Autor
K. H. SCHEER
Tradução
Maria M. Würth Teixeira
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Terceira Potência conheceu um período de paz após a
ameaçadora invasão de seres extraterrenos, rechaçada por Perry Rhodan com o
auxílio da técnica arcônida e dos extraordinários poderes de seu corpo de
mutantes. A Terceira Potência representa a mais poderosa nação terrestre, a
despeito de sua reduzida dimensão territorial.
Galáxia, a supermoderna cidade dotada de uma imensa
base espacial, e de amplos complexos industriais operados quase que
exclusivamente por robôs, é o monumento mais impressionante da nova
civilização.
Mas, de repente, Galáxia é colocada em estado de
alarma. A bordo da Good Hope, a nave auxiliar do destruído cruzador cósmico dos
arcônidas, Perry Rhodan decola em direção ao sistema planetário de Vega, na
distante constelação de Lira.
=
= = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =
Perry Rhodan
— Chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell
— Ministro da segurança da Terceira
Potência.
General Lesley
Pounder — Chefe da Força Espacial dos Estados Unidos.
Dr. Frank Haggard — Ministro da
saúde da Terceira Potência e fundador da Clínica Arcônida.
Homer G. Adams — Ministro das finanças da Terceira Potência, e diretor da General
Cosrnic Company.
Coronel
Freyt — Chefe da Força de Caça Espacial da Terceira
Potência.
Major
Deringhouse — Comandante do 1o Grupo de
Caça Espacial da Terceira Potência.
Major
Nyssen — Comandante do 2o Grupo de
Caça Espacial da Terceira Potência.
Capitão
Klein — Agente de segurança da Terceira Potência.
Tenente Li Shai-tung — Oficial de ligação da
Terceira Potência com o Serviço Secreto da Federação Asiática.
Thora e Crest — Arcônidas, respectivamente, comandante da nave arcônida destruída, e
cientista-chefe da raça.
Betty Toufry
— Telepatia e telecinésia.
John Marshall
— Telepatia e supercérebro.
Tako Kakuta
— Teleportação.
Wuriu Sengu
— visão raio-X.
Ralf Marten
— parapsicologia e exopersonificação.
Allan D.
Mercant — Chefe do Conselho Internacional de Defesa.
Marechal Gregor
Petronski — Chefe da Defesa Aérea e Espacial Oriental.
Kosselov — Chefe
do Serviço Secreto Oriental.
Thort — Chefe
supremo dos ferrônios e do sistema Vega.
Chaktor — Ferrônio
resgatado no espaço por Rhodan e seu intérprete.
Lossos — Cientista-chefe
ferrônio.
Crek-Orn — Almirante-chefe
dos tópsidas
Galáxia — Cidade
da Terra, capital da Terceira Potência.
Good Hope — Nave com que Rhodan viaja para Vega. Ex-nave auxiliar do cruzador
arcônida destruído na Lua.
Perrol — Oitavo
planeta de Vega, habitado pelos ferrônios.
Rofus — Nono
planeta de Vega, com a capital Chuguinor.
Tópsidas — Raça oriunda do sistema Orion-Delta, a
estrela dupla. Descendentes de répteis, são inteligentes, altamente
civilizados, porém cruéis e insensíveis.
Ferrônios — Raça semelhante à humana. Inteligentes e
avançados, têm pele azul e povoaram os planetas do sistema Vega.
Em obediência à estridente voz de comando,
duzentos braços mecânicos ergueram no ar seu fulgor metálico. Cem fuzis de
raios apontaram as bocas para o céu sem nuvens do deserto de Gobi. Cem
soldados-robôs de aço perfilaram-se em total imobilidade, porém com as
entranhas eletrônicas em silenciosa e invisível atividade.
— Nosso visitante será recebido com as
devidas honras! — disse o coronel Freyt, com um olhar irônico para o oficial
que comandava os guerreiros de metal.
O capitão Klein pigarreou discretamente.
Semicerrando os olhos, examinou a aeronave recém-pousada.
— Um tanto familiar, não lhe parece? —
comentou. — Você oficia a cerimônia, coronel?
Rígido como um boneco, Freyt, chefe da
Força de Caça Espacial da Terceira Potência, encaminhou-se para o avião. O leme
do gigantesco bombardeiro a jato ostentava a insígnia da Força Espacial dos
Estados Unidos. Freyt aguardou junto à escada rolante.
Na estreita porta de desembarque
desenhou-se um vulto alto e imponente. Em silêncio, o general Lesley Pounder,
chefe da Força Espacial americana, olhou em torno. Por instantes, seu olhar se
deteve sobre a formação impecável das máquinas de lutar. Correspondeu com
displicência à continência do capitão Klein. Sua atenção estava voltada para as
manobras tonitruantes dos aparelhos, mal e mal visíveis no céu azul a
considerável altura. Estava-se no mês de maio e o relógio marcava pouco mais de
treze horas. O calor era opressivo.
Uma série de estrondosos trovões indicou
que a esquadrilha, rumando para o espaço cósmico, rompera a barreira do som.
Porém os minúsculos pontinhos prateados desapareceram do campo visual muito
antes que as ondas de som alcançassem o solo.
— Um belo espetáculo! — elogiou Pounder,
impressionado. — Como vai, Freyt? Faz tempo que não nos vemos, não é?
Comentário óbvio, para disfarçar o
constrangimento. Também para Pounder o momento do reencontro era um tanto
deprimente.
— Sim, cerca de três anos, general —
confirmou Freyt, evasivamente. — O senhor tinha me enviado à Lua, num foguete
do tipo Stardust. A missão resultou
tão desastrosa quanto a aterrissagem no nosso satélite. E se Perry Rhodan não
nos tivesse resgatado com a nave esférica, o senhor teria mais três nomes de
pilotos de provas em sua lista de baixas.
Pounder, o baixo e corpulento chefe da
Força Espacial, reprimiu a custo sua conhecida irritabilidade.
— Sorte sua... — constatou em tom seco. —
E em conseqüência disso, o senhor tem usado nos últimos três anos a farda da
Terceira Potência. Mas até que o uniforme é bonito. Um tanto utópico, talvez...
Vejo que foi promovido.
O coronel Freyt preferiu não dar resposta.
Pounder vinha visitar a Terceira Potência em caráter oficial; portanto, não
havia sentido algum em discutir com seu antigo superior hierárquico.
— O carro está a sua espera, general! — disse,
para desviar o assunto. — O chefe ainda não regressou. Enviou-nos uma mensagem
há meia hora. Encontra-se nas proximidades de Marte, testando um caça espacial.
O general Pounder engoliu igualmente
aquela pílula. Com que naturalidade seu ex-subordinado falava de proezas ainda
inconcebíveis para homens comuns!
— Nas proximidades de Marte, ora vejam! —
murmurou Pounder. — Como soam importantes suas palavras, coronel! O senhor foi
longe... certamente muito mais longe do que lhe seria possível na Força
Espacial. E isto aqui progrediu, não é?
Cheio de admiração, o general lançou um
demorado olhar aos distantes edifícios em forma de torre da nova cidade.
Ficavam ao norte, perto do lago Goshun. Perry Rhodan dera à capital da Terceira
Potência o nome de Galáxia.
A última visita de Pounder datava de três
anos, quando as instalações não passavam de construções provisórias. E agora
aquilo! Só os dois aeroportos constituiriam motivo de orgulho para qualquer
nação. E a base espacial ultrapassava qualquer empreendimento jamais criado por
mãos humanas.
— Planejamos para o futuro — respondeu
Freyt, em tom neutro. — O território que adquirimos da Federação Asiática abrange
quarenta mil quilômetros quadrados. E Galáxia conta, segundo o último censo,
duzentos e trinta mil habitantes. Pronto para embarcar, general? Nosso pessoal
se encarregará do avião.
Com um ligeiro olhar para o enorme bombardeiro,
acrescentou com uma ponta de ironia:
— Carreta meio primitiva essa! Vocês ainda
empregam os antiquados propulsores atômicos?
— Foi este tipo de propulsão que o levou à
Lua, Freyt! Faz mesmo questão de me mostrar o quanto estamos atrasados, não? Mas
convém não esquecer que tanto o senhor como Perry Rhodan receberam sua formação
na Força Espacial. Se eu não tivesse enviado Rhodan à Lua, ele jamais
encontraria os arcônidas. É assim que se chamam os extraterrenos, não?
— Exatamente, general! — confirmou Freyt.
— E este progresso todo só foi possível
com a colaboração dos cérebros espaciais — disse Pounder, com um riso
sarcástico. — Rhodan teve muita sorte em conquistar-lhes a confiança. Foi o que
lhe permitiu criar a Terceira Potência. Mas deixemos o assunto de lado. Que tal
é Rhodan como chefe de Estado?
— Refere-se ao senhor Presidente, general?
Resfolegando indignado, Pounder explodiu:
— Freyt, para mim, seu presidente
continuará sendo sempre o major Rhodan! O recruta que treinei pessoalmente e
designei para o primeiro vôo tripulado à Lua... E dê-lhe este recado na
primeira ocasião!
