domingo, 28 de agosto de 2016

P-097 - O Preço do Poder - Kurt Brand [Parte 1]

Autor
KURT BRAND



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Gucky sugestiona Perry —
e a vida de 17 terranos corre perigo.

Com o descobrimento na Lua de uma espaçonave arcônida acidentada, foram lançados os alicerces para a unificação de toda a Humanidade terrana e, desta unificação, surgiu o Império Solar. Ninguém podia supor, nem mesmo Perry Rhodan, quantos esforços e firmeza de ânimo seriam necessários, no correr dos anos, para manter este império frente aos ataques internos e externos.
A mais séria ameaça à Humanidade, que teve seu clímax na invasão dos druufs e na batalha em defesa do Império Solar, pôde ser debelada graças ao eficaz auxílio de Árcon. E a crise na política interna, provocada pelo desertor e traidor Thomas Cardif, foi removida por Gucky.
Porém um desenvolvimento constante da Humanidade só será possível quando houver uma paz definitiva na Galáxia — e até lá, parece haver ainda um longo caminho...
O próprio Atlan, o imortal, que há pouco tempo substituiu a gigantesca máquina eletrônica que costumava sufocar no nascedouro, com suas frotas robotizadas, qualquer tentativa de revolução contra o poder central de Árcon, é o primeiro a desejar a paz. Atlan, agora com o nome de Imperador Gonozal VIII, e Perry Rhodan, o Administrador do Império Solar, já por simples instinto de conservação, se apóiam mutuamente em suas aspirações.
Não faz muito tempo, foi assinado um pacto de assistência mútua entre Árcon e a Terra. Assim, as velozes espaçonaves do Império Solar estão preparadas para entrarem em ação em qualquer lugar da Galáxia, onde a paz e a ordem forem perturbadas.
Nos últimos meses, a tranqüilidade de Rhodan andava um tanto abalada... As ações praticadas por Cardif ainda continuavam tirando o sono do pai e também de Atlan, o novo imperador de Árcon.
O administrador deseja (e é obrigado) aproximar-se do jovem Thomas. Entretanto, para conseguir seu intento, Perry terá de pagar o Preço do Poder...


= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Reginald BellQue não quer que ninguém saiba o que vem a ser um trobel.

GuckyO mutante de várias facetas, que não tem vida fácil em Archetz.

AtlanO solitário do tempo que se tornou imperador.

Thomas CardifUm prisioneiro dos saltadores.

Dr. Orge OlundsonUm etnólogo, que tem suas dores-de-cabeça com o povo dos mentirosos.

CokazePatriarca dos saltadores.
1



Os sóis do grupo estelar M-13 brilhavam e cintilavam conforme faziam há tempos imemoriais. Comprimidos num espaço de cerca de duzentos e cinqüenta anos-luz de diâmetro, apareciam, sob a forma de uma única esfera gigantesca, aos ocupantes das naves vindas da Galáxia.
M-13 não era um conglomerado de cores, mas uma composição delas, que se destacava contra o fundo negro do Universo. A luminosidade tépida — sempre era esta a primeira impressão que M-13 transmitia aos homens que se dirigissem a Árcon.
M-13, o grupo estelar, formava o Grande Império, o império estelar dos arcônidas. Englobando as mais diversas raças, era um império no qual viviam bilhões e bilhões de inteligências, que, em parte, também se haviam tornado grandes, fortes, poderosas e ricas.
M-13 era um espetáculo de beleza quase irreal. Por outro lado, a aglomeração dos sóis num espaço reduzidíssimo também representava uma demonstração de poder. Mas o quadro era ilusório...
Como grupo estelar, M-13 dava a impressão de uma unidade orgânica. Mas o Grande Império era nos dias atuais um reino estelar, cuja estrutura política ameaçava esfacelar-se a qualquer momento.
Durante quinze milênios crescera, sempre sob a direção dos arcônidas. As espaçonaves saíam do sistema M-13 e faziam avançar as fronteiras do império, em direção às profundezas da Galáxia. Mas também chegou o dia em que a vitalidade quase inesgotável dos arcônidas começou a secar tal qual uma fonte, e a decadência iniciou-se na gigantesca organização.
O Grande Coordenador, o maior centro de computação positrônica, amalgamara o poderio de Árcon, então em pleno processo de desintegração, lançando mão dos meios mais brutais.
Atualmente o grande centro de computação funcionava apenas como órgão executivo. Atlan, a criatura colocada acima do tempo, assumira os encargos e viu-se obrigado a assistir, em atitude quase totalmente passiva, ao tremor de terra político que se verificava no seio do império, pois, do contrário, teria passado à história como um ditador sanguinário.
Mas as estrelas não tomavam o menor conhecimento de tudo isso. O raio branco-azulado vindo do centro do sistema M-13 continuava a derramar sua luz tépida e suave, conforme fazia há tempos imemoriais.

* * *

Pitter Breucken e seu amigo Klaas Vertieden estavam parados na comporta polar da Burma, uma espaçonave esférica da classe Estado, com cem metros de diâmetro e uma tripulação normal de cento e cinqüenta homens. Os dois observavam há muito tempo os acontecimentos que se desenrolavam na periferia do espaçoporto. Quanto mais observavam, maior era a insatisfação que sentiam.
Olhe, Pitter, outros robôs — disse Klaas Vertieden, que tal qual seu amigo era natural de Hilversum. — Você já viu um dos cem mil arcônidas legendários que teriam sido despertados do sono hibernal? Devo confessar que nunca vi nenhum!
O que vêm a ser cem mil pessoas nos planetas Árcon I, II e III? Apenas um pingo numa chapa quente. É por isso que você vê os robôs por aqui. Se não fossem os homens mecânicos, Árcon já teria falido há muito tempo.
E mesmo agora não está muito longe disso. Hoje de manhã ouvi o comandante palestrar com o chefe pelo rádio. Durante essa palestra não apenas foi mencionado que, dentro em pouco, deixaremos este horrível planeta de robôs com seu gigantesco cérebro. O chefe ainda disse que o império não passa de um amontoado de marmanjos revoltados...
Tenho certeza de que Perry Rhodan não usou esta expressão, Klaas. Mas veja! Um carro está deixando a abóbada do computador gigante. Será que vem para cá?
O gigantesco edifício abobadado que abrigava o gigantesco centro de computação, com suas dimensões de cem por cem quilômetros, dominava a paisagem desta parte de Árcon III. Destacava-se contra o céu como se fosse uma montanha e, de ambos os lados, era encoberto pelos complexos industriais.
Os dois jovens viram o carro aproximar-se numa corrida vertiginosa. De repente, o veículo descreveu uma curva fechada para a direita e capotou. Uma ofuscante chama branca saiu de seu interior. Com um forte trovão, o carro, que girava em torno de seu próprio eixo, explodiu como se fosse um pequeno sol vermelho.
Por um instante Klaas Vertieden e Pitter Breucken pareciam pregados ao solo. Quando quiseram correr para o local do desastre, as viaturas supervelozes da polícia robotizada de Árcon III estavam aproximando-se de todos os lados e, dali a pouco, toda a área ficou isolada.
Caramba! — disse Klaas Vertieden, profundamente impressionado, muito embora ainda há pouco tivesse proferido palavras pouco elogiosas a respeito do planeta de robôs Árcon III.
Lá na Terra a polícia ainda não age tão depressa — observou Pitter Breucken. — Em compensação, é bem possível que nós, os terranos, sejamos um pouco mais felizes que estes arcônidas. Você devia ver as linhas de montagem daqui, Klaas. Os robôs fabricam naves espaciais como nós fabricamos automóveis! Sabe o que já fiz várias vezes? Examinei a superfície deste mundo, mas até o momento não encontrei um torrão de terra. Às vezes, quase chego a acreditar que os velhos arcônidas construíram este mundo com ferro e aço, a fim de transformá-lo numa única fábrica. Em comparação com este gigante industrial planetário, nossas indústrias lunares não passam de simples luzes de lamparina.
Não fale mal de nós mesmos! — disse Vertieden em tom de protesto. — Não somos nenhuma lamparina. Por que estamos aqui? Porque Atlan precisa de auxílio. O imperador já não sabe o que fazer.
Klaas, às vezes você é bastante tagarela — disse Pitter. — Até parece que você se esqueceu do filho de Perry Rhodan, esse desertor maldito! Foi o tal do Thomas Cardif que meteu Atlan nessa situação difícil. O que acha que eu pensaria de você se não viesse ajudar-me numa situação de emergência? Afinal, o chefe e Atlan são amigos...
Foram interrompidos pela voz metálica do alto-falante do sistema de intercomunicação.
Queiram apresentar imediatamente ao primeiro-oficial o relato do acidente. Os relatos serão individuais.
Pitter Breucken deu um passo e colocou-se ao lado do sistema de intercomunicação. Ligou a tela de imagem.
Aqui fala o sargento Breucken do posto de artilharia número dois. Quero apresentar meu relato ao primeiro-oficial...
Venha pessoalmente, Breucken — interrompeu-o Joe Pasgin. — Há mais alguém por aí?
O sargento Vertieden, da divisão de conversores.
Aguardo-os em meu camarote. É bom que saibam que o chefe se interessa pelo acidente.
A tela escureceu. Vertieden e Breucken fitaram-se estupefatos.
Perry Rhodan interessa-se por uma coisa dessas? — disse Klaas Vertieden. — Gostaria de saber quem se encontrava no carro que explodiu...

