terça-feira, 9 de outubro de 2012

P-006-O Exército de Mutantes-K. H. Scheer [parte 2]

— Fico-lhe muito grato — disse Homer G. Adams, dirigindo-se a Marshall, depois que o foguete havia desaparecido nas nuvens. — Evidentemente, peço que me forneça as explicações que recusou aos passageiros.
— Será que precisa de esclarecimentos?
— Por que não? Acha que sou algum vidente?
— É o que vamos descobrir. Afinal, você é o maior especulador de Bolsa e manipulador financeiro que já existiu sobre a Terra. Uma coisa dessas não acontece por nada. Em geral os supergênios possuem um sexto sentido. É claro que você possui dons sobrenaturais ou supersensoriais, conforme queira exprimir-se.
— Você acredita seriamente nessas lorotas? — perguntou Adams.
— Não — respondeu Marshall. — Não acredito. Não devemos confundir ciência com religião. Na primeira sabe-se alguma coisa, na última acredita-se. E a parapsicologia é uma ciência.
— Gosto muito de aprender — disse Adams com as sobrancelhas levantadas. — A única coisa de que entendi até hoje foi o dinheiro.
— E com isso revelou bons conhecimentos de psicologia das massas. E a distância entre a psicologia e a parapsicologia só é de um passo, mesmo que esse passo conduza por cima de uma muralha. Você deve estar surpreso com a aparição de meu amigo Kakuta. Quando tiver recebido alguma instrução parapsicológica deixará de surpreender-se.
— Quer dizer que você é um fenômeno parapsicológico? — perguntou Adams, dirigindo-se ao japonês. — Devo confessar que fiquei tão surpreendido com sua aparição quanto os bandidos. De qualquer maneira, deve haver uma explicação natural para isso.
— É claro que há — confirmou o japonês com um gesto amável. — Assim que a teleportação for um fenômeno natural para você, minha aparição também será.
— Tele... o quê?
— Sou filho de um casal de japoneses que por ocasião do lançamento da primeira bomba atômica, em 1945, ficou exposto a intensas radiações. Dali resultou uma mutação das características hereditárias. Tornei-me um mutante.
Homer G. Adams ficou calado. Seu sorriso já não apresentava o menor traço de ironia. Depois de algum tempo disse:
— Você é capaz de, independentemente de quaisquer recursos técnicos, transformar seu corpo em energia e fazê-lo ressurgir em outro lugar. É isso?
Tako Kakuta confirmou.
— Em princípio, sim. Acontece que o lugar em que posso ressurgir fica sujeito a limites bastante restritos. É possível que através de um treino persistente, eu possa ir aumentando a distância.
— Isso é formidável, meu caro. Com esse dom você poderia...
Adams interrompeu-se em meio à frase. Um contato importante parecia ter-se completado em seu cérebro.
— Continue — pediu Marshall. — Kakuta é um homem que sabe apreciar os bons conselhos.
— Um instante — pediu Homer G. Adams. — Como foi essa história da rajada de tiros disparada por Jim? Onde foram parar os dois homens naqueles trajes estranhos? Por que Jim não conseguiu matá-los?
— Você está formulando muitas perguntas de uma só vez. Jim não conseguiu nada porque os projéteis que disparou foram absorvidos por um envoltório energético. Os dois homens não sofreram nada. Retiraram-se para trazer nossa nave até aqui. Afinal, queremos dar o fora daqui o quanto antes. Poderei pedir ao nosso comandante que o leve a Tóquio.
— O que vou fazer em Tóquio, Marshall? Dali teria que seguir viagem e fazer outra baldeação em Pequim. Aqui estou muito mais perto do meu destino.
— Nesta estepe junto às montanhas de Cardamon?
— Vamos deixar de fingimento, Marshall? Desde Londres você está atrás de mim, não é verdade?
— É verdade. Quando descobriu?
— Meu cérebro deve ter sofrido bastante nos últimos quatorze anos. Só agora começo a enxergar as coisas. Nossos objetivos eram os mesmos, mas nenhum de nós sabia do outro.
— É um engano seu. Eu sabia.
— Conhecia as minhas intenções? Desde quando?
— Desde que saiu da penitenciária. Estávamos muito interessados na sua pessoa. Você compreenderá quando Perry Rhodan lhe expuser com todos os detalhes o estado lastimável das nossas finanças.
— Por que se lembraram justamente de mim?
— De quem iríamos nos lembrar? Não há dúvida de que você é um gênio financeiro. Ainda bem que, depois daquele processo sensacional, ao menos permitiram que continuasse a viver. Encontramos num arquivo diversas notícias de jornal que despertaram nossa atenção. Estudamos o seu passado. Rhodan decidiu conseguir um indulto para você e acompanhar seus passos, para que logo se encontrasse conosco.
— Espere aí! Afinal, minha pena foi comutada por bom comportamento...
— Isso não deixa de ser verdade. De qualquer maneira nossos agentes utilizaram certos recursos dos arcônidas para apressar a decisão da Justiça. Temos um aparelho psíquico, que estimula a capacidade decisória do indivíduo através de certas radiações de alta freqüência. Você já teve oportunidade de assistir ao seu funcionamento. Foi quando Kakuta desarmou os bandidos.
— Está certo — objetou Adams. — Você me apresentou Kakuta, que é um verdadeiro teleportador. Além disso, fez, num espaço de poucos minutos, uma demonstração das conquistas mais formidáveis da tecnologia. Mas ainda resta sua afirmativa de que já conhecia minhas intenções quando deixei a penitenciária. É verdade que nas últimas semanas acompanhei com o maior interesse todo o noticiário jornalístico sobre Perry Rhodan. Também é verdade que aos poucos foi surgindo em mim o desejo de ser útil a ele, se tivesse possibilidade para isso. Mas não falei com quem quer que seja sobre estes meus planos.
— Mas pensou neles. Para mim isso basta.
Mais uma vez, Adams não soube o que responder. O japonês veio em seu auxílio, esboçando um sorriso.
— É que John Marshall é nosso segundo exemplar parapsicológico. Isso explica tudo, Adams. É um telepata. Basta que você pense intensamente numa coisa para que ele possa tirar suas conclusões.
— Isso me deixa tonto, meus caros. Afinal, não sou tão jovem assim. Deviam ter um pouco de consideração por minha pessoa.