— Ele não esqueceu, general! — respondeu
Freyt, rindo. — E, aparte nossas diferenças, afirmo-lhe que é um prazer revê-lo
entre nós. Pretende negociar com o chefe sobre o fornecimento de pulsopropulsores?
O general deteve seus passos. Da distante
base espacial vinha novamente o rugido avassalador. Silhuetas fulgurantes
ganharam o espaço, impelidas por quase imperceptíveis fluxos de impulsos.
Pounder aguardou a diminuição da infernal barulheira.
— O esquadrão de Deringhouse — explicou
Freyt. — Ótimo elemento este rapaz... O senhor soube escolher seus homens,
general, sem dúvida!
— Naturalmente! E foi por isso que Rhodan
fez de vocês seus oficiais. Para mim, foi uma perda lamentável. Como sabe de
meus planos?
Freyt não estranhou a brusca mudança de
rumo da conversa, nem a expressão severa do rosto do general.
— O chefe me falou disso. Se me permite um
palpite, acho inútil insistir na obtenção de propulsores completos. A Terceira
Potência reserva-se o privilégio de construir naves espaciais mais velozes do
que a luz. Sugiro que desista do intento. Mas tenho autorização para
mostrar-lhe nossos novos estaleiros oficiais, caso esteja interessado.
Normalmente estão interditados para visitantes. Porém guardamos afeto todo
especial ao nosso antigo comandante...
Pounder afastou-se sem uma palavra. O
sorriso do homem mais jovem o atingira em cheio. Ainda calado, tomou lugar no
turbo-carro aberto. Seus olhos se voltaram para a cintilante cúpula energética
visível do aeroporto. Aliás, o extenso domo de dez quilômetros de diâmetro não
podia deixar de ser notado.
Freyt acomodou com alguma dificuldade o
corpo comprido ao lado do general. Este estabeleceu involuntariamente uma
comparação: Freyt e Perry Rhodan poderiam ser irmãos. Ambos altos e magros, com
as diminutas rugas no canto dos olhos revelando permanente disposição para rir.
E haviam recebido formação idêntica, numa escola tida comumente por dura e
implacável.
Pounder sentiu-se invadido por uma onda de
orgulho. Aqueles jovens tinham criado uma instituição que prometia revolucionar
toda a ordem até então estabelecida no mundo.
Com um breve aceno para Klein, Freyt
comentou:
— Ele fez parte outrora do serviço secreto
da OTAN, sob as ordens de Allan D. Mercant. Inacreditável, não?
Com um suspiro, o coronel continuou:
— A raça humana parece estar criando juízo
devagarinho. Ainda posso recordar o momento em que dei ordem para lançar as
três bombas de hidrogênio. Na ocasião em que destruímos o cruzador arcônida...
Nossa velha Lua entrou em ebulição em alguns pontos. Mas muita coisa mudou
depois disso. A humanidade parece ter compreendido, afinal.
— Compreendido? — repetiu o general. — Eu
diria que ficou convencida. Se algum doido conseguisse eliminar sumariamente a
Terceira Potência, o mundo se tornaria um hospício da noite para o dia! As
nações desencadeariam uma luta mortal pela posse de seus conhecimentos
técnico-científicos. “No interesse de
nossa autoconservação lamentamos ser obrigados à adoção de rigorosas medidas
preventivas.” Não é assim que se expressariam os diplomatas?
O pessimismo do general, aparentemente
acabou com o bom humor de Freyt. O chefe da Força de Caça Espacial mostrou
rugas de preocupação.
— Não conjure os demônios, general! —
disse, pensativo. — Aquela cúpula energética foi alvejada por mais de seis mil
projéteis de fabricação terrena por semanas inteiras, sem o menor resultado.
Apenas um poder superior será capaz de nos destruir e não existe na face da
Terra ninguém com capacidade para isso. Todos nós temos que aceitar como fato
irrefutável a existência de seres extraterrestres altamente civilizados. E se
não nos acautelarmos, qualquer dia nossa própria sobrevivência estará em jogo.
É mais do que hora de adotar e manter atitudes racionais. A idéia de Perry
Rhodan é estabelecer um governo terrestre central, com representantes de todas
as nações do mundo. A questão da cota de participação de cada uma pode ser
resolvida mais tarde; acho que não será difícil chegar a um entendimento.
— Impraticável! — afirmou Pounder,
secamente. — Freyt, você pode ser um bom militar e um astronauta excepcional,
mas não entende coisa alguma de assuntos desta espécie. Que é aquilo ali?
“Tática
de evasão”, disse Freyt para si mesmo. E teve a desagradável sensação de
que o general lhe ocultava algo da maior importância.
Dirigiu o olhar para os prédios do
complexo industrial do qual se aproximavam. Uma série de hangares e torres,
imaculadamente limpos, sem traço da fumaça ou fuligem provocadoras de poluição
ambiental. E, no entanto, a produção era superior à de qualquer fábrica do
mundo.
— As seções de acabamento final — disse
Freyt, com naturalidade. — E os estaleiros oficiais da Terceira Potência para
fabricação de naves espaciais. Tudo criado do nada em pouco mais de três anos.
— Complexos industriais acabados em apenas
três anos? — duvidou Pounder. — Produção dos foguetes, estandes de testes,
linhas de montagem final? Freyt, qualquer mortal comum levaria três anos só
para lançar os fundamentos de uma obra tão gigantesca!
— Colocamos dez mil robôs especializados
em ação — explicou Freyt, com um sorriso levemente arrogante. — Além disso,
empregamos máquinas que executaram o trabalho de aplainamento com a ajuda de
campos antigravitacionais de alta intensidade. Com recursos comuns, a tarefa
levaria pelo menos vinte anos! É difícil conceber a magnitude dos recursos
arcônidas.
Pounder desistiu. Era inútil discutir com
pessoas que argumentavam com conceitos super-humanos e utilizavam máquinas
extraterrenas.
O veículo parou diante da linha vermelha.
A poucos passos erguia-se a parede de inconcebível energia, mal e mal visível
de tão perto.
— Um campo estrutural em cinco dimensões —
explicou Freyt, sorrindo.
— Com quem posso me entender aí dentro? —
indagou Pounder, ignorando o esclarecimento dado por Freyt.
Espiou para a área coberta pela cúpula
energética. Era fértil e viçosa, com alguns poucos edifícios esparsos. Mas
estes eram gigantescos. O palácio do governo da Terceira Potência representava
uma combinação harmoniosa de elementos arquitetônicos arcônidas e terrestres.
Todo branco, o belo prédio se destacava entre os demais.
— Sua excelência, o ministro da segurança,
lhe concederá audiência — observou Freyt, esforçando-se por disfarçar a ironia.
— Pois o senhor ministro, ou seja, o capitão Reginald Bell, manifestou extrema
simpatia diante de sua visita iminente.
— Bell! — gemeu o general. — Essa não!
Aquele palerma que ria à toa e nunca conseguia manter a disciplina! Quantos
esforços me custou impedir sua degradação ao posto de tenente! E está disposto
a me conceder audiência... Pois bem, vá dizer ao seu ministro que talvez eu o
reconheça como representante da Terceira Potência... caso ele consiga fazer uma
continência mais ou menos correta!
* * *
Homer G. Adams apareceu no telecom,
ocupando com seu rosto de testa larga quase toda a tela colorida e
tridimensional. O legendário diretor da General
Cosmic Company, denominada abreviadamente GCC, chamava da distante Nova
Iorque.
— Ah, o chefe ainda está viajando? Que
pena! — a voz de Adams soava impessoal e fria no alto-falante. — Escute, Bell,
não me agrada a idéia de saber que você está sozinho com Pounder. Não leve a
mal meus escrúpulos, porém considero-me um bom psicólogo. Pounder é um gênio
militar, fato que em si não constitui risco maior. Mas, além disso, é um homem
extraordinário, a quem você deve gratidão, respeito e consideração, mesmo que
recuse admiti-lo. Acho que você não tem condições para enfrentar o general.
Espere pelo chefe!
O homem baixo e atarracado, trajando o
uniforme verde-pálido da Terceira Potência, disfarçou o constrangimento com um
sorriso. Reginald Bell não se sentia de fato à altura da situação. Lá em Nova
Iorque seus olhos azuis muito claros apareciam como pálidas manchas luminosas
na tela.
— Vou aceitar sua sugestão, Adams! — disse
Bell, acenando com a cabeça. — Mas pode me pôr a par de suas intenções? A
visita do general não foi iniciativa sua?
— Certamente; porém eu ignorava que Perry
Rhodan estaria ausente, em vôo de experiência. Bell, ganhe tempo com o general!
Aguarde pelo menos até que eu chegue ao deserto de Gobi. Não lhe reconheço
competência para conduzir negociações delicadas como essas! Pounder embrulharia
você com a maior facilidade.
— Acho que está certo, Adams. Afinal, não
é à toa que você é o nosso ministro das finanças, não é? — respondeu Bell,
sorrindo. — Minha vontade se resume em abraçar o velho ferrabrás e bater um
papo amistoso. Fazem bem quatro anos que não o vejo... Você pode vir
imediatamente?
