Bell ergueu-se.
— Grato pelo apoio dado, Alban. Creio
agora que o caso da estação de rádio foi obra dos rebeldes, que me parecem
pouco numerosos. Não vai ser preciso castigar coletivamente a população de
Tugla. Mas, caso nosso comandante Rhodan não reaparecer...
Alban se inclinou para a frente. No seu
olhar havia falsidade mal disfarçada.
— Que fariam então? Aniquilar os rebeldes?
— Não. Acho que arrasaríamos Tuglan. Não
podemos nos mostrar fracos. Melhor fazer desaparecer todo um sistema solar do
que dar mau exemplo a vacilantes governos coloniais. Espero que entenda meu
ponto de vista.
Antes de fechar a porta, ainda lançou um
rápido olhar para o lorde sentado à sua mesa. A expressão apavorada de Alban
encheu Bell de incontida satisfação.
* * *
Bell nunca vira Crest desorientado, mas
desta vez o arcônida parecia realmente ter chegado ao fim de seus recursos. Sem
Rhodan, toda a sua pretensa superioridade mirra. Até Thora demonstrava sinais
de insegurança, apesar da eventual morte de Rhodan lhe acenar com a
possibilidade de retornar mais cedo a Árcon. Pois o trato de procurar primeiro
o planeta da vida eterna, para depois ir a Árcon, há cerca de trinta e quatro
mil anos-luz da Terra, fora feito com Rhodan, e não com Bell.
— E você não seria capaz de achar
novamente o caminho, não é? — insistiu Crest, mais uma vez. — A prisão fica em
Tugla, não devia ser impossível encontrá-la. Não me conformo!
— Pois teria opinião diversa se tivesse
acompanhado os mil e um rodeios que aqueles caras fizeram. As ruas são todas
parecidas umas com as outras. Mas sou capaz de jurar que aquele hipócrita do
Alban sabe muito bem onde é que Rhodan está trancado. Pode até ser coisa
dele...
— Ordem de Alban? Não é possível!
— Também duvido, para ser franco. Mas que
é possível, é, creia-me. Que tal despachar um telepata para o palácio, a fim de
sondar o lorde? Seria a maneira mais simples de ter certeza.
— John Marshall?
— Por que não? A idéia já devia nos ter
ocorrido antes. Pelo menos ficamos sabendo quem planeja derrubar quem, a fim de
introduzir nova ordem.
Repentinamente Bell olhou em torno,
exclamando:
— Por onde anda Gucky?!
— O rato-castor? — perguntou Crest,
intrigado.
— Sim, ele mesmo! — concordou Bell, com
certa inquietude. — É só perder o bichinho de vista e fico preocupado.
— Gosta tanto assim daquele animal? —
zombou Thora.
Bell brindou-a com um olhar de desprezo.
— Gosto, sim, por que não? Mas em primeiro
lugar penso na promessa que lhe fizemos antes de pousar.
— Que promessa? — perguntou Crest.
— Que poderia brincar à vontade. E
imaginem só quanta coisa ele encontraria em Tugla para brincar...
Bell determinou que Marshall acompanhasse
Crest ao palácio do lorde, e pôs-se à procura de Gucky. Dez minutos depois
sabia que o rato-castor não se encontrava mais a bordo da nave.
V
Diversos acontecimentos ocorreram
simultaneamente.
Crest dirigiu-se com John Marshall e o
comissário Rathon para o palácio de Alban. A entrevista solicitada foi
imediatamente concedida.
Desistindo da infrutífera busca a Gucky,
Bell procurou o mutante Wuriu Sengu. O robusto japonês era o vidente do
Exército de Mutantes. Seu olhar atravessava matéria sólida, reconhecendo o que
quer que fosse atrás dela. Lamentavelmente seus dons tinham limite de
distância, o que no entanto não impediu que Bell percorresse com Sengu as ruas
de Tugla. O japonês tentava desesperadamente localizar Rhodan num dos inúmeros
prédios.
Rhodan, entretanto, estava sendo levado
para fora do palácio, em veículo fechado, sendo provisoriamente acomodado numa
masmorra subterrânea. Pressentia que Alban não tardaria a deixar cair a
máscara. Por enquanto não temia pela própria vida.
Daros foi igualmente transferido de cárcere;
para um vizinho ao de Rhodan, aliás. Porém, um ignorava a proximidade do outro.
Apesar de suspeitar da verdadeira identidade de seu carcereiro, Daros não
chegava a compreender a complexidade da intriga. Todas aquelas jogadas lhe
pareciam mais uma série de complicadas manobras sem sentido nem objetivo. Em
lugar de Alban, Daros agiria de maneira mais direta e clara.
Apenas o quinto acontecimento não tinha
sido planejado.
* * *
Foi fácil para Gucky deixar a nave sem que
ninguém percebesse. Todos o conheciam agora, e não receava ser detido. No
corredor, um dos pilotos dos caças espaciais se abaixou e coçou-lhe o pêlo.
— Então, Gucky, vai dar um passeio?
O rato-castor acenou gravemente.
— Não me deixam brincar dentro da nave —
explicou, com sua voz guinchante. Elevando-a num chilreio de alegre
expectativa, acrescentou: — Mas agora posso, desde que seja lá fora. Lá vou
encontrar bastante coisa com que brincar.
— Enquanto deixar nossa nave em paz,
ninguém vê inconveniente nisso — advertiu o piloto, de dedo em riste. — Mas
tome cuidado com os tuglantes. Gucky. Nem todos são nossos amigos.
— Não se preocupe — gorjeou Gucky
alegremente, rolando seus olhos de cão fiel. — Não tenho medo.
— Fique perto da nave — aconselhou o
piloto, vendo o engraçado animalzinho se afastar ereto e descer com passo
gigante pela escada rolante agora parada. Depois se retirou para sua cabina.
Não tendo escutado o apelo geral de Bell através do rádio interno, nem lhe
ocorreu mencionar a quem quer que fosse o encontro com Gucky.
O rato-castor, por sua vez, não tinha a
menor intenção de se conservar nas proximidades da nave. Calmamente marchou na
direção das construções à beira do espaço-porto; teleportou-se por cima de uma
cerca e viu-se na estrada para a cidade. Cheio de admiração, ficou observando
com interesse os numerosos carros, trazendo e levando gente; aquilo se
prestaria a espetaculares brincadeiras. Mas talvez fosse mais prudente escolher
os que não tivessem ocupantes; os bípedes eram imprevisíveis, e nem sempre
compreendiam as coisas.
Gucky achou o que procurava logo adiante,
no parque de estacionamento. Os funcionários do espaçoporto deixavam ali suas
viaturas. Filas e filas de carros parados, aparentemente sem a menor utilidade.
Pelo menos foi o que Gucky julgou. Bem, era fácil remediar a situação.
E enquanto o rato-castor bamboleava
decididamente em direção à cidade, cinco dos carros estacionados abandonavam
seu lugar na fila, sem o costumeiro zumbido dos motores. Em coluna bem
alinhada, rodaram calmamente na dianteira de Gucky, ajustando sua velocidade à
de um pedestre.
Aos poucos, a estranha demonstração
começou a despertar interesse. Os veículos vindos em sentido contrário
desviavam-se habilmente, prosseguindo em sua marcha. Geralmente vinham em
velocidade excessiva para seus passageiros terem tempo de atentar para
detalhes. Porém não acontecia o mesmo com os que ultrapassavam a coluna; estes
tinham ocasião de observar detidamente, e logo estranharam a ausência de
motoristas nos cinco giromóveis. Rodavam serenamente para a cidade, em coluna
compacta, como se estivessem sendo dirigidos por mãos fantasmas. Muito estranho
aquilo, para não dizer outra coisa...