* * *

Agora o sujeito já recorre ao assassinato e aos atentados...
Perry Rhodan, um homem sempre muito controlado, caminhava nervosamente de um lado para outro na sala do gigantesco computador positrônico, onde também se encontravam Atlan e Reginald Bell. O Marechal Allan D. Mercant, um gênio no terreno do serviço de segurança, que exercia as funções de chefe do Serviço de Defesa Solar, acabara de sair da sala mobiliada ao estilo arcônida. A parede do lado esquerdo, com o quadro de comando, de cinco metros por dois, era o único elemento que fazia concluir que essa sala com suas instalações muito confortáveis não se destinava ao descanso das pessoas que nela se encontrassem.
Perry Rhodan não parava de balançar a cabeça, enquanto andava nervosamente pela sala. Fitou Atlan, que retribuiu seu olhar com uma tranqüilidade extraordinária.
Ele não se esqueceu de nada do que aprendeu na Academia Espacial. Conhece a estrutura interna do Império Solar como a palma de sua mão. Afinal, fizeram questão de que aprendesse. E é frio e inescrupuloso...
Sente-se, Perry! — disse Bell, em tom enérgico.
Ao ver que Rhodan hesitava, apontou para a poltrona livre.
Atlan empurrou-lhe um copo de bebida alcoólica.
Rhodan acomodou-se e esvaziou o copo de um só gole.
Perry — disse Atlan, inclinando-se ligeiramente. — Temos de esperar. Neste instante, o computador está calculando mais de quatro milhões de possibilidades. Ainda ficaremos por mais algumas horas na incerteza.
Acontece que você já conhece o resultado da interpretação, almirante! — respondeu Rhodan, em tom deprimido.
Bell fungou com tamanha força que Atlan e Rhodan o fitaram. Num gesto espalhafatoso mostrou a ponta do polegar direito. Antes que os outros pudessem dizer uma palavra, o homem baixo de cabelos ruivos pôs-se a falar.
Deixem que eu fale também. Não quero que vocês se espantem com meu polegar. Desde a última festa de Ano Novo, fiquei supersticioso. Em toda a Via Láctea não existe um único caso em que uma peça de vidro inquebrável se tenha quebrado e, ainda por cima, causado ferimentos em alguém.
Quebrei o cálice de conhaque, cortei o polegar nos cacos e, desde então, tenho um medo tremendo deste ano de 2.044. Bem, a muito custo conseguimos arranjar as coisas, com uma diferença de quarenta dias. Nossa situação, isto é, a de Atlan, bem como de Perry, é em linhas gerais a seguinte: estamos caminhando na corda bamba, a cem metros de altura, sem rede de proteção. E, em vez de espectadores que nem se atrevem de respirar, lá embaixo existem rapazes que querem atirar em quem está em cima da corda.
Mas nenhum desses espectadores se chama Thomas Cardif. Garanto-lhes isso, apesar de meu polegar cortado e apesar de meu espírito supersticioso. Não é possível que Thomas Cardif seja um vil criminoso, pois seu pai é Perry Rhodan.”
Era mais uma atitude típica de Reginald Bell. Não se exprimia com muita elegância, mas em suas palavras não havia a menor ambigüidade, e realmente acreditava no que acabara de dizer.
Continuava a mostrar o polegar direito a Rhodan e Atlan.
Mister Bell — disse Atlan em tom áspero. — Guarde esse dedo. Metade da Galáxia anda falando do seu tique. Nós...
Tique? Essa é boa — interrompeu-o Bell. — E olhe que chegamos ao nível mais baixo de nossa carreira. Acontece que não acredito, e realmente não corresponde aos fatos, que Thomas tenha participado dessa tentativa de assassinato.
Não quero remexer em coisas velhas, pois isso não nos adiantaria nada. O que nos adianta é vermos um homem de vinte e cinco anos no papel que está desempenhando neste momento. Esses ciganos estelares manhosos, os mercadores galácticos, já encostaram esse rapazinho chamado Cardif contra a parede.
Isso talvez eu possa afirmar.
E mesmo que Thomas tenha fornecido aos saltadores as informações, em virtude das quais aquele carro explodiu há duas horas, o rapaz não sabia que, com base nessas informações, você, Perry, deveria ir pelos ares.”
Como sabe disso? — perguntou Atlan, em tom irônico.
Bell fitou Perry, que ainda parecia ouvir as palavras de seu amigo, proferidas em tom enfático. Depois olhou para Atlan.
Atlan, meu saber não provém daqui! — bateu com o dedo na testa. Depois levou a mão ao coração. — Vem é daqui. O senhor já conhece o romantismo dos terranos; provavelmente até nos conhece melhor do que nós mesmos. Meu coração, isso pode parecer uma idiotice, me disse que Thomas Cardif é incapaz de assassinar quem quer que seja. Se este monstro positrônico afirmar o contrário, eu lhes provarei que estou com a razão, e que esta máquina está enganada.
Apesar da gravidade da situação, Atlan soltou uma risada. Num gesto impulsivo estendeu a mão a Bell. Quando este a apertou, disse:
Mister Bell, bem que eu gostaria que nós, os arcônidas, também tivéssemos um pouco de espírito romântico e fôssemos capazes de ouvir a linguagem do coração. Mas receio que um coração arcônida não mais consiga falar.
Bell defendeu-se à sua maneira contra a franqueza de Atlan.
Só falta o senhor me falar em sentimentos! Seria preferível que me dissesse como foi possível um saltador vir parar em Árcon III. Um desses ciganos estelares deve ter estado aqui e instalado a carga explosiva no veículo...
Não poderia ter sido um homem do sistema solar, Mister Bell?
A resposta de Bell consistiu numa única palavra:
Droga!
O comentário de Perry Rhodan foi mais longo.
Allan D. Mercant acredita que, dentro de algumas horas, poderá dizer se as suspeitas de Atlan têm algum fundamento.
Nesse caso quero preparar-me para algumas surpresas — disse Bell em tom deprimido.
Via-se perfeitamente que também acreditava que a bomba tivesse sido colocada por alguém do sistema solar.
Ainda bem que hoje já é o dia 21 de novembro, e que, dentro de quarenta dias, o ano 2.044 chegará ao fim.

