terça-feira, 30 de agosto de 2016

P-101 - O Globetrotter das Estrelas - Clark Darlton [Parte 3]

Seria uma armadilha?
Rhodan recusou a idéia. A inteligência daquela massa amorfa não era suficiente para tanto. Até agora ela só conhecia uma arma contra os terranos: imitação de seus corpos. Como teria chegado então à idéia de plasmar uma falsa elevação? E com que finalidade?
Um grito agudo arrancou Rhodan de seus pensamentos. Levantou-se de um salto.
Ao lado de um tenente — o bravo oficial artilheiro da Fantasy, Brazo Alkher — surgiu lentamente uma bolha que se transformou numa figura humana, com braços, mãos e pernas. Apenas, sem o rosto.
O Major Krefenbac reagiu com incrível agilidade, arrancando a arma e pulando entre Alkher e o monstro. Seu disparo liquidou a massa cinza, antes que ela pudesse agir.
Rhodan respirou aliviado. O ser misterioso não era um perigo direto, mas suas constantes investidas deixavam o pessoal de Rhodan, por causa do desgaste emocional, extenuado.
Ao aparecer o segundo monstro, Rhodan ordenou a retirada.
O sol já estava mais alto e conseqüentemente sua luz bem mais forte. Depois de outra marcha de uma hora, Rhodan parou e pediu que Claudrin lhe passasse um binóculo. Estudou demoradamente a saliência surgida uma hora atrás, que não podia distar mais de cinco quilômetros. O que lhe chamou a atenção de início foi a coloração mais clara. A “pele” do ser orgânico era mais escura. A luz do sol se refletia muito melhor na “corcova” do que na superfície normal. Já esta constatação vinha confirmar a seguinte suposição de Rhodan: a saliência era feita de um outro material.
Vamos continuar — disse apontando para frente. — Pode ser que, na próxima noite, já possamos dormir tranqüilos. Depois, passou-lhe pela cabeça uma idéia, que, por incrível que fosse, tinha ficado no esquecimento. Era Gucky, o rato-castor!
Bastou o pensamento de Rhodan e, no mesmo instante, Gucky se rematerializou ao lado de seu chefe.
Gucky, você está vendo aquela colina? Dê um pulo até lá e veja de que é feita. Mas não demore.
O rato-castor estava feliz por ter recebido uma missão. Confirmou o pedido de Rhodan com um movimento de cabeça, concentrou-se para o salto de teleportação e desapareceu. Não demorou dez segundos, estava de volta.
Uma ilha, Perry, uma ilha de pedra. Mas a altura dela, a partir do mar do plasma cinzento, não vai além de vinte metros.
Dentro de alguns anos, ou talvez antes, vai acabar também desaparecendo — disse Rhodan. — Ótimo, Gucky! Assim, todos já sabem a direção de nossa marcha.
Tiveram que se defender mais duas ou três vezes de ataques do monstro e atingiram o alto do rochedo duas ou três horas depois do meio-dia. Media mais ou menos trezentos metros de comprimento por cem de largura. Não muito grande, completamente árido, sem vestígio de vegetação. Mas era chão firme, rochedo de fato. Rhodan imediatamente escalou guardas, formando um anel de vigilância em torno da ilha de pedra. Podia-se presumir que as imitações humanas tentariam invadir a ilha, assim que o ser descobrisse que ela oferecia abrigo para os terranos. E, como a experiência demonstrava, ele não demorava muito para descobrir certas coisas.
O sol já estava se inclinando no horizonte, quando se deu o esperado ataque. Muito tempo antes, Rhodan e sua gente puderam observar como as imitações foram se levantando do solo, em volta da ilha de pedra. Estas imitações talvez fossem a única maneira que o monstro tinha para atacar a ilha. O solo continuava com a aparência de sólido e imóvel, talvez apenas se abrindo, a fim de receber suas vítimas, se houvesse tempo para isto.
No alto do rochedo estava Rhodan, como um general-de-campo. A visão de lá era excelente para todos os lados. Distribuíra os setores de defesa entre seus oficiais. Conservou Gucky ao seu lado, pois precisava dele para transmitir suas ordens.
A legião de imitações se pôs a caminho. A uns três metros de Rhodan, estava o mutante de duas cabeças, Goratchin. O russo era propriamente um aleijado de nascença e sofrera muito em sua pátria, devido às duas cabeças, até que Rhodan o admitiu no Exército de Mutantes. Nos cérebros de suas duas cabeças é que Goratchin produzia as terríveis centelhas de detonação, que permaneciam inofensivas e ineficazes, enquanto não se reunissem num determinado foco. Neste momento, então, dava-se invariavelmente a explosão nuclear.
Rhodan fez um sinal para o “detonador”.
Ali no outro lado, aquela aglomeração, Goratchin. Destrua aquilo tudo.
O mutante compreendeu a ordem. Um de seus rostos mostrava um sorriso tranqüilo, enquanto o outro continuava sério. Nem sempre as duas cabeças estavam de acordo.
A cabeça direita estava se concentrando na mira e aos poucos também a outra cabeça se virou para o ponto visado, até que os dois pares de olhos se concentraram no mesmo alvo, e os impulsos detonadores se encontraram no foco escolhido.
Os homens, ofuscados com o descomunal clarão, levaram as mãos aos olhos. Explodiu uma bola de fogo no meio das imitações do corpo humano, crescendo rapidamente e dissolvendo todas as figuras, que penetravam no solo, em forma de um líquido escuro. Na “pele” do ser inteligente se abriu uma grande vala, quando recebeu a matéria incandescente e líquida.
O cogumelo atômico se ergueu no céu, como um sinal de advertência de que havia ali uma inteligência superior: a inteligência humana, que era capaz de se defender.
A bola de fogo se extinguiu, mas a vala cavada na superfície do planeta continuou. Gucky, que Rhodan enviara para investigar o local da explosão, informou que a massa incandescente desaparecera, mas a vala não se tornara a encher.
Goratchin desencadeou mais três explosões. Depois dessas detonações, o plasma inteligente desistiu de outros ataques. Foi realmente inteligente para compreender a inutilidade de seus esforços. Levaria agora muito mais tempo para inventar outra tática de ataque.
Rhodan estava mais tranqüilo. Na segunda batalha, também foram os terranos os vitoriosos. Apesar do justo regozijo pelo sucesso alcançado, a situação não melhorara em quase nada. Estavam ainda presos num planeta deserto e sem nenhuma esperança de serem salvos. Os víveres não poderiam ser renovados e a água estava escasseando. Se alguém não tivesse captado o pedido de socorro, seu fim seria trágico. O pior era esta clara evidência dos fatos.
5



O Capitão Graybound necessitava somente de pequenas observações para chegar à mesma conclusão que Perry Rhodan e assim esclarecer o mistério do planeta.
Não é nenhum milagre — constatou Rex — o fato de que o analisador aponte apenas matéria orgânica. Portanto, trata-se de uma ameba, não é verdade?
Não afirmei isto — disse Graybound categórico. — Não sou nenhum cientista. Em todo caso, não se formam seres vivos independentes, lá embaixo, no planeta. Mas há somente um ser coletivo que, com o tempo, foi se ampliando. Não me pergunte por que se deu isto. O fato é que não queria estar na pele daqueles infelizes que aterrissaram no planeta.
Deve ser por isso que seu rádio parou... estão todos mortos.
Será possível?
O capitão parecia não querer se convencer da morte dos náufragos. Olhou para baixo, para o local onde fizera os disparos com os canhões energéticos da Lizard, que dissiparam as imitações do corpo humano.
Você acha que a gente consegue sobreviver aos ataques deste monstro orgânico? — era a dúvida de Rex.
Quer apostar? Podemos aterrissar e dar uma olhada por lá. Saberemos então se tem ou não sentido procurar por sobreviventes.
Aterrissar? Você ficou maluco? — indagou Rex, horrorizado.
Totalmente maluco — repetiu o papagaio.
Mas ninguém lhe deu atenção nem ouviu o terrível grasnado com que expressou seu protesto.
E por que não? É mais fácil destruir plasma do que metal ou outros materiais anorgânicos.
Rex sacudiu a cabeça.
Não, não posso concordar com você. O que vai ganhar atirando feito um louco no monstro? Você não pode matá-lo, pois é grande demais. O que devemos fazer é procurar os sobreviventes.
Era realmente um argumento sadio, que o capitão tinha que aceitar. Foi ainda com alguma hesitação que ele se separou da visão majestosa do funil fosforescente, provocado no planeta vivo pelos disparos de sua artilharia.
