quarta-feira, 24 de agosto de 2016

P-090 - Atlan em Perigo - Kurt Brand [Parte 1]

Autor
KURT BRAND



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Thomas Cardif desencadeia uma revolta
contra Árcon — mas Perry Rhodan é mais
inteligente que o filho.

Com a descoberta de uma nave exploradora dos arcônidas, pousada na Lua, foi lançada a base para a união da Humanidade e a criação do Império Solar, resultante dessa união.
Na ocasião, ninguém, nem mesmo Perry Rhodan, o fundador do reino estelar terrano, desconfiava dos esforços e da energia psíquica que se tornariam necessários para, no curso dos anos, defender o Império contra os ataques vindos de dentro e de fora.
A ameaça mais grave com que já se defrontou a Humanidade, representada pela invasão do Império Solar, pôde ser vencida graças ao auxílio dos arcônidas. Da mesma forma, a perigosa situação política, criada pela atuação de Thomas Cardif, foi solucionada graças a uma ação isolada de Gucky.
A frota dos saltadores retirou-se do sistema solar. Rhodan alcançou mais uma vitória sem derramamento de sangue. No entanto, o Império de Árcon, governado por Atlan, o imortal, vê-se diante de um perigo gravíssimo, quando a Galáxia toma conhecimento de que o computador-regente, que costumava golpear implacavelmente, não governa mais!
Por isso vemos Atlan em Perigo. E Perry Rhodan tem de intervir nos acontecimentos!



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar e elemento de apoio de Atlan.

Thomas CardifCujo ódio pelo pai abala os alicerces da Via Láctea.

AtlanNovo imperador de Árcon.

Frank LemmonChefe da Seção F-l do Serviço de Defesa Solar.

Reginald BellMelhor amigo de Perry Rhodan.

CokazePatriarca de um poderoso clã dos saltadores.

GuckyO rato-castor com o qual ninguém consegue ficar zangado por muito tempo.

