Ainda havia uma terceira possibilidade. Mas
essa era tão
fantástica que quase não podia ser considerada seriamente. Apesar do seu
extraordinário amor aos animais — alguém já o vira tirar uma minhoca do anzol
de um pescador estarrecido, pousando-a cuidadosamente no solo — Mercant
raciocinava com uma frieza tremenda. Sua vida consistia em fatos, dados,
relatórios e normas.
Todavia...
Não chegou a concluir seus pensamentos. A fita
gravada chegara ao fim. O general esticou o queixo e olhou para Lehmann
— Então,
professor? O que me diz? Acha que o major Rhodan é um traidor?
— Um
traidor? Quem teve essa idéia maluca?
Pounder
lançou um olhar significativo em direção a Mercant.
— Foi
só uma pergunta, professor. O que irá importar é sua opinião a respeito do
anteparo energético e do resto.
— A
eliminação da gravidade? Ambas as coisas representam uma
utopia inatingível
com os meios de que dispomos. Os asiáticos inventaram uma fábula bonita que
lhes sirva de pretexto para ficarem com a Stardust. Aposto que amanhã
informarão que a nave não poderá ser entregue por ter sido destruída.
Mercant aprovou com um aceno de cabeça.
— Muito
bem pensado — disse. — Quando me aposentar, sugerirei o senhor como meu
sucessor.
— Agradeço
— retrucou seriamente o professor Lehmann. — Prefiro acompanhar a viagem a
Marte. Não há dúvida de que a Stardust conseguiu pousar em boas condições. Se
não fosse assim, a manobra de despistamento seria inútil. Se soubéssemos as
causas, tudo estaria esclarecido; Para um bom serviço secreto isso não devia
ser nenhum problema.
O golpe, desferido como se fosse por acaso,
atingiu o alvo. O rosto de Mercant ficou vermelho. A expressão branda desapareceu
subitamente. Seus olhos adquiriram uma expressão dura. Levantou-se sem fazer
caso dos gracejos do general.
— O
senhor ainda se surpreenderá com a eficiência do nosso serviço secreto — disse
a Lehmann, enquanto se dirigia para a porta. — General, faça o favor de me
avisar assim que haja noticias de Washington. Até logo, cavalheiros.
Fechou ruidosamente a porta. O professor
Lehmann lançou
um olhar de espanto para Pounder.
— O
que será que houve com ele? Por que anda tão sensível?
— O
senhor o atingiu no seu orgulho profissional. — Pounder sorriu; parecia muito
satisfeito. — Bem feito! Quem manda tratar qualquer pessoa que não seja um dos
seus espiões como um homem de categoria inferior? Bem, agora que ninguém nos
incomoda mais, diga-me, com toda sinceridade, professor, qual é sua opinião a
respeito de tudo isso?
Lehmann inclinou-se para a frente. Pounder
continuou:
—
Acho que estamos de acordo em que o major Rhodan está acima de qualquer
suspeita. O que aconteceu no deserto de Gobi?
O professor Lehmann sorriu. Seu olhar
perdia-se através
da janela, contemplando o horizonte. Sem olhar para o general, comentou:
— Talvez
seja conveniente, meu caro Pounder, reformular a parte geográfica da pergunta.
O correto é: o que aconteceu na Lua?
Pounder arregalou os olhos.
Depois de ter desembarcado do Stratoliner em Pequim, o major Perkins
dirigiu-se a um hotel de primeira categoria. Poucos minutos depois, um dos
agentes do seu país forneceu-lhe o endereço de uma firma que trabalhava para o
governo. Telefonou ao procurador e combinou um encontro.
Nos documentos do agente, constava o nome
Alfons Hochheimer, e a profissão de engenheiro de minas. Segundo os dados do
passaporte, encontrava-se na Federação Asiática há mais de dez anos e já
trabalhara várias vezes para empresas estatais de mineração.
Na sala de recepção da empresa, decorada em
estilo ultramoderno, um chinês trajado à européia recebeu-o com um sorriso
imperscrutável.
— É
o senhor Hochheimer, não? Meu nome é Yen-Fu. Posso lhe ser útil em alguma
coisa?
— Tive
conhecimento de que sua firma participa da exploração de regiões economicamente
pouco interessantes — disse Perkins, enquanto apertava a mão que o outro lhe
estendia. — Já tive oportunidade de pesquisar trechos extensos do deserto de
Gobi, a serviço de outras empresas. Conheço um lugar em que há possibilidade de
se encontrar urânio, desde que as pesquisas alcancem uma profundidade
suficiente.
O sorriso de Yen-Fu tornou-se ainda mais
intenso.
— Urânio
no deserto de Gobi? O senhor deve estar enganado! Já enviamos várias expedições
para lá, mas nenhuma delas teve êxito.
A essa altura, também no rosto de Perkins
via-se um sorriso misterioso.
— Acontece
que os participantes das suas expedições não possuíam os instrumentos de busca
de que disponho, senhor Yen-Fu. Já ouviu falar na sonda de Spielmann?
O chinês sacudiu a cabeça.
— Não.
Para ser sincero, nunca ouvi falar. Perkins não se admirou com a resposta.
Acabara de inventar o nome.
— É
lamentável, senhor Yen-Fu, muito lamentável. Spielmann é um dos cientistas mais
conceituados do mundo ocidental. As grandes descobertas de urânio no continente
americano foram devidas ao seu invento. Disponho de um dos seus modelos mais
recentes.
Apesar do terno sorriso, o rosto do chinês passou a revelar uma
certa dose de desconfiança.
— Não
é americano?
— Não,
sou alemão. Mas encontro-me na Federação Asiática há mais de dez anos. Aqui
estão os meus documentos. Espero que os mesmos o convençam da sinceridade da
minha proposta.
O procurador examinou cuidadosamente aqueles
documentos. Falsificados com perfeição extrema. Não encontrou nada de anormal, e
devolveu-os a Perkins.
— Sabe
onde se poderia encontrar urânio no deserto?
Perkins confirmou com um aceno de cabeça.
— Existe
quantidade suficiente para abastecer vinte usinas por cem anos. É claro que o
material também pode servir para outra coisa — disse com um sorriso
significativo.
—
Queira esperar.
Perkins esperou. Mas não o deixaram esperar por
muito tempo. Falou com o diretor da firma. Depois com
um funcionário
categorizado do governo. Finalmente falou com o piloto do avião que devia
levá-lo juntamente com os membros da comissão à região em que se encontravam as
pretensas jazidas de urânio.
— O
senhor traz consigo essa sonda? — perguntou Yen-Fu curioso. — Ela permite a
leitura imediata dos resultados?
Perkins lembrou-se da caixinha metálica bem concebida. No seu
interior havia uma bateria e alguns fios, e do lado de fora várias escalas e
botões. Confirmou com um aceno de cabeça.
— É
claro que sim. Não viria a sua presença sem o equipamento necessário. Quando
partimos?
— Daqui
a uma hora, se estiver de acordo. Ainda estamos aguardando a confirmação
definitiva da repartição competente.
“Tomara que isso acabe bem!”, pensou Perkins.
Mas dificilmente conseguiriam descobrir sua verdadeira identidade, pois seus
documentos eram melhores que os de qualquer chinês. Todavia...
Perkins tomou um refrigerante no café situado do outro lado da
rua. Deu algumas moedas a um mendigo, que lhe queixou suas mágoas com voz rouca
e estridente, afirmando que tinha filhos menores para sustentar. O homem fez
várias mesuras e, subitamente, entremeou seus agradecimentos com algumas palavras
bem mais sugestivas.
— Não
conhece mais os amigos, meu velho? Por que será que Mercant resolveu enviar
justamente você? O representante do governo que viajará no avião é um dos
nossos. Trate-o bem. Oh, pai dos justos, exemplo celestial de misericórdia
humana, receba mil agradecimentos pelo seu gesto bondoso. Meus filhos pedirão
pelo senhor junto aos antepassados. Que os deuses da fecundação abençoem o
senhor, que dispensou a um indigno como eu a graça de poder beijar seus pés...
Perkins piscou para o mendigo. Depois
virou-se com um gesto de desprezo. Atirou uma moeda sobre a mesa e saiu do café.
O avião era um pequeno jato particular. Além do
piloto viajavam um representante do governo, um engenheiro e Perkins. O luxo da
pequena cabine indicava que o aparelho se destinava a finalidades especiais.
Era dotado de deslizadores que permitiam o pouso em terreno irregular e mesmo
na água, pois os flutuadores esguios impediriam seu afundamento.
As turbinas uivaram, mas o ruído foi se tornando
praticamente imperceptível à medida que o avião ganhava altitude.
Abaixo deles, Pequim foi desaparecendo. O
aparelho tomou o rumo oeste. As planícies férteis foram ficando para trás.
Surgiram as primeiras montanhas e, depois, o deserto cinzento e tórrido.
O representante do governo inclinou-se para
frente e bateu no ombro do engenheiro que estava sentado perto de Perkins.
— Onde
fica a região, Lan-Yu?
— A
leste de Sutschou, nas proximidades do lago salgado de Goshun. Mais ou menos no
lugar em que teria descido a nave espacial americana.
— São
boatos — disse o engenheiro. Virou-se e sorriu. — O senhor não acha?