Por mim, vamos lá — disse ele, para logo depois acrescentar: — Mas não vá pensar que eu estou cedendo às suas exigências. Este negócio de aterrissar era uma simples brincadeira minha. Queria saber qual a sua reação.
Depois de, com estas palavras, ter resguardado seu prestígio, e também sua autoridade, deixou o comando nas mãos de Rex e ficou olhando para as telas.
A Lizard foi descendo devagar, seguindo um paralelo imaginário. Poderiam levar até dias para encontrar os sobreviventes...
Voavam para o oeste e ultrapassaram a trajetória do sol, mas então era noite para eles. Graybound ligou os grandes holofotes que varriam a superfície do planeta com um largo rastro de luz. A Lizard diminuiu a velocidade. Se os procurados sobreviventes estivessem apenas cem metros fora da faixa de luz, não seriam vistos. Mas Graybound contava naturalmente que trouxessem consigo pelo menos foguetes de iluminação, ou mesmo armas energéticas, que chamariam a atenção.
A noite passou sem nenhuma novidade. É verdade que fora muito curta, de poucas horas, pois voavam na direção do sol.

* * *

Acho que isto não tem sentido — disse Rex Knatterbul resignado, quando o sol estava se levantando pela quarta vez.
Agora sou eu que não vou desistir — disse o capitão irritado. — Perdemos quase dois dias de viagem. E agora faço questão de ver com meus olhos estes bonecos bobalhões sem cabeça, lá de baixo. Quero ver também estes oficiais idiotas que desceram num planeta, sem estudar primeiro sua superfície. Quero dizer a eles como são estúpidos e que, da próxima vez, devem ficar em casa e deixar a cosmonáutica para gente mais experimentada, como eu, por exemplo. Acho que devem criar gado e tirar leite de vaca.
Graybound estava muito inspirado e prosseguiu:
E o governo da Terra ainda gasta dinheiro com estes bestalhões. Mandam cabeças-de-vento dirigir naves caríssimas nestas regiões da Galáxia e depois se admiram de que eles não regressam. Puxa! E a mim é que eles queriam botar em reciclagem? Os coitados não sabem nem manejar os velhos aparelhos. Miseráveis gargantas, e cheios de prosa fiada.
Vagabundos! Burros quadrados! — era o papagaio que estava aplaudindo com entusiasmo, talvez para poder sair da gaiola.
Mas Graybound não tinha tempo para ele.
Vamos continuar — ordenou o capitão. — Vou tirar uma soneca. Daqui a duas horas, me chame.
O navegador estava contente por ficar algum tempo sozinho. Ligou o automático, para que a nave continuasse na mesma rota, e foi para o posto de observação do seu comandante e capitão.
Não conseguiu ver a ilha de pedra à direita, no horizonte, e os restos do cogumelo de fumaça, pois estava mesmo exausto. Quando Graybound o substituiu, falou com consciência tranqüila:
Nenhum fato importante, capitão.
Dizendo algo ininteligível, o capitão assumiu seu posto. Para não ficar tão sozinho, tirou Toureiro da gaiola. O louro se expandiu numa alegria louca e barulhenta, pulando para o ombro de seu amo. E os dois juntos ficaram olhando para a tela.
O radiotelegrafista Smith havia ido também descansar um pouco. Mas, depois de uma ligeira refeição, voltou para seu, trabalho. Ligou para a escuta e percorreu todas as freqüências de onda, sempre na esperança de captar um sinal. É claro que seu primeiro objetivo era tornar patente aos olhos do chefe a importância do seu serviço, aliás indispensável a bordo de uma espaçonave. E o destino veio ajudá-lo...
O Capitão Graybound estava com os olhos fixos naquela superfície monótona, procurando alguma coisa que se movesse, quando o telegrafista irrompeu em sua cabina de comando, quase que lhe causando um susto.
Uma mensagem do rádio, senhor, com texto claro. Estão nos chamando.
Graybound deu um tremendo salto. O pobre louro perdeu o equilíbrio e foi ao chão, batendo as asas.
Texto claro! — disse depois de meia dúzia de palavrões e se encaminhou para a minúscula cabina de radiotelegrafia.
Afastou com um pontapé o banquinho que estava na frente, onde, aliás, Smith se sentava nas pacientes horas de trabalho.
Onde está o microfone?
Meio desarvorado, Smith chegou logo atrás de seu chefe. O pobre coitado imaginara bem diferente seu triunfo. Contava com uma paternal batidela no ombro, acompanhada naturalmente de uma frase mais ou menos assim: “bravo, rapaz, é assim que se trabalha com eficiência”. Mas, nada disso.
Quero saber onde está o microfone! — gritava o capitão enraivecido, sem saber por quê. — Como é que vou me arranjar nesta confusão de fios?
Com movimentos rápidos, Smith transferiu a ligação para o ramal externo.
Com muito pouco volume, ouviam-se palavras em inglês. Graybound se aproximou bem do alto-falante para poder entender.
Passaram a três graus. Necessitamos auxílio. Comunique-se conosco. Não aterrissar. Perigo de vida.
Isto eu sei, seus idiotas! — gritou Graybound com toda força no microfone, que já fora encontrado. — Dêem sua posição.
A voz do alto-falante desapareceu. A pessoa que estava falando devia ter sofrido algum choque. Voltou de novo, mas já era outra voz. Calma e segura, dizia ela:
Posição desconhecida. Transmitimos apenas com aparelho de pulso. Entendemos bem.
Isto é o principal — respondeu o vozeirão de Graybound. — Continue falando suas bobagens, que nós vamos determinar sua posição — depois, dirigindo-se a Smith: — Vá acordar o primeiro-oficial, mande-o vir correndo para cá.
Depois que Smith saiu, continuou o diálogo com o desconhecido.
O senhor é o comandante da nave acidentada? Ou aterrissou por que quis? O senhor bem que merecia que a gente o deixasse onde está...
A resposta só veio depois de alguns segundos.
O senhor me dá a impressão de ser um gozador, que gosta de se divertir à custa dos outros, tenho razão?
Graybound pareceu perder a fala por uns momentos. Mas logo depois resolveu soltar a língua com franqueza.
Que é isto, seu macaco pretensioso!? Foi burro demais, quando fez a sua aterrissagem! E ainda por cima atrevido! Estou gostando — fez um sinal com a cabeça para Rex que estava entrando na cabina às pressas. — Estou estranhando o senhor.
Nós também o estranhamos — veio pronta a resposta, num tom quase afável.
Graybound olhou zangado para o microfone, depois começou a sorrir. Quando seus interlocutores não se assustavam com seu modo de falar, gostava. Mas ficava furioso assim que notava qualquer pretensão de superioridade do outro lado.
Fale, excelentíssimo, fale bastante para que possamos localizá-los.
Basta simplesmente que o senhor circunvoe o planeta em maior altura para ver os cogumelos de poeira atômica, que circundam uma pequena ilha de rocha, onde conseguimos nos abrigar. Nela estamos livres do plasma.
Ah! Os senhores também já conseguiram perceber isto? — continuou Graybound no seu modo irônico. — Estava pensando que os senhores iam imaginar que se tratava de um pudim especial. Pessoal inteligente, hein? Parabéns!
Depois se lembrou do “cogumelo atômico”.
Cogumelo atômico? O senhor gastou bombas atômicas com estas desgraçadas figuras de barro? É muita honra para o brejo.
É, foi mais ou menos assim.
Rex, que estava ouvindo a conversa, já havia feito a Lizard subir o suficiente para começar a procura. Levou, talvez, dois minutos até serem localizados os cogumelos atômicos. A seguir, a nave do Capitão Graybound desceu naquela direção.
Suponho que o senhor seja comandante de um cruzador patrulha — continuou o Capitão Graybound, querendo saber com quem estava lidando, para tomar as devidas precauções. — Quantos vocês são?
Somos oitenta e um, gente modesta, sem nenhuma exigência. Ficaremos contentes se nos conseguir abrigar nos seus depósitos ou nos corredores.
Isso não! Nos depósitos não — recusou-se o capitão, muito assustado.
Depois prosseguiu, sem mudar o tom da voz:
Ah! Bobagem! E por que não? Mas eu lhe fiz uma pergunta e ainda não recebi resposta. Quem é o senhor? Como se chama sua nave?
Não temos mais nave e quem sou eu, o senhor vai saber logo.
Graybound teve que engolir este atrevimento. Neste meio tempo a Lizard estava descendo no sentido da ilha de pedra e quedou imóvel a uns cem metros de altura. Toureiro voara para a parte superior de sua gaiola. Empoleirou-se lá, sem dizer uma palavra. Seus olhos inteligentes acompanhavam tudo que se passava no posto de comando, como se entendesse alguma coisa. E quem sabe, entendia mesmo?
