Autor
KURT
BRAND
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Thomas
Cardif desencadeia uma revolta
contra
Árcon — mas Perry Rhodan é mais
inteligente
que o filho.
Com a
descoberta de uma nave exploradora dos arcônidas, pousada na Lua,
foi lançada a base para a união da Humanidade e a criação do
Império Solar, resultante dessa união.
Na
ocasião, ninguém, nem mesmo Perry Rhodan, o fundador do reino
estelar terrano, desconfiava dos esforços e da energia psíquica que
se tornariam necessários para, no curso dos anos, defender o Império
contra os ataques vindos de dentro e de fora.
A
ameaça mais grave com que já se defrontou a Humanidade,
representada pela invasão do Império Solar, pôde ser vencida
graças ao auxílio dos arcônidas. Da mesma forma, a perigosa
situação política, criada pela atuação de Thomas Cardif, foi
solucionada graças a uma ação isolada de Gucky.
A frota
dos saltadores retirou-se do sistema solar. Rhodan alcançou mais uma
vitória sem derramamento de sangue. No entanto, o Império de Árcon,
governado por Atlan, o imortal, vê-se diante de um perigo
gravíssimo, quando a Galáxia toma conhecimento de que o
computador-regente, que costumava golpear implacavelmente, não
governa mais!
Por
isso vemos Atlan em Perigo. E Perry Rhodan tem de intervir nos
acontecimentos!
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar e elemento de apoio de Atlan.
Thomas
Cardif
— Cujo
ódio pelo pai abala os alicerces da Via Láctea.
Atlan
— Novo
imperador de Árcon.
Frank
Lemmon
— Chefe
da Seção F-l do Serviço de Defesa Solar.
Reginald
Bell
— Melhor
amigo de Perry Rhodan.
Cokaze
— Patriarca
de um poderoso clã dos saltadores.
Gucky
— O
rato-castor com o qual ninguém consegue ficar zangado por muito
tempo.
Atual
e Ortece
— Diretores
do Banco dos Mercadores Galácticos de Titon.
1
Frank
Lemmon possuía uma concepção sobre o trabalho que correspondia
plenamente ao seu caráter e, nas últimas duas horas, vinha dando
prova patente da mesma: não fazia nada.
Lera o
rechonchudo Terrania
Post,
tomou conhecimento dos artigos políticos, estudara os assuntos
econômicos e há uma hora chegara à conclusão de que mesmo isso
representava um esforço, embora a leitura do jornal não se
incluísse entre as atribuições ligadas ao seu serviço.
Frank
Lemmon era natural dos Estados Unidos. Nascera na cidade de Klondike.
Fazia três anos que viera de Klondike para Terrânia, onde fora
aprovado com distinção no primeiro exame de seleção. Dali a seis
meses, passou a ocupar a posição de chefe da Divisão F-l do
Serviço Secreto Solar.
A Divisão
F-l tinha a seu cargo a observação das condições políticas
reinantes na Terra. Frank Lemmon recebia todas as notícias a este
respeito. Era um homem que muitas vezes não sabia dominar os vícios
de seu caráter. No entanto, era uma das poucas pessoas de Terrânia
que preferia não recorrer a um cérebro positrônico para realizar
uma interpretação preliminar dos dados. Frank Lemmon preferia
confiar em seu instinto ou, conforme diziam seus documentos:
Parassentido!
Trata-se de uma qualidade não classificável, resultante de um poder
de concatenação superior à média, combinado com um tipo de
sentido visionário para notícias aparentemente sem importância,
mas que na verdade são do maior relevo.
Frank
Lemmon entrara em serviço com uma hora de atraso, porque ao
despertar já sentira pavor por mais um dia cheio de tédio. Sempre
que saía da cama com essa sensação, o dia de trabalho não trazia
nenhuma ocupação para ele. Costumava enfrentar esse fato por meio
da preguiça, que o levava a deixar de executar os serviços menos
importantes que surgiam à sua frente.
De
qualquer maneira, o Marechal Allan D. Mercant, chefe do Serviço de
Segurança Solar, não costumava recriminar o chefe de divisão Frank
Lemmon por esse fato. Mercant sabia pesar os defeitos e as qualidades
de seus colaboradores. No caso de Lemmon, a capacidade de classificar
à primeira vista as notícias recebidas, segundo sua importância,
pesava muito mais que a preguiça.
Lemmon
estava sorvendo gostosamente o café forte e muito quente, quando a
tela do aparelho de comunicação se iluminou. O chefe de divisão,
um homem esbelto de 24 anos, mal levantou a cabeça.
Eram
notícias vindas de Washington, Pequim e Laore.
— Pela
Via Láctea! — exclamou Lemmon com um gemido. — O agente de Laore
está escrevendo um verdadeiro romance.
Quando a
tela se apagou, já tinha esquecido as notícias transmitidas. Esteve
a ponto de pegar novamente o Terrania Post, a fim de ler uma história
cujo título lhe interessava — Ghanu,
Retrato de Uma Alma
— quando, subitamente, endireitou o corpo e tirou os pés de cima
da mesa. De repente, a expressão de tédio desapareceu de seu rosto.
— Rabintorge?
Onde foi que li ou ouvi este nome? Rabintorge... não é aquele
indiano que forneceu dados sobre o sistema de propulsão hiperlinear
dos druufs que foram falsificados com tamanha astúcia que o Serviço
de Defesa passou uma vergonha tremenda e...?
Lemmon
ligou o sistema de som do intercomunicador, que permanecera inativo
durante a transmissão da imagem.
— Manners,
traga imediatamente todos os dados sobre Rabintorge, aquele blefador
de Laore. Estou com pressa, Manners!
Se Frank
Lemmon usava esta frase, realmente havia uma pressa enorme.
Não
esperou muito tempo. Manners, um quarentão baixo, colocou uma pilha
de fotografias do arquivo sobre sua mesa.
— É
tudo? — perguntou Lemmon para certificar-se.
— É.
Conferi os dados de que dispomos com os do arquivo central e...
Frank
Lemmon interrompeu-o com um gesto. Queria ficar só. Com a mesma
facilidade de alguém que lê um livro, leu as fitas perfuradas.
Separou
três relatórios. Enfiou-os no bolso, levantou-se e avisou na
ante-sala que teria uma conferência com o Marechal Mercant.
A direção
do Serviço de Defesa Solar ficava a dezoito quilômetros, num
gigantesco arranha-céu que abrigava a administração e se
transformara no marco distintivo de Terrânia. Mas, face às tarefas
imensas que o Império Solar tinha de realizar, esse aparelho
burocrático não era nenhum órgão acéfalo que proporcionasse uma
vida confortável a alguns milhares de colaboradores.
Frank
Lemmon representava uma exceção, com suas horas de preguiça que
surgiam a intervalos irregulares. Mas, graças aos trabalhos
fenomenais que vez por outra costumava apresentar, valia tanto quanto
uma equipe bem treinada de seis pessoas.
Teve de
esperar mais de meia hora na ante-sala do gabinete de Mercant.
— O
chefe está lá dentro! — dissera a secretária de nariz chato,
sempre bem-humorada.
“Nesse
caso, o chefe não poderá deixar de ouvir-me”,
pensou Lemmon.
Nem se deu
conta de que estava atribuindo uma importância extraordinária à
sua pessoa.
Quando se
tinham passado mais de trinta minutos de espera e ainda não havia
nada que indicasse o fim da conferência que se realizava atrás
daquela pesada porta, Frank Lemmon voltou a falar com a secretária.
— Faça
o favor de avisar imediatamente ao marechal que se trata da propulsão
LH.
A
abreviatura LH fora inventada por ele e lhe acudira naquele momento
num verdadeiro lampejo do espírito. Nem Mercant nem Perry Rhodan a
conhecia, e era bem possível que ambos não soubessem adivinhar seu
significado. Acontece que, dessa forma, Lemmon obedecia à regra
primordial do sigilo, e, por outro lado, talvez conseguisse fazer com
que Rhodan ficasse para ouvir o que ele, Lemmon, tinha a dizer.
— É
realmente tão importante, Lemmon? — perguntou a secretária em tom
de dúvida.