Apesar de ser igualmente uma aparição
estranha, Gucky despertava pouca atenção. Praticamente já não existia comércio
interestelar em Tuglan, mas sabia-se por tradição que não era raro ver aparecer
os viventes mais esquisitos. O Grande Império abrangia inúmeras raças, todas
elas diferentes. E como no espaçoporto havia uma nave de guerra arcônida, era
provável que tivesse trazido um ou outro representante das raças auxiliares.
Aquele camaradinha esquisito devia ser um deles, mas tuglante algum relacionou
sua presença com a coluna de carros sem piloto.
Gucky, no entanto, se divertia enormemente
com sua brincadeira. Mas não durou muito. O progresso regular dos veículos
acabou se tornando monótono.
Exibindo o dente incisivo num sorriso
afável, Gucky transmitiu uma ordem ao cérebro. Em conseqüência dela, as
viaturas policiais chamadas para estudar o caso tiveram tremenda surpresa.
A ordem era deter a coluna-fantasma. Mas
em vez de parar obedientemente, os cinco giromóveis se elevaram etereamente. Ao
atingir uns cinqüenta metros de altura, descreveram algumas elegantes curvas,
sempre em formação ordenada; concluíram a demonstração com uma série de ousados
saltos mortais.
Jamais em sua vida os policiais tinham
visto carros voadores. Realmente, a tecnologia de Tuglan era avançada; havia
naves espaciais que voavam a grandes velocidades e aviões-foguetes, mas não
automóveis aéreos.
O trânsito na ampla estrada entrou em caos
total. Os veículos parados aumentavam cada vez mais o engarrafamento. Todo
mundo desembarcava para admirar boquiabertos, os automóveis voadores.
Gucky prosseguia calmamente seu rumo.
Ninguém lhe dera atenção até agora. Talvez os habitantes da cidade ali adiante
fossem mais inteligentes, e apreciassem sua habilidade.
Saturado da primeira brincadeira, Gucky
desprendeu o pensamento dos cinco giromóveis. Gingando, seguiu em direção de
Tugla.
Prontamente os cinco carros se precipitaram
ao solo, já que nada mais os amparava. Ainda bem que Gucky os fizera evoluir um
pouco fora da estrada; assim foram cair num campo, completamente destroçados.
Policiais e civis correram para o local do impacto, certificando-se de que não
havia tuglantes debaixo dos destroços. E ainda não entendiam como é que aqueles
veículos de superfície podiam ter voado, ainda mais sem motoristas.
Gucky continuava a marchar serenamente.
Levou meia hora para alcançar os limites da cidade; e criou tanta confusão que
a notícia dos inexplicáveis acontecimentos voou para o palácio, onde Alban se
preparava justamente para receber Crest e Marshall.
Giromóveis se tornavam independentes, não
obedecendo mais aos controles. Motoristas apavorados acionavam freneticamente
todos os mecanismos de uma só vez, sendo forçados a constatar que seus carros
faziam exatamente o contrário do que deveriam fazer. Alguns deixavam
simplesmente a estrada, sacolejando pelos campos até parar de repente. Outros,
em troca, vogavam a alguns metros de altura e aterrizavam bruscamente em
qualquer lugar. Um policial curioso, pasmo com o que ocorria, foi jogado ao
chão por violenta pancada nas costas. Virando-se, furioso, a fim de identificar
o suposto agressor, ficou com as palavras de protesto entaladas na garganta.
Pois acima dele flutuava, com ar ameaçador, um dos cestos de lixo espalhados
por toda a parte.
Rememorando todos os pecados anteriormente
cometidos, o policial acreditou firmemente que aquilo era castigo dos deuses.
Ou então ele estava ficando biruta. Cestos de lixo feitos de tela de arame não
voavam. Muito menos agrediriam um funcionário público.
Cautelosamente, sem perder o cesto de
vista, o homem tentou se levantar. Porém o cesto subiu um pouco mais, pairando
exatamente por cima do policial. Virando cento e oitenta graus, despejou todo
seu conteúdo sobre o infeliz, que estreava naquela manhã um uniforme limpo.
Depois o cesto ficou privado de apoio, e baixou. Transeuntes socorreram o
coitado do policial, desembaraçando-o a custo das apertadas malhas que o
aprisionavam como um animal engaiolado.
Muito satisfeito, Gucky seguia em frente.
Descobrira que se podia brincar maravilhosamente com aqueles inofensivos
bípedes.
Fez uma mulher voar para cima de um
telhado. Da esquina da rua ficou observando como a traziam de volta para baixo,
com a ajuda de longas escadas. Poderia ter intervindo, mas sua atenção foi
subitamente derivada.
Três dos bípedes de cabelos escuros se
aproximavam dele, empunhando as mesmas esquisitas pistolas que Rhodan e seus
amigos utilizavam em ocasiões de perigo. Portanto, aqueles indivíduos não
vinham com intenções amistosas.
— Ele é da nave arcônida! — disse um dos
homens.
Gucky não compreendia as palavras
diretamente, porém seu multifacetado cérebro pareceu despertar de repente.
Captava os pensamentos dos estranhos, transformando-os em impulsos
inteligíveis.
— Será um animal, ou um ser racional?
Gucky já os compreendia melhor agora.
Tomavam-no por animal...
— Talvez tenha fugido... — opinou outro,
baixando a arma. — Podemos até ganhar uma recompensa, caso o peguemos e levemos
de volta.
“É,
e eu ficaria sem poder brincar”, pensou Gucky, indignado.
— Temos de levá-lo a lorde Alban primeiro;
ele decidirá o que fazer.
Evidentemente Gucky estava mais ou menos a
par da situação. Não fora à toa que escutara as conversas a bordo. Quer dizer
que aqueles homens eram partidários de Alban.
— Cuidado, pessoal! Não podemos
assustá-lo. Onde foi que se meteu esse bichinho engraçadinho? Venha, não vamos
lhe fazer mal...
Atitude sumamente idiota, considerou
Gucky. Não estavam vendo claramente onde ele estava? E medo é que não sentia.
Parou e olhou curiosamente os tuglantes com seus imensos olhos redondos.
Constatou satisfeito que tinham recolocado as armas nos cintos. Logo, dava
mesmo a impressão de ser inofensivo. Meio chato aquilo, mas no momento calhava
bem. Iria com eles, caso o tratassem bem. Podia resultar numa boa farra.
Foi surpreendido pela atitude de um dos
homens, que se abaixou subitamente, agarrando-o pelo cangote. Doeu, e Gucky reagiu
de forma completamente inconsciente, apenas por instinto de defesa.
O homem sentiu um punho invisível socá-lo
para cima. Viu o chão desaparecer-lhe debaixo dos pés, e as paredes das casas
mergulharem para baixo. Muito distantes, os olhos arregalados dos companheiros
o contemplavam, de rostos voltados para o alto. O punho invisível soltou-o, e o
homem se precipitou ao encontro da rua, que se aproximava alucinantemente
depressa. E mais não sentiu, pois estava morto.
Sacudindo-se, Gucky alisou o pêlo com as patas.
Aquele sujeito não tornaria a agarrá-lo, nunca mais! Não tolerava brutalidade.
Com um amável sorriso de seu belo dente roedor, voltou-se para os demais
tuglantes, repreendendo:
— Não devem me tocar, caso queiram brincar
comigo!
O castor falante acabou com a compostura
dos apavorados tuglantes. Aquilo já era assombração — vejam o caso do colega
voador! Automaticamente levaram as mãos aos cintos, sacando suas pistolas de
raios. Aquele animal era perigoso, e precisava ser eliminado. Sabe lá que mais
os arcônidas traziam naquela nave!