* * *

Os três estavam parados no setor de interpretação do computador e esperavam que os últimos minutos escoassem. Há cerca de dez minutos, uma ligeira mensagem do dispositivo positrônico informara-os de que, num prazo curtíssimo, a computação de pouco mais de quatro milhões de possibilidades estaria concluída.
Todos eles — Atlan, Rhodan e Bell — estavam acostumados a introduzir indagações extremamente complicadas num computador positrônico. Mas raras vezes um cérebro positrônico recebia uma série de perguntas tão extensa e de importância tão decisiva. Além do mais, as quatro milhões de possibilidades tinham de ser cotejadas uma com a outra. Só mesmo a hipermatemática arcônida tornava possível a solução de um problema desse tipo.
A sala onde se encontravam os três homens era simples e prática. No entanto, até mesmo a técnica, em sua forma mais fria, recebera dos grandes cientistas, que há milênios haviam construído e programado o enorme computador, um estilo que pairava acima do tempo, e que infundia o sentimento de que, na época de sua construção, o arcônida dominava a técnica, mas não era seu escravo.
Fora esse sentimento, aliado ao fato de que, hoje em dia, acontecia exatamente o contrário no Império de Árcon, que fizera com que Reginald Bell tivesse uma disposição nada amistosa face a essa maravilha única realizada por Árcon.
Sempre se rebelara contra a possibilidade de um grande reino estelar do tamanho do Império de Árcon ser governado por um computador, e ninguém melhor que Atlan conhecia as idéias de Bell a este respeito.
O almirante pensou nisso e sentiu-se invadido por uma sensação de vazio e algo como o medo do futuro.
O ativador celular encontrava-se novamente em seu poder. Sua vida parecia resguardada por vários séculos, talvez milênios. No entanto, vivera por tanto tempo sobre a Terra que já não pensava exclusivamente em si mesmo.
Já podia contar com cem mil arcônidas cheios de vitalidade, nascidos no apogeu do povo de Árcon.
Dentro de dois ou três anos, cada um deles seria uma sumidade no lugar que lhe fosse atribuído. Mas o que significavam cem mil arcônidas enérgicos e ávidos de ação, quando a massa popular degenerava cada vez mais e chegava a cultivar as más qualidades, além de estar interessada exclusivamente em esquivar-se de qualquer obstáculo e levar uma vida indolente, durante a qual não tivessem de cumprir nenhuma obrigação?
Atlan sentiu alguém pousar a mão em seu ombro. Bell, que se encontrava a seu lado, queria dizer-lhe alguma coisa.
Imperador, esquecemos um detalhe. E esse detalhe consiste em nada menos de cem mil arcônidas!
Esquecemos? Quando? — Atlan parecia contrariado, pois não compreendera a primeira nem a segunda das insinuações de Bell.
Esquecemos que entre as cem mil pessoas que permaneceram adormecidas ao longo do tempo existem algumas que se encontram em Árcon III. Não seria possível que uma dessas pessoas tivesse colocado a bomba embaixo do carro? Por que a ovelha negra só deve ser procurada entre os terranos?
Reginald Bell parecia muito sério. Enquanto formulava a última pergunta, proferida em tom enfático, lançara um olhar penetrante para o almirante.
Aguardemos para ver o que o computador tem a dizer — disse o arcônida, esquivando-se à pergunta.
A resposta de Bell foi inequívoca:
Não gostei de ouvir isso, arcônida. Uma resposta capenga como essa não combina com o senhor.
Mister Bell, acho que eu seria o último homem capaz de fazer qualquer esforço para defender Thomas Cardif e...
Pela eterna Via Láctea! — interrompeu Bell em tom contrariado. — Quem falou em defender Thomas? Só se defende alguém que foi acusado, e por enquanto nem chegamos a esse ponto. Ou será que o monstro positrônico também atribuiu a tentativa de assassinato a esse rapaz?
Seu olhar caminhava entre Atlan e Rhodan, mas ninguém deu uma resposta.
Naquele instante ouviu-se, de forma quase inesperada, a voz metálica do gigantesco centro de computação.
A voz monótona dizia:
As perturbações políticas que atualmente põem em perigo a existência do Grande Império são uma manifestação de sua existência.
Com um olhar de desprezo para o lugar de onde provinha a voz, Bell disse:
Isso é um sofisma barato!
O computador positrônico prosseguiu:
A autoria das agitações é de importância secundária; além disso, a influência de Thomas Cardif não atinge o grau de intensidade que se atribui às suas ações.
Enquanto Árcon não estiver em condições de enviar forças a todos os distritos do império, qualquer ação contra os autores das desordens apenas constituirá um desgaste inútil de forças, uma vez que a conseqüência normal da pressão é uma pressão em sentido contrário...”
Bell tentou balbuciar alguma coisa, mas sua voz saiu tão alta que Perry Rhodan e Atlan não poderiam deixar de ouvi-lo:
O sentido de sua fala é tão obscuro que, face ao mesmo, os Sacos de Carvão da Via Láctea parecem áreas de estacionamento fortemente iluminadas.
Mas logo aguçou o ouvido.
Desde o fracasso do atentado contra Gonozal VIII, Thomas Cardif já não é o espírito dirigente dos mercadores galácticos. O setor de interpretação afirma com 99,5 por cento de probabilidade que a influência exercida por Thomas Cardif sobre os movimentos subversivos já não assume a menor importância. Todas as ações encetadas após a tentativa de furto do ativador celular demonstram subitamente a ausência das grandes linhas que sempre caracterizaram os atos de Cardif. Mas nem por isso diminui o perigo das revoluções violentas, pois a evolução histórica do Grande Império já conduz às mesmas.
As investigações da polícia robotizada e a interpretação por nós levada a efeito revelam que o atentado com explosivo, no qual foi destruído o carro-mensageiro do imperador e vitimado um terrano, deve ser atribuído aos novos arcônidas. Supõe-se com um grau de segurança de 67,45 por cento que cerca de um milésimo desses novos arcônidas tiveram seus cérebros afetados em virtude da hibernação prolongada. O atentado em si deve ser visto como ação isolada, que não tem qualquer sentido ou objetivo definido. As conseqüências também foram diminutas.
A pergunta sobre qual seja o planeta que constantemente fornece novos impulsos, que visam à ruína econômica e ao apoio dos movimentos subversivos, só admite uma única resposta baseada no processamento de todos os dados até agora recebidos, e considerado o grande número de planetas habitados: planeta Archetz, pertencente ao sistema de Rusuma.”
O grande centro de computação calou-se.
Dois homens do planeta Terra e um arcônida refletiam intensamente.
Archetz era o mundo central dos salta-dores. Archetz, que se fundira em grande parte sob o furacão de fogo de três mil espaçonaves dos druufs, seria o quartel-general dos subversivos?
Perry Rhodan nem pensou em fazer pouco-caso das informações que acabavam de ser fornecidas pela gigantesca máquina positrônica. Pelo contrário. Estava disposto a reconhecer que não estava bem informado sobre o planeta dos saltadores. Sendo assim, não podia permitir-se qualquer contestação.
Archetz? — repetiu em tom pensativo.
Essa palavra representava uma solicitação indireta para que Atlan se pronunciasse sobre as palavras do computador gigante.
Bell adiantou-se ao novo imperador do Grande Império.
Perry! — colocou as mãos sobre os ombros do amigo e, em seu rosto sério, parecia haver uma súplica.
A pausa, que se seguiu ao nome do amigo, obrigaria qualquer um a aguçar o ouvido.
Você acaba de ouvir da boca dessa grande caixa desalmada: todas as ações encetadas após a tentativa de furto do ativa-dor celular demonstram subitamente a ausência das grandes linhas que sempre caracterizaram os atos de Cardif.
Neste momento, o computador não procura esconder a realidade, Perry! Seu filho é um desertor. Violou seu juramento. Como Administrador-Geral do Império Solar, você não pode passar por cima deste fato. Um dia, Thomas terá de ser responsabilizado por isso. Mas você, como pai, deve construir a ponte que lhe permita assumir a responsabilidade de seus erros.
Perry, você e Thora falharam. E quem os acusou? Foi só sua consciência? Será que você acha que, com isso, tudo está liquidado, meu velho? Isso não seria uma atitude confortável demais? Será que Thomas deve ser atingido por todo o peso do castigo?
Perry, não aceito sua passividade, não quero aceitar e não posso aceitar.
Você deve fazer alguma coisa pelo rapaz! Será que seu filho, que é tão bem-dotado quanto você, vai arruinar-se que nem um cão vadio?”
Ouviu-se um eco no interior da enorme sala vazia, situada no coração da gigantesca abóbada.
Parecia um eco fantasmagórico.
Berrou de volta as palavras exaltadas de Reginald Bell, apenas em tom mais abafado, mas por isso mesmo mais impressionante:
...arruinar-se que nem um cão vadio?
Atlan colocou-se entre os dois homens, tentando separá-los. Em seus olhos havia o espanto de um homem sacudido por suas emoções.
Mister Bell — disse em tom de súplica.
Fez um gesto de compreensão para aquele homem exaltado. Segurou o braço de Perry Rhodan.
Perry, você soube como lidar com os arcônidas, os saltadores, os aras, os druufs e os tópsidas, e não sei mais quem. Também saberá lidar com seu filho. Desde quando o ovo é mais inteligente que a galinha?
O que querem que eu faça? — perguntou Rhodan, em tom penetrante.
Subitamente seus olhos cinzentos mostraram o brilho duro como o aço.
Perry, você está bem no centro deste confronto com seu filho. Bell e eu apenas acompanhamos os acontecimentos da periferia. Você deve juntar-se a nós, ocupar nossa posição. Dessa forma encontrará um meio de construir a ponte que levará a Thomas. Você é um homem que já acumulou suas experiências. Durante anos, eu o observei e o invejei pela capacidade de conduzir os homens. Use sua capacidade, bárbaro. Procure e encontre um caminho, mas esse caminho deverá deixar uma chance para seu filho.
Um gigantesco império estelar estava ameaçado de desmoronamento, depois de mais de quinze mil anos de existência. E esses três homens, em cujas mãos continuava a repousar, ao menos em certa extensão, o destino do Grande Império, conversavam exaltadamente a respeito de um tenente desertor da Frota Solar. Sobre Thomas Cardif, o filho de Perry Rhodan.
Atlan e Bell sabiam quanto Rhodan sofria pelo fato de seu filho único ser também seu inimigo mais encarniçado e perigoso. Eram as únicas pessoas do grupo estelar M-13 e do sistema solar que compreendiam toda a extensão da tragédia.
Perry Rhodan não era nenhum super-homem. Para recuperar a forma de antigamente, precisava de paz e equilíbrio interior. Não possuía nem uma coisa, nem outra. Mas ainda possuía seu admirável auto-domínio.
Respirou profundamente e disse:
Sim; é o que vou fazer.
2



