sábado, 20 de outubro de 2012

P-014 - Charada Galáctica - Clark Darlton [parte 3]


Ela era uma mutante das mais notáveis. Já na mais tenra infância, suas capacidades haviam atingido pleno desenvolvimento, E agora ela superava qualquer adulto. Rhodan gostava de apresentá-la com exemplo vivo do futuro gênero humano. Uma precursora do homo superior!
Com um violento esforço, Betty expulsou de sua mente todo e qualquer pensamento, concentrando-se exclusivamente na tarefa de enfeixar suas forças cerebrais em energia telecinética. E depois agiu prontamente.
Rhodan não presenciara os esforços de Anne Sloane para erguer o robô. Escutara apenas o efeito final. Maravilhou-se, portanto, ao ver a eficiência com que Betty trabalhava, uma vez superado o impacto inicial. O robô de algumas toneladas parara de repente, com um tranco. O fogo dos olhos parecia arder com raiva. Em vão o colosso forçava a invisível barreira telecinética, com as rodas patinando no mesmo lugar. Depois o monstro se ergueu lentamente para o alto, como que desprovido de peso, até as antenas tocarem no teto. Betty deixou-o suspenso por alguns instantes; parecia sentir prazer em brincar com suas forças. Depois soltou-o.
Por entre o estrondo causado pela grande massa metálica se espatifando no chão, fez-se ouvir um grito uníssono de várias vozes. Rhodan voltou-se num salto, preocupado. Ouviu os apelos angustiados de Bell, os lamentos de Marshall, e palavras esparsas de Crest, que não conseguiu entender.
Compreendeu imediatamente que algo de incomum acontecera. De onde estava não podia avistar o grupo, oculto pela volta do corredor. Puxando Betty pelo braço, correu rapidamente para junto deles. A jovem levou alguns instantes para tornar a se situar no presente, mas logo acompanhou obedientemente Rhodan. Por enquanto sua tarefa estava cumprida, e bem cumprida.
Na volta do corredor Rhodan estacou tão abruptamente que Betty se chocou contra ele. Com um só olhar percebeu o motivo da perturbação dos companheiros. O hipertransmissor que os havia trazido, sua única ligação com o mundo exterior, tinha desaparecido.

                                                                           * * *              

Groll e Lossos encontravam-se diante da boca de entrada do túnel. Tinham dormido por algumas horas. O sargento muito mal, pois seu repouso era constantemente interrompido pelo cientista ferrônio, que não conseguia se acalmar. Seu murmúrio incessante irritava Groll, que maldizia a hora em que Deringhouse e Rhodan lhe haviam dado o encargo de explorar o sistema Vega com o sábio.
Mas enfim o distante sol nascera, trazendo luz novamente. O curto dia da lua 13B começava.
Após rápida refeição, os dois homens voltaram para o platô que fora cenário do inquietante encontro na noite anterior, fortemente armados.
A pirâmide continuava inalterada. Groll filmou a inscrição e acompanhou Lossos até o túnel. Com um calafrio espiou para dentro da escura passagem; nem sinal de luz ou claridade. O chão inteiriço e firme fora evidentemente construído por seres inteligentes.
— Nós os encontramos! — sussurrou Lossos, em tom quase reverente. — Encontramos os seres que vivem mais do que o sol! A brincadeira de esconde-esconde não lhes valeu de nada.
— Ora, tudo que encontramos foi um túnel que leva ao seio da terra, nada mais. Vai ver que foi construído por gente que já morreu há anos, séculos ou até milênios. E agora? O senhor entra na frente?
O ferrônio eriçou a basta cabeleira, proeza executada com surpreendente habilidade. Groll sabia que o gesto traduzia, além de medo, violenta oposição.
— Você é meu piloto — murmurou o ferrônio — e meu protetor. Eu sou um pacífico pesquisador, desacostumado ao manejo de armas. Siga primeiro.
Mais uma vez Groll amaldiçoou sua tarefa, porém depois o orgulho prevaleceu. Que diabo, se o ferrônio pensava que ia jactar-se mais tarde de ser o descobridor dos imortais, sem dividir a glória com ele... Mas o sargento reivindicaria sua parte dos louros, disso o velhote podia ter certeza! Acendendo seu holofote portátil, entrou no túnel. Foi obrigado a curvar-se. Logo, os desconhecidos construtores daquela toca deviam ser mais baixos do que os homens, concluiu. Mais ou menos da altura dos ferrônios. Ótimo para Lossos, que poderia andar ali dentro em posição normal. Mas... e o estranho da noite passada? Sua estrutura era bem maior do que a dos terrenos... Começavam as contradições... as coisas não se encaixavam.
Groll desistiu de aprofundar suas cogitações no momento. O túnel estendia-se à sua frente, enormemente comprido, até onde a luz do holofote alcançava. A inclinação devia ser de cerca de vinte graus. Ainda bem que calçava sapatos com sola de borracha antiderrapante, senão escorregaria direto para baixo. Tinha ainda a possibilidade de se apoiar com as mãos nas paredes, em ambos os lados, pois o túnel era estreito.
Lossos tateava desajeitadamente atrás de Groll. Porém o caminho podia ser seguido até de olhos fechados. Impossível perder-se ali dentro, pois não havia desvios laterais; até o holofote poderia ser dispensado, constatação que tranqüilizou grandemente o sargento.
Pouco a pouco, a saída para o mundo exterior transformou-se num pequeno clarão distante. Acerca de cinqüenta metros diante deles, o foco do holofote foi refletido por uma parede lisa, que fechava o túnel. O material de que era feita absorvia cinqüenta por cento da luz do refletor; o restante bastava para ofuscá-los. Groll regulou o foco, diminuindo sua intensidade. Seus dedos apalparam a superfície da parede; era fria, e parecia muito grossa. Repeliu o impulso inicial de eliminar o obstáculo com o radiador manual. O calor produzido se tornaria insuportável naquele local recluso; além disso, certamente a arma não teria potência suficiente para fundir a maciça parede.
Porém ela provava que o desconhecido da noite anterior estava familiarizado com o lugar; senão já teriam dado com ele ali dentro. A não ser que, ocorreu de repente a Groll, ele tivesse deixado o túnel enquanto eles estavam no caça espacial.
— O túnel continua? — indagou Lossos.
— Sim, por trás desta parede — respondeu Groll.
— Tem tanta certeza assim? — duvidou o ferrônio.
O piloto não respondeu. Se bem que não tivesse recebido, como Rhodan, os amplos conhecimentos arcônidas transmitidos pelo treinamento hipnopédico, era um homem dotado de raciocínio claro e agudo. Portanto, compreendeu que não seria lógico construir passagens com término repentino. O túnel devia continuar, forçosamente. E a sólida porta que lhes barrava o caminho indicava a existência de algo muito valioso por trás dela. Logo, precisavam superar aquele obstáculo. Coisa que Groll tratou de fazer sistematicamente.
Dois minutos mais tarde deu com a minúscula saliência à sua direita, acerca de um metro de altura. Calcou-a com determinação. De início, nada aconteceu. Mas depois a parede começou a se mover, deslizando para cima, e recolhendo-se para dentro do teto levemente abaulado.
“Deve haver bem uma camada de vinte metros de rocha firme aí em cima da gente”, pensou Groll consigo mesmo.
À medida que a parede subia, uma luz intensa se revelava do outro lado. O túnel era mais largo e mais alto ali; dez metros mais adiante desembocava numa ampla peça, repleta de instrumentos, aparelhos e máquinas. Diante da sala, destacando-se nitidamente contra o fundo iluminado, havia um vulto. Seu revestimento escamoso cintilava fraca, mas ameaçadoramente. O estranho estava à espera deles. Groll viu-se diante da boca escura de uma arma apontada diretamente para ele.

