarei a neutralização do campo cristalino — respondeu. — A única coisa que sobrará será uma névoa turbilhonante de átomos de hidrogênio, carbono e alguns metais.
Rhodan concordou com um movimento de cabeça.
— Qual será o tempo de bombardeio?
— Até que não sobre nada.
— Isso será necessário?
Bell mostrou-se surpreso.
— Por que não? Não convém assumir qualquer risco.
— Gostaria de mostrar uma coisa a Haggard — disse Rhodan. — Basta demolir a nave. Depois disso a tripulação não representará mais qualquer perigo para nós.
— Está bem — concordou Bell. — Regularei a duração do bombardeio para vinte segundos.
Haggard anunciou com a voz um tanto apressada:
— Aumentaram a velocidade. Cem metros por segundo. Distância de seiscentos e cinqüenta mil metros.
No mesmo instante acrescentou:
— O que pretende mostrar-me, Rhodan?
— Alguma coisa que lhe interessa muito. Aguarde!
A tensão aumentou, e o tempo demorou mais a passar. A nave estranha cresceu na tela de imagem, revelando suas dimensões imponentes. Rhodan calculou seu comprimento em trezentos ou trezentos e cinqüenta metros. No centro, que era o lugar mais fino, havia um diâmetro de cerca de trinta metros. Não havia dúvida de que, embora fosse antiquada, dispunha de armamento mais poderoso que a nave dos arcônidas. Se não conseguissem destruir aquela nave, o destino da Terra estaria selado. O próprio Rhodan não estava tão confiante a respeito dos acontecimentos que viriam depois como procurara aparentar diante de Thora.
— Quatrocentos mil! — anunciou Haggard depois de um silêncio interminável.
A uma distância de cem mil, Bell começaria a atirar.
Rhodan não acreditava que sua nave já tivesse sido localizada. O temperamento do povo de Fantan não lhes permitira prosseguir calmamente na viagem depois de terem localizado um inimigo.
Todavia...
— Trezentos mil. Estão acelerando. Alguns minutos depois:
— Frearam. Estão parados.
A reação de Rhodan foi imediata.
— Fogo! — ordenou.
Bell bateu na tecla do desintegrador e gritou:
— Vamos sair daqui! Precisamos subir!
Rhodan deu partida imediatamente.
Com um forte solavanco a nave elevou-se algumas centenas de metros acima da cumeeira das montanhas. Enquanto isso Bell atirava ininterruptamente.
Não havia a menor dúvida de que estava acertando. Na tela de direção de tiro surgiu a imagem da nave inimiga que se desintegrava. Não conseguia sair do lugar. A estrutura cristalina do envoltório externo dissolveu-se. A proa transformou-se em pó que no vácuo caiu ao solo com uma velocidade espantosa. A arma de Bell foi penetrando cada vez mais na estrutura, até atingir o centro da nave inimiga.
Subitamente viram um raio ofuscante. Rhodan fechou os olhos; ao abri-los viu que o panorama da tela começou a dançar.
Ainda estavam atirando. Acertaram no envoltório energético da nave, fazendo-a oscilar.
— Mais rápido! — rosnou para Bell.
Este não reagiu. Com uma atenção obstinada orientou o raio direcional de descristalização, fazendo-o prosseguir pelo envoltório da nave-fuso.
Outro tiro foi disparado pelo inimigo. Ricocheteou no envoltório energético e mais uma vez fez oscilar a nave. Por um momento o raio direcional operado por Bell perdeu o alvo. Mas logo voltou a encontrá-lo e desta vez destruiu-o por completo.
Nada restou do envoltório da nave-fuso. Os geradores também foram destruídos. Os remanescentes, formados por peças de equipamento, paredes divisórias, escotilhas, instrumentos e os cadáveres da tripulação, caíram em espiral.
Bell respirou aliviado.
— Pronto!
Rhodan deu partida na nave. Passou a pouca altura sobre a cratera com os restos do cruzador espacial dos arcônidas e aproximou-se do lugar em que fora destruída a nave inimiga.
O serviço de Haggard junto aos instrumentos de localização estava concluído. Bastante tenso, contemplava as telas de imagem.
— Daqui não conseguirá enxergar nada — disse Rhodan. — É preferível esperar até que pousemos.
Fez descer a nave no limite da área circular em que havia caído a poeira metálica e os destroços da nave.
Fechou o capacete do traje especial e disse a Haggard:
— Venha comigo!
Haggard não esperou que Rhodan repetisse o convite. Saíram e em saltos largos voaram em direção ao lugar em que se amontoavam os destroços da nave de Fantan.
Não havia muita coisa para ver. A tripulação da nave de Fantan mantivera os trajes espaciais abertos durante a luta. A descompressão explosiva que se verificara no momento da dissolução da parede externa da nave esfacelara seus corpos juntamente com os trajes.
Haggard encontrou alguma coisa que parecia ser um retalho de pele.
— É só isto? — perguntou, um pouco desapontado.
Rhodan deu de ombros.
— Acho que com isso você já poderá fazer muita coisa.
Voltaram à nave. Rhodan poderia dar mais uma busca no cruzador espacial, para silenciar o emissor automático de emergência, ou retornar à Terra para informar a humanidade sobre o desfecho da luta que não puderam observar, já que a mesma se desenrolara na face oculta da Lua.
Optou pela última alternativa. Levado por forte motivo: no instante em que a nave-fuso foi atacada, por certo emitiu um sinal de emergência igual ou semelhante ao do cruzador espacial. E esse sinal seria tão bem orientado que chegaria ao receptor a que se destinava. Face a isso, Rhodan não estaria em condições de evitar novos ataques com a simples desativação do emissor que se encontrava no cruzador espacial.
Um jogo fora iniciado, um jogo que dali por diante estabeleceria suas próprias regras e não mais poderia ser influenciado por quem quer que fosse.
Rhodan viu nisso mais um motivo de apressar seu retorno à Terra. Cada segundo tornara-se ainda mais precioso que antes. O próximo inimigo a lançar-se ao ataque seria muito mais numeroso e sagaz que aquele que acabara de ser destruído.