Agora, seria bom se o senhor aterrissasse — propôs a mesma voz pelo alto-falante. — É um rochedo maciço e firme.
Rex Knatterbul apontou para a tela do videofone.
A ilha está cercada pelos monstros de barro. Surgem do solo e estão caminhando para o rochedo. Se não nos apressarmos, o pessoal lá embaixo está perdido.
Vamos mostrar a eles o que a Lizard pode fazer.
Depois, pegando o microfone, falou com mais seriedade:
Uma aterrissagem agora seria muito perigosa. Protejam-se que nós vamos primeiro destruir estes monstros.
São lentos demais, e até que se aproximem da gente, teremos tempo mais do que suficiente para embarcarmos. O senhor compreendeu?
Compreendi, sim, mas esperem um pouco.
Graybound foi para o posto de comando e deu ordens para a artilharia ficar atenta. Fez um sinal para Rex e gritou:
Vamos embora!
A Lizard se precipitou num vôo rasante sobre os monstros, abrindo um tremendo fogo. A velha nave parecia um dragão de dez cabeças vomitando raios energéticos contra o solo cinzento, enquanto os vultos incandescentes se desfaziam numa massa fumegante.
Acho que chega — disse Rex. Graybound contemplava orgulhoso sua obra de destruição e fez um sinal para o tenente.
É verdade que não se consegue destruir o monstro, mas aqueles bobos lá embaixo sabem agora com quem estão lidando. Vão ter um pouco mais de respeito para comigo.
No posto de rádio, Smith se entretinha com os avisos do interlocutor desconhecido. Algumas palavras chegaram até a cabina de comando e penetraram nos ouvidos de Graybound. Sua barba ruiva começou a tremer e, bufando de raiva, pulou para fora da poltrona. Em dois galeios chegou até o franzino telegrafista. Empurrou-o estupidamente para o lado, tirando-lhe o microfone das mãos.
E agora, cale a boca, seu imitação de auxiliar de cosmonauta! — disse, gritando indignado. — Quer nos dar conselho, quando o senhor mesmo está sentado num formigueiro? Não fosse tão bobo, não estaria preso aí. A minha vontade seria sair daqui sem levá-los.
Felizmente, sei que o senhor diz isto de brincadeira — respondeu o desconhecido, parecendo não levar tão a sério as ofensas do temperamental capitão. — Agora, por favor, desça até a rocha.
Furioso, Samuel Graybound bateu com o pé no chão, deu um sinal de consentimento para Knatterbul e pegou novamente o microfone, para mais umas bravatas:
Quero lhe dizer mais uma coisa, seu sabichão intrometido, e preste bem atenção nisto. Com o velho Capitão Samuel Graybound não se deve brincar. Jamais se esqueça disto. Está bem, vou recebê-los a bordo de minha nave, porque é um dever humano. Mas os senhores vão ficar nas cabinas que lhes forem determinadas. Se eu pegar alguém bisbilhotando por aqui, eu o jogo no espaço. Está claro assim?
Claríssimo. Mas por que tudo isto? O senhor tem alguma coisa para esconder?
Graybound ficou vermelho, prendeu a respiração, mas não teve mais tempo de iniciar outra catilinária. Enquanto seu primeiro-oficial descia a Lizard suavemente sobre a rocha, o ar começou a cintilar na estreita cabina de rádio e do nada surgiu a figura de Gucky, bem na frente do capitão, em cima da pequena mesa.
O capitão olhou estupefato para o estranho animal de um metro de comprimento, pensando tratar-se de alucinação. Mas então, aconteceu algo que o fez mudar de idéia. Com voz chiada, Gucky começou a soltar o verbo:
Oh! Seu monstro sem-vergonha, seu mal-educado brutamontes! Seu traficante de trabalhadores forçados! Como se atreve a falar assim com o chefe? Seu verme nojento, pedaço de nada.
Os pêlos da nuca de Gucky estavam eriçados. Dos seus olhos, aliás tão calmos e sinceros, saíam chispas de cólera.
Graybound dera dois passos para trás e sua barba ruiva tremia de excitação. O animal furioso, que se achava em cima da mesa, devia ser realidade, embora o capitão não compreendesse como ele havia chegado até ali.
Além de tudo, ainda falava! Verdadeiro mistério.
Sabe com quem você dialogou o tempo todo? Com Perry Rhodan, o Administrador do Império Solar...
Parece que o mundo desabou para Samuel Graybound. Presente, futuro, planos e negócios, tudo foi água abaixo. Estava acabado. Era uma vez o Capitão Graybound, sócio da firma “Globetrotter das Estrelas”... E não havia nada para responder. Quebrado de corpo e alma, foi cambaleando para sua poltrona no posto de comando. Sentou-se, esquecido do mundo e de tudo.
Fui atingido por um raio! — lamentava-se desesperado. — Tudo que está acontecendo é verdade ou estou sonhando? Sim, acho que estou sonhando. Isto não pode ser verdade. Perry Rhodan, exatamente Perry Rhodan?
Sim, exatamente — confirmou Gucky, pulando da mesa para depois ficar pairando bem na frente do capitão.
Neste intervalo, Rex, que não se deixara perturbar em seu trabalho, desligou os motores da nave e, virando-se para trás, contemplou admirado o rato-castor.
Este desgraçado do Smith, telegrafista vagabundo! — comentou Graybound, tentando jogar a culpa no pobre rapaz. — Onde está ele?
Sob a mesa dos mapas de navegação, ouviu-se um gemido. Depois alguém disse em voz sumida:
Não estou me sentindo bem, senhor. Toda esta excitação...
Covarde — respondeu Graybound, e passando a observar melhor o fantástico animal na sua frente, perguntou: — Como é que você entrou aqui na nave?
Por teleportação, meu amigo. Você ainda não ouviu falar em Gucky? Sou eu.
Graybound começou a puxar nervosamente a barba.
Meu Deus! Gucky, você é, portanto, o prodígio que...
Como? Sou o quê? — perguntou Gucky, desconfiado.
Nada, deixa pra lá.
O velho capitão já estava mais manso, procurando uma solução para o problema em que se envolvera.
Vamos ver então o que se pode fazer. Rex, você vai dar um jeito de esvaziar um dos depósitos. Os ursinhos de pelúcia podem ser estocados no compartimento sete. Acho que, com camas de emergência e cobertores, se pode fazer uma espécie de dormitório. E para Rhodan e seus oficiais... hein?
Graybound ficou pensativo. Gucky sorriu compreensivo. Sabia com que tipos de problema o velho estava lutando. Naturalmente o temperamental capitão se esquecia de que estava diante de um telepata.
Rex saiu apressado do posto de comando, enquanto Graybound se agachou, a fim de acariciar o pêlo sedoso de Gucky.
Então, você é o corajoso e inteligente Gucky. É-me uma honra estar perto de você. Vamos andando, parece que o chefe nos espera.
E com sentimentos desencontrados, entraram no corredor que dava para a escotilha. Se conseguisse arranjar uns trinta minutos, tudo daria certo. Até lá, Rex teria conseguido uma acomodação garantida para a tripulação acidentada. Os demais depósitos estavam e ficariam trancados. Ninguém desconfiaria de nada.
Deixou todas as portas atrás de si bem abertas. De mãos dadas com Gucky, passeava ele garboso pelos corredores como que desfilando perante seus poucos tripulantes, que olhavam para ele de boca aberta, sem dizer uma palavra.
Foi aí que ele notou que Gucky já havia desaparecido há tempo e ele continuava andando pelo corredor como um demente de braço levantado. Seus homens deviam de fato pensar que ele estava caducando, ou talvez ensaiasse um novo tipo de dança.
6



O senhor deve mandar prender este sujeito sem-vergonha — disse o Major Claudrin.
O Major Krefenbac e Bell, que estavam ao lado, apoiaram a sugestão.
Está configurado o crime de lesa-autoridade — sentenciou o gorducho.
Rhodan sorriu, balançando a cabeça.
Que é isto, meu caro Claudrin? Para que tudo isto? O bom capitão não sabia com quem estava falando. Além disso, muita coisa que ele disse estava certa. Antes de aterrissarmos, nós tínhamos, de fato, que observar melhor o planeta. Não nos portamos como cosmonautas experimentados. Ele tem razão.
Claudrin empertigou sua figura maciça.
Como achar melhor, sir. Foi apenas um palpite meu.
Viram como a Lizard, parada a uns cem metros de altura, começou a descer brandamente. Depois, os motores silenciaram.