* * *

Pela primeira vez na vida, Rhodan conheceu o desânimo. Sem o hipertransmissor, o caminho de volta estava cortado. Não havia a menor possibilidade de escapar do labirinto de máquinas misteriosas no qual tinham ido parar. A busca da vida eterna conduzira-os à morte certa.
No entanto o acesso de desatino foi breve. O raciocínio de Rhodan logo voltou a funcionar. O cérebro positrônico não podia ter se enganado daquela maneira. E os imortais inventores de toda aquela competição na certa não desejariam ver os candidatos a vencedores perecerem de forma tão lastimável, sem a menor chance de salvação.
Qual seria a próxima tarefa? Eram mil, segundo dizia a inscrição. Qual delas seria a certa, a decisiva? Quanto ao hipertransmissor...
E repentinamente Rhodan adivinhou a verdade cristalina: seu desaparecimento não significava grande coisa. De modo algum deviam se deixar perturbar. Pois conservar o sangue-frio era uma das mil tarefas a cumprir. E, afinal, não eram obrigados a resolver todas elas; talvez dessem com a certa logo no começo.
— E agora? — perguntou Crest, surpreendentemente sereno. — Será o fim?
— É o princípio! — respondeu Rhodan, fazendo intimamente o voto de não estar dizendo nenhuma mentira. — Temos que prosseguir na busca.
— O robô não vai servir para nada agora — observou Bell. — Não se pode consertar um hipertransmissor que não existe mais.
— Em algum lugar deve esconder-se outra possibilidade de regressar — afirmou Rhodan. E desta vez tinha certeza do que dizia.
— Se a gente soubesse pelo menos onde está — lamentou Bell. — No interior de Ferrol? Em outro planeta? Ainda no sistema Vega? O hipertransmissor bem pode ter nos largado nos confins do Universo.
— Certo — concordou Rhodan. — Podemos estar em qualquer lugar, ou em lugar nenhum. E tanto faz estarmos em Ferrol, ou mil anos-luz longe dele, o caminho de volta passa indiscutivelmente por um hipertransmissor de matéria. Portanto, caso o antigo não reapareça, precisamos achar outro. Receio que ele teleportou a si próprio para longe.
Pela primeira vez a pequena Betty se intrometeu na conversa.
— Acertou, Rhodan, e foi no justo instante em que destruímos o segundo robô dos desconhecidos.
Rhodan fitou admirando a jovem, enquanto refletia febrilmente. Com um leve sorriso, disse:
— Mas claro, quase esquecemos disso! Uma vez deixando de existir como maquinismos funcionantes, os dois robôs acionaram um contato. O desaparecimento do hipertransmissor significa que avançamos um bom pedaço em direção ao objetivo final. Minha afirmação pode parecer paradoxal, porém trata-se de uma conclusão lógica. Obrigado, Betty. Você nos fez ganhar um bom trecho de caminho.
— Mas como? Não entendi essa! — reclamou Bell, levantando as mãos num gesto de desalento. — A gente num beco sem saída e o patrão afirma que avançamos um bocado! Bem que eu gostaria de partilhar de seu otimismo...
— O que faria muito bem à sua saúde, Bell — respondeu Rhodan. — Onde vai?
— Procurar pela próxima tarefa!
E Bell afastou-se, debaixo do olhar meio irônico de Rhodan.
— Não devíamos nos separar — interveio Crest. — A charada só pode ser resolvida por todos juntos.
— Como foi que o cérebro positrônico adivinhou que necessitaríamos de Betty? — indagou Rhodan, fazendo sinal ao grupo para seguir Bell.
Crest não soube responder.
O corredor se alargava. Um pedestal vazio, acabando em rampa, revelava a localização anterior de um dos robôs. Exatamente por cima dele ficava a esfera incandescente que captara os tremendos raios, ainda em brasa. Devia ser responsável pela ativação dos autômatos, pois o bombardeio de raios começara logo após terem sido examinados pelo telepata mecânico. Um fato desencadeava outro; uma espécie de reação em cadeia controlada. Que sucederia agora, depois de desaparecido o hipertransmissor?
A resposta não se fez esperar.
Bell parara no meio do corredor alargado. Ali se sentia menos o calor, que aumentava mais e mais no imenso recinto.
Não havia máquinas. Apenas um maciço bloco metálico, com cerca de um metro cúbico. Liso e compacto, suportava um estranho aparelho.
Rhodan não perdeu tempo em examiná-lo mais detidamente; toda sua atenção se concentrava sobre os numerosos botões, escalas e alavancas na face dianteira. O misterioso objeto lembrava vagamente uma máquina de filmar. A lente ovalada reforçava tal impressão.
O som de um leve zumbido ecoou pelo recinto.
Bell soltou de repente tremendo berro, sem razão aparente. Berro que se prolongou em urros intermináveis. De permeio, gritava palavras ininteligíveis, depois começou a amaldiçoar a si próprio e a vida em geral. Com os braços erguidos no ar, parecia querer agarrar algo impalpável.
Rhodan deteve-se bruscamente.
— Que foi? — perguntou ao amigo. — Algum campo de força envolveu você? Não estou vendo nada...
Como se aquelas palavras fossem uma senha, todos viram imediatamente o que acontecia. Em torno de Bell começava a materializar-se uma espécie de tênue neblina; rodopiando de início em farrapos esparsos, acabou tomando o formato de uma espiral, que envolvia sistematicamente o pobre Bell. À medida que o movimento de rotação se acelerava, ela parecia transformar-se numa massa sólida. O vulto de Bell tornava-se indistinto, mas seus gritos desconcertados atravessavam livremente o estranho invólucro.
— Fique parado, e bem quieto! — gritou Rhodan. — Sente dor?
— Não sinto coisa alguma — berrou Bell, desesperado. — Mas essa coisa não desgruda de mim. Tirem-me daqui!
— Espere, rapaz! Como não dói, não pode ser perigosa.
Nervoso, Rhodan procurava interpretar o acontecimento. Também aquela espiral energética devia ter significação. Parecia querer lhes chamar a atenção para alguma coisa. Como, se não havia nada por perto?
Mas havia, sim! A “filmadora”!
Com um salto, Rhodan estava diante do cubo metálico. A estranha filmadora, ou que outro aparelho era aquilo, parecia lançar um desafio.
Depois, como que emergindo para a superfície de grande profundidade, apresentou-se na memória de Rhodan uma lembrança semi-olvidada — ou seria apenas impressão sua? Em algum lugar, em alguma ocasião, já vira aparelho semelhante, uma vez pelo menos. O próprio aparelho, ou então sua descrição teórica.
O treinamento hipnopédico que lhe transmitira a sabedoria arcônida! Se a vaga lembrança partisse dali, Crest devia saber mais a respeito. Chamando o arcônida, perguntou apressadamente:
— Crest! Pense depressa! Que é isso aí? Lembro-me de qualquer coisa parecida, citada nos ensinamentos teóricos do treinamento hipnopédico. Chama-se jato... não, objeto... Que diabo, ajude-me, homem! É algo relacionado com desmaterialização e quinta dimensão. Conhecido só em teoria pelos arcônidas. Pense, Crest! Tudo depende disso!
Antes que Crest pudesse falar, Betty disse:
— Pensar é mais rápido do que falar. Crest entendeu sua pergunta, Rhodan. Este aparelho é um transmissor de objetiva, descrito pelos arcônidas como invenção viável; mas nunca foi testado na prática. Seu funcionamento baseia-se na geometria pentadimensional. Teleportação mecânica mediante raios captadores-impulsores. Sua finalidade seria transportar objetos distantes de um lugar a outro, estejam onde estiverem.
Crest continuou calado. Para que falar, se Betty já expressara seus pensamentos? Rhodan, porém, suspirou de alívio. Refletia apressadamente. Bell parara com seus gritos. Por falta de fôlego, provavelmente. Completamente imóvel no centro da alucinante espiral de energia, parecia aguardar o milagre salvador. Seus pés pairavam uns dez centímetros acima do piso metálico, conforme Rhodan notou de passagem. Bell fora liberado das leis da gravidade.
Sem pensar, puramente por um movimento reflexo, Rhodan abateu o punho sobre uma das alavancas da filmadora quando ela começara a brilhar com luminosidade opaca. Desta vez, os imortais lhe tinham dado uma mãozinha. Certamente consideravam a tarefa complicada demais para ser resolvida sem uma pequena ajuda.
O efeito imediato foi surpreendente: a filmadora girou em seu suporte. A lente apontava agora diretamente para Bell, que acompanhava o processo com os olhos arregalados, apesar de não enxergar muito nitidamente através do turbilhão que o envolvia.
Assim que a câmara completou seu giro, um dos botões brilhou com luz avermelhada. Sem hesitar, Rhodan apertou-o. Um sussurro se fez ouvir no interior do cubo. Rhodan sentiu nitidamente o chão vibrar-lhe debaixo dos pés.
Bell lançou um grito. Por meio de contorções incríveis, tentava escapar da imaterial prisão. Sem o menor êxito, no entanto. Betty Toufry mantinha-se absorta, como que esperando escutar em seu íntimo palavras que não vinham.
E então, o redemoinho da espiral se tornou mais lento. O invólucro nebuloso foi perdendo intensidade, ficando ralo e transparente. Em poucos instantes se desfez totalmente. Precipitando-se dos dez centímetros, Bell caiu de joelhos no chão. Pálido como um cadáver, e com os traços alterados. Os cabelos ruivos estavam de pé na cabeça, e pareciam estremecer febrilmente. Os lábios até então comprimidos deixaram escapar uma única palavra, e não foi uma palavra bonita. Pelo menos não de gratidão pela liberdade reconquistada, conforme seria de esperar.
Porém a série de fatos assombrosos ainda não terminara.
Bell mal teve tempo de pôr-se de pé, enquanto Rhodan emitia um suspiro de contentamento, quando os acontecimentos prosseguiram em cadeia.
Bell encontrava-se junto à parede dos fundos do recinto das máquinas. Parede inteiramente lisa, sem a menor junta. Parecia ser feita de metal, e muito espessa.
Pois a parede começou a dissolver-se. Primeiro perdeu a cor, assumindo aparência leitosa. Depois fluiu em ondas, como se a matéria sólida tivesse se transformado em vapores. O processo era semelhante ao da espiral energética, e, como esta, a parede acabou desaparecendo.
O recinto dobrara de tamanho. Diante do grupo assombrado estendia-se a continuação do segredo, o setor até então oculto aos seus olhos curiosos. À primeira vista, parecia não se diferenciar da sala já conhecida, porém Rhodan logo percebeu que continha muito menos equipamento. Por entre cubos e pedestais de formato diverso, recipientes arredondados e colunas espiraladas, destacava-se uma enorme esfera, apoiada sobre pés delgados e de aparência frágil, em cima de uma maciça plataforma retangular. Parecia até uma miniatura da Stardust-III; com seu diâmetro de cinco metros dava a impressão de ser gigantesca.
Olhando de perto, Rhodan viu que a forma esférica não era perfeita; havia ressaltos, saliências, suportes para antenas e anexos diversos. Depois viu algo que lhe pareceu familiar: na extremidade de um grande nariz metálico havia uma enorme lente oval embutida; cintilando em todas as cores, ela parecia encará-lo fixamente.
— Um transmissor de objetiva... — murmurou ele, perplexo. De pé ao seu lado, Crest acenou pensativamente com a cabeça. Os demais estavam imóveis e calados. Bell ainda se mostrava pálido. Anne Sloane, já restabelecida, segurava a mão de Betty. John Marshall fitava a esfera com os olhos semicerrados.
Apenas o robô arcônida ficara passivamente na retaguarda, aguardando ordens que não vinham. Haggard conservava-se junto a ele.
Adiantando-se, Rhodan foi o primeiro a cruzar o ponto ainda impassável há pouco, porque uma sólida parede de metal ocupava o lugar.
Um novo indício?
Rhodan tinha certeza de que era isso; sabia igualmente que deviam ver no desaparecimento da parede não um obstáculo, porém um convite.
Só após John Marshall e Betty Toufry terem atravessado a fronteira invisível é que se revelou o elo seguinte da cadeia de acontecimentos. Os dois mutantes telepatas estancaram abruptamente. Anne soltou depressa a mão de Betty.
Crest pôs a mão sobre o braço de Rhodan. Ambos compreenderam logo que seus telepatas recebiam nova mensagem; algum aviso que nenhum dos dois conseguia ver nem entender.
Reinava um silêncio quase irreal, no qual apenas se ouvia a respiração pesada dos presentes, e os arquejos de Bell. Aos poucos, a cor voltava às suas faces pálidas.
Betty fez um sinal a Marshall.
— Entendeu, John? Então diga.
O australiano passou a mão sobre os olhos, como que querendo afastar uma visão desagradável. Depois falou, em tom calmo e incisivo:
— É uma nova mensagem. Diz: Vocês têm quinze minutos de prazo para deixar este lugar. Porém só encontrarão a luz se puderem voltar. Só isso. Foi uma voz telepática que falou.
— Se pudermos voltar — murmurou Rhodan pensativo, enquanto seu olhar inquisitivo examinava a esfera. — O transmissor de objetiva! E apenas quinze minutos de prazo!
— Agora são só quatorze! — Eram as primeiras palavras de Bell desde o incidente com a espiral energética. — Vai ser uma parada braba!
E a situação tornou-se de fato mais do que séria.
Num ponto ignorado qualquer foi crescendo um sussurro mal e mal percebido de início. Aos poucos transformou-se numa vibração rítmica, cujo volume aumentou até tinir-lhes nos ouvidos. Era preciso berrar para se fazer ouvir. Simultaneamente, o recinto era atravessado por raios fulgurantes; espalhou-se forte cheiro de ozônio, enquanto o calor aumentava. O ar tornou-se opressivo e asfixiante.
Um gongo soou funebremente. As batidas se repetiam em intervalos regulares, como que contando os minutos decorridos, e avisando que os restantes se esgotavam depressa.
— Doze minutos ainda — murmurou Crest, em voz baixa.
Ninguém o escutou. O barulho agora era ensurdecedor.
Haggard, que até então permanecera discretamente de lado, adiantou-se. Rhodan quase chegara a esquecer que o médico participava da expedição. Sua intervenção naquele momento era bastante oportuna, pois os companheiros pareciam prontos a sucumbir à tensão nervosa, levando-os ao descontrole. E, além de médico, Haggard era excelente psicólogo.