Estava
acostumada a ver as pessoas recorrerem ao pretexto de um assunto
importante para fazer com que Mercant lhes dedicasse parte de seu
precioso tempo.
Frank
Lemmon respondeu com toda calma:
— Na
minha opinião é muito importante. Não se esqueça de mencionar o
mecanismo de propulsão LH.
A resposta
de Allan D. Mercant foi imediata.
— O quê?
O propulsor LH? Quem quer falar comigo? Lemmon? Mande-o entrar.
Frank
Lemmon fechou lentamente a pesada porta atrás de si. Perry Rhodan, o
administrador do Império Solar, e Allan D. Mercant, o chefe do
Serviço de Defesa, estavam sentados frente a frente, junto a uma
mesa. Com um gesto, Mercant convidou Lemmon a sentar-se. Nenhum dos
dois indagou sobre o significado da abreviatura LH.
Lemmon
tirou do bolso as três fitas perfuradas e colocou-as na mesa. Quando
levantou a cabeça, fitou os olhos cinzentos de Rhodan, que refletiam
certa tensão.
— Sir...
marechal.
Lemmon
dirigiu-se aos dois ao mesmo tempo e nem se deu conta de que acabara
de desagradar a seu chefe imediato através do tratamento que lhe
dera. Não compreendeu e nem se preocupou com o ligeiro sorriso que
aflorou ao rosto de Rhodan. Concentrou-se no relato que teria de
oferecer.
Falou no
estudante indiano chamado Rabintorge, que, por meio de canais ainda
não descobertos, conseguira saber algo sobre o hiperpropulsor linear
dos druufs. Frank Lemmon comentou a respeito do impacto provocado
junto ao Serviço de Defesa Solar por um artigo de quatro páginas,
recheado de fórmulas, publicado na revista Ars
Stellaris,
órgão da Universidade de Laore.
— ...e
nossos cientistas levaram quinze dias para informar-nos de que
caíramos numa brincadeira de estudantes. Aqui estão — empurrou as
três fitas perfuradas para o centro da mesa, a fim de que Rhodan e
Mercant decidissem quem as examinaria em primeiro lugar — as
notícias mais importantes, recebidas nestes últimos tempos.
Lemmon fez
uma ligeira pausa, para esperar que um dos interlocutores lesse a
fita perfurada. Mas Perry Rhodan disse:
— Continue,
Lemmon.
— Bem,
há uma hora recebi um relato de nosso agente de Laore. Trata-se de
um verdadeiro romance de futilidades. No entanto, uma das notícias
incluídas no relatório é digna de atenção. Segundo ela, o tal do
Rabintorge, que é o estudante que nos brindou com a brincadeira
relativa ao hiperpropulsor linear, está em contato com a Companhia
GHC, na qual pretende exercer as funções de assessor científico.
“Será
que deveríamos permitir que um homem como este fosse trabalhar numa
companhia de tamanha importância científica?”
Não era a
primeira vez que Frank Lemmon falava com Perry Rhodan, e acreditava
ter um conhecimento ao menos ligeiro do administrador. Mas agora não
se sentia muito à vontade sob o olhar penetrante daquele par de
olhos cinzentos. Também Allan D. Mercant fitou-o intensamente. Os
dois homens mantiveram um silêncio que começou a pesar cada vez
mais intensamente sobre os nervos de Lemmon.
Finalmente
Perry Rhodan recostou-se e cruzou os braços à frente do peito.
Allan D. Mercant pegou as fitas perfuradas e examinou-as sem ler.
No
gabinete do chefe do Serviço de Defesa reinava um silêncio total.
Lemmon
pigarreou, mas não teve oportunidade de falar.
— Lemmon,
qual é o motivo da sugestão que acaba de apresentar? — perguntou
Rhodan.
O
parassentido não classificável voltou a surgir na mente de Frank
Lemmon. A resposta com que respondeu à indagação de Rhodan
provinha desse dom.
— Sir,
será que minha sugestão não é o resultado de uma dedução
lógica?
Rhodan não
tomou conhecimento dessa pergunta.
— O que
é que o senhor sabe a respeito do hiperpropulsor linear dos druufs,
Lemmon?
— Praticamente
nada. Apenas sei que, segundo se diz, os druufs possuem um mecanismo
propulsor que permite alcançar velocidade superior à da luz, sem
que, ao romper tal barreira, se torne necessário abandonar nossa
estrutura espaço-temporal. Mas não sei dizer se essa versão é
correta.
— Ela é
correta, Lemmon! — interrompeu Rhodan. — Onde obteve essas
informações?
A resposta
de Frank Lemmon foi imediata:
— Da
equipe científica 065-propulsão. Trabalhamos juntos durante uma
semana, na investigação do caso Rabintorge.
— Obrigado
— limitou-se Rhodan a dizer e lançou um olhar para Allan D.
Mercant.
Este
interpretou o olhar como um pedido para pronunciar-se.
— Sir,
acho que justamente neste momento não deveríamos perder nenhuma
chance de...
O
pronunciamento de Mercant não era muito claro; ao menos, Lemmon teve
esta impressão. Mas Rhodan devia tê-lo entendido de outra forma,
pois fez um gesto afirmativo para o marechal e disse:
— Providencie
o que se fizer necessário.
— Estamos
muito bem informados sobre esse Rabintorge — disse Mercant,
fornecendo os dados de que dispunha. — Trata-se de um estudante que
nunca entrou em contato com seres inteligentes extra-solares. Suas
faculdades físico-matemáticas, que apresentam numerosos pontos de
contato com a hipermatemática dos arcônidas, são inexplicáveis.
Mas o que mais espanta é o fato de que só aprendeu a ler aos quinze
anos.
— Será
que este estudante não é um arcônida, um ara ou um ekhônida? —
indagou Rhodan.
— Não.
É impossível. Rabintorge é um terrano e, além disso, é um
teórico físico-matemático de primeiríssima categoria.
Perry
fitou Mercant com um sorriso.
— Não
estou acostumado a ouvir superlativos de sua boca. De qualquer
maneira, está bem. Traga o homem para cá, e ponha-o a trabalhar sob
uma vigilância discreta. Lemmon, fico-lhe muito grato pelo serviço
que acaba de nos prestar.
Rhodan
levantou-se e deu-lhe a mão.
— Não
houve nada de especial no meu trabalho, Sir — objetou Lemmon, que
nunca teria esperado um elogio desse tipo.
— É
claro que não — disse Rhodan com uma risada. — Um homem que
dorme como o senhor nunca percebe que fez um esforço, porque sempre
dispõe de energias ansiosas por entrarem em ação. Na última noite
o senhor também dormiu bem?
Quando a
pesada porta se fechou atrás de Rhodan, a gargalhada retumbante de
Allan D. Mercant ainda enchia o gabinete. Frank Lemmon concluiu que
seria preferível rir também em vez de dar qualquer resposta à
observação de Perry Rhodan.
Dali a
dois dias, Lemmon já se havia esquecido do firme propósito de
mudar, que tomou naquela oportunidade.
No dia em
que o indiano Rabintorge veio a Terrânia, a fim de realizar um
serviço especial para o Império Solar, Frank Lemmon só chegou ao
seu local de trabalho às onze horas. Ao acordar, tivera a impressão
de que o dia não lhe traria maiores novidades.
De fato,
só recebeu as notícias corriqueiras. Porém Perry Rhodan sofreu um
tremendo abalo, causado por uma mensagem de hiper-rádio vinda de
Árcon.
Seu filho
Thomas Cardif, desertor da Frota Solar e seu inimigo mais
encarniçado, acrescentara outro crime ao de deserção. Do planeta
Archetz, pertencente ao sistema de Rusuma e situado a quarenta e
quatro anos-luz de Árcon, avisara a uma Galáxia atenta que o
computador-regente de Árcon III fora destituído
pelo Almirante Atlan.
2
Uma
verdadeira avalancha galáctica iria ter início.
Face ao
ato de um oficial desertado do Império Solar, Árcon, que já há 10
mil anos era um imenso reino estelar, estava ameaçado de sofrer uma
série de rupturas em sua unidade.