Gucky presenciou tudo sem se mexer. Seus
olhos miravam as ameaçadoras pistolas. Os invisíveis raios energéticos do setor
telecinético de seu cérebro se introduziram no mecanismo, interrompendo
contatos essenciais. Os dois homens apertaram o disparador, mas nada aconteceu.
O raio mortífero ficou ausente. Em troca, as peças metálicas das pistolas
ficaram de repente quentíssimas; o plástico derreteu, pingando pesadamente no
chão.
Com gritos de imprecação, os estupefatos
tuglantes jogaram as armas agora inúteis contra a primeira parede. De boca
escancarada, fitaram Gucky por alguns instantes, totalmente desconcertados;
depois viraram-se bruscamente e saíram correndo. Ainda por bastante tempo
chegaram a Gucky suas desconexas exclamações.
O incidente não passara despercebido. Do
lado oposto, quatro tuglantes cruzaram diagonalmente a rua, lançaram um rápido
olhar ao morto, e se encaminharam para Gucky. Um deles falou:
— Um dos homens de Alban. Conheço-o. E
quem o matou foi aquele camarada ali. Como, não sei; para mim é mistério. De
qualquer forma, parece que não topa nossos inimigos. Vamos interrogá-lo?
“Ah,
o pessoal da oposição!”, pensou Gucky, interessado. “Talvez sejam mais simpáticos.”
— Se ele vem da nave arcônida, talvez
possa nos ajudar. Pois deve ser partidário do império.
— Certo, Xaron. Mas duvido que ele possa
nos entender.
Gucky ouvira o suficiente. Aqueles homens
estavam em dificuldades, e só ele estava em condições de lhes prestar ajuda.
Como não? Com o maior prazer! Seriam aliados de Daros?
Os quatro tuglantes ensaiaram sorrisos
amistosos. Um deles apontou o morto, ainda estendido no meio da rua.
— Foi você que fez isso, não é? Boa,
baixinho! Era inimigo do império.
— Inimigo de Rhodan, também? — perguntou
Gucky, em intercosmo, língua que também aprendera a falar.
— Quem é Rhodan?
— O comandante da nossa nave.
Os tuglantes animaram-se.
— Claro, claro! Vamos lhe explicar tudo.
Mas primeiro temos que sumir daqui, pois a polícia já vem vindo.
Com as sirenas soando estridentemente,
dois ou três giromóveis dobraram a esquina. Homens fardados saltaram deles
quase antes que parassem. De armas apontadas correram para onde estavam Gucky e
seus novos amigos.
— Não se assustem! — chilreou o
rato-castor, deliciado com a oportunidade de exibir mais uma vez sua
habilidade. — Vamos lhes mostrar do que somos capazes!
Antes que os quatro partidários de Karolan
dessem pela coisa, tornaram-se leves como plumas e flutuaram para o alto,
aterrizando no telhado plano da casa mais próxima. Mal tocaram a superfície
sólida com os pés, o peso corporal foi restabelecido. Sem entenderem coisa
alguma, agarraram-se freneticamente ao estreito beiral que os. separava do
assustador precipício da rua. Mas a curiosidade logo superou o medo. Não podiam
deixar de observar as coisas incríveis que aconteciam lá embaixo.
Atônitos, os policiais presenciaram o vôo
dos tuglantes. No entanto recuperaram a presença de espírito bem mais depressa
do que há meia hora. Automóveis voavam pelo ar, e aquele animalzinho estivera por
perto; agora eram homens que voavam, e novamente o peludo se encontrava
presente, com o ar mais inocente do mundo. Logo, ele tinha algo a ver com o
milagre.
— Peguem-no vivo! — berrou o chefe do
valente grupo armado, lançando-se heroicamente sobre Gucky, cujo incisivo
vibrava de intensa expectativa. Seu pêlo se eriçou na nuca. Agora sim, a
brincadeira era farta, quase mais do que podia controlar de uma só vez! Por
ordem, então...
Os policiais se sentiram empurrados de
volta para os giromóveis. Sem se dar conta do que ocorria, estavam novamente
nos assentos de seus veículos, que saíram andando sem ligar os motores, como
que guiados por espíritos. Os carros formaram uma esquadrilha e subiram. Os
apavorados policiais viram a cidade se distanciar debaixo deles. Imóveis nas
cabinas, não ousavam fazer o menor movimento. Os habitantes de Tugla, porém,
foram brindados com o inédito espetáculo de um show de acrobacia aérea,
oferecido pela patrulha motorizada de sua força policial. Após dois minutos de
evoluções, os giromóveis desceram incólumes no telhado do palácio.
Gucky aproveitara a ocasião para se alçar,
com um tremendo salto, para junto de seus amigos rebeldes, que o receberam
aliviados. Apesar de não entender em absoluto como o truque funcionava,
acabaram aceitando a espantosa demonstração de Gucky como façanha natural de um
integrante do todo-poderoso império arcônida. Mais uma razão, portanto, para
bater-se pela continuação da aliança com os arcônidas.
Ali em cima do telhado ninguém os
perturbava. Gucky recebeu amplas informações sobre a situação política do
planeta Tuglan, não tardando a saber mais do que Rhodan sobre aquele sistema
solar. Graças aos seus dons telepáticos, Gucky estava certo de que os tuglantes
não mentiam.
Quer dizer que Rhodan se encontrava em
perigo, aprisionado por Alban? Pois então era mais do que hora de libertá-lo!
— Vamos levar você até Karolan, nosso
chefe, Gucky. Ele saberá o que fazer. Você é nossa salvação. Como poderemos lhe
agradecer?
Gucky fez um gesto com a pata, dizendo
modestamente:
— Ora, desde que me dêem oportunidade de
brincar...
A observação permaneceu um tanto dúbia
para os tuglantes, mas aquilo não era tão importante no momento. O principal é
que agora contavam com um superpoderoso aliado.
E puseram-se a caminho, rumando para o
esconderijo de Karolan.
* * *
Suspendendo a inútil procura por Rhodan,
Bell decidiu ir até o palácio, onde Crest e Marshall conferenciavam com lorde
Alban. O vidente do Exército de Mutantes não conseguira descobrir indício
algum, apesar das paredes das casas não representarem obstáculos para seus
olhos. Diante de sua vista penetrante, a estrutura da matéria sólida se
modificava, tornando-se transparente até onde ele desejava. Assim ele podia
examinar camada após camada, como um aparelho de raio-X, até descobrir o que
queria.
Porém Rhodan continuava sumido.
No palácio reinava uma agitação incomum.
Bell contemplou pensativamente os giromóveis pousados sobre o telhado plano,
imaginando de que jeito teriam ido parar ali. Um guarda lhe explicou, com abundância
de detalhes, que o demônio pregara uma peça à polícia. Que os carros tinham
levantado vôo apesar dos motores desligados. E que várias outras coisas tinham
voado naquele dia: automóveis, policiais, gente...
Como se policiais não fossem gente...
As suspeitas de Bell despertaram.
Lembrou-se da vã procura por Gucky na nave. O brincalhão rato-castor teria
saído para uma voltinha, a fim de satisfazer seus instintos? Aquilo parecia
obra dele. Mas onde estaria Gucky neste momento?
Bell não teve tempo de refletir mais sobre
o assunto, pois um tuglante chegava com a resposta de Alban. Os visitantes
deveriam aguardar o término da entrevista com o arcônida Crest e seu
acompanhante. Crest o queria assim.
Lançando um olhar de entendimento para
Sengu, Bell concordou. Assim que viu o guarda fora do alcance de sua voz,
sussurrou:
— Por que razão Crest se oporia à nossa
presença durante a conferência? Meu caro Sengu, algo está errado nisso.
O mutante japonês acenou gravemente.
— Quer que eu vá verificar?
— Lógico! Espero que aquele sujeito ali
não atrapalhe. Não pára de olhar para nós.
