domingo, 14 de outubro de 2012

P-010 - Batalha no Setor Vega - K. H. Scheer [parte 1]




Autor
K. H. SCHEER


Tradução
Maria M. Würth Teixeira


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN

Terceira Potência conheceu um período de paz após a ameaçadora invasão de seres extraterrenos, rechaçada por Perry Rhodan com o auxílio da técnica arcônida e dos extraordinários poderes de seu corpo de mutantes. A Terceira Potência representa a mais poderosa nação terrestre, a despeito de sua reduzida dimensão territorial.
Galáxia, a supermoderna cidade dotada de uma imensa base espacial, e de amplos complexos industriais operados quase que exclusivamente por robôs, é o monumento mais impressionante da nova civilização.
Mas, de repente, Galáxia é colocada em estado de alarma. A bordo da Good Hope, a nave auxiliar do destruído cruzador cósmico dos arcônidas, Perry Rhodan decola em direção ao sistema planetário de Vega, na distante constelação de Lira.


= = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =

Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell — Ministro da segurança da Terceira Potência.
General Lesley Pounder — Chefe da Força Espacial dos Estados Unidos.
Dr. Frank Haggard — Ministro da saúde da Terceira Potência e fundador da Clínica Arcônida.
Homer G. Adams — Ministro das finanças da Terceira Potência, e diretor da General Cosrnic Company.
Coronel Freyt — Chefe da Força de Caça Espacial da Terceira Potência.
Major Deringhouse — Comandante do 1o Grupo de Caça Espacial da Terceira Potência.
Major Nyssen — Comandante do 2o Grupo de Caça Espacial da Terceira Potência.
Capitão Klein — Agente de segurança da Terceira Potência.
Tenente Li Shai-tung — Oficial de ligação da Terceira Potência com o Serviço Secreto da Federação Asiática.
Thora e Crest — Arcônidas, respectivamente, comandante da nave arcônida destruída, e cientista-chefe da raça.
Betty Toufry — Telepatia e telecinésia.
John Marshall — Telepatia e supercérebro.
Tako Kakuta — Teleportação.
Wuriu Sengu — visão raio-X.
Ralf Marten — parapsicologia e exopersonificação.
Allan D. Mercant — Chefe do Conselho Internacional de Defesa.
Marechal Gregor Petronski — Chefe da Defesa Aérea e Espacial Oriental.
Kosselov — Chefe do Serviço Secreto Oriental.
Thort — Chefe supremo dos ferrônios e do sistema Vega.
Chaktor — Ferrônio resgatado no espaço por Rhodan e seu intérprete.
Lossos — Cientista-chefe ferrônio.
Crek-Orn — Almirante-chefe dos tópsidas
Galáxia — Cidade da Terra, capital da Terceira Potência.
Good Hope — Nave com que Rhodan viaja para Vega. Ex-nave auxiliar do cruzador arcônida destruído na Lua.
Perrol — Oitavo planeta de Vega, habitado pelos ferrônios.
Rofus — Nono planeta de Vega, com a capital Chuguinor.
Tópsidas — Raça oriunda do sistema Orion-Delta, a estrela dupla. Descendentes de répteis, são inteligentes, altamente civilizados, porém cruéis e insensíveis.
Ferrônios — Raça semelhante à humana. Inteligentes e avançados, têm pele azul e povoaram os planetas do sistema Vega.