— Se quiser trabalhar para Perry Rhodan, deve acostumar-se a muita coisa aparentemente inacreditável. Mas pela nossa experiência no assunto podemos asseverar que o homem se acostuma muito depressa a essas coisas. Ah, aí vêm nossos amigos. Entregue-me sua pasta, Adams.
— Nem pense nisso. Não sou tão velho que precise de um carregador por causa de alguns quilos de papel moeda. Aliás, falta explicar uma coisa, se bem que a esta altura eu talvez devesse adivinhar tudo. O chefão dos bandidos disse que seu destino seria a cidade de Rangun. Apesar disso, você sabia que ele pousaria aqui. Também descobriu isso por via telepática?
— Só poderia ter sido. Minha aparente disposição para negociar não passou de um blefe. Só tive necessidade de um ligeiro contato com o homem para descobrir seus planos. Assim que soube que pretendia pousar a oeste de Madura, informei nossos amigos no deserto de Gobi. O resto ficou por conta deles.
A gigantesca nave esférica dos arcônidas pousou diante de Marshall, Adams e Kakuta e abriu uma das escotilhas. Quando se encontravam a cerca de duzentos metros de distância Perry Rhodan surgiu na escotilha e saltou para o chão. Foi andando devagar ao encontro deles. Dali a pouco o dirigente da Terceira Potência viu-se pela primeira vez diante de seu “ministro das finanças”.
— Seja bem-vindo, Adams. Fico satisfeito em saber que encontrou o caminho para junto de nós.
— Foi um caminho muito difícil, Rhodan, mas tive um prazer imenso em percorrê-lo. É que não sei ficar sem fazer nada. Foi o que mais senti nos últimos quatorze anos. Você tem problemas financeiros, não tem?


4


Nova Iorque.
Quem caminha da esquina da Broadway com a Quinta Avenida na direção norte encontra do lado esquerdo um edifício de vinte e dois andares, construído no fim da década de trinta. Mal se vê a fachada, já que mais de trinta firmas penduraram nela propagandas luminosas. Há anos ninguém se preocupa com a beleza ou a feiúra desse tipo de enfeite, pois o aspecto desse edifício em nada se distingue dos demais de Manhattam. Só os funcionários de alguns escritórios situados nas proximidades notaram que numa segunda-feira ensolarada alguns trabalhadores se puseram a executar obras na área situada entre o sétimo e o nono andar. Dentro de poucas horas foi retirada a propaganda de certa marca de pasta de dentes, de um xampu e um pneu antiderrapante. De noite, as letras GCC reluziam em tonalidades amarelo-azuladas. A única coisa notável foi a velocidade do trabalho, que permitiria a um observador atento tirar certas conclusões sobre a mentalidade do patrão.
No entanto, só no dia seguinte descobriu-se o que significavam as letras GCC. Um anúncio de página inteira do New York Times deu notícia de que a General Cosmic Company abrira seu escritório naquele local. A propaganda apontava a empresa como agência de consultoria e oferecia a qualquer interessado, fosse qual fosse seu ramo de atividade, assessoria e também maquinismos adequados a preços extremamente favoráveis que, em comparação com as vantagens oferecidas, podiam ser considerados sensacionais.
O gerente, Homer G. Adams, seguindo instruções do proprietário, Benjamim Wilder, contratara três funcionárias. A única coisa que trouxera foi muito papel em branco. Não havia documentos escritos. Na conversa dirigida às três funcionárias limitara-se a dizer o seguinte:
— O proprietário da firma confiou-me a direção do negócio. Somos um empreendimento novo, que não tem tradição nem antecessores. Faço votos de que com o auxílio das senhoritas dentro de pouco tempo as letras GCC adquiram fama mundial. Exijo o máximo de dedicação e uma correção absoluta. Trazem consigo a vantagem de serem tão novas profissionalmente como é a firma. Crescerão com ela e conquistarão boas posições, desde que nos entendamos bem. Para os serviços de registro, escrita e contabilidade dispõem de máquinas. Para certos trabalhos intelectuais, como os de cálculo e estatística, temos este aparelhozinho eletrônico, cujo funcionamento lhes explicarei daqui a pouco. Quanto ao mais, exijo dedicação ao trabalho e correção, conforme já salientei, e ainda cortesia para com toda e qualquer pessoa que entrar neste recinto. Obrigado.
O expediente começava às oito e meia. Das nove horas em diante eram recebidos os clientes e vendedores. Às nove em ponto, a senhorita Lawrence anunciou o primeiro visitante. Era um mensageiro de uma casa de flores, que trazia um buquê de duas dúzias de gladíolos. O cartão que acompanhava as flores trazia a assinatura do proprietário da firma, senhor Benjamim Wilder. Homer G. Adams guardou o cartão com um sorriso condescendente e despendeu uma palavra de elogio para com o chefe ausente. O mensageiro foi dispensado com uma gorjeta de um dólar.
No momento em que o mensageiro saía, um cavalheiro que se chamava Abraão Weiss, e cuja largura correspondia à metade da altura, chegava.
— Bom dia, senhor Adams! Li seu anúncio no New York Times...
— Queira sentar, senhor Weiss.
Weiss deixou-se cair numa poltrona. Parecia bem disposto.
— Bem, senhor Adams, como ia dizendo, li seu anúncio e resolvi dar uma chegada até aqui para saber um pouco mais. Pensando bem, o que o senhor promete não é pouco.
— Depende dos padrões que se queiram usar. O que posso fazer pelo senhor, senhor Weiss?
— Bem... como direi? De início, minha visita tem um caráter puramente informativo. Sou bom nos negócios. Mas tenho muita curiosidade para conhecer todo e qualquer tipo de progresso. Talvez estaria perdendo alguma coisa se não o procurasse, não é?
— É bem possível. Diria que toda pessoa que não procura a GCC perde alguma coisa.
— Muito bem! Isso é um ótimo slogan.
— Afinal, o que está precisando? — disse Adams em tom tranqüilo. Embora não apreciasse os modos do visitante, isso não o impressionou.
— Sim, do que estou precisando? — refletiu Weiss. — Estou interessado num projeto no Colorado. Talvez seja interessante para o senhor. Entende alguma coisa de usinas de eletricidade?
— Trata-se de usinas atômicas?
