segunda-feira, 29 de agosto de 2016

P-099 - Um Amigo da Humanidade - William Voltz [Parte 3]

A cólera e o ódio haviam desaparecido de seu rosto, dando lugar uma certa ponderação. Era mesmo descabida loucura andar correndo feito um doido no meio da floresta. Deste jeito, jamais encontraria o arcônida. Cada vez que pensava em Golath e no seu fracassado plano, a cólera lhe invadia o ser. Se, desde o começo, tivessem tratado o arcônida com muito mais severidade, tal problema não teria acontecido. Amaldiçoava o fato de estar na dependência de Golath, que era o único que sabia dirigir o pequeno aparelho a jato.
Zerft não tinha dúvida de que seu prisioneiro teria fugido para estas bandas.
Quem sabe teria o velho percebido a jogada dos três degradados?
Zerft remexera toda a Kaszill, sem encontrar o velho fugitivo. A escotilha da parte traseira estava aberta. Golath não se enganara quanto ao caminho de fuga, mas somente quanto ao seu destino. Infelizmente a chuva forte apagara qualquer vestígio da passagem do velho, não restando para Zerft nenhum indício de orientação.
Ao clarear do dia, Zerft deixou a Kaszill e caminhou para a floresta, onde, conforme seus cálculos, encontraria o velho arcônida. Olhou uma vez para trás e percebeu que Golath estava entrando naquela hora para os escombros. Mas os novos planos do seu odiado colega não lhe interessavam mais.
Zerft ponderou que o fugitivo era uma pessoa de idade, que certamente não iria se embrenhar floresta adentro. Com isto, diminuía a área que tinha de vasculhar. Sistematicamente, começou a inspecionar o terreno em volta.
Já andara bastante, quando lhe apareceu o animal exótico. Seu tamanho não passava da metade do corpo de Zerft, de maneira alguma tão “amplo” como ele. A princípio, parecia até uma coisa ridícula. Dava a impressão de ser constituído de duas partes diferentes: uma inferior, mais fina e arredondada, e da cabeça grande e ovalada. A parte inferior do corpo era coberta de pêlo espesso e preto. Este pêlo era tão comprido embaixo, que lhe escondia as patas. Quando caminhava, dava a impressão de ser transportado por um colchão de ar. Zerft concluiu que o animal dispunha de muitos pés. Ao contrário da parte inferior, a cabeça do estranho bicho era completamente lisa. A grande quantidade de minúsculos olhos dava a impressão de pequenos orifícios escuros. Havia ainda outros orifícios na parte superior, cuja finalidade Zerft desconhecia.
Por um momento os dois adversários se entreolharam. O animal parecia tão surpreso quanto Zerft. Fitou-o sem fazer o menor movimento, acabando por soltar um guincho estridente, que não perturbou a curiosidade de Zerft perante aquela visão sem-par. Segundos após, se repetiu o mesmo guincho, sendo que, então, o animal começou a se mover lentamente no sentido oposto.
Zerft supôs, sem ter nenhuma razão para isto, que o bicho caminhava na direção do arcônida e o foi seguindo. Quando o animal percebeu seus passos atrás dele, parou, olhando desconfiado para o unitro.
Toca para frente, bicho imundo, ou eu te quebro as pernas.
Não ligando à ameaça, o animal continuou olhando firme para Zerft. Dava a impressão de estar mastigando alguma coisa. Devia estar irritado pela invasão dos seus territórios.
Mais por curiosidade do que por maldade, Zerft fez um movimento brusco com a tromba, para obrigar o animal a continuar seu caminho.
Foi neste instante que ele ficou sabendo do significado dos outros orifícios na cabeça do animal. Um jato fino e de boa pressão de um líquido desconhecido o atingiu em cheio, causando-lhe uma ardência nos ombros.
Zerft viu que uma gosma amarelada lhe escorria dos ombros, produzindo um pouco de irritação na pele. Talvez fosse esta a arma de defesa do animal. Estava, pois, convencido de que, fora essa pequena demonstração de irritação, o animal era inofensivo. Continuou tocando-o para frente, ou melhor, tentando tocá-lo para frente. Notou que não conseguia intimidá-lo, pois o lançador de líquidos continuou parado.
Vamos embora, seu sapo dos infernos!
Um novo jato de líquido o atingiu, obrigando-o a um grito muito forte e a dar dois passos para trás. Olhou horrorizado para o braço. Num piscar de olho, o líquido produzira uma ferida funda na carne. As dores quase o fizeram desmaiar. Sacou da pistola de raios térmicos, mas seu adversário já não estava ali. Olhou furioso em volta.
Ao que parecia, o estranho animal tinha a faculdade de temperar ou graduar a virulência do seu veneno, de acordo com a situação. O primeiro jato não passara de simples admoestação. Se Zerft tivesse ido embora, nada lhe aconteceria. Continuou provocando o animal e teve que arcar com as conseqüências. Seu braço doía muito e sangrava bastante.
Rasgou depressa uma tira de pano de sua roupa e fez uma atadura bem apertada no local da ferida. Assustado, ficou medindo a possibilidade de este ácido conter um veneno que o pudesse depois paralisar ou mesmo lhe provocar a morte. Numa lógica confusa, colocou o arcônida no meio de tudo isto.
O velho é o grande culpado”, pensou irado. “Desde que ele apareceu, não tivemos mais sorte.”
O ódio voltou a seu coração.
Os arcônidas! Os malditos que durante séculos e séculos escravizaram meu povo”, recordou-se, “até que com muito sacrifício conseguimos nos libertar da antiga servidão...
O ódio contra Árcon estava arraigado em todo unitro. Para Zerft, de nível mental relativamente baixo, arcônida era sinônimo de escravização. Para ele, não havia nenhum tom intermediário entre o preto e o branco. Não era capaz de ter tolerância para com ninguém, nem para com nada. Nunca tivera a idéia de procurar dentro de si mesmo a causa dos contínuos fracassos de sua vida. Eram sempre os outros os culpados. Desta atitude errada, tinha que se cristalizar dentro dele um rochedo de ódio contra tudo e contra todos. Tornara-se um misantropo, incapaz de compreensão, muito menos de amizade.
Com a mão não atingida pelo ácido do animal, carregava a arma. Do estranho bicho não havia mais sinal. Ele mesmo não estava mais preocupado com o adversário irracional. Havia uma preocupação maior: Crest.
Este velho desgraçado vai pagar bem caro por tudo que eu estou passando”, determinou mentalmente.
E ali estava o degredado, de arma em punho. Um coitado, completamente errado, que só podia agir guiado por profundos recalques.
Isto, porém, não lhe diminuía a periculosidade...

* * *

Seu adversário ainda não o tinha visto. Devagar, sem provocar o menor ruído, Crest puxou a arma, sem perder de vista o indivíduo de tromba, que parecia ferido. Provavelmente fora vítima de um animal lançador de ácidos. Ufgar, já há muitos anos, se referira a este animal como uma singularidade daquele planeta. Dizia Ufgar que o animal só emitia o líquido venenoso contra animais de porte maior, ao se sentir atacado.
Quando o unitro ficou de costas, Crest percebeu seu ferimento. Horrorizado com o sofrimento alheio, fechou os olhos, por pura compaixão. Passou-lhe até pela cabeça a idéia de descer da árvore para prestar socorro ao ferido. Mas depois lembrou-se do motivo por que o unitro andava por ali. Era o mesmo que o havia ameaçado, na nave destroçada, de arma em punho. Não havia a menor esperança de que desta vez seu procedimento seria diferente.
Foi então que Crest viu o animal lançador de ácido, que devia estar muito excitado. O unitro não o podia ver, pois se aproximava por trás. Ufgar explicara a diabólica esperteza destes animais que davam a impressão de serem totalmente inofensivos.
Crest estava num dilema. Não sabia para que lado pender. Não podia aceitar que um ser inteligente fosse destruído pela esperteza de um animal. Por outro lado, se prevenisse o unitro, estaria quase cometendo um suicídio.
Viu o animal se aproximando cada vez mais do unitro. Poucos metros separavam os dois. Estes animais tinham uma estranha propriedade: podiam regular, conforme a necessidade, o teor da acidez ou da virulência do seu líquido. De um inofensivo prurido na pele, até a rápida destruição dos tecidos. Não era preciso ser profeta para prever que grau de intensidade o animal usaria contra o unitro.
O senso de bondade humana acabou derrotando a própria razão em Crest. Quando o animal atingiu a posição crítica, para iniciar o jato de líquido destruidor, Crest deu um grito de alerta.
Zerft fez uma meia-volta com o corpo e seu semblante transfigurou-se. Instintivamente o animal iniciou seu processo de defesa. O unitro se lançou para o lado. Sua arma escapou e rolou uns palmos para baixo. Crest foi muito rápido. Pulou de onde estava e descarregou sua arma contra o perigoso animal, que na mesma hora tombou.
O unitro continuava inerte no chão. Crest julgava que ele estivesse sem sentidos. Aproximou-se, devagar, com a arma na mão. Quando se agachou para tentar auxiliar o ferido, a tromba do unitro, que se fingia de desacordado, enlaçou a mão de Crest, puxando-o para o chão. Horrorizado, Crest percebeu tardiamente que cometera um grande erro. Não podia fazer nada contra a força bruta daquela tromba musculosa. Sentiu que dois braços fortes o prendiam. Resignado, teve que aceitar a idéia de que a promessa feita a Rhodan não seria cumprida. O Space-Jet estava irremediavelmente perdido.

