sexta-feira, 19 de agosto de 2016

P-080 - Nas Cavernas dos Druufs - Kurt Mahr [Parte 3]

Reginald Bell acabou de abrir o traje. Fez uma tentativa para retirá-lo do corpo do druuf, mas o peso tremendo do “monstro” frustrou todos os esforços. Fellmer Lloyd viu o que estava acontecendo.
Gire o corpo, Sir — aconselhou. — Basta girá-lo uma vez em torno de seu eixo longitudinal para que se desenrole do traje.
Reginald Bell constatou que Lloyd estava com a razão. Naturalmente, bastava alguém segurar o traje.
Estou vendo — disse Bell em tom contrariado. — Mas como posso girar um “monstro” destes?
Eu usei um pedaço de tubo — disse Lloyd em tom solícito. — Usei-o como alavanca.
Bell levantou-se e arranjou um pedaço de tubo. Enfiou uma das extremidades sob o corpo do druuf e começou a erguer a outra. O corpo levantou-se lentamente, virou para o lado, rolou e pronto: o traje protetor estendido no chão estava vazio.
Neste meio tempo, Perry Rhodan já havia avaliado a nova situação.
Cada um de nós tem um traje — disse. — E cada um de nós tem uma arma. Portanto, conseguimos o que queríamos. Só uma coisa não correu conforme os planos: os druufs descobriram nossa fuga. Bem, isso é um fato consumado. Devemos conformar-nos com o mesmo. De qualquer maneira continuaremos a procurar o transmissor. Precisamos avisar a base de Hades. É a única maneira de sairmos daqui. Refletiu e prosseguiu: — Quer dizer que nos “enfeitaremos” com trajes protetores, tal qual Lloyd, e continuaremos a tentar a sorte. Temos de voltar pelo mesmo caminho pelo qual viemos. Uma vez que não dependemos mais das comportas, avançaremos muito mais depressa que antes. No entanto, ainda nos resta uma grande preocupação. As armas destes druufs são iguais à de Lloyd. Portanto, também devem ser armas de choque. Isso significa que não temos nada com que possamos defender-nos contra um robô. Os “monstros” não demorarão em descobrir esse dado e mandarão que seus robôs nos ataquem. Quando isso acontecer, as coisas começarão a ficar pretas.
No momento em que Rhodan concluiu, Reginald Bell já havia entrado no traje espacial. Tinha-se a impressão de que estava enrolado em cinqüenta metros quadrados de tecido plástico. Atlan livrou-o do aperto. Foi ajeitando o traje até que a cabeça de Reginald Bell aparecesse no capacete. Grande quantidade do tecido plástico estava arrastando no chão. Toda vez que Bell dava um passo, tropeçava.
Até parece que o senhor é nada menos que Sua Alteza, o Imperador — disse Atlan em tom de “reconhecimento”. — Ninguém lhe recusará o devido respeito.
Reginald Bell lançou-lhe um olhar contrariado.
A utilidade é uma coisa e a beleza é outra muito diferente — respondeu. — O senhor não perde por esperar. Quando tiver colocado este negócio, eu lhe direi com quem o senhor se parece.
Perry Rhodan riu.
Não percam tempo com piadas! — disse.
Seguiu o método ensinado por Fellmer Lloyd e libertou outro druuf de seu traje protetor. Depois o envergou. Encontraram arame e usaram-no, amarrando o que sobrava da vestimenta.
Pegaram as armas dos druufs e saíram da sala. O corredor estava vazio. O murmúrio das fitas rolantes era o único ruído.
Subiram à fita mais lenta e passaram à mais rápida, assim que se adaptaram à velocidade. Fellmer Lloyd ia na ponta. Os outros seguiam-no a uma distância de vários metros. Assim procediam, intencionando que Lloyd pudesse concentrar suas “antenas” telepáticas naquilo que se encontrava à frente. Para isso, as interferências mentais dos terranos não deviam ser muito fortes.
Avançaram cerca de cem metros e passaram pelas portas de suas celas. Desconfiavam do silêncio apavorante, que desgastava seus nervos.
O perigo estava no ar, naquele ar fedorento e venenoso, feito de metano e amoníaco, que enchia o corredor.
Subitamente Fellmer Lloyd saltou, sem qualquer aviso, da fita rápida para a mais lenta e dali para o chão. O salto foi tão inesperado que seus companheiros passaram por ele antes de saírem das fitas. Estavam com os radiotransmissores e receptores de capacete ligados. Ouviram Lloyd dizer:
Há alguma coisa pela frente!
Ninguém tinha a menor idéia do comprimento do corredor. A luz que o enchia vinha de todos os lados e não projetava nenhuma sombra, motivo por que, a partir de certa distância, os contornos se apagavam a ponto de não se reconhecer mais nada.
Esperaram. Naquela altura, dependiam de Lloyd.
Estão se aproximando — cochichou este.
Como estão as coisas nas salas próximas a nós? — perguntou Rhodan. — Estão vazias?
Lloyd fez que sim.
Não senti nada ao passar por elas. Isso queria dizer que tinham uma saída.
Bastaria que, assim que constatassem que os druufs estavam acompanhados de robôs, entrassem numa sala próxima e se mantivessem escondidos, até que os seres-toco tivessem passado. A coisa não poderia ser mais simples.
Até então, Fellmer Lloyd se mantivera confortavelmente encostado à parede. De súbito, adiantou-se um passo, virou a cabeça e olhou pelo corredor. Naturalmente não viu nada. O movimento fora puramente reflexo.
Tenho a impressão de que de repente ficaram muito nervosos — disse. — Ao que parece, descobriram algo de novo.