— Não, de usinas hidráulicas. É um projeto totalmente convencional. Trata-se de produzir eletricidade com água represada. Não me diga que o projeto é conservador demais.
— Nem penso nisso. Quer dizer que está construindo uma hidrelétrica?
— Isso mesmo. No trecho superior de Arkansas, perto de Cripple Creek. Ou melhor, ainda não estou construindo. Mas minha firma gostaria de receber o contrato.
— Quer dizer que precisa de uma base de cálculo favorável, para poder concorrer com os outros pretendentes?
— Não é bem isso, senhor Adams. Nossa proposta já foi formulada e acredito que temos as melhores chances. Afinal, somos a empresa mais importante no setor. Mas, a título meramente informativo, gostaria de saber se tem alguma coisa no seu arsenal que poderia ser de utilidade para nós. Quero conhecê-lo melhor, sabe? Gostaria de saber quem é a GCC e o que faz. Talvez em outra oportunidade possamos concluir um negócio. Tenho certeza de que também aprecia um contato deste tipo, pois uma firma nova precisa tornar-se conhecida e estabelecer relações. Neste ponto nossa companhia é muito valiosa para o senhor.
Homer G. Adams não precisava desse tipo de ensinamento. Apesar disso não deixou perceber seu desagrado. A experiência lhe ensinara que os fanfarrões como Abraão Weiss são as pessoas que mais precisam de auxílio.
— É exatamente o que penso — disse, em tom amável, estendendo a caixa de charutos ao seu interlocutor. — Aceite, por favor!
Ele esperou que seu visitante acendesse o charuto e, depois, continuou:
— Não quero negar que somos uma firma nova, que ainda tem de criar seu campo de relações. Por isso mesmo, fico tão satisfeito em cumprimentá-lo a esta hora da manhã como meu primeiro visitante. Queira prosseguir. Seu caso é muito interessante. A construção de uma hidrelétrica é um procedimento um tanto antiquado, mas estou convencido de que o ramo ainda tem futuro. A energia atômica representa uma concorrência mais barata, mas, no fim, tudo se resume a um problema de custos. É nesse ponto que posso formular sugestões e propostas bem convidativas.
Durante a longa fala, Adams não tirara os olhos de cima do visitante. Notara um movimento suspeito em seu rosto carnudo. Aos poucos Abraão Weiss deixaria de lado suas maneiras reservadas, pois era evidente que desejava muito mais que uma simples visita a título informativo.
— Queira desculpar, senhor Adams. Pelo que diz é especializado nesse terreno...
— Somos especializados em quase todos os terrenos. É precisamente nisso que reside nossa força. Quem promete muito nos seus anúncios há de cumprir muito. De outra forma nem deveria criar uma firma como esta. Mas voltemos ao seu projeto. Pelo que sei, o senhor tem que temer ao menos os concorrentes que formularam propostas baseadas na energia atômica. Hoje em dia a construção de uma hidrelétrica — especialmente numa zona montanhosa — é tão dispendiosa que suas chances devem ser muito reduzidas. Em compensação, a manutenção de uma hidrelétrica é mais econômica. Quer dizer, o senhor ganhará o jogo no instante em que puder realizar a construção aproximadamente ao mesmo preço que o de uma usina nuclear.
Por um instante Abraão Weiss arregalou os olhos de espanto. Mas logo se controlou.
— É verdade. Vejo que está bem informado. Por favor, prossiga a sua exposição. Compreendeu o problema. Qual é a solução que sugere?
Homer G. Adams deu um sorriso gentil.
— A resposta a essa pergunta já representa um assessoramento pelo qual devia cobrar honorários. Mas, para mim, hoje é feriado. O senhor é meu primeiro cliente, ou melhor, visitante e interessado, e por isso concedo-lhe uma entrevista gratuita. De qualquer maneira, meu conselho não lhe bastará se o projeto for levado avante. Precisará das nossas máquinas. Queira dar uma estimativa do custo de uma hidrelétrica a ser construída em Cripple Creek. Peço-lhe que informe também a proporção desse custo que corresponde aos trabalhos de terraplenagem. Depois disso ouvirá minha proposta.
O gorducho sugou o seu charuto, como se tivesse de refletir antes de revelar cifras. Finalmente tomou uma decisão.
— A relação entre as cifras será a correta. Na realidade não conferem, já que não estou autorizado a revelar qualquer coisa sobre nossa proposta. O senhor compreende, não é?
— É claro que compreendo! Só se trata de um exemplo — disse Adams com um sorriso significativo.
— Bem, admitamos que o custo total do projeto importe em 1,3 bilhão de dólares.
Nesse caso o custo dos serviços de terraplenagem, inclusive dos alicerces, atingiria quinhentos e cinqüenta milhões.
— Bem, essas cifras já servem para alguma coisa. Faço-lhe uma proposta. O senhor poderia adquirir minha máquina, que reduz o custo dos serviços de terraplenagem em cerca de 90%. Isso significaria uma economia de perto de quinhentos milhões de dólares e eliminaria qualquer concorrência.
Abraão Weiss ficou tão nervoso que fez um movimento desajeitado com a mão e espalhou a cinza do charuto sobre a calça. Depois respirou profundamente e exibiu um sorriso forçado.
— Vejo que tem senso de humor, senhor Adams. Pinta utopias que não podem deixar de representar um atrativo para uma pessoa que tenha um interesse real. Seria conveniente que não levasse a hipótese para o terreno das abstrações; devia partir do pressuposto de que o problema que acabo de formular pode transformar-se num problema real para um dos seus clientes.
— Se acredita que estou brincando comete um engano, senhor Weiss. Estou convencido de que o exemplo que acaba de expor representa boa parte das suas preocupações. Disponho das máquinas de que acabo de falar. Minha firma está à sua disposição para uma demonstração prática. Basta telefonar para combinarmos dia e hora, desde que tenhamos chegado a um acordo sobre o preço. Se não tiver um interesse real no assunto, a GCC não poderá dar-se ao luxo de realizar uma demonstração tão dispendiosa.
Weiss levantou-se. Estava muito impressionado. Adams percebeu que aquele negociante ágil se encontrava numa encruzilhada da sua carreira e refletia intensamente sobre o que devia fazer. Depois de algum tempo perguntou:
— Quer dizer que quer proporcionar-me uma economia de quinhentos milhões. De outro lado, porém, teria de computar o custo das máquinas. Como se apresentaria o cálculo após isso?