* * *

Liszog ficou furioso consigo mesmo quando notou que havia dormido. Ergueu-se do buraco com muito medo. Já era dia claro e não havia mais chuva. Um sorriso bailou no seu rosto quando viu diante de si, no mesmo local, o lindo jato terrano. Nem queria pensar o que Golath ou Zerft teriam feito dele se o arcônida tivesse chegado até o jatinho, por falta de vigilância. Liszog saiu da cova e olhou em volta. Não se via ninguém por perto, nem Golath, nem Zerft, nem o arcônida. Tinha a sensação de muita sujeira na tromba e nada desejava tanto como voltar para a Kaszill para fazer uma lavagem. Correu até o lago e entrou na água para se livrar do barro e matar a sede. Depois, começou a pegar pedras com a tromba e atirá-las n’água.
Desejava ardentemente que Golath voltasse o quanto antes, pois se sentia desamparado naquele mundo estranho. Só ficaria tranqüilo mesmo quando pudesse voltar para Unitro, se é que isto fosse acontecer.
Voltou para o lugar de antes e se agachou ao lado da cova barrenta. Sentia uma espécie de desânimo e indiferença.
Viu então a figura enorme de Golath, no alto da rampa. O unitro lhe fez um gesto com a mão. Trazia uma caixa pequena e outros objetos. Zerft não se encontrava em sua companhia.
Liszog se levantou. Seu desânimo desapareceu. Sentia, agora, vontade de fazer qualquer coisa para voltar para sua terra. Foi ao encontro de Golath.
Você dormiu! — afirmou ele zangado.
Liszog sorriu sem jeito, ajudando Golath a carregar os objetos.
Por sorte sua e nossa, parece que não houve nada de extraordinário esta noite — disse Golath mais compreensivo. — Preste atenção para não deixar cair nada.
Liszog olhava com desconfiança aqueles objetos que Golath tirou da nave semidestruída. Não entendia quase nada de máquinas e peças mecânicas, tendo até medo destas coisas.
O que você vai fazer com tudo isto?
O que tenho aqui ainda não é suficiente. Amontoei lá perto da Kaszill muitas coisas que você irá buscar para mim.
Já haviam atingido a beira do lago, e Golath continuou a falar:
Talvez eu consiga construir ou montar um gerador de campo magnético por meio do qual eu possa neutralizar o envoltório de proteção que nos impede de chegar até a nave.
Com cara triste de quem não acreditava no que ia fazer, Liszog olhou para o aparelho tão bem protegido.
Você acha que vai dar certo?
Isto vai depender da intensidade de energia que protege o pequeno aparelho, isto é, vai depender de quem produz mais energia, o meu gerador ou esta fonte invisível que alimenta o envoltório.
Liszog, pensativo, agitou a tromba.
De que maneira o arcônida poderá neutralizar esta camada protetora que impede a entrada no aparelho? — perguntou Liszog. — Será que ele vai fazer isto de dentro da casa?
Acho que não. Acredito que ele possua consigo um aparelho qualquer, e fazendo uso de tal mecanismo, desligue o envoltório de proteção da pequena espaçonave — levou a mão em concha sobre os olhos, fitando Liszog como se o estivesse vendo pela primeira vez na vida. — Que burro que eu fui! Por que não pensei em revistar o arcônida? Teríamos encontrado o aparelho e economizado todo este trabalho.
Zerft já o terá prendido de novo, com toda certeza — disse Liszog. — Podemos então ver se o velho traz mesmo algum aparelho, como você falou.
Se Zerft o encontrar, não nos restará mais nenhuma possibilidade de procurar alguma coisa na roupa do velho arcônida — concluiu Golath, visivelmente abatido.
Liszog ficou sério. O desânimo se apoderara de novo dele. Chegaram até perto do Space-Jet, pondo no chão os vários objetos retirados dos escombros da Kaszill.
Chegamos! — disse Golath com alegria, procurando um lugar seco.
Liszog ficou olhando para ele, parado. Começava a sentir uma leve simpatia por Golath, acima de tudo, um homem positivo e intrépido. Estava sempre preocupado em melhorar a situação, usando para isto sua grande experiência. Era muito diferente de Zerft, cujas reações eram primitivas e quase irracionais.
Seria melhor você ir agora — opinou Golath. — Deixei tudo arrumado na sala de comando.
Liszog concordou. Em pensamento, já estava deitado sobre a aparelhagem de limpar as trombas, pois o próprio Golath teria também aproveitado a ocasião para fazer a mesma coisa.
Não demore — pediu Golath — e esteja sempre muito atento a tudo. Se Zerft aparecer por lá, não se deixe levar por ele.
Vou fazer o que você está dizendo. Não se preocupe.
Subiu a rampa. Quando olhou lá de cima, Golath já estava em pleno trabalho.

* * *

Por mais que Crest tentasse reagir contra a tromba e os braços fortes do unitro de cento e cinqüenta quilos, jamais poderia escapar. Já estava vendo pontos coloridos diante dos olhos e se sentia quase enforcado, respirando muito dificilmente. Seu adversário, embora ferido, não o largaria.
O brutamontes não iria ter consideração por quem lhe salvara a vida!
As mãos de Crest, agarradas no seu adversário, não tinham força para determinar qualquer mudança na sorte daquela luta. Sua arma térmica, há muito rolara no chão. Todo o esforço do velho e fraco, mas inteligente arcônida, visava apenas atrasar o momento da morte.
Com sua força descomunal, Zerft rolou no chão, até ficar em cima de Crest. A impressão do velho era de que todos os seus ossos já estavam quebrados, não só pela força descomunal do unitro, mas principalmente pelo seu peso. Fechou os olhos e viu que seu poder de reação estava chegando a zero.
Veio, porém, o socorro de onde não podia esperar. O lançador de ácido, atingido mortalmente pela descarga dos raios térmicos, conseguiu ainda se erguer. Cambaleando, deu uns passos na direção do emaranhado dos dois corpos e, sem medir muito a distância, soltou o último jato de seu líquido peçonhento. Último porque, com o esforço ingente, morreu.
Este jato, produto de uma reação automática do terrível animal, fez Zerft dar um grito estridente. Fora atingido nas costas. Continuou gritando e, sem o perceber, largou seu adversário, e passou a esfregar as costas contra o chão úmido da floresta. O pobre arcônida levou uns segundos para entender o que se passara. Depois, arrastou-se e agarrou a pesada arma do unitro. Este, desvairado de dor, tentava apalpar o local em que fora ferido. Viu Crest apanhar sua arma. Apesar da dor imensa, tentou mudar de posição para atacar o velho.
A vista de Crest ainda estava turva. Divisou o adversário apenas como uma sombra indefinida. As mãos lhe tremiam. O monstro se aproximava, seria o fim para ele. Desesperado, atirou na grande silhueta que oscilava e ia crescendo em sua direção. O leve trepidar da arma foi o sinal evidente de que, sem conseguir ver o que seus dedos apertavam, acertara no uso da estranha arma.
Um raio de luz fortíssimo vibrou no ar, dando uma coloração diferente no tom verde da mata. O vulto ameaçador desaparecera. Crest queria se levantar para ver o que acontecera. Mas não teve forças. Parecia estar com tontura. Tudo que via em torno, eram pontos coloridos. Conseguiu se ajoelhar, arrastando-se um pouco para frente. Alguma coisa estava no seu caminho. Apalpou. Era macio. Teve que constatar com horror que era o cadáver de Zerft. Tinha-o matado.
Ele o atacou e ia matá-lo”, manifestou-se de novo seu cérebro lógico. “Você teve o direito de defender sua vida.
Sua vida? Que negócio é este? Ele não foi ali para morrer? Por que devia ele defender uma coisa, com cuja perda já estava de antemão conformado?
Ah! O Space... Era isto, pois Rhodan dissera que não podia de maneira alguma cair nas mãos de outros seres. A Terra tinha de manter com unhas e dentes os pontos positivos de sua tecnologia, se não quisesse decair rapidamente, cedendo a liderança para povos selvagens.
Parece que é este mesmo o meu destino: lutar em prol da Humanidade”, pensava ele.
Sua visão foi melhorando aos poucos. Na sua frente jazia a figura colossal do primeiro ser inteligente de tromba que vira em toda a sua vida. Estava morto.
Escondidas em seu corpo alquebrado e totalmente extenuado, havia reservas de força de vontade, capazes de pô-lo de pé. E agora, Crest era portador de uma arma tão poderosa como a de seus adversários, ainda vivos. E já era tempo de se aproximar do pequeno aparelho para ver o que os dois unitros tencionavam fazer.
Quem sabe já estão prestes a neutralizar a poderosa proteção magnética?
Este pensamento lhe deu ainda mais força e foi caminhando.
Se alguém, sem nenhuma idéia preconcebida, me estivesse reparando agora, haveria de mudar sua idéia errada sobre a decadência da raça arcônida”, pensava ele.
Apesar de sua avançada idade, tivera um comportamento extraordinário. Sem dar conta do que fazia, caminhava agora ereto, como se fosse um rapaz de trinta anos.
Durante uma longa fase de sua vida, renegara abertamente sua raça. Não se tornara de fato um terrano, em palavras e ações?
Mas haveria de morrer como um arcônida.
E se sentia orgulhoso disso.
7

No momento em que Liszog ia entrando pela escotilha da Kaszill, passou-lhe pela cabeça a idéia de que o arcônida pudesse estar a bordo da velha e acidentada nave. Ficou parado. Habituara-se com o fato de os outros tomarem decisão por ele, sendo que geralmente aceitava o que os outros diziam. Ali não havia ninguém para aconselhá-lo, nem para tomar decisões por ele.
Golath dissera apenas que tudo estava na central de comando. Depois que Golath saíra dali, o velho arcônida podia ter chegado e se escondido por entre os escombros.
Com toda a solenidade, Liszog puxou da arma. Certamente seria mais seguro entrar na nave pela grande fenda do bojo. Pulou da escotilha para fora, para o ar livre, observando bem a floresta, pois tinha esperança de ver Zerft. Mas, em volta, estava tudo na maior calma. Liszog foi caminhando pela grande fenda, aberta com a queda da Kaszill. No corredor, que dava para a central de comando, havia pouca claridade. O jovem unitro não se sentia bem. Pegou firme a grande arma térmica e continuou seu caminho. A porta da central de comando estava apenas encostada. Procurou não fazer ruído.
Sua precaução se mostrou logo inútil. O recinto estava vazio. Viu os objetos de que Golath falara, reunidos na outra entrada. Tudo estava em ordem.
Respirou aliviado, dirigindo-se então para a aparelhagem de limpar a tromba. Notou que seu mecanismo ainda estava funcionando. Cansado, deitou-se no estrado e começou o longo cerimonial da limpeza. Assim, achava-se ele, deitado na aparelhagem, quando Crest, sem suspeitar de nada, ia entrando pela escotilha semi-aberta.