— Que nada! Vou fazer de conta que admiro
a ornamentação das paredes.
O mutante ativou a zona especial em seu
cérebro. As paredes de pedra se dissolveram para ele, deixando o olhar inquiridor
penetrar livremente nos recintos que vedavam.
Passivamente sentado numa cadeira, Bell
sentia-se o mais inútil dos homens, com uma raiva danada de não ser igualmente
mutante.
* * *
Logo às primeiras palavras de lorde Alban,
John Marshall percebeu que ele mentia. Junto com Rathon e Crest, um pelotão os
conduzira em verdadeira marcha cerimonial através do palácio, até o salão de
audiência do lorde. Com todas as honras militares... ou severamente vigiados.
Marshall estava certo de que os fuzis de aço apresentados em continência não
eram meros ornamentos. Uma rápida sondagem da mente dos soldados confirmou a
suposição.
Alban cumprimentou efusivamente os
visitantes, insistindo repetidamente que lamentava muito ter causado incômodos
aos arcônidas, e que ele se encarregaria de providenciar o restabelecimento da
paz e da ordem. Talvez fosse até melhor que deixassem tudo por conta dele,
acabou sugerindo. E encontraria, sem a menor dúvida, o arcônida Rhodan.
Crest notou que Marshall sacudia de leve a
cabeça, porém não conseguia adivinhar quais das palavras de Alban eram falsas.
Afirmara tantas coisas de uma só vez! O jeito era analisar suas dúvidas uma por
uma.
— Considera seu irmão Daros um rebelde
contra o império? — perguntou Crest, portanto.
— Ele é o cabeça da rebelião.
Crest olhou para Marshall e soube que
Alban mentira novamente.
— Foi ele igualmente que destruiu a
hiperestação do comissário?
— Claro, quem mais?
Alban mentira novamente.
— E você, Alban, é um fiel seguidor do
império? Deseja que Tuglan continue fazendo parte do Grande Império arcônida
como antes?
— Mas claro, eminente arcônida! É meu
maior desejo.
As três perguntas eram suficientes para
Crest. Sabia o bastante.
Marshall já sacudia a cabeça abertamente.
Crest não via razão para hesitar por mais
tempo. Apesar de nem ele nem Marshall terem trazido armas, confiava em sua
autoridade para evitar que Alban cometesse algum ato impensado.
— Está mentindo, lorde Alban! — disse com
leve tom de reprovação. — Seu irmão Daros nada tem a ver com isso tudo. Receia
nele um rival. Foi você quem mandou destruir a hiperestação; e foi também o
incentivador do ataque a Rhodan. Onde está Rhodan, Alban? Diga a verdade, ou
mando dar ordem de destruir a cidade de Tugla.
Lorde Alban permaneceu imóvel por trás de
sua mesa. Os dedos crispados repousavam sobre o tampo. Levou longo tempo para
se recuperar da surpresa. Com um sorriso contrafeito exclamou, por fim:
— Que terríveis acusações, Crest! Como
pretende prová-las?
— Não preciso de provas. Este homem aqui
lê pensamentos, Alban. Sabe perfeitamente que você mentiu.
Alban fitou Marshall com olhos
relampejantes.
— Um telepata? Mas como é possível?
— O império abriga muitas raças; entre
elas existem também telepatas. Seus pensamentos não constituem mais segredo.
Marshall, diga-lhe o que sabe.
— É Alban que deseja sacudir o jugo
arcônida — disse Marshall. — Também tenciona afastar o irmão de seu caminho.
Por isso fazia recair toda a suspeita sobre Daros, com diabólica habilidade; o
que lhe permitira eliminá-lo legalmente, e ao mesmo tempo se eximir de qualquer
culpa. Chegamos bem na hora.
Alban conseguira apertar um botão de
alarma oculto. Do lado de fora já se ouvia o ruído dos passos das sentinelas,
aproximando-se. O lorde sorriu mordazmente.
— E como pensa fazer uso do que sabe? De
que forma avisaria sua gente na nave?
— Que quer dizer? — perguntou Crest.
— Muito simples. Os rebeldes de meu irmão
vão assaltar e seqüestrar vocês, conforme fizeram com Rhodan. Lamentavelmente
não pude evitá-lo, pois ele recusou minha escolta. Não sou responsável pelo que
possa ocorrer entre meu palácio e o espaçoporto. Espero que tenham
compreendido. Aí vêm eles!
A porta se abriu, dando entrada a seis
soldados com espingardas apontadas para os três homens. Marshall leu em suas
mentes ódio e determinação. Alban apontou para Crest, Rathon e o telepata.
— Prendam-nos, e levem-nos para baixo.
Ponham-nos junto com Rhodan, para que ele tenha companhia e não se sinta tão
solitário.
Foi assim que Rhodan recebeu, dez minutos
mais tarde, inesperadas visitas. Perplexo, viu os três homens serem empurrados
para dentro de sua cela; os guardas empunhavam refulgentes espingardas. A porta
tornou a ser fechada.
Erguendo-se, Rhodan perguntou preocupado a
Crest:
— Que significa isto? Não venha me dizer
que foi aprisionado pelos rebeldes!
— Pelos rebeldes? Sim, poderiam ser
denominados desta forma. É muito lamentável sermos forçados a nos submeter ao
sacrifício, mas pelo menos agora sabemos em que situação nos encontramos.
— E trouxeram vocês para cá?
— Trouxeram? Estamos no palácio de Alban.
Aquela deixou Rhodan realmente surpreso.
Indicando com gesto convidativo o rústico mobiliário, disse:
— Acho que vocês têm muito o que contar.
Comecem...
6
Wuriu Sengu estremeceu involuntariamente.
Espiando com o rabo do olho a sentinela, cochichou:
— Achei! Rhodan, Crest, John Marshall e o
tal comissário de Árcon. Todos trancados num porão escuro. Ao lado tem outra
cela, com um tuglante jovem estendido sobre a cama. Pelo traje, é pessoa
importante. Daros, talvez?
Bell escutava impassível. Seus pensamentos
se precipitavam. Rhodan e Crest presos? Ali no palácio? Mas então Alban é que
era o trapaceiro! E se continuasse rodando por ali muito tempo, também acabaria
metido numa cela, junto com Sengu. Situação que não traria vantagem a nenhum
deles. Ninguém suspeitava da falsidade de Alban. Também não tinha possibilidade
de se comunicar com algum dos mutantes, pois nada fora combinado. Portanto
restava-lhe uma única alternativa: sumir de cena o quanto antes, e retornar à
nave. Levantou-se.
— Venha, Sengu. Temos que ir embora já. Só
trago comigo uma pequena pistola portátil, que não serviria para grande coisa
em caso de necessidade.
O japonês se ergueu. Mas, mal os dois
homens tomaram displicentemente a direção da saída mais próxima, um dos
soldados correu atrás deles. Mais uniformizados seguiram-lhe o exemplo.
— O digníssimo senhor lorde Alban está
pronto para recebê-los! — comunicou o soldado, pressurosamente.
Bell nem lhe deu confiança; continuou a
andar impassível, enquanto dizia:
— Pois diga a seu lorde Alban que pode vir
nos ver lá na nave qualquer dia desses, caso tenha vontade, meu filho. Não
temos mais tempo agora.
O soldado hesitou. Os outros já tinham
chegado perto. Na porta de saída havia mais dois, com as espingardas de raios semi-erguidas.
Bell não era homem de se deixar pegar de
livre e espontânea vontade.
— Tome o canhão daquele cara! — ordenou a
Sengu, enquanto disparava de dentro do bolso com sua pequena pistola. As
sentinelas junto à porta sentiram o formigamento das ondas de energia lhes
percorrer o corpo. Os membros se contraíram, forçando-os a largar as armas.