Referia-se aos druufs. Rhodan sabia que Fellmer Lloyd não podia identificar qualquer pensamento desses seres. Não era por causa de sua mentalidade; acontecia apenas que a estrutura do cérebro dos “monstros” era tão estranha que, nessa área, a capacidade telepática do mutante falhava. No entanto, Lloyd conseguia identificar as categorias gerais dos pensamentos, e isso lhe bastava paira saber se alguém se encontrava em estado normal ou se estava em estado de excitação.
Perry Rhodan refletiu para adivinhar o que os druufs poderiam ter descoberto. Estavam à sua frente. Logo, o motivo do nervosismo não poderia ter relação com os prisioneiros, que nunca haviam estado lá.
Acontecia que os druufs usavam trajes protetores. Os radiotransmissores de seus capacetes estavam desligados. Será que um dos indivíduos desmaiados recuperara os sentidos e transmitira algum sinal? Mas os três druufs da última das salas que ladeavam o corredor já não possuíam capacetes. Não poderiam entrar em contato com ninguém. No entanto, segundo o relato de Fellmer Lloyd, este derrubara dois druufs e tivera que deixar para trás o traje protetor de um deles. Será que este tinha dado o alarma?
Rhodan ainda estava refletindo, quando subitamente levou uma forte pancada no ombro. Ouviu alguém gritar de dor. Ele mesmo perdera o equilíbrio. Cambaleou e caiu. A ação da gravitação duplicada fez com que a queda fosse muito forte. A pontada sentida no tornozelo eliminou um pouco a dor provocada pela pancada que levara no ombro.
Subitamente compreendeu o que estava acontecendo. Durante todo o tempo, seu raciocínio seguira por uma trilha errada. Ninguém havia dado o alarma. Ninguém recuperara os sentidos e avisara os druufs. Estes haviam descoberto, talvez por acaso, os prisioneiros. Agora estavam acompanhados de robôs, e estes não dependiam da iluminação, para ver o que havia no corredor. Seus órgãos de visão eram diferentes. A amplitude de seu espectro visual correspondia ao do olho humano multiplicado por dez elevado a algumas potências. Enxergavam no escuro. Além disso, o componente ultravioleta da luz projetada pelas lâmpadas correspondia a uma bateria de holofotes. Os robôs haviam avistado os fugitivos. A pancada que Perry Rhodan sentira no ombro não era outra coisa senão o impacto de uma arma de choque, disparada apressadamente, quando a distância ainda era muito grande.
Para trás! — gritou Rhodan. — Eles nos vêem!
Olhou para trás e viu Reginald deitado no chão, contorcendo-se de dores. Fora atingido pela maior parte da energia liberada pela arma de choque. A distância que o separava do atirador era muito grande para que o disparo pudesse produzir um desarranjo total do sistema nervoso; mas era suficientemente pequena para que a dor produzida pelo impacto se manifestasse em toda plenitude.
Ajudado por Atlan, Perry Rhodan colocou o amigo sobre as pernas. Bell gemia e rangia os dentes. Fellmer Lloyd estava pronto para saltar sobre a fita transportadora, que o levaria a lugar seguro. Seria inútil lutar contra inimigos invisíveis. Só encontrariam segurança num lugar em que as armas inimigas não pudessem atingi-los, isto é, nos fundos do corredor.
Empurraram Reginald Bell para cima da fita. Não teve forças para manter-se de pé. Caiu, mas ficou deitado na fita que o carregou. Fellmer Lloyd, Atlan e Perry Rhodan encontravam-se um pouco atrás dele. Deitaram, para que os robôs dos druufs não tivessem um alvo fácil. Não foram atingidos mais. O inimigo deixara de disparar, ou então os disparos passavam por cima deles.
Perry Rhodan concluiu que o rumo que estavam tomando os acontecimentos podia ser tudo, menos agradável. Seria inútil esconder-se em qualquer sala, uma vez que os robôs os haviam reconhecido. Os druufs revistariam todas as salas pelas quais passassem, por menores que fossem. Só lhes restava o caminho pelo corredor. Mas, lá atrás, a uma distância inferior a cem metros do lugar em que se encontravam, o corredor terminava numa parede rochosa. Era o ponto final. Não teriam outra alternativa senão tomar posição naquele lugar e esperar até que os druufs se aproximassem o suficiente, e assim pudessem pô-los fora de ação com suas armas de choque.
Estes ao menos não estavam interessados em matar os prisioneiros. Era o único consolo.
Enquanto Perry Rhodan refletia intensamente, o quadro da fita rolante que passava por baixo da parede surgiu em sua mente. Lembrou-se da explicação que deram ao fato. Os druufs não queriam que o mecanismo de retorno da fita ficasse no corredor, onde perturbaria o trânsito. De repente, deu-se conta de que esse raciocínio era bastante superficial!
O fato de a fita rolante desaparecer embaixo da parede obrigava qualquer pessoa, que de lá quisesse voltar, a dar alguns passos bem difíceis!
Havia algum motivo para esse tipo de construção! E esse motivo era patente. A parede não passava de uma porta muito bem camuflada. E atrás da parede não havia nenhum mecanismo de retorno. A fita continuava a correr, desta vez por um corredor secreto.
Isso representava novas esperanças para os fugitivos. Se conseguissem descobrir o mecanismo que afastava a parede teriam outra chance.
Restava saber se conseguiriam descobri-lo com a necessária rapidez.
Reginald Bell já se sentia melhor.