Os jardins internos do palácio de cristal eram de uma beleza atordoante. No mundo de cristal ou Árcon I, tudo identificava-se com a beleza.
Perry Rhodan fitava este mundo, de dentro de um conjunto de salas, que parecia ter sido criado unicamente para manter afastadas as preocupações do dia-a-dia.
Atlan pigarreou às suas costas. Atlan, chamado de Gonozal VIII, imperador do Grande Império. Perry virou-se.
Este mundo de cristal é um veneno, Atlan. Produz o fleuma e...
Concordo plenamente com você, bárbaro — interrompeu-o o imperador. — Providenciarei para que o menor número possível de novos arcônidas conheça este planeta. Acredito que aqui em Árcon I tenha sido atingido pelas saudades da Terra.
O quê? Você? Um arcônida da velha estirpe fala em saudades? Você, que cresceu entre as estrelas? — perguntou Rhodan em tom de espanto.
Atlan fez um gesto afirmativo.
Cada mundo ou tem seu veneno ou vicia o indivíduo em algum ponto. A Terra cria a saudade pela Terra. Se existe alguma coisa de que me arrependo, amigo, é de ter vivido dez mil anos entre vocês. Por isso não tive muita dificuldade em compreender Thomas Cardif. Assim sendo, tenho a impressão de que sei por que lhe veio a idéia de mandar furtar meu ativador celular. Se fosse um terrano, não poderia deixar de odiar seu filho, pois sua mentalidade me obrigaria a isso. Felizmente continuo a ser um arcônida. Apesar do lance pelo qual quis pôr-me fora de ação através do furto do ativador celular, eu o admiro. Só os mercadores galácticos parecem não ver mais nada de extraordinário nele. Estas são as últimas notícias que recebemos, amigo. Foi por isso que eu o mandei chamar.
Rhodan sentou-se à frente do imperador. A poltrona, que corporificava um estilo de vida talhado unicamente para o gozo, amoldou-se automaticamente à postura de Rhodan.
Perry não estava disposto a suportar uma poltrona como aquela. As conferências se haviam sucedido desde o amanhecer. Durante mais de duas horas, tempo padrão, falara com Terrânia, e, por três vezes, teve que tomar decisões de graves conseqüências para Árcon I.
Uma coisa muito rara aconteceu naquele momento.
Rhodan soltou uma praga e levantou-se abruptamente.
Maldita poltrona! Devia ser queimada.
Não notou o sorriso de Atlan.
Voltou a sentar-se. Leu a última notícia, baixou o papel e lançou um olhar insistente para o imperador. Este inclinou-se para frente.
É a última. Chegou no momento em que você estava entrando, Perry.
Também...?
Atlan fez que sim. Rhodan preferiu não perder mais nenhuma palavra.
O serviço secreto arcônida ainda sabia trabalhar. Todas as notícias provinham dali. E essa mensagem referia-se a Archetz, o mundo dos saltadores, situado no sistema de Rusuma.
A notícia também não dizia uma única palavra sobre Thomas Cardif. O serviço noticioso do imperador não conseguira descobrir nada a seu respeito. Mas a isso se contrapunha a informação de um agente, o saltador Sulok, que trabalhava para o Serviço de Defesa Solar. Segundo tal informação, numa conversa de taverna fora mencionado que o filho de Rhodan se encontrava em Archetz. O administrador-geral pensou nessa notícia, enquanto colocava o papel sobre a mesa.
Atlan, estou admirado porque nossos dados sobre o mundo dos saltadores não incluíam a evolução mais recente dos acontecimentos.
O imperador contraditou-o em tom resoluto.
Os dados que você dispunha eram bons; apenas acontece que, em nossa interpretação, não havia sido considerada a atividade dos mercadores galácticos. Devem ter transformado o planeta de Archetz, no curso dos últimos decênios, num gigantesco complexo de subterrâneos, nos quais foram abrigadas a maior parte de sua indústria e cerca de oitenta por cento da população do planeta. Esses saltadores astuciosos aproveitaram-se dos pesados danos, causados na superfície, e da destruição de Titon, uma metrópole de doze milhões de habitantes, e de mais de três cidades grandes, levada a efeito pelos druufs, para camuflar suas atividades. Na superfície, Archetz é um mundo destruído. Mas, em seu interior, abriga uma indústria pesada intata, dotada das mais modernas fitas rolantes, que se destinam à produção em série de suas naves cilíndricas. O desmoronamento econômico ocorrido na área de atividades dos mercadores galácticos e dos aras não abalou esse núcleo de poder. Para usar as palavras de Bell: Caramba! Se esse fato puder ser atribuído à iniciativa de Cardif, seu filho, Perry, só pode merecer nossa admiração.
Os olhos cinzentos de Rhodan começaram a chamejar.
Qual é o motivo dos constantes elogios, arcônida? O que pretendem conseguir com isso?
Apenas queremos ajudar-lhe, Perry. Você não deveria ver apenas o lado negativo de Cardif. Pelos nossos deuses, bárbaro! Não me sinto nem um pouco entusiasmado pelo fato de que Cardif se encontra do outro lado e tentou destruir-me, para causar a sua ruína, Rhodan. Acontece que não posso negar a evidência dos fatos: você não poderia ter sido mais eficiente no desencadeamento dessas ações. Perry, meu amigo, será que você não vê que Cardif é um gênio tático? Conhece mais algum homem que disponha das mesmas capacidades? Eu não conheço! E, tanto você como eu, precisamos de gente bem-dotada.
Rhodan exaltou-se.
Atlan, o que é que vocês querem levar-me a fazer?
O Imperador Gonozal VIII sorriu amargurado.
Se pudesse levá-lo a fazer alguma coisa, eu o faria. Acontece que você não pode ser levado a fazer coisa alguma. Só, através de você mesmo, pode ser levado a fazer algo. E, no momento, sente-se, talvez, incapaz. É o preço que temos de pagar pelo privilégio de estarmos na ponta. Essa ponta é muito pequena; tão pequena que só uma pessoa cabe nela de cada vez. E tão pequena que nela nem se pode ficar confortavelmente de pé. Temos de nos equilibrar constantemente!
Nem parece que você é um arcônida.
Obrigado, Perry! — um brilho de felicidade surgiu nos olhos de Atlan. — Muitas vezes eu gostaria que você estivesse no meu lugar. Invejo você, que é o administrador de seu insignificante sistema planetário.
É mesmo?
Foi só o que Rhodan teve a dizer. Seu olhar atingiu o rosto de Atlan.
Num ponto eu não o compreendo, Atlan. Por que não pede insistentemente que Thomas Cardif seja posto fora de ação? Ou por que não o faz? Afinal, ele está colocando em risco a existência de seu império!
O Imperador Gonozal VIII ergueu-se lentamente. Contornou a mesa estreita e comprida e parou à frente de Rhodan. Colocou a mão sobre o braço do administrador.
Será que de repente não nos compreendemos mais, meu amigo? Mas se interviesse agora, isso representaria o fim de nossa amizade. Como imperador do Grande Império tenho o dever de fazê-lo. Mas, se um belo dia nós dois nos defrontarmos como inimigos, meu reino estelar não terá nada a ganhar. E se eu me adiantasse à sua ação e fizesse com que Thomas Cardif se defrontasse com as leis implacáveis de Árcon, segundo as quais teria de ser condenado à morte, nós nos tornaríamos inimigos. Haveria de chegar o dia em que você me acusaria por ter agido assim, a não ser que você nunca tenha sido pai, e Thomas nunca tenha sido seu filho. Mas, se fosse assim, você já não seria meu amigo, Perry...!
Os olhos amarelados de Atlan chamejavam. Sentia-se dominado por uma forte comoção.
Perry Rhodan parecia pensativo. Subitamente levantou-se e disse:
Providenciarei para que decolemos dentro de uma hora, a fim de regressar à Terra. Se receber novas notícias sobre Archetz ou Thomas Cardif, faça o favor de transmiti-las a mim.
Quer dizer que voltaremos a encontrar-nos dentro de poucos dias, Perry?
Atlan compreendera perfeitamente. A notícia surpreendente de que, dentro de uma hora, Perry pretendia voltar à Terra não representava outra coisa senão o primeiro passo dado no sentido de eliminar Thomas Cardif do jogo dos mundos.
Sim, Atlan. Dentro de poucos dias, voltarei para M-13...
3