* * *

O corpo de Crest se transformou numa síntese de dores. Seus esforços inauditos dos últimos dois dias cavaram sulcos no seu rosto magro. Eram visíveis os sintomas de um superesgotamento. Seus olhos estavam fundos, seus belos cabelos, de ordinário sempre bem penteados, desgrenhados e sujos. A magreza de seu corpo estava pessimamente velada pela capa toda esfarrapada.
Se o arcônida ainda parava de pé e caminhava, devia-o tão-somente à sua grande força de vontade. Era esta vontade inquebrável que lhe dava energia para agir. A arma dos estrangeiros parecia ter arrobas de peso, mas era obrigado a carregá-la. Seria o fator decisivo na luta final pelo Space-Jet.
Saiu da floresta. O pequeno trecho entre as árvores e o lago pareceu-lhe um deserto sem fim. No meio deste deserto havia um oásis, um ponto escuro, isto é, os escombros da nave dos unitros.
Você tem que continuar sua missão! — dizia para si mesmo.
As palavras quase não se ouviam mais devido aos lábios rachados.
Vá até os escombros da nave dos unitros. Lá você poderá descansar um pouco”, disse a parte lógica do seu cérebro.
Ouviu ainda outra voz, fria e firme. Ecoava em sua cabeça como se fosse um som real:
“— O Space-Jet não pode, de maneira alguma, cair em mãos de inteligências estranhas.”
Perry Rhodan! Era a voz dele e ouviu também quando ele disse, num tom de amarga despedida:
“— Obrigado, amigo!
Crest começou a caminhar. Já havia perdido a tira de pano que envolvia seu pé machucado. Não valia mais a pena amarrar outra. Tentaria apoiar o peso do corpo mais do lado não machucado. Estava conseguindo andar muito melhor do que supunha. A distância até os escombros da Kaszill pareceu-lhe desta vez um pouco mais curta. Calculava que os dois unitros estivessem ocupados com o jatinho, lá perto da casa.
Com muito sacrifício chegou até a Kaszill. Claro que não sabia o nome da nave e mesmo não lhe interessava sabê-lo. A cabeça lhe ardia em febre. Na noite de chuva, havia se resfriado, dormindo molhado naquela árvore. Não se lembrava mais quando fora a última vez que se alimentara.
A carcaça escura da nave acidentada já não lhe era estranha. O que teria levado aqueles três unitros e fazerem uma aterrissagem tão desesperada? Exatamente neste planeta?
Crest pôde deduzir que, pela forma do choque e dos escombros, tratava-se de uma espaçonave de decolagem e aterrissagem vertical. Quem quisesse se aventurar em cosmonáutica, tinha que contar com perdas assim, mormente nos primeiros anos de desenvolvimento tecnológico.
Crest entrou pela escotilha, que era bem grande, em decorrência da estatura dos seres de tromba. O péssimo estado da espaçonave permitia concluir que ela não representava o padrão tecnológico da cosmonáutica dos unitros. Talvez tivessem feito uma aterrissagem de emergência... Sendo assim, era mais que justificado seu interesse pelo Space-Jet. Provavelmente não dispunham de aparelhagem de rádio que lhes permitisse entrar em contato com sua pátria e pedir socorro. Podia ser também que a aparelhagem de rádio se danificara em conseqüência do choque contra o solo.
Automaticamente, Crest pensou na Solar System, ao lado da qual a velha nave dos unitros parecia um brinquedo.
O velho cientista continuou seu caminho, apoiando-se com a mão na parede. A sorte de ter visto Liszog uns segundos antes que este o enxergasse, salvou a vida de Crest.
Liszog atirou do estrado onde estava deitado, mas os raios térmicos atingiram somente o grosso metal da escotilha, atrás da qual Crest se abrigara. Estava certo de que na velha Kaszill só podia estar um dos unitros. Se saísse da nave, iria se expor como alvo fácil, pois o terreno plano não oferecia nenhuma proteção contra este tipo de arma.
O que será que seu adversário iria fazer agora?
Era importante prever as reações do unitro. Não podia esperar até que o indivíduo de tromba executasse seu plano, pois então seria tarde demais. Crest se colocou mentalmente na posição do adversário.
O ataque não podia vir da central de comando. O adversário haveria de supor que Crest estaria atento atrás da escotilha, pronto para fazer fogo a qualquer movimento suspeito. Portanto, haveria de subir pela fenda do bojo da Kaszill, para pegá-lo de surpresa pelas costas.
O velho arcônida esgueirou-se, procurando uma melhor posição, e olhou com cautela para o outro lado. Viu o unitro de pé sob a curvatura da parte traseira da nave. Disparou sua pesada arma. Seu adversário se jogou no chão e o feixe de raios passou rente a ele. Crest maldisse a oportunidade perdida. Dificilmente teria outra tão boa.
Quando olhou de novo, o unitro havia já desaparecido pela fenda, entrando naturalmente nos escombros. Crest não ignorava que seu adversário era muito mais ágil e resistente do que ele. Tinha todas as vantagens na luta.
A câmara da escotilha, onde estava, iria se transformar numa armadilha, que teria que abandonar o mais depressa possível. Quem sabe seu adversário estava de novo na central de comando, para estudar nova estratégia.
Crest deixou a escotilha e foi para fora. Com dificuldades, foi mancando para a parte calcinada da espaçonave, que era o final da fuselagem. Escondeu-se atrás de uma chapa metálica retorcida. Não demoraria muito até que o unitro constatasse que a escotilha estava vazia. O jovem degredado seria suficientemente esperto para calcular o novo esconderijo do arcônida. A parte traseira da Kaszill, na confusão dos destroços e chapas de metal arrancadas, oferecia muita possibilidade para se esconder.
Crest lamentava poder ver de seu novo esconderijo somente a entrada para a escotilha, não a fenda no bojo. Isto permitia a seu adversário chegar até ele quase sem ser visto. Bastava dar a volta.
Um lampejo amarelado fez o ar estremecer e o obrigou a fechar os olhos. Teve vontade de revidar o tiro. Porém, logo calculou que este tiro era só para descobrir o seu paradeiro. O unitro não sabia, portanto, a posição exata do arcônida.
Crest mediu bem de que direção viera a descarga. Olhou cauteloso pela fresta da chapa de ferro. A parte da frente da nave dava a impressão de estar abandonada e não muito longe dele. Não se via nenhum sinal do inimigo.
O segundo tiro de sondagem do jovem unitro arou uma faixa comprida do chão, dando-lhe uma cor escura. O capim queimara; a fumaça e o cheiro acre provocaram as narinas do arcônida. Comprimiu o rosto com as duas mãos, para não ter que espirrar. O sulco no chão provocado pelo segundo disparo estava apenas a um metro de Crest.
Mas ele sabia agora onde o jovem unitro estava escondido. Tomando-se o eixo da parte traseira da fuselagem como referência, Liszog devia se encontrar, no momento do tiro, a uns trinta graus de Crest. O lugar onde estava devia lhe dar boa cobertura. E, além de tudo, seria muito difícil para o cientista atirar naquela direção. Teria que ficar de pé e isto significava quase um suicídio em se tratando de armas daquele tipo.
Mas por dois motivos, Crest tinha que terminar logo aquele combate. Primeiro, havia o perigo de aparecer por ali de repente o segundo unitro, o que equivaleria praticamente a perder a luta. Segundo, muito mais importante e realmente decisivo era o fato de que a situação do estado geral de Crest, sua saúde, inspirava-lhe grande cuidado. Crest não tinha medo de nada, mas nem por isto deixava de conhecer sua fraqueza.
Era um cientista, e não um soldado treinado para a luta. Seus problemas eram a programação de computadores e a pesquisa dos fatos das ciências naturais. Tinha bons conhecimentos de estratégia cósmica e seria mesmo capaz de levar à vitória uma frota espacial bem treinada. Mas ali, achava-se sozinho e tinha que lutar com um inimigo jovem. Portanto, superior a ele.
Acho mesmo um milagre o fato de ainda estar vivo”, pensava ele.

