domingo, 7 de outubro de 2012

P-002 - A Terceira Potência - Clark Dalton [parte 2]


Ainda havia uma terceira possibilidade. Mas essa era tão fantástica que quase não podia ser considerada seriamente. Apesar do seu extraordinário amor aos animais — alguém já o vira tirar uma minhoca do anzol de um pescador estarrecido, pousando-a cuidadosamente no solo — Mercant raciocinava com uma frieza tremenda. Sua vida consistia em fatos, dados, relatórios e normas.
Todavia...
Não chegou a concluir seus pensamentos. A fita gravada chegara ao fim. O general esticou o queixo e olhou para Lehmann
— Então, professor? O que me diz? Acha que o major Rhodan é um traidor?
— Um traidor? Quem teve essa idéia maluca?
Pounder lançou um olhar significativo em direção a Mercant.
— Foi só uma pergunta, professor. O que irá importar é sua opinião a respeito do anteparo energético e do resto.
— A eliminação da gravidade? Ambas as coisas representam uma utopia inatingível com os meios de que dispomos. Os asiáticos inventaram uma fábula bonita que lhes sirva de pretexto para ficarem com a Stardust. Aposto que amanhã informarão que a nave não poderá ser entregue por ter sido destruída.
Mercant aprovou com um aceno de cabeça.
— Muito bem pensado — disse. — Quando me aposentar, sugerirei o senhor como meu sucessor.
— Agradeço — retrucou seriamente o professor Lehmann. — Prefiro acompanhar a viagem a Marte. Não há dúvida de que a Stardust conseguiu pousar em boas condições. Se não fosse assim, a manobra de despistamento seria inútil. Se soubéssemos as causas, tudo estaria esclarecido; Para um bom serviço secreto isso não devia ser nenhum problema.
O golpe, desferido como se fosse por acaso, atingiu o alvo. O rosto de Mercant ficou vermelho. A expressão branda desapareceu subitamente. Seus olhos adquiriram uma expressão dura. Levantou-se sem fazer caso dos gracejos do general.
— O senhor ainda se surpreenderá com a eficiência do nosso serviço secreto — disse a Lehmann, enquanto se dirigia para a porta. — General, faça o favor de me avisar assim que haja noticias de Washington. Até logo, cavalheiros.
Fechou ruidosamente a porta. O professor Lehmann lançou um olhar de espanto para Pounder.
— O que será que houve com ele? Por que anda tão sensível?
— O senhor o atingiu no seu orgulho profissional. — Pounder sorriu; parecia muito satisfeito. — Bem feito! Quem manda tratar qualquer pessoa que não seja um dos seus espiões como um homem de categoria inferior? Bem, agora que ninguém nos incomoda mais, diga-me, com toda sinceridade, professor, qual é sua opinião a respeito de tudo isso?
Lehmann inclinou-se para a frente. Pounder continuou:
— Acho que estamos de acordo em que o major Rhodan está acima de qualquer suspeita. O que aconteceu no deserto de Gobi?
O professor Lehmann sorriu. Seu olhar perdia-se através da janela, contemplando o horizonte. Sem olhar para o general, comentou:
— Talvez seja conveniente, meu caro Pounder, reformular a parte geográfica da pergunta. O correto é: o que aconteceu na Lua?
Pounder arregalou os olhos.


Depois de ter desembarcado do Stratoliner em Pequim, o major Perkins dirigiu-se a um hotel de primeira categoria. Poucos minutos depois, um dos agentes do seu país forneceu-lhe o endereço de uma firma que trabalhava para o governo. Telefonou ao procurador e combinou um encontro.
Nos documentos do agente, constava o nome Alfons Hochheimer, e a profissão de engenheiro de minas. Segundo os dados do passaporte, encontrava-se na Federação Asiática há mais de dez anos e já trabalhara várias vezes para empresas estatais de mineração.
Na sala de recepção da empresa, decorada em estilo ultramoderno, um chinês trajado à européia recebeu-o com um sorriso imperscrutável.
— É o senhor Hochheimer, não? Meu nome é Yen-Fu. Posso lhe ser útil em alguma coisa?
— Tive conhecimento de que sua firma participa da exploração de regiões economicamente pouco interessantes — disse Perkins, enquanto apertava a mão que o outro lhe estendia. — Já tive oportunidade de pesquisar trechos extensos do deserto de Gobi, a serviço de outras empresas. Conheço um lugar em que há possibilidade de se encontrar urânio, desde que as pesquisas alcancem uma profundidade suficiente.
O sorriso de Yen-Fu tornou-se ainda mais intenso.
— Urânio no deserto de Gobi? O senhor deve estar enganado! Já enviamos várias expedições para lá, mas nenhuma delas teve êxito.
A essa altura, também no rosto de Perkins via-se um sorriso misterioso.
— Acontece que os participantes das suas expedições não possuíam os instrumentos de busca de que disponho, senhor Yen-Fu. Já ouviu falar na sonda de Spielmann?
O chinês sacudiu a cabeça.
— Não. Para ser sincero, nunca ouvi falar. Perkins não se admirou com a resposta. Acabara de inventar o nome.
— É lamentável, senhor Yen-Fu, muito lamentável. Spielmann é um dos cientistas mais conceituados do mundo ocidental. As grandes descobertas de urânio no continente americano foram devidas ao seu invento. Disponho de um dos seus modelos mais recentes.
Apesar do terno sorriso, o rosto do chinês passou a revelar uma certa dose de desconfiança.
— Não é americano?
— Não, sou alemão. Mas encontro-me na Federação Asiática há mais de dez anos. Aqui estão os meus documentos. Espero que os mesmos o convençam da sinceridade da minha proposta.
O procurador examinou cuidadosamente aqueles documentos. Falsificados com perfeição extrema. Não encontrou nada de anormal, e devolveu-os a Perkins.
— Sabe onde se poderia encontrar urânio no deserto?
Perkins confirmou com um aceno de cabeça.
— Existe quantidade suficiente para abastecer vinte usinas por cem anos. É claro que o material também pode servir para outra coisa — disse com um sorriso significativo.
— Queira esperar.
Perkins esperou. Mas não o deixaram esperar por muito tempo. Falou com o diretor da firma. Depois com um funcionário categorizado do governo. Finalmente falou com o piloto do avião que devia levá-lo juntamente com os membros da comissão à região em que se encontravam as pretensas jazidas de urânio.
— O senhor traz consigo essa sonda? — perguntou Yen-Fu curioso. — Ela permite a leitura imediata dos resultados?
Perkins lembrou-se da caixinha metálica bem concebida. No seu interior havia uma bateria e alguns fios, e do lado de fora várias escalas e botões. Confirmou com um aceno de cabeça.
— É claro que sim. Não viria a sua presença sem o equipamento necessário. Quando partimos?
— Daqui a uma hora, se estiver de acordo. Ainda estamos aguardando a confirmação definitiva da repartição competente.
“Tomara que isso acabe bem!”, pensou Perkins. Mas dificilmente conseguiriam descobrir sua verdadeira identidade, pois seus documentos eram melhores que os de qualquer chinês. Todavia...
Perkins tomou um refrigerante no café situado do outro lado da rua. Deu algumas moedas a um mendigo, que lhe queixou suas mágoas com voz rouca e estridente, afirmando que tinha filhos menores para sustentar. O homem fez várias mesuras e, subitamente, entremeou seus agradecimentos com algumas palavras bem mais sugestivas.
— Não conhece mais os amigos, meu velho? Por que será que Mercant resolveu enviar justamente você? O representante do governo que viajará no avião é um dos nossos. Trate-o bem. Oh, pai dos justos, exemplo celestial de misericórdia humana, receba mil agradecimentos pelo seu gesto bondoso. Meus filhos pedirão pelo senhor junto aos antepassados. Que os deuses da fecundação abençoem o senhor, que dispensou a um indigno como eu a graça de poder beijar seus pés...
Perkins piscou para o mendigo. Depois virou-se com um gesto de desprezo. Atirou uma moeda sobre a mesa e saiu do café.
O avião era um pequeno jato particular. Além do piloto viajavam um representante do governo, um engenheiro e Perkins. O luxo da pequena cabine indicava que o aparelho se destinava a finalidades especiais. Era dotado de deslizadores que permitiam o pouso em terreno irregular e mesmo na água, pois os flutuadores esguios impediriam seu afundamento.
As turbinas uivaram, mas o ruído foi se tornando praticamente imperceptível à medida que o avião ganhava altitude.
Abaixo deles, Pequim foi desaparecendo. O aparelho tomou o rumo oeste. As planícies férteis foram ficando para trás. Surgiram as primeiras montanhas e, depois, o deserto cinzento e tórrido.
O representante do governo inclinou-se para frente e bateu no ombro do engenheiro que estava sentado perto de Perkins.
— Onde fica a região, Lan-Yu?
— A leste de Sutschou, nas proximidades do lago salgado de Goshun. Mais ou menos no lugar em que teria descido a nave espacial americana.