Mas, pelo menos um memorando bem enérgico ele deve receber — insistiu Bell. — Não se pode permitir que alguém nos xingue de burros quadrados.
Gucky já chegou lá — disse Rhodan. — Acho que ele lhe está transmitindo um memorando oral, bem enérgico mesmo. Mas agora, vamos esquecer isto. Lembrem-se, porém, que, sem o Capitão Graybound, estaríamos perdidos. Como parece, foi o único que captou nosso pedido de socorro. Devemos-lhe nossas vidas.
O grupo de segurança ainda estava distribuído em volta da ilha de pedia, mas os monstros não reapareceram. Será que desistiram do ataque ou esperavam que a outra nave cometesse o mesmo erro da primeira? Certamente jamais teriam uma resposta para isto.
Gucky se materializou ao lado de Rhodan.
Há uma novidade — disse bem baixinho — o velho capitão não é assim...
Já estava pensando isto — disse Rhodan, também sussurrando.
Seus fracos dons telepáticos davam para captar os pensamentos de Gucky. Quando, pois, o Capitão Graybound apareceu na escotilha aberta da Lizard e olhou para Rhodan, o velho globetrotter já estava visceralmente dissecado.
Foi pena que a tripulação da Lizard não estivesse toda ali para ver a reação do seu tonitruante capitão. Com uma agilidade inacreditável desceu pela escada, parou, respirou profundamente e se encaminhou para Rhodan.
Minha velha nave está à sua inteira disposição, sir — disse, assim que chegou perto de Perry.
Pegou a mão do administrador e a apertou firmemente.
Minha gente está preparando algumas cabinas para o senhor. Posso lhe perguntar por que motivo desceu aqui neste planeta horrível? Onde deixou sua nave?
Explodiu no espaço, a três anos-luz daqui. Aterrissamos neste planeta com um pequeno aparelho que acabou tragado pelo solo misterioso do planeta. Depois, fugimos e encontramos esta ilha de pedra. Foi mais ou menos tudo.
Oh! — disse o capitão, completamente sem jeito e acanhado. — Quer dizer então que sua aterrissagem não foi voluntária? Então peço licença para retirar tudo que eu disse.
Está certo — aceitou Rhodan, sorrindo.
Logo em seguida, sua atenção foi desviada por um furioso xingatório que vinha da escotilha da Lizard. Então alguma coisa de colorido intenso fez um ruído de ruflar de asas e acabou pousando no ombro de Graybound. Toureiro encontrara afinal seu amo.
Velho malandro! Maluco sem-vergonha — esganiçava ele para Rhodan, que curiosamente o olhava.
Bell abriu a boca e arregalou os olhos.
Não tolero isto — disse ele desesperado. — Uma ave deste tipo!
Graybound estava oscilando entre o acanhamento e a cólera. Mas teve uma boa saída.
É uma ave muito inteligente, às vezes, porém, indiscreta. Naturalmente não o conhece, mister Rhodan.
Depois disso, o capitão ficou muito sério e não falou mais.
Gucky, o rato-castor, nunca vira em toda sua vida um papagaio. E muito menos um que sabia falar e xingar o administrador do Império Solar de malandro e sem-vergonha. A boca de Gucky estava meio aberta, aparecendo o dente roedor. Seu olhar refletia melancolia. O único descontraído ali era mesmo o papagaio Toureiro. Bateu as asas e soltou a língua de novo:
Viva! Um dente só!
Gucky fechou a boca, sem dizer uma palavra.
A ave é inteligente, e como!”, pensava Gucky.
Depois de tantos perigos por que passaram, Rhodan estava se distraindo com aquele espetáculo. Até os outros oficiais chegaram mais perto. Nunca tinham visto o rato-castor ficar devendo uma resposta.
Graybound estava muito feliz com o espetáculo que seu papagaio estava oferecendo. Cada minuto ganho representava mais garantia para ele. Neste meio tempo, o pessoal estaria dando um jeito lá nos depósitos da Lizard.
Cara de pimentão! — berrou o louro, olhando de passagem para Gucky.
Mas seus olhos inteligentes demoraram por mais tempo no rosto vermelho de Bell. Não havia dúvida de que a brincadeira era para ele. Mas o gorducho não fez nenhum comentário e, disfarçando, engoliu a ofensa, sem saber como.
O Major Claudrin deu um passo à frente. Seu corpanzil fez Gucky e Bell ficarem encobertos.
Homem de Deus! — disse, dirigindo-se furioso para o Capitão Graybound, apesar do sinal negativo de Rhodan. — Por favor, vá apresentar seu circo em outra praça e não aqui diante de nós. Parece que o senhor ficou maluco!
Graybound olhou para o epsalense bem cepticamente. Embora Claudrin fosse mais baixo, tinha no mínimo o triplo da largura do homem que o fitava. O volume de sua voz ultrapassava tudo que Graybound já ouvira, e as mãos enormes, fechadas em punho, excluíam qualquer dúvida sobre seu eventual uso...
Graybound, porém, era um homem voluntarioso, portanto, sem medo.
É claro que respeito Rhodan”, pensou, “mas este troncudo aí?
Devia tê-lo deixado morrer na ilha de pedra — gritou com toda força, notando com satisfação que Claudrin empalidecera, mas se foi de ira ou de medo, não pôde saber. — Ao menos assim, o monstro teria o que comer por três ou quatro semanas.
O capitão deixou de lado o Major Claudrin, pois, entrementes, Bell se recuperara da surpresa, e aproximou-se mais. Observou com olhos indagadores o papagaio no ombro de Graybound.
Então, o que o senhor deseja? Toureiro não está à venda.
Eu também não estou aqui para comprá-lo — respondeu Bell. — É um papagaio comum — retomou ele, decepcionado.
Quem foi que o domesticou?
Antes que Graybound respondesse, apareceu na escotilha de subida da Lizard o primeiro-oficial.
Está tudo pronto para a recepção dos passageiros — disse ele. — Vamos subir?
Rhodan queria falar qualquer coisa com Graybound e tocou de leve com a ponta do dedo no seu braço. Toureiro deu uma rápida bicada, mas a reação de Rhodan foi surpreendente e acabou segurando o louro.
Assassino! — gritou o papagaio desesperado, procurando se livrar das mãos de Rhodan. — Socorro! Assassino e bandido! Somos pequenos contrabandistas...
Rhodan olhou para a ave com muita admiração, colocando-a de volta no ombro de Graybound e, ao mesmo tempo, piscou o olho amavelmente para este último.
Uma ave inteligente, como disse o senhor há pouco, capitão. Ainda conserva esta opinião?
É também um pouco indiscreta, não é? E nem sempre fala a verdade.
Era visível o esforço do capitão para mudar de assunto.
Posso lhe pedir que envie sua gente para nossa nave? Os alojamentos lhes serão mostrados por minha tripulação. Outra coisa, sir, ser-lhe-ia grato se conseguisse que cada um permaneça em seu lugar. O senhor compreende, minha nave não é muito nova — concluiu, meio desajeitado.
Pode estar tranqüilo, seguiremos suas instruções.
Graybound ficou esperando com Rhodan, ao pé da escada. Olhava com atenção cada um dos sobreviventes que passava diante dele para subir pela escada. Toureiro continuava resmungando alguma coisa e, de vez em quando, premiava um ou outro com títulos nem sempre agradáveis.
Gorducho! — disse para o Major Claudrin, que somente devido ao olhar persuasivo de Rhodan se absteve de estrangular o tagarela. — Espanador da Lua! — disse quando passou o Major Krefenbac, que era de fato alto e muito magro.
O velho comandante ria feliz com estas brincadeiras. Quando finalmente o Capitão Narco, que tinha apenas um metro e cinqüenta e sete, foi chamado de “anão de jardim”, Rhodan ficou mesmo muito curioso.
Isto não podia ser mero acaso. O papagaio não “despejava” assim as palavras, como fazem quase todos, e nem as repetia bobamente. Não, as usava com inteligência. Elas davam certo quase sempre.
Realmente... quase sempre?!
Voltaria mais tarde ao assunto do papagaio. Neste momento tinha uma importante pergunta para fazer, e só o Capitão Graybound poderia lhe responder...
Depois que todos estavam abrigados e o furor do Major Claudrin se abrandara,
Rhodan convocou John Marshall, pedindo-lhe que observasse, com muita calma, a mente de Graybound, em especial quando o capitão estivesse pensando em sua carga. Momentos depois se encontrou com Gucky e se dirigiram os dois para a cabina de comando da Lizard.