Em obediência à estridente voz de comando, duzentos braços mecânicos ergueram no ar seu fulgor metálico. Cem fuzis de raios apontaram as bocas para o céu sem nuvens do deserto de Gobi. Cem soldados-robôs de aço perfilaram-se em total imobilidade, porém com as entranhas eletrônicas em silenciosa e invisível atividade.
— Nosso visitante será recebido com as devidas honras! — disse o coronel Freyt, com um olhar irônico para o oficial que comandava os guerreiros de metal.
O capitão Klein pigarreou discretamente. Semicerrando os olhos, examinou a aeronave recém-pousada.
— Um tanto familiar, não lhe parece? — comentou. — Você oficia a cerimônia, coronel?
Rígido como um boneco, Freyt, chefe da Força de Caça Espacial da Terceira Potência, encaminhou-se para o avião. O leme do gigantesco bombardeiro a jato ostentava a insígnia da Força Espacial dos Estados Unidos. Freyt aguardou junto à escada rolante.
Na estreita porta de desembarque desenhou-se um vulto alto e imponente. Em silêncio, o general Lesley Pounder, chefe da Força Espacial americana, olhou em torno. Por instantes, seu olhar se deteve sobre a formação impecável das máquinas de lutar. Correspondeu com displicência à continência do capitão Klein. Sua atenção estava voltada para as manobras tonitruantes dos aparelhos, mal e mal visíveis no céu azul a considerável altura. Estava-se no mês de maio e o relógio marcava pouco mais de treze horas. O calor era opressivo.
Uma série de estrondosos trovões indicou que a esquadrilha, rumando para o espaço cósmico, rompera a barreira do som. Porém os minúsculos pontinhos prateados desapareceram do campo visual muito antes que as ondas de som alcançassem o solo.
— Um belo espetáculo! — elogiou Pounder, impressionado. — Como vai, Freyt? Faz tempo que não nos vemos, não é?
Comentário óbvio, para disfarçar o constrangimento. Também para Pounder o momento do reencontro era um tanto deprimente.
— Sim, cerca de três anos, general — confirmou Freyt, evasivamente. — O senhor tinha me enviado à Lua, num foguete do tipo Stardust. A missão resultou tão desastrosa quanto a aterrissagem no nosso satélite. E se Perry Rhodan não nos tivesse resgatado com a nave esférica, o senhor teria mais três nomes de pilotos de provas em sua lista de baixas.
Pounder, o baixo e corpulento chefe da Força Espacial, reprimiu a custo sua conhecida irritabilidade.
— Sorte sua... — constatou em tom seco. — E em conseqüência disso, o senhor tem usado nos últimos três anos a farda da Terceira Potência. Mas até que o uniforme é bonito. Um tanto utópico, talvez... Vejo que foi promovido.
O coronel Freyt preferiu não dar resposta. Pounder vinha visitar a Terceira Potência em caráter oficial; portanto, não havia sentido algum em discutir com seu antigo superior hierárquico.
— O carro está a sua espera, general! — disse, para desviar o assunto. — O chefe ainda não regressou. Enviou-nos uma mensagem há meia hora. Encontra-se nas proximidades de Marte, testando um caça espacial.
O general Pounder engoliu igualmente aquela pílula. Com que naturalidade seu ex-subordinado falava de proezas ainda inconcebíveis para homens comuns!
— Nas proximidades de Marte, ora vejam! — murmurou Pounder. — Como soam importantes suas palavras, coronel! O senhor foi longe... certamente muito mais longe do que lhe seria possível na Força Espacial. E isto aqui progrediu, não é?
Cheio de admiração, o general lançou um demorado olhar aos distantes edifícios em forma de torre da nova cidade. Ficavam ao norte, perto do lago Goshun. Perry Rhodan dera à capital da Terceira Potência o nome de Galáxia.
A última visita de Pounder datava de três anos, quando as instalações não passavam de construções provisórias. E agora aquilo! Só os dois aeroportos constituiriam motivo de orgulho para qualquer nação. E a base espacial ultrapassava qualquer empreendimento jamais criado por mãos humanas.
— Planejamos para o futuro — respondeu Freyt, em tom neutro. — O território que adquirimos da Federação Asiática abrange quarenta mil quilômetros quadrados. E Galáxia conta, segundo o último censo, duzentos e trinta mil habitantes. Pronto para embarcar, general? Nosso pessoal se encarregará do avião.
Com um ligeiro olhar para o enorme bombardeiro, acrescentou com uma ponta de ironia:
— Carreta meio primitiva essa! Vocês ainda empregam os antiquados propulsores atômicos?
— Foi este tipo de propulsão que o levou à Lua, Freyt! Faz mesmo questão de me mostrar o quanto estamos atrasados, não? Mas convém não esquecer que tanto o senhor como Perry Rhodan receberam sua formação na Força Espacial. Se eu não tivesse enviado Rhodan à Lua, ele jamais encontraria os arcônidas. É assim que se chamam os extraterrenos, não?
— Exatamente, general! — confirmou Freyt.
— E este progresso todo só foi possível com a colaboração dos cérebros espaciais — disse Pounder, com um riso sarcástico. — Rhodan teve muita sorte em conquistar-lhes a confiança. Foi o que lhe permitiu criar a Terceira Potência. Mas deixemos o assunto de lado. Que tal é Rhodan como chefe de Estado?
— Refere-se ao senhor Presidente, general?
Resfolegando indignado, Pounder explodiu:
— Freyt, para mim, seu presidente continuará sendo sempre o major Rhodan! O recruta que treinei pessoalmente e designei para o primeiro vôo tripulado à Lua... E dê-lhe este recado na primeira ocasião!
— Ele não esqueceu, general! — respondeu Freyt, rindo. — E, aparte nossas diferenças, afirmo-lhe que é um prazer revê-lo entre nós. Pretende negociar com o chefe sobre o fornecimento de pulsopropulsores?
O general deteve seus passos. Da distante base espacial vinha novamente o rugido avassalador. Silhuetas fulgurantes ganharam o espaço, impelidas por quase imperceptíveis fluxos de impulsos. Pounder aguardou a diminuição da infernal barulheira.
— O esquadrão de Deringhouse — explicou Freyt. — Ótimo elemento este rapaz... O senhor soube escolher seus homens, general, sem dúvida!
— Naturalmente! E foi por isso que Rhodan fez de vocês seus oficiais. Para mim, foi uma perda lamentável. Como sabe de meus planos?
Freyt não estranhou a brusca mudança de rumo da conversa, nem a expressão severa do rosto do general.
— O chefe me falou disso. Se me permite um palpite, acho inútil insistir na obtenção de propulsores completos. A Terceira Potência reserva-se o privilégio de construir naves espaciais mais velozes do que a luz. Sugiro que desista do intento. Mas tenho autorização para mostrar-lhe nossos novos estaleiros oficiais, caso esteja interessado. Normalmente estão interditados para visitantes. Porém guardamos afeto todo especial ao nosso antigo comandante...
Pounder afastou-se sem uma palavra. O sorriso do homem mais jovem o atingira em cheio. Ainda calado, tomou lugar no turbo-carro aberto. Seus olhos se voltaram para a cintilante cúpula energética visível do aeroporto. Aliás, o extenso domo de dez quilômetros de diâmetro não podia deixar de ser notado.
Freyt acomodou com alguma dificuldade o corpo comprido ao lado do general. Este estabeleceu involuntariamente uma comparação: Freyt e Perry Rhodan poderiam ser irmãos. Ambos altos e magros, com as diminutas rugas no canto dos olhos revelando permanente disposição para rir. E haviam recebido formação idêntica, numa escola tida comumente por dura e implacável.
Pounder sentiu-se invadido por uma onda de orgulho. Aqueles jovens tinham criado uma instituição que prometia revolucionar toda a ordem até então estabelecida no mundo.
Com um breve aceno para Klein, Freyt comentou:
— Ele fez parte outrora do serviço secreto da OTAN, sob as ordens de Allan D. Mercant. Inacreditável, não?
Com um suspiro, o coronel continuou:
— A raça humana parece estar criando juízo devagarinho. Ainda posso recordar o momento em que dei ordem para lançar as três bombas de hidrogênio. Na ocasião em que destruímos o cruzador arcônida... Nossa velha Lua entrou em ebulição em alguns pontos. Mas muita coisa mudou depois disso. A humanidade parece ter compreendido, afinal.
— Compreendido? — repetiu o general. — Eu diria que ficou convencida. Se algum doido conseguisse eliminar sumariamente a Terceira Potência, o mundo se tornaria um hospício da noite para o dia! As nações desencadeariam uma luta mortal pela posse de seus conhecimentos técnico-científicos. “No interesse de nossa autoconservação lamentamos ser obrigados à adoção de rigorosas medidas preventivas.” Não é assim que se expressariam os diplomatas?
O pessimismo do general, aparentemente acabou com o bom humor de Freyt. O chefe da Força de Caça Espacial mostrou rugas de preocupação.
— Não conjure os demônios, general! — disse, pensativo. — Aquela cúpula energética foi alvejada por mais de seis mil projéteis de fabricação terrena por semanas inteiras, sem o menor resultado. Apenas um poder superior será capaz de nos destruir e não existe na face da Terra ninguém com capacidade para isso. Todos nós temos que aceitar como fato irrefutável a existência de seres extraterrestres altamente civilizados. E se não nos acautelarmos, qualquer dia nossa própria sobrevivência estará em jogo. É mais do que hora de adotar e manter atitudes racionais. A idéia de Perry Rhodan é estabelecer um governo terrestre central, com representantes de todas as nações do mundo. A questão da cota de participação de cada uma pode ser resolvida mais tarde; acho que não será difícil chegar a um entendimento.
— Impraticável! — afirmou Pounder, secamente. — Freyt, você pode ser um bom militar e um astronauta excepcional, mas não entende coisa alguma de assuntos desta espécie. Que é aquilo ali?
Tática de evasão”, disse Freyt para si mesmo. E teve a desagradável sensação de que o general lhe ocultava algo da maior importância.
Dirigiu o olhar para os prédios do complexo industrial do qual se aproximavam. Uma série de hangares e torres, imaculadamente limpos, sem traço da fumaça ou fuligem provocadoras de poluição ambiental. E, no entanto, a produção era superior à de qualquer fábrica do mundo.
— As seções de acabamento final — disse Freyt, com naturalidade. — E os estaleiros oficiais da Terceira Potência para fabricação de naves espaciais. Tudo criado do nada em pouco mais de três anos.
— Complexos industriais acabados em apenas três anos? — duvidou Pounder. — Produção dos foguetes, estandes de testes, linhas de montagem final? Freyt, qualquer mortal comum levaria três anos só para lançar os fundamentos de uma obra tão gigantesca!
— Colocamos dez mil robôs especializados em ação — explicou Freyt, com um sorriso levemente arrogante. — Além disso, empregamos máquinas que executaram o trabalho de aplainamento com a ajuda de campos antigravitacionais de alta intensidade. Com recursos comuns, a tarefa levaria pelo menos vinte anos! É difícil conceber a magnitude dos recursos arcônidas.
Pounder desistiu. Era inútil discutir com pessoas que argumentavam com conceitos super-humanos e utilizavam máquinas extraterrenas.
O veículo parou diante da linha vermelha. A poucos passos erguia-se a parede de inconcebível energia, mal e mal visível de tão perto.
— Um campo estrutural em cinco dimensões — explicou Freyt, sorrindo.
— Com quem posso me entender aí dentro? — indagou Pounder, ignorando o esclarecimento dado por Freyt.
Espiou para a área coberta pela cúpula energética. Era fértil e viçosa, com alguns poucos edifícios esparsos. Mas estes eram gigantescos. O palácio do governo da Terceira Potência representava uma combinação harmoniosa de elementos arquitetônicos arcônidas e terrestres. Todo branco, o belo prédio se destacava entre os demais.
— Sua excelência, o ministro da segurança, lhe concederá audiência — observou Freyt, esforçando-se por disfarçar a ironia. — Pois o senhor ministro, ou seja, o capitão Reginald Bell, manifestou extrema simpatia diante de sua visita iminente.
— Bell! — gemeu o general. — Essa não! Aquele palerma que ria à toa e nunca conseguia manter a disciplina! Quantos esforços me custou impedir sua degradação ao posto de tenente! E está disposto a me conceder audiência... Pois bem, vá dizer ao seu ministro que talvez eu o reconheça como representante da Terceira Potência... caso ele consiga fazer uma continência mais ou menos correta!