Naquele
momento, Atlan, o solitário da cúpula gigantesca do enorme
computador positrônico de Árcon III, achava-se mais fraco que Perry
Rhodan, pois os perigos que o ameaçavam no interior do Estado
arcônida eram milhões de vezes maiores que os que pesavam sobre o
sistema solar. Atlan comunicou-se com Perry Rhodan, que se encontrava
na Terra:
— Preciso
ganhar tempo, Perry! Preciso de sua colaboração, bárbaro. Terei de
operar com a auréola que cerca seu nome. Ninguém sabe quem é
Atlan, um almirante que representou alguma coisa há dez mil anos.
Será que alguém ainda conhece minha família? Por que não diz
nada?
— O que
poderia dizer, amigo? — respondeu Rhodan com uma enorme
tranqüilidade externa, enquanto sua mente se crispava nervosamente.
— Volte a chamar dentro de oito horas terranas. Terei de digerir os
novos fatos, embora tanto você como eu não esperássemos outra
coisa. Você aludiu ao nome de Thomas Cardif e...
Atlan
interrompeu-o a uma distância de 34 mil anos-luz.
— Pouco
importa que eu tenha falado em Thomas Cardif ou nos mercadores
galácticos. O que importa é que Cardif e os saltadores se encontram
no sistema Rusuma e tentam criar dificuldades para o Império. Você
acaba de pedir que volte a chamar daqui a oito horas. Sabe o que pode
acontecer até lá?
Perry
aguçou o ouvido. Será que Atlan estava sendo dominado pelo pânico?
Atlan, o atemporal e o imortal?
Perry
Rhodan estudou o rosto do arcônida que aparecia na tela, mas não
descobriu o menor sinal de pânico. No entanto, um perigo iminente
devia deprimir o almirante. Por que não identificava esse perigo?
— O que
é que você está ocultando, almirante? — perguntou Rhodan,
fazendo sua voz atravessar o tempo e o espaço.
Viu que
Atlan procurou concentrar-se. Empertigou-se e esforçou-se para
sorrir.
— Não
estou ocultando nada, Perry. Acontece que, neste momento, consigo
compreendê-lo muito bem. Encontro-me na mesma situação em que você
se achou durante setenta anos. Quero que você me compreenda. Preciso
acostumar-me com o fato de que o Grande Império já não quer
obedecer às minhas ordens, e que meu poder não é maior que o seu.
“Qual é
minha idade? Mais de dez mil anos? Neste dado só o número é
correto, pois o fato é que sou mais jovem que você, bárbaro. Numa
situação como esta, suas vivências o colocam numa situação muito
melhor que a minha. Tenho de rever meus conhecimentos, bárbaro!
Preciso seguir seu exemplo e...”
— Atlan!
— exclamou Rhodan em voz alta, procurou dissimular o susto causado
pela irrupção sentimental do arcônida. — Atlan, faça o favor de
voltar a chamar daqui a oito horas terranas.
Não
deixou que o almirante voltasse a falar.
A ligação
de telecomunicação com Árcon III foi interrompida.
Perry
Rhodan acabara de desligar.
Sem dizer
uma palavra, recostou-se na poltrona. Continuou a fitar a tela, que
já se tornara cinzenta. Ergueu lentamente as mãos, e as pontas dos
dedos começaram a massagear as têmporas.
Reginald
Bell, que o observava em silêncio, já conhecia o gesto. Tal atitude
traía um abalo profundo no espírito do amigo.
No fim do
diálogo, Atlan deixara falar exclusivamente o coração.
Era uma
das raras palestras em que dois homens percebem que a amizade os liga
até a morte.
Rhodan
dirigiu-se a Bell.
Falou sem
o menor nervosismo:
— Preciso
imediatamente dos dados mais recentes sobre o sistema de Rusuma,
especialmente sobre Archetz, o quinto planeta. Faça o favor de
providenciar para que esses dados cheguem às minhas mãos dentro de
trinta minutos. Cuide da equipe 065-propulsão.
Bell, que
esperara mais que isso, lançou um olhar indagador para Rhodan. Mas
este não forneceu outros detalhes.
— Escute...
— principiou cautelosamente. — Será que não cometemos um erro
em não mandarmos nenhum agente atrás da frota dos saltadores,
quando eles se afastaram precipitadamente?
Os olhos
cinzentos de Perry Rhodan abriram-se ligeiramente.
— Por
que não fala franca e abertamente de Cardif, Bell? Onde estaria o
erro por nós cometido? No momento em que o patriarca Cokaze soube
por intermédio de um homem, que se encontrava em nosso destróier
aprisionado, que o Grande Império está sendo governado por Atlan, e
não pelo cérebro positrônico, todo o clã desse patriarca teve
conhecimento do fato, e, com isso, perdemos toda e qualquer
possibilidade de continuar a manter o segredo.
“Se não
nos adaptarmos imediata e completamente à nova situação, e isso
também diz respeito a Atlan, dentro de um ano, no máximo, toda a
Galáxia pegará fogo, e assistiremos a fatos que não se compararão
com qualquer dos exemplos fornecidos pela História. Acontece que
ainda não sei como poderemos enfrentar a situação. A intenção de
obter informações pormenorizadas sobre o sistema de Rusuma e fazer
com que você se dirija à equipe 065-propulsão, a fim de que esses
cavalheiros não se ocupem com questões de matemática teórica até
o dia do juízo final, só representa uma ligeira sondagem.”
— Uma
sondagem de quê?
Perry
Rhodan estava perplexo.
— Não
sei, Bell.
O tom da
voz de Perry dava mostras de contrariedade, mas tal contrariedade não
se dirigia contra o amigo que acabara de formular a pergunta. Nascera
da sensação de encontrar-se em meio a uma catástrofe, sem enxergar
um meio ou um caminho que lhe permitisse escapar à avalancha
galáctica.
Reginald
Bell ergueu o corpo atarracado.
— Está
bem. Providenciarei a primeira coisa que você pediu, e farei a
outra. Se não me engano, você espera que a equipe 065 lhe forneça
em breve alguns dados concretos.
— Muito
em breve! — respondeu Rhodan.
Bell fez
uma careta.
— Essa
gente ficará muito satisfeita! — profetizou. — Devem fazer os
pobres terranos compreenderem a tecnologia dos hiper-propulsores
lineares dos druufs por meio da supermatemática arcônida, e isso
muito em breve.
Rhodan
lançou-lhe um olhar de espanto.
— Por
enquanto não possuímos este sistema de propulsão, Bell. Será que
você já se esqueceu disso?
O homem
ruivo soltou uma risada seca.
— De
forma alguma. Acontece apenas que, no momento, me tornei um pouco
infiel a mim mesmo e esqueci a ponta do meu dedo direito. Hoje não é
o dia 1o
de julho de 2.044? Pois bem. A muito custo, conseguimos atravessar a
primeira metade deste ano maldito. Talvez também consigamos superar
o resto, com ou sem hiperpropulsão linear... se bem que no meu
íntimo eu tivesse uma esperança de que nossa equipe conseguisse
descobrir como funciona o aparelho.
— Bell —
Rhodan lançou-lhe um olhar recriminador. — Desde a última festa
do ano-novo, seu dedo ferido num caco de vidro transformou-o na
personificação do pessimismo. Porém, num ponto em que nada temos a
esperar, você acredita em milagres.
— Perry,
será que isso não é uma forma distorcida de pessimismo? —
perguntou Bell quando já segurava a maçaneta.
Retirou-se
apressadamente.
— É um
sujeito incorrigível — constatou Rhodan para si mesmo e sorriu.
Nos
momentos de depressão era sempre Bell que, com seu jeito inimitável,
fazia melhorar a disposição de ânimo dos outros. Ninguém melhor
que Rhodan sabia que, na verdade, o próprio Reginald Bell também
era martirizado pelas preocupações.
Enquanto
isso, Bell providenciou para que o chefe recebesse os dados sobre o
sistema de Rusuma. Ele mesmo pegou o planador e voou ao setor de
pesquisa 18.
Na divisão
065-propulsão, encontrou alguma coisa que ele costumava designar
como dupla mista, muito embora essa dupla fosse formada por quase
trinta especialistas, parte dos quais eram teóricos, parte técnicos.
