O’Healey
disse:
— Lá em
cima, no décimo quinto andar, aconteceu uma coisa estranha, senhor. Alguém fez
o elevador descer lá, mas quando os guardas o examinaram, não havia ninguém.
Mercant
ergueu o olhos.
— Não havia
ninguém? O que diz Zimmermann?
— O capitão
Zimmermann chamou alguns especialistas que deverão procurar impressões digitais
e não sei mais o quê no interior da cabina.
Mercant
levantou-se.
— Levarão
três meses para examinar todas as impressões digitais. Onde foi mesmo que isso
aconteceu? No décimo quinto andar?
— Sim,
senhor.
— Venha
comigo. Vamos subir até lá.
* * *
Rhodan já
constatara que o décimo quinto andar não era o último. Foi ao encontro do
capitão Zimmermann quando este se aproximou pelo corredor, e procurou descobrir
de onde ele viera. Descobriu dois elevadores que conduziam apenas para baixo.
Esses
elevadores eram vigiados com maior rigor que aqueles por onde ele descera. Não
havia a menor dúvida de que os guardas reagiriam ao mais leve movimento de
qualquer das cabinas.
Rhodan
esperou. Dali a pouco, o capitão Zimmermann voltou em companhia de um sargento.
Os guardas fizeram continência. Zimmermann e o sargento entraram no elevador do
lado direito.
Rhodan
seguiu-os sem fazer o menor ruído e comprimiu-se contra a parede do elevador
para não tocar em nenhum deles.
Zimmermann
disse:
— Que coisa
estranha! Até dá para desconfiar que o sujeito saltou do elevador no meio da
viagem. Mas isso é impossível!
O elevador
parou de repente. Pela contagem de Rhodan, haviam descido mais seis andares.
Rhodan não
saltou do elevador com a necessária rapidez, pois receava que os sapatos de seu
traje fizessem ruído. O sargento, que não tinha nenhum motivo para esse tipo de
receio, passou por ele e esbarrou em seu corpo.
Parou de
chofre. Zimmermann esbarrou nele. Rhodan conteve a respiração e desviou-se para
o lado em passos minúsculos.
— O que houve?
— perguntou Zimmermann.
— Es...
esbarrei em alguma coisa, capitão.
Zimmermann
franziu a testa.
— Onde?
— Aqui,
capitão — gaguejou o sargento, apontando para o nada.
Rhodan viu
que se encontravam no fim do corredor. A parede ficava a dois metros dos elevadores.
Comprimiu-se contra ela. Os guardas postados por ali aproximaram-se do
elevador.
Zimmermann
riu.
— Há quanto
tempo está conosco, sargento?
— Há dois
anos, capitão.
Este
mostrou-se compreensivo.
— Isso
explica tudo. Quando eu estava aqui dois anos, via pequeninos homens verdes
marchando por estes corredores.
Com um gesto
de mão procurou mostrar o tamanho dos homens, a fim de alegrar o sargento.
— De tanto
segredo que se faz por aqui — disse em tom benevolente — todo mundo acaba
sofrendo de alucinações. Isso só passa quando se está acostumado ao movimento
que há por aqui.
O sargento
retesou o corpo.
— Sim,
senhor.
Rhodan
sentiu-se aliviado. Zimmermann afastou-se em companhia do sargento. Os guardas
sorriram. Andando cautelosamente, Rhodan seguiu os dois.
— Aí vem o
capitão Zimmermann, coronel — avisou O’Healey ao abrir uma das portas de aço
que dividiam a galeria inferior em vários setores distintos.
— Ah! —
disse Mercant. Zimmermann fez continência.
— Este é o
sargento Threash, coronel. Foi a primeira pessoa que notou a ocorrência.
Mercant
cumprimentou o sargento com um movimento de cabeça.
— Deu
instruções para que se procurassem impressões na cabina do elevador? —
perguntou, dirigindo-se a Zimmermann.
— Sim,
senhor. Não mandei examinar toda a cabina; apenas o botão de comando para o
décimo quinto andar.
— Foi uma
medida muito inteligente — observou Mercant em tom irônico. — Isso representa
um tipo de terapia ocupacional para o staff de especialistas, não acha?
Ao ouvir a
reprimenda, Zimmermann piscou os olhos.
— Achei...
— Ora,
capitão. O senhor não vai me dizer que o homem — se é que esse homem existe —
que foi bastante inteligente para penetrar no posto de Umanaque, não se valeu
do velho recurso das luvas.
— É
possível, coronel — concordou Zimmermann.
— É certo —
disse Mercant em tom triunfante. — Sargento, quem mais viu a cabina vazia?
— Todos os
guardas que se encontravam diante dos elevadores do décimo quinto pavimento,
coronel — respondeu Threash em posição de sentido.
— Já mandou
chamar os técnicos em eletrônica? — perguntou Mercant, dirigindo-se a
Zimmermann. — Talvez seja um defeito do elevador.
— Ainda não,
coronel. Mas providenciarei...
Nesse
instante o inferno irrompeu por ali. Um uivo estridente superou todos os
ruídos. A porta de aço sob a qual Mercant e O’Healey se encontravam pôs-se em
movimento, deu um empurrão em Mercant, que arrastou O’Healey consigo, e
fechou-se com um ruído seco. Zimmermann e Threash ficaram do outro lado.
— Alarma de
radar! — disse Mercant com a voz ofegante. — Venha, O’Healey.
Saiu
correndo pelo corredor. Não poderia chegar ao seu corredor. Durante o alarma,
as portas de aço só se abririam mediante uma ordem especial e Mercant não pretendia
transmitir essa ordem enquanto não soubesse de que se tratava. De qualquer maneira
podia dispor das salas situadas no setor em que se encontrava.
Tomou lugar
em uma mesa desocupada às pressas. Através do aparelho de intercomunicação
entrou em contato com a central de vigilância.
— É Mercant!
O que houve na galeria inferior?
— Alarma de
radar no setor A, coronel.
— O que foi
que desencadeou?
— Não
sabemos, coronel. Captei todo o setor na tela de imagem que tenho diante de
mim, mas não vejo nada de anormal.
— Entrou em
contato com as salas do setor?
— Sim,
coronel. Mas ninguém viu nada de extraordinário.
Mercant
refletiu. O setor A era o primeiro a partir dos elevadores. Se alguém tivesse
vindo de cima...
— Está bem!
— disse com a voz áspera. — Pode suspender o alarma.
A sereia
voltou a uivar no corredor. Mercant saiu em companhia de O’Healey e abriu a
porta na qual dois minutos antes conversara com Zimmermann.
Este e o
sargento Threash continuavam no mesmo lugar.
— Aconteceu
alguma coisa? — perguntou Mercant laconicamente.
— Nada,
coronel. Permite que lhe pergunte...
— Há um
fantasma por aí — respondeu Mercant com um sorriso. — Um homem que sabe
tornar-se invisível.
Passando por
Zimmermann, avançou cautelosamente pela galeria. Zimmermann e os dois sargentos
fizeram menção de segui-lo, mas Mercant fez sinal para que continuassem onde
estavam.
Uma das
portas do lado esquerdo abriu-se. Com um gesto zangado, Mercant fez com que o
homem que pretendia sair para o corredor voltasse.
Subitamente
parou, como se tivesse encontrado alguma coisa. Voltou o rosto para o chão,
depois para cima. Finalmente virou-se e voltou com um sorriso no rosto.
— Acho que
fizemos papel de palhaço — disse em tom alegre. — Não há nada. Zimmermann!
— Sim,
coronel!
— Mande esse
pessoal das impressões digitais para casa. Acho que o caso será esclarecido de
outra forma.
— Sim,
senhor.
— O’Healey e
Threash, voltem aos seus postos. O’Healey, o senhor me apresentará o relatório
na hora de costume.
Voltou ao
seu gabinete, sem dar atenção aos rostos espantados que deixou para trás.
Cautelosamente
abriu a porta. Um sorriso de contentamento passou pelo seu rosto. Foi até a
mesa, afundou na poltrona e abriu uma das gavetas. Tirou uma pesada pistola.
Apontou a
arma para um ponto situado entre a porta e o armário mais próximo. Depois
disse:
— Seja quem
for o senhor, pode tirar seu disfarce. Não sei o que pretende aqui. Se quiser
matar o velho Mercant, é bom que saiba que ainda terei forças para apertar o
gatilho desta pistola. Já deve ter visto que sei perfeitamente onde está.
