Autor
KURT
BRAND
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Gucky
sugestiona Perry —
e a vida
de 17 terranos corre perigo.
Com o
descobrimento na Lua de uma espaçonave arcônida acidentada, foram
lançados os alicerces para a unificação de toda a Humanidade
terrana e, desta unificação, surgiu o Império Solar. Ninguém
podia supor, nem mesmo Perry Rhodan, quantos esforços e firmeza de
ânimo seriam necessários, no correr dos anos, para manter este
império frente aos ataques internos e externos.
A mais
séria ameaça à Humanidade, que teve seu clímax na invasão dos
druufs e na batalha em defesa do Império Solar, pôde ser debelada
graças ao eficaz auxílio de Árcon. E a crise na política interna,
provocada pelo desertor e traidor Thomas Cardif, foi removida por
Gucky.
Porém
um desenvolvimento constante da Humanidade só será possível quando
houver uma paz definitiva na Galáxia — e até lá, parece haver
ainda um longo caminho...
O
próprio Atlan, o imortal, que há pouco tempo substituiu a
gigantesca máquina eletrônica que costumava sufocar no nascedouro,
com suas frotas robotizadas, qualquer tentativa de revolução contra
o poder central de Árcon, é o primeiro a desejar a paz. Atlan,
agora com o nome de Imperador Gonozal VIII, e Perry Rhodan, o
Administrador do Império Solar, já por simples instinto de
conservação, se apóiam mutuamente em suas aspirações.
Não
faz muito tempo, foi assinado um pacto de assistência mútua entre
Árcon e a Terra. Assim, as velozes espaçonaves do Império Solar
estão preparadas para entrarem em ação em qualquer lugar da
Galáxia, onde a paz e a ordem forem perturbadas.
Nos
últimos meses, a tranqüilidade de Rhodan andava um tanto abalada...
As ações praticadas por Cardif ainda continuavam tirando o sono do
pai e também de Atlan, o novo imperador de Árcon.
O
administrador deseja (e é obrigado) aproximar-se do jovem Thomas.
Entretanto, para conseguir seu intento, Perry terá de pagar o Preço
do Poder...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Reginald
Bell
— Que
não quer que ninguém saiba o que vem a ser um trobel.
Gucky
— O
mutante de várias facetas, que não tem vida fácil em Archetz.
Atlan
— O
solitário do tempo que se tornou imperador.
Thomas
Cardif
— Um
prisioneiro dos saltadores.
Dr.
Orge
Olundson
— Um
etnólogo, que tem suas dores-de-cabeça com o povo dos mentirosos.
Cokaze
— Patriarca
dos saltadores.
1
Os sóis
do grupo estelar M-13 brilhavam e cintilavam conforme faziam há
tempos imemoriais. Comprimidos num espaço de cerca de duzentos e
cinqüenta anos-luz de diâmetro, apareciam, sob a forma de uma única
esfera gigantesca, aos ocupantes das naves vindas da Galáxia.
M-13 não
era um conglomerado de cores, mas uma composição delas, que se
destacava contra o fundo negro do Universo. A luminosidade tépida —
sempre era esta a primeira impressão que M-13 transmitia aos homens
que se dirigissem a Árcon.
M-13, o
grupo estelar, formava o Grande Império, o império estelar dos
arcônidas. Englobando as mais diversas raças, era um império no
qual viviam bilhões e bilhões de inteligências, que, em parte,
também se haviam tornado grandes, fortes, poderosas e ricas.
M-13 era
um espetáculo de beleza quase irreal. Por outro lado, a aglomeração
dos sóis num espaço reduzidíssimo também representava uma
demonstração de poder. Mas o quadro era ilusório...
Como grupo
estelar, M-13 dava a impressão de uma unidade orgânica. Mas o
Grande Império era nos dias atuais um reino estelar, cuja estrutura
política ameaçava esfacelar-se a qualquer momento.
Durante
quinze milênios crescera, sempre sob a direção dos arcônidas. As
espaçonaves saíam do sistema M-13 e faziam avançar as fronteiras
do império, em direção às profundezas da Galáxia. Mas também
chegou o dia em que a vitalidade quase inesgotável dos arcônidas
começou a secar tal qual uma fonte, e a decadência iniciou-se na
gigantesca organização.
O Grande
Coordenador, o maior centro de computação positrônica, amalgamara
o poderio de Árcon, então em pleno processo de desintegração,
lançando mão dos meios mais brutais.
Atualmente
o grande centro de computação funcionava apenas como órgão
executivo. Atlan, a criatura colocada acima do tempo, assumira os
encargos e viu-se obrigado a assistir, em atitude quase totalmente
passiva, ao tremor de terra político que se verificava no seio do
império, pois, do contrário, teria passado à história como um
ditador sanguinário.
Mas as
estrelas não tomavam o menor conhecimento de tudo isso. O raio
branco-azulado vindo do centro do sistema M-13 continuava a derramar
sua luz tépida e suave, conforme fazia há tempos imemoriais.
*
* *
Pitter
Breucken e seu amigo Klaas Vertieden estavam parados na comporta
polar da Burma, uma espaçonave esférica da classe Estado, com cem
metros de diâmetro e uma tripulação normal de cento e cinqüenta
homens. Os dois observavam há muito tempo os acontecimentos que se
desenrolavam na periferia do espaçoporto. Quanto mais observavam,
maior era a insatisfação que sentiam.
— Olhe,
Pitter, outros robôs — disse Klaas Vertieden, que tal qual seu
amigo era natural de Hilversum. — Você já viu um dos cem mil
arcônidas legendários que teriam sido despertados do sono hibernal?
Devo confessar que nunca vi nenhum!
— O que
vêm a ser cem mil pessoas nos planetas Árcon I, II e III? Apenas um
pingo numa chapa quente. É por isso que você vê os robôs por
aqui. Se não fossem os homens mecânicos, Árcon já teria falido há
muito tempo.
— E
mesmo agora não está muito longe disso. Hoje de manhã ouvi o
comandante palestrar com o chefe pelo rádio. Durante essa palestra
não apenas foi mencionado que, dentro em pouco, deixaremos este
horrível planeta de robôs com seu gigantesco cérebro. O chefe
ainda disse que o império não passa de um amontoado de marmanjos
revoltados...
— Tenho
certeza de que Perry Rhodan não usou esta expressão, Klaas. Mas
veja! Um carro está deixando a abóbada do computador gigante. Será
que vem para cá?
O
gigantesco edifício abobadado que abrigava o gigantesco centro de
computação, com suas dimensões de cem por cem quilômetros,
dominava a paisagem desta parte de Árcon III. Destacava-se contra o
céu como se fosse uma montanha e, de ambos os lados, era encoberto
pelos complexos industriais.
Os dois
jovens viram o carro aproximar-se numa corrida vertiginosa. De
repente, o veículo descreveu uma curva fechada para a direita e
capotou. Uma ofuscante chama branca saiu de seu interior. Com um
forte trovão, o carro, que girava em torno de seu próprio eixo,
explodiu como se fosse um pequeno sol vermelho.
Por um
instante Klaas Vertieden e Pitter Breucken pareciam pregados ao solo.
Quando quiseram correr para o local do desastre, as viaturas
supervelozes da polícia robotizada de Árcon III estavam
aproximando-se de todos os lados e, dali a pouco, toda a área ficou
isolada.
— Caramba!
— disse Klaas Vertieden, profundamente impressionado, muito embora
ainda há pouco tivesse proferido palavras pouco elogiosas a respeito
do planeta de robôs Árcon III.
— Lá na
Terra a polícia ainda não age tão depressa — observou Pitter
Breucken. — Em compensação, é bem possível que nós, os
terranos, sejamos um pouco mais felizes que estes arcônidas. Você
devia ver as linhas de montagem daqui, Klaas. Os robôs fabricam
naves espaciais como nós fabricamos automóveis! Sabe o que já fiz
várias vezes? Examinei a superfície deste mundo, mas até o momento
não encontrei um torrão de terra. Às vezes, quase chego a
acreditar que os velhos arcônidas construíram este mundo com ferro
e aço, a fim de transformá-lo numa única fábrica. Em comparação
com este gigante industrial planetário, nossas indústrias lunares
não passam de simples luzes de lamparina.
— Não
fale mal de nós mesmos! — disse Vertieden em tom de protesto. —
Não somos nenhuma lamparina. Por que estamos aqui? Porque Atlan
precisa de auxílio. O imperador já não sabe o que fazer.