— Não há motivo para alarme! — gritou ele no ouvido de Rhodan. Ao perceber o sorriso sardônico do amigo, acrescentou; — Eles pretendem testar nossa resistência física! Guerra de nervos, entendeu? Os pretensos herdeiros da imortalidade devem ter saúde física, além dos conhecimentos de plano superior. Despistamento, se prefere.
— Acha? — replicou Rhodan, igualmente gritando. — Bem que gostaria de poder tapar os ouvidos.
— Tenho certeza! — disse Haggard. — Procure um meio de voltar, nada mais. Não ligue para o barulho e os raios. O calor só se tornará insuportável quando o prazo de quinze minutos concedido se tiver esgotado. E depois...
— Restam apenas dez! — avisou Marshall, que acompanhara o diálogo telepaticamente. — Precisamos nos apressar.
Rhodan não lhe deu resposta. Aproximando-se da esfera, reconheceu uma ampliação imperfeita do aparelho na sala vizinha — aquele que eliminara a espiral energética e a parede. Demonstração que constituía um indício. Era preciso interpretá-lo, a fim de aplicar agora processo semelhante. Mas o que devia ser teleportado?
Bruscamente lhe ocorreu a resposta: ele e os demais!
O colossal transmissor de objetiva não apresentava uma só abertura. Ou a esfera era maciça, ou estava recheada de instrumentos. Não se embarcava nele, como nos hipertransmissores ferrônios. Ele é que fazia a transmissão, mediante raios captadores-impulsores pentadimensionais, por ele próprio produzidos. E um simples botão o punha em funcionamento. Um único, cintilando rubramente no pedestal; mesmo semi-afundado no metal, ele não podia passar despercebido.
Um lampejo de dúvida passou pela mente de Rhodan. A solução lhe parecia simples demais. Só dar um passo e apertar um botão? Sua intuição lhe dizia que calcar o botão significaria voltar... mas voltar para onde? E no entanto seu raciocínio objetava, julgando que a charada galáctica havia exigido deles até então provas duras demais para permitir que se safassem daquela sem mais nem menos.
Qual seria o truque?
— Mais oito minutos! — avisou Marshall em voz alta.
A temperatura aumentava. Os raios continuavam a explodir estrondosamente por sobre suas cabeças. O ribombar do gongo era cada vez mais alto, com intervalos mais curtos. À distância recomeçaram as batidas regulares do robô em marcha.
Mais sete minutos!
Rhodan decidiu-se. Nada tinha a perder, porém tudo a ganhar.
— Fiquem parados aqui! — gritou ele, para se fazer ouvir entre a barulheira reinante. — Os raios captadores apanharão tudo que se encontra neste recinto, ou então apenas o que for matéria orgânica. Não sei ao certo... Aquele botão ali...
Só então viu algo que até então lhe passara despercebido. Ou que só naquele momento se tornara visível. O botão vermelho continuava aceso; não se modificara. Mas agora parecia cintilar, como se alguma cúpula de vidro invisível o tivesse recoberto.
— Raios! — resmungou Bell, inaudivelmente. — Só cinco minutos ainda! Se a gente não se apressar...
Rhodan leu os lábios em movimento de Bell. Não podia hesitar por mais tempo.
Sem voltar-se, caminhou para a esfera. O pedestal lhe chegava à altura do peito; o botão vermelho embutido ficava exatamente defronte de seu olhar perscrutador. Seu corpo encobria as fontes de luz, e também o fulgor dos raios. A cúpula de vidro parecia ter sumido.
Tomando impulso, Rhodan levou a mão ao botão, enquanto gotas de suor brotavam na testa. O próximo instante decidiria o destino deles todos. Ou retornavam a Thorta, ou pereciam naquele inferno de autômatos desatinados.
A cinco centímetros do botão, a mão de Rhodan esbarrou num obstáculo liso, frio e invisível. Ao tato parecia vidro, porém Rhodan compreendeu logo que não se tratava de vidro comum. O esquisito material vibrava, como se fosse vivo. Rhodan julgou sentir uma débil corrente elétrica percorrer-lhe o corpo.
Não conseguia alcançar o botão.
— Mais três minutos! — Bell clamara tão alto que seus berros superavam até as estrepitosas batidas do gongo. Porém mesmo assim Rhodan percebeu o tom de desespero e desalento na voz do amigo. Fora-se a última chance que lhes restava!
Apesar de estar a apenas cinco centímetros de distância, o botão salvador era inatingível. Uma barreira impenetrável de energia pura, porém neutralizada, o protegia. Mão alguma podia se introduzir através dela.
O calor no recinto era agora bastante forte. O ar sufocante dificultava a respiração; semi-asfixiada, a pequena Betty arquejava, ansiando por oxigênio. As funestas pancadas do autômato em marcha ressoavam maior intensidade, infundindo terror no espírito dos expedicionários. Sua perdição se aproximava, assumindo múltiplas formas.
— Praga! — explodiu Bell. — Mais noventa segundos!
Noventa segundos para a eternidade. E eles que tinham vindo em busca da eternidade, da vida eterna!... Agora só lhes restava a morte, que é eterna. Teriam alcançado seu objetivo?
Repentinamente, os raios cessaram. O gongo ainda se fazia ouvir, porém surdamente. As pancadas do robô emudeceram.
Em seguida todos eles perceberam a voz inaudível que lhes falava. Vinda do nada, formulava pensamentos nítidos em suas mentes. Era o que devia ocorrer com quem possuísse o dom da telepatia. No entanto, todos os integrantes do grupo compreenderam a mensagem:
“Restam poucos instantes! Recorram à sabedoria do plano superior, ou estarão perdidos!”
No auge da excitação, Rhodan exclamou:
— Betty! O botão vermelho! Aperte-o, depressa!
A jovem compreendeu instantaneamente. Nenhuma mão humana seria capaz de alcançar o botão; mas, se raios luminosos atravessavam a barreira energética, o fluxo de pensamentos telecinéticos do plano superior poderia fazer o mesmo.
E, enquanto Bell marcava, com crescente desalento, os trinta segundos derradeiros, Betty calcou o botão vermelho salvador com toda a concentração de que era capaz.
Rhodan viu nitidamente o botão afundar no encaixe, como que pressionado por mão fantasma. Simultaneamente, contatos se faziam no interior da gigantesca bola. Correntes de energia foram canalizadas para transmutadores, que as dirigiam para a quarta e quinta dimensão; o mecanismo entrou em ação, fazendo girar a lente, que agora enfocava o grupo de pessoas; todo aquele complexo e ainda incompreensível processo fora posto em funcionamento, e não mais podia ser detido.
E então, decorridos os últimos segundos do prazo, os raios recomeçaram. As batidas do gongo reboavam outra vez. Ruidosamente, o robô retomou sua marcha. O calor aumentou rapidamente, tornando-se insuportável; o ar foi privado das últimas partículas de oxigênio.
Porém todos sentiram naquele momento a conhecida dor cruciante em todo o corpo. Diante de seus olhos turvos, o cenário ficou indistinto; a grande esfera dissolveu-se num benfazejo vácuo.
Em estado desmaterializado, eles foram projetados através da quinta dimensão. Nem chegaram a perceber que o gigantesco recinto de máquinas, com o transmissor de objetiva incluído, se evaporava no inferno de uma explosão atômica em cadeia, repentinamente desencadeada.