Atual e OrteceDiretores do Banco dos Mercadores Galácticos de Titon.
1



Frank Lemmon possuía uma concepção sobre o trabalho que correspondia plenamente ao seu caráter e, nas últimas duas horas, vinha dando prova patente da mesma: não fazia nada.
Lera o rechonchudo Terrania Post, tomou conhecimento dos artigos políticos, estudara os assuntos econômicos e há uma hora chegara à conclusão de que mesmo isso representava um esforço, embora a leitura do jornal não se incluísse entre as atribuições ligadas ao seu serviço.
Frank Lemmon era natural dos Estados Unidos. Nascera na cidade de Klondike. Fazia três anos que viera de Klondike para Terrânia, onde fora aprovado com distinção no primeiro exame de seleção. Dali a seis meses, passou a ocupar a posição de chefe da Divisão F-l do Serviço Secreto Solar.
A Divisão F-l tinha a seu cargo a observação das condições políticas reinantes na Terra. Frank Lemmon recebia todas as notícias a este respeito. Era um homem que muitas vezes não sabia dominar os vícios de seu caráter. No entanto, era uma das poucas pessoas de Terrânia que preferia não recorrer a um cérebro positrônico para realizar uma interpretação preliminar dos dados. Frank Lemmon preferia confiar em seu instinto ou, conforme diziam seus documentos: Parassentido! Trata-se de uma qualidade não classificável, resultante de um poder de concatenação superior à média, combinado com um tipo de sentido visionário para notícias aparentemente sem importância, mas que na verdade são do maior relevo.
Frank Lemmon entrara em serviço com uma hora de atraso, porque ao despertar já sentira pavor por mais um dia cheio de tédio. Sempre que saía da cama com essa sensação, o dia de trabalho não trazia nenhuma ocupação para ele. Costumava enfrentar esse fato por meio da preguiça, que o levava a deixar de executar os serviços menos importantes que surgiam à sua frente.
De qualquer maneira, o Marechal Allan D. Mercant, chefe do Serviço de Segurança Solar, não costumava recriminar o chefe de divisão Frank Lemmon por esse fato. Mercant sabia pesar os defeitos e as qualidades de seus colaboradores. No caso de Lemmon, a capacidade de classificar à primeira vista as notícias recebidas, segundo sua importância, pesava muito mais que a preguiça.
Lemmon estava sorvendo gostosamente o café forte e muito quente, quando a tela do aparelho de comunicação se iluminou. O chefe de divisão, um homem esbelto de 24 anos, mal levantou a cabeça.
Eram notícias vindas de Washington, Pequim e Laore.
Pela Via Láctea! — exclamou Lemmon com um gemido. — O agente de Laore está escrevendo um verdadeiro romance.
Quando a tela se apagou, já tinha esquecido as notícias transmitidas. Esteve a ponto de pegar novamente o Terrania Post, a fim de ler uma história cujo título lhe interessava — Ghanu, Retrato de Uma Alma — quando, subitamente, endireitou o corpo e tirou os pés de cima da mesa. De repente, a expressão de tédio desapareceu de seu rosto.
Rabintorge? Onde foi que li ou ouvi este nome? Rabintorge... não é aquele indiano que forneceu dados sobre o sistema de propulsão hiperlinear dos druufs que foram falsificados com tamanha astúcia que o Serviço de Defesa passou uma vergonha tremenda e...?
Lemmon ligou o sistema de som do intercomunicador, que permanecera inativo durante a transmissão da imagem.
Manners, traga imediatamente todos os dados sobre Rabintorge, aquele blefador de Laore. Estou com pressa, Manners!
Se Frank Lemmon usava esta frase, realmente havia uma pressa enorme.
Não esperou muito tempo. Manners, um quarentão baixo, colocou uma pilha de fotografias do arquivo sobre sua mesa.
É tudo? — perguntou Lemmon para certificar-se.
É. Conferi os dados de que dispomos com os do arquivo central e...
Frank Lemmon interrompeu-o com um gesto. Queria ficar só. Com a mesma facilidade de alguém que lê um livro, leu as fitas perfuradas.
Separou três relatórios. Enfiou-os no bolso, levantou-se e avisou na ante-sala que teria uma conferência com o Marechal Mercant.
A direção do Serviço de Defesa Solar ficava a dezoito quilômetros, num gigantesco arranha-céu que abrigava a administração e se transformara no marco distintivo de Terrânia. Mas, face às tarefas imensas que o Império Solar tinha de realizar, esse aparelho burocrático não era nenhum órgão acéfalo que proporcionasse uma vida confortável a alguns milhares de colaboradores.
Frank Lemmon representava uma exceção, com suas horas de preguiça que surgiam a intervalos irregulares. Mas, graças aos trabalhos fenomenais que vez por outra costumava apresentar, valia tanto quanto uma equipe bem treinada de seis pessoas.
Teve de esperar mais de meia hora na ante-sala do gabinete de Mercant.
O chefe está lá dentro! — dissera a secretária de nariz chato, sempre bem-humorada.
Nesse caso, o chefe não poderá deixar de ouvir-me”, pensou Lemmon.
Nem se deu conta de que estava atribuindo uma importância extraordinária à sua pessoa.
Quando se tinham passado mais de trinta minutos de espera e ainda não havia nada que indicasse o fim da conferência que se realizava atrás daquela pesada porta, Frank Lemmon voltou a falar com a secretária.
Faça o favor de avisar imediatamente ao marechal que se trata da propulsão LH.
A abreviatura LH fora inventada por ele e lhe acudira naquele momento num verdadeiro lampejo do espírito. Nem Mercant nem Perry Rhodan a conhecia, e era bem possível que ambos não soubessem adivinhar seu significado. Acontece que, dessa forma, Lemmon obedecia à regra primordial do sigilo, e, por outro lado, talvez conseguisse fazer com que Rhodan ficasse para ouvir o que ele, Lemmon, tinha a dizer.
É realmente tão importante, Lemmon? — perguntou a secretária em tom de dúvida.
Estava acostumada a ver as pessoas recorrerem ao pretexto de um assunto importante para fazer com que Mercant lhes dedicasse parte de seu precioso tempo.
Frank Lemmon respondeu com toda calma:
Na minha opinião é muito importante. Não se esqueça de mencionar o mecanismo de propulsão LH.
A resposta de Allan D. Mercant foi imediata.
O quê? O propulsor LH? Quem quer falar comigo? Lemmon? Mande-o entrar.
Frank Lemmon fechou lentamente a pesada porta atrás de si. Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, e Allan D. Mercant, o chefe do Serviço de Defesa, estavam sentados frente a frente, junto a uma mesa. Com um gesto, Mercant convidou Lemmon a sentar-se. Nenhum dos dois indagou sobre o significado da abreviatura LH.
