Reginald
Bell acabou de abrir o traje. Fez uma tentativa para retirá-lo do
corpo do druuf, mas o peso tremendo do “monstro”
frustrou todos os esforços. Fellmer Lloyd viu o que estava
acontecendo.
— Gire o
corpo, Sir — aconselhou. — Basta girá-lo uma vez em torno de seu
eixo longitudinal para que se desenrole do traje.
Reginald
Bell constatou que Lloyd estava com a razão. Naturalmente, bastava
alguém segurar o traje.
— Estou
vendo — disse Bell em tom contrariado. — Mas como posso girar um
“monstro”
destes?
— Eu
usei um pedaço de tubo — disse Lloyd em tom solícito. — Usei-o
como alavanca.
Bell
levantou-se e arranjou um pedaço de tubo. Enfiou uma das
extremidades sob o corpo do druuf e começou a erguer a outra. O
corpo levantou-se lentamente, virou para o lado, rolou e pronto: o
traje protetor estendido no chão estava vazio.
Neste meio
tempo, Perry Rhodan já havia avaliado a nova situação.
— Cada
um de nós tem um traje — disse. — E cada um de nós tem uma
arma. Portanto, conseguimos o que queríamos. Só uma coisa não
correu conforme os planos: os druufs descobriram nossa fuga. Bem,
isso é um fato consumado. Devemos conformar-nos com o mesmo. De
qualquer maneira continuaremos a procurar o transmissor. Precisamos
avisar a base de Hades. É a única maneira de sairmos daqui.
Refletiu e prosseguiu: — Quer dizer que nos “enfeitaremos”
com trajes protetores, tal qual Lloyd, e continuaremos a tentar a
sorte. Temos de voltar pelo mesmo caminho pelo qual viemos. Uma vez
que não dependemos mais das comportas, avançaremos muito mais
depressa que antes. No entanto, ainda nos resta uma grande
preocupação. As armas destes druufs são iguais à de Lloyd.
Portanto, também devem ser armas de choque. Isso significa que não
temos nada com que possamos defender-nos contra um robô. Os
“monstros”
não demorarão em descobrir esse dado e mandarão que seus robôs
nos ataquem. Quando isso acontecer, as coisas começarão a ficar
pretas.
No momento
em que Rhodan concluiu, Reginald Bell já havia entrado no traje
espacial. Tinha-se a impressão de que estava enrolado em cinqüenta
metros quadrados de tecido plástico. Atlan livrou-o do aperto. Foi
ajeitando o traje até que a cabeça de Reginald Bell aparecesse no
capacete. Grande quantidade do tecido plástico estava arrastando no
chão. Toda vez que Bell dava um passo, tropeçava.
— Até
parece que o senhor é nada menos que Sua Alteza, o Imperador —
disse Atlan em tom de “reconhecimento”.
— Ninguém lhe recusará o devido respeito.
Reginald
Bell lançou-lhe um olhar contrariado.
— A
utilidade é uma coisa e a beleza é outra muito diferente —
respondeu. — O senhor não perde por esperar. Quando tiver colocado
este negócio, eu lhe direi com quem o senhor se parece.
Perry
Rhodan riu.
— Não
percam tempo com piadas! — disse.
Seguiu o
método ensinado por Fellmer Lloyd e libertou outro druuf de seu
traje protetor. Depois o envergou. Encontraram arame e usaram-no,
amarrando o que sobrava da vestimenta.
Pegaram as
armas dos druufs e saíram da sala. O corredor estava vazio. O
murmúrio das fitas rolantes era o único ruído.
Subiram à
fita mais lenta e passaram à mais rápida, assim que se adaptaram à
velocidade. Fellmer Lloyd ia na ponta. Os outros seguiam-no a uma
distância de vários metros. Assim procediam, intencionando que
Lloyd pudesse concentrar suas “antenas”
telepáticas naquilo que se encontrava à frente. Para isso, as
interferências mentais dos terranos não deviam ser muito fortes.
Avançaram
cerca de cem metros e passaram pelas portas de suas celas.
Desconfiavam do silêncio apavorante, que desgastava seus nervos.
O perigo
estava no ar, naquele ar fedorento e venenoso, feito de metano e
amoníaco, que enchia o corredor.
Subitamente
Fellmer Lloyd saltou, sem qualquer aviso, da fita rápida para a mais
lenta e dali para o chão. O salto foi tão inesperado que seus
companheiros passaram por ele antes de saírem das fitas. Estavam com
os radiotransmissores e receptores de capacete ligados. Ouviram Lloyd
dizer:
— Há
alguma coisa pela frente!
Ninguém
tinha a menor idéia do comprimento do corredor. A luz que o enchia
vinha de todos os lados e não projetava nenhuma sombra, motivo por
que, a partir de certa distância, os contornos se apagavam a ponto
de não se reconhecer mais nada.
Esperaram.
Naquela altura, dependiam de Lloyd.
— Estão
se aproximando — cochichou este.
— Como
estão as coisas nas salas próximas a nós? — perguntou Rhodan. —
Estão vazias?
Lloyd fez
que sim.
— Não
senti nada ao passar por elas. Isso queria dizer que tinham uma
saída.
Bastaria
que, assim que constatassem que os druufs estavam acompanhados de
robôs, entrassem numa sala próxima e se mantivessem escondidos, até
que os seres-toco tivessem passado. A coisa não poderia ser mais
simples.
Até
então, Fellmer Lloyd se mantivera confortavelmente encostado à
parede. De súbito, adiantou-se um passo, virou a cabeça e olhou
pelo corredor. Naturalmente não viu nada. O movimento fora puramente
reflexo.
— Tenho
a impressão de que de repente ficaram muito nervosos — disse. —
Ao que parece, descobriram algo de novo.
Referia-se
aos druufs. Rhodan sabia que Fellmer Lloyd não podia identificar
qualquer pensamento desses seres. Não era por causa de sua
mentalidade; acontecia apenas que a estrutura do cérebro dos
“monstros”
era tão estranha que, nessa área, a capacidade telepática do
mutante falhava. No entanto, Lloyd conseguia identificar as
categorias gerais dos pensamentos, e isso lhe bastava paira saber se
alguém se encontrava em estado normal ou se estava em estado de
excitação.
Perry
Rhodan refletiu para adivinhar o que os druufs poderiam ter
descoberto. Estavam à sua frente. Logo, o motivo do nervosismo não
poderia ter relação com os prisioneiros, que nunca haviam estado
lá.
Acontecia
que os druufs usavam trajes protetores. Os radiotransmissores de seus
capacetes estavam desligados. Será que um dos indivíduos desmaiados
recuperara os sentidos e transmitira algum sinal? Mas os três druufs
da última das salas que ladeavam o corredor já não possuíam
capacetes. Não poderiam entrar em contato com ninguém. No entanto,
segundo o relato de Fellmer Lloyd, este derrubara dois druufs e
tivera que deixar para trás o traje protetor de um deles. Será que
este tinha dado o alarma?
Rhodan
ainda estava refletindo, quando subitamente levou uma forte pancada
no ombro. Ouviu alguém gritar de dor. Ele mesmo perdera o
equilíbrio. Cambaleou e caiu. A ação da gravitação duplicada fez
com que a queda fosse muito forte. A pontada sentida no tornozelo
eliminou um pouco a dor provocada pela pancada que levara no ombro.
Subitamente
compreendeu o que estava acontecendo. Durante todo o tempo, seu
raciocínio seguira por uma trilha errada. Ninguém havia dado o
alarma. Ninguém recuperara os sentidos e avisara os druufs. Estes
haviam descoberto, talvez por acaso, os prisioneiros. Agora estavam
acompanhados de robôs, e estes não dependiam da iluminação, para
ver o que havia no corredor. Seus órgãos de visão eram diferentes.