— Klaas,
às vezes você é bastante tagarela — disse Pitter. — Até
parece que você se esqueceu do filho de Perry Rhodan, esse desertor
maldito! Foi o tal do Thomas Cardif que meteu Atlan nessa situação
difícil. O que acha que eu pensaria de você se não viesse
ajudar-me numa situação de emergência? Afinal, o chefe e Atlan são
amigos...
Foram
interrompidos pela voz metálica do alto-falante do sistema de
intercomunicação.
— Queiram
apresentar imediatamente ao primeiro-oficial o relato do acidente. Os
relatos serão individuais.
Pitter
Breucken deu um passo e colocou-se ao lado do sistema de
intercomunicação. Ligou a tela de imagem.
— Aqui
fala o sargento Breucken do posto de artilharia número dois. Quero
apresentar meu relato ao primeiro-oficial...
— Venha
pessoalmente, Breucken — interrompeu-o Joe Pasgin. — Há mais
alguém por aí?
— O
sargento Vertieden, da divisão de conversores.
— Aguardo-os
em meu camarote. É bom que saibam que o chefe se interessa pelo
acidente.
A tela
escureceu. Vertieden e Breucken fitaram-se estupefatos.
— Perry
Rhodan interessa-se por uma coisa dessas? — disse Klaas Vertieden.
— Gostaria de saber quem se encontrava no carro que explodiu...
*
* *
— Agora
o sujeito já recorre ao assassinato e aos atentados...
Perry
Rhodan, um homem sempre muito controlado, caminhava nervosamente de
um lado para outro na sala do gigantesco computador positrônico,
onde também se encontravam Atlan e Reginald Bell. O Marechal Allan
D. Mercant, um gênio no terreno do serviço de segurança, que
exercia as funções de chefe do Serviço de Defesa Solar, acabara de
sair da sala mobiliada ao estilo arcônida. A parede do lado
esquerdo, com o quadro de comando, de cinco metros por dois, era o
único elemento que fazia concluir que essa sala com suas instalações
muito confortáveis não se destinava ao descanso das pessoas que
nela se encontrassem.
Perry
Rhodan não parava de balançar a cabeça, enquanto andava
nervosamente pela sala. Fitou Atlan, que retribuiu seu olhar com uma
tranqüilidade extraordinária.
— Ele
não se esqueceu de nada do que aprendeu na Academia Espacial.
Conhece a estrutura interna do Império Solar como a palma de sua
mão. Afinal, fizeram questão de que aprendesse. E é frio e
inescrupuloso...
— Sente-se,
Perry! — disse Bell, em tom enérgico.
Ao ver que
Rhodan hesitava, apontou para a poltrona livre.
Atlan
empurrou-lhe um copo de bebida alcoólica.
Rhodan
acomodou-se e esvaziou o copo de um só gole.
— Perry
— disse Atlan, inclinando-se ligeiramente. — Temos de esperar.
Neste instante, o computador está calculando mais de quatro milhões
de possibilidades. Ainda ficaremos por mais algumas horas na
incerteza.
— Acontece
que você já conhece o resultado da interpretação, almirante! —
respondeu Rhodan, em tom deprimido.
Bell
fungou com tamanha força que Atlan e Rhodan o fitaram. Num gesto
espalhafatoso mostrou a ponta do polegar direito. Antes que os outros
pudessem dizer uma palavra, o homem baixo de cabelos ruivos pôs-se a
falar.
— Deixem
que eu fale também. Não quero que vocês se espantem com meu
polegar. Desde a última festa de Ano Novo, fiquei supersticioso. Em
toda a Via Láctea não existe um único caso em que uma peça de
vidro inquebrável se tenha quebrado e, ainda por cima, causado
ferimentos em alguém.
“Quebrei
o cálice de conhaque, cortei o polegar nos cacos e, desde então,
tenho um medo tremendo deste ano de 2.044. Bem, a muito custo
conseguimos arranjar as coisas, com uma diferença de quarenta dias.
Nossa situação, isto é, a de Atlan, bem como de Perry, é em
linhas gerais a seguinte: estamos caminhando na corda bamba, a cem
metros de altura, sem rede de proteção. E, em vez de espectadores
que nem se atrevem de respirar, lá embaixo existem rapazes que
querem atirar em quem está em cima da corda.
“Mas
nenhum desses espectadores se chama Thomas Cardif. Garanto-lhes isso,
apesar de meu polegar cortado e apesar de meu espírito
supersticioso. Não é possível que Thomas Cardif seja um vil
criminoso, pois seu pai é Perry Rhodan.”
Era mais
uma atitude típica de Reginald Bell. Não se exprimia com muita
elegância, mas em suas palavras não havia a menor ambigüidade, e
realmente acreditava no que acabara de dizer.
Continuava
a mostrar o polegar direito a Rhodan e Atlan.
— Mister
Bell — disse Atlan em tom áspero. — Guarde esse dedo. Metade da
Galáxia anda falando do seu tique. Nós...
— Tique?
Essa é boa — interrompeu-o Bell. — E olhe que chegamos ao nível
mais baixo de nossa carreira. Acontece que não acredito, e realmente
não corresponde aos fatos, que Thomas tenha participado dessa
tentativa de assassinato.
“Não
quero remexer em coisas velhas, pois isso não nos adiantaria nada. O
que nos adianta é vermos um homem de vinte e cinco anos no papel que
está desempenhando neste momento. Esses ciganos estelares manhosos,
os mercadores galácticos, já encostaram esse rapazinho chamado
Cardif contra a parede.
“Isso
talvez eu possa afirmar.
“E mesmo
que Thomas tenha fornecido aos saltadores as informações, em
virtude das quais aquele carro explodiu há duas horas, o rapaz não
sabia que, com base nessas informações, você, Perry, deveria ir
pelos ares.”
— Como
sabe disso? — perguntou Atlan, em tom irônico.
Bell fitou
Perry, que ainda parecia ouvir as palavras de seu amigo, proferidas
em tom enfático. Depois olhou para Atlan.
— Atlan,
meu saber não provém daqui! — bateu com o dedo na testa. Depois
levou a mão ao coração. — Vem é daqui. O senhor já conhece o
romantismo dos terranos; provavelmente até nos conhece melhor do que
nós mesmos. Meu coração, isso pode parecer uma idiotice, me disse
que Thomas Cardif é incapaz de assassinar quem quer que seja. Se
este monstro positrônico afirmar o contrário, eu lhes provarei que
estou com a razão, e que esta máquina está enganada.
Apesar da
gravidade da situação, Atlan soltou uma risada. Num gesto impulsivo
estendeu a mão a Bell. Quando este a apertou, disse:
— Mister
Bell, bem que eu gostaria que nós, os arcônidas, também tivéssemos
um pouco de espírito romântico e fôssemos capazes de ouvir a
linguagem do coração. Mas receio que um coração arcônida não
mais consiga falar.
Bell
defendeu-se à sua maneira contra a franqueza de Atlan.
— Só
falta o senhor me falar em sentimentos! Seria preferível que me
dissesse como foi possível um saltador vir parar em Árcon III. Um
desses ciganos estelares deve ter estado aqui e instalado a carga
explosiva no veículo...
— Não
poderia ter sido um homem do sistema solar, Mister Bell?
A resposta
de Bell consistiu numa única palavra:
— Droga!
O
comentário de Perry Rhodan foi mais longo.
— Allan
D. Mercant acredita que, dentro de algumas horas, poderá dizer se as
suspeitas de Atlan têm algum fundamento.
— Nesse
caso quero preparar-me para algumas surpresas — disse Bell em tom
deprimido.
Via-se
perfeitamente que também acreditava que a bomba tivesse sido
colocada por alguém do sistema solar.
— Ainda
bem que hoje já é o dia 21 de novembro, e que, dentro de quarenta
dias, o ano 2.044 chegará ao fim.
*
* *
Os três
estavam parados no setor de interpretação do computador e esperavam
que os últimos minutos escoassem. Há cerca de dez minutos, uma
ligeira mensagem do dispositivo positrônico informara-os de que, num
prazo curtíssimo, a computação de pouco mais de quatro milhões de
possibilidades estaria concluída.
Todos eles
— Atlan, Rhodan e Bell — estavam acostumados a introduzir
indagações extremamente complicadas num computador positrônico.
Mas raras vezes um cérebro positrônico recebia uma série de
perguntas tão extensa e de importância tão decisiva. Além do
mais, as quatro milhões de possibilidades tinham de ser cotejadas
uma com a outra. Só mesmo a hipermatemática arcônida tornava
possível a solução de um problema desse tipo.
A sala
onde se encontravam os três homens era simples e prática. No
entanto, até mesmo a técnica, em sua forma mais fria, recebera dos
grandes cientistas, que há milênios haviam construído e programado
o enorme computador, um estilo que pairava acima do tempo, e que
infundia o sentimento de que, na época de sua construção, o
arcônida dominava a técnica, mas não era seu escravo.