Lemmon tirou do bolso as três fitas perfuradas e colocou-as na mesa. Quando levantou a cabeça, fitou os olhos cinzentos de Rhodan, que refletiam certa tensão.
Sir... marechal.
Lemmon dirigiu-se aos dois ao mesmo tempo e nem se deu conta de que acabara de desagradar a seu chefe imediato através do tratamento que lhe dera. Não compreendeu e nem se preocupou com o ligeiro sorriso que aflorou ao rosto de Rhodan. Concentrou-se no relato que teria de oferecer.
Falou no estudante indiano chamado Rabintorge, que, por meio de canais ainda não descobertos, conseguira saber algo sobre o hiperpropulsor linear dos druufs. Frank Lemmon comentou a respeito do impacto provocado junto ao Serviço de Defesa Solar por um artigo de quatro páginas, recheado de fórmulas, publicado na revista Ars Stellaris, órgão da Universidade de Laore.
...e nossos cientistas levaram quinze dias para informar-nos de que caíramos numa brincadeira de estudantes. Aqui estão — empurrou as três fitas perfuradas para o centro da mesa, a fim de que Rhodan e Mercant decidissem quem as examinaria em primeiro lugar — as notícias mais importantes, recebidas nestes últimos tempos.
Lemmon fez uma ligeira pausa, para esperar que um dos interlocutores lesse a fita perfurada. Mas Perry Rhodan disse:
Continue, Lemmon.
Bem, há uma hora recebi um relato de nosso agente de Laore. Trata-se de um verdadeiro romance de futilidades. No entanto, uma das notícias incluídas no relatório é digna de atenção. Segundo ela, o tal do Rabintorge, que é o estudante que nos brindou com a brincadeira relativa ao hiperpropulsor linear, está em contato com a Companhia GHC, na qual pretende exercer as funções de assessor científico.
Será que deveríamos permitir que um homem como este fosse trabalhar numa companhia de tamanha importância científica?
Não era a primeira vez que Frank Lemmon falava com Perry Rhodan, e acreditava ter um conhecimento ao menos ligeiro do administrador. Mas agora não se sentia muito à vontade sob o olhar penetrante daquele par de olhos cinzentos. Também Allan D. Mercant fitou-o intensamente. Os dois homens mantiveram um silêncio que começou a pesar cada vez mais intensamente sobre os nervos de Lemmon.
Finalmente Perry Rhodan recostou-se e cruzou os braços à frente do peito. Allan D. Mercant pegou as fitas perfuradas e examinou-as sem ler.
No gabinete do chefe do Serviço de Defesa reinava um silêncio total.
Lemmon pigarreou, mas não teve oportunidade de falar.
Lemmon, qual é o motivo da sugestão que acaba de apresentar? — perguntou Rhodan.
O parassentido não classificável voltou a surgir na mente de Frank Lemmon. A resposta com que respondeu à indagação de Rhodan provinha desse dom.
Sir, será que minha sugestão não é o resultado de uma dedução lógica?
Rhodan não tomou conhecimento dessa pergunta.
O que é que o senhor sabe a respeito do hiperpropulsor linear dos druufs, Lemmon?
Praticamente nada. Apenas sei que, segundo se diz, os druufs possuem um mecanismo propulsor que permite alcançar velocidade superior à da luz, sem que, ao romper tal barreira, se torne necessário abandonar nossa estrutura espaço-temporal. Mas não sei dizer se essa versão é correta.
Ela é correta, Lemmon! — interrompeu Rhodan. — Onde obteve essas informações?
A resposta de Frank Lemmon foi imediata:
Da equipe científica 065-propulsão. Trabalhamos juntos durante uma semana, na investigação do caso Rabintorge.
Obrigado — limitou-se Rhodan a dizer e lançou um olhar para Allan D. Mercant.
Este interpretou o olhar como um pedido para pronunciar-se.
Sir, acho que justamente neste momento não deveríamos perder nenhuma chance de...
O pronunciamento de Mercant não era muito claro; ao menos, Lemmon teve esta impressão. Mas Rhodan devia tê-lo entendido de outra forma, pois fez um gesto afirmativo para o marechal e disse:
Providencie o que se fizer necessário.
Estamos muito bem informados sobre esse Rabintorge — disse Mercant, fornecendo os dados de que dispunha. — Trata-se de um estudante que nunca entrou em contato com seres inteligentes extra-solares. Suas faculdades físico-matemáticas, que apresentam numerosos pontos de contato com a hipermatemática dos arcônidas, são inexplicáveis. Mas o que mais espanta é o fato de que só aprendeu a ler aos quinze anos.
Será que este estudante não é um arcônida, um ara ou um ekhônida? — indagou Rhodan.
Não. É impossível. Rabintorge é um terrano e, além disso, é um teórico físico-matemático de primeiríssima categoria.
Perry fitou Mercant com um sorriso.
Não estou acostumado a ouvir superlativos de sua boca. De qualquer maneira, está bem. Traga o homem para cá, e ponha-o a trabalhar sob uma vigilância discreta. Lemmon, fico-lhe muito grato pelo serviço que acaba de nos prestar.
Rhodan levantou-se e deu-lhe a mão.
Não houve nada de especial no meu trabalho, Sir — objetou Lemmon, que nunca teria esperado um elogio desse tipo.
É claro que não — disse Rhodan com uma risada. — Um homem que dorme como o senhor nunca percebe que fez um esforço, porque sempre dispõe de energias ansiosas por entrarem em ação. Na última noite o senhor também dormiu bem?
Quando a pesada porta se fechou atrás de Rhodan, a gargalhada retumbante de Allan D. Mercant ainda enchia o gabinete. Frank Lemmon concluiu que seria preferível rir também em vez de dar qualquer resposta à observação de Perry Rhodan.
Dali a dois dias, Lemmon já se havia esquecido do firme propósito de mudar, que tomou naquela oportunidade.
No dia em que o indiano Rabintorge veio a Terrânia, a fim de realizar um serviço especial para o Império Solar, Frank Lemmon só chegou ao seu local de trabalho às onze horas. Ao acordar, tivera a impressão de que o dia não lhe traria maiores novidades.
De fato, só recebeu as notícias corriqueiras. Porém Perry Rhodan sofreu um tremendo abalo, causado por uma mensagem de hiper-rádio vinda de Árcon.
Seu filho Thomas Cardif, desertor da Frota Solar e seu inimigo mais encarniçado, acrescentara outro crime ao de deserção. Do planeta Archetz, pertencente ao sistema de Rusuma e situado a quarenta e quatro anos-luz de Árcon, avisara a uma Galáxia atenta que o computador-regente de Árcon III fora destituído pelo Almirante Atlan.
2



