sábado, 27 de agosto de 2016

P-096 - O Mistério do Anti - K. H. Scheer [Parte 1]

Autor
K. H. SCHEER



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
O destino do Império Arcônida está
nas mãos de um ladrão!

Com o descobrimento na Lua de uma espaçonave arcônida acidentada, foram lançados os alicerces para a unificação de toda a Humanidade terrana e, desta unificação, surgiu o Império Solar. Ninguém podia supor, nem mesmo Perry Rhodan, quantos esforços e firmeza de ânimo seriam necessários, no correr dos anos, para manter este Império frente aos ataques internos e externos.
A mais séria ameaça à Humanidade, que teve seu clímax na invasão dos druufs e na batalha em defesa do Império Solar, pôde ser debelada graças ao eficaz auxílio de Árcon. E a crise na política interna, provocada pelo desertor e traidor Thomas Cardif, foi removida por Gucky.
Porém, um desenvolvimento constante da Humanidade será possível quando houver uma paz definitiva na Galáxia — e até lá, parece haver ainda um longo caminho...
O próprio Atlan, o imortal, que há pouco tempo substituiu a gigantesca máquina eletrônica que costumava sufocar no nascedouro, com suas frotas robotizadas, qualquer tentativa de revolução contra o poder central de Árcon, é o primeiro a desejar a paz.
Atlan, agora com o nome de Imperador Gonozal VIII, e Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, já por simples instinto de conservação, se apóiam mutuamente em suas aspirações.
Não faz muito tempo, foi assinado um pacto de assistência mútua entre Árcon e a Terra. Assim, as velozes espaçonaves do Império Solar estão preparadas para entrarem em ação em qualquer lugar da Galáxia, onde a paz e a ordem forem perturbadas.
Ao voltar de sua excursão à Eternidade, Perry Rhodan considera precária a situação política em Árcon. Então confia a John Marshall, comandante do Exército de Mutantes, o cargo de oficial de ligação junto a Atlan. Mas, ao dar esta ordem, Perry ainda não sabia da existência do Anti.


= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

AtlanUm imortal que só dispõe de sessenta horas para conservar a imortalidade...

John MarshallNão é sem motivo que um telepata exerce as funções de oficial de ligação terrano em Árcon.

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Segno KaataChefe do culto de Baalol, em Árcon.