* * *

No setor espacial em que se encontravam, parecia haver mais naves que estrelas. Os instrumentos de localização da gazela funcionavam ininterruptamente para determinar a localização de veículos espaciais desconhecidos e transmitir os resultados ao observador.
Conrad Deringhouse, que pilotava a gazela, acelerara ao máximo a partir da decolagem. Dentro de poucos minutos, a gazela atingiu a velocidade de 180 mil quilômetros por segundo. Dessa forma, ultrapassara a velocidade-limite do Universo dos druufs, ou seja, a da luz. Com isso, a nave deixara de existir para os seres-toco. Por outro lado, a velocidade de 180 mil km/seg não abalava sensivelmente as matérias, mesmo num setor em que a concentração de matéria é relativamente elevada, como, por exemplo, um sistema planetário. Por isso a gazela estaria em segurança até o momento em que atingisse as áreas adjacentes do planeta de metano.
Durante a hora que antecedeu a decolagem, dois transmissores foram montados a bordo do veículo. Além disso, Deringhouse ordenara que dois outros transmissores, instalados em Hades, se mantivessem constantemente preparados para o recebimento de remessas, enquanto a gazela não tivesse retornado à base. Deviam contar com a possibilidade de os druufs descobrirem o veículo terrano durante a ação a ser desenvolvida em Rolando. Nesse caso, teriam de verificar se, diante de um ataque, ainda havia chances para uma fuga rápida, ou se seria preferível que os ocupantes da gazela se pusessem a salvo por meio do transmissor.
Não receberam mais nenhuma mensagem de Ernst Ellert. Então concluíram que não houvera qualquer modificação importante na situação reinante em Rolando.
Depois de duas horas de vôo, a gazela se aproximara a trinta e cinco milhões de quilômetros do destino. Conrad Deringhouse iniciou a manobra de frenagem, e a realizou pela forma que lhe parecia mais razoável na situação em que se encontravam. Utilizou na frenagem toda a força dos mecanismos propulsores. Depois de alguns minutos, a distância que separava a nave de Rolando ficou reduzida a algumas centenas de milhares de quilômetros, e a velocidade desceu o suficiente para que a gazela entrasse numa órbita estável.
Não era que Conrad Deringhouse pretendesse contornar Rolando. Não havia dúvida de que, se ele fizesse essa manobra, seria descoberto pelos druufs. A gazela percorreu um pequeno trecho de sua órbita, a fim de se orientar sobre as indicações fornecidas por Ernst Ellert. Depois mergulhou na densa atmosfera de metano e amoníaco. Antes disso, a velocidade foi reduzida ainda mais. Devia-se evitar que o impacto do campo defensivo da gazela provocasse a ionização das moléculas de ar, com o que surgiria certa luminosidade. Em atmosferas densas, esse fenômeno tornava-se muito intenso e podia ser visto a grande distância.
Os homens que se encontravam a bordo da gazela — ou melhor, os dois homens e o rato-castor — não dispensaram, a menor atenção à configuração estranha da superfície do planeta ou à mescla surrealista das cores. Sabiam perfeitamente o que estava em jogo. Por estranho que pudesse parecer, até Gucky deu-se conta da gravidade da situação.
Sem Perry Rhodan, a Terra, a Humanidade e o Império Solar estariam condenados ao desaparecimento. Por alguns dias Perry foi considerado morto. E esses poucos dias foram suficientes para mergulhar a Terra na discórdia e na confusão. Nesse estado de coisas, algumas semanas bastariam para deixá-la à mercê do Império Arcônida.
Acontece que Perry Rhodan estava vivo; era ao menos o que acreditava Conrad Deringhouse. E o melhor serviço que alguém poderia prestar à Humanidade seria encontrá-lo, libertá-lo e levá-lo de volta à Terra.
Deringhouse fez a gazela baixar a menos de cem metros da superfície e, vindo do leste, aproximou-se da base subterrânea.
Deringhouse não tinha a intenção de pousar bem à frente da entrada das instalações subterrâneas. Achou que a melhor idéia seria esconder a gazela em algum lugar e pedir a Ras Tschubai, o teleportador, que fosse à frente e fizesse um reconhecimento da base subterrânea. Gucky ficaria encarregado de estabelecer contato telepático com o mutante Fellmer Lloyd, sempre com base na suposição de que os quatro prisioneiros dos druufs realmente fossem os homens que tinham ficado no planeta moribundo, chamado Fera Cinzenta.
Se as indicações fornecidas por Ernst Ellert fossem corretas, a entrada da base ficava numa imensa planície rochosa, entremeada de monólitos rochosos pontudos. Nas proximidades do ponto em que, segundo acreditava Deringhouse, ficava o lugar procurado, havia um pequeno lago cuja água brilhava num vermelho Intenso. Era bem verdade que Ellert não mencionara esse lago. Deringhouse teve suas dúvidas sobre se as indicações fornecidas por Ellert se revestiam da necessária precisão.
A gazela aproximou-se do lago vermelho, deslocando-se pouco acima da planície rochosa e realizando hábeis manobras de última hora, para desviar-se dos monólitos. Deringhouse reduziu a altura para cinco metros. Tinha certeza quase absoluta de que nenhum dos instrumentos usuais de observação conseguiria localizá-lo tão próximo à superfície.
Deringhouse parou a nave à uns dez quilômetros da entrada. Colocou-a na sombra de uma das agulhas de rocha e deixou que descesse à superfície. Colocou o mecanismo de propulsão em ponto morto. Era bem possível que, nas próximas horas, tivesse de recorrer a eles com grande urgência.
Agora que chegara ao destino, ou melhor, a um lugar próximo ao mesmo, não teve de prestar atenção a outra coisa senão a eventuais vestígios da presença dos druufs. Então o panorama estranho daquele mundo de metano começou a agir sobre sua mente. Examinaram atentamente a tela panorâmica e, aos poucos, foram perdendo a noção do tempo. A tensão foi substituída por uma atitude de contemplação.
Conrad Deringhouse sentiu o perigoso cansaço que se espalhava pelo corpo. Assustado e perplexo desprendeu os olhos da tela de imagem e olhou para Ras Tschubai.
Ei, Ras! — exclamou. — Não durma!
O africano sobressaltou-se.
Deringhouse viu que o mutante sentira a mesma coisa que ele. Não havia dúvida de que o quadro da planície rochosa colorida produzia um efeito soporífero e hipnótico. Será que esse efeito era natural? Será que da composição das cores e das formas resultava esse efeito sobre o homem? Ou teriam os druufs instalado uma arma hipnótica e tranqüilamente punham seus amigos a dormir?
Vá andando, Ras! — ordenou Deringhouse. — Salte ao acaso. O senhor sabe que nada lhe acontecerá se for parar num lugar em que haja matéria sólida ou líquida. Dirija sua atenção obliquamente para baixo. Se por acaso for parar num corredor ou outro recinto subterrâneo, procure lembrar-se do lugar e volte para relatar suas observações. Entendido?
Ras Tschubai fez um gesto afirmativo. Levantou-se da poltrona estofada, deu alguns passos para o lado e fechou os olhos. Não se percebia a dificuldade que enfrentava ao preparar o salto de teleportação para um lugar que lhe em totalmente desconhecido.
Deringhouse observou o teleportador. Viu que os contornos de seu corpo começaram a desmanchar-se. Antes que tivessem tempo de desaparecer de vez, voltaram a adensar-se, fazendo ressurgir a figura em sua nitidez habitual. De repente, pingos de suor surgiram na testa de Tschubai, que abriu os olhos.
Nada — disse com a voz cansada. — Parece que fui parar no meio da rocha. Mas devia haver um espaço oco por perto. Eu senti.
Deringhouse acenou com a cabeça.
Muito bem. Tente de novo.
Tschubai descansou um pouco; depois fez a segunda tentativa. Fechou os olhos e procurou enxergar na escuridão, que reinava atrás de suas pálpebras, o lugar ao qual queria chegar. Naturalmente o quadro era totalmente fantasioso, já que não o conhecia. Mas até mesmo o quadro imaginário seria capaz de ativar no momento adequado o lugar do cérebro, que sofrera o processo de mutação, e provocar a teleportação.
E Ras Tschubai saltou.
Depois, a primeira coisa sentida por Ras foi a impressão de que um peso de mais de cem quilos comprimia seu corpo. Para colocar-se de pé, teve de vencer esse peso. O esforço foi tremendo. Logo percebeu que aquilo não passava da elevada gravitação reinante em Rolando, e dispôs-se a ligar o gerador antigravitacional de seu traje protetor. Levou cinco segundos para recuperar-se do choque gravitacional, perceber que se encontrava num corredor subterrâneo, dotado de fitas transportadoras, e estender a mão que deveria ativar a chave do gerador antigravitacional.
Mas algo aconteceu...
Ras Tschubai levou uma pancada violenta nas costas. Girou o corpo e sentiu-se dominado por uma dor cruciante. Caiu e perdeu os sentidos. A última coisa avistada foi o vulto medonho de um druuf, que se encontrava num ponto mais afastado.