Fora esse
sentimento, aliado ao fato de que, hoje em dia, acontecia exatamente
o contrário no Império de Árcon, que fizera com que Reginald Bell
tivesse uma disposição nada amistosa face a essa maravilha única
realizada por Árcon.
Sempre se
rebelara contra a possibilidade de um grande reino estelar do tamanho
do Império de Árcon ser governado por um computador, e ninguém
melhor que Atlan conhecia as idéias de Bell a este respeito.
O
almirante pensou nisso e sentiu-se invadido por uma sensação de
vazio e algo como o medo do futuro.
O ativador
celular encontrava-se novamente em seu poder. Sua vida parecia
resguardada por vários séculos, talvez milênios. No entanto,
vivera por tanto tempo sobre a Terra que já não pensava
exclusivamente em si mesmo.
Já podia
contar com cem mil arcônidas cheios de vitalidade, nascidos no
apogeu do povo de Árcon.
Dentro de
dois ou três anos, cada um deles seria uma sumidade no lugar que lhe
fosse atribuído. Mas o que significavam cem mil arcônidas enérgicos
e ávidos de ação, quando a massa popular degenerava cada vez mais
e chegava a cultivar as más qualidades, além de estar interessada
exclusivamente em esquivar-se de qualquer obstáculo e levar uma vida
indolente, durante a qual não tivessem de cumprir nenhuma obrigação?
Atlan
sentiu alguém pousar a mão em seu ombro. Bell, que se encontrava a
seu lado, queria dizer-lhe alguma coisa.
— Imperador,
esquecemos um detalhe. E esse detalhe consiste em nada menos de cem
mil arcônidas!
— Esquecemos?
Quando? — Atlan parecia contrariado, pois não compreendera a
primeira nem a segunda das insinuações de Bell.
— Esquecemos
que entre as cem mil pessoas que permaneceram adormecidas ao longo do
tempo existem algumas que se encontram em Árcon III. Não seria
possível que uma dessas pessoas tivesse colocado a bomba embaixo do
carro? Por que a ovelha negra só deve ser procurada entre os
terranos?
Reginald
Bell parecia muito sério. Enquanto formulava a última pergunta,
proferida em tom enfático, lançara um olhar penetrante para o
almirante.
— Aguardemos
para ver o que o computador tem a dizer — disse o arcônida,
esquivando-se à pergunta.
A resposta
de Bell foi inequívoca:
— Não
gostei de ouvir isso, arcônida. Uma resposta capenga como essa não
combina com o senhor.
— Mister
Bell, acho que eu seria o último homem capaz de fazer qualquer
esforço para defender Thomas Cardif e...
— Pela
eterna Via Láctea! — interrompeu Bell em tom contrariado. — Quem
falou em defender Thomas? Só se defende alguém que foi acusado, e
por enquanto nem chegamos a esse ponto. Ou será que o monstro
positrônico também atribuiu a tentativa de assassinato a esse
rapaz?
Seu olhar
caminhava entre Atlan e Rhodan, mas ninguém deu uma resposta.
Naquele
instante ouviu-se, de forma quase inesperada, a voz metálica do
gigantesco centro de computação.
A voz
monótona dizia:
— As
perturbações políticas que atualmente põem em perigo a existência
do Grande Império são uma manifestação de sua existência.
Com um
olhar de desprezo para o lugar de onde provinha a voz, Bell disse:
— Isso é
um sofisma barato!
O
computador positrônico prosseguiu:
— A
autoria das agitações é de importância secundária; além disso,
a influência de Thomas Cardif não atinge o grau de intensidade que
se atribui às suas ações.
“Enquanto
Árcon não estiver em condições de enviar forças a todos os
distritos do império, qualquer ação contra os autores das
desordens apenas constituirá um desgaste inútil de forças, uma vez
que a conseqüência normal da pressão é uma pressão em sentido
contrário...”
Bell
tentou balbuciar alguma coisa, mas sua voz saiu tão alta que Perry
Rhodan e Atlan não poderiam deixar de ouvi-lo:
— O
sentido de sua fala é tão obscuro que, face ao mesmo, os Sacos de
Carvão da Via Láctea parecem áreas de estacionamento fortemente
iluminadas.
Mas logo
aguçou o ouvido.
— Desde
o fracasso do atentado contra Gonozal VIII, Thomas Cardif já não é
o espírito dirigente dos mercadores galácticos. O setor de
interpretação afirma com 99,5 por cento de probabilidade que a
influência exercida por Thomas Cardif sobre os movimentos
subversivos já não assume a menor importância. Todas as ações
encetadas após a tentativa de furto do ativador celular demonstram
subitamente a ausência das grandes linhas que sempre caracterizaram
os atos de Cardif. Mas nem por isso diminui o perigo das revoluções
violentas, pois a evolução histórica do Grande Império já conduz
às mesmas.
“As
investigações da polícia robotizada e a interpretação por nós
levada a efeito revelam que o atentado com explosivo, no qual foi
destruído o carro-mensageiro do imperador e vitimado um terrano,
deve ser atribuído aos novos arcônidas. Supõe-se com um grau de
segurança de 67,45 por cento que cerca de um milésimo desses novos
arcônidas tiveram seus cérebros afetados em virtude da hibernação
prolongada. O atentado em si deve ser visto como ação isolada, que
não tem qualquer sentido ou objetivo definido. As conseqüências
também foram diminutas.
“A
pergunta sobre qual seja o planeta que constantemente fornece novos
impulsos, que visam à ruína econômica e ao apoio dos movimentos
subversivos, só admite uma única resposta baseada no processamento
de todos os dados até agora recebidos, e considerado o grande número
de planetas habitados: planeta Archetz, pertencente ao sistema de
Rusuma.”
O grande
centro de computação calou-se.
Dois
homens do planeta Terra e um arcônida refletiam intensamente.
Archetz
era o mundo central dos salta-dores. Archetz, que se fundira em
grande parte sob o furacão de fogo de três mil espaçonaves dos
druufs, seria o quartel-general dos subversivos?
Perry
Rhodan nem pensou em fazer pouco-caso das informações que acabavam
de ser fornecidas pela gigantesca máquina positrônica. Pelo
contrário. Estava disposto a reconhecer que não estava bem
informado sobre o planeta dos saltadores. Sendo assim, não podia
permitir-se qualquer contestação.
— Archetz?
— repetiu em tom pensativo.
Essa
palavra representava uma solicitação indireta para que Atlan se
pronunciasse sobre as palavras do computador gigante.
Bell
adiantou-se ao novo imperador do Grande Império.
— Perry!
— colocou as mãos sobre os ombros do amigo e, em seu rosto sério,
parecia haver uma súplica.
A pausa,
que se seguiu ao nome do amigo, obrigaria qualquer um a aguçar o
ouvido.
— Você
acaba de ouvir da boca dessa grande caixa desalmada: todas as ações
encetadas após a tentativa de furto do ativa-dor celular demonstram
subitamente a ausência das grandes linhas que sempre caracterizaram
os atos de Cardif.
“Neste
momento, o computador não procura esconder a realidade, Perry! Seu
filho é um desertor. Violou seu juramento. Como Administrador-Geral
do Império Solar, você não pode passar por cima deste fato. Um
dia, Thomas terá de ser responsabilizado por isso. Mas você, como
pai, deve construir a ponte que lhe permita assumir a
responsabilidade de seus erros.
“Perry,
você e Thora falharam. E quem os acusou? Foi só sua consciência?
Será que você acha que, com isso, tudo está liquidado, meu velho?
Isso não seria uma atitude confortável demais? Será que Thomas
deve ser atingido por todo o peso do castigo?
“Perry,
não aceito sua passividade, não quero aceitar e não posso aceitar.
“Você
deve fazer alguma coisa pelo rapaz! Será que seu filho, que é tão
bem-dotado quanto você, vai arruinar-se que nem um cão vadio?”
Ouviu-se
um eco no interior da enorme sala vazia, situada no coração da
gigantesca abóbada.
Parecia um
eco fantasmagórico.
Berrou de
volta as palavras exaltadas de Reginald Bell, apenas em tom mais
abafado, mas por isso mesmo mais impressionante:
— ...arruinar-se
que nem um cão vadio?
Atlan
colocou-se entre os dois homens, tentando separá-los. Em seus olhos
havia o espanto de um homem sacudido por suas emoções.
— Mister
Bell — disse em tom de súplica.
Fez um
gesto de compreensão para aquele homem exaltado. Segurou o braço de
Perry Rhodan.
