Seria uma
armadilha?
Rhodan
recusou a idéia. A inteligência daquela massa amorfa não era
suficiente para tanto. Até agora ela só conhecia uma arma contra os
terranos: imitação de seus corpos. Como teria chegado então à
idéia de plasmar uma falsa elevação? E com que finalidade?
Um grito
agudo arrancou Rhodan de seus pensamentos. Levantou-se de um salto.
Ao lado de
um tenente — o bravo oficial artilheiro da Fantasy, Brazo Alkher —
surgiu lentamente uma bolha que se transformou numa figura humana,
com braços, mãos e pernas. Apenas, sem o rosto.
O Major
Krefenbac reagiu com incrível agilidade, arrancando a arma e pulando
entre Alkher e o monstro. Seu disparo liquidou a massa cinza, antes
que ela pudesse agir.
Rhodan
respirou aliviado. O ser misterioso não era um perigo direto, mas
suas constantes investidas deixavam o pessoal de Rhodan, por causa do
desgaste emocional, extenuado.
Ao
aparecer o segundo monstro, Rhodan ordenou a retirada.
O sol já
estava mais alto e conseqüentemente sua luz bem mais forte. Depois
de outra marcha de uma hora, Rhodan parou e pediu que Claudrin lhe
passasse um binóculo. Estudou demoradamente a saliência surgida uma
hora atrás, que não podia distar mais de cinco quilômetros. O que
lhe chamou a atenção de início foi a coloração mais clara. A
“pele”
do ser orgânico era mais escura. A luz do sol se refletia muito
melhor na “corcova”
do que na superfície normal. Já esta constatação vinha confirmar
a seguinte suposição de Rhodan: a saliência era feita de um outro
material.
— Vamos
continuar — disse apontando para frente. — Pode ser que, na
próxima noite, já possamos dormir tranqüilos. Depois, passou-lhe
pela cabeça uma idéia, que, por incrível que fosse, tinha ficado
no esquecimento. Era Gucky, o rato-castor!
Bastou o
pensamento de Rhodan e, no mesmo instante, Gucky se rematerializou ao
lado de seu chefe.
— Gucky,
você está vendo aquela colina? Dê um pulo até lá e veja de que é
feita. Mas não demore.
O
rato-castor estava feliz por ter recebido uma missão. Confirmou o
pedido de Rhodan com um movimento de cabeça, concentrou-se para o
salto de teleportação e desapareceu. Não demorou dez segundos,
estava de volta.
— Uma
ilha, Perry, uma ilha de pedra. Mas a altura dela, a partir do mar do
plasma cinzento, não vai além de vinte metros.
— Dentro
de alguns anos, ou talvez antes, vai acabar também desaparecendo —
disse Rhodan. — Ótimo, Gucky! Assim, todos já sabem a direção
de nossa marcha.
Tiveram
que se defender mais duas ou três vezes de ataques do monstro e
atingiram o alto do rochedo duas ou três horas depois do meio-dia.
Media mais ou menos trezentos metros de comprimento por cem de
largura. Não muito grande, completamente árido, sem vestígio de
vegetação. Mas era chão firme, rochedo de fato. Rhodan
imediatamente escalou guardas, formando um anel de vigilância em
torno da ilha de pedra. Podia-se presumir que as imitações humanas
tentariam invadir a ilha, assim que o ser descobrisse que ela
oferecia abrigo para os terranos. E, como a experiência demonstrava,
ele não demorava muito para descobrir certas coisas.
O sol já
estava se inclinando no horizonte, quando se deu o esperado ataque.
Muito tempo antes, Rhodan e sua gente puderam observar como as
imitações foram se levantando do solo, em volta da ilha de pedra.
Estas imitações talvez fossem a única maneira que o monstro tinha
para atacar a ilha. O solo continuava com a aparência de sólido e
imóvel, talvez apenas se abrindo, a fim de receber suas vítimas, se
houvesse tempo para isto.
No alto do
rochedo estava Rhodan, como um general-de-campo. A visão de lá era
excelente para todos os lados. Distribuíra os setores de defesa
entre seus oficiais. Conservou Gucky ao seu lado, pois precisava dele
para transmitir suas ordens.
A legião
de imitações se pôs a caminho. A uns três metros de Rhodan,
estava o mutante de duas cabeças, Goratchin. O russo era
propriamente um aleijado de nascença e sofrera muito em sua pátria,
devido às duas cabeças, até que Rhodan o admitiu no Exército de
Mutantes. Nos cérebros de suas duas cabeças é que Goratchin
produzia as terríveis centelhas de detonação, que permaneciam
inofensivas e ineficazes, enquanto não se reunissem num determinado
foco. Neste momento, então, dava-se invariavelmente a explosão
nuclear.
Rhodan fez
um sinal para o “detonador”.
— Ali no
outro lado, aquela aglomeração, Goratchin. Destrua aquilo tudo.
O mutante
compreendeu a ordem. Um de seus rostos mostrava um sorriso tranqüilo,
enquanto o outro continuava sério. Nem sempre as duas cabeças
estavam de acordo.
A cabeça
direita estava se concentrando na mira e aos poucos também a outra
cabeça se virou para o ponto visado, até que os dois pares de olhos
se concentraram no mesmo alvo, e os impulsos detonadores se
encontraram no foco escolhido.
Os homens,
ofuscados com o descomunal clarão, levaram as mãos aos olhos.
Explodiu uma bola de fogo no meio das imitações do corpo humano,
crescendo rapidamente e dissolvendo todas as figuras, que penetravam
no solo, em forma de um líquido escuro. Na “pele”
do ser inteligente se abriu uma grande vala, quando recebeu a matéria
incandescente e líquida.
O cogumelo
atômico se ergueu no céu, como um sinal de advertência de que
havia ali uma inteligência superior: a inteligência humana, que era
capaz de se defender.
A bola de
fogo se extinguiu, mas a vala cavada na superfície do planeta
continuou. Gucky, que Rhodan enviara para investigar o local da
explosão, informou que a massa incandescente desaparecera, mas a
vala não se tornara a encher.
Goratchin
desencadeou mais três explosões. Depois dessas detonações, o
plasma inteligente desistiu de outros ataques. Foi realmente
inteligente para compreender a inutilidade de seus esforços. Levaria
agora muito mais tempo para inventar outra tática de ataque.
Rhodan
estava mais tranqüilo. Na segunda batalha, também foram os terranos
os vitoriosos. Apesar do justo regozijo pelo sucesso alcançado, a
situação não melhorara em quase nada. Estavam ainda presos num
planeta deserto e sem nenhuma esperança de serem salvos. Os víveres
não poderiam ser renovados e a água estava escasseando. Se alguém
não tivesse captado o pedido de socorro, seu fim seria trágico. O
pior era esta clara evidência dos fatos.
5
O Capitão
Graybound necessitava somente de pequenas observações para chegar à
mesma conclusão que Perry Rhodan e assim esclarecer o mistério do
planeta.
— Não é
nenhum milagre — constatou Rex — o fato de que o analisador
aponte apenas matéria orgânica. Portanto, trata-se de uma ameba,
não é verdade?
— Não
afirmei isto — disse Graybound categórico. — Não sou nenhum
cientista. Em todo caso, não se formam seres vivos independentes, lá
embaixo, no planeta. Mas há somente um ser coletivo que, com o
tempo, foi se ampliando. Não me pergunte por que se deu isto. O fato
é que não queria estar na pele daqueles infelizes que aterrissaram
no planeta.
— Deve
ser por isso que seu rádio parou... estão todos mortos.
— Será
possível?
O capitão
parecia não querer se convencer da morte dos náufragos. Olhou para
baixo, para o local onde fizera os disparos com os canhões
energéticos da Lizard, que dissiparam as imitações do corpo
humano.
— Você
acha que a gente consegue sobreviver aos ataques deste monstro
orgânico? — era a dúvida de Rex.
— Quer
apostar? Podemos aterrissar e dar uma olhada por lá. Saberemos então
se tem ou não sentido procurar por sobreviventes.
— Aterrissar?
Você ficou maluco? — indagou Rex, horrorizado.
— Totalmente
maluco
— repetiu o papagaio.
Mas
ninguém lhe deu atenção nem ouviu o terrível grasnado com que
expressou seu protesto.
— E por
que não? É mais fácil destruir plasma do que metal ou outros
materiais anorgânicos.
Rex
sacudiu a cabeça.
— Não,
não posso concordar com você. O que vai ganhar atirando feito um
louco no monstro? Você não pode matá-lo, pois é grande demais. O
que devemos fazer é procurar os sobreviventes.
Era
realmente um argumento sadio, que o capitão tinha que aceitar. Foi
ainda com alguma hesitação que ele se separou da visão majestosa
do funil fosforescente, provocado no planeta vivo pelos disparos de
sua artilharia.
— Por
mim, vamos lá — disse ele, para logo depois acrescentar: — Mas
não vá pensar que eu estou cedendo às suas exigências. Este
negócio de aterrissar era uma simples brincadeira minha. Queria
saber qual a sua reação.