Uma verdadeira avalancha galáctica iria ter início.
Face ao ato de um oficial desertado do Império Solar, Árcon, que já há 10 mil anos era um imenso reino estelar, estava ameaçado de sofrer uma série de rupturas em sua unidade.
Naquele momento, Atlan, o solitário da cúpula gigantesca do enorme computador positrônico de Árcon III, achava-se mais fraco que Perry Rhodan, pois os perigos que o ameaçavam no interior do Estado arcônida eram milhões de vezes maiores que os que pesavam sobre o sistema solar. Atlan comunicou-se com Perry Rhodan, que se encontrava na Terra:
Preciso ganhar tempo, Perry! Preciso de sua colaboração, bárbaro. Terei de operar com a auréola que cerca seu nome. Ninguém sabe quem é Atlan, um almirante que representou alguma coisa há dez mil anos. Será que alguém ainda conhece minha família? Por que não diz nada?
O que poderia dizer, amigo? — respondeu Rhodan com uma enorme tranqüilidade externa, enquanto sua mente se crispava nervosamente. — Volte a chamar dentro de oito horas terranas. Terei de digerir os novos fatos, embora tanto você como eu não esperássemos outra coisa. Você aludiu ao nome de Thomas Cardif e...
Atlan interrompeu-o a uma distância de 34 mil anos-luz.
Pouco importa que eu tenha falado em Thomas Cardif ou nos mercadores galácticos. O que importa é que Cardif e os saltadores se encontram no sistema Rusuma e tentam criar dificuldades para o Império. Você acaba de pedir que volte a chamar daqui a oito horas. Sabe o que pode acontecer até lá?
Perry aguçou o ouvido. Será que Atlan estava sendo dominado pelo pânico? Atlan, o atemporal e o imortal?
Perry Rhodan estudou o rosto do arcônida que aparecia na tela, mas não descobriu o menor sinal de pânico. No entanto, um perigo iminente devia deprimir o almirante. Por que não identificava esse perigo?
O que é que você está ocultando, almirante? — perguntou Rhodan, fazendo sua voz atravessar o tempo e o espaço.
Viu que Atlan procurou concentrar-se. Empertigou-se e esforçou-se para sorrir.
Não estou ocultando nada, Perry. Acontece que, neste momento, consigo compreendê-lo muito bem. Encontro-me na mesma situação em que você se achou durante setenta anos. Quero que você me compreenda. Preciso acostumar-me com o fato de que o Grande Império já não quer obedecer às minhas ordens, e que meu poder não é maior que o seu.
Qual é minha idade? Mais de dez mil anos? Neste dado só o número é correto, pois o fato é que sou mais jovem que você, bárbaro. Numa situação como esta, suas vivências o colocam numa situação muito melhor que a minha. Tenho de rever meus conhecimentos, bárbaro! Preciso seguir seu exemplo e...”
Atlan! — exclamou Rhodan em voz alta, procurou dissimular o susto causado pela irrupção sentimental do arcônida. — Atlan, faça o favor de voltar a chamar daqui a oito horas terranas.
Não deixou que o almirante voltasse a falar.
A ligação de telecomunicação com Árcon III foi interrompida.
Perry Rhodan acabara de desligar.
Sem dizer uma palavra, recostou-se na poltrona. Continuou a fitar a tela, que já se tornara cinzenta. Ergueu lentamente as mãos, e as pontas dos dedos começaram a massagear as têmporas.
Reginald Bell, que o observava em silêncio, já conhecia o gesto. Tal atitude traía um abalo profundo no espírito do amigo.
No fim do diálogo, Atlan deixara falar exclusivamente o coração.
Era uma das raras palestras em que dois homens percebem que a amizade os liga até a morte.
Rhodan dirigiu-se a Bell.
Falou sem o menor nervosismo:
Preciso imediatamente dos dados mais recentes sobre o sistema de Rusuma, especialmente sobre Archetz, o quinto planeta. Faça o favor de providenciar para que esses dados cheguem às minhas mãos dentro de trinta minutos. Cuide da equipe 065-propulsão.
Bell, que esperara mais que isso, lançou um olhar indagador para Rhodan. Mas este não forneceu outros detalhes.
Escute... — principiou cautelosamente. — Será que não cometemos um erro em não mandarmos nenhum agente atrás da frota dos saltadores, quando eles se afastaram precipitadamente?
Os olhos cinzentos de Perry Rhodan abriram-se ligeiramente.
Por que não fala franca e abertamente de Cardif, Bell? Onde estaria o erro por nós cometido? No momento em que o patriarca Cokaze soube por intermédio de um homem, que se encontrava em nosso destróier aprisionado, que o Grande Império está sendo governado por Atlan, e não pelo cérebro positrônico, todo o clã desse patriarca teve conhecimento do fato, e, com isso, perdemos toda e qualquer possibilidade de continuar a manter o segredo.
Se não nos adaptarmos imediata e completamente à nova situação, e isso também diz respeito a Atlan, dentro de um ano, no máximo, toda a Galáxia pegará fogo, e assistiremos a fatos que não se compararão com qualquer dos exemplos fornecidos pela História. Acontece que ainda não sei como poderemos enfrentar a situação. A intenção de obter informações pormenorizadas sobre o sistema de Rusuma e fazer com que você se dirija à equipe 065-propulsão, a fim de que esses cavalheiros não se ocupem com questões de matemática teórica até o dia do juízo final, só representa uma ligeira sondagem.”
Uma sondagem de quê?
Perry Rhodan estava perplexo.
Não sei, Bell.
O tom da voz de Perry dava mostras de contrariedade, mas tal contrariedade não se dirigia contra o amigo que acabara de formular a pergunta. Nascera da sensação de encontrar-se em meio a uma catástrofe, sem enxergar um meio ou um caminho que lhe permitisse escapar à avalancha galáctica.
Reginald Bell ergueu o corpo atarracado.
Está bem. Providenciarei a primeira coisa que você pediu, e farei a outra. Se não me engano, você espera que a equipe 065 lhe forneça em breve alguns dados concretos.
Muito em breve! — respondeu Rhodan.
Bell fez uma careta.
Essa gente ficará muito satisfeita! — profetizou. — Devem fazer os pobres terranos compreenderem a tecnologia dos hiper-propulsores lineares dos druufs por meio da supermatemática arcônida, e isso muito em breve.
Rhodan lançou-lhe um olhar de espanto.
Por enquanto não possuímos este sistema de propulsão, Bell. Será que você já se esqueceu disso?
O homem ruivo soltou uma risada seca.
De forma alguma. Acontece apenas que, no momento, me tornei um pouco infiel a mim mesmo e esqueci a ponta do meu dedo direito. Hoje não é o dia 1o de julho de 2.044? Pois bem. A muito custo, conseguimos atravessar a primeira metade deste ano maldito. Talvez também consigamos superar o resto, com ou sem hiperpropulsão linear... se bem que no meu íntimo eu tivesse uma esperança de que nossa equipe conseguisse descobrir como funciona o aparelho.
Bell — Rhodan lançou-lhe um olhar recriminador. — Desde a última festa do ano-novo, seu dedo ferido num caco de vidro transformou-o na personificação do pessimismo. Porém, num ponto em que nada temos a esperar, você acredita em milagres.
Perry, será que isso não é uma forma distorcida de pessimismo? — perguntou Bell quando já segurava a maçaneta.
Retirou-se apressadamente.
É um sujeito incorrigível — constatou Rhodan para si mesmo e sorriu.
Nos momentos de depressão era sempre Bell que, com seu jeito inimitável, fazia melhorar a disposição de ânimo dos outros. Ninguém melhor que Rhodan sabia que, na verdade, o próprio Reginald Bell também era martirizado pelas preocupações.
Enquanto isso, Bell providenciou para que o chefe recebesse os dados sobre o sistema de Rusuma. Ele mesmo pegou o planador e voou ao setor de pesquisa 18.
Na divisão 065-propulsão, encontrou alguma coisa que ele costumava designar como dupla mista, muito embora essa dupla fosse formada por quase trinta especialistas, parte dos quais eram teóricos, parte técnicos.
Quase não tomaram conhecimento de sua chegada. Esse costume se firmara em todos os lugares em Terrânia.
Bell examinou ligeiramente a equipe dividida em vários grupos e teve sua atenção dispensada por um jovem indiano, que, ao falar, movimentava tanto as pernas como os braços.
Quem é este, Bradley? — perguntou, dirigindo-se ao professor que chefiava o grupo 065-propulsão.
Ah... é Rabintorge, um novato. Não consigo lidar com ele. Esse indiano é todo contradição! — explicou o professor Bradley com uma visível contrariedade.
Bell apreciava tudo que cheirasse a contradição. Agradeceu ao professor e aproximou-se discretamente do grupo onde Rabintorge continuava a agitar os braços, esforçando-se para fazer prevalecer sua opinião.
Um colega argumentou:
Como é que o senhor pode saber disso? O senhor nem teve tempo para adquirir uma visão de conjunto, e, além disso, acaba de dizer uma tolice.