Então?
Passaram-se
alguns segundos. Subitamente uma espécie de nuvem começou a formar-se no lugar
para o qual Mercant estava apontando sua arma. A nuvem assumiu formas definidas
e acabou transformando-se num homem que envergava um traje estranho.
Mercant
arregalou os olhos.
— Major
Rhodan!
— Já não sou
major! O major deu baixa. Meu Deus, como foi que você descobriu?
Mercant
sorriu.
— Dizem que
descubro a presença de um homem pelo faro. Nunca senti isso tanto como hoje.
Sente-se, Rhodan.
Rhodan
sentou. Mercant ofereceu-lhe um cigarro. Parecia inteiramente à vontade.
— Seu
uniforme não o protege contra o radar, não é? — disse depois de algum tempo.
— Não; e não
sabia que aqui embaixo existem detetores de radar.
— Assim
mesmo é uma coisa extraordinária.
Rhodan
descansou o cigarro no cinzeiro.
— Vamos logo
ao que importa, Mercant. A coisa é muito mais séria do que você pensa.
— Muito bem;
pode falar.
Rhodan
relatou tudo que havia ocorrido na Lua. Concluiu da seguinte forma:
— Procure
compreender: o que virá por aí é uma frota de naves robotizadas, e nenhuma
delas estará interessada em saber se tínhamos algum direito de destruir o
cruzador espacial dos arcônidas. Dispararão seus mísseis e não temos como
defender-nos.
Se Mercant
ficou impressionado, não o deixou perceber.
— E sua
nave? Você não disse que está muito bem equipada? Não pode repelir o ataque com
ela?
— Está bem
equipada sob os padrões terrenos — respondeu Rhodan. — Mas as naves robotizadas
que estão a caminho têm um equipamento muito superior. Faremos o que estiver ao
nosso alcance, mas seria conveniente que o planeta Terra se preparasse.
— E quem me
garante que você não está blefando para arrancar umas tantas vantagens para si
e seus comparsas? — retrucou Mercant.
— Ninguém
lhe garante — respondeu Rhodan em tom indiferente. — Acredite se quiser. Quando
chegar o momento, verá que não estou blefando.
Mercant
abanou a cabeça. Ainda não se mostrava impressionado. Parecia refletir. Na
verdade, esforçou-se por captar tudo que era possível dos pensamentos de
Rhodan. Mercant sabia perfeitamente que possuía um princípio do dom da
telepatia. Podia perceber um pensamento muito intenso, desde que o indivíduo
não estivesse muito distante dele. Às vezes conseguia captar a concepção geral
de um fluxo de pensamentos, para saber se era verdadeiro ou falso.
O cérebro de
Rhodan tinha algo de muito especial. Mercant conseguira perceber onde ele se
encontrava; foi assim que pôde localizá-lo no corredor e no escritório. Mas
Rhodan parecia ter posto uma tranca nos seus pensamentos. Mercant não conseguiu
captar nenhum deles; mas percebeu que ele dizia a verdade.
Levantou-se.
— Esqueça-se
disso. O que sugere?
— Divulgue o
assunto entre as pessoas responsáveis — respondeu Rhodan. — Diga-lhes o que nos
espera e faça-os compreender que só através da cooperação de todos
conseguiremos montar uma defesa eficiente. Mais uma coisa: faça com que seja
suspenso esse ridículo bloqueio de suprimentos decretado contra nós. Ainda que
consigamos repelir o primeiro ataque, outros se seguirão. Para manter-nos,
precisaremos de pelo menos uma nave de grande capacidade. Mesmo que as
indústrias sejam autorizadas imediatamente a iniciar os fornecimentos,
levaremos alguns meses para montar uma nave com as matérias-primas e os
produtos semi-acabados que recebermos. Se tivermos de arranjar o material às
escondidas, levaremos dois anos. Mercant olhou para o chão.
— Farei o
possível, Rhodan. Sabe o que está pedindo de mim? Imagine só! Chego a
Washington e digo ao pessoal: Escutem, Rhodan encontrou na Lua um hiperemissor
que emite sinais de emergência. Dentro de quinze dias o mais tardar chegará uma
frota de naves robotizadas e bombardeará a Terra. Rhodan quer que suspendam
todo e qualquer embargo contra seu grupo. Já pensou no que dirá essa gente?
Como um
movimento discreto Rhodan ativou o hipnorradiador oculto sob seu traje.
— Mercant,
você tem uma influência pessoal extraordinária — disse com a voz baixa, mas em
tom penetrante, fitando os olhos de seu interlocutor. — Usará essa influência
para convencer aquela gente. Tomará todas as providências para que os
preparativos de defesa sejam iniciados sem a menor demora. Compreendeu,
Mercant? Não se dirija ao Senado, mas ao Presidente. Fale com as pessoas que
confiam em você pelas suas qualidades pessoais, não por ser chefe do Serviço
Secreto. Entendido?
Mercant
confirmou com um movimento dócil da cabeça. Nem se deu conta de que, até então,
ninguém se atrevera a falar-lhe nesse tom, isso porque a incumbência
transmitida por Rhodan era de natureza pós-hipnótica. Mercant não poderia
deixar de cumpri-la à risca.
Rhodan
descontraiu-se.
Libertou
Mercant da constrição mental a que o submetera.
— Ficarei
muito grato se puder conduzir-me em segurança até lá em cima.
Mercant
abriu a porta.
— Enquanto
estiver comigo, ninguém o deterá.
Enquanto
passavam pela galeria, Mercant disse:
— Terei de
manter contato com você, Rhodan. Instrua o capitão Klein a transmitir qualquer
comunicação dirigida a você pelo código ANP. Não se esquecerá?
Rhodan estacou.
Mercant sorriu quando notou sua surpresa.
— A quem
devo instruir? — perguntou Rhodan. — Klein? O capitão Klein?
— Isso
mesmo.
— Como sabe
que trabalha conosco?
— Não sei —
respondeu Mercant. — Apenas suponho. É como lhe digo: farejo uma porção de
coisas nas pessoas.
Rhodan
dominou o espanto.
— Klein
ficará satisfeito em saber disso. Anda com um medo terrível de uma lavagem
cerebral.
Mercant riu.
— Não deve
ter medo. Continuo a considerá-lo um dos melhores elementos de que disponho.
Quando
chegaram ao elevador, os guardas, espantados, fizeram continência. Rhodan
perguntou em voz baixa:
— Você
poderia explicar isso, Mercant? Quero dizer, sua atitude para com Klein.
Mercant
hesitou, mas acabou dando uma resposta franca e singela:
— Estou
convencido de que a humanidade devia colaborar com você. Acredito que não quer
nada de condenável, e que seria de vantagem para todo mundo se fizéssemos as
pazes com a Terceira Potência.
Rhodan
encarou-o estupefato. Quando o elevador chegou ao décimo quinto andar, disse:
— Obrigado,
Mercant!
VII
Allan D.
Mercant era uma das pessoas que o Presidente dos Estados Unidos recebia a
qualquer hora.
Quanto à
soma dos poderes que enfeixavam em suas mãos, nenhum dos dois ficava devendo
nada ao outro. Desta vez, porém, Mercant via-se diante de um caso especial, no
qual precisava do auxílio do Presidente. Só este tinha o privilégio de
desencadear um alarma nuclear.
O Presidente
convocara seu conselheiro pessoal para a conferência. Tal qual Mercant,
Wildinger era um dos homens do mundo livre
dotados de maior dose de sangue-frio.
Mercant
ainda não conseguira convencer o Presidente.
— Ninguém há
de exigir que eu dê o alarma nuclear com base numa simples suspeita, atirando o
dinheiro do povo pela janela — protestou o Presidente. — Sabe que um ato desses
nos custa um bilhão de dólares?
Mercant
sacudiu a cabeça.
— Não sabia.
Mas também não sabia que num caso desses isso é tão importante — disse em tom
indiferente.
— Wildinger!
Abra a boca!
Até então,
Wildinger se mantivera confortavelmente reclinado na sua poltrona. Agora
deslocou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— É difícil
dar um conselho — disse. — É bem possível que economizemos um bilhão de
dólares, para sacrificar a vida dentro de poucos dias. Mas também é possível
que o mais acertado seja não desencadear o alarma. Enquanto Mercant não nos
fornecer informações mais precisas, nada podemos aventurar com uma
probabilidade razoável, muito menos com um mínimo de certeza.