— Meio difícil... — respondeu Adams,
indeciso. — Encontro-me em negociações com uma companhia de mineração
latino-americana. Vocês querem cobre barato, não é?
Bell levou os dedos inconscientemente à
cintilante insígnia de seu posto, no bolso superior esquerdo. Curioso, no
íntimo tinha a inquietante sensação de que as conversações com Pounder já
estavam fadadas ao fracasso antes mesmo de terem começado.
— Sim, confesso que me sinto em
desvantagem diante do velho! — disse, com inusitada gravidade. —
Emocionalmente, compreende?... Gosto demais dele. O general comeu fogo por
nossa causa. E foi ele que nos equipou com todo o conhecimento de que hoje
fazemos uso. Jamais teríamos chegado à Lua se não fosse o total apoio de
Pounder. Largue tudo e corra para cá, Adams! Acho que o representante do poder econômico
número um do mundo pode se dar ao luxo de adiar uma conferência.
Homer G. Adams, o mutante de memória
fotográfica, tido como maior gênio financeiro de todos os tempos, deixou ver um
pouco de calor humano em seu sorriso. Pena do ar meio desamparado de Bell,
talvez...
— Bem, chamei você para combinarmos tudo
direitinho. Não queremos cometer erros, não é? Vou providenciar minha partida
imediata. Mais alguma coisa?
O rosto de Adams mudou de expressão ao
perceber a repentina tensão de seu interlocutor. Ao mesmo tempo, o ótimo
sistema de som fez ouvir um uivo estridente. Bell transformou-se
instantaneamente no homem dos nervos de aço. Algo de inesperado devia ter
ocorrido em Galáxia.
— Bell! — gritou Adams, alarmado. — Que
foi que aconteceu?
— Pode cancelar a viagem, por enquanto,
Adams. Espere novo comunicado. Estamos sob alarma. Transmissão encerrada!
Adams viu a imagem se desvanecer na tela
côncava do telecom. Permaneceu imóvel em sua cadeira. O gabinete no topo do
gigantesco arranha-céu lhe pareceu de repente nu e desolado. O uivo das sirenas
continuava. Chegava ligeiramente atenuado à grande metrópole, porém seu impacto
não foi menor do que o causado no palácio do governo da Terceira Potência.
Homer G. Adams não era homem de se deixar
descontrolar por barulhentas manifestações de aparelhamento acústico.
Principalmente naquele dia, quando a jovem Terceira Potência, sob a direção do
ex-major e piloto de provas da Força Espacial dos Estados Unidos, Perry Rhodan,
era o eixo econômico, político e militar do planeta Terra. O fato de aquele
conglomerado de poderes ser fruto da inteligência superior e capacidade de
produção de uma raça cósmica, alheia à Terra, era de menor importância. O mais
surpreendente no caso era ver reconhecida como potência mundial uma pequena
nação perdida no coração do continente asiático; não sem algumas dificuldades
iniciais, é claro.
Uma vez estabelecida a soberania da
Terceira Potência, a General Cosmic
Company encontrara bases sólidas para se desenvolver. Adams estava em vias
de revolucionar toda a economia mundial com os produtos e técnicas arcônidas.
Segundo o cômputo mais recente, o capital social da GCC se elevara a duzentos
bilhões de dólares; e estava iminente o lançamento de novas subscrições no
montante de mais setenta bilhões. Sem dúvida, a instituição criada por Homer G.
Adams era sólida e economicamente estável.
Nada, até então, levara este homem a
perder a calma e a serenidade, nem sequer por uma fração de segundo. Portanto,
era bastante estranho vê-lo trêmulo e de olhos arregalados, atento para o
lamento das sirenas. Momentos após chegou a confirmação ótica. Luzes violetas
piscavam ininterruptamente. Aos poucos, a tonalidade alarmante predominou sobre
a iluminação natural na peça semi-obscurecida.
Homer G. Adams sobressaltou-se, como que
despertando de um pesadelo.
— Não! — murmurou, com os lábios
comprimidos num esgar de angústia. — Isso não! Meu Deus, tudo, menos isso!
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— Para trás com esse carro! — gritou o
jovem oficial de guarda. — Não vê que a passagem está impedida? Ande! Recue
pelos menos uns trinta metros!
O rapaz suava em bicas. Após o cessar do
frenético lamento das sirenas, o território da Terceira Potência parecia ter
virado casa de loucos. Para cúmulo da confusão, acabara de chegar a coluna de transportes
da Mongólia, com seu carregamento de máquinas. E o tenente encarregado do posto
na fronteira era impotente para prestar auxílio aos perturbados asiáticos. Pois
o cérebro-robô positrônico dos arcônidas assumira a direção dos acontecimentos.
A máquina era inexorável. Acionada ao
primeiro sinal de alarma, deixava aos humanos o prazo de apenas dois minutos
exatos para se porem em segurança. Depois a cerca de energia foi erguida,
estendendo-se ao longo de toda a fronteira. Uma barreira luminosa e flamejante
de energia pura impedia a passagem do que quer que fosse. E era
irremediavelmente mortal. Também não era aconselhável sobrevoar o intrincado
entrelaçado de linhas e espirais energéticas; acoplado a inúmeros
localizadores, o cérebro-robô não hesitaria um só instante em abater o invasor
alado com uma bateria de canhões de raios. Afinal, o alerta geral fora
amplamente difundido, a fim de evitar ocorrências desta espécie.
O tenente recolheu-se apressadamente a sua
casamata de concreto, dentro da cerca energética. Os enormes soldados-robôs —
pesadas máquinas portando armas nos braços articulados e providos de
mini-mecanismos atômicos nos corpos metálicos — recusavam há quatro minutos
qualquer ordem humana. Eram comandados agora pelo cérebro eletrônico.
Momentos após chegou o comunicado
automático a todos os postos de fronteira e estações de controle:
Alerta com
prioridade 1 em efeito.
Ninguém poderia deixar o território da
Terceira Potência e, muito menos, entrar nele.
A imensa cúpula energética, localizada no
centro geométrico dos quarenta mil quilômetros quadrados de área da nação,
intensificou seu brilho. O fulgor intenso e ofuscante feria os olhos. Tinha-se
a impressão de ver surgir de repente um sol artificial.
Da base espacial, agora invisível, os novos
caças da Força de Caça Espacial se projetaram, rugindo, para o alto. O general
Pounder, cujo carro cruzara os limites no último instante, segundos antes da
barreira energética entrar em funcionamento, viu-se de repente abandonado.
Apenas um soldado-robô montava guarda ao veículo. Pálido e consternado, o
general não obtinha resposta às suas inquietas perguntas. Todo mundo parecia
ignorar sua presença ou esquecê-la de todo.
O coronel Freyt desaparecera com uma
sonora praga. Correndo provavelmente, para seu posto de comando nas cercanias
da base espacial...
Pounder não viu outra solução a não ser
armar-se de paciência e esperar. Alguém acabaria por dar-lhe atenção.
Desconhecendo o funcionamento de um cérebro-robô positrônico, não podia saber
que este já registrara sua presença. Não era em vão que o soldado-robô tomara
posição junto ao carro do general.
Assim que o cérebro-robô arcônida
verificou que o general era inofensivo e que se tratava de pessoa devidamente
anunciada, enviou uma inaudível ordem radiofônica ao guerreiro mecânico. Com um
sobressalto, Pounder sentiu o carro arrancar bruscamente e rumar em alta
velocidade para o palácio do governo.
Lá, deparou com um oficial do serviço de
segurança à sua espera. Após ligeira hesitação, Pounder reconheceu o homem
sorridente e atencioso. Li Shai-tung ganhara as manchetes mundiais três anos
atrás. Ocupava agora o posto de elemento de ligação com o Serviço Secreto da
Federação Asiática.
Levando a mão ao quepe, Pounder pensou
consigo mesmo: “Mais um velho conhecido, ora veja!”...
— Queira aguardar na recepção, por favor!
— foi-lhe dito. — Espero que compreenda a indisponibilidade momentânea de
qualquer dos dirigentes.
— Qual a razão do alarma? — indagou o
general, secamente. — Pode me explicar o que está acontecendo?
— Fui destacado especialmente para
informá-lo, general. Queira entrar, por obséquio. Não se deixe impressionar
pela atitude ameaçadora dos robôs; faz parte do sistema de alarma. Não há
perigo algum; eles são controlados automaticamente. Por aqui, general!...
Pounder inspecionou com o olhar o amplo
recinto composto de vidros, material sintético e efeitos luminosos. Também aqui
a movimentação era febril. Percebeu ao fundo os vãos fulgurantes dos fabulosos
elevadores antigravitacionais. Tanto na construção, como nos acabamentos e nas
instalações, evidenciava-se a aplicação de técnicas superavançadas.
“Devem ter gasto uns cento e vinte milhões
de dólares nisso”, calculou o general, habituado a fazer avaliações daquela
espécie.
