sábado, 20 de outubro de 2012

P-018 - Os Rebeldes de Tuglan - Clark Darlton [parte 3]

Bell ergueu-se.
— Grato pelo apoio dado, Alban. Creio agora que o caso da estação de rádio foi obra dos rebeldes, que me parecem pouco numerosos. Não vai ser preciso castigar coletivamente a população de Tugla. Mas, caso nosso comandante Rhodan não reaparecer...
Alban se inclinou para a frente. No seu olhar havia falsidade mal disfarçada.
— Que fariam então? Aniquilar os rebeldes?
— Não. Acho que arrasaríamos Tuglan. Não podemos nos mostrar fracos. Melhor fazer desaparecer todo um sistema solar do que dar mau exemplo a vacilantes governos coloniais. Espero que entenda meu ponto de vista.
Antes de fechar a porta, ainda lançou um rápido olhar para o lorde sentado à sua mesa. A expressão apavorada de Alban encheu Bell de incontida satisfação.

* * *

Bell nunca vira Crest desorientado, mas desta vez o arcônida parecia realmente ter chegado ao fim de seus recursos. Sem Rhodan, toda a sua pretensa superioridade mirra. Até Thora demonstrava sinais de insegurança, apesar da eventual morte de Rhodan lhe acenar com a possibilidade de retornar mais cedo a Árcon. Pois o trato de procurar primeiro o planeta da vida eterna, para depois ir a Árcon, há cerca de trinta e quatro mil anos-luz da Terra, fora feito com Rhodan, e não com Bell.
— E você não seria capaz de achar novamente o caminho, não é? — insistiu Crest, mais uma vez. — A prisão fica em Tugla, não devia ser impossível encontrá-la. Não me conformo!
— Pois teria opinião diversa se tivesse acompanhado os mil e um rodeios que aqueles caras fizeram. As ruas são todas parecidas umas com as outras. Mas sou capaz de jurar que aquele hipócrita do Alban sabe muito bem onde é que Rhodan está trancado. Pode até ser coisa dele...
— Ordem de Alban? Não é possível!
— Também duvido, para ser franco. Mas que é possível, é, creia-me. Que tal despachar um telepata para o palácio, a fim de sondar o lorde? Seria a maneira mais simples de ter certeza.
— John Marshall?
— Por que não? A idéia já devia nos ter ocorrido antes. Pelo menos ficamos sabendo quem planeja derrubar quem, a fim de introduzir nova ordem.
Repentinamente Bell olhou em torno, exclamando:
— Por onde anda Gucky?!
— O rato-castor? — perguntou Crest, intrigado.
— Sim, ele mesmo! — concordou Bell, com certa inquietude. — É só perder o bichinho de vista e fico preocupado.
— Gosta tanto assim daquele animal? — zombou Thora.
Bell brindou-a com um olhar de desprezo.
— Gosto, sim, por que não? Mas em primeiro lugar penso na promessa que lhe fizemos antes de pousar.
— Que promessa? — perguntou Crest.
— Que poderia brincar à vontade. E imaginem só quanta coisa ele encontraria em Tugla para brincar...
Bell determinou que Marshall acompanhasse Crest ao palácio do lorde, e pôs-se à procura de Gucky. Dez minutos depois sabia que o rato-castor não se encontrava mais a bordo da nave.


V



Diversos acontecimentos ocorreram simultaneamente.
Crest dirigiu-se com John Marshall e o comissário Rathon para o palácio de Alban. A entrevista solicitada foi imediatamente concedida.
Desistindo da infrutífera busca a Gucky, Bell procurou o mutante Wuriu Sengu. O robusto japonês era o vidente do Exército de Mutantes. Seu olhar atravessava matéria sólida, reconhecendo o que quer que fosse atrás dela. Lamentavelmente seus dons tinham limite de distância, o que no entanto não impediu que Bell percorresse com Sengu as ruas de Tugla. O japonês tentava desesperadamente localizar Rhodan num dos inúmeros prédios.
Rhodan, entretanto, estava sendo levado para fora do palácio, em veículo fechado, sendo provisoriamente acomodado numa masmorra subterrânea. Pressentia que Alban não tardaria a deixar cair a máscara. Por enquanto não temia pela própria vida.
Daros foi igualmente transferido de cárcere; para um vizinho ao de Rhodan, aliás. Porém, um ignorava a proximidade do outro. Apesar de suspeitar da verdadeira identidade de seu carcereiro, Daros não chegava a compreender a complexidade da intriga. Todas aquelas jogadas lhe pareciam mais uma série de complicadas manobras sem sentido nem objetivo. Em lugar de Alban, Daros agiria de maneira mais direta e clara.
Apenas o quinto acontecimento não tinha sido planejado.