Acendeu um
cigarro e prosseguiu:
— Poderíamos
adotar uma solução conciliatória. Deixaríamos tudo preparado, para que o alarma
pudesse ser desencadeado num tempo muito breve. Dessa forma só gastamos a
décima parte e conservamos nossa liberdade de movimentos.
Mercant
suspirou aliviado. Desde o início não esperara conseguir mais que isso.
Insistira no alarma, para obter, ao menos, os preparativos.
O Presidente
concordou com a sugestão que acabara de ser formulada. Mercant parecia
indeciso; consentiu com uma expressão preocupada no rosto.
— Informarei
os demais interessados — disse ao levantar-se. — Não quero que acreditem que
estamos preparando uma guerra às escondidas.
Os “demais
interessados” eram os homens de Pequim e Moscou. Johnston nada objetou contra
as intenções de Mercant.
* * *
Em Pequim e
Moscou o aviso de Mercant provocou o mesmo espanto que em Washington. Todavia,
os agentes informaram que realmente o mundo ocidental se preparava para um
alarma nuclear.
Para a
manutenção do equilíbrio das forças tornava-se indispensável que as duas outras
grandes potências seguissem o exemplo. Fizeram-no sem saber o que estava
acontecendo.
A população
não foi informada. Na Terra reinava a calma.
* * *
A nave dos
arcônidas voltou à base, onde os robôs estavam concluindo seu trabalho.
Tako Kakuta
regressara um dia antes. Trouxera a notícia do hiperemissor, que estava prestes
a fazer desabar a desgraça sobre a Terra. Manoli e Haggard, isolados de outras
notícias, tinham chegado ao auge do nervosismo quando a nave pousou junto à Stardust.
Rhodan
chamou-os e informou-os de todos os detalhes. Para Manoli e o australiano, que
não dispunham dos conhecimentos admiráveis de Rhodan e Bell, a notícia do
perigo que os ameaçava foi um choque. Participaram calados e cabisbaixos da
conferência dos membros da Terceira Potência, que Rhodan fez realizar
imediatamente.
Também Thora
manteve-se calada, mas não cabisbaixa. O triunfo continuava a brilhar nos seus
olhos. Rhodan a compreendia. Estava para chegar o dia em que não dependeria
mais da Terra. A nave decolaria para escapar ao ataque iminente, e uma das
naves robotizadas colocaria a bordo o único remanescente aproveitável do cruzador
dos arcônidas, garantindo a todos o regresso a Árcon.
Rhodan abriu
a conferência com as seguintes palavras:
— Sabemos
perfeitamente que não podemos exercer qualquer influência sobre as naves
robotizadas. Em outras palavras, não temos nenhuma possibilidade de impedir que
desencadeiem o ataque contra a Terra. A reação das naves robotizadas a um sinal
de emergência processa-se de tal maneira que o inimigo cujo ataque deu origem à
mensagem não tem a menor possibilidade de subtrair-se às medidas punitivas. Portanto,
não devemos quebrar a cabeça com isso. A pergunta que tem de ser respondida é
esta: temos alguma possibilidade de atacar os robôs antes que transformem a
Terra num montão de cinzas?
A pergunta
ficou no ar. Só Thora, Crest, Bell e Rhodan estavam em condições de conceber
qualquer idéia a respeito. Tako, Haggard e Manoli não possuíam a capacidade
necessária para isso. Uma das quatro pessoas que possuía essa capacidade —
Thora — encerrou-se num obstinado mutismo. Um segundo, Crest, estava com a
capacidade de raciocínio perturbada em virtude de idéias preconcebidas sobre a
fatalidade da situação. Bell e Rhodan eram os únicos que podiam empenhar toda a
capacidade intelectual na solução do problema.
— Vamos
encarar a situação sob o ponto de vista tático — sugeriu Bell. — Segundo o
código de emergência, devemos contar com a presença de cinco naves. O que nos
interessa saber é como se comporta uma nave robotizada.
“Se ficarmos
aqui sem fazer nada, aguardando os acontecimentos, se dirigirão em primeiro
lugar ao cruzador destroçado, descobrirão a causa de sua destruição,
verificarão que essa causa se localiza na Terra e atacarão nosso planeta. As
naves robotizadas do Império Galático pensam em termos de mundos. Não devemos
esperar que procurem saber se três foguetes provêm da China, da Rússia ou do
Ocidente. Destruirão a Terra, não esta ou aquela nação.
“E se
interferirmos com os robôs? O que farão as cinco naves robotizadas ao
constatarem que o inimigo ainda se encontra nas proximidades do alvo destruído?
O atacarão. Sabemos, ou melhor, quatro de nós sabem que os robôs possuem
elevada habilidade tática. Não se lançarão todos de vez na perseguição de uma
navezinha como a nossa. Calcularão que uma das suas naves será suficiente para
nos destruir.
“Acho que aí
está nossa única chance. Seria uma temeridade lutar contra cinco naves ao mesmo
tempo. Mas se conseguirmos separá-las, para lidar com uma de cada vez, a
situação mudará de figura.
Rhodan
concordou. A idéia até chegou a despertar Crest da sua letargia. Via-se que
recobrava as esperanças.
Thora
continuou calada. Mas parecia que já não se sentia tão segura.
Continuaram
a discutir o plano de Reginald Bell. Rhodan acrescentou alguns detalhes. Assim
surgiu um projeto, que poderia ser introduzido nos computadores para ser
interpretado. Rhodan traduziu-o em impulsos registrados em fitas que foram
colocadas nos autômatos. Dessa forma seria informado sobre qualquer erro e
poderia realizar as correções que se tornassem necessárias.
* * *
Na noite
daquele dia, Rhodan teve uma palestra muito estranha. De tarde, o capitão Klein
transmitira a informação de que nos três blocos de superpotências da Terra
estavam sendo realizados preparativos para um alarma nuclear, a fim de que as
áreas sujeitas a ataque pudessem ser evacuadas em poucas horas. Rhodan ficou
satisfeito ao saber disso. A partir da localização ótica das naves robotizadas,
que sem dúvida estariam imunes à localização pelo radar, tal qual a nave
auxiliar, ainda passariam algumas horas até que descobrissem o que havia acontecido
na Lua e iniciassem o ataque à Terra.
À noite,
recebeu a visita de Thora. Era a primeira vez que ela entrava em seu camarote.
Rhodan ficou
perplexo, tão perplexo que ela notou.
— É de
admirar, não é? — disse Thora com uma ponta de ironia.
— É verdade!
— confirmou Rhodan. — O que a traz aqui?
— Quero
fazer-lhe uma proposta.
Rhodan
apontou para uma poltrona.
— Queria
sentar. Não imagina que prazer sinto ao ouvi-la.
Thora
entesou o corpo, mas não havia o menor tom de zombaria nas palavras que ouvira.
Sentou na poltrona que Rhodan lhe oferecera e reclinou-se profundamente.
— Dentro de
cinco ou seis dias — principiou Thora — seu belo sonho da humanidade unida e da
herança do Império Galático terá chegado ao fim.
Rhodan não a
interrompeu, embora não concordasse com ela.
— Dentro de
poucos dias — prosseguiu — nossos cruzadores robotizados chegarão, descobrirão
as causas da destruição de nossa nave e transformarão a Terra num montão de
rochas altamente radioativas — a Terra e todos que vivem nela. Existem algumas
pessoas que merecem ser salvas da catástrofe. Você é uma dessas pessoas.
Rhodan
sobressaltou-se. Inclinou o corpo para a frente, como se pudesse perseguir as
palavras para voltar a introduzi-las no ouvido.
— Eu?
Thora
confirmou com um gesto enfático.
— Sim, você.
Talvez ainda seu companheiro Bell, que também recebeu nosso treinamento, e
Haggard, que sabe curar a leucemia, e finalmente Tako Kakuta, por causa de suas
faculdades extraordinárias. Ofereço-lhes a salvação. Minha posição de
comandante de uma nave exploradora me dá esse direito. Irão a Árcon conosco e
lá encontraremos uma maneira de aproveitá-los.
Rhodan
começou a desconfiar do que havia atrás disso.
— Por que
acha que justamente nós merecemos ser salvos? — perguntou.