* * *

Estão a menos de cinqüenta metros — disse Lloyd. — É possível que os robôs já tenham chegado mais perto.
Ao que parecia, nem mesmo a dianteira, resultante da dimensão temporal mais lenta dos druufs, seria suficiente para que descobrissem o mecanismo que movia a parede de rocha. Haviam apalpado de cima para baixo e da esquerda para a direita muitas vezes. Comprimiram as luvas de plástico em tudo quanto era lugar, mas a rocha continuava imóvel.
Cinqüenta metros eram pouco mais que a distância a qual se poderia fazer um disparo seguro com a arma de choque. Perry Rhodan encurvou o corpo e entesou os músculos, tentando preparar-se para o golpe que receberia logo ou dentro de alguns segundos.
Pelo rádio de capacete ouviu a respiração pesada do mutante. Para observar ininterruptamente os estranhos modelos de vibrações cerebrais dos druufs, Fellmer Lloyd teve de fazer um esforço tremendo.
Faltam quarenta metros! — exclamou. — Meu Deus, daqui a pouco começarão a atirar. Os robôs já devem estar bem perto.
Ainda não se via nada. A luminosidade uniforme fez com que as partes mais afastadas do corredor se transformassem numa mancha luminosa, que fazia desaparecer todos os contornos. Vez por outra, surgia um lampejo em meio à luminosidade. Eram os reflexos produzidos pelos corpos metálicos dos robôs.
Seis mãos tateavam ininterruptamente a pedra, enquanto Fellmer Lloyd se mantinha em ponto mais afastado, prestando atenção aos druufs. Seis mãos vagavam desordenadamente de um lugar para outro, procurando descobrir o local secreto do mecanismo que abria a parede. De repente, duas das seis mãos caíram sem ânimo. Alguém praguejou em voz rouca e deu um pontapé na parede.
E a porta abriu-se!
Subitamente viram outro corredor à sua frente. Ainda na porta, o corredor descrevia uma ligeira curva e começava a subir. Prosseguia em aclive. Era evidente que, em algum lugar, devia levar à superfície do planeta.
Perry Rhodan hesitou. O plano não fora este. Queriam encontrar um transmissor para falar com Hades. E seria um absurdo rematado acreditar que os druufs tivessem construído o transmissor na superfície.
Mas não havia outra alternativa. Teriam de subir pelo corredor. A qualquer momento, os seres-toco ou seus robôs poderiam abrir fogo. Se Reginald Bell, que já fora atingido uma vez, sofresse mais um impacto, não conseguiria manter-se sobre as pernas.
Vamos andando! — ordenou Perry Rhodan.
Nessas palavras soava uma raiva e uma resolução que outra pessoa não conseguiria exprimir numa frase.
Subiram à fita e penetraram no segundo trecho do corredor. Bell ia na frente. Fellmer Lloyd se encontrava na retaguarda. Mal passou pela porta de rocha, esta voltou a mover-se e se fechou sem que nenhum dos fugitivos tivesse feito qualquer coisa para que isso acontecesse.
No corredor reinava a mesma gravidade que se fazia sentir mais atrás, ou seja, a gravitação de Druufon, que correspondia a 1,95 vezes o normal. A iluminação era idêntica à dos demais corredores pelos quais haviam passado. O alcance da vista não chegava a mais de vinte ou trinta metros.
Perry Rhodan refletiu intensamente. Chegou à conclusão de que o desenrolar dos acontecimentos era inquietante. Bastaria que os druufs voltassem a abrir a parede de rocha, para prosseguirem na perseguição. Teriam de apertar o passo, e, quanto mais rápido andassem, mais depressa chegariam ao fim do corredor e à saída que levava à superfície. Acontece que lá fora a gravitação correspondia a 2,6 vezes o normal, com o que estariam ainda mais indefesos diante dos druufs.
Será que valia a pena? Não seria preferível ficarem parados e esperarem até que os inimigos se aproximassem?
Mas num canto recôndito da mente, ainda havia uma esperança: a porta pela qual entraram no corredor estava camuflada.
Por quê? A quem deveria ficar oculta a existência do corredor?
Com toda certeza, os druufs nunca contaram com a presença de visitantes de fora. Portanto, a existência do corredor deveria permanecer em segredo para os membros de graduação inferior da guarnição da base.
Só os druufs qualificados saberiam dizer qual era a finalidade do mesmo. Restava saber se os seres que os perseguiam sabiam da existência do corredor. Em caso negativo, ainda haveria uma esperança. Os perseguidores atingiriam a parede de rocha e não encontrariam os fugitivos. Isso os deixaria surpresos, e começariam a procurar nas salas mais próximas. Não poderiam ter visto a parede abrir-se...
O único fator de insegurança eram os robôs. Estes não poderiam ter deixado de ver com seus superolhos que os seres estranhos haviam fugido pela porta oculta. Restava saber se seu programa lhes permitiria revelar a existência da porta secreta aos druufs que os acompanhavam.
Quando o corredor e as fitas rolantes descreveram uma curva suave, Perry Rhodan interrompeu suas reflexões. O corredor tornou-se ainda mais difícil de ser abrangido com a vista do que já o era, em virtude da luminosidade uniforme. Se no fim da fita rolante alguns druufs os estivessem esperando, eles só os enxergariam depois que, praticamente, se tivessem jogado em seus braços.
O corredor terminava num recinto bem amplo, escavado na rocha. As fitas desapareceram numa fenda do chão e descarregaram seus passageiros. Do lado oposto ao lado em que a fita desembocava no corredor, parecia haver uma espécie de passagem. Numa rápida decisão, Perry Rhodan caminhou em direção à mesma, colocou a mão no lugar em que os druufs costumavam esconder os mecanismos de abertura e aguardou em atitude tensa.
As duas partes da porta começaram a mover-se com um rangido. Ao que parecia, fazia alguns anos que essa passagem não era utilizada. A porta abriu-se de vez com um estalido perfeitamente perceptível, oferecendo uma superfície ampla de chão rochoso em aclive. As rochas eram inundadas pela luz de um sol vermelho e de um sol verde.
Perry Rhodan saiu. No mesmo instante, a tremenda gravitação desceu sobre ele, com a força de um martelete mecânico. Caiu de joelhos, foi se estirando e deitou. Esperou que os outros o alcançassem e disse:
Daqui em diante, será preferível andarmos de quatro. Será mais fácil.
Olhou para trás, tentando decifrar em que lugar haviam saído. A porta do recinto de pedra já se fechara atrás deles. Adaptava-se perfeitamente ao paredão de um monólito vertical. Este subia a uma altura estonteante, ocultando o cume em meio a um grupo de pequenas nuvens marrom-avermelhadas.
Ao que parecia os druufs tinham uma predileção toda especial pelos paredões dos monólitos, quando queriam ocultar as entradas de sua base subterrânea. O lugar em que haviam saldo não era aquele pelo qual haviam penetrado, após a chegada da nave dos druufs.
Rhodan voltou a olhar para frente. Lançou os olhos pela superfície rochosa, que descia lentamente, e, bem embaixo, viu uma estreita faixa vermelha. A faixa cintilava como se estivesse em constante movimento. Lembrou-se do lago vermelho, observado no momento em que saíram da nave dos druufs. O que agora estava vendo era um trecho da superfície desse lago. Ficava a oitocentos metros. Isso era mais um ponto de referência.
Não viu a nave dos druufs. Provavelmente só viera para desembarcar os prisioneiros e partira logo depois. Isso o tranqüilizou, pois se a nave continuasse no mesmo lugar, as pessoas que se encontravam no interior da mesma já os teriam descoberto.
Perry Rhodan procurou elaborar um plano. Era uma tarefa difícil, pois, praticamente, não dispunham de qualquer dado que lhe permitisse saber qual seria o procedimento mais adequado. Uma coisa era certa. Teriam de afastar-se, o quanto antes, da entrada do subterrâneo. Os druufs poderiam aparecer a qualquer momento.
Teriam de ir ao lago. Poderiam abrigar-se nas margens. Uma vez lá, poderiam observar continuamente a entrada do subterrâneo, até que lhes acudisse uma idéia. Isso, naturalmente, se os druufs tivessem perdido a pista dos fugitivos.
Explicou o plano aos companheiros.
O que podemos fazer no momento não é muito — disse. — Mas é bem possível que um de vocês tenha uma idéia melhor.
Atlan respondeu em tom irônico:
Na situação em que nos encontramos, devemos dar-nos por satisfeitos por termos ao menos uma idéia, administrador. Você tem razão. Vamos rastejar até o lago e esperar até que aconteça alguma coisa.
Reginald Bell concordou.
Vamos logo. O que estamos esperando? Digam-me uma coisa: alguém pode dizer quanto tempo durará o suprimento de oxigênio dos tanques?
Ninguém sabia. Não conseguiam ler as indicações dos instrumentos que marcavam o volume da reserva de ar respirável.
Mas ainda lhes restava uma esperança...
Talvez essas reservas ainda dessem para algumas horas, já que os druufs, que tinham pulmões maiores que eles, precisavam também de maior quantidade de ar.
Fellmer Lloyd limitou-se a acenar com a cabeça. Não tinha nada a dizer.
Foram descendo com movimentos pesados. Toda vez que se apoiavam sobre os braços para avançar meio metro, sentiam uma forte dor nas juntas.
Suas forças mal davam para encostar os pés à rocha lisa e empurrar o corpo. As pernas arrastavam-se no chão. Quando os homens haviam vencido metade da distância, descobriram que, nos joelhos, a espessura de seus trajes espaciais diminuía perigosamente.
Foram rastejando com mais cuidado. Vez por outra, um deles olhava para trás, a fim de verificar se os druufs já haviam aparecido junto à entrada do subterrâneo. Mas tudo continuava em silêncio. Ao que parecia, os perseguidores tinham perdido sua pista.
Depois que tinham percorrido três quartos dos oitocentos metros que os separavam do lago, chegou a vez de Reginald Bell levantar a cabeça e verificar se os druufs já haviam aparecido. Ao fazê-lo, gemia ininterruptamente. De repente viu que desta vez o esforço valera a pena. Enfim, conseguiu enxergar para além do monólito que até então lhes tolhera a visão. E viu duas coisas ao mesmo tempo.
Avistou um grande contingente de robôs sair de trás da rocha escarpada, onde ficava o recinto subterrâneo. E, mais à direita, viu os contornos achatados e esguios de uma nave terrana de reconhecimento do tipo gazela.
Soltou um grito de surpresa e continuou com a cabeça levantada, embora isso lhe custasse um tremendo esforço.
6