— São boatos — disse o engenheiro. Virou-se e sorriu. — O senhor não acha?
— É claro que são boatos.
Com cerca de hora e meia de vôo, já tinham percorrido cerca de 1.300 quilômetros. Foi quando o piloto abriu a portinha minúscula que dava para a cabine e disse:
— A Diretoria de Controle de Vôo de Pequim acaba de dar ordem para regressar imediatamente. É proibido sobrevoar a área que fica situada entre Ordos, Schan-Si, a serra de Nan-Schan e Ning-Hsia. O lago de Goshun fica exatamente no centro dessa área. Não informaram o motivo da proibição.
Lan-Yu lançou um olhar em direção ao representante do governo.
— O que significa isso? Pois o senhor obteve autorização do governo para acompanhar-nos neste vôo. E devia saber que...
— Prossiga e desligue o equipamento de rádio — ordenou o representante do governo. — Não siga as instruções.
— Tenho de deixar o receptor ligado por causa das comunicações sobre o tempo. Além disso sou obrigado a transmitir nossa posição de cinco em cinco minutos.
O representante do governo olhou para Perkins. Este deu um aceno de cabeça quase imperceptível e colocou a mão no bolso do casaco.
— Desligue o equipamento — voltou a ordenar o comissário. — Peço-lhe encarecidamente que daqui por diante se atenha estritamente às minhas instruções. Se não o fizer, as conseqüências correrão por sua conta. Não se esqueça que represento o governo. Desça junto ao lago de Goshun. Quanto tempo ainda levará para chegar lá?
O piloto hesitou por um instante. Depois lançou um olhar para o painel de instrumentos: — Dez minutos — respondeu.
— Daqui a oito minutos deveremos iniciar a manobra para aterrissagem. Até lá nada de mudanças de rumo. Entendido?
— A responsabilidade será sua — disse o piloto, enquanto confirmava com um movimento de cabeça, e desapareceu.
O engenheiro Lan-Yu acompanhara o diálogo sem dizer uma palavra. O sorriso desaparecera do seu rosto. Seus olhos oblíquos estreitaram-se ainda mais. Percebeu que Perkins, ou melhor, Alfons Hochheimer ainda estava com a mão no bolso.
— Por que não segue as instruções do governo? — perguntou, falando devagar. — Não vamos criar problemas? A proibição deve estar relacionada com a nave espacial pousada na área.
— Não tenho a menor dúvida — disse o representante do governo. — Mas não se preocupe. Sei perfeitamente o que estou fazendo.
— Para mim nada importa desde que encontremos o urânio — disse Lan-Yu. Passou os olhos pela impressionante caixinha metálica que se encontrava no assento vago junto a Perkins. O aspecto da mesma era tão impressionante que convencera o chefe da firma. — Só faço votos de que realmente o encontremos.
Dali a cinco minutos o piloto voltou a aparecer.
— Temos um avião da Força Aérea à nossa frente. Está dando ordem para regressarmos.
— Como é que o senhor vai saber disso, se não mantém qualquer comunicação com eles?
— Tiros de advertência! — disse o piloto em tom seco. Aparentemente ele não conhecia o medo.
— Ligue o aparelho de rádio. Irei até aí.
O representante do governo lançou um olhar significativo para Perkins. Depois, foi à carlinga apertada, fechando a porta atrás de si.
Perkins tirou a pistola automática do bolso e apontou-a para Lan-Yu.
— Por acaso tem uma arma?
O engenheiro quase chegou a engasgar de susto. Arregalou tanto os olhos que eles quase ficaram redondos. Sacudiu a cabeça, enquanto fitava o orifício negro do cano da arma.
— O que deseja que eu faça? — balbuciou.
— Quero que fique bem quietinho, com a boca fechada. Se fizer de conta que nem existe, poderá sair são e salvo desta aventura. Senão...
O silêncio significativo deixou a alternativa em aberto.
— Mas, o senhor sozinho não vai conseguir...
— Não estou só. E agora não diga mais uma única palavra. Devemos aterrissar daqui a pouco.
Na verdade, o avião começou a descer. O avião militar se afastara, depois de trocadas algumas mensagens radiofônicas. Atravessaram a barreira aérea da Federação Asiática e passaram bem baixo por cima de algumas formações de tanques que recuavam. Subitamente, avistaram a Stardust bem à frente, junto à desembocadura do Morin-Gol.
A nave espacial parecia solitária e abandonada.
Não se via qualquer sinal de vida perto dela. Apenas, bem alto, um pontinho minúsculo destacava-se contra o céu azul. Descrevia círculos como se fosse uma ave de rapina que, a qualquer momento, precipitar-se-ia sobre sua vítima.
Nem Perkins nem o outro agente que se encontrava em sua companhia sabiam que esse ponto minúsculo era um bombardeiro da Federação Asiática levando uma bomba atômica que seria lançada contra a nave.
— Onde vamos aterrissar? — perguntou o piloto. O representante do governo, que era um dos membros mais competentes do serviço de espionagem ocidental, apontou para o lado.
—Ali no deserto, perto da nave espacial. Faça o avião parar a menos de cem metros da Stardust. Entendido?
O piloto confirmou com um movimento de cabeça. Descreveu uma curva bem ampla e preparou-se para aterrissar. O aparelho foi descendo sobre o deserto. A altitude não ultrapassava algumas centenas de metros. A distância que os separava do ponto em que se encontrava a nave foi diminuindo vertiginosamente. Faltavam poucos quilômetros...
Nesse meio tempo, a bomba lançada pelo outro avião foi caindo. O pontinho minúsculo parou de descrever círculos e foi se afastando em linha reta. Portanto, havia dois objetos que se aproximavam da Stardust.
Perkins foi à carlinga, depois de ter amarrado Lan-Yu na sua poltrona. O avião deslizou pelo solo pedregoso em velocidade vertiginosa. Quando se encontrava a pouco mais de dois quilômetros da Stardust, um segundo sol surgiu repentinamente dois mil metros acima da nave. O cogumelo atômico chamejante, que se ergueu a pouquíssima distância e cujos gases incandescentes deslizaram pela cúpula invisível, cegou seis pares de olhos.
Ainda chegaram a sentir o choque produzido pelo embate contra o anteparo energético.
Depois, não houve mais nada...


— Ei, Perry! Pounder está no aparelho. O homem está muito nervoso.
Rhodan acenou a cabeça para Crest, com quem estivera conversando.
— Com licença, Crest. Pretendo esgotar todas as possibilidades.
No caso, a expressão “está no aparelho” era a menos adequada. A comunicação visual através do satélite era perfeita. O rosto de Pounder na tela era tão nítido como se estivesse olhando por uma janela. Os asiáticos não interferiam mais nas transmissões, o que era sinal de que não mais sabiam o que fazer.
Bell inclinou-se ligeiramente e fez um gesto em direção à tela.
— Permita que o apresente: é o general.
Perry empurrou-o para o lado.
— General Pounder, comunico nosso retorno da expedição lunar. A tripulação está bem. A Stardust não está em condições de decolar em virtude de defeitos mecânicos. Missão cumprida. Os resultados das pesquisas científicas serão encaminhados ao professor Lehmann.
O general respirava com dificuldade.
— Rhodan, o senhor enlouqueceu? Quer fazer o favor de explicar o motivo que o levou a pousar no deserto de Gobi? O mecanismo de controle remoto falhou? Podia ao menos ter tentado descer no oceano.
— O pouso neste local foi proposital.
— O quê? — o rosto de Pounder adquiriu uma tonalidade vermelha bem viva. — O que está dizendo? Foi proposital? Major Rhodan, o senhor não vai me dizer que...
— Não vou dizer coisa alguma. Pelo menos, não o que o senhor está pensando. Procurarei explicar...
— Não há nada a explicar — berrou Pounder a plenos pulmões. — O senhor vai destruir imediatamente a Stardust por meio da carga explosiva e entregar-se às Forças da Federação Asiática. Entendeu?
Um brilho gélido surgiu nos olhos de Rhodan.
— Entendi, general. Mas não cumprirei suas ordens.
— Não vai cumprir a ordem? — Pounder oferecia um quadro assustador. O vermelho do seu rosto tornou-se mais intenso. Bell, instintivamente, abaixou-se como se temesse que a cabeça que aparecia na tela fosse explodir. — Major Rhodan, ordeno-lhe que...
— General, permita-me dizê-lo que já não sou mais major, e, por isso, nego-me a receber ordens do senhor. Como vê, removi os distintivos do meu uniforme. Se permitir, começarei a explicar.
O rosto do professor Lehmann tinha surgido perto de Pounder. Nos seus olhos havia um brilho de curiosidade.
— Rhodan, será que nas crateras da Lua existem vestígios de atmosfera e até mesmo restos de...