6



Por alguns segundos, que lhe pareceram eternos, Groll ficou olhando para a boca da arma desconhecida. Esqueceu até a existência de Lossos, parado logo atrás dele, em completa imobilidade. Só via à sua frente o vulto ameaçador do desconhecido, agora transformado em adversário e guarda do labirinto.
O vulto hesitou, o que foi sua perdição.
Os olhos do ferrônio ajustaram-se mais rapidamente à repentina claridade do que os do terrano. Enquanto Groll só enxergava a arma, Lossos já distinguira o que estava por trás dela.
— É um tópsida! — sibilou, apavorado. — Atire, depressa!
E simultaneamente o ferrônio se atirou no chão.
Groll não saberia explicar, posteriormente, como é que a arma passara tão rapidamente do cinto para sua mão. Devia ter sido a palavra “tópsida” que o levara a agir instintivamente, com a rapidez do raio. O ser antes desconhecido revelava-se um inimigo mortal.
Os tópsidas! Os reptilóides dotados de inteligência, vindos de um sistema solar a mais de oitocentos anos-luz de distância, por terem captado os sinais de socorro do cruzador arcônida acidentado na lua terrestre há anos. No entanto, tinham calculado mal as coordenadas espaciais, indo dar no sistema Vega, onde toparam com violenta reação por parte dos ferrônios. Mas só com a intervenção de Rhodan a invasão pudera ser finalmente repelida.
E agora deparavam com um tópsida na lua externa do décimo terceiro planeta!
Groll repassava aqueles fatos na memória enquanto caía ao solo. Antes de tocar o chão, calcou o disparador. Viu a ofuscante seta energética se lançar contra o vulto indistinto, e fechou os olhos, feridos pela excessiva luminosidade.
Também o tópsida reconhecera o perigo. Hesitara, por motivos inexplicáveis, durante mais alguns segundos. E só por isso é que Groll e Lossos estavam vivos agora.
O reptilóide abrira fogo ao mesmo tempo que Groll, porém suas reações haviam sido mais lentas. Enquanto o terrano mirava num alvo relativamente fixo, o tópsida apontava para um adversário que já mudara de lugar. O feixe energético de sua arma assobiou por cima dos dois homens estendidos, perdendo-se nas trevas do fundo do túnel. Logo após, o mesmo feixe executou um tonto e descoordenado bailado de morte, e apagou-se.
Groll tirou o dedo do disparador e abriu os olhos. A enorme sombra sumira; em seu lugar, ardia no chão um montinho de algo semelhante a cinza, que logo desapareceu, desprendendo espessas nuvens de fumaça. As luzes da peça vizinha lhe pareciam agora mais fracas e mortiças; o que, no entanto, era mera ilusão. Seus olhos ainda afetados pelos fulgurantes lampejos energéticos precisavam adaptar-se novamente a condições normais.
Lossos ergueu-se penosamente.
— Um tópsida! Que será que fazia um tópsida aqui?
Groll era, certamente, a pessoa menos indicada para fornecer-lhe resposta. Segundo lhe haviam informado, os invasores tinham sido expulsos do sistema.
— Algum sobrevivente das batalhas espaciais, quem sabe, que encontrou refúgio aqui. Mas neste caso, teríamos que achar em algum lugar seu bote salva-vidas. Talvez fosse esse o motivo de sua hesitação. Na certa esperava que o socorrêssemos.
O ferrônio ajudou Groll a se levantar igualmente.
— Será que era o único?
Groll deu de ombros. Como ia saber? De qualquer forma preferiu conservar a arma na mão ao prosseguir. O túnel acabava dez metros adiante. Tendo-os percorrido, os dois homens se viram diante de um fabuloso complexo tecnológico, totalmente incompreensível para eles.
Toda uma parede da sala baixa, porém muito longa, estava recoberta de telas opalescentes. Transistores da altura de um homem alternavam com blocos maciços de metal acobreado, unidos uns aos outros mediante ligações prateadas. De permeio, globos negros providos de antenas pontudas. O extremo da peça consistia num gigantesco painel de controle. A abundância de botões, chaves e luzes de controle tornava o conjunto ainda mais intrigante.
— Que é isso? — gemeu Groll, que aguardava coisa bem diferente. Nem ele próprio sabia o que esperava encontrar, no entanto. Apesar de completamente desarvorado, Lossos disse:
— Uma central técnica dos imortais! Que mais poderia ser?
Depois de observar por momentos o ininteligível conjunto de instalações misteriosas, Groll tomou sua decisão:
— Temos que voltar imediatamente a Ferrol, a fim de informar Rhodan sobre isso. Só ele e os arcônidas, com seus conhecimentos, serão capazes de compreender a finalidade e a utilidade deste equipamento. Venha, Lossos, os segundos perdidos jamais poderão ser recuperados.
O ferrônio prosseguira, detendo-se diante da primeira tecla. Parecia procurar em vão os botões reguladores.
— Deixe disso! — exclamou Groll, severamente. — Poderia causar tremenda catástrofe mexendo em tecnologia que desconhece. Venha, não podemos desperdiçar tempo.
Com grande relutância o cientista se desprendeu das maravilhas de um inconcebível passado. Pois não havia a menor dúvida de que aquelas instalações eram anteriores à espaçonáutica ferrônia.
— Deve ser o que Rhodan procura — murmurou ele. — Tem razão, sargento, vamos embora.
Assim que passaram pelo local onde se encontrava a parede, marcado por um encaixe, as luzes da sala se apagaram. As misteriosas instalações mergulharam nas trevas. Groll acendeu precipitadamente seu holofote portátil; a repentina escuridão lhe clava arrepios.
Segundos depois do apagar das luzes, a parede divisória tornou a descer vagarosamente, isolando a sala do mundo exterior.
Calados, os dois homens refizeram o percurso anteriormente percorrido. Muito ao longe, sob a forma de um orifício claro ovalado, avistavam a claridade do dia. Em breve voltavam à brilhante luz de Vega.
Groll estremeceu repentinamente. Nem mesmo seu quente macacão espacial conseguia protegê-lo daquele frio. Um frio que não tinha causas físicas. Pois só então se conscientizou de que matara um ser vivo, apesar do fato ter ocorrido há mais de meia hora. Começou a recriminar-se por sua precipitação. Afinal, aquele tópsida podia ser um náufrago do espaço, com direito a auxílio e proteção, conforme mandavam as leis interestelares. Porém logo reformulou seu modo de pensar. O tópsida não morrera de arma na mão?
Lossos afastara-se um pouco, a fim de ir olhar a pirâmide. Com os olhos semicerrados, estudava a inscrição. A semelhança com os símbolos que Rhodan mandara decifrar no cérebro positrônico era indubitável.
— Eis a prova de que nos encontramos na pista certa, sargento! Agora não me oponho a decolar o quanto antes, e voltar para Ferrol.
Groll não respondeu. Compreendia a euforia do ferrônio; porém, estranhamente, não conseguia compartilhar de seu entusiasmo. No entanto, deveria sentir-se satisfeito por ter podido prestar um favor a Rhodan...
“Bem, esperemos até saber o que diz a inscrição na pirâmide”, pensou intimamente. O filme já revelado encontrava-se no seu bolso. A imagem era nítida e clara.
Em silêncio, os dois homens dirigiram-se para o caça espacial. A fechadura não fora tocada. Embarcaram na apertada cabina e fecharam a portinhola. Dez segundos depois, a paisagem rochosa foi ficando para trás.
Lossos emitiu de repente uma exclamação de surpresa, apontando para baixo, através da escotilha.
— Olhe, sargento! Perto daquele rochedo isolado! Algo cintilando ao sol!
Fazendo uma curva fechada, Groll fez o caça baixar novamente. E identificaram logo o objeto brilhante, quando voaram por cima dele. Eram os destroços camuflados de um minúsculo bote salva-vidas espacial, do tipo usado em emergências por náufragos, no âmbito de um sistema solar.
— Portanto, aquele tópsida era o único por estas bandas! — constatou Groll, objetivamente. Porém, em pensamento, acrescentou: “O último neste sistema, e eu acabei com ele...”
Depois acelerou, e o esguio aparelho disparou para o alto, mergulhando no firmamento escuro do cosmo.

