A cólera
e o ódio haviam desaparecido de seu rosto, dando lugar uma certa
ponderação. Era mesmo descabida loucura andar correndo feito um
doido no meio da floresta. Deste jeito, jamais encontraria o
arcônida. Cada vez que pensava em Golath e no seu fracassado plano,
a cólera lhe invadia o ser. Se, desde o começo, tivessem tratado o
arcônida com muito mais severidade, tal problema não teria
acontecido. Amaldiçoava o fato de estar na dependência de Golath,
que era o único que sabia dirigir o pequeno aparelho a jato.
Zerft não
tinha dúvida de que seu prisioneiro teria fugido para estas bandas.
Quem sabe
teria o velho percebido a jogada dos três degradados?
Zerft
remexera toda a Kaszill, sem encontrar o velho fugitivo. A escotilha
da parte traseira estava aberta. Golath não se enganara quanto ao
caminho de fuga, mas somente quanto ao seu destino. Infelizmente a
chuva forte apagara qualquer vestígio da passagem do velho, não
restando para Zerft nenhum indício de orientação.
Ao clarear
do dia, Zerft deixou a Kaszill e caminhou para a floresta, onde,
conforme seus cálculos, encontraria o velho arcônida. Olhou uma vez
para trás e percebeu que Golath estava entrando naquela hora para os
escombros. Mas os novos planos do seu odiado colega não lhe
interessavam mais.
Zerft
ponderou que o fugitivo era uma pessoa de idade, que certamente não
iria se embrenhar floresta adentro. Com isto, diminuía a área que
tinha de vasculhar. Sistematicamente, começou a inspecionar o
terreno em volta.
Já andara
bastante, quando lhe apareceu o animal exótico. Seu tamanho não
passava da metade do corpo de Zerft, de maneira alguma tão “amplo”
como ele. A princípio, parecia até uma coisa ridícula. Dava a
impressão de ser constituído de duas partes diferentes: uma
inferior, mais fina e arredondada, e da cabeça grande e ovalada. A
parte inferior do corpo era coberta de pêlo espesso e preto. Este
pêlo era tão comprido embaixo, que lhe escondia as patas. Quando
caminhava, dava a impressão de ser transportado por um colchão de
ar. Zerft concluiu que o animal dispunha de muitos pés. Ao contrário
da parte inferior, a cabeça do estranho bicho era completamente
lisa. A grande quantidade de minúsculos olhos dava a impressão de
pequenos orifícios escuros. Havia ainda outros orifícios na parte
superior, cuja finalidade Zerft desconhecia.
Por um
momento os dois adversários se entreolharam. O animal parecia tão
surpreso quanto Zerft. Fitou-o sem fazer o menor movimento, acabando
por soltar um guincho estridente, que não perturbou a curiosidade de
Zerft perante aquela visão sem-par. Segundos após, se repetiu o
mesmo guincho, sendo que, então, o animal começou a se mover
lentamente no sentido oposto.
Zerft
supôs, sem ter nenhuma razão para isto, que o bicho caminhava na
direção do arcônida e o foi seguindo. Quando o animal percebeu
seus passos atrás dele, parou, olhando desconfiado para o unitro.
— Toca
para frente, bicho imundo, ou eu te quebro as pernas.
Não
ligando à ameaça, o animal continuou olhando firme para Zerft. Dava
a impressão de estar mastigando alguma coisa. Devia estar irritado
pela invasão dos seus territórios.
Mais por
curiosidade do que por maldade, Zerft fez um movimento brusco com a
tromba, para obrigar o animal a continuar seu caminho.
Foi neste
instante que ele ficou sabendo do significado dos outros orifícios
na cabeça do animal. Um jato fino e de boa pressão de um líquido
desconhecido o atingiu em cheio, causando-lhe uma ardência nos
ombros.
Zerft viu
que uma gosma amarelada lhe escorria dos ombros, produzindo um pouco
de irritação na pele. Talvez fosse esta a arma de defesa do animal.
Estava, pois, convencido de que, fora essa pequena demonstração de
irritação, o animal era inofensivo. Continuou tocando-o para
frente, ou melhor, tentando tocá-lo para frente. Notou que não
conseguia intimidá-lo, pois o lançador de líquidos continuou
parado.
— Vamos
embora, seu sapo dos infernos!
Um novo
jato de líquido o atingiu, obrigando-o a um grito muito forte e a
dar dois passos para trás. Olhou horrorizado para o braço. Num
piscar de olho, o líquido produzira uma ferida funda na carne. As
dores quase o fizeram desmaiar. Sacou da pistola de raios térmicos,
mas seu adversário já não estava ali. Olhou furioso em volta.
Ao que
parecia, o estranho animal tinha a faculdade de temperar ou graduar a
virulência do seu veneno, de acordo com a situação. O primeiro
jato não passara de simples admoestação. Se Zerft tivesse ido
embora, nada lhe aconteceria. Continuou provocando o animal e teve
que arcar com as conseqüências. Seu braço doía muito e sangrava
bastante.
Rasgou
depressa uma tira de pano de sua roupa e fez uma atadura bem apertada
no local da ferida. Assustado, ficou medindo a possibilidade de este
ácido conter um veneno que o pudesse depois paralisar ou mesmo lhe
provocar a morte. Numa lógica confusa, colocou o arcônida no meio
de tudo isto.
“O
velho é o grande culpado”,
pensou irado. “Desde
que ele apareceu, não tivemos mais sorte.”
O ódio
voltou a seu coração.
“Os
arcônidas! Os malditos que durante séculos e séculos escravizaram
meu povo”,
recordou-se, “até
que com muito sacrifício conseguimos nos libertar da antiga
servidão...”
O ódio
contra Árcon estava arraigado em todo unitro. Para Zerft, de nível
mental relativamente baixo, arcônida era sinônimo de escravização.
Para ele, não havia nenhum tom intermediário entre o preto e o
branco. Não era capaz de ter tolerância para com ninguém, nem para
com nada. Nunca tivera a idéia de procurar dentro de si mesmo a
causa dos contínuos fracassos de sua vida. Eram sempre os outros os
culpados. Desta atitude errada, tinha que se cristalizar dentro dele
um rochedo de ódio contra tudo e contra todos. Tornara-se um
misantropo, incapaz de compreensão, muito menos de amizade.
Com a mão
não atingida pelo ácido do animal, carregava a arma. Do estranho
bicho não havia mais sinal. Ele mesmo não estava mais preocupado
com o adversário irracional. Havia uma preocupação maior: Crest.
“Este
velho desgraçado vai pagar bem caro por tudo que eu estou passando”,
determinou mentalmente.
E ali
estava o degredado, de arma em punho. Um coitado, completamente
errado, que só podia agir guiado por profundos recalques.
Isto,
porém, não lhe diminuía a periculosidade...
*
* *
Seu
adversário ainda não o tinha visto. Devagar, sem provocar o menor
ruído, Crest puxou a arma, sem perder de vista o indivíduo de
tromba, que parecia ferido. Provavelmente fora vítima de um animal
lançador de ácidos. Ufgar, já há muitos anos, se referira a este
animal como uma singularidade daquele planeta. Dizia Ufgar que o
animal só emitia o líquido venenoso contra animais de porte maior,
ao se sentir atacado.
Quando o
unitro ficou de costas, Crest percebeu seu ferimento. Horrorizado com
o sofrimento alheio, fechou os olhos, por pura compaixão. Passou-lhe
até pela cabeça a idéia de descer da árvore para prestar socorro
ao ferido. Mas depois lembrou-se do motivo por que o unitro andava
por ali. Era o mesmo que o havia ameaçado, na nave destroçada, de
arma em punho. Não havia a menor esperança de que desta vez seu
procedimento seria diferente.
Foi então
que Crest viu o animal lançador de ácido, que devia estar muito
excitado. O unitro não o podia ver, pois se aproximava por trás.
Ufgar explicara a diabólica esperteza destes animais que davam a
impressão de serem totalmente inofensivos.
Crest
estava num dilema. Não sabia para que lado pender. Não podia
aceitar que um ser inteligente fosse destruído pela esperteza de um
animal. Por outro lado, se prevenisse o unitro, estaria quase
cometendo um suicídio.
Viu o
animal se aproximando cada vez mais do unitro. Poucos metros
separavam os dois. Estes animais tinham uma estranha propriedade:
podiam regular, conforme a necessidade, o teor da acidez ou da
virulência do seu líquido. De um inofensivo prurido na pele, até a
rápida destruição dos tecidos. Não era preciso ser profeta para
prever que grau de intensidade o animal usaria contra o unitro.
O senso de
bondade humana acabou derrotando a própria razão em Crest. Quando o
animal atingiu a posição crítica, para iniciar o jato de líquido
destruidor, Crest deu um grito de alerta.
Zerft fez
uma meia-volta com o corpo e seu semblante transfigurou-se.
Instintivamente o animal iniciou seu processo de defesa. O unitro se
lançou para o lado. Sua arma escapou e rolou uns palmos para baixo.
Crest foi muito rápido. Pulou de onde estava e descarregou sua arma
contra o perigoso animal, que na mesma hora tombou.
O unitro
continuava inerte no chão. Crest julgava que ele estivesse sem
sentidos. Aproximou-se, devagar, com a arma na mão. Quando se
agachou para tentar auxiliar o ferido, a tromba do unitro, que se
fingia de desacordado, enlaçou a mão de Crest, puxando-o para o
chão. Horrorizado, Crest percebeu tardiamente que cometera um grande
erro. Não podia fazer nada contra a força bruta daquela tromba
musculosa. Sentiu que dois braços fortes o prendiam. Resignado, teve
que aceitar a idéia de que a promessa feita a Rhodan não seria
cumprida. O Space-Jet estava irremediavelmente perdido.
*
* *
Liszog
ficou furioso consigo mesmo quando notou que havia dormido. Ergueu-se
do buraco com muito medo. Já era dia claro e não havia mais chuva.