A amplitude de seu espectro visual correspondia ao do olho humano
multiplicado por dez elevado a algumas potências. Enxergavam no
escuro. Além disso, o componente ultravioleta da luz projetada pelas
lâmpadas correspondia a uma bateria de holofotes. Os robôs haviam
avistado os fugitivos. A pancada que Perry Rhodan sentira no ombro
não era outra coisa senão o impacto de uma arma de choque,
disparada apressadamente, quando a distância ainda era muito grande.
— Para
trás! — gritou Rhodan. — Eles nos vêem!
Olhou para
trás e viu Reginald deitado no chão, contorcendo-se de dores. Fora
atingido pela maior parte da energia liberada pela arma de choque. A
distância que o separava do atirador era muito grande para que o
disparo pudesse produzir um desarranjo total do sistema nervoso; mas
era suficientemente pequena para que a dor produzida pelo impacto se
manifestasse em toda plenitude.
Ajudado
por Atlan, Perry Rhodan colocou o amigo sobre as pernas. Bell gemia e
rangia os dentes. Fellmer Lloyd estava pronto para saltar sobre a
fita transportadora, que o levaria a lugar seguro. Seria inútil
lutar contra inimigos invisíveis. Só encontrariam segurança num
lugar em que as armas inimigas não pudessem atingi-los, isto é, nos
fundos do corredor.
Empurraram
Reginald Bell para cima da fita. Não teve forças para manter-se de
pé. Caiu, mas ficou deitado na fita que o carregou. Fellmer Lloyd,
Atlan e Perry Rhodan encontravam-se um pouco atrás dele. Deitaram,
para que os robôs dos druufs não tivessem um alvo fácil. Não
foram atingidos mais. O inimigo deixara de disparar, ou então os
disparos passavam por cima deles.
Perry
Rhodan concluiu que o rumo que estavam tomando os acontecimentos
podia ser tudo, menos agradável. Seria inútil esconder-se em
qualquer sala, uma vez que os robôs os haviam reconhecido. Os druufs
revistariam todas as salas pelas quais passassem, por menores que
fossem. Só lhes restava o caminho pelo corredor. Mas, lá atrás, a
uma distância inferior a cem metros do lugar em que se encontravam,
o corredor terminava numa parede rochosa. Era o ponto final. Não
teriam outra alternativa senão tomar posição naquele lugar e
esperar até que os druufs se aproximassem o suficiente, e assim
pudessem pô-los fora de ação com suas armas de choque.
Estes ao
menos não estavam interessados em matar os prisioneiros. Era o único
consolo.
Enquanto
Perry Rhodan refletia intensamente, o quadro da fita rolante que
passava por baixo da parede surgiu em sua mente. Lembrou-se da
explicação que deram ao fato. Os druufs não queriam que o
mecanismo de retorno da fita ficasse no corredor, onde perturbaria o
trânsito. De repente, deu-se conta de que esse raciocínio era
bastante superficial!
O fato de
a fita rolante desaparecer embaixo da parede obrigava qualquer
pessoa, que de lá quisesse voltar, a dar alguns passos bem difíceis!
Havia
algum motivo para esse tipo de construção! E esse motivo era
patente. A parede não passava de uma porta muito bem camuflada. E
atrás da parede não havia nenhum mecanismo de retorno. A fita
continuava a correr, desta vez por um corredor secreto.
Isso
representava novas esperanças para os fugitivos. Se conseguissem
descobrir o mecanismo que afastava a parede teriam outra chance.
Restava
saber se conseguiriam descobri-lo com a necessária rapidez.
Reginald
Bell já se sentia melhor.
*
* *
No setor
espacial em que se encontravam, parecia haver mais naves que
estrelas. Os instrumentos de localização da gazela funcionavam
ininterruptamente para determinar a localização de veículos
espaciais desconhecidos e transmitir os resultados ao observador.
Conrad
Deringhouse, que pilotava a gazela, acelerara ao máximo a partir da
decolagem. Dentro de poucos minutos, a gazela atingiu a velocidade de
180 mil quilômetros por segundo. Dessa forma, ultrapassara a
velocidade-limite do Universo dos druufs, ou seja, a da luz. Com
isso, a nave deixara de existir para os seres-toco. Por outro lado, a
velocidade de 180 mil km/seg não abalava sensivelmente as matérias,
mesmo num setor em que a concentração de matéria é relativamente
elevada, como, por exemplo, um sistema planetário. Por isso a gazela
estaria em segurança até o momento em que atingisse as áreas
adjacentes do planeta de metano.
Durante a
hora que antecedeu a decolagem, dois transmissores foram montados a
bordo do veículo. Além disso, Deringhouse ordenara que dois outros
transmissores, instalados em Hades, se mantivessem constantemente
preparados para o recebimento de remessas, enquanto a gazela não
tivesse retornado à base. Deviam contar com a possibilidade de os
druufs descobrirem o veículo terrano durante a ação a ser
desenvolvida em Rolando. Nesse caso, teriam de verificar se, diante
de um ataque, ainda havia chances para uma fuga rápida, ou se seria
preferível que os ocupantes da gazela se pusessem a salvo por meio
do transmissor.
Não
receberam mais nenhuma mensagem de Ernst Ellert. Então concluíram
que não houvera qualquer modificação importante na situação
reinante em Rolando.
Depois de
duas horas de vôo, a gazela se aproximara a trinta e cinco milhões
de quilômetros do destino. Conrad Deringhouse iniciou a manobra de
frenagem, e a realizou pela forma que lhe parecia mais razoável na
situação em que se encontravam. Utilizou na frenagem toda a força
dos mecanismos propulsores. Depois de alguns minutos, a distância
que separava a nave de Rolando ficou reduzida a algumas centenas de
milhares de quilômetros, e a velocidade desceu o suficiente para que
a gazela entrasse numa órbita estável.
Não era
que Conrad Deringhouse pretendesse contornar Rolando. Não havia
dúvida de que, se ele fizesse essa manobra, seria descoberto pelos
druufs. A gazela percorreu um pequeno trecho de sua órbita, a fim de
se orientar sobre as indicações fornecidas por Ernst Ellert. Depois
mergulhou na densa atmosfera de metano e amoníaco. Antes disso, a
velocidade foi reduzida ainda mais. Devia-se evitar que o impacto do
campo defensivo da gazela provocasse a ionização das moléculas de
ar, com o que surgiria certa luminosidade. Em atmosferas densas, esse
fenômeno tornava-se muito intenso e podia ser visto a grande
distância.
Os homens
que se encontravam a bordo da gazela — ou melhor, os dois homens e
o rato-castor — não dispensaram, a menor atenção à configuração
estranha da superfície do planeta ou à mescla surrealista das
cores. Sabiam perfeitamente o que estava em jogo. Por estranho que
pudesse parecer, até Gucky deu-se conta da gravidade da situação.
Sem Perry
Rhodan, a Terra, a Humanidade e o Império Solar estariam condenados
ao desaparecimento. Por alguns dias Perry foi considerado morto. E
esses poucos dias foram suficientes para mergulhar a Terra na
discórdia e na confusão. Nesse estado de coisas, algumas semanas
bastariam para deixá-la à mercê do Império Arcônida.
Acontece
que Perry Rhodan estava vivo; era ao menos o que acreditava Conrad
Deringhouse. E o melhor serviço que alguém poderia prestar à
Humanidade seria encontrá-lo, libertá-lo e levá-lo de volta à
Terra.
Deringhouse
fez a gazela baixar a menos de cem metros da superfície e, vindo do
leste, aproximou-se da base subterrânea.
Deringhouse
não tinha a intenção de pousar bem à frente da entrada das
instalações subterrâneas. Achou que a melhor idéia seria esconder
a gazela em algum lugar e pedir a Ras Tschubai, o teleportador, que
fosse à frente e fizesse um reconhecimento da base subterrânea.