Depois de,
com estas palavras, ter resguardado seu prestígio, e também sua
autoridade, deixou o comando nas mãos de Rex e ficou olhando para as
telas.
A Lizard
foi descendo devagar, seguindo um paralelo imaginário. Poderiam
levar até dias para encontrar os sobreviventes...
Voavam
para o oeste e ultrapassaram a trajetória do sol, mas então era
noite para eles. Graybound ligou os grandes holofotes que varriam a
superfície do planeta com um largo rastro de luz. A Lizard diminuiu
a velocidade. Se os procurados sobreviventes estivessem apenas cem
metros fora da faixa de luz, não seriam vistos. Mas Graybound
contava naturalmente que trouxessem consigo pelo menos foguetes de
iluminação, ou mesmo armas energéticas, que chamariam a atenção.
A noite
passou sem nenhuma novidade. É verdade que fora muito curta, de
poucas horas, pois voavam na direção do sol.
*
* *
— Acho
que isto não tem sentido — disse Rex Knatterbul resignado, quando
o sol estava se levantando pela quarta vez.
— Agora
sou eu que não vou desistir — disse o capitão irritado. —
Perdemos quase dois dias de viagem. E agora faço questão de ver com
meus olhos estes bonecos bobalhões sem cabeça, lá de baixo. Quero
ver também estes oficiais idiotas que desceram num planeta, sem
estudar primeiro sua superfície. Quero dizer a eles como são
estúpidos e que, da próxima vez, devem ficar em casa e deixar a
cosmonáutica para gente mais experimentada, como eu, por exemplo.
Acho que devem criar gado e tirar leite de vaca.
Graybound
estava muito inspirado e prosseguiu:
— E o
governo da Terra ainda gasta dinheiro com estes bestalhões. Mandam
cabeças-de-vento dirigir naves caríssimas nestas regiões da
Galáxia e depois se admiram de que eles não regressam. Puxa! E a
mim é que eles queriam botar em reciclagem? Os coitados não sabem
nem manejar os velhos aparelhos. Miseráveis gargantas, e cheios de
prosa fiada.
— Vagabundos!
Burros quadrados!
— era o papagaio que estava aplaudindo com entusiasmo, talvez para
poder sair da gaiola.
Mas
Graybound não tinha tempo para ele.
— Vamos
continuar — ordenou o capitão. — Vou tirar uma soneca. Daqui a
duas horas, me chame.
O
navegador estava contente por ficar algum tempo sozinho. Ligou o
automático, para que a nave continuasse na mesma rota, e foi para o
posto de observação do seu comandante e capitão.
Não
conseguiu ver a ilha de pedra à direita, no horizonte, e os restos
do cogumelo de fumaça, pois estava mesmo exausto. Quando Graybound o
substituiu, falou com consciência tranqüila:
— Nenhum
fato importante, capitão.
Dizendo
algo ininteligível, o capitão assumiu seu posto. Para não ficar
tão sozinho, tirou Toureiro da gaiola. O louro se expandiu numa
alegria louca e barulhenta, pulando para o ombro de seu amo. E os
dois juntos ficaram olhando para a tela.
O
radiotelegrafista Smith havia ido também descansar um pouco. Mas,
depois de uma ligeira refeição, voltou para seu, trabalho. Ligou
para a escuta e percorreu todas as freqüências de onda, sempre na
esperança de captar um sinal. É claro que seu primeiro objetivo era
tornar patente aos olhos do chefe a importância do seu serviço,
aliás indispensável a bordo de uma espaçonave. E o destino veio
ajudá-lo...
O Capitão
Graybound estava com os olhos fixos naquela superfície monótona,
procurando alguma coisa que se movesse, quando o telegrafista
irrompeu em sua cabina de comando, quase que lhe causando um susto.
— Uma
mensagem do rádio, senhor, com texto claro. Estão nos chamando.
Graybound
deu um tremendo salto. O pobre louro perdeu o equilíbrio e foi ao
chão, batendo as asas.
— Texto
claro! — disse depois de meia dúzia de palavrões e se encaminhou
para a minúscula cabina de radiotelegrafia.
Afastou
com um pontapé o banquinho que estava na frente, onde, aliás, Smith
se sentava nas pacientes horas de trabalho.
— Onde
está o microfone?
Meio
desarvorado, Smith chegou logo atrás de seu chefe. O pobre coitado
imaginara bem diferente seu triunfo. Contava com uma paternal
batidela no ombro, acompanhada naturalmente de uma frase mais ou
menos assim: “bravo,
rapaz, é assim que se trabalha com eficiência”.
Mas, nada disso.
— Quero
saber onde está o microfone! — gritava o capitão enraivecido, sem
saber por quê. — Como é que vou me arranjar nesta confusão de
fios?
Com
movimentos rápidos, Smith transferiu a ligação para o ramal
externo.
Com muito
pouco volume, ouviam-se palavras em inglês. Graybound se aproximou
bem do alto-falante para poder entender.
— Passaram
a três graus. Necessitamos auxílio. Comunique-se conosco. Não
aterrissar. Perigo de vida.
— Isto
eu sei, seus idiotas! — gritou Graybound com toda força no
microfone, que já fora encontrado. — Dêem sua posição.
A voz do
alto-falante desapareceu. A pessoa que estava falando devia ter
sofrido algum choque. Voltou de novo, mas já era outra voz. Calma e
segura, dizia ela:
— Posição
desconhecida. Transmitimos apenas com aparelho de pulso. Entendemos
bem.
— Isto é
o principal — respondeu o vozeirão de Graybound. — Continue
falando suas bobagens, que nós vamos determinar sua posição —
depois, dirigindo-se a Smith: — Vá acordar o primeiro-oficial,
mande-o vir correndo para cá.
Depois que
Smith saiu, continuou o diálogo com o desconhecido.
— O
senhor é o comandante da nave acidentada? Ou aterrissou por que
quis? O senhor bem que merecia que a gente o deixasse onde está...
A resposta
só veio depois de alguns segundos.
— O
senhor me dá a impressão de ser um gozador, que gosta de se
divertir à custa dos outros, tenho razão?
Graybound
pareceu perder a fala por uns momentos. Mas logo depois resolveu
soltar a língua com franqueza.
— Que é
isto, seu macaco pretensioso!? Foi burro demais, quando fez a sua
aterrissagem! E ainda por cima atrevido! Estou gostando — fez um
sinal com a cabeça para Rex que estava entrando na cabina às
pressas. — Estou estranhando o senhor.
— Nós
também o estranhamos — veio pronta a resposta, num tom quase
afável.
Graybound
olhou zangado para o microfone, depois começou a sorrir. Quando seus
interlocutores não se assustavam com seu modo de falar, gostava. Mas
ficava furioso assim que notava qualquer pretensão de superioridade
do outro lado.
— Fale,
excelentíssimo, fale bastante para que possamos localizá-los.
— Basta
simplesmente que o senhor circunvoe o planeta em maior altura para
ver os cogumelos de poeira atômica, que circundam uma pequena ilha
de rocha, onde conseguimos nos abrigar. Nela estamos livres do
plasma.
— Ah! Os
senhores também já conseguiram perceber isto? — continuou
Graybound no seu modo irônico. — Estava pensando que os senhores
iam imaginar que se tratava de um pudim especial. Pessoal
inteligente, hein? Parabéns!
Depois se
lembrou do “cogumelo
atômico”.
— Cogumelo
atômico? O senhor gastou bombas atômicas com estas desgraçadas
figuras de barro? É muita honra para o brejo.
— É,
foi mais ou menos assim.
Rex, que
estava ouvindo a conversa, já havia feito a Lizard subir o
suficiente para começar a procura. Levou, talvez, dois minutos até
serem localizados os cogumelos atômicos. A seguir, a nave do Capitão
Graybound desceu naquela direção.
— Suponho
que o senhor seja comandante de um cruzador patrulha — continuou o
Capitão Graybound, querendo saber com quem estava lidando, para
tomar as devidas precauções. — Quantos vocês são?
— Somos
oitenta e um, gente modesta, sem nenhuma exigência. Ficaremos
contentes se nos conseguir abrigar nos seus depósitos ou nos
corredores.
— Isso
não! Nos depósitos não — recusou-se o capitão, muito assustado.
Depois
prosseguiu, sem mudar o tom da voz:
— Ah!
Bobagem! E por que não? Mas eu lhe fiz uma pergunta e ainda não
recebi resposta. Quem é o senhor? Como se chama sua nave?
— Não
temos mais nave e quem sou eu, o senhor vai saber logo.
Graybound
teve que engolir este atrevimento. Neste meio tempo a Lizard estava
descendo no sentido da ilha de pedra e quedou imóvel a uns cem
metros de altura. Toureiro voara para a parte superior de sua gaiola.
Empoleirou-se lá, sem dizer uma palavra. Seus olhos inteligentes
acompanhavam tudo que se passava no posto de comando, como se
entendesse alguma coisa. E quem sabe, entendia mesmo?