— É por
causa das faculdades que possuem — respondeu Thora prontamente. —
Representariam uma aquisição valiosa para o Império. Poderiam ser utilizados em
setores nos quais é necessária uma boa dose de energia. Dispõem dos
conhecimentos necessários. Ainda poderíamos transmitir esses conhecimentos a
Tako e Haggard.
Rhodan ficou
em silêncio.
— Será que
não pensa em utilizar-nos para criar uma nova raça?
Thora não
percebeu o tom de sua voz.
— Não
acredito — respondeu Thora com voz mais fria que antes — que qualquer mulher
arcônida se prestasse a manter relações com um ser terreno.
Rhodan
confirmou com um movimento de cabeça e esperou.
Thora
dispunha de uma extraordinária reserva de paciência. Levou uns quinze minutos
para perguntar:
— Então?
Rhodan
levantou-se. Foi para junto da tela que substituía a janela e olhou para a
imensidão de areia do deserto de Gobi. As estrelas espalhavam um brilho mortiço
e produziam sombras difusas, que faziam os sulcos feitos pelo vento parecerem
mais fundos do que realmente eram.
— Ouça,
Thora! — disse depois de algum tempo. — Para mim, uma mão de areia deste
deserto vale mais que todo o seu império podre. Não tenho o menor interesse em
ocupar um cargo mais ou menos importante nele. A única coisa que me preocupa é
a Terra. Quer saber por quê?
Girou sobre
os saltos dos sapatos.
— Não
teremos de esperar muito; apenas uns trezentos ou quatrocentos anos, que afinal
não representam nada em comparação com o longo caminho que trilhamos desde a
Idade da Pedra, para que o monturo do seu império nos caia nas mãos em troca de
nada. Não serei eu quem vai ensinar aos arcônidas os truques através dos quais
poderão perturbar o progresso da humanidade terrena. Perturbar, não impedir.
Deu dois
passos em sua direção.
Thora
sentiu-se tomada por uma fúria cruel. Quis sair para deixá-lo falando só, mas
aquela voz a prendia. Foi a primeira vez que Rhodan, sem que o soubesse,
colocou nas palavras dirigidas à mulher toda a força de persuasão que lhe fora
conferida pelo treinamento hipnótico.
— Preste
atenção — prosseguiu. — O que acontecerá se não conseguirmos rechaçar suas
naves robotizadas? Atacarão a Terra e a destruirão. Mas sempre sobrarão alguns
homens — cem, mil, dez mil ou um milhão, pouco importa. Esses homens nunca se
esquecerão do que aconteceu aos demais. Cuidarão para que nada de semelhante
aconteça a eles ou aos seus descendentes. Acho que você ainda não conhece a
energia que possuímos. Dentro de dois mil anos a Terra voltará a ser o que é
hoje. E o Império Galático, que já está podre até a medula dos ossos, terá um inimigo
encarniçado nessa Terra. E não haverá a menor dúvida de como terminará essa
inimizade. Até onde atingem nossas recordações, sempre combatemos nossos
inimigos até matá-los. Nesse caso acontecerá a mesma coisa, e o controle da
Galáxia passará às nossas mãos.
Thora reuniu
todas as forças para sair. Mas antes que atingisse a escotilha, Rhodan voltou a
falar, deixando-a como que pregada ao solo.
— As coisas
ainda não chegaram a este ponto. Você sabe perfeitamente que temos uma
possibilidade real de destruir as naves robotizadas. No início, pensarão que
somos sobreviventes inofensivos da expedição espacial. Talvez até nos recebam a
bordo antes de atacar a Terra. Assim teremos a chance de que precisamos. A
Terra ainda não está perdida; falta muito para isso.
Thora deu
mais dois passos. Já se encontrava perto da escotilha, quando Rhodan deu um
grito:
— Pare!
A energia
brutal da voz do terreno, que quase chegava a exercer uma constrição física,
causou-lhe dor de cabeça. Virou-se rapidamente.
Ficou
espantada ao ver que Rhodan sorria.
— Aqui na Terra
conhecemos casos semelhantes aos seus. Certas mocinhas criadas em casas ricas e
bem cuidadas ficam apavoradas ao saberem que nem todos vivem como elas e seus
pais; há muita gente pobre que tem de lutar pela vida.
“Você é
igualzinha a essas moças. Acha que deve desprezar-nos só por sermos mais jovens
que sua raça. No dia em que você chegar perto de mim para confessar que nestas
últimas semanas tem sido muito tola, eu lhe direi quanto a amo.
Thora ficou
perplexa. Perdeu alguns segundos preciosos antes de decidir se devia responder
ou não.
Finalmente o
orgulho venceu. Virou-se abruptamente e saiu.
A insinuação
chocara-a mais do que ela mesma gostaria de admitir. No planeta de Árcon as
regras do jogo do amor haviam sido adaptadas no curso dos milênios aos ditames
da inteligência. Se em Árcon um homem fizesse uma declaração de amor a uma
mulher que pouco antes insultara, isso seria encarado como sintoma de doença
mental.
Apesar da
raiva que a dominava, Thora não deixou de reconhecer que na Terra não se podiam
aplicar os mesmos padrões. Compreendeu que a declaração que Rhodan proferira
naquele instante constituía parte da manobra que engendrara. Sentiu-se
impotente diante desse tipo de ilogismo programado.
Pela
primeira vez reconheceu com toda a clareza — e com todo o pavor que esse
conhecimento lhe despertava — a juventude incrível da raça terrena e as forças
espantosas e assustadoras que se ocultavam detrás dessa juventude.
* * *
A sensação
surgiu dali a dois dias. Rhodan não tivera mais notícias de Mercant. Isso
significava que na Terra não havia maiores novidades. Os dirigentes aguardavam
a concretização das ameaças vindas de fora.
Manoli
operava o rádio. Os robôs tinham concluído seu trabalho, e voltaram para os
depósitos onde Crest os desativou.
Thora
aparecia raras vezes. Evitava Rhodan. Este compreendia.
Bell e
Haggard dedicavam-se ao jogo de xadrez.
Geralmente
Manoli não sabia o que fazer. A nave auxiliar possuía receptores excelentes.
Captava tudo sem a menor dificuldade, desde a emissora da polícia de Pequim até
as notícias transmitidas pela estação espacial Freedom I e os programas de
ondas longas das emissoras inter-regionais. E, como nas últimas semanas as
notícias sensacionais fossem uma raridade, o cargo de radioperador não oferecia
maiores atrativos.
Mas, nesse
dia, as coisas mudaram por completo. Manoli estava ouvindo um programa da
estação espacial na faixa de 305 megahertz. Subitamente o mesmo foi
interrompido para a transmissão de um comunicado urgente:
— Esquilo para raposa, esquilo para raposa.
Localizamos objeto não identificável na direção Pi dois-um-zero. Teta
zero-nove-cinco. Distância duas vezes dez na sexta potência metros, velocidade
cerca de duas vezes dez na quarta potência metros por segundo, forma indefinível.
Objeto prossegue em direção à Lua. Fim.
Raposa
confirmou imediatamente e deu a seguinte indicação:
— Pedimos que comunicados subseqüentes sejam
transmitidos em código.
Manoli
taquigrafara o comunicado. Arrancou a folha do bloco e saiu correndo. Percorreu
o corredor às escorregadelas. Mal a escotilha do camarote de Rhodan se abriu,
precipitou-se para dentro e leu a notícia para Rhodan. Este ficou muito mais
exaltado do que Manoli esperava.
— É
inacreditável!
Sem dar a
menor atenção a Manoli, que nada entendia do assunto, ligou para Crest. Só após
isso voltou a falar com o médico para dar-lhe uma incumbência:
— Avise Tako
para que preste atenção aos sinais de Klein. Daqui a pouco receberemos
informações mais detalhadas.
Manoli
confirmou com um movimento de cabeça e saiu correndo. Depois de algum tempo
Crest chegou.
— A estação
espacial anuncia um corpo estranho vindo da órbita de Marte, que se dirige à
Lua — explicou Rhodan com a voz tranqüila. — Gostaria de saber o que acha
disso.
Crest
mostrou-se interessado.
— Dispõe de
outras informações?
— A
velocidade é de 2 vezes 104 m/seg.
— Qual é a
forma do objeto?
— Desconhecida.
Crest
olhou-o.