— Não há necessidade de preocupar-se com o custo das máquinas na construção da hidrelétrica do Arkansas. Essas máquinas representariam um investimento permanente, que lhe permitiria executar mais vinte ou trinta projetos desse tipo.
— Compreendo. Mas essas máquinas devem ter um preço.
— O preço é fictício. Se tivesse de ser pago, ultrapassaria o valor de cinqüenta hidrelétricas. Por favor, deixe-me concluir. O que quero dizer é que as máquinas não estão à venda. Entro na sociedade com elas, e ambas as partes terão feito um bom negócio.
Abraão Weiss teve de esforçar-se cada vez mais para manter a compostura.
— Quer dizer que está atrás de uma participação no negócio?
— Não estou atrás de uma participação, mas tenho receptividade para ela. Com isso o negócio se tornará mais sério. Sugira à diretoria de sua empresa que convoque uma reunião especial do conselho fiscal e proponha a esses cavalheiros um aumento de capital da ordem de 51%. Esses 51% são o meu preço.
Weiss esboçou seu décimo segundo ou décimo terceiro sorriso daquela manhã. Mas esse último sorriso malogrou-se por completo. Com um gesto nervoso pegou o chapéu e, andando de costas, dirigiu-se à porta.
— Espero que ainda possamos conversar sobre isso, senhor Adams. Nas condições que acaba de propor, minha firma nunca fechará um negócio com o senhor.
— Nesse caso só me cabe lamentar que tenha desperdiçado seu tempo precioso. A GCC não tem o menor interesse em realizar negociações em torno dos seus preços. Nossos cálculos sempre são corretos, e por isso não podemos ceder um centavo. São 51%, senhor Weiss. Pense no caso.
O representante da construtora de hidrelétricas convencionais limitou-se a uma mesura desajeitada e desapareceu na ante-sala.
O nome do próximo cliente em perspectiva era André Clèment. Os cabelos escuros e sua figura pequena e esguia, bem como o nome, revelavam a ascendência latina. Segundo as informações da senhorita Lawrence, o senhor Clèment esperara por mais de quarenta minutos. Homer G. Adams concluiu que se tratava de outro homem com água até o pescoço.
— Bom dia, senhor Adams — cumprimentou Clèment com uma ligeira inclinação do corpo.
— Bom dia, senhor Clèment. Queira sentar. Aceita um cigarro?
— Muito obrigado. É muita gentileza da sua parte, mas não fumo.
— O senhor que é feliz — disse Adams. Clèment deu uma risada forçada.
— Não sou tão feliz como acredita. Se fosse não estaria aqui.
— Precisa de auxílio? De que se trata? De algum aperfeiçoamento tecnológico? Ou de alguma forma de assessoramento?
— Preciso das três coisas. E preciso logo. Talvez minha exposição lhe pareça muito estranha, mas seu anúncio foi concebido em termos tão gerais que se pode imaginar qualquer coisa. Procurarei ser breve, senhor Adams. Assim que perceber que não é o homem que procuro, queira avisar-me. Na pior das hipóteses perderei o meu tempo.
— Conte tudo. Prometo ser franco com o senhor.
Represento a Minneapolis Mining Company. Além da mineração, a empresa também se dedica à construção de túneis. Como deve saber, no momento está sendo construída uma estrada de ferro de Salt Lake City para São Francisco. Na Serra Nevada será aberto um túnel de cerca de setenta quilômetros de extensão, que deverá sair perto de Sacramento. Desses setenta quilômetros, dez quilômetros já foram concluídos. Isto é, foram perfurados. Nossa empresa avança a partir do leste, enquanto a concorrente trabalha no oeste. E esta já executou o dobro do nosso trecho. O trabalho transformou-se numa corrida e não há dúvida de que nós a perderemos.
— Por que acha que isso representa uma tragédia? É verdade que a introdução de um ingrediente esportivo em toda e qualquer competição constitui uma característica tipicamente americana, mas o senhor deve ter seus contratos com o governo e basta cumpri-los. Não vejo como a concorrência pode incomodá-lo.
— Se estiver interessado, explicarei. Sua firma dispõe de experiência no setor de escavações subterrâneas?
— Pois é bom que saiba que se trata de um dos ramos em que nos especializamos. Se quiser fazer um relato minucioso o senhor não estará perdendo seu tempo, senhor Clèment.
— Muito bem. O contrato com o governo não abrange a totalidade do projeto. As ordens de trabalho são emitidas por trechos. Cada trecho é contratado com a firma mais capacitada. Se avançarmos no ritmo atual, o governo nos concederá a execução de cerca de um quarto do projeto. Acontece que nossos cálculos foram realizados no pressuposto de que executaríamos exatamente a metade do projeto. É claro que, num empreendimento desse vulto, têm de ser tomadas providências de longo alcance, a fim de que a indústria possa fornecer no prazo o material de que se precisa. Por isso fizemos pedidos há um ano e mesmo mais, pedidos esses que são muito superiores às nossas necessidades, se mantivermos o ritmo atual dos trabalhos. Dessa forma, financiamos antecipadamente certos materiais e serviços de que nunca nos utilizaremos. O que pagamos equivale ao que pretendíamos ganhar. Se computarmos a manutenção de sete mil trabalhadores, o resultado será trágico. O prejuízo é de tal vulto que dentro de poucos meses a Minneapolis Mining Company estará falida. Senhor Adams, peço-lhe que considere minha exposição estritamente confidencial. Aliás, em seu anúncio o senhor garante a máxima discrição.
— Não perca seu tempo falando em coisas óbvias, senhor Clèment. Estou me interessando tanto pelo seu problema que já vejo nele um problema meu. Seu problema consiste em abrir um grande furo na montanha, por onde os trens vão transitar mais tarde. Tenho um dispositivo pronto para ser patenteado, que pretendo recomendar-lhe. De que tamanho será o furo?
— Terá seis metros de altura e dezoito de largura.
— Um momento, por favor!
Homer G. Adams pegou um papel e escreveu algumas cifras. Dali a alguns minutos disse:
— Com minha máquina especial o senhor avançará dois quilômetros por dia. Para isso é necessário que todos os trabalhadores e objetos de valor sejam retirados do túnel enquanto a máquina estiver funcionando.