— Perry,
você soube como lidar com os arcônidas, os saltadores, os aras, os
druufs e os tópsidas, e não sei mais quem. Também saberá lidar
com seu filho. Desde quando o ovo é mais inteligente que a galinha?
— O que
querem que eu faça? — perguntou Rhodan, em tom penetrante.
Subitamente
seus olhos cinzentos mostraram o brilho duro como o aço.
— Perry,
você está bem no centro deste confronto com seu filho. Bell e eu
apenas acompanhamos os acontecimentos da periferia. Você deve
juntar-se a nós, ocupar nossa posição. Dessa forma encontrará um
meio de construir a ponte que levará a Thomas. Você é um homem que
já acumulou suas experiências. Durante anos, eu o observei e o
invejei pela capacidade de conduzir os homens. Use sua capacidade,
bárbaro. Procure e encontre um caminho, mas esse caminho deverá
deixar uma chance para seu filho.
Um
gigantesco império estelar estava ameaçado de desmoronamento,
depois de mais de quinze mil anos de existência. E esses três
homens, em cujas mãos continuava a repousar, ao menos em certa
extensão, o destino do Grande Império, conversavam exaltadamente a
respeito de um tenente desertor da Frota Solar. Sobre Thomas Cardif,
o filho de Perry Rhodan.
Atlan e
Bell sabiam quanto Rhodan sofria pelo fato de seu filho único ser
também seu inimigo mais encarniçado e perigoso. Eram as únicas
pessoas do grupo estelar M-13 e do sistema solar que compreendiam
toda a extensão da tragédia.
Perry
Rhodan não era nenhum super-homem. Para recuperar a forma de
antigamente, precisava de paz e equilíbrio interior. Não possuía
nem uma coisa, nem outra. Mas ainda possuía seu admirável
auto-domínio.
Respirou
profundamente e disse:
— Sim; é
o que vou fazer.
2
Os jardins
internos do palácio de cristal eram de uma beleza atordoante. No
mundo de cristal ou Árcon I, tudo identificava-se com a beleza.
Perry
Rhodan fitava este mundo, de dentro de um conjunto de salas, que
parecia ter sido criado unicamente para manter afastadas as
preocupações do dia-a-dia.
Atlan
pigarreou às suas costas. Atlan, chamado de Gonozal VIII, imperador
do Grande Império. Perry virou-se.
— Este
mundo de cristal é um veneno, Atlan. Produz o fleuma e...
— Concordo
plenamente com você, bárbaro — interrompeu-o o imperador. —
Providenciarei para que o menor número possível de novos arcônidas
conheça este planeta. Acredito que aqui em Árcon I tenha sido
atingido pelas saudades da Terra.
— O quê?
Você? Um arcônida da velha estirpe fala em saudades? Você, que
cresceu entre as estrelas? — perguntou Rhodan em tom de espanto.
Atlan fez
um gesto afirmativo.
— Cada
mundo ou tem seu veneno ou vicia o indivíduo em algum ponto. A Terra
cria a saudade pela Terra. Se existe alguma coisa de que me
arrependo, amigo, é de ter vivido dez mil anos entre vocês. Por
isso não tive muita dificuldade em compreender Thomas Cardif. Assim
sendo, tenho a impressão de que sei por que lhe veio a idéia de
mandar furtar meu ativador celular. Se fosse um terrano, não poderia
deixar de odiar seu filho, pois sua mentalidade me obrigaria a isso.
Felizmente continuo a ser um arcônida. Apesar do lance pelo qual
quis pôr-me fora de ação através do furto do ativador celular, eu
o admiro. Só os mercadores galácticos parecem não ver mais nada de
extraordinário nele. Estas são as últimas notícias que recebemos,
amigo. Foi por isso que eu o mandei chamar.
Rhodan
sentou-se à frente do imperador. A poltrona, que corporificava um
estilo de vida talhado unicamente para o gozo, amoldou-se
automaticamente à postura de Rhodan.
Perry não
estava disposto a suportar uma poltrona como aquela. As conferências
se haviam sucedido desde o amanhecer. Durante mais de duas horas,
tempo padrão, falara com Terrânia, e, por três vezes, teve que
tomar decisões de graves conseqüências para Árcon I.
Uma coisa
muito rara aconteceu naquele momento.
Rhodan
soltou uma praga e levantou-se abruptamente.
— Maldita
poltrona! Devia ser queimada.
Não notou
o sorriso de Atlan.
Voltou a
sentar-se. Leu a última notícia, baixou o papel e lançou um olhar
insistente para o imperador. Este inclinou-se para frente.
— É a
última. Chegou no momento em que você estava entrando, Perry.
— Também...?
Atlan fez
que sim. Rhodan preferiu não perder mais nenhuma palavra.
O serviço
secreto arcônida ainda sabia trabalhar. Todas as notícias provinham
dali. E essa mensagem referia-se a Archetz, o mundo dos saltadores,
situado no sistema de Rusuma.
A notícia
também não dizia uma única palavra sobre Thomas Cardif. O serviço
noticioso do imperador não conseguira descobrir nada a seu respeito.
Mas a isso se contrapunha a informação de um agente, o saltador
Sulok, que trabalhava para o Serviço de Defesa Solar. Segundo tal
informação, numa conversa de taverna fora mencionado que o filho de
Rhodan se encontrava em Archetz. O administrador-geral pensou nessa
notícia, enquanto colocava o papel sobre a mesa.
— Atlan,
estou admirado porque nossos dados sobre o mundo dos saltadores não
incluíam a evolução mais recente dos acontecimentos.
O
imperador contraditou-o em tom resoluto.
— Os
dados que você dispunha eram bons; apenas acontece que, em nossa
interpretação, não havia sido considerada a atividade dos
mercadores galácticos. Devem ter transformado o planeta de Archetz,
no curso dos últimos decênios, num gigantesco complexo de
subterrâneos, nos quais foram abrigadas a maior parte de sua
indústria e cerca de oitenta por cento da população do planeta.
Esses saltadores astuciosos aproveitaram-se dos pesados danos,
causados na superfície, e da destruição de Titon, uma metrópole
de doze milhões de habitantes, e de mais de três cidades grandes,
levada a efeito pelos druufs, para camuflar suas atividades. Na
superfície, Archetz é um mundo destruído. Mas, em seu interior,
abriga uma indústria pesada intata, dotada das mais modernas fitas
rolantes, que se destinam à produção em série de suas naves
cilíndricas. O desmoronamento econômico ocorrido na área de
atividades dos mercadores galácticos e dos aras não abalou esse
núcleo de poder. Para usar as palavras de Bell: Caramba! Se esse
fato puder ser atribuído à iniciativa de Cardif, seu filho, Perry,
só pode merecer nossa admiração.
Os olhos
cinzentos de Rhodan começaram a chamejar.
— Qual é
o motivo dos constantes elogios, arcônida? O que pretendem conseguir
com isso?
— Apenas
queremos ajudar-lhe, Perry. Você não deveria ver apenas o lado
negativo de Cardif. Pelos nossos deuses, bárbaro! Não me sinto nem
um pouco entusiasmado pelo fato de que Cardif se encontra do outro
lado e tentou destruir-me, para causar a sua ruína, Rhodan. Acontece
que não posso negar a evidência dos fatos: você não poderia ter
sido mais eficiente no desencadeamento dessas ações. Perry, meu
amigo, será que você não vê que Cardif é um gênio tático?
Conhece mais algum homem que disponha das mesmas capacidades? Eu não
conheço! E, tanto você como eu, precisamos de gente bem-dotada.
Rhodan
exaltou-se.
— Atlan,
o que é que vocês querem levar-me a fazer?
O
Imperador Gonozal VIII sorriu amargurado.
— Se
pudesse levá-lo a fazer alguma coisa, eu o faria. Acontece que você
não pode ser levado a fazer coisa alguma. Só, através de você
mesmo, pode ser levado a fazer algo. E, no momento, sente-se, talvez,
incapaz. É o preço que temos de pagar pelo privilégio de estarmos
na ponta. Essa ponta é muito pequena; tão pequena que só uma
pessoa cabe nela de cada vez. E tão pequena que nela nem se pode
ficar confortavelmente de pé. Temos de nos equilibrar
constantemente!
— Nem
parece que você é um arcônida.
— Obrigado,
Perry! — um brilho de felicidade surgiu nos olhos de Atlan. —
Muitas vezes eu gostaria que você estivesse no meu lugar. Invejo
você, que é o administrador de seu insignificante sistema
planetário.
— É
mesmo?
Foi só o
que Rhodan teve a dizer. Seu olhar atingiu o rosto de Atlan.