Os cientistas de Terrânia encontravam-se em estado de alarma.
Perry Rhodan regressara há poucas horas do Império de Árcon, e não foi esta a primeira vez em que seu regresso desencadeou uma atividade extraordinária.
Mais de cinco mil colaboradores, cada um deles um especialista de primeira ordem em sua área, foram informados pelos chefes setoriais sobre a nova tarefa que devia ser cumprida.
Quando os etnólogos se puseram a trabalhar, logo se sentiram tomados de espanto. E o espanto transformou-se em pavor.
Foi o Dr. Orge Olundson quem primeiro lhe deu expressão.
Se nos atrevermos a apresentar isto ao chefe, haverá um barulho tremendo!
Ninguém o contestou. Fitavam-se perplexos. O material de que dispunham era extremamente escasso. Já haviam consultado o enorme computador positrônico do supercouraçado Drusus, nave capitania de Rhodan. Recorreram às informações armazenadas no mesmo, mas não descobriram nada que não soubessem antes.
Sua tarefa podia ser descrita da seguinte forma:

A 248 anos-luz de Árcon, fica o sistema solar de Forit. O respectivo sol é pequeno e avermelhado. Possui quatro planetas. O segundo é o planeta Solten, que está habitado.
Precisamos de minuciosas informações étnicas, etnográficas e etnológicas sobre os soltenses.

Acontece que, pelos padrões arcônidas, os soltenses deviam ser um povo tão insignificante que o Grande Império acreditava ter dito tudo a seu respeito, ao consignar as seguintes informações em seu catálogo etnológico:

Soltenses, ex-arcônidas, degenerados, tamanho médio 1 metro e 70 centímetros, curvatura da coluna em forma de corcunda, testa saliente.
Matriarcado, demonismo.
Mentirosos.

O Dr. Orge Olundson, chefe da divisão de etnologia, tornara-se no curso de dois decênios um grande conhecedor da etnologia arcônida. Naquele momento brincava com o lápis. Traçou um círculo após o outro em torno da terceira frase do escasso material informativo, frase esta formada exclusivamente pela palavra “mentirosos”. Parecia perplexo.
Acho que algum colega arcônida permitiu-se uma brincadeira — disse num solilóquio. — Isso não existe. Será que todos os soltenses são mentirosos? — levantou a cabeça, largou o lápis e olhou em torno. — Então, cavalheiros, como vamos continuar? Alguém tem uma idéia de como poderemos conseguir mais material sobre os soltenses?
Na divisão médica de bioplástica reinava a mesma perplexidade. A única informação relativa ao aspecto exterior dos soltenses consistia em algumas fotografias mal tiradas. Não havia nenhum arquivo que fornecesse as informações de que precisavam.
O Dr. Alfo Alvarez profetizou:
Se eu explicar ao chefe que a tarefa que ele nos confiou não pode ser cumprida, seremos todos despedidos. O que têm a dizer sobre isso?
O perito econômico para o comércio intergaláctico, Jean de Canin, não parecia menos desolado:
Pelos anéis de Saturno, onde poderei obter dados sobre o contrato de royalties celebrado entre os soltenses e o chefe dos saltadores, Cokaze? Nunca ouvi falar sobre isso, O senhor sabe de alguma coisa, Townless?
Townless também não sabia nada a respeito. Limitou-se a sacudir a cabeça e continuou a morder o lápis. O estado de ânimo da divisão encontrava-se bem abaixo da marca zero.
Se eu aparecer à sua frente de mãos abanando, o chefe ficará furioso, Townless! — lamentou-se Canin.
Acontece que não posso arrancar as informações da ponta dos dedos, Canin — respondeu Townless com a maior tranqüilidade. — Vou chamar os etnólogos. As peculiaridades econômicas de um povo não deixam de ser características típicas. Vejamos o que podem dizer-nos...
A central do sistema de intercomunicação respondeu. Townless pediu que o ligassem com o Dr. Olundson.
Os traços da tela estabilizaram-se à frente de Townless. O rosto contrariado de Olundson apareceu diante dele. Os dois não se conheciam pessoalmente.
Townless apresentou-se.
Quem sabe se o senhor pode ajudar-nos, doutor? Temos necessidade urgente de dados sobre os soltenses.
Sobre os mentirosos? — perguntou Olundson.
Sobre quem...? — estas palavras foram proferidas por Jean de Canin, que de um salto se colocou ao lado de Townless. — Quem são os mentirosos, doutor?
O Dr. Orge Olundson respondeu com a maior impassibilidade:
Os soltenses são mentirosos! É ao menos o que diz o catálogo etnológico arcônida. De resto, também não sabemos de nada. Estamos boiando...
Pois nós já estamos com água até o pescoço! — confessou Canin. — Um momento! Já sei o que vou fazer. Vou entrar em contato com o Serviço de Defesa Solar. Este deve dispor dos dados, doutor. Voltarei a chamar daqui a pouco. Combinado?
Estavam todos na mesma canoa. O Dr. Olundson confirmou com um gesto. Parecia satisfeito.
A ligação com a divisão de arquivo do Serviço de Defesa Solar foi estabelecida num instante.
Uma beleza feminina apareceu na tela. O francês que havia dentro de Jean de Canin acordou. Não procurou dissimular a admiração que sentia diante de tamanha beleza, mas nem por isso se tornou inoportuno. Sua atitude devia ser interpretada como um elogio pela jovem bela e radiante do arquivo do Serviço de Defesa. Apesar disso, Canin falou com a voz indiferente, quando pediu informações sobre os soltenses, uma raça que habitava um sistema de quatro planetas, cujo centro era o sol Forit.
Peço que nos forneça todos os dados que possui. O chefe confiou-nos uma tarefa urgentíssima, que não podemos executar por falta de material. A senhora nos ajudará, não é mesmo?
A jovem disse que sim. Sua imagem desapareceu da tela, mas a ligação não foi interrompida. Townless fitou Canin e disse:
Acho que vou pedir transferência... Não sabia que em Terrânia existem coisas tão bonitas.
Ah, é? — respondeu Canin. Depois permaneceu calado.
Esperaram.
Subitamente a imagem da jovem voltou a aparecer. Seu sorriso encantador desaparecera. A voz perdera o timbre claro.
Sinto muito — disse — mas também não possuímos dados sobre o sistema de Forit. Apenas os que nos foram fornecidos pelos arcônidas. E estes o senhor já deve ter.
Sim — respondeu Jean de Canin. — Já temos. Apenas acontece que não sabemos o que fazer com tais dados. Em Solten não há nenhum agente nosso?
Num mundo tão insignificante? Acho que o senhor está superestimando a capacidade do Sistema de Defesa Solar, ou então está subestimando o tamanho do Império de Árcon — disse a jovem com uma ligeira recriminação na voz.
Jean de Canin sorriu.
Será que não poderíamos conversar mais demoradamente sobre isso hoje de noite?
Não conseguiu dizer mais nada. Sem alterar seu sorriso encantador, a jovem disse:
Meu filho mais novo, que tem oito meses, não permite que sua mãe faça uma coisa dessas. Posso fornecer mais alguma informação?
Seu sorriso foi a última coisa que a tela reproduziu.