— Agora,
seria bom se o senhor aterrissasse — propôs a mesma voz pelo
alto-falante. — É um rochedo maciço e firme.
Rex
Knatterbul apontou para a tela do videofone.
— A ilha
está cercada pelos monstros de barro. Surgem do solo e estão
caminhando para o rochedo. Se não nos apressarmos, o pessoal lá
embaixo está perdido.
— Vamos
mostrar a eles o que a Lizard pode fazer.
Depois,
pegando o microfone, falou com mais seriedade:
— Uma
aterrissagem agora seria muito perigosa. Protejam-se que nós vamos
primeiro destruir estes monstros.
— São
lentos demais, e até que se aproximem da gente, teremos tempo mais
do que suficiente para embarcarmos. O senhor compreendeu?
— Compreendi,
sim, mas esperem um pouco.
Graybound
foi para o posto de comando e deu ordens para a artilharia ficar
atenta. Fez um sinal para Rex e gritou:
— Vamos
embora!
A Lizard
se precipitou num vôo rasante sobre os monstros, abrindo um tremendo
fogo. A velha nave parecia um dragão de dez cabeças vomitando raios
energéticos contra o solo cinzento, enquanto os vultos
incandescentes se desfaziam numa massa fumegante.
— Acho
que chega — disse Rex. Graybound contemplava orgulhoso sua obra de
destruição e fez um sinal para o tenente.
— É
verdade que não se consegue destruir o monstro, mas aqueles bobos lá
embaixo sabem agora com quem estão lidando. Vão ter um pouco mais
de respeito para comigo.
No posto
de rádio, Smith se entretinha com os avisos do interlocutor
desconhecido. Algumas palavras chegaram até a cabina de comando e
penetraram nos ouvidos de Graybound. Sua barba ruiva começou a
tremer e, bufando de raiva, pulou para fora da poltrona. Em dois
galeios chegou até o franzino telegrafista. Empurrou-o estupidamente
para o lado, tirando-lhe o microfone das mãos.
— E
agora, cale a boca, seu imitação de auxiliar de cosmonauta! —
disse, gritando indignado. — Quer nos dar conselho, quando o senhor
mesmo está sentado num formigueiro? Não fosse tão bobo, não
estaria preso aí. A minha vontade seria sair daqui sem levá-los.
— Felizmente,
sei que o senhor diz isto de brincadeira — respondeu o
desconhecido, parecendo não levar tão a sério as ofensas do
temperamental capitão. — Agora, por favor, desça até a rocha.
Furioso,
Samuel Graybound bateu com o pé no chão, deu um sinal de
consentimento para Knatterbul e pegou novamente o microfone, para
mais umas bravatas:
— Quero
lhe dizer mais uma coisa, seu sabichão intrometido, e preste bem
atenção nisto. Com o velho Capitão Samuel Graybound não se deve
brincar. Jamais se esqueça disto. Está bem, vou recebê-los a bordo
de minha nave, porque é um dever humano. Mas os senhores vão ficar
nas cabinas que lhes forem determinadas. Se eu pegar alguém
bisbilhotando por aqui, eu o jogo no espaço. Está claro assim?
— Claríssimo.
Mas por que tudo isto? O senhor tem alguma coisa para esconder?
Graybound
ficou vermelho, prendeu a respiração, mas não teve mais tempo de
iniciar outra catilinária. Enquanto seu primeiro-oficial descia a
Lizard suavemente sobre a rocha, o ar começou a cintilar na estreita
cabina de rádio e do nada surgiu a figura de Gucky, bem na frente do
capitão, em cima da pequena mesa.
O capitão
olhou estupefato para o estranho animal de um metro de comprimento,
pensando tratar-se de alucinação. Mas então, aconteceu algo que o
fez mudar de idéia. Com voz chiada, Gucky começou a soltar o verbo:
— Oh!
Seu monstro sem-vergonha, seu mal-educado brutamontes! Seu traficante
de trabalhadores forçados! Como se atreve a falar assim com o chefe?
Seu verme nojento, pedaço de nada.
Os pêlos
da nuca de Gucky estavam eriçados. Dos seus olhos, aliás tão
calmos e sinceros, saíam chispas de cólera.
Graybound
dera dois passos para trás e sua barba ruiva tremia de excitação.
O animal furioso, que se achava em cima da mesa, devia ser realidade,
embora o capitão não compreendesse como ele havia chegado até ali.
Além de
tudo, ainda falava! Verdadeiro mistério.
— Sabe
com quem você dialogou o tempo todo? Com Perry Rhodan, o
Administrador do Império Solar...
Parece que
o mundo desabou para Samuel Graybound. Presente, futuro, planos e
negócios, tudo foi água abaixo. Estava acabado. Era uma vez o
Capitão Graybound, sócio da firma “Globetrotter
das Estrelas”...
E não havia nada para responder. Quebrado de corpo e alma, foi
cambaleando para sua poltrona no posto de comando. Sentou-se,
esquecido do mundo e de tudo.
— Fui
atingido por um raio! — lamentava-se desesperado. — Tudo que está
acontecendo é verdade ou estou sonhando? Sim, acho que estou
sonhando. Isto não pode ser verdade. Perry Rhodan, exatamente Perry
Rhodan?
— Sim,
exatamente — confirmou Gucky, pulando da mesa para depois ficar
pairando bem na frente do capitão.
Neste
intervalo, Rex, que não se deixara perturbar em seu trabalho,
desligou os motores da nave e, virando-se para trás, contemplou
admirado o rato-castor.
— Este
desgraçado do Smith, telegrafista vagabundo! — comentou Graybound,
tentando jogar a culpa no pobre rapaz. — Onde está ele?
Sob a mesa
dos mapas de navegação, ouviu-se um gemido. Depois alguém disse em
voz sumida:
— Não
estou me sentindo bem, senhor. Toda esta excitação...
— Covarde
— respondeu Graybound, e passando a observar melhor o fantástico
animal na sua frente, perguntou: — Como é que você entrou aqui na
nave?
— Por
teleportação, meu amigo. Você ainda não ouviu falar em Gucky? Sou
eu.
Graybound
começou a puxar nervosamente a barba.
— Meu
Deus! Gucky, você é, portanto, o prodígio que...
— Como?
Sou o quê? — perguntou Gucky, desconfiado.
— Nada,
deixa pra lá.
O velho
capitão já estava mais manso, procurando uma solução para o
problema em que se envolvera.
— Vamos
ver então o que se pode fazer. Rex, você vai dar um jeito de
esvaziar um dos depósitos. Os ursinhos de pelúcia podem ser
estocados no compartimento sete. Acho que, com camas de emergência e
cobertores, se pode fazer uma espécie de dormitório. E para Rhodan
e seus oficiais... hein?
Graybound
ficou pensativo. Gucky sorriu compreensivo. Sabia com que tipos de
problema o velho estava lutando. Naturalmente o temperamental capitão
se esquecia de que estava diante de um telepata.
Rex saiu
apressado do posto de comando, enquanto Graybound se agachou, a fim
de acariciar o pêlo sedoso de Gucky.
— Então,
você é o corajoso e inteligente Gucky. É-me uma honra estar perto
de você. Vamos andando, parece que o chefe nos espera.
E com
sentimentos desencontrados, entraram no corredor que dava para a
escotilha. Se conseguisse arranjar uns trinta minutos, tudo daria
certo. Até lá, Rex teria conseguido uma acomodação garantida para
a tripulação acidentada. Os demais depósitos estavam e ficariam
trancados. Ninguém desconfiaria de nada.
Deixou
todas as portas atrás de si bem abertas. De mãos dadas com Gucky,
passeava ele garboso pelos corredores como que desfilando perante
seus poucos tripulantes, que olhavam para ele de boca aberta, sem
dizer uma palavra.
Foi aí
que ele notou que Gucky já havia desaparecido há tempo e ele
continuava andando pelo corredor como um demente de braço levantado.
Seus homens deviam de fato pensar que ele estava caducando, ou talvez
ensaiasse um novo tipo de dança.
6
— O
senhor deve mandar prender este sujeito sem-vergonha — disse o
Major Claudrin.
O Major
Krefenbac e Bell, que estavam ao lado, apoiaram a sugestão.
— Está
configurado o crime de lesa-autoridade — sentenciou o gorducho.
Rhodan
sorriu, balançando a cabeça.
— Que é
isto, meu caro Claudrin? Para que tudo isto? O bom capitão não
sabia com quem estava falando. Além disso, muita coisa que ele disse
estava certa. Antes de aterrissarmos, nós tínhamos, de fato, que
observar melhor o planeta. Não nos portamos como cosmonautas
experimentados. Ele tem razão.
Claudrin
empertigou sua figura maciça.
— Como
achar melhor, sir. Foi apenas um palpite meu.
Viram como
a Lizard, parada a uns cem metros de altura, começou a descer
brandamente. Depois, os motores silenciaram.
— Mas,
pelo menos um memorando bem enérgico ele deve receber — insistiu
Bell. — Não se pode permitir que alguém nos xingue de burros
quadrados.