— É
claro que são boatos.
Com cerca de hora e meia de vôo, já tinham percorrido
cerca de 1.300 quilômetros. Foi quando o piloto abriu a portinha minúscula que
dava para a cabine e disse:
— A
Diretoria de Controle de Vôo de Pequim acaba de dar ordem para regressar
imediatamente. É proibido sobrevoar a área que fica situada entre Ordos,
Schan-Si, a serra de Nan-Schan e Ning-Hsia. O lago de Goshun fica exatamente no
centro dessa área. Não informaram o motivo da proibição.
Lan-Yu lançou um olhar em direção ao representante do
governo.
— O
que significa isso? Pois o senhor obteve autorização do governo para
acompanhar-nos neste vôo. E devia saber que...
— Prossiga
e desligue o equipamento de rádio — ordenou o representante do governo. — Não
siga as instruções.
— Tenho
de deixar o receptor ligado por causa das comunicações sobre o tempo. Além
disso sou obrigado a transmitir nossa posição de cinco em cinco minutos.
O representante do governo olhou para
Perkins. Este deu um aceno de cabeça quase imperceptível e colocou a mão no
bolso do casaco.
— Desligue
o equipamento — voltou a ordenar o comissário. — Peço-lhe encarecidamente que
daqui por diante se atenha estritamente às minhas instruções. Se não o fizer,
as conseqüências correrão por sua conta. Não se esqueça que represento o
governo. Desça junto ao lago de Goshun. Quanto tempo ainda levará para chegar
lá?
O piloto hesitou por um instante. Depois lançou um olhar para o painel
de instrumentos: — Dez minutos — respondeu.
— Daqui
a oito minutos deveremos iniciar a manobra para aterrissagem. Até lá nada de
mudanças de rumo. Entendido?
— A
responsabilidade será sua — disse o piloto, enquanto confirmava com um
movimento de cabeça, e desapareceu.
O engenheiro Lan-Yu acompanhara o diálogo sem dizer uma
palavra. O sorriso desaparecera do seu rosto. Seus olhos oblíquos
estreitaram-se ainda mais. Percebeu que Perkins, ou melhor, Alfons Hochheimer
ainda estava com a mão no bolso.
— Por
que não segue as instruções do governo? — perguntou, falando devagar. — Não
vamos criar problemas? A proibição deve estar relacionada com a nave espacial
pousada na área.
— Não
tenho a menor dúvida — disse o representante do governo. — Mas não se preocupe.
Sei perfeitamente o que estou fazendo.
— Para
mim nada importa desde que encontremos o urânio — disse Lan-Yu. Passou os olhos
pela impressionante caixinha metálica que se encontrava no
assento vago junto a Perkins. O aspecto da mesma era tão impressionante que convencera
o chefe da firma. — Só faço votos de que realmente o encontremos.
Dali a cinco minutos o piloto voltou a
aparecer.
— Temos
um avião da Força Aérea à nossa frente. Está dando ordem para regressarmos.
— Como
é que o senhor vai saber disso, se não mantém qualquer comunicação com eles?
— Tiros
de advertência! — disse o piloto em tom seco. Aparentemente ele não conhecia o
medo.
— Ligue
o aparelho de rádio. Irei até aí.
O representante do governo lançou um olhar significativo
para Perkins. Depois, foi à carlinga apertada, fechando a porta atrás de si.
Perkins tirou a pistola automática do bolso e apontou-a
para Lan-Yu.
— Por
acaso tem uma arma?
O engenheiro quase chegou a engasgar de
susto. Arregalou tanto os olhos que eles quase ficaram redondos. Sacudiu a cabeça, enquanto fitava o
orifício negro do cano da arma.
— O
que deseja que eu faça? — balbuciou.
— Quero
que fique bem quietinho, com a boca fechada. Se fizer de conta que nem existe,
poderá sair são e salvo desta aventura. Senão...
O silêncio significativo deixou a alternativa em
aberto.
— Mas,
o senhor sozinho não vai conseguir...
— Não
estou só. E agora não diga mais uma única palavra. Devemos aterrissar daqui a
pouco.
Na verdade, o avião começou a descer. O
avião militar se afastara, depois de trocadas algumas mensagens radiofônicas.
Atravessaram a barreira aérea da Federação Asiática e passaram bem baixo por
cima de algumas formações de tanques que recuavam. Subitamente, avistaram a
Stardust bem à frente, junto à desembocadura do Morin-Gol.
A nave espacial parecia solitária e abandonada.
Não se via qualquer sinal de vida perto dela.
Apenas, bem alto, um pontinho minúsculo destacava-se contra o céu azul.
Descrevia círculos como se fosse uma ave de rapina que, a qualquer momento,
precipitar-se-ia sobre sua vítima.
Nem Perkins nem o outro agente que se
encontrava em sua companhia sabiam que esse ponto minúsculo era um bombardeiro
da Federação Asiática levando uma bomba atômica que seria lançada contra a
nave.
— Onde
vamos aterrissar? — perguntou o piloto. O representante do governo, que era um
dos membros mais competentes do serviço de espionagem ocidental,
apontou para o lado.
—Ali
no deserto, perto da nave espacial. Faça o avião parar a menos de cem metros da
Stardust. Entendido?
O piloto confirmou com um movimento de cabeça. Descreveu uma curva bem
ampla e preparou-se para aterrissar. O aparelho foi descendo sobre o deserto. A
altitude não ultrapassava algumas centenas de metros. A distância que os
separava do ponto em que se encontrava a nave foi diminuindo vertiginosamente.
Faltavam poucos quilômetros...
Nesse meio tempo, a bomba lançada pelo outro avião foi
caindo. O pontinho minúsculo parou de descrever círculos e foi se afastando em
linha reta. Portanto, havia dois objetos que se aproximavam da Stardust.
Perkins foi à carlinga, depois de ter amarrado Lan-Yu na
sua poltrona. O avião deslizou pelo solo pedregoso em velocidade vertiginosa.
Quando se encontrava a pouco mais de dois quilômetros da Stardust, um segundo
sol surgiu repentinamente dois mil metros acima da nave. O cogumelo atômico
chamejante, que se ergueu a pouquíssima distância e cujos gases incandescentes
deslizaram pela cúpula invisível, cegou seis pares de olhos.
Ainda chegaram a sentir o choque produzido
pelo embate contra o anteparo energético.
Depois, não houve mais nada...
— Ei,
Perry! Pounder está no aparelho. O homem está muito nervoso.
Rhodan acenou a cabeça para Crest, com quem
estivera conversando.
— Com
licença, Crest. Pretendo esgotar todas as possibilidades.
No caso, a expressão “está no aparelho” era a
menos adequada. A comunicação visual através do satélite era perfeita. O rosto
de Pounder na tela era tão nítido como se estivesse olhando por uma janela. Os
asiáticos não interferiam mais nas transmissões, o que era sinal de que não
mais sabiam o que fazer.
Bell inclinou-se ligeiramente e fez um gesto
em direção
à tela.
— Permita
que o apresente: é o general.
Perry
empurrou-o para o lado.
— General
Pounder, comunico nosso retorno da expedição lunar. A tripulação está bem. A Stardust
não está em condições de decolar em virtude de defeitos mecânicos. Missão
cumprida. Os resultados das pesquisas científicas serão encaminhados ao
professor Lehmann.
O general respirava com dificuldade.
— Rhodan,
o senhor enlouqueceu? Quer fazer o favor de explicar o motivo que o levou a
pousar no deserto de Gobi? O mecanismo de controle remoto falhou? Podia ao
menos ter tentado descer no oceano.
— O
pouso neste local foi proposital.
— O
quê? — o rosto de Pounder adquiriu uma tonalidade vermelha bem viva. — O que
está dizendo? Foi proposital? Major Rhodan, o senhor não vai me dizer que...
— Não
vou dizer coisa alguma. Pelo menos, não o que o senhor está pensando.
Procurarei explicar...
— Não
há nada a explicar — berrou Pounder a plenos pulmões. — O senhor vai destruir
imediatamente a Stardust por meio da carga explosiva e entregar-se às Forças da
Federação Asiática. Entendeu?
Um brilho gélido surgiu nos olhos de Rhodan.
— Entendi,
general. Mas não cumprirei suas ordens.
— Não
vai cumprir a ordem? — Pounder oferecia um quadro assustador. O vermelho do seu
rosto tornou-se mais intenso. Bell, instintivamente, abaixou-se como se temesse
que a cabeça que aparecia na tela fosse explodir. — Major Rhodan, ordeno-lhe
que...
— General,
permita-me dizê-lo que já não sou mais major, e, por isso, nego-me a receber
ordens do senhor. Como vê, removi os distintivos do meu uniforme. Se permitir,
começarei a explicar.
O rosto do professor Lehmann tinha surgido
perto de Pounder. Nos seus olhos havia um brilho de curiosidade.
— Rhodan,
será que nas crateras da Lua existem vestígios de atmosfera e até mesmo restos
de...
— Silêncio!