* * *

Homer G. Adams apareceu no telecom, ocupando com seu rosto de testa larga quase toda a tela colorida e tridimensional. O legendário diretor da General Cosmic Company, denominada abreviadamente GCC, chamava da distante Nova Iorque.
— Ah, o chefe ainda está viajando? Que pena! — a voz de Adams soava impessoal e fria no alto-falante. — Escute, Bell, não me agrada a idéia de saber que você está sozinho com Pounder. Não leve a mal meus escrúpulos, porém considero-me um bom psicólogo. Pounder é um gênio militar, fato que em si não constitui risco maior. Mas, além disso, é um homem extraordinário, a quem você deve gratidão, respeito e consideração, mesmo que recuse admiti-lo. Acho que você não tem condições para enfrentar o general. Espere pelo chefe!
O homem baixo e atarracado, trajando o uniforme verde-pálido da Terceira Potência, disfarçou o constrangimento com um sorriso. Reginald Bell não se sentia de fato à altura da situação. Lá em Nova Iorque seus olhos azuis muito claros apareciam como pálidas manchas luminosas na tela.
— Vou aceitar sua sugestão, Adams! — disse Bell, acenando com a cabeça. — Mas pode me pôr a par de suas intenções? A visita do general não foi iniciativa sua?
— Certamente; porém eu ignorava que Perry Rhodan estaria ausente, em vôo de experiência. Bell, ganhe tempo com o general! Aguarde pelo menos até que eu chegue ao deserto de Gobi. Não lhe reconheço competência para conduzir negociações delicadas como essas! Pounder embrulharia você com a maior facilidade.
— Acho que está certo, Adams. Afinal, não é à toa que você é o nosso ministro das finanças, não é? — respondeu Bell, sorrindo. — Minha vontade se resume em abraçar o velho ferrabrás e bater um papo amistoso. Fazem bem quatro anos que não o vejo... Você pode vir imediatamente?
— Meio difícil... — respondeu Adams, indeciso. — Encontro-me em negociações com uma companhia de mineração latino-americana. Vocês querem cobre barato, não é?
Bell levou os dedos inconscientemente à cintilante insígnia de seu posto, no bolso superior esquerdo. Curioso, no íntimo tinha a inquietante sensação de que as conversações com Pounder já estavam fadadas ao fracasso antes mesmo de terem começado.
— Sim, confesso que me sinto em desvantagem diante do velho! — disse, com inusitada gravidade. — Emocionalmente, compreende?... Gosto demais dele. O general comeu fogo por nossa causa. E foi ele que nos equipou com todo o conhecimento de que hoje fazemos uso. Jamais teríamos chegado à Lua se não fosse o total apoio de Pounder. Largue tudo e corra para cá, Adams! Acho que o representante do poder econômico número um do mundo pode se dar ao luxo de adiar uma conferência.
Homer G. Adams, o mutante de memória fotográfica, tido como maior gênio financeiro de todos os tempos, deixou ver um pouco de calor humano em seu sorriso. Pena do ar meio desamparado de Bell, talvez...
— Bem, chamei você para combinarmos tudo direitinho. Não queremos cometer erros, não é? Vou providenciar minha partida imediata. Mais alguma coisa?
O rosto de Adams mudou de expressão ao perceber a repentina tensão de seu interlocutor. Ao mesmo tempo, o ótimo sistema de som fez ouvir um uivo estridente. Bell transformou-se instantaneamente no homem dos nervos de aço. Algo de inesperado devia ter ocorrido em Galáxia.
— Bell! — gritou Adams, alarmado. — Que foi que aconteceu?
— Pode cancelar a viagem, por enquanto, Adams. Espere novo comunicado. Estamos sob alarma. Transmissão encerrada!
Adams viu a imagem se desvanecer na tela côncava do telecom. Permaneceu imóvel em sua cadeira. O gabinete no topo do gigantesco arranha-céu lhe pareceu de repente nu e desolado. O uivo das sirenas continuava. Chegava ligeiramente atenuado à grande metrópole, porém seu impacto não foi menor do que o causado no palácio do governo da Terceira Potência.
Homer G. Adams não era homem de se deixar descontrolar por barulhentas manifestações de aparelhamento acústico. Principalmente naquele dia, quando a jovem Terceira Potência, sob a direção do ex-major e piloto de provas da Força Espacial dos Estados Unidos, Perry Rhodan, era o eixo econômico, político e militar do planeta Terra. O fato de aquele conglomerado de poderes ser fruto da inteligência superior e capacidade de produção de uma raça cósmica, alheia à Terra, era de menor importância. O mais surpreendente no caso era ver reconhecida como potência mundial uma pequena nação perdida no coração do continente asiático; não sem algumas dificuldades iniciais, é claro.
Uma vez estabelecida a soberania da Terceira Potência, a General Cosmic Company encontrara bases sólidas para se desenvolver. Adams estava em vias de revolucionar toda a economia mundial com os produtos e técnicas arcônidas. Segundo o cômputo mais recente, o capital social da GCC se elevara a duzentos bilhões de dólares; e estava iminente o lançamento de novas subscrições no montante de mais setenta bilhões. Sem dúvida, a instituição criada por Homer G. Adams era sólida e economicamente estável.
Nada, até então, levara este homem a perder a calma e a serenidade, nem sequer por uma fração de segundo. Portanto, era bastante estranho vê-lo trêmulo e de olhos arregalados, atento para o lamento das sirenas. Momentos após chegou a confirmação ótica. Luzes violetas piscavam ininterruptamente. Aos poucos, a tonalidade alarmante predominou sobre a iluminação natural na peça semi-obscurecida.
Homer G. Adams sobressaltou-se, como que despertando de um pesadelo.
— Não! — murmurou, com os lábios comprimidos num esgar de angústia. — Isso não! Meu Deus, tudo, menos isso!





— Para trás com esse carro! — gritou o jovem oficial de guarda. — Não vê que a passagem está impedida? Ande! Recue pelos menos uns trinta metros!
O rapaz suava em bicas. Após o cessar do frenético lamento das sirenas, o território da Terceira Potência parecia ter virado casa de loucos. Para cúmulo da confusão, acabara de chegar a coluna de transportes da Mongólia, com seu carregamento de máquinas. E o tenente encarregado do posto na fronteira era impotente para prestar auxílio aos perturbados asiáticos. Pois o cérebro-robô positrônico dos arcônidas assumira a direção dos acontecimentos.
A máquina era inexorável. Acionada ao primeiro sinal de alarma, deixava aos humanos o prazo de apenas dois minutos exatos para se porem em segurança. Depois a cerca de energia foi erguida, estendendo-se ao longo de toda a fronteira. Uma barreira luminosa e flamejante de energia pura impedia a passagem do que quer que fosse. E era irremediavelmente mortal. Também não era aconselhável sobrevoar o intrincado entrelaçado de linhas e espirais energéticas; acoplado a inúmeros localizadores, o cérebro-robô não hesitaria um só instante em abater o invasor alado com uma bateria de canhões de raios. Afinal, o alerta geral fora amplamente difundido, a fim de evitar ocorrências desta espécie.
O tenente recolheu-se apressadamente a sua casamata de concreto, dentro da cerca energética. Os enormes soldados-robôs — pesadas máquinas portando armas nos braços articulados e providos de mini-mecanismos atômicos nos corpos metálicos — recusavam há quatro minutos qualquer ordem humana. Eram comandados agora pelo cérebro eletrônico.
Momentos após chegou o comunicado automático a todos os postos de fronteira e estações de controle:

Alerta com prioridade 1 em efeito.