Quase não
tomaram conhecimento de sua chegada. Esse costume se firmara em todos
os lugares em Terrânia.
Bell
examinou ligeiramente a equipe dividida em vários grupos e teve sua
atenção dispensada por um jovem indiano, que, ao falar, movimentava
tanto as pernas como os braços.
— Quem é
este, Bradley? — perguntou, dirigindo-se ao professor que chefiava
o grupo 065-propulsão.
— Ah...
é Rabintorge, um novato. Não consigo lidar com ele. Esse indiano é
todo contradição! — explicou o professor Bradley com uma visível
contrariedade.
Bell
apreciava tudo que cheirasse a contradição. Agradeceu ao professor
e aproximou-se discretamente do grupo onde Rabintorge continuava a
agitar os braços, esforçando-se para fazer prevalecer sua opinião.
Um colega
argumentou:
— Como é
que o senhor pode saber disso? O senhor nem teve tempo para adquirir
uma visão de conjunto, e, além disso, acaba de dizer uma tolice.
O indiano,
um homem de olhos marrons e pele morena, cruzou as mãos à frente do
peito e inclinou-se diante do colega que o agredira de forma tão
brutal.
— Pois
então! — disse este com um sorriso.
Mas o
indiano voltou a falar no mesmo instante:
— O
senhor está enganado! O que acabo de dizer não é nenhuma tolice. A
estrutura espaço-temporal só é abalada numa constante pelo
hiperpropulsor linear, no momento em que a respectiva espaçonave
atinge a velocidade da luz. Ao contrário do hipersalto, que, por
ocasião da saída do espaço normal e do reingresso na estrutura
normal do Universo, causa nesses pontos uma ruptura de todas as
constantes que dá origem ao abalo estrutural, o hiperpropulsor
linear, ao ultrapassar a velocidade da luz, só retira uma única
constante de sua base natural, e o propulsor causa esse efeito,
enquanto a espaçonave desenvolve velocidade superior à da luz. De
outra forma não haveria explicação para os valores constantes dos
erros de indicação registrados nas medições da tensão espacial.
Bell não
tinha a menor idéia do que vinha a ser a base natural de uma
constante da estrutura espaço-temporal. E não tinha muita ambição
de saber. Mas não conseguia evitar a impressão de que esse indiano
muito jovem sabia expor em poucas palavras um problema físico
extremamente complexo.
Três
colegas conversavam ao mesmo tempo com o indiano, mas este não se
deixou abalar. Bell o ouviu falar nos resultados das medições
realizadas pela estação de Hades. Ainda ouviu o indiano mencionar o
nome de Ernst Ellert e invocar as indicações fornecidas pelo
mutante. O jovem chegou mesmo a afirmar que conhecia de cor os
resultados das medições realizadas pelas estações terranas,
situadas no Universo dos druufs e os dados fornecidos por Ellert.
Bell
esperou até que Rabintorge se dispusesse a apresentar a prova de
suas afirmativas. Subitamente teve muita pressa em sair da divisão
065-propulsão.
Quando
Bell irrompeu subitamente em seu gabinete, Perry Rhodan fitou-o com
uma expressão contrariada.
— Alguma
novidade? — perguntou. — Daqui a uma hora, terei três
conferências e...
— Deixe
que esperem! — exclamou Bell. — Ouça primeiro o que tenho a lhe
dizer e depois diga o que você acha.
O gorducho
esforçou-se para apresentar seu relato em tom calmo. Não perdoou
qualquer detalhe. E concluiu com esta observação:
— Será
que o tal do Rabintorge não é um arcônida ou um mercador galáctico
disfarçado?
— Há
poucos dias formulei a mesma pergunta a Mercant. A resposta foi não.
— Pois
mande Gucky cuidar de Rabintorge!
Rhodan fez
que não.
— Gucky
também não é infalível. Não se esqueça daquele cachorro-espião
dos arcônidas, que nos enganou a todos, inclusive ao rato-castor.
— Acontece
que esse indiano não é nenhum indiano, Perry! Seu espírito de
contradição é tamanho que deixa confusa toda a divisão
065-propulsão, Perry! O professor Bradley não consegue lidar com
ele.
— Bell,
você acaba de falar em Bradley. Se as informações que recebi a
respeito dele forem corretas, vamos mandá-lo passar os próximos
seis meses num sanatório. O professor exauriu-se no trabalho de
descobrir um instrumento de localização capaz de registrar os
abalos da hiperestrutura linear.
A porta do
gabinete de Rhodan abriu-se. John Marshall, chefe do Exército de
Mutantes e um dos melhores telepatas, entrou.
— Sir,
eu devia...
Rhodan
interrompeu-o com um gesto.
— Faça
o favor de sentar-se, Marshall. Bell e eu terminaremos dentro de
poucos minutos.
Voltou a
dirigir-se a Bell.
— Este
jovem indiano, que concluiu seus exames há apenas uma semana, deve
ser um mutante no terreno físico-matemático. Rabintorge é o homem
que nos pregou aquela peça que...
Naquele
instante, Bell virou-se abruptamente para Marshall. De repente teve a
impressão de que havia algo de errado. Viu Marshall levantar-se, e
ouviu-o dizer:
— Sim,
chefe!
No mesmo
instante, Perry fez uma ligação com o chefe de Defesa:
— Aqui
fala Rhodan. Mercant, coloque quatro ou cinco dos seus melhores
homens na divisão 065-propulsão. Lá se encontra um sugestor. Seus
homens se encontrarão com o mutante Kitai Ishibashi, que comanda a
ação. Desligo.
Bell fitou
o amigo com um misto de susto e perplexidade. Não quis acreditar no
que a inteligência dizia e no que depreendia das palavras de Perry.
— Perry,
será que isso significa que eu... que eu...?
Rhodan fez
que sim e John Marshall, que se encontrava a seu lado, confirmou a
suposição.
— Sim
senhor — disse. — O senhor se encontra sob uma influência
sugestiva tão forte que não consigo penetrar no...
— Marshall,
repita isso... — Bell fez uma tentativa para se opor... mas se
Marshall fazia uma afirmativa dessas, não haveria erro. — Onde foi
que isso me aconteceu? Na divisão 065-propulsão? Nesse caso esse
indiano é mesmo um agente do outro lado. Eu não disse?
O
intercomunicador soou em meio às palavras de Bell. Mercant
encontrava-se do outro lado da linha.
— Sir, a
ação já foi iniciada.
— Obrigado!
— respondeu Rhodan.
O estalido
do aparelho revelou que a comunicação com o Serviço de Defesa já
fora interrompida.
— Esse
indiano! — exclamou Bell em tom furioso. Dirigiu-se a Marshall e
perguntou: — Ainda me encontro sob os efeitos da sugestão? Será
que minha vontade continua submetida a uma influência constante?
— Não
senhor. O bloco introduzido no senhor é suficientemente forte. Como
já disse, não consigo passar.
— Onde
não consegue passar? Diga logo onde...
— Sir,
não estou em condições de ler seus pensamentos quando o senhor
fala nesse indiano chamado Rabintorge ou...
— Esse
sujeito com olhos de veado! — praguejou Bell e deixou-se cair na
poltrona. — Como farei para livrar-me desse bloco? Perry, como você
teve a idéia de que haviam feito alguma coisa comigo?
— Notei
um pequeno detalhe em você, Bell. Geralmente, sente uma simpatia
toda especial pelos espíritos de contradição, mas no tal do
Rabintorge você não quis ver nada de bom. Isso se manifestou menos
nas suas palavras que no tom de sua voz. Sua fala estava impregnada
de ódio contra aquele jovem de Laore, e isso não combinava com seu
gênio. Desconfiei e convoquei John por via telepática. Pedi a
Marshall que o testasse.
— Se eu
puser as mãos no sujeito que se permitiu esse tipo de liberdade
comigo...
— Estou
mais interessado em saber quem está atrás do sugestor introduzido
em nosso meio — obtemperou Rhodan. — E logo hoje, que tenho mil
coisas a fazer, esse incidente tem de vir à tona. O tempo vai
correndo. Daqui a pouco, o prazo de oito horas estará no fim e Atlan
voltará a chamar.