— Face ao
treinamento que recebeu, deve supor a mesma coisa que eu.
Rhodan fez
que sim.
— Qual é a
sua suposição?
— A base
situada em Mira-4 não se encontra mais em poder do Império. O que vem por aí
não é nenhum cruzador robotizado, mas uma nave pertencente a alguma unidade
rebelde da frota colonial, pilotada por uma tripulação inexperiente.
Crest
confirmou.
— Tomara que
seja só essa — acrescentou Rhodan.
Dali a meia
hora, Klein forneceu outras informações. O objeto estranho aproximara-se mais
da estação espacial, que pôde identificar sua forma. Enquanto Klein conversava
com Tako Kakuta no limite da cúpula energética, as notícias chegavam
constantemente e eram logo decifradas por Klein, que trouxera a chave de
decodificação, e transmitidas à nave.
O objeto
estranho tinha a forma de um fuso. Era parecido com dois torpedos cortados ao
meio e ligados pelas extremidades pontudas.
A medida que
Klein decifrava as mensagens, Rhodan ouvia. Sabia que as naves em forma de fuso
pertenciam aos tipos mais antigos da frota do Império, usados quase
exclusivamente nos mundos coloniais. Isso confirmava a suposição de que o
objeto que fora localizado não podia ser um cruzador robotizado.
Crest
acrescentou:
— Os
habitantes de Fantan possuem várias naves em forma de fuso, porque não estão em
condições de adquirir veículos mais dispendiosos. Aposto — sorriu para Rhodan e
procurou descobrir se este ficara satisfeito com a expressão tomada de
empréstimo à fala dos terrenos — aposto que é uma nave de Fantan. O grupo de
Fantan não fica muito distante da base de Mira. É bem possível que tenham
conquistado Mira-4 e captado o sinal de emergência.
O que mais
reforçava essa suposição era o fato de que a nave em forma de fuso não se
resguardava contra o radar, nem contra a localização ótica. Além disso,
aproximava-se da Lua com uma lentidão incrível, como se estivesse só no mundo e
não precisasse recear coisa alguma.
Nenhum outro
objeto foi localizado.
Thora
pusera-se em comunicação com o circuito e ouvira tudo que o capitão Klein
informara lá de fora. Assim que Tako voltou, Rhodan pediu-lhe que fosse ao
camarote de Thora para solicitar uma entrevista destinada a esclarecer a
situação. O japonês encontrou a comandante caída ao solo. Estava inconsciente.
A decepção
fora um golpe pesado demais para ela.
VIII
Os
acontecimentos começaram a precipitar-se. Dali a uma hora o capitão Klein
voltou a chamar:
— Os chefes
do Serviço de Defesa pedem uma conferência com o senhor Rhodan.
Rhodan
estava estupefato.
— Os chefes?
— perguntou. — Que chefes são estes?
Klein
parecia divertir-se com o espanto de Rhodan.
— Há alguns
minutos existe um comitê de segurança internacional. Os dirigentes são Ivan
Kosselov, do Serviço Secreto do Bloco Oriental, Mao Tsen, do Serviço Secreto da
Federação Asiática, e Allan D. Mercant.
Rhodan
compreendeu a situação.
— Estou
pronto para receber os cavalheiros a qualquer momento. A que hora poderão estar
aqui?
— Todos eles
são de opinião que o assunto é muito urgente. Mercant já se encontra em Pequim.
Ele e Mao Tsen não levarão mais que quarenta e cinco minutos na viagem até
aqui. E Kosselov também não demorará mais que isso.
Rhodan
refletiu.
— Ouça,
capitão! Anuncie essa gente assim que tiverem chegado. Se necessário deixarei
que entrem, um por um.
Dali a uma
hora os chefes dos serviços secretos terrenos compareceram à nave auxiliar dos
arcônidas.
Rhodan pediu
que Crest participasse da conferência.
Soube que a
evacuação da população e dos equipamentos industriais mais importantes estava
sendo levada avante a todo vapor.
— Gostaríamos
de saber — disse Mercant — para que servirão essas providências. Será que o
ataque das naves robotizadas não transformará a Terra num reator superativado?
Rhodan expôs
as suposições a que ele e Crest haviam chegado em relação à nave.
— Mostro-lhes
as coisas como realmente são — acrescentou. — Temos uma boa chance de rechaçar
esse atacante com um único tiro bem dirigido. Mas nem por isso acho que seria
aconselhável suspender o alarma. Em primeiro lugar, apesar de tudo existe a
possibilidade de uma falha. Depois, não teremos de lidar apenas com essa nave.
Mesmo que consigamos destruí-la, outras, que também captaram o sinal de
emergência, surgirão. Se conseguirmos nos livrar do primeiro atacante teremos
uma pausa de algumas semanas, no máximo alguns meses. E nesse intervalo teremos
de preparar-nos para enfrentar o novo ataque sem o menor risco.
Olhou para
Mercant.
— O senhor
sabe a que me refiro. A Terra não está em condições de manter o embargo que
pesa sobre nós. Somos a única coisa que pode fazer alguma coisa pela defesa da
Terra. Precisamos ter plena liberdade de ação; só assim poderemos explorar
todas as possibilidades que se oferecem.
Mercant
olhou para os seus acompanhantes. Depois voltou a encarar Rhodan.
— No setor
da OTAN, consideramos findo o embargo. Depositamos nossa confiança irrestrita
no senhor em tudo aquilo que diz respeito às medidas de defesa contra um ataque
vindo de fora.
Rhodan
encarou-o; parecia surpreso. Kosselov falou em seguida:
— Nosso
governo coloca-se na mesma posição no que diz respeito ao senhor.
Mao Tsen
concordou com um sorriso:
— A
Federação Asiática assume a mesma posição, senhor Rhodan.
Rhodan
oferecia o quadro de uma estupefação incontida. Finalmente um sorriso
esboçou-se nos cantos da sua boca. Com um ligeiro tom de ironia na voz disse:
— Cavalheiros!
No instante em que seus governos estiverem dispostos a estender sua confiança
para além dos preparativos de defesa contra um ataque vindo de fora, no
instante em que depositarem confiança plena em nós, em todos os setores, a
Terceira Potência deixará de manter-se isolada. Estaremos dispostos a abrir
nossa base e a colocar aquilo que temos à disposição de toda a Humanidade.
Passaram a
discutir os detalhes. Rhodan explicou de que maneira pretendia rechaçar lá
fora, no espaço, o ataque da nave em forma de fuso. Deu instruções sobre as
medidas de proteção à população, que deveriam ser adotadas se não conseguisse
seu intento. Mercant, Kosselov e Mao Tsen faziam anotações.
Ao concluir,
disse:
— Não sei se
já se deram conta de que não poderão contar mais com o apoio da Terceira
Potência caso falhe nossa tentativa de destruir a nave no espaço ou sobre a
Lua. Estaremos empenhados numa luta de vida e morte. De qualquer maneira, temos
de encarar essa possibilidade. Por isso anotei várias coisas que julgo
importantes para a Humanidade. O documento será depositado num lugar adequado a
fim de que possa resistir ao eventual ataque à Terra. Acho que minhas
informações lhes serão úteis. Se a Terra for destroçada, as anotações
representarão um bom ponto de partida para os sobreviventes. Nunca mais devemos
esquecer que não estamos sós no universo. Temos de conformar-nos com a
existência de outras raças e devemos preparar-nos para a eventualidade de que
algumas delas nos sejam hostis.
“Peço que os
acontecimentos que lhes transmito através das minhas anotações sejam encarados
nesta perspectiva.”
* * *
As anotações
representaram um trabalho extenso, cuja confecção consumiu horas preciosas de
Rhodan. A nave atingira a órbita lunar e realizava evoluções a uma distância
constante de dez mil quilômetros do satélite da Terra.
Rhodan teve
uma ligeira palestra com seus companheiros. Thora manteve-se afastada.
Precisava de sossego. A sugestão de Rhodan, de que Tako Kakuta e o Dr. Manoli
permanecessem na Terra, mereceu apoio de todos. Na cúpula energética ficariam
protegidos contra qualquer agressão, e contra as conseqüências de uma eventual
contaminação radioativa. Tako guardou as anotações de Rhodan, prometendo
entregá-las à humanidade — ou aos seus remanescentes — somente quando não
restasse a menor dúvida de que a nave dos arcônidas fora destruída na luta
contra os seres estranhos.