Não se tratava de ir contra os direitos do Capitão Graybound, mas, sendo sócio de uma empresa comercial, Rhodan tinha que olhá-lo do ponto de vista de Administrador do Império Solar, cujas prerrogativas especiais o colocavam como comandante-geral de todos os cosmonautas, mesmo dos comerciais. Se Rhodan desejasse permanecer no posto de comando, não haveria nenhuma lei que o pudesse impedir.
Decolar! — ordenou o capitão. Depois, dirigindo-se a Rhodan:
É muito apertado aqui na cabina de comando. Ocupe minha poltrona, eu posso ficar de pé.
Rhodan aceitou o convite e se sentou. Depois falou com a maior naturalidade:
O que que você está contrabandeando propriamente, Capitão Graybound?
Rex Knatterbul estremeceu e deu uns passos para frente. Pelo que se deduzia, Rex não conhecia ainda Rhodan, ou fingia não conhecer.
Posso atirá-lo para fora da nave?
Graybound fez-lhe um gesto impulsivo de ameaça.
Cale a boca, seu ignorante! Atirar Rhodan para fora da nave? Só rindo mesmo.
E respirando com dificuldade, continuou:
Falou “contrabandeando”, mister Rhodan? O que o senhor entende por isto?
Qual é a sua carga? — disse Rhodan sorrindo. — Nosso Gucky também é telepata.
Brinquedos e ursinhos de pelúcia. Para a criançada de Tuglan. Mas quando chegarmos lá, a criançada estará de cabelos brancos.
Ah! Ursinhos de pelúcia...? — repetiu, olhando para Gucky.
Houve troca de pensamentos entre os dois. Rhodan sabia agora o que Graybound também sabia.
E o que o senhor esconde dentro deles?
O capitão empalideceu.
Isto deve ser coisa do diabo. Tudo está dando errado para mim. Ah!... o desgraçado do rato-castor, com sua mania de ler os pensamentos dos outros”, refletia o capitão. “Só pode ter sido ele. O malandro contou tudo a seu chefe. Será que a gente não tem mais o direito nem de pensar?
Dê a partida de uma vez! — disse berrando para Rex.
O primeiro-oficial puxou para baixo a alavanca de partida e a velha nave se ergueu roncando. Em fração de segundos, a pequena ilha de pedra, aquela saliência de pedras que lhes salvara a vida, havia sumido.
Não se esqueça de assinalar nos mapas a localização deste sistema — disse Rhodan ao primeiro-oficial. — Quem sabe, um dia, voltaremos para cá em condições melhores?!
Depois, volvendo-se para Graybound, continuou:
Você não está confiando em mim, hein? Capitão, temos que ser amigos. O senhor me salvou a vida. Em vista disso, tem o direito de fazer um pedido. Se for possível, cumprirei sua solicitação.
Graybound olhava para Rhodan com ar de desconfiado. Depois foi cobrando ânimo e chegou a um quase sorriso.
No tocante à minha carga, mormente quanto aos ursinhos de pelúcia...
Isto, meu caro, está fora da categoria de pedidos... Não, não é como você está pensando. Negociar armas ou entorpecentes, sem nenhum controle, com povos estranhos...! Mas você contrabandeia medicamentos, porque são bem pagos em Glatra III. O fornecimento feito pelos aras é muito mais caro e, além do mais, uma mercadoria muito inferior. O que você está fazendo, Graybound, é uma coisa normal. É verdade que os medicamentos, conforme a lei, devem passar pela alfândega. Porém me parece que estas prescrições devem sofrer uma modificação... Mas que é isso? Você está fazendo uma cara esquisita.
Realmente, a fisionomia de Graybound era como se alguém lhe tivesse comunicado inesperadamente que sua nave fora seqüestrada. Agora os fios desalinhados de sua barba ruiva, aliás sempre bem tratada, davam péssima impressão. O próprio Toureiro estava meio abatido, de asas caídas e não se podia saber a razão de sua tristeza.
O que você tem? — perguntou novamente Rhodan, enquanto Gucky começou a sorrir. — Não há mais razão para preocupar-se, pode ficar tranqüilo.
Não é isto que me preocupa — respondeu o capitão, muito sério ainda. — Mas o senhor acha que o contrabando teria algum interesse quando não fosse mais proibido?
Rhodan controlou seu sorriso, compreendendo então a hilaridade de Gucky, sem no entanto lhe dar razão.
Você haveria então de contrabandear outras coisas, se os medicamentos ficassem liberados?
Não disse isto — respondeu assustado. — Disse apenas que teria menos graça.
Depois, dando um passo para frente, continuou:
Bem, agora termine seu jogo, mister Rhodan. Diga de uma vez que este é meu último vôo. Ou vou acreditar que o senhor vai me perdoar?
Sim, tem que acreditar nisso, Graybound — por uns instantes ficou olhando para Rex Knatterbul, que regulava o automático e fornecia os dados referentes ao salto de transição para o computador de bordo. — Quer dizer que você sabe onde estamos?
Graybound achou que não compreendera bem a pergunta.
Como? — perguntou assustado. — O senhor quer dizer com isto que se perdeu ainda antes da explosão em sua nave? — balançou a cabeça incrédulo. — Pode-se conceber uma coisa desta?
Não quis expressar seus pensamentos a respeito, mas Gucky não estava dormindo.
Está ficando de novo sem-vergonha — chilreou Gucky baixinho para Rhodan.
O capitão enrubesceu e, meio sem jeito, nada comentou.
Você disse que nós éramos novatos, ignorantes, lembra-se? Meu caro Graybound, estávamos experimentando a nova propulsão linear e simplesmente não tivemos sorte. Perdemos a rota e depois veio a catástrofe.
Ah! A nova propulsão linear... estou me lembrando, é verdade. Queriam até que eu fizesse uma reciclagem para me tornar comandante de uma nave deste tipo. Mas mandei o tal Instituto às favas. Eu... fazer reciclagem?
Não lhe teria feito mal nenhum — disse Gucky, olhando para ele com franqueza. — Como seria bom tornar este brutamontes um cavalheiro...
Porcaria — guinchou o papagaio, despertando de sua sesta.
Com um ruidoso ruflar de asas, voou até a gaiola, abriu a portinhola com o bico e entrou. O seguro morreu de velho, devia estar pensando. Com uma expressão indefinida nos olhos, Gucky acompanhou todo o movimento do louro. Depois, balançando a cabeça, sentenciou:
Tal dono, tal papagaio.
Rhodan voltou ao assunto.
Você foi convocado para aprendizagem no Instituto de Cosmonáutica? Formidável! Formidável mesmo! Isto quer dizer que o computador o distinguiu como competente, numa seleção feita rigorosamente. Um bom sinal, capitão. Excelente! Naturalmente, o computador não examina apenas os candidatos, mas também todos os pilotos em atividade. E você estava entre os selecionados. Meus parabéns, Capitão Graybound!
Parabéns? — repetiu o capitão desconfiado e com um certo tremor na voz, cujo volume vinha diminuindo desde o primeiro contato com Rhodan. — Parabéns por quê? Eu disse que recusei a tal reciclagem!
Isto não tem importância, capitão. Sua aptidão de caráter e profissional continuam existindo.
Devido à minha formação, eu me sentia inadaptado, mister Rhodan. Um tal Major Kammbügel me disse francamente. Aliás, foi uma luta horrível para eu convencê-lo de meu baixo nível de instrução.
Será que ele não se chama Rammbüggl? — esforçando-se, Rhodan lembrou-se do nome. — Sim, acho que é este mesmo: Rammbüggl. Mas estou muito curioso para saber a opinião dele.
Graybound pigarreou sem jeito.
O senhor disse que eu teria direito de fazer um pedido?
Quando Rhodan confirmou com um aceno de cabeça, ele continuou:
Está bem, aqui vai meu grande pedido. Nunca leia, por favor, este relatório do Major Damm... Rammbüggl. Quando chegar às suas mãos, jogue-o fora, mas não leia, por favor.
Rhodan sorriu, batendo de leve nos ombros do velho capitão.
Prometo fazer o que pede. Não fosse você, nunca mais iria ler um relatório em minha vida. Portanto, posso deixar de lado este.
O capitão respirou aliviado. Havia percebido, nestes últimos dias, que seu procedimento no Instituto poderia lhe acarretar sérias complicações. Agora, estes cuidados não existiam mais.
Sem afastar os olhos da tela, disse o primeiro-oficial:
Transição em dois minutos, capitão.
É um salto bem longo, mister Rhodan — explicava Graybound, com bons modos. — Leva-nos para um ponto, onde nos podemos orientar com facilidade. Com outros saltos, chegaremos ao sistema solar.
A transição foi tranqüila, mas quando o espaço se materializou novamente diante da Lizard, o Capitão Graybound teve uma grande surpresa.