* * *

Foi fácil para Gucky deixar a nave sem que ninguém percebesse. Todos o conheciam agora, e não receava ser detido. No corredor, um dos pilotos dos caças espaciais se abaixou e coçou-lhe o pêlo.
— Então, Gucky, vai dar um passeio?
O rato-castor acenou gravemente.
— Não me deixam brincar dentro da nave — explicou, com sua voz guinchante. Elevando-a num chilreio de alegre expectativa, acrescentou: — Mas agora posso, desde que seja lá fora. Lá vou encontrar bastante coisa com que brincar.
— Enquanto deixar nossa nave em paz, ninguém vê inconveniente nisso — advertiu o piloto, de dedo em riste. — Mas tome cuidado com os tuglantes. Gucky. Nem todos são nossos amigos.
— Não se preocupe — gorjeou Gucky alegremente, rolando seus olhos de cão fiel. — Não tenho medo.
— Fique perto da nave — aconselhou o piloto, vendo o engraçado animalzinho se afastar ereto e descer com passo gigante pela escada rolante agora parada. Depois se retirou para sua cabina. Não tendo escutado o apelo geral de Bell através do rádio interno, nem lhe ocorreu mencionar a quem quer que fosse o encontro com Gucky.
O rato-castor, por sua vez, não tinha a menor intenção de se conservar nas proximidades da nave. Calmamente marchou na direção das construções à beira do espaço-porto; teleportou-se por cima de uma cerca e viu-se na estrada para a cidade. Cheio de admiração, ficou observando com interesse os numerosos carros, trazendo e levando gente; aquilo se prestaria a espetaculares brincadeiras. Mas talvez fosse mais prudente escolher os que não tivessem ocupantes; os bípedes eram imprevisíveis, e nem sempre compreendiam as coisas.
Gucky achou o que procurava logo adiante, no parque de estacionamento. Os funcionários do espaçoporto deixavam ali suas viaturas. Filas e filas de carros parados, aparentemente sem a menor utilidade. Pelo menos foi o que Gucky julgou. Bem, era fácil remediar a situação.
E enquanto o rato-castor bamboleava decididamente em direção à cidade, cinco dos carros estacionados abandonavam seu lugar na fila, sem o costumeiro zumbido dos motores. Em coluna bem alinhada, rodaram calmamente na dianteira de Gucky, ajustando sua velocidade à de um pedestre.
Aos poucos, a estranha demonstração começou a despertar interesse. Os veículos vindos em sentido contrário desviavam-se habilmente, prosseguindo em sua marcha. Geralmente vinham em velocidade excessiva para seus passageiros terem tempo de atentar para detalhes. Porém não acontecia o mesmo com os que ultrapassavam a coluna; estes tinham ocasião de observar detidamente, e logo estranharam a ausência de motoristas nos cinco giromóveis. Rodavam serenamente para a cidade, em coluna compacta, como se estivessem sendo dirigidos por mãos fantasmas. Muito estranho aquilo, para não dizer outra coisa...
Apesar de ser igualmente uma aparição estranha, Gucky despertava pouca atenção. Praticamente já não existia comércio interestelar em Tuglan, mas sabia-se por tradição que não era raro ver aparecer os viventes mais esquisitos. O Grande Império abrangia inúmeras raças, todas elas diferentes. E como no espaçoporto havia uma nave de guerra arcônida, era provável que tivesse trazido um ou outro representante das raças auxiliares. Aquele camaradinha esquisito devia ser um deles, mas tuglante algum relacionou sua presença com a coluna de carros sem piloto.
Gucky, no entanto, se divertia enormemente com sua brincadeira. Mas não durou muito. O progresso regular dos veículos acabou se tornando monótono.
Exibindo o dente incisivo num sorriso afável, Gucky transmitiu uma ordem ao cérebro. Em conseqüência dela, as viaturas policiais chamadas para estudar o caso tiveram tremenda surpresa.
A ordem era deter a coluna-fantasma. Mas em vez de parar obedientemente, os cinco giromóveis se elevaram etereamente. Ao atingir uns cinqüenta metros de altura, descreveram algumas elegantes curvas, sempre em formação ordenada; concluíram a demonstração com uma série de ousados saltos mortais.
Jamais em sua vida os policiais tinham visto carros voadores. Realmente, a tecnologia de Tuglan era avançada; havia naves espaciais que voavam a grandes velocidades e aviões-foguetes, mas não automóveis aéreos.
O trânsito na ampla estrada entrou em caos total. Os veículos parados aumentavam cada vez mais o engarrafamento. Todo mundo desembarcava para admirar boquiabertos, os automóveis voadores.
Gucky prosseguia calmamente seu rumo. Ninguém lhe dera atenção até agora. Talvez os habitantes da cidade ali adiante fossem mais inteligentes, e apreciassem sua habilidade.
Saturado da primeira brincadeira, Gucky desprendeu o pensamento dos cinco giromóveis. Gingando, seguiu em direção de Tugla.
Prontamente os cinco carros se precipitaram ao solo, já que nada mais os amparava. Ainda bem que Gucky os fizera evoluir um pouco fora da estrada; assim foram cair num campo, completamente destroçados. Policiais e civis correram para o local do impacto, certificando-se de que não havia tuglantes debaixo dos destroços. E ainda não entendiam como é que aqueles veículos de superfície podiam ter voado, ainda mais sem motoristas.
Gucky continuava a marchar serenamente. Levou meia hora para alcançar os limites da cidade; e criou tanta confusão que a notícia dos inexplicáveis acontecimentos voou para o palácio, onde Alban se preparava justamente para receber Crest e Marshall.
Giromóveis se tornavam independentes, não obedecendo mais aos controles. Motoristas apavorados acionavam freneticamente todos os mecanismos de uma só vez, sendo forçados a constatar que seus carros faziam exatamente o contrário do que deveriam fazer. Alguns deixavam simplesmente a estrada, sacolejando pelos campos até parar de repente. Outros, em troca, vogavam a alguns metros de altura e aterrizavam bruscamente em qualquer lugar. Um policial curioso, pasmo com o que ocorria, foi jogado ao chão por violenta pancada nas costas. Virando-se, furioso, a fim de identificar o suposto agressor, ficou com as palavras de protesto entaladas na garganta. Pois acima dele flutuava, com ar ameaçador, um dos cestos de lixo espalhados por toda a parte.
Rememorando todos os pecados anteriormente cometidos, o policial acreditou firmemente que aquilo era castigo dos deuses. Ou então ele estava ficando biruta. Cestos de lixo feitos de tela de arame não voavam. Muito menos agrediriam um funcionário público.
Cautelosamente, sem perder o cesto de vista, o homem tentou se levantar. Porém o cesto subiu um pouco mais, pairando exatamente por cima do policial. Virando cento e oitenta graus, despejou todo seu conteúdo sobre o infeliz, que estreava naquela manhã um uniforme limpo. Depois o cesto ficou privado de apoio, e baixou. Transeuntes socorreram o coitado do policial, desembaraçando-o a custo das apertadas malhas que o aprisionavam como um animal engaiolado.
Muito satisfeito, Gucky seguia em frente. Descobrira que se podia brincar maravilhosamente com aqueles inofensivos bípedes.
Fez uma mulher voar para cima de um telhado. Da esquina da rua ficou observando como a traziam de volta para baixo, com a ajuda de longas escadas. Poderia ter intervindo, mas sua atenção foi subitamente derivada.
Três dos bípedes de cabelos escuros se aproximavam dele, empunhando as mesmas esquisitas pistolas que Rhodan e seus amigos utilizavam em ocasiões de perigo. Portanto, aqueles indivíduos não vinham com intenções amistosas.
— Ele é da nave arcônida! — disse um dos homens.
Gucky não compreendia as palavras diretamente, porém seu multifacetado cérebro pareceu despertar de repente. Captava os pensamentos dos estranhos, transformando-os em impulsos inteligíveis.
— Será um animal, ou um ser racional?
Gucky já os compreendia melhor agora. Tomavam-no por animal...
— Talvez tenha fugido... — opinou outro, baixando a arma. — Podemos até ganhar uma recompensa, caso o peguemos e levemos de volta.
É, e eu ficaria sem poder brincar”, pensou Gucky, indignado.
— Temos de levá-lo a lorde Alban primeiro; ele decidirá o que fazer.
Evidentemente Gucky estava mais ou menos a par da situação. Não fora à toa que escutara as conversas a bordo. Quer dizer que aqueles homens eram partidários de Alban.
— Cuidado, pessoal! Não podemos assustá-lo. Onde foi que se meteu esse bichinho engraçadinho? Venha, não vamos lhe fazer mal...
Atitude sumamente idiota, considerou Gucky. Não estavam vendo claramente onde ele estava? E medo é que não sentia. Parou e olhou curiosamente os tuglantes com seus imensos olhos redondos. Constatou satisfeito que tinham recolocado as armas nos cintos. Logo, dava mesmo a impressão de ser inofensivo. Meio chato aquilo, mas no momento calhava bem. Iria com eles, caso o tratassem bem. Podia resultar numa boa farra.
Foi surpreendido pela atitude de um dos homens, que se abaixou subitamente, agarrando-o pelo cangote. Doeu, e Gucky reagiu de forma completamente inconsciente, apenas por instinto de defesa.
O homem sentiu um punho invisível socá-lo para cima. Viu o chão desaparecer-lhe debaixo dos pés, e as paredes das casas mergulharem para baixo. Muito distantes, os olhos arregalados dos companheiros o contemplavam, de rostos voltados para o alto. O punho invisível soltou-o, e o homem se precipitou ao encontro da rua, que se aproximava alucinantemente depressa. E mais não sentiu, pois estava morto.
Sacudindo-se, Gucky alisou o pêlo com as patas. Aquele sujeito não tornaria a agarrá-lo, nunca mais! Não tolerava brutalidade. Com um amável sorriso de seu belo dente roedor, voltou-se para os demais tuglantes, repreendendo:
— Não devem me tocar, caso queiram brincar comigo!
O castor falante acabou com a compostura dos apavorados tuglantes. Aquilo já era assombração — vejam o caso do colega voador! Automaticamente levaram as mãos aos cintos, sacando suas pistolas de raios. Aquele animal era perigoso, e precisava ser eliminado. Sabe lá que mais os arcônidas traziam naquela nave!
Gucky presenciou tudo sem se mexer. Seus olhos miravam as ameaçadoras pistolas. Os invisíveis raios energéticos do setor telecinético de seu cérebro se introduziram no mecanismo, interrompendo contatos essenciais. Os dois homens apertaram o disparador, mas nada aconteceu. O raio mortífero ficou ausente. Em troca, as peças metálicas das pistolas ficaram de repente quentíssimas; o plástico derreteu, pingando pesadamente no chão.
Com gritos de imprecação, os estupefatos tuglantes jogaram as armas agora inúteis contra a primeira parede. De boca escancarada, fitaram Gucky por alguns instantes, totalmente desconcertados; depois viraram-se bruscamente e saíram correndo. Ainda por bastante tempo chegaram a Gucky suas desconexas exclamações.
O incidente não passara despercebido. Do lado oposto, quatro tuglantes cruzaram diagonalmente a rua, lançaram um rápido olhar ao morto, e se encaminharam para Gucky. Um deles falou:
— Um dos homens de Alban. Conheço-o. E quem o matou foi aquele camarada ali. Como, não sei; para mim é mistério. De qualquer forma, parece que não topa nossos inimigos. Vamos interrogá-lo?
Ah, o pessoal da oposição!”, pensou Gucky, interessado. “Talvez sejam mais simpáticos.”
— Se ele vem da nave arcônida, talvez possa nos ajudar. Pois deve ser partidário do império.
— Certo, Xaron. Mas duvido que ele possa nos entender.
Gucky ouvira o suficiente. Aqueles homens estavam em dificuldades, e só ele estava em condições de lhes prestar ajuda. Como não? Com o maior prazer! Seriam aliados de Daros?
Os quatro tuglantes ensaiaram sorrisos amistosos. Um deles apontou o morto, ainda estendido no meio da rua.
— Foi você que fez isso, não é? Boa, baixinho! Era inimigo do império.
— Inimigo de Rhodan, também? — perguntou Gucky, em intercosmo, língua que também aprendera a falar.
— Quem é Rhodan?
— O comandante da nossa nave.
Os tuglantes animaram-se.
— Claro, claro! Vamos lhe explicar tudo. Mas primeiro temos que sumir daqui, pois a polícia já vem vindo.
Com as sirenas soando estridentemente, dois ou três giromóveis dobraram a esquina. Homens fardados saltaram deles quase antes que parassem. De armas apontadas correram para onde estavam Gucky e seus novos amigos.
— Não se assustem! — chilreou o rato-castor, deliciado com a oportunidade de exibir mais uma vez sua habilidade. — Vamos lhes mostrar do que somos capazes!
Antes que os quatro partidários de Karolan dessem pela coisa, tornaram-se leves como plumas e flutuaram para o alto, aterrizando no telhado plano da casa mais próxima. Mal tocaram a superfície sólida com os pés, o peso corporal foi restabelecido. Sem entenderem coisa alguma, agarraram-se freneticamente ao estreito beiral que os. separava do assustador precipício da rua. Mas a curiosidade logo superou o medo. Não podiam deixar de observar as coisas incríveis que aconteciam lá embaixo.
Atônitos, os policiais presenciaram o vôo dos tuglantes. No entanto recuperaram a presença de espírito bem mais depressa do que há meia hora. Automóveis voavam pelo ar, e aquele animalzinho estivera por perto; agora eram homens que voavam, e novamente o peludo se encontrava presente, com o ar mais inocente do mundo. Logo, ele tinha algo a ver com o milagre.
— Peguem-no vivo! — berrou o chefe do valente grupo armado, lançando-se heroicamente sobre Gucky, cujo incisivo vibrava de intensa expectativa. Seu pêlo se eriçou na nuca. Agora sim, a brincadeira era farta, quase mais do que podia controlar de uma só vez! Por ordem, então...
Os policiais se sentiram empurrados de volta para os giromóveis. Sem se dar conta do que ocorria, estavam novamente nos assentos de seus veículos, que saíram andando sem ligar os motores, como que guiados por espíritos. Os carros formaram uma esquadrilha e subiram. Os apavorados policiais viram a cidade se distanciar debaixo deles. Imóveis nas cabinas, não ousavam fazer o menor movimento. Os habitantes de Tugla, porém, foram brindados com o inédito espetáculo de um show de acrobacia aérea, oferecido pela patrulha motorizada de sua força policial. Após dois minutos de evoluções, os giromóveis desceram incólumes no telhado do palácio.
Gucky aproveitara a ocasião para se alçar, com um tremendo salto, para junto de seus amigos rebeldes, que o receberam aliviados. Apesar de não entender em absoluto como o truque funcionava, acabaram aceitando a espantosa demonstração de Gucky como façanha natural de um integrante do todo-poderoso império arcônida. Mais uma razão, portanto, para bater-se pela continuação da aliança com os arcônidas.
Ali em cima do telhado ninguém os perturbava. Gucky recebeu amplas informações sobre a situação política do planeta Tuglan, não tardando a saber mais do que Rhodan sobre aquele sistema solar. Graças aos seus dons telepáticos, Gucky estava certo de que os tuglantes não mentiam.
Quer dizer que Rhodan se encontrava em perigo, aprisionado por Alban? Pois então era mais do que hora de libertá-lo!
— Vamos levar você até Karolan, nosso chefe, Gucky. Ele saberá o que fazer. Você é nossa salvação. Como poderemos lhe agradecer?
Gucky fez um gesto com a pata, dizendo modestamente:
— Ora, desde que me dêem oportunidade de brincar...
A observação permaneceu um tanto dúbia para os tuglantes, mas aquilo não era tão importante no momento. O principal é que agora contavam com um superpoderoso aliado.
E puseram-se a caminho, rumando para o esconderijo de Karolan.