— Gucky
já chegou lá — disse Rhodan. — Acho que ele lhe está
transmitindo um memorando oral, bem enérgico mesmo. Mas agora, vamos
esquecer isto. Lembrem-se, porém, que, sem o Capitão Graybound,
estaríamos perdidos. Como parece, foi o único que captou nosso
pedido de socorro. Devemos-lhe nossas vidas.
O grupo de
segurança ainda estava distribuído em volta da ilha de pedia, mas
os monstros não reapareceram. Será que desistiram do ataque ou
esperavam que a outra nave cometesse o mesmo erro da primeira?
Certamente jamais teriam uma resposta para isto.
Gucky se
materializou ao lado de Rhodan.
— Há
uma novidade — disse bem baixinho — o velho capitão não é
assim...
— Já
estava pensando isto — disse Rhodan, também sussurrando.
Seus
fracos dons telepáticos davam para captar os pensamentos de Gucky.
Quando, pois, o Capitão Graybound apareceu na escotilha aberta da
Lizard e olhou para Rhodan, o velho globetrotter já estava
visceralmente dissecado.
Foi pena
que a tripulação da Lizard não estivesse toda ali para ver a
reação do seu tonitruante capitão. Com uma agilidade inacreditável
desceu pela escada, parou, respirou profundamente e se encaminhou
para Rhodan.
— Minha
velha nave está à sua inteira disposição, sir — disse, assim
que chegou perto de Perry.
Pegou a
mão do administrador e a apertou firmemente.
— Minha
gente está preparando algumas cabinas para o senhor. Posso lhe
perguntar por que motivo desceu aqui neste planeta horrível? Onde
deixou sua nave?
— Explodiu
no espaço, a três anos-luz daqui. Aterrissamos neste planeta com um
pequeno aparelho que acabou tragado pelo solo misterioso do planeta.
Depois, fugimos e encontramos esta ilha de pedra. Foi mais ou menos
tudo.
— Oh! —
disse o capitão, completamente sem jeito e acanhado. — Quer dizer
então que sua aterrissagem não foi voluntária? Então peço
licença para retirar tudo que eu disse.
— Está
certo — aceitou Rhodan, sorrindo.
Logo em
seguida, sua atenção foi desviada por um furioso xingatório que
vinha da escotilha da Lizard. Então alguma coisa de colorido intenso
fez um ruído de ruflar de asas e acabou pousando no ombro de
Graybound. Toureiro encontrara afinal seu amo.
— Velho
malandro! Maluco sem-vergonha
— esganiçava ele para Rhodan, que curiosamente o olhava.
Bell abriu
a boca e arregalou os olhos.
— Não
tolero isto — disse ele desesperado. — Uma ave deste tipo!
Graybound
estava oscilando entre o acanhamento e a cólera. Mas teve uma boa
saída.
— É uma
ave muito inteligente, às vezes, porém, indiscreta. Naturalmente
não o conhece, mister Rhodan.
Depois
disso, o capitão ficou muito sério e não falou mais.
Gucky, o
rato-castor, nunca vira em toda sua vida um papagaio. E muito menos
um que sabia falar e xingar o administrador do Império Solar de
malandro e sem-vergonha. A boca de Gucky estava meio aberta,
aparecendo o dente roedor. Seu olhar refletia melancolia. O único
descontraído ali era mesmo o papagaio Toureiro. Bateu as asas e
soltou a língua de novo:
— Viva!
Um dente só!
Gucky
fechou a boca, sem dizer uma palavra.
“A
ave é inteligente, e como!”,
pensava Gucky.
Depois de
tantos perigos por que passaram, Rhodan estava se distraindo com
aquele espetáculo. Até os outros oficiais chegaram mais perto.
Nunca tinham visto o rato-castor ficar devendo uma resposta.
Graybound
estava muito feliz com o espetáculo que seu papagaio estava
oferecendo. Cada minuto ganho representava mais garantia para ele.
Neste meio tempo, o pessoal estaria dando um jeito lá nos depósitos
da Lizard.
— Cara
de pimentão!
— berrou o louro, olhando de passagem para Gucky.
Mas seus
olhos inteligentes demoraram por mais tempo no rosto vermelho de
Bell. Não havia dúvida de que a brincadeira era para ele. Mas o
gorducho não fez nenhum comentário e, disfarçando, engoliu a
ofensa, sem saber como.
O Major
Claudrin deu um passo à frente. Seu corpanzil fez Gucky e Bell
ficarem encobertos.
— Homem
de Deus! — disse, dirigindo-se furioso para o Capitão Graybound,
apesar do sinal negativo de Rhodan. — Por favor, vá apresentar seu
circo em outra praça e não aqui diante de nós. Parece que o senhor
ficou maluco!
Graybound
olhou para o epsalense bem cepticamente. Embora Claudrin fosse mais
baixo, tinha no mínimo o triplo da largura do homem que o fitava. O
volume de sua voz ultrapassava tudo que Graybound já ouvira, e as
mãos enormes, fechadas em punho, excluíam qualquer dúvida sobre
seu eventual uso...
Graybound,
porém, era um homem voluntarioso, portanto, sem medo.
“É
claro que respeito Rhodan”,
pensou, “mas
este troncudo aí?”
— Devia
tê-lo deixado morrer na ilha de pedra — gritou com toda força,
notando com satisfação que Claudrin empalidecera, mas se foi de ira
ou de medo, não pôde saber. — Ao menos assim, o monstro teria o
que comer por três ou quatro semanas.
O capitão
deixou de lado o Major Claudrin, pois, entrementes, Bell se
recuperara da surpresa, e aproximou-se mais. Observou com olhos
indagadores o papagaio no ombro de Graybound.
— Então,
o que o senhor deseja? Toureiro não está à venda.
— Eu
também não estou aqui para comprá-lo — respondeu Bell. — É um
papagaio comum — retomou ele, decepcionado.
— Quem
foi que o domesticou?
Antes que
Graybound respondesse, apareceu na escotilha de subida da Lizard o
primeiro-oficial.
— Está
tudo pronto para a recepção dos passageiros — disse ele. —
Vamos subir?
Rhodan
queria falar qualquer coisa com Graybound e tocou de leve com a ponta
do dedo no seu braço. Toureiro deu uma rápida bicada, mas a reação
de Rhodan foi surpreendente e acabou segurando o louro.
— Assassino!
— gritou o papagaio desesperado, procurando se livrar das mãos de
Rhodan. — Socorro!
Assassino e bandido! Somos pequenos contrabandistas...
Rhodan
olhou para a ave com muita admiração, colocando-a de volta no ombro
de Graybound e, ao mesmo tempo, piscou o olho amavelmente para este
último.
— Uma
ave inteligente, como disse o senhor há pouco, capitão. Ainda
conserva esta opinião?
— É
também um pouco indiscreta, não é? E nem sempre fala a verdade.
Era
visível o esforço do capitão para mudar de assunto.
— Posso
lhe pedir que envie sua gente para nossa nave? Os alojamentos lhes
serão mostrados por minha tripulação. Outra coisa, sir, ser-lhe-ia
grato se conseguisse que cada um permaneça em seu lugar. O senhor
compreende, minha nave não é muito nova — concluiu, meio
desajeitado.
— Pode
estar tranqüilo, seguiremos suas instruções.
Graybound
ficou esperando com Rhodan, ao pé da escada. Olhava com atenção
cada um dos sobreviventes que passava diante dele para subir pela
escada. Toureiro continuava resmungando alguma coisa e, de vez em
quando, premiava um ou outro com títulos nem sempre agradáveis.
— Gorducho!
— disse para o Major Claudrin, que somente devido ao olhar
persuasivo de Rhodan se absteve de estrangular o tagarela. —
Espanador
da Lua!
— disse quando passou o Major Krefenbac, que era de fato alto e
muito magro.
O velho
comandante ria feliz com estas brincadeiras. Quando finalmente o
Capitão Narco, que tinha apenas um metro e cinqüenta e sete, foi
chamado de “anão
de jardim”,
Rhodan ficou mesmo muito curioso.
Isto não
podia ser mero acaso. O papagaio não “despejava”
assim as palavras, como fazem quase todos, e nem as repetia
bobamente. Não, as usava com inteligência. Elas davam certo quase
sempre.
Realmente...
quase sempre?!
Voltaria
mais tarde ao assunto do papagaio. Neste momento tinha uma importante
pergunta para fazer, e só o Capitão Graybound poderia lhe
responder...
Depois que
todos estavam abrigados e o furor do Major Claudrin se abrandara,
Rhodan
convocou John Marshall, pedindo-lhe que observasse, com muita calma,
a mente de Graybound, em especial quando o capitão estivesse
pensando em sua carga. Momentos depois se encontrou com Gucky e se
dirigiram os dois para a cabina de comando da Lizard.
Não se
tratava de ir contra os direitos do Capitão Graybound, mas, sendo
sócio de uma empresa comercial, Rhodan tinha que olhá-lo do ponto
de vista de Administrador do Império Solar, cujas prerrogativas
especiais o colocavam como comandante-geral de todos os cosmonautas,
mesmo dos comerciais. Se Rhodan desejasse permanecer no posto de
comando, não haveria nenhuma lei que o pudesse impedir.