Surgiram não apenas as estrelas, mas também três cruzadores da Frota Terrana de Vigilância. Achavam-se posicionados de tal forma, como se estivessem esperando, exatamente ali, a volta da Lizard de Graybound.
O velho barba-ruiva esfregou os olhos.
Não é possível! Rex, será que estou vendo fantasmas?
Vejo três cruzadores, Samuel. Um deles traz o registro daquele rapaz que nos queria prender. Deve naturalmente ter ido buscar reforço.
A respeito de que vocês estão falando? — indagou Rhodan.
Graybound tentou explicar:
O sujeito não poderia jamais suspeitar de que eu voltaria ao local de onde fiz a transição. Mas que ele ainda tenha trazido mais dois colegas para revistar minha mercadoria é mesmo um incrível acaso!
Rhodan ia dizer alguma coisa, mas Smith o interrompeu. Quando fazia questão de chamar a atenção dos outros, o telegrafista baixo e magro usava uma voz muito aguda.
Intimação para parar. Abrirão fogo imediatamente se tentarmos fugir.
Disse isso? — perguntou Graybound, admirado, parecendo ter esquecido completamente a presença de Rhodan. — Rex, vamos escapulir.
Rhodan conseguiu fazer-se ouvir:
Não aja com precipitação, capitão. Desta vez, o comandante está prevenido. Haverá de segui-lo. A esta pequena distância, ele pode calcular facilmente o valor de seu salto e assim que a Lizard se materializar, ele estará por perto e a destruirá. Não se esqueça de que minha frota espacial teve boa formação — disse sorrindo. — Os comandantes dos cruzadores são excelentes pilotos espaciais.
Graybound curvou a cabeça.
Não salte não, Rex — disse resignado. — Teremos de ser vistoriados por eles?
Não parece que está entendendo — e, meneando a cabeça, Rhodan continuou: — Preferia que minha presença a bordo não fosse revelada, mas se isto for inevitável...
Parou um instante para refletir.
Dê um jeito de escapar sem que haja uma busca direta em sua nave. Fale com o comandante e procure convencê-lo a não mais suspeitar de você.
A expressão de desespero na fisionomia de Graybound transformou-se numa verdadeira careta.
O senhor não faz idéia de como isto é difícil. Os rapazes me conhecem já há muito tempo.
Espiões miseráveis! — gritou Toureiro furioso, preferindo, porém, ficar dentro da gaiola. — Dê um tiro neles!
Rhodan aproximou-se do papagaio, olhou bem firme nos seus olhos e disse de repente:
Se você abrir a boca mais uma vez num momento inoportuno, nós lhe aplicaremos um bloqueio hipnótico. Entendido?
A partir deste momento, o louro ficou outro. Não abriu mais o bico.
Novamente a voz fina de Smith:
Devemos abrir a escotilha. Um Major Behnken com quatro homens formarão o comando de aprisionamento. Que devo responder?
Rhodan fez um sinal para o velho capitão.
Que podem vir a bordo — ordenou Graybound, com sentimentos contraditórios dentro de si. Não estava nada seguro e não se sentia bem, mesmo com a presença de Rhodan. — A escotilha será aberta.
Rhodan fez um sinal para Gucky.
Nós dois vamos nos esconder na cabina de rádio. Procure conversar com o major e convencê-lo. Estamos aqui às suas costas. Mas não se esqueça de que quero fazer tudo para não ser visto. Pretendo regressar à Terrânia sem chamar a atenção de ninguém. Não devem saber, por ora, que o primeiro aparelho com propulsão linear fracassou.
Parou um instante, hesitando.
Não, não fracassou, propriamente. Fizemos uma maravilhosa descoberta, isto sim.
Quando Graybound julgava que ia ouvir a grande descoberta de Rhodan, teve uma grande desilusão. O administrador desapareceu na cabina de rádio com Gucky.
O capitão ordenou para que a escotilha fosse aberta.
Rex Knatterbul desceu, a fim de receber o major e conduzi-lo à central de comando. Seu rosto estava sem expressão; suas mãos, porém, caídas e contraídas em punho, diziam muito do seu estado de espírito. Graybound continuava esperando. Estava certo de que não lhe ia acontecer muita coisa. Em caso de extrema necessidade, traria o major para a cabina de rádio e ele certamente haveria de ter uma boa surpresa. Mas, se pudesse contornar a situação, estaria atendendo o pedido de Rhodan.
Toureiro vira Rhodan desaparecer e devia julgar estar agora sozinho com seu amo. Abriu a porta da gaiola e voou para o ombro de Graybound.
Ouviram-se sons de vozes no corredor e, logo a seguir, entraram o Major Behnken e dois cadetes, com pistolas energéticas na cintura. O Major Behnken deu dois passos à frente e parou. Incrivelmente calmo, seu olhar se deteve longamente em Graybound, passando depois para um sorriso entre o desprezo e a ironia.
O senhor, portanto, é o “legendário” Samuel Graybound? Para ser sincero, tenho de confessar que o imaginava bem diferente.
Obrigado pela franqueza — disse bem descontraído, fazendo um grande esforço para se manter calmo. — E o senhor é Behnken?
Por um instante, o comandante do cruzador pareceu perplexo, depois seu rosto ficou corado.
Major Behnken! — repetiu com certa entonação. — Para o senhor, simplesmente major!
Bem, major, para o senhor eu sou também simplesmente capitão, entendido?
O Major Behnken enrubesceu mais ainda. Os dois cadetes a seu lado estavam de cara fechada, mas, no fundo, seus olhos tinham um brilho de prazer...
Homem! — gritou o Major Behnken, perdendo seu autodomínio, bufando de ira.
Graybound estava mantendo a calma, pensando sempre no pedido de Rhodan.
Admiro seu dom, ou melhor, seu senso de observação, major — disse sorrindo amavelmente, mas com tanta afabilidade que seu interlocutor não podia resistir. — Sou homem, é certo. Mas posso perguntar, com todo o respeito, a que espécie de mamíferos o senhor pertence?
Gucky, que estava agachado na cabina de rádio com Rhodan e Smith, começou a sorrir alegre. O velho capitão lhe estava agradando cada vez mais. Se o negócio continuasse assim, seria uma viagem fantástica.
Então? — insistiu o velho globetrotter do espaço, quando viu que não vinha resposta.
Mas Behnken não pensava mais em conversar com aquele capitão maluco. Fez um sinal aos dois cadetes.
A situação aqui está sob meu controle. Reúnam-se aos outros dois e examinem a nave. O primeiro-oficial vai conduzi-los.
Depois que Rex desapareceu com os cadetes, virou-se novamente para Graybound.
E agora, vamos ter uma conversinha, meu velho. Você procurou me ridicularizar na frente dos meus subordinados. Quase que conseguiu, hein? Mas ai de você, se encontrarmos a menor irregularidade em sua Lizard.
O capitão continuava sorrindo.
Pode procurar, major, não vai encontrar nada, a não ser brinquedos e ursinhos de pelúcia. Será que são proibidos?
Espere — gritou de novo o major, zangado. — Quando queremos, sempre achamos alguma coisa...
Ah! É assim? Quando o senhor quer, sempre acha alguma coisa? Isso é fantástico! Quer dizer que o senhor pode simplesmente incriminar alguém, só porque não vai com a cara desse alguém? O que diria seu chefe, o Administrador Perry Rhodan, sobre tudo isto?
De qualquer maneira, se nós cassássemos a patente de gente como você, que só faz rotas incertas e negócios escusos, dificultando nosso trabalho, ele nos seria grato.
A cabeça de Graybound começou a ferver. Tudo, menos críticas às suas qualidades de piloto espacial! Aí o sangue começava a esquentar, esquecendo todas as medidas de cautela. Em outras palavras: quando lhe tocavam na honra profissional, voltava a ser o velho Samuel Graybound.
Seu idiota! — gritou tão alto que o major, sem querer, deu um passo para trás e bateu com as costas na porta da cabina de rádio. — Ridículo boneco fardado, completamente oco! Se me disser mais uma palavra inconveniente, vou perder a cabeça. Entendeu? Seu... seu... major!
Não se lembrou na hora de um bom nome, bem pesado, para xingá-lo. Também Toureiro, que assistia a tudo com entusiasmo, queria agora ajudar seu amo.
Major vigarista! Major! — gritava estridente.
Behnken era um bom oficial da Frota Espacial e fora sempre fiel cumpridor de seus deveres. Mas aquele encontro com o Capitão Graybound exigia demais de seu sistema nervoso. Mas antes que sua mão pudesse atingir a coronha da pistola na cintura, abriu-se a porta da central de comando. Entraram os quatro cadetes, tendo à frente Rex Knatterbul, trazendo na mão um ursinho de pelúcia. A cara do primeiro-oficial falava mais do que qualquer palavra e Graybound perdeu toda esperança.