— Silêncio! — berrou Pounder e empurrou o cientista para o lado. — Fale, Rhodan! E procure ser convincente, pois suas palavras decidirão se dentro de dez horas teremos guerra ou não. A Federação Asiática está convencida de que a Stardust não passa de uma base americana colocada intencionalmente em seu território. Se não for abandonada até amanhã, as relações diplomáticas estarão rompidas. Acho desnecessário salientar quais as conseqüências que advirão deste fato, caso ele seja concretizado.
— Então as coisas já chegaram a este ponto? — murmurou Perry assustado. — Nesse caso, não temos um segundo a perder. Preste atenção, general. Pousamos na Lua, conforme previsto, e descobrimos os restos de uma civilização extraterrena. Não posso dar-lhe detalhes de tudo o que encontramos, mas algumas indicações serão suficientes. Para tranqüilizar o professor Lehmann, diga-lhe que a Lua nunca foi habitada, mas, há muito tempo, posou lá uma nave exploradora tripulada por membros de uma civilização interestelar. Esta nave ainda está intacta e em seu bojo existe um arsenal que daria para destruir não apenas a Terra, mas todo o sistema solar. Raios mortíferos e anteparos energéticos, neutralizadores da gravidade e campos anti-neutrônicos capazes de impedir toda e qualquer explosão atômica são apenas alguns exemplos. Além disso, existem armas manuais, cujos efeitos o senhor nem seria capaz de imaginar. General, o senhor há de compreender que eu não estava disposto a colocar esse poder tremendo nas mãos de qualquer das nações da Terra.
De um golpe, Pounder recuperou o sangue-frio.
— Acontece que pousou no território da Federação Asiática. Há outras pessoas que estão escutando nossa palestra. Logo, todo mundo saberá o que o senhor descobriu na Lua. Expedições serão enviadas para lá e haverá uma corrida frenética que decidirá quem há de dispor do poder final. O senhor devia ter ficado calado.
— Quero que todo o mundo saiba — disse Rhodan, sacudindo a cabeça. — Além do mais, ninguém pousará na Lua, a não ser que eu queira. Não se preocupe, general, pois os asiáticos não conseguirão estas armas. Os russos e os americanos também não. Só eu disponho delas. E cuidarei para que ninguém inicie uma guerra que os destruiria a todos.
— O senhor?
Estas palavras foram proferidas com tamanho desprezo que Rhodan ficou rubro de raiva. Recuou um passo e fitou o general com olhos frios.
— Eu, sim! O senhor já devia ter compreendido que a política falhou. Há séculos os governos tentam evitar a guerra quente. Uma ameaça segue-se a outra, uma conferência a outra. A culpa não é apenas do bloco oriental e da Federação Asiática, mas também do bloco ocidental. Ninguém quer ceder; todos continuam a se armar. Os foguetes com cargas atômicas estão estacionados em todos os pontos do globo. Basta comprimir um botão para dispará-los, o dispositivo automático de que são dotados os conduzirá ao alvo. Todavia, antes que possam atingi-lo, as armas de retaliação serão acionadas do lado oposto. Os povos de ambos os lados do mundo praticamente deixarão de existir no mesmo instante. Há decênios defrontamo-nos com essa visão macabra. Ninguém conseguiu conjurar o perigo. Até hoje apenas o equilíbrio de forças tem impedido a guerra. Mas, ai de nós se um dos lados se tornar mais forte. Ver-se-ia obrigado a destruir o outro lado para viver em paz. Nós faríamos isso, da mesma maneira que os asiáticos. Compreende por que nenhum dos blocos deve pôr as mãos na Stardust, que tem a bordo algumas das armas extraterrenas?
Ouviu-se a respiração pesada do general.
— O senhor poderia ter prestado um serviço inestimável ao seu país se...
— Se tivesse levado as armas para Nevada Fields? Está enganado, general. A Federação Asiática e o bloco oriental sentir-se-iam tão ameaçados que se lançariam a uma guerra de extermínio contra o bloco ocidental. Não poderiam agir de outra forma. Seria o fim da nossa civilização. De qualquer maneira, agirei de acordo com um plano que tracei, quer o senhor aprove, quer não.
— Que plano é esse?
— Formarei uma terceira potência, que será neutra, ficando eqüidistante dos blocos que se defrontam sobre a Terra. Estamos em condições de transformar qualquer foguete atômico que seja disparado em um projétil inofensivo. Qualquer bomba atômica estalará no ar sem produzir o menor efeito, como se fosse fogos de artifícios. Repelirei qualquer ataque dirigido contra a Stardust parta de onde partir. Vou...
Perry Rhodan parou de falar. Atrás dele, ouviu-se um ruído. Virou-se. Bell segurava o braço de Fletcher que entrara na sala de rádio.
— Não caia na conversa dele, general! — gritou Fletcher. — Ficou doido. Os arcônidas com suas idéias decadentes fizeram com que enlouquecesse. Opus-me à aterrissagem neste local. Mas ele me ameaçou com a pistola. É um amotinado.
Perry fez um sinal a Bell e deixou que Fletcher terminasse. Finalmente, aproximou-se dele e colocou-lhe a mão sobre o ombro.
— Escute, Fletcher. O general pode ouvir o que tenho a dizer. Talvez agisse da mesma forma se fosse você. Acontece que não sou. Você é livre para deixar a Stardust assim que o deseje. Não prendo ninguém. Mas quero que, antes de ir embora, confirme perante o general Pounder que na Lua encontramos armas que nos permitem controlar o mundo. Não lhe diga mais nada, só isso.
Fletcher hesitou. Fitou os olhos ameaçadores de Bell. O técnico tinha na mão o bastão prateado do irradiador psíquico. Perry lançou-lhe um olhar quase gentil. Na tela, o rosto de Pounder espreitava a cena.
Confirmou com um aceno de cabeça.
— É verdade, general. Se Rhodan quiser, pode destruir o mundo.
Abaixou a cabeça, virou-se e saiu da sala. Rhodan, suspirando aliviado, dirigiu-se ao general.
— General, além do senhor, os homens que tomam as decisões no bloco oriental e na Federação Asiática ouvirão as minhas palavras. Quero acrescentar apenas o seguinte: a extensão territorial da terceira potência é muito limitada. Não deixe que este fato o engane. Cumpram os meus desejos. E não se atrevam a levar ao extremo as suspeitas que nutrem um contra o outro. Acho que, a esta altura, já devem ter compreendido que a Stardust não é uma base americana. Por outro lado, não pousou aqui para cair nas mãos da Federação Asiática. E o bloco oriental terá de abandonar as esperanças de colher os despojos do conflito entre os dois outros blocos. Os senhores poderão se comunicar comigo a qualquer momento nessa faixa, e também usarei a mesma quando tiver que entrar em contato com os senhores. Lamento o ocorrido, general, mas acho que um dia o senhor me compreenderá. Por ora só posso pedir que me desculpe.
Pounder fitou os olhos de Perry Rhodan, depois acenou com a cabeça.
— Parei o possível, Rhodan. E espero em Deus que Mercant concorde. O senhor o conhece!
Um sorriso estranho passou pelos lábios de Rhodan. Ele compreendeu a advertência, mas esta já não o assustava mais. Mercant passara a ser apenas um homem.
E Perry Rhodan não mais temia os homens.


De Washington para Pequim:
Conseguimos estabelecer contato com a Stardust. Comandante Rhodan afirma estar de posse de armas incríveis que teriam sido levadas à Lua por uma potência extraterrena. Já não temos a menor influência sobre os acontecimentos. Solicitamos seu pronunciamento.
De Pequim para Washington:
Acompanhamos palestra visualizada entre General Pounder e Rhodan. Explicações inverossímeis — muito fantásticas. Ultimato fica de pé. Prazo se esgotará daqui a sete horas.
De Moscou para Washington:
Participamos da opinião do governo da Federação Asiática. Também consideramos a presença de uma base americana no deserto de Gobi como uma ameaça à paz mundial. Mas, no caso de um conflito armado, Moscou se conservará neutra.
De Moscou para Pequim:
Concordamos com a opinião do governo da Federação Asiática. Também consideramos a presença de uma base americana no deserto de Gobi uma ameaça à paz mundial.
De Washington para Pequim e Moscou:
Voltamos a afirmar que o governo de Washington não tem conhecimento de uma base americana no deserto de Gobi. Ordenamos à tripulação da nave Stardust que se rendesse. Sugerimos um encontro dos dirigentes das nações interessadas.
A última nota americana não obteve resposta. Às sete horas tão preciosas começaram a correr. Na Ásia, as torres das rampas de disparo começaram a girar em direção ao Oriente e ao Ocidente. Os monstros de aço emitiram reflexos ameaçadores sob a luz dos refletores. Homens corriam de um lado para outro. Depois, fez-se o silêncio.
O quadro repetiu-se nas áreas de defesa do bloco ocidental.
No bloco oriental, as torres das rampas de disparo foram giradas de tal forma que abrangiam todos os quadrantes do globo.