* * *

Suspendendo a inútil procura por Rhodan, Bell decidiu ir até o palácio, onde Crest e Marshall conferenciavam com lorde Alban. O vidente do Exército de Mutantes não conseguira descobrir indício algum, apesar das paredes das casas não representarem obstáculos para seus olhos. Diante de sua vista penetrante, a estrutura da matéria sólida se modificava, tornando-se transparente até onde ele desejava. Assim ele podia examinar camada após camada, como um aparelho de raio-X, até descobrir o que queria.
Porém Rhodan continuava sumido.
No palácio reinava uma agitação incomum. Bell contemplou pensativamente os giromóveis pousados sobre o telhado plano, imaginando de que jeito teriam ido parar ali. Um guarda lhe explicou, com abundância de detalhes, que o demônio pregara uma peça à polícia. Que os carros tinham levantado vôo apesar dos motores desligados. E que várias outras coisas tinham voado naquele dia: automóveis, policiais, gente...
Como se policiais não fossem gente...
As suspeitas de Bell despertaram. Lembrou-se da vã procura por Gucky na nave. O brincalhão rato-castor teria saído para uma voltinha, a fim de satisfazer seus instintos? Aquilo parecia obra dele. Mas onde estaria Gucky neste momento?
Bell não teve tempo de refletir mais sobre o assunto, pois um tuglante chegava com a resposta de Alban. Os visitantes deveriam aguardar o término da entrevista com o arcônida Crest e seu acompanhante. Crest o queria assim.
Lançando um olhar de entendimento para Sengu, Bell concordou. Assim que viu o guarda fora do alcance de sua voz, sussurrou:
— Por que razão Crest se oporia à nossa presença durante a conferência? Meu caro Sengu, algo está errado nisso.
O mutante japonês acenou gravemente.
— Quer que eu vá verificar?
— Lógico! Espero que aquele sujeito ali não atrapalhe. Não pára de olhar para nós.
— Que nada! Vou fazer de conta que admiro a ornamentação das paredes.
O mutante ativou a zona especial em seu cérebro. As paredes de pedra se dissolveram para ele, deixando o olhar inquiridor penetrar livremente nos recintos que vedavam.
Passivamente sentado numa cadeira, Bell sentia-se o mais inútil dos homens, com uma raiva danada de não ser igualmente mutante.