— berrou Pounder e empurrou o cientista para o lado. — Fale, Rhodan! E procure
ser convincente, pois suas palavras decidirão se dentro de dez horas teremos
guerra ou não. A Federação Asiática está convencida de que a Stardust não passa
de uma base americana colocada intencionalmente em seu território. Se não for
abandonada até amanhã, as relações diplomáticas estarão rompidas. Acho
desnecessário salientar quais as conseqüências que advirão deste fato, caso ele
seja concretizado.
— Então
as coisas já chegaram a este ponto? — murmurou Perry assustado. — Nesse caso,
não temos um segundo a perder. Preste atenção, general. Pousamos na Lua,
conforme previsto, e descobrimos os restos de uma civilização extraterrena. Não
posso dar-lhe detalhes de tudo o que encontramos, mas algumas indicações
serão suficientes. Para tranqüilizar o professor Lehmann, diga-lhe que a Lua
nunca foi habitada, mas, há muito tempo, posou lá uma nave exploradora
tripulada por membros de uma civilização interestelar. Esta nave ainda está
intacta e em seu bojo existe um arsenal que daria para destruir não apenas a
Terra, mas todo o sistema solar. Raios mortíferos e anteparos energéticos,
neutralizadores da gravidade e campos anti-neutrônicos capazes de impedir toda
e qualquer explosão atômica são apenas alguns exemplos. Além disso, existem
armas manuais, cujos efeitos o senhor nem seria capaz de imaginar. General, o
senhor há de compreender que eu não estava disposto a colocar esse poder
tremendo nas mãos de qualquer das nações da Terra.
De um golpe, Pounder recuperou o sangue-frio.
— Acontece
que pousou no território da Federação Asiática. Há outras pessoas que estão
escutando nossa palestra. Logo, todo mundo saberá o que o senhor descobriu na
Lua. Expedições serão enviadas para lá e haverá uma corrida frenética que
decidirá quem há de dispor do poder final. O senhor devia ter ficado calado.
— Quero
que todo o mundo saiba — disse Rhodan, sacudindo a cabeça. — Além do mais,
ninguém pousará na Lua, a não ser que eu queira. Não se preocupe, general, pois
os asiáticos não conseguirão estas armas. Os russos e os americanos também não.
Só eu disponho delas. E cuidarei para que ninguém inicie uma guerra que os
destruiria a todos.
— O
senhor?
Estas palavras foram proferidas com tamanho
desprezo que Rhodan ficou rubro de raiva. Recuou um passo e fitou o general com
olhos frios.
— Eu,
sim! O senhor já devia ter compreendido que a política falhou. Há séculos os
governos tentam evitar a guerra quente. Uma ameaça segue-se a outra, uma
conferência a outra. A culpa não é apenas do bloco oriental e da Federação
Asiática, mas também do bloco ocidental. Ninguém quer ceder;
todos continuam a se armar. Os foguetes com cargas atômicas estão estacionados
em todos os pontos do globo. Basta comprimir um botão para dispará-los, o
dispositivo automático de que são dotados os conduzirá ao alvo. Todavia, antes
que possam atingi-lo, as armas de retaliação serão acionadas do lado oposto. Os
povos de ambos os lados do mundo praticamente deixarão de existir no mesmo
instante. Há decênios defrontamo-nos com essa visão macabra. Ninguém conseguiu
conjurar o perigo. Até hoje apenas o equilíbrio de forças tem impedido a
guerra. Mas, ai de nós se um dos lados se tornar mais forte. Ver-se-ia obrigado
a destruir o outro lado para viver em paz. Nós faríamos isso, da mesma maneira
que os asiáticos. Compreende por que nenhum dos blocos deve pôr as mãos na
Stardust, que tem a bordo algumas das armas extraterrenas?
Ouviu-se a respiração pesada do general.
— O
senhor poderia ter prestado um serviço inestimável ao seu país se...
— Se
tivesse levado as armas para Nevada Fields? Está enganado, general. A Federação
Asiática e o bloco oriental sentir-se-iam tão ameaçados que se lançariam a uma
guerra de extermínio contra o bloco ocidental. Não poderiam agir de outra
forma. Seria o fim da nossa civilização. De qualquer maneira, agirei de acordo
com um plano que tracei, quer o senhor aprove, quer não.
— Que
plano é esse?
— Formarei
uma terceira potência, que será neutra, ficando eqüidistante dos blocos que se
defrontam sobre a Terra. Estamos em condições de transformar qualquer foguete
atômico que seja disparado em um projétil inofensivo. Qualquer bomba atômica
estalará no ar sem produzir o menor efeito, como se fosse fogos de artifícios.
Repelirei qualquer ataque dirigido contra a Stardust parta de onde partir.
Vou...
Perry Rhodan parou de falar. Atrás dele, ouviu-se um ruído.
Virou-se. Bell segurava o braço de Fletcher que entrara na sala de rádio.
— Não
caia na conversa dele, general! — gritou Fletcher. — Ficou doido. Os arcônidas
com suas idéias decadentes fizeram com que enlouquecesse. Opus-me à
aterrissagem neste local. Mas ele me ameaçou com a pistola. É um amotinado.
Perry fez um sinal a Bell e deixou que
Fletcher terminasse. Finalmente, aproximou-se dele e colocou-lhe a mão sobre o ombro.
— Escute,
Fletcher. O general pode ouvir o que tenho a dizer. Talvez agisse da mesma
forma se fosse você. Acontece que não sou. Você é livre para deixar a Stardust
assim que o deseje. Não prendo ninguém. Mas quero que, antes de ir embora,
confirme perante o general Pounder que na Lua encontramos armas que nos
permitem controlar o mundo. Não lhe diga mais nada, só isso.
Fletcher hesitou. Fitou os olhos ameaçadores de Bell. O técnico
tinha na mão o bastão prateado do irradiador psíquico. Perry lançou-lhe um
olhar quase gentil. Na tela, o rosto de Pounder espreitava a cena.
Confirmou com um aceno de cabeça.
— É
verdade, general. Se Rhodan quiser, pode destruir o mundo.
Abaixou a cabeça, virou-se e saiu da sala. Rhodan,
suspirando aliviado, dirigiu-se ao general.
— General,
além do senhor, os homens que tomam as decisões no bloco oriental e na
Federação Asiática ouvirão as minhas palavras. Quero acrescentar apenas o
seguinte: a extensão territorial da terceira potência é muito limitada. Não
deixe que este fato o engane. Cumpram os meus desejos. E não se atrevam a levar
ao extremo as suspeitas que nutrem um contra o outro. Acho que, a esta altura,
já devem ter compreendido que a Stardust não é uma base americana. Por outro
lado, não pousou aqui para cair nas mãos da Federação Asiática. E o bloco
oriental terá de abandonar as esperanças de colher os despojos do conflito entre os dois outros blocos. Os senhores poderão se comunicar comigo a
qualquer momento nessa faixa, e também usarei a mesma quando tiver que entrar
em contato com os senhores. Lamento o ocorrido, general, mas acho que um dia o
senhor me compreenderá. Por ora só posso pedir que me desculpe.
Pounder fitou os olhos de Perry Rhodan,
depois acenou com a cabeça.
—
Parei o possível, Rhodan. E espero em Deus que Mercant concorde. O senhor o
conhece!
Um sorriso estranho passou pelos lábios de Rhodan. Ele
compreendeu a advertência, mas esta já não o assustava mais. Mercant passara a
ser apenas um homem.
E Perry Rhodan não mais temia os homens.
De Washington para Pequim:
Conseguimos estabelecer contato com a
Stardust. Comandante Rhodan afirma estar de posse de armas incríveis que teriam sido
levadas à Lua por uma potência extraterrena. Já não temos a menor influência
sobre os acontecimentos. Solicitamos seu pronunciamento.
De Pequim para Washington:
Acompanhamos palestra visualizada entre
General Pounder e Rhodan. Explicações inverossímeis — muito fantásticas.
Ultimato fica de pé. Prazo se esgotará daqui a sete horas.
De Moscou para Washington:
Participamos da opinião do governo da Federação
Asiática. Também consideramos a presença de uma base americana no deserto de
Gobi como uma ameaça à paz mundial. Mas, no caso de um conflito armado, Moscou
se conservará neutra.
De Moscou para Pequim:
Concordamos com a opinião do governo da Federação
Asiática. Também consideramos a presença de uma base americana no deserto de
Gobi uma ameaça à paz mundial.
De Washington para Pequim e Moscou:
Voltamos a afirmar que o governo de
Washington não
tem conhecimento de uma base americana no deserto de Gobi. Ordenamos à
tripulação da nave Stardust que se rendesse. Sugerimos um encontro dos dirigentes
das nações interessadas.
A última nota americana não obteve resposta. Às
sete horas tão preciosas começaram a correr. Na Ásia, as torres das rampas de
disparo começaram a girar em direção ao Oriente e ao Ocidente. Os monstros de
aço emitiram reflexos ameaçadores sob a luz dos refletores. Homens corriam de
um lado para outro. Depois, fez-se o silêncio.
O quadro repetiu-se nas áreas de defesa do bloco
ocidental.
No bloco oriental, as torres das rampas de
disparo foram giradas de tal forma que abrangiam todos os quadrantes do globo.