Nas três partes do mundo, um homem sentado bem abaixo do nível do solo, contemplava um conjunto de painéis de controle e instrumentos eletrônicos. Comunicava-se com os postos de comando através de telas de imagem. Sua mão descansava sobre a mesa junto a um botão vermelho. Um botão que parecia falar-lhe de uma destruição total e terrível para todo o gênero humano; uma hecatombe que varreria todos os traços de uma civilização.
Em dois outros lugares, sobre duas outras mesas, dois outros homens esperavam, suas mãos perto dos botões que dariam início ao caos.


Crest estava sentado na cama, recostado na parede forrada de almofadas. Manoli aplicara uma injeção em Fletcher que estava, agora, mergulhado em um sono profundo. Bell encontrava-se na central em companhia do médico, acompanhando as transmissões radiofônicas. De meia em meia hora informava Rhodan do que acontecia no mundo.
Aos poucos, Crest compreendeu as conseqüências que sua presença na Terra desencadeara entre os homens, embora estes nem tivessem conhecimento dele. Com um ar pensativo e preocupado, disse:
— Rhodan, não compreendo como seu povo consegue resistir a esta tensão psicológica. Pelo que você diz há decênios que seu mundo vive sob esta atmosfera de suspense. Basta que alguém aperte um botão para que a destruição seja lançada sobre a Terra. Por que não houve, ainda, quem se erguesse contra este estado de coisas? Por que não se formou um governo comum que reunisse todos os arsenais para usá-los na defesa contra o possível ataque de um agressor extraterreno?
Rhodan suspirou.
— Não há nenhuma resposta válida à sua pergunta, Crest. Se houvesse, não viveríamos constantemente entre a vida e a morte. Talvez nenhuma resposta seja possível enquanto a humanidade estiver convencida de constituir a única força deste sistema solar. Só tememos algo que seja mais poderoso que nós. Os dois blocos mais poderosos da Terra se equivalem em força e poder. O terceiro bloco desempenha um papel secundário. Todo mundo sabe que no caso da irrupção de uma guerra, os segundos serão decisivos. Mas todo mundo sabe, também, que aquele que for surpreendido pelo ataque, terá tempo ainda para disparar os foguetes de retaliação antes que o país mergulhe nos escombros e nas cinzas. A conseqüência inevitável será a morte de ambos os adversários. Só o conhecimento deste fato tem evitado a catástrofe.
— Começo a compreender o problema. Quando minha civilização ainda era jovem, defrontou-se com as mesmas dificuldades. Viveram mais de duzentos anos sob o medo constante do aniquilamento total. Foi quando uma população de insetos guerreiros vinda dos confins da Via Láctea nos descobriu e desfechou um ataque contra nós. Em menos de meia hora, os governos se uniram e derrotaram o inimigo comum. Como o perigo continuasse, a aliança foi mantida. Foi assim que nos tornamos um povo unido e iniciamos a ascensão.
Perry Rhodan concordou com um aceno de cabeça. Seus olhos reluziam.
— É a primeira vez que ouço essa história, mas, apesar disso, ela não constitui novidade para mim. É a única solução lógica dos problemas que surgem quando um grupo de seres inteligentes descobre as armas definitivas. A esta altura já deve compreender por que tenho que agir da forma como estou agindo. Não é nada agradável ser apontado como traidor pelos amigos e superiores hierárquicos. Mas se me deixar levar pelos sentimentos, o mundo estará perdido. Um dos blocos poderia se apossar das armas e destruiria o outro. Todavia, antes que conseguisse fazê-lo, o outro poderia desencadear a ação suicida. Não, Crest, vejo perfeitamente o caminho que devo percorrer. Seu problema é a resposta às minhas indagações. Você quer recuperar a saúde. Vou ajudá-lo. Precisa de sobressalentes eletrônicos. Vou consegui-los. Sua nave poderá decolar em busca do planeta da vida eterna. É possível que acabe se esquecendo de nós. Mas aproveitarei a sua curta presença aqui para trazer a paz à Terra, a paz pela força. De outra forma não é possível. Só o medo de uma potência ainda maior fará com que as potências do nosso planeta recuperem a razão. Acredito que poderei contar com a sua ajuda.
— Farei o que estiver ao meu alcance. Mas, por enquanto, não parece que sua atuação esteja sendo coroada de êxito. Falta pouco para expirar o prazo do ultimato. E depois?
— Thora terá de intervir. O antepara energético e o neutralizador da gravidade não foram suficientes para convencer os asiáticos de que se defrontam com formidáveis inventos extraterrenos. E o meu pessoal do ocidente acredita que tudo não passa de um blefe. Portanto, é necessário que aconteça alguma coisa que deixe patente para todos os interessados o poderio imenso da terceira potência. Sua nave está estacionada na Lua. O que pode ser feito de lá para que toda a humanidade fique ciente do perigo que paira sobre ela? Não seria possível erguer o rochedo de Gibraltar e fazer com que o mesmo caia no mar a mil quilômetros de distância? Ou transferir a Estátua da Liberdade de Nova Iorque para Pequim? Quem sabe se poderia paralisar todas as comunicações radiofônicas do mundo?
— Poderíamos fazer tudo isso e, provavelmente, seria conveniente dar uma demonstração bem visível aos homens. Pense no assunto e avise-me da sua decisão. Thora fará aquilo que eu lhe pedir. De minha parte sugiro a utilização de um raio energético. Escolha uma região não muito afastada, mas despovoada. Previna os homens. Avise-os de que dentro de duas horas, isto é, três horas antes do término do ultimato, queimará as areias do deserto, produzindo um funil de cinqüenta quilômetros de diâmetro. Previna-os que se não agirem de acordo com os seus desejos, o raio será dirigido contra zonas habitadas. Acho que isso bastará para convencê-los.
Um sorriso se esboçou no rosto de Rhodan. A insensibilidade aparente, porém, ocultava uma preocupação sincera com o futuro da espécie humana. Sabia que não havia nenhum argumento que pudesse incutir bom senso na mente dos guardiões das ideologias. Só um choque seria capaz de tanto. Estava disposto a aplicar a terapia de choque no mundo.
— Acredito que sim — respondeu. — Acha que Thora está disposta a nos ajudar?
— É obrigada a ajudar, quer queira, quer não. O seu orgulho diante de uma raça inferior é tamanho que a faz esquecer de que também já atravessamos este estágio: os estágios de evolução de D a A. Talvez tenha sido a época em que nossa civilização foi mais produtiva. Éramos jovens e ativos. Amávamos o progresso e a novidade. Hoje tudo mudou. Somos degenerados e presunçosos. Vou usar de franqueza, Rhodan. Às vezes, quando penso na nossa semelhança exterior, chego a ter idéias bem estranhas. Se combinássemos o espírito de sua raça com o da nossa, se uníssemos a sua vitalidade ao nosso saber, poderíamos dominar o Universo...
Os olhos de Perry Rhodan perderam o brilho duro. Vagaram numa distância ignota, que se media por eternidades. Sem que percebesse, seus punhos se cerraram, os dedos voltaram a se distender. A imagem do futuro desenrolou-se diante do seu espírito como uma visão instantânea.
Os homens e os arcônidas — uma só raça. A iniciativa e o espírito de aventura aliados a um saber vetusto e a uma tecnologia inimaginável. Naves espaciais que se deslocavam a velocidade superior à da luz, tripuladas por homens e mulheres ávidos de ação, penetravam nos recantos mais profundos da Via Láctea, descobriam novos mundos, fundavam colônias e impérios. O comércio interestelar proporcionava um bem-estar indescritível. Surgia um novo império galáctico. Surgia uma nova raça...
Talvez Crest imaginasse o que se passava na mente de Rhodan. Um sorriso de sabedoria aflorou-lhe aos lábios.
— Ainda nos encontramos no começo, Perry Rhodan. Você representa o gênero humano; eu, os arcônidas. Você precisa do nosso auxílio; nós, do seu. É um pacto, podemos chamá-lo assim, nascido da necessidade comum. Mas acredito que, futuramente, cheguemos a uma união em prol do interesse mútuo, fundada na razão. Até é possível que a Terra seja o planeta da vida que estamos procurando, pois o rejuvenescimento traz consigo uma vida mais longa.
— Antes de mais nada, devemos preparar o início, Crest. Depois poderemos falar sobre o resto. O mundo que pode trazer-lhe a saúde está prestes a soçobrar. O ódio mesquinho e a desconfiança egoísta, a falta de respeito pelas opiniões alheias, a obstinação com que são mantidos certos princípios pré­estabelecidos, foi isso que nos conduziu à situação atual. Antigamente o temor a Deus obrigava os homens a serem honestos e tolerantes. Hoje, esses resultados só podem ser alcançados através do medo incutido por ameaças palpáveis. Portanto, peça a Thora que dirija o raio energético para a África do Norte, a cerca de cinco graus de longitude leste, na altura do Trópico de Câncer. O raio deverá atingir a vertente norte da serra de Ahaggar. Expedirei um aviso para que a região seja evacuada imediatamente, embora, pelo que sei, esteja praticamente desabitada.