* * *

Logo às primeiras palavras de lorde Alban, John Marshall percebeu que ele mentia. Junto com Rathon e Crest, um pelotão os conduzira em verdadeira marcha cerimonial através do palácio, até o salão de audiência do lorde. Com todas as honras militares... ou severamente vigiados. Marshall estava certo de que os fuzis de aço apresentados em continência não eram meros ornamentos. Uma rápida sondagem da mente dos soldados confirmou a suposição.
Alban cumprimentou efusivamente os visitantes, insistindo repetidamente que lamentava muito ter causado incômodos aos arcônidas, e que ele se encarregaria de providenciar o restabelecimento da paz e da ordem. Talvez fosse até melhor que deixassem tudo por conta dele, acabou sugerindo. E encontraria, sem a menor dúvida, o arcônida Rhodan.
Crest notou que Marshall sacudia de leve a cabeça, porém não conseguia adivinhar quais das palavras de Alban eram falsas. Afirmara tantas coisas de uma só vez! O jeito era analisar suas dúvidas uma por uma.
— Considera seu irmão Daros um rebelde contra o império? — perguntou Crest, portanto.
— Ele é o cabeça da rebelião.
Crest olhou para Marshall e soube que Alban mentira novamente.
— Foi ele igualmente que destruiu a hiperestação do comissário?
— Claro, quem mais?
Alban mentira novamente.
— E você, Alban, é um fiel seguidor do império? Deseja que Tuglan continue fazendo parte do Grande Império arcônida como antes?
— Mas claro, eminente arcônida! É meu maior desejo.
As três perguntas eram suficientes para Crest. Sabia o bastante.
Marshall já sacudia a cabeça abertamente.
Crest não via razão para hesitar por mais tempo. Apesar de nem ele nem Marshall terem trazido armas, confiava em sua autoridade para evitar que Alban cometesse algum ato impensado.
— Está mentindo, lorde Alban! — disse com leve tom de reprovação. — Seu irmão Daros nada tem a ver com isso tudo. Receia nele um rival. Foi você quem mandou destruir a hiperestação; e foi também o incentivador do ataque a Rhodan. Onde está Rhodan, Alban? Diga a verdade, ou mando dar ordem de destruir a cidade de Tugla.
Lorde Alban permaneceu imóvel por trás de sua mesa. Os dedos crispados repousavam sobre o tampo. Levou longo tempo para se recuperar da surpresa. Com um sorriso contrafeito exclamou, por fim:
— Que terríveis acusações, Crest! Como pretende prová-las?
— Não preciso de provas. Este homem aqui lê pensamentos, Alban. Sabe perfeitamente que você mentiu.
Alban fitou Marshall com olhos relampejantes.
— Um telepata? Mas como é possível?
— O império abriga muitas raças; entre elas existem também telepatas. Seus pensamentos não constituem mais segredo. Marshall, diga-lhe o que sabe.
— É Alban que deseja sacudir o jugo arcônida — disse Marshall. — Também tenciona afastar o irmão de seu caminho. Por isso fazia recair toda a suspeita sobre Daros, com diabólica habilidade; o que lhe permitira eliminá-lo legalmente, e ao mesmo tempo se eximir de qualquer culpa. Chegamos bem na hora.
Alban conseguira apertar um botão de alarma oculto. Do lado de fora já se ouvia o ruído dos passos das sentinelas, aproximando-se. O lorde sorriu mordazmente.
— E como pensa fazer uso do que sabe? De que forma avisaria sua gente na nave?
— Que quer dizer? — perguntou Crest.
— Muito simples. Os rebeldes de meu irmão vão assaltar e seqüestrar vocês, conforme fizeram com Rhodan. Lamentavelmente não pude evitá-lo, pois ele recusou minha escolta. Não sou responsável pelo que possa ocorrer entre meu palácio e o espaçoporto. Espero que tenham compreendido. Aí vêm eles!
A porta se abriu, dando entrada a seis soldados com espingardas apontadas para os três homens. Marshall leu em suas mentes ódio e determinação. Alban apontou para Crest, Rathon e o telepata.
— Prendam-nos, e levem-nos para baixo. Ponham-nos junto com Rhodan, para que ele tenha companhia e não se sinta tão solitário.
Foi assim que Rhodan recebeu, dez minutos mais tarde, inesperadas visitas. Perplexo, viu os três homens serem empurrados para dentro de sua cela; os guardas empunhavam refulgentes espingardas. A porta tornou a ser fechada.
Erguendo-se, Rhodan perguntou preocupado a Crest:
— Que significa isto? Não venha me dizer que foi aprisionado pelos rebeldes!
— Pelos rebeldes? Sim, poderiam ser denominados desta forma. É muito lamentável sermos forçados a nos submeter ao sacrifício, mas pelo menos agora sabemos em que situação nos encontramos.
— E trouxeram vocês para cá?
— Trouxeram? Estamos no palácio de Alban.
Aquela deixou Rhodan realmente surpreso. Indicando com gesto convidativo o rústico mobiliário, disse:
— Acho que vocês têm muito o que contar. Comecem...

6



Wuriu Sengu estremeceu involuntariamente. Espiando com o rabo do olho a sentinela, cochichou:
— Achei! Rhodan, Crest, John Marshall e o tal comissário de Árcon. Todos trancados num porão escuro. Ao lado tem outra cela, com um tuglante jovem estendido sobre a cama. Pelo traje, é pessoa importante. Daros, talvez?
Bell escutava impassível. Seus pensamentos se precipitavam. Rhodan e Crest presos? Ali no palácio? Mas então Alban é que era o trapaceiro! E se continuasse rodando por ali muito tempo, também acabaria metido numa cela, junto com Sengu. Situação que não traria vantagem a nenhum deles. Ninguém suspeitava da falsidade de Alban. Também não tinha possibilidade de se comunicar com algum dos mutantes, pois nada fora combinado. Portanto restava-lhe uma única alternativa: sumir de cena o quanto antes, e retornar à nave. Levantou-se.
— Venha, Sengu. Temos que ir embora já. Só trago comigo uma pequena pistola portátil, que não serviria para grande coisa em caso de necessidade.
O japonês se ergueu. Mas, mal os dois homens tomaram displicentemente a direção da saída mais próxima, um dos soldados correu atrás deles. Mais uniformizados seguiram-lhe o exemplo.
— O digníssimo senhor lorde Alban está pronto para recebê-los! — comunicou o soldado, pressurosamente.
Bell nem lhe deu confiança; continuou a andar impassível, enquanto dizia:
— Pois diga a seu lorde Alban que pode vir nos ver lá na nave qualquer dia desses, caso tenha vontade, meu filho. Não temos mais tempo agora.
O soldado hesitou. Os outros já tinham chegado perto. Na porta de saída havia mais dois, com as espingardas de raios semi-erguidas.
Bell não era homem de se deixar pegar de livre e espontânea vontade.
— Tome o canhão daquele cara! — ordenou a Sengu, enquanto disparava de dentro do bolso com sua pequena pistola. As sentinelas junto à porta sentiram o formigamento das ondas de energia lhes percorrer o corpo. Os membros se contraíram, forçando-os a largar as armas. Segundos após, rolavam pelo chão, berrando e reagindo freneticamente contra o invisível inimigo. A nenhum deles ocorrera ainda que Bell era o causador de sua aflição.
Sengu aproveitara a ocasião para tomar a arma do soldado confuso, usando um golpe de judô; apontou-a para os cinco guardas, que haviam demorado alguns instantes para pegar suas espingardas.
— Tratem de ser bonzinhos, e deixem os paus-de-fogo pendurados nos ombros — avisou Bell, irônico. — Marchem na nossa frente, na direção da saída. E distribuam ordens sensatas, senão vão se dar mal!
— Lorde Alban quer falar com vocês — murmurou um dos guardas, tremendo.
— Ele que fique falando consigo mesmo; pelo menos estará em companhia do mesmo calibre. Para fora, já! Aliás, como é que aqueles giromóveis foram parar lá em cima do telhado?
Já haviam atingido o pátio do palácio; em passo marcial desfilaram diante de grupos de soldados aparvalhados, que os fitavam boquiabertos. Ninguém ousava o menor movimento em falso.
— Voaram e aterrizaram lá, senhor. Dizem que foi coisa de um bichinho que sabe fazer mágicas; foi ele que executou o truque. Ninguém sabe como.
Bell sorriu de orelha a orelha. Gucky! Sem dúvida o rato-castor se divertira um bocado perturbando os tuglantes. Se conseguisse pelo menos alcançar algum resultado positivo com aquilo tudo! Onde estaria Gucky naquele momento?
Sengu apoderou-se sem demora de um carro, inclusive com motorista. Bell desarmou um por um os soldados de Alban, despachando-os de volta para o palácio. Transeuntes curiosos observavam a cena a respeitosa distância, com inesperada passividade. Pareciam bastante indiferentes ao destino de Alban e de seus militares.
Dez minutos após Bell chegava à Stardust-III e dava o alarma.