Tako e
Manoli instalaram-se na Stardust. Rhodan decolou imediatamente.
Subiu a cem
quilômetros. O cumprimento dos seus objetivos não poderia ficar a cargo dos
dispositivos automáticos. Bell serviu de co-piloto. Haggard e Crest
permaneceram na sala de comando.
A nave
permaneceu imóvel. Os bulbos das lâmpadas de controle automático emitiam um
brilho negro. Uma pequena imagem projetada numa tela embutida no painel
indicava a posição da nave em relação à superfície da Terra. Todos os
instrumentos, com exceção do altímetro, indicavam o valor zero.
Só no painel
de Bell se via a luz de cinco lâmpadas verdes. Bell virou a cabeça e disse,
tranqüilo:
— Reatores a
plena potência, chefe!
Rhodan
confirmou com um movimento de cabeça, sem se voltar. Nos compartimentos de
máquinas, cinco reatores de fusão, que eram verdadeiros gigantes na sua classe,
forneciam energia a um depósito, que a liberaria no momento adequado.
A energia
armazenada seria suficiente para envolver a nave num campo hipergravitacional
que a isolaria do ambiente exterior e — para utilizarmos uma imagem — a
retiraria do complexo quadridimensional tempo-espaço. Um corpo circundado por
um campo hipergravitacional deixava de existir no espaço normal; era trasladado
para uma ordem espacial superior, onde prevaleciam as mesmas leis do espaço ao
qual acabava de subtrair-se, mas os princípios da Física estavam sujeitos a uma
interpretação totalmente diversa. Depois de ter adquirido os conhecimentos dos
arcônidas através do treinamento hipnótico, Rhodan passou a designar esse
superespaço como “o caminho situado atrás da curva espacial”. O problema do
hipervôo encontrava sua explicação nesse contexto. Um corpo, como, por exemplo,
uma nave, rompia a superfície convexa do conjunto tempo-espaço, prosseguia em
trajetória reta e, uma vez atingido o destino, voltava a ingressar no citado
conjunto.
Até então,
ninguém tentara vencer um trajeto de pouco mais de um segundo-luz num
hipersalto dessa espécie. No presente caso havia uma dificuldade. A nave
auxiliar, pequena e dotada de pouca energia em comparação com a nave principal,
levaria algum tempo para acumular energia depois de terminado o salto. Os
depósitos haviam sido dimensionados de tal forma que apenas eram suficientes à
dupla travessia da superfície do conjunto tempo-espaço. Terminado o salto,
teria de haver uma pausa antes que a nave pudesse reencetar a viagem. Se o
salto não atingisse o lugar programado, essa pausa seria aproveitada pelo
inimigo, que estaria em condições de localizar a nave e colocar-se em posição
favorável para o combate.
Pelos
cálculos de Rhodan, o salto terminaria na sombra projetada pela Lua. A nave dos
habitantes de Fantan prosseguia na mesma trajetória. Continuaria em órbita
lunar, dez mil quilômetros atrás da Lua. A nave auxiliar surgiria à frente da
Lua.
Rhodan moveu
a mão em direção à tecla vermelha que faria a nave dar o salto.
Apertou-a. A
tecla deu um estalo e as telas de imagem apagaram-se imediatamente.
Dali a um
segundo voltaram a entrar em atividade. A imagem era totalmente diferente.
Diante da nave surgiu a foice lunar, iluminada pelo sol que acabava de surgir
detrás da Terra.
— Alguma
localização? — perguntou Rhodan.
— Nada! —
respondeu Bell.
— Intensidade
do salto?
— Correta.
Rhodan
reclinou-se na poltrona. Dali a pouco virou-se e olhou para Crest, que estava
radiante.
— Excelente!
— disse.
Rhodan não
descansou. Assim que terminaram os cinco minutos de que os reatores precisavam
para reabastecer o depósito com a quantidade mínima de energia, pôs a nave em
movimento; em direção à Lua.
O resto foi
brincadeira. Rhodan conduziu a nave para um vale profundo, cheio de sombras. No
centro deste vale encontravam-se os destroços da nave dos arcônidas. Estava
convencido de que um dia os homens de Fantan se arriscariam a aproximar-se do
cruzador espacial. A nave por ele tripulada correria um risco menor se
aguardasse esse momento.
Crest pedira
que não fosse obrigado a desempenhar qualquer papel nesse empreendimento.
Rhodan concordara por conhecer a mentalidade de um cientista, de Árcon. A época
em que os arcônidas eram uma raça guerreira como os homens e construíram seu
império, ficava muito longe. A luta passara a ser uma coisa terrível.
Rhodan
manteve Haggard ocupado nos aparelhos de localização, fáceis de operar,
enquanto Bell permanecia a postos nos instrumentos de pontaria. Ele mesmo
manteve-se no assento do piloto, pois era perfeitamente possível que surgisse a
necessidade de manobrar a nave.
O armamento
da nave podia ser dividido em duas categorias.
Havia as
armas de grande alcance, isto é, até um minuto-luz, e as de pequeno raio de
ação. Face às suas características as armas de longo alcance estavam
rigidamente fixadas ao corpo da nave; os projéteis dispunham de dispositivos
direcionais automáticos. Já as armas de pequeno raio de ação eram móveis.
Possuíam um dispositivo de pontaria automático, mas também podiam ser
orientadas oticamente.
Rhodan não
estava disposto a lançar mão dos foguetes de grande alcance. Embora a nave de
Fantan fosse um veículo antiquado, equipado com campos defensivos de reduzida
potência, era de todo provável que nesse exemplar, destinado a uma viagem tão
arriscada, tivessem sido introduzidos alguns aperfeiçoamentos. Um foguete
teleguiado podia ser localizado antes do tempo. E, face à mentalidade de sua
tripulação, a nave de Fantan provavelmente se poria em fuga. Acontece que
Rhodan estava interessado numa vitória decisiva, não num triunfo passageiro que
deixasse em aberto o risco do retorno do inimigo.
Passaram-se
algumas horas. Crest deitara-se e fechara os olhos.
Ninguém
proferiu uma única palavra. Haggard estava sentado diante dos instrumentos, mas
estes não revelavam coisa alguma. Bell permanecia no lugar que poderia ser
designado como o posto de combate, mas que na verdade não passava de um painel
com uma série de botões e manivelas.
Bell abriu a
boca uma única vez:
— Não estou
gostando disso, chefe! Devíamos decolar e atacá-los. Não gosto de atirar à
traição em alguém.
— Silêncio!
— interrompeu Rhodan. — Não podemos assumir qualquer risco. Você conhece essa
gente de Fantan, não conhece?
Depois disso
não houve mais discussão. Algumas horas se passaram. Rhodan teve vontade de
levantar-se para cuidar de Thora. Mas sabia perfeitamente que a calma de um
segundo não lhe permitiria tirar conclusões sobre o caráter dos outros, ao
menos nessa expedição.
* * *
— Localização!
— anunciou Haggard com a voz embaraçada.
Não disse
mais nada.
— Quem sabe
se você não quer nos dizer onde? Que diabo! — resmungou Bell.
— Pi
zero-um-cinco, Teta zero-três-zero. Distância oitocentos mil metros.
Bell
manipulou os instrumentos do painel.
— Velocidade?
— Cinqüenta
metros por segundo na direção Pi-zero. Seguem em direção ao cruzador.
Rhodan
virou-se.
— Que tal
nossa posição, Bell?
— Favorável.
Mas poderíamos subir mais alguns metros em direção à beira do vale, para
qualquer eventualidade.
— Combinado!
A nave
obedeceu ao comando. Deslizando rente ao solo negro, subiu em direção ao cume
das montanhas que cercavam o vale.
— Pare! —
disse Bell. — Assim está bom.
No mesmo
instante a nave de Fantan surgiu na tela. Rhodan examinou-a; parecia pensativo.
Ainda se encontrava a uma distância de cerca de oitocentos quilômetros e a
velocidade com que se aproximava não era muito superior à de um automóvel. O
pessoal de Fantan estava desconfiado e, ao que parecia, achava que devia
aproximar-se sorrateiramente para não assumir um risco excessivo.
A nave foi
deslizando na altura do cume das montanhas. Teriam de levantá-la um pouco para
ultrapassá-las. Embora a manobra pudesse ser completada com alguns movimentos
das chaves de comando, ela exigiria um pouco de sua atenção. Seria, portanto, o
momento adequado de atacar.