— O que
é que eu venho dizendo desde a festa de entrada do ano 2.044?! —
exclamou Bell em tom exaltado, estendendo o dedo polegar.
Desde a
festa de passagem de ano do início de 2.044, o polegar direito de
Reginald Bell transformara-se no fantasma que costumava apavorar seus
colaboradores mais íntimos. Durante os festejos, derrubara, sem
querer, um cálice de champanha, de vidro inquebrável. Porém o
vidro partiu-se. Bell recolheu os cacos. Se já havia uma contradição
no fato de uma peça de vidro inquebrável se partir, essa
contradição crescia ainda mais por Bell ter cortado o polegar nos
cacos.
Desse
momento em diante, Reginald Bell se transformara num pessimista
supersticioso. Sem querer saber se alguém estava interessado nisso
ou não, vivia dizendo que o ano de 2.044 seria uma fase catastrófica
para o Império Solar.
Infelizmente,
até o momento, os fatos lhe haviam dado razão.
E agora
estendia o polegar em direção a Perry Rhodan, num gesto
demonstrativo. Um brilho zangado surgiu nos olhos cinzentos do
administrador.
— Mais
uma vez lhe peço que deixe de lado estas alusões. Essas repetições
já começam a aborrecer-me.
— Está
bem, Perry! Você é o chefe. O fato é que eu tenho razão. No
momento, Atlan está com água até o pescoço e quer que nós o
ajudemos. Logo nós, que só temos poucas naves. E não devemos
esquecer que ainda há três mil naves de guerra dos druufs que
cruzam o nosso Universo. Se, um belo dia, voltarem a aparecer, tomara
que Deus tenha pena de nós. Se isso acontecer, não aparecerá
nenhum grupo de naves robotizadas de Árcon e nenhum clã dos
saltadores para tirar-nos do aperto. Por que será que as coisas
desagradáveis, vindas de todos os lados, têm que desabar sobre nós
seguidamente?
Perry
Rhodan deixou que Bell falasse. Conhecia-o melhor que qualquer outra
pessoa. E o método mais simples, barato e eficiente de lidar com ele
era deixar que esbravejasse à vontade. Acabava acalmando-se.
O pedido
de socorro de Atlan o afligia como um pesadelo, e os fatos
inquietantes, que se desenrolavam na divisão 065-propulsão,
constituíam uma advertência no sentido de que o Império Solar era
vulnerável também por dentro, pois as medidas de segurança, por
mais eficientes que fossem, sempre poderiam ser solapadas.
Bell
passou os olhos de um interlocutor para outro, pois não ouviu o
menor eco às suas observações.
— Essa
ação na divisão 065-propulsão está muito demorada!
— Até
mesmo no Império Solar os milagres demoram algum tempo! —
respondeu Rhodan com uma aspereza extraordinária na voz, o que fez
com que Bell achasse preferível manter-se calado.
A longa
espera teve início. Rhodan dera ordem para, em hipótese alguma, ser
incomodado. Naturalmente, no caso de qualquer notícia alarmante,
deveria ser feita uma exceção. Mas deixou de acontecer o que
costumava ser tão freqüente, isso é, que a grande central de
hiper-rádio de Terrânia o interrompesse com alguma noticia
desagradável.
Quarenta e
cinco minutos depois do início do alarma, Mercant voltou a chamar
pelo intercomunicador.
— Sir, o
mutante Ishibashi constatou que o técnico Elvis Artun é um hipno.
Saiu da GHC Company e veio trabalhar conosco pouco depois da invasão
dos saltadores.
Rhodan
notou imediatamente a contradição entre os dados fornecidos por
Marshall e o relatório de Mercant.
— Uma
pergunta, Mercant: o que é mesmo esse Artun, um hipno ou um
sugestor? Precisamos saber imediatamente, pois se Artun for um hipno,
nesse caso, ainda faltará descobrir quem é o sugestor que se
encontra na divisão 065-propulsão. Mercant, insista junto a Kitai
Ishibashi. Ele mesmo poderá constatar quais são as faculdades de
Artun. Temos pouco tempo.
Bell não
se atreveu a fazer qualquer observação. Viu que Rhodan fitava
atentamente o telepata Marshall. Os impulsos mentais dos dois se
intercambiavam num diálogo silencioso.
— Está
bem, Sir. Consegui entrar em contato com Gucky. O rato-castor já
está a caminho da divisão 065-propulsão — disse Marshall, para
que Bell também ficasse a par. Quase ao mesmo tempo, o micro
comunicador no pulso esquerdo de Rhodan emitiu um sinal. O
rato-castor estava chamando.
— Perry,
acabo de descobrir dois sujeitos. Se pudessem, eles me matariam,
acontece que não podem, pois estão presos ao teto. Podem ficar
assim, até que os homens de Mercant venham buscá-los?
O
rato-castor tratava qualquer pessoa por você, inclusive o
administrador do Império Solar. Mas o fato de Gucky pedir licença a
Rhodan para deixar presos ao teto, graças ao dom da telecinese, dois
agentes que acabara de descobrir não combinava com o gênio do
rato-castor.
— Gucky,
será que você não está cometendo uma tolice? — perguntou Rhodan
em tom severo.
— Ora,
chefe — piou o rato-castor pelo microfone. — Será que alguma vez
já fiz uma tolice?
Rhodan
preferiu não responder. As brincadeiras de Gucky eram por demais
conhecidas.
— Tenente,
quem são eles? Queira fornecer os nomes.
Era uma
indagação oficial. O rato-castor compreendeu perfeitamente. Sempre
que Rhodan se dirigia para ele usando a denominação de seu posto,
devia abster-se de qualquer brincadeira.
Gucky
retribuiu de igual para igual:
— Administrador,
os dois sugestores são Tom Sharkey e Pierre Rochard. Neste momento,
estão rogando pragas contra mim. Porém, vez por outra, rogam pragas
contra a GHC Company da Cidade do Cabo e, especialmente, contra o
terceiro diretor Horace Edwards. Ora... ora...
Era muito
raro ouvir o rato-castor gaguejar de espanto... De repente, calou-se.
O micro comunicador transmitia apenas sua respiração apressada.
— Gucky,
o que está acontecendo na divisão 065-propulsão? — Rhodan
preferiu não voltar a chamá-lo de tenente.
— Ouça,
Perry... — a voz piante de Gucky falava aos cochichos. — Sharkey
e Rochard nunca foram verdadeiros sugestores. Há algo de errado com
seu modelo de vibrações cerebrais. Deixemos isso para depois Perry;
agora não...
— Ora
essa — disse Rhodan em tom de espanto e voltou a baixar o braço
esquerdo, ao qual estava preso o micro comunicador. — Será que
Gucky desligou? Notou o tom de sua voz no fim da palestra? Qual é
sua opinião, Marshall?
Marshall,
que além de ouvir a palestra travada pelo micro comunicador
mantivera contato telepático com o rato-castor, sabia mais que
Rhodan. E a informação que pôde dar não foi muito
tranqüilizadora.
— Gucky
teve de lançar mão de todas as reservas para proteger-se contra a
influência sugestiva dos dois agentes que acaba de descobrir.
Nesse
momento, o ar começou a tremeluzir e o rato-castor apareceu.
Transportara-se num salto de teleportação da divisão 065-propulsão
ao gabinete de Rhodan.
— Eu
lhes mostrei! — anunciou em tom orgulhoso, mas um tanto cansado.
Depois fitou Bell. — O que fizeram com você, gorducho?
Rhodan
interveio na conversa.
— Deixe
Bell de lado, Gucky. Ele está sujeito a uma forte influência
sugestiva. O que foi que você descobriu?
Gucky
exibiu o dente roedor solitário, com o que pretendia indicar um
sorriso.
— Muita
coisa, chefe! Ao menos, tanto quanto Sharkey e Rochard sabiam. E isso
basta para deixar a GHC Company de pernas para o ar e revistar-lhe as
instalações, a fim de procurar um aparelho de telecomunicação dos
saltadores. Já enviei um agente ao apartamento de Rochard.