Olá, rapazes! — disse com voz sumida, fazendo um gesto para os cadetes.
Senhor, encontramos contrabando a bordo — disse um deles, sem dar atenção ao cumprimento pouco cerimonioso do capitão.
O rosto do Major Behnken se iluminou de um momento para o outro.
Deixe-me ver este ursinho.
Senhor, por favor descubra o senhor mesmo...
O cadete tirou o bichinho das mãos de Rex, entregando-o ao major. Behnken, que o pegou meio sem jeito, ergueu-o contra a luz, descobrindo nas costas um buraco, tapado com pano. Olhou bem para dentro e viu algo...
Estava triunfante como um gladiador que apontasse a lança para seu rival estirado no chão.
Isto aqui, ilustríssimo, vai pôr um ponto final na sua carreira. Sua nave será confiscada e um de meus oficiais vai conduzi-la para a Terra. E o senhor, seu “civilista”, vai passar o resto do vôo no meu cruzador. Temos lá uma linda cabina, enfeitada com cadeados de segurança. Lá poderá ficar mais calmo e medir melhor suas palavras.
Carrasco! — começou Toureiro, como se tivesse entendido cada palavra. — Assassino vagabundo, vou contar isso a sua mulher...!
E o papagaio — continuou o major com voz fria — será atirado para fora da nave.
Graybound, furioso, deu um pulo para frente.
O senhor não vai fazer isto — ameaçou de olhos arregalados — do contrário vamos ter uma desgraça aqui dentro!
Mais uma ameaça! Vocês ouviram, Jenner e Klod. Para isto, mais dois meses de prisão.
Graybound arriscou um olhar desesperado para a cabina de rádio. Conforme o combinado, estava na hora de Rhodan intervir. Se não acontecesse isso, ficaria os próximos dez anos atrás das grades só por desonra e ofensa graves a um oficial da Frota Espacial.
O que o senhor entende por ameaça? Está escrito no seu manual de serviço que os papagaios são obrigados a aprender a voar no vácuo? Olhe aqui, seu malvado, Toureiro vai comigo onde eu for, até mesmo para a prisão.
O major acabou perdendo a paciência e ordenou a seus cadetes:
Jenner, Klod! Algemem este barba-ruiva e levem-no para o cruzador. Depois mandem para cá o Tenente Drummond. Ele conduzirá para a Terra a Lizard. Que nome traiçoeiro, hein?
Para tremendo alívio de Graybound, não teve de agir como seus ânimos, já agora bastante alterados, desejavam, pois Perry Rhodan saiu da cabina de rádio, atravessou a porta que dava para o corredor e se postou diante do major.
Capitão Samuel Graybound ficará aqui, major. O senhor foi vítima de um erro.
Major Behnken virou-se para trás, como se uma cobra o tivesse mordido. Devido à iluminação deficiente, não reconheceu imediatamente Rhodan. Além disso, o uniforme do administrador não estava de acordo, como manda o figurino militar, devido à aterrissagem forçada e à longa permanência no estranho planeta.
Quem é o senhor? — perguntou irado a Rhodan. — Estava também escondido por aqui? A julgar pelo uniforme, o senhor é um oficial que desertou da Frota Espacial. O que estaria procurando aqui nesta nave de contrabando?
Enquanto o major esbravejava, um dos cadetes, Jenner, lhe fazia sinais desesperados. Os olhos quase lhe saltavam das órbitas e sua boca murmurava algo. Aparentemente tinha uma mensagem importante para o major, não ousando, porém, interromper suas palavras.
Graybound, por seu turno, se arqueava de tanto rir. Quase perdia o fôlego, de tão cômica que achou a situação. O Administrador do Império Solar, sendo descomposto por um major, como se fosse um simples colegial. E o que mais impressionava a Graybound: Rhodan não deixava de sorrir.
Quando o major terminou a verborréia, o cadete Jenner bateu continência e disse:
Senhor, há um grande equívoco em tudo isto. É o...
Por favor, Jenner, abra mais a boca quando quiser falar comigo.
Eu... eu... — Jenner não conseguiu falar: faltou-lhe o ar.
O major foi ficando preocupado. “Será que ele conhecia o homem escondido na velha nave de Graybound?
Quem é o senhor? — repetiu indeciso para Rhodan.
Mas de repente sua voz se embargou, o queixo lhe caiu e os olhos se arregalaram.
Gucky saiu também da cabina de rádio, passou solene pelo posto de comando, colocando-se tranqüilamente diante do Major Behnken.
Então, major, ainda deseja dizer alguma coisa?
Behnken olhava para Gucky como se fosse uma assombração.
Se já não tivesse reconhecido Rhodan, não podia deixar de reconhecer Gucky, que até um cego perceberia com seu cajado.
O rato-castor! — exclamou Behnken. — Gucky?
O rato-castor se sentia feliz e, com os olhos cintilantes, disse a Rhodan:
Está vendo quem de nós é mais célebre? Sempre lhe disse que você é um simples homem entre muitos e muitos milhões. Agora, eu, sou um rato-castor e existem muito poucos da minha espécie.
O pobre do Major Behnken estava de novo de boca fechada e seu rosto passara do vermelho para o branco-cadavérico. Não se sentia bem e Graybound, homem que não guardava rancor, puxou-lhe prestativo uma cadeira.
O senhor... o se... nhor é Perry Rhodan, o administrador?
Caiu na cadeira e fechou os olhos. Por um triz que não perdeu os sentidos.
Major Behnken, ouça bem o que lhe tenho a dizer — começou Rhodan, arrancando-o do estado de semi-inconsciência. — O senhor disse e fez alguma coisa que ultrapassou sua competência. Vamos esquecer tudo isto, sob determinadas condições.
O major abriu os olhos de novo, fixou-os por um momento em Rhodan e se levantou de um pulo, perfilando-se. Parece que sua cabeça voltara a funcionar.
Sir!
O senhor vai esquecer também tudo o que viu aqui na Lizard. O senhor e seus quatro cadetes. Será que me expressei com clareza e nossa combinação está bem entendida?
Mas as mercadorias de contrabando...
Este honrado capitão — apontou para Graybound — comercia a meu serviço. Será que o senhor quer duvidar da legitimidade de minhas ações, major?
Behnken se assustou com a pergunta.
Naturalmente não, sir, estava pensando, porém, que...
Esqueça-se, pois, de nosso encontro, certo? Quero esquecer também algumas de suas afirmações — e olhando demoradamente para os cadetes: — E se vocês fizerem questão de continuarem pertencendo à Frota Espacial, recomendo-lhes a mesma coisa. Esqueçam que o Capitão Graybound faz contrabando e tentem não se lembrar de que me viram a bordo da Lizard. E agora, meus senhores, lhes desejo boa viagem.
Cumprimentou com a cabeça o Major Behnken e deixou o posto de comando. Gucky saiu atrás como um cão fiel, não sem antes dar uma piscadela para o velho capitão. Como já foi dito, Gucky se tornava, cada vez mais, fã de Graybound. Considerava-o um homem bom.
Major Behnken olhava agora para o capitão, um tanto pensativo. Afinal de contas, ele não era nenhum desmancha-prazeres e também não se sentia ainda na idade de pensar na aposentadoria. Um sorriso tímido aflorou em seus lábios e provou que sabia compreender a situação e se adaptar a ela.
Desculpe-me o acontecido, Capitão Graybound. Fazemos o controle de rotina neste setor, compreende? É o nosso dever. Fico contente em saber que sua carga está em ordem e lhe desejo um bom vôo.
Mentiroso! — guinchou Toureiro, vingativo e inclemente.
O major não gostou, teve uma reação, mas dominou-se.
Capitão, o senhor tem uma ave muito inteligente. Passe bem.
Graybound agradeceu e apontou para a porta.
Rex, acompanhe os senhores até a escotilha. Cuide para que não se esqueçam de atarraxar o capacete, antes de deixarem a nave.
O velho capitão tinha nos lábios um sorriso feliz. Depois que o posto de comando ficou vazio e a porta se fechou, deixou-se cair na cadeira. Alguém pigarreou nos fundos. Era Henry Smith que saía da cabina de rádio. Acanhado e desajeitado, estava ele ali, sorrindo para seu chefe.
Chefe, o senhor deu uma lição neles, hein?
Quando viu Graybound, sorrindo amigavelmente para ele e falando com voz moderada, ficou admirado.