Um sorriso bailou no seu rosto quando viu diante de si, no mesmo
local, o lindo jato terrano. Nem queria pensar o que Golath ou Zerft
teriam feito dele se o arcônida tivesse chegado até o jatinho, por
falta de vigilância. Liszog saiu da cova e olhou em volta. Não se
via ninguém por perto, nem Golath, nem Zerft, nem o arcônida. Tinha
a sensação de muita sujeira na tromba e nada desejava tanto como
voltar para a Kaszill para fazer uma lavagem. Correu até o lago e
entrou na água para se livrar do barro e matar a sede. Depois,
começou a pegar pedras com a tromba e atirá-las n’água.
Desejava
ardentemente que Golath voltasse o quanto antes, pois se sentia
desamparado naquele mundo estranho. Só ficaria tranqüilo mesmo
quando pudesse voltar para Unitro, se é que isto fosse acontecer.
Voltou
para o lugar de antes e se agachou ao lado da cova barrenta. Sentia
uma espécie de desânimo e indiferença.
Viu então
a figura enorme de Golath, no alto da rampa. O unitro lhe fez um
gesto com a mão. Trazia uma caixa pequena e outros objetos. Zerft
não se encontrava em sua companhia.
Liszog se
levantou. Seu desânimo desapareceu. Sentia, agora, vontade de fazer
qualquer coisa para voltar para sua terra. Foi ao encontro de Golath.
— Você
dormiu! — afirmou ele zangado.
Liszog
sorriu sem jeito, ajudando Golath a carregar os objetos.
— Por
sorte sua e nossa, parece que não houve nada de extraordinário esta
noite — disse Golath mais compreensivo. — Preste atenção para
não deixar cair nada.
Liszog
olhava com desconfiança aqueles objetos que Golath tirou da nave
semidestruída. Não entendia quase nada de máquinas e peças
mecânicas, tendo até medo destas coisas.
— O que
você vai fazer com tudo isto?
— O que
tenho aqui ainda não é suficiente. Amontoei lá perto da Kaszill
muitas coisas que você irá buscar para mim.
Já haviam
atingido a beira do lago, e Golath continuou a falar:
— Talvez
eu consiga construir ou montar um gerador de campo magnético por
meio do qual eu possa neutralizar o envoltório de proteção que nos
impede de chegar até a nave.
Com cara
triste de quem não acreditava no que ia fazer, Liszog olhou para o
aparelho tão bem protegido.
— Você
acha que vai dar certo?
— Isto
vai depender da intensidade de energia que protege o pequeno
aparelho, isto é, vai depender de quem produz mais energia, o meu
gerador ou esta fonte invisível que alimenta o envoltório.
Liszog,
pensativo, agitou a tromba.
— De que
maneira o arcônida poderá neutralizar esta camada protetora que
impede a entrada no aparelho? — perguntou Liszog. — Será que ele
vai fazer isto de dentro da casa?
— Acho
que não. Acredito que ele possua consigo um aparelho qualquer, e
fazendo uso de tal mecanismo, desligue o envoltório de proteção da
pequena espaçonave — levou a mão em concha sobre os olhos,
fitando Liszog como se o estivesse vendo pela primeira vez na vida. —
Que burro que eu fui! Por que não pensei em revistar o arcônida?
Teríamos encontrado o aparelho e economizado todo este trabalho.
— Zerft
já o terá prendido de novo, com toda certeza — disse Liszog. —
Podemos então ver se o velho traz mesmo algum aparelho, como você
falou.
— Se
Zerft o encontrar, não nos restará mais nenhuma possibilidade de
procurar alguma coisa na roupa do velho arcônida — concluiu
Golath, visivelmente abatido.
Liszog
ficou sério. O desânimo se apoderara de novo dele. Chegaram até
perto do Space-Jet, pondo no chão os vários objetos retirados dos
escombros da Kaszill.
— Chegamos!
— disse Golath com alegria, procurando um lugar seco.
Liszog
ficou olhando para ele, parado. Começava a sentir uma leve simpatia
por Golath, acima de tudo, um homem positivo e intrépido. Estava
sempre preocupado em melhorar a situação, usando para isto sua
grande experiência. Era muito diferente de Zerft, cujas reações
eram primitivas e quase irracionais.
— Seria
melhor você ir agora — opinou Golath. — Deixei tudo arrumado na
sala de comando.
Liszog
concordou. Em pensamento, já estava deitado sobre a aparelhagem de
limpar as trombas, pois o próprio Golath teria também aproveitado a
ocasião para fazer a mesma coisa.
— Não
demore — pediu Golath — e esteja sempre muito atento a tudo. Se
Zerft aparecer por lá, não se deixe levar por ele.
— Vou
fazer o que você está dizendo. Não se preocupe.
Subiu a
rampa. Quando olhou lá de cima, Golath já estava em pleno trabalho.
*
* *
Por mais
que Crest tentasse reagir contra a tromba e os braços fortes do
unitro de cento e cinqüenta quilos, jamais poderia escapar. Já
estava vendo pontos coloridos diante dos olhos e se sentia quase
enforcado, respirando muito dificilmente. Seu adversário, embora
ferido, não o largaria.
O
brutamontes não iria ter consideração por quem lhe salvara a vida!
As mãos
de Crest, agarradas no seu adversário, não tinham força para
determinar qualquer mudança na sorte daquela luta. Sua arma térmica,
há muito rolara no chão. Todo o esforço do velho e fraco, mas
inteligente arcônida, visava apenas atrasar o momento da morte.
Com sua
força descomunal, Zerft rolou no chão, até ficar em cima de Crest.
A impressão do velho era de que todos os seus ossos já estavam
quebrados, não só pela força descomunal do unitro, mas
principalmente pelo seu peso. Fechou os olhos e viu que seu poder de
reação estava chegando a zero.
Veio,
porém, o socorro de onde não podia esperar. O lançador de ácido,
atingido mortalmente pela descarga dos raios térmicos, conseguiu
ainda se erguer. Cambaleando, deu uns passos na direção do
emaranhado dos dois corpos e, sem medir muito a distância, soltou o
último jato de seu líquido peçonhento. Último porque, com o
esforço ingente, morreu.
Este jato,
produto de uma reação automática do terrível animal, fez Zerft
dar um grito estridente. Fora atingido nas costas. Continuou gritando
e, sem o perceber, largou seu adversário, e passou a esfregar as
costas contra o chão úmido da floresta. O pobre arcônida levou uns
segundos para entender o que se passara. Depois, arrastou-se e
agarrou a pesada arma do unitro. Este, desvairado de dor, tentava
apalpar o local em que fora ferido. Viu Crest apanhar sua arma.
Apesar da dor imensa, tentou mudar de posição para atacar o velho.
A vista de
Crest ainda estava turva. Divisou o adversário apenas como uma
sombra indefinida. As mãos lhe tremiam. O monstro se aproximava,
seria o fim para ele. Desesperado, atirou na grande silhueta que
oscilava e ia crescendo em sua direção. O leve trepidar da arma foi
o sinal evidente de que, sem conseguir ver o que seus dedos
apertavam, acertara no uso da estranha arma.
Um raio de
luz fortíssimo vibrou no ar, dando uma coloração diferente no tom
verde da mata. O vulto ameaçador desaparecera. Crest queria se
levantar para ver o que acontecera. Mas não teve forças. Parecia
estar com tontura. Tudo que via em torno, eram pontos coloridos.
Conseguiu se ajoelhar, arrastando-se um pouco para frente. Alguma
coisa estava no seu caminho. Apalpou. Era macio. Teve que constatar
com horror que era o cadáver de Zerft. Tinha-o matado.
“Ele
o atacou e ia matá-lo”,
manifestou-se de novo seu cérebro lógico. “Você
teve o direito de defender sua vida.”
Sua vida?
Que negócio é este? Ele não foi ali para morrer? Por que devia ele
defender uma coisa, com cuja perda já estava de antemão conformado?
Ah! O
Space... Era isto, pois Rhodan dissera que não podia de maneira
alguma cair nas mãos de outros seres. A Terra tinha de manter com
unhas e dentes os pontos positivos de sua tecnologia, se não
quisesse decair rapidamente, cedendo a liderança para povos
selvagens.
“Parece
que é este mesmo o meu destino: lutar em prol da Humanidade”,
pensava ele.
Sua visão
foi melhorando aos poucos. Na sua frente jazia a figura colossal do
primeiro ser inteligente de tromba que vira em toda a sua vida.
Estava morto.
Escondidas
em seu corpo alquebrado e totalmente extenuado, havia reservas de
força de vontade, capazes de pô-lo de pé. E agora, Crest era
portador de uma arma tão poderosa como a de seus adversários, ainda
vivos. E já era tempo de se aproximar do pequeno aparelho para ver o
que os dois unitros tencionavam fazer.
“Quem
sabe já estão prestes a neutralizar a poderosa proteção
magnética?”
Este
pensamento lhe deu ainda mais força e foi caminhando.
“Se
alguém, sem nenhuma idéia preconcebida, me estivesse reparando
agora, haveria de mudar sua idéia errada sobre a decadência da raça
arcônida”,
pensava ele.
Apesar de
sua avançada idade, tivera um comportamento extraordinário. Sem dar
conta do que fazia, caminhava agora ereto, como se fosse um rapaz de
trinta anos.
Durante
uma longa fase de sua vida, renegara abertamente sua raça. Não se
tornara de fato um terrano, em palavras e ações?
Mas
haveria de morrer como um arcônida.
E se
sentia orgulhoso disso.
7
No momento
em que Liszog ia entrando pela escotilha da Kaszill, passou-lhe pela
cabeça a idéia de que o arcônida pudesse estar a bordo da velha e
acidentada nave. Ficou parado. Habituara-se com o fato de os outros
tomarem decisão por ele, sendo que geralmente aceitava o que os
outros diziam. Ali não havia ninguém para aconselhá-lo, nem para
tomar decisões por ele.
Golath
dissera apenas que tudo estava na central de comando. Depois que
Golath saíra dali, o velho arcônida podia ter chegado e se
escondido por entre os escombros.