Gucky ficaria encarregado de estabelecer contato telepático com o
mutante Fellmer Lloyd, sempre com base na suposição de que os
quatro prisioneiros dos druufs realmente fossem os homens que tinham
ficado no planeta moribundo, chamado Fera Cinzenta.
Se as
indicações fornecidas por Ernst Ellert fossem corretas, a entrada
da base ficava numa imensa planície rochosa, entremeada de monólitos
rochosos pontudos. Nas proximidades do ponto em que, segundo
acreditava Deringhouse, ficava o lugar procurado, havia um pequeno
lago cuja água brilhava num vermelho Intenso. Era bem verdade que
Ellert não mencionara esse lago. Deringhouse teve suas dúvidas
sobre se as indicações fornecidas por Ellert se revestiam da
necessária precisão.
A gazela
aproximou-se do lago vermelho, deslocando-se pouco acima da planície
rochosa e realizando hábeis manobras de última hora, para
desviar-se dos monólitos. Deringhouse reduziu a altura para cinco
metros. Tinha certeza quase absoluta de que nenhum dos instrumentos
usuais de observação conseguiria localizá-lo tão próximo à
superfície.
Deringhouse
parou a nave à uns dez quilômetros da entrada. Colocou-a na sombra
de uma das agulhas de rocha e deixou que descesse à superfície.
Colocou o mecanismo de propulsão em ponto morto. Era bem possível
que, nas próximas horas, tivesse de recorrer a eles com grande
urgência.
Agora que
chegara ao destino, ou melhor, a um lugar próximo ao mesmo, não
teve de prestar atenção a outra coisa senão a eventuais vestígios
da presença dos druufs. Então o panorama estranho daquele mundo de
metano começou a agir sobre sua mente. Examinaram atentamente a tela
panorâmica e, aos poucos, foram perdendo a noção do tempo. A
tensão foi substituída por uma atitude de contemplação.
Conrad
Deringhouse sentiu o perigoso cansaço que se espalhava pelo corpo.
Assustado e perplexo desprendeu os olhos da tela de imagem e olhou
para Ras Tschubai.
— Ei,
Ras! — exclamou. — Não durma!
O africano
sobressaltou-se.
Deringhouse
viu que o mutante sentira a mesma coisa que ele. Não havia dúvida
de que o quadro da planície rochosa colorida produzia um efeito
soporífero e hipnótico. Será que esse efeito era natural? Será
que da composição das cores e das formas resultava esse efeito
sobre o homem? Ou teriam os druufs instalado uma arma hipnótica e
tranqüilamente punham seus amigos a dormir?
— Vá
andando, Ras! — ordenou Deringhouse. — Salte ao acaso. O senhor
sabe que nada lhe acontecerá se for parar num lugar em que haja
matéria sólida ou líquida. Dirija sua atenção obliquamente para
baixo. Se por acaso for parar num corredor ou outro recinto
subterrâneo, procure lembrar-se do lugar e volte para relatar suas
observações. Entendido?
Ras
Tschubai fez um gesto afirmativo. Levantou-se da poltrona estofada,
deu alguns passos para o lado e fechou os olhos. Não se percebia a
dificuldade que enfrentava ao preparar o salto de teleportação para
um lugar que lhe em totalmente desconhecido.
Deringhouse
observou o teleportador. Viu que os contornos de seu corpo começaram
a desmanchar-se. Antes que tivessem tempo de desaparecer de vez,
voltaram a adensar-se, fazendo ressurgir a figura em sua nitidez
habitual. De repente, pingos de suor surgiram na testa de Tschubai,
que abriu os olhos.
— Nada —
disse com a voz cansada. — Parece que fui parar no meio da rocha.
Mas devia haver um espaço oco por perto. Eu senti.
Deringhouse
acenou com a cabeça.
— Muito
bem. Tente de novo.
Tschubai
descansou um pouco; depois fez a segunda tentativa. Fechou os olhos e
procurou enxergar na escuridão, que reinava atrás de suas
pálpebras, o lugar ao qual queria chegar. Naturalmente o quadro era
totalmente fantasioso, já que não o conhecia. Mas até mesmo o
quadro imaginário seria capaz de ativar no momento adequado o lugar
do cérebro, que sofrera o processo de mutação, e provocar a
teleportação.
E Ras
Tschubai saltou.
Depois, a
primeira coisa sentida por Ras foi a impressão de que um peso de
mais de cem quilos comprimia seu corpo. Para colocar-se de pé, teve
de vencer esse peso. O esforço foi tremendo. Logo percebeu que
aquilo não passava da elevada gravitação reinante em Rolando, e
dispôs-se a ligar o gerador antigravitacional de seu traje protetor.
Levou cinco segundos para recuperar-se do choque gravitacional,
perceber que se encontrava num corredor subterrâneo, dotado de fitas
transportadoras, e estender a mão que deveria ativar a chave do
gerador antigravitacional.
Mas algo
aconteceu...
Ras
Tschubai levou uma pancada violenta nas costas. Girou o corpo e
sentiu-se dominado por uma dor cruciante. Caiu e perdeu os sentidos.
A última coisa avistada foi o vulto medonho de um druuf, que se
encontrava num ponto mais afastado.
*
* *
— Estão
a menos de cinqüenta metros — disse Lloyd. — É possível que os
robôs já tenham chegado mais perto.
Ao que
parecia, nem mesmo a dianteira, resultante da dimensão temporal mais
lenta dos druufs, seria suficiente para que descobrissem o mecanismo
que movia a parede de rocha. Haviam apalpado de cima para baixo e da
esquerda para a direita muitas vezes. Comprimiram as luvas de
plástico em tudo quanto era lugar, mas a rocha continuava imóvel.
Cinqüenta
metros eram pouco mais que a distância a qual se poderia fazer um
disparo seguro com a arma de choque. Perry Rhodan encurvou o corpo e
entesou os músculos, tentando preparar-se para o golpe que receberia
logo ou dentro de alguns segundos.
Pelo rádio
de capacete ouviu a respiração pesada do mutante. Para observar
ininterruptamente os estranhos modelos de vibrações cerebrais dos
druufs, Fellmer Lloyd teve de fazer um esforço tremendo.
— Faltam
quarenta metros! — exclamou. — Meu Deus, daqui a pouco começarão
a atirar. Os robôs já devem estar bem perto.
Ainda não
se via nada. A luminosidade uniforme fez com que as partes mais
afastadas do corredor se transformassem numa mancha luminosa, que
fazia desaparecer todos os contornos. Vez por outra, surgia um
lampejo em meio à luminosidade. Eram os reflexos produzidos pelos
corpos metálicos dos robôs.
Seis mãos
tateavam ininterruptamente a pedra, enquanto Fellmer Lloyd se
mantinha em ponto mais afastado, prestando atenção aos druufs. Seis
mãos vagavam desordenadamente de um lugar para outro, procurando
descobrir o local secreto do mecanismo que abria a parede. De
repente, duas das seis mãos caíram sem ânimo. Alguém praguejou em
voz rouca e deu um pontapé na parede.
E a porta
abriu-se!
Subitamente
viram outro corredor à sua frente. Ainda na porta, o corredor
descrevia uma ligeira curva e começava a subir. Prosseguia em
aclive. Era evidente que, em algum lugar, devia levar à superfície
do planeta.
Perry
Rhodan hesitou. O plano não fora este. Queriam encontrar um
transmissor para falar com Hades. E seria um absurdo rematado
acreditar que os druufs tivessem construído o transmissor na
superfície.
Mas não
havia outra alternativa. Teriam de subir pelo corredor. A qualquer
momento, os seres-toco ou seus robôs poderiam abrir fogo. Se
Reginald Bell, que já fora atingido uma vez, sofresse mais um
impacto, não conseguiria manter-se sobre as pernas.
— Vamos
andando! — ordenou Perry Rhodan.
Nessas
palavras soava uma raiva e uma resolução que outra pessoa não
conseguiria exprimir numa frase.