Graças a Deus, Smith. Tenho que agradecer, antes de tudo, a você, pois me ajudou muito. Sem você não teríamos encontrado Rhodan.
Smith voltou feliz para seu posto de trabalho e sublinhou de vermelho a data. Nunca se sentira tão bem em sua vida. É verdade que o Capitão Graybound não passara pelo Instituto de Cosmonáutica para fazer a tal reciclagem, mas alguma coisa havia mudado muito nele. Parecia agora um perfeito cavalheiro.
Toureiro balançava a cabeça, como que desaprovando a mudança sofrida por seu amo. Para ele, parecia que o mundo estava acabando.
Rex voltou para seu posto e, segundos depois, a Lizard entrou em transição, alcançando ainda no mesmo dia o sistema solar pátrio. Antes que a nave, com uma velocidade de 0,2 da da luz, entrasse na órbita do planeta, Rhodan penetrou pela última vez no posto de comando, em companhia de Bell. Graybound se levantou educadamente, oferecendo sua poltrona ao administrador.
Preste atenção, amigo Graybound, nossa gente vai ficar a bordo até amanhã, quando então serão apanhados. Por favor, mantenha segredo sobre o que aconteceu, principalmente sobre minha presença em sua nave. Aja como se nunca me tivesse encontrado. Isso tem de vigorar pelo menos até a versão oficial, que deve ser dada sobre meu retorno. Não seria absolutamente aconselhável que outros soubessem que o primeiro vôo experimental da propulsão linear foi um quase fracasso. Acho que estamos nos entendendo, não é verdade?
Perfeitamente, sir!
Ótimo! Agora mais uma coisa importante. Você pertence à companhia “Globetrotter das Estrelas”, não é? Vou oferecer futuramente contratos de serviço à sua firma, que, naturalmente, vocês podem aceitar ou não, conforme desejarem. Neste momento vamos tratar de lhes indenizar o prejuízo que tiveram devido ao retorno. Você acha que cinqüenta mil solares de indenização bastam?
Graybound procurou apoio, olhando surpreso para Rhodan.
Cinqüenta mil...? — aspirou profundamente. — Puxa, para conseguir uma quantia desta, eu precisaria fazer dez viagens! Além disso, o fato de lhes ter prestado socorro foi a coisa mais natural deste mundo e...
Você teve ou não teve um prejuízo financeiro com o tempo perdido?
Bell estava ao lado dele, fazendo-lhe um sinal com os olhos, para que dissesse sim. O capitão, meio acanhado, fez que sim.
Então? — suspirou Rhodan, mais aliviado. — Vou lhe remeter o dinheiro em nome da “Globetrotter das Estrelas” e não no seu nome, para não despertar a atenção de ninguém...
Para mim, também é melhor, por causa da minha Ludmila.
Como, por favor?
Ah! Minha mulher, o senhor sabe...
Compreendo — disse Rhodan mostrando respeito por seus sentimentos. — Então você é casado? Meus parabéns!
A expressão da fisionomia de Graybound valia a pena ser estudada. Era um misto de felicidade e de acanhamento.
Compreendo, meu amigo — disse Bell, que até então se mantivera calado. — A julgar pelo seu tipo, sua esposa deve ser uma mulher muito enérgica. O senhor tem medo dela? Mas você não tem cara de maria-vai-com-as-outras!
É... — disse Graybound acanhado. Talvez devido à presença do primeiro-oficial, Rex Knatterbul, que já estava penetrando com segurança na atmosfera da Terra, na direção de Terrânia, o capitão não fez mais nenhum comentário.
O ronco dos motores cessou. A Lizard terminara sua viagem. Toda sua carga — ursinhos de pelúcia para Tuglan — estava intacta nos porões da nave. Com exceção de um ursinho que Gucky apanhara — “como lembrança”, dizia ele.
Rhodan esticou a mão para Graybound.
Adeus, capitão! Nós lhe devemos muito. Se estiver um dia em dificuldades, lembre-se de que tem bons amigos. Eu, mister Bell, Gucky e mais setenta e nove oficiais, estamos gratos. Assim sendo, todos os cientistas e tripulantes da Frota, também. Estaremos sempre prontos para ajudá-lo. E acredite, capitão, o senhor e eu ainda nos encontraremos. A Terra precisa de homens como o senhor. Agora e sempre.
Graybound estava profundamente comovido. Pigarreou acanhado e apertou a mão de Rhodan, fazendo a mesma coisa com Bell.
Naquele momento apareceu Gucky. Depois de fechar a porta, encaminhou-se para o velho lobo-do-espaço. Com um salto colocou-se na altura do peito do barba-ruiva e lhe deu um abraço. Depois se ouviu um ruído diferente... o rato-castor havia beijado o rosto do velho capitão.
Vou contar tudo para Ludmila! — disse Toureiro, ciumento, fazendo a pior ameaça possível.
Depois Gucky pulou para o chão e pegou na mão de Rhodan e de Bell.
Até logo mais, Samuel!
E diante dos olhos arregalados de Graybound, os dois homens e o rato-castor se desmaterializaram.
Ficou na cabina, acompanhado por Rex e por Smith.
Envergonhado, esfregou os olhos e percebeu, de repente, que seus dois auxiliares o fitavam espantados. Empertigou-se e sua estatura pareceu crescer uns dez centímetros.
O que vocês estão xeretando aí? — disse com voz mais forte, dando um murro na mesa dos mapas, quase quebrando-a. — Não têm nada para fazer? Vamos partir amanhã de manhã. Preparem tudo. Rota: oficialmente, para Tuglan. Não oficialmente... vocês sabem para onde. Estão esperando pelos ursinhos de pelúcia. Desta vez não vai haver folga. Vamos ao trabalho, preguiçosos.
Rex sorriu e apanhou os mapas caídos no chão. Smith examinava mecanicamente seus aparelhos, pois estava com o pensamento voltado para outra coisa. Muito mudara por ali. O patrão parecia agora um homem normal e isto era muito bom. É claro que “calmo” demais não serviria para ser um comandante.
Graybound deixou a nave, sozinho, como qualquer observador podia ver. Com passos cadenciados, tomou a direção do portão da alfândega, onde o Tenente Dopner o aguardava com olhar curioso.
Oba! Já de volta? Qual é a carga? Pigarreando, disse sorrindo:
Brinquedos e ursinhos de pelúcia, de Tuglan para a Terra.
E passou garboso por Dopner, que o ficou olhando de boca aberta.
O... o quê?
Vou levar de volta amanhã. O negocio não presta e ficou encalhado... Se você não está acreditando, dê uma chegada na nave e faça uma vistoria. Não quer não?
Não esperou por resposta e seguiu tranqüilo seu caminho.
Onde está sua bela esposa? — perguntou Toureiro, empoleirado no seu ombro.
Depois, com mais força ainda repetiu: — Onde está?
Cale a boca — gritou-lhe Graybound, não dando confiança a alguns curiosos que estavam por ali sem fazer nada.
Não quis pegar táxi, mas fez questão de ir a pé ao longo do extenso espaçoporto. Sentia-se feliz por pisar num chão firme, um chão bom como o da Terra. O céu estava azul e o Sol, gostosamente quente, obrigou Graybound a desabotoar o casaco do uniforme.
E começou então a cantar uma velha modinha. Toureiro, em seu ombro, acompanhava a melodia com um assobio estridente.
Assim caminhou o Capitão Graybound pela avenida que contornava o enorme campo de pouso de Terrânia, contente consigo e com o mundo.
Ah! O velho Graybound voltou. Estou curioso para saber quando é que vão cassar sua licença. Um tipo assim não merece andar pelo espaço. Andando por toda parte com um papagaio nas costas, torna-se ridículo. Mas, se um dia ele se encontrar com Rhodan, vai tirar o cavalo da chuva. O chefe não é tão complacente como nós aqui...
E um sargento acenou-lhe, pensativo.
O Capitão Graybound respondeu apenas com um movimento da mão, sem interromper a bela cantiga, nem seu passo cadenciado. Uma pedra estava à margem da avenida, ele a chutou com força, no ritmo certo, imaginando que a pedra fosse um certo Major Behnken... ou mesmo o Major Rammbüggl. Ou qualquer outra pessoa desumana!




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O globetrotter do espaço era mesmo uma figura singular. Outro tipo singular, de características fantásticas, devia ser o Coronel Nike Quinto, chefe da Divisão III, entidade específica para entrar em ação no espaço em casos de perigo ou acidentes que envolvessem as cosmonaves terranas.
Em A Divisão III Entra em Ação, título do próximo volume, Nike e seus comandados viverão cenas eletrizantes.

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