* * *

Às 14 horas e 20 minutos, tempo padrão, o Dr. Orge Olundson criou coragem e pediu uma ligação com Reginald Bell.
Sim, é urgente! — disse, para reforçar seu pedido. — E é muito importante. Trata-se de uma tarefa urgentíssima e...
Viu-se interrompido:
Ah, é a respeito de Solten? Olundson conhecia as normas relativas ao sigilo.
Faça o favor de ligar-me imediatamente com Mr. Bell.
Dali a pouco, o rosto de Bell apareceu na tela. O amigo de Rhodan possuía uma memória excelente para rostos e nomes. Já se encontrara em alguma oportunidade com o Dr. Olundson. Reconheceu-o imediatamente e chamou-o pelo nome. Percebeu o suspiro de alívio de Olundson.
Então, onde é que o sapato o aperta, doutor? — perguntou com a maior tranqüilidade.
Depois disso, Bell vez por outra soltava um “hum” ou um “ah, é?” mas não interrompeu seu interlocutor. Só começou a falar quando o etnólogo concluiu seu relato e informou quais eram as divisões sediadas em Terrânia, que estavam quebrando a cabeça com aquilo.
Exporei isso ao chefe e depois mandarei informá-lo. Ainda bem que o senhor ao menos teve a coragem de falar comigo, pois do contrário teríamos perdido ainda mais tempo.
Bell desligou.
Temos de entrar em contato com Atlan, Perry! — disse ao entrar no gabinete de Rhodan.
Por quê? — a pergunta de Rhodan tinha sua razão de ser, pois fazia apenas algumas horas que haviam saído de Árcon I, o mundo de cristal.
Não dispomos de dados sobre o planeta Solten e nem sobre o povinho que o habita. O etnólogo Dr. Olundson acaba de telefonar e disse que ninguém possui qualquer informação sobre esse mundo, situado no sistema de Forit. Nem mesmo o Serviço de Defesa possui dados. Só Atlan poderá ajudar-nos.
Perry Rhodan fez uma pergunta que deixou Bell estupefato.
Escute. Quem teve essa idéia relativa aos soltenses, gorducho?
Foi você! Pois eu nem sequer conheço esse povo de nome.
Fez uma pausa e fitou atentamente o amigo.
Será que você não se lembra mais, Perry?
Bell ainda se lembrava perfeitamente de que não fazia muito tempo que um determinado setor da memória de Perry sofrerá um forte bloqueio sugestivo. E esse bloqueio fora causado por um homem completamente normal, que em virtude da injeção de uma toxina dos aras, se transformara num sugestor tão potente.
De repente, Perry sorriu. Lera os pensamentos do amigo.
Não se preocupe, Bell! De qualquer maneira, é estranho que eu não me lembre quem ou o que despertou minha atenção para os soltenses. Isso me preocupa um pouco, mas a hipótese da sugestão ou da hipnose está excluída.
Tomara que você tenha razão. Vamos entrar em contato com Atlan?
Deixe Atlan em paz. Este já carrega um peso muito grande com a dignidade de imperador... Mas é graças a ele que podemos estabelecer contato direto com o grande centro de computação. Entre em contato com Mercant. Ou melhor, vá à sua presença. Ele lhe fornecerá os dados necessários. Depois disso, você terá de mexer-se mais um pouco e ir até a grande estação de hiper-rádio. Uma vez lá, você botará todos para fora por algum tempo e manipulará pessoalmente os controles. Utilize o processo negativo de hipercomunicação.
Bell soltou um assobio.
Coitados dos mercadores galácticos que forem especialistas em decodificação! — soltou uma estrondosa gargalhada.
Imaginava como eles contemplariam em atitude de desespero as curvas de hiper-rádio sobre o oscilógrafo sem conseguir compreender por que não obtinham um único som que fizesse sentido, embora tivessem determinado o compasso de condensação e o ritmo de distorção com a precisão de cinco casas decimais.
Está bem, Perry — disse, ainda rindo. — Enquanto uso o processo negativo de transmissão radiofônica não penso no meu dedo cortado e...
Ponha-se daqui para fora, gorducho! — gritou Rhodan, mas não estava falando tão sério como parecia.
Aos poucos estou gostando novamente de você, Perry — disse Bell, sorrindo.
Rhodan interrompeu-o com um gesto, mas logo mudou de idéia:
Não basta dizer sim; isso tem de vir do coração.
Compreendo — Bell, de um instante para outro, tornara-se sério. — Thomas deveria ter sido educado ao menos por algum tempo por meu pai. Foi um alto funcionário da polícia. Quando me dava uma sova... Nem queira saber como estas lições foram proveitosas. Bem, vamos passar uma esponja sobre isso. Vou falar com Mercant.
Não se esqueça da conferência com os mutantes, marcada para as 16 horas e 10 minutos.
Quer dizer que você insiste no projeto de Solten, embora não saiba quem lhe deu essa idéia? — voltou a perguntar Bell, em tom insistente.
Por enquanto sim!
Dali a pouco, Bell estava sentado à frente de Allan D. Mercant, chefe do Serviço de Defesa Solar. Já haviam falado sobre os aspectos técnicos da comunicação com o gigantesco computador positrônico de Árcon III. Naquele momento, Bell transmitia os resultados de suas observações a Mercant, que o ouvia atentamente.
Perry excluiu a possibilidade de uma influência hipnótica ou sugestiva. Acontece que não consigo esquecer-me do que aconteceu comigo, Mercant, e neste momento eu me lembro...
Hum... de Thora e de sua recomendação de ir ao planeta de Honur. Compreendo perfeitamente o que quer dizer, Bell. Acho que, se eu informar Marshall e pedir a ele que tome todas as precauções, não deve ter nenhuma objeção.
Mercant costumava exprimir-se com toda discrição.
Concordo plenamente — respondeu Bell. — Perry explodirá de raiva, quando souber que mandamos vigiá-lo, mas o cuidado nunca é demais. Estou disposto a enfrentar o barulho que ele vai fazer. E, Mercant, tudo isso apenas...
Mercant soltou um gemido e levantou os braços.
Bell, deixe seu polegar de lado. Antes do fim do ano, o senhor ainda irá pôr toda a Via Láctea louca com essa conversa.
Reginald Bell fitou atentamente a ponta do polegar direito.
Quando lhe mostro meu polegar direito, Atlan também costuma ficar nervoso. Ainda bem que às vezes existem meios bem mais simples de reforçar uma advertência...
Bell retirou-se, deixando para trás um chefe do Serviço de Defesa muito pensativo. Este disse para si mesmo em voz baixa:
O que será que o gordo quis dizer? Será que acredita nessa bruxaria, ou apenas recorre a isso para evitar que os outros “durmam”? Costumava ser um homem completamente normal, mas desde a festa do Ano Novo está sendo cavalgado pelo demônio...
Estava fazendo uma injustiça a Bell. Este apenas temia à sua maneira o ano de 2.044, que estava chegando ao fim.