Nas três partes do mundo, um homem sentado bem
abaixo do nível do solo, contemplava um conjunto de painéis de controle e
instrumentos eletrônicos. Comunicava-se com os postos de comando através de
telas de imagem. Sua mão descansava sobre a mesa junto a um botão vermelho. Um
botão que parecia falar-lhe de uma destruição total e terrível para todo o
gênero humano; uma hecatombe que varreria todos os traços de uma civilização.
Em dois outros lugares, sobre duas outras
mesas, dois outros homens esperavam, suas mãos perto dos botões que dariam início ao
caos.
Crest estava sentado na cama, recostado na
parede forrada de almofadas. Manoli aplicara uma injeção em Fletcher que estava,
agora, mergulhado em um sono profundo. Bell encontrava-se na central em
companhia do médico, acompanhando as transmissões radiofônicas. De meia em meia
hora informava Rhodan do que acontecia no mundo.
Aos poucos, Crest compreendeu as conseqüências que sua presença na
Terra desencadeara entre os homens, embora estes nem tivessem conhecimento
dele. Com um ar pensativo e preocupado, disse:
— Rhodan,
não compreendo como seu povo consegue resistir a esta tensão psicológica. Pelo
que você diz há decênios que seu mundo vive sob esta atmosfera de suspense. Basta
que alguém aperte um botão para que a destruição seja lançada sobre a Terra.
Por que não houve, ainda, quem se erguesse contra este estado de coisas? Por
que não se formou um governo comum que reunisse todos os arsenais para usá-los
na defesa contra o possível ataque de um agressor extraterreno?
Rhodan suspirou.
— Não
há nenhuma resposta válida à sua pergunta, Crest. Se houvesse, não viveríamos
constantemente entre a vida e a morte. Talvez nenhuma resposta seja possível
enquanto a humanidade estiver convencida de constituir a única força deste
sistema solar. Só tememos algo que seja mais poderoso que nós. Os dois blocos
mais poderosos da Terra se equivalem em força e poder. O terceiro bloco
desempenha um papel secundário. Todo mundo sabe que no caso da irrupção de uma
guerra, os segundos serão decisivos. Mas todo mundo sabe, também, que aquele
que for surpreendido pelo ataque, terá tempo ainda para disparar os foguetes de
retaliação antes que o país mergulhe nos escombros e nas cinzas. A conseqüência
inevitável será a morte de ambos os adversários. Só o conhecimento
deste fato tem evitado a catástrofe.
— Começo
a compreender o problema. Quando minha civilização ainda era jovem,
defrontou-se com as mesmas dificuldades. Viveram mais de duzentos anos sob o medo
constante do aniquilamento total. Foi quando uma população de insetos
guerreiros vinda dos confins da Via Láctea nos descobriu e desfechou um ataque
contra nós. Em menos de meia hora, os governos se uniram e derrotaram o inimigo
comum. Como o perigo continuasse, a aliança foi mantida. Foi assim que nos
tornamos um povo unido e iniciamos a ascensão.
Perry Rhodan concordou com um aceno de cabeça. Seus olhos reluziam.
— É
a primeira vez que ouço essa história, mas, apesar disso, ela não constitui
novidade para mim. É a única solução lógica dos problemas que surgem quando um
grupo de seres inteligentes descobre as armas definitivas. A esta altura já
deve compreender por que tenho que agir da forma como estou agindo. Não é nada
agradável ser apontado como traidor pelos amigos e superiores hierárquicos. Mas
se me deixar levar pelos sentimentos, o mundo estará perdido. Um dos blocos
poderia se apossar das armas e destruiria o outro. Todavia, antes que
conseguisse fazê-lo, o outro poderia desencadear a ação suicida. Não, Crest,
vejo perfeitamente o caminho que devo percorrer. Seu problema é a resposta às
minhas indagações. Você quer recuperar a saúde. Vou ajudá-lo. Precisa de
sobressalentes eletrônicos. Vou consegui-los. Sua nave poderá decolar em busca
do planeta da vida eterna. É possível que acabe se esquecendo de nós. Mas
aproveitarei a sua curta presença aqui para trazer a paz à Terra, a paz pela
força. De outra forma não é possível. Só o medo de uma potência ainda maior
fará com que as potências do nosso planeta recuperem a razão. Acredito que
poderei contar com a sua ajuda.
— Farei
o que estiver ao meu alcance. Mas, por enquanto, não parece que sua atuação
esteja sendo coroada de êxito. Falta pouco para expirar o prazo do
ultimato. E depois?
— Thora
terá de intervir. O antepara energético e o neutralizador da gravidade não
foram suficientes para convencer os asiáticos de que se defrontam com
formidáveis inventos extraterrenos. E o meu pessoal do ocidente acredita que
tudo não passa de um blefe. Portanto, é necessário que aconteça alguma coisa
que deixe patente para todos os interessados o poderio imenso da terceira
potência. Sua nave está estacionada na Lua. O que pode ser feito de lá para que
toda a humanidade fique ciente do perigo que paira sobre ela? Não seria
possível erguer o rochedo de Gibraltar e fazer com que o mesmo caia no mar a
mil quilômetros de distância? Ou transferir a Estátua da Liberdade de Nova
Iorque para Pequim? Quem sabe se poderia paralisar todas as comunicações
radiofônicas do mundo?
— Poderíamos
fazer tudo isso e, provavelmente, seria conveniente dar uma demonstração bem
visível aos homens. Pense no assunto e avise-me da sua decisão. Thora fará
aquilo que eu lhe pedir. De minha parte sugiro a utilização de um raio
energético. Escolha uma região não muito afastada, mas despovoada. Previna os
homens. Avise-os de que dentro de duas horas, isto é, três horas antes do
término do ultimato, queimará as areias do deserto, produzindo um funil de
cinqüenta quilômetros de diâmetro. Previna-os que se não agirem de acordo com
os seus desejos, o raio será dirigido contra zonas habitadas. Acho que isso
bastará para convencê-los.
Um sorriso se esboçou no rosto de Rhodan. A
insensibilidade aparente, porém, ocultava uma preocupação sincera com o futuro
da espécie humana. Sabia que não havia nenhum argumento que pudesse incutir bom
senso na mente dos guardiões das ideologias. Só um choque seria capaz de tanto.
Estava disposto a aplicar a terapia de choque no mundo.
— Acredito
que sim — respondeu. — Acha que Thora está disposta a nos ajudar?
— É
obrigada a ajudar, quer queira, quer não. O seu orgulho
diante de uma raça
inferior é tamanho que a faz esquecer de que também já atravessamos este
estágio: os estágios de evolução de D a A. Talvez tenha sido a época em que
nossa civilização foi mais produtiva. Éramos jovens e ativos. Amávamos o
progresso e a novidade. Hoje tudo mudou. Somos degenerados e presunçosos. Vou
usar de franqueza, Rhodan. Às vezes, quando penso na nossa semelhança exterior,
chego a ter idéias bem estranhas. Se combinássemos o espírito de sua raça com o
da nossa, se uníssemos a sua vitalidade ao nosso saber, poderíamos dominar o
Universo...
Os olhos de Perry Rhodan perderam o brilho
duro. Vagaram numa distância
ignota, que se media por eternidades. Sem que percebesse, seus punhos se
cerraram, os dedos voltaram a se distender. A imagem do futuro desenrolou-se
diante do seu espírito como uma visão instantânea.
Os homens e os arcônidas — uma só raça. A
iniciativa e o espírito de aventura aliados a um saber vetusto e a uma
tecnologia inimaginável. Naves espaciais que se deslocavam a velocidade
superior à da luz, tripuladas por homens e mulheres ávidos de ação, penetravam
nos recantos mais profundos da Via Láctea, descobriam novos mundos, fundavam
colônias e impérios. O comércio interestelar proporcionava um bem-estar
indescritível. Surgia um novo império galáctico. Surgia uma nova raça...
Talvez Crest imaginasse o que se passava na
mente de Rhodan. Um sorriso de sabedoria aflorou-lhe aos lábios.
—
Ainda nos encontramos no começo, Perry Rhodan. Você representa o gênero humano;
eu, os arcônidas. Você precisa do nosso auxílio; nós, do seu. É um pacto,
podemos chamá-lo assim, nascido da necessidade comum. Mas acredito que,
futuramente, cheguemos a uma união em prol do interesse mútuo, fundada na
razão. Até é possível que a Terra seja o planeta da vida que estamos
procurando, pois o rejuvenescimento traz consigo uma vida mais longa.
— Antes de mais nada, devemos
preparar o início, Crest. Depois poderemos falar sobre o resto. O mundo que
pode trazer-lhe a saúde está prestes a soçobrar. O ódio mesquinho e a
desconfiança egoísta, a falta de respeito pelas opiniões alheias, a obstinação
com que são mantidos certos princípios préestabelecidos, foi isso que nos
conduziu à situação atual. Antigamente o temor a Deus obrigava os homens a
serem honestos e tolerantes. Hoje, esses resultados só podem ser alcançados
através do medo incutido por ameaças palpáveis. Portanto, peça a Thora que
dirija o raio energético para a África do Norte, a cerca de cinco graus de
longitude leste, na altura do Trópico de Câncer. O raio deverá atingir a
vertente norte da serra de Ahaggar. Expedirei um aviso para que a região seja
evacuada imediatamente, embora, pelo que sei, esteja praticamente desabitada.
— A demonstração não deixará de produzir
efeito — prometeu Crest. — Convém salientar, no seu aviso, que se trata de uma
das operações mais inofensivas do nosso arsenal.
A estação receptora da patrulha
chefiada pelo tenente Durbas estava captando notícias alarmantes, vindas de
todas as partes do mundo. Subitamente as transmissões em todas as faixas foram
superadas por uma emissora desconhecida. O radio-telegrafista procurou, em vão,
controlar o seu aparelho, mas, mesmo com o mínimo de volume, a voz de Perry
Rhodan era ouvida num raio de duzentos metros.
“Aqui fala Perry Rhodan,
representante do terceiro poder da Terra. Uma vez que o mundo se prepara para a
guerra que trará o fim da espécie humana, não quero deixar de formular uma
última advertência. Por meio dela provarei que a nação ou Estado que disparar o
primeiro foguete atômico será destruído imediatamente. Dentro de cento e quinze
minutos surgirá uma cratera de cinqüenta quilômetros de diâmetro no deserto do
Saara, ao norte da cordilheira de Ahaggar. O fenômeno terá origem num raio
energético expedido da Lua. Pede-se a todas as pessoas que se encontrem na
região indicada que se afastem o mais possível do centro do alvo. Uma vez
realizada a demonstração, as potências mundiais disporão de três horas para
reconsiderar as suas posições. É tudo.”
O radiotelegrafista cravou os olhos
no receptor; estava atônito. O tenente Durbas, que se levantara e chegara mais
perto, fez a mesma coisa.
— O que foi isso? — perguntou depois
de algum tempo.
— Perry Rhodan, aquele cosmonauta
que pousou na Ásia. Dizem que está colaborando com a Federação Asiática. Também
se fala a respeito de novas armas que ele teria trazido da Lua.
Os homens da patrulha do deserto
reuniram-se. Estavam indecisos. O veículo estava parado à sombra de um oásis. O
motorista olhava para leste.
— A cordilheira fica logo ali. Será
que nos encontramos a uma distância segura?
O tenente Durbas mostrou-se
contrariado.
— Até parece que você está
acreditando nessa bobagem, Hassan! Um raio energético vindo da Lua! Será que
não podiam inventar outra coisa?
O radiotelegrafista sacudiu a
cabeça, estava pensativo.
— Deve haver algo de verdade nisso,
tenente. Captei algumas noticias. Dizem que esse Rhodan cobriu sua nave com uma
cúpula feita exclusivamente de energia. Nem mesmo uma bomba atômica poderia
atingi-la.
— São contos de fada. Não se pode
acreditar em tudo o que diz o nosso pessoal, o que dizer quando se trata dos
amarelos? Fundir uma cratera no deserto! Que tolice! O que diz o Forte Hussein?
— Estabelecerei contato
imediatamente.
O Forte Hussein recomendou que a
patrulha seguisse a advertência.
— Está bem — gemeu. Durbas, lançando
um olhar saudoso para o bosque sombrio. — Vamos recuar para o oeste. Esse
calhambeque faz quarenta quilômetros por hora. Acho que isso é suficiente.
Quinze minutos antes da hora marcada
para a demonstração, estavam abrigados atrás de uma elevação do solo, lançando
olhares impacientes em direção a leste. Admiraram-se dos numerosos aviões que,
subitamente, começaram a circular bem acima deles. Próximo ao local em que se
encontravam, pousou um helicóptero da Central de Informações Leste com seus
aparelhos de registro. Bem perto dali, uma pacata câmera de televisão da
Federação Asiática focalizava a região demarcada por Rhodan. Dos americanos,
nada se via. Talvez estivessem mais ao norte.
Faltavam dez minutos.
Um círculo bem amplo formara-se em
torno da área ameaçada. Os presentes não acreditavam muito naquilo que talvez
fosse acontecer dali a pouco, mas ninguém queria perder a chance de assistir a
um espetáculo como o que se prometia. Tratava-se, na verdade, de um espetáculo
desencadeado por um poder estranho.
Passaram-se cinco minutos.
Durbas tocou no braço do cabo Abbas.
— Dentro de uma hora ficará escuro.
Tomara que esse Rhodan não demore muito. Aliás, recebemos ordem para regressar
imediatamente ao Forte. Deve estar acontecendo alguma coisa.
— Será que é a guerra?
— Como vou saber? Pensando bem,
desde 1945 encontramo-nos numa espécie de guerra.
O tenente olhou para o relógio.
— Está na hora — murmurou e olhou
para o leste. No mesmo instante, porém, fechou os olhos. As demais pessoas que
se encontravam por ali fizeram a mesma coisa.
Foram ofuscados por uma extensa
cortina de luz que se precipitou do céu azul e atingiu a areia do deserto a
cerca de trinta quilômetros dos observadores. Continuava visível mesmo através
das pálpebras fechadas. A origem do raio perdia-se no céu, onde ia se
estreitando progressivamente. Mais exatamente, localizava-se no ponto em que se
situava a Lua, invisível a essa hora.
Uma onda de calor passou por cima
dos homens assustados. As câmeras de televisão, porém, continuaram a zumbir,
transmitindo o fenômeno diretamente para todos os quadrantes do mundo. Um raio
incandescente brilhou nas telas de imagens dos centros de informações. Um dos
aviões, que se aproximou demais da zona de perigo, foi colhido por um imenso turbilhão
que o arrastou para o interior do raio energético. No mesmo instante, foi
transformado numa gigantesca gota de metal fundido que se evaporou depois de
alguns instantes de queda.
O raio pousou sobre o deserto por
apenas um minuto. Depois, apagou-se.
Parecia que, era noite. O Sol, que
ainda há pouco emitia um brilho tão intenso, agora parecia uma estrela
agonizante, embora estivesse bem acima do horizonte. Sua luz era pálida e
avermelhada. Podia-se contemplá-lo com os olhos bem abertos.
No lugar em que o raio tinha tocado
o solo, já não havia deserto. Uma cratera abria-se entre a areia e as rochas.
Não se via o fundo. As bordas estavam incandescentes. Bem embaixo, percebia-se
um brilho avermelhado. Vapores erguiam-se das profundezas do inferno
recém-criado.
Só de avião a cratera podia ser
abrangida com o olhar. Era gigantesca. Formava um círculo perfeito, como se
tivesse sido traçada a compasso.
Durante três horas o mundo conteve a
respiração. O momento em que expirava o prazo do ultimato chegou — e passou.
Três botões vermelhos deixaram de
ser tocados...
O tenente Klein chegou a Pequim por
um caminho mais longo que o habitual. De acordo com as ordens que recebera,
entrou em contato com o número dois, que lhe forneceu novas instruções. A
missão a ser cumprida parecia impossível, mas tinha que ser tentada. Perry
Rhodan representava um perigo para todo o mundo. Quem conseguisse remover esse
perigo conquistaria fama imorredoura, pouco importava a nação a que
pertencesse. A missão exigia a mobilização de todas as energias da pessoa
encarregada de cumpri-la, além de uma coragem extraordinária.
No entanto, havia uma circunstância
que a fazia parecer mais fácil. O próprio Mercant fornecera a Klein uma
indicação de suma importância.
— Preste atenção, Klein! Rhodan não
poderá ser eliminado com os meios usuais. Só existe uma possibilidade: a
traição. Não se preocupe com os aspectos morais, pois Rhodan também nos traiu.
Você terá que romper o anteparo energético. Como fazê-lo é problema seu. Há
outro detalhe: você não está só. Há agentes do bloco oriental, e também da
Federação Asiática que estão lidando com o mesmo problema. Não é impossível que
a tarefa comum acabe por conduzi-los a certo tipo de entendimento. Enquanto a
Stardust não tiver sido destruída, os agentes da Federação Asiática e de Moscou
serão seus colegas. Boa sorte!
Klein precisaria de sorte e, até
aquele momento, ela não o deixara em falta. Em Kalgan, a 120 quilômetros a
noroeste de Pequim, onde procurou conseguir um automóvel através de dinheiro e
promessas, teve a sua atenção despertada por um chinês, que já tinha visto três
vezes no mesmo dia. O rapaz observava-o; não tirava os olhos dele.
Comprou um carro capaz de trafegar
em terreno difícil e providenciou mantimentos e outras provisões, uma barraca
com os respectivos equipamentos e tudo o mais de que precisava para uma pequena
expedição. As estradas encontravam-se em boas condições, mas estavam sendo
vigiadas.
Mandou pintar no veículo, em letras
enormes, umas palavras que o colocariam a salvo de qualquer suspeita: Viagem
Experimental Realizada sob o Patrocínio do Exército. Seus documentos diziam que
era engenheiro. Devia verificar se o veiculo se prestava ao transporte de
tropas pelo deserto e pelas montanhas.
Ao sair da cidade, procurou em vão
pelo chinês suspeito. Provavelmente desistira do seu intento. Por que e quais
as suas intenções, Klein não sabia.
“Essa gente tem um interesse todo
especial por estrangeiros”, murmurou enquanto se desviava de um veiculo que
vinha em sentido contrário. “Mas não pareço tão rico assim. O que é que se
poderia roubar de um engenheiro no campo?”
Pelo fim da tarde, passou pela
cidade de Kwai-Hwa, indo pela estrada que seguia junto à Grande Muralha. Não
podia saber que naquele mesmo instante o chefe do Serviço de Defesa da
Federação Asiática, Mao Tsen, encontrava-se na longínqua Pequim, sentado diante
de um receptor que lhe fornecia a localização exata do pretenso veículo
experimental. O chefe do Serviço Secreto, major Butaan, estava sentado ao seu
lado, sorrindo.
— O tenente Li Shai-tung é um dos
meus melhores agentes — disse Butaan cheio de orgulho, como se aquilo
representasse uma realização exclusivamente sua. — Logo descobriu esse
americano e não o perdeu de vista. Estou curioso para ver se é correta a sua
teoria, segundo a qual os outros cooperariam conosco se realmente a Stardust
não fosse uma base americana, o que, a esta altura, parece bastante provável.
Se o bloco ocidental dispusesse de uma arma como o raio vindo da Lua, já
teríamos deixado de existir. Li foi informado de que a Stardust deve chegar às
nossas mãos intacta?
— Foi devidamente instruído —
confirmou Mao Tsen com um gesto comedido. Estava prestando atenção à voz fina
vinda do alto-falante: — Ah, o americano resolveu prosseguir viagem. Daqui a
pouco deverá chegar ao Hwang-Ho. É possível, até, que atinja a localidade de
Pau-tou, a não ser que prefira passar a noite num acampamento ao ar livre.
Klein não sabia que, no
quartel-general do Serviço Secreto da Federação Asiática, sua rota estava sendo
traçada, com toda a precisão, em um mapa. Era como se ele transmitisse
periodicamente sua posição.
Só quando parasse, ele ficaria
sabendo que tinha sido acompanhado.
A lua minguante já se aproximava do
horizonte sob o qual o sol se escondera. À sua esquerda, brilhavam as águas de
um rio que deslizava lentamente. A estrada era ladeada por moitas de arbustos
que se estendiam até a margem do rio.
Klein encontrou um espaço livre e
dirigiu o carro para lá. Prosseguiu mais alguns metros até chegar a um lugar
que lhe pareceu apropriado. O carro ficou abrigado entre a vegetação e as
rochas, junto ao rio.
O tenente espreguiçou-se e saiu do
carro. Fazia calor mas, assim mesmo, uma fogueira não seria má. Não armaria a
barraca e um café quentinho lhe faria bem. Depois, estenderia algumas cobertas
na parte do veículo destinada à carga e dormiria lá.
— Vamos descansar? — perguntou uma voz
atrás dele num inglês horrível. — Calma! Não faça nenhum movimento precipitado,
meu amigo. Estou segurando uma arma. Vire-se devagar, bem devagar.
Klein acabara de colocar alguns
pedaços de lenha bem seca sobre as chamas que pareciam ávidas por se
alimentarem. A luz produzida pela fogueira permitia-lhe reconhecer o rosto do
seu interlocutor. Naturalmente era aquele rapaz obstinado, que já lhe
despertara a atenção em Kalgan. Encontrara uma oportunidade para se esconder no
interior do veículo.
Tudo isso não seria tão mau assim se
o sujeito não lhe apontasse uma pesada pistola automática apoiada em um dos
braços. Klein olhou para o orifício ameaçador do cano daquela arma perigosa,
cujos projéteis tinham carga explosiva suficiente para danificar um carro
blindado de tamanho médio.
— O que deseja? — perguntou Klein. —
Para um vagabundo, seu equipamento é muito moderno. Tome cuidado, meu velho,
pois este veículo é do governo.
— De que governo? — disse Li
Shai-tung com um sorriso misterioso. — Do americano? Vamos, mostre logo suas cartas.
Qual é a sua missão? Talvez possamos chegar a um acordo.
Klein apontou para o fogo.
— Vamos sentar?
— Está armado?
— Está interessado em um acordo ou
prefere falar comigo de pistola na mão?
Li hesitou.
— Estou em situação de vantagem. Não
teria dúvidas em renunciar à mesma se soubesse que você está sendo sincero.
Quero que responda a uma pergunta minha. Só depois disso poderei aceitar o seu
convite e confiar em você. Qual é a sua missão? Quem é o seu chefe? Conheço as
respostas através das pessoas que me enviaram para cá. Se coincidirem com as
suas...
Foi descendo do carro, mas continuou
com a arma apontada para Klein. Este refletiu por um instante. Lembrou-se do
que Mercant lhe havia dito e, subitamente percebeu que ele estava com razão:
era necessário que colaborassem um com o outro.
A evolução dos acontecimentos já
começava a delinear a trilha sonhada por Perry Rhodan. Era ainda muito tênue,
muito insignificante, começava bem por baixo. Um dia, porém, abrangeria a Terra
se os agentes não conseguissem destruir a Stardust.
— Meu chefe é Allan D. Mercant,
chefe do Conselho Internacional de Defesa do Ocidente. Minha missão consiste em
destruir a nave espacial Stardust. Isso basta?
Li concordou com um movimento de
cabeça depois, abaixou a arma. Por uns momentos, continuou a segurá-la,
indeciso; acabou atirando-a na parte traseira do veículo. Foi até a fogueira e
apertou a mão de Klein, sentando-se em seguida.
O tenente engoliu em seco. O gesto
representou uma reação destinada a disfarçar a admiração que nutria pelo outro.
Sentou, também. Ao pé dos dois, o fogo espalhou um calor agradável. A água
começou a ferver na chaleira.
— A sua missão só difere da minha em
um ponto — admitiu o chinês depois de uma pausa prolongada. — Você recebeu
ordens para destruir a Stardust, ao passo que eu devo evitar isso de qualquer
maneira. Acredito, porém, que, oportunamente, ainda chegaremos a um acordo. No
momento, nossos objetivos são idênticos: impedir que Perry Rhodan possa impor
sua vontade ao mundo. Será que interpretei corretamente as suas intenções?
Klein confirmou com um gesto de
cabeça.
— Nesse caso — continuou Li —
poderemos colaborar um com o outro, até que Rhodan tenha sido posto fora de
combate... Aquilo que virá depois ainda está muito longe. Vamos fazer um
acordo. Queira formular sua proposta.
O tenente Klein nem chegou a
compreender o grotesco da situação. Dois agentes que trabalhavam para potências
inimigas uniam-se para eliminar o elemento mais poderoso. Ainda há poucos dias,
sua rapidez no manejo da arma decidiria qual dos dois conseguiria sobreviver.
Já agora tudo estava mudado. O temor infundido pela misteriosa terceira
referência transformara os inimigos em amigos que se mantinham numa atitude de
expectativa.
— Você me garante que não me
entregará às autoridades do seu país, nem mesmo depois que tivermos atingido
nosso objetivo. Em compensação, oportunamente, quando chegarmos ao local em que
se encontra a Stardust, revelo-lhe como pretendo fazer para atravessar a cúpula
energética. Está de acordo?
Li apertou a mão do americano.
Cinco dias depois, deixaram a
rodovia na altura de Hang-Shou, e avançaram pelo deserto de Gobi, em direção ao
norte. Deixaram para trás as montanhas e o rio. Dali em diante, só encontraram
alguns lagos-salgados e pequenos regatos. A vegetação foi se tornando cada vez
mais escassa. A paisagem refletia as características do deserto.
A cinqüenta quilômetros do destino,
foram detidos por uma unidade blindada do exército asiático. Foi Li quem salvou
a situação. Uma mensagem radiofônica expedida para Pequim produziu um
verdadeiro milagre. Os dois agentes foram liberados com muitos pedidos de
desculpas. O comandante da unidade, em meio a inúmeras mesuras, desejou êxito
completo ao senhor Klein e seu amigo chinês.
A situação foi se tornando cada vez
mais estranha. Até parecia nunca ter havido qualquer conflito entre o Oriente e
o Ocidente. O temor do inimigo comum revelou-se capaz de cimentar uma unidade
sólida até mesmo entre ideologias que se opunham ferozmente.
Ainda por duas vezes tiveram que
atravessar o cordão de isolamento estabelecido pelo exército. Klein começou a
indagar de si para si por que estava dirigindo aquele caminhão. Podia ter
pedido que o levassem num helicóptero do exército; e era indiferente que o
aparelho pertencesse à Federação Asiática, ou aos países do bloco ocidental.
Mas lembrou-se de que tinha que enganar Rhodan. Se é que este fosse se deixar
enganar com facilidade...
O capitão Reginald Bell desligou o
motor. Os dois reatores zumbiram mais algum tempo. Depois pararam.
— Então? — perguntou Perry. — Tudo
em ordem?
— Está! E o tanque está quase cheio.
Não será difícil cobrir os dois mil quilômetros até Hong Kong, desde que eu
possa reabastecer no caminho. A próxima parada será em Bornéo. Depois, terei
que alcançar a Austrália.
Fletcher saltou nervosamente de um
pé para o outro. Nos seus olhos havia um brilho fraco. Já esquecera a Stardust,
que se encontrava a apenas cem metros de distância. Só via o helicóptero que ia
levá-lo de volta à civilização. Chegado lá, encontraria uma possibilidade de
retornar aos Estados Unidos, onde a esposa o esperava.
Não sabia como tinha chegado ali. Só
se lembrava do seu nome e do da cidade em que sua esposa morava. O hipnobloco,
que Crest aplicara em torno do seu centro de memória com o auxílio do psico-irradiador,
apagara quase todos os fatos anteriores. Ninguém conseguiria arrancar nada de
Fletcher: era um homem que não tinha mais passado.
Rhodan o prevenira, mas Fletcher
limitara-se a abanar a cabeça.
— Serei o único responsável pelo que
acontecer; você não terá nada com isso. Quero voltar para junto de minha
esposa. É só. E, agora, leve-me para junto de Crest.
Meia hora depois estava tudo
terminado. Bell saltou para o helicóptero e acenou para Rhodan.
— Confie em mim, meu velho. Deixarei
Fletcher em Hong Kong ou em Darwin. Depois, arranjarei as peças sobressalentes
e o soro anti-leucêmico. Dentro de uma semana estarei de volta. Lembranças para
Eric e Crest.
— Cuidado para que não o derrubem!
— Este helicóptero é do Exército.
Além disso, levo comigo o neutralizador de gravidade, cujo alcance chega a dez
quilômetros. Isso sem falar no irradiador manual. As outras invenções também
serão úteis. Em troca delas, conseguiria continentes inteiros. Pense apenas nos
pequenos geradores de energia. São do tamanho de uma caixa de charutos, mas
fornecem, por um século, ininterruptamente, duzentos watts. Entre, Fletcher.
Enquanto o astrônomo se espremia por
entre as caixas, na parte traseira do helicóptero, Bell se despedia do amigo.
— Desligue o anteparo energético no
momento exato em que eu atingir altitude suficiente. Alguns segundos devem
bastar. Depois volte a fechar a nossa quitanda. Daqui a uma semana estarei de
volta. Não se preocupe. Até a volta!
Perry retornou à sala de comando da
Stardust. Quando o helicóptero ganhou altitude e chegou perto do teto da cúpula
energética invisível, ele empurrou uma chave durante cinco segundos. Bell já
estava do lado de fora.
O helicóptero tomou rumo sul.
Deslocava-se a baixa velocidade. Passou por algumas formações de carros blindados
e, pouco depois, chegou à vertente oriental das montanhas de Richthofen.
Tomando o rumo do sudoeste, prosseguiu a uma altitude de mil e quinhentos
metros.
No fim da tarde, foi atacado sem
qualquer aviso por um avião de caça.
Não sabia como explicar o incidente.
Talvez alguém o tivesse visto decolar. Mas, se fosse assim, não o teriam
deixado em paz por tanto tempo.
O pequeno aparelho surgiu de
repente. Vinha em sentido contrário e ligeiramente para o lado. Estava girando,
utilizando todo o seu poder de fogo. Os projéteis chamejantes passavam muito à
esquerda, antes que o piloto pudesse corrigir a pontaria, já havia passado pelo
helicóptero. Descreveu uma curva ampla e atacou pelo flanco.
Bell já conseguira dominar a
surpresa. Deixou que o helicóptero seguisse o mesmo rumo, regulou o irradiador
manual para meia intensidade e, depois, dirigiu-o sobre o avião que se
aproximava a uma velocidade vertiginosa.
“Está na hora de mostrar o que você
sabe fazer”, disse para si mesmo. Com os nervos tensos, acrescentou: “Suba. Ganhe
altitude e suspenda o fogo!”.
No mesmo instante, as línguas de
fogo que saíam do bojo e do bordo de ataque das asas do avião desapareceram. O
caça empreendeu uma subida quase vertical.
Bell abaixou o irradiador.
Lembrou-se, muito tarde, de que era necessário transmitir outra ordem ao
piloto. A distância era de três, e, logo, quatro quilômetros. Não havia como
vencê-la.
O caça continuou sua subida louca. E
continuava a subir quando já fora do alcance visual de Bell. O combustível se
esgotava. O piloto, semi-asfixiado, continuava a cumprir a ordem recebida. Subiu
até que todo o combustível fosse consumido.
Por um segundo, o aparelho pareceu
imóvel, depois, começou a cair. Foi descendo em parafuso até espatifar-se
contra os rochedos de Tsingling Chan.
Bell sentiu-se abalado. Começava a compreender
o poderio imenso que representava esse irradiador de aspecto tão inofensivo se
utilizado de forma conveniente. Devia ter dado uma ordem diferente ao piloto.
Mas como tomar uma decisão em uma fração de segundo?
Aterrissou num pequeno aeroporto
militar perto de Chun-king. Ainda faltavam mil quilômetros para Hong Kong.
No início, ninguém lhe deu atenção.
Mas, como ficasse parado e não descesse do aparelho, um jipe aproximou-se.
Dele, saiu um oficial de alta patente e acercou-se do helicóptero.
— Por que não comunicou a sua
chegada à torre do controle? — indagou. Quando, porém, viu o rosto de Bell, que
jamais poderia ser confundido com o de um chinês, acrescentou: — Quem é o
senhor?
O mínimo que Bell podia fazer era
rir. Tinham lhe dito que, aqui, se sorria constantemente.
— Não entendo uma única palavra do
que o senhor está dizendo — respondeu em inglês. Depois, dirigindo o irradiador
sobre o oficial, prosseguiu: — Sou o marechal Roon. Preciso de combustível.
Providencie. E rápido, por favor!
O motorista do jipe também fora
incluído no tratamento. O oficial prestou-lhe continência e entrou no jipe que
se afastou em alta velocidade.
Bell sorriu e esperou. Virou-se pára
Fletcher que acompanhava tudo sem o menor interesse. Mantinha os olhos
fechados.
— Coitado! — murmurou Bell.
Dali a poucos minutos, chegou um
caminhão-tanque e parou perto do helicóptero. Já ia escurecendo. Ninguém se
preocupou com os dois homens sentados na cabine. Uma vez cheio o tanque e colocados
alguns galões extras em tanques de reserva situados no compartimento de carga,
o chefe do grupo comunicou o término da operação.
Bell deu partida no motor e
cumprimentou com um gesto condescendente. Ao subir para o céu vermelho, ainda
chegou a ver os olhos arregalados dos chineses. Mais tarde, o verdadeiro
marechal Roon jamais conseguiria explicar como o capitão Finlai, que o conhecia
pessoalmente, jurou perante a Corte Marcial tê-lo visto em pessoa na Base Aérea
de Chun-king. Ao que se sabia, ninguém podia estar em dois lugares ao mesmo
tempo.
Ou será que podia?...
Era estranho.
Foi justamente num lugar situado a
dez quilômetros da Stardust que uma firma da Mongólia, autorizada pelo governo
de Pequim, iniciou a montagem das instalações destinadas à extração de sal das
águas do lago de Goshun.
Os tratores abriam sulcos enormes
nas margens arenosas do lago e as dragas removiam a terra. Formaram-se bacias
imensas que se encheram com a água do lago até que essas atingissem um metro de
altura, não mais. Alcançado esse ponto, fechavam-se as comportas. O sol
evaporaria a água e só restaria o sal. Fileiras imensas de caminhões estavam
prontas para transportar o produto até a Mongólia, que pertencia à zona de
influência de Moscou.
Klein e Li viram-se obrigados a
guardar um período de descanso para não chamarem a atenção. Por mais estranhos
que lhes parecessem os grupos de trabalhadores que desenvolviam uma atividade
intensa, não havia motivo para que não estivessem ali. Oficialmente, a luta
contra a Stardust havia sido suspensa. As bombas atômicas detonadas no lugar
eram livres de radiação e, por isso, não deixavam qualquer efeito nocivo no
terreno. As tropas haviam sido retiradas das áreas adjacentes à nave espacial.
O engenheiro-chefe da firma, Ilia
Rawenkow, cumprimentou os visitantes inesperados com extraordinária
cordialidade. Falava chinês fluentemente.
— O que os traz a esta região
solitária? — indagou, depois de tê-los convidado para uma xícara de chá. — Já
pensávamos que levaríamos meses sem ver qualquer outro ser vivo. Permitam que
faça a apresentação: este é Peter Kosnow, procurador da empresa.
Os dois russos causaram boa
impressão. Mas havia alguma coisa nos seus olhos — ou melhor, atrás de seus
olhos — que recomendava cautela.
— Estamos testando um veículo de
transporte para o exército — respondeu Li em tom bastante convincente. — Acho
que esta região se preta bem para isso. O engenheiro Klein está me
acompanhando. Vive na Federação Asiática há quinze anos.
Rawenkow e Kosnow olharam-se
rapidamente.
— Que interessante! — um sorriso
cortês aflorou aos lábios de Rawenkow. — Não acha estranho que tantas vezes
europeus e até americanos venham aos nossos países e cooperem conosco? O fato é
que não há fronteiras quando se trata de interesses econômicos.
Li estreitou os olhos.
— É verdade que se trata apenas de
vantagens econômicas? — disse, espaçando bem as palavras.
O russo — percebia-se a dez quilômetros
que tanto ele quanto Kosnow não eram mongóis — olhou involuntariamente na
direção em que se encontrava a nave espacial, oculta por uma elevação.
— O que quer dizer com isso? —
disse, para ganhar tempo.
A expressão no rosto de Li não se
alterou. Seguiu o olhar do russo e disse em tom casual:
— Se não me engano, ali não existe
nenhuma região salineira. Por que será que só agora tiveram a idéia de iniciar
a utilização econômica do lago de Goshun?
— Afinal, onde está querendo chegar?
— disse Rawenkow em tom impaciente. Mal conseguia disfarçar o nervosismo.
— À união dos antigos adversários —
disse Li com um sorriso e sorveu calmamente o chá de sua xícara. — Será que
você quer me convencer que está aqui por puro acaso? Logo ali, a menos de dez quilômetros
de distância, encontra-se a Stardust. Ela vale mais que todos os lagos salgados
do mundo. E desde quando existem russos que trabalham para a firma da Mongólia?
Você não vai me dizer que é russo, não é Rawenkow?
Kosnow fez um movimento imprudente. Seu
rosto não parecia muito inteligente quando viu a pistola de Klein apontada
diretamente para o seu rosto.
— Que é isso? Para que tanta
precipitação? — censurou Li com a voz suave. — Somos bons amigos, Kosnow, faça
o favor de esquecer a pistola que traz no bolso. Klein guarde a sua. Seria
ridículo se não pudéssemos nos unir em face de um inimigo comum. Não estou com
a razão, Rawenkow?
O russo acenou levemente a cabeça.
— Como conseguiu descobrir nossa
missão tão depressa? Até hoje todo mundo viu em nós apenas os representantes da
firma da Mongólia.
— Talvez porque sejamos colegas —
disse Li amistosamente. — O nome do seu chefe não é Ivan Martinovitch Kosselow?
Os dois russos ficaram de boca
aberta. Confirmaram com um aceno de cabeça.
— Pois então? — prosseguiu Li. —
Quer dizer que estamos de acordo! Posso fazer a apresentação definitiva? Este é
o tenente Klein, do Conselho Internacional de Defesa do Ocidente. Eu sou o
tenente Li Shai-tung. Finalmente os representantes das três grandes potências estão
sentados em torno da mesma mesa, embora se trate de uma mesa tosca e
cambaleante no deserto de Gobi. Falem com franqueza. Existe qualquer motivo que
justifique uma inimizade entre nós?
Rawenkow abanou a cabeça:
— Você tem razão, Li. Acho que
devíamos concluir um armistício. Os nossos objetivos são os mesmos.
Klein mordeu o lábio inferior,
pensativo. Depois, disse:
— O que acontecerá quando tivermos
alcançado o nosso objetivo?
Ninguém soube dar uma resposta.
Port Darwin fica na costa ocidental
da Terra de Arnhem. É o porto mais importante da grande baía de Cambridge, situada
no norte da Austrália.
Tanto ideológica quanto economicamente
a Austrália pertencia ao bloco ocidental. Mantinha una representante permanente
em Washington. Mas grandes setores da população empenhavam-se pela neutralidade
do continente e pela sua autonomia militar.
Apesar disso, Bell sabia que não estava
pousando em solo amigo, quando seu helicóptero desceu sobre o platô arenoso
situado perto da costa. Já ia escurecendo. A pouca distância, brilhavam as
luzes da cidade.
— Fletcher, você vai à cidade
comigo? Pode pernoitar num hotel. Amanhã dou-lhe o dinheiro. Depois disso, você
poderá pegar um avião e voltar para casa.
— Ótimo Bell! Você sabe que tenho de
voltar para junto de minha esposa. Deverá ter um bebe dentro de três meses.
Talvez antes.
— Sei, sim — disse Bell com um aceno
de cabeça. Essa história do nenê já o estava irritando. Estava começando a
compreender por que corriam tantas piadas sobre o tema. Se todos os futuros
pais fazem um drama desses...
— Esqueça as preocupações. Temos que
fazer uma caminhada de meia hora. Tomara que ninguém nos tenha visto pousar
aqui.
Sem qualquer incidente, conseguiu
entregar seu protegido no hotel e, depois de ter dado a volta à cidade para
sondar o terreno, voltou ao helicóptero. Um policial, tratado com o
psico-irradiador, dera-lhe, com a maior solicitude, todas as informações que
desejava.
O Dr. Frank M. Haggard residia na
parte leste da cidade, num edifício anexo aos hospitais por ele construídos.
Era lá que ficava o laboratório no qual, dois anos antes, realizara uma
descoberta sensacional: o soro anti-leucêmico.
Seguindo as indicações do policial,
Bell foi acompanhando, a baixa altitude, a rodovia até atingir o entroncamento
com uma estrada lateral. Seguiu esta última e não tardou a avistar os contornos
dos imponentes prédios que se destacavam contra o mar.
Pousou na clareira de um bosque a
pequena distância dali. Colocou o irradiador no bolso, pegou um dos geradores
permanentes de energia e pôs-se a caminho.
Frank Haggard ainda estava acordado.
Lançou um olhar de espanto para o visitante retardatário, ergueu as sobrancelhas
num gesto de recriminação e convidou-o a entrar. Ficou curioso ao ver a
caixinha que Bell colocou sobre a mesa com muito cuidado.
— Posso lhe ser útil em alguma
coisa? — perguntou o médico.
Bell examinou-o mais detidamente.
Haggard era um tipo atlético, de cabelos castanho-escuros e olhos azuis. Devia
ter cerca de quarenta e cinco anos. Havia em seu rosto um traço de bondade,
capaz de inspirar confiança especialmente para quem precisasse de auxílio.
— Na verdade, pode ser-me bastante
útil — começou Bell, sem saber como explicar-se. — Meu nome é Reginald Bell,
não sei se já o ouviu antes.
— Reside em Darwin? — indagou o
médico, inclinando-se para frente.
Bell disfarçou o seu desapontamento.
— Não. Venho da Mongólia.
Haggard voltou a recostar-se na cadeira.
— Ah! — fez.
Não disse mais nada. Afinal, a
Mongólia distava cerca de cinco mil quilômetros dali. E esse tipo estranho
entrou-lhe pela casa sem mais aquela às dez horas da noite dizendo ter vindo da
Mongólia. Devia ser algum louco à solta. Convinha ter cuidado.
— Isso mesmo. Mais exatamente, venho
do deserto de Gobi.
— Era só o que faltava — foram as
palavras que Haggard deixou escapar. Todavia, conteve-se logo e perguntou, com
tom amistoso: — Veio a pé?
— Só os últimos quinhentos metros —
admitiu Bell. Que diabo! Como devia fazer para que o cientista compreendesse o
que desejava dele?
— Preciso do seu soro anti-leucêmico
para curar um doente. Apenas... bem, o pagamento é que causa alguma
preocupação. É verdade que uma coisa que talvez lhe interesse...
— Pode falar com franqueza —
recomendou Haggard e lançou um olhar de esguelha para o telefone. — Mas por que
não esperou até amanhã de manhã?
— Infelizmente não foi possível,
doutor. Cada minuto me é precioso. Está interessado numa fonte de energia bem
barata?
— Como?
Bell segurou a caixinha no colo.
Desembrulhou-a e voltou a pô-la sobre a mesa. Ali estava: seu aspecto era
modesto e inocente. Só algumas tomadas revelavam que dali se podia extrair
energia elétrica.
— Este aparelho fornece até duzentos
quilowatts. Não precisa ser recarregado. Dá para cem anos utilizando ininterruptamente
a capacidade máxima. Compreendeu? Deixe de olhar o telefone! Não sou nenhum
maluco! Não lhe farei nada.
Haggard já não entendia o que se
passava. Seu instinto lhe dizia que estava lidando com um homem normal. Estavam
lhe oferecendo uma maravilha técnica que contrariava todas as leis da física.
— Quem é o senhor? — perguntou.
Bell suspirou.
— Está bem! Direi a verdade. Embora
esta pareça mais estranha que a mais louca das fábulas. Certamente já ouviu
falar na Stardust, a nave espacial americana que pousou no deserto de Gobi.
Pois bem; eu sou um dos tripulantes. Rhodan, o comandante, ficou na nave
enquanto eu...
— Perry Rhodan? — Haggard lembrou-se
de algumas notícias de jornal. — Perfeitamente, estou lembrado. Não houve
complicações diplomáticas?
— Complicações diplomáticas é pouco.
Temos motivos para não revelar ao mundo os resultados da nossa expedição. Na
face oculta da Lua encontramos uma nave extraterrena com a respectiva tripulação.
Está com algumas avarias e, para decolar, precisa de certas peças
sobressalentes. Os arcônidas, que são os tripulantes da nave, são um povo tão
decadente que já não conseguem fazer os reparos de que a nave precisa. São
muito inteligentes e tecnologicamente muito desenvolvidos, mas estão física e
psiquicamente arruinados. O diretor-científico da expedição, chamado Crest,
sofre de leucemia. Se tudo permanecer como está, ainda terá pouco tempo de
vida. É muito importante que seja curado, pois o futuro do seu povo, e também o
da humanidade, depende disso. Crest representa a chave que abrirá o acesso ao
espaço cósmico, aos planetas de outros sistemas solares e a um desenvolvimento
técnico inconcebível. Compreendeu o que acabo de dizer?

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