* * *

Durante a viagem de volta só houve um acontecimento excitante. Através dos supermicroscópios montados no laboratório de bordo, Haggard descobriu quão estranho era o retalho de pele dos homens de Fantan.
— Até mesmo em condições normais a pele deles tem a consistência do couro e está coberta de pequenas escamas — disse com a voz exaltada. — Não existe a menor dúvida. E os pedaços de carne presos à pele apresentam uma estrutura muito menos definida que a do homem ou de qualquer animal conhecido.
Rhodan sorriu.
— Isso lhe permite tirar alguma conclusão, Haggard?
Haggard confirmou com um rápido movimento de cabeça.
— Deve haver uma diferença considerável entre nós e os habitantes de Fantan, isso no terreno biológico.
— Tem alguma idéia de como é essa gente?
Haggard sacudiu a cabeça.
— Não; uns farrapos de pele não são suficientes para isso.
— Pois imagine um cilindro de extremidades arredondadas — disse Rhodan em tom professoral. — Esse cilindro possui certa elasticidade e é recoberto de escamas finas em toda extensão. Na parte superior apresenta várias aberturas que para nós não passariam de buracos escuros mas na realidade desempenham funções tão diferenciadas como as da boca, dos olhos, dos ouvidos e do nariz. O cilindro apresenta, em lugares variáveis, seis membros entre os quais não se nota diferença. Servem à locomoção, ao suprimento de alimentos e aos outros fins que os homens alcançam com a utilização das mãos e dos pés. Só que, nos habitantes de Fantan, não existe a menor diferença entre mãos e pés. Os seis membros são equivalentes.
“Os habitantes de Fantan são assexuados, Dr. Haggard. Reproduzem-se por meio de certo tipo de broto, que nem as plantas de um vaso.
“São esses os habitantes de Fantan. Será que você pensava que todos os seres inteligentes da Galáxia se parecem comigo ou com Crest? Quando chegar a hora, veremos raças irmãs mais nojentas que vermes ou sapos dos pântanos.”