André Clèment deu um sorriso amarelo. Não protestou como Abraão Weiss, mas sentiu-se muito abatido.
— Não brinque, senhor Adams! Sei apreciar uma piada, mas aqui se trata da existência de minha firma. Não pode apresentar uma solução realística?
— Estou pronto a fazer uma demonstração com a máquina, senhor Clèment. Não sou nenhum fanfarrão. Nossa máquina transforma a matéria em energia. É claro que não se trata de um processo espontâneo como a reação em cadeia que se processa numa bomba nuclear. A energia liberada é armazenada em recipientes especiais e pode ser vendida com um bom lucro. Compreendo seu ceticismo. Mas não se esqueça de que está falando com um representante da GCC, que tem por objetivo a mais ampla racionalização e modernização tecnológica. Permita que lhe dê um conselho, senhor Clèment. Assista a uma demonstração de nossa máquina. Uma prova realizada com um metro cúbico de material será suficiente. Quando estiver convencido, decida.
— Está bem — disse o homem. — Vamos admitir que o senhor consiga convencer-nos. Com uma técnica tão revolucionária de escavações subterrâneas deixaremos o mundo de pernas para o ar. Os resultados financeiros serão inconcebíveis. Qual seria o custo da utilização de sua máquina?
— Uma participação de 51% na sua empresa.
Pela primeira vez revelou-se um traço comum entre André Clèment e Abraão Weiss. Tal qual este, Clèment saltou da sua poltrona e encarou Homer G. Adams, como se este tivesse perdido o juízo.
— Isso é ridículo! Será que o senhor não sabe o que representa a Minneapolis Mining Company? É uma empresa de âmbito mundial, que o senhor quer enfiar no bolso de uma hora para outra.
— Ora, meu caro! O que lhe ofereço vale muito mais que 51% da sua firma de âmbito mundial. E o senhor acaba de pintar em todas as cores o que será da Minneapolis Mining Company daqui a seis meses se não aceitar minha proposta. Nessas condições um homem que se propõe a, num verdadeiro golpe de mágica, transformar sua firma num empreendimento da maior projeção em todo mundo, e se contenta com uma participação de 51%, só pode ser considerado um verdadeiro altruísta.
André Clèment não pôde ocultar o tremor das mãos.
— Prefiro retirar-me, senhor Adams.
— Fique à vontade! Foi um prazer conhecê-lo, senhor Clèment. Quando tiver outros problemas, não deixe de me dar a honra de sua visita.
A secretária anunciou mais sete pessoas que haviam acorrido ao anúncio. Mas nenhuma delas chegou a impressionar Adams. Livrou-se delas em cinco minutos. Finalmente pôde dedicar-se a um telefonema.
— Alô, Klein. Como foi sua entrevista?
— Já me livrei dela. Há duas horas um repórter do New York Post cruzou meu caminho. Senti-me à vontade para tomar um drinque com ele. Minha máscara escorregou para o lado, conforme havia sido programado. O rapaz logo me reconheceu. Você devia ter visto como arregalou os olhos. Logo se pôs de sobreaviso e disse de sopetão que sou o tal do capitão Klein, um desertor das forças armadas americanas, que tem todo o FBI no seu encalço. Respondi que, sendo um rapaz inteligente, devia saber para quem estou trabalhando. Ele retrucou, com toda ingenuidade que todo mundo sabia disso. Fiz-lhe uma proposta de acordo. Se ele não revelasse minha identidade e, assim, desistisse de um furo espetacular, eu lhe daria a compensação adequada. Contei-lhe tudo que há de interessante sobre invasores desconhecidos, especialmente que, de uma hora para outra, devemos contar com uma invasão de grandes proporções dirigida contra a Terra. Ele confiou plenamente nas minhas fontes de informação. Se conseguir convencer o redator-chefe, a notícia deverá ser publicada na edição de meio-dia.
— Muito bem. São onze e trinta e oito. Vá até a Bolsa. Mantenha-se em contato comigo pelas ondas ultracurtas. Se tiver qualquer dúvida, pergunte. O Dr. Haggard e o Dr. Manoli já se encontram no saguão. Tenha cuidado para não deixar perceber que os conhece. Aos olhos do público vocês devem ser adversários.
— O.K., Adams. Quando a situação se tornar crítica, estarei a postos...

* * *

Na manhã daquele dia, a Bolsa de Nova Iorque abrira com um desânimo completo. Às dez horas as ofertas oscilavam em torno de dez pontos abaixo dos níveis do dia anterior. Assim mesmo os compradores eram muito escassos. No entanto, os vendedores também se mantinham retraídos, motivo por que a maior parte dos corretores foi ao restaurante para tomar uma xícara de café. As cotações mantinham-se inalteradas.
Quem estivesse lembrado da evolução dos negócios nas últimas semanas chegaria à conclusão de que a calmaria constituía um fenômeno altamente favorável. Após o surgimento da Terceira Potência no deserto de Gobi todas as ações caíram rapidamente. Em alguns casos a queda chegava a 75%. Quando a terceira guerra mundial estava prestes a irromper as circunstâncias indicavam não apenas uma crise econômica, mas um colapso total. Após isso surgiram provas do poder dos arcônidas. Os blocos políticos do Ocidente e do Oriente aproximaram-se e promoveram a constituição de uma união de todos os países da Terra. A invasão de uma nave espacial desconhecida fora rechaçada por Perry Rhodan. Os negócios voltaram a animar-se. A fé e a esperança dos homens cresceram. E o melhor barômetro desse crescimento foram as cotações da Bolsa.
Nesse meio tempo, as coisas já se haviam ajustado. O mercado entrara em franca recuperação. A humanidade, farta de sensações, já se acostumara à existência desse Estado um tanto misterioso situado na Ásia Central, que costumava ser designado como a Terceira Potência, muito embora o homem da rua ainda não tivesse compreendido a situação real. As cotações da Bolsa tornaram-se mais estáveis. O estado de marasmo daquele dia era a melhor prova disso.
Essa situação perdurou até o meio-dia.
Às doze em ponto surgiu a sensação. Poucos minutos antes o Dr. Haggard oferecera algumas ações de companhias petrolíferas trinta pontos abaixo da cotação e as vendera imediatamente. Os presentes deram de ombros, mas contentaram-se com a explicação de que mesmo no mercado de capitais vez por outra surge um otário. Quando saiu a edição do meio-dia do New York Post, Haggard foi tido como um clarividente, pois era o único homem que conseguira pôr seu dinheiro a salvo.