O indiano, um homem de olhos marrons e pele morena, cruzou as mãos à frente do peito e inclinou-se diante do colega que o agredira de forma tão brutal.
Pois então! — disse este com um sorriso.
Mas o indiano voltou a falar no mesmo instante:
O senhor está enganado! O que acabo de dizer não é nenhuma tolice. A estrutura espaço-temporal só é abalada numa constante pelo hiperpropulsor linear, no momento em que a respectiva espaçonave atinge a velocidade da luz. Ao contrário do hipersalto, que, por ocasião da saída do espaço normal e do reingresso na estrutura normal do Universo, causa nesses pontos uma ruptura de todas as constantes que dá origem ao abalo estrutural, o hiperpropulsor linear, ao ultrapassar a velocidade da luz, só retira uma única constante de sua base natural, e o propulsor causa esse efeito, enquanto a espaçonave desenvolve velocidade superior à da luz. De outra forma não haveria explicação para os valores constantes dos erros de indicação registrados nas medições da tensão espacial.
Bell não tinha a menor idéia do que vinha a ser a base natural de uma constante da estrutura espaço-temporal. E não tinha muita ambição de saber. Mas não conseguia evitar a impressão de que esse indiano muito jovem sabia expor em poucas palavras um problema físico extremamente complexo.
Três colegas conversavam ao mesmo tempo com o indiano, mas este não se deixou abalar. Bell o ouviu falar nos resultados das medições realizadas pela estação de Hades. Ainda ouviu o indiano mencionar o nome de Ernst Ellert e invocar as indicações fornecidas pelo mutante. O jovem chegou mesmo a afirmar que conhecia de cor os resultados das medições realizadas pelas estações terranas, situadas no Universo dos druufs e os dados fornecidos por Ellert.
Bell esperou até que Rabintorge se dispusesse a apresentar a prova de suas afirmativas. Subitamente teve muita pressa em sair da divisão 065-propulsão.
Quando Bell irrompeu subitamente em seu gabinete, Perry Rhodan fitou-o com uma expressão contrariada.
Alguma novidade? — perguntou. — Daqui a uma hora, terei três conferências e...
Deixe que esperem! — exclamou Bell. — Ouça primeiro o que tenho a lhe dizer e depois diga o que você acha.
O gorducho esforçou-se para apresentar seu relato em tom calmo. Não perdoou qualquer detalhe. E concluiu com esta observação:
Será que o tal do Rabintorge não é um arcônida ou um mercador galáctico disfarçado?
Há poucos dias formulei a mesma pergunta a Mercant. A resposta foi não.
Pois mande Gucky cuidar de Rabintorge!
Rhodan fez que não.
Gucky também não é infalível. Não se esqueça daquele cachorro-espião dos arcônidas, que nos enganou a todos, inclusive ao rato-castor.
Acontece que esse indiano não é nenhum indiano, Perry! Seu espírito de contradição é tamanho que deixa confusa toda a divisão 065-propulsão, Perry! O professor Bradley não consegue lidar com ele.
Bell, você acaba de falar em Bradley. Se as informações que recebi a respeito dele forem corretas, vamos mandá-lo passar os próximos seis meses num sanatório. O professor exauriu-se no trabalho de descobrir um instrumento de localização capaz de registrar os abalos da hiperestrutura linear.
A porta do gabinete de Rhodan abriu-se. John Marshall, chefe do Exército de Mutantes e um dos melhores telepatas, entrou.
Sir, eu devia...
Rhodan interrompeu-o com um gesto.
Faça o favor de sentar-se, Marshall. Bell e eu terminaremos dentro de poucos minutos.
Voltou a dirigir-se a Bell.
Este jovem indiano, que concluiu seus exames há apenas uma semana, deve ser um mutante no terreno físico-matemático. Rabintorge é o homem que nos pregou aquela peça que...
Naquele instante, Bell virou-se abruptamente para Marshall. De repente teve a impressão de que havia algo de errado. Viu Marshall levantar-se, e ouviu-o dizer:
Sim, chefe!
No mesmo instante, Perry fez uma ligação com o chefe de Defesa:
Aqui fala Rhodan. Mercant, coloque quatro ou cinco dos seus melhores homens na divisão 065-propulsão. Lá se encontra um sugestor. Seus homens se encontrarão com o mutante Kitai Ishibashi, que comanda a ação. Desligo.
Bell fitou o amigo com um misto de susto e perplexidade. Não quis acreditar no que a inteligência dizia e no que depreendia das palavras de Perry.
Perry, será que isso significa que eu... que eu...?
Rhodan fez que sim e John Marshall, que se encontrava a seu lado, confirmou a suposição.
Sim senhor — disse. — O senhor se encontra sob uma influência sugestiva tão forte que não consigo penetrar no...
Marshall, repita isso... — Bell fez uma tentativa para se opor... mas se Marshall fazia uma afirmativa dessas, não haveria erro. — Onde foi que isso me aconteceu? Na divisão 065-propulsão? Nesse caso esse indiano é mesmo um agente do outro lado. Eu não disse?
O intercomunicador soou em meio às palavras de Bell. Mercant encontrava-se do outro lado da linha.
Sir, a ação já foi iniciada.
Obrigado! — respondeu Rhodan.
O estalido do aparelho revelou que a comunicação com o Serviço de Defesa já fora interrompida.
Esse indiano! — exclamou Bell em tom furioso. Dirigiu-se a Marshall e perguntou: — Ainda me encontro sob os efeitos da sugestão? Será que minha vontade continua submetida a uma influência constante?
Não senhor. O bloco introduzido no senhor é suficientemente forte. Como já disse, não consigo passar.
Onde não consegue passar? Diga logo onde...
Sir, não estou em condições de ler seus pensamentos quando o senhor fala nesse indiano chamado Rabintorge ou...
Esse sujeito com olhos de veado! — praguejou Bell e deixou-se cair na poltrona. — Como farei para livrar-me desse bloco? Perry, como você teve a idéia de que haviam feito alguma coisa comigo?
Notei um pequeno detalhe em você, Bell. Geralmente, sente uma simpatia toda especial pelos espíritos de contradição, mas no tal do Rabintorge você não quis ver nada de bom. Isso se manifestou menos nas suas palavras que no tom de sua voz. Sua fala estava impregnada de ódio contra aquele jovem de Laore, e isso não combinava com seu gênio. Desconfiei e convoquei John por via telepática. Pedi a Marshall que o testasse.
Se eu puser as mãos no sujeito que se permitiu esse tipo de liberdade comigo...
Estou mais interessado em saber quem está atrás do sugestor introduzido em nosso meio — obtemperou Rhodan. — E logo hoje, que tenho mil coisas a fazer, esse incidente tem de vir à tona. O tempo vai correndo. Daqui a pouco, o prazo de oito horas estará no fim e Atlan voltará a chamar.
O que é que eu venho dizendo desde a festa de entrada do ano 2.044?! — exclamou Bell em tom exaltado, estendendo o dedo polegar.
Desde a festa de passagem de ano do início de 2.044, o polegar direito de Reginald Bell transformara-se no fantasma que costumava apavorar seus colaboradores mais íntimos. Durante os festejos, derrubara, sem querer, um cálice de champanha, de vidro inquebrável. Porém o vidro partiu-se. Bell recolheu os cacos. Se já havia uma contradição no fato de uma peça de vidro inquebrável se partir, essa contradição crescia ainda mais por Bell ter cortado o polegar nos cacos.
Desse momento em diante, Reginald Bell se transformara num pessimista supersticioso. Sem querer saber se alguém estava interessado nisso ou não, vivia dizendo que o ano de 2.044 seria uma fase catastrófica para o Império Solar.
Infelizmente, até o momento, os fatos lhe haviam dado razão.
E agora estendia o polegar em direção a Perry Rhodan, num gesto demonstrativo. Um brilho zangado surgiu nos olhos cinzentos do administrador.
Mais uma vez lhe peço que deixe de lado estas alusões. Essas repetições já começam a aborrecer-me.
Está bem, Perry! Você é o chefe. O fato é que eu tenho razão. No momento, Atlan está com água até o pescoço e quer que nós o ajudemos. Logo nós, que só temos poucas naves. E não devemos esquecer que ainda há três mil naves de guerra dos druufs que cruzam o nosso Universo. Se, um belo dia, voltarem a aparecer, tomara que Deus tenha pena de nós. Se isso acontecer, não aparecerá nenhum grupo de naves robotizadas de Árcon e nenhum clã dos saltadores para tirar-nos do aperto. Por que será que as coisas desagradáveis, vindas de todos os lados, têm que desabar sobre nós seguidamente?
Perry Rhodan deixou que Bell falasse. Conhecia-o melhor que qualquer outra pessoa. E o método mais simples, barato e eficiente de lidar com ele era deixar que esbravejasse à vontade. Acabava acalmando-se.
O pedido de socorro de Atlan o afligia como um pesadelo, e os fatos inquietantes, que se desenrolavam na divisão 065-propulsão, constituíam uma advertência no sentido de que o Império Solar era vulnerável também por dentro, pois as medidas de segurança, por mais eficientes que fossem, sempre poderiam ser solapadas.