* * *

Liszog refletia:
Escondeu-se em qualquer canto deste montão de ferro velho e não se mexe. Ele julga que desta maneira serei obrigado a me expor mais. Tenho plena certeza de que está vivo.”
Crest, apesar de velho e alquebrado, exausto e faminto, estava preocupando o jovem unitro muito mais do que este imaginava. Enquanto isto, Golath estava impaciente, esperando por ele diante do Space-Jet. Certamente Golath não teria coragem de abandonar o lugar e sair à procura de Liszog. Seria de fato uma temeridade sair de lá. O arcônida poderia chegar e fugir com o pequeno aparelho.
Portanto, de Golath, ele não podia esperar nenhum auxílio. Em Zerft, não queria nem pensar. Já o fato de o arcônida ter saído da floresta, podia significar algo de trágico para Zerft. Liszog começou a enrolar a tromba, sinal evidente de que estava nervoso.
De onde será que este velhinho tira tanta energia para continuar com a idéia fixa de defender a todo custo seu pequeno aparelho?”, refletiu indagando-se.
Com muita cautela, o jovem unitro se atreveu a espichar a cabeça para fora de seu esconderijo, a fim de olhar em torno. Levou um susto quando viu seu adversário surgir detrás de uma chapa metálica, já de arma engatilhada. Por puro instinto, lançou-se no chão, de volta ao seu esconderijo. O jato energético roçou por cima dele, sentindo nas costas a onda de calor. Areia, pedras e sujeira se depositaram sobre ele, mas, de qualquer maneira, conseguiu escapar.
Rastejou uns metros à beira do fosso. Sabia agora a direção exata onde se escondia o velho. Olhou de novo para fora de seu esconderijo. O arcônida devia estar atrás da chapa. Liszog tinha no rosto um sorriso de vitória.
Ergueu a pesada arma e descarregou frenético contra a chapa de ferro. O metal ficou incandescente e logo depois começou a derreter. Com o dedo no gatilho, continuava despejando o jato energético contra a chapa. A temperatura devia ser tanta, naquele trecho fortemente atingido pelos raios térmicos, que nenhum ser vivo poderia escapar.
Com um guincho horrendo, querendo sair de sua tromba, qualquer coisa semelhante a um grito de vitória, Liszog parou triunfante no local, onde antes estava a chapa, para ver os restos mortais do seu desafeto, já naturalmente carbonizados.
Mas não havia nada.

* * *

Crest sabia que o unitro, depois da tremenda descarga energética, já devia ter-se abrigado de novo. O tiro passou por sobre a vala, sem prejudicá-lo. Mas Crest não tinha dúvida de que fora visto. Arrastando-se pelo chão, deixou o esconderijo. Escondeu-se mais para dentro das ruínas. Porém o unitro continuou com seu fogo cerrado. Crest olhou em volta, pois precisava de um lugar que lhe desse melhor garantia.
Metais recurvados o obrigaram a ficar de pé. Perguntou a si mesmo se não estava se expondo à irradiação atômica, pois a radiatividade devia ser muito forte naquele local. Isto dependia, naturalmente, do tipo de propulsão utilizada na nave. Mas, já que os monstros de tromba andavam por ali sem nenhuma preocupação, se houvesse alguma radiatividade, devia ser mínima.
Crest se espremeu entre as barras de ferro. Depois olhou para trás. O unitro ainda estava de pé diante da chapa derretida. Parecia indeciso. Crest queria levantar a arma, mas uma barra de ferro na sua frente o impediu. Quando conseguiu se livrar dela, o inimigo já desaparecera.
A excitação da luta fizera com que Crest esquecesse seu péssimo estado geral. Mas, neste momento de mais calma, começou a tremer e teve que se apoiar para descansar. Seu repouso foi muito curto, pois um novo adversário surgiu!
Ouviu primeiro um ruído, completamente diferente de tudo que se podia ouvir entre os destroços de uma espaçonave. Assustado, olhou em volta. A poucos metros dele, aproximavam-se alguns daqueles animais cilíndricos, que estavam escondidos no interior dos escombros. Eram aqueles horrendos monstros de escamas, que escavavam a areia ou o chão mole com seu longo chifre. Ergueram as cabeças para o ar, prontos para o ataque. Durante o dia eram quase cegos.
Crest, na sua calma inteligente, supôs que eles, fugindo da chuva forte, encontraram abrigo ali nos escombros. As possantes descargas energéticas os teriam assustado. Deviam estar excitados e ferozes. Suas tenazes se moviam de um lado para o outro. Eram mais de uma dúzia. As escamas, verdadeiras placas ósseas, roçavam no chão ou nas partes metálicas do montão de escombros, produzindo então aquele barulho estranho.
Crest evitou fazer o menor movimento. Se atirasse naquele momento, seria vítima dos monstros de chifre e, ao mesmo tempo, chamaria a atenção do unitro. Não podia enfrentar dois inimigos simultaneamente.
Os animais deviam sofrer muito com a claridade, pois andavam muito lentamente. As tenazes se emaranhavam por entre as peças metálicas que lhes barravam o caminho. Agora que os via assim de perto e com a luz do dia, podia compreender o respeito que o descobridor do planeta, Ufgar, tinha por eles.
Nenhum ser humano, nem mesmo um arcônida, pode suportar indefinidamente um desgaste tão grande dos nervos e das forças físicas em geral. Terá que chegar invariavelmente a uma estafa total. E Crest sabia que não estava muito longe deste ponto.

* * *

Crest viu o caudal de raios térmicos que se espalhava pelo chão. A forte cintilação chegava até ele e o cheiro de carne chamuscada impregnava o ar. Mas o fogo de artifício não durou muito tempo.
Ouviu um grito selvagem. Nuvens de fumaça se elevavam do chão. Teve que abafar a tosse e tentou discernir alguma coisa através da fumaça. Depois veio uma chuva forte que apagou o fogo iniciante, deixando em volta um cheiro desagradável.
Crest supunha que o unitro tivesse aberto fogo contra os horrendos bichos cilíndricos. A concluir pelo grito lancinante de Liszog, os animais selvagens o teriam dominado. Nem mesmo ao seu pior adversário, Crest haveria de desejar uma morte deste jeito. O vento lhe trazia o cheiro de carne queimada e seus olhos ardiam com a fumaça que a chuva não eliminara de todo. Sentia dores agudas nos pulmões e via que não podia permanecer ali por mais tempo. Lá fora, talvez, encontraria um bando de animais daquela espécie, excitados e famintos. Mas, no momento, pareciam-lhe o mal menor. Mancando e tossindo, saiu.
Tropeçou em alguns animais atingidos pelos raios térmicos. Vivo, não se via mais nenhum. O ar puro lhe fez bem. O vento perpassava através de sua esfarrapada capa e a chuva refrescava-lhe a cabeça. Uma claridade difusa se espalhava por toda a natureza.
Aí foi que ele viu o unitro!
Estava deitado de bruços sobre um rebordo metálico da velha nave destroçada. A distância entre ele e Crest não era mais de quinze metros.
Crest não tirava os olhos dele. O unitro estava mais vivo do que nunca, perdera a arma e viera procurar um lugar que o protegesse dos ferozes animais. Seus enormes olhos fixavam também o arcônida e, neste olhar, havia qualquer coisa de resignação. Por muito tempo, Crest ficou parado na chuva, observando as intenções do inimigo. O velho arcônida continuava com a pesada arma na mão.
Aos poucos, Liszog foi se erguendo do rebordo metálico. Estava deixando um rastro mais fundo no chão úmido. Certamente estava se movendo de joelhos.
Pare onde está! — disse Crest em intercosmo.
O unitro continuou caminhando contra ele. Havia nos seus olhos traços de determinação, como se tivesse força para andar a vida toda. Seus olhos estavam bem abertos.
Pare! — ordenou de novo Crest, dando mais ênfase à sua ordem, levantando o cano da arma contra o unitro.
O obstinado adversário não queria ouvir. Continuava caminhando na direção de Crest, como se fosse um sonâmbulo. A chuva escorria de seu rosto e a pele escura parecia reluzir mais com a água. Os olhos redondos brilhavam de um modo esquisito, quase que febris.
Crest deu um passo para trás. A arma nas mãos parecia pesar muitas toneladas, “Não posso matá-lo assim indefeso”, pensava Crest. “Por que este maluco não pára?
O vento, cada vez mais forte. Sibilava e gemia nos destroços da Kaszill, arrastando objetos mais leves. Era uma orquestra diferente, com sons de um mundo distante.
Liszog estava quase atingindo Crest. Continuava mantendo o mesmo ritmo. Sua tromba se vergou toda e a arma tremeu na mão de Crest.
O arcônida não conseguia apertar o gatilho, o unitro o iria pegar, com a maior facilidade. Incompreensível o que se passava com o velho arcônida. Bastava-lhe uma leve compressão do dedo, para que seu adversário fosse atirado longe. Mas Crest não podia aceitar a idéia de descarregar a arma num homem ferido e indefeso.
Deixou a arma cair.
O unitro parou dois passos à frente dele. Desta vez, estava mesmo parado, embora o cientista tivesse a impressão de que o espaço entre eles diminuía cada vez mais.
Nos grandes olhos redondos havia uma sombra de tristeza. Era como se, neste momento, o unitro perdesse a esperança de algo que há muito tempo esperava com ardor. Crest chegou a ouvir sua respiração quase ofegante.
De repente, Liszog caiu. Seu corpo alto e forte rolou e ficou estirado no chão úmido, sem o menor movimento.
Só então foi que Crest pôde ver os terríveis ferimentos que os animais cilíndricos haviam produzido em seu adversário. Amaldiçoou aqueles animais vingativos. Mas já era tarde.
Liszog estava morto.