— Por
quê? — perguntou Rhodan.
— Porque
lá se encontram três ampolas de um tóxico dos aras. Não sei o que
há com esse tóxico. Rochard apenas pensou ligeiramente no mesmo;
teve medo de que pudéssemos descobri-lo.
Rhodan
inclinou-se para a frente.
— Você
acaba de falar num tóxico dos aras, não é?
— Falei
na GHC Company, no aparelho de telecomunicação dos saltadores, no
tóxico dos aras. Ainda acontece que Sharkey e Rochard não são
sugestores, mas apenas indivíduos submetidos à ação de certos
medicamentos. Ainda aposto que esse Elvis Artun também não é um
verdadeiro hipno. Os modelos de vibrações cerebrais irradiados
pelos dois agentes não são normais, Perry. Mas Marshall saberá
compreender melhor.
Virou-se
para Marshall e perguntou:
— John,
você já viu um modelo de vibrações cerebrais em que a faixa
sugestiva é muito pouco desenvolvida, enquanto o indivíduo ao qual
pertence o modelo dispõe de forças sugestivas incríveis?
Parte das
palavras de Gucky constituíam uma linguagem especial, pois só um
telepata seria capaz de compreender o que vinha a ser um modelo de
vibrações cerebrais e uma faixa sugestiva.
O rosto de
Marshall, que demonstrava uma incredulidade indisfarçada, provava
que compreendera as palavras do rato-castor. Gucky parecia
satisfeito.
— Há
pouco, quando fiz a descoberta na divisão 065-propulsão, devo ter
oferecido uma aparência tão boba como você está mostrando agora.
E depois disso, essa gente procurou apertar-me com suas forças
sugestivas.
Voltou a
dirigir-se a Rhodan, e assumiu um ar modesto, o que não combinava
com seu caráter.
— Perry,
tive que... não pude agir de outra maneira... Se quiser entrar
imediatamente em contato com Mercant, diga-lhe que os médicos só
precisarão cuidar de Rochard e Sharkey daqui a três horas. Antes
disso, não acordarão da hipnose que lhes apliquei.
— Tenente
Gucky... — principiou Rhodan, sem que tivesse qualquer intenção
especial ao usar esse tratamento. Mas estremeceu ligeiramente quando
o rato-castor, piando, procurou dar uma tonalidade militar às suas
palavras:
— Pois
não, administrador do Império Solar...
O rosto
sério de Rhodan iluminou-se, e o chefe sorriu para o rato-castor.
— Obrigado,
Gucky, você apenas acatou minha voz de comando. Mas tenho outro
serviço para você. Teleporte-se para o apartamento de Rochard,
procure o tóxico dos aras e traga-o para cá.
— Está
bem, chefe! — disse o rato-castor e, no mesmo instante,
desapareceu.
Bell
respirava pesadamente.
— Marshall,
o bloco sugestivo exerce alguma influência sobre as outras funções
de minha mente?
— Não
senhor. Apenas a experiência colhida na divisão 065-propulsão foi
deturpada.
— Isso é
um débil consolo, Perry. Gostaria de entrar em contato com Frank
Lemmon, chefe da Divisão F-l. Quero fazer-lhe algumas perguntas.
— E
depois disso, pretende submeter-se a um tratamento, a fim de eliminar
o bloco sugestivo, não é? — perguntou Rhodan em tom de
perplexidade.
— Se
houver tempo para isso. De qualquer maneira, preciso manter-me
afastado do tal do Rabintorge, pois do contrário esse jovem ainda
poderá pensar que sou um bobo.
A porta
fechou-se atrás dele. Rhodan e Marshall ficaram a sós. Estavam
esperando que Gucky voltasse. Enquanto isso, Rhodan informou o chefe
do Serviço de Defesa. O rosto de Mercant que surgiu na tela não
demonstrou espanto nem curiosidade. Ele, que, bem dizer, crescera no
interior de seu serviço, já se vira diante de fatos muito mais
inacreditáveis.
— Sir,
de minha parte será feito tudo que for necessário.
Foi tudo
que Allan D. Mercant teve a dizer.
— O
Exército de Mutantes estará presente quando o edifício da
administração da GHC Company, na Cidade do Cabo, for revistado,
Mercant. Organize a ação de forma que isso aconteça.
— Pois
não.
A tela do
sistema de intercomunicação voltou a tornar-se cinzenta. Rhodan
olhou para o relógio. Dali a três horas, Atlan voltaria a chamar,
e, até então, mal tivera tempo para examinar a nova situação em
que se encontrava o almirante e seu império.
— Marshall...
John
Marshall fitou o chefe. A
comunicação telepática entre os dois fora interrompida. O olhar de
Perry Rhodan vagava além do sistema solar — em algum ponto do
Universo.
— Marshall,
o senhor consegue compreender meu filho?
— Chefe...
— John Marshall pegou um maço de cigarros, tirou um e acendeu-o.
Seguiram-se
três tragadas profundas. Tudo isso foi feito apenas para ganhar
tempo. Mas chegou o momento em que teve de responder à pergunta
íntima de Rhodan.
— Sim
senhor, compreendo Thomas Cardif, mas não encontro justificativa
para o que tem feito.
— Não
estou interessado em conhecer sua opinião sobre este último ponto,
John. Mas quero que me explique por que consegue compreender seu
procedimento. Isto é, caso queira explicar.
Antes de
responder, Marshall deu mais duas tragadas, bateu a cinza e
endireitou o corpo. Finalmente começou a falar:
— Seu
filho cresceu sem lar. Quando soube quem eram seus pais, sentiu de
uma hora para outra um impacto: Perry Rhodan e a arcônida Thora eram
seus pais! Será que posso falar com toda franqueza, chefe?
Rhodan fez
um gesto cansado, e Marshall prosseguiu:
— Thomas
Cardif sentiu simpatia exclusivamente pela sua esposa, ou seja, pela
mãe dele. Mas só recebeu o amor de mãe aos pingos. Para Thomas
Cardif, a palavra dever certamente se transformou numa maldição,
pois não era nem terrano nem arcônida. Procuro nunca me esquecer
disso, quando avalio seu procedimento. No momento em que sentiu
quanto vale o amor de mãe, sua progenitora morreu. Dali em diante,
Thomas Cardif sentiu-se só. O ódio e o amor... será que estes dois
sentimentos não são aparentados? Junto ao túmulo de sua esposa e
da mãe dele o senhor lhe estendeu a mão. Se eu fosse Thomas Cardif,
também não a teria aceito, e...
— John!
— Rhodan parecia apavorado.
— Isso
mesmo, chefe, eu também não teria aceito a mão que o senhor me
oferecia. Lembre-se que ele poderia estar mal informado quando lançou
aquele boato infame segundo o qual o senhor teria enviado a esposa a
Árcon para realizar negociações, contrariando as recomendações
dos médicos. Aqui em Terrânia ninguém acreditou nisso, mas já
imaginou o que se terá passado na alma de Thomas Cardif? De qualquer
maneira, só mesmo um patife é capaz de violar um juramento e
cometer uma traição.
“Bem,
chefe, o que mais posso dizer? O que lhe adiantará se eu lhe digo
que, na minha opinião, Thomas Cardif não é nem um patife nem um
traidor? Mas não sei dizer o que ele é aos meus olhos. Apenas sinto
que Thomas Cardif merece compaixão e, se não encontrar o caminho
para junto de si mesmo, acabará muito mal.”
— Será
que o senhor não se lembra de que também traiu Atlan? — perguntou
Rhodan em tom frio.
— Se eu
quisesse destruir meu pai por acreditar que ele assassinou minha mãe,
recorreria a todo e qualquer meio. Chefe, quem pensa assim não quer
saber o que é direito e o que não é, nem chega a refletir nos seus
atos.
— Acontece
que qualquer pessoa tem o dever de refletir no que faz.
— Ora, o
dever, chefe. Lá me vem o senhor novamente com essa palavra. Para
cumprir nosso dever, precisamos de força. E a força provém do amor
dos pais. Será que Thomas Cardif não foi modelar no cumprimento do
dever até o momento em que soube quem eram seus pais? Perdão,
chefe, eu não deveria ter dito isso. Esqueça-se.