Subiram à
fita e penetraram no segundo trecho do corredor. Bell ia na frente.
Fellmer Lloyd se encontrava na retaguarda. Mal passou pela porta de
rocha, esta voltou a mover-se e se fechou sem que nenhum dos
fugitivos tivesse feito qualquer coisa para que isso acontecesse.
No
corredor reinava a mesma gravidade que se fazia sentir mais atrás,
ou seja, a gravitação de Druufon, que correspondia a 1,95 vezes o
normal. A iluminação era idêntica à dos demais corredores pelos
quais haviam passado. O alcance da vista não chegava a mais de vinte
ou trinta metros.
Perry
Rhodan refletiu intensamente. Chegou à conclusão de que o
desenrolar dos acontecimentos era inquietante. Bastaria que os druufs
voltassem a abrir a parede de rocha, para prosseguirem na
perseguição. Teriam de apertar o passo, e, quanto mais rápido
andassem, mais depressa chegariam ao fim do corredor e à saída que
levava à superfície. Acontece que lá fora a gravitação
correspondia a 2,6 vezes o normal, com o que estariam ainda mais
indefesos diante dos druufs.
Será que
valia a pena? Não seria preferível ficarem parados e esperarem até
que os inimigos se aproximassem?
Mas num
canto recôndito da mente, ainda havia uma esperança: a porta pela
qual entraram no corredor estava camuflada.
Por quê?
A quem deveria ficar oculta a existência do corredor?
Com toda
certeza, os druufs nunca contaram com a presença de visitantes de
fora. Portanto, a existência do corredor deveria permanecer em
segredo para os membros de graduação inferior da guarnição da
base.
Só os
druufs qualificados saberiam dizer qual era a finalidade do mesmo.
Restava saber se os seres que os perseguiam sabiam da existência do
corredor. Em caso negativo, ainda haveria uma esperança. Os
perseguidores atingiriam a parede de rocha e não encontrariam os
fugitivos. Isso os deixaria surpresos, e começariam a procurar nas
salas mais próximas. Não poderiam ter visto a parede abrir-se...
O único
fator de insegurança eram os robôs. Estes não poderiam ter deixado
de ver com seus superolhos que os seres estranhos haviam fugido pela
porta oculta. Restava saber se seu programa lhes permitiria revelar a
existência da porta secreta aos druufs que os acompanhavam.
Quando o
corredor e as fitas rolantes descreveram uma curva suave, Perry
Rhodan interrompeu suas reflexões. O corredor tornou-se ainda mais
difícil de ser abrangido com a vista do que já o era, em virtude da
luminosidade uniforme. Se no fim da fita rolante alguns druufs os
estivessem esperando, eles só os enxergariam depois que,
praticamente, se tivessem jogado em seus braços.
O corredor
terminava num recinto bem amplo, escavado na rocha. As fitas
desapareceram numa fenda do chão e descarregaram seus passageiros.
Do lado oposto ao lado em que a fita desembocava no corredor, parecia
haver uma espécie de passagem. Numa rápida decisão, Perry Rhodan
caminhou em direção à mesma, colocou a mão no lugar em que os
druufs costumavam esconder os mecanismos de abertura e aguardou em
atitude tensa.
As duas
partes da porta começaram a mover-se com um rangido. Ao que parecia,
fazia alguns anos que essa passagem não era utilizada. A porta
abriu-se de vez com um estalido perfeitamente perceptível,
oferecendo uma superfície ampla de chão rochoso em aclive. As
rochas eram inundadas pela luz de um sol vermelho e de um sol verde.
Perry
Rhodan saiu. No mesmo instante, a tremenda gravitação desceu sobre
ele, com a força de um martelete mecânico. Caiu de joelhos, foi se
estirando e deitou. Esperou que os outros o alcançassem e disse:
— Daqui
em diante, será preferível andarmos de quatro. Será mais fácil.
Olhou para
trás, tentando decifrar em que lugar haviam saído. A porta do
recinto de pedra já se fechara atrás deles. Adaptava-se
perfeitamente ao paredão de um monólito vertical. Este subia a uma
altura estonteante, ocultando o cume em meio a um grupo de pequenas
nuvens marrom-avermelhadas.
Ao que
parecia os druufs tinham uma predileção toda especial pelos
paredões dos monólitos, quando queriam ocultar as entradas de sua
base subterrânea. O lugar em que haviam saldo não era aquele pelo
qual haviam penetrado, após a chegada da nave dos druufs.
Rhodan
voltou a olhar para frente. Lançou os olhos pela superfície
rochosa, que descia lentamente, e, bem embaixo, viu uma estreita
faixa vermelha. A faixa cintilava como se estivesse em constante
movimento. Lembrou-se do lago vermelho, observado no momento em que
saíram da nave dos druufs. O que agora estava vendo era um trecho da
superfície desse lago. Ficava a oitocentos metros. Isso era mais um
ponto de referência.
Não viu a
nave dos druufs. Provavelmente só viera para desembarcar os
prisioneiros e partira logo depois. Isso o tranqüilizou, pois se a
nave continuasse no mesmo lugar, as pessoas que se encontravam no
interior da mesma já os teriam descoberto.
Perry
Rhodan procurou elaborar um plano. Era uma tarefa difícil, pois,
praticamente, não dispunham de qualquer dado que lhe permitisse
saber qual seria o procedimento mais adequado. Uma coisa era certa.
Teriam de afastar-se, o quanto antes, da entrada do subterrâneo. Os
druufs poderiam aparecer a qualquer momento.
Teriam de
ir ao lago. Poderiam abrigar-se nas margens. Uma vez lá, poderiam
observar continuamente a entrada do subterrâneo, até que lhes
acudisse uma idéia. Isso, naturalmente, se os druufs tivessem
perdido a pista dos fugitivos.
Explicou o
plano aos companheiros.
— O que
podemos fazer no momento não é muito — disse. — Mas é bem
possível que um de vocês tenha uma idéia melhor.
Atlan
respondeu em tom irônico:
— Na
situação em que nos encontramos, devemos dar-nos por satisfeitos
por termos ao menos uma idéia, administrador. Você tem razão.
Vamos rastejar até o lago e esperar até que aconteça alguma coisa.
Reginald
Bell concordou.
— Vamos
logo. O que estamos esperando? Digam-me uma coisa: alguém pode dizer
quanto tempo durará o suprimento de oxigênio dos tanques?
Ninguém
sabia. Não conseguiam ler as indicações dos instrumentos que
marcavam o volume da reserva de ar respirável.
Mas ainda
lhes restava uma esperança...
Talvez
essas reservas ainda dessem para algumas horas, já que os druufs,
que tinham pulmões maiores que eles, precisavam também de maior
quantidade de ar.
Fellmer
Lloyd limitou-se a acenar com a cabeça. Não tinha nada a dizer.
Foram
descendo com movimentos pesados. Toda vez que se apoiavam sobre os
braços para avançar meio metro, sentiam uma forte dor nas juntas.
Suas
forças mal davam para encostar os pés à rocha lisa e empurrar o
corpo. As pernas arrastavam-se no chão. Quando os homens haviam
vencido metade da distância, descobriram que, nos joelhos, a
espessura de seus trajes espaciais diminuía perigosamente.
Foram
rastejando com mais cuidado. Vez por outra, um deles olhava para
trás, a fim de verificar se os druufs já haviam aparecido junto à
entrada do subterrâneo. Mas tudo continuava em silêncio. Ao que
parecia, os perseguidores tinham perdido sua pista.
Depois que
tinham percorrido três quartos dos oitocentos metros que os
separavam do lago, chegou a vez de Reginald Bell levantar a cabeça e
verificar se os druufs já haviam aparecido. Ao fazê-lo, gemia
ininterruptamente. De repente viu que desta vez o esforço valera a
pena. Enfim, conseguiu enxergar para além do monólito que até
então lhes tolhera a visão. E viu duas coisas ao mesmo tempo.