* * *

No seu relatório, Ufgar descrevia que, no segundo planeta do sol amarelo, as chuvas duravam dias e dias. Mas não podia falar — é claro — nada a respeito dos apuros, da luta heróica de um velho arcônida para salvar, com as últimas forças que lhe restavam, uma pequena espaçonave de 35 metros de diâmetro.
Ufgar foi um explorador jovem, intrépido e não um arcônida degenerado dos tempos modernos. Saltara de sua nave com a bandeira de Árcon na mão e com os seus homens fizera muitas incursões pelo planeta adentro.
Crest não tinha bandeira. Nem saberia que símbolos esta bandeira devia ter. Os do Grande Império de Árcon ou os do pequeno sistema solar com nove planetas, que recebera dos terranos o pomposo nome de Império Solar.
Em Crest não havia mais nada da arrogância de membro da hegemonia aristocrática de Árcon, quando se afastou do cadáver de Liszog. Conservava apenas seu orgulho natural de haver vencido a todas as peripécias, sem ter usado violência. Queria lutar pelo Space-Jet até o último fio de vida, mas nunca com meios que o envergonhassem.
A chuva voltou a engrossar. E logo nesse momento, que tinha de fazer um grande esforço para ir até o Space-Jet. Enquanto o tempo estivesse tão ruim assim, seria inútil tentar chegar à pequena espaçonave. Suas forças não eram suficientes para tanto. O local mais seguro era a central da nave unitra.
Literalmente mais morto do que vivo, Crest chegou até a escotilha, onde já estivera tantas vezes. Conforme seus cálculos, o dia findava.
Há quanto tempo já estava andando, ou melhor, se arrastando, por aquela redondeza? Quando foi a última vez que se alimentou?
Estava cansado demais para poder pensar melhor.
Entrou na Kaszill, como se estivesse bêbado. Cambaleando e se apoiando em tudo. Lá fora zunia a tempestade e a chuva batia com força nos destroços metálicos da antiquada nave unitra. Mas Crest não ouviu mais o tamborilar da chuva no metal, nem o esfuziar do vento nas latas do revestimento externo.
Deixou-se cair no chão e o sono viria imediato.
Havia então apenas dois seres inteligentes no planeta Crest. Ambos tinham o mesmo objetivo. Nenhum deles haveria de desistir. Era o único ponto em que se assemelhavam.
Existia, porém, uma diferença essencial entre eles: um era um ancião arcônida; o outro, um jovem unitro, estuante de força.
Todo o resto era coisa de somenos importância nesta luta obstinada, onde não possuía o mínimo valor o fato de um ser um emérito cientista e outro um reles ladrão.
O mais forte venceria... ou o mais inteligente.
Os pensamentos de Crest se remexiam num remoinho confuso de sentimentos contraditórios. Seu sistema nervoso começava a se recuperar.
Depois se esqueceu de tudo, de si e do planeta onde estava, também do Space-Jet.
Dormia tranqüilamente.
8

Em Terrânia, era o dia 24 de janeiro de 2.045.
Neste dia, voltou à baila o assunto Crest. Reginald Bell, para os amigos simplesmente Bell ou o gorducho, veio em disparada pelo corredor. Não reduziu a velocidade ao entrar no escritório de Rhodan. Empurrou a porta e já ia berrar, quando...
Sabia que era você — disse Rhodan, tranqüilo.
Por uns instantes, Bell não soube o que dizer. Estava um pouco perplexo, mas logo depois prosseguiu:
Desde quando você consegue me seguir telepaticamente?
Bobagem! — disse o homem alto, refugiando-se da pergunta do amigo. — Não sigo ninguém, muito menos você, como sabe muito bem. Mas o negócio é que existe só uma pessoa que entra aqui sem bater.
Bell enrubesceu. Certamente não de acanhamento, mas de indignação. Era um homem muito perspicaz. Seu temperamento, no entanto, estava no mesmo nível que sua perspicácia e sentia um grande prazer em fazer brincadeiras com os amigos.
Lá fora está sentado um desgraçado de um maluco — começou Bell. — Está me chateando há mais de uma hora. Você sabe o que este sujeito pretende?
Veio para tratar do monumento a Crest. Fui eu quem o mandei chamar.
Você o mandou o quê? — perguntou Bell decepcionado. — Este cara de gaiato não vai conseguir esculpir nem um anão de jardim, que dirá então um monumento para o velho cientista!
Rhodan olhou para ele com desaprovação.
Este “desgraçado maluco”, como você o chamou, é Mangelmann, o escultor mais competente da atualidade. Você devia saber disso. E se um dia necessitarmos de figuras de anão de jardim, não precisaremos procurar muito por um bom modelo.
Estava mais do que claro, qual era o modelo a quem Rhodan se referia. Bell ficou de cara séria.
O senhor sabe se Crest aceita a idéia de se fazer um monumento em sua honra? É um homem calado, que fez tudo com simplicidade. Mas, a quem que eu estou falando isto? Acho, porém, que não estamos seguindo a mentalidade de Crest se dermos uma encomenda desta ao escultor Mangelmann.
Perry Rhodan concordou. Nos seus olhos castanhos, parecia que, por um momento, vislumbrava sua verdadeira idade, não aquela que o corpo manifestava.
Não tenho dúvidas de que Crest se oporia a isto — concordou Rhodan. — Não se esqueça, porém, de que erguemos este monumento não para ele, propriamente, mas para nós. É sempre bom lembrar aos terranos que criaturas de outros sistemas podem ser nossos amigos também. Outras inteligências do espaço não têm de ser forçosamente nossos inimigos.
Estou compreendendo seu pensamento, Rhodan. Devo mandar o homem entrar?
Naturalmente — respondeu Rhodan.
Mangelmann entrou. Um homem baixo, quase que achatado, dando a impressão de afogado em seu desajeitado paletó. Seu rosto era moreno, sua idade, porém, difícil de calcular. Educado e calmo. Sua voz tinha uma ressonância muito agradável.
Rhodan passou às suas mãos duas grandes fotos que estavam sobre a mesa.
O senhor pode fazer alguma coisa com isto?
Mangelmann olhou para as duas fotografias.
É, mas... — começou ele hesitante.
É ele mesmo — disse Bell de seu canto.
Rhodan se levantou, deu a volta pela mesa, colocando-se atrás do escultor e olhando as fotografias por cima de seus ombros.
Não lhe podemos oferecer o modelo vivo; Crest, infelizmente, está impedido.
Compreendo — disse Mangelmann, em voz baixa.
Não é isto — disse o administrador, sorrindo. — Ele não está morto não.
Irresoluto, o artista virava as fotos de um lado para outro. Depois, dirigiu-se a Rhodan e disse com voz firme:
Está bem, sir, aceito a incumbência.
Não lhe damos prazo para terminar, exigimos, porém um bom trabalho. Seu trabalho será apenas passar este homem para a pedra. Quanto às dimensões, Mister Bell vai lhe dar mais detalhes. Quanto aos honorários, ficarão na proporção de sua obra.
Mangelmann se levantou. Seus movimentos eram rápidos e nervosos. Despediu-se e Bell o levou até a porta.
Um homem formidável! — disse Rhodan, quando já estavam sozinhos.
Para você, cada um tem um lugar fixo — disse Bell secamente. — Existem os homens bons, ruins, bobos, inteligentes. Cada um está catalogado cientificamente.
Sinto, porém, grande dificuldade em catalogá-lo cientificamente — disse Rhodan. — Você não se enquadra bem em nenhuma classificação científica.
Sou realmente algo fora de série — disse Bell cheio de si.
Neste dia, o nome de Crest não foi mais mencionado.
No dia seguinte, porém, não se falava sobre outro assunto.
9

Pelo menos na maior parte da Galáxia, todos os seres que respiram oxigênio necessitam de certos intervalos para repouso.
Golath estava enfrentando um problema: ter de dominar seu cansaço. Sua vida iria depender deste resultado, ou seja, agüentaria ou não sem dormir. Construíra um abrigo contra a chuva, mas a ventania o carregara para longe.
O pior é que nem Zerft, nem Liszog voltaram para junto do Space-Jet. Seria estupidez ir procurá-los. Não podia abandonar seu posto. Talvez até o velho arcônida estivesse esperando por perto, ali no alto da rampa, aguardando pela hora em que ele, Golath, se ausentasse.
É claro que não podia passar pela cabeça do unitro que o velho e depauperado arcônida tivesse vencido seus dois colegas. O que podia supor é que os dois se tivessem destruído mutuamente, num duelo de monstros. Ou ainda, que Zerft convencera Liszog a ir com ele pelas florestas à procura do velho. E por isto, Liszog ainda não voltara com o restante das peças de que tanto necessitava para confeccionar um gerador de campo magnético.
Golath recostou-se contra o único galho que restou do abrigo, arrancado pela fúria da tempestade. Seu corpo estava enrijecido de frio. Às vezes dava umas voltas correndo em torno da pequena espaçonave, para ativar a circulação sangüínea. Foi obrigado a usar a forma primitiva quando da lavagem da tromba. Não havia outro jeito. Embora não houvesse ninguém para ver, chegou a sentir vergonha. Como um selvagem, arranjou uma vara com folhas na ponta. Era uma verdadeira tortura, em comparação com os lavadores automáticos.
O vento frio o incomodava, zumbindo nos seus ouvidos. O chão estava tão fofo que atolava até a metade da canela, nos lugares mais baixos. Quando sentava, seus quase cento e cinqüenta quilos cavavam uma depressão no solo.
O lago, geralmente calmo, tinha agora ondas de mais de dois metros de altura. Golath não podia vê-las, pois a escuridão era total. Ouvia, porém, seu forte bramido contra a areia da praia.
Num dado momento, a ventania atirou um pequeno animal, que veio bater no ombro do unitro, agarrando-se aí. O coitadinho começou a guinchar, obrigando Golath a retirá-lo com a tromba. Por muito tempo, o bichinho continuou a incomodar os ouvidos do unitro.
Depois disso, Golath pegou no sono. Sonhos horríveis povoavam-lhe a mente. Mas, de repente, acordou. Escutara um ruído estranho. Abriu os olhos assustado, sentindo um tremor de frio em todo o corpo. Não era nada. Foi apenas o galho que o apoiava que quebrou sob seu peso.
A noite parecia sem fim. Acordou muitas vezes, pensando que o arcônida tivesse chegado, mas era sempre o barulho da ventania. Tentou convencer a si mesmo de que o velho arcônida não teria força nem coragem para enfrentar a tempestade. Mesmo assim, a diminuta possibilidade do aparecimento do velho teimoso não lhe dava tempo para descansar.
Nunca, como naquela noite, Golath amaldiçoou tanto os juízes que os condenaram ao degredo. Pensamentos de vingança se apossaram dele. Se conseguisse pegar a graciosa espaçonave e voltar triunfante para sua pátria, sua primeira ação seria vingar-se de quem lhe impusera castigo tão injusto.
Durante estas últimas horas, a indignação se avolumava no íntimo de Golath. De início, era apenas comiseração consigo mesmo. Depois, começou a tomar corpo o sentimento da injustiça que fizeram contra ele. Nesta altura, não havia mais espaço para um pensamento lógico.
Depois, veio o ódio, a cólera cega contra tudo que o impedia de alterar sua trágica situação. E para esta cólera imensa, não havia válvulas de escape. Agigantava-se dentro dele e, como a água num reservatório, ou transbordava ou rebentava.
Instintos animalescos vinham à tona, abafando a voz da razão. Não sentia mais nem o vento, nem a chuva fria. O cansaço também desapareceu, e com a gana de uma ave de rapina, ficou à espera de sua vítima. Aos poucos, estava ficando claro. O céu, porém, continuava coberto de nuvens.
Golath levantou, espreguiçou e respirou fundo. Estava preparado e disposto para a luta com o arcônida.
Venha logo, velho!”, pensava enfurecido.