— Num
ponto eu não o compreendo, Atlan. Por que não pede insistentemente
que Thomas Cardif seja posto fora de ação? Ou por que não o faz?
Afinal, ele está colocando em risco a existência de seu império!
O
Imperador Gonozal VIII ergueu-se lentamente. Contornou a mesa
estreita e comprida e parou à frente de Rhodan. Colocou a mão sobre
o braço do administrador.
— Será
que de repente não nos compreendemos mais, meu amigo? Mas se
interviesse agora, isso representaria o fim de nossa amizade. Como
imperador do Grande Império tenho o dever de fazê-lo. Mas, se um
belo dia nós dois nos defrontarmos como inimigos, meu reino estelar
não terá nada a ganhar. E se eu me adiantasse à sua ação e
fizesse com que Thomas Cardif se defrontasse com as leis implacáveis
de Árcon, segundo as quais teria de ser condenado à morte, nós nos
tornaríamos inimigos. Haveria de chegar o dia em que você me
acusaria por ter agido assim, a não ser que você nunca tenha sido
pai, e Thomas nunca tenha sido seu filho. Mas, se fosse assim, você
já não seria meu amigo, Perry...!
Os olhos
amarelados de Atlan chamejavam. Sentia-se dominado por uma forte
comoção.
Perry
Rhodan parecia pensativo. Subitamente levantou-se e disse:
— Providenciarei
para que decolemos dentro de uma hora, a fim de regressar à Terra.
Se receber novas notícias sobre Archetz ou Thomas Cardif, faça o
favor de transmiti-las a mim.
— Quer
dizer que voltaremos a encontrar-nos dentro de poucos dias, Perry?
Atlan
compreendera perfeitamente. A notícia surpreendente de que, dentro
de uma hora, Perry pretendia voltar à Terra não representava outra
coisa senão o primeiro passo dado no sentido de eliminar Thomas
Cardif do jogo dos mundos.
— Sim,
Atlan. Dentro de poucos dias, voltarei para M-13...
3
Os
cientistas de Terrânia encontravam-se em estado de alarma.
Perry
Rhodan regressara há poucas horas do Império de Árcon, e não foi
esta a primeira vez em que seu regresso desencadeou uma atividade
extraordinária.
Mais de
cinco mil colaboradores, cada um deles um especialista de primeira
ordem em sua área, foram informados pelos chefes setoriais sobre a
nova tarefa que devia ser cumprida.
Quando os
etnólogos se puseram a trabalhar, logo se sentiram tomados de
espanto. E o espanto transformou-se em pavor.
Foi o Dr.
Orge Olundson quem primeiro lhe deu expressão.
— Se nos
atrevermos a apresentar isto ao chefe, haverá um barulho tremendo!
Ninguém o
contestou. Fitavam-se perplexos. O material de que dispunham era
extremamente escasso. Já haviam consultado o enorme computador
positrônico do supercouraçado Drusus, nave capitania de Rhodan.
Recorreram às informações armazenadas no mesmo, mas não
descobriram nada que não soubessem antes.
Sua tarefa
podia ser descrita da seguinte forma:
A 248
anos-luz de Árcon, fica o sistema solar de Forit. O respectivo sol é
pequeno e avermelhado. Possui quatro planetas. O segundo é o planeta
Solten, que está habitado.
Precisamos
de minuciosas informações étnicas, etnográficas e etnológicas
sobre os soltenses.
Acontece
que, pelos padrões arcônidas, os soltenses deviam ser um povo tão
insignificante que o Grande Império acreditava ter dito tudo a seu
respeito, ao consignar as seguintes informações em seu catálogo
etnológico:
Soltenses,
ex-arcônidas, degenerados, tamanho médio 1 metro e 70 centímetros,
curvatura da coluna em forma de corcunda, testa saliente.
Matriarcado,
demonismo.
Mentirosos.
O Dr. Orge
Olundson, chefe da divisão de etnologia, tornara-se no curso de dois
decênios um grande conhecedor da etnologia arcônida. Naquele
momento brincava com o lápis. Traçou um círculo após o outro em
torno da terceira frase do escasso material informativo, frase esta
formada exclusivamente pela palavra “mentirosos”. Parecia
perplexo.
— Acho
que algum colega arcônida permitiu-se uma brincadeira — disse num
solilóquio. — Isso não existe. Será que todos os soltenses são
mentirosos? — levantou a cabeça, largou o lápis e olhou em torno.
— Então, cavalheiros, como vamos continuar? Alguém tem uma idéia
de como poderemos conseguir mais material sobre os soltenses?
Na divisão
médica de bioplástica reinava a mesma perplexidade. A única
informação relativa ao aspecto exterior dos soltenses consistia em
algumas fotografias mal tiradas. Não havia nenhum arquivo que
fornecesse as informações de que precisavam.
O Dr. Alfo
Alvarez profetizou:
— Se eu
explicar ao chefe que a tarefa que ele nos confiou não pode ser
cumprida, seremos todos despedidos. O que têm a dizer sobre isso?
O perito
econômico para o comércio intergaláctico, Jean de Canin, não
parecia menos desolado:
— Pelos
anéis de Saturno, onde poderei obter dados sobre o contrato de
royalties celebrado entre os soltenses e o chefe dos saltadores,
Cokaze? Nunca ouvi falar sobre isso, O senhor sabe de alguma coisa,
Townless?
Townless
também não sabia nada a respeito. Limitou-se a sacudir a cabeça e
continuou a morder o lápis. O estado de ânimo da divisão
encontrava-se bem abaixo da marca zero.
— Se eu
aparecer à sua frente de mãos abanando, o chefe ficará furioso,
Townless! — lamentou-se Canin.
— Acontece
que não posso arrancar as informações da ponta dos dedos, Canin —
respondeu Townless com a maior tranqüilidade. — Vou chamar os
etnólogos. As peculiaridades econômicas de um povo não deixam de
ser características típicas. Vejamos o que podem dizer-nos...
A central
do sistema de intercomunicação respondeu. Townless pediu que o
ligassem com o Dr. Olundson.
Os traços
da tela estabilizaram-se à frente de Townless. O rosto contrariado
de Olundson apareceu diante dele. Os dois não se conheciam
pessoalmente.
Townless
apresentou-se.
— Quem
sabe se o senhor pode ajudar-nos, doutor? Temos necessidade urgente
de dados sobre os soltenses.
— Sobre
os mentirosos? — perguntou Olundson.
— Sobre
quem...? — estas palavras foram proferidas por Jean de Canin, que
de um salto se colocou ao lado de Townless. — Quem são os
mentirosos, doutor?
O Dr. Orge
Olundson respondeu com a maior impassibilidade:
— Os
soltenses são mentirosos! É ao menos o que diz o catálogo
etnológico arcônida. De resto, também não sabemos de nada.
Estamos boiando...
— Pois
nós já estamos com água até o pescoço! — confessou Canin. —
Um momento! Já sei o que vou fazer. Vou entrar em contato com o
Serviço de Defesa Solar. Este deve dispor dos dados, doutor.
Voltarei a chamar daqui a pouco. Combinado?
Estavam
todos na mesma canoa. O Dr. Olundson confirmou com um gesto. Parecia
satisfeito.
A ligação
com a divisão de arquivo do Serviço de Defesa Solar foi
estabelecida num instante.
Uma beleza
feminina apareceu na tela. O francês que havia dentro de Jean de
Canin acordou. Não procurou dissimular a admiração que sentia
diante de tamanha beleza, mas nem por isso se tornou inoportuno. Sua
atitude devia ser interpretada como um elogio pela jovem bela e
radiante do arquivo do Serviço de Defesa. Apesar disso, Canin falou
com a voz indiferente, quando pediu informações sobre os soltenses,
uma raça que habitava um sistema de quatro planetas, cujo centro era
o sol Forit.
— Peço
que nos forneça todos os dados que possui. O chefe confiou-nos uma
tarefa urgentíssima, que não podemos executar por falta de
material. A senhora nos ajudará, não é mesmo?
A jovem
disse que sim. Sua imagem desapareceu da tela, mas a ligação não
foi interrompida. Townless fitou Canin e disse:
— Acho
que vou pedir transferência... Não sabia que em Terrânia existem
coisas tão bonitas.
— Ah, é?
— respondeu Canin. Depois permaneceu calado.
Esperaram.
Subitamente
a imagem da jovem voltou a aparecer. Seu sorriso encantador
desaparecera. A voz perdera o timbre claro.
— Sinto
muito — disse — mas também não possuímos dados sobre o sistema
de Forit. Apenas os que nos foram fornecidos pelos arcônidas. E
estes o senhor já deve ter.