* * *

A notícia da vitória foi recebida na Terra com um júbilo indescritível. O alarma nuclear foi suspenso imediatamente, providenciando-se a volta das populações às cidades.
A interrupção das atividades econômicas custara à Terra cerca de oitenta bilhões de dólares, mas, em compensação, a humanidade deu um grande passo em direção à união dos homens.
No dia em que pousou, Perry Rhodan recebeu os embaixadores extraordinários das três superpotências. Vieram para transmitir-lhe em palavras exaltadas a gratidão da humanidade. Cada um conferiu-lhe uma alta condecoração em nome de seu país.
Sorrindo, Rhodan aguardou tranqüilamente até que chegasse a hora de usar a palavra.
— Sinto muito, cavalheiros — disse em tom sério — que não posso partilhar sua alegria imensa. Talvez não saibam, mas o confronto que tivemos com uma inteligência estranha e hostil foi apenas o primeiro de uma série. Tivemos sorte em repelir o ataque; foi só. Da próxima vez, só a sorte não será suficiente.
“Sinto-me feliz por notar que a opinião pública mundial aprova a atuação da Terceira Potência e até lhe confere uma recompensa através destas altas condecorações. (Haveria uma ponta de ironia em sua voz?) Mas convém que deixem bem claro aos seus governos que vencemos apenas a primeira batalha de uma guerra que poderá consistir em mil batalhas ou mais. Gostaria de encaixar na cabeça dos senhores e dos responsáveis pelos destinos da humanidade que nestes dias começará uma fase da história que durará vários séculos, ou talvez milênios. As deliberações que forem tomadas hoje decidirão todo o porvir da Humanidade.
“Transmitam esta mensagem aos seus governos. Digam-lhes que nunca terão um aliado mais leal que a Terceira Potência, sempre que se tratar do bem de toda a Humanidade.
“Pleiteamos o reconhecimento diplomático e plena liberdade de movimentos. Por enquanto somos os únicos que podem tomar medidas eficazes contra o novo ataque que nos espera.”
Fez uma pausa. Depois, condescendeu num sorriso.
— Trombeteiem esta mensagem pelo mundo a fora, cavalheiros! Façam com que a humanidade compreenda que se encontra no limiar de uma era nova e grandiosa de sua história. Temos de pensar em termos de milênios, se não quisermos perecer.

* * *

No dia seguinte chegou a primeira remessa de chapas de plástico metalizado de Petersburg. Foi transportada sem o menor contratempo, pelo caminho que teria sido utilizado por qualquer comerciante que quisesse transportar um lote de mercadorias inofensivas dos Estados Unidos ao deserto de Gobi.
Rhodan viu nisso um sinal de que os governos terrenos haviam correspondido prontamente aos seus desejos. Tal fato reforçou-o na esperança de que dentro de pouco tempo a humanidade compreenderia de que energias imensas poderia dispor, desde que se unisse.
Viu-se mais próximo do seu objetivo; do objetivo provisório de uma Terra unificada. Ficou surpreso ao dar-se conta do progresso enorme alcançado num tempo tão curto.
Compreendia perfeitamente que a energia e a rapidez dessa evolução não fora gerada por ela mesma. O hiperemissor automático e a nave de Fantan atraída pelo mesmo haviam sido fatores ponderáveis do processo de unificação. Nos próximos dias faria sua quarta viagem à Lua, para silenciar o emissor.
Na noite do mesmo dia, os embaixadores extraordinários com que falara no dia anterior entregaram-lhe um convite para uma conferência das grandes potências mundiais.
Rhodan aceitou o convite. Ficou satisfeito em perceber que no cérebro daqueles homens sua alocução representara algo como um comando. Sem que o percebessem, ficaram tão impressionados com os argumentos de Rhodan que passaram a trabalhar mais em prol dos seus objetivos que dos de seus governos, se é que ainda havia uma diferença entre uns e outros.
A Terceira Potência fora convidada não na qualidade de simples observador, mas na de participante efetivo com direito de voto.