— Bell não tardará a vir cumprimentá-lo,
general. Sua inesperada presença acabou sendo providencial. Fui encarregado de
lhe prestar as informações preliminares. É provável que lhe solicitemos, em
vista das circunstâncias, a convocação urgente da Comissão de Segurança
Mundial, em caráter de emergência prioritária. Talvez em Pequim, por sua
localização centralizada. Terá que tomar decisões muito rápidas. Nossos meios
de comunicação estão ao seu dispor.
A emoção embargava a voz de Pounder.
— Compreendo, tenente! A situação está
preta outra vez, não? Ainda recordo a crise anterior, há três anos, quando
seres extraterrenos se introduziram sorrateiramente nos corpos e mentes de
nossos mais destacados cientistas e políticos, subjugando-os por completo. Os
serviços de segurança já foram informados?
— Sim. O código preestabelecido foi
emitido automaticamente. Não perdemos tempo aqui, general... Ainda não dispomos
de informações precisas. Nossa estação de observação em Plutão apenas nos
transmitiu os dados registrados pelos sensores de deformação da estrutura
espacial.
— Tenente, você tem diante de si um homem
de boa paz, que se pergunta de vez em quando com que direito se intitula chefe
da Força Espacial dos Estados Unidos — observou Pounder, sarcástico. — Voamos
em foguetes obsoletos, enquanto vocês usam naves espaciais mais velozes do que
a luz. Que diabo vem a ser um sensor de deformação da estrutura espacial?
Li Shai-tung sorriu. Lá fora reboava um
rugido infernal. Foi crescendo de forma alarmante, até se extinguir
gradualmente, à medida que as ondas sonoras se dissipavam no ar. Pounder
conhecia bem o fenômeno mas não com tal intensidade.
— É a Good Hope decolando sob o comando
dos dois arcônidas — explicou o agente chinês, com displicência. — A nave
auxiliar do cruzador arcônida destruído na Lua, lembra?
— Nave auxiliar! — suspirou o general. —
Tenente, para mim, uma nave espacial esférica com sessenta metros de diâmetro
representa um verdadeiro colosso, entendeu? E o que é um sensor de deformação
da estrutura espacial?
— Um aparelho de detecção arcônida, para
localizar e medir diretamente alterações quadridimensionais da estrutura
espacial no cosmo normal. O instrumento mede desvios de gravitação. E como a
gravitação é uma forma de energia do hiperespaço, os sensores funcionam
forçosamente a velocidades superiores à da luz. Quando emitem sinal, sabemos
que em algum ponto situado num raio de cerca de cinqüenta anos-luz a estrutura
curva do espaço foi abalada, rompida por forças poderosas. Por experiência,
sabemos que isso só pode ser ocasionado pelo hipersalto de uma nave mais veloz
do que a luz: a denominada transição. E quando o fato se dá a uma distância tão
próxima, a Central de Defesa da Terceira Potência toma providências imediatas.
Pois a coisa pode ser conosco, general!
Pounder murchou, sem ter entendido uma só
palavra da explicação.
— Está bem, tenente! Pode poupar seu
latim. Não passo de um homem das cavernas diante dos conhecimentos científicos
de Rhodan e você. Sempre lhe dei apoio total; primeiro, quando desobedeceu às
minhas ordens; depois às custas de minha consciência de militar; mais tarde com
a sanção oficial do meu governo. Pode ir, eu espero... Deve ter obrigações a
cumprir. Só não esqueça que deixou um homem desarvorado sentado aqui.
— General, todos estes conhecimentos serão
amplamente divulgados no dia em que a humanidade chegar a uma verdadeira
comunhão espiritual. Não há dúvida de que cresce dia a dia a garantia de uma
paz mundial permanente e duradoura; mas, por enquanto, para a própria
consolidação deste objetivo, é preciso que o poder se concentre exclusivamente
nas mãos de Perry Rhodan. O que lhe acarreta a obrigação de proteger tanto o
seu mundo quanto o nosso. Medite sobre o que eu disse, general, por favor. Os
chefes dos três grandes serviços secretos devem chegar dentro de uma hora, no
máximo. E agora, peço permissão para me retirar. Tenho efetivamente obrigações
a cumprir.
Li afastou-se apressado. Perturbado e
preocupado com o que ouvira, Pounder fixou o olhar ausente sobre o mostrador do
relógio.
Porém, pôs-se de pé rapidamente ao avistar
a jovem. Conhecia-a bem; mas, da frágil menina de rosto pálido e olhos
ardentes, apenas ouvira falar.
— Como está? — indagou ele, mecanicamente,
enquanto procurava sondar os misteriosos olhos infantis.
Recapitulou mentalmente o que sabia sobre
aquela menina. Sem dúvida, Betty Toufry fazia parte do legendário Exército de
Mutantes da Terceira Potência.
Pounder engoliu em seco, impressionado com
o incrível da situação. Porém sabia que o pai de Betty trabalhara num
laboratório nuclear, tendo sofrido alterações em seu gen. Na filha, estas
alterações não se manifestaram sob a forma de deformidade física, mas
resultaram numa capacidade mental extraordinária, muito acima da de qualquer
ser humano comum. Pounder ignorava as qualidades específicas da inteligência da
menina, mas decidiu levar o caso ao chefe do Serviço Secreto Ocidental. Não lhe
agradava a idéia de ver Perry Rhodan dar guarida a tais monstruosidades; muito
menos a de que as submetia a treinamento especial.
Sobressaltou-se ao ver Betty se afastar
abruptamente. Chegando junto ao cintilante campo energético dos elevadores antigravitacionais,
a menina murmurou:
— O senhor não devia pensar isso, general!
As palavras cruzaram o vasto recinto como
um sussurro trazido pela brisa.
Pounder deixou-se cair de volta na
cadeira. Percebera estar diante de uma telepata espontânea, um ser para o qual
não existiam pensamentos secretos e privados. O general sentiu um arrepio
percorrer-lhe a espinha.
* * *
Um vulto corria alucinado pelo negrume do
espaço. O silvo agudo dos pulso-propulsores trabalhando no máximo de sua
capacidade parecia passar inteiramente despercebido para o homem imóvel,
sentado diante dos controles.
Os pensamentos de Perry Rhodan, no
entanto, fervilhavam. Cruzou a órbita lunar a toda a velocidade. Na frente do
pequeno caça espacial brilhava já a Terra. Os jatos de reversão de campo
cuspiam para a frente uma torrente de partículas, em sentido contrário à
direção do vôo. Em conseqüência, o pequeno aparelho em forma de torpedo era
freado, com uma desaceleração da ordem de quinhentos quilômetros por segundo.
Rhodan verificou mais uma vez os dados do
aparelho automático de aproximação. À altura da órbita dos satélites, o caça
deveria estar na velocidade apropriada para a aterrissagem. Pontinhos luminosos
dançavam na tela do hipersensor, que trabalhava com velocidade superior à da
luz. No alto-falante audiofônico espocavam palavras esparsas. O que se
projetava para o espaço, ali à sua frente, era obra construída por mãos
humanas, assim como eram humanos os ocupantes das exíguas cabinas
pressurizadas.
O rosto de um rapaz surgiu na pequena tela
do telecom. Sorrindo e acenando com a cabeça, ele informou:
— Deringhouse para Cometa 1: segundo grupo
decolando a fim de tomar posição de alerta. Alguma ordem, chefe?
Rhodan puxou o microfone articulado para
diante da boca. À frente de seu caça, a Terra emergia do vazio espacial como
uma gigantesca bola de inflar. Avistava-se nitidamente as Américas e um extenso
trecho do Oceano Pacífico. O litoral europeu envolvia-se lentamente nas sombras
crescentes da noite.
— Nenhuma; ao menos por enquanto. Nada de
explicações compridas, por favor. Recebi o aviso. O alarma foi desencadeado?
— Conforme programado. Aquilo lá embaixo
virou um inferno!
Rhodan cortou a comunicação.
Os caças sob o comando de Deringhouse
prosseguiram em sua alucinante corrida para o espaço, enquanto Rhodan iniciava
a primeira órbita de frenagem. Após uma volta completa em torno do globo
terrestre, ele mergulhou nas camadas superiores da atmosfera, com os anteparos
térmicos flamejando. Os gases incandescentes das massas de ar violentamente
deslocadas precipitavam-se estourando no vácuo criado pelo aparelho em queda.
Parecia um meteoro consumindo-se em fogo, na atmosfera cada vez mais espessa.
Era a técnica de aterrissagem de
aproximação rápida dos arcônidas. Cabia a projetores especiais, embutidos nos
anteparos térmicos, a tarefa de ionizar as renitentes moléculas gasosas, a fim
de expulsá-las da trajetória do aparelho que se precipitava em direção ao solo.
Também aquilo constituía um processo
avançado, que mesmo um homem competente como o general Pounder não imaginava
nem em sonhos. Perry Rhodan valia-se dele com a tranqüila naturalidade do
iniciado. Por força do hábito, mal percebia a violenta turbulência produzida na
atmosfera agora mais densa.