* * *

Karolan levou bom tempo para se refazer da surpresa. Xaron relatava, entretanto, o que se passara com ele e seus três companheiros. Comentou com especial entusiasmo o espetáculo acrobático da patrulha policial, sem se esforçar por dar uma explicação para o incompreensível.
Abaixando-se, o chefe dos rebeldes alisou de leve o sedoso pêlo de Gucky. O rato-castor empertigou-se, e inclinou a cabeça para trás, dizendo:
— Debaixo do pescoço, por favor. É aí que eu gosto mais.
Karolan quase caiu da cadeira em que estava sentado.
— Ei! Ele sabe falar!
— Claro que ele fala! — resmungou Xaron. — Eu não cheguei a contar isso? Ele pertence aos arcônidas.
— Impressionante! Realmente impressionante — murmurou Karolan, atônito. Absorto, acariciava Gucky no local favorito, debaixo do pescoço, enquanto seus pensamentos turbilhonavam. — Quem sabe ele pode nos ajudar a derrubar Alban? E a encontrar Daros? Escute, baixinho, quer cooperar conosco? Tuglan deve voltar a ser um fiel aliado do império.
Gucky revirou a mente de Karolan, constatando que ele falava a verdade. Porém antes que chegasse a dar sua resposta, um homem se precipitou afobado para dentro da sala. Ofegando, gritou:
— Rebelião! Os habitantes de Tugla invadem o palácio! Dizem que os arcônidas recém-chegados os ajudarão a depor o traiçoeiro Alban. Forças misteriosas já estariam em ação, castigando a polícia. Fatos estranhos, que só podem ser atribuídos aos arcônidas, têm acontecido. É um sinal, afirma o povo. Decidiram elevar Daros a lorde...
— Exatamente o nosso objetivo! — comentou Karolan, calmamente. — Até agora tivemos que trabalhar pela causa, em silêncio; mas chegou a hora de podermos lutar abertamente. Xaron, avise nossos homens! Que se armem, e saiam para apoiar os cidadãos. Eu vou também.
Fitando o pequeno rato-castor, indagou:
— E você?
— Vou poder brincar? — perguntou Gucky.
— Brincar? — replicou Karolan, intrigado.
— Sim, brincar. Que mais? Já brinquei o dia todo, e foi maravilhoso.
Karolan julgou compreender.
— Ah, chama a isso brincar? Claro que pode brincar até não querer mais. Mas, deixe-me indicar as ocasiões adequadas, sim? Promete?
Gucky prometeu solenemente, e perguntou:
— Rhodan também está no palácio?
— Rhodan?
— Sim, o comandante da nossa nave.
— Puxa, até que nosso amiguinho acaba de dar um palpite aproveitável — disse Karolan, pensativo, a Xaron.
Minutos após, o grupo de Karolan ganhou a rua, correndo com os excitados habitantes da cidade para o palácio, onde os soldados de Alban se preparavam para defender a própria vida e a do lorde.