Ivã Ivanovitch GoratchimUm membro muito importante do Exército de mutantes.
1



Sua Alteza dos milhões de olhos, que tudo vê e tudo sabe, governante de Árcon e dos mundos da ilha desolada, Sua Magnificência Imperial Gonozal VIII, divindade da estirpe dos ancestrais do mundo, houve por bem declarar aberta a sessão do Grande Conselho de Árcon.
Por vezes os passos dos robôs que mantinham as armas preparadas para disparar abafavam as palavras solenes. O chefe do protocolo fizera o possível para que a cerimônia corresse segundo o milenar ritual.
Os cientistas do Grande Conselho de Árcon levantaram-se. Segundo a tradição, os governantes do império estelar deviam vir acompanhados de uma guarda pessoal. Mais de um imperador já fora vitimado pelas intrigas misteriosas da corte.
Cometi uma infração grave ao protocolo, quando determinei que minha guarda pessoal fosse formada por robôs especiais. Não estava interessado em sucumbir ao tiro energético de um guarda naat, que tivesse sido subornado ou submetido a outro tipo de influência.
Sabia que me odiavam! Odiavam-me com toda a intensidade de que ainda eram capazes.
Eu era um intruso, um remanescente dos tempos passados, que aparecera de repente e, graças aos dotes físicos e espirituais, superava em muito os últimos descendentes da raça — antigamente tão ativa — dos arcônidas.
Sabiam que, com o auxílio de um comando terrano, eu conseguira desligar o grande centro de computação, que até então parecia onipotente, para assumir o governo do Grande Império.
Ainda teriam perdoado meu regresso, que se verificara com um atraso de dez mil anos, e, com toda certeza, não se teriam tornado malévolos ou invejosos, apesar das minhas pretensões ao poder, desde que me deixasse enfeixar no molde da decadência geral. Ninguém teria levado a mal minha descendência da antiga família reinante, caso me mostrasse disposto a aceitar a decadência dos costumes, a indolência mental e a inatividade, com um sorriso de resignação dos lábios.
Mas, como não estava disposto a permitir que o Império, corroído pelas revoltas e guerras coloniais que eclodiam em toda parte, decaísse ainda mais, fiz indiretamente pesadas exigências àqueles sonhadores moral e psiquicamente degenerados, que durante sete decênios se haviam sentido à vontade sob o governo-fantoche de psicopatas e indivíduos neuróticos.
Na verdade, o poder fora exercido por um gigantesco centro positrônico de computação, que os cientistas clarividentes de meu povo haviam programado com uma sábia previsão.
Os habitantes dos três mundos de Árcon já se haviam acostumado à ditadura implacável de uma máquina. Mas de repente eu apareci...
Parei na extremidade da tribuna arqueada. Tive, diante de mim, o gigantesco salão no qual, em tempos idos, o Grande Conselho de Árcon fundara o Império, resolvera ampliar suas fronteiras e fizera de meu povo a raça mais poderosa e opulenta dos setores conhecidos da Via Láctea.
E agora as poltronas pneumáticas de muitas cores eram ocupadas pelos descendentes desses pioneiros. E o que fora feito dos representantes de meu povo?
Não se podia dizer que os rostos fossem estúpidos. Mas tive a impressão de que em todos os olhares havia um grande vazio e uma total falta de interesse. Sabia que se sentiam indignados e indagavam por que foram perturbados na calma a que estavam acostumados. Afinal, para que existia um computador-regente, que já provara que em sua programação não havia nada que constituísse uma desvantagem pessoal para os representantes do Império?
Os homens que ocupavam as confortáveis poltronas eram tão indolentes que eu jamais poderia esperar qualquer colaboração de sua parte. Provavelmente já não seriam capazes de mais nada. Os cientistas terranos manifestaram de forma clara e inequívoca a opinião de que os membros do Grande Conselho estavam submetidos a um processo de degenerescência... e não só estes.
A decadência espiritual era visível em todas as partes de Árcon I, o lendário mundo de cristal. Os indivíduos dedicavam-se a prazeres insensatos, aos jogos simultâneos e a doutrinas filosóficas alheias à realidade. Esse estado não encontrava nenhum equivalente nos vinte mil anos de história do império estelar.
Todos acreditavam que deviam manter-se ocupados, para escapar do trabalho. Os representantes de meu povo haviam chegado ao fim do caminho. Perderam tudo aquilo que antigamente distinguia os políticos, cientistas e oficiais arcônidas.
O chefe do protocolo voltou a desfiar algumas frases cerimoniosas, em que eram exaltadas minhas qualidades de divindade dos milhões de olhos e alteza que tudo vê.
Aquelas palavras, que há séculos eram adequadas e significativas, causavam-me repugnância. Naquele ambiente perdiam todo sentido.