Seus pensamentos se concentravam
inteiramente no alarma. Uma situação aguardada com lúcida ansiedade tinha se
concretizado, afinal!
No entanto, Rhodan ainda ignorava os
detalhes essenciais. Mas, como o cérebro-robô positrônico havia desencadeado o
alarma, era de supor que a posição galáctica do planeta Terra corria risco
imediato.
A posição galáctica! Durante os últimos
três anos, toda a preocupação de Rhodan havia girado em torno deste ponto. Pois
há três anos, pouco após a criação da Terceira Potência, seres extraterrenos
haviam conseguido pôr pé na Terra pela primeira vez. Debelado o perigo,
semanas, meses e anos decorreram sem ocorrências dignas de menção, a não ser
que se considerasse fora do comum a febril atividade de construção desenvolvida
na área territorial da Terceira Potência.
Rhodan fora brindado com uma trégua de
três anos. E neste espaço de tempo o ex-major e piloto de provas da Força
Espacial dos Estados Unidos conseguira pelo menos estabilizar definitivamente a
vacilante paz mundial e congregar as nações mais poderosas da Terra numa
coalizão de defesa.
Mas tudo aquilo seria ilusório caso a
Terra fosse novamente descoberta! O que ocorreria caso as indubitavelmente
existentes inteligências extraterrenas tentassem alcançar a pátria dos homens —
com armas de poderio infinitamente superior — a fim de estabelecer-se nela, ou
desencadear um ataque de surpresa? O alarma declarado tinha vindo confirmar os
temores recônditos de Rhodan.
O litoral norte da Sibéria surgiu à vista.
Os sensores indicavam que o caça estava sendo detectado por diversas estações
de radar. Que diferença fazia? O pessoal lá embaixo sabia muito bem quem era o
suposto maluco que se precipitava do espaço pilotando um aparelho aparentemente
desgovernado.
Rhodan avistava agora a Mongólia. Quando
começou a aparecer nas telas a cercadura luminosa em torno da área territorial
da Terceira Potência, Rhodan recordou o desesperado pouso de emergência feito
ali três anos antes. Ele regressava da Lua, onde fora o primeiro homem a pisar,
trazendo consigo os dois arcônidas. E a presença dos seres extraterrenos é que
o tinha levado a descer num ponto isolado do globo.
Aquilo havia sido o começo de tudo.
Seguiram-se graves e profundos desentendimentos com as nações mais poderosas da
Terra; atacaram seguida e impiedosamente o novo poder em formação, até
verificar a total impotência diante da tecnologia e armas de defesa dos
extraterrenos. O termo arcônidas passou
a ser assunto de manchetes mundiais. Agora reconhecia-se de bom grado os
benefícios prestados à humanidade pela raça interestelar. Por outro lado,
existia o ponderável fato de que a vinda acidental dos arcônidas à Terra
aumentara muito o risco de esta ser descoberta por outros seres cósmicos.
Provavelmente o planeta Terra continuaria
sendo um corpo celeste desconhecido por anos e anos se o cruzador arcônida,
destruído por mãos humanas, não tivesse irradiado pedidos de socorro. Os sinais
se espalharam pelo cosmo. E dali em diante acabara-se a doce ilusão da
humanidade de ser única no universo.
Rhodan forneceu o código apropriado, para
que o cérebro-robô lhe permitisse passagem; o caça passou a ser pilotado pela
estação de controle remoto em terra. Perry Rhodan ficou livre para entregar-se
às suas cogitações. Percebia com nitidez que a humanidade se encontrava diante
de um repentino despertar, que encerrava um terrível potencial de perigo. E os
homens teriam que admitir a existência positiva de outros seres dotados de
inteligência, talvez superior à deles próprios. E o pior, pouco ou nada tinham
para opor-se a eles...
A face do homem alto e magro, confinado na
apertada cabina pressurizada do caça, denotava profunda preocupação. Pois
compreendia que caberia a ele e aos dois arcônidas sobreviventes tomarem
medidas para a segurança da Terra.
A nave pousou suavemente. O pequeno reator
de alto rendimento, por trás da blindagem anti-radiação na cabina do piloto,
foi desligado. Em conseqüência, cessou igualmente a atividade do poderoso
conversor de energia, e do aparelhamento auxiliar, sem os quais jamais seria
possível controlar o tremendo potencial de força liberado.
O coronel Freyt estava a postos para
receber o comandante que regressava. Sua saudação foi curta e breve, enquanto
fitava Rhodan com expectativa. Empurrando para trás o capacete, Rhodan aceitou
o cigarro oferecido. Nos olhos cinzentos brilhava mal contida tensão.
Porém nada em sua aparência externa
denotava que há menos de uma hora se encontrava nas proximidades de Marte,
testando um novo caça espacial. Era o impassível comandante de sempre, o homem
sem nervos. Possuía, pelo menos, extraordinária capacidade de negar a
existência de semelhantes contingências físicas.
— A Good Hope decolou com Thora e Crest,
chefe! — informou Freyt laconicamente. — Deringhouse e Nyssen estão no espaço,
com quarenta e cinco aparelhos cada um. Conservei o terceiro esquadrão em
terra, em rigorosa prontidão. Apto para levantar vôo em cinqüenta segundos, se
for preciso. O general Pounder chegou pouco antes do alarma. Está aguardando no
palácio do governo. Posso fazer uma pergunta, chefe! Que se passa! Cá embaixo,
nós...
— Bell não deu um pio, não é? —
interrompeu Rhodan. — A mim não adianta perguntar. Não tenho a menor idéia. Mas
fique de olhos abertos, está bem? Meu aparelho?...
Freyt ficou vendo o helicóptero se afastar
com uma expressão de profunda inquietação. Em flagrante contraste com as
avançadas instalações na área da Terceira Potência, o helicóptero era produto
terrestre comum. Lá longe, a cintilante cúpula energética desfez-se por um
breve segundo, admitindo a entrada do aparelho. Mas tornou a erguer-se outra
vez com o mesmo brilho contra o céu azul do deserto de Gobi.
Rhodan pousou no heliporto do palácio do
governo, situado no topo do edifício. Recebeu com um sorriso irônico as honras
militares prestadas pelos robôs de guarda. Sempre lhe parecera fútil
sobrecarregar os complexos cérebros dos guerreiros mecanizados com aquela
programação supérflua.
Além dos robôs, só uma pessoa havia
comparecido para recebê-lo. Rhodan dispensava as cerimônias de estilo. O homem
de cabelos negros e rosto fino envergava igualmente o uniforme da Terceira
Potência. Porém, o elegante macacão não trazia insígnias de posto; apenas no
bolso esquerdo superior luzia um símbolo estranho. Olhando de perto, via-se que
era um cérebro cercado por brilhante auréola.
O mutante John Marshall procurou o olhar
de Rhodan. Adivinhava intuitivamente o que ia na cabeça do presidente. E
pareceu-lhe que Rhodan retardava propositalmente a entrada na Central de
Comando do palácio.
— Olá, Marshall! Como vai indo a leitura
de pensamentos?
— Mal, no que toca ao senhor, chefe! —
constatou o mutante. — O senhor está sendo aguardado. Bell está uma pilha de
nervos. Dentro de quinze minutos chega o pessoal dos serviços secretos. Que
fazemos com eles?
Sem uma palavra, Rhodan entrou no campo
cintilante dos elevadores antigravitacionais. Libertos de peso, flutuaram
suavemente para baixo.
Marshall procurava antecipar mentalmente a
provável atitude de Rhodan naquela emergência. Em contraste com a frenética
agitação reinante no palácio do governo, Rhodan era a calma personificada.
Marshall sondou cautelosamente as ondas cerebrais de seu acompanhante, ainda
metido em seu traje espacial e com os cabelos louro-escuros empastados de suor.
— Desista, Marshall! — disse a voz grave.
— É como dar contra uma parede... Chegou a sondar o general Pounder?
Marshall fez uma careta, com os olhos
brilhando de indignação.
— Ele nos toma por monstros! — resmungou.
— Há gente que se recusa a compreender que o que eles chamam de monstros
resultou de pesquisas monstruosas, das forças nucleares que jogaram contra
nós...
— Mas fora isso, Pounder é legal, não é? —
respondeu Rhodan, sorrindo. — Escute, John, você não devia levar a sério essas
alusões a monstros e coisas semelhantes. Procure pensar de preferência na
impressão que seus dotes super-humanos causam em viventes comuns. Pois eu...
Suas palavras foram abafadas pelo rugido
de uma nave espacial em processo de aterrissagem. Rhodan saltou do elevador no
pavimento seguinte.
— Ué, a Good Hope está voltando?
— Era o recado que eu tinha para lhe dar.
Thora acha mais conveniente, por enquanto, deixar a nave abrigada sob a cúpula
energética. Bell bloqueia o cérebro; não consegui saber o que ele pensa a respeito
disso tudo. Nem ao menos sei o que está se passando!
As linhas angulosas do rosto contraído de
preocupação suavizaram-se num momentâneo sorriso.