Quando Ras Tschubai não voltou, Conrad Deringhouse compreendeu que alguma coisa devia ter acontecido. Ras Tschubai não seria capaz de desobedecer a uma ordem. Se não voltava, isso acontecia porque estava sendo impedido pela força.
Deringhouse ficou nervoso, e por isso cometeu o erro decisivo, que por pouco não condena ao fracasso toda a missão. Pediu a Gucky que verificasse o que estava acontecendo com o africano. O rato-castor descobrira por via telepática em que ponto Ras Tschubai se concentrara antes do salto.
Não teve qualquer dificuldade em rememorar os pensamentos de Ras Tschubai. Achou que não seria nada demais saltar atrás do africano e verificar o que lhe havia acontecido. Suas capacidades teleportadoras eram mais intensas e desenvolvidas que as de Tschubai. Não teve que fazer outra coisa senão fechar os olhos por alguns segundos, repensar os pensamentos de Ras Tschubai e... saltar.
Saltou para a desgraça...
A pancada violenta, causada pela gravitação elevada, por pouco não o deixa inconsciente. Era bem verdade que já se acostumara à gravitação da Terra, que para ele era muito elevada. Mas nem por isso deixava de ser uma criatura vinda do planeta Vagabundo, onde a gravitação era de 0,53 G. Caiu estendido no chão duro e, no mesmo instante, “sentiu” os pensamentos de um ser muito estranho.
Perplexo, abriu os olhos e viu um par de botas pertencente, sem dúvida, a um traje espacial terrano.
Era Ras Tschubai! Ao que parecia, estava inconsciente.
Gucky não teve tempo para refletir sobre a sorte de Tschubai. Sentiu-se atingido por um golpe violento, vindo de trás, e por um impulso mental que representava triunfo, vindo da criatura estranha, e caiu nas trevas da inconsciência.
Ao notar que Gucky também não voltava, Deringhouse deu-se conta do erro que acabara de cometer. Agora dependia exclusivamente de si mesmo. Não possuía qualquer dom parapsicológico ou paramecânico que pudesse conferir-lhe, alguma superioridade sobre o inimigo. Se saísse da gazela para verificar o que estava acontecendo, seria descoberto e morto numa questão de minutos.
Refletiu ligeiramente e concluiu que só lhe restava uma coisa: esperar. Se Gucky e Ras Tschubai não estivessem mortos, mas inconscientes, acabariam por recuperar os sentidos e se valeriam da teleportação para voltar à gazela. Antes de fazer qualquer coisa, precisaria de informações, e um dos mutantes lhe traria as mesmas.
Deringhouse acreditava que Gucky e o africano tivessem sido descobertos pelos druufs. Ao que parecia, já estavam preparados para a chegada da gazela e a teleportação dos dois mutantes. Se fosse assim, dentro de alguns minutos abririam fogo contra a gazela. Esse fato não representava maior perigo para Deringhouse. O primeiro disparo seria absorvido pelos campos defensivos, e antes que outro tiro atingisse o alvo, a gazela já se teria colocado fora do alcance do fogo inimigo. Mas, se depois os mutantes resolvessem saltar de volta ao lugar de onde saíram, não encontrariam a nave e voltariam a cair nas mãos do inimigo.
Mesmo que a situação não fosse tão difícil, não seria nada fácil permanecer inativo por horas a fio num planeta estranho e deserto, esperando que acontecesse alguma coisa.
Mas Deringhouse logo percebeu que não soubera calcular o tempo...
Meia hora depois do salto de Gucky, o quadro monótono da planície modificou-se de repente. Bandos de reluzentes e estranhos robôs dos druufs saíram de uma fenda que Deringhouse acreditara ser natural. A primeira idéia de Deringhouse foi a de decolar e afastar-se o mais depressa possível.
Porém logo viu que os robôs nem se interessavam pela gazela. O objetivo deles era outro. Seguiram na direção em que, segundo a opinião de Deringhouse, apenas havia alguns monólitos e um lago vermelho. Deringhouse não percebeu o que realmente estava despertando a atenção daqueles “monstros” metálicos. Depois de alguns minutos de indecisão, resolveu continuar a esperar. Na situação em que se encontrava, seria perigoso agir ao acaso. Os robôs não deram a menor atenção à gazela, muito embora não pudessem deixar de vê-la. Deringhouse compreendeu o motivo. Estavam programados para perseguir um objetivo bem definido. Concluiu que os robôs não representavam qualquer perigo. Restava saber que curso tomariam os acontecimentos, se um dos druufs saísse da fenda.
Essas reflexões consumiram algum tempo. Ainda pensativo, Deringhouse contemplou o grupo de robôs que desaparecia atrás de um monólito para reaparecer logo depois. Continuavam a deslocar-se em direção ao lago.
Deringhouse levantou a cabeça e examinou os arredores. Em seu subconsciente, alguma coisa despertara-lhe a atenção. Assim que contemplou os outros setores da tela panorâmica, viu do que se tratava.
Alguma coisa se aproximava, vinda do sul. Parecia uma parede marrom. De início, Deringhouse sentiu-se estupefato. Não sabia ao certo o que era aquilo; parecia-lhe uma coisa compacta. Tinha-se a impressão de que um gigante estava empurrando velozmente uma enorme muralha de barro. Só depois de algum tempo percebeu que a parte superior da parede era formada por nuvens revoltas e a parte inferior por poeiras turbilhonantes. A parede atingia os cumes dos monólitos. Deringhouse ficou perplexo ao notar que alguns destes foram devorados pela parede marrom e desapareceram por completo.
Não havia a menor dúvida. Uma tormenta horrível aproximava-se, vinda do sul.
Deringhouse viu a coluna de robôs desaparecer em meio à poeira. O quadro projetado na tela panorâmica escurecia cada vez mais. Segundo os cálculos de Deringhouse, a velocidade da tormenta devia ser de duzentos e cinqüenta a trezentos quilômetros por hora. Receava que, sem auxílio dos mecanismos propulsores, a gazela não pudesse resistir à mesma. Então realizou as respectivas ligações.
De qualquer maneira, a tormenta lhe era muito conveniente, pois reduzia as possibilidades de ser descoberto pelos druufs. Quanto mais demorada a tormenta, melhor para a gazela.