Bell passou os olhos de um interlocutor para outro, pois não ouviu o menor eco às suas observações.
Essa ação na divisão 065-propulsão está muito demorada!
Até mesmo no Império Solar os milagres demoram algum tempo! — respondeu Rhodan com uma aspereza extraordinária na voz, o que fez com que Bell achasse preferível manter-se calado.
A longa espera teve início. Rhodan dera ordem para, em hipótese alguma, ser incomodado. Naturalmente, no caso de qualquer notícia alarmante, deveria ser feita uma exceção. Mas deixou de acontecer o que costumava ser tão freqüente, isso é, que a grande central de hiper-rádio de Terrânia o interrompesse com alguma noticia desagradável.
Quarenta e cinco minutos depois do início do alarma, Mercant voltou a chamar pelo intercomunicador.
Sir, o mutante Ishibashi constatou que o técnico Elvis Artun é um hipno. Saiu da GHC Company e veio trabalhar conosco pouco depois da invasão dos saltadores.
Rhodan notou imediatamente a contradição entre os dados fornecidos por Marshall e o relatório de Mercant.
Uma pergunta, Mercant: o que é mesmo esse Artun, um hipno ou um sugestor? Precisamos saber imediatamente, pois se Artun for um hipno, nesse caso, ainda faltará descobrir quem é o sugestor que se encontra na divisão 065-propulsão. Mercant, insista junto a Kitai Ishibashi. Ele mesmo poderá constatar quais são as faculdades de Artun. Temos pouco tempo.
Bell não se atreveu a fazer qualquer observação. Viu que Rhodan fitava atentamente o telepata Marshall. Os impulsos mentais dos dois se intercambiavam num diálogo silencioso.
Está bem, Sir. Consegui entrar em contato com Gucky. O rato-castor já está a caminho da divisão 065-propulsão — disse Marshall, para que Bell também ficasse a par. Quase ao mesmo tempo, o micro comunicador no pulso esquerdo de Rhodan emitiu um sinal. O rato-castor estava chamando.
Perry, acabo de descobrir dois sujeitos. Se pudessem, eles me matariam, acontece que não podem, pois estão presos ao teto. Podem ficar assim, até que os homens de Mercant venham buscá-los?
O rato-castor tratava qualquer pessoa por você, inclusive o administrador do Império Solar. Mas o fato de Gucky pedir licença a Rhodan para deixar presos ao teto, graças ao dom da telecinese, dois agentes que acabara de descobrir não combinava com o gênio do rato-castor.
Gucky, será que você não está cometendo uma tolice? — perguntou Rhodan em tom severo.
Ora, chefe — piou o rato-castor pelo microfone. — Será que alguma vez já fiz uma tolice?
Rhodan preferiu não responder. As brincadeiras de Gucky eram por demais conhecidas.
Tenente, quem são eles? Queira fornecer os nomes.
Era uma indagação oficial. O rato-castor compreendeu perfeitamente. Sempre que Rhodan se dirigia para ele usando a denominação de seu posto, devia abster-se de qualquer brincadeira.
Gucky retribuiu de igual para igual:
Administrador, os dois sugestores são Tom Sharkey e Pierre Rochard. Neste momento, estão rogando pragas contra mim. Porém, vez por outra, rogam pragas contra a GHC Company da Cidade do Cabo e, especialmente, contra o terceiro diretor Horace Edwards. Ora... ora...
Era muito raro ouvir o rato-castor gaguejar de espanto... De repente, calou-se. O micro comunicador transmitia apenas sua respiração apressada.
Gucky, o que está acontecendo na divisão 065-propulsão? — Rhodan preferiu não voltar a chamá-lo de tenente.
Ouça, Perry... — a voz piante de Gucky falava aos cochichos. — Sharkey e Rochard nunca foram verdadeiros sugestores. Há algo de errado com seu modelo de vibrações cerebrais. Deixemos isso para depois Perry; agora não...
Ora essa — disse Rhodan em tom de espanto e voltou a baixar o braço esquerdo, ao qual estava preso o micro comunicador. — Será que Gucky desligou? Notou o tom de sua voz no fim da palestra? Qual é sua opinião, Marshall?
Marshall, que além de ouvir a palestra travada pelo micro comunicador mantivera contato telepático com o rato-castor, sabia mais que Rhodan. E a informação que pôde dar não foi muito tranqüilizadora.
Gucky teve de lançar mão de todas as reservas para proteger-se contra a influência sugestiva dos dois agentes que acaba de descobrir.
Nesse momento, o ar começou a tremeluzir e o rato-castor apareceu. Transportara-se num salto de teleportação da divisão 065-propulsão ao gabinete de Rhodan.
Eu lhes mostrei! — anunciou em tom orgulhoso, mas um tanto cansado. Depois fitou Bell. — O que fizeram com você, gorducho?
Rhodan interveio na conversa.
Deixe Bell de lado, Gucky. Ele está sujeito a uma forte influência sugestiva. O que foi que você descobriu?
Gucky exibiu o dente roedor solitário, com o que pretendia indicar um sorriso.
Muita coisa, chefe! Ao menos, tanto quanto Sharkey e Rochard sabiam. E isso basta para deixar a GHC Company de pernas para o ar e revistar-lhe as instalações, a fim de procurar um aparelho de telecomunicação dos saltadores. Já enviei um agente ao apartamento de Rochard.
Por quê? — perguntou Rhodan.
Porque lá se encontram três ampolas de um tóxico dos aras. Não sei o que há com esse tóxico. Rochard apenas pensou ligeiramente no mesmo; teve medo de que pudéssemos descobri-lo.
Rhodan inclinou-se para a frente.
Você acaba de falar num tóxico dos aras, não é?
Falei na GHC Company, no aparelho de telecomunicação dos saltadores, no tóxico dos aras. Ainda acontece que Sharkey e Rochard não são sugestores, mas apenas indivíduos submetidos à ação de certos medicamentos. Ainda aposto que esse Elvis Artun também não é um verdadeiro hipno. Os modelos de vibrações cerebrais irradiados pelos dois agentes não são normais, Perry. Mas Marshall saberá compreender melhor.
Virou-se para Marshall e perguntou:
John, você já viu um modelo de vibrações cerebrais em que a faixa sugestiva é muito pouco desenvolvida, enquanto o indivíduo ao qual pertence o modelo dispõe de forças sugestivas incríveis?
Parte das palavras de Gucky constituíam uma linguagem especial, pois só um telepata seria capaz de compreender o que vinha a ser um modelo de vibrações cerebrais e uma faixa sugestiva.
O rosto de Marshall, que demonstrava uma incredulidade indisfarçada, provava que compreendera as palavras do rato-castor. Gucky parecia satisfeito.
Há pouco, quando fiz a descoberta na divisão 065-propulsão, devo ter oferecido uma aparência tão boba como você está mostrando agora. E depois disso, essa gente procurou apertar-me com suas forças sugestivas.
Voltou a dirigir-se a Rhodan, e assumiu um ar modesto, o que não combinava com seu caráter.
Perry, tive que... não pude agir de outra maneira... Se quiser entrar imediatamente em contato com Mercant, diga-lhe que os médicos só precisarão cuidar de Rochard e Sharkey daqui a três horas. Antes disso, não acordarão da hipnose que lhes apliquei.
Tenente Gucky... — principiou Rhodan, sem que tivesse qualquer intenção especial ao usar esse tratamento. Mas estremeceu ligeiramente quando o rato-castor, piando, procurou dar uma tonalidade militar às suas palavras:
Pois não, administrador do Império Solar...
O rosto sério de Rhodan iluminou-se, e o chefe sorriu para o rato-castor.
Obrigado, Gucky, você apenas acatou minha voz de comando. Mas tenho outro serviço para você. Teleporte-se para o apartamento de Rochard, procure o tóxico dos aras e traga-o para cá.
Está bem, chefe! — disse o rato-castor e, no mesmo instante, desapareceu.
Bell respirava pesadamente.
Marshall, o bloco sugestivo exerce alguma influência sobre as outras funções de minha mente?
Não senhor. Apenas a experiência colhida na divisão 065-propulsão foi deturpada.
Isso é um débil consolo, Perry. Gostaria de entrar em contato com Frank Lemmon, chefe da Divisão F-l. Quero fazer-lhe algumas perguntas.
E depois disso, pretende submeter-se a um tratamento, a fim de eliminar o bloco sugestivo, não é? — perguntou Rhodan em tom de perplexidade.
Se houver tempo para isso. De qualquer maneira, preciso manter-me afastado do tal do Rabintorge, pois do contrário esse jovem ainda poderá pensar que sou um bobo.
A porta fechou-se atrás dele. Rhodan e Marshall ficaram a sós. Estavam esperando que Gucky voltasse. Enquanto isso, Rhodan informou o chefe do Serviço de Defesa. O rosto de Mercant que surgiu na tela não demonstrou espanto nem curiosidade. Ele, que, bem dizer, crescera no interior de seu serviço, já se vira diante de fatos muito mais inacreditáveis.
Sir, de minha parte será feito tudo que for necessário.
Foi tudo que Allan D. Mercant teve a dizer.