Face à
reduzida velocidade da nave de Fantan, algumas horas poderiam passar-se até que
isso acontecesse. A cadeia de montanhas em que se encontravam era uma das
menores; a área por ela cercada tinha um diâmetro de cem quilômetros.
Rhodan fazia
votos de que dedicassem toda sua atenção à cratera, não lançando os olhos para
mais longe. Não havia dúvida de que a parte superior da nave auxiliar ultrapassava
a cumeeira das montanhas por cerca de dois metros. Era pouco em comparação com
aquele complexo de rochas, mas poderia ser o suficiente para um inimigo atento.
Virou-se.
— O que
pretende fazer? — perguntou a Bell.
Este apontou
para um botão amarelo e uma manivela.
— Usarei a
neutralização do campo cristalino — respondeu. — A única coisa que sobrará será
uma névoa turbilhonante de átomos de hidrogênio, carbono e alguns metais.
Rhodan
concordou com um movimento de cabeça.
— Qual será
o tempo de bombardeio?
— Até que
não sobre nada.
— Isso será
necessário?
Bell
mostrou-se surpreso.
— Por que não?
Não convém assumir qualquer risco.
— Gostaria
de mostrar uma coisa a Haggard — disse Rhodan. — Basta demolir a nave. Depois
disso a tripulação não representará mais qualquer perigo para nós.
— Está bem —
concordou Bell. — Regularei a duração do bombardeio para vinte segundos.
Haggard
anunciou com a voz um tanto apressada:
— Aumentaram
a velocidade. Cem metros por segundo. Distância de seiscentos e cinqüenta mil
metros.
No mesmo
instante acrescentou:
— O que
pretende mostrar-me, Rhodan?
— Alguma
coisa que lhe interessa muito. Aguarde!
A tensão
aumentou, e o tempo demorou mais a passar. A nave estranha cresceu na tela de
imagem, revelando suas dimensões imponentes. Rhodan calculou seu comprimento em
trezentos ou trezentos e cinqüenta metros. No centro, que era o lugar mais
fino, havia um diâmetro de cerca de trinta metros. Não havia dúvida de que,
embora fosse antiquada, dispunha de armamento mais poderoso que a nave dos arcônidas.
Se não conseguissem destruir aquela nave, o destino da Terra estaria selado. O
próprio Rhodan não estava tão confiante a respeito dos acontecimentos que
viriam depois como procurara aparentar diante de Thora.
— Quatrocentos
mil! — anunciou Haggard depois de um silêncio interminável.
A uma
distância de cem mil, Bell começaria a atirar.
Rhodan não
acreditava que sua nave já tivesse sido localizada. O temperamento do povo de
Fantan não lhes permitira prosseguir calmamente na viagem depois de terem
localizado um inimigo.
Todavia...
— Trezentos
mil. Estão acelerando. Alguns minutos depois:
— Frearam.
Estão parados.
A reação de
Rhodan foi imediata.
— Fogo! —
ordenou.
Bell bateu
na tecla do desintegrador e gritou:
— Vamos sair
daqui! Precisamos subir!
Rhodan deu
partida imediatamente.
Com um forte
solavanco a nave elevou-se algumas centenas de metros acima da cumeeira das
montanhas. Enquanto isso Bell atirava ininterruptamente.
Não havia a
menor dúvida de que estava acertando. Na tela de direção de tiro surgiu a
imagem da nave inimiga que se desintegrava. Não conseguia sair do lugar. A
estrutura cristalina do envoltório externo dissolveu-se. A proa transformou-se
em pó que no vácuo caiu ao solo com uma velocidade espantosa. A arma de Bell
foi penetrando cada vez mais na estrutura, até atingir o centro da nave
inimiga.
Subitamente
viram um raio ofuscante. Rhodan fechou os olhos; ao abri-los viu que o panorama
da tela começou a dançar.
Ainda
estavam atirando. Acertaram no envoltório energético da nave, fazendo-a
oscilar.
— Mais
rápido! — rosnou para Bell.
Este não
reagiu. Com uma atenção obstinada orientou o raio direcional de
descristalização, fazendo-o prosseguir pelo envoltório da nave-fuso.
Outro tiro
foi disparado pelo inimigo. Ricocheteou no envoltório energético e mais uma vez
fez oscilar a nave. Por um momento o raio direcional operado por Bell perdeu o
alvo. Mas logo voltou a encontrá-lo e desta vez destruiu-o por completo.
Nada restou
do envoltório da nave-fuso. Os geradores também foram destruídos. Os
remanescentes, formados por peças de equipamento, paredes divisórias,
escotilhas, instrumentos e os cadáveres da tripulação, caíram em espiral.
Bell
respirou aliviado.
— Pronto!
Rhodan deu
partida na nave. Passou a pouca altura sobre a cratera com os restos do
cruzador espacial dos arcônidas e aproximou-se do lugar em que fora destruída a
nave inimiga.
O serviço de
Haggard junto aos instrumentos de localização estava concluído. Bastante tenso,
contemplava as telas de imagem.
— Daqui não
conseguirá enxergar nada — disse Rhodan. — É preferível esperar até que
pousemos.
Fez descer a
nave no limite da área circular em que havia caído a poeira metálica e os
destroços da nave.
Fechou o
capacete do traje especial e disse a Haggard:
— Venha
comigo!
Haggard não
esperou que Rhodan repetisse o convite. Saíram e em saltos largos voaram em
direção ao lugar em que se amontoavam os destroços da nave de Fantan.
Não havia
muita coisa para ver. A tripulação da nave de Fantan mantivera os trajes
espaciais abertos durante a luta. A descompressão explosiva que se verificara
no momento da dissolução da parede externa da nave esfacelara seus corpos
juntamente com os trajes.
Haggard
encontrou alguma coisa que parecia ser um retalho de pele.
— É só isto?
— perguntou, um pouco desapontado.
Rhodan deu
de ombros.
— Acho que
com isso você já poderá fazer muita coisa.
Voltaram à
nave. Rhodan poderia dar mais uma busca no cruzador espacial, para silenciar o
emissor automático de emergência, ou retornar à Terra para informar a humanidade
sobre o desfecho da luta que não puderam observar, já que a mesma se
desenrolara na face oculta da Lua.
Optou pela
última alternativa. Levado por forte motivo: no instante em que a nave-fuso foi
atacada, por certo emitiu um sinal de emergência igual ou semelhante ao do
cruzador espacial. E esse sinal seria tão bem orientado que chegaria ao
receptor a que se destinava. Face a isso, Rhodan não estaria em condições de
evitar novos ataques com a simples desativação do emissor que se encontrava no
cruzador espacial.
Um jogo fora
iniciado, um jogo que dali por diante estabeleceria suas próprias regras e não
mais poderia ser influenciado por quem quer que fosse.
Rhodan viu
nisso mais um motivo de apressar seu retorno à Terra. Cada segundo tornara-se
ainda mais precioso que antes. O próximo inimigo a lançar-se ao ataque seria
muito mais numeroso e sagaz que aquele que acabara de ser destruído.
* * *
Durante a
viagem de volta só houve um acontecimento excitante. Através dos
supermicroscópios montados no laboratório de bordo, Haggard descobriu quão
estranho era o retalho de pele dos homens de Fantan.
— Até mesmo
em condições normais a pele deles tem a consistência do couro e está coberta de
pequenas escamas — disse com a voz exaltada. — Não existe a menor dúvida. E os
pedaços de carne presos à pele apresentam uma estrutura muito menos definida
que a do homem ou de qualquer animal conhecido.
Rhodan
sorriu.
— Isso lhe
permite tirar alguma conclusão, Haggard?
Haggard
confirmou com um rápido movimento de cabeça.
— Deve haver
uma diferença considerável entre nós e os habitantes de Fantan, isso no terreno
biológico.
— Tem alguma
idéia de como é essa gente?
Haggard
sacudiu a cabeça.
— Não; uns
farrapos de pele não são suficientes para isso.