* * *

Foi Tommy quem pôs as coisas em andamento. Ficou inconsciente por algumas horas. Nesse meio tempo, seus subordinados descobriram a fuga e tomaram algumas providências apropriadas para recapturar os prisioneiros. Pelo relato oferecido a Tommy, depois que este voltou a aparecer em cena, os prisioneiros haviam fugido por um corredor construído para que o comandante e a alta oficialidade da base pudessem escapar, caso a caverna fosse atacada por um inimigo. Era bem verdade que, nos últimos duzentos anos, não houvera nenhum ataque, pelo simples motivo de que no Universo dos druufs já não havia inimigos. No entanto, a existência do corredor continuou a ser mantida em segredo, e os robôs foram programados de maneira a não revelarem a qualquer pessoa o que haviam descoberto.
Conforme já dissemos, Tommy recuperou os sentidos. Constatou que lhe haviam tirado o traje protetor. Mas Oscar, em cima do qual estava deitado, continuava a envergar seu traje. Tommy descobriu que Oscar estava morto. Talvez tivesse morrido em virtude das lesões que sofrerá, ou então fora esmagado por ele. Isso não importava.
Tommy tirou o traje do ex-companheiro e colocou-o no próprio corpo. Não se sentia muito bem. O lugar em que fora golpeado por aquela criaturinha traiçoeira doía terrivelmente. Todavia, Tommy compensou a ausência do bem-estar físico aumentando a consciência do dever que devia cumprir. Saiu da sala em que fora derrubado, voltou a seu gabinete e deu o alarma.
A seguir teve uma ligeira conferência com os oficiais e foi informado sobre os acontecimentos que se haviam desenrolado neste meio tempo. Ao que tudo indicava, os terranos tinham escapado para a superfície e estavam de posse de armas de choque. Por isso seria preferível que fossem recapturados por robôs. Tommy ordenou que duas companhias de robôs, saídas de quatro lugares diferentes, fossem no encalço dos fugitivos. A ordem foi cumprida imediatamente.
Tommy teve tempo para cuidar da sua ferida. Tinha certeza de que tudo acabaria bem, e que, dentro de algumas horas, os prisioneiros estariam guardados em lugar seguro. Mas dali a pouco, foi surpreendido pela tempestade que naquele instante teve início bem ao sul. A tormenta fustigava parte do planeta com suas terríveis forças naturais.

* * *

Era incrível. Por mais que olhassem, sempre receosos de que a miragem fosse desaparecer, o quadro manteve-se constante. A gazela continuava no mesmo lugar. Os robôs a ignoravam e prosseguiam correndo atrás dos fugitivos.
Perry Rhodan fez uma ligeira tentativa de entrar em contato com os ocupantes da gazela por meio do rádio de capacete. A tentativa não foi bem sucedida. O transmissor dos druufs trabalhava em faixas desconhecidas, e não havia tempo para repetir a tentativa, até que o operador de rádio da nave por acaso regulasse seu receptor na freqüência adequada.
Já conheciam a direção em que deviam locomover-se. E todos sabiam perfeitamente o que deveriam fazer. Restava saber como poderiam fazê-lo. Como chegar à gazela sem cair nos braços dos robôs?
Perry Rhodan levou apenas alguns segundos para elaborar seu plano.
Vamos separar-nos — disse. — Com isso, os robôs ficarão confusos ao menos por algum tempo. Vamos tentar nos aproximar da gazela. Não pensem muito. Andem logo!
Sabiam que, se existia alguém que soubesse fazer um bom plano, este alguém era Perry Rhodan. Quando necessário tornava-se capaz de, num segundo, pensar tanto quanto outras pessoas pensam num minuto. Atlan, o arcônida, confiava plenamente na capacidade de Rhodan.
Espalharam-se para todos os lados. Havia uma disparidade grosseira entre a velocidade de seu deslocamento e a pressa que sentiam.
Perry Rhodan manteve-se no caminho que seguira a partir do pavilhão subterrâneo. Os robôs vinham da esquerda. Ainda havia uma possibilidade de alcançar o monólito de onde poderiam ser vistos pelos ocupantes da gazela. Mas essa possibilidade era insignificante.
Respirando com dificuldade, Perry Rhodan foi avançando metro por metro. A cada segundo, a distância que o separava dos robôs diminuía. Era bem verdade que, em virtude da dimensão temporal mais lenta em que existiam, os “monstros” metálicos se moviam com uma estranha lerdeza. Mas a cada passo que davam avançavam quase dois metros, e a gravidade opressora parecia não incomodá-los nem um pouco.
Perry Rhodan teve a impressão de que sentia o chão tremer sob os passos das criaturas mecânicas. Parecia que novas levas vinham de outra direção. Ficou deitado por alguns segundos e levantou a cabeça. Realmente, em mais três lugares diferentes, viu robôs saindo de fendas no solo ou de portas abertas na rocha. Mas ainda estavam muito longe para provocar o ruído que ouvia.
Perplexo, lançou os olhos para outro lado e compreendeu por que o chão tremia. Uma gigantesca muralha marrom-acinzentada corria vertiginosamente na direção em que se encontrava. Esperava que a qualquer momento a tal muralha fosse engolir primeiro os robôs e depois a ele mesmo. Mas observou melhor e viu que a mesma se encontrava a alguns quilômetros de distância e era bem maior do que supusera. Ultrapassava as cumeeiras das rochas mais elevadas.
Neste momento, os robôs perceberam que os fugitivos se haviam separado. A confusão estabeleceu-se em suas fileiras. Alguns minutos se passaram até que chegassem a um acordo, resolvendo dividir-se em grupos.
Rhodan aproveitou o tempo. Desenvolvendo forças sobre-humanas, avançou rapidamente e ganhou mais alguns metros de dianteira. Mas, assim que os robôs adotaram a nova tática, esta vantagem não demorou a ser anulada. Perseguiram-nos a passos lentos, mas amplos.
Realmente parecia que não haveria salvação, a não ser que a tempestade chegasse em tempo...
Sempre que a força da tormenta o atingia, deixava-se rolar, tangido pela fúria dos elementos. Se não fosse assim, dentro de alguns minutos o traje protetor se romperia, deixando-o exposto à atmosfera poeirenta e venenosa do planeta de metano.
Em torno dele reinava a escuridão. A força da tormenta só era comparável à da tempestade desencadeada pelo incêndio atômico de Fera Cinzenta. Se tivesse com seu peso normal não adiantaria segurar-se. Teria sido levantado do chão e tangido pelo vento.
Desejara a tempestade para que a escuridão o protegesse, permitindo que chegasse são e salvo à gazela. Mas agora ele a maldisse, pois nem sabia se a escuridão lhe permitiria manter o rumo que lavava à gazela.
Não via os robôs. Sem dúvida, as máquinas tinham olhos mais potentes que ele, e o mundo fustigado pela tormenta não lhes pareceria tão escuro assim. No entanto, tinham uma desvantagem. Estavam acostumados a andar de pé, e por isso ofereceriam maior área de impacto à tormenta. Perry Rhodan não sabia se a força do robô seria suficiente para resistir a este cataclismo.
Não deixou que a situação o perturbasse; continuou a avançar, locomovendo-se sobre os joelhos.
Pelos seus cálculos já deveria ter vencido a distância que o separava do monólito onde ficava o recinto subterrâneo. Mas dentro de seu raio de visão, que chegava a um metro, não notou o menor sinal de que o chão estivesse em aclive.
Perry Rhodan não sabia se suportaria o cansaço. O peso de seu corpo exercia uma forte tensão sobre seus braços. Por mais de uma vez, sentiu-se tentado a soltar-se do lugar em que se segurava e deixar que o vento o tangesse. Por várias vezes procurou falar com os companheiros, mas o barulho provocado pela poeira que batia contra seu capacete não o deixava ouvir nem mesmo suas próprias palavras.
Sentiu mais uma rajada que vinha na direção, certa e soltou-se. Foi tangido pelo vento. Rhodan forçou a posição da cabeça, para que a lâmina do visor de seu capacete nunca batesse no chão. Depois de alguns segundos, a rajada diminuiu. Estava na hora de segurar-se de novo, para que a rajada seguinte não o deslocasse na direção errada. Estendeu os braços e procurou reduzir a velocidade com que se deslocava, a fim de segurar-se em alguma coisa. Mas antes que conseguisse, bateu num obstáculo sólido. Ficou tonto por alguns segundos e não conseguiu realizar o menor movimento. Mas o obstáculo, surgido diante dele, protegeu-o contra a fúria da tempestade.
Olhou para trás. Uma parede subia para a escuridão. Era a agulha de pedra. Não errara o caminho. Ainda estava seguindo na direção certa. Se não fosse a tempestade, bastaria caminhar mais quinhentos metros para atingir um lugar em que os ocupantes da gazela pudessem vê-lo.
Sentiu uma alegria furiosa. Já vencera metade do caminho. Bastaria rastejar mais um pedaço e ficar deitado, aguardando o fim da tempestade.
Enquanto fazia estas reflexões, alguma coisa bateu com um forte estrondo na rocha. Abaixou-se instintivamente e sentiu uma chuva de peças pequenas e pesadas desabar sobre o capacete e o traje protetor. Quando viu que não iria acontecer mais nada, voltou a erguer-se e ficou perplexo ao notar um pedaço de metal prateado todo amassado.
Não havia dúvida de que, há alguns segundos, aquilo pertencia a um robô. A tempestade o havia agarrado, atirando-o contra o paredão. A placa amassada foi um dos poucos componentes do homem mecânico que escapara à destruição.
Quem dera que isso acontecesse com todos os robôs!
Subitamente sentiu um cheiro causticante. Era amoníaco! Não demorou a compreender o que significava isso. Seu traje protetor estava vazando. Um dos estilhaços metálicos devia ter perfurado o revestimento plástico...
E o ar venenoso do planeta penetrava pelo buraco!