— Que falta de consideração de Bell, não
acha? Muito bem, Marshall, chegou o momento! Você percebeu que eu procurava
ganhar tempo, não?
Rhodan fitou a pesada porta blindada de
aço arcônida que constituía a única entrada para a Central de Comando do
palácio. Dois enormes soldados-robôs montavam guarda diante dela, com as
carabinas energéticas engatilhadas, prontas para disparar seus raios mortais.
O telepata sorriu; claro que tinha
percebido.
— Vamos lá! E peça a Deus para que saiamos
disso incólumes também desta vez! Por enquanto, a Terra é fraca demais para
enfrentar ataques de alguma poderosa nação galáctica. Nossos diminutos caças
espaciais não valeriam nada diante de uma frota de verdade. Venha!
A atitude dela era fria, controlada e
arrogante. Mas ninguém podia ter certeza de que dominava efetivamente seus
nervos. Thora, a ex-comandante do cruzador espacial em missão de pesquisa,
forçado a pousar na Lua e posteriormente destruído por obra humana, tornava a
tomar consciência de sua condição de arcônida. Rígida e ereta, sua atitude
denotava mais tensão do que propriamente dignidade. Em silêncio, ela observava
a agitada movimentação de pessoas dentro da Central de Comando.
Rhodan achava melhor não instalar aquela
Central de Comando, o ponto vital da Terceira Potência, no subsolo. Pois no
caso de a cúpula energética falhar, fosse qual fosse a causa, até os mais
sólidos abrigos subterrâneos seriam inúteis.
O belo rosto de Thora, que não permitia
adivinhar sua verdadeira idade, assemelhava-se a uma máscara sem expressão. Já
tinha apresentado suas exigências. Agora cabia a Perry Rhodan definir-se,
mostrando até onde estava disposto a satisfazê-las.
Thora não se sentia à vontade entre
aquelas pessoas afobadas, ocupadas e entregues a acaloradas discussões.
Descendente direta da dinastia reinante do Império Arcônida, ela dera a
entender por mais de uma vez que considerava a raça humana inferior e
subdesenvolvida.
Seu olhar dirigiu-se para o fundador e
dirigente da mininação terrestre chamada Terceira Potência. Um travo de
amargura repuxou involuntariamente os lábios bem formados. Perry Rhodan era,
sem dúvida, um ser humano excepcional. E depois de haver absorvido, através da
aprendizagem hipnótica, todos os conhecimentos da raça arcônida, tinha
adquirido status super-humano.
Nada mais conseguiria surpreendê-lo.
Mas nem por isso justificava-se sua atual
soberba; devia lembrar-se com mais freqüência de que devia toda aquela
capacidade e conhecimento aos arcônidas. Era a opinião de Thora, pelo menos.
Irritava-a um pouco ver com que grandiosa e impressionante naturalidade Rhodan
fazia uso dos conceitos fornecidos por uma cultura superior, cultura que os
homens, três anos atrás, nem em sonhos imaginavam existir.
E, no entanto, Rhodan manuseava forças
elementares e projetos ousados com uma segurança incrível, fazendo até a mulher
arcônida perder o fôlego. E ela tirara a falsa conclusão de que Rhodan era a
única pessoa merecedora de atenção no meio dos quase quatro bilhões de
habitantes da Terra.
Uma ira profunda transpareceu na testa
franzida quando Thora percebeu o pressuroso entusiasmo de seu conselheiro
científico e companheiro de raça. Crest, o líder dos cientistas arcônidas e
representante da grandeza intelectual do Grande Império, parecia estar
inteiramente subjugado à vontade de Rhodan. Era surpreendente ver o quanto esse
homem dominava o melhor cérebro do planeta Árcon.
Thora continuava a se manter à parte, na
expectativa, absorta em seu estranho sentimento de amor-ódio pelo homem que lhe
despertava incontida admiração, mas a quem não fazia concessão alguma. Ao lado de
uma ilimitada indignação, turbilhonavam em sua mente pensamentos suaves e
ternos.
Nas telas côncavas do cérebro-robô positrônico
piscavam e brilhavam as fórmulas dos cálculos finais. Rhodan manipulava os
controles com incrível desembaraço, dominando uma máquina cuja perfeição
mecânica jamais deveria admitir ordens humanas. E, no entanto, ela obedecia a
Rhodan.
— Ruptura estrutural No
118! — anunciou a voz rouca de um homem atarracado, de ombros largos.
Thora estremeceu. Reginald Bell,
ex-capitão da Força Espacial dos Estados Unidos e pioneiro lunar, demonstrava
seu propalado sangue-frio diante de emergência. Mas era preciso conhecê-lo bem
para adivinhar a férrea calma que ia por trás da face zombeteira.
— Mais um salto, a centésima décima nona
transição... — disse Bell, elevando a voz acima do zunido dos aparelhos. — É o
quanto basta! Para que continuar escutando as mensagens? E agora?...
Seu olhar ia de Perry Rhodan para Crest,
num incessante vaivém. Sabia que as opiniões dos dois homens divergiam.
— Insiste nisso, Crest? — perguntou
Rhodan, erguendo-se da cadeira giratória.
O arcônida demonstrava sinais de excitação.
Ocorrência incomum na maneira de ser, em geral ponderada e cordata, do ser
extraterreno. Rhodan sentia que a Terceira Potência do planeta Terra se
encontrava em vias de entrar numa nova fase. Portanto, acrescentou à sua
pergunta:
— Parece-me que acaba de iniciar-se a
segunda etapa de nosso empreendimento. Medite sobre isso. As informações
transmitidas por nossas estações-robôs em Plutão indicam com clareza que as
rupturas registradas pelos sensores estruturais ocorreram no setor do sol Vega.
Foi constatado igualmente que inúmeras astronaves, vindas do hiperespaço,
executaram ali sua reentrada no universo normal. Significando que seres
desconhecidos estão explorando ativamente o sistema planetário que deve existir
em torno de Vega. Conserve-se lúcido, Crest! Prezo muito sua inteligência e
tolerância e o auxílio que prestou à Terra e aos homens tem sido inestimável.
— Pois então não lhe custaria nada atender
uma vez a um pedido nosso! — interrompeu Thora, do lugar onde estava.
Haggard e Manoli, os dois médicos, se
entreolharam. O cenho franzido de Haggard revelava séria preocupação: Thora
estava criando problemas!
— Não nos foi possível até agora atender
os pedidos que me fizeram — respondeu Rhodan, secamente. — A posição galáctica
da Terra precisa ser mantida em segredo, custe o que custar. Já me bastou o
incidente com invasores extraterrenos há três anos passados. Crest, está
redondamente enganado com suas suposições!
— Pois continuo pedindo e implorando uma
expedição imediata ao setor do sol Vega! — insistiu Crest. — Meus cálculos
provam, sem sombra de dúvida: o mundo que tenho procurado tão desesperadamente
se encontra entre os planetas do sistema Vega! Perry, pelo menos uma vez, aceda
aos meus desejos! Faz quase quatro anos, na medida terrena do tempo, que fomos
forçados a descer na Lua. Coisa que não fazia parte dos nossos planos. Eu vim
para este setor remoto da galáxia em busca de um planeta cujos habitantes
conhecem o segredo da conservação biológica das células. O que quer dizer: a
vida eterna.
— Mas o senhor ainda nem pode afirmar com
certeza que Vega possui planetas! — objetou Reginald Bell. — Seus cálculos
podem estar corretos. Mas e daí? Para mim não é motivo suficiente para alguém
se jogar naquele caldeirão de bruxas. As naves que emergiram lá do hiperespaço
não ameaçam a Terra por enquanto, mesmo que o cérebro positrônico tenha
alvitrado a possibilidade da Terra ter sido descoberta. Por razões óbvias, não
creio que seja o caso.
Rhodan persistia em seu inquietante
mutismo. Lá embaixo, no vasto salão de conferências, aguardavam os chefes dos
serviços secretos e os delegados das nações terrestres. O alarme fora de âmbito
mundial. E agora aquela surpresa!
— Mas trata-se de naves arcônidas, cujos comandantes
vêm igualmente com a missão de procurar o mundo da vida eterna, tenho certeza!
— teimou Crest.
A impassibilidade de Rhodan parecia
transtorná-lo profundamente.
Novamente a resposta foi dada por Bell:
— Por que tenta iludir-se a si próprio,
Crest? Todos nós sabemos que a outrora poderosa e ativa raça dos arcônidas
degenera a olhos vistos. O declínio mental já era tão acentuado há quatro anos
que a tarefa de equipar seu cruzador de pesquisa custou esforços inauditos. A
turma que surgiu do hiperespaço lá em Vega não tem nada a ver com seus
patrícios, os arcônidas. Confie em meu instinto. Recuso decolar com a Good Hope
num vôo mais rápido do que a luz. Assim como detectamos e localizamos com
exatidão os abalos da estrutura espacial, os desconhecidos nos perceberão por
sua vez. Com o que delataríamos a posição de nosso sistema solar. Que diabo,
afinal eu sou o ministro da segurança, não é?