O susto, que sacudiu os homens da Bolsa até a medula dos ossos assim que leram a notícia da invasão, não se ligava ao seu bem-estar pessoal, mas única e exclusivamente ao seu dinheiro. Por alguns minutos não se entendia uma palavra em todo o saguão. Finalmente o senhor Oliver conseguiu fazer-se ouvir através dos alto-falantes.
— Senhoras e senhores, seria um absurdo se nos deixássemos influenciar até esse ponto por uma simples notícia de jornal. Não existem informações oficiais. A direção da Bolsa procurará averiguar imediatamente a veracidade do artigo.
No mesmo instante, um cavalheiro entrou precipitadamente e declarou em altos brados que a emissora de Pequim acabara de transmitir a mesma informação.
— 970 pela General Electric — gritou uma voz.
Por alguns segundos reinou um silêncio total. Logo a seguir começou um murmúrio que foi crescendo, até transformar-se num verdadeiro furacão. As cotações da General Electric naquele dia haviam sido abertas a 995.
Enquanto o senhor Oliver, com o auxílio de alguns policiais, restabelecia a ordem no saguão, nos corredores começaram a ser fechadas operações paralelas. Os otimistas farejaram uma boa oportunidade, os pessimistas procuraram livrar-se do que podiam. Só pelas doze e trinta conseguiu-se exercer algum controle sobre a oferta e a procura. Depois das perdas vultosas, a disposição dos compradores diminuiu rapidamente. Correram boatos de que a Bolsa seria fechada, mas muita gente protestou.
Os encarregados da GCC ainda se mantinham retraídos. Pelas instruções recebidas, a hora de comprar ainda não chegara, embora as cotações fossem extremamente favoráveis. Mas quando os negócios entraram em estagnação, o Dr. Haggard fez uma jogada tímida. Fez com que as cotações da Standard Oil baixassem trinta e cinco pontos. Com isso os ânimos voltaram a exaltar-se. Os preços tornaram a cair. Caíram rapidamente. Durante dez minutos, Haggard retirou-se do cenário. Deixou que os outros trabalhassem. Depois de algum tempo a disposição de comprar excedeu a oferta. Às 12:55 h, a Opiat Limited começou a reagir. Homer G. Adams no seu escritório soltou um palavrão inofensivo e transmitiu suas instruções pelo microfone.
— Manoli, você acaba de comprar Opiat. Realize com o capitão Klein uma operação paralela que dê na vista de todos. Desça quarenta pontos. Não poderemos sofrer nenhum prejuízo, pois tudo ficará em família.
Às 12:57 h, a Opiat Limited havia perdido 75% do valor com que abrira naquele dia. Os outros papéis apresentavam um comportamento semelhante. Nos últimos minutos antes da hora do fechamento da Bolsa dificilmente se encontraria um corretor disposto a negociar. Apesar dos prejuízos enormes, tudo indicava que o dia terminaria tranqüilamente. Mas no último instante explodiu a maior bomba de Homer G. Adams.
Os rádios portáteis transmitiram uma notícia extraordinária vinda de Sydney. Uma nave espacial desconhecida levantara uma frota pesqueira que se encontrava no Mar de Timor a uma altura de vários quilômetros e a deixara cair. O locutor nova-iorquino concluiu o comunicado com as seguintes palavras:

“A hipótese de nos encontrarmos diante de uma ação da chamada Terceira Potência deve ser excluída. Face aos últimos contatos diplomáticos, não há mais dúvida sobre a lealdade absoluta da mesma. Depois da queda da frota pesqueira no Mar de Timor, na qual pereceram umas quatrocentas pessoas, a nave desconhecida voltou a descer e abriu numerosas escotilhas, ou melhor, comportas de ar. Milhares de seres grotescos saltaram sobre o mar, como se fossem pára-quedistas e, depois de nadarem por alguns minutos, deixaram-se afundar. Só pode tratar-se de seres não-humanos para cujo organismo a água é um habitat adequado. Resta aguardar os acontecimentos para ver se a operação representa um ato preparatório da invasão dos continentes. O quartel-general das Nações Unidas emitiu um comunicado, segundo o qual já foram tomadas as primeiras providências para repelir os invasores.”

Ninguém mais pensou em fechar a Bolsa. As ações pareciam arder nas mãos dos seus possuidores. Os corretores mais empedernidos perderam a calma e passaram a vender a qualquer preço. Grandes trustes e conglomerados mudaram de dono no espaço de quinze minutos. Eram apregoados como se fossem frutas podres. Ninguém parecia preocupar-se com o fato de que ainda havia gente que sacrificava suas pequenas economias por um cesto de frutas podres.
No fechamento da Bolsa não havia cotações definidas. O clima era idêntico ao do grande desastre financeiro dos anos trinta.
A economia mundial parecia encontrar-se num estado de paralisia total.
Alguns capitães de indústria arruinados gastaram seus últimos centavos para comunicar-se com os colegas de sofrimento em todas as partes do mundo, enquanto em certas empresas o silêncio da economia moribunda já parecia ter tomado conta de tudo. Era o que acontecia, por exemplo, com a GCC.
Homer G. Adams interrompera todas as comunicações telefônicas e radiofônicas com seus representantes. Não queria correr o risco de ser espionado por alguém. Sentia-se bem em meio àquele silêncio.
Sentado atrás da mesa, refletia e esperava.
Pelas dezesseis horas o telefone tocou. Era Abraão Weiss.
— Alô, senhor Weiss.
— Que tal lhe parece a situação, senhor Adams?
— É uma boa piada, senhor Weiss. Amanhã tudo estará esquecido.
— Até parece que o senhor é o último otimista do nosso planeta.
— Orgulho-me de ser otimista. Espero encontrar algumas pessoas que pensam como eu. Por que está telefonando, senhor Weiss? Refletiu sobre minha proposta?
— Ainda está interessado?
— Claro que sim. Para mim a vida continua.
— Está bem. Poderíamos marcar um encontro para amanhã? Arranjarei um avião para o senhor.
— Não é necessário. Iremos no meu. Não é mais lento que o aparelho mais veloz que o senhor poderia conseguir.