* * *

Trevas!
E no meio delas, redemoinhos de cores cintilantes e vivos relâmpagos. Dores repuxantes em todos os músculos. Queda interminável no espaço sem fim. Terrível solidão dentro da eternidade. Nem frio, nem calor — apenas nada.
Mas do nada, algo começava a emergir: a consciência.
Tempo? Perdera toda a significação; era um abstrato absoluto. Segundos... anos... milhões de anos...
Distâncias? Já não existiam. Quilômetros... anos-luz... bilhões de anos-luz...
E de repente, o presente outra vez!
Rhodan sentiu as dores diminuírem. Os olhos muito abertos enxergavam de novo. Sentiu o chão firme debaixo dos pés. Seu corpo lhe pertencia novamente. Podia ouvir, também. E escutou a voz rouca de Bell:
— Conseguimos! A arca! Perry, voltamos para a arca!
Rhodan viu então, igualmente. Através das grades do hipertransmissor tão conhecido, reconheceu o salão subterrâneo de Thorta. Três de seus quatro mutantes guardavam a entrada. Suas fisionomias revelavam evidente surpresa.
Sem saber por quê, Rhodan olhou para seu relógio. Tinham se demorado por quase quatro horas na misteriosa sala de máquinas. E, no entanto, parecera-lhe uma eternidade.
Rhodan abriu a porta do hipertransmissor. O africano Ras Tshubai veio ao seu encontro.
— Já, senhor?
Estranhando a pergunta, Rhodan replicou:
— Já? Que quer dizer?
— Ora, o senhor esteve ausente por menos de cinco minutos!
Rhodan encarou firmemente o africano, procurando ocultar sua perturbação. Com voz firme, disse:
— Comparar relógios, Ras!
— Exatamente 10:30 h, hora normal da Terra, senhor — respondeu o telepata, consultando seu relógio de pulso.
Rhodan ergueu devagar o braço, a fim de olhar para seu cronômetro. Mas poderia ter dispensado o gesto. Os ponteiros marcavam 14:25 h.
— Mal vocês sumiram — contou Ras — apareceu de volta o robô; teleportou-se com o hipertransmissor para a base, retornando três ou quatro minutos depois com Betty.
Não faz um minuto que ele entrou na arca com Betty.
O restante do grupo também havia deixado o hipertransmissor. A não ser Crest, ninguém entendia aquela discussão. Será que agora o tempo ficara biruta também? Podiam ter vivido fisicamente quatro horas em pouco mais de cinco minutos?
Uma amostra, um prenúncio da imortalidade?
Anne Sloane lançou repentinamente um grito aterrado. Fora a última a sair do hipertransmissor, junto com Marshall, e olhara casualmente para cima. E vira aquilo.
E quem não via, ouvia.
Junto ao teto flutuava uma pequena esfera luminosa. Seu diâmetro não ultrapassava os dez centímetros. Pulsava de maneira lenta e regular. E a cada pulsação emitia batidas, como o gongo da sala de máquinas que acabavam de deixar. Batidas surdas e cavas.
Rhodan voltara-se rapidamente ao ouvir o grito de Anne. Quando avistou a esfera, estarreceu.
A luz?
A mensagem falara de uma luz, que só encontrariam caso pudessem voltar. Pois bem, tinham voltado! Aquela bola luminosa devia ser a tal luz. Mas o que significaria?
A esfera brilhava como se estivesse em fogo. Com infinita lentidão, começou a descer. Rhodan adivinhou instintivamente que também naquele fenômeno devia existir um limite de tempo. Pois até então os imortais tinham adotado sempre o princípio de determinar prazo para a execução de cada tarefa.
Os cabelos de Bell tornaram a entrar em desordem. As cerdas avermelhadas refletiam o cintilante brilho da esfera, e por um momento a cabeça de Bell pareceu arder. Porém Rhodan dispensou apenas alguns instantes de atenção à estranha cena, depois perguntou a Betty:
— Você está ouvindo alguma coisa? Talvez se trate de uma mensagem telepática. E você, Marshall?
Ambos os mutantes sacudiram a cabeça.
A não ser pelas batidas do gongo, a esfera permanecia muda.
Crest fitava-a, intrigado.
— É formada por energia, sem a menor dúvida. No entanto, não acredito que ela exista agora e aqui. Arde, mas não irradia calor. Luz fria.
Bell foi obrigado a dar um passo para o lado, pois a bola descera tanto que ameaçava pousar-lhe sobre a cabeça. E as misteriosas batidas surdas do gongo não acabavam! Todos os presentes, sem exceção, não conseguiam afastar os olhos da misteriosa esfera que lhes apresentava novo enigma. Parecia ter incorporado todos os terrores da sala de máquinas da qual tinham conseguido se safar.
Rhodan dirigiu-se a Anne Sloane:
— Será que consegue segurar ou controlar a esfera?
A telecineta tentou, porém desta vez sua capacidade se revelou inútil. Sem reagir aos esforços, a bola descia mais e mais, pulsando intrigantemente, e emitindo as monótonas batidas de gongo. Cavas e fúnebres, elas pareciam anunciar o irremediável mergulho dos preciosos segundos no mar da eternidade.
Pairava agora junto ao rosto de Bell, que se recusava a ceder um milímetro de terreno que fosse; não se afastaria mais um só passo. Mantinha os olhos quase fechados, a fim de resistir ao brilho que emanava da esfera. Apesar de estar a menos de vinte centímetros dela, não sentia calor algum. Em troca, viu alguma coisa. Foi o primeiro a avistá-la, talvez por se encontrar tão perto da misteriosa bola. Um objeto escuro e alongado, aninhado dentro dela. Incoerentemente, Bell se lembrou de um organismo unicelular visto através do microscópio; sim, era àquilo que a cena se assemelhava: uma massa transparente circular, com uma mancha escura no meio.
A mancha escura devia medir uns cinco centímetros de comprimento.
Antes que Rhodan, ou qualquer dos outros, percebesse suas intenções, Bell já entrara em ação. Deixando de lado qualquer hesitação, enfiou a mão na massa luminosa, para apanhar o objeto escuro, firmemente convencido de que se tratava da esperada mensagem. Conclusão bastante lógica, pois tinham-lhes anunciado a vinda da luz, e aquela esfera era luz, fria e sob forma redonda. Continha algo escuro, que só podia ser uma cápsula. A mensagem, evidentemente. A próxima tarefa.
Seus pensamentos foram bruscamente interrompidos.
Mal encostou a ponta dos dedos na periferia da bola luminosa, curtos raios luminosos saltaram dela, entrando pelas mãos de Bell. Espantado, Rhodan viu os cabelos do amigo irradiar luz. As cerdas eriçadas imitavam direitinho uma aurora boreal.
Seu berreiro apavorado deixava adivinhar que não se sentia muito bem no papel que representava. Recolhendo apressadamente a mão, ficou pulando feito doído de um lugar a outro. Agitava os braços, como querendo sacudir para fora do corpo toda aquela eletricidade.
Imperturbavelmente a bola continuava a descer; flutuava agora a apenas meio metro do chão. Rhodan receava uma catástrofe, caso tocasse nele; mesmo que desaparecesse simplesmente, seria um contratempo. Pois vira também a cápsula escura que Bell tentara agarrar.
Betty Toufry substituiu Anne Sloane nas tentativas de deter a esfera por telecinésia. Porém concentrava-se em especial na cápsula, por supor que esta se encontrasse no presente, em espaço tridimensional. Mas não tardou a constatar que também não conseguia nada. Inexoravelmente a bola se aproximava do chão.
Bell, já mais calmo, olhava para a esfera, carrancudo, como se ela fosse algum adversário pessoal.
— Puxa, que susto ela me pregou! Parecia tão amistosa no começo...
— Que quer dizer com amistosa? — indagou Rhodan, interessado.
— Amistosa, sim — confirmou Bell. — Os choques elétricos vieram depois. Primeiro senti só um toque, uma leve apalpadela. Como se uma corrente muito fraca passasse da bola para meus dedos; deu uma voltinha pelo meu corpo e voltou para a esfera. Aí começaram os fogos de artifício. Até que não doeu, para ser franco. Com o tempo, a gente poderia se habituar.
— Ah, é? — fez Rhodan, vendo a esfera descer abaixo da marca de um metro. Uma apalpadela? Sim, pode ter sido isso, talvez.... Vai ver que você não lhe agradou.
— Talvez você lhe agrade, então! — resmungou Bell, amolado. Mas logo se mostrou também pensativo. Um rápido olhar para a expressão do rosto de Rhodan fê-lo voltar novamente sua atenção para a esfera. — Caso ambos pensemos a mesma coisa, Perry, seria mais do que tempo de...
Rhodan acenou. O risco não era muito grande, já que Bell não sofrera nenhum dano grave por ter tocado na misteriosa aparição. Os desconhecidos que a haviam enviado não eram mal-intencionados. Apenas gozadores de marca... No entanto, apesar de brincar com as vidas de seus eventuais sucessores, jamais os ameaçavam de maneira direta e imediata.
Bem, Bell passara pela prova sem prejuízo maior; portanto ele podia fazer igualmente uma tentativa. Aviso não lhe faltara. Por outro lado, a menção de Bell a “apalpadelas” era um indício que não podia ser desprezado. Talvez seu amigo não possuísse a estrutura mental exigida.
A bola chegara a oitenta centímetros do piso quando Rhodan se decidiu; abaixando-se, enfiou a mão na massa luminosa. Sentiu imediatamente a débil corrente elétrica invadir-lhe o corpo. Não houve raios, no entanto; fato que deixou Bell um tanto aborrecido, mas, ao mesmo tempo, satisfeito.
Rhodan constatou que a luz era de fato fria. Já não percebia o fluxo elétrico. Não sentia nada. Porém seus dedos tocaram em algo duro e material. A cápsula — se é que se tratava mesmo duma cápsula — era evidentemente de natureza tridimensional. Rhodan não teve dificuldade em segurá-la entre o polegar e o indicador. Era fria, sem ser fria demais. E nem procurou fugir-lhe. Rhodan puxou-a para fora sem que nada impedisse.
Era uma cápsula metálica, com cinco centímetros de comprimento, e um de espessura. A mensagem da luz!
Agora que tinha a cápsula em seu poder, Rhodan recuperara a serenidade. Afastando-se da esfera, recomendou:
— Acho melhor sairmos da arca, pessoal; vamos ficar observando, lá da entrada, o que acontecerá com a bola. O gongo já se calou.
Era a única alteração perceptível. No mais, continuava tudo na mesma. A esfera brilhava, continuava a descer vagarosamente, tocando por fim o chão liso e duro de pedra. Tensos e expectantes, Rhodan e os companheiros observavam da entrada do salão subterrâneo.
A esfera afundava no chão! Passou através dele como se não existisse, mergulhando pedra a dentro com a mesma regularidade com que se vinha deslocando no ar. Era agora apenas um hemisfério luminoso, diminuindo mais e mais. O processo lembrava um pôr de sol no oceano.
O último reflexo luminoso se apagou. A esfera desaparecera.
— Fantástico! — murmurou Crest, visivelmente impressionado. — Ela retornou à sua dimensão. Se você não tivesse agarrado a cápsula a tempo, ela teria sumido junto com a esfera.
— Isso mesmo — confirmou Rhodan. — E com ela, a solução da charada galáctica; ou pelo menos parte dela.
— Acha que continua?
Rhodan deu de ombros.
— Talvez o cérebro positrônico nos responda esta pergunta. Venham!
Ao sair, Rhodan desligou o gerador que mantinha a arca no presente. Ela desapareceu assim que o leve zumbido do aparelho cessou, como se jamais tivesse existido.
As arcadas subterrâneas jaziam vazias e desertas.