Com toda a
solenidade, Liszog puxou da arma. Certamente seria mais seguro entrar
na nave pela grande fenda do bojo. Pulou da escotilha para fora, para
o ar livre, observando bem a floresta, pois tinha esperança de ver
Zerft. Mas, em volta, estava tudo na maior calma. Liszog foi
caminhando pela grande fenda, aberta com a queda da Kaszill. No
corredor, que dava para a central de comando, havia pouca claridade.
O jovem unitro não se sentia bem. Pegou firme a grande arma térmica
e continuou seu caminho. A porta da central de comando estava apenas
encostada. Procurou não fazer ruído.
Sua
precaução se mostrou logo inútil. O recinto estava vazio. Viu os
objetos de que Golath falara, reunidos na outra entrada. Tudo estava
em ordem.
Respirou
aliviado, dirigindo-se então para a aparelhagem de limpar a tromba.
Notou que seu mecanismo ainda estava funcionando. Cansado, deitou-se
no estrado e começou o longo cerimonial da limpeza. Assim, achava-se
ele, deitado na aparelhagem, quando Crest, sem suspeitar de nada, ia
entrando pela escotilha semi-aberta.
*
* *
O corpo de
Crest se transformou numa síntese de dores. Seus esforços inauditos
dos últimos dois dias cavaram sulcos no seu rosto magro. Eram
visíveis os sintomas de um superesgotamento. Seus olhos estavam
fundos, seus belos cabelos, de ordinário sempre bem penteados,
desgrenhados e sujos. A magreza de seu corpo estava pessimamente
velada pela capa toda esfarrapada.
Se o
arcônida ainda parava de pé e caminhava, devia-o tão-somente à
sua grande força de vontade. Era esta vontade inquebrável que lhe
dava energia para agir. A arma dos estrangeiros parecia ter arrobas
de peso, mas era obrigado a carregá-la. Seria o fator decisivo na
luta final pelo Space-Jet.
Saiu da
floresta. O pequeno trecho entre as árvores e o lago pareceu-lhe um
deserto sem fim. No meio deste deserto havia um oásis, um ponto
escuro, isto é, os escombros da nave dos unitros.
— Você
tem que continuar sua missão! — dizia para si mesmo.
As
palavras quase não se ouviam mais devido aos lábios rachados.
“Vá
até os escombros da nave dos unitros. Lá você poderá descansar um
pouco”,
disse a parte lógica do seu cérebro.
Ouviu
ainda outra voz, fria e firme. Ecoava em sua cabeça como se fosse um
som real:
“— O
Space-Jet não pode, de maneira alguma, cair em mãos de
inteligências estranhas.”
Perry
Rhodan! Era a voz dele e ouviu também quando ele disse, num tom de
amarga despedida:
“— Obrigado,
amigo!”
Crest
começou a caminhar. Já havia perdido a tira de pano que envolvia
seu pé machucado. Não valia mais a pena amarrar outra. Tentaria
apoiar o peso do corpo mais do lado não machucado. Estava
conseguindo andar muito melhor do que supunha. A distância até os
escombros da Kaszill pareceu-lhe desta vez um pouco mais curta.
Calculava que os dois unitros estivessem ocupados com o jatinho, lá
perto da casa.
Com muito
sacrifício chegou até a Kaszill. Claro que não sabia o nome da
nave e mesmo não lhe interessava sabê-lo. A cabeça lhe ardia em
febre. Na noite de chuva, havia se resfriado, dormindo molhado
naquela árvore. Não se lembrava mais quando fora a última vez que
se alimentara.
A carcaça
escura da nave acidentada já não lhe era estranha. O que teria
levado aqueles três unitros e fazerem uma aterrissagem tão
desesperada? Exatamente neste planeta?
Crest pôde
deduzir que, pela forma do choque e dos escombros, tratava-se de uma
espaçonave de decolagem e aterrissagem vertical. Quem quisesse se
aventurar em cosmonáutica, tinha que contar com perdas assim,
mormente nos primeiros anos de desenvolvimento tecnológico.
Crest
entrou pela escotilha, que era bem grande, em decorrência da
estatura dos seres de tromba. O péssimo estado da espaçonave
permitia concluir que ela não representava o padrão tecnológico da
cosmonáutica dos unitros. Talvez tivessem feito uma aterrissagem de
emergência... Sendo assim, era mais que justificado seu interesse
pelo Space-Jet. Provavelmente não dispunham de aparelhagem de rádio
que lhes permitisse entrar em contato com sua pátria e pedir
socorro. Podia ser também que a aparelhagem de rádio se danificara
em conseqüência do choque contra o solo.
Automaticamente,
Crest pensou na Solar System, ao lado da qual a velha nave dos
unitros parecia um brinquedo.
O velho
cientista continuou seu caminho, apoiando-se com a mão na parede. A
sorte de ter visto Liszog uns segundos antes que este o enxergasse,
salvou a vida de Crest.
Liszog
atirou do estrado onde estava deitado, mas os raios térmicos
atingiram somente o grosso metal da escotilha, atrás da qual Crest
se abrigara. Estava certo de que na velha Kaszill só podia estar um
dos unitros. Se saísse da nave, iria se expor como alvo fácil, pois
o terreno plano não oferecia nenhuma proteção contra este tipo de
arma.
O que será
que seu adversário iria fazer agora?
Era
importante prever as reações do unitro. Não podia esperar até que
o indivíduo de tromba executasse seu plano, pois então seria tarde
demais. Crest se colocou mentalmente na posição do adversário.
O ataque
não podia vir da central de comando. O adversário haveria de supor
que Crest estaria atento atrás da escotilha, pronto para fazer fogo
a qualquer movimento suspeito. Portanto, haveria de subir pela fenda
do bojo da Kaszill, para pegá-lo de surpresa pelas costas.
O velho
arcônida esgueirou-se, procurando uma melhor posição, e olhou com
cautela para o outro lado. Viu o unitro de pé sob a curvatura da
parte traseira da nave. Disparou sua pesada arma. Seu adversário se
jogou no chão e o feixe de raios passou rente a ele. Crest maldisse
a oportunidade perdida. Dificilmente teria outra tão boa.
Quando
olhou de novo, o unitro havia já desaparecido pela fenda, entrando
naturalmente nos escombros. Crest não ignorava que seu adversário
era muito mais ágil e resistente do que ele. Tinha todas as
vantagens na luta.
A câmara
da escotilha, onde estava, iria se transformar numa armadilha, que
teria que abandonar o mais depressa possível. Quem sabe seu
adversário estava de novo na central de comando, para estudar nova
estratégia.
Crest
deixou a escotilha e foi para fora. Com dificuldades, foi mancando
para a parte calcinada da espaçonave, que era o final da fuselagem.
Escondeu-se atrás de uma chapa metálica retorcida. Não demoraria
muito até que o unitro constatasse que a escotilha estava vazia. O
jovem degredado seria suficientemente esperto para calcular o novo
esconderijo do arcônida. A parte traseira da Kaszill, na confusão
dos destroços e chapas de metal arrancadas, oferecia muita
possibilidade para se esconder.
Crest
lamentava poder ver de seu novo esconderijo somente a entrada para a
escotilha, não a fenda no bojo. Isto permitia a seu adversário
chegar até ele quase sem ser visto. Bastava dar a volta.
Um lampejo
amarelado fez o ar estremecer e o obrigou a fechar os olhos. Teve
vontade de revidar o tiro. Porém, logo calculou que este tiro era só
para descobrir o seu paradeiro. O unitro não sabia, portanto, a
posição exata do arcônida.
Crest
mediu bem de que direção viera a descarga. Olhou cauteloso pela
fresta da chapa de ferro. A parte da frente da nave dava a impressão
de estar abandonada e não muito longe dele. Não se via nenhum sinal
do inimigo.
O segundo
tiro de sondagem do jovem unitro arou uma faixa comprida do chão,
dando-lhe uma cor escura. O capim queimara; a fumaça e o cheiro acre
provocaram as narinas do arcônida. Comprimiu o rosto com as duas
mãos, para não ter que espirrar. O sulco no chão provocado pelo
segundo disparo estava apenas a um metro de Crest.
Mas ele
sabia agora onde o jovem unitro estava escondido. Tomando-se o eixo
da parte traseira da fuselagem como referência, Liszog devia se
encontrar, no momento do tiro, a uns trinta graus de Crest. O lugar
onde estava devia lhe dar boa cobertura. E, além de tudo, seria
muito difícil para o cientista atirar naquela direção. Teria que
ficar de pé e isto significava quase um suicídio em se tratando de
armas daquele tipo.
Mas por
dois motivos, Crest tinha que terminar logo aquele combate. Primeiro,
havia o perigo de aparecer por ali de repente o segundo unitro, o que
equivaleria praticamente a perder a luta. Segundo, muito mais
importante e realmente decisivo era o fato de que a situação do
estado geral de Crest, sua saúde, inspirava-lhe grande cuidado.
Crest não tinha medo de nada, mas nem por isto deixava de conhecer
sua fraqueza.
Era um
cientista, e não um soldado treinado para a luta. Seus problemas
eram a programação de computadores e a pesquisa dos fatos das
ciências naturais. Tinha bons conhecimentos de estratégia cósmica
e seria mesmo capaz de levar à vitória uma frota espacial bem
treinada. Mas ali, achava-se sozinho e tinha que lutar com um inimigo
jovem. Portanto, superior a ele.
“Acho
mesmo um milagre o fato de ainda estar vivo”,
pensava ele.
*
* *
Liszog
refletia:
“Escondeu-se
em qualquer canto deste montão de ferro velho e não se mexe. Ele
julga que desta maneira serei obrigado a me expor mais. Tenho plena
certeza de que está vivo.”
Crest,
apesar de velho e alquebrado, exausto e faminto, estava preocupando o
jovem unitro muito mais do que este imaginava. Enquanto isto, Golath
estava impaciente, esperando por ele diante do Space-Jet. Certamente
Golath não teria coragem de abandonar o lugar e sair à procura de
Liszog. Seria de fato uma temeridade sair de lá. O arcônida poderia
chegar e fugir com o pequeno aparelho.