* * *

Enre, um gigante de mais de dois metros, de rosto bexiguento e cabelos desgrenhados, que trajava apenas uma manta, contemplou a curva do oscilógrafo.
Era o especialista de hiper-rádio mais competente de Archetz. No curso dos últimos decênios, enriquecera com as importantíssimas invenções que fizera nessa área.
Virou a cabeça e lançou um olhar desconfiado para Olgall.
Afinal, isto é uma curva de hiper-rádio, e vocês vêm me dizer que não conseguem extrair uma única palavra sensata da mesma?
Pela expressão do rosto de Olgall poder-se-ia ser levado a acreditar que ele estava sendo martirizado por uma terrível dor de dente.
Uma palavra? — continuou esbravejando. — O que conseguimos descobrir não existe; nunca existiu! Até parece o berreiro dos demônios estelares. Ouça...!
Bateu furiosamente numa tecla.
No mesmo momento ouviu-se uma algazarra inconcebível. Não era nenhum choro, nenhum crepitar produzido por perturbações do campo magnético, não era o grasnado ou o uivo de ondas superpostas que interferissem umas nas outras. Também não era um impulso deformado ou um raio distorcido, que surge muito raramente no tráfego de hiper-rádio e faz com que, por algum motivo inexplicado, a mensagem seja irradiada em todas as direções possíveis, menos naquela que deveria seguir.
Realmente parecia que os demônios haviam marcado um encontro na grande estação subterrânea de hiper-rádio do planeta Archetz. Davam a impressão de berrarem a plenos pulmões na sua língua.
Desligue isso! Desligue! — berrou Enre, tapando os ouvidos.
Um sorriso presunçoso surgiu nos lábios de Olgall.
Desligou e perguntou em tom irônico:
Então, acha que eu tenho razão ou não?
Enre estava fora de si.
Quero a fita completa! — ordenou.
A fita era uma faixa perfurada de pequenas dimensões, fornecida pelo automático positrônico que funcionava acoplado com o receptor. Num gesto apressado, Enre empurrou a fita para dentro do aparelho de interpretação, que por meio de um processo ótico tornava visíveis todos os impulsos, apresentando-os em forma de diagramas. Só mesmo um perito experimentado seria capaz de extrair algum sentido da aparente confusão resultante da representação pictórica de relações numéricas.
Enre concentrou-se sobre o quadro. Mandou que tudo fosse visualizado de novo. Voltou a examinar o oscilógrafo, viu as amplitudes características e disse em tom inseguro, como quem não tem muita certeza do que está dizendo:
Isto é completamente normal, Olgall.
Acontece que minha dor de ouvido não é normal, Enre — respondeu Olgall, em tom mordaz. — Isto não me interessaria muito, se esta mensagem não tivesse sido irradiada no curso de uma comunicação da Terra com o computador regente.
Enre estreitou a capa em torno do corpo. O alarma de Olgall arrancara-o da cama. O único sinal disso eram os cabelos despenteados. Agora estava acordado como nunca estivera. Estava à espreita: espreitava as próprias reflexões.
Mais uma vez...
O novo exame não forneceu a menor indicação.
Quer que mande tocar isso mais uma vez? — perguntou Olgall. — Se quiser, sairei antes.
Enre não tinha a menor vontade de voltar a martirizar seus ouvidos. Lançou um olhar pensativo para Olgall.
Será que convém chamar o terrano? — perguntou em tom hesitante.
O tal do filho de Rhodan? — perguntou Olgall em tom de espanto.
Isso mesmo. Talvez ele nos forneça alguma informação sobre a nova técnica de codificação usada pelos terranos. Mas se essa técnica tiver sido elaborada pelo computador, também ele não nos poderá dizer nada.
Olgall balançou a cabeça.
Pelo que dizem, o patriarca Cokaze já não tem muita simpatia por Cardif. Não tenho a menor dúvida de que consentirá em libertar Cardif para este fim...
Libertar? — repetiu o especialista em hiper-rádio. — Isso significa que...
Ouvi dizer que sim. Não sei se é verdade...
Preferiu calar-se. Enre parecia indeciso.
Olgall, dê-me outra fita que tenha aproximadamente o mesmo comprimento, a fim de fazermos uma comparação...
Olgall sorriu.
Já fiz isso, Enre! Mas fique à vontade.
Olgall tinha razão. Tanto no oscilógrafo como no aparelho de interpretação as duas mensagens de hiper-rádio, examinadas ao mesmo tempo, não apresentaram qualquer diferença. De repente Enre teve uma idéia.
Olgall, os terranos interpuseram um fonovariador. É um processo velho.
Não havia mais nada que pudesse espantar Olgall. Já havia quebrado a cabeça a respeito da mensagem de hipercomunicação que acabara de ser captada e não tinha a menor esperança de que conseguiriam num curto espaço de tempo decifrar comunicações de hiper-rádio desse tipo.
O que vem a ser um fonovariador, Enre? Nunca ouvi falar nisso.
Um aparelho que modifica os sons. Transforma, por exemplo, um A num U bem profundo, ou faz aparecer determinada consoante em soprano, para da próxima vez transformá-la num grasnado.
Olgall não tinha a menor vontade de perder mais tempo com essa mensagem indecifrável.
Deixo isso por sua conta, Enre! Não conheço nenhum fonovariador. Se os terranos o construíram segundo o método positrônico das escolhas casuais... Bem, Enre, divirta-se com as cento e vinte e três milhões de possibilidades. Eu...
Segurou-o pelo braço e apontou para o receptor, que continuava regulado para a hiperfreqüência do computador regente.
Naquele momento estava sendo captada outra troca de mensagens entre a Terra e Árcon III.
Enre desprendeu-se e dirigiu-se ao quadro de controle. Observou três instrumentos, sem tirar os olhos dos mesmos. A seu lado, o setor de processamento trabalhava silenciosamente, regulando-se para o compasso de concentração ou o ritmo de distorção daquela transmissão de hiper-rádio.
Mas nenhum elemento de referência para o fonovariador — disse Enre, em tom de desapontamento.
Seguiram-se outros cotejos de dados. O compasso de condensação e o ritmo de distorção mais uma vez haviam sido determinados com uma precisão de cinco casas decimais. Um minúsculo aparelho esticava os impulsos condensados, convertendo-os ao comprimento normal e, ao mesmo tempo, a distorção era eliminada. Só faltava ligar o oscilógrafo.
Pare! — berrou Olgall e bateu de punho cerrado na tecla principal de suprimento de energia. — Isso é insuportável, até mesmo baixinho. O que será que esses terranos inventaram desta vez?
Talvez tenham sido os arcônidas — observou Enre.
Essa observação provocou a contradita de Olgall.
Os arcônidas? Nunca! Mas agora também já acredito que devemos chamar o filho de Rhodan. Se há alguém que possa colocar-nos na pista certa, é ele. Quer falar com Cokaze, Enre?

* * *

Naquela hora, Bell dispunha de uma extraordinária capacidade de previsão. Depois da segunda troca de hipermensagens com Árcon III mandou que o levassem da estação de rádio ao arranha-céu em que funcionava a administração. Trazia no bolso uma quantidade enorme de dados sobre os soltenses. Mas nem pensava nisso. Seus pensamentos giravam em torno dos saltadores. Sempre que não se sentia muito contente com eles, chamava-os de ciganos estelares.
Agora devia divertir-se com eles, pois soltava uma risada silenciosa e feliz. Até chegou a esfregar as mãos e acenou com a cabeça, mas preferiu não largar as rédeas da fantasia.
E nem poderia imaginar que as duas hipermensagens irradiadas para Árcon III, sob o processo negativo, haviam colocado o Conselho Revolucionário de Archetz em estado de tensão.