John
Marshall resistiu à tentação de recorrer à sua acentuada
capacidade telepática para ler os pensamentos de Perry Rhodan.
Continuou sentado e viu o olhar de Rhodan, que parecia penetrar nas
profundezas do Universo. E Rhodan manteve-se calado.
Naquele
instante, o rato-castor retornou de sua missão.
— Chefe
— principiou, mas logo se calou de novo.
Seu olhar
de camundongo caminhou entre o chefe e Marshall, até que recebeu a
ordem telepática transmitida por este último:
— Não
pergunte o que aconteceu por aqui. Dê informações sobre seu
trabalho. Quanto mais, melhor.
Gucky
compreendeu imediatamente.
— Aqui
está! — disse, e entregou três ampolas a Rhodan.
Pelo
formato, logo se via que continham um produto dos médicos
galácticos, os aras, que por várias vezes já haviam sido
admoestados por Rhodan sobre o que podiam fazer e sobre o que nunca
deveriam fazer.
— Mas
não venho diretamente do apartamento de Rochard, Perry. Estive com
nossos médicos. Três deles reconheceram o preparado. Já ouviram
falar no mesmo. Disseram que é um tóxico com efeitos sedativos.
Pedi que me traduzissem a palavra sedativo. Significa calmante. E
esse fato me deixou bastante inquieto. Saltei até o grande cérebro
positrônico de Vênus, mas este não conhece o preparado. Depois
lembrei-me dos swoons, nossos adoráveis homens-pepino. Quer saber de
uma coisa, chefe? Eles entendem alguma coisa da medicina dos aras!
Oguralas. Esta palavra pertence à linguagem médica dos aras. O nome
não significa nada, mas o fato é que os swoons ficaram abalados.
— Gucky
— disse Rhodan, interrompendo a torrente de palavras do
rato-castor. — Será que você não poderia resumir um pouco, meu
caro? Que tolice é essa que você está dizendo? O que há nessas
ampolas?
Gucky
engoliu a repreensão sem dizer uma palavra. John Marshall lhe pedira
que falasse o mais que pudesse, e dali ele concluiu que Marshall
queria ganhar tempo para algum fim.
— Chefe,
os swoons... Subitamente o olhar de Rhodan tornou-se duro como aço.
— Tenente
Guck!
Faltava o
ípsilon
no nome de Gucky. O rato-castor sabia perfeitamente o que significava
isso. Agora não poderia fazer mais nada por Marshall. Endireitou o
corpo e respondeu:
— O
conteúdo destas ampolas é mortífero para os seres da raça dos
arcônidas. Nem mesmo os aras sabem por que isso acontece. Até hoje
não conseguiram descobrir por que a substância contida nesse
extrato paralisa a atividade cerebral. Mas descobriram que a mesma
transforma em sugestores algumas raças de animais inteligentes até
o nível C e os terranos.
— Nesse
caso é bem possível que, se tivermos sorte, poderemos encontrar no
apartamento de Mister Artun um tóxico dos aras que, uma vez injetado
num ser humano, transforma-o num hipno. Gucky, se eu fosse você
daria uma olhada na residência de Artun.
— Está
bem, chefe. Devo dar o fora daqui. Muito bem; já desapareci.
Seu último
pio ainda estava ressoando na sala, quando o rato-castor já tinha
desaparecido.
Mais uma
vez, Rhodan viu-se a sós com Marshall.
— John —
disse — o senhor ainda vê uma chance para meu filho?
Naquele
instante, Marshall sentiu que não tinha diante de si o administrador
do Império Solar, mas a criatura humana Perry Rhodan — o pai de
Thomas Cardif.
— John,
diga o que o senhor acaba de pensar; por favor! — enquanto falava,
Rhodan levantou-se e colocou-se à frente do chefe do Exército de
Mutantes. — Diga, John; não tenha a menor consideração por minha
pessoa. Não tentei ler seus pensamentos.
John
Marshall respirou pesadamente.
— Mister
Rhodan...
Seguiu-se
uma pausa, e durante a mesma o telepata perguntou a si mesmo há
quantos anos não chamava Rhodan de mister.
— Quer
saber se Thomas Cardif ainda tem uma chance de livrar-se das
complicações infelizes em que se encontra? Se seu pai não fosse
Perry Rhodan, eu diria que tem.
— Marshall,
eu não o odeio, embora ele me odeie! — ponderou Rhodan em tom de
desespero.
— Sei
disso, Sir — respondeu Marshall em tom hesitante, mas com a voz
firme. Não se esquivou dos olhos duros e cinzentos do chefe. —
Perry Rhodan sempre foi um homem duro para consigo mesmo. O senhor
teve de agir assim para resguardar sua personalidade, e o senhor
também terá de sê-lo no futuro, senão...
— Senão
o quê, Marshall? Diga! O senhor tem que dizer! — Perry Rhodan, o
ser humano, pedia e ordenava ao mesmo tempo.
— Está
bem, chefe, eu direi, mas depois disso nunca mais lhe falarei nestes
termos a respeito de Thomas Cardif. Nunca mais.
“No
futuro, o senhor também terá de ser duro, senão deixará de ser o
Perry Rhodan que pode apontar o caminho à Humanidade. E é aí que
reside a tragédia para o senhor e para Thomas Cardif. O senhor e ele
têm de pagar um preço muito elevado...”
John
Marshall levantou-se. Virou-se devagar. E lentamente caminhou até a
porta. Deixou para trás Perry Rhodan, o homem mais solitário do
Império Solar.
A porta
fechou-se silenciosamente.
3
Cokaze,
patriarca de um dos clãs dos saltadores, que era o único mercador
galáctico que fizera suas experiências com Perry Rhodan ainda ao
tempo da Terceira Potência, transformara-se em político. Acontece
que não se deu conta disso. Continuava a acreditar que era um
comerciante, cujo objetivo consistia exclusivamente em aumentar a
riqueza e o poderio de seu clã no interior da raça dos saltadores.
Ao pousar
em Archetz, o quinto planeta do sistema de Rusuma, Cokaze trazia o
maior segredo do império mundial arcônida. Sua frota, agora com
mais de mil naves cilíndricas, ocupou a terça parte do espaço-porto
de Titon, capital daquele mundo dos saltadores.
Aquele
sistema, que ficava a apenas quarenta e quatro anos-luz de Árcon,
também pertencia ao centro do grupo estelar M-13.
Acontece
que há milênios um abismo profundo se abrira entre os arcônidas e
os saltadores. Além do processo de degenerescência dos arcônidas,
que prosseguia inexoravelmente, ainda acontecia que os saltadores
usavam quase exclusivamente a língua intergaláctica e mal dominavam
o arcônida, o que também representava um fator de separação. E
essa separação ainda se exprimia no fato de que o mercador
galáctico nascia e morria no interior de uma espaçonave.
Eram
nômades estelares, enquanto os arcônidas eram seres planetários
que não dispensavam o chão firme sob os pés.
E Archetz,
o mundo dos saltadores, não representava nenhuma contradição em
seu modo de vida.
Há muitos
milênios o planeta se transformara no trampolim desse povo dinâmico,
que nunca se esqueceu de que partira dali a fim de conquistar um
monopólio comercial irrestrito, abrangendo toda a Galáxia.
Archetz
era um mundo de oxigênio semelhante à Terra. Sua gravitação
correspondia a 1,19 vezes a deste último planeta. Seu diâmetro era
pouco menos de mil quilômetros superior ao da Terra. Banhado pela
luz do sol amarelo de Rusuma, quase poderia ser comparado a Árcon
III, o planeta da guerra.
Em Archetz
não havia mais nenhuma cidade na superfície. Até mesmo Titon, um
verdadeiro oceano de casas que abrigava doze milhões de habitantes,
ficava a três mil metros de profundidade. Uma rede intrincada de
vias de transporte permitia que a cidade fosse atingida dentro de
meia hora de qualquer ponto do planeta.
A
superfície desse mundo constituía um gigantesco centro industrial.