Portanto,
de Golath, ele não podia esperar nenhum auxílio. Em Zerft, não
queria nem pensar. Já o fato de o arcônida ter saído da floresta,
podia significar algo de trágico para Zerft. Liszog começou a
enrolar a tromba, sinal evidente de que estava nervoso.
“De
onde será que este velhinho tira tanta energia para continuar com a
idéia fixa de defender a todo custo seu pequeno aparelho?”,
refletiu indagando-se.
Com muita
cautela, o jovem unitro se atreveu a espichar a cabeça para fora de
seu esconderijo, a fim de olhar em torno. Levou um susto quando viu
seu adversário surgir detrás de uma chapa metálica, já de arma
engatilhada. Por puro instinto, lançou-se no chão, de volta ao seu
esconderijo. O jato energético roçou por cima dele, sentindo nas
costas a onda de calor. Areia, pedras e sujeira se depositaram sobre
ele, mas, de qualquer maneira, conseguiu escapar.
Rastejou
uns metros à beira do fosso. Sabia agora a direção exata onde se
escondia o velho. Olhou de novo para fora de seu esconderijo. O
arcônida devia estar atrás da chapa. Liszog tinha no rosto um
sorriso de vitória.
Ergueu a
pesada arma e descarregou frenético contra a chapa de ferro. O metal
ficou incandescente e logo depois começou a derreter. Com o dedo no
gatilho, continuava despejando o jato energético contra a chapa. A
temperatura devia ser tanta, naquele trecho fortemente atingido pelos
raios térmicos, que nenhum ser vivo poderia escapar.
Com um
guincho horrendo, querendo sair de sua tromba, qualquer coisa
semelhante a um grito de vitória, Liszog parou triunfante no local,
onde antes estava a chapa, para ver os restos mortais do seu
desafeto, já naturalmente carbonizados.
Mas não
havia nada.
*
* *
Crest
sabia que o unitro, depois da tremenda descarga energética, já
devia ter-se abrigado de novo. O tiro passou por sobre a vala, sem
prejudicá-lo. Mas Crest não tinha dúvida de que fora visto.
Arrastando-se pelo chão, deixou o esconderijo. Escondeu-se mais para
dentro das ruínas. Porém o unitro continuou com seu fogo cerrado.
Crest olhou em volta, pois precisava de um lugar que lhe desse melhor
garantia.
Metais
recurvados o obrigaram a ficar de pé. Perguntou a si mesmo se não
estava se expondo à irradiação atômica, pois a radiatividade
devia ser muito forte naquele local. Isto dependia, naturalmente, do
tipo de propulsão utilizada na nave. Mas, já que os monstros de
tromba andavam por ali sem nenhuma preocupação, se houvesse alguma
radiatividade, devia ser mínima.
Crest se
espremeu entre as barras de ferro. Depois olhou para trás. O unitro
ainda estava de pé diante da chapa derretida. Parecia indeciso.
Crest queria levantar a arma, mas uma barra de ferro na sua frente o
impediu. Quando conseguiu se livrar dela, o inimigo já desaparecera.
A
excitação da luta fizera com que Crest esquecesse seu péssimo
estado geral. Mas, neste momento de mais calma, começou a tremer e
teve que se apoiar para descansar. Seu repouso foi muito curto, pois
um novo adversário surgiu!
Ouviu
primeiro um ruído, completamente diferente de tudo que se podia
ouvir entre os destroços de uma espaçonave. Assustado, olhou em
volta. A poucos metros dele, aproximavam-se alguns daqueles animais
cilíndricos, que estavam escondidos no interior dos escombros. Eram
aqueles horrendos monstros de escamas, que escavavam a areia ou o
chão mole com seu longo chifre. Ergueram as cabeças para o ar,
prontos para o ataque. Durante o dia eram quase cegos.
Crest, na
sua calma inteligente, supôs que eles, fugindo da chuva forte,
encontraram abrigo ali nos escombros. As possantes descargas
energéticas os teriam assustado. Deviam estar excitados e ferozes.
Suas tenazes se moviam de um lado para o outro. Eram mais de uma
dúzia. As escamas, verdadeiras placas ósseas, roçavam no chão ou
nas partes metálicas do montão de escombros, produzindo então
aquele barulho estranho.
Crest
evitou fazer o menor movimento. Se atirasse naquele momento, seria
vítima dos monstros de chifre e, ao mesmo tempo, chamaria a atenção
do unitro. Não podia enfrentar dois inimigos simultaneamente.
Os animais
deviam sofrer muito com a claridade, pois andavam muito lentamente.
As tenazes se emaranhavam por entre as peças metálicas que lhes
barravam o caminho. Agora que os via assim de perto e com a luz do
dia, podia compreender o respeito que o descobridor do planeta,
Ufgar, tinha por eles.
Nenhum ser
humano, nem mesmo um arcônida, pode suportar indefinidamente um
desgaste tão grande dos nervos e das forças físicas em geral. Terá
que chegar invariavelmente a uma estafa total. E Crest sabia que não
estava muito longe deste ponto.
*
* *
Crest viu
o caudal de raios térmicos que se espalhava pelo chão. A forte
cintilação chegava até ele e o cheiro de carne chamuscada
impregnava o ar. Mas o fogo de artifício não durou muito tempo.
Ouviu um
grito selvagem. Nuvens de fumaça se elevavam do chão. Teve que
abafar a tosse e tentou discernir alguma coisa através da fumaça.
Depois veio uma chuva forte que apagou o fogo iniciante, deixando em
volta um cheiro desagradável.
Crest
supunha que o unitro tivesse aberto fogo contra os horrendos bichos
cilíndricos. A concluir pelo grito lancinante de Liszog, os animais
selvagens o teriam dominado. Nem mesmo ao seu pior adversário, Crest
haveria de desejar uma morte deste jeito. O vento lhe trazia o cheiro
de carne queimada e seus olhos ardiam com a fumaça que a chuva não
eliminara de todo. Sentia dores agudas nos pulmões e via que não
podia permanecer ali por mais tempo. Lá fora, talvez, encontraria um
bando de animais daquela espécie, excitados e famintos. Mas, no
momento, pareciam-lhe o mal menor. Mancando e tossindo, saiu.
Tropeçou
em alguns animais atingidos pelos raios térmicos. Vivo, não se via
mais nenhum. O ar puro lhe fez bem. O vento perpassava através de
sua esfarrapada capa e a chuva refrescava-lhe a cabeça. Uma
claridade difusa se espalhava por toda a natureza.
Aí foi
que ele viu o unitro!
Estava
deitado de bruços sobre um rebordo metálico da velha nave
destroçada. A distância entre ele e Crest não era mais de quinze
metros.
Crest não
tirava os olhos dele. O unitro estava mais vivo do que nunca, perdera
a arma e viera procurar um lugar que o protegesse dos ferozes
animais. Seus enormes olhos fixavam também o arcônida e, neste
olhar, havia qualquer coisa de resignação. Por muito tempo, Crest
ficou parado na chuva, observando as intenções do inimigo. O velho
arcônida continuava com a pesada arma na mão.
Aos
poucos, Liszog foi se erguendo do rebordo metálico. Estava deixando
um rastro mais fundo no chão úmido. Certamente estava se movendo de
joelhos.
— Pare
onde está! — disse Crest em intercosmo.
O unitro
continuou caminhando contra ele. Havia nos seus olhos traços de
determinação, como se tivesse força para andar a vida toda. Seus
olhos estavam bem abertos.
— Pare!
— ordenou de novo Crest, dando mais ênfase à sua ordem,
levantando o cano da arma contra o unitro.
O
obstinado adversário não queria ouvir. Continuava caminhando na
direção de Crest, como se fosse um sonâmbulo. A chuva escorria de
seu rosto e a pele escura parecia reluzir mais com a água. Os olhos
redondos brilhavam de um modo esquisito, quase que febris.
Crest deu
um passo para trás. A arma nas mãos parecia pesar muitas toneladas,
“Não
posso matá-lo assim indefeso”,
pensava Crest. “Por
que este maluco não pára?”
O vento,
cada vez mais forte. Sibilava e gemia nos destroços da Kaszill,
arrastando objetos mais leves. Era uma orquestra diferente, com sons
de um mundo distante.
Liszog
estava quase atingindo Crest. Continuava mantendo o mesmo ritmo. Sua
tromba se vergou toda e a arma tremeu na mão de Crest.
O arcônida
não conseguia apertar o gatilho, o unitro o iria pegar, com a maior
facilidade. Incompreensível o que se passava com o velho arcônida.
Bastava-lhe uma leve compressão do dedo, para que seu adversário
fosse atirado longe. Mas Crest não podia aceitar a idéia de
descarregar a arma num homem ferido e indefeso.
Deixou a
arma cair.
O unitro
parou dois passos à frente dele. Desta vez, estava mesmo parado,
embora o cientista tivesse a impressão de que o espaço entre eles
diminuía cada vez mais.
Nos
grandes olhos redondos havia uma sombra de tristeza. Era como se,
neste momento, o unitro perdesse a esperança de algo que há muito
tempo esperava com ardor. Crest chegou a ouvir sua respiração quase
ofegante.
De
repente, Liszog caiu. Seu corpo alto e forte rolou e ficou estirado
no chão úmido, sem o menor movimento.
Só então
foi que Crest pôde ver os terríveis ferimentos que os animais
cilíndricos haviam produzido em seu adversário. Amaldiçoou aqueles
animais vingativos. Mas já era tarde.
Liszog
estava morto.
*
* *
No seu
relatório, Ufgar descrevia que, no segundo planeta do sol amarelo,
as chuvas duravam dias e dias. Mas não podia falar — é claro —
nada a respeito dos apuros, da luta heróica de um velho arcônida
para salvar, com as últimas forças que lhe restavam, uma pequena
espaçonave de 35 metros de diâmetro.
Ufgar foi
um explorador jovem, intrépido e não um arcônida degenerado dos
tempos modernos. Saltara de sua nave com a bandeira de Árcon na mão
e com os seus homens fizera muitas incursões pelo planeta adentro.