Segundos após, rolavam pelo chão, berrando e reagindo freneticamente contra o
invisível inimigo. A nenhum deles ocorrera ainda que Bell era o causador de sua
aflição.
Sengu aproveitara a ocasião para tomar a
arma do soldado confuso, usando um golpe de judô; apontou-a para os cinco
guardas, que haviam demorado alguns instantes para pegar suas espingardas.
— Tratem de ser bonzinhos, e deixem os
paus-de-fogo pendurados nos ombros — avisou Bell, irônico. — Marchem na nossa
frente, na direção da saída. E distribuam ordens sensatas, senão vão se dar
mal!
— Lorde Alban quer falar com vocês —
murmurou um dos guardas, tremendo.
— Ele que fique falando consigo mesmo;
pelo menos estará em companhia do mesmo calibre. Para fora, já! Aliás, como é
que aqueles giromóveis foram parar lá em cima do telhado?
Já haviam atingido o pátio do palácio; em
passo marcial desfilaram diante de grupos de soldados aparvalhados, que os
fitavam boquiabertos. Ninguém ousava o menor movimento em falso.
— Voaram e aterrizaram lá, senhor. Dizem
que foi coisa de um bichinho que sabe fazer mágicas; foi ele que executou o
truque. Ninguém sabe como.
Bell sorriu de orelha a orelha. Gucky! Sem
dúvida o rato-castor se divertira um bocado perturbando os tuglantes. Se
conseguisse pelo menos alcançar algum resultado positivo com aquilo tudo! Onde
estaria Gucky naquele momento?
Sengu apoderou-se sem demora de um carro,
inclusive com motorista. Bell desarmou um por um os soldados de Alban,
despachando-os de volta para o palácio. Transeuntes curiosos observavam a cena
a respeitosa distância, com inesperada passividade. Pareciam bastante
indiferentes ao destino de Alban e de seus militares.
Dez minutos após Bell chegava à
Stardust-III e dava o alarma.
* * *
Karolan levou bom tempo para se refazer da
surpresa. Xaron relatava, entretanto, o que se passara com ele e seus três
companheiros. Comentou com especial entusiasmo o espetáculo acrobático da
patrulha policial, sem se esforçar por dar uma explicação para o
incompreensível.
Abaixando-se, o chefe dos rebeldes alisou
de leve o sedoso pêlo de Gucky. O rato-castor empertigou-se, e inclinou a
cabeça para trás, dizendo:
— Debaixo do pescoço, por favor. É aí que
eu gosto mais.
Karolan quase caiu da cadeira em que
estava sentado.
— Ei! Ele sabe falar!
— Claro que ele fala! — resmungou Xaron. —
Eu não cheguei a contar isso? Ele pertence aos arcônidas.
— Impressionante! Realmente impressionante
— murmurou Karolan, atônito. Absorto, acariciava Gucky no local favorito,
debaixo do pescoço, enquanto seus pensamentos turbilhonavam. — Quem sabe ele
pode nos ajudar a derrubar Alban? E a encontrar Daros? Escute, baixinho, quer
cooperar conosco? Tuglan deve voltar a ser um fiel aliado do império.
Gucky revirou a mente de Karolan,
constatando que ele falava a verdade. Porém antes que chegasse a dar sua
resposta, um homem se precipitou afobado para dentro da sala. Ofegando, gritou:
— Rebelião! Os habitantes de Tugla invadem
o palácio! Dizem que os arcônidas recém-chegados os ajudarão a depor o
traiçoeiro Alban. Forças misteriosas já estariam em ação, castigando a polícia.
Fatos estranhos, que só podem ser atribuídos aos arcônidas, têm acontecido. É
um sinal, afirma o povo. Decidiram elevar Daros a lorde...
— Exatamente o nosso objetivo! — comentou
Karolan, calmamente. — Até agora tivemos que trabalhar pela causa, em silêncio;
mas chegou a hora de podermos lutar abertamente. Xaron, avise nossos homens!
Que se armem, e saiam para apoiar os cidadãos. Eu vou também.
Fitando o pequeno rato-castor, indagou:
— E você?
— Vou poder brincar? — perguntou Gucky.
— Brincar? — replicou Karolan, intrigado.
— Sim, brincar. Que mais? Já brinquei o
dia todo, e foi maravilhoso.
Karolan julgou compreender.
— Ah, chama a isso brincar? Claro que pode
brincar até não querer mais. Mas, deixe-me indicar as ocasiões adequadas, sim?
Promete?
Gucky prometeu solenemente, e perguntou:
— Rhodan também está no palácio?
— Rhodan?
— Sim, o comandante da nossa nave.
— Puxa, até que nosso amiguinho acaba de
dar um palpite aproveitável — disse Karolan, pensativo, a Xaron.
Minutos após, o grupo de Karolan ganhou a
rua, correndo com os excitados habitantes da cidade para o palácio, onde os
soldados de Alban se preparavam para defender a própria vida e a do lorde.
* * *
Bell realizou uma derradeira conferência
com o major Deringhouse, comandante dos ágeis caças espaciais, que aguardavam a
hora de entrar em ação no possante bojo da Stardust-III.
— Dez caças devem ser suficientes para dar
uma boa lição no tal de Alban — disse Bell, acrescentando: — Não queremos
causar destruição desnecessária, nem matar tuglantes. A maior parte deles nem
suspeita das verdadeiras intenções de seu governante. Mas também devem perceber
que conosco não se brinca.
— Preocupo-me extraordinariamente com a
sorte de Rhodan — confessou Deringhouse. — Caso Alban perceba nossa
intervenção, poderia usá-lo como refém.
— Não diga bobagens, major! — exclamou
Bell, muito sério. — Nada acontecerá a Rhodan. Deixou-se prender a fim de
descobrir o verdadeiro culpado. E alcançou seu objetivo. Alban deixou cair a
máscara. Conhecemos agora nossas posições, e vamos passar à ação. Dez
aparelhos, portanto. Sigo para o palácio na frente, com nosso tanque blindado.
Permaneceremos em contato radiofônico, e nos encontraremos lá. Aguarde futuras
instruções.
Com uma breve continência, Deringhouse se
retirou.
Bell mandou chamar os mutantes e
selecionou alguns entre eles.
— Trata-se de tornar Alban inofensivo,
antes que possa fazer mal maior. Creio que Ralf Marten e Kitai Ishibashi são os
elementos adequados. Apossem-se da consciência de Alban assim que ele chegar
perto bastante; sugiram-lhe os pensamentos corretos, e ele fará tudo que lhe
for exigido. O resto combinaremos no trajeto para Tugla. Vamos, o carro já
espera.
Enquanto os caças espaciais emergiam, um a
um, da Stardust-III, ganhando lentamente as alturas, o maciço tanque se pôs em
movimento. Seu canhão de raios apontava ameaçadoramente o cano espiralado em
direção da cidade. Em seu ventre zumbia o pequeno reator arcônida, fonte de
toda a energia de que necessitava.
Bell indicou o rumo ao condutor, e ligou
para Deringhouse.
— Que está vendo?
— Sobrevoamos o palácio — respondeu
Deringhouse, prontamente. — O movimento lá embaixo é fora do comum, porém não
por nossa causa. De todos os lados, os habitantes da cidade acorrem para o
palácio. Alguns estão armados. Será que foram convocados pelo lorde para
defender o palácio contra nós?
— Sabe lá!... — resmungou Bell, digerindo
a inesperada novidade. Por outro lado, era... estranho. — Continue observando,
e me avise caso aconteça algo importante. Vamos nos apressar.
O trânsito na rua principal
intensificava-se. Bell notou que ninguém se espantava com o súbito aparecimento
do veículo de combate arcônida. Esperara provocar pânico e correrias; no
entanto dava-se justamente o contrário. Os tuglantes, muitos deles de armas na
mão, abanavam e aclamavam o tanque.