— Decolar!
— ordenou o capitão. Depois, dirigindo-se a Rhodan:
— É
muito apertado aqui na cabina de comando. Ocupe minha poltrona, eu
posso ficar de pé.
Rhodan
aceitou o convite e se sentou. Depois falou com a maior naturalidade:
— O que
que você está contrabandeando propriamente, Capitão Graybound?
Rex
Knatterbul estremeceu e deu uns passos para frente. Pelo que se
deduzia, Rex não conhecia ainda Rhodan, ou fingia não conhecer.
— Posso
atirá-lo para fora da nave?
Graybound
fez-lhe um gesto impulsivo de ameaça.
— Cale a
boca, seu ignorante! Atirar Rhodan para fora da nave? Só rindo
mesmo.
E
respirando com dificuldade, continuou:
— Falou
“contrabandeando”,
mister Rhodan? O que o senhor entende por isto?
— Qual é
a sua carga? — disse Rhodan sorrindo. — Nosso Gucky também é
telepata.
— Brinquedos
e ursinhos de pelúcia. Para a criançada de Tuglan. Mas quando
chegarmos lá, a criançada estará de cabelos brancos.
— Ah!
Ursinhos de pelúcia...? — repetiu, olhando para Gucky.
Houve
troca de pensamentos entre os dois. Rhodan sabia agora o que
Graybound também sabia.
— E o
que o senhor esconde dentro deles?
O capitão
empalideceu.
“Isto
deve ser coisa do diabo. Tudo está dando errado para mim. Ah!... o
desgraçado do rato-castor, com sua mania de ler os pensamentos dos
outros”,
refletia o capitão. “Só
pode ter sido ele. O malandro contou tudo a seu chefe. Será que a
gente não tem mais o direito nem de pensar?”
— Dê a
partida de uma vez! — disse berrando para Rex.
O
primeiro-oficial puxou para baixo a alavanca de partida e a velha
nave se ergueu roncando. Em fração de segundos, a pequena ilha de
pedra, aquela saliência de pedras que lhes salvara a vida, havia
sumido.
— Não
se esqueça de assinalar nos mapas a localização deste sistema —
disse Rhodan ao primeiro-oficial. — Quem sabe, um dia, voltaremos
para cá em condições melhores?!
Depois,
volvendo-se para Graybound, continuou:
— Você
não está confiando em mim, hein? Capitão, temos que ser amigos. O
senhor me salvou a vida. Em vista disso, tem o direito de fazer um
pedido. Se for possível, cumprirei sua solicitação.
Graybound
olhava para Rhodan com ar de desconfiado. Depois foi cobrando ânimo
e chegou a um quase sorriso.
— No
tocante à minha carga, mormente quanto aos ursinhos de pelúcia...
— Isto,
meu caro, está fora da categoria de pedidos... Não, não é como
você está pensando. Negociar armas ou entorpecentes, sem nenhum
controle, com povos estranhos...! Mas você contrabandeia
medicamentos, porque são bem pagos em Glatra III. O fornecimento
feito pelos aras é muito mais caro e, além do mais, uma mercadoria
muito inferior. O que você está fazendo, Graybound, é uma coisa
normal. É verdade que os medicamentos, conforme a lei, devem passar
pela alfândega. Porém me parece que estas prescrições devem
sofrer uma modificação... Mas que é isso? Você está fazendo uma
cara esquisita.
Realmente,
a fisionomia de Graybound era como se alguém lhe tivesse comunicado
inesperadamente que sua nave fora seqüestrada. Agora os fios
desalinhados de sua barba ruiva, aliás sempre bem tratada, davam
péssima impressão. O próprio Toureiro estava meio abatido, de asas
caídas e não se podia saber a razão de sua tristeza.
— O que
você tem? — perguntou novamente Rhodan, enquanto Gucky começou a
sorrir. — Não há mais razão para preocupar-se, pode ficar
tranqüilo.
— Não é
isto que me preocupa — respondeu o capitão, muito sério ainda. —
Mas o senhor acha que o contrabando teria algum interesse quando não
fosse mais proibido?
Rhodan
controlou seu sorriso, compreendendo então a hilaridade de Gucky,
sem no entanto lhe dar razão.
— Você
haveria então de contrabandear outras coisas, se os medicamentos
ficassem liberados?
— Não
disse isto — respondeu assustado. — Disse apenas que teria menos
graça.
Depois,
dando um passo para frente, continuou:
— Bem,
agora termine seu jogo, mister Rhodan. Diga de uma vez que este é
meu último vôo. Ou vou acreditar que o senhor vai me perdoar?
— Sim,
tem que acreditar nisso, Graybound — por uns instantes ficou
olhando para Rex Knatterbul, que regulava o automático e fornecia os
dados referentes ao salto de transição para o computador de bordo.
— Quer dizer que você sabe onde estamos?
Graybound
achou que não compreendera bem a pergunta.
— Como?
— perguntou assustado. — O senhor quer dizer com isto que se
perdeu ainda antes da explosão em sua nave? — balançou a cabeça
incrédulo. — Pode-se conceber uma coisa desta?
Não quis
expressar seus pensamentos a respeito, mas Gucky não estava
dormindo.
— Está
ficando de novo sem-vergonha — chilreou Gucky baixinho para Rhodan.
O capitão
enrubesceu e, meio sem jeito, nada comentou.
— Você
disse que nós éramos novatos, ignorantes, lembra-se? Meu caro
Graybound, estávamos experimentando a nova propulsão linear e
simplesmente não tivemos sorte. Perdemos a rota e depois veio a
catástrofe.
— Ah! A
nova propulsão linear... estou me lembrando, é verdade. Queriam até
que eu fizesse uma reciclagem para me tornar comandante de uma nave
deste tipo. Mas mandei o tal Instituto às favas. Eu... fazer
reciclagem?
— Não
lhe teria feito mal nenhum — disse Gucky, olhando para ele com
franqueza. — Como seria bom tornar este brutamontes um
cavalheiro...
— Porcaria
— guinchou o papagaio, despertando de sua sesta.
Com um
ruidoso ruflar de asas, voou até a gaiola, abriu a portinhola com o
bico e entrou. O seguro morreu de velho, devia estar pensando. Com
uma expressão indefinida nos olhos, Gucky acompanhou todo o
movimento do louro. Depois, balançando a cabeça, sentenciou:
— Tal
dono, tal papagaio.
Rhodan
voltou ao assunto.
— Você
foi convocado para aprendizagem no Instituto de Cosmonáutica?
Formidável! Formidável mesmo! Isto quer dizer que o computador o
distinguiu como competente, numa seleção feita rigorosamente. Um
bom sinal, capitão. Excelente! Naturalmente, o computador não
examina apenas os candidatos, mas também todos os pilotos em
atividade. E você estava entre os selecionados. Meus parabéns,
Capitão Graybound!
— Parabéns?
— repetiu o capitão desconfiado e com um certo tremor na voz, cujo
volume vinha diminuindo desde o primeiro contato com Rhodan. —
Parabéns por quê? Eu disse que recusei a tal reciclagem!
— Isto
não tem importância, capitão. Sua aptidão de caráter e
profissional continuam existindo.
— Devido
à minha formação, eu me sentia inadaptado, mister Rhodan. Um tal
Major Kammbügel
me disse francamente. Aliás, foi uma luta horrível para eu
convencê-lo de meu baixo nível de instrução.
— Será
que ele não se chama Rammbüggl? — esforçando-se, Rhodan
lembrou-se do nome. — Sim, acho que é este mesmo: Rammbüggl. Mas
estou muito curioso para saber a opinião dele.
Graybound
pigarreou sem jeito.
— O
senhor disse que eu teria direito de fazer um pedido?
Quando
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça, ele continuou:
— Está
bem, aqui vai meu grande pedido. Nunca leia, por favor, este
relatório do Major Damm... Rammbüggl. Quando chegar às suas mãos,
jogue-o fora, mas não leia, por favor.
Rhodan
sorriu, batendo de leve nos ombros do velho capitão.
— Prometo
fazer o que pede. Não fosse você, nunca mais iria ler um relatório
em minha vida. Portanto, posso deixar de lado este.
O capitão
respirou aliviado. Havia percebido, nestes últimos dias, que seu
procedimento no Instituto poderia lhe acarretar sérias complicações.
Agora, estes cuidados não existiam mais.
Sem
afastar os olhos da tela, disse o primeiro-oficial:
— Transição
em dois minutos, capitão.
— É um
salto bem longo, mister Rhodan — explicava Graybound, com bons
modos. — Leva-nos para um ponto, onde nos podemos orientar com
facilidade. Com outros saltos, chegaremos ao sistema solar.
A
transição foi tranqüila, mas quando o espaço se materializou
novamente diante da Lizard, o Capitão Graybound teve uma grande
surpresa.