Crest não
tinha bandeira. Nem saberia que símbolos esta bandeira devia ter. Os
do Grande Império de Árcon ou os do pequeno sistema solar com nove
planetas, que recebera dos terranos o pomposo nome de Império Solar.
Em Crest
não havia mais nada da arrogância de membro da hegemonia
aristocrática de Árcon, quando se afastou do cadáver de Liszog.
Conservava apenas seu orgulho natural de haver vencido a todas as
peripécias, sem ter usado violência. Queria lutar pelo Space-Jet
até o último fio de vida, mas nunca com meios que o envergonhassem.
A chuva
voltou a engrossar. E logo nesse momento, que tinha de fazer um
grande esforço para ir até o Space-Jet. Enquanto o tempo estivesse
tão ruim assim, seria inútil tentar chegar à pequena espaçonave.
Suas forças não eram suficientes para tanto. O local mais seguro
era a central da nave unitra.
Literalmente
mais morto do que vivo, Crest chegou até a escotilha, onde já
estivera tantas vezes. Conforme seus cálculos, o dia findava.
Há quanto
tempo já estava andando, ou melhor, se arrastando, por aquela
redondeza? Quando foi a última vez que se alimentou?
Estava
cansado demais para poder pensar melhor.
Entrou na
Kaszill, como se estivesse bêbado. Cambaleando e se apoiando em
tudo. Lá fora zunia a tempestade e a chuva batia com força nos
destroços metálicos da antiquada nave unitra. Mas Crest não ouviu
mais o tamborilar da chuva no metal, nem o esfuziar do vento nas
latas do revestimento externo.
Deixou-se
cair no chão e o sono viria imediato.
Havia
então apenas dois seres inteligentes no planeta Crest. Ambos tinham
o mesmo objetivo. Nenhum deles haveria de desistir. Era o único
ponto em que se assemelhavam.
Existia,
porém, uma diferença essencial entre eles: um era um ancião
arcônida; o outro, um jovem unitro, estuante de força.
Todo o
resto era coisa de somenos importância nesta luta obstinada, onde
não possuía o mínimo valor o fato de um ser um emérito cientista
e outro um reles ladrão.
O mais
forte venceria... ou o mais inteligente.
Os
pensamentos de Crest se remexiam num remoinho confuso de sentimentos
contraditórios. Seu sistema nervoso começava a se recuperar.
Depois se
esqueceu de tudo, de si e do planeta onde estava, também do
Space-Jet.
Dormia
tranqüilamente.
8
Em
Terrânia, era o dia 24 de janeiro de 2.045.
Neste dia,
voltou à baila o assunto Crest. Reginald Bell, para os amigos
simplesmente Bell ou o gorducho, veio em disparada pelo corredor. Não
reduziu a velocidade ao entrar no escritório de Rhodan. Empurrou a
porta e já ia berrar, quando...
— Sabia
que era você — disse Rhodan, tranqüilo.
Por uns
instantes, Bell não soube o que dizer. Estava um pouco perplexo, mas
logo depois prosseguiu:
— Desde
quando você consegue me seguir telepaticamente?
— Bobagem!
— disse o homem alto, refugiando-se da pergunta do amigo. — Não
sigo ninguém, muito menos você, como sabe muito bem. Mas o negócio
é que existe só uma pessoa que entra aqui sem bater.
Bell
enrubesceu. Certamente não de acanhamento, mas de indignação. Era
um homem muito perspicaz. Seu temperamento, no entanto, estava no
mesmo nível que sua perspicácia e sentia um grande prazer em fazer
brincadeiras com os amigos.
— Lá
fora está sentado um desgraçado de um maluco — começou Bell. —
Está me chateando há mais de uma hora. Você sabe o que este
sujeito pretende?
— Veio
para tratar do monumento a Crest. Fui eu quem o mandei chamar.
— Você
o mandou o quê? — perguntou Bell decepcionado. — Este cara de
gaiato não vai conseguir esculpir nem um anão de jardim, que dirá
então um monumento para o velho cientista!
Rhodan
olhou para ele com desaprovação.
— Este
“desgraçado
maluco”,
como você o chamou, é Mangelmann, o escultor mais competente da
atualidade. Você devia saber disso. E se um dia necessitarmos de
figuras de anão de jardim, não precisaremos procurar muito por um
bom modelo.
Estava
mais do que claro, qual era o modelo a quem Rhodan se referia. Bell
ficou de cara séria.
— O
senhor sabe se Crest aceita a idéia de se fazer um monumento em sua
honra? É um homem calado, que fez tudo com simplicidade. Mas, a quem
que eu estou falando isto? Acho, porém, que não estamos seguindo a
mentalidade de Crest se dermos uma encomenda desta ao escultor
Mangelmann.
Perry
Rhodan concordou. Nos seus olhos castanhos, parecia que, por um
momento, vislumbrava sua verdadeira idade, não aquela que o corpo
manifestava.
— Não
tenho dúvidas de que Crest se oporia a isto — concordou Rhodan. —
Não se esqueça, porém, de que erguemos este monumento não para
ele, propriamente, mas para nós. É sempre bom lembrar aos terranos
que criaturas de outros sistemas podem ser nossos amigos também.
Outras inteligências do espaço não têm de ser forçosamente
nossos inimigos.
— Estou
compreendendo seu pensamento, Rhodan. Devo mandar o homem entrar?
— Naturalmente
— respondeu Rhodan.
Mangelmann
entrou. Um homem baixo, quase que achatado, dando a impressão de
afogado em seu desajeitado paletó. Seu rosto era moreno, sua idade,
porém, difícil de calcular. Educado e calmo. Sua voz tinha uma
ressonância muito agradável.
Rhodan
passou às suas mãos duas grandes fotos que estavam sobre a mesa.
— O
senhor pode fazer alguma coisa com isto?
Mangelmann
olhou para as duas fotografias.
— É,
mas... — começou ele hesitante.
— É ele
mesmo — disse Bell de seu canto.
Rhodan se
levantou, deu a volta pela mesa, colocando-se atrás do escultor e
olhando as fotografias por cima de seus ombros.
— Não
lhe podemos oferecer o modelo vivo; Crest, infelizmente, está
impedido.
— Compreendo
— disse Mangelmann, em voz baixa.
— Não é
isto — disse o administrador, sorrindo. — Ele não está morto
não.
Irresoluto,
o artista virava as fotos de um lado para outro. Depois, dirigiu-se a
Rhodan e disse com voz firme:
— Está
bem, sir, aceito a incumbência.
— Não
lhe damos prazo para terminar, exigimos, porém um bom trabalho. Seu
trabalho será apenas passar este homem para a pedra. Quanto às
dimensões, Mister Bell vai lhe dar mais detalhes. Quanto aos
honorários, ficarão na proporção de sua obra.
Mangelmann
se levantou. Seus movimentos eram rápidos e nervosos. Despediu-se e
Bell o levou até a porta.
— Um
homem formidável! — disse Rhodan, quando já estavam sozinhos.
— Para
você, cada um tem um lugar fixo — disse Bell secamente. —
Existem os homens bons, ruins, bobos, inteligentes. Cada um está
catalogado cientificamente.
— Sinto,
porém, grande dificuldade em catalogá-lo cientificamente — disse
Rhodan. — Você não se enquadra bem em nenhuma classificação
científica.
— Sou
realmente algo fora de série — disse Bell cheio de si.
Neste dia,
o nome de Crest não foi mais mencionado.
No dia
seguinte, porém, não se falava sobre outro assunto.
9
Pelo menos
na maior parte da Galáxia, todos os seres que respiram oxigênio
necessitam de certos intervalos para repouso.
Golath
estava enfrentando um problema: ter de dominar seu cansaço. Sua vida
iria depender deste resultado, ou seja, agüentaria ou não sem
dormir. Construíra um abrigo contra a chuva, mas a ventania o
carregara para longe.
O pior é
que nem Zerft, nem Liszog voltaram para junto do Space-Jet. Seria
estupidez ir procurá-los. Não podia abandonar seu posto. Talvez até
o velho arcônida estivesse esperando por perto, ali no alto da
rampa, aguardando pela hora em que ele, Golath, se ausentasse.
É claro
que não podia passar pela cabeça do unitro que o velho e
depauperado arcônida tivesse vencido seus dois colegas. O que podia
supor é que os dois se tivessem destruído mutuamente, num duelo de
monstros. Ou ainda, que Zerft convencera Liszog a ir com ele pelas
florestas à procura do velho. E por isto, Liszog ainda não voltara
com o restante das peças de que tanto necessitava para confeccionar
um gerador de campo magnético.
Golath
recostou-se contra o único galho que restou do abrigo, arrancado
pela fúria da tempestade. Seu corpo estava enrijecido de frio. Às
vezes dava umas voltas correndo em torno da pequena espaçonave, para
ativar a circulação sangüínea. Foi obrigado a usar a forma
primitiva quando da lavagem da tromba. Não havia outro jeito. Embora
não houvesse ninguém para ver, chegou a sentir vergonha. Como um
selvagem, arranjou uma vara com folhas na ponta. Era uma verdadeira
tortura, em comparação com os lavadores automáticos.
O vento
frio o incomodava, zumbindo nos seus ouvidos. O chão estava tão
fofo que atolava até a metade da canela, nos lugares mais baixos.
Quando sentava, seus quase cento e cinqüenta quilos cavavam uma
depressão no solo.
O lago,
geralmente calmo, tinha agora ondas de mais de dois metros de altura.
Golath não podia vê-las, pois a escuridão era total. Ouvia, porém,
seu forte bramido contra a areia da praia.
Num dado
momento, a ventania atirou um pequeno animal, que veio bater no ombro
do unitro, agarrando-se aí. O coitadinho começou a guinchar,
obrigando Golath a retirá-lo com a tromba. Por muito tempo, o
bichinho continuou a incomodar os ouvidos do unitro.
Depois
disso, Golath pegou no sono. Sonhos horríveis povoavam-lhe a mente.