* * *

Pouco depois, teve uma palestra com Thora. Pela primeira vez após a localização da nave-fuso pela estação espacial Freedom-I ela saiu do camarote e entrou no compartimento ocupado por Rhodan sem fazer-se anunciar, tal qual fizera poucos dias antes.
Rhodan ofereceu-lhe uma cadeira. Thora agradeceu com um sorriso gentil.
— Tive tempo para refletir sobre uma porção de coisas — principiou ela. — Acho que em muitas ocasiões não me comportei da forma que seria de esperar.
Rhodan ficou surpreso. Nunca esperara que Thora pudesse levar a auto-analise a este ponto.
— Aos poucos começo a compreender qual é o caminho que você trilha, e qual o objetivo que quer atingir — prosseguiu Thora. — Confio plenamente em você. Mas, no que diz respeito à humanidade, ainda não formei nenhum juízo. Os conhecimentos que adquiri a respeito dos homens são escassos e pouco animadores. Até agora quase só se ocuparam em degolar-se mutuamente. Desconfio de que as esperanças que deposita nos seus irmãos de raça sejam exageradas.
“Vim para dizer-lhe o seguinte: daqui para diante você não me deve considerar sua inimiga. Prefiro aguardar o resultado dos seus planos. Esses planos são bons. É possível que num futuro não muito distante a raça humana assuma a herança dos arcônidas no Império Galático. Mas prefiro adiar minha decisão até que chegue esse dia.”
Rhodan levantou-se e estendeu-lhe a mão. Sorriu.
— É um gesto humano — disse. — Aperte minha mão; ela lhe é oferecida em sinal de gratidão.
Num gesto hesitante Thora pegou a mão de Rhodan e retribuiu o aperto.
— Respeito sua opinião — acrescentou Rhodan. — Acredito que a atitude de Crest não será diferente.
Esperou uma palavra de protesto; por isso objetou.
— Não; não entretenha uma idéia errada sobre Crest. Ele pertence à mesma raça que você. O que fez por nós foi inspirado na gratidão pela cura, e talvez, em parte, numa compreensão melhor que a sua. Mas ele nunca deixará de ser um arcônida. Nunca se transformará num ser terreno.
Piscou os olhos, para dar a entender que considerava concluída a parte séria de sua palestra.
— Para você, ainda existe alguma esperança.
Pouco lhe importava que Thora se sentisse ofendida; ela contorceu o rosto e saiu. Sabia que os dias de seu orgulhoso isolamento estavam contados. Ao pensar nisso, voltou a notar que amava aquela mulher.
Lá fora os robôs estavam ocupados em empilhar as pesadas chapas de plástico metalizado.
“Tenho que pedir que apressem o fornecimento do andaime. Não há nada de que precisemos tanto como uma boa nave de combate”, disse Rhodan, para si mesmo.



*   *   *
*   *
*


A primeira invasão foi rechaçada. O alarma nuclear pôde ser suspenso, Mas é muito provável que os sinais automáticos de emergência emitidos pelo cruzador destroçado dos arcônidas sejam captados por outros invasores potenciais.
Perry Rhodan sabe disso e esta empenhado na formação de uma poderosa força de combate. No próximo volume da coleção Perry Rhodan, O Exército de Mutantes, K. H. Scheer contará tudo sobre a composição dessa tropa e seu extraordinário potencial.

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