O Exército de Mutantes estará presente quando o edifício da administração da GHC Company, na Cidade do Cabo, for revistado, Mercant. Organize a ação de forma que isso aconteça.
Pois não.
A tela do sistema de intercomunicação voltou a tornar-se cinzenta. Rhodan olhou para o relógio. Dali a três horas, Atlan voltaria a chamar, e, até então, mal tivera tempo para examinar a nova situação em que se encontrava o almirante e seu império.
Marshall...
John Marshall fitou o chefe. A comunicação telepática entre os dois fora interrompida. O olhar de Perry Rhodan vagava além do sistema solar — em algum ponto do Universo.
Marshall, o senhor consegue compreender meu filho?
Chefe... — John Marshall pegou um maço de cigarros, tirou um e acendeu-o.
Seguiram-se três tragadas profundas. Tudo isso foi feito apenas para ganhar tempo. Mas chegou o momento em que teve de responder à pergunta íntima de Rhodan.
Sim senhor, compreendo Thomas Cardif, mas não encontro justificativa para o que tem feito.
Não estou interessado em conhecer sua opinião sobre este último ponto, John. Mas quero que me explique por que consegue compreender seu procedimento. Isto é, caso queira explicar.
Antes de responder, Marshall deu mais duas tragadas, bateu a cinza e endireitou o corpo. Finalmente começou a falar:
Seu filho cresceu sem lar. Quando soube quem eram seus pais, sentiu de uma hora para outra um impacto: Perry Rhodan e a arcônida Thora eram seus pais! Será que posso falar com toda franqueza, chefe?
Rhodan fez um gesto cansado, e Marshall prosseguiu:
Thomas Cardif sentiu simpatia exclusivamente pela sua esposa, ou seja, pela mãe dele. Mas só recebeu o amor de mãe aos pingos. Para Thomas Cardif, a palavra dever certamente se transformou numa maldição, pois não era nem terrano nem arcônida. Procuro nunca me esquecer disso, quando avalio seu procedimento. No momento em que sentiu quanto vale o amor de mãe, sua progenitora morreu. Dali em diante, Thomas Cardif sentiu-se só. O ódio e o amor... será que estes dois sentimentos não são aparentados? Junto ao túmulo de sua esposa e da mãe dele o senhor lhe estendeu a mão. Se eu fosse Thomas Cardif, também não a teria aceito, e...
John! — Rhodan parecia apavorado.
Isso mesmo, chefe, eu também não teria aceito a mão que o senhor me oferecia. Lembre-se que ele poderia estar mal informado quando lançou aquele boato infame segundo o qual o senhor teria enviado a esposa a Árcon para realizar negociações, contrariando as recomendações dos médicos. Aqui em Terrânia ninguém acreditou nisso, mas já imaginou o que se terá passado na alma de Thomas Cardif? De qualquer maneira, só mesmo um patife é capaz de violar um juramento e cometer uma traição.
Bem, chefe, o que mais posso dizer? O que lhe adiantará se eu lhe digo que, na minha opinião, Thomas Cardif não é nem um patife nem um traidor? Mas não sei dizer o que ele é aos meus olhos. Apenas sinto que Thomas Cardif merece compaixão e, se não encontrar o caminho para junto de si mesmo, acabará muito mal.”
Será que o senhor não se lembra de que também traiu Atlan? — perguntou Rhodan em tom frio.
Se eu quisesse destruir meu pai por acreditar que ele assassinou minha mãe, recorreria a todo e qualquer meio. Chefe, quem pensa assim não quer saber o que é direito e o que não é, nem chega a refletir nos seus atos.
Acontece que qualquer pessoa tem o dever de refletir no que faz.
Ora, o dever, chefe. Lá me vem o senhor novamente com essa palavra. Para cumprir nosso dever, precisamos de força. E a força provém do amor dos pais. Será que Thomas Cardif não foi modelar no cumprimento do dever até o momento em que soube quem eram seus pais? Perdão, chefe, eu não deveria ter dito isso. Esqueça-se.
John Marshall resistiu à tentação de recorrer à sua acentuada capacidade telepática para ler os pensamentos de Perry Rhodan. Continuou sentado e viu o olhar de Rhodan, que parecia penetrar nas profundezas do Universo. E Rhodan manteve-se calado.
Naquele instante, o rato-castor retornou de sua missão.
Chefe — principiou, mas logo se calou de novo.
Seu olhar de camundongo caminhou entre o chefe e Marshall, até que recebeu a ordem telepática transmitida por este último:
Não pergunte o que aconteceu por aqui. Dê informações sobre seu trabalho. Quanto mais, melhor.
Gucky compreendeu imediatamente.
Aqui está! — disse, e entregou três ampolas a Rhodan.
Pelo formato, logo se via que continham um produto dos médicos galácticos, os aras, que por várias vezes já haviam sido admoestados por Rhodan sobre o que podiam fazer e sobre o que nunca deveriam fazer.
Mas não venho diretamente do apartamento de Rochard, Perry. Estive com nossos médicos. Três deles reconheceram o preparado. Já ouviram falar no mesmo. Disseram que é um tóxico com efeitos sedativos. Pedi que me traduzissem a palavra sedativo. Significa calmante. E esse fato me deixou bastante inquieto. Saltei até o grande cérebro positrônico de Vênus, mas este não conhece o preparado. Depois lembrei-me dos swoons, nossos adoráveis homens-pepino. Quer saber de uma coisa, chefe? Eles entendem alguma coisa da medicina dos aras! Oguralas. Esta palavra pertence à linguagem médica dos aras. O nome não significa nada, mas o fato é que os swoons ficaram abalados.
Gucky — disse Rhodan, interrompendo a torrente de palavras do rato-castor. — Será que você não poderia resumir um pouco, meu caro? Que tolice é essa que você está dizendo? O que há nessas ampolas?
Gucky engoliu a repreensão sem dizer uma palavra. John Marshall lhe pedira que falasse o mais que pudesse, e dali ele concluiu que Marshall queria ganhar tempo para algum fim.
Chefe, os swoons... Subitamente o olhar de Rhodan tornou-se duro como aço.
Tenente Guck!
Faltava o ípsilon no nome de Gucky. O rato-castor sabia perfeitamente o que significava isso. Agora não poderia fazer mais nada por Marshall. Endireitou o corpo e respondeu:
O conteúdo destas ampolas é mortífero para os seres da raça dos arcônidas. Nem mesmo os aras sabem por que isso acontece. Até hoje não conseguiram descobrir por que a substância contida nesse extrato paralisa a atividade cerebral. Mas descobriram que a mesma transforma em sugestores algumas raças de animais inteligentes até o nível C e os terranos.
Nesse caso é bem possível que, se tivermos sorte, poderemos encontrar no apartamento de Mister Artun um tóxico dos aras que, uma vez injetado num ser humano, transforma-o num hipno. Gucky, se eu fosse você daria uma olhada na residência de Artun.
Está bem, chefe. Devo dar o fora daqui. Muito bem; já desapareci.
Seu último pio ainda estava ressoando na sala, quando o rato-castor já tinha desaparecido.
Mais uma vez, Rhodan viu-se a sós com Marshall.
John — disse — o senhor ainda vê uma chance para meu filho?
Naquele instante, Marshall sentiu que não tinha diante de si o administrador do Império Solar, mas a criatura humana Perry Rhodan — o pai de Thomas Cardif.
John, diga o que o senhor acaba de pensar; por favor! — enquanto falava, Rhodan levantou-se e colocou-se à frente do chefe do Exército de Mutantes. — Diga, John; não tenha a menor consideração por minha pessoa. Não tentei ler seus pensamentos.
John Marshall respirou pesadamente.
Mister Rhodan...
Seguiu-se uma pausa, e durante a mesma o telepata perguntou a si mesmo há quantos anos não chamava Rhodan de mister.
Quer saber se Thomas Cardif ainda tem uma chance de livrar-se das complicações infelizes em que se encontra? Se seu pai não fosse Perry Rhodan, eu diria que tem.
Marshall, eu não o odeio, embora ele me odeie! — ponderou Rhodan em tom de desespero.
Sei disso, Sir — respondeu Marshall em tom hesitante, mas com a voz firme. Não se esquivou dos olhos duros e cinzentos do chefe. — Perry Rhodan sempre foi um homem duro para consigo mesmo. O senhor teve de agir assim para resguardar sua personalidade, e o senhor também terá de sê-lo no futuro, senão...
Senão o quê, Marshall? Diga! O senhor tem que dizer! — Perry Rhodan, o ser humano, pedia e ordenava ao mesmo tempo.
Está bem, chefe, eu direi, mas depois disso nunca mais lhe falarei nestes termos a respeito de Thomas Cardif. Nunca mais.
No futuro, o senhor também terá de ser duro, senão deixará de ser o Perry Rhodan que pode apontar o caminho à Humanidade. E é aí que reside a tragédia para o senhor e para Thomas Cardif. O senhor e ele têm de pagar um preço muito elevado...”
John Marshall levantou-se. Virou-se devagar. E lentamente caminhou até a porta. Deixou para trás Perry Rhodan, o homem mais solitário do Império Solar.
A porta fechou-se silenciosamente.
3