Bell ergueu-se da poltrona de controle.
Acima dele cintilavam as telas dos hiper-sensores, funcionando em velocidade
superior à da luz. O major Nyssen, comandante do 2o Grupo de
Caça Espacial, comunicava não haver vestígio de objetos estranhos no âmbito do
sistema solar.
— Viu? — exclamou Bell, carrancudo, com os
pálidos olhos azuis cheios de animosidade. — Crest, ninguém vai me forçar a
sacrificar a Good Hope! Os sensores estruturais em Plutão registraram até agora
cento e vinte e duas transições. Todas na vizinhança imediata de Vega! Pretende
mesmo jogar nossa única espaçonave grande no meio daquele caos? Seria rematada
loucura!
— Sua opinião não é a decisiva, Bell! —
exclamou Thora, acremente, enquanto assumia uma postura ainda mais rígida.
Porém o rosto denotava intensa comoção.
“Uma
bela mulher!” constatou Rhodan. Não pela primeira vez; já se habituara a
reconhecer a beleza da arcônida, e seu cérebro apenas confirmava
automaticamente o fato, como coisa rotineira. Ficou observando Thora com os
olhos semicerrados.
Ela emudeceu no meio da frase ao ver o
estranho sorriso de Rhodan. A face contraída não escondia mais o nervosismo.
— Prossigamos! — encorajou Rhodan. — Que
mais precisa ser dito?
Bell cerrou os poderosos punhos.
— Eu nada tenho a dizer! — reclamou,
irritado. — Perry é que é o chefe. Sei que não me suporta, Thora; mas bem que
poderia pensar um pouco na nossa nave. E a única mais rápida do que a luz
disponível no momento. A sorte ainda nos protegeu desta vez, está claro? Quando
escutei o primeiro sinal de alarma da estação em Plutão, imaginei ver surgir
sobre a Terra uma frota atacante. Prefiro pecar por excesso de cautela, o que
não pode prejudicar nem a Humanidade, nem a vocês, arcônidas. Dentro de
aproximadamente um ano, nossos estaleiros terão concluído a construção das
novas naves e então poderemos fazer outros planos. Vou erguer as mãos para os
céus se nos deixarem em paz até lá. Atualmente não dispomos ainda de armas para
enfrentar inteligências cósmicas. E justamente nestas circunstâncias você
insiste em fazer o que vínhamos evitando nos últimos três anos, por medida de
segurança: um hipersalto espacial. E em direção de Vega, ainda por cima, onde
acaba de aparecer uma numerosa frota espacial!
Rhodan pigarreou.
John Marshall sorriu zombeteiro. O coronel
Freyt, chefe da Força de Caça Espacial, que chegara momentos antes, divertia-se
com a eloqüente arenga de Bell.
— Você me recusa toda e qualquer
oportunidade, Perry! — queixou-se o arcônida, com voz magoada. — Durante três
anos tem se oposto até a viagens curtas, no raio de cinqüenta anos-luz.
— Exato. Sempre fui obrigado a refrear
minha própria curiosidade a bem da segurança da Terra. Poderiam nos localizar.
Sabe muito bem que nenhuma concentração de energia incipiente é tão fácil de
localizar quanto uma distorção da estrutura gravitacional.
— Já esperamos bastante! Continuo a
afirmar que as naves surgidas no sistema Vega provêm de Árcon, minha pátria.
Justamente por causa da degeneração que se alastra cada vez mais, somos
obrigados a tentar prolongar a vida útil das mentes ainda sãs, submetendo-as a
um processo artificial de rejuvenescimento. O Conselho Central de Árcon deve
ter feito um esforço supremo a fim de possibilitar ainda no último momento a
descoberta do planeta da preservação celular.
— Exijo a partida imediata! —
manifestou-se novamente Thora. — Estou certa de poder entrar em contato com meu
povo no sistema Vega. Transmitimos a você tudo que sabemos através da
hipnoinstrução, portanto não precisa mais de nós, Rhodan. Faço-lhe presente da
Good Hope. Leve adiante seu plano de elevar sua tão amada Humanidade a um poder
galático, da forma que achar melhor. Mas primeiro será preciso domar os seres
primitivos de sua raça, dominados pelo instinto. Meios para isso não lhe
faltam. Portanto, repito minha exigência: quero decolar e ser conduzida para
Vega!
— Que idéia absurda! — gritou Bell,
furioso. — Será preciso lhe dizer claramente que a altiva raça arcônida chegou
ao fim? Sinto muito, porém é tempo de que alguém lhe abra os olhos, Thora.
Ainda guardo nitidamente na memória a expressão passiva e sonolenta dos rostos
dos tripulantes de seu cruzador aniquilado. Você e Crest podem se dar por
satisfeitos, ainda conservam a mente ilesa. Pois usem-na para pensar e não para
alimentar fantasias irreais!
As palavras eram duras, de uma franqueza
quase brutal. Rhodan aguardou o resultado delas.
Thora tremia de indignação. Crest pareceu
desmoronar interiormente. Abalado, deixou-se cair no primeiro assento que
encontrou. Na Central de Comando o silêncio era opressivo. Apenas o berreiro
incessante do radio-transmissor galático se fazia ouvir da peça vizinha.
— Coronel Freyt!
A voz de Rhodan era seca e impessoal.
Sobressaltando-se, Freyt assumiu involuntariamente a posição de sentido.
Bell fitou o comandante com os olhos
arregalados. Conhecia bem aquela expressão. Rhodan era o tipo humano
classificado pelos psicólogos da Força Espacial como de adaptação instantânea. E o hipnotreinamento recebido dos
arcônidas intensificara ainda mais essa capacidade.
Perry Rhodan era agora o comandante severo
e intransigente que não admitia contradições.
— Às ordens! — respondeu Freyt, engolindo
em seco.
— Mande o major Deringhouse aterrissar
imediatamente! Nyssen fica em órbita lunar com seu grupo. Obrigado! Capitão
Klein?
O segundo homem se perfilou diante do
comandante. Os olhos cinza-névoa deste não encorajavam perguntas. Rhodan não
tinha consciência de que dominava os presentes com o poder de sua vontade,
forçando-os inconscientemente a aceitar suas sugestões.
— Colocar em prontidão um esquadrão de
emergência. Cinqüenta homens bastam. Assuma o comando. Sintonize igualmente cem
guerreiros-robôs para freqüência individual. Decolamos dentro de cinco horas,
exatamente. Obrigado!
Dois homens abalados deixaram o recinto.
Crest ergueu-se lentamente; o rosto ao
mesmo tempo jovem e idoso refletia profunda emoção.
— Muito obrigado! — falou, com voz embargada.
— Encontrará todo o apoio imaginável no sistema Vega. Talvez eu possa conseguir
até que lhe cedam um cruzador espacial realmente capaz de enfrentar batalhas. O
Grande Império protegerá a Terra em toda e qualquer circunstância. Jamais
esqueceremos o que fez por nós. Eu!...
Mas Crest calou diante do olhar do homem
magro, de estatura elevada. Pois leu no fundo dos olhos claros um remoto
indício de piedade, amenizando a anterior expressão autoritária.
— Crest, lamento ter que dizer isso, mas
não vai encontrar uma só nave arcônida no sistema Vega! Não se iluda! A
ansiedade enche sua mente de sonhos. A raça arcônida não possui mais condições
para desencadear um ataque maciço desta espécie. Lembre-se de que localizamos
mais de cento e vinte espaçonaves em transição. Isso não é gente sua!
O corpulento ministro da defesa se
adiantou.
— Exatamente o que penso! Mas por que
insiste em decolar, Perry, se é que me permite a pergunta? De acordo com as
observações feitas, o ataque não se dirige contra nós. Por que atrair a atenção
dos desconhecidos, homem? Por quê, Rhodan? É mais do que evidente que a ação
deles se concentra em torno do sol gigante. Será que refreamos à toa nossa
impaciência por vôos interestalares nestes três últimos anos? Parece que todo
mundo ficou biruta de repente por aqui!
— Se eu fosse ditador, você estaria frito
agora, Bell! — murmurou Rhodan, com seu famoso sorriso enigmático brincando no
canto dos lábios. — Nunca lhe ocorreu que poderia estar enganado?
— Enganado, eu? — replicou Bell, atônito.
— Sim, isso mesmo. A Good Hope decola
dentro de cinco horas! Exclusivamente no interesse da Terra, em missão de
reconhecimento. Pensa que vou permanecer de braços cruzados diante de uma
invasão extraterrena a apenas vinte e sete anos-luz daqui? E trata-se
efetivamente de uma invasão! Negociantes ou pesquisadores nunca se
apresentariam assim em massa, com naves evidentemente poderosas. E mais uma
coisa!...
Perry Rhodan olhou em torno com ar severo.
— ...mais uma coisa, senhores, que passou
despercebida de todos: alguém, lá longe no espaço galático, cometeu um pequeno
erro de cálculo. Esta invasão tinha por objeto real a Terra, e não Vega. Os
chamados de socorro emitidos da Lua pelo cruzador arcônida foram registrados
com uma falha infinitesimal. Ora, levando em conta as distâncias galácticas, um
desvio mínimo na navegação hiperespacial resulta em errar o alvo visado por
vinte e sete anos-luz. É por isso que vamos dar uma olhada nos acontecimentos.