— Sim —
respondeu Jean de Canin. — Já temos. Apenas acontece que não
sabemos o que fazer com tais dados. Em Solten não há nenhum agente
nosso?
— Num
mundo tão insignificante? Acho que o senhor está superestimando a
capacidade do Sistema de Defesa Solar, ou então está subestimando o
tamanho do Império de Árcon — disse a jovem com uma ligeira
recriminação na voz.
Jean de
Canin sorriu.
— Será
que não poderíamos conversar mais demoradamente sobre isso hoje de
noite?
Não
conseguiu dizer mais nada. Sem alterar seu sorriso encantador, a
jovem disse:
— Meu
filho mais novo, que tem oito meses, não permite que sua mãe faça
uma coisa dessas. Posso fornecer mais alguma informação?
Seu
sorriso foi a última coisa que a tela reproduziu.
*
* *
Às 14
horas e 20 minutos, tempo padrão, o Dr. Orge Olundson criou coragem
e pediu uma ligação com Reginald Bell.
— Sim, é
urgente! — disse, para reforçar seu pedido. — E é muito
importante. Trata-se de uma tarefa urgentíssima e...
Viu-se
interrompido:
— Ah, é
a respeito de Solten? Olundson conhecia as normas relativas ao
sigilo.
— Faça
o favor de ligar-me imediatamente com Mr. Bell.
Dali a
pouco, o rosto de Bell apareceu na tela. O amigo de Rhodan possuía
uma memória excelente para rostos e nomes. Já se encontrara em
alguma oportunidade com o Dr. Olundson. Reconheceu-o imediatamente e
chamou-o pelo nome. Percebeu o suspiro de alívio de Olundson.
— Então,
onde é que o sapato o aperta, doutor? — perguntou com a maior
tranqüilidade.
Depois
disso, Bell vez por outra soltava um “hum”
ou um “ah,
é?”
mas não interrompeu seu interlocutor. Só começou a falar quando o
etnólogo concluiu seu relato e informou quais eram as divisões
sediadas em Terrânia, que estavam quebrando a cabeça com aquilo.
— Exporei
isso ao chefe e depois mandarei informá-lo. Ainda bem que o senhor
ao menos teve a coragem de falar comigo, pois do contrário teríamos
perdido ainda mais tempo.
Bell
desligou.
— Temos
de entrar em contato com Atlan, Perry! — disse ao entrar no
gabinete de Rhodan.
— Por
quê? — a pergunta de Rhodan tinha sua razão de ser, pois fazia
apenas algumas horas que haviam saído de Árcon I, o mundo de
cristal.
— Não
dispomos de dados sobre o planeta Solten e nem sobre o povinho que o
habita. O etnólogo Dr. Olundson acaba de telefonar e disse que
ninguém possui qualquer informação sobre esse mundo, situado no
sistema de Forit. Nem mesmo o Serviço de Defesa possui dados. Só
Atlan poderá ajudar-nos.
Perry
Rhodan fez uma pergunta que deixou Bell estupefato.
— Escute.
Quem teve essa idéia relativa aos soltenses, gorducho?
— Foi
você! Pois eu nem sequer conheço esse povo de nome.
Fez uma
pausa e fitou atentamente o amigo.
— Será
que você não se lembra mais, Perry?
Bell ainda
se lembrava perfeitamente de que não fazia muito tempo que um
determinado setor da memória de Perry sofrerá um forte bloqueio
sugestivo. E esse bloqueio fora causado por um homem completamente
normal, que em virtude da injeção de uma toxina dos aras, se
transformara num sugestor tão potente.
De
repente, Perry sorriu. Lera os pensamentos do amigo.
— Não
se preocupe, Bell! De qualquer maneira, é estranho que eu não me
lembre quem ou o que despertou minha atenção para os soltenses.
Isso me preocupa um pouco, mas a hipótese da sugestão ou da hipnose
está excluída.
— Tomara
que você tenha razão. Vamos entrar em contato com Atlan?
— Deixe
Atlan em paz. Este já carrega um peso muito grande com a dignidade
de imperador... Mas é graças a ele que podemos estabelecer contato
direto com o grande centro de computação. Entre em contato com
Mercant. Ou melhor, vá à sua presença. Ele lhe fornecerá os dados
necessários. Depois disso, você terá de mexer-se mais um pouco e
ir até a grande estação de hiper-rádio. Uma vez lá, você botará
todos para fora por algum tempo e manipulará pessoalmente os
controles. Utilize o processo negativo de hipercomunicação.
Bell
soltou um assobio.
— Coitados
dos mercadores galácticos que forem especialistas em decodificação!
— soltou uma estrondosa gargalhada.
Imaginava
como eles contemplariam em atitude de desespero as curvas de
hiper-rádio sobre o oscilógrafo sem conseguir compreender por que
não obtinham um único som que fizesse sentido, embora tivessem
determinado o compasso de condensação e o ritmo de distorção com
a precisão de cinco casas decimais.
— Está
bem, Perry — disse, ainda rindo. — Enquanto uso o processo
negativo de transmissão radiofônica não penso no meu dedo cortado
e...
— Ponha-se
daqui para fora, gorducho! — gritou Rhodan, mas não estava falando
tão sério como parecia.
— Aos
poucos estou gostando novamente de você, Perry — disse Bell,
sorrindo.
Rhodan
interrompeu-o com um gesto, mas logo mudou de idéia:
— Não
basta dizer sim; isso tem de vir do coração.
— Compreendo
— Bell, de um instante para outro, tornara-se sério. — Thomas
deveria ter sido educado ao menos por algum tempo por meu pai. Foi um
alto funcionário da polícia. Quando me dava uma sova... Nem queira
saber como estas lições foram proveitosas. Bem, vamos passar uma
esponja sobre isso. Vou falar com Mercant.
— Não
se esqueça da conferência com os mutantes, marcada para as 16 horas
e 10 minutos.
— Quer
dizer que você insiste no projeto de Solten, embora não saiba quem
lhe deu essa idéia? — voltou a perguntar Bell, em tom insistente.
— Por
enquanto sim!
Dali a
pouco, Bell estava sentado à frente de Allan D. Mercant, chefe do
Serviço de Defesa Solar. Já haviam falado sobre os aspectos
técnicos da comunicação com o gigantesco computador positrônico
de Árcon III. Naquele momento, Bell transmitia os resultados de suas
observações a Mercant, que o ouvia atentamente.
— Perry
excluiu a possibilidade de uma influência hipnótica ou sugestiva.
Acontece que não consigo esquecer-me do que aconteceu comigo,
Mercant, e neste momento eu me lembro...
— Hum...
de Thora e de sua recomendação de ir ao planeta de Honur.
Compreendo perfeitamente o que quer dizer, Bell. Acho que, se eu
informar Marshall e pedir a ele que tome todas as precauções, não
deve ter nenhuma objeção.
Mercant
costumava exprimir-se com toda discrição.
— Concordo
plenamente — respondeu Bell. — Perry explodirá de raiva, quando
souber que mandamos vigiá-lo, mas o cuidado nunca é demais. Estou
disposto a enfrentar o barulho que ele vai fazer. E, Mercant, tudo
isso apenas...
Mercant
soltou um gemido e levantou os braços.
— Bell,
deixe seu polegar de lado. Antes do fim do ano, o senhor ainda irá
pôr toda a Via Láctea louca com essa conversa.
Reginald
Bell fitou atentamente a ponta do polegar direito.
— Quando
lhe mostro meu polegar direito, Atlan também costuma ficar nervoso.
Ainda bem que às vezes existem meios bem mais simples de reforçar
uma advertência...
Bell
retirou-se, deixando para trás um chefe do Serviço de Defesa muito
pensativo. Este disse para si mesmo em voz baixa:
— O que
será que o gordo quis dizer? Será que acredita nessa bruxaria, ou
apenas recorre a isso para evitar que os outros “durmam”?
Costumava ser um homem completamente normal, mas desde a festa do Ano
Novo está sendo cavalgado pelo demônio...
Estava
fazendo uma injustiça a Bell. Este apenas temia à sua maneira o ano
de 2.044, que estava chegando ao fim.
*
* *
Enre, um
gigante de mais de dois metros, de rosto bexiguento e cabelos
desgrenhados, que trajava apenas uma manta, contemplou a curva do
oscilógrafo.
Era o
especialista de hiper-rádio mais competente de Archetz. No curso dos
últimos decênios, enriquecera com as importantíssimas invenções
que fizera nessa área.
Virou a
cabeça e lançou um olhar desconfiado para Olgall.
— Afinal,
isto é uma curva de hiper-rádio, e vocês vêm me dizer que não
conseguem extrair uma única palavra sensata da mesma?