Cokaze, patriarca de um dos clãs dos saltadores, que era o único mercador galáctico que fizera suas experiências com Perry Rhodan ainda ao tempo da Terceira Potência, transformara-se em político. Acontece que não se deu conta disso. Continuava a acreditar que era um comerciante, cujo objetivo consistia exclusivamente em aumentar a riqueza e o poderio de seu clã no interior da raça dos saltadores.
Ao pousar em Archetz, o quinto planeta do sistema de Rusuma, Cokaze trazia o maior segredo do império mundial arcônida. Sua frota, agora com mais de mil naves cilíndricas, ocupou a terça parte do espaço-porto de Titon, capital daquele mundo dos saltadores.
Aquele sistema, que ficava a apenas quarenta e quatro anos-luz de Árcon, também pertencia ao centro do grupo estelar M-13.
Acontece que há milênios um abismo profundo se abrira entre os arcônidas e os saltadores. Além do processo de degenerescência dos arcônidas, que prosseguia inexoravelmente, ainda acontecia que os saltadores usavam quase exclusivamente a língua intergaláctica e mal dominavam o arcônida, o que também representava um fator de separação. E essa separação ainda se exprimia no fato de que o mercador galáctico nascia e morria no interior de uma espaçonave.
Eram nômades estelares, enquanto os arcônidas eram seres planetários que não dispensavam o chão firme sob os pés.
E Archetz, o mundo dos saltadores, não representava nenhuma contradição em seu modo de vida.
Há muitos milênios o planeta se transformara no trampolim desse povo dinâmico, que nunca se esqueceu de que partira dali a fim de conquistar um monopólio comercial irrestrito, abrangendo toda a Galáxia.
Archetz era um mundo de oxigênio semelhante à Terra. Sua gravitação correspondia a 1,19 vezes a deste último planeta. Seu diâmetro era pouco menos de mil quilômetros superior ao da Terra. Banhado pela luz do sol amarelo de Rusuma, quase poderia ser comparado a Árcon III, o planeta da guerra.
Em Archetz não havia mais nenhuma cidade na superfície. Até mesmo Titon, um verdadeiro oceano de casas que abrigava doze milhões de habitantes, ficava a três mil metros de profundidade. Uma rede intrincada de vias de transporte permitia que a cidade fosse atingida dentro de meia hora de qualquer ponto do planeta.
A superfície desse mundo constituía um gigantesco centro industrial. Mas até mesmo esta impressão era enganadora, pois quase oitenta por cento da indústria pesada ficava no subsolo. As usinas mais modernas acabavam de ser concluídas ao nível de onze mil metros.
Archetz era um mundo de superlativos e o coração de centenas de milhares de espaçonaves cilíndricas dos saltadores.
Todas as invenções dos arcônidas no terreno da navegação espacial, feitas nos últimos dez mil anos, sempre chegavam ao poder dos saltadores dentro de pouco tempo. Criaram um código moral próprio, talhado principalmente segundo seus interesses. E, por meio de uma ação implacável, desenvolvida em todos os mundos da Galáxia, conseguiram firmar progressivamente seu poder, sem preocupar-se com o sangue e as lágrimas. Mas havia um ponto a seu favor: quer quisessem quer não, estes seres, que só pensavam no lucro, no comércio e no poderio econômico, transformaram-se num fator de disseminação de cultura. Enquanto se espalhavam por toda a Galáxia, sempre representaram a vanguarda do Império de Árcon nos planetas recém-descobertos.
Archetz, porém, era seu ponto de partida, ao qual sempre retornavam. Archetz oferecia tudo que cem mil espaçonaves cilíndricas e seus tripulantes pudessem desejar.
Por estranho que parecesse, poucas vezes as espaçonaves de outras raças aportavam neste mundo. O enorme potencial industrial do planeta era totalmente desconhecido. E a Via Láctea nem desconfiava da existência dos gigantes financeiros de Archetz.
Sempre que se falava em dinheiro e em contas, os saltadores aludiam apenas ao Banco. Ninguém pensava em citar o nome do Banco dos Mercadores Galácticos de Titon. Essa instituição financeira era única no gênero. Nem mesmo Árcon podia apresentar algo de semelhante. Sabia de sua existência, mas nunca falava a respeito, pois mesmo no auge de seu poder Árcon sempre nutria um receio secreto por esse gigante das finanças.
O patriarca Cokaze acabara de pousar com a Cok II junto ao enorme edifício da recepção do espaçoporto, enquanto a frota de seu clã descera no setor norte. Momentos depois, entrou no Banco dos Mercadores Galácticos, juntamente com os parentes mais próximos e Thomas Cardif.
O grupo abriu caminho em silêncio em meio à massa que se acotovelava no hall de entrada. Cokaze conhecia o lugar. Dirigiu-se até o pequeno elevador antigravitacional que quase não era utilizado pelo público.
Oito saltadores e um oficial da Frota Espacial Solar que desertara do serviço foram levados para baixo. Tiveram de esperar numa sala decorada com grande pompa.
O funcionário atendente saíra, observando que dificilmente Atual e Ortece teriam tempo para recebê-los.
Os saltadores esperavam com serenidade e calma apavorantes. Thomas Cardif, que não sentia o menor nervosismo, admirou esses homens silenciosos.
Uma porta lateral abriu-se sem o menor ruído. Um saltador, que envergava uma veste amarela em forma de toga, aproximou-se de Cokaze.
Patriarca? — disse o saltador em tom indagador, inclinando ligeiramente a cabeça.
Atual? — respondeu Cokaze, também em tom indagador, e fez o mesmo movimento de cabeça.
Ortece nos espera!
Cokaze fez um gesto afirmativo, como se não esperasse outra coisa. Só o mais rico dos chefes de clã dos mercadores galácticos poderia pensar assim. Acompanhou Atual. Ao dar o primeiro passo, voltou-se para Thomas Cardif e fez um sinal para que este se aproximasse.
Fique ao meu lado, arcônida.
Atual ouvira estas palavras. Virou a cabeça, surpreso. Durante os cumprimentos só se dirigira a Cokaze, mas agora viu ao lado do patriarca simplesmente — Perry Rhodan!
Este é Rhodan, saltador!
O patriarca soltou uma estrondosa gargalhada e empurrou Thomas Cardif para junto de Atual.
Este homem tem algo a ver com Rhodan, Atual. A pessoa que o senhor está vendo à sua frente é o filho de Rhodan, cuja mãe foi uma princesa de Árcon.
Atual, que era bem mais alto que o patriarca e totalmente calvo, o que era uma raridade entre os saltadores, fitou o terrano com um olhar penetrante.
É o filho de Rhodan? — perguntou, e lançou um olhar desconfiado para Cokaze. — Acho que hoje Ortece e eu não poderemos cumprir nossa agenda.
Quando se trata de um banqueiro, a gente nunca sabe se pode ou não cumprir a agenda — respondeu Cokaze.
Atual, que há trinta e um anos dirigia o Banco juntamente com Ortece, não deu nenhuma resposta à alusão do patriarca.
Dali a pouco, os saltadores e Cardif estavam sentados à frente dos dois poderosos homens.
Também ouvimos a perigosa notícia, patriarca. Ficamos admirados de o senhor se ter envolvido nesse jogo — disse Ortece que, ao contrário de Atual, era de constituição franzina.
Foi justamente por isso que vim falar com os senhores — observou Cokaze. — Quem está sentado a meu lado é o filho de Rhodan. Isso lhe deveria dar o que pensar. O senhor também sabe que venho diretamente do sistema solar. Abandonei-o incondicionalmente, antes que as naves robotizadas de Árcon, que de repente voltaram a surgir na área controlada por Rhodan, me pudessem causar dificuldades.
Cokaze, o senhor está desperdiçando muitas palavras. Não temos tempo para isso! — disse Ortece, um homem de aspecto despretensioso.
Daqui a pouco, o senhor terá tempo de sobra para mim, Ortece; tenho certeza absoluta — respondeu Cokaze em tom um tanto áspero. — Acho que o senhor não se deu conta do que acabo de dizer. Saí da área de influência de Rhodan com todas as minhas naves, antes que a frota de Árcon me pudesse criar dificuldade. Ortece, o clã do patriarca Cokaze nunca abandonou voluntariamente um mundo ocupado por suas naves. Acontece que as de Árcon, que de repente apareceram no sistema solar, eram comandadas por terranos...
Ortece voltou a interrompê-lo.
O senhor já soube falar melhor, patriarca! Daqui a pouco, teremos de despedir-nos, pois precisamos conferenciar com o Conselho Consultivo sobre a concessão de um empréstimo ao mundo de Gutha...
Cokaze inclinou-se em direção a Ortece.
O senhor vai cancelar a reunião. E ficará aqui, com Atual. Será que, por uns miseráveis bilhões, o senhor vai perder a chance de colocar os saltadores em condições de igualdade com os arcônidas? O cérebro positrônico não manda mais nada. O Império é governado por um certo Atlan. Quem poderia ter ajudado esse usurpador desconhecido a enganar o computador gigante e colocá-lo fora de ação? Será que é mesmo necessário formular a pergunta? Aqui está o filho desse homem: o filho de Perry Rhodan. Com um punhado de homens, Rhodan conseguiu colocar Atlan acima de nós.
Cokaze estacou e lançou um olhar penetrante para Ortece.
Ortece espalmou as mãos, num gesto de enfado.
Somos financistas, patriarca. Quando iniciamos uma palestra com alguém que queira dinheiro, costumam apresentar-nos documentos. Acontece que, desta vez, querem que nos contentemos com palavras. Acho que não temos mais nada a dizer um ao outro.
O chefe de clã respondeu em tom frio:
Acho que seria conveniente que, antes de mais nada, o senhor procurasse informar-se sobre as notícias mais recentes, Ortece.
Estas palavras foram proferidas em tom de ultimato. Atual estremeceu ligeiramente e lançou um olhar significativo para seu colega.
Ortece manteve-se no terreno objetivo. Respondeu com a maior tranqüilidade:
Já conhecemos as notícias a que acaba de aludir. Cokaze, será que o senhor já ouviu dizer que o mercado monetário costuma reagir a todo e qualquer abalo político?

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