Ninguém poderia deixar o território da Terceira Potência e, muito menos, entrar nele.
A imensa cúpula energética, localizada no centro geométrico dos quarenta mil quilômetros quadrados de área da nação, intensificou seu brilho. O fulgor intenso e ofuscante feria os olhos. Tinha-se a impressão de ver surgir de repente um sol artificial.
Da base espacial, agora invisível, os novos caças da Força de Caça Espacial se projetaram, rugindo, para o alto. O general Pounder, cujo carro cruzara os limites no último instante, segundos antes da barreira energética entrar em funcionamento, viu-se de repente abandonado. Apenas um soldado-robô montava guarda ao veículo. Pálido e consternado, o general não obtinha resposta às suas inquietas perguntas. Todo mundo parecia ignorar sua presença ou esquecê-la de todo.
O coronel Freyt desaparecera com uma sonora praga. Correndo provavelmente, para seu posto de comando nas cercanias da base espacial...
Pounder não viu outra solução a não ser armar-se de paciência e esperar. Alguém acabaria por dar-lhe atenção. Desconhecendo o funcionamento de um cérebro-robô positrônico, não podia saber que este já registrara sua presença. Não era em vão que o soldado-robô tomara posição junto ao carro do general.
Assim que o cérebro-robô arcônida verificou que o general era inofensivo e que se tratava de pessoa devidamente anunciada, enviou uma inaudível ordem radiofônica ao guerreiro mecânico. Com um sobressalto, Pounder sentiu o carro arrancar bruscamente e rumar em alta velocidade para o palácio do governo.
Lá, deparou com um oficial do serviço de segurança à sua espera. Após ligeira hesitação, Pounder reconheceu o homem sorridente e atencioso. Li Shai-tung ganhara as manchetes mundiais três anos atrás. Ocupava agora o posto de elemento de ligação com o Serviço Secreto da Federação Asiática.
Levando a mão ao quepe, Pounder pensou consigo mesmo: “Mais um velho conhecido, ora veja!”...
— Queira aguardar na recepção, por favor! — foi-lhe dito. — Espero que compreenda a indisponibilidade momentânea de qualquer dos dirigentes.
— Qual a razão do alarma? — indagou o general, secamente. — Pode me explicar o que está acontecendo?
— Fui destacado especialmente para informá-lo, general. Queira entrar, por obséquio. Não se deixe impressionar pela atitude ameaçadora dos robôs; faz parte do sistema de alarma. Não há perigo algum; eles são controlados automaticamente. Por aqui, general!...
Pounder inspecionou com o olhar o amplo recinto composto de vidros, material sintético e efeitos luminosos. Também aqui a movimentação era febril. Percebeu ao fundo os vãos fulgurantes dos fabulosos elevadores antigravitacionais. Tanto na construção, como nos acabamentos e nas instalações, evidenciava-se a aplicação de técnicas superavançadas.
“Devem ter gasto uns cento e vinte milhões de dólares nisso”, calculou o general, habituado a fazer avaliações daquela espécie.
— Bell não tardará a vir cumprimentá-lo, general. Sua inesperada presença acabou sendo providencial. Fui encarregado de lhe prestar as informações preliminares. É provável que lhe solicitemos, em vista das circunstâncias, a convocação urgente da Comissão de Segurança Mundial, em caráter de emergência prioritária. Talvez em Pequim, por sua localização centralizada. Terá que tomar decisões muito rápidas. Nossos meios de comunicação estão ao seu dispor.
A emoção embargava a voz de Pounder.
— Compreendo, tenente! A situação está preta outra vez, não? Ainda recordo a crise anterior, há três anos, quando seres extraterrenos se introduziram sorrateiramente nos corpos e mentes de nossos mais destacados cientistas e políticos, subjugando-os por completo. Os serviços de segurança já foram informados?
— Sim. O código preestabelecido foi emitido automaticamente. Não perdemos tempo aqui, general... Ainda não dispomos de informações precisas. Nossa estação de observação em Plutão apenas nos transmitiu os dados registrados pelos sensores de deformação da estrutura espacial.
— Tenente, você tem diante de si um homem de boa paz, que se pergunta de vez em quando com que direito se intitula chefe da Força Espacial dos Estados Unidos — observou Pounder, sarcástico. — Voamos em foguetes obsoletos, enquanto vocês usam naves espaciais mais velozes do que a luz. Que diabo vem a ser um sensor de deformação da estrutura espacial?
Li Shai-tung sorriu. Lá fora reboava um rugido infernal. Foi crescendo de forma alarmante, até se extinguir gradualmente, à medida que as ondas sonoras se dissipavam no ar. Pounder conhecia bem o fenômeno mas não com tal intensidade.
— É a Good Hope decolando sob o comando dos dois arcônidas — explicou o agente chinês, com displicência. — A nave auxiliar do cruzador arcônida destruído na Lua, lembra?
— Nave auxiliar! — suspirou o general. — Tenente, para mim, uma nave espacial esférica com sessenta metros de diâmetro representa um verdadeiro colosso, entendeu? E o que é um sensor de deformação da estrutura espacial?
— Um aparelho de detecção arcônida, para localizar e medir diretamente alterações quadridimensionais da estrutura espacial no cosmo normal. O instrumento mede desvios de gravitação. E como a gravitação é uma forma de energia do hiperespaço, os sensores funcionam forçosamente a velocidades superiores à da luz. Quando emitem sinal, sabemos que em algum ponto situado num raio de cerca de cinqüenta anos-luz a estrutura curva do espaço foi abalada, rompida por forças poderosas. Por experiência, sabemos que isso só pode ser ocasionado pelo hipersalto de uma nave mais veloz do que a luz: a denominada transição. E quando o fato se dá a uma distância tão próxima, a Central de Defesa da Terceira Potência toma providências imediatas. Pois a coisa pode ser conosco, general!
Pounder murchou, sem ter entendido uma só palavra da explicação.
— Está bem, tenente! Pode poupar seu latim. Não passo de um homem das cavernas diante dos conhecimentos científicos de Rhodan e você. Sempre lhe dei apoio total; primeiro, quando desobedeceu às minhas ordens; depois às custas de minha consciência de militar; mais tarde com a sanção oficial do meu governo. Pode ir, eu espero... Deve ter obrigações a cumprir. Só não esqueça que deixou um homem desarvorado sentado aqui.
— General, todos estes conhecimentos serão amplamente divulgados no dia em que a humanidade chegar a uma verdadeira comunhão espiritual. Não há dúvida de que cresce dia a dia a garantia de uma paz mundial permanente e duradoura; mas, por enquanto, para a própria consolidação deste objetivo, é preciso que o poder se concentre exclusivamente nas mãos de Perry Rhodan. O que lhe acarreta a obrigação de proteger tanto o seu mundo quanto o nosso. Medite sobre o que eu disse, general, por favor. Os chefes dos três grandes serviços secretos devem chegar dentro de uma hora, no máximo. E agora, peço permissão para me retirar. Tenho efetivamente obrigações a cumprir.
Li afastou-se apressado. Perturbado e preocupado com o que ouvira, Pounder fixou o olhar ausente sobre o mostrador do relógio.
Porém, pôs-se de pé rapidamente ao avistar a jovem. Conhecia-a bem; mas, da frágil menina de rosto pálido e olhos ardentes, apenas ouvira falar.
— Como está? — indagou ele, mecanicamente, enquanto procurava sondar os misteriosos olhos infantis.
Recapitulou mentalmente o que sabia sobre aquela menina. Sem dúvida, Betty Toufry fazia parte do legendário Exército de Mutantes da Terceira Potência.
Pounder engoliu em seco, impressionado com o incrível da situação. Porém sabia que o pai de Betty trabalhara num laboratório nuclear, tendo sofrido alterações em seu gen. Na filha, estas alterações não se manifestaram sob a forma de deformidade física, mas resultaram numa capacidade mental extraordinária, muito acima da de qualquer ser humano comum. Pounder ignorava as qualidades específicas da inteligência da menina, mas decidiu levar o caso ao chefe do Serviço Secreto Ocidental. Não lhe agradava a idéia de ver Perry Rhodan dar guarida a tais monstruosidades; muito menos a de que as submetia a treinamento especial.
Sobressaltou-se ao ver Betty se afastar abruptamente. Chegando junto ao cintilante campo energético dos elevadores antigravitacionais, a menina murmurou:
— O senhor não devia pensar isso, general!
As palavras cruzaram o vasto recinto como um sussurro trazido pela brisa.
Pounder deixou-se cair de volta na cadeira. Percebera estar diante de uma telepata espontânea, um ser para o qual não existiam pensamentos secretos e privados. O general sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.