* * *

Bell realizou uma derradeira conferência com o major Deringhouse, comandante dos ágeis caças espaciais, que aguardavam a hora de entrar em ação no possante bojo da Stardust-III.
— Dez caças devem ser suficientes para dar uma boa lição no tal de Alban — disse Bell, acrescentando: — Não queremos causar destruição desnecessária, nem matar tuglantes. A maior parte deles nem suspeita das verdadeiras intenções de seu governante. Mas também devem perceber que conosco não se brinca.
— Preocupo-me extraordinariamente com a sorte de Rhodan — confessou Deringhouse. — Caso Alban perceba nossa intervenção, poderia usá-lo como refém.
— Não diga bobagens, major! — exclamou Bell, muito sério. — Nada acontecerá a Rhodan. Deixou-se prender a fim de descobrir o verdadeiro culpado. E alcançou seu objetivo. Alban deixou cair a máscara. Conhecemos agora nossas posições, e vamos passar à ação. Dez aparelhos, portanto. Sigo para o palácio na frente, com nosso tanque blindado. Permaneceremos em contato radiofônico, e nos encontraremos lá. Aguarde futuras instruções.
Com uma breve continência, Deringhouse se retirou.
Bell mandou chamar os mutantes e selecionou alguns entre eles.
— Trata-se de tornar Alban inofensivo, antes que possa fazer mal maior. Creio que Ralf Marten e Kitai Ishibashi são os elementos adequados. Apossem-se da consciência de Alban assim que ele chegar perto bastante; sugiram-lhe os pensamentos corretos, e ele fará tudo que lhe for exigido. O resto combinaremos no trajeto para Tugla. Vamos, o carro já espera.
Enquanto os caças espaciais emergiam, um a um, da Stardust-III, ganhando lentamente as alturas, o maciço tanque se pôs em movimento. Seu canhão de raios apontava ameaçadoramente o cano espiralado em direção da cidade. Em seu ventre zumbia o pequeno reator arcônida, fonte de toda a energia de que necessitava.
Bell indicou o rumo ao condutor, e ligou para Deringhouse.
— Que está vendo?
— Sobrevoamos o palácio — respondeu Deringhouse, prontamente. — O movimento lá embaixo é fora do comum, porém não por nossa causa. De todos os lados, os habitantes da cidade acorrem para o palácio. Alguns estão armados. Será que foram convocados pelo lorde para defender o palácio contra nós?
— Sabe lá!... — resmungou Bell, digerindo a inesperada novidade. Por outro lado, era... estranho. — Continue observando, e me avise caso aconteça algo importante. Vamos nos apressar.
O trânsito na rua principal intensificava-se. Bell notou que ninguém se espantava com o súbito aparecimento do veículo de combate arcônida. Esperara provocar pânico e correrias; no entanto dava-se justamente o contrário. Os tuglantes, muitos deles de armas na mão, abanavam e aclamavam o tanque.
Bell voltou-se para Fellmer Lloyd, um dos mutantes. Lloyd era um localizador. Não um telepata, propriamente; porém era capaz de captar e analisar o padrão das ondas cerebrais de qualquer ser vivo ao seu alcance. O que lhe permitia distinguir animosidade, alegria e outras reações emocionais.
— Lloyd, tente saber o que está havendo com o pessoal! Por que é que não se assustam com nossa presença? Afinal, deviam temer que iniciássemos nossa atuação com medidas punitivas.
— Certo, comandante — respondeu o corpulento americano, concentrando-se.
Os demais mutantes se conservaram calados, para não perturbá-lo.
Bell aguardava, impaciente.
Depois de dois ou três minutos, durante os quais o tanque forçava penosamente passagem entre a multidão delirante, Lloyd descontraiu e informou, sorridente:
— Até onde posso analisar, eles nos consideram aliados. A disposição de espírito predominante é raiva e ódio, mas não contra nós. O ânimo é revolucionário. Todos têm lorde Alban em mente, com irritação e furor. Tencionam invadir o palácio, e acham que viemos para ajudá-los.
— Rebelião franca, portanto — constatou Bell. — Os tuglantes querem pôr as coisas em ordem. Nosso aparecimento lhes deu coragem para isso. Assim sendo, não podemos desapontá-los. E, pelo jeito, eles sempre souberam que era Alban que queria libertar Tuglan do império, e não Daros.
Nas proximidades do palácio já havia luta. Soldados do lorde tinham abandonado o refúgio seguro dos muros do palácio e tentavam dispersar a multidão. Procediam sem a menor consideração, o que espicaçava ainda mais os agressores. Já havia mortos de ambos os lados. Os cidadãos de Tugla estavam mal armados, e muitos deles agrediam os soldados a socos, com as mãos nuas.
Em algum lugar fez-se ouvir o lamento de uma sirena. Uma coluna motorizada dobrou a esquina, parando de chofre. Civis armados saltaram das cabinas, demonstrando logo de início que haviam sido treinados para escaramuças urbanas. Agitando as armas, gritavam para soldados e cidadãos:
— Viva lorde Daros! Viva o império! Abaixo o traidor Alban!
— Viva lorde Daros! — ecoou a multidão, lançando-se com renovado ímpeto contra os soldados, cuja indecisão aumentava. Os rebeldes de Karolan tinham entrado em cena.
Bell, entretanto, alcançara o portão do palácio. Deringhouse informou que no pátio interno haviam sido colocados pesados canhões de raios, prontos para defender o palácio até o último homem. Pediu instruções para seus caças.
— Procure atrapalhar os preparativos de defesa — ordenou Bell. — Mas lembre-se que Rhodan e Crest estão presos lá dentro. Vou pôr Sengu em ação, a fim de estar devidamente orientado.
O japonês já via. Em voz baixa, informou:
— Crest, Rhodan, Rathon e Marshall ainda continuam em sua cela; perto deles, o jovem tuglante que supomos ser Daros. Os guardas estão sendo retirados. Vou procurar Alban.
Os caças mergulharam, alvejando os soldados no pátio com chuveiros de elétrons. Bell colaborou com o zunir de seu canhão. O enorme portão que impedia a passagem do tanque começou a arder e desmoronou. Sem ligar para a temperatura perigosamente elevada, os civis impacientes se precipitaram pela brecha obtida e invadiram o palácio.
Karolan percebeu que encontraria melhor oportunidade em outro local. Acenando para seus homens, tomou uma rua lateral, acercando-se do palácio pelos fundos. Sua coluna motorizada acompanhava-os mais lentamente. Do alto dos muros partiam tiros isolados, causando pouco prejuízo.
E de repente Gucky tornou a aparecer.
O rato-castor aguardara pacientemente no carro, até receber o sinal convencionado por Karolan. Depois saltou da cabina e gingou, muito senhor de si, através das fileiras dos sorridentes rebeldes. Os demais civis interromperam por instantes seus clamorosos brados, fitando admirados o esquisito ser que andava ereto como um homem e não demonstrava o menor medo. Alguns já tinham ouvido comentários acerca dos estranhos acontecimentos ligados à presença do animalzinho.
Pertinho de Gucky um raio energético derreteu a pavimentação.
Olhando para cima, o rato-castor avistou alguns soldados, protegidos pelo muro. Karolan acenou, portanto podia brincar.
De braços estendidos, e gritando em pânico, os soldados singraram para fora de seu esconderijo; pareciam andorinhas plantando no vento. Foram cair no meio do bando de rebeldes, onde tiveram recepção muito pouco amável.
Karolan deu ordem de parar, e apontou para um portão no muro.
— É aqui — murmurou. — Quem desconfiaria que pretendemos entrar por aqui? Xaron, a bomba!
— O efeito dela é arrasador, Karolan — objetou Xaron, preocupado. — Não temos onde nos proteger. Será que Gucky...?
Karolan compreendeu instantaneamente e chamou Gucky para junto de si.
— Está vendo esta bola preta, Gucky? Quando eu apertar este pino, restam-nos quinze segundos antes que ela exploda e destrua tudo ao seu redor. Compreendeu?
Gucky meneou compenetrado a cabeça.
— Sei o que quer. A bola deve ser posta por trás do portão, para que a explosão empurre o empecilho para fora. Pois bem, aperte o pino e deixe a bola aí no chão.
Rapidamente Karolan atendeu o pedido de Gucky, e começou a contar:
— Um... dois... três...
Gucky olhou para a bola. Uma vez que podia fazer revolutear nos ares automóveis e até veículos blindados, aquela coisinha não constituiria problema. Sua mente irradiou, e...
— ...seis...sete...oito...
A bomba se ergueu lentamente do chão e subiu, em direção do beirai do muro. Rostos perplexos acompanhavam lá de cima o mistério da bola voadora, sem saber interpretá-lo. Os rebeldes esperavam, prendendo a respiração. Apenas Karolan não se alterava, prosseguindo imperturbavelmente em sua contagem. Oscilando, a bomba descreveu um círculo em torno da cabeça de um dos soldados, que tentava desajeitadamente pegá-la. Depois Karolan e seus companheiros a perderam de vista.
— ...doze...treze.
Sem esperar ordens, o grupo debandou, colando-se ao muro. O trecho diante do portão ficou vazio. Ninguém queria ser atingido pelos estilhaços. As fisionomias no alto do muro desapareceram.
— ...catorze...
Gucky sentiu-se agarrado por uma pata, e puxado para o lado. Perdeu o controle da linda bola, e deixou-a cair. O acaso providenciou para que ela rolasse exatamente para junto do portão, do lado de dentro, onde parou.
— ...quinze! — disse Karolan, lançando-se ao solo, e arrastando Gucky consigo.
Um fulgor luminoso ofuscou por instantes o sol azul que brilhava no firmamento. Um estrondo ensurdecedor reboou pelas ruas, quebrando-se contra as paredes das casas. No lugar onde estivera o portão, via-se agora uma brecha.
— Viva lorde Daros! — berrou Karolan, pondo-se de pé. — Abaixo Alban, o traidor!
Rebeldes e civis se lançaram para dentro do palácio.
Com um salto oportuno, Gucky pôs-se em segurança, pois receava ser esmagado pelos pés dos assaltantes.
Esperou até a rua ficar quase deserta, e seguiu tranqüilamente os invasores. Lá dentro devia estar seu amigo Rhodan, e talvez também Bell. Mas primeiro pretendia mostrar ao tal de Alban do que era capaz. O sujeito ia voar como jamais voara na vida.
E enquanto no pátio do palácio se desenrolava furiosa luta, Gucky esgueirou-se por uma janelinha do porão para o subsolo, a fim de procurar Alban e Rhodan.