— O.K., senhor Adams. Muito obrigado. Então está combinado para amanhã, às...
— Um momento! Está lembrado das minhas condições?
— Cinqüenta e um por cento para o senhor. Naturalmente.
Marcaram encontro para o dia seguinte, às seis da manhã.
Homer G. Adams reclinou-se novamente na poltrona. Seus pensamentos voltaram a ocupar-se do jogo de cifras que havia sido interrompido, jogo este que tinha um fundo bastante real. A palestra com Weiss acrescentara mais um fator que podia ser retirado da lista dos duvidosos.
A próxima interrupção só surpreendeu Adams porque este supusera que Clèment também entraria em contato com ele por telefone. Acontece que o baixotinho moreno apareceu pessoalmente.
— Boa tarde, senhor Adams. Pensamos na sua oferta. A Minneapolis Mining Company concorda com sua proposta. Pedimos que faça a demonstração com suas máquinas amanhã de manhã.
— Amanhã de tarde, senhor Clèment. De manhã tenho um compromisso no Meio-Oeste. Depois do almoço terei tempo para dar uma chegada a Sacramento. Serve para o senhor?
— Serve muito bem. Assim teremos tempo para evacuar a galeria, a rim de que o senhor possa realizar a demonstração sem qualquer risco.
— Muito bem! O senhor já conhece minhas condições. Já que está aqui, quero apresentar-lhe a minuta do contrato. Peço-lhe que a examine. Assim poderemos assiná-lo amanhã. Hoje mandarei passá-lo a limpo.
Clèment leu atentamente. Terminada a leitura, disse:
— Estamos de acordo com as linhas gerais. Apenas gostaríamos de formular uma contraproposta quanto à participação. Os diretores da empresa acham que a participação majoritária do senhor os colocaria em situação desvantajosa. Pedem que se contente com quarenta e cinco por cento das ações.
Adams exibiu um sorriso paternal.
— O senhor ainda mantém a tática de negociação dos tempos antigos, senhor Clèment. Meus respeitos! Ainda têm tanto interesse em manter a maior parte do capital? Não ficaram desanimados com o colapso da Bolsa?
— Nem um pouco. Como deve saber, nossas ações baixaram mais de cinqüenta por cento. Apesar disso estou convencido de que se mantém um alto conceito sobre a Minneapolis Mining, ainda mais que outras ações tiveram uma baixa muito maior. Nas condições atuais, o negócio que o senhor vai concluir com nossa firma ainda é o melhor possível, mesmo sem a participação majoritária.
— Há uma hora alguém disse que sou o último otimista. Fico satisfeito em ver que existem outros.
O homenzinho moreno fez uma mesura elegante.
— Vejo que nos entendemos muito bem, senhor Adams. Se a Minneapolis Mining conseguir fazer escavações mais rápidas, daqui a três dias liderará a construção de abrigos antiaéreos. Depois da catástrofe do Mar de Timor pouca gente estará disposta a gastar dinheiro em outra coisa. Como vê, conhecemos nossa importância e as chances de que dispomos. E o senhor aproveitará essas chances tanto quanto nós. É claro que pode haver algum motivo para esse sentimento de fim de mundo que anda por aí. Mas nesse caso nosso prejuízo será inevitável de uma forma ou de outra. Estamos nos preparando para o caso de que a vida continue de alguma forma. Quanto a mim, posso estar errado, mas desde que a humanidade existe, ela sempre tem encontrado uma saída.
Homer G. Adams sentiu-se emocionado por tamanha confiança na humanidade.
— Mandarei passar o contrato a limpo e levarei para o senhor amanhã. A GCC contenta-se com 45%. Acho que combinaremos muito bem.

* * *

Dois dias depois.
A demonstração do trabalho das máquinas da GCC fora um êxito total. Os contratos tinham sido assinados. Homer G. Adams tomou um avião e foi ao território da Terceira Potência, no Extremo Oriente, para apresentar seu relatório. Até mesmo Thora e Crest, que geralmente preferiam manter-se alheios aos assuntos intraterrenos, haviam aparecido para presenciar o relato.
— Como está o ambiente lá fora? — perguntou Perry Rhodan. — Espero que não tenhamos colocado um peso muito grande na nossa consciência.
Por um instante Homer G. Adams baixou a cabeça. Depois encarou seus interlocutores.
— Para mim, aquilo que passei nos últimos três dias apenas parece a repetição de alguma coisa que já aconteceu. Anos atrás mandaram-me para a penitenciária por isso. Hoje sei que minha atuação conta com a aprovação dos demais. Faço questão de ressaltar que não me sinto responsável pelos suicídios cometidos por aí. Um homem que não consegue superar a perda de valores materiais carrega um problema que só ele pode resolver. Além disso, acredito que a causa principal dos suicídios seja o medo da invasão.
Todos os olhares dirigiram-se a Perry Rhodan.
— De qualquer maneira semeamos o desassossego entre os homens. Mas sabemos perfeitamente que esse desassossego era necessário. A invasão representa um perigo real, que nos ameaça a cada dia e a cada hora. A cena do Mar de Timor, que Bell apresentou ao mundo por meio dos projetores arcônidas como um simples filme tridimensional, poderá ser um episódio real de amanhã. Temos o dever de proteger a humanidade contra esse tipo de perigo, pois ninguém mais está em condições de cumprir essa missão. Por isso mesmo cabe-nos aumentar nosso potencial industrial numa proporção adequada, e para isso temos que exercer uma influência considerável sobre a economia mundial. Os resultados dos nossos esforços costumavam ser medíocres em comparação com as necessidades. Uma entidade que se propõe a proteger e unir um planeta precisa dispor da força necessária. No início da semana, quando você foi a Nova Iorque, éramos uns pobretões em matéria de divisas. Como estão as coisas hoje, Adams?
— O fator decisivo foi o espetáculo proporcionado por Bell com a invasão fictícia do Mar de Timor. As providências detalhadas que antecederam a operação também foram bem executadas. Em poucos dias conseguimos pôr a Bolsa de Nova Iorque fora dos eixos. Uma atuação semelhante foi desenvolvida por Kakuta, em Tóquio, por Marshall, na Cidade do Cabo, por Li, em Londres e por Kosnow, em Berlim. Com um pecúlio de alguns milhões de dólares conseguimos adquirir as maiores indústrias e obtivemos a maioria em quatro conglomerados. É claro que uma manobra destas não pode ser executada todos os dias, pois o mundo não vai cair pela segunda vez no mesmo truque.