* * *

Um vulto corria alucinado pelo negrume do espaço. O silvo agudo dos pulso-propulsores trabalhando no máximo de sua capacidade parecia passar inteiramente despercebido para o homem imóvel, sentado diante dos controles.
Os pensamentos de Perry Rhodan, no entanto, fervilhavam. Cruzou a órbita lunar a toda a velocidade. Na frente do pequeno caça espacial brilhava já a Terra. Os jatos de reversão de campo cuspiam para a frente uma torrente de partículas, em sentido contrário à direção do vôo. Em conseqüência, o pequeno aparelho em forma de torpedo era freado, com uma desaceleração da ordem de quinhentos quilômetros por segundo.
Rhodan verificou mais uma vez os dados do aparelho automático de aproximação. À altura da órbita dos satélites, o caça deveria estar na velocidade apropriada para a aterrissagem. Pontinhos luminosos dançavam na tela do hipersensor, que trabalhava com velocidade superior à da luz. No alto-falante audiofônico espocavam palavras esparsas. O que se projetava para o espaço, ali à sua frente, era obra construída por mãos humanas, assim como eram humanos os ocupantes das exíguas cabinas pressurizadas.
O rosto de um rapaz surgiu na pequena tela do telecom. Sorrindo e acenando com a cabeça, ele informou:
— Deringhouse para Cometa 1: segundo grupo decolando a fim de tomar posição de alerta. Alguma ordem, chefe?
Rhodan puxou o microfone articulado para diante da boca. À frente de seu caça, a Terra emergia do vazio espacial como uma gigantesca bola de inflar. Avistava-se nitidamente as Américas e um extenso trecho do Oceano Pacífico. O litoral europeu envolvia-se lentamente nas sombras crescentes da noite.
— Nenhuma; ao menos por enquanto. Nada de explicações compridas, por favor. Recebi o aviso. O alarma foi desencadeado?
— Conforme programado. Aquilo lá embaixo virou um inferno!
Rhodan cortou a comunicação.
Os caças sob o comando de Deringhouse prosseguiram em sua alucinante corrida para o espaço, enquanto Rhodan iniciava a primeira órbita de frenagem. Após uma volta completa em torno do globo terrestre, ele mergulhou nas camadas superiores da atmosfera, com os anteparos térmicos flamejando. Os gases incandescentes das massas de ar violentamente deslocadas precipitavam-se estourando no vácuo criado pelo aparelho em queda. Parecia um meteoro consumindo-se em fogo, na atmosfera cada vez mais espessa.
Era a técnica de aterrissagem de aproximação rápida dos arcônidas. Cabia a projetores especiais, embutidos nos anteparos térmicos, a tarefa de ionizar as renitentes moléculas gasosas, a fim de expulsá-las da trajetória do aparelho que se precipitava em direção ao solo.
Também aquilo constituía um processo avançado, que mesmo um homem competente como o general Pounder não imaginava nem em sonhos. Perry Rhodan valia-se dele com a tranqüila naturalidade do iniciado. Por força do hábito, mal percebia a violenta turbulência produzida na atmosfera agora mais densa.
Seus pensamentos se concentravam inteiramente no alarma. Uma situação aguardada com lúcida ansiedade tinha se concretizado, afinal!
No entanto, Rhodan ainda ignorava os detalhes essenciais. Mas, como o cérebro-robô positrônico havia desencadeado o alarma, era de supor que a posição galáctica do planeta Terra corria risco imediato.
A posição galáctica! Durante os últimos três anos, toda a preocupação de Rhodan havia girado em torno deste ponto. Pois há três anos, pouco após a criação da Terceira Potência, seres extraterrenos haviam conseguido pôr pé na Terra pela primeira vez. Debelado o perigo, semanas, meses e anos decorreram sem ocorrências dignas de menção, a não ser que se considerasse fora do comum a febril atividade de construção desenvolvida na área territorial da Terceira Potência.
Rhodan fora brindado com uma trégua de três anos. E neste espaço de tempo o ex-major e piloto de provas da Força Espacial dos Estados Unidos conseguira pelo menos estabilizar definitivamente a vacilante paz mundial e congregar as nações mais poderosas da Terra numa coalizão de defesa.
Mas tudo aquilo seria ilusório caso a Terra fosse novamente descoberta! O que ocorreria caso as indubitavelmente existentes inteligências extraterrenas tentassem alcançar a pátria dos homens — com armas de poderio infinitamente superior — a fim de estabelecer-se nela, ou desencadear um ataque de surpresa? O alarma declarado tinha vindo confirmar os temores recônditos de Rhodan.
O litoral norte da Sibéria surgiu à vista. Os sensores indicavam que o caça estava sendo detectado por diversas estações de radar. Que diferença fazia? O pessoal lá embaixo sabia muito bem quem era o suposto maluco que se precipitava do espaço pilotando um aparelho aparentemente desgovernado.
Rhodan avistava agora a Mongólia. Quando começou a aparecer nas telas a cercadura luminosa em torno da área territorial da Terceira Potência, Rhodan recordou o desesperado pouso de emergência feito ali três anos antes. Ele regressava da Lua, onde fora o primeiro homem a pisar, trazendo consigo os dois arcônidas. E a presença dos seres extraterrenos é que o tinha levado a descer num ponto isolado do globo.
Aquilo havia sido o começo de tudo. Seguiram-se graves e profundos desentendimentos com as nações mais poderosas da Terra; atacaram seguida e impiedosamente o novo poder em formação, até verificar a total impotência diante da tecnologia e armas de defesa dos extraterrenos. O termo arcônidas passou a ser assunto de manchetes mundiais. Agora reconhecia-se de bom grado os benefícios prestados à humanidade pela raça interestelar. Por outro lado, existia o ponderável fato de que a vinda acidental dos arcônidas à Terra aumentara muito o risco de esta ser descoberta por outros seres cósmicos.
Provavelmente o planeta Terra continuaria sendo um corpo celeste desconhecido por anos e anos se o cruzador arcônida, destruído por mãos humanas, não tivesse irradiado pedidos de socorro. Os sinais se espalharam pelo cosmo. E dali em diante acabara-se a doce ilusão da humanidade de ser única no universo.
Rhodan forneceu o código apropriado, para que o cérebro-robô lhe permitisse passagem; o caça passou a ser pilotado pela estação de controle remoto em terra. Perry Rhodan ficou livre para entregar-se às suas cogitações. Percebia com nitidez que a humanidade se encontrava diante de um repentino despertar, que encerrava um terrível potencial de perigo. E os homens teriam que admitir a existência positiva de outros seres dotados de inteligência, talvez superior à deles próprios. E o pior, pouco ou nada tinham para opor-se a eles...
A face do homem alto e magro, confinado na apertada cabina pressurizada do caça, denotava profunda preocupação. Pois compreendia que caberia a ele e aos dois arcônidas sobreviventes tomarem medidas para a segurança da Terra.
A nave pousou suavemente. O pequeno reator de alto rendimento, por trás da blindagem anti-radiação na cabina do piloto, foi desligado. Em conseqüência, cessou igualmente a atividade do poderoso conversor de energia, e do aparelhamento auxiliar, sem os quais jamais seria possível controlar o tremendo potencial de força liberado.
O coronel Freyt estava a postos para receber o comandante que regressava. Sua saudação foi curta e breve, enquanto fitava Rhodan com expectativa. Empurrando para trás o capacete, Rhodan aceitou o cigarro oferecido. Nos olhos cinzentos brilhava mal contida tensão.
Porém nada em sua aparência externa denotava que há menos de uma hora se encontrava nas proximidades de Marte, testando um novo caça espacial. Era o impassível comandante de sempre, o homem sem nervos. Possuía, pelo menos, extraordinária capacidade de negar a existência de semelhantes contingências físicas.
— A Good Hope decolou com Thora e Crest, chefe! — informou Freyt laconicamente. — Deringhouse e Nyssen estão no espaço, com quarenta e cinco aparelhos cada um. Conservei o terceiro esquadrão em terra, em rigorosa prontidão. Apto para levantar vôo em cinqüenta segundos, se for preciso. O general Pounder chegou pouco antes do alarma. Está aguardando no palácio do governo. Posso fazer uma pergunta, chefe! Que se passa! Cá embaixo, nós...
— Bell não deu um pio, não é? — interrompeu Rhodan. — A mim não adianta perguntar. Não tenho a menor idéia. Mas fique de olhos abertos, está bem? Meu aparelho?...
Freyt ficou vendo o helicóptero se afastar com uma expressão de profunda inquietação. Em flagrante contraste com as avançadas instalações na área da Terceira Potência, o helicóptero era produto terrestre comum. Lá longe, a cintilante cúpula energética desfez-se por um breve segundo, admitindo a entrada do aparelho. Mas tornou a erguer-se outra vez com o mesmo brilho contra o céu azul do deserto de Gobi.
Rhodan pousou no heliporto do palácio do governo, situado no topo do edifício. Recebeu com um sorriso irônico as honras militares prestadas pelos robôs de guarda. Sempre lhe parecera fútil sobrecarregar os complexos cérebros dos guerreiros mecanizados com aquela programação supérflua.
Além dos robôs, só uma pessoa havia comparecido para recebê-lo. Rhodan dispensava as cerimônias de estilo. O homem de cabelos negros e rosto fino envergava igualmente o uniforme da Terceira Potência. Porém, o elegante macacão não trazia insígnias de posto; apenas no bolso esquerdo superior luzia um símbolo estranho. Olhando de perto, via-se que era um cérebro cercado por brilhante auréola.
O mutante John Marshall procurou o olhar de Rhodan. Adivinhava intuitivamente o que ia na cabeça do presidente. E pareceu-lhe que Rhodan retardava propositalmente a entrada na Central de Comando do palácio.
— Olá, Marshall! Como vai indo a leitura de pensamentos?
— Mal, no que toca ao senhor, chefe! — constatou o mutante. — O senhor está sendo aguardado. Bell está uma pilha de nervos. Dentro de quinze minutos chega o pessoal dos serviços secretos. Que fazemos com eles?
Sem uma palavra, Rhodan entrou no campo cintilante dos elevadores antigravitacionais. Libertos de peso, flutuaram suavemente para baixo.
Marshall procurava antecipar mentalmente a provável atitude de Rhodan naquela emergência. Em contraste com a frenética agitação reinante no palácio do governo, Rhodan era a calma personificada. Marshall sondou cautelosamente as ondas cerebrais de seu acompanhante, ainda metido em seu traje espacial e com os cabelos louro-escuros empastados de suor.
— Desista, Marshall! — disse a voz grave. — É como dar contra uma parede... Chegou a sondar o general Pounder?
Marshall fez uma careta, com os olhos brilhando de indignação.
— Ele nos toma por monstros! — resmungou. — Há gente que se recusa a compreender que o que eles chamam de monstros resultou de pesquisas monstruosas, das forças nucleares que jogaram contra nós...
— Mas fora isso, Pounder é legal, não é? — respondeu Rhodan, sorrindo. — Escute, John, você não devia levar a sério essas alusões a monstros e coisas semelhantes. Procure pensar de preferência na impressão que seus dotes super-humanos causam em viventes comuns. Pois eu...
Suas palavras foram abafadas pelo rugido de uma nave espacial em processo de aterrissagem. Rhodan saltou do elevador no pavimento seguinte.
— Ué, a Good Hope está voltando?
— Era o recado que eu tinha para lhe dar. Thora acha mais conveniente, por enquanto, deixar a nave abrigada sob a cúpula energética. Bell bloqueia o cérebro; não consegui saber o que ele pensa a respeito disso tudo. Nem ao menos sei o que está se passando!
As linhas angulosas do rosto contraído de preocupação suavizaram-se num momentâneo sorriso.
— Que falta de consideração de Bell, não acha? Muito bem, Marshall, chegou o momento! Você percebeu que eu procurava ganhar tempo, não?
Rhodan fitou a pesada porta blindada de aço arcônida que constituía a única entrada para a Central de Comando do palácio. Dois enormes soldados-robôs montavam guarda diante dela, com as carabinas energéticas engatilhadas, prontas para disparar seus raios mortais.
O telepata sorriu; claro que tinha percebido.
— Vamos lá! E peça a Deus para que saiamos disso incólumes também desta vez! Por enquanto, a Terra é fraca demais para enfrentar ataques de alguma poderosa nação galáctica. Nossos diminutos caças espaciais não valeriam nada diante de uma frota de verdade. Venha!