Surgiram
não apenas as estrelas, mas também três cruzadores da Frota
Terrana de Vigilância. Achavam-se posicionados de tal forma, como se
estivessem esperando, exatamente ali, a volta da Lizard de Graybound.
O velho
barba-ruiva esfregou os olhos.
— Não é
possível! Rex, será que estou vendo fantasmas?
— Vejo
três cruzadores, Samuel. Um deles traz o registro daquele rapaz que
nos queria prender. Deve naturalmente ter ido buscar reforço.
— A
respeito de que vocês estão falando? — indagou Rhodan.
Graybound
tentou explicar:
— O
sujeito não poderia jamais suspeitar de que eu voltaria ao local de
onde fiz a transição. Mas que ele ainda tenha trazido mais dois
colegas para revistar minha mercadoria é mesmo um incrível acaso!
Rhodan ia
dizer alguma coisa, mas Smith o interrompeu. Quando fazia questão de
chamar a atenção dos outros, o telegrafista baixo e magro usava uma
voz muito aguda.
— Intimação
para parar. Abrirão fogo imediatamente se tentarmos fugir.
— Disse
isso? — perguntou Graybound, admirado, parecendo ter esquecido
completamente a presença de Rhodan. — Rex, vamos escapulir.
Rhodan
conseguiu fazer-se ouvir:
— Não
aja com precipitação, capitão. Desta vez, o comandante está
prevenido. Haverá de segui-lo. A esta pequena distância, ele pode
calcular facilmente o valor de seu salto e assim que a Lizard se
materializar, ele estará por perto e a destruirá. Não se esqueça
de que minha frota espacial teve boa formação — disse sorrindo. —
Os comandantes dos cruzadores são excelentes pilotos espaciais.
Graybound
curvou a cabeça.
— Não
salte não, Rex — disse resignado. — Teremos de ser vistoriados
por eles?
— Não
parece que está entendendo — e, meneando a cabeça, Rhodan
continuou: — Preferia que minha presença a bordo não fosse
revelada, mas se isto for inevitável...
Parou um
instante para refletir.
— Dê um
jeito de escapar sem que haja uma busca direta em sua nave. Fale com
o comandante e procure convencê-lo a não mais suspeitar de você.
A
expressão de desespero na fisionomia de Graybound transformou-se
numa verdadeira careta.
— O
senhor não faz idéia de como isto é difícil. Os rapazes me
conhecem já há muito tempo.
— Espiões
miseráveis!
— gritou Toureiro furioso, preferindo, porém, ficar dentro da
gaiola. —
Dê um tiro neles!
Rhodan
aproximou-se do papagaio, olhou bem firme nos seus olhos e disse de
repente:
— Se
você abrir a boca mais uma vez num momento inoportuno, nós lhe
aplicaremos um bloqueio hipnótico. Entendido?
A partir
deste momento, o louro ficou outro. Não abriu mais o bico.
Novamente
a voz fina de Smith:
— Devemos
abrir a escotilha. Um Major Behnken com quatro homens formarão o
comando de aprisionamento. Que devo responder?
Rhodan fez
um sinal para o velho capitão.
— Que
podem vir a bordo — ordenou Graybound, com sentimentos
contraditórios dentro de si. Não estava nada seguro e não se
sentia bem, mesmo com a presença de Rhodan. — A escotilha será
aberta.
Rhodan fez
um sinal para Gucky.
— Nós
dois vamos nos esconder na cabina de rádio. Procure conversar com o
major e convencê-lo. Estamos aqui às suas costas. Mas não se
esqueça de que quero fazer tudo para não ser visto. Pretendo
regressar à Terrânia sem chamar a atenção de ninguém. Não devem
saber, por ora, que o primeiro aparelho com propulsão linear
fracassou.
Parou um
instante, hesitando.
— Não,
não fracassou, propriamente. Fizemos uma maravilhosa descoberta,
isto sim.
Quando
Graybound julgava que ia ouvir a grande descoberta de Rhodan, teve
uma grande desilusão. O administrador desapareceu na cabina de rádio
com Gucky.
O capitão
ordenou para que a escotilha fosse aberta.
Rex
Knatterbul desceu, a fim de receber o major e conduzi-lo à central
de comando. Seu rosto estava sem expressão; suas mãos, porém,
caídas e contraídas em punho, diziam muito do seu estado de
espírito. Graybound continuava esperando. Estava certo de que não
lhe ia acontecer muita coisa. Em caso de extrema necessidade, traria
o major para a cabina de rádio e ele certamente haveria de ter uma
boa surpresa. Mas, se pudesse contornar a situação, estaria
atendendo o pedido de Rhodan.
Toureiro
vira Rhodan desaparecer e devia julgar estar agora sozinho com seu
amo. Abriu a porta da gaiola e voou para o ombro de Graybound.
Ouviram-se
sons de vozes no corredor e, logo a seguir, entraram o Major Behnken
e dois cadetes, com pistolas energéticas na cintura. O Major Behnken
deu dois passos à frente e parou. Incrivelmente calmo, seu olhar se
deteve longamente em Graybound, passando depois para um sorriso entre
o desprezo e a ironia.
— O
senhor, portanto, é o “legendário”
Samuel Graybound? Para ser sincero, tenho de confessar que o
imaginava bem diferente.
— Obrigado
pela franqueza — disse bem descontraído, fazendo um grande esforço
para se manter calmo. — E o senhor é Behnken?
Por um
instante, o comandante do cruzador pareceu perplexo, depois seu rosto
ficou corado.
— Major
Behnken! — repetiu com certa entonação. — Para o senhor,
simplesmente major!
— Bem,
major, para o senhor eu sou também simplesmente capitão, entendido?
O Major
Behnken enrubesceu mais ainda. Os dois cadetes a seu lado estavam de
cara fechada, mas, no fundo, seus olhos tinham um brilho de prazer...
— Homem!
— gritou o Major Behnken, perdendo seu autodomínio, bufando de
ira.
Graybound
estava mantendo a calma, pensando sempre no pedido de Rhodan.
— Admiro
seu dom, ou melhor, seu senso de observação, major — disse
sorrindo amavelmente, mas com tanta afabilidade que seu interlocutor
não podia resistir. — Sou homem, é certo. Mas posso perguntar,
com todo o respeito, a que espécie de mamíferos o senhor pertence?
Gucky, que
estava agachado na cabina de rádio com Rhodan e Smith, começou a
sorrir alegre. O velho capitão lhe estava agradando cada vez mais.
Se o negócio continuasse assim, seria uma viagem fantástica.
— Então?
— insistiu o velho globetrotter
do espaço, quando viu que não vinha resposta.
Mas
Behnken não pensava mais em conversar com aquele capitão maluco.
Fez um sinal aos dois cadetes.
— A
situação aqui está sob meu controle. Reúnam-se aos outros dois e
examinem a nave. O primeiro-oficial vai conduzi-los.
Depois que
Rex desapareceu com os cadetes, virou-se novamente para Graybound.
— E
agora, vamos ter uma conversinha, meu velho. Você procurou me
ridicularizar na frente dos meus subordinados. Quase que conseguiu,
hein? Mas ai de você, se encontrarmos a menor irregularidade em sua
Lizard.
O capitão
continuava sorrindo.
— Pode
procurar, major, não vai encontrar nada, a não ser brinquedos e
ursinhos de pelúcia. Será que são proibidos?
— Espere
— gritou de novo o major, zangado. — Quando queremos, sempre
achamos alguma coisa...
— Ah! É
assim? Quando o senhor quer, sempre acha alguma coisa? Isso é
fantástico! Quer dizer que o senhor pode simplesmente incriminar
alguém, só porque não vai com a cara desse alguém? O que diria
seu chefe, o Administrador Perry Rhodan, sobre tudo isto?
— De
qualquer maneira, se nós cassássemos a patente de gente como você,
que só faz rotas incertas e negócios escusos, dificultando nosso
trabalho, ele nos seria grato.
A cabeça
de Graybound começou a ferver. Tudo, menos críticas às suas
qualidades de piloto espacial! Aí o sangue começava a esquentar,
esquecendo todas as medidas de cautela. Em outras palavras: quando
lhe tocavam na honra profissional, voltava a ser o velho Samuel
Graybound.
— Seu
idiota! — gritou tão alto que o major, sem querer, deu um passo
para trás e bateu com as costas na porta da cabina de rádio. —
Ridículo boneco fardado, completamente oco! Se me disser mais uma
palavra inconveniente, vou perder a cabeça. Entendeu? Seu... seu...
major!
Não se
lembrou na hora de um bom nome, bem pesado, para xingá-lo. Também
Toureiro, que assistia a tudo com entusiasmo, queria agora ajudar seu
amo.
— Major
vigarista! Major!
— gritava estridente.
Behnken
era um bom oficial da Frota Espacial e fora sempre fiel cumpridor de
seus deveres. Mas aquele encontro com o Capitão Graybound exigia
demais de seu sistema nervoso. Mas antes que sua mão pudesse atingir
a coronha da pistola na cintura, abriu-se a porta da central de
comando. Entraram os quatro cadetes, tendo à frente Rex Knatterbul,
trazendo na mão um ursinho de pelúcia. A cara do primeiro-oficial
falava mais do que qualquer palavra e Graybound perdeu toda
esperança.