7



Lorde Alban reconheceu que perdera a jogada. Um único trunfo lhe ficara ainda nas mãos: os arcônidas aprisionados.
Seus canhões de raios tinham sido inutilizados pelos ligeiros caças espaciais. Um tanque arcônida penetrara no pátio interno. Seus soldados se rendiam na primeira ocasião favorável. Rebeldes e amigos de seu irmão já invadiam as dependências do palácio.
Munindo-se de uma pesada pistola de raios, Alban deixou a sala de onde dirigira a luta, e tecera suas intrigas. Decidido a jogar a última cartada, dirigiu-se para o subsolo, a fim de encenar o final do drama. Mas primeiro ligou o gravador, providenciando para que as palavras que acabara de lhe ditar fossem reproduzidas por alto-falantes em todo o palácio.
Depois abandonou o cenário.

* * *

Bell escutou a voz do traidor ao desembarcar do tanque, e avançar na dianteira de seus mutantes para o palácio.
— Caso os arcônidas queiram tornar a ver vivo seu comandante, devem abandonar imediatamente a luta. Estou com Crest e Rhodan em meu poder, e vou matá-los se o palácio não for evacuado dentro de cinco minutos; tanto por rebeldes, como por arcônidas. É minha primeira e última proposta. Repetindo: Caso os arcônidas...
— Raios! — praguejou Bell, fitando desalentado Lloyd e Sengu. — Onde está Rhodan? Pode localizá-lo, Sengu?
— Nesta direção! — o japonês apontava diagonalmente para baixo. — Alban está entrando na cela neste momento. Tem uma arma na mão. Apontada para Rhodan. Não posso avaliar a distância.
— Vamos! — comandou Bell. Rapidamente retirou as lentes de contato vermelhas dos olhos. — Vamos lhe mostrar quem somos! Sengu, corrija o rumo, caso nos desviarmos. Rápido, pessoal!
E, apesar disso, Bell teria chegado tarde demais, se...

* * *

Rhodan prestava atenção a todo ruído chegado até sua prisão. Lutava-se lá fora, segundo indicavam os sons que ouvia. O sibilar dos disparos energéticos misturava-se com gritos de desespero; no meio disso tudo, o estrondo de uma explosão. Fora bem perto dali. Seguiu-se um período de silêncio, depois tremenda gritaria. Pés apressados palmilhavam corredores e salões do palácio. Os tiros rareavam. Uma única vez Rhodan identificou o zumbido característico de um pulso-radiador. Aquilo devia ser Bell com seus mutantes.
Depois a voz distorcida de Alban se projetou num alto-falante próximo. Difundia sua última mensagem.
— Bem, a situação foi decidida; menos a nossa, que ainda está por resolver. Alban vai querer nos matar, caso não nos possa utilizar como reféns. Crest, deite-se na cama, e fique quieto. Eu falo com Alban. Marshall, fique junto da porta, e tente sujeitar Alban quando ele entrar. Rathon, mantenha-se passivo também. Entendido?
— Não vai adiantar; não temos armas — discordou Crest. — Como pretende se impor diante de um fuzil de raios?
— Veremos, Crest. Quem desanima facilmente não é digno de governar um império.
Por alguns segundos, o arcônida encarou fixamente Rhodan; depois acenou devagar, compreensivamente. Em silêncio se estendeu sobre a cama. Tinha a testa coberta de suor.
Marshall, que Rhodan livrara das amarras, levou menos tempo para compreender. Com ar decidido postou-se ao lado da porta.
Passos se aproximavam.
Pensando bem”, considerou Rhodan, “é a primeira vez na vida em que estou diretamente exposto à morte certa. Não posso reagir, e estou nas mãos de um alucinado, que nada lucraria ou perderia se eu morresse. Minhas chances são mínimas, muito mais reduzidas do que meus três amigos imaginam. A rigor, não temos chance alguma. Foi rematada tolice e presunção nos colocarmos espontaneamente em tal situação.”
Os passos se detiveram junto da porta. Uma chave tiniu.
É agora”, pensou Rhodan, serenamente. “Chegou o momento de saber se seremos capazes de sair desta encrenca; se somos bastante rápidos; se podemos tapear Alban. Basta ganhar tempo, até Bell chegar. Bell é agora nossa derradeira esperança.”
A chave girou na fechadura, e um pontapé escancarou a porta. A primeira coisa que Rhodan viu foi o cano espiralado de uma arma de aparência ameaçadora, apontado diretamente sobre sua pessoa. Por trás dela estava Alban, com o dedo no disparador.
— Vejo apenas três arcônidas — disse o lorde, com surpreendente calma, mas sem se aproximar mais. — Onde está o quarto homem? Atrás da porta? Caso ele não apareça imediatamente, eu atiro.
Diante do gélido olhar de Alban, Rhodan viu que ele falava sério. Sendo telepata, Marshall ainda demorou menos a perceber o perigo iminente. Dando de ombros, conformado, deixou seu esconderijo e se colocou ao lado de Rhodan.
Alban sorriu, satisfeito, e agitou o cano da curta espingarda em círculo.
— Devem ter escutado minha proclamação. A vida de vocês contra a minha. Vocês não têm outra escolha!
— Está desafiando o império! — avisou Rhodan, para ganhar tempo. Bell já devia se encontrar dentro do palácio. Talvez um dos mutantes conseguisse se apossar da mente de Alban em tempo.
— Um de vocês vai subir, a fim de transmitir a ordem de Rhodan de abandonar o palácio. E você, caro arcônida, vai comigo até o hangar secreto debaixo do telhado, onde guardo meu pequeno foguete. Assim que eu levantar vôo, estará livre. John Marshall interrompeu:
— Tapeação, comandante; ele pretende fuzilá-lo antes de se evadir.
— Exatamente o que eu pensava — disse Rhodan, calmamente. — E então, Alban?
Por um instante, o lorde ficou confuso; depois sua fisionomia se contorceu num esgar de fúria. Do corredor vinha um ruído arrastante, entremeado com as pisadas de patas fofas. John Marshall disse em inglês:
— Alguém se aproxima; posso captar seus pensamentos. Pensamentos muito esquisitos. Meu Deus, é Gucky! Procura por nós!
Ganhar tempo”, pensou Rhodan, frenético. “Talvez o rato-castor seja de alguma utilidade. Mas como é que ele sabia...?
— Responda! — berrou Alban, manuseando o disparador de sua arma. No estado presente, o tuglante era extremamente perigoso, apresentando as reações de um doente mental. Impossível prever o que faria no instante seguinte. — Responda, ou é o fim!
Rhodan sentiu a febril expectativa dos companheiros. Apurou o ouvido, mas não escutou mais nenhum ruído no corredor. De muito longe vinham brados surdos e abafados. Uma porta bateu, e o som parecia uma detonação.
— Quem deve acompanhá-lo? — perguntou a Alban.
O lorde pareceu se distender com as palavras de Rhodan, porém logo a desconfiança venceu; novamente seus dedos se crisparam sobre a arma.
— Está querendo me iludir, arcônida. Talvez fosse melhor matar vocês todos agora mesmo. Vou...
Então aconteceu o que Rhodan esperava ansiosamente.
Lorde Alban sentiu-se atingido por um soco invisível nas costas; seu fuzil declarou independência, subindo inapelavelmente para o teto, que ficava a uns cinco metros do piso do corredor.
Alban não concebia que seu fuzil pudesse voar, porém de maneira nenhuma queria ser privado dele. Portanto, agarrou-se à arma com todas as forças, e foi içado para cima junto com ela. As pernas balançaram desesperadamente no ar ao perder contato com o chão. O lorde estava como que suspenso numa barra de ginástica, que cordas invisíveis puxavam para cima.
Depois o fuzil tocou no áspero teto de pedra, imprensando as mãos do tuglante. Com um grito de dor, Alban se soltou, caindo para baixo. Três metros não eram altura muito considerável, porém Alban torceu o corpo durante a queda; quando seus pés bateram violentamente no chão, fazendo o tronco vergar, o crânio foi impelido contra uma ponta de rocha saliente na parede. Um baque surdo, e Alban se abateu no solo sem um gesto.
Rhodan chegou tarde demais; um olhar bastou para constatar que Alban estava morto.
Escutando um ruído às costas, voltou-se e deu com os olhos castanhos de Gucky. A expressão canina de seu olhar refletia satisfação e confidencia. Acocorado no meio do corredor, o rato-castor guinchou, entusiasmado:
— Abaixo o traidor Alban! — num gorgeio alegre, terminou: — Viva o Império e Daros, o novo lorde!
Crest, Rathon e Marshall tinham deixado igualmente a cela. Aos poucos, a tensão se dissipava. Crest sorriu debilmente.
— Realmente, o socorro chegou no último momento...
— É, foi por pouco — concordou Rhodan. — Mas quando deixarmos Tuglan, vamos com a certeza de ter deixado o cargo de lorde nas mãos certas. Porém ainda nos falta achá-lo.
Passos cada vez mais enérgicos e decididos se aproximavam. Depois uma voz familiar gritou:
— Tem que ser aqui! Naquela porta! Que disse, Sengu? O quê? O diabo daquele rato? Com Rhodan? Essa não! Eu não agüentaria ver aquele bicho xereta chegar na nossa frente!
O corredor foi inundado de luz. Bell se precipitou por ele, estacando abruptamente ao ver o grupo em torno de Rhodan. Com os punhos cerrados, ameaçou Gucky, que se deixava acariciar por Rhodan.
— Rato miserável! Sempre querendo me passar a perna, não é? Espere só! Você vai é virar ensopado para o jantar!
Pôs-se a protestar furiosamente quando começou a flutuar. Quando suas costas tocaram as pedras do teto, Gucky guinchou:
— Deixo você morrer de fome aí em cima, se não tomar jeito. Como é? Vai ser bonzinho?
Bell grunhiu algo incompreensível. Os mutantes, que já haviam alcançado os demais, desataram em gargalhadas, imitados por Rhodan.
O japonês Sengu sugeriu:
— Devíamos ir libertar Daros. Está na cela ao lado. Também existem outros prisioneiros trancados aqui embaixo.
O grupo se desinteressou de Bell, que remava desamparado com os braços e as pernas. Ele acabou descendo de qualquer jeito pela parede.
Raios energéticos fundiram a fechadura da cela vizinha. Instantes após, retiravam o intimidado Daros do escuro recinto.