* * *

No início, Tommy não acreditou que a tormenta pudesse prejudicar a operação de busca. Afinal, o serviço nunca fora afetado pelas tormentas que neste mundo infernal costumavam desabar com um intervalo médio de dois dias de Druufon.
Havia recebido uma notícia que o deixara perplexo. Duas criaturas estranhas foram surpreendidas e presas num corredor da caverna. Um desses seres tinha o aspecto de um terrano, mas sua pele era escura como a dos druufs. A outra criatura era indescritível. Ambos usavam traje protetor, talhado segundo as medidas de seu corpo. Ninguém sabia como tinham entrado na caverna. O “Mike”, que os deixara inconscientes per meio de um disparo de arma de choque, afirmava que materializaram-se à sua frente. Naturalmente isso não passava de uma tolice.
Tommy achou que seria importante dar uma olhada nos prisioneiros. Subiu na fita transportadora, foi ao lugar no qual os dois intrusos haviam sido recolhidos e fitou-os. Constatou que a descrição que lhe haviam fornecido era correta. Não havia dúvida de que um dos prisioneiros era terrano. Já o outro, segundo as concepções estéticas dos druufs, só podia ser designado como um pesadelo.
O terrano continuava inconsciente, mas o “pesadelo” já recuperara os sentidos. Olhando pelo visor de seu capacete, fitava Tommy com uma expressão inamistosa.
Tommy estava acompanhado de vários oficiais. Muito desconfiado, andou em torno da estranha criatura e examinou-a de todos os lados. O prisioneiro o acompanhou com o olhar. Estava com a boca aberta e exibia um único dente roedor.
Tommy teve uma sensação desagradável...
E esta sensação fez com que nem percebesse que seu peso estava diminuindo. Só notou alguma coisa quando, sem que fizesse qualquer coisa, levantou-se do chão e subiu ao teto. Seu instinto lhe disse que a criatura estranha tinha algo a ver com o incidente.
Ficou furioso e deu um pontapé no “pesadelo”. O prisioneiro foi atingido embaixo do capacete, na altura do pescoço. A violência do impacto foi tamanha que a pequena criatura foi levantada e atirada contra a parede. Ao que tudo indicava, perdera os sentidos.
No mesmo instante, Tommy caiu ao chão. E a queda foi tão repentina que por pouco não perde o equilíbrio. Lançou um olhar de pavor para seus oficiais, que o fitavam e soltavam cicios de surpresa.
Na confusão geral, ninguém percebeu que o prisioneiro terrano estava recuperando os sentidos. Moveu cuidadosamente a cabeça, para não chamar a atenção de ninguém, e olhou em torno. Também o “pesadelo”, que levara o pontapé de Tommy, voltou a abrir os olhos.
Os olhares dos prisioneiros se encontraram. Não precisaram de palavras para comunicar-se. Ativaram simultaneamente os setores específicos do cérebro e, antes que Tommy e seus oficiais compreendessem o que havia acontecido, desapareceram.
Quando perceberam, não acreditaram no que seus olhos viam. A sala em que se encontravam estava trancada. Os prisioneiros não poderiam ter passado por eles sem serem notados. A única saída era a comporta, que achava-se fechada. Mas, apesar de tudo isso, desapareceram sem provocar o menor ruído e sem deixar qualquer vestígio.
Tommy começou a matutar sobre se a pancada que levara poderia ter afetado certas partes de seu cérebro. Seu pânico era tamanho que nem se deu conta de que seus oficiais haviam observado a mesma coisa!

* * *

O furo ficava na altura do antebraço esquerdo. Conseguiu tapá-lo com a mão direita, evitando que o amoníaco continuasse a penetrar no interior do traje espacial.
Mas seria possível rastejar com os braços nessa posição?
No entanto, Perry Rhodan tentou.
A tempestade ainda não amainara. Fustigava a planície numa fúria constante e uivava ao quebrar-se nos monólitos. A poeira continuava a bater ruidosamente no capacete de Perry Rhodan, abafando qualquer outro ruído.
Rhodan saiu de trás da rocha e deixou que uma rajada o arrastasse. Com toda força, comprimiu o furo com o dedo da mão direita e procurou avaliar a intensidade do cheiro do amoníaco, como se tal precaução adiantasse alguma coisa. O cheiro continuava inalterado. De qualquer maneira, porém, o amônio provocava dores no nariz e o fazia espirrar constantemente.
Não sabia por quanto tempo tinha sido tangido pelo vento, quando ficou preso ao obstáculo seguinte. Tratava-se de um sulco que atravessava a planície de lado a lado. Esta oferecia certa proteção contra a tempestade. Rhodan não se lembrava de já ter visto essa depressão do terreno. Tinha certeza absoluta de que não ficava na direção da gazela.
O cheiro de amoníaco ressecou-lhe a boca. Procurou proferir uma palavra, mas não conseguiu.
Estava próximo ao esgotamento total.
Sabia que, se não acontecesse um milagre, estaria perdido. E Rhodan nunca acreditara em milagres.
Rolou para fora do sulco e deixou-se tanger por outra rajada de vento. Esta o fez rolar pela rocha. Rolava sobre os ombros, com a cabeça levantada — o capacete não podia ser danificado — e com a mão sobre o furo do traje espacial.
Rolou por um tempo infinitamente longo. Sentiu tonturas e o enjôo martirizava seu estômago. As glândulas salivares deram o máximo de si. A saliva escapava-lhe da boca e escorria pelo queixo.
Subitamente parou. Em torno dele havia um líquido viscoso e agitado. E então percebeu que voltara à margem do lago vermelho. Movera-se em círculo. A tempestade tangera-o de volta ao lugar do qual partira para atingir a gazela.
Era o fim!