Mas, de repente, acordou. Escutara um ruído estranho. Abriu os olhos
assustado, sentindo um tremor de frio em todo o corpo. Não era nada.
Foi apenas o galho que o apoiava que quebrou sob seu peso.
A noite
parecia sem fim. Acordou muitas vezes, pensando que o arcônida
tivesse chegado, mas era sempre o barulho da ventania. Tentou
convencer a si mesmo de que o velho arcônida não teria força nem
coragem para enfrentar a tempestade. Mesmo assim, a diminuta
possibilidade do aparecimento do velho teimoso não lhe dava tempo
para descansar.
Nunca,
como naquela noite, Golath amaldiçoou tanto os juízes que os
condenaram ao degredo. Pensamentos de vingança se apossaram dele. Se
conseguisse pegar a graciosa espaçonave e voltar triunfante para sua
pátria, sua primeira ação seria vingar-se de quem lhe impusera
castigo tão injusto.
Durante
estas últimas horas, a indignação se avolumava no íntimo de
Golath. De início, era apenas comiseração consigo mesmo. Depois,
começou a tomar corpo o sentimento da injustiça que fizeram contra
ele. Nesta altura, não havia mais espaço para um pensamento lógico.
Depois,
veio o ódio, a cólera cega contra tudo que o impedia de alterar sua
trágica situação. E para esta cólera imensa, não havia válvulas
de escape. Agigantava-se dentro dele e, como a água num
reservatório, ou transbordava ou rebentava.
Instintos
animalescos vinham à tona, abafando a voz da razão. Não sentia
mais nem o vento, nem a chuva fria. O cansaço também desapareceu, e
com a gana de uma ave de rapina, ficou à espera de sua vítima. Aos
poucos, estava ficando claro. O céu, porém, continuava coberto de
nuvens.
Golath
levantou, espreguiçou e respirou fundo. Estava preparado e disposto
para a luta com o arcônida.
“Venha
logo, velho!”,
pensava enfurecido.
*
* *
E ele
veio.
Arrastou-se
pela escotilha semi-aberta. A tempestade cessara. Apenas a chuva
continuava fina. Por toda parte, se viam pequenos regatos e poças
d’água. O solo estava muito mole.
Crest
agachou-se e fez massagem no pé inchado. Não sentia forças para se
levantar. Seu corpo se recusava a obedecer-lhe. Sabia que estava
doente. Durante toda a noite tivera sonhos febris e agora via que
suas forças estavam sumindo, não davam nem para vencer aquele
resfriado. Mas, seu estado físico não conseguia vencer sua força
de vontade. Apesar de não ter disposição para se levantar, ainda
confiava em si.
Esta
determinação mobilizou as depauperadas reservas ou, talvez,
produziu novas. Nasceu-lhe a obstinação contra a morte, isto é,
não a queria de maneira alguma, antes de salvar o Space-Jet. Seria
sua última missão em prol dos terranos.
Deixou os
escombros da Kaszill e veio patinando pelo deserto de água e lama.
Um fogo estranho cintilava nos seus olhos vermelhos. Esperou
inutilmente pela manifestação do seu cérebro lógico.
Será que
seu bom senso fora também vítima do esgotamento físico? Ou será
que a febre não permitia que a voz da razão viesse à tona?
A cada
tombo ou escorregão, aliás seguidos, surgiam novas forças. Em
poucos minutos sua roupa encharcou-se.
Em dias de
chuva, assim como aquele, Crest gostaria de estar sossegado em sua
casa, atrás das janelas e com uma agradável temperatura. As gotas
d’água bateriam na vidraça e desceriam em fios prateados. Veria a
tranqüilidade do lago e teria uma sensação da Eternidade. Um dos
robôs se aproximaria dele, trazendo um chá ou café bem quente,
depositando a bandeja na mesa.
Não devia
pensar nestas coisas. Deu a última olhada para trás. A Kaszill se
transformara numa mancha escura. Talvez, nunca mais voltasse para
revê-la.
— Curioso...
por que razão ainda não me arrependi por ter escolhido este planeta
como minha última morada? — perguntou a si mesmo. — Perry
Rhodan, quando souber do que está acontecendo por aqui, vai
autocensurar-se. Muitas e muitas vezes, Rhodan me aconselhara a
procurar lugares mais seguros, na própria Terra.
Parou um
pouco para descansar. Em que situação encontraria seu adversário?
Será que ainda estava tentando destruir o envoltório de proteção?
Estas
indagações lhe produziram um calafrio no corpo. Em caso positivo, o
unitro acabaria entrando no soberbo jato, síntese das últimas
conquistas técnicas dos terranos.
E como é
que o estranho indivíduo de tromba iria saber manejar aqueles
instrumentos todos? E pior ainda, como iria descobrir a finalidade
deles todos?
Estes
pensamentos deram forças ao velho arcônida. Não devia é chegar
tarde demais. Contra toda expectativa e contra sua vontade, dois
adversários seus já foram eliminados. O último deles lhe seria o
mais difícil. Seus lábios desenharam uma leve curva no rosto
pálido. Estava chegando a hora da decisão. Crest tinha medo desta
decisão, mas não por motivo pessoal.
O unitro
estava mais do que tresnoitado, isto é, tinha mais de duas noites
sem dormir, ao ar livre, com chuva fria e tempestade. Certamente que
isto influiria no seu estado geral.
Crest
começou a lembrar-se de seu grande amigo Rhodan, no primeiro
encontro com ele. Naquele tempo, o administrador era um simples
major. Foi o primeiro homem a descer na Lua com uma espaçonave, a
celebérrima Stardust.
A Astronáutica estava ainda engatinhando. Desde aquela época, Crest
dedicou toda a sua vida exclusivamente ao bem da Terra.
Agora suas
forças estavam chegando ao fim. Preocupado, apalpou sua arma.
“Interessante
como as armas das raças que se dedicam à Cosmonáutica são
basicamente muito parecidas. Muito natural isto”,
pensava Crest. “A
finalidade delas é espalhar a morte e a destruição. Assim,
chega-se, em todos os planetas, a uma forma ideal de arma de mão,
fácil de ser usada...”
O arcônida
olhou para o lago. A margem estava no lado do declive íngreme e não
dava para ver daqui. Chegara ao local onde a Solar System se detivera
enquanto descarregavam a casa e o Space-Jet. Devido à chuva, poucos
eram agora os sinais deixados pela gigantesca espaçonave, comandada
por Rhodan.
O jato
estava no lugar de sempre. Muito nervoso e fraco, Crest tropeçou à
beira da rampa.
O unitro
não era bobo. Procurara abrigo atrás do pequeno aparelho. O velho
cientista reparou na quantidade de ferramentas e peças empilhadas na
frente do jato. Certamente o unitro estava tentando romper o
envoltório energético.
O mais
rápido que pôde, correu para frente.
*
* *
Num galeio
sensacional, Golath saltou para dentro da cova, feita já há dois
dias. Água e lama espirraram para os quatro cantos, enquanto o corpo
de Golath se sentia protegido no fundo da cova.
“Até
que enfim o arcônida chegou”,
pensou satisfeito.
Apenas por
um instante, a sombra de Crest surgiu lá em cima, no início da
rampa. Uma figura cambaleante, parecendo empurrada pela ventania.
Antes que Golath pudesse apanhar a arma, o velho arcônida já
desaparecera. Como um cão de fila, o unitro era todo ouvidos para
qualquer ruído no meio da chuva.
De que
lado viria o ataque? Se seus olhos não o estavam enganando, o velho
cientista portava uma arma de raios térmicos de fabricação dos
unitros. Isto significava que Liszog ou Zerft estava morto. Ou talvez
os dois. De seu esconderijo, Golath via e ouvia tudo que se passava
em volta. Tinha livre descortino sobre toda a rampa, o que lhe era
uma grande vantagem. Quando o arcônida quisesse descer — e ele
tinha que descer, se desejasse entrar na espaçonave — não teria
nenhuma proteção na ladeira de areia. Ele, sim, estava bem
protegido no fundo da cova.
Mas o
velho não seria tão louco assim de descer diretamente para perto da
espaçonave. O último dos degredados esperava que seu adversário,
quando estivesse numa boa distância, arriscaria uma rápida descida
direta. Mas nem isto o poderia ajudar, pois a praia era muito plana e
não oferecia abrigo razoável. Só restava uma alternativa para o
arcônida: enfrentá-lo em campo aberto, sem nenhuma possibilidade de
cobertura.
Golath
estava feliz. Antevia seu triunfo. A fim de enganar o adversário,
abandonaria a cova no chão, e, logo a seguir, saltaria novamente
para dentro dela, assim que pudesse disparar um tiro certeiro.
Mas dava a
impressão de que o velho perdera a coragem. Por mais que forçasse a
vista, a silhueta cambaleante não aparecia em lugar nenhum.
“Ele
vai querer continuar com sua tática de levar meu sistema nervoso ao
desespero”,
pensava Golath. “Mas
não conseguirá.”
Não tinha
dúvida de sua vitória. Estava preparado para todo e qualquer truque
do adversário. Afinal de contas só havia mesmo um caminho cá para
o jato: a rampa.
*
* *
Mas
existia outro. Crest continuou andando pela parte plana, até ter
pelas costas a curva da ladeira, que o protegia dos olhos do unitro.
Teve que
se utilizar dos pés e das mãos para chegar até a margem do lago.
Sua idéia deu certo.
O barco
ainda estava lá, onde ele deixara. Crest foi mancando pelo terreno
ora arenoso, ora coberto por brejo. O sucesso de seu plano ia
depender de que o unitro ficasse observando só a rampa que dava
acesso direto ao Space-Jet. Nenhum dos três indivíduos de tromba
sabia da existência do pequeno barco do arcônida. Pretendia se
aproximar da espaçonave de barco.
De início
teve a primeira decepção: o barco estava cheio de água. Durante a
noite de tempestade e de altas ondas no lago, a água enchera a
embarcação. Não ia ter força para emborcar o barco. Sem perder
tempo, apanhou na praia uma pedra pontuda e procurou um trecho da
popa, o mais alto possível do nível d’água. Bateu com toda a
força, mas a pedra escapava de sua mão. Não ia conseguir nada
desta maneira.