A atitude dela era fria, controlada e arrogante. Mas ninguém podia ter certeza de que dominava efetivamente seus nervos. Thora, a ex-comandante do cruzador espacial em missão de pesquisa, forçado a pousar na Lua e posteriormente destruído por obra humana, tornava a tomar consciência de sua condição de arcônida. Rígida e ereta, sua atitude denotava mais tensão do que propriamente dignidade. Em silêncio, ela observava a agitada movimentação de pessoas dentro da Central de Comando.
Rhodan achava melhor não instalar aquela Central de Comando, o ponto vital da Terceira Potência, no subsolo. Pois no caso de a cúpula energética falhar, fosse qual fosse a causa, até os mais sólidos abrigos subterrâneos seriam inúteis.
O belo rosto de Thora, que não permitia adivinhar sua verdadeira idade, assemelhava-se a uma máscara sem expressão. Já tinha apresentado suas exigências. Agora cabia a Perry Rhodan definir-se, mostrando até onde estava disposto a satisfazê-las.
Thora não se sentia à vontade entre aquelas pessoas afobadas, ocupadas e entregues a acaloradas discussões. Descendente direta da dinastia reinante do Império Arcônida, ela dera a entender por mais de uma vez que considerava a raça humana inferior e subdesenvolvida.
Seu olhar dirigiu-se para o fundador e dirigente da mininação terrestre chamada Terceira Potência. Um travo de amargura repuxou involuntariamente os lábios bem formados. Perry Rhodan era, sem dúvida, um ser humano excepcional. E depois de haver absorvido, através da aprendizagem hipnótica, todos os conhecimentos da raça arcônida, tinha adquirido status super-humano. Nada mais conseguiria surpreendê-lo.
Mas nem por isso justificava-se sua atual soberba; devia lembrar-se com mais freqüência de que devia toda aquela capacidade e conhecimento aos arcônidas. Era a opinião de Thora, pelo menos. Irritava-a um pouco ver com que grandiosa e impressionante naturalidade Rhodan fazia uso dos conceitos fornecidos por uma cultura superior, cultura que os homens, três anos atrás, nem em sonhos imaginavam existir.
E, no entanto, Rhodan manuseava forças elementares e projetos ousados com uma segurança incrível, fazendo até a mulher arcônida perder o fôlego. E ela tirara a falsa conclusão de que Rhodan era a única pessoa merecedora de atenção no meio dos quase quatro bilhões de habitantes da Terra.
Uma ira profunda transpareceu na testa franzida quando Thora percebeu o pressuroso entusiasmo de seu conselheiro científico e companheiro de raça. Crest, o líder dos cientistas arcônidas e representante da grandeza intelectual do Grande Império, parecia estar inteiramente subjugado à vontade de Rhodan. Era surpreendente ver o quanto esse homem dominava o melhor cérebro do planeta Árcon.
Thora continuava a se manter à parte, na expectativa, absorta em seu estranho sentimento de amor-ódio pelo homem que lhe despertava incontida admiração, mas a quem não fazia concessão alguma. Ao lado de uma ilimitada indignação, turbilhonavam em sua mente pensamentos suaves e ternos.
Nas telas côncavas do cérebro-robô positrônico piscavam e brilhavam as fórmulas dos cálculos finais. Rhodan manipulava os controles com incrível desembaraço, dominando uma máquina cuja perfeição mecânica jamais deveria admitir ordens humanas. E, no entanto, ela obedecia a Rhodan.
— Ruptura estrutural No 118! — anunciou a voz rouca de um homem atarracado, de ombros largos.
Thora estremeceu. Reginald Bell, ex-capitão da Força Espacial dos Estados Unidos e pioneiro lunar, demonstrava seu propalado sangue-frio diante de emergência. Mas era preciso conhecê-lo bem para adivinhar a férrea calma que ia por trás da face zombeteira.
— Mais um salto, a centésima décima nona transição... — disse Bell, elevando a voz acima do zunido dos aparelhos. — É o quanto basta! Para que continuar escutando as mensagens? E agora?...
Seu olhar ia de Perry Rhodan para Crest, num incessante vaivém. Sabia que as opiniões dos dois homens divergiam.
— Insiste nisso, Crest? — perguntou Rhodan, erguendo-se da cadeira giratória.
O arcônida demonstrava sinais de excitação. Ocorrência incomum na maneira de ser, em geral ponderada e cordata, do ser extraterreno. Rhodan sentia que a Terceira Potência do planeta Terra se encontrava em vias de entrar numa nova fase. Portanto, acrescentou à sua pergunta:
— Parece-me que acaba de iniciar-se a segunda etapa de nosso empreendimento. Medite sobre isso. As informações transmitidas por nossas estações-robôs em Plutão indicam com clareza que as rupturas registradas pelos sensores estruturais ocorreram no setor do sol Vega. Foi constatado igualmente que inúmeras astronaves, vindas do hiperespaço, executaram ali sua reentrada no universo normal. Significando que seres desconhecidos estão explorando ativamente o sistema planetário que deve existir em torno de Vega. Conserve-se lúcido, Crest! Prezo muito sua inteligência e tolerância e o auxílio que prestou à Terra e aos homens tem sido inestimável.
— Pois então não lhe custaria nada atender uma vez a um pedido nosso! — interrompeu Thora, do lugar onde estava.
Haggard e Manoli, os dois médicos, se entreolharam. O cenho franzido de Haggard revelava séria preocupação: Thora estava criando problemas!
— Não nos foi possível até agora atender os pedidos que me fizeram — respondeu Rhodan, secamente. — A posição galáctica da Terra precisa ser mantida em segredo, custe o que custar. Já me bastou o incidente com invasores extraterrenos há três anos passados. Crest, está redondamente enganado com suas suposições!
— Pois continuo pedindo e implorando uma expedição imediata ao setor do sol Vega! — insistiu Crest. — Meus cálculos provam, sem sombra de dúvida: o mundo que tenho procurado tão desesperadamente se encontra entre os planetas do sistema Vega! Perry, pelo menos uma vez, aceda aos meus desejos! Faz quase quatro anos, na medida terrena do tempo, que fomos forçados a descer na Lua. Coisa que não fazia parte dos nossos planos. Eu vim para este setor remoto da galáxia em busca de um planeta cujos habitantes conhecem o segredo da conservação biológica das células. O que quer dizer: a vida eterna.
— Mas o senhor ainda nem pode afirmar com certeza que Vega possui planetas! — objetou Reginald Bell. — Seus cálculos podem estar corretos. Mas e daí? Para mim não é motivo suficiente para alguém se jogar naquele caldeirão de bruxas. As naves que emergiram lá do hiperespaço não ameaçam a Terra por enquanto, mesmo que o cérebro positrônico tenha alvitrado a possibilidade da Terra ter sido descoberta. Por razões óbvias, não creio que seja o caso.
Rhodan persistia em seu inquietante mutismo. Lá embaixo, no vasto salão de conferências, aguardavam os chefes dos serviços secretos e os delegados das nações terrestres. O alarme fora de âmbito mundial. E agora aquela surpresa!
— Mas trata-se de naves arcônidas, cujos comandantes vêm igualmente com a missão de procurar o mundo da vida eterna, tenho certeza! — teimou Crest.
A impassibilidade de Rhodan parecia transtorná-lo profundamente.
Novamente a resposta foi dada por Bell:
— Por que tenta iludir-se a si próprio, Crest? Todos nós sabemos que a outrora poderosa e ativa raça dos arcônidas degenera a olhos vistos. O declínio mental já era tão acentuado há quatro anos que a tarefa de equipar seu cruzador de pesquisa custou esforços inauditos. A turma que surgiu do hiperespaço lá em Vega não tem nada a ver com seus patrícios, os arcônidas. Confie em meu instinto. Recuso decolar com a Good Hope num vôo mais rápido do que a luz. Assim como detectamos e localizamos com exatidão os abalos da estrutura espacial, os desconhecidos nos perceberão por sua vez. Com o que delataríamos a posição de nosso sistema solar. Que diabo, afinal eu sou o ministro da segurança, não é?
Bell ergueu-se da poltrona de controle. Acima dele cintilavam as telas dos hiper-sensores, funcionando em velocidade superior à da luz. O major Nyssen, comandante do 2o Grupo de Caça Espacial, comunicava não haver vestígio de objetos estranhos no âmbito do sistema solar.
— Viu? — exclamou Bell, carrancudo, com os pálidos olhos azuis cheios de animosidade. — Crest, ninguém vai me forçar a sacrificar a Good Hope! Os sensores estruturais em Plutão registraram até agora cento e vinte e duas transições. Todas na vizinhança imediata de Vega! Pretende mesmo jogar nossa única espaçonave grande no meio daquele caos? Seria rematada loucura!
— Sua opinião não é a decisiva, Bell! — exclamou Thora, acremente, enquanto assumia uma postura ainda mais rígida. Porém o rosto denotava intensa comoção.
Uma bela mulher!” constatou Rhodan. Não pela primeira vez; já se habituara a reconhecer a beleza da arcônida, e seu cérebro apenas confirmava automaticamente o fato, como coisa rotineira. Ficou observando Thora com os olhos semicerrados.
Ela emudeceu no meio da frase ao ver o estranho sorriso de Rhodan. A face contraída não escondia mais o nervosismo.
— Prossigamos! — encorajou Rhodan. — Que mais precisa ser dito?
Bell cerrou os poderosos punhos.