7



Debaixo da cintilante cúpula energética, a Stardust-III, a gigantesca espaçonave esférica, dava a impressão de ser pequena. A nave de guerra arcônida, com seus oitocentos metros de diâmetro, abrigava em seus enormes hangares, entre outras coisas, duas esquadrilhas completas dos supervelozes caças espaciais. A tripulação de trezentos homens se perdia dentro do colosso, cuja central de comando representava verdadeira maravilha tecnológica, de procedência não-humana. Rhodan e Bell só conseguiam manejá-la graças ao treinamento hipnopédico arcônida, que lhes transmitira no espaço de poucos dias a milenar sabedoria da raça dominante do universo.
Porém não era o sistema de propulsão da Stardust-III que lhe permitia vencer em instantes incontáveis anos-luz, que mais impressionava Rhodan. Para ele, a inventiva arcônida atingira o auge ao criar o cérebro positrônico. Em seus bancos de memória armazenavam-se os conhecimentos de meio universo, a sabedoria de toda uma raça. E, contrariamente aos próprios arcônidas, o cérebro não degenerava; poder-se-ia afirmar até que superara há muito tempo seus criadores.
Fato que talvez representasse um perigo em potencial...
Rhodan sabia que as instalações do cérebro ficavam ocultas pelo possante revestimento de arconita, liga metálica feita para resistir durante milhões de anos. Ele próprio só conhecia os mecanismos de controle e teclados externos; a face da suprema inteligência do universo consistia de alavancas, botões, comutadores, escalas e alto-falantes.
A cápsula retirada da esfera luminosa deixara-se abrir com facilidade. Continha uma lâmina enrolada, feita de material desconhecido, e recoberta com símbolos de brilho espontâneo. Rhodan achou alguns deles familiares; a maioria era estranha e misteriosa.
Fazia já cinco horas que o cérebro positrônico se ocupava com a decifração. Horas de angústia, de esperança, de devastador desalento.
Finalmente veio a resposta. Mas era desencorajadora.
— A mensagem está codificada — informou o cérebro positrônico. — Foi encaminhada ao setor competente. O resultado será dado dentro de alguns dias apenas.
Crest, Thora e Bell acabavam de entrar e ouviram a comunicação da voz mecânica.
— Ora, bolas! — resmungou Bell. — Em vez de soluções, nos apresentam novas charadas.
Furiosa, Thora interrompeu:
— Escute aqui, Perry! Nunca existiu nenhum planeta da vida eterna! Estamos seguindo uma pista que pode ter sido válida há milhares de anos. Atualmente, ela só serve para nos mistificar e nos expor aos maiores perigos. Caso exista de fato uma raça imortal, seria mais simples encontrá-la pelos meios convencionais.
Rhodan voltou-se vagarosamente.
— E quais seriam estes meios convencionais, Thora?
— Vôos espaciais! Para que temos nossa espaçonave? No caminho de volta para Árcon, poderíamos abordar, um por um, os diversos sistemas planetários, a fim de ver se são habitados.
— Esqueceu dois detalhes — interrompeu Rhodan, friamente. — Em primeiro lugar, entre Vega e Árcon há uma distância de trinta e quatro mil anos-luz, com mais sistemas solares do que jamais conseguiria explorar. Segundo: o planeta da vida eterna, se é que existiu efetivamente, encontrava-se no sistema Vega. Ele emigrou, e pode estar em toda a parte e em lugar algum. Quem nos afirma que tomou o rumo de Árcon? Ele pode, da mesma forma, estar se dirigindo em direção oposta. Conhecemos sua velocidade, por acaso? Talvez esteja em viagem ainda, vagando pelo cosmo sem sol, como um peregrino inquieto e imortal. Não, Thora, sua sugestão é impraticável.
— Então apresente uma melhor! — exigiu a arcônida, inconformada. — Mas terá que ser bem melhor. Senão a prometida viagem a Árcon não sairá tão cedo.
— Eu sei — disse Rhodan, com um sorriso fatigado — que esta viagem para Árcon representa sua maior preocupação. Prometo-lhe que reverá sua pátria assim que tivermos resolvido a charada galáctica e encontrado o planeta da vida eterna.
Thora afastou-se abruptamente. Seu rosto era uma máscara rígida e proibitiva. Crest notou-o com evidente mal-estar. Em tom conciliador, disse;
— Precisa compreender Thora, Perry. Ela foi encarregada pelo nosso Conselho Científico de explorar este setor da Via-Láctea. Nosso pouso forçado na lua terrestre forneceu a você a oportunidade de absorver a tecnologia e conhecimentos arcônidas. Concordamos com isso e prestamos-lhe toda a colaboração, na esperança de poder algum dia regressar a Árcon. Porém este objetivo vem sendo sempre adiado novamente...
— Sua expedição não procurava o planeta da vida eterna?
— Sim, mas...
— Pois então! Também estou à procura dele! Temos um objetivo comum. Não compreendo a oposição de Thora.
— Procure entender... — começou Crest, porém foi interrompido.
Diante de Rhodan piscou uma lâmpada vermelha. Quase automaticamente ele ligou o intercom. Na pequena tela de bordo viu-se o rosto de um homem.
— Que foi, Deringhouse?
— Groll, meu piloto acaba de se apresentar de regresso da expedição com Lossos.
— Sim, e como se foram?
— O ferrônio desejava lhe falar. Diz que achou o planeta da vida eterna.
Por instantes reinou um silêncio espantado na central. Thora arquejava, enquanto Crest permanecia impassível. Bell limitou-se a escancarar a boca, o que não contribuía para conferir-lhe um ar muito inteligente. Rhodan disse:
— Traga Groll e Lossos para cá.
O ferrônio chegou com ar triunfante, entregou a Rhodan as fotografias da pirâmide. Groll mantinha-se ao lado dele, com jeito nitidamente contrafeito. Parecia não se sentir muito à vontade.
— Achamos esta pirâmide na segunda lua do décimo terceiro planeta — informou o cientista ferrônio — bem perto de um túnel que leva para debaixo de um colossal platô rochoso. Entramos nele e descobrimos um complexo tecnológico enterrado no solo da lua. Sempre nos constou que aquela lua era desabitada; e pareceu-me mesmo que as instalações são remanescentes de uma civilização morta. Mas também poderia tratar-se da central energética que arrancou outrora o décimo planeta de Vega de sua órbita, transformando-o em lua do décimo terceiro planeta. Sendo este o caso, a lua 13B seria o planeta da vida eterna.
Rhodan escutara Lossos sem interrompê-lo, com as fotografias na mão, com ar indeciso. Com um gesto quase brusco, empurrou as fotos para debaixo do compartimento receptor do cérebro positrônico. Calcou um botão, fazendo o circuito adequado entrar em funcionamento. Lentes captaram os símbolos da inscrição, transferiram-nos para apreensores de impulsos eletrônicos, de onde foram levados adiante com velocidade prodigiosa. O processo de decodificação começara.
— Não percebeu nenhum vestígio de vida atual? — perguntou Rhodan a Lossos.
— Só um tópsida. O sargento Groll liquidou com ele.
Rhodan franziu o cenho.
— Um reptilóide? Como é possível?
Groll interveio:
— Um sobrevivente das batalhas de invasão. Salvou-se numa das pequenas naves de emergência, que foi destroçada por ocasião da aterrizagem. Ele encontrou igualmente o túnel para o subsolo, e esperava por nós lá.
Pela primeira vez ouviu-se na voz de Rhodan um tom de recriminação.
— E você matou um ser que esperava socorro? Não sabe que se trata de ação punível segundo as leis da Terceira Potência? E não só segundo nossas leis, sargento?
— Foi legítima defesa — excusou-se Groll, que já esperava a reprimenda. — O tópsida me apontou sua arma; só que minha pontaria foi melhor, e atirei mais depressa. Foi o que aconteceu, senhor.
— O fato ocorreu exatamente conforme o sargento disse — confirmou Lossos. — Groll não fez mais do que cumprir seu dever: nos proteger de um agressor.
Do teto partiu o estalido de um alto-falante ligado automaticamente pelo sistema acústico do cérebro positrônico. A voz mecânica e impessoal informou:
— Tradução concluída. O resultado será dado por escrito. Mensagem encerrada.
Rhodan lançou um breve olhar a Crest.
— Surpreendentemente rápido, não? Devia ser muito simples o código usado, para permitir tradução imediata. O que me deixa concluir que se trata de mensagem pouco importante. Lossos, parece-me que você sofrerá dentro de instantes amarga decepção.
O ferrônio ia replicar, porém naquele momento o cérebro positrônico expeliu um bilhete branco, bem diante das mãos de Rhodan. A face escrita estava virada para cima, e todos os presentes puderam ler o que se encontrava gravado na pirâmide da lua 13B.