Avistou um
grande contingente de robôs sair de trás da rocha escarpada, onde
ficava o recinto subterrâneo. E, mais à direita, viu os contornos
achatados e esguios de uma nave terrana de reconhecimento do tipo
gazela.
Soltou um
grito de surpresa e continuou com a cabeça levantada, embora isso
lhe custasse um tremendo esforço.
6
Quando Ras
Tschubai não voltou, Conrad Deringhouse compreendeu que alguma coisa
devia ter acontecido. Ras Tschubai não seria capaz de desobedecer a
uma ordem. Se não voltava, isso acontecia porque estava sendo
impedido pela força.
Deringhouse
ficou nervoso, e por isso cometeu o erro decisivo, que por pouco não
condena ao fracasso toda a missão. Pediu a Gucky que verificasse o
que estava acontecendo com o africano. O rato-castor descobrira por
via telepática em que ponto Ras Tschubai se concentrara antes do
salto.
Não teve
qualquer dificuldade em rememorar os pensamentos de Ras Tschubai.
Achou que não seria nada demais saltar atrás do africano e
verificar o que lhe havia acontecido. Suas capacidades teleportadoras
eram mais intensas e desenvolvidas que as de Tschubai. Não teve que
fazer outra coisa senão fechar os olhos por alguns segundos,
repensar os pensamentos de Ras Tschubai e... saltar.
Saltou
para a desgraça...
A pancada
violenta, causada pela gravitação elevada, por pouco não o deixa
inconsciente. Era bem verdade que já se acostumara à gravitação
da Terra, que para ele era muito elevada. Mas nem por isso deixava de
ser uma criatura vinda do planeta Vagabundo, onde a gravitação era
de 0,53 G. Caiu estendido no chão duro e, no mesmo instante,
“sentiu”
os pensamentos de um ser muito estranho.
Perplexo,
abriu os olhos e viu um par de botas pertencente, sem dúvida, a um
traje espacial terrano.
Era Ras
Tschubai! Ao que parecia, estava inconsciente.
Gucky não
teve tempo para refletir sobre a sorte de Tschubai. Sentiu-se
atingido por um golpe violento, vindo de trás, e por um impulso
mental que representava triunfo, vindo da criatura estranha, e caiu
nas trevas da inconsciência.
Ao notar
que Gucky também não voltava, Deringhouse deu-se conta do erro que
acabara de cometer. Agora dependia exclusivamente de si mesmo. Não
possuía qualquer dom parapsicológico ou paramecânico que pudesse
conferir-lhe, alguma superioridade sobre o inimigo. Se saísse da
gazela para verificar o que estava acontecendo, seria descoberto e
morto numa questão de minutos.
Refletiu
ligeiramente e concluiu que só lhe restava uma coisa: esperar. Se
Gucky e Ras Tschubai não estivessem mortos, mas inconscientes,
acabariam por recuperar os sentidos e se valeriam da teleportação
para voltar à gazela. Antes de fazer qualquer coisa, precisaria de
informações, e um dos mutantes lhe traria as mesmas.
Deringhouse
acreditava que Gucky e o africano tivessem sido descobertos pelos
druufs. Ao que parecia, já estavam preparados para a chegada da
gazela e a teleportação dos dois mutantes. Se fosse assim, dentro
de alguns minutos abririam fogo contra a gazela. Esse fato não
representava maior perigo para Deringhouse. O primeiro disparo seria
absorvido pelos campos defensivos, e antes que outro tiro atingisse o
alvo, a gazela já se teria colocado fora do alcance do fogo inimigo.
Mas, se depois os mutantes resolvessem saltar de volta ao lugar de
onde saíram, não encontrariam a nave e voltariam a cair nas mãos
do inimigo.
Mesmo que
a situação não fosse tão difícil, não seria nada fácil
permanecer inativo por horas a fio num planeta estranho e deserto,
esperando que acontecesse alguma coisa.
Mas
Deringhouse logo percebeu que não soubera calcular o tempo...
Meia hora
depois do salto de Gucky, o quadro monótono da planície
modificou-se de repente. Bandos de reluzentes e estranhos robôs dos
druufs saíram de uma fenda que Deringhouse acreditara ser natural. A
primeira idéia de Deringhouse foi a de decolar e afastar-se o mais
depressa possível.
Porém
logo viu que os robôs nem se interessavam pela gazela. O objetivo
deles era outro. Seguiram na direção em que, segundo a opinião de
Deringhouse, apenas havia alguns monólitos e um lago vermelho.
Deringhouse não percebeu o que realmente estava despertando a
atenção daqueles “monstros”
metálicos. Depois de alguns minutos de indecisão, resolveu
continuar a esperar. Na situação em que se encontrava, seria
perigoso agir ao acaso. Os robôs não deram a menor atenção à
gazela, muito embora não pudessem deixar de vê-la. Deringhouse
compreendeu o motivo. Estavam programados para perseguir um objetivo
bem definido. Concluiu que os robôs não representavam qualquer
perigo. Restava saber que curso tomariam os acontecimentos, se um dos
druufs saísse da fenda.
Essas
reflexões consumiram algum tempo. Ainda pensativo, Deringhouse
contemplou o grupo de robôs que desaparecia atrás de um monólito
para reaparecer logo depois. Continuavam a deslocar-se em direção
ao lago.
Deringhouse
levantou a cabeça e examinou os arredores. Em seu subconsciente,
alguma coisa despertara-lhe a atenção. Assim que contemplou os
outros setores da tela panorâmica, viu do que se tratava.
Alguma
coisa se aproximava, vinda do sul. Parecia uma parede marrom. De
início, Deringhouse sentiu-se estupefato. Não sabia ao certo o que
era aquilo; parecia-lhe uma coisa compacta. Tinha-se a impressão de
que um gigante estava empurrando velozmente uma enorme muralha de
barro. Só depois de algum tempo percebeu que a parte superior da
parede era formada por nuvens revoltas e a parte inferior por poeiras
turbilhonantes. A parede atingia os cumes dos monólitos. Deringhouse
ficou perplexo ao notar que alguns destes foram devorados pela parede
marrom e desapareceram por completo.
Não havia
a menor dúvida. Uma tormenta horrível aproximava-se, vinda do sul.
Deringhouse
viu a coluna de robôs desaparecer em meio à poeira. O quadro
projetado na tela panorâmica escurecia cada vez mais. Segundo os
cálculos de Deringhouse, a velocidade da tormenta devia ser de
duzentos e cinqüenta a trezentos quilômetros por hora. Receava que,
sem auxílio dos mecanismos propulsores, a gazela não pudesse
resistir à mesma. Então realizou as respectivas ligações.
De
qualquer maneira, a tormenta lhe era muito conveniente, pois reduzia
as possibilidades de ser descoberto pelos druufs. Quanto mais
demorada a tormenta, melhor para a gazela.
*
* *
Foi Tommy
quem pôs as coisas em andamento. Ficou inconsciente por algumas
horas. Nesse meio tempo, seus subordinados descobriram a fuga e
tomaram algumas providências apropriadas para recapturar os
prisioneiros. Pelo relato oferecido a Tommy, depois que este voltou a
aparecer em cena, os prisioneiros haviam fugido por um corredor
construído para que o comandante e a alta oficialidade da base
pudessem escapar, caso a caverna fosse atacada por um inimigo. Era
bem verdade que, nos últimos duzentos anos, não houvera nenhum
ataque, pelo simples motivo de que no Universo dos druufs já não
havia inimigos. No entanto, a existência do corredor continuou a ser
mantida em segredo, e os robôs foram programados de maneira a não
revelarem a qualquer pessoa o que haviam descoberto.