— Eu nada tenho a dizer! — reclamou, irritado. — Perry é que é o chefe. Sei que não me suporta, Thora; mas bem que poderia pensar um pouco na nossa nave. E a única mais rápida do que a luz disponível no momento. A sorte ainda nos protegeu desta vez, está claro? Quando escutei o primeiro sinal de alarma da estação em Plutão, imaginei ver surgir sobre a Terra uma frota atacante. Prefiro pecar por excesso de cautela, o que não pode prejudicar nem a Humanidade, nem a vocês, arcônidas. Dentro de aproximadamente um ano, nossos estaleiros terão concluído a construção das novas naves e então poderemos fazer outros planos. Vou erguer as mãos para os céus se nos deixarem em paz até lá. Atualmente não dispomos ainda de armas para enfrentar inteligências cósmicas. E justamente nestas circunstâncias você insiste em fazer o que vínhamos evitando nos últimos três anos, por medida de segurança: um hipersalto espacial. E em direção de Vega, ainda por cima, onde acaba de aparecer uma numerosa frota espacial!
Rhodan pigarreou.
John Marshall sorriu zombeteiro. O coronel Freyt, chefe da Força de Caça Espacial, que chegara momentos antes, divertia-se com a eloqüente arenga de Bell.
— Você me recusa toda e qualquer oportunidade, Perry! — queixou-se o arcônida, com voz magoada. — Durante três anos tem se oposto até a viagens curtas, no raio de cinqüenta anos-luz.
— Exato. Sempre fui obrigado a refrear minha própria curiosidade a bem da segurança da Terra. Poderiam nos localizar. Sabe muito bem que nenhuma concentração de energia incipiente é tão fácil de localizar quanto uma distorção da estrutura gravitacional.
— Já esperamos bastante! Continuo a afirmar que as naves surgidas no sistema Vega provêm de Árcon, minha pátria. Justamente por causa da degeneração que se alastra cada vez mais, somos obrigados a tentar prolongar a vida útil das mentes ainda sãs, submetendo-as a um processo artificial de rejuvenescimento. O Conselho Central de Árcon deve ter feito um esforço supremo a fim de possibilitar ainda no último momento a descoberta do planeta da preservação celular.
— Exijo a partida imediata! — manifestou-se novamente Thora. — Estou certa de poder entrar em contato com meu povo no sistema Vega. Transmitimos a você tudo que sabemos através da hipnoinstrução, portanto não precisa mais de nós, Rhodan. Faço-lhe presente da Good Hope. Leve adiante seu plano de elevar sua tão amada Humanidade a um poder galático, da forma que achar melhor. Mas primeiro será preciso domar os seres primitivos de sua raça, dominados pelo instinto. Meios para isso não lhe faltam. Portanto, repito minha exigência: quero decolar e ser conduzida para Vega!
— Que idéia absurda! — gritou Bell, furioso. — Será preciso lhe dizer claramente que a altiva raça arcônida chegou ao fim? Sinto muito, porém é tempo de que alguém lhe abra os olhos, Thora. Ainda guardo nitidamente na memória a expressão passiva e sonolenta dos rostos dos tripulantes de seu cruzador aniquilado. Você e Crest podem se dar por satisfeitos, ainda conservam a mente ilesa. Pois usem-na para pensar e não para alimentar fantasias irreais!
As palavras eram duras, de uma franqueza quase brutal. Rhodan aguardou o resultado delas.
Thora tremia de indignação. Crest pareceu desmoronar interiormente. Abalado, deixou-se cair no primeiro assento que encontrou. Na Central de Comando o silêncio era opressivo. Apenas o berreiro incessante do radio-transmissor galático se fazia ouvir da peça vizinha.
— Coronel Freyt!
A voz de Rhodan era seca e impessoal. Sobressaltando-se, Freyt assumiu involuntariamente a posição de sentido.
Bell fitou o comandante com os olhos arregalados. Conhecia bem aquela expressão. Rhodan era o tipo humano classificado pelos psicólogos da Força Espacial como de adaptação instantânea. E o hipnotreinamento recebido dos arcônidas intensificara ainda mais essa capacidade.
Perry Rhodan era agora o comandante severo e intransigente que não admitia contradições.
— Às ordens! — respondeu Freyt, engolindo em seco.
— Mande o major Deringhouse aterrissar imediatamente! Nyssen fica em órbita lunar com seu grupo. Obrigado! Capitão Klein?
O segundo homem se perfilou diante do comandante. Os olhos cinza-névoa deste não encorajavam perguntas. Rhodan não tinha consciência de que dominava os presentes com o poder de sua vontade, forçando-os inconscientemente a aceitar suas sugestões.
— Colocar em prontidão um esquadrão de emergência. Cinqüenta homens bastam. Assuma o comando. Sintonize igualmente cem guerreiros-robôs para freqüência individual. Decolamos dentro de cinco horas, exatamente. Obrigado!
Dois homens abalados deixaram o recinto.
Crest ergueu-se lentamente; o rosto ao mesmo tempo jovem e idoso refletia profunda emoção.
— Muito obrigado! — falou, com voz embargada. — Encontrará todo o apoio imaginável no sistema Vega. Talvez eu possa conseguir até que lhe cedam um cruzador espacial realmente capaz de enfrentar batalhas. O Grande Império protegerá a Terra em toda e qualquer circunstância. Jamais esqueceremos o que fez por nós. Eu!...
Mas Crest calou diante do olhar do homem magro, de estatura elevada. Pois leu no fundo dos olhos claros um remoto indício de piedade, amenizando a anterior expressão autoritária.
— Crest, lamento ter que dizer isso, mas não vai encontrar uma só nave arcônida no sistema Vega! Não se iluda! A ansiedade enche sua mente de sonhos. A raça arcônida não possui mais condições para desencadear um ataque maciço desta espécie. Lembre-se de que localizamos mais de cento e vinte espaçonaves em transição. Isso não é gente sua!
O corpulento ministro da defesa se adiantou.
— Exatamente o que penso! Mas por que insiste em decolar, Perry, se é que me permite a pergunta? De acordo com as observações feitas, o ataque não se dirige contra nós. Por que atrair a atenção dos desconhecidos, homem? Por quê, Rhodan? É mais do que evidente que a ação deles se concentra em torno do sol gigante. Será que refreamos à toa nossa impaciência por vôos interestalares nestes três últimos anos? Parece que todo mundo ficou biruta de repente por aqui!
— Se eu fosse ditador, você estaria frito agora, Bell! — murmurou Rhodan, com seu famoso sorriso enigmático brincando no canto dos lábios. — Nunca lhe ocorreu que poderia estar enganado?
— Enganado, eu? — replicou Bell, atônito.
— Sim, isso mesmo. A Good Hope decola dentro de cinco horas! Exclusivamente no interesse da Terra, em missão de reconhecimento. Pensa que vou permanecer de braços cruzados diante de uma invasão extraterrena a apenas vinte e sete anos-luz daqui? E trata-se efetivamente de uma invasão! Negociantes ou pesquisadores nunca se apresentariam assim em massa, com naves evidentemente poderosas. E mais uma coisa!...
Perry Rhodan olhou em torno com ar severo.
— ...mais uma coisa, senhores, que passou despercebida de todos: alguém, lá longe no espaço galático, cometeu um pequeno erro de cálculo. Esta invasão tinha por objeto real a Terra, e não Vega. Os chamados de socorro emitidos da Lua pelo cruzador arcônida foram registrados com uma falha infinitesimal. Ora, levando em conta as distâncias galácticas, um desvio mínimo na navegação hiperespacial resulta em errar o alvo visado por vinte e sete anos-luz. É por isso que vamos dar uma olhada nos acontecimentos. Senhores, a segunda etapa está se iniciando. Ou a segunda crise, se preferirem. Marshall, anuncie-me aos delegados no salão!
Rhodan colocou o quepe na cabeça, fez uma rápida continência e encaminhou-se para a porta blindada. O tenso silêncio provocado por suas últimas palavras foi rompido por uma risada sarcástica.
Reginald Bell postou-se com ar de desafio diante dos complicados aparelhos de detecção.
— Veremos quem está com a razão, comandante. Mas, se com esta doidice atrairmos seres estranhos para a Terra, eu me permitirei a liberdade de taxar de irresponsável o ilustre major Perry Rhodan, dirigente da Terceira Potência. E, com sua licença, comandante, se algum subordinado meu cometesse erro de tal monta, eu o mandaria submeter à corte marcial, sob a acusação de comprometer deliberadamente a segurança mundial.
Firmando as mãos sobre o encosto de uma das poltronas, o Dr. Manoli aguardou fremente a reação de Rhodan. Voltando-se lentamente, ele declarou em tom suave, acompanhado de uma olhar enigmático:
— Eu também faria o mesmo, Bell!
A porta de aço fechou-se com um baque surdo. Os braços metálicos dos guerreiros-robôs de fabricação arcônida abaixaram imediatamente as armas apresentadas em continência. O chefe se retirara.
— Bom psicólogo é que você não é! — comentou o Dr. Haggard, ministro da saúde da Terceira Potência desde sua criação e fundador da renomada Clínica Arcônida.
O corpulento gigante tomou o rumo da porta blindada. Eric Manoli, ex-médico de bordo da Stardust acompanhou-o sem comentários. Reginald Bell seguiu-os com um olhar sombrio. Depois fitou os dois arcônidas.
E compreendeu, num relance, por que Rhodan desistira de sua contínua oposição contra viagens espaciais mais rápidas do que a luz: porque fora obrigado a ceder.
As circunstâncias não permitiam mais a recusa de um vôo interestelar. Pois a possibilidade de transformar Thora e Crest em ferrenhos inimigos da Humanidade era muito mais arriscada do que a eventual descoberta da Terra por seres estranhos.
Além disso, havia desconhecidos operando relativamente perto dali...