— A demonstração não deixará de produzir efeito — prometeu Crest. — Convém salientar, no seu aviso, que se trata de uma das operações mais inofensivas do nosso arsenal.


A estação receptora da patrulha chefiada pelo tenente Durbas estava captando notícias alarmantes, vindas de todas as partes do mundo. Subitamente as transmissões em todas as faixas foram superadas por uma emissora desconhecida. O radio-telegrafista procurou, em vão, controlar o seu aparelho, mas, mesmo com o mínimo de volume, a voz de Perry Rhodan era ouvida num raio de duzentos metros.
“Aqui fala Perry Rhodan, representante do terceiro poder da Terra. Uma vez que o mundo se prepara para a guerra que trará o fim da espécie humana, não quero deixar de formular uma última advertência. Por meio dela provarei que a nação ou Estado que disparar o primeiro foguete atômico será destruído imediatamente. Dentro de cento e quinze minutos surgirá uma cratera de cinqüenta quilômetros de diâmetro no deserto do Saara, ao norte da cordilheira de Ahaggar. O fenômeno terá origem num raio energético expedido da Lua. Pede-se a todas as pessoas que se encontrem na região indicada que se afastem o mais possível do centro do alvo. Uma vez realizada a demonstração, as potências mundiais disporão de três horas para reconsiderar as suas posições. É tudo.”
O radiotelegrafista cravou os olhos no receptor; estava atônito. O tenente Durbas, que se levantara e chegara mais perto, fez a mesma coisa.
— O que foi isso? — perguntou depois de algum tempo.
— Perry Rhodan, aquele cosmonauta que pousou na Ásia. Dizem que está colaborando com a Federação Asiática. Também se fala a respeito de novas armas que ele teria trazido da Lua.
Os homens da patrulha do deserto reuniram-se. Estavam indecisos. O veículo estava parado à sombra de um oásis. O motorista olhava para leste.
— A cordilheira fica logo ali. Será que nos encontramos a uma distância segura?
O tenente Durbas mostrou-se contrariado.
— Até parece que você está acreditando nessa bobagem, Hassan! Um raio energético vindo da Lua! Será que não podiam inventar outra coisa?
O radiotelegrafista sacudiu a cabeça, estava pensativo.
— Deve haver algo de verdade nisso, tenente. Captei algumas noticias. Dizem que esse Rhodan cobriu sua nave com uma cúpula feita exclusivamente de energia. Nem mesmo uma bomba atômica poderia atingi-la.
— São contos de fada. Não se pode acreditar em tudo o que diz o nosso pessoal, o que dizer quando se trata dos amarelos? Fundir uma cratera no deserto! Que tolice! O que diz o Forte Hussein?
— Estabelecerei contato imediatamente.
O Forte Hussein recomendou que a patrulha seguisse a advertência.
— Está bem — gemeu. Durbas, lançando um olhar saudoso para o bosque sombrio. — Vamos recuar para o oeste. Esse calhambeque faz quarenta quilômetros por hora. Acho que isso é suficiente.
Quinze minutos antes da hora marcada para a demonstração, estavam abrigados atrás de uma elevação do solo, lançando olhares impacientes em direção a leste. Admiraram-se dos numerosos aviões que, subitamente, começaram a circular bem acima deles. Próximo ao local em que se encontravam, pousou um helicóptero da Central de Informações Leste com seus aparelhos de registro. Bem perto dali, uma pacata câmera de televisão da Federação Asiática focalizava a região demarcada por Rhodan. Dos americanos, nada se via. Talvez estivessem mais ao norte.
Faltavam dez minutos.
Um círculo bem amplo formara-se em torno da área ameaçada. Os presentes não acreditavam muito naquilo que talvez fosse acontecer dali a pouco, mas ninguém queria perder a chance de assistir a um espetáculo como o que se prometia. Tratava-se, na verdade, de um espetáculo desencadeado por um poder estranho.
Passaram-se cinco minutos.
Durbas tocou no braço do cabo Abbas.
— Dentro de uma hora ficará escuro. Tomara que esse Rhodan não demore muito. Aliás, recebemos ordem para regressar imediatamente ao Forte. Deve estar acontecendo alguma coisa.
— Será que é a guerra?
— Como vou saber? Pensando bem, desde 1945 encontramo-nos numa espécie de guerra.
O tenente olhou para o relógio.
— Está na hora — murmurou e olhou para o leste. No mesmo instante, porém, fechou os olhos. As demais pessoas que se encontravam por ali fizeram a mesma coisa.
Foram ofuscados por uma extensa cortina de luz que se precipitou do céu azul e atingiu a areia do deserto a cerca de trinta quilômetros dos observadores. Continuava visível mesmo através das pálpebras fechadas. A origem do raio perdia-se no céu, onde ia se estreitando progressivamente. Mais exatamente, localizava-se no ponto em que se situava a Lua, invisível a essa hora.
Uma onda de calor passou por cima dos homens assustados. As câmeras de televisão, porém, continuaram a zumbir, transmitindo o fenômeno diretamente para todos os quadrantes do mundo. Um raio incandescente brilhou nas telas de imagens dos centros de informações. Um dos aviões, que se aproximou demais da zona de perigo, foi colhido por um imenso turbilhão que o arrastou para o interior do raio energético. No mesmo instante, foi transformado numa gigantesca gota de metal fundido que se evaporou depois de alguns instantes de queda.
O raio pousou sobre o deserto por apenas um minuto. Depois, apagou-se.
Parecia que, era noite. O Sol, que ainda há pouco emitia um brilho tão intenso, agora parecia uma estrela agonizante, embora estivesse bem acima do horizonte. Sua luz era pálida e avermelhada. Podia-se contemplá-lo com os olhos bem abertos.
No lugar em que o raio tinha tocado o solo, já não havia deserto. Uma cratera abria-se entre a areia e as rochas. Não se via o fundo. As bordas estavam incandescentes. Bem embaixo, percebia-se um brilho avermelhado. Vapores erguiam-se das profundezas do inferno recém-criado.
Só de avião a cratera podia ser abrangida com o olhar. Era gigantesca. Formava um círculo perfeito, como se tivesse sido traçada a compasso.
Durante três horas o mundo conteve a respiração. O momento em que expirava o prazo do ultimato chegou — e passou.
Três botões vermelhos deixaram de ser tocados...


O tenente Klein chegou a Pequim por um caminho mais longo que o habitual. De acordo com as ordens que recebera, entrou em contato com o número dois, que lhe forneceu novas instruções. A missão a ser cumprida parecia impossível, mas tinha que ser tentada. Perry Rhodan representava um perigo para todo o mundo. Quem conseguisse remover esse perigo conquistaria fama imorredoura, pouco importava a nação a que pertencesse. A missão exigia a mobilização de todas as energias da pessoa encarregada de cumpri-la, além de uma coragem extraordinária.
No entanto, havia uma circunstância que a fazia parecer mais fácil. O próprio Mercant fornecera a Klein uma indicação de suma importância.
— Preste atenção, Klein! Rhodan não poderá ser eliminado com os meios usuais. Só existe uma possibilidade: a traição. Não se preocupe com os aspectos morais, pois Rhodan também nos traiu. Você terá que romper o anteparo energético. Como fazê-lo é problema seu. Há outro detalhe: você não está só. Há agentes do bloco oriental, e também da Federação Asiática que estão lidando com o mesmo problema. Não é impossível que a tarefa comum acabe por conduzi-los a certo tipo de entendimento. Enquanto a Stardust não tiver sido destruída, os agentes da Federação Asiática e de Moscou serão seus colegas. Boa sorte!
Klein precisaria de sorte e, até aquele momento, ela não o deixara em falta. Em Kalgan, a 120 quilômetros a noroeste de Pequim, onde procurou conseguir um automóvel através de dinheiro e promessas, teve a sua atenção despertada por um chinês, que já tinha visto três vezes no mesmo dia. O rapaz observava-o; não tirava os olhos dele.
Comprou um carro capaz de trafegar em terreno difícil e providenciou mantimentos e outras provisões, uma barraca com os respectivos equipamentos e tudo o mais de que precisava para uma pequena expedição. As estradas encontravam-se em boas condições, mas estavam sendo vigiadas.
Mandou pintar no veículo, em letras enormes, umas palavras que o colocariam a salvo de qualquer suspeita: Viagem Experimental Realizada sob o Patrocínio do Exército. Seus documentos diziam que era engenheiro. Devia verificar se o veiculo se prestava ao transporte de tropas pelo deserto e pelas montanhas.
Ao sair da cidade, procurou em vão pelo chinês suspeito. Provavelmente desistira do seu intento. Por que e quais as suas intenções, Klein não sabia.
“Essa gente tem um interesse todo especial por estrangeiros”, murmurou enquanto se desviava de um veiculo que vinha em sentido contrário. “Mas não pareço tão rico assim. O que é que se poderia roubar de um engenheiro no campo?”