Conforme
já dissemos, Tommy recuperou os sentidos. Constatou que lhe haviam
tirado o traje protetor. Mas Oscar, em cima do qual estava deitado,
continuava a envergar seu traje. Tommy descobriu que Oscar estava
morto. Talvez tivesse morrido em virtude das lesões que sofrerá, ou
então fora esmagado por ele. Isso não importava.
Tommy
tirou o traje do ex-companheiro e colocou-o no próprio corpo. Não
se sentia muito bem. O lugar em que fora golpeado por aquela
criaturinha traiçoeira doía terrivelmente. Todavia, Tommy compensou
a ausência do bem-estar físico aumentando a consciência do dever
que devia cumprir. Saiu da sala em que fora derrubado, voltou a seu
gabinete e deu o alarma.
A seguir
teve uma ligeira conferência com os oficiais e foi informado sobre
os acontecimentos que se haviam desenrolado neste meio tempo. Ao que
tudo indicava, os terranos tinham escapado para a superfície e
estavam de posse de armas de choque. Por isso seria preferível que
fossem recapturados por robôs. Tommy ordenou que duas companhias de
robôs, saídas de quatro lugares diferentes, fossem no encalço dos
fugitivos. A ordem foi cumprida imediatamente.
Tommy teve
tempo para cuidar da sua ferida. Tinha certeza de que tudo acabaria
bem, e que, dentro de algumas horas, os prisioneiros estariam
guardados em lugar seguro. Mas dali a pouco, foi surpreendido pela
tempestade que naquele instante teve início bem ao sul. A tormenta
fustigava parte do planeta com suas terríveis forças naturais.
*
* *
Era
incrível. Por mais que olhassem, sempre receosos de que a miragem
fosse desaparecer, o quadro manteve-se constante. A gazela continuava
no mesmo lugar. Os robôs a ignoravam e prosseguiam correndo atrás
dos fugitivos.
Perry
Rhodan fez uma ligeira tentativa de entrar em contato com os
ocupantes da gazela por meio do rádio de capacete. A tentativa não
foi bem sucedida. O transmissor dos druufs trabalhava em faixas
desconhecidas, e não havia tempo para repetir a tentativa, até que
o operador de rádio da nave por acaso regulasse seu receptor na
freqüência adequada.
Já
conheciam a direção em que deviam locomover-se. E todos sabiam
perfeitamente o que deveriam fazer. Restava saber como poderiam
fazê-lo. Como chegar à gazela sem cair nos braços dos robôs?
Perry
Rhodan levou apenas alguns segundos para elaborar seu plano.
— Vamos
separar-nos — disse. — Com isso, os robôs ficarão confusos ao
menos por algum tempo. Vamos tentar nos aproximar da gazela. Não
pensem muito. Andem logo!
Sabiam
que, se existia alguém que soubesse fazer um bom plano, este alguém
era Perry Rhodan. Quando necessário tornava-se capaz de, num
segundo, pensar tanto quanto outras pessoas pensam num minuto. Atlan,
o arcônida, confiava plenamente na capacidade de Rhodan.
Espalharam-se
para todos os lados. Havia uma disparidade grosseira entre a
velocidade de seu deslocamento e a pressa que sentiam.
Perry
Rhodan manteve-se no caminho que seguira a partir do pavilhão
subterrâneo. Os robôs vinham da esquerda. Ainda havia uma
possibilidade de alcançar o monólito de onde poderiam ser vistos
pelos ocupantes da gazela. Mas essa possibilidade era insignificante.
Respirando
com dificuldade, Perry Rhodan foi avançando metro por metro. A cada
segundo, a distância que o separava dos robôs diminuía. Era bem
verdade que, em virtude da dimensão temporal mais lenta em que
existiam, os “monstros”
metálicos se moviam com uma estranha lerdeza. Mas a cada passo que
davam avançavam quase dois metros, e a gravidade opressora parecia
não incomodá-los nem um pouco.
Perry
Rhodan teve a impressão de que sentia o chão tremer sob os passos
das criaturas mecânicas. Parecia que novas levas vinham de outra
direção. Ficou deitado por alguns segundos e levantou a cabeça.
Realmente, em mais três lugares diferentes, viu robôs saindo de
fendas no solo ou de portas abertas na rocha. Mas ainda estavam muito
longe para provocar o ruído que ouvia.
Perplexo,
lançou os olhos para outro lado e compreendeu por que o chão
tremia. Uma gigantesca muralha marrom-acinzentada corria
vertiginosamente na direção em que se encontrava. Esperava que a
qualquer momento a tal muralha fosse engolir primeiro os robôs e
depois a ele mesmo. Mas observou melhor e viu que a mesma se
encontrava a alguns quilômetros de distância e era bem maior do que
supusera. Ultrapassava as cumeeiras das rochas mais elevadas.
Neste
momento, os robôs perceberam que os fugitivos se haviam separado. A
confusão estabeleceu-se em suas fileiras. Alguns minutos se passaram
até que chegassem a um acordo, resolvendo dividir-se em grupos.
Rhodan
aproveitou o tempo. Desenvolvendo forças sobre-humanas, avançou
rapidamente e ganhou mais alguns metros de dianteira. Mas, assim que
os robôs adotaram a nova tática, esta vantagem não demorou a ser
anulada. Perseguiram-nos a passos lentos, mas amplos.
Realmente
parecia que não haveria salvação, a não ser que a tempestade
chegasse em tempo...
Sempre que
a força da tormenta o atingia, deixava-se rolar, tangido pela fúria
dos elementos. Se não fosse assim, dentro de alguns minutos o traje
protetor se romperia, deixando-o exposto à atmosfera poeirenta e
venenosa do planeta de metano.
Em torno
dele reinava a escuridão. A força da tormenta só era comparável à
da tempestade desencadeada pelo incêndio atômico de Fera Cinzenta.
Se tivesse com seu peso normal não adiantaria segurar-se. Teria sido
levantado do chão e tangido pelo vento.
Desejara a
tempestade para que a escuridão o protegesse, permitindo que
chegasse são e salvo à gazela. Mas agora ele a maldisse, pois nem
sabia se a escuridão lhe permitiria manter o rumo que lavava à
gazela.
Não via
os robôs. Sem dúvida, as máquinas tinham olhos mais potentes que
ele, e o mundo fustigado pela tormenta não lhes pareceria tão
escuro assim. No entanto, tinham uma desvantagem. Estavam acostumados
a andar de pé, e por isso ofereceriam maior área de impacto à
tormenta. Perry Rhodan não sabia se a força do robô seria
suficiente para resistir a este cataclismo.
Não
deixou que a situação o perturbasse; continuou a avançar,
locomovendo-se sobre os joelhos.
Pelos seus
cálculos já deveria ter vencido a distância que o separava do
monólito onde ficava o recinto subterrâneo. Mas dentro de seu raio
de visão, que chegava a um metro, não notou o menor sinal de que o
chão estivesse em aclive.
Perry
Rhodan não sabia se suportaria o cansaço. O peso de seu corpo
exercia uma forte tensão sobre seus braços. Por mais de uma vez,
sentiu-se tentado a soltar-se do lugar em que se segurava e deixar
que o vento o tangesse. Por várias vezes procurou falar com os
companheiros, mas o barulho provocado pela poeira que batia contra
seu capacete não o deixava ouvir nem mesmo suas próprias palavras.
Sentiu
mais uma rajada que vinha na direção, certa e soltou-se. Foi
tangido pelo vento. Rhodan forçou a posição da cabeça, para que a
lâmina do visor de seu capacete nunca batesse no chão. Depois de
alguns segundos, a rajada diminuiu. Estava na hora de segurar-se de
novo, para que a rajada seguinte não o deslocasse na direção
errada. Estendeu os braços e procurou reduzir a velocidade com que
se deslocava, a fim de segurar-se em alguma coisa. Mas antes que
conseguisse, bateu num obstáculo sólido. Ficou tonto por alguns
segundos e não conseguiu realizar o menor movimento. Mas o
obstáculo, surgido diante dele, protegeu-o contra a fúria da
tempestade.