— Pois
imagine um cilindro de extremidades arredondadas — disse Rhodan em tom
professoral. — Esse cilindro possui certa elasticidade e é recoberto de escamas
finas em toda extensão. Na parte superior apresenta várias aberturas que para
nós não passariam de buracos escuros mas na realidade desempenham funções tão
diferenciadas como as da boca, dos olhos, dos ouvidos e do nariz. O cilindro
apresenta, em lugares variáveis, seis membros entre os quais não se nota
diferença. Servem à locomoção, ao suprimento de alimentos e aos outros fins que
os homens alcançam com a utilização das mãos e dos pés. Só que, nos habitantes
de Fantan, não existe a menor diferença entre mãos e pés. Os seis membros são
equivalentes.
“Os
habitantes de Fantan são assexuados, Dr. Haggard. Reproduzem-se por meio de certo
tipo de broto, que nem as plantas de um vaso.
“São esses
os habitantes de Fantan. Será que você pensava que todos os seres inteligentes
da Galáxia se parecem comigo ou com Crest? Quando chegar a hora, veremos raças
irmãs mais nojentas que vermes ou sapos dos pântanos.”
* * *
A notícia da
vitória foi recebida na Terra com um júbilo indescritível. O alarma nuclear foi
suspenso imediatamente, providenciando-se a volta das populações às cidades.
A
interrupção das atividades econômicas custara à Terra cerca de oitenta bilhões
de dólares, mas, em compensação, a humanidade deu um grande passo em direção à
união dos homens.
No dia em
que pousou, Perry Rhodan recebeu os embaixadores extraordinários das três
superpotências. Vieram para transmitir-lhe em palavras exaltadas a gratidão da
humanidade. Cada um conferiu-lhe uma alta condecoração em nome de seu país.
Sorrindo,
Rhodan aguardou tranqüilamente até que chegasse a hora de usar a palavra.
— Sinto
muito, cavalheiros — disse em tom sério — que não posso partilhar sua alegria
imensa. Talvez não saibam, mas o confronto que tivemos com uma inteligência
estranha e hostil foi apenas o primeiro de uma série. Tivemos sorte em repelir
o ataque; foi só. Da próxima vez, só a sorte não será suficiente.
“Sinto-me
feliz por notar que a opinião pública mundial aprova a atuação da Terceira
Potência e até lhe confere uma recompensa através destas altas condecorações.
(Haveria uma ponta de ironia em sua voz?) Mas convém que deixem bem claro aos
seus governos que vencemos apenas a primeira batalha de uma guerra que poderá
consistir em mil batalhas ou mais. Gostaria de encaixar na cabeça dos senhores
e dos responsáveis pelos destinos da humanidade que nestes dias começará uma
fase da história que durará vários séculos, ou talvez milênios. As deliberações
que forem tomadas hoje decidirão todo o porvir da Humanidade.
“Transmitam
esta mensagem aos seus governos. Digam-lhes que nunca terão um aliado mais leal
que a Terceira Potência, sempre que se tratar do bem de toda a Humanidade.
“Pleiteamos
o reconhecimento diplomático e plena liberdade de movimentos. Por enquanto
somos os únicos que podem tomar medidas eficazes contra o novo ataque que nos
espera.”
Fez uma
pausa. Depois, condescendeu num sorriso.
—
Trombeteiem esta mensagem pelo mundo a fora, cavalheiros! Façam com que a
humanidade compreenda que se encontra no limiar de uma era nova e grandiosa de
sua história. Temos de pensar em termos de milênios, se não quisermos perecer.
* * *
No dia
seguinte chegou a primeira remessa de chapas de plástico metalizado de
Petersburg. Foi transportada sem o menor contratempo, pelo caminho que teria
sido utilizado por qualquer comerciante que quisesse transportar um lote de
mercadorias inofensivas dos Estados Unidos ao deserto de Gobi.
Rhodan viu nisso
um sinal de que os governos terrenos haviam correspondido prontamente aos seus
desejos. Tal fato reforçou-o na esperança de que dentro de pouco tempo a
humanidade compreenderia de que energias imensas poderia dispor, desde que se
unisse.
Viu-se mais próximo
do seu objetivo; do objetivo provisório de uma Terra unificada. Ficou surpreso
ao dar-se conta do progresso enorme alcançado num tempo tão curto.
Compreendia
perfeitamente que a energia e a rapidez dessa evolução não fora gerada por ela
mesma. O hiperemissor automático e a nave de Fantan atraída pelo mesmo haviam
sido fatores ponderáveis do processo de unificação. Nos próximos dias faria sua
quarta viagem à Lua, para silenciar o emissor.
Na noite do
mesmo dia, os embaixadores extraordinários com que falara no dia anterior
entregaram-lhe um convite para uma conferência das grandes potências mundiais.
Rhodan
aceitou o convite. Ficou satisfeito em perceber que no cérebro daqueles homens
sua alocução representara algo como um comando. Sem que o percebessem, ficaram
tão impressionados com os argumentos de Rhodan que passaram a trabalhar mais em
prol dos seus objetivos que dos de seus governos, se é que ainda havia uma
diferença entre uns e outros.
A Terceira
Potência fora convidada não na qualidade de simples observador, mas na de
participante efetivo com direito de voto.
* * *
Pouco
depois, teve uma palestra com Thora. Pela primeira vez após a localização da
nave-fuso pela estação espacial Freedom-I ela saiu do camarote e entrou
no compartimento ocupado por Rhodan sem fazer-se anunciar, tal qual fizera
poucos dias antes.
Rhodan
ofereceu-lhe uma cadeira. Thora agradeceu com um sorriso gentil.
— Tive tempo
para refletir sobre uma porção de coisas — principiou ela. — Acho que em muitas
ocasiões não me comportei da forma que seria de esperar.
Rhodan ficou
surpreso. Nunca esperara que Thora pudesse levar a auto-analise a este ponto.
— Aos poucos
começo a compreender qual é o caminho que você trilha, e qual o objetivo que
quer atingir — prosseguiu Thora. — Confio plenamente em você. Mas, no que diz
respeito à humanidade, ainda não formei nenhum juízo. Os conhecimentos que
adquiri a respeito dos homens são escassos e pouco animadores. Até agora quase
só se ocuparam em degolar-se mutuamente. Desconfio de que as esperanças que
deposita nos seus irmãos de raça sejam exageradas.
“Vim para
dizer-lhe o seguinte: daqui para diante você não me deve considerar sua
inimiga. Prefiro aguardar o resultado dos seus planos. Esses planos são bons. É
possível que num futuro não muito distante a raça humana assuma a herança dos
arcônidas no Império Galático. Mas prefiro adiar minha decisão até que chegue
esse dia.”
Rhodan
levantou-se e estendeu-lhe a mão. Sorriu.
— É um gesto
humano — disse. — Aperte minha mão; ela lhe é oferecida em sinal de gratidão.
Num gesto
hesitante Thora pegou a mão de Rhodan e retribuiu o aperto.
— Respeito
sua opinião — acrescentou Rhodan. — Acredito que a atitude de Crest não será
diferente.
Esperou uma
palavra de protesto; por isso objetou.
— Não; não
entretenha uma idéia errada sobre Crest. Ele pertence à mesma raça que você. O
que fez por nós foi inspirado na gratidão pela cura, e talvez, em parte, numa
compreensão melhor que a sua. Mas ele nunca deixará de ser um arcônida. Nunca
se transformará num ser terreno.
Piscou os
olhos, para dar a entender que considerava concluída a parte séria de sua
palestra.
— Para você,
ainda existe alguma esperança.
Pouco lhe
importava que Thora se sentisse ofendida; ela contorceu o rosto e saiu. Sabia
que os dias de seu orgulhoso isolamento estavam contados. Ao pensar nisso,
voltou a notar que amava aquela mulher.
Lá fora os
robôs estavam ocupados em empilhar as pesadas chapas de plástico metalizado.
“Tenho que
pedir que apressem o fornecimento do andaime. Não há nada de que precisemos
tanto como uma boa nave de combate”, disse Rhodan, para si mesmo.
* * *
* *
*
A primeira invasão foi rechaçada. O alarma nuclear pôde ser
suspenso, Mas é muito provável que os sinais automáticos de emergência emitidos
pelo cruzador destroçado dos arcônidas sejam captados por outros invasores
potenciais.
Perry Rhodan sabe disso e esta empenhado na formação de uma
poderosa força de combate. No próximo volume da coleção Perry Rhodan, O Exército
de Mutantes, K. H. Scheer contará tudo sobre a composição dessa tropa e seu
extraordinário potencial.

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