* * *

E ele veio.
Arrastou-se pela escotilha semi-aberta. A tempestade cessara. Apenas a chuva continuava fina. Por toda parte, se viam pequenos regatos e poças d’água. O solo estava muito mole.
Crest agachou-se e fez massagem no pé inchado. Não sentia forças para se levantar. Seu corpo se recusava a obedecer-lhe. Sabia que estava doente. Durante toda a noite tivera sonhos febris e agora via que suas forças estavam sumindo, não davam nem para vencer aquele resfriado. Mas, seu estado físico não conseguia vencer sua força de vontade. Apesar de não ter disposição para se levantar, ainda confiava em si.
Esta determinação mobilizou as depauperadas reservas ou, talvez, produziu novas. Nasceu-lhe a obstinação contra a morte, isto é, não a queria de maneira alguma, antes de salvar o Space-Jet. Seria sua última missão em prol dos terranos.
Deixou os escombros da Kaszill e veio patinando pelo deserto de água e lama. Um fogo estranho cintilava nos seus olhos vermelhos. Esperou inutilmente pela manifestação do seu cérebro lógico.
Será que seu bom senso fora também vítima do esgotamento físico? Ou será que a febre não permitia que a voz da razão viesse à tona?
A cada tombo ou escorregão, aliás seguidos, surgiam novas forças. Em poucos minutos sua roupa encharcou-se.
Em dias de chuva, assim como aquele, Crest gostaria de estar sossegado em sua casa, atrás das janelas e com uma agradável temperatura. As gotas d’água bateriam na vidraça e desceriam em fios prateados. Veria a tranqüilidade do lago e teria uma sensação da Eternidade. Um dos robôs se aproximaria dele, trazendo um chá ou café bem quente, depositando a bandeja na mesa.
Não devia pensar nestas coisas. Deu a última olhada para trás. A Kaszill se transformara numa mancha escura. Talvez, nunca mais voltasse para revê-la.
Curioso... por que razão ainda não me arrependi por ter escolhido este planeta como minha última morada? — perguntou a si mesmo. — Perry Rhodan, quando souber do que está acontecendo por aqui, vai autocensurar-se. Muitas e muitas vezes, Rhodan me aconselhara a procurar lugares mais seguros, na própria Terra.
Parou um pouco para descansar. Em que situação encontraria seu adversário? Será que ainda estava tentando destruir o envoltório de proteção?
Estas indagações lhe produziram um calafrio no corpo. Em caso positivo, o unitro acabaria entrando no soberbo jato, síntese das últimas conquistas técnicas dos terranos.
E como é que o estranho indivíduo de tromba iria saber manejar aqueles instrumentos todos? E pior ainda, como iria descobrir a finalidade deles todos?
Estes pensamentos deram forças ao velho arcônida. Não devia é chegar tarde demais. Contra toda expectativa e contra sua vontade, dois adversários seus já foram eliminados. O último deles lhe seria o mais difícil. Seus lábios desenharam uma leve curva no rosto pálido. Estava chegando a hora da decisão. Crest tinha medo desta decisão, mas não por motivo pessoal.
O unitro estava mais do que tresnoitado, isto é, tinha mais de duas noites sem dormir, ao ar livre, com chuva fria e tempestade. Certamente que isto influiria no seu estado geral.
Crest começou a lembrar-se de seu grande amigo Rhodan, no primeiro encontro com ele. Naquele tempo, o administrador era um simples major. Foi o primeiro homem a descer na Lua com uma espaçonave, a celebérrima Stardust. A Astronáutica estava ainda engatinhando. Desde aquela época, Crest dedicou toda a sua vida exclusivamente ao bem da Terra.
Agora suas forças estavam chegando ao fim. Preocupado, apalpou sua arma.
Interessante como as armas das raças que se dedicam à Cosmonáutica são basicamente muito parecidas. Muito natural isto”, pensava Crest. “A finalidade delas é espalhar a morte e a destruição. Assim, chega-se, em todos os planetas, a uma forma ideal de arma de mão, fácil de ser usada...
O arcônida olhou para o lago. A margem estava no lado do declive íngreme e não dava para ver daqui. Chegara ao local onde a Solar System se detivera enquanto descarregavam a casa e o Space-Jet. Devido à chuva, poucos eram agora os sinais deixados pela gigantesca espaçonave, comandada por Rhodan.
O jato estava no lugar de sempre. Muito nervoso e fraco, Crest tropeçou à beira da rampa.
O unitro não era bobo. Procurara abrigo atrás do pequeno aparelho. O velho cientista reparou na quantidade de ferramentas e peças empilhadas na frente do jato. Certamente o unitro estava tentando romper o envoltório energético.
O mais rápido que pôde, correu para frente.

* * *

Num galeio sensacional, Golath saltou para dentro da cova, feita já há dois dias. Água e lama espirraram para os quatro cantos, enquanto o corpo de Golath se sentia protegido no fundo da cova.
Até que enfim o arcônida chegou”, pensou satisfeito.
Apenas por um instante, a sombra de Crest surgiu lá em cima, no início da rampa. Uma figura cambaleante, parecendo empurrada pela ventania. Antes que Golath pudesse apanhar a arma, o velho arcônida já desaparecera. Como um cão de fila, o unitro era todo ouvidos para qualquer ruído no meio da chuva.
De que lado viria o ataque? Se seus olhos não o estavam enganando, o velho cientista portava uma arma de raios térmicos de fabricação dos unitros. Isto significava que Liszog ou Zerft estava morto. Ou talvez os dois. De seu esconderijo, Golath via e ouvia tudo que se passava em volta. Tinha livre descortino sobre toda a rampa, o que lhe era uma grande vantagem. Quando o arcônida quisesse descer — e ele tinha que descer, se desejasse entrar na espaçonave — não teria nenhuma proteção na ladeira de areia. Ele, sim, estava bem protegido no fundo da cova.
Mas o velho não seria tão louco assim de descer diretamente para perto da espaçonave. O último dos degredados esperava que seu adversário, quando estivesse numa boa distância, arriscaria uma rápida descida direta. Mas nem isto o poderia ajudar, pois a praia era muito plana e não oferecia abrigo razoável. Só restava uma alternativa para o arcônida: enfrentá-lo em campo aberto, sem nenhuma possibilidade de cobertura.
Golath estava feliz. Antevia seu triunfo. A fim de enganar o adversário, abandonaria a cova no chão, e, logo a seguir, saltaria novamente para dentro dela, assim que pudesse disparar um tiro certeiro.
Mas dava a impressão de que o velho perdera a coragem. Por mais que forçasse a vista, a silhueta cambaleante não aparecia em lugar nenhum.
Ele vai querer continuar com sua tática de levar meu sistema nervoso ao desespero”, pensava Golath. “Mas não conseguirá.”
Não tinha dúvida de sua vitória. Estava preparado para todo e qualquer truque do adversário. Afinal de contas só havia mesmo um caminho cá para o jato: a rampa.