Os vinte robôs de guerra colocaram-se à direita e à esquerda do estrado do trono, que flutuava sobre um campo antigravitacional. Os campos defensivos energéticos que protegiam cada uma das máquinas provavam que minhas intenções eram sérias...
E uma demonstração ainda mais inequívoca das minhas intenções residia no alongado aparelho de comando, que usava de forma perfeitamente visível no antebraço esquerdo.
Tratava-se de um transmissor e receptor de impulsos regulado para minhas vibrações orgânicas, que me permitia entrar em contato, a qualquer momento, com o grande centro de computação instalado em Árcon III.
Todos sabiam que soma de poder estava ligada a isso. Ninguém, a não ser eu, estava em condições de dar ordens ao regente.
Era a quarta sessão que estava sendo realizada no grande salão dos ancestrais. Durante as três sessões anteriores, declarara e provara que eu, o Almirante Atlan, membro da dinastia governante dos Gonozal, ficara retido num mundo estranho em virtude de circunstâncias adversas.
Ainda relatara como conseguira escapar à catástrofe de Atlântida e por que só agora me fora possível regressar ao sistema de Árcon, dez mil anos depois de minha partida.
Os oficiais de ligação terranos e Perry Rhodan em pessoa confirmaram minhas alegações. Isso não teria adiantado muito, se o computador-regente não tivesse confirmado integralmente as provas por mim apresentadas, tornando-as irrefutáveis.
O regente provara que eu era Atlan, membro da antiga família reinante dos Gonozal, motivo por que achava-me plenamente capacitado a reivindicar as dignidades de imperador.
Há quatro dias mudara-me para o palácio de cristal de Árcon I. Dispensara as cerimônias da coroação, que consumiriam algumas semanas, e tentara imediatamente localizar os membros do Grande Conselho, que residiam em locais bastante afastados.
Alguns dias depois estavam sentados à minha frente, os velhos e os jovens, os nobres e os distintos, que sempre pensavam e agiam segundo o mesmo esquema.
Pouco antes se verificara o pouso das naves de transporte, que enviara a um sistema solar distante. Os homens altamente competentes de Rhodan haviam conseguido encontrar uma nave emigrante de meu povo, há muito esquecida, e resgatar seus ocupantes.
Tratava-se de cerca de cem mil arcônidas, dos quais cinco mil partiram há alguns milênios, mas foram colocados num estado de hibernação biológica, em virtude de um acidente e de uma série de circunstâncias extraordinárias.
Aqueles homens e mulheres conservavam plenamente sua capacidade de ação, embora tivessem partido depois do meu tempo.
Acontece que ainda não podia recorrer ao seu auxílio. Estavam esgotados e precisavam de descanso.
De qualquer maneira, este achado representava um ponto positivo para mim. Esperava que cem mil arcônidas arrojados e ativos me ajudassem reconstruir o Império. Se, além disso, cuidasse para que a geração ainda não nascida fosse submetida a métodos educacionais adequados, a fim de ser subtraída ao torvelinho generalizado da decadência, devia ser possível renovar o Império dentro de alguns decênios.
Tratava-se, porém, de visões futuristas, que não poderiam ser concretizadas, sem o auxílio dos terranos.
Fui sentando sobre o sofá largo e fiz com que o campo antigravitacional me erguesse. Parei três metros acima da tribuna. Obtive uma excelente visão de conjunto.
Os membros do Conselho estavam sentados de novo. Acharam natural um comportamento que eu não me permitia. Refestelaram-se confortavelmente nas poltronas, cruzaram as pernas e esperaram apaticamente pelo que estava para vir.
Um tanto desanimado, olhei para o oficial de ligação terrano que Perry Rhodan designara recentemente para Árcon.
Tratava-se de um homem esbelto e simpático, chefe do Exército de Mutantes do planeta Terra. Seu nome era John Marshall, e sua extraordinária capacidade telepática estava inteiramente à minha disposição.
Notou meu olhar, que parecia pedir socorro. Abri meu campo de bloqueio parapsicológico, a fim de poder captar os impulsos telepáticos de Marshall. Meu cérebro adicional, ativado há vários milênios, deu sinal de sua presença através de uma pressão dolorosa na parte posterior do crânio.
Muito bem, sir — dizia a manifestação consciente irradiada por Marshall e captada por mim.
Mais uma vez lamentei não dispor de um dom natural desse tipo. Só entendia John, quando ele se concentrava diretamente sobre minha pessoa. E era-me praticamente impossível chamá-lo contra sua vontade. Só conseguia estabelecer contato telepático com ele, no momento em que se concentrasse em mim.
O que estão pensando? — perguntei.
Não muita coisa, sir. Diria que os pensamentos habituais enchem suas cabeças.
Perguntam por que ainda estou vivo, não é?
Exatamente. Não compreendem como o senhor, que partiu há dez mil anos do Império de Árcon, pode ter voltado sem maiores sinais de velhice. Alguns cientistas