Pelo fim da tarde, passou pela cidade de Kwai-Hwa, indo pela estrada que seguia junto à Grande Muralha. Não podia saber que naquele mesmo instante o chefe do Serviço de Defesa da Federação Asiática, Mao Tsen, encontrava-se na longínqua Pequim, sentado diante de um receptor que lhe fornecia a localização exata do pretenso veículo experimental. O chefe do Serviço Secreto, major Butaan, estava sentado ao seu lado, sorrindo.
— O tenente Li Shai-tung é um dos meus melhores agentes — disse Butaan cheio de orgulho, como se aquilo representasse uma realização exclusivamente sua. — Logo descobriu esse americano e não o perdeu de vista. Estou curioso para ver se é correta a sua teoria, segundo a qual os outros cooperariam conosco se realmente a Stardust não fosse uma base americana, o que, a esta altura, parece bastante provável. Se o bloco ocidental dispusesse de uma arma como o raio vindo da Lua, já teríamos deixado de existir. Li foi informado de que a Stardust deve chegar às nossas mãos intacta?
— Foi devidamente instruído — confirmou Mao Tsen com um gesto comedido. Estava prestando atenção à voz fina vinda do alto-falante: — Ah, o americano resolveu prosseguir viagem. Daqui a pouco deverá chegar ao Hwang-Ho. É possível, até, que atinja a localidade de Pau-tou, a não ser que prefira passar a noite num acampamento ao ar livre.
Klein não sabia que, no quartel-general do Serviço Secreto da Federação Asiática, sua rota estava sendo traçada, com toda a precisão, em um mapa. Era como se ele transmitisse periodicamente sua posição.
Só quando parasse, ele ficaria sabendo que tinha sido acompanhado.
A lua minguante já se aproximava do horizonte sob o qual o sol se escondera. À sua esquerda, brilhavam as águas de um rio que deslizava lentamente. A estrada era ladeada por moitas de arbustos que se estendiam até a margem do rio.
Klein encontrou um espaço livre e dirigiu o carro para lá. Prosseguiu mais alguns metros até chegar a um lugar que lhe pareceu apropriado. O carro ficou abrigado entre a vegetação e as rochas, junto ao rio.
O tenente espreguiçou-se e saiu do carro. Fazia calor mas, assim mesmo, uma fogueira não seria má. Não armaria a barraca e um café quentinho lhe faria bem. Depois, estenderia algumas cobertas na parte do veículo destinada à carga e dormiria lá.
— Vamos descansar? — perguntou uma voz atrás dele num inglês horrível. — Calma! Não faça nenhum movimento precipitado, meu amigo. Estou segurando uma arma. Vire-se devagar, bem devagar.
Klein acabara de colocar alguns pedaços de lenha bem seca sobre as chamas que pareciam ávidas por se alimentarem. A luz produzida pela fogueira permitia-lhe reconhecer o rosto do seu interlocutor. Naturalmente era aquele rapaz obstinado, que já lhe despertara a atenção em Kalgan. Encontrara uma oportunidade para se esconder no interior do veículo.
Tudo isso não seria tão mau assim se o sujeito não lhe apontasse uma pesada pistola automática apoiada em um dos braços. Klein olhou para o orifício ameaçador do cano daquela arma perigosa, cujos projéteis tinham carga explosiva suficiente para danificar um carro blindado de tamanho médio.
— O que deseja? — perguntou Klein. — Para um vagabundo, seu equipamento é muito moderno. Tome cuidado, meu velho, pois este veículo é do governo.
— De que governo? — disse Li Shai-tung com um sorriso misterioso. — Do americano? Vamos, mostre logo suas cartas. Qual é a sua missão? Talvez possamos chegar a um acordo.
Klein apontou para o fogo.
— Vamos sentar?
— Está armado?
— Está interessado em um acordo ou prefere falar comigo de pistola na mão?
Li hesitou.
— Estou em situação de vantagem. Não teria dúvidas em renunciar à mesma se soubesse que você está sendo sincero. Quero que responda a uma pergunta minha. Só depois disso poderei aceitar o seu convite e confiar em você. Qual é a sua missão? Quem é o seu chefe? Conheço as respostas através das pessoas que me enviaram para cá. Se coincidirem com as suas...
Foi descendo do carro, mas continuou com a arma apontada para Klein. Este refletiu por um instante. Lembrou-se do que Mercant lhe havia dito e, subitamente percebeu que ele estava com razão: era necessário que colaborassem um com o outro.
A evolução dos acontecimentos já começava a delinear a trilha sonhada por Perry Rhodan. Era ainda muito tênue, muito insignificante, começava bem por baixo. Um dia, porém, abrangeria a Terra se os agentes não conseguissem destruir a Stardust.
— Meu chefe é Allan D. Mercant, chefe do Conselho Internacional de Defesa do Ocidente. Minha missão consiste em destruir a nave espacial Stardust. Isso basta?
Li concordou com um movimento de cabeça depois, abaixou a arma. Por uns momentos, continuou a segurá-la, indeciso; acabou atirando-a na parte traseira do veículo. Foi até a fogueira e apertou a mão de Klein, sentando-se em seguida.
O tenente engoliu em seco. O gesto representou uma reação destinada a disfarçar a admiração que nutria pelo outro. Sentou, também. Ao pé dos dois, o fogo espalhou um calor agradável. A água começou a ferver na chaleira.
— A sua missão só difere da minha em um ponto — admitiu o chinês depois de uma pausa prolongada. — Você recebeu ordens para destruir a Stardust, ao passo que eu devo evitar isso de qualquer maneira. Acredito, porém, que, oportunamente, ainda chegaremos a um acordo. No momento, nossos objetivos são idênticos: impedir que Perry Rhodan possa impor sua vontade ao mundo. Será que interpretei corretamente as suas intenções?
Klein confirmou com um gesto de cabeça.
— Nesse caso — continuou Li — poderemos colaborar um com o outro, até que Rhodan tenha sido posto fora de combate... Aquilo que virá depois ainda está muito longe. Vamos fazer um acordo. Queira formular sua proposta.
O tenente Klein nem chegou a compreender o grotesco da situação. Dois agentes que trabalhavam para potências inimigas uniam-se para eliminar o elemento mais poderoso. Ainda há poucos dias, sua rapidez no manejo da arma decidiria qual dos dois conseguiria sobreviver. Já agora tudo estava mudado. O temor infundido pela misteriosa terceira referência transformara os inimigos em amigos que se mantinham numa atitude de expectativa.
— Você me garante que não me entregará às autoridades do seu país, nem mesmo depois que tivermos atingido nosso objetivo. Em compensação, oportunamente, quando chegarmos ao local em que se encontra a Stardust, revelo-lhe como pretendo fazer para atravessar a cúpula energética. Está de acordo?
Li apertou a mão do americano.
Cinco dias depois, deixaram a rodovia na altura de Hang-Shou, e avançaram pelo deserto de Gobi, em direção ao norte. Deixaram para trás as montanhas e o rio. Dali em diante, só encontraram alguns lagos-salgados e pequenos regatos. A vegetação foi se tornando cada vez mais escassa. A paisagem refletia as características do deserto.
A cinqüenta quilômetros do destino, foram detidos por uma unidade blindada do exército asiático. Foi Li quem salvou a situação. Uma mensagem radiofônica expedida para Pequim produziu um verdadeiro milagre. Os dois agentes foram liberados com muitos pedidos de desculpas. O comandante da unidade, em meio a inúmeras mesuras, desejou êxito completo ao senhor Klein e seu amigo chinês.
A situação foi se tornando cada vez mais estranha. Até parecia nunca ter havido qualquer conflito entre o Oriente e o Ocidente. O temor do inimigo comum revelou-se capaz de cimentar uma unidade sólida até mesmo entre ideologias que se opunham ferozmente.
Ainda por duas vezes tiveram que atravessar o cordão de isolamento estabelecido pelo exército. Klein começou a indagar de si para si por que estava dirigindo aquele caminhão. Podia ter pedido que o levassem num helicóptero do exército; e era indiferente que o aparelho pertencesse à Federação Asiática, ou aos países do bloco ocidental. Mas lembrou-se de que tinha que enganar Rhodan. Se é que este fosse se deixar enganar com facilidade...


O capitão Reginald Bell desligou o motor. Os dois reatores zumbiram mais algum tempo. Depois pararam.
— Então? — perguntou Perry. — Tudo em ordem?
— Está! E o tanque está quase cheio. Não será difícil cobrir os dois mil quilômetros até Hong Kong, desde que eu possa reabastecer no caminho. A próxima parada será em Bornéo. Depois, terei que alcançar a Austrália.
Fletcher saltou nervosamente de um pé para o outro. Nos seus olhos havia um brilho fraco. Já esquecera a Stardust, que se encontrava a apenas cem metros de distância. Só via o helicóptero que ia le­vá-lo de volta à civilização. Chegado lá, encontraria uma possibilidade de retornar aos Estados Unidos, onde a esposa o esperava.