Olhou para
trás. Uma parede subia para a escuridão. Era a agulha de pedra. Não
errara o caminho. Ainda estava seguindo na direção certa. Se não
fosse a tempestade, bastaria caminhar mais quinhentos metros para
atingir um lugar em que os ocupantes da gazela pudessem vê-lo.
Sentiu uma
alegria furiosa. Já vencera metade do caminho. Bastaria rastejar
mais um pedaço e ficar deitado, aguardando o fim da tempestade.
Enquanto
fazia estas reflexões, alguma coisa bateu com um forte estrondo na
rocha. Abaixou-se instintivamente e sentiu uma chuva de peças
pequenas e pesadas desabar sobre o capacete e o traje protetor.
Quando viu que não iria acontecer mais nada, voltou a erguer-se e
ficou perplexo ao notar um pedaço de metal prateado todo amassado.
Não havia
dúvida de que, há alguns segundos, aquilo pertencia a um robô. A
tempestade o havia agarrado, atirando-o contra o paredão. A placa
amassada foi um dos poucos componentes do homem mecânico que
escapara à destruição.
Quem dera
que isso acontecesse com todos os robôs!
Subitamente
sentiu um cheiro causticante. Era amoníaco! Não demorou a
compreender o que significava isso. Seu traje protetor estava
vazando. Um dos estilhaços metálicos devia ter perfurado o
revestimento plástico...
E o ar
venenoso do planeta penetrava pelo buraco!
*
* *
No início,
Tommy não acreditou que a tormenta pudesse prejudicar a operação
de busca. Afinal, o serviço nunca fora afetado pelas tormentas que
neste mundo infernal costumavam desabar com um intervalo médio de
dois dias de Druufon.
Havia
recebido uma notícia que o deixara perplexo. Duas criaturas
estranhas foram surpreendidas e presas num corredor da caverna. Um
desses seres tinha o aspecto de um terrano, mas sua pele era escura
como a dos druufs. A outra criatura era indescritível. Ambos usavam
traje protetor, talhado segundo as medidas de seu corpo. Ninguém
sabia como tinham entrado na caverna. O “Mike”,
que os deixara inconscientes per meio de um disparo de arma de
choque, afirmava que materializaram-se à sua frente. Naturalmente
isso não passava de uma tolice.
Tommy
achou que seria importante dar uma olhada nos prisioneiros. Subiu na
fita transportadora, foi ao lugar no qual os dois intrusos haviam
sido recolhidos e fitou-os. Constatou que a descrição que lhe
haviam fornecido era correta. Não havia dúvida de que um dos
prisioneiros era terrano. Já o outro, segundo as concepções
estéticas dos druufs, só podia ser designado como um pesadelo.
O terrano
continuava inconsciente, mas o “pesadelo”
já recuperara os sentidos. Olhando pelo visor de seu capacete,
fitava Tommy com uma expressão inamistosa.
Tommy
estava acompanhado de vários oficiais. Muito desconfiado, andou em
torno da estranha criatura e examinou-a de todos os lados. O
prisioneiro o acompanhou com o olhar. Estava com a boca aberta e
exibia um único dente roedor.
Tommy teve
uma sensação desagradável...
E esta
sensação fez com que nem percebesse que seu peso estava diminuindo.
Só notou alguma coisa quando, sem que fizesse qualquer coisa,
levantou-se do chão e subiu ao teto. Seu instinto lhe disse que a
criatura estranha tinha algo a ver com o incidente.
Ficou
furioso e deu um pontapé no “pesadelo”.
O prisioneiro foi atingido embaixo do capacete, na altura do pescoço.
A violência do impacto foi tamanha que a pequena criatura foi
levantada e atirada contra a parede. Ao que tudo indicava, perdera os
sentidos.
No mesmo
instante, Tommy caiu ao chão. E a queda foi tão repentina que por
pouco não perde o equilíbrio. Lançou um olhar de pavor para seus
oficiais, que o fitavam e soltavam cicios de surpresa.
Na
confusão geral, ninguém percebeu que o prisioneiro terrano estava
recuperando os sentidos. Moveu cuidadosamente a cabeça, para não
chamar a atenção de ninguém, e olhou em torno. Também o
“pesadelo”,
que levara o pontapé de Tommy, voltou a abrir os olhos.
Os olhares
dos prisioneiros se encontraram. Não precisaram de palavras para
comunicar-se. Ativaram simultaneamente os setores específicos do
cérebro e, antes que Tommy e seus oficiais compreendessem o que
havia acontecido, desapareceram.
Quando
perceberam, não acreditaram no que seus olhos viam. A sala em que se
encontravam estava trancada. Os prisioneiros não poderiam ter
passado por eles sem serem notados. A única saída era a comporta,
que achava-se fechada. Mas, apesar de tudo isso, desapareceram sem
provocar o menor ruído e sem deixar qualquer vestígio.
Tommy
começou a matutar sobre se a pancada que levara poderia ter afetado
certas partes de seu cérebro. Seu pânico era tamanho que nem se deu
conta de que seus oficiais haviam observado a mesma coisa!
*
* *
O furo
ficava na altura do antebraço esquerdo. Conseguiu tapá-lo com a mão
direita, evitando que o amoníaco continuasse a penetrar no interior
do traje espacial.
Mas seria
possível rastejar com os braços nessa posição?
No
entanto, Perry Rhodan tentou.
A
tempestade ainda não amainara. Fustigava a planície numa fúria
constante e uivava ao quebrar-se nos monólitos. A poeira continuava
a bater ruidosamente no capacete de Perry Rhodan, abafando qualquer
outro ruído.
Rhodan
saiu de trás da rocha e deixou que uma rajada o arrastasse. Com toda
força, comprimiu o furo com o dedo da mão direita e procurou
avaliar a intensidade do cheiro do amoníaco, como se tal precaução
adiantasse alguma coisa. O cheiro continuava inalterado. De qualquer
maneira, porém, o amônio provocava dores no nariz e o fazia
espirrar constantemente.
Não sabia
por quanto tempo tinha sido tangido pelo vento, quando ficou preso ao
obstáculo seguinte. Tratava-se de um sulco que atravessava a
planície de lado a lado. Esta oferecia certa proteção contra a
tempestade. Rhodan não se lembrava de já ter visto essa depressão
do terreno. Tinha certeza absoluta de que não ficava na direção da
gazela.
O cheiro
de amoníaco ressecou-lhe a boca. Procurou proferir uma palavra, mas
não conseguiu.
Estava
próximo ao esgotamento total.
Sabia que,
se não acontecesse um milagre, estaria perdido. E Rhodan nunca
acreditara em milagres.
Rolou para
fora do sulco e deixou-se tanger por outra rajada de vento. Esta o
fez rolar pela rocha. Rolava sobre os ombros, com a cabeça levantada
— o capacete não podia ser danificado — e com a mão sobre o
furo do traje espacial.
Rolou por
um tempo infinitamente longo. Sentiu tonturas e o enjôo martirizava
seu estômago. As glândulas salivares deram o máximo de si. A
saliva escapava-lhe da boca e escorria pelo queixo.
Subitamente
parou. Em torno dele havia um líquido viscoso e agitado. E então
percebeu que voltara à margem do lago vermelho. Movera-se em
círculo. A tempestade tangera-o de volta ao lugar do qual partira
para atingir a gazela.
Era o fim!
*
* *
Em virtude
da rápida evolução dos acontecimentos, Deringhouse por pouco não
perdeu o controle da situação. Quando menos esperava, Gucky e Ras
Tschubai voltaram ao mesmo tempo. Ras Tschubai fez um relato
apressado, enquanto Gucky se recolhia a um canto, onde parecia
prestar atenção a alguma coisa.