* * *

A Stardust-III decolou já no dia seguinte. Rhodan recebera dos robôs do comissário as coordenadas exatas, indispensáveis para o salto a Vega. Ordenou-lhes guardar rigoroso sigilo a respeito. Sabia que podia confiar nos autômatos; sua hierarquia arcônida era superior à de Rathon.
A população de Tuglan e dos planetas unidos do sistema Laton aclamara Daros como novo lorde. Um tratado comercial foi assinado com Crest, como representante de Árcon; entraria em vigor posteriormente.
A Rathon foi prometida, em futuro próximo, nova hiperestação radiofônica, para que pudesse novamente se comunicar com o império. Só que Rhodan não especificou o prazo exato para cumprimento da promessa.
Enquanto o planeta Tuglan mergulhava nos abismos do espaço, e a Stardust-III se lançava para o ponto de transição, Rhodan teve a cautela muito especial de manter Gucky ao seu lado na central de comando, além de Crest, Thora e Bell.
Os últimos minutos se passavam.
— Pensando bem — comentou Bell, após longo período de evidente reflexão — esta aventura não nos valeu de nada. Tempo totalmente perdido... Tuglan não tem relação alguma com nossa busca ao planeta da vida eterna; ou será que o problema dos tuglantes fazia parte da charada galáctica?
— Se fazia, só indiretamente — replicou Rhodan, pensativo. — Mas acho que se engana ao qualificar de inútil nossa aventura em Tuglan. Afinal, reconquistamos um sistema para os arcônidas. Sem esta nossa escala intermediária, Alban teria executado seus planos. E o império perderia Tuglan.
Bell sorriu sarcasticamente.
— E como foi Gucky que provocou este pouso não previsto, o Grande Império arcônida na certa lhe creditará o mérito do caso.
Rhodan acenou com incomum gravidade.
— E por que não? Confesso que Gucky nos colocou em sério risco, mas ninguém pode negar que ele cooperou decisivamente para nos safar novamente dele. Sem Gucky, talvez eu estivesse morto agora.
Inclinou-se e alisou o pêlo do rato-castor.
Gucky ronronou como um gatinho contente.
Thora interveio, dizendo:
— Em Vega estaremos em condições de calcular a posição do planeta imortal. E sairemos à procura dele sem perder um segundo. Minha paciência tem sido submetida a dura prova até agora.
— Está sendo injusta, Thora — manifestou-se Crest, tomando surpreendentemente a defesa de Rhodan. — A ordem foi restabelecida em Tuglan, e testemunhamos pessoalmente a rapidez com que os terranos conseguiram isso. Representam poderosos aliados para a conservação de nosso desmoronante império estelar. Confio em Rhodan, e sei que algum dia ele nos levará a Árcon. Mas compreendo, igualmente, que precisamos aguardar a hora propícia para isso. Por enquanto, ela ainda não chegou.
Com um breve aceno para Thora, Crest deixou a central de comando, dirigindo-se para sua cabina. A arcônida relanceou um olhar dúbio por Rhodan e Bell, e imitou-o em silêncio.
A luz verde brilhou. Aproximavam-se do ponto de transição. Rhodan inclinou-se para Gucky.
— Nada de tolices agora, Gucky! Você é nosso amigo, não é? Reconhece-me como comandante? Pois então tem que me obedecer. Lembre-se: nada de brincadeiras!
Rhodan levou a mão à alavanca.
— A você eu obedeço, comandante Rhodan — chilreou Gucky, segundos antes da transição que os transportaria, através de trinta e cinco mil anos-luz, até Vega. — Mas recuso aceitar ordens desse monstro de cabelos ruivos sentado ao seu lado...
E enquanto os cabelos de Bell se ericavam furiosamente, Rhodan acionou a alavanca.
Desta vez sabia que não ocorrera erro algum.





* * *







Gucky, o inteligente ser peludo do planeta Vagabundo, colocara Perry Rhodan em sérias dificuldades. Porém ninguém podia recriminar Gucky, pois ele, por sua vez, cooperou decisivamente para a regularização da situação em Tuglan, compensando seu erro.
E, em última instância, aquele interlúdio em Tuglan deu a Perry Rhodan oportunidade de provar perante os arcônidas suas honestas intenções.
E agora Rhodan se aproxima inapelavelmente de seu objetivo — onde O Imortal o aguarda...
O Imortal é também o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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