Bell voltou-se para Fellmer Lloyd, um dos
mutantes. Lloyd era um localizador. Não um telepata, propriamente; porém era
capaz de captar e analisar o padrão das ondas cerebrais de qualquer ser vivo ao
seu alcance. O que lhe permitia distinguir animosidade, alegria e outras
reações emocionais.
— Lloyd, tente saber o que está havendo
com o pessoal! Por que é que não se assustam com nossa presença? Afinal, deviam
temer que iniciássemos nossa atuação com medidas punitivas.
— Certo, comandante — respondeu o
corpulento americano, concentrando-se.
Os demais mutantes se conservaram calados,
para não perturbá-lo.
Bell aguardava, impaciente.
Depois de dois ou três minutos, durante os
quais o tanque forçava penosamente passagem entre a multidão delirante, Lloyd
descontraiu e informou, sorridente:
— Até onde posso analisar, eles nos
consideram aliados. A disposição de espírito predominante é raiva e ódio, mas
não contra nós. O ânimo é revolucionário. Todos têm lorde Alban em mente, com
irritação e furor. Tencionam invadir o palácio, e acham que viemos para
ajudá-los.
— Rebelião franca, portanto — constatou
Bell. — Os tuglantes querem pôr as coisas em ordem. Nosso aparecimento lhes deu
coragem para isso. Assim sendo, não podemos desapontá-los. E, pelo jeito, eles
sempre souberam que era Alban que queria libertar
Tuglan do império, e não Daros.
Nas proximidades do palácio já havia luta.
Soldados do lorde tinham abandonado o refúgio seguro dos muros do palácio e
tentavam dispersar a multidão. Procediam sem a menor consideração, o que
espicaçava ainda mais os agressores. Já havia mortos de ambos os lados. Os
cidadãos de Tugla estavam mal armados, e muitos deles agrediam os soldados a
socos, com as mãos nuas.
Em algum lugar fez-se ouvir o lamento de
uma sirena. Uma coluna motorizada dobrou a esquina, parando de chofre. Civis
armados saltaram das cabinas, demonstrando logo de início que haviam sido
treinados para escaramuças urbanas. Agitando as armas, gritavam para soldados e
cidadãos:
— Viva lorde Daros! Viva o império! Abaixo
o traidor Alban!
— Viva lorde Daros! — ecoou a multidão,
lançando-se com renovado ímpeto contra os soldados, cuja indecisão aumentava.
Os rebeldes de Karolan tinham entrado em cena.
Bell, entretanto, alcançara o portão do
palácio. Deringhouse informou que no pátio interno haviam sido colocados
pesados canhões de raios, prontos para defender o palácio até o último homem.
Pediu instruções para seus caças.
— Procure atrapalhar os preparativos de
defesa — ordenou Bell. — Mas lembre-se que Rhodan e Crest estão presos lá
dentro. Vou pôr Sengu em ação, a fim de estar devidamente orientado.
O japonês já via. Em voz baixa, informou:
— Crest, Rhodan, Rathon e Marshall ainda
continuam em sua cela; perto deles, o jovem tuglante que supomos ser Daros. Os
guardas estão sendo retirados. Vou procurar Alban.
Os caças mergulharam, alvejando os
soldados no pátio com chuveiros de elétrons. Bell colaborou com o zunir de seu
canhão. O enorme portão que impedia a passagem do tanque começou a arder e
desmoronou. Sem ligar para a temperatura perigosamente elevada, os civis
impacientes se precipitaram pela brecha obtida e invadiram o palácio.
Karolan percebeu que encontraria melhor
oportunidade em outro local. Acenando para seus homens, tomou uma rua lateral,
acercando-se do palácio pelos fundos. Sua coluna motorizada acompanhava-os mais
lentamente. Do alto dos muros partiam tiros isolados, causando pouco prejuízo.
E de repente Gucky tornou a aparecer.
O rato-castor aguardara pacientemente no
carro, até receber o sinal convencionado por Karolan. Depois saltou da cabina e
gingou, muito senhor de si, através das fileiras dos sorridentes rebeldes. Os
demais civis interromperam por instantes seus clamorosos brados, fitando
admirados o esquisito ser que andava ereto como um homem e não demonstrava o
menor medo. Alguns já tinham ouvido comentários acerca dos estranhos
acontecimentos ligados à presença do animalzinho.
Pertinho de Gucky um raio energético
derreteu a pavimentação.
Olhando para cima, o rato-castor avistou
alguns soldados, protegidos pelo muro. Karolan acenou, portanto podia brincar.
De braços estendidos, e gritando em pânico,
os soldados singraram para fora de seu esconderijo; pareciam andorinhas
plantando no vento. Foram cair no meio do bando de rebeldes, onde tiveram
recepção muito pouco amável.
Karolan deu ordem de parar, e apontou para
um portão no muro.
— É aqui — murmurou. — Quem desconfiaria
que pretendemos entrar por aqui? Xaron, a bomba!
— O efeito dela é arrasador, Karolan —
objetou Xaron, preocupado. — Não temos onde nos proteger. Será que Gucky...?
Karolan compreendeu instantaneamente e
chamou Gucky para junto de si.
— Está vendo esta bola preta, Gucky?
Quando eu apertar este pino, restam-nos quinze segundos antes que ela exploda e
destrua tudo ao seu redor. Compreendeu?
Gucky meneou compenetrado a cabeça.
— Sei o que quer. A bola deve ser posta
por trás do portão, para que a explosão empurre o empecilho para fora. Pois
bem, aperte o pino e deixe a bola aí no chão.
Rapidamente Karolan atendeu o pedido de
Gucky, e começou a contar:
— Um... dois... três...
Gucky olhou para a bola. Uma vez que podia
fazer revolutear nos ares automóveis e até veículos blindados, aquela coisinha
não constituiria problema. Sua mente irradiou, e...
— ...seis...sete...oito...
A bomba se ergueu lentamente do chão e
subiu, em direção do beirai do muro. Rostos perplexos acompanhavam lá de cima o
mistério da bola voadora, sem saber interpretá-lo. Os rebeldes esperavam,
prendendo a respiração. Apenas Karolan não se alterava, prosseguindo
imperturbavelmente em sua contagem. Oscilando, a bomba descreveu um círculo em
torno da cabeça de um dos soldados, que tentava desajeitadamente pegá-la.
Depois Karolan e seus companheiros a perderam de vista.
— ...doze...treze.
Sem esperar ordens, o grupo debandou,
colando-se ao muro. O trecho diante do portão ficou vazio. Ninguém queria ser
atingido pelos estilhaços. As fisionomias no alto do muro desapareceram.
— ...catorze...
Gucky sentiu-se agarrado por uma pata, e
puxado para o lado. Perdeu o controle da linda bola, e deixou-a cair. O acaso
providenciou para que ela rolasse exatamente para junto do portão, do lado de
dentro, onde parou.
— ...quinze! — disse Karolan, lançando-se
ao solo, e arrastando Gucky consigo.
Um fulgor luminoso ofuscou por instantes o
sol azul que brilhava no firmamento. Um estrondo ensurdecedor reboou pelas
ruas, quebrando-se contra as paredes das casas. No lugar onde estivera o
portão, via-se agora uma brecha.
— Viva lorde Daros! — berrou Karolan,
pondo-se de pé. — Abaixo Alban, o traidor!
Rebeldes e civis se lançaram para dentro
do palácio.
Com um salto oportuno, Gucky pôs-se em
segurança, pois receava ser esmagado pelos pés dos assaltantes.
Esperou até a rua ficar quase deserta, e
seguiu tranqüilamente os invasores. Lá dentro devia estar seu amigo Rhodan, e
talvez também Bell. Mas primeiro pretendia mostrar ao tal de Alban do que era
capaz. O sujeito ia voar como jamais voara na vida.