Antes que
Tschubai concluísse seu relato, Gucky interrompeu-o em voz alta e
ciciante. Disse que conseguia identificar os pensamentos de quatro
terranos que se encontravam nas proximidades da gazela. Afirmou que
essas pessoas eram as que estavam desaparecidas desde a catástrofe
de Fera Cinzenta.
O
rato-castor, cuja cabeça ainda zumbia por causa do tremendo pontapé
do druuf, proferiu estas palavras com a maior tranqüilidade. Mal
concluiu sua fala, desapareceu sem que ninguém lhe tivesse dado
ordens para isso...
Quando
reapareceu, um ser de aspecto estranho agarrava-se a ele.
De início,
Deringhouse fitou o traje espacial que antes parecia uma sanfona. Só
depois de algum tempo, passou a dedicar sua atenção ao gigantesco
capacete esférico e ao visor. O rosto pertencia a Fellmer Lloyd, um
homem que na Terra era considerado morto há quinze dias.
Acontece
que estava bem vivo. Fitou Conrad Deringhouse com iam sorriso tímido,
que parecia exprimir um pedido de desculpas pelo estranho traje em
que se apresentava.
Dali em
diante, a evolução dos acontecimentos foi rapidíssima. Graças à
sua capacidade telepática, Gucky conseguiu localizar os outros
desaparecidos, apesar da escuridão e da tempestade. Três saltos de
teleportação foram suficientes para colocá-los em segurança.
O último
a chegar foi Perry Rhodan, que Gucky encontrara totalmente esgotado
nas águas viscosas do lago vermelho.
Conrad
Deringhouse agiu prontamente. Assim que o último homem desaparecido
estava a bordo, decolou com a gazela. Não tomou as precauções
usuais, motivo por que os instrumentos dos druufs localizaram
prontamente o veículo dos terranos. Deringhouse contava com esse
fato, que se enquadrava em seu plano.
Os
transmissores de matéria estavam prontos para efetuar a remessa. O
primeiro a sair da gazela foi Perry Rhodan, que no mesmo instante
rematerializou-se, ainda ligeiramente atordoado, na base de Hades.
Atlan, o arcônida, seguiu-o no momento em que o primeiro impacto
produzido pelos canhões energéticos dos druufs fez chamejar o campo
defensivo da gazela.
Conrad
Deringhouse segurou os controles até o último instante. Os druufs
já haviam calibrado a pontaria. O número das salvas que atingiam o
campo energético da nave aumentava constantemente; dentro de alguns
segundos, os geradores do campo defensivo entrariam em colapso em
virtude da sobrecarga a que estavam submetidos.
Cinco
segundos antes do momento em que a nave sofreu o impacto final,
Deringhouse abandonou-a. Enquanto Deringhouse procurava orientar-se
atrás das grades do transmissor de Hades, a gazela explodiu sob o
fogo concentrado da artilharia dos druufs, enviando à superfície do
planeta uma chuva de metais incandescentes.
*
* *
Para Perry
Rhodan, aquilo que veio depois até parecia um belo sonho. Quando
materializou-se no transmissor de Hades, ainda estava quase
inconsciente. Puseram-no sobre os ombros e carregaram-no em marcha
“triunfal”
pelo pavilhão dos transmissores. Atlan, Reginald Bell, Fellmer
Lloyd, Ras Tschubai, Gucky e Conrad Deringhouse juntaram-se ao
cortejo, assim que saíram do aparelho.
Durante
algumas horas, a gigantesca caverna de Hades deixou de ser uma base
avançada em território inimigo e transformou-se num ambiente que
transbordava de alegria.
Dois
médicos garantiram que, antes de mais nada, Rhodan precisava de
descanso. Mas Deringhouse já lhe havia fornecido um relato resumido
sobre a situação política reinante na Terra. Por isso, disse aos
médicos que era bem possível que ele, Rhodan, tivesse necessidade
de descanso, mas que a Terra tinha necessidade premente de sua
presença.
O Major
Ostal compareceu na hora combinada com a Califórnia. Um dos
transmissores do grande pavilhão subterrâneo deu o sinal verde. Em
menos de dois minutos, as sete pessoas que participaram da aventura
de Rolando foram trasladadas de Hades para bordo do cruzador. A
Califórnia estava preparada para saltar. Antes que Gucky, que veio
por último, tivesse tempo de sair do transmissor, Clyde Ostal
iniciou a transição.
Os
arcônidas já haviam percebido que uma nave desconhecida costumava
aparecer em intervalos irregulares no setor em que se encontrava a
frota de bloqueio. Ali, a tal nave permanecia por pouco tempo para
desaparecer subitamente. Algumas vezes recorreram aos cálculos de
probabilidade para prever o lugar em que surgiria a Califórnia, e,
em duas oportunidades, aproximaram-se perigosamente de Ostal.
Desta vez
erraram nos cálculos; se não fosse assim, Ostal não poderia ter
assumido o risco de permanecer durante dois minutos no mesmo lugar.
Só depois
que Gucky concluiu a “longa
viagem”
de Hades até a Califórnia, Ostal sentiu o fato.
*
* *
Dali a
algumas horas, Perry Rhodan chegou ao espaçoporto militar de
Terrânia. Sua chegada foi mantida em segredo. Somente o Marechal
Freyt e alguns dos oficiais mais importantes do estado-maior foram
informados a respeito.
O Marechal
Freyt teve de trazer-lhe uma notícia desagradável. Na manhã
daquele dia, a polícia dissolvera uma gigantesca passeata realizada
em Terrânia e dirigida pelo Tenente Cardif. Cardif fora preso.
Perry
Rhodan sentia-se exausto com os acontecimentos das últimas semanas.
Mas não deixou perceber se a notícia transmitida pelo Marechal
Freyt o comovia. Tomou conhecimento da mesma e elogiou a circunspeção
de Freyt. Pela sua reação ninguém notaria que o preso era seu
filho.
De
repente, Rhodan demonstrou muita pressa em submeter-se ao tratamento
médico. Queria reaparecer em público, mas sua disposição física
e psíquica não estava excelente...
Sabia que,
quando se mostrasse ao público, a crise política chegaria ao fim.
Refletiu sobre isso e sobressaltou-se ao perceber que o bem da Terra,
da Humanidade e do Império Solar dependia muito de sua pessoa.
Achava que isso representava um tremendo erro.
Resolveu
que no futuro isso seria modificado. Se o destino da Humanidade
dependesse da personalidade de um indivíduo, o futuro desta
Humanidade, a longo prazo, seria sombrio.
Enquanto
pensava nisso, recuperou a tranqüilidade e adormeceu.
Bem longe
da Terra, num mundo situado em outra dimensão temporal, uma comissão
de altas autoridades arquivou os planos através dos quais pretendiam
obrigar os terranos a colaborarem com sua raça.
O mais
importante dos terranos, que se encontrara em seu poder, estava
morto. O comandante de uma base espacial afastada não compreendeu a
importância dos acontecimentos e mandou derrubar o veículo espacial
no qual o terrano procurava fugir.
Assim que
esse comandante voltasse para Druufon, receberia uma reprimenda por
sua incompetência e seria rebaixado.
*
* *
A uns
seiscentos milhões de quilômetros do lugar em que as autoridades
arquivaram os planos, um certo Tommy — privado dos seus
distintivos, porque uma criatura pequena e insignificante o derrubara
com uma barra de metal e lhe tirara o traje protetor — refletia
sobre como deveria agir para reconquistar as boas graças das altas
autoridades de Druufon!
Por mais
que refletisse, não descobriu a menor falha em seu procedimento.
Concluiu que fora enganado por alguém.
*
* *
*
*
*
No
momento em que o administrador retorna à Terra, depois de seu
drástico resgate em Rolando, as agitações políticas haviam se
amainado..
Em A
Nave dos Antepassados,
título do próximo volume, Gucky torna-se um detetive galáctico.

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