— Olá,
rapazes! — disse com voz sumida, fazendo um gesto para os cadetes.
— Senhor,
encontramos contrabando a bordo — disse um deles, sem dar atenção
ao cumprimento pouco cerimonioso do capitão.
O rosto do
Major Behnken se iluminou de um momento para o outro.
— Deixe-me
ver este ursinho.
— Senhor,
por favor descubra o senhor mesmo...
O cadete
tirou o bichinho das mãos de Rex, entregando-o ao major. Behnken,
que o pegou meio sem jeito, ergueu-o contra a luz, descobrindo nas
costas um buraco, tapado com pano. Olhou bem para dentro e viu
algo...
Estava
triunfante como um gladiador que apontasse a lança para seu rival
estirado no chão.
— Isto
aqui, ilustríssimo, vai pôr um ponto final na sua carreira. Sua
nave será confiscada e um de meus oficiais vai conduzi-la para a
Terra. E o senhor, seu “civilista”,
vai passar o resto do vôo no meu cruzador. Temos lá uma linda
cabina, enfeitada com cadeados de segurança. Lá poderá ficar mais
calmo e medir melhor suas palavras.
— Carrasco!
— começou Toureiro, como se tivesse entendido cada palavra. —
Assassino
vagabundo, vou contar isso a sua mulher...!
— E o
papagaio — continuou o major com voz fria — será atirado para
fora da nave.
Graybound,
furioso, deu um pulo para frente.
— O
senhor não vai fazer isto — ameaçou de olhos arregalados — do
contrário vamos ter uma desgraça aqui dentro!
— Mais
uma ameaça! Vocês ouviram, Jenner e Klod. Para isto, mais dois
meses de prisão.
Graybound
arriscou um olhar desesperado para a cabina de rádio. Conforme o
combinado, estava na hora de Rhodan intervir. Se não acontecesse
isso, ficaria os próximos dez anos atrás das grades só por desonra
e ofensa graves a um oficial da Frota Espacial.
— O que
o senhor entende por ameaça? Está escrito no seu manual de serviço
que os papagaios são obrigados a aprender a voar no vácuo? Olhe
aqui, seu malvado, Toureiro vai comigo onde eu for, até mesmo para a
prisão.
O major
acabou perdendo a paciência e ordenou a seus cadetes:
— Jenner,
Klod! Algemem este barba-ruiva e levem-no para o cruzador. Depois
mandem para cá o Tenente Drummond. Ele conduzirá para a Terra a
Lizard. Que nome traiçoeiro, hein?
Para
tremendo alívio de Graybound, não teve de agir como seus ânimos,
já agora bastante alterados, desejavam, pois Perry Rhodan saiu da
cabina de rádio, atravessou a porta que dava para o corredor e se
postou diante do major.
— Capitão
Samuel Graybound ficará aqui, major. O senhor foi vítima de um
erro.
Major
Behnken virou-se para trás, como se uma cobra o tivesse mordido.
Devido à iluminação deficiente, não reconheceu imediatamente
Rhodan. Além disso, o uniforme do administrador não estava de
acordo, como manda o figurino militar, devido à aterrissagem forçada
e à longa permanência no estranho planeta.
— Quem é
o senhor? — perguntou irado a Rhodan. — Estava também escondido
por aqui? A julgar pelo uniforme, o senhor é um oficial que desertou
da Frota Espacial. O que estaria procurando aqui nesta nave de
contrabando?
Enquanto o
major esbravejava, um dos cadetes, Jenner, lhe fazia sinais
desesperados. Os olhos quase lhe saltavam das órbitas e sua boca
murmurava algo. Aparentemente tinha uma mensagem importante para o
major, não ousando, porém, interromper suas palavras.
Graybound,
por seu turno, se arqueava de tanto rir. Quase perdia o fôlego, de
tão cômica que achou a situação. O Administrador do Império
Solar, sendo descomposto por um major, como se fosse um simples
colegial. E o que mais impressionava a Graybound: Rhodan não deixava
de sorrir.
Quando o
major terminou a verborréia, o cadete Jenner bateu continência e
disse:
— Senhor,
há um grande equívoco em tudo isto. É o...
— Por
favor, Jenner, abra mais a boca quando quiser falar comigo.
— Eu...
eu... — Jenner não conseguiu falar: faltou-lhe o ar.
O major
foi ficando preocupado. “Será
que ele conhecia o homem escondido na velha nave de Graybound?”
— Quem é
o senhor? — repetiu indeciso para Rhodan.
Mas de
repente sua voz se embargou, o queixo lhe caiu e os olhos se
arregalaram.
Gucky saiu
também da cabina de rádio, passou solene pelo posto de comando,
colocando-se tranqüilamente diante do Major Behnken.
— Então,
major, ainda deseja dizer alguma coisa?
Behnken
olhava para Gucky como se fosse uma assombração.
Se já não
tivesse reconhecido Rhodan, não podia deixar de reconhecer Gucky,
que até um cego perceberia com seu cajado.
— O
rato-castor! — exclamou Behnken. — Gucky?
O
rato-castor se sentia feliz e, com os olhos cintilantes, disse a
Rhodan:
— Está
vendo quem de nós é mais célebre? Sempre lhe disse que você é um
simples homem entre muitos e muitos milhões. Agora, eu, sou um
rato-castor e existem muito poucos da minha espécie.
O pobre do
Major Behnken estava de novo de boca fechada e seu rosto passara do
vermelho para o branco-cadavérico. Não se sentia bem e Graybound,
homem que não guardava rancor, puxou-lhe prestativo uma cadeira.
— O
senhor... o se... nhor é Perry Rhodan, o administrador?
Caiu na
cadeira e fechou os olhos. Por um triz que não perdeu os sentidos.
— Major
Behnken, ouça bem o que lhe tenho a dizer — começou Rhodan,
arrancando-o do estado de semi-inconsciência. — O senhor disse e
fez alguma coisa que ultrapassou sua competência. Vamos esquecer
tudo isto, sob determinadas condições.
O major
abriu os olhos de novo, fixou-os por um momento em Rhodan e se
levantou de um pulo, perfilando-se. Parece que sua cabeça voltara a
funcionar.
— Sir!
— O
senhor vai esquecer também tudo o que viu aqui na Lizard. O senhor e
seus quatro cadetes. Será que me expressei com clareza e nossa
combinação está bem entendida?
— Mas as
mercadorias de contrabando...
— Este
honrado capitão — apontou para Graybound — comercia a meu
serviço. Será que o senhor quer duvidar da legitimidade de minhas
ações, major?
Behnken se
assustou com a pergunta.
— Naturalmente
não, sir, estava pensando, porém, que...
— Esqueça-se,
pois, de nosso encontro, certo? Quero esquecer também algumas de
suas afirmações — e olhando demoradamente para os cadetes: — E
se vocês fizerem questão de continuarem pertencendo à Frota
Espacial, recomendo-lhes a mesma coisa. Esqueçam que o Capitão
Graybound faz contrabando e tentem não se lembrar de que me viram a
bordo da Lizard. E agora, meus senhores, lhes desejo boa viagem.
Cumprimentou
com a cabeça o Major Behnken e deixou o posto de comando. Gucky saiu
atrás como um cão fiel, não sem antes dar uma piscadela para o
velho capitão. Como já foi dito, Gucky se tornava, cada vez mais,
fã de Graybound. Considerava-o um homem bom.
Major
Behnken olhava agora para o capitão, um tanto pensativo. Afinal de
contas, ele não era nenhum desmancha-prazeres e também não se
sentia ainda na idade de pensar na aposentadoria. Um sorriso tímido
aflorou em seus lábios e provou que sabia compreender a situação e
se adaptar a ela.
— Desculpe-me
o acontecido, Capitão Graybound. Fazemos o controle de rotina neste
setor, compreende? É o nosso dever. Fico contente em saber que sua
carga está em ordem e lhe desejo um bom vôo.
— Mentiroso!
— guinchou Toureiro, vingativo e inclemente.
O major
não gostou, teve uma reação, mas dominou-se.
— Capitão,
o senhor tem uma ave muito inteligente. Passe bem.
Graybound
agradeceu e apontou para a porta.
— Rex,
acompanhe os senhores até a escotilha. Cuide para que não se
esqueçam de atarraxar o capacete, antes de deixarem a nave.
O velho
capitão tinha nos lábios um sorriso feliz. Depois que o posto de
comando ficou vazio e a porta se fechou, deixou-se cair na cadeira.
Alguém pigarreou nos fundos. Era Henry Smith que saía da cabina de
rádio. Acanhado e desajeitado, estava ele ali, sorrindo para seu
chefe.
— Chefe,
o senhor deu uma lição neles, hein?
Quando viu
Graybound, sorrindo amigavelmente para ele e falando com voz
moderada, ficou admirado.