* * *

Enre encontrava-se perante uma assembléia dos patriarcas, composta de doze pessoas. Estavam 145 quilômetros abaixo da superfície de Archetz. Eram duas horas da madrugada, tempo padrão. Os doze patriarcas haviam sido arrancados do sono, mas a essa hora ninguém se lamentava por ter sido privado do calor agradável da cama.
Fitavam ansiosamente o rosto de Enre. O maior especialista em hiper-rádio de que dispunham os mercadores galácticos não compreendia por que o Conselho Revolucionário fora convocado às pressas. E também não compreendia por que seu relato provocara tamanho alvoroço entre os experimentados patriarcas.
Atual e Ortece, proprietários do Banco dos Mercadores Galácticos de Titon, cochichavam entre si. O patriarca Cokaze, que desde o dia em que tivera de exercer pressão contra esses dois homens passara a gostar deles cada vez menos, acompanhava a palestra cochichada com um desagrado cada vez maior e, ao mesmo tempo, prestava atenção ao que Enre tinha a dizer.
Cokaze cutucou Gatru, que se encontrava à sua direita. O patriarca Gatru era o proprietário das mais modernas linhas de montagem subterrâneas, que produziam de dez a trinta mil naves cilíndricas por dia, trabalhando pelo sistema de faixa contínua.
Olhe os banqueiros — cochichou Cokaze.
Gatru soltou um resmungo e também passou a observar discretamente os dois sócios.
O movimento subversivo era chefiado por doze patriarcas, que ainda não haviam desistido do plano de eliminar o poder dos arcônidas e substituir o Império dos Arcônidas pelo Reino dos Saltadores.
Acontece que não eram doze homens que estavam sentados em torno da mesa em ferradura, mas treze. O décimo terceiro era o filho de Perry Rhodan, Thomas Cardif, um desertor da Frota Solar que se transformara no pior inimigo do pai.
Só dedicava um ódio mortal a seu progenitor. Via nele o assassino de Thora, sua mãe. Um boato infame que subitamente começara a correr em Plutão, encontrara seu caminho até o filho de Rhodan. Quando a batalha dos druufs em torno da Terra estava em pleno andamento, aproveitara a oportunidade para abandonar o mundo de gelo de Plutão e estabelecer contato com o patriarca Cokaze. Só conhecia um objetivo: a destruição de Rhodan.
E possuía a capacidade de atingir esse objetivo, pois era filho de Rhodan.
Cokaze foi o primeiro mercador galáctico que reconheceu o valor de Thomas Cardif. Os dois banqueiros sentiram esse fato, quando Cardif os obrigou a desencadear de uma hora para outra uma inflação que traria a ruína econômica do império.
O Banco, como costumava ser designado pelos arcônidas, era, face aos seus recursos e influência, cem vezes mais forte que o banco oficial de Árcon.
O primeiro golpe parecia ter atingido o império em cheio, mas seguiu-se o ataque totalmente inesperado de uma frota dos druufs composta de três mil naves, que transformara a superfície do importantíssimo planeta Archetz num campo de destroços.
Uma única pessoa não se impressionara com isso: Thomas Cardif. Este usou todo o poder persuasivo de sua personalidade para levar os saltadores a desferirem o segundo golpe. Mas estes só aceitaram parte do plano taticamente bem elaborado: o atentado contra Atlan, que recentemente se tornara o Imperador Gonozal VIII, do qual mandaram furtar o ativador celular. Tratava-se de uma cápsula maravilhosa, vinda do planeta Peregrino, e que permitira que Atlan não envelhecesse no curso dos últimos dez mil anos.
O atentado fracassara. Depois de uma luta de vida e morte, o ativador celular de Atlan fora tirado de Segno Kaata, o anti.
Em virtude desse fracasso, Cardif passara a ocupar uma posição secundária junto aos patriarcas. Sua presença por ocasião do relato de Enre resultará unicamente do pedido do especialista, que desejava interrogar Cardif sobre o novo sistema de codificação dos terranos.
Naquele dia, a assembléia estava sendo dirigida por Gatru.
O que tem a dizer sobre isso, Cardif? — falou, pedindo que manifestasse sua opinião sobre a exposição de Enre.
Thomas Cardif, a imagem fiel de seu pai. Seu rosto era igual, iguais eram seus gestos, igual ainda era sua capacidade de alcançar imediatamente uma visão de conjunto de qualquer questão e extrair dela as conclusões corretas. Mas faltava-lhe a maturidade de caráter, o autodomínio que já distinguiam o jovem Perry Rhodan, enquanto este ainda servia na Força Espacial dos Estados Unidos, antes que entrasse na primeira Stardust e voasse até a Lua em companhia de Bell, Fletcher e o Dr. Manoli.
Cardif levantou-se. Seus olhos de arcônida, que eram uma herança da mãe, chamejavam.
Não conheço o novo método de codificação da Terra. Na minha opinião, tal método não representa um acontecimento capaz de abalar o mundo. Mas o fato de que a Terra fala diretamente com o computador, embora Atlan se encontre no mundo de cristal, deveria merecer o máximo de nossa atenção...
Obrigado! — interrompeu Gatru, em tom áspero. — Não lhe pedimos que nos apresentasse sugestões, apenas queríamos saber o que sabia a respeito do novo método de codificação.
Thomas Cardif sorriu. Abriu a boca para fazer uma observação mordaz, mas logo voltou a fechá-la e sentou-se. Mesmo quando já estava acomodado há algum tempo, continuava a fitar Gatru, mas de maneira estranha, numa mistura de escárnio, cólera e compaixão.
Gatru, que era um rei entre os clãs dos saltadores e um dos melhores clientes do Banco, era um homem frio, como todo comerciante e grande industrial. Não iria conformar-se por muito tempo em ser alvo do olhar de Cardif. Enquanto Fugir, um patriarca dos clãs unidos de Alton-Fugir, fazia perguntas a Enre, Gatru virou-se para um dos robôs e disse:
Leve-o!
Um sorriso traiçoeiro surgiu no rosto de Ortece e Atual, diretores do Banco, quando dois braços de aço de um robô arrancaram Thomas Cardif da poltrona e o retiraram da sala.
Cokaze, um homem martirizado por sentimentos contraditórios, era o único que não concordava com essa evolução dos acontecimentos. Ficou tão aborrecido com o sorriso traiçoeiro dos banqueiros que se deixou dominar pela cólera. E foi neste estado que se dirigiu a Gatru:
Isso teria sido necessário? Será que você ainda não conhece esse terrano?
Gatru respondeu em tom indignado:
Se você faz questão absoluta de ser considerado um idiota por esta assembléia, o problema é seu, Cokaze. Mas nem por isso nós também somos idiotas. Acho que a permanência na Terra não lhe fez bem.
A barba bem tratada de Cokaze parecia tremer. Seus punhos se cerraram. Os olhos chamejaram de raiva, mas o patriarca não respondeu.
Sua toupeira cega — disse e reclinou-se na poltrona, cruzando os braços sobre o peito.
Permitira-se entrar em choque com o patriarca mais rico de Archetz, e sabia que podia permitir-se uma coisa dessas. Tinha atrás de si os patriarcas que passavam a vida entre as estrelas, nas naves de seu clã. Qualquer mercador galáctico via nos membros de sua raça, que viviam em Archetz, um grupo de toupeiras cegas. Era a pior ofensa que podia ser dita a um habitante do mundo de Archetz.
Gatru virou-se abruptamente em sua poltrona. Os olhos estreitaram-se. Suas mãos crisparam-se para agarrar Cokaze.
Faça isso se tiver coragem, Gatru! — disse Cokaze. — Atreva-se a tocar em mim, e dentro, de uma semana você poderá paralisar suas linhas de montagem. Nenhum saltador comprará uma única de suas naves! Não se esqueça de que você depende de nós, não nós de você. Para mim, esse terrano bem vale uma briga com um indivíduo como você.
Na pequena sala, situada 145 quilômetros abaixo da superfície de Archetz, passou a reinar um silêncio completo. Todos estavam ansiosos para ouvir o que Cokaze tinha a dizer a Gatru. O velho chefe de clã olhou em torno, admirado. Todos o fitavam com os rostos tensos. Cokaze soltou uma risada de escárnio:
Isso mesmo; prestem atenção! Gatru mandou retirar o terrano. Não concordei com isso. Por quê? Porque o terrano foi o único que reconheceu o que há de importante no relato de Enre: o contato direto entre a Terra e o computador regente de Árcon III, sem a interferência de Atlan.
Será que vocês ainda não compreenderam o que isso significa para nós? Perry Rhodan é o segundo imperador de Árcon. Qualquer pessoa que possa usar o saber e o poder do gigantesco computador positrônico é um pouco mais forte que nós. Ou será que deveremos sentar em cima de um monte de escombros fumegantes e exclamar: este é o novo Império dos Saltadores? Será que não podemos ter outra idéia, senão a de atacar Árcon com todas as naves de que podemos dispor? O que poderemos ganhar com isso? Apenas um monte de escombros! E acabamos de pôr para fora a única pessoa capaz de apontar-nos um outro caminho, menos sanguinolento e mais seguro, que possa conduzir ao nosso objetivo.
Quero mencionar mais um detalhe.
Tomem cuidado. É possível que um dia Perry Rhodan bata à nossa porta, e então apenas poderemos levantar os braços.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html