Sacou da
arma. Não sabia o raio de ação da mesma, nem se a matéria de que
era construído o barco não iria incendiar-se. O tiro abriu uma
perfuração irregular. A fibra derretida espalhava um cheiro
horrível, enquanto fragmentos incandescentes caíram n’água.
Começou a sair água pelo buraco. Para apressar o trabalho, colocou
uma pedra sob a quilha do barco, deixando-o em posição oblíqua.
A operação
foi concluída mais depressa do que esperava. Rasgou uma tira larga
do seu capote, que realmente não merecia mais este nome, e com ela
envolveu um cascalho médio, que serviu de tampão para o buraco da
arma de fogo. A pressão da água não seria tão forte para tirar a
pedra do lugar. É verdade que a chuva continuava caindo, mas a
quantidade era relativamente pequena e não o prejudicaria no pequeno
percurso.
Um acesso
de tosse interrompeu seu trabalho. Curvou-se, apertando os dois
braços contra o peito. A febre parecia uma fogueira dentro dele. As
dores eram violentas, tão violentas, que às vezes fechava os olhos.
Será que já era o fim? Iria interromper tudo, a poucos passos de
seu objetivo? Fez um esforço ingente e conseguiu abafar o acesso de
tosse.
Mais um
reinicio!
Os olhos
úmidos estavam vendo melhor. Gemendo, empurrou o barco para dentro
d’água. Levou alguns minutos até que conseguiu entrar, sentar e
pegar um dos remos. O esforço foi tão grande, que teve de parar
para respirar.
Seu papel
em toda esta história não lhe parecia nem trágico, nem heróico.
Estava apenas fazendo o que devia. Estava cumprindo o que prometera.
Colocou a arma na proa e pegou o remo. O barco não era pesado e,
além disso, carregaria apenas Crest. O suor lhe escorria pela face.
O cabo do remo foi até o fundo mole do lago, e ficou preso em algo
mais consistente. Fez uma pressão maior e, por fim, o barco foi se
afastando da margem. Porém, neste instante, Crest perdeu o
equilíbrio e escorregou para trás. O remo escapou-lhe da mão!
Estava já
a vários metros da margem e o remo fincado no chão do lago. Crest
sabia que não podia desistir. Estendeu as mãos para fora e as
transformou em remos. Muito lentamente o barco chegou de novo à
margem, e assim conseguiu puxar para fora o remo.
A primeira
parte de seu plano, que acabara de executar, quase o matara de
cansaço e a segunda... ainda seria muito mais difícil.
*
* *
A
superfície do lago mostrava um quadro todo diferente. Do fundo, se
irradiava uma claridade de um amarelo-claro, cuja origem Crest não
sabia explicar. As milhares de gotículas de chuva produziam
círculos, em cujo centro se levantavam pequenas bolhas. Dava a
impressão de um gigantesco quadro vivo, um mosaico oscilante, cujas
pedrinhas eram as gotas, formando círculos. Apesar da fraqueza
geral, da febre que o fazia suar, de todo o horror do momento, o
arcônida não podia deixar de notar o encanto da natureza.
A
claridade do fundo do lago parecia continuar um pouco no ar. Tudo
indicava haver no fundo d’água uma substância irradiadora. Ufgar
não falara nada a respeito, e certamente também não estivera no
lago num dia de chuva e tempestade.
O barco ia
avançando. Crest recolheu o remo e viu a silhueta do Space-Jet
através da leve cerração na margem do lago. Não dava para ver o
unitro. Devia estar bem escondido. Remou mais para fora, pois não
devia se aproximar por aquele lado do adversário.
Com isso,
no entanto, se expunha ao perigo de ser descoberto mais cedo. Se
viesse, porém, do meio do lago, poderia surpreender Golath pelas
costas. Felizmente o lago voltara à sua calma normal e o leme do
barco não preocupava mais.
Quanto
mais se aproximava da sua antiga estação, mais aumentava sua
ansiedade. O que estava fazendo ali tinha um significado muito grande
para a raça humana. Era importante para os terranos ficarem com a
posse exclusiva da pequena espaçonave, que podia realizar transições
com uma facilidade nunca vista. Do ponto de vista de segurança da
Terra, era então de absoluta necessidade a conservação de seus
segredos. Era mais do que razoável todo o cuidado de Rhodan a
respeito daquele novo aparelho.
Agora,
dependia de Crest, se a Terra iria ou não conservar em segredo seus
avanços tecnológicos. Esta responsabilidade era a única coisa que
lhe dava ânimo. Estava pronto para fazer qualquer sacrifício
pessoal em prol do Space-Jet.
Aos
poucos, foi penetrando na zona perigosa. Até o momento, nada de
novo. Monótona, a chuva continuava a cair. Crest não tirava os
olhos da margem do lago. Seria inútil deitar no fundo do barco
quando Golath começasse a atirar, pois a fibra de vidro não
resistiria ao calor energético.
O velho e
experimentado cientista sabia que se achava numa verdadeira
armadilha, de onde não podia fugir.
Foi então
que viu o adversário. Estava agachado na cova que abrira com seus
colegas ao lado do Space-Jet. Seu rosto estava virado para a rampa,
de onde devia descer normalmente qualquer pessoa que desejasse ir à
casa ou ao aparelho ao lado. Movia impacientemente a tromba.
Sem o
perceber, Crest prendeu a respiração. Daquela distância, com o
movimento oscilante do barco, seria um mero acaso um tiro certeiro.
Além de tudo, o arcônida não iria jamais atirar em alguém pelas
costas, nem no pior de seus inimigos.
Parou de
remar, a fim de que apenas as ondas tocassem o barco para frente.
Apanhou a arma que deixara na proa. Se o unitro virasse para ele,
teria pelo menos uma oportunidade. Via apenas a cabeça e às vezes
também a tromba, que se agitava no ar.
Quais
seriam os pensamentos que povoavam aquela cabeça semi-esférica?
Passou a
mão na testa molhada pela chuva. Este simples movimento era o
bastante para lhe provocar dores. Ali em terra firme estava o
Space-Jet, relativamente perto, no esplendor de sua forma de disco
voador. Entre ele e Crest havia, porém, o fantasma da morte.
O barco
encostou na areia da margem. Tudo aconteceu sem nenhum ruído e o
arcônida perdera toda a ansiedade de antes.
“Vai
ouvir ruído quando eu saltar”,
pensava Crest. “Vou
precisar das duas mãos para descer do barco. Como posso atirar nele,
caso me veja?”
O destino
sempre cria situações inesperadas. Naquele momento, a vida de um
homem dependia somente de um movimento de cabeça.
*
* *
E Golath
fez o tal movimento...!
O ruído
de passos na areia atingiu-o com mais violência do que uma descarga
elétrica. E uma amarga desilusão tomou conta dele. Tudo tinha sido
inútil. O arcônida o surpreendera. Não desceu pela rampa. Na
margem do lago balançava o barco vazio.
O ancião
estava apenas a dez metros dele, empunhando uma arma de fabricação
unitra. Seria inútil querer explicar a Golath a força destruidora
daquela arma.
O ancião
sorria. Naquela figura esfarrapada, esquálida, ainda vibrava muita
força, tanto assim que ali estava ele ereto e orgulhoso — um
arcônida das castas aristocráticas. Era a mesma atitude dos velhos
arcônidas que, há muitos séculos atrás, desembarcaram em Unitro.
— Jogue
sua arma fora e saia desta cova, devagar! — ordenou Crest em
intercosmo.
Golath
simplesmente se deixou cair sentado na cova, espirrando lama no
próprio rosto. A reação do velho foi lenta. Golath viu com que
dificuldade ele corria pelo terreno barrento.
O unitro
se ergueu de um pulo. Seu corpo enlameado se empertigou todo. Olhou
por cima da borda da cova e soltou um grito de vitória.
O arcônida
acabara de desligar o envoltório de proteção do Space-Jet e corria
para ele. Quase hesitante, Golath levantou a arma na direção de
Crest. Mas o astuto velho olhou para trás e se jogou no chão.
Golath atirou e se agachou novamente no buraco. O terrível jato de
fogo passou rente a Crest. O unitro não tivera sorte com o primeiro
disparo. Quando levantou de novo a cabeça da cova enlameada, o velho
já tinha passado para o outro lado do Space-Jet. Seria loucura
atirar agora.
Golath
pulou para fora do buraco, atirou-se no chão e começou a se
arrastar na lama em direção ao jato. Se o arcônida tentasse entrar
no aparelho pelo outro lado, teria que impedir a qualquer preço.
O unitro
sentiu frio quando tocou no aparelho com a extremidade da tromba. Mas
já estava quase de posse do precioso objeto voador, no limiar do tão
sonhado triunfo. Seria o primeiro desterrado a voltar para Unitro.
Seria recebido com honras de herói e reintegrado na sociedade,
recebendo o respeito e o reconhecimento da nação pelo feito heróico
e de inestimável valor científico-cultural.
Seu rápido
devaneio foi interrompido pela descarga da pesada arma de Crest. Bem
junto dele curvou-se um dos apoios de sustentação do aparelho, e o
metal líquido começou a gotejar na lama.
“Está
destruindo sua própria espaçonave!”,
pensou o unitro, desesperado.
Tinha que
impedir isto. Suas mãos atingiram a base exterior do disco.
Conseguiu subir na parte quase plana da mesma. O metal polido
achava-se muito escorregadio devido à água da chuva. A cúpula
central não estava muito longe. Golath foi escorregando até lá. A
arma pesada fazia um barulho estridente ao roçar a chapa de aço.
— Ziiiip!
Golath se
levantou. Era o ruído típico de uma escotilha que se abria. Pulou
para o outro lado da cúpula, mas o arcônida o estava esperando de
arma engatilhada. A roupa toda esfarrapada pendia ao vento fraco, os
olhos vermelhos estavam semicerrados.