* * *

Mas existia outro. Crest continuou andando pela parte plana, até ter pelas costas a curva da ladeira, que o protegia dos olhos do unitro.
Teve que se utilizar dos pés e das mãos para chegar até a margem do lago. Sua idéia deu certo.
O barco ainda estava lá, onde ele deixara. Crest foi mancando pelo terreno ora arenoso, ora coberto por brejo. O sucesso de seu plano ia depender de que o unitro ficasse observando só a rampa que dava acesso direto ao Space-Jet. Nenhum dos três indivíduos de tromba sabia da existência do pequeno barco do arcônida. Pretendia se aproximar da espaçonave de barco.
De início teve a primeira decepção: o barco estava cheio de água. Durante a noite de tempestade e de altas ondas no lago, a água enchera a embarcação. Não ia ter força para emborcar o barco. Sem perder tempo, apanhou na praia uma pedra pontuda e procurou um trecho da popa, o mais alto possível do nível d’água. Bateu com toda a força, mas a pedra escapava de sua mão. Não ia conseguir nada desta maneira.
Sacou da arma. Não sabia o raio de ação da mesma, nem se a matéria de que era construído o barco não iria incendiar-se. O tiro abriu uma perfuração irregular. A fibra derretida espalhava um cheiro horrível, enquanto fragmentos incandescentes caíram n’água. Começou a sair água pelo buraco. Para apressar o trabalho, colocou uma pedra sob a quilha do barco, deixando-o em posição oblíqua.
A operação foi concluída mais depressa do que esperava. Rasgou uma tira larga do seu capote, que realmente não merecia mais este nome, e com ela envolveu um cascalho médio, que serviu de tampão para o buraco da arma de fogo. A pressão da água não seria tão forte para tirar a pedra do lugar. É verdade que a chuva continuava caindo, mas a quantidade era relativamente pequena e não o prejudicaria no pequeno percurso.
Um acesso de tosse interrompeu seu trabalho. Curvou-se, apertando os dois braços contra o peito. A febre parecia uma fogueira dentro dele. As dores eram violentas, tão violentas, que às vezes fechava os olhos. Será que já era o fim? Iria interromper tudo, a poucos passos de seu objetivo? Fez um esforço ingente e conseguiu abafar o acesso de tosse.
Mais um reinicio!
Os olhos úmidos estavam vendo melhor. Gemendo, empurrou o barco para dentro d’água. Levou alguns minutos até que conseguiu entrar, sentar e pegar um dos remos. O esforço foi tão grande, que teve de parar para respirar.
Seu papel em toda esta história não lhe parecia nem trágico, nem heróico. Estava apenas fazendo o que devia. Estava cumprindo o que prometera. Colocou a arma na proa e pegou o remo. O barco não era pesado e, além disso, carregaria apenas Crest. O suor lhe escorria pela face. O cabo do remo foi até o fundo mole do lago, e ficou preso em algo mais consistente. Fez uma pressão maior e, por fim, o barco foi se afastando da margem. Porém, neste instante, Crest perdeu o equilíbrio e escorregou para trás. O remo escapou-lhe da mão!
Estava já a vários metros da margem e o remo fincado no chão do lago. Crest sabia que não podia desistir. Estendeu as mãos para fora e as transformou em remos. Muito lentamente o barco chegou de novo à margem, e assim conseguiu puxar para fora o remo.
A primeira parte de seu plano, que acabara de executar, quase o matara de cansaço e a segunda... ainda seria muito mais difícil.

* * *

A superfície do lago mostrava um quadro todo diferente. Do fundo, se irradiava uma claridade de um amarelo-claro, cuja origem Crest não sabia explicar. As milhares de gotículas de chuva produziam círculos, em cujo centro se levantavam pequenas bolhas. Dava a impressão de um gigantesco quadro vivo, um mosaico oscilante, cujas pedrinhas eram as gotas, formando círculos. Apesar da fraqueza geral, da febre que o fazia suar, de todo o horror do momento, o arcônida não podia deixar de notar o encanto da natureza.
A claridade do fundo do lago parecia continuar um pouco no ar. Tudo indicava haver no fundo d’água uma substância irradiadora. Ufgar não falara nada a respeito, e certamente também não estivera no lago num dia de chuva e tempestade.
O barco ia avançando. Crest recolheu o remo e viu a silhueta do Space-Jet através da leve cerração na margem do lago. Não dava para ver o unitro. Devia estar bem escondido. Remou mais para fora, pois não devia se aproximar por aquele lado do adversário.
Com isso, no entanto, se expunha ao perigo de ser descoberto mais cedo. Se viesse, porém, do meio do lago, poderia surpreender Golath pelas costas. Felizmente o lago voltara à sua calma normal e o leme do barco não preocupava mais.
Quanto mais se aproximava da sua antiga estação, mais aumentava sua ansiedade. O que estava fazendo ali tinha um significado muito grande para a raça humana. Era importante para os terranos ficarem com a posse exclusiva da pequena espaçonave, que podia realizar transições com uma facilidade nunca vista. Do ponto de vista de segurança da Terra, era então de absoluta necessidade a conservação de seus segredos. Era mais do que razoável todo o cuidado de Rhodan a respeito daquele novo aparelho.
Agora, dependia de Crest, se a Terra iria ou não conservar em segredo seus avanços tecnológicos. Esta responsabilidade era a única coisa que lhe dava ânimo. Estava pronto para fazer qualquer sacrifício pessoal em prol do Space-Jet.
Aos poucos, foi penetrando na zona perigosa. Até o momento, nada de novo. Monótona, a chuva continuava a cair. Crest não tirava os olhos da margem do lago. Seria inútil deitar no fundo do barco quando Golath começasse a atirar, pois a fibra de vidro não resistiria ao calor energético.
O velho e experimentado cientista sabia que se achava numa verdadeira armadilha, de onde não podia fugir.
Foi então que viu o adversário. Estava agachado na cova que abrira com seus colegas ao lado do Space-Jet. Seu rosto estava virado para a rampa, de onde devia descer normalmente qualquer pessoa que desejasse ir à casa ou ao aparelho ao lado. Movia impacientemente a tromba.
Sem o perceber, Crest prendeu a respiração. Daquela distância, com o movimento oscilante do barco, seria um mero acaso um tiro certeiro. Além de tudo, o arcônida não iria jamais atirar em alguém pelas costas, nem no pior de seus inimigos.
Parou de remar, a fim de que apenas as ondas tocassem o barco para frente. Apanhou a arma que deixara na proa. Se o unitro virasse para ele, teria pelo menos uma oportunidade. Via apenas a cabeça e às vezes também a tromba, que se agitava no ar.
Quais seriam os pensamentos que povoavam aquela cabeça semi-esférica?
Passou a mão na testa molhada pela chuva. Este simples movimento era o bastante para lhe provocar dores. Ali em terra firme estava o Space-Jet, relativamente perto, no esplendor de sua forma de disco voador. Entre ele e Crest havia, porém, o fantasma da morte.
O barco encostou na areia da margem. Tudo aconteceu sem nenhum ruído e o arcônida perdera toda a ansiedade de antes.
Vai ouvir ruído quando eu saltar”, pensava Crest. “Vou precisar das duas mãos para descer do barco. Como posso atirar nele, caso me veja?
O destino sempre cria situações inesperadas. Naquele momento, a vida de um homem dependia somente de um movimento de cabeça.

* * *

E Golath fez o tal movimento...!
O ruído de passos na areia atingiu-o com mais violência do que uma descarga elétrica. E uma amarga desilusão tomou conta dele. Tudo tinha sido inútil. O arcônida o surpreendera. Não desceu pela rampa. Na margem do lago balançava o barco vazio.
O ancião estava apenas a dez metros dele, empunhando uma arma de fabricação unitra. Seria inútil querer explicar a Golath a força destruidora daquela arma.
O ancião sorria. Naquela figura esfarrapada, esquálida, ainda vibrava muita força, tanto assim que ali estava ele ereto e orgulhoso — um arcônida das castas aristocráticas. Era a mesma atitude dos velhos arcônidas que, há muitos séculos atrás, desembarcaram em Unitro.
Jogue sua arma fora e saia desta cova, devagar! — ordenou Crest em intercosmo.
Golath simplesmente se deixou cair sentado na cova, espirrando lama no próprio rosto. A reação do velho foi lenta. Golath viu com que dificuldade ele corria pelo terreno barrento.
O unitro se ergueu de um pulo. Seu corpo enlameado se empertigou todo. Olhou por cima da borda da cova e soltou um grito de vitória.
O arcônida acabara de desligar o envoltório de proteção do Space-Jet e corria para ele. Quase hesitante, Golath levantou a arma na direção de Crest. Mas o astuto velho olhou para trás e se jogou no chão. Golath atirou e se agachou novamente no buraco. O terrível jato de fogo passou rente a Crest. O unitro não tivera sorte com o primeiro disparo. Quando levantou de novo a cabeça da cova enlameada, o velho já tinha passado para o outro lado do Space-Jet. Seria loucura atirar agora.
Golath pulou para fora do buraco, atirou-se no chão e começou a se arrastar na lama em direção ao jato. Se o arcônida tentasse entrar no aparelho pelo outro lado, teria que impedir a qualquer preço.
O unitro sentiu frio quando tocou no aparelho com a extremidade da tromba. Mas já estava quase de posse do precioso objeto voador, no limiar do tão sonhado triunfo. Seria o primeiro desterrado a voltar para Unitro. Seria recebido com honras de herói e reintegrado na sociedade, recebendo o respeito e o reconhecimento da nação pelo feito heróico e de inestimável valor científico-cultural.
Seu rápido devaneio foi interrompido pela descarga da pesada arma de Crest. Bem junto dele curvou-se um dos apoios de sustentação do aparelho, e o metal líquido começou a gotejar na lama.
Está destruindo sua própria espaçonave!”, pensou o unitro, desesperado.
Tinha que impedir isto. Suas mãos atingiram a base exterior do disco. Conseguiu subir na parte quase plana da mesma. O metal polido achava-se muito escorregadio devido à água da chuva. A cúpula central não estava muito longe. Golath foi escorregando até lá. A arma pesada fazia um barulho estridente ao roçar a chapa de aço.
Ziiiip!
Golath se levantou. Era o ruído típico de uma escotilha que se abria. Pulou para o outro lado da cúpula, mas o arcônida o estava esperando de arma engatilhada. A roupa toda esfarrapada pendia ao vento fraco, os olhos vermelhos estavam semicerrados.
Abriram fogo ao mesmo tempo. Antes que Golath tivesse notado que, com o disparo, havia escorregado para trás, um golpe pesado o atirou para longe. Caiu, soltando um grito surdo.
Fui atingido!”, pensava nervoso.
Queria se levantar, mas as pernas se recusaram. Não tinha coragem de olhar para si mesmo. No entanto não sentia dor.
Apoiou-se no antebraço e assim conseguiu se arrastar novamente até a cúpula. O arcônida estava prostrado na escotilha, ainda com sinais de vida, porém seriamente atingido no ombro.
Um unitro é muito resistente, meu velho!”, pensava Golath. “É um osso duro demais para você.”
Apoiou o peso do corpo no ombro esquerdo.
Estava tudo acabado! Jamais voltaria para Unitro. Seu ferimento era mortal. Mas o arcônida também tinha de saber que perdera seu belo Space-Jet. Jamais sairia deste planeta.
Tinha que morrer de olhos abertos.
Arcônida! — exclamou Golath.