E enquanto no pátio do palácio se
desenrolava furiosa luta, Gucky esgueirou-se por uma janelinha do porão para o
subsolo, a fim de procurar Alban e Rhodan.
7
Lorde Alban reconheceu que perdera a
jogada. Um único trunfo lhe ficara ainda nas mãos: os arcônidas aprisionados.
Seus canhões de raios tinham sido
inutilizados pelos ligeiros caças espaciais. Um tanque arcônida penetrara no
pátio interno. Seus soldados se rendiam na primeira ocasião favorável. Rebeldes
e amigos de seu irmão já invadiam as dependências do palácio.
Munindo-se de uma pesada pistola de raios,
Alban deixou a sala de onde dirigira a luta, e tecera suas intrigas. Decidido a
jogar a última cartada, dirigiu-se para o subsolo, a fim de encenar o final do
drama. Mas primeiro ligou o gravador, providenciando para que as palavras que
acabara de lhe ditar fossem reproduzidas por alto-falantes em todo o palácio.
Depois abandonou o cenário.
* * *
Bell escutou a voz do traidor ao
desembarcar do tanque, e avançar na dianteira de seus mutantes para o palácio.
— Caso os arcônidas queiram tornar a ver
vivo seu comandante, devem abandonar imediatamente a luta. Estou com Crest e
Rhodan em meu poder, e vou matá-los se o palácio não for evacuado dentro de cinco
minutos; tanto por rebeldes, como por arcônidas. É minha primeira e última
proposta. Repetindo: Caso os arcônidas...
— Raios! — praguejou Bell, fitando
desalentado Lloyd e Sengu. — Onde está Rhodan? Pode localizá-lo, Sengu?
— Nesta direção! — o japonês apontava
diagonalmente para baixo. — Alban está entrando na cela neste momento. Tem uma
arma na mão. Apontada para Rhodan. Não posso avaliar a distância.
— Vamos! — comandou Bell. Rapidamente
retirou as lentes de contato vermelhas dos olhos. — Vamos lhe mostrar quem
somos! Sengu, corrija o rumo, caso nos desviarmos. Rápido, pessoal!
E, apesar disso, Bell teria chegado tarde
demais, se...
* * *
Rhodan prestava atenção a todo ruído
chegado até sua prisão. Lutava-se lá fora, segundo indicavam os sons que ouvia.
O sibilar dos disparos energéticos misturava-se com gritos de desespero; no
meio disso tudo, o estrondo de uma explosão. Fora bem perto dali. Seguiu-se um
período de silêncio, depois tremenda gritaria. Pés apressados palmilhavam
corredores e salões do palácio. Os tiros rareavam. Uma única vez Rhodan
identificou o zumbido característico de um pulso-radiador. Aquilo devia ser
Bell com seus mutantes.
Depois a voz distorcida de Alban se
projetou num alto-falante próximo. Difundia sua última mensagem.
— Bem, a situação foi decidida; menos a
nossa, que ainda está por resolver. Alban vai querer nos matar, caso não nos
possa utilizar como reféns. Crest, deite-se na cama, e fique quieto. Eu falo
com Alban. Marshall, fique junto da porta, e tente sujeitar Alban quando ele
entrar. Rathon, mantenha-se passivo também. Entendido?
— Não vai adiantar; não temos armas —
discordou Crest. — Como pretende se impor diante de um fuzil de raios?
— Veremos, Crest. Quem desanima facilmente
não é digno de governar um império.
Por alguns segundos, o arcônida encarou
fixamente Rhodan; depois acenou devagar, compreensivamente. Em silêncio se
estendeu sobre a cama. Tinha a testa coberta de suor.
Marshall, que Rhodan livrara das amarras,
levou menos tempo para compreender. Com ar decidido postou-se ao lado da porta.
Passos se aproximavam.
“Pensando
bem”, considerou Rhodan, “é a
primeira vez na vida em que estou diretamente exposto à morte certa. Não posso
reagir, e estou nas mãos de um alucinado, que nada lucraria ou perderia se eu
morresse. Minhas chances são mínimas, muito mais reduzidas do que meus três
amigos imaginam. A rigor, não temos chance alguma. Foi rematada tolice e
presunção nos colocarmos espontaneamente em tal situação.”
Os passos se detiveram junto da porta. Uma
chave tiniu.
“É
agora”, pensou Rhodan, serenamente. “Chegou
o momento de saber se seremos capazes de sair desta encrenca; se somos bastante
rápidos; se podemos tapear Alban. Basta ganhar tempo, até Bell chegar. Bell é
agora nossa derradeira esperança.”
A chave girou na fechadura, e um pontapé
escancarou a porta. A primeira coisa que Rhodan viu foi o cano espiralado de
uma arma de aparência ameaçadora, apontado diretamente sobre sua pessoa. Por
trás dela estava Alban, com o dedo no disparador.
— Vejo apenas três arcônidas — disse o
lorde, com surpreendente calma, mas sem se aproximar mais. — Onde está o quarto
homem? Atrás da porta? Caso ele não apareça imediatamente, eu atiro.
Diante do gélido olhar de Alban, Rhodan
viu que ele falava sério. Sendo telepata, Marshall ainda demorou menos a
perceber o perigo iminente. Dando de ombros, conformado, deixou seu esconderijo
e se colocou ao lado de Rhodan.
Alban sorriu, satisfeito, e agitou o cano
da curta espingarda em círculo.
— Devem ter escutado minha proclamação. A
vida de vocês contra a minha. Vocês não têm outra escolha!
— Está desafiando o império! — avisou
Rhodan, para ganhar tempo. Bell já devia se encontrar dentro do palácio. Talvez
um dos mutantes conseguisse se apossar da mente de Alban em tempo.
— Um de vocês vai subir, a fim de transmitir
a ordem de Rhodan de abandonar o palácio. E você, caro arcônida, vai comigo até
o hangar secreto debaixo do telhado, onde guardo meu pequeno foguete. Assim que
eu levantar vôo, estará livre. John Marshall interrompeu:
— Tapeação, comandante; ele pretende
fuzilá-lo antes de se evadir.
— Exatamente o que eu pensava — disse
Rhodan, calmamente. — E então, Alban?
Por um instante, o lorde ficou confuso;
depois sua fisionomia se contorceu num esgar de fúria. Do corredor vinha um
ruído arrastante, entremeado com as pisadas de patas fofas. John Marshall disse
em inglês:
— Alguém se aproxima; posso captar seus
pensamentos. Pensamentos muito esquisitos. Meu Deus, é Gucky! Procura por nós!
“Ganhar
tempo”, pensou Rhodan, frenético. “Talvez
o rato-castor seja de alguma utilidade. Mas como é que ele sabia...?”
— Responda! — berrou Alban, manuseando o
disparador de sua arma. No estado presente, o tuglante era extremamente
perigoso, apresentando as reações de um doente mental. Impossível prever o que
faria no instante seguinte. — Responda, ou é o fim!
Rhodan sentiu a febril expectativa dos
companheiros. Apurou o ouvido, mas não escutou mais nenhum ruído no corredor.
De muito longe vinham brados surdos e abafados. Uma porta bateu, e o som
parecia uma detonação.
— Quem deve acompanhá-lo? — perguntou a
Alban.
O lorde pareceu se distender com as
palavras de Rhodan, porém logo a desconfiança venceu; novamente seus dedos se
crisparam sobre a arma.
— Está querendo me iludir, arcônida.
Talvez fosse melhor matar vocês todos agora mesmo. Vou...
Então aconteceu o que Rhodan esperava
ansiosamente.