Abriram
fogo ao mesmo tempo. Antes que Golath tivesse notado que, com o
disparo, havia escorregado para trás, um golpe pesado o atirou para
longe. Caiu, soltando um grito surdo.
“Fui
atingido!”,
pensava nervoso.
Queria se
levantar, mas as pernas se recusaram. Não tinha coragem de olhar
para si mesmo. No entanto não sentia dor.
Apoiou-se
no antebraço e assim conseguiu se arrastar novamente até a cúpula.
O arcônida estava prostrado na escotilha, ainda com sinais de vida,
porém seriamente atingido no ombro.
“Um
unitro é muito resistente, meu velho!”,
pensava Golath. “É
um osso duro demais para você.”
Apoiou o
peso do corpo no ombro esquerdo.
Estava
tudo acabado! Jamais voltaria para Unitro. Seu ferimento era mortal.
Mas o arcônida também tinha de saber que perdera seu belo
Space-Jet. Jamais sairia deste planeta.
Tinha que
morrer de olhos abertos.
— Arcônida!
— exclamou Golath.
*
* *
Crest
abriu os olhos. O unitro o atingira no ombro e também estava certo
de que não sobreviveria. Mas, não havia nisso nada de trágico.
Salvara o precioso Space-Jet. Olhando para trás, parecia-lhe
totalmente impossível chegar a uma vitória, como chegou.
— Mantive
minha promessa! — sussurrou ele. — Salvei o Space-Jet, Rhodan.
Queria
sorrir, mas as dores do ferimento transformaram o sorriso em amarga
careta. Enquanto isto, o unitro aproximou-se se arrastando.
— São
fantasias minhas — disse Crest. — São alucinações febris de um
quase moribundo.
— Arcônida!
Era a voz
furiosa de Golath. Aquele monstro coberto de lama era uma realidade.
Estava ali, e seu olhar de vencedor devorava o adversário
desprotegido.
— Arcônida!
— a voz era puro ódio e seu dono não sabia o que era compaixão.
A chuva
caía ritmada na chapa polida do disco. O unitro reparou como o
ancião tentava levantar a pesada arma. O rosto horrendo, de onde
saía a tromba, estava fechado, numa expressão de ódio.
“Ele
me odeia”,
pensou Crest, “não
por minha pessoa mesmo, mas só por ser arcônida.”
Apontou a
arma térmica para baixo, na direção do unitro. Talvez este
movimento tivesse assustado o pobre Golath, pois seu tiro passou
muito acima da cabeça de Crest. Mas a pontaria de Crest fora
certeira. Desta vez não havia dúvida: o único desterrado vivo
estava realmente morto.
— Os
arcônidas exploraram seu planeta e escravizaram sua raça —
sussurrou o velho cientista. — E agora você morreu nas mãos de um
arcônida.
Por muito
tempo, ficou ali imóvel, olhando o corpo de seu ex-adversário. A
primeira coisa que fez quando conseguiu se mover, foi jogar fora a
pesada arma.
Olhou em
volta. Tinha que entrar em contato com Terrânia.
Seria
importante que Rhodan mandasse apanhar o Space-Jet antes que outros
interessados aparecessem.
Até o
hipercomunicador, teria de andar uns dez metros. Isto lhe parecia
quase impossível. Mas tentou se arrastar para lá.
— Depois
que a gente executa o mais difícil e pensa que já acabou tudo, vem
ainda muita coisa desagradável.
Com o
esforço de sua vontade férrea, ia ganhando alguns palmos.
Escorregava mais do que se arrastava. Depois de vencer a metade do
trecho, perdeu toda a visão. Mal conseguia distinguir vultos
indecisos. O ponto retangular bem claro era o hiper-transmissor.
De repente
as dores lhe desapareceram. Tinha a impressão de estar no centro de
uma grande esfera que o isolava de qualquer ruído. Nunca
experimentara uma sensação deste tipo.
“Devo
estar morrendo”,
pensava.
Mas não
se assustou com isto. A calma era a mesma de sempre. Tudo teria de
terminar um dia...
Reparou
que estava deitado, sem fazer nenhum movimento. Mas tinha de
continuar, centímetro por centímetro.
— Devia
ter fechado a escotilha — lembrou-se ele.
Ia se
aproximando do retângulo claro. Este tornava-se cada vez maior, mas
menos claro do que antes. Pela escotilha aberta, entrava o ar frio
que lhe roçava o rosto. De qualquer maneira, estava agüentando.
*
* *
O Tenente
Bowler, sentado à sua mesa de trabalho, girava distraído uma
esferográfica entre os dedos finos e bem tratados. Estava na Central
de Rádio de Terrânia, pertencente ao Ministério de Defesa Solar.
Em torno dele, as várias telas do hipercomunicador, enquanto as
instalações de rádio achavam-se logo à sua frente.
Bowler era
um oficial jovem, de pouca experiência. Sabia que estava ocupando o
posto de radiotelegrafista somente porque eram dias calmos, sem
nenhuma complicação. Olhava para os outros telegrafistas, alguns
dos quais estavam em ligação com longínquos planetas.
Ouviu o
ruído característico que antecede uma mensagem do hipercom.
Incontinenti desapareceu dele a figura do jovem brincalhão e,
empertigando-se todo, inclinou-se para frente com toda concentração.
O rádio vinha pelo canal de urgência urgentíssima. Isto
significava apenas que algum dos elementos de ligação direta com o
chefe queria fazer uma ligação. O código secreto para este canal
era um raro privilégio de pouquíssimas pessoas.
Bowler
ligou a tela do videofone através da qual viera o sinal de alarme.
Depois dos primeiros sinais que geralmente parecem um tremido
confuso, a imagem ficou nítida.
Bowler viu
o interior de uma nave, era um tipo mais aperfeiçoado do Space-Jet.
Mas não se via ninguém.
De repente
viu uma mão. Estranhamente rígida, erguia-se ela no canto inferior
da tela. Bowler não conseguiu se desfazer de uma sensação de algo
trágico. A mão se movia como se quisesse apanhar qualquer coisa.
Depois
ouviu a voz, uma voz que lhe penetrou na medula dos ossos. Nunca mais
esqueceria o tom daquelas palavras:
— Crest...
Crest falando — veio a voz arranhada do alto-falante.
Bowler
saltou da poltrona. Sua inquietação se transmitiu aos demais
operadores, que abandonaram seus lugares e correram para junto dele.
Ninguém disse nada.
— Senhor!
— disse Bowler excitado. — Pelo amor de Deus, senhor, que
aconteceu?
A mão foi
abaixando lentamente.
Bowler
estava branco como cera. Seu desejo era pegar aquela mão que surgira
no canto de sua tela.
— Diga...
Rhodan... venha buscar... jato, Space-Jet.
O final
foi mais um gemido. Bowler estava pálido, com o rosto coberto de
suor.
— Senhor!
— disse trêmulo.
A ligação
continuava, mas Crest não falava mais. Com as mãos tremendo,
apanhou o registro automático de toda a ligação. Ao se levantar,
derrubou a cadeira. Os colegas abriram espaço para ele passar. O
Tenente Bowler, o homem da elegância impecável, estava
profundamente abalado.
— Tenho
que me comunicar imediatamente com Rhodan — disse.
Uma olhada
para trás, lábios comprimidos, poucas palavras e uma ordem:
— Interrompam
a ligação!
Homens
calados, ordem cumprida. Zumbido de algum aparelho, tique-taque
monótono de outro.
Uma sala
grande, mergulhada no silêncio.
*
* *
Não havia
mais nada a fazer. Talvez fosse bom ficar deitado ali, dando descanso
àquele interminável cansaço. O intrépido arcônida, deitado de
costas, estava de olhos abertos.
“Assim é
que um homem deve morrer!”, pensava ele. “Velho,
contente e realizado.”
Cumprira o
que prometera. O Space-Jet estava nas mãos dos seus donos, os
terranos. Mãos jovens, fortes e empreendedoras.
— Obrigado,
amigo! — parecia dizer alguém a seu lado.
Um minuto
mais tarde, Crest estava morto.
Morreu,
como viveu: tranqüilo, ainda com um leve sorriso nos lábios.
*
* *
Era a
primeira vez na vida que o Tenente Bowler comparecia à presença de
Rhodan, o Administrador-geral do Império Solar. Não estava nada
contente com isto, pois estava vendo a tristeza profunda nos olhos
castanhos do grande homem.
Rhodan
olhava longe. Apertava entre os dedos a cópia do rádio de Crest.
— Por
favor, pode se retirar, Tenente Davis Bowler. Obrigado — disse com
aparente calma.
Bowler
bateu a continência e saiu o mais depressa que a disciplina lhe
“permitia”.
Rhodan
ligou o microfone da sua mesa.
— Fala
Rhodan. Tente encontrar Mr. Bell e diga-lhe para vir imediatamente a
meu escritório.
Esperou
pela confirmação. Depois se recostou na poltrona.
Devia ter
acontecido algo de imprevisto no planeta Crest. O grande arcônida,
aparentemente, conseguiu salvar o Space-Jet, morrendo naturalmente em
decorrência disto.
Um pouco
mais tarde, chegou Bell. Conhecia Rhodan muito bem, para saber que
não era hora de brincadeiras.
O
administrador se levantou. Seus olhos fitaram o velho amigo, um dos
que ainda lhe restavam.
— Bell —
disse em voz baixa — vamos buscar nosso amigo Crest.
*
* *
*
*
*
Ergueram
na Terra um grande monumento a Crest — a ele, o grande arcônida
que, viajando à procura do planeta da imortalidade, veio parar
exatamente na Terra.
Por sua
vida, toda devotada ao bem da humanidade terrana, vida esta coroada
pela morte heróica em defesa dos mais altos interesses do Império
Solar, Crest tornou-se imortal. Mas de uma maneira diferente da que
sonhava quando era jovem...
Com o
desaparecimento de Crest, começa uma nova época da futura História
da Humanidade.
Em A
Estrela do Destino,
o centésimo volume da série, momentos eletrizantes estão por
acontecer...

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