— Graças
a Deus, Smith. Tenho que agradecer, antes de tudo, a você, pois me
ajudou muito. Sem você não teríamos encontrado Rhodan.
Smith
voltou feliz para seu posto de trabalho e sublinhou de vermelho a
data. Nunca se sentira tão bem em sua vida. É verdade que o Capitão
Graybound não passara pelo Instituto de Cosmonáutica para fazer a
tal reciclagem, mas alguma coisa havia mudado muito nele. Parecia
agora um perfeito cavalheiro.
Toureiro
balançava a cabeça, como que desaprovando a mudança sofrida por
seu amo. Para ele, parecia que o mundo estava acabando.
Rex voltou
para seu posto e, segundos depois, a Lizard entrou em transição,
alcançando ainda no mesmo dia o sistema solar pátrio. Antes que a
nave, com uma velocidade de 0,2 da da luz, entrasse na órbita do
planeta, Rhodan penetrou pela última vez no posto de comando, em
companhia de Bell. Graybound se levantou educadamente, oferecendo sua
poltrona ao administrador.
— Preste
atenção, amigo Graybound, nossa gente vai ficar a bordo até
amanhã, quando então serão apanhados. Por favor, mantenha segredo
sobre o que aconteceu, principalmente sobre minha presença em sua
nave. Aja como se nunca me tivesse encontrado. Isso tem de vigorar
pelo menos até a versão oficial, que deve ser dada sobre meu
retorno. Não seria absolutamente aconselhável que outros soubessem
que o primeiro vôo experimental da propulsão linear foi um quase
fracasso. Acho que estamos nos entendendo, não é verdade?
— Perfeitamente,
sir!
— Ótimo!
Agora mais uma coisa importante. Você pertence à companhia
“Globetrotter
das Estrelas”,
não é? Vou oferecer futuramente contratos de serviço à sua firma,
que, naturalmente, vocês podem aceitar ou não, conforme desejarem.
Neste momento vamos tratar de lhes indenizar o prejuízo que tiveram
devido ao retorno. Você acha que cinqüenta mil solares de
indenização bastam?
Graybound
procurou apoio, olhando surpreso para Rhodan.
— Cinqüenta
mil...? — aspirou profundamente. — Puxa, para conseguir uma
quantia desta, eu precisaria fazer dez viagens! Além disso, o fato
de lhes ter prestado socorro foi a coisa mais natural deste mundo
e...
— Você
teve ou não teve um prejuízo financeiro com o tempo perdido?
Bell
estava ao lado dele, fazendo-lhe um sinal com os olhos, para que
dissesse sim. O capitão, meio acanhado, fez que sim.
— Então?
— suspirou Rhodan, mais aliviado. — Vou lhe remeter o dinheiro em
nome da “Globetrotter
das Estrelas”
e não no seu nome, para não despertar a atenção de ninguém...
— Para
mim, também é melhor, por causa da minha Ludmila.
— Como,
por favor?
— Ah!
Minha mulher, o senhor sabe...
— Compreendo
— disse Rhodan mostrando respeito por seus sentimentos. — Então
você é casado? Meus parabéns!
A
expressão da fisionomia de Graybound valia a pena ser estudada. Era
um misto de felicidade e de acanhamento.
— Compreendo,
meu amigo — disse Bell, que até então se mantivera calado. — A
julgar pelo seu tipo, sua esposa deve ser uma mulher muito enérgica.
O senhor tem medo dela? Mas você não tem cara de
maria-vai-com-as-outras!
— É...
— disse Graybound acanhado. Talvez devido à presença do
primeiro-oficial, Rex Knatterbul, que já estava penetrando com
segurança na atmosfera da Terra, na direção de Terrânia, o
capitão não fez mais nenhum comentário.
O ronco
dos motores cessou. A Lizard terminara sua viagem. Toda sua carga —
ursinhos de pelúcia para Tuglan — estava intacta nos porões da
nave. Com exceção de um ursinho que Gucky apanhara — “como
lembrança”,
dizia ele.
Rhodan
esticou a mão para Graybound.
— Adeus,
capitão! Nós lhe devemos muito. Se estiver um dia em dificuldades,
lembre-se de que tem bons amigos. Eu, mister Bell, Gucky e mais
setenta e nove oficiais, estamos gratos. Assim sendo, todos os
cientistas e tripulantes da Frota, também. Estaremos sempre prontos
para ajudá-lo. E acredite, capitão, o senhor e eu ainda nos
encontraremos. A Terra precisa de homens como o senhor. Agora e
sempre.
Graybound
estava profundamente comovido. Pigarreou acanhado e apertou a mão de
Rhodan, fazendo a mesma coisa com Bell.
Naquele
momento apareceu Gucky. Depois de fechar a porta, encaminhou-se para
o velho lobo-do-espaço. Com um salto colocou-se na altura do peito
do barba-ruiva e lhe deu um abraço. Depois se ouviu um ruído
diferente... o rato-castor havia beijado o rosto do velho capitão.
— Vou
contar tudo para Ludmila!
— disse Toureiro, ciumento, fazendo a pior ameaça possível.
Depois
Gucky pulou para o chão e pegou na mão de Rhodan e de Bell.
— Até
logo mais, Samuel!
E diante
dos olhos arregalados de Graybound, os dois homens e o rato-castor se
desmaterializaram.
Ficou na
cabina, acompanhado por Rex e por Smith.
Envergonhado,
esfregou os olhos e percebeu, de repente, que seus dois auxiliares o
fitavam espantados. Empertigou-se e sua estatura pareceu crescer uns
dez centímetros.
— O que
vocês estão xeretando aí? — disse com voz mais forte, dando um
murro na mesa dos mapas, quase quebrando-a. — Não têm nada para
fazer? Vamos partir amanhã de manhã. Preparem tudo. Rota:
oficialmente, para Tuglan. Não oficialmente... vocês sabem para
onde. Estão esperando pelos ursinhos de pelúcia. Desta vez não vai
haver folga. Vamos ao trabalho, preguiçosos.
Rex sorriu
e apanhou os mapas caídos no chão. Smith examinava mecanicamente
seus aparelhos, pois estava com o pensamento voltado para outra
coisa. Muito mudara por ali. O patrão parecia agora um homem normal
e isto era muito bom. É claro que “calmo”
demais não serviria para ser um comandante.
Graybound
deixou a nave, sozinho, como qualquer observador podia ver. Com
passos cadenciados, tomou a direção do portão da alfândega, onde
o Tenente Dopner o aguardava com olhar curioso.
— Oba!
Já de volta? Qual é a carga? Pigarreando, disse sorrindo:
— Brinquedos
e ursinhos de pelúcia, de Tuglan para a Terra.
E passou
garboso por Dopner, que o ficou olhando de boca aberta.
— O... o
quê?
— Vou
levar de volta amanhã. O negocio não presta e ficou encalhado... Se
você não está acreditando, dê uma chegada na nave e faça uma
vistoria. Não quer não?
Não
esperou por resposta e seguiu tranqüilo seu caminho.
— Onde
está sua bela esposa?
— perguntou Toureiro, empoleirado no seu ombro.
Depois,
com mais força ainda repetiu: —
Onde está?
— Cale a
boca — gritou-lhe Graybound, não dando confiança a alguns
curiosos que estavam por ali sem fazer nada.
Não quis
pegar táxi, mas fez questão de ir a pé ao longo do extenso
espaçoporto. Sentia-se feliz por pisar num chão firme, um chão bom
como o da Terra. O céu estava azul e o Sol, gostosamente quente,
obrigou Graybound a desabotoar o casaco do uniforme.
E começou
então a cantar uma velha modinha. Toureiro, em seu ombro,
acompanhava a melodia com um assobio estridente.
Assim
caminhou o Capitão Graybound pela avenida que contornava o enorme
campo de pouso de Terrânia, contente consigo e com o mundo.
— Ah! O
velho Graybound voltou. Estou curioso para saber quando é que vão
cassar sua licença. Um tipo assim não merece andar pelo espaço.
Andando por toda parte com um papagaio nas costas, torna-se ridículo.
Mas, se um dia ele se encontrar com Rhodan, vai tirar o cavalo da
chuva. O chefe não é tão complacente como nós aqui...
E um
sargento acenou-lhe, pensativo.
O Capitão
Graybound respondeu apenas com um movimento da mão, sem interromper
a bela cantiga, nem seu passo cadenciado. Uma pedra estava à margem
da avenida, ele a chutou com força, no ritmo certo, imaginando que a
pedra fosse um certo Major Behnken... ou mesmo o Major Rammbüggl. Ou
qualquer outra pessoa desumana!
*
* *
*
*
*
O
globetrotter do espaço era mesmo uma figura singular. Outro tipo
singular, de características fantásticas, devia ser o Coronel Nike
Quinto, chefe da Divisão III, entidade específica para entrar em
ação no espaço em casos de perigo ou acidentes que envolvessem as
cosmonaves terranas.
Em A
Divisão III Entra em Ação,
título do próximo volume, Nike e seus comandados viverão cenas
eletrizantes.

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