* * *

Crest abriu os olhos. O unitro o atingira no ombro e também estava certo de que não sobreviveria. Mas, não havia nisso nada de trágico. Salvara o precioso Space-Jet. Olhando para trás, parecia-lhe totalmente impossível chegar a uma vitória, como chegou.
Mantive minha promessa! — sussurrou ele. — Salvei o Space-Jet, Rhodan.
Queria sorrir, mas as dores do ferimento transformaram o sorriso em amarga careta. Enquanto isto, o unitro aproximou-se se arrastando.
São fantasias minhas — disse Crest. — São alucinações febris de um quase moribundo.
Arcônida!
Era a voz furiosa de Golath. Aquele monstro coberto de lama era uma realidade. Estava ali, e seu olhar de vencedor devorava o adversário desprotegido.
Arcônida! — a voz era puro ódio e seu dono não sabia o que era compaixão.
A chuva caía ritmada na chapa polida do disco. O unitro reparou como o ancião tentava levantar a pesada arma. O rosto horrendo, de onde saía a tromba, estava fechado, numa expressão de ódio.
Ele me odeia”, pensou Crest, “não por minha pessoa mesmo, mas só por ser arcônida.”
Apontou a arma térmica para baixo, na direção do unitro. Talvez este movimento tivesse assustado o pobre Golath, pois seu tiro passou muito acima da cabeça de Crest. Mas a pontaria de Crest fora certeira. Desta vez não havia dúvida: o único desterrado vivo estava realmente morto.
Os arcônidas exploraram seu planeta e escravizaram sua raça — sussurrou o velho cientista. — E agora você morreu nas mãos de um arcônida.
Por muito tempo, ficou ali imóvel, olhando o corpo de seu ex-adversário. A primeira coisa que fez quando conseguiu se mover, foi jogar fora a pesada arma.
Olhou em volta. Tinha que entrar em contato com Terrânia.
Seria importante que Rhodan mandasse apanhar o Space-Jet antes que outros interessados aparecessem.
Até o hipercomunicador, teria de andar uns dez metros. Isto lhe parecia quase impossível. Mas tentou se arrastar para lá.
Depois que a gente executa o mais difícil e pensa que já acabou tudo, vem ainda muita coisa desagradável.
Com o esforço de sua vontade férrea, ia ganhando alguns palmos. Escorregava mais do que se arrastava. Depois de vencer a metade do trecho, perdeu toda a visão. Mal conseguia distinguir vultos indecisos. O ponto retangular bem claro era o hiper-transmissor.
De repente as dores lhe desapareceram. Tinha a impressão de estar no centro de uma grande esfera que o isolava de qualquer ruído. Nunca experimentara uma sensação deste tipo.
Devo estar morrendo”, pensava.
Mas não se assustou com isto. A calma era a mesma de sempre. Tudo teria de terminar um dia...
Reparou que estava deitado, sem fazer nenhum movimento. Mas tinha de continuar, centímetro por centímetro.
Devia ter fechado a escotilha — lembrou-se ele.
Ia se aproximando do retângulo claro. Este tornava-se cada vez maior, mas menos claro do que antes. Pela escotilha aberta, entrava o ar frio que lhe roçava o rosto. De qualquer maneira, estava agüentando.

* * *

O Tenente Bowler, sentado à sua mesa de trabalho, girava distraído uma esferográfica entre os dedos finos e bem tratados. Estava na Central de Rádio de Terrânia, pertencente ao Ministério de Defesa Solar. Em torno dele, as várias telas do hipercomunicador, enquanto as instalações de rádio achavam-se logo à sua frente.
Bowler era um oficial jovem, de pouca experiência. Sabia que estava ocupando o posto de radiotelegrafista somente porque eram dias calmos, sem nenhuma complicação. Olhava para os outros telegrafistas, alguns dos quais estavam em ligação com longínquos planetas.
Ouviu o ruído característico que antecede uma mensagem do hipercom. Incontinenti desapareceu dele a figura do jovem brincalhão e, empertigando-se todo, inclinou-se para frente com toda concentração. O rádio vinha pelo canal de urgência urgentíssima. Isto significava apenas que algum dos elementos de ligação direta com o chefe queria fazer uma ligação. O código secreto para este canal era um raro privilégio de pouquíssimas pessoas.
Bowler ligou a tela do videofone através da qual viera o sinal de alarme. Depois dos primeiros sinais que geralmente parecem um tremido confuso, a imagem ficou nítida.
Bowler viu o interior de uma nave, era um tipo mais aperfeiçoado do Space-Jet. Mas não se via ninguém.
De repente viu uma mão. Estranhamente rígida, erguia-se ela no canto inferior da tela. Bowler não conseguiu se desfazer de uma sensação de algo trágico. A mão se movia como se quisesse apanhar qualquer coisa.
Depois ouviu a voz, uma voz que lhe penetrou na medula dos ossos. Nunca mais esqueceria o tom daquelas palavras:
Crest... Crest falando — veio a voz arranhada do alto-falante.
Bowler saltou da poltrona. Sua inquietação se transmitiu aos demais operadores, que abandonaram seus lugares e correram para junto dele. Ninguém disse nada.
Senhor! — disse Bowler excitado. — Pelo amor de Deus, senhor, que aconteceu?
A mão foi abaixando lentamente.
Bowler estava branco como cera. Seu desejo era pegar aquela mão que surgira no canto de sua tela.
Diga... Rhodan... venha buscar... jato, Space-Jet.
O final foi mais um gemido. Bowler estava pálido, com o rosto coberto de suor.
Senhor! — disse trêmulo.
A ligação continuava, mas Crest não falava mais. Com as mãos tremendo, apanhou o registro automático de toda a ligação. Ao se levantar, derrubou a cadeira. Os colegas abriram espaço para ele passar. O Tenente Bowler, o homem da elegância impecável, estava profundamente abalado.
Tenho que me comunicar imediatamente com Rhodan — disse.
Uma olhada para trás, lábios comprimidos, poucas palavras e uma ordem:
Interrompam a ligação!
Homens calados, ordem cumprida. Zumbido de algum aparelho, tique-taque monótono de outro.
Uma sala grande, mergulhada no silêncio.

* * *

Não havia mais nada a fazer. Talvez fosse bom ficar deitado ali, dando descanso àquele interminável cansaço. O intrépido arcônida, deitado de costas, estava de olhos abertos.
Assim é que um homem deve morrer!”, pensava ele. “Velho, contente e realizado.”
Cumprira o que prometera. O Space-Jet estava nas mãos dos seus donos, os terranos. Mãos jovens, fortes e empreendedoras.
Obrigado, amigo! — parecia dizer alguém a seu lado.
Um minuto mais tarde, Crest estava morto.
Morreu, como viveu: tranqüilo, ainda com um leve sorriso nos lábios.

* * *

Era a primeira vez na vida que o Tenente Bowler comparecia à presença de Rhodan, o Administrador-geral do Império Solar. Não estava nada contente com isto, pois estava vendo a tristeza profunda nos olhos castanhos do grande homem.
Rhodan olhava longe. Apertava entre os dedos a cópia do rádio de Crest.
Por favor, pode se retirar, Tenente Davis Bowler. Obrigado — disse com aparente calma.
Bowler bateu a continência e saiu o mais depressa que a disciplina lhe “permitia”.
Rhodan ligou o microfone da sua mesa.
Fala Rhodan. Tente encontrar Mr. Bell e diga-lhe para vir imediatamente a meu escritório.
Esperou pela confirmação. Depois se recostou na poltrona.
Devia ter acontecido algo de imprevisto no planeta Crest. O grande arcônida, aparentemente, conseguiu salvar o Space-Jet, morrendo naturalmente em decorrência disto.
Um pouco mais tarde, chegou Bell. Conhecia Rhodan muito bem, para saber que não era hora de brincadeiras.
O administrador se levantou. Seus olhos fitaram o velho amigo, um dos que ainda lhe restavam.
Bell — disse em voz baixa — vamos buscar nosso amigo Crest.





* * *
* *
*








Ergueram na Terra um grande monumento a Crest — a ele, o grande arcônida que, viajando à procura do planeta da imortalidade, veio parar exatamente na Terra.
Por sua vida, toda devotada ao bem da humanidade terrana, vida esta coroada pela morte heróica em defesa dos mais altos interesses do Império Solar, Crest tornou-se imortal. Mas de uma maneira diferente da que sonhava quando era jovem...
Com o desaparecimento de Crest, começa uma nova época da futura História da Humanidade.
Em A Estrela do Destino, o centésimo volume da série, momentos eletrizantes estão por acontecer...

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