* * *

Em virtude da rápida evolução dos acontecimentos, Deringhouse por pouco não perdeu o controle da situação. Quando menos esperava, Gucky e Ras Tschubai voltaram ao mesmo tempo. Ras Tschubai fez um relato apressado, enquanto Gucky se recolhia a um canto, onde parecia prestar atenção a alguma coisa.
Antes que Tschubai concluísse seu relato, Gucky interrompeu-o em voz alta e ciciante. Disse que conseguia identificar os pensamentos de quatro terranos que se encontravam nas proximidades da gazela. Afirmou que essas pessoas eram as que estavam desaparecidas desde a catástrofe de Fera Cinzenta.
O rato-castor, cuja cabeça ainda zumbia por causa do tremendo pontapé do druuf, proferiu estas palavras com a maior tranqüilidade. Mal concluiu sua fala, desapareceu sem que ninguém lhe tivesse dado ordens para isso...
Quando reapareceu, um ser de aspecto estranho agarrava-se a ele.
De início, Deringhouse fitou o traje espacial que antes parecia uma sanfona. Só depois de algum tempo, passou a dedicar sua atenção ao gigantesco capacete esférico e ao visor. O rosto pertencia a Fellmer Lloyd, um homem que na Terra era considerado morto há quinze dias.
Acontece que estava bem vivo. Fitou Conrad Deringhouse com iam sorriso tímido, que parecia exprimir um pedido de desculpas pelo estranho traje em que se apresentava.
Dali em diante, a evolução dos acontecimentos foi rapidíssima. Graças à sua capacidade telepática, Gucky conseguiu localizar os outros desaparecidos, apesar da escuridão e da tempestade. Três saltos de teleportação foram suficientes para colocá-los em segurança.
O último a chegar foi Perry Rhodan, que Gucky encontrara totalmente esgotado nas águas viscosas do lago vermelho.
Conrad Deringhouse agiu prontamente. Assim que o último homem desaparecido estava a bordo, decolou com a gazela. Não tomou as precauções usuais, motivo por que os instrumentos dos druufs localizaram prontamente o veículo dos terranos. Deringhouse contava com esse fato, que se enquadrava em seu plano.
Os transmissores de matéria estavam prontos para efetuar a remessa. O primeiro a sair da gazela foi Perry Rhodan, que no mesmo instante rematerializou-se, ainda ligeiramente atordoado, na base de Hades. Atlan, o arcônida, seguiu-o no momento em que o primeiro impacto produzido pelos canhões energéticos dos druufs fez chamejar o campo defensivo da gazela.
Conrad Deringhouse segurou os controles até o último instante. Os druufs já haviam calibrado a pontaria. O número das salvas que atingiam o campo energético da nave aumentava constantemente; dentro de alguns segundos, os geradores do campo defensivo entrariam em colapso em virtude da sobrecarga a que estavam submetidos.
Cinco segundos antes do momento em que a nave sofreu o impacto final, Deringhouse abandonou-a. Enquanto Deringhouse procurava orientar-se atrás das grades do transmissor de Hades, a gazela explodiu sob o fogo concentrado da artilharia dos druufs, enviando à superfície do planeta uma chuva de metais incandescentes.

* * *

Para Perry Rhodan, aquilo que veio depois até parecia um belo sonho. Quando materializou-se no transmissor de Hades, ainda estava quase inconsciente. Puseram-no sobre os ombros e carregaram-no em marcha “triunfal” pelo pavilhão dos transmissores. Atlan, Reginald Bell, Fellmer Lloyd, Ras Tschubai, Gucky e Conrad Deringhouse juntaram-se ao cortejo, assim que saíram do aparelho.
Durante algumas horas, a gigantesca caverna de Hades deixou de ser uma base avançada em território inimigo e transformou-se num ambiente que transbordava de alegria.
Dois médicos garantiram que, antes de mais nada, Rhodan precisava de descanso. Mas Deringhouse já lhe havia fornecido um relato resumido sobre a situação política reinante na Terra. Por isso, disse aos médicos que era bem possível que ele, Rhodan, tivesse necessidade de descanso, mas que a Terra tinha necessidade premente de sua presença.
O Major Ostal compareceu na hora combinada com a Califórnia. Um dos transmissores do grande pavilhão subterrâneo deu o sinal verde. Em menos de dois minutos, as sete pessoas que participaram da aventura de Rolando foram trasladadas de Hades para bordo do cruzador. A Califórnia estava preparada para saltar. Antes que Gucky, que veio por último, tivesse tempo de sair do transmissor, Clyde Ostal iniciou a transição.
Os arcônidas já haviam percebido que uma nave desconhecida costumava aparecer em intervalos irregulares no setor em que se encontrava a frota de bloqueio. Ali, a tal nave permanecia por pouco tempo para desaparecer subitamente. Algumas vezes recorreram aos cálculos de probabilidade para prever o lugar em que surgiria a Califórnia, e, em duas oportunidades, aproximaram-se perigosamente de Ostal.
Desta vez erraram nos cálculos; se não fosse assim, Ostal não poderia ter assumido o risco de permanecer durante dois minutos no mesmo lugar.
Só depois que Gucky concluiu a “longa viagem” de Hades até a Califórnia, Ostal sentiu o fato.

* * *

Dali a algumas horas, Perry Rhodan chegou ao espaçoporto militar de Terrânia. Sua chegada foi mantida em segredo. Somente o Marechal Freyt e alguns dos oficiais mais importantes do estado-maior foram informados a respeito.
O Marechal Freyt teve de trazer-lhe uma notícia desagradável. Na manhã daquele dia, a polícia dissolvera uma gigantesca passeata realizada em Terrânia e dirigida pelo Tenente Cardif. Cardif fora preso.
Perry Rhodan sentia-se exausto com os acontecimentos das últimas semanas. Mas não deixou perceber se a notícia transmitida pelo Marechal Freyt o comovia. Tomou conhecimento da mesma e elogiou a circunspeção de Freyt. Pela sua reação ninguém notaria que o preso era seu filho.
De repente, Rhodan demonstrou muita pressa em submeter-se ao tratamento médico. Queria reaparecer em público, mas sua disposição física e psíquica não estava excelente...
Sabia que, quando se mostrasse ao público, a crise política chegaria ao fim. Refletiu sobre isso e sobressaltou-se ao perceber que o bem da Terra, da Humanidade e do Império Solar dependia muito de sua pessoa. Achava que isso representava um tremendo erro.
Resolveu que no futuro isso seria modificado. Se o destino da Humanidade dependesse da personalidade de um indivíduo, o futuro desta Humanidade, a longo prazo, seria sombrio.
Enquanto pensava nisso, recuperou a tranqüilidade e adormeceu.
Bem longe da Terra, num mundo situado em outra dimensão temporal, uma comissão de altas autoridades arquivou os planos através dos quais pretendiam obrigar os terranos a colaborarem com sua raça.
O mais importante dos terranos, que se encontrara em seu poder, estava morto. O comandante de uma base espacial afastada não compreendeu a importância dos acontecimentos e mandou derrubar o veículo espacial no qual o terrano procurava fugir.
Assim que esse comandante voltasse para Druufon, receberia uma reprimenda por sua incompetência e seria rebaixado.

* * *

A uns seiscentos milhões de quilômetros do lugar em que as autoridades arquivaram os planos, um certo Tommy — privado dos seus distintivos, porque uma criatura pequena e insignificante o derrubara com uma barra de metal e lhe tirara o traje protetor — refletia sobre como deveria agir para reconquistar as boas graças das altas autoridades de Druufon!
Por mais que refletisse, não descobriu a menor falha em seu procedimento. Concluiu que fora enganado por alguém.







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No momento em que o administrador retorna à Terra, depois de seu drástico resgate em Rolando, as agitações políticas haviam se amainado..
Em A Nave dos Antepassados, título do próximo volume, Gucky torna-se um detetive galáctico.

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