“Muitos caminhos conduzem à luz; mas às vezes por rodeios. Porém a pista aponta a direção.”

— E então? — indagou Lossos, pressuroso. — Que quer dizer isso?
Rhodan sorriu.
— Uma espécie de prêmio de consolação para quem perdeu a pista certa, ou jamais a encontrou. Há rodeios para se chegar à solução da charada galáctica. Tenho a impressão, no entanto, de que o caminho direto é o mais curto, apesar de ser mais árduo. Agradeço-lhe, Lossos, prestou-me um valioso serviço. Obrigado também, Groll!
Groll retirou-se impassível, enquanto o ferrônio não teve habilidade suficiente para disfarçar sua decepção. Quando a porta se fechou, Crest disse:
— Lamento por ele, pois esperava trazer indício mais útil. Julga sem significação a descoberta de Lossos, Perry?
— Indiretamente sim, Crest. Puro despistamento... Imagine só: escavar uma lua inteira, que se prestaria a suportar vida, só para despistar! Incrível a capacidade dos seres que nos propõem as tarefas!
— Uma raça de gigantes mentais! — concordou Crest, com tom de profundo respeito e veneração. — Será um grande momento aquele em que os encontrarmos pela primeira vez. Espero que sejamos dignos...
— Se chegarmos a encontrá-los, seremos dignos — afirmou Rhodan, gravemente.
— Às vezes acho que seria melhor desistir da busca, em vista das circunstâncias. Porém não é só a imortalidade que está em jogo. É muito mais... O contato com inteligências tão superiores, com seres senhores de todas as dimensões, capazes de lançar uma pista através de milênios, poderia contribuir para salvar ainda o decadente império arcônida.
— Ou promover o nascente império terrano, Crest!
Nem Crest nem Thora responderam. Trocando um rápido olhar, acenaram uma despedida e retiraram-se.
Bell viu-os sair com ar preocupado.
— Não devia ser tão franco com eles, Perry — avisou. — Por enquanto, eles ainda acreditam que seu império continua poderoso e estável. Nem suspeitam de que você pretende se tornar sucessor deles. E caso se tornassem inimigos nossos...
— Crest sabe muito bem o que o futuro reserva a Árcon — respondeu Rhodan, sacudindo a cabeça. — Está consciente do fato de que a raça arcônida é fraca demais atualmente para continuar representando o papel de dominadores do universo. Sabe que os homens assumirão a herança dos arcônidas, e está convencido de que não poderia haver solução melhor. Está do nosso lado.
Fitando o amigo pensativamente, Bell concordou após alguns momentos.
— Sim, deve sabê-lo, senão não estaríamos ocupando a cabina de comando de uma nave que poderia levá-lo de volta à pátria hoje mesmo. Que pensa fazer agora, Rhodan?
— Aguardar, que mais? — respondeu o interpelado. — Jamais solucionaremos uma charada galáctica complexa saltando uma das etapas. A arca em Thorta era apenas uma etapa.
Bell retirou-se. Rhodan ficou sozinho.
Sentado diante do imenso painel do cérebro positrônico, ficou observando as piscantes luzes que acendiam e apagavam continuamente; escutou o inescrutável zumbido que emanava de dentro do invólucro de arconita; sentiu a vibração debaixo de seus pés. O cérebro positrônico trabalhava. Encontraria a solução.
No entanto, o caminho que se estendia à sua frente ainda era longo. Rhodan sabia que esse caminho o levaria pelo tempo e pelo espaço antes de deixá-lo no limiar da eternidade.
Teria coragem de ultrapassar tal limiar?



* * *


A charada galáctica foi solucionada literalmente no último minuto, porém o desconhecido que guarda o segredo da imortalidade ainda não esgotou todos os seus recursos.
Ele, para quem milênios não passam de segundos, lançou uma Pista no Tempo e no Espaço.

Um comentário:

  1. Estou acompanhando essa serie. Boa iniciativa. Gostaria q vc postasse o resrante.

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