* * *

O ruído dos potentes pulsopropulsores em funcionamento fazia pensar no rufar de imensos tambores acionados por gigantes invisíveis. Rugindo, a Good Hope se ergueu no ar.
Seu local de pouso ficava debaixo da grande cúpula energética. Assim que a curvatura do pólo superior da esfera com sessenta metros de diâmetro ameaçou tocar a radiosa cobertura, o cérebro-robô positrônico reagiu, com a precisão de um mecanismo desprovido de nervos. O campo energético entrou em colapso, deixando passar a nave. Porém, segundos após, voltou a ver-se a intensa luminosidade produzida pela incompreensível força desconhecida. Com o reerguimento do anteparo protetor emudeceu igualmente o tonitruante rugido do aparelho em ascensão. Segundos após, ele sumiu no céu do deserto. Rhodan acelerava com valores que levariam à incandescência, por efeito da fricção do ar, qualquer outro veículo.
O general Pounder refreou a custo seus sentimentos. Para o homem habituado à atividade espacial, constituía espetáculo grandioso ver a gigantesca nave projetar-se para o alto com tamanha facilidade. Diante daquilo, os foguetes usados pela Força Espacial dos Estados Unidos pareciam lerdos e pesados; ineficientes com seu primitivo sistema de propulsão nuclear. E não só os americanos!
Também o marechal Gregor Petronski, chefe da Defesa Aérea e Espacial Oriental, não conseguia disfarçar a emoção nos traços pétreos do rosto. Os olhares dos dois altos oficiais se cruzaram.
Pounder disse:
— Que é feito de nosso orgulho? Uma formiguinha pisada por pé gigante não poderia se sentir mais indefesa e insignificante...
O marechal preferiu não responder. Sua atitude era significativa. Não havia mais lugar para divergências e inimizades mal disfarçadas. Pelo menos aquilo Perry Rhodan conseguira obter com o simples fato de criar sua Terceira Potência.
O homem baixo e franzino, aureolado com uma coroa de cabelos dourados, sorriu com benevolência. Ninguém diria que se tratava do chefe todo-poderoso de um serviço secreto denominado Conselho Internacional de Defesa.
Allan D. Mercant avançou alguns passos. A conferência-relâmpago realizada por Rhodan causara tremendo impacto. Mercant consultou o relógio. Sua voz era calma e amável como sempre:
— Vamos, cavalheiros? Ou alguém ainda duvida da existência de raças altamente desenvolvidas além da nossa? Em caso negativo, rogo-lhes que comuniquem aos respectivos governos o resultado de nossas conversações. Estarei em Washington durante os próximos dias. Viajamos juntos, general?
Pounder concordou com um aceno.
— E o que acontecerá caso o vôo de Rhodan acabe em insucesso? — indagou uma voz.
Pertencia a Kosselov, o chefe do Serviço Secreto Oriental.
Mercant enxugou o suor da testa com as costas da mão.
— Neste caso, só nos restaria fazer votos pela não-descoberta da Terra. Senhores, é imprescindível alertar nossos governos para o fato de que não estamos mais sós! E seria mais do que oportuno renunciar de uma vez por todas a qualquer preconceito ainda existente contra a unidade universal. A Humanidade não pode apresentar-se desunida diante de eventuais invasores cósmicos.
O grupo se desfez.
— Faço votos pelo êxito da expedição! — murmurou Petronski. — Se os dados registrados pelos localizadores forem corretos, Rhodan vai se meter num verdadeiro inferno. Qual é a capacidade de reação da Good Hope?
— Tudo depende das armas possuídas pelos adversários desconhecidos!
— Bem, aguardemos! — respondeu Petronski. — Vou preparar o alarma atômico em minha área de comando. Pois gostaria de estar razoavelmente preparado caso seres estranhos comecem a se interessar por nós.



A densa floresta de Vênus ainda reverberava com o eco da estrondosa decolagem da Good Hope, porém a nave já desaparecera no turbilhão convulso que sua ascensão provocara na cobertura de nuvens do segundo planeta do sistema solar. As massas de ar violentamente deslocadas e comprimidas haviam sido aquecidas até quase a incandescência; uma faixa luminosa revelava o rumo tomado pela nave, que decolara verticalmente, após vencer a distância Terra—Vênus em cerca de quarenta minutos.
Para Perry Rhodan, a escala em Vênus não passava de um breve pouso com a finalidade de colher informações. Porém estas informações eram de vital importância. É que o cérebro-robô, relativamente pequeno, existente na área terrestre da Terceira Potência não continha dados sobre o provável sistema planetário do sol Vega; portanto, Rhodan alimentava a vaga esperança de encontrar algo no computador gigante de Vênus. O monstro mecânico-positrônico, construído por cientistas arcônidas na remota era de sua expansão galáctica, fornecera de fato os dados que Perry Rhodan precisava.
O mais difícil fora convencer Thora e Crest da necessidade do pouso prévio em Vênus. Mas, por trás do sorriso amável, a exigência de Rhodan era explícita: só arriscaria a transição para Vega, a apenas vinte e sete anos-luz de distância dali, se pudesse obter primeiro dados reais e concretos sobre a família planetária da estrela gigante.
Thora a Crest encerraram-se em teimoso mutismo. A situação a bordo da Good Hope beirava perigosamente os limites de uma séria desavença. E Rhodan percebia a necessidade urgente de chegar a uma solução mediadora.
A consulta ao gigante positrônico, mil vezes mais eficiente do que o cérebro retirado da Good Hope e instalado na Terra, resultou positiva. Realmente, as naves arcônidas tinham explorado as vizinhanças do Sistema solar há cerca de dez mil anos, em contagem terrena de tempo, por ocasião das expedições migratórias então efetuadas. A fortaleza em Vênus fora construída com a finalidade de servir como uma espécie de refúgio cósmico para situações de emergência.
Na ocasião, os atualmente degenerados arcônidas deviam encontrar-se ainda em plena posse de sua capacidade mental e criativa. Nada mais natural, portanto, do que acumular informações acerca do armamento vizinho à Terra.
Perry Rhodan contara com isso. Mas, para Thora e Crest, era uma inesperada surpresa. Como o cérebro-robô do cruzador de pesquisa destruído não continha tais dados em seu banco de memória, os dois arcônidas haviam concluído que o computador gigante de Vênus nada saberia também acerca do sistema planetário de Vega.

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