Mas até mesmo esta impressão era enganadora, pois quase oitenta por
cento da indústria pesada ficava no subsolo. As usinas mais modernas
acabavam de ser concluídas ao nível de onze mil metros.
Archetz
era um mundo de superlativos e o coração de centenas de milhares de
espaçonaves cilíndricas dos saltadores.
Todas as
invenções dos arcônidas no terreno da navegação espacial, feitas
nos últimos dez mil anos, sempre chegavam ao poder dos saltadores
dentro de pouco tempo. Criaram um código moral próprio, talhado
principalmente segundo seus interesses. E, por meio de uma ação
implacável, desenvolvida em todos os mundos da Galáxia, conseguiram
firmar progressivamente seu poder, sem preocupar-se com o sangue e as
lágrimas. Mas havia um ponto a seu favor: quer quisessem quer não,
estes seres, que só pensavam no lucro, no comércio e no poderio
econômico, transformaram-se num fator de disseminação de cultura.
Enquanto se espalhavam por toda a Galáxia, sempre representaram a
vanguarda do Império de Árcon nos planetas recém-descobertos.
Archetz,
porém, era seu ponto de partida, ao qual sempre retornavam. Archetz
oferecia tudo que cem mil espaçonaves cilíndricas e seus
tripulantes pudessem desejar.
Por
estranho que parecesse, poucas vezes as espaçonaves de outras raças
aportavam neste mundo. O enorme potencial industrial do planeta era
totalmente desconhecido. E a Via Láctea nem desconfiava da
existência dos gigantes financeiros de Archetz.
Sempre que
se falava em dinheiro e em contas, os saltadores aludiam apenas ao
Banco. Ninguém pensava em citar o nome do Banco dos Mercadores
Galácticos de Titon. Essa instituição financeira era única no
gênero. Nem mesmo Árcon podia apresentar algo de semelhante. Sabia
de sua existência, mas nunca falava a respeito, pois mesmo no auge
de seu poder Árcon sempre nutria um receio secreto por esse gigante
das finanças.
O
patriarca Cokaze acabara de pousar com a Cok II junto ao enorme
edifício da recepção do espaçoporto, enquanto a frota de seu clã
descera no setor norte. Momentos depois, entrou no Banco dos
Mercadores Galácticos, juntamente com os parentes mais próximos e
Thomas Cardif.
O grupo
abriu caminho em silêncio em meio à massa que se acotovelava no
hall de entrada. Cokaze conhecia o lugar. Dirigiu-se até o pequeno
elevador antigravitacional que quase não era utilizado pelo público.
Oito
saltadores e um oficial da Frota Espacial Solar que desertara do
serviço foram levados para baixo. Tiveram de esperar numa sala
decorada com grande pompa.
O
funcionário atendente saíra, observando que dificilmente Atual e
Ortece teriam tempo para recebê-los.
Os
saltadores esperavam com serenidade e calma apavorantes. Thomas
Cardif, que não sentia o menor nervosismo, admirou esses homens
silenciosos.
Uma porta
lateral abriu-se sem o menor ruído. Um saltador, que envergava uma
veste amarela em forma de toga, aproximou-se de Cokaze.
— Patriarca?
— disse o saltador em tom indagador, inclinando ligeiramente a
cabeça.
— Atual?
— respondeu Cokaze, também em tom indagador, e fez o mesmo
movimento de cabeça.
— Ortece
nos espera!
Cokaze fez
um gesto afirmativo, como se não esperasse outra coisa. Só o mais
rico dos chefes de clã dos mercadores galácticos poderia pensar
assim. Acompanhou Atual. Ao dar o primeiro passo, voltou-se para
Thomas Cardif e fez um sinal para que este se aproximasse.
— Fique
ao meu lado, arcônida.
Atual
ouvira estas palavras. Virou a cabeça, surpreso. Durante os
cumprimentos só se dirigira a Cokaze, mas agora viu ao lado do
patriarca simplesmente — Perry Rhodan!
— Este é
Rhodan, saltador!
O
patriarca soltou uma estrondosa gargalhada e empurrou Thomas Cardif
para junto de Atual.
— Este
homem tem algo a ver com Rhodan, Atual. A pessoa que o senhor está
vendo à sua frente é o filho de Rhodan, cuja mãe foi uma princesa
de Árcon.
Atual, que
era bem mais alto que o patriarca e totalmente calvo, o que era uma
raridade entre os saltadores, fitou o terrano com um olhar
penetrante.
— É o
filho de Rhodan? — perguntou, e lançou um olhar desconfiado para
Cokaze. — Acho que hoje Ortece e eu não poderemos cumprir nossa
agenda.
— Quando
se trata de um banqueiro, a gente nunca sabe se pode ou não cumprir
a agenda — respondeu Cokaze.
Atual, que
há trinta e um anos dirigia o Banco juntamente com Ortece, não deu
nenhuma resposta à alusão do patriarca.
Dali a
pouco, os saltadores e Cardif estavam sentados à frente dos dois
poderosos homens.
— Também
ouvimos a perigosa notícia, patriarca. Ficamos admirados de o senhor
se ter envolvido nesse jogo — disse Ortece que, ao contrário de
Atual, era de constituição franzina.
— Foi
justamente por isso que vim falar com os senhores — observou
Cokaze. — Quem está sentado a meu lado é o filho de Rhodan. Isso
lhe deveria dar o que pensar. O senhor também sabe que venho
diretamente do sistema solar. Abandonei-o incondicionalmente, antes
que as naves robotizadas de Árcon, que de repente voltaram a surgir
na área controlada por Rhodan, me pudessem causar dificuldades.
— Cokaze,
o senhor está desperdiçando muitas palavras. Não temos tempo para
isso! — disse Ortece, um homem de aspecto despretensioso.
— Daqui
a pouco, o senhor terá tempo de sobra para mim, Ortece; tenho
certeza absoluta — respondeu Cokaze em tom um tanto áspero. —
Acho que o senhor não se deu conta do que acabo de dizer. Saí da
área de influência de Rhodan com todas as minhas naves, antes que a
frota de Árcon me pudesse criar dificuldade. Ortece, o clã do
patriarca Cokaze nunca abandonou voluntariamente um mundo ocupado por
suas naves. Acontece que as de Árcon, que de repente apareceram no
sistema solar, eram comandadas por terranos...
Ortece
voltou a interrompê-lo.
— O
senhor já soube falar melhor, patriarca! Daqui a pouco, teremos de
despedir-nos, pois precisamos conferenciar com o Conselho Consultivo
sobre a concessão de um empréstimo ao mundo de Gutha...
Cokaze
inclinou-se em direção a Ortece.
— O
senhor vai cancelar a reunião. E ficará aqui, com Atual. Será que,
por uns miseráveis bilhões, o senhor vai perder a chance de colocar
os saltadores em condições de igualdade com os arcônidas? O
cérebro positrônico não manda mais nada. O Império é governado
por um certo Atlan. Quem poderia ter ajudado esse usurpador
desconhecido a enganar o computador gigante e colocá-lo fora de
ação? Será que é mesmo necessário formular a pergunta? Aqui está
o filho desse homem: o filho de Perry Rhodan. Com um punhado de
homens, Rhodan conseguiu colocar Atlan acima de nós.
Cokaze
estacou e lançou um olhar penetrante para Ortece.
Ortece
espalmou as mãos, num gesto de enfado.
— Somos
financistas, patriarca. Quando iniciamos uma palestra com alguém que
queira dinheiro, costumam apresentar-nos documentos. Acontece que,
desta vez, querem que nos contentemos com palavras. Acho que não
temos mais nada a dizer um ao outro.
O chefe de
clã respondeu em tom frio:
— Acho
que seria conveniente que, antes de mais nada, o senhor procurasse
informar-se sobre as notícias mais recentes, Ortece.
Estas
palavras foram proferidas em tom de ultimato. Atual estremeceu
ligeiramente e lançou um olhar significativo para seu colega.
Ortece
manteve-se no terreno objetivo. Respondeu com a maior tranqüilidade:
— Já
conhecemos as notícias a que acaba de aludir. Cokaze, será que o
senhor já ouviu dizer que o mercado monetário costuma reagir a todo
e qualquer abalo político?

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