Não sabia como tinha chegado ali. Só se lembrava do seu nome e do da cidade em que sua esposa morava. O hipnobloco, que Crest aplicara em torno do seu centro de memória com o auxílio do psico-irradiador, apagara quase todos os fatos anteriores. Ninguém conseguiria arrancar nada de Fletcher: era um homem que não tinha mais passado.
Rhodan o prevenira, mas Fletcher limitara-se a abanar a cabeça.
— Serei o único responsável pelo que acontecer; você não terá nada com isso. Quero voltar para junto de minha esposa. É só. E, agora, leve-me para junto de Crest.
Meia hora depois estava tudo terminado. Bell saltou para o helicóptero e acenou para Rhodan.
— Confie em mim, meu velho. Deixarei Fletcher em Hong Kong ou em Darwin. Depois, arranjarei as peças sobressalentes e o soro anti-leucêmico. Dentro de uma semana estarei de volta. Lembranças para Eric e Crest.
— Cuidado para que não o derrubem!
— Este helicóptero é do Exército. Além disso, levo comigo o neutralizador de gravidade, cujo alcance chega a dez quilômetros. Isso sem falar no irradiador manual. As outras invenções também serão úteis. Em troca delas, conseguiria continentes inteiros. Pense apenas nos pequenos geradores de energia. São do tamanho de uma caixa de charutos, mas fornecem, por um século, ininterruptamente, duzentos watts. Entre, Fletcher.
Enquanto o astrônomo se espremia por entre as caixas, na parte traseira do helicóptero, Bell se despedia do amigo.
— Desligue o anteparo energético no momento exato em que eu atingir altitude suficiente. Alguns segundos devem bastar. Depois volte a fechar a nossa quitanda. Daqui a uma semana estarei de volta. Não se preocupe. Até a volta!
Perry retornou à sala de comando da Stardust. Quando o helicóptero ganhou altitude e chegou perto do teto da cúpula energética invisível, ele empurrou uma chave durante cinco segundos. Bell já estava do lado de fora.
O helicóptero tomou rumo sul. Deslocava-se a baixa velocidade. Passou por algumas formações de carros blindados e, pouco depois, chegou à vertente oriental das montanhas de Richthofen. Tomando o rumo do sudoeste, prosseguiu a uma altitude de mil e quinhentos metros.
No fim da tarde, foi atacado sem qualquer aviso por um avião de caça.
Não sabia como explicar o incidente. Talvez alguém o tivesse visto decolar. Mas, se fosse assim, não o teriam deixado em paz por tanto tempo.
O pequeno aparelho surgiu de repente. Vinha em sentido contrário e ligeiramente para o lado. Estava girando, utilizando todo o seu poder de fogo. Os projéteis chamejantes passavam muito à esquerda, antes que o piloto pudesse corrigir a pontaria, já havia passado pelo helicóptero. Descreveu uma curva ampla e atacou pelo flanco.
Bell já conseguira dominar a surpresa. Deixou que o helicóptero seguisse o mesmo rumo, regulou o irradiador manual para meia intensidade e, depois, dirigiu-o sobre o avião que se aproximava a uma ve­locidade vertiginosa.
“Está na hora de mostrar o que você sabe fazer”, disse para si mesmo. Com os nervos tensos, acrescentou: “Suba. Ganhe altitude e suspenda o fogo!”.
No mesmo instante, as línguas de fogo que saíam do bojo e do bordo de ataque das asas do avião desapareceram. O caça empreendeu uma subida quase vertical.
Bell abaixou o irradiador. Lembrou-se, muito tarde, de que era necessário transmitir outra ordem ao piloto. A distância era de três, e, logo, quatro quilômetros. Não havia como vencê-la.
O caça continuou sua subida louca. E continuava a subir quando já fora do alcance visual de Bell. O combustível se esgotava. O piloto, semi-asfixiado, continuava a cumprir a ordem recebida. Subiu até que todo o combustível fosse consumido.
Por um segundo, o aparelho pareceu imóvel, depois, começou a cair. Foi descendo em parafuso até espatifar-se contra os rochedos de Tsingling Chan.
Bell sentiu-se abalado. Começava a compreender o poderio imenso que representava esse irradiador de aspecto tão inofensivo se utilizado de forma conveniente. Devia ter dado uma ordem diferente ao piloto. Mas como tomar uma decisão em uma fração de segundo?
Aterrissou num pequeno aeroporto militar perto de Chun-king. Ainda faltavam mil quilômetros para Hong Kong.
No início, ninguém lhe deu atenção. Mas, como ficasse parado e não descesse do aparelho, um jipe aproximou-se. Dele, saiu um oficial de alta patente e acercou-se do helicóptero.
— Por que não comunicou a sua chegada à torre do controle? — indagou. Quando, porém, viu o rosto de Bell, que jamais poderia ser confundido com o de um chinês, acrescentou: — Quem é o senhor?
O mínimo que Bell podia fazer era rir. Tinham lhe dito que, aqui, se sorria constantemente.
— Não entendo uma única palavra do que o senhor está dizendo — respondeu em inglês. Depois, dirigindo o irradiador sobre o oficial, prosseguiu: — Sou o marechal Roon. Preciso de combustível. Providencie. E rápido, por favor!
O motorista do jipe também fora incluído no tratamento. O oficial prestou-lhe continência e entrou no jipe que se afastou em alta velocidade.
Bell sorriu e esperou. Virou-se pára Fletcher que acompanhava tudo sem o menor interesse. Mantinha os olhos fechados.
— Coitado! — murmurou Bell.
Dali a poucos minutos, chegou um caminhão-tanque e parou perto do helicóptero. Já ia escurecendo. Ninguém se preocupou com os dois homens sentados na cabine. Uma vez cheio o tanque e colocados alguns galões extras em tanques de reserva situados no compartimento de carga, o chefe do grupo comunicou o término da operação.
Bell deu partida no motor e cumprimentou com um gesto condescendente. Ao subir para o céu vermelho, ainda chegou a ver os olhos arregalados dos chineses. Mais tarde, o verdadeiro marechal Roon jamais conseguiria explicar como o capitão Finlai, que o conhecia pessoalmente, jurou perante a Corte Marcial tê-lo visto em pessoa na Base Aérea de Chun-king. Ao que se sabia, ninguém podia estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Ou será que podia?...
Era estranho.


Foi justamente num lugar situado a dez quilômetros da Stardust que uma firma da Mongólia, autorizada pelo governo de Pequim, iniciou a montagem das instalações destinadas à extração de sal das águas do lago de Goshun.
Os tratores abriam sulcos enormes nas margens arenosas do lago e as dragas removiam a terra. Formaram-se bacias imensas que se encheram com a água do lago até que essas atingissem um metro de altura, não mais. Alcançado esse ponto, fechavam-se as comportas. O sol evaporaria a água e só restaria o sal. Fileiras imensas de caminhões estavam prontas para transportar o produto até a Mongólia, que pertencia à zona de influência de Moscou.
Klein e Li viram-se obrigados a guardar um período de descanso para não chamarem a atenção. Por mais estranhos que lhes parecessem os grupos de trabalhadores que desenvolviam uma atividade intensa, não havia motivo para que não estivessem ali. Oficialmente, a luta contra a Stardust havia sido suspensa. As bombas atômicas detonadas no lugar eram livres de radiação e, por isso, não deixavam qualquer efeito nocivo no terreno. As tropas haviam sido retiradas das áreas adjacentes à nave espacial.
O engenheiro-chefe da firma, Ilia Rawenkow, cumprimentou os visitantes inesperados com extraordinária cordialidade. Falava chinês fluentemente.
— O que os traz a esta região solitária? — indagou, depois de tê-los convidado para uma xícara de chá. — Já pensávamos que levaríamos meses sem ver qualquer outro ser vivo. Permitam que faça a apresentação: este é Peter Kosnow, procurador da empresa.
Os dois russos causaram boa impressão. Mas havia alguma coisa nos seus olhos — ou melhor, atrás de seus olhos — que recomendava cautela.
— Estamos testando um veículo de transporte para o exército — respondeu Li em tom bastante convincente. — Acho que esta região se preta bem para isso. O engenheiro Klein está me acompanhando. Vive na Federação Asiática há quinze anos.
Rawenkow e Kosnow olharam-se rapidamente.
— Que interessante! — um sorriso cortês aflorou aos lábios de Rawenkow. — Não acha estranho que tantas vezes europeus e até americanos venham aos nossos países e cooperem conosco? O fato é que não há fronteiras quando se trata de interesses econômicos.
Li estreitou os olhos.
— É verdade que se trata apenas de vantagens econômicas? — disse, espaçando bem as palavras.
O russo — percebia-se a dez quilômetros que tanto ele quanto Kosnow não eram mongóis — olhou involuntariamente na direção em que se encontrava a nave espacial, oculta por uma elevação.