Pela
expressão do rosto de Olgall poder-se-ia ser levado a acreditar que
ele estava sendo martirizado por uma terrível dor de dente.
— Uma
palavra? — continuou esbravejando. — O que conseguimos descobrir
não existe; nunca existiu! Até parece o berreiro dos demônios
estelares. Ouça...!
Bateu
furiosamente numa tecla.
No mesmo
momento ouviu-se uma algazarra inconcebível. Não era nenhum choro,
nenhum crepitar produzido por perturbações do campo magnético, não
era o grasnado ou o uivo de ondas superpostas que interferissem umas
nas outras. Também não era um impulso deformado ou um raio
distorcido, que surge muito raramente no tráfego de hiper-rádio e
faz com que, por algum motivo inexplicado, a mensagem seja irradiada
em todas as direções possíveis, menos naquela que deveria seguir.
Realmente
parecia que os demônios haviam marcado um encontro na grande estação
subterrânea de hiper-rádio do planeta Archetz. Davam a impressão
de berrarem a plenos pulmões na sua língua.
— Desligue
isso! Desligue! — berrou Enre, tapando os ouvidos.
Um sorriso
presunçoso surgiu nos lábios de Olgall.
Desligou e
perguntou em tom irônico:
— Então,
acha que eu tenho razão ou não?
Enre
estava fora de si.
— Quero
a fita completa! — ordenou.
A fita era
uma faixa perfurada de pequenas dimensões, fornecida pelo automático
positrônico que funcionava acoplado com o receptor. Num gesto
apressado, Enre empurrou a fita para dentro do aparelho de
interpretação, que por meio de um processo ótico tornava visíveis
todos os impulsos, apresentando-os em forma de diagramas. Só mesmo
um perito experimentado seria capaz de extrair algum sentido da
aparente confusão resultante da representação pictórica de
relações numéricas.
Enre
concentrou-se sobre o quadro. Mandou que tudo fosse visualizado de
novo. Voltou a examinar o oscilógrafo, viu as amplitudes
características e disse em tom inseguro, como quem não tem muita
certeza do que está dizendo:
— Isto é
completamente normal, Olgall.
— Acontece
que minha dor de ouvido não é normal, Enre — respondeu Olgall, em
tom mordaz. — Isto não me interessaria muito, se esta mensagem não
tivesse sido irradiada no curso de uma comunicação da Terra com o
computador regente.
Enre
estreitou a capa em torno do corpo. O alarma de Olgall arrancara-o da
cama. O único sinal disso eram os cabelos despenteados. Agora estava
acordado como nunca estivera. Estava à espreita: espreitava as
próprias reflexões.
— Mais
uma vez...
O novo
exame não forneceu a menor indicação.
— Quer
que mande tocar isso mais uma vez? — perguntou Olgall. — Se
quiser, sairei antes.
Enre não
tinha a menor vontade de voltar a martirizar seus ouvidos. Lançou um
olhar pensativo para Olgall.
— Será
que convém chamar o terrano? — perguntou em tom hesitante.
— O tal
do filho de Rhodan? — perguntou Olgall em tom de espanto.
— Isso
mesmo. Talvez ele nos forneça alguma informação sobre a nova
técnica de codificação usada pelos terranos. Mas se essa técnica
tiver sido elaborada pelo computador, também ele não nos poderá
dizer nada.
Olgall
balançou a cabeça.
— Pelo
que dizem, o patriarca Cokaze já não tem muita simpatia por Cardif.
Não tenho a menor dúvida de que consentirá em libertar Cardif para
este fim...
— Libertar?
— repetiu o especialista em hiper-rádio. — Isso significa que...
— Ouvi
dizer que sim. Não sei se é verdade...
Preferiu
calar-se. Enre parecia indeciso.
— Olgall,
dê-me outra fita que tenha aproximadamente o mesmo comprimento, a
fim de fazermos uma comparação...
Olgall
sorriu.
— Já
fiz isso, Enre! Mas fique à vontade.
Olgall
tinha razão. Tanto no oscilógrafo como no aparelho de interpretação
as duas mensagens de hiper-rádio, examinadas ao mesmo tempo, não
apresentaram qualquer diferença. De repente Enre teve uma idéia.
— Olgall,
os terranos interpuseram um fonovariador. É um processo velho.
Não havia
mais nada que pudesse espantar Olgall. Já havia quebrado a cabeça a
respeito da mensagem de hipercomunicação que acabara de ser captada
e não tinha a menor esperança de que conseguiriam num curto espaço
de tempo decifrar comunicações de hiper-rádio desse tipo.
— O que
vem a ser um fonovariador, Enre? Nunca ouvi falar nisso.
— Um
aparelho que modifica os sons. Transforma, por exemplo, um A num U
bem profundo, ou faz aparecer determinada consoante em soprano, para
da próxima vez transformá-la num grasnado.
Olgall não
tinha a menor vontade de perder mais tempo com essa mensagem
indecifrável.
— Deixo
isso por sua conta, Enre! Não conheço nenhum fonovariador. Se os
terranos o construíram segundo o método positrônico das escolhas
casuais... Bem, Enre, divirta-se com as cento e vinte e três milhões
de possibilidades. Eu...
Segurou-o
pelo braço e apontou para o receptor, que continuava regulado para a
hiperfreqüência do computador regente.
Naquele
momento estava sendo captada outra troca de mensagens entre a Terra e
Árcon III.
Enre
desprendeu-se e dirigiu-se ao quadro de controle. Observou três
instrumentos, sem tirar os olhos dos mesmos. A seu lado, o setor de
processamento trabalhava silenciosamente, regulando-se para o
compasso de concentração ou o ritmo de distorção daquela
transmissão de hiper-rádio.
— Mas
nenhum elemento de referência para o fonovariador — disse Enre, em
tom de desapontamento.
Seguiram-se
outros cotejos de dados. O compasso de condensação e o ritmo de
distorção mais uma vez haviam sido determinados com uma precisão
de cinco casas decimais. Um minúsculo aparelho esticava os impulsos
condensados, convertendo-os ao comprimento normal e, ao mesmo tempo,
a distorção era eliminada. Só faltava ligar o oscilógrafo.
— Pare!
— berrou Olgall e bateu de punho cerrado na tecla principal de
suprimento de energia. — Isso é insuportável, até mesmo
baixinho. O que será que esses terranos inventaram desta vez?
— Talvez
tenham sido os arcônidas — observou Enre.
Essa
observação provocou a contradita de Olgall.
— Os
arcônidas? Nunca! Mas agora também já acredito que devemos chamar
o filho de Rhodan. Se há alguém que possa colocar-nos na pista
certa, é ele. Quer falar com Cokaze, Enre?
*
* *
Naquela
hora, Bell dispunha de uma extraordinária capacidade de previsão.
Depois da segunda troca de hipermensagens com Árcon III mandou que o
levassem da estação de rádio ao arranha-céu em que funcionava a
administração. Trazia no bolso uma quantidade enorme de dados sobre
os soltenses. Mas nem pensava nisso. Seus pensamentos giravam em
torno dos saltadores. Sempre que não se sentia muito contente com
eles, chamava-os de ciganos estelares.
Agora
devia divertir-se com eles, pois soltava uma risada silenciosa e
feliz. Até chegou a esfregar as mãos e acenou com a cabeça, mas
preferiu não largar as rédeas da fantasia.
E nem
poderia imaginar que as duas hipermensagens irradiadas para Árcon
III, sob o processo negativo, haviam colocado o Conselho
Revolucionário de Archetz em estado de tensão.
*
* *
Enre
encontrava-se perante uma assembléia dos patriarcas, composta de
doze pessoas. Estavam 145 quilômetros abaixo da superfície de
Archetz. Eram duas horas da madrugada, tempo padrão. Os doze
patriarcas haviam sido arrancados do sono, mas a essa hora ninguém
se lamentava por ter sido privado do calor agradável da cama.
Fitavam
ansiosamente o rosto de Enre. O maior especialista em hiper-rádio de
que dispunham os mercadores galácticos não compreendia por que o
Conselho Revolucionário fora convocado às pressas. E também não
compreendia por que seu relato provocara tamanho alvoroço entre os
experimentados patriarcas.
Atual e
Ortece, proprietários do Banco dos Mercadores Galácticos de Titon,
cochichavam entre si. O patriarca Cokaze, que desde o dia em que
tivera de exercer pressão contra esses dois homens passara a gostar
deles cada vez menos, acompanhava a palestra cochichada com um
desagrado cada vez maior e, ao mesmo tempo, prestava atenção ao que
Enre tinha a dizer.