Lorde Alban sentiu-se atingido por um soco
invisível nas costas; seu fuzil declarou independência, subindo inapelavelmente
para o teto, que ficava a uns cinco metros do piso do corredor.
Alban não concebia que seu fuzil pudesse
voar, porém de maneira nenhuma queria ser privado dele. Portanto, agarrou-se à
arma com todas as forças, e foi içado para cima junto com ela. As pernas
balançaram desesperadamente no ar ao perder contato com o chão. O lorde estava
como que suspenso numa barra de ginástica, que cordas invisíveis puxavam para
cima.
Depois o fuzil tocou no áspero teto de
pedra, imprensando as mãos do tuglante. Com um grito de dor, Alban se soltou, caindo
para baixo. Três metros não eram altura muito considerável, porém Alban torceu
o corpo durante a queda; quando seus pés bateram violentamente no chão, fazendo
o tronco vergar, o crânio foi impelido contra uma ponta de rocha saliente na
parede. Um baque surdo, e Alban se abateu no solo sem um gesto.
Rhodan chegou tarde demais; um olhar
bastou para constatar que Alban estava morto.
Escutando um ruído às costas, voltou-se e
deu com os olhos castanhos de Gucky. A expressão canina de seu olhar refletia
satisfação e confidencia. Acocorado no meio do corredor, o rato-castor
guinchou, entusiasmado:
— Abaixo o traidor Alban! — num gorgeio
alegre, terminou: — Viva o Império e Daros, o novo lorde!
Crest, Rathon e Marshall tinham deixado
igualmente a cela. Aos poucos, a tensão se dissipava. Crest sorriu debilmente.
— Realmente, o socorro chegou no último
momento...
— É, foi por pouco — concordou Rhodan. —
Mas quando deixarmos Tuglan, vamos com a certeza de ter deixado o cargo de
lorde nas mãos certas. Porém ainda nos falta achá-lo.
Passos cada vez mais enérgicos e decididos
se aproximavam. Depois uma voz familiar gritou:
— Tem que ser aqui! Naquela porta! Que
disse, Sengu? O quê? O diabo daquele rato? Com Rhodan? Essa não! Eu não
agüentaria ver aquele bicho xereta chegar na nossa frente!
O corredor foi inundado de luz. Bell se
precipitou por ele, estacando abruptamente ao ver o grupo em torno de Rhodan.
Com os punhos cerrados, ameaçou Gucky, que se deixava acariciar por Rhodan.
— Rato miserável! Sempre querendo me
passar a perna, não é? Espere só! Você vai é virar ensopado para o jantar!
Pôs-se a protestar furiosamente quando
começou a flutuar. Quando suas costas tocaram as pedras do teto, Gucky
guinchou:
— Deixo você morrer de fome aí em cima, se
não tomar jeito. Como é? Vai ser bonzinho?
Bell grunhiu algo incompreensível. Os
mutantes, que já haviam alcançado os demais, desataram em gargalhadas, imitados
por Rhodan.
O japonês Sengu sugeriu:
— Devíamos ir libertar Daros. Está na cela
ao lado. Também existem outros prisioneiros trancados aqui embaixo.
O grupo se desinteressou de Bell, que
remava desamparado com os braços e as pernas. Ele acabou descendo de qualquer
jeito pela parede.
Raios energéticos fundiram a fechadura da
cela vizinha. Instantes após, retiravam o intimidado Daros do escuro recinto.
* * *
A Stardust-III decolou já no dia seguinte.
Rhodan recebera dos robôs do comissário as coordenadas exatas, indispensáveis
para o salto a Vega. Ordenou-lhes guardar rigoroso sigilo a respeito. Sabia que
podia confiar nos autômatos; sua hierarquia arcônida era superior à de Rathon.
A população de Tuglan e dos planetas
unidos do sistema Laton aclamara Daros como novo lorde. Um tratado comercial
foi assinado com Crest, como representante de Árcon; entraria em vigor
posteriormente.
A Rathon foi prometida, em futuro próximo,
nova hiperestação radiofônica, para que pudesse novamente se comunicar com o
império. Só que Rhodan não especificou o prazo exato para cumprimento da
promessa.
Enquanto o planeta Tuglan mergulhava nos
abismos do espaço, e a Stardust-III se lançava para o ponto de transição,
Rhodan teve a cautela muito especial de manter Gucky ao seu lado na central de
comando, além de Crest, Thora e Bell.
Os últimos minutos se passavam.
— Pensando bem — comentou Bell, após longo
período de evidente reflexão — esta aventura não nos valeu de nada. Tempo
totalmente perdido... Tuglan não tem relação alguma com nossa busca ao planeta
da vida eterna; ou será que o problema dos tuglantes fazia parte da charada galáctica?
— Se fazia, só indiretamente — replicou
Rhodan, pensativo. — Mas acho que se engana ao qualificar de inútil nossa
aventura em Tuglan. Afinal, reconquistamos um sistema para os arcônidas. Sem
esta nossa escala intermediária, Alban teria executado seus planos. E o império
perderia Tuglan.
Bell sorriu sarcasticamente.
— E como foi Gucky que provocou este pouso
não previsto, o Grande Império arcônida na certa lhe creditará o mérito do
caso.
Rhodan acenou com incomum gravidade.
— E por que não? Confesso que Gucky nos
colocou em sério risco, mas ninguém pode negar que ele cooperou decisivamente
para nos safar novamente dele. Sem Gucky, talvez eu estivesse morto agora.
Inclinou-se e alisou o pêlo do
rato-castor.
Gucky ronronou como um gatinho contente.
Thora interveio, dizendo:
— Em Vega estaremos em condições de
calcular a posição do planeta imortal. E sairemos à procura dele sem perder um
segundo. Minha paciência tem sido submetida a dura prova até agora.
— Está sendo injusta, Thora —
manifestou-se Crest, tomando surpreendentemente a defesa de Rhodan. — A ordem
foi restabelecida em Tuglan, e testemunhamos pessoalmente a rapidez com que os
terranos conseguiram isso. Representam poderosos aliados para a conservação de
nosso desmoronante império estelar. Confio em Rhodan, e sei que algum dia ele
nos levará a Árcon. Mas compreendo, igualmente, que precisamos aguardar a hora
propícia para isso. Por enquanto, ela ainda não chegou.
Com um breve aceno para Thora, Crest
deixou a central de comando, dirigindo-se para sua cabina. A arcônida relanceou
um olhar dúbio por Rhodan e Bell, e imitou-o em silêncio.
A luz verde brilhou. Aproximavam-se do
ponto de transição. Rhodan inclinou-se para Gucky.
— Nada de tolices agora, Gucky! Você é
nosso amigo, não é? Reconhece-me como comandante? Pois então tem que me
obedecer. Lembre-se: nada de brincadeiras!
Rhodan levou a mão à alavanca.
— A você eu obedeço, comandante Rhodan —
chilreou Gucky, segundos antes da transição que os transportaria, através de
trinta e cinco mil anos-luz, até Vega. — Mas recuso aceitar ordens desse
monstro de cabelos ruivos sentado ao seu lado...
E enquanto os cabelos de Bell se ericavam
furiosamente, Rhodan acionou a alavanca.
Desta vez sabia que não ocorrera erro
algum.
* * *
Gucky, o
inteligente ser peludo do planeta Vagabundo, colocara Perry Rhodan em sérias
dificuldades. Porém ninguém podia recriminar Gucky, pois ele, por sua vez,
cooperou decisivamente para a regularização da situação em Tuglan, compensando
seu erro.
E, em
última instância, aquele interlúdio em Tuglan deu a Perry Rhodan oportunidade
de provar perante os arcônidas suas honestas intenções.
E agora
Rhodan se aproxima inapelavelmente de seu objetivo — onde O
Imortal o aguarda...
O Imortal é também o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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