— O que quer dizer com isso? — disse, para ganhar tempo.
A expressão no rosto de Li não se alterou. Seguiu o olhar do russo e disse em tom casual:
— Se não me engano, ali não existe nenhuma região salineira. Por que será que só agora tiveram a idéia de iniciar a utilização econômica do lago de Goshun?
— Afinal, onde está querendo chegar? — disse Rawenkow em tom impaciente. Mal conseguia disfarçar o nervosismo.
— À união dos antigos adversários — disse Li com um sorriso e sorveu calmamente o chá de sua xícara. — Será que você quer me convencer que está aqui por puro acaso? Logo ali, a menos de dez quilômetros de distância, encontra-se a Stardust. Ela vale mais que todos os lagos salgados do mundo. E desde quando existem russos que trabalham para a firma da Mongólia? Você não vai me dizer que é russo, não é Rawenkow?
Kosnow fez um movimento imprudente. Seu rosto não parecia muito inteligente quando viu a pistola de Klein apontada diretamente para o seu rosto.
— Que é isso? Para que tanta precipitação? — censurou Li com a voz suave. — Somos bons amigos, Kosnow, faça o favor de esquecer a pistola que traz no bolso. Klein guarde a sua. Seria ridículo se não pudéssemos nos unir em face de um inimigo comum. Não estou com a razão, Rawenkow?
O russo acenou levemente a cabeça.
— Como conseguiu descobrir nossa missão tão depressa? Até hoje todo mundo viu em nós apenas os representantes da firma da Mongólia.
— Talvez porque sejamos colegas — disse Li amistosamente. — O nome do seu chefe não é Ivan Martinovitch Kosselow?
Os dois russos ficaram de boca aberta. Confirmaram com um aceno de cabeça.
— Pois então? — prosseguiu Li. — Quer dizer que estamos de acordo! Posso fazer a apresentação definitiva? Este é o tenente Klein, do Conselho Internacional de Defesa do Ocidente. Eu sou o tenente Li Shai-tung. Finalmente os representantes das três grandes potências estão sentados em torno da mesma mesa, embora se trate de uma mesa tosca e cambaleante no deserto de Gobi. Falem com franqueza. Existe qualquer motivo que justifique uma inimizade entre nós?
Rawenkow abanou a cabeça:
— Você tem razão, Li. Acho que devíamos concluir um armistício. Os nossos objetivos são os mesmos.
Klein mordeu o lábio inferior, pensativo. Depois, disse:
— O que acontecerá quando tivermos alcançado o nosso objetivo?
Ninguém soube dar uma resposta.


Port Darwin fica na costa ocidental da Terra de Arnhem. É o porto mais importante da grande baía de Cambridge, situada no norte da Austrália.
Tanto ideológica quanto economicamente a Austrália pertencia ao bloco ocidental. Mantinha una representante permanente em Washington. Mas grandes setores da população empenhavam-se pela neutralidade do continente e pela sua autonomia militar.
Apesar disso, Bell sabia que não estava pousando em solo amigo, quando seu helicóptero desceu sobre o platô arenoso situado perto da costa. Já ia escurecendo. A pouca distância, brilhavam as luzes da cidade.
— Fletcher, você vai à cidade comigo? Pode pernoitar num hotel. Amanhã dou-lhe o dinheiro. Depois disso, você poderá pegar um avião e voltar para casa.
— Ótimo Bell! Você sabe que tenho de voltar para junto de minha esposa. Deverá ter um bebe dentro de três meses. Talvez antes.
— Sei, sim — disse Bell com um aceno de cabeça. Essa história do nenê já o estava irritando. Estava começando a compreender por que corriam tantas piadas sobre o tema. Se todos os futuros pais fazem um drama desses...
— Esqueça as preocupações. Temos que fazer uma caminhada de meia hora. Tomara que ninguém nos tenha visto pousar aqui.
Sem qualquer incidente, conseguiu entregar seu protegido no hotel e, depois de ter dado a volta à cidade para sondar o terreno, voltou ao helicóptero. Um policial, tratado com o psico-irradiador, dera-lhe, com a maior solicitude, todas as informações que desejava.
O Dr. Frank M. Haggard residia na parte leste da cidade, num edifício anexo aos hospitais por ele construídos. Era lá que ficava o laboratório no qual, dois anos antes, realizara uma descoberta sensacional: o soro anti-leucêmico.
Seguindo as indicações do policial, Bell foi acompanhando, a baixa altitude, a rodovia até atingir o entroncamento com uma estrada lateral. Seguiu esta última e não tardou a avistar os contornos dos imponentes prédios que se destacavam contra o mar.
Pousou na clareira de um bosque a pequena distância dali. Colocou o irradiador no bolso, pegou um dos geradores permanentes de energia e pôs-se a caminho.
Frank Haggard ainda estava acordado. Lançou um olhar de espanto para o visitante retardatário, ergueu as sobrancelhas num gesto de recriminação e convidou-o a entrar. Ficou curioso ao ver a caixinha que Bell colocou sobre a mesa com muito cuidado.
— Posso lhe ser útil em alguma coisa? — perguntou o médico.
Bell examinou-o mais detidamente. Haggard era um tipo atlético, de cabelos castanho-escuros e olhos azuis. Devia ter cerca de quarenta e cinco anos. Havia em seu rosto um traço de bondade, capaz de inspirar confiança especialmente para quem precisasse de auxílio.
— Na verdade, pode ser-me bastante útil — começou Bell, sem saber como explicar-se. — Meu nome é Reginald Bell, não sei se já o ouviu antes.
— Reside em Darwin? — indagou o médico, inclinando-se para frente.
Bell disfarçou o seu desapontamento.
— Não. Venho da Mongólia.
Haggard voltou a recostar-se na cadeira.
— Ah! — fez.
Não disse mais nada. Afinal, a Mongólia distava cerca de cinco mil quilômetros dali. E esse tipo estranho entrou-lhe pela casa sem mais aquela às dez horas da noite dizendo ter vindo da Mongólia. Devia ser algum louco à solta. Convinha ter cuidado.
— Isso mesmo. Mais exatamente, venho do deserto de Gobi.
— Era só o que faltava — foram as palavras que Haggard deixou escapar. Todavia, conteve-se logo e perguntou, com tom amistoso: — Veio a pé?
— Só os últimos quinhentos metros — admitiu Bell. Que diabo! Como devia fazer para que o cientista compreendesse o que desejava dele?
— Preciso do seu soro anti-leucêmico para curar um doente. Apenas... bem, o pagamento é que causa alguma preocupação. É verdade que uma coisa que talvez lhe interesse...
— Pode falar com franqueza — recomendou Haggard e lançou um olhar de esguelha para o telefone. — Mas por que não esperou até amanhã de manhã?
— Infelizmente não foi possível, doutor. Cada minuto me é precioso. Está interessado numa fonte de energia bem barata?
— Como?
Bell segurou a caixinha no colo. Desembrulhou-a e voltou a pô-la sobre a mesa. Ali estava: seu aspecto era modesto e inocente. Só algumas tomadas revelavam que dali se podia extrair energia elétrica.
— Este aparelho fornece até duzentos quilowatts. Não precisa ser recarregado. Dá para cem anos utilizando ininterruptamente a capacidade máxima. Compreendeu? Deixe de olhar o telefone! Não sou nenhum maluco! Não lhe farei nada.
Haggard já não entendia o que se passava. Seu instinto lhe dizia que estava lidando com um homem normal. Estavam lhe oferecendo uma maravilha técnica que contrariava todas as leis da física.
— Quem é o senhor? — perguntou.
Bell suspirou.
— Está bem! Direi a verdade. Embora esta pareça mais estranha que a mais louca das fábulas. Certamente já ouviu falar na Stardust, a nave espacial americana que pousou no deserto de Gobi. Pois bem; eu sou um dos tripulantes. Rhodan, o comandante, ficou na nave enquanto eu...
— Perry Rhodan? — Haggard lembrou-se de algumas notícias de jornal. — Perfeitamente, estou lembrado. Não houve complicações diplomáticas?
— Complicações diplomáticas é pouco. Temos motivos para não revelar ao mundo os resultados da nossa expedição. Na face oculta da Lua encontramos uma nave extraterrena com a respectiva tripulação. Está com algumas avarias e, para decolar, precisa de certas peças sobressalentes. Os arcônidas, que são os tripulantes da nave, são um povo tão decadente que já não conseguem fazer os reparos de que a nave precisa. São muito inteligentes e tecnologicamente muito desenvolvidos, mas estão física e psiquicamente arruinados. O diretor-científico da expedição, chamado Crest, sofre de leucemia. Se tudo permanecer como está, ainda terá pouco tempo de vida. É muito importante que seja curado, pois o futuro do seu povo, e também o da humanidade, depende disso. Crest representa a chave que abrirá o acesso ao espaço cósmico, aos planetas de outros sistemas solares e a um desenvolvimento técnico inconcebível. Compreendeu o que acabo de dizer?

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