Cokaze
cutucou Gatru, que se encontrava à sua direita. O patriarca Gatru
era o proprietário das mais modernas linhas de montagem
subterrâneas, que produziam de dez a trinta mil naves cilíndricas
por dia, trabalhando pelo sistema de faixa contínua.
— Olhe
os banqueiros — cochichou Cokaze.
Gatru
soltou um resmungo e também passou a observar discretamente os dois
sócios.
O
movimento subversivo era chefiado por doze patriarcas, que ainda não
haviam desistido do plano de eliminar o poder dos arcônidas e
substituir o Império dos Arcônidas pelo Reino dos Saltadores.
Acontece
que não eram doze homens que estavam sentados em torno da mesa em
ferradura, mas treze. O décimo terceiro era o filho de Perry Rhodan,
Thomas Cardif, um desertor da Frota Solar que se transformara no pior
inimigo do pai.
Só
dedicava um ódio mortal a seu progenitor. Via nele o assassino de
Thora, sua mãe. Um boato infame que subitamente começara a correr
em Plutão, encontrara seu caminho até o filho de Rhodan. Quando a
batalha dos druufs em torno da Terra estava em pleno andamento,
aproveitara a oportunidade para abandonar o mundo de gelo de Plutão
e estabelecer contato com o patriarca Cokaze. Só conhecia um
objetivo: a destruição de Rhodan.
E possuía
a capacidade de atingir esse objetivo, pois era filho de Rhodan.
Cokaze foi
o primeiro mercador galáctico que reconheceu o valor de Thomas
Cardif. Os dois banqueiros sentiram esse fato, quando Cardif os
obrigou a desencadear de uma hora para outra uma inflação que
traria a ruína econômica do império.
O Banco,
como costumava ser designado pelos arcônidas, era, face aos seus
recursos e influência, cem vezes mais forte que o banco oficial de
Árcon.
O primeiro
golpe parecia ter atingido o império em cheio, mas seguiu-se o
ataque totalmente inesperado de uma frota dos druufs composta de três
mil naves, que transformara a superfície do importantíssimo planeta
Archetz num campo de destroços.
Uma única
pessoa não se impressionara com isso: Thomas Cardif. Este usou todo
o poder persuasivo de sua personalidade para levar os saltadores a
desferirem o segundo golpe. Mas estes só aceitaram parte do plano
taticamente bem elaborado: o atentado contra Atlan, que recentemente
se tornara o Imperador Gonozal VIII, do qual mandaram furtar o
ativador celular. Tratava-se de uma cápsula maravilhosa, vinda do
planeta Peregrino, e que permitira que Atlan não envelhecesse no
curso dos últimos dez mil anos.
O atentado
fracassara. Depois de uma luta de vida e morte, o ativador celular de
Atlan fora tirado de Segno Kaata, o anti.
Em virtude
desse fracasso, Cardif passara a ocupar uma posição secundária
junto aos patriarcas. Sua presença por ocasião do relato de Enre
resultará unicamente do pedido do especialista, que desejava
interrogar Cardif sobre o novo sistema de codificação dos terranos.
Naquele
dia, a assembléia estava sendo dirigida por Gatru.
— O que
tem a dizer sobre isso, Cardif? — falou, pedindo que manifestasse
sua opinião sobre a exposição de Enre.
Thomas
Cardif, a imagem fiel de seu pai. Seu rosto era igual, iguais eram
seus gestos, igual ainda era sua capacidade de alcançar
imediatamente uma visão de conjunto de qualquer questão e extrair
dela as conclusões corretas. Mas faltava-lhe a maturidade de
caráter, o autodomínio que já distinguiam o jovem Perry Rhodan,
enquanto este ainda servia na Força Espacial dos Estados Unidos,
antes que entrasse na primeira Stardust e voasse até a Lua em
companhia de Bell, Fletcher e o Dr. Manoli.
Cardif
levantou-se. Seus olhos de arcônida, que eram uma herança da mãe,
chamejavam.
— Não
conheço o novo método de codificação da Terra. Na minha opinião,
tal método não representa um acontecimento capaz de abalar o mundo.
Mas o fato de que a Terra fala diretamente com o computador, embora
Atlan se encontre no mundo de cristal, deveria merecer o máximo de
nossa atenção...
— Obrigado!
— interrompeu Gatru, em tom áspero. — Não lhe pedimos que nos
apresentasse sugestões, apenas queríamos saber o que sabia a
respeito do novo método de codificação.
Thomas
Cardif sorriu. Abriu a boca para fazer uma observação mordaz, mas
logo voltou a fechá-la e sentou-se. Mesmo quando já estava
acomodado há algum tempo, continuava a fitar Gatru, mas de maneira
estranha, numa mistura de escárnio, cólera e compaixão.
Gatru, que
era um rei entre os clãs dos saltadores e um dos melhores clientes
do Banco, era um homem frio, como todo comerciante e grande
industrial. Não iria conformar-se por muito tempo em ser alvo do
olhar de Cardif. Enquanto Fugir, um patriarca dos clãs unidos de
Alton-Fugir, fazia perguntas a Enre, Gatru virou-se para um dos robôs
e disse:
— Leve-o!
Um sorriso
traiçoeiro surgiu no rosto de Ortece e Atual, diretores do Banco,
quando dois braços de aço de um robô arrancaram Thomas Cardif da
poltrona e o retiraram da sala.
Cokaze, um
homem martirizado por sentimentos contraditórios, era o único que
não concordava com essa evolução dos acontecimentos. Ficou tão
aborrecido com o sorriso traiçoeiro dos banqueiros que se deixou
dominar pela cólera. E foi neste estado que se dirigiu a Gatru:
— Isso
teria sido necessário? Será que você ainda não conhece esse
terrano?
Gatru
respondeu em tom indignado:
— Se
você faz questão absoluta de ser considerado um idiota por esta
assembléia, o problema é seu, Cokaze. Mas nem por isso nós também
somos idiotas. Acho que a permanência na Terra não lhe fez bem.
A barba
bem tratada de Cokaze parecia tremer. Seus punhos se cerraram. Os
olhos chamejaram de raiva, mas o patriarca não respondeu.
— Sua
toupeira cega — disse e reclinou-se na poltrona, cruzando os braços
sobre o peito.
Permitira-se
entrar em choque com o patriarca mais rico de Archetz, e sabia que
podia permitir-se uma coisa dessas. Tinha atrás de si os patriarcas
que passavam a vida entre as estrelas, nas naves de seu clã.
Qualquer mercador galáctico via nos membros de sua raça, que viviam
em Archetz, um grupo de toupeiras cegas. Era a pior ofensa que podia
ser dita a um habitante do mundo de Archetz.
Gatru
virou-se abruptamente em sua poltrona. Os olhos estreitaram-se. Suas
mãos crisparam-se para agarrar Cokaze.
— Faça
isso se tiver coragem, Gatru! — disse Cokaze. — Atreva-se a tocar
em mim, e dentro, de uma semana você poderá paralisar suas linhas
de montagem. Nenhum saltador comprará uma única de suas naves! Não
se esqueça de que você depende de nós, não nós de você. Para
mim, esse terrano bem vale uma briga com um indivíduo como você.
Na pequena
sala, situada 145 quilômetros abaixo da superfície de Archetz,
passou a reinar um silêncio completo. Todos estavam ansiosos para
ouvir o que Cokaze tinha a dizer a Gatru. O velho chefe de clã olhou
em torno, admirado. Todos o fitavam com os rostos tensos. Cokaze
soltou uma risada de escárnio:
— Isso
mesmo; prestem atenção! Gatru mandou retirar o terrano. Não
concordei com isso. Por quê? Porque o terrano foi o único que
reconheceu o que há de importante no relato de Enre: o contato
direto entre a Terra e o computador regente de Árcon III, sem a
interferência de Atlan.
“Será
que vocês ainda não compreenderam o que isso significa para nós?
Perry Rhodan é o segundo imperador de Árcon. Qualquer pessoa que
possa usar o saber e o poder do gigantesco computador positrônico é
um pouco mais forte que nós. Ou será que deveremos sentar em cima
de um monte de escombros fumegantes e exclamar: este é o novo
Império dos Saltadores? Será que não podemos ter outra idéia,
senão a de atacar Árcon com todas as naves de que podemos dispor? O
que poderemos ganhar com isso? Apenas um monte de escombros! E
acabamos de pôr para fora a única pessoa capaz de apontar-nos um
outro caminho, menos sanguinolento e mais seguro, que possa conduzir
ao nosso objetivo.
“Quero
mencionar mais um detalhe.
“Tomem
cuidado. É possível que um dia Perry Rhodan bata à nossa porta, e
então apenas poderemos levantar os braços.”

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