Senhores, a segunda etapa está se iniciando. Ou a segunda crise, se preferirem.
Marshall, anuncie-me aos delegados no salão!
Rhodan colocou o quepe na cabeça, fez uma
rápida continência e encaminhou-se para a porta blindada. O tenso silêncio
provocado por suas últimas palavras foi rompido por uma risada sarcástica.
Reginald Bell postou-se com ar de desafio
diante dos complicados aparelhos de detecção.
— Veremos quem está com a razão,
comandante. Mas, se com esta doidice atrairmos seres estranhos para a Terra, eu
me permitirei a liberdade de taxar de irresponsável o ilustre major Perry
Rhodan, dirigente da Terceira Potência. E, com sua licença, comandante, se
algum subordinado meu cometesse erro de tal monta, eu o mandaria submeter à
corte marcial, sob a acusação de comprometer deliberadamente a segurança
mundial.
Firmando as mãos sobre o encosto de uma
das poltronas, o Dr. Manoli aguardou fremente a reação de Rhodan. Voltando-se
lentamente, ele declarou em tom suave, acompanhado de uma olhar enigmático:
— Eu também faria o mesmo, Bell!
A porta de aço fechou-se com um baque
surdo. Os braços metálicos dos guerreiros-robôs de fabricação arcônida
abaixaram imediatamente as armas apresentadas em continência. O chefe se
retirara.
— Bom psicólogo é que você não é! —
comentou o Dr. Haggard, ministro da saúde da Terceira Potência desde sua
criação e fundador da renomada Clínica Arcônida.
O corpulento gigante tomou o rumo da porta
blindada. Eric Manoli, ex-médico de bordo da Stardust acompanhou-o sem
comentários. Reginald Bell seguiu-os com um olhar sombrio. Depois fitou os dois
arcônidas.
E compreendeu, num relance, por que Rhodan
desistira de sua contínua oposição contra viagens espaciais mais rápidas do que
a luz: porque fora obrigado a ceder.
As circunstâncias não permitiam mais a
recusa de um vôo interestelar. Pois a possibilidade de transformar Thora e
Crest em ferrenhos inimigos da Humanidade era muito mais arriscada do que a
eventual descoberta da Terra por seres estranhos.
Além disso, havia desconhecidos operando
relativamente perto dali...
* * *
O ruído dos potentes pulsopropulsores em
funcionamento fazia pensar no rufar de imensos tambores acionados por gigantes
invisíveis. Rugindo, a Good Hope se ergueu no ar.
Seu local de pouso ficava debaixo da
grande cúpula energética. Assim que a curvatura do pólo superior da esfera com
sessenta metros de diâmetro ameaçou tocar a radiosa cobertura, o cérebro-robô positrônico
reagiu, com a precisão de um mecanismo desprovido de nervos. O campo energético
entrou em colapso, deixando passar a nave. Porém, segundos após, voltou a ver-se
a intensa luminosidade produzida pela incompreensível força desconhecida. Com o
reerguimento do anteparo protetor emudeceu igualmente o tonitruante rugido do
aparelho em ascensão. Segundos após, ele sumiu no céu do deserto. Rhodan
acelerava com valores que levariam à incandescência, por efeito da fricção do
ar, qualquer outro veículo.
O general Pounder refreou a custo seus
sentimentos. Para o homem habituado à atividade espacial, constituía espetáculo
grandioso ver a gigantesca nave projetar-se para o alto com tamanha facilidade.
Diante daquilo, os foguetes usados pela Força Espacial dos Estados Unidos
pareciam lerdos e pesados; ineficientes com seu primitivo sistema de propulsão
nuclear. E não só os americanos!
Também o marechal Gregor Petronski, chefe
da Defesa Aérea e Espacial Oriental, não conseguia disfarçar a emoção nos
traços pétreos do rosto. Os olhares dos dois altos oficiais se cruzaram.
Pounder disse:
— Que é feito de nosso orgulho? Uma
formiguinha pisada por pé gigante não poderia se sentir mais indefesa e
insignificante...
O marechal preferiu não responder. Sua
atitude era significativa. Não havia mais lugar para divergências e inimizades
mal disfarçadas. Pelo menos aquilo Perry Rhodan conseguira obter com o simples
fato de criar sua Terceira Potência.
O homem baixo e franzino, aureolado com
uma coroa de cabelos dourados, sorriu com benevolência. Ninguém diria que se
tratava do chefe todo-poderoso de um serviço secreto denominado Conselho
Internacional de Defesa.
Allan D. Mercant avançou alguns passos. A
conferência-relâmpago realizada por Rhodan causara tremendo impacto. Mercant
consultou o relógio. Sua voz era calma e amável como sempre:
— Vamos, cavalheiros? Ou alguém ainda
duvida da existência de raças altamente desenvolvidas além da nossa? Em caso
negativo, rogo-lhes que comuniquem aos respectivos governos o resultado de
nossas conversações. Estarei em Washington durante os próximos dias. Viajamos
juntos, general?
Pounder concordou com um aceno.
— E o que acontecerá caso o vôo de Rhodan
acabe em insucesso? — indagou uma voz.
Pertencia a Kosselov, o chefe do Serviço
Secreto Oriental.
Mercant enxugou o suor da testa com as
costas da mão.
— Neste caso, só nos restaria fazer votos
pela não-descoberta da Terra. Senhores, é imprescindível alertar nossos
governos para o fato de que não estamos mais sós! E seria mais do que oportuno
renunciar de uma vez por todas a qualquer preconceito ainda existente contra a
unidade universal. A Humanidade não pode apresentar-se desunida diante de
eventuais invasores cósmicos.
O grupo se desfez.
— Faço votos pelo êxito da expedição! —
murmurou Petronski. — Se os dados registrados pelos localizadores forem
corretos, Rhodan vai se meter num verdadeiro inferno. Qual é a capacidade de
reação da Good Hope?
— Tudo depende das armas possuídas pelos
adversários desconhecidos!
— Bem, aguardemos! — respondeu Petronski.
— Vou preparar o alarma atômico em minha área de comando. Pois gostaria de
estar razoavelmente preparado caso seres estranhos comecem a se interessar por
nós.
A densa floresta de Vênus ainda
reverberava com o eco da estrondosa decolagem da Good Hope, porém a nave já
desaparecera no turbilhão convulso que sua ascensão provocara na cobertura de
nuvens do segundo planeta do sistema solar. As massas de ar violentamente
deslocadas e comprimidas haviam sido aquecidas até quase a incandescência; uma
faixa luminosa revelava o rumo tomado pela nave, que decolara verticalmente,
após vencer a distância Terra—Vênus em cerca de quarenta minutos.
Para Perry Rhodan, a escala em Vênus não
passava de um breve pouso com a finalidade de colher informações. Porém estas
informações eram de vital importância. É que o cérebro-robô, relativamente
pequeno, existente na área terrestre da Terceira Potência não continha dados
sobre o provável sistema planetário do sol Vega; portanto, Rhodan alimentava a
vaga esperança de encontrar algo no computador gigante de Vênus. O monstro
mecânico-positrônico, construído por cientistas arcônidas na remota era de sua
expansão galáctica, fornecera de fato os dados que Perry Rhodan precisava.
O mais difícil fora convencer Thora e
Crest da necessidade do pouso prévio em Vênus. Mas, por trás do sorriso amável,
a exigência de Rhodan era explícita: só arriscaria a transição para Vega, a
apenas vinte e sete anos-luz de distância dali, se pudesse obter primeiro dados
reais e concretos sobre a família planetária da estrela gigante.
Thora a Crest encerraram-se em teimoso
mutismo. A situação a bordo da Good Hope beirava perigosamente os limites de
uma séria desavença. E Rhodan percebia a necessidade urgente de chegar a uma
solução mediadora.
A consulta ao gigante positrônico, mil
vezes mais eficiente do que o cérebro retirado da Good Hope e instalado na
Terra, resultou positiva. Realmente, as naves arcônidas tinham explorado as
vizinhanças do Sistema solar há cerca de dez mil anos, em contagem terrena de
tempo, por ocasião das expedições migratórias então efetuadas. A fortaleza em
Vênus fora construída com a finalidade de servir como uma espécie de refúgio
cósmico para situações de emergência.
Na ocasião, os atualmente degenerados
arcônidas deviam encontrar-se ainda em plena posse de sua capacidade mental e
criativa. Nada mais natural, portanto, do que acumular informações acerca do armamento
vizinho à Terra.
Perry Rhodan contara com isso. Mas, para
Thora e Crest, era uma inesperada surpresa. Como o cérebro-robô do cruzador de
pesquisa destruído não continha tais dados em seu banco de memória, os dois
arcônidas haviam concluído que o computador gigante de Vênus nada saberia
também acerca do sistema planetário de Vega.


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