— Podemos inventar outros truques — disse Reginald Bell com a voz indiferente e ligeiramente professoral. Provavelmente quis dar mostras da sua fantasia.
— Por melhor que disfarcemos o blefe, ele será descoberto. É que sua origem será a mesma. E isso bastará aos espertos corretores da Bolsa. Além disso, esse procedimento constituiria uma irresponsabilidade da nossa parte. Ninguém pode estar interessado em lançar a economia mundial num caos completo. Uma economia livre está sujeita a leis rígidas. Depois de um grande colapso da Bolsa costuma haver uma época de calmaria, seguida pela recuperação. A manobra que encenamos ontem só pode ser repetida no mínimo de trinta em trinta anos, pois um colapso total da economia não traria vantagens a ninguém. Também nós seriamos sepultados sob os escombros. Posso assegurar-lhes que disponho de ampla experiência no setor. Aquilo que alcançamos anteontem foi o máximo que se poderia esperar. Será que algum dos cavalheiros não concorda com a minha opinião?
Homer G. Adams passou os olhos pelos seus interlocutores. A pergunta fora dirigida a todos, mas não havia ninguém que não soubesse que no fundo só se destinava a Perry Rhodan.
— Os resultados corresponderam inteiramente às sua previsões, Adams — respondeu Rhodan. — Sabe muito bem que no princípio tinha minhas dúvidas e também me teria contentado com menos. Na situação em que nos encontramos hoje só lhe posso manifestar meus elogios e minha gratidão. Além do mais conseguiu fechar alguns negócios excelentes com as máquinas dos arcônidas. Mas nesse terreno devemos agir com muita cautela.
— Naturalmente. Neste ponto o direito de veto de Crest continuará a ser reconhecido. Além disso, é você, Rhodan, que decidirá quais dos nossos segredos podem ser colocados ao alcance do público. O aparelho pendular matéria-energia, que foi colocado à disposição só da Minneapolis Mining e do senhor Weiss, da Steel & Concrete, deve ser considerado obsoleto sob os padrões arcônidas. Apesar disso foi muito valioso para nós. Essas empresas, na quais o senhor detém o controle acionário, sob o nome suposto de Benjamim Wilder, da GCC, já ocupam uma posição de monopólio na sua especialidade e exercerão uma liderança absoluta na época da recuperação econômica. Ao que parece, já não temos maiores problemas econômicos. Já dispomos dos sete bilhões exigidos pelo governo de Pequim. Não será mais necessário adquirir o território submetido à nossa soberania em prestações, conforme estava previsto. Pelos meus cálculos, poderemos contar com outros quatro bilhões nos próximos quarenta e cinco dias. Não é muito em comparação às nossas necessidades para a montagem de uma linha industrial. Mas teremos de arranjar-nos.
— As indústrias controladas por nós não valem muito mais que isso? — perguntou Bell.
— O valor das empresas medido pelas cotações de Bolsa sofreu uma queda acentuada. Mas voltará a subir. De qualquer maneira, se pensar que podemos utilizar prontamente o capital de uma empresa de, digamos, duzentos bilhões de dólares para levar avante os nossos objetivos, estará fazendo uma conta de quitandeiro. As indústrias que possuímos espalhadas pela Terra têm de continuar em nossas mãos. Precisamos conservá-las. Por isso só uma fração dos recursos disponíveis pode ser desviada para nosso empreendimento no deserto de Gobi. Compreendeu?
— Compreendi — respondeu Bell com um sorriso.
— Temos muito trabalho diante de nós — prosseguiu Rhodan. — Nos últimos dias conseguimos muita coisa. Criamos uma base financeira para nosso empreendimento. Adams terá de esforçar-se para conseguir o que ainda nos falta. Conforme acaba de dizer, tão depressa não voltaremos a ter dias tão grandiosos como os do grande colapso da Bolsa. Por isso torna-se necessária uma série cansativa de pequenos trabalhos, como por exemplo os da Steel & Concrete e da Minneapolis Mining. Mas não é isto que me preocupa. Levaremos meses, talvez anos, para montar um sistema econômico eficiente em nosso reino. Por outro lado, os problemas não poderiam ser mais prementes. A qualquer momento poderemos defrontar-nos com a invasão do povo de Fantan. O show que Bell ofereceu num passe de mágica poderá transformar-se em realidade de um dia para outro. Só que aí nossos inimigos não desaparecerão na água. Outro problema que me preocupa é a falta de material humano. Precisamos de colaboradores feitos de carne e osso, que defendam nossos interesses em todos os continentes. Para esse fim ainda hoje fornecerei instruções a alguns dos senhores. Há um detalhe que todos nós devemos ter em mente: sempre que alguém nos traga uma pessoa, deve estar plenamente convencido de seu valor e eficiência. Face ao reduzido número de pessoas que podemos abrigar em nosso minúsculo país e às exigências que cada um terá de cumprir, só a elite humana poderá aspirar à cidadania da Terceira Potência. Precisamos de gente dotada de capacidades extraordinárias.
— Em poucas palavras, precisamos de mutantes. De mutantes positivos.
Perry Rhodan confirmou com um gesto. Não revelou a visão estranha que as palavras proferidas por Bell desencadearam em sua mente. Formulou uma pergunta estranha.
— Adams, qual é o cubo de 2.369,7?
O homenzinho lançou um olhar de espanto para Rhodan. Pegou a calculadora.
— Não, não quero assim — disse Perry Rhodan. — Calcule de cabeça.
— Vai demorar um pouco...
— Pode deixar. É 13.306.998.429,873. Aliás, há uma coisa que ainda não compreendi. Você acaba de referir-se à nossa participação majoritária na Steel & Concrete e na Minneapolis Mining. Antes, porém, você havia declarado que só Weiss concordara com a participação acionária de 51%, enquanto Clèment conseguiu a redução para 45%.
— É simples. Antes disso já havíamos adquirido na Bolsa sete por cento das ações da Minneapolis Mining. É claro que Clèment não sabia disso.
Perry Rhodan esperou que cessassem as risadas.
— Muito bem. Acho que podemos dar-nos por satisfeitos. Vamos discutir os detalhes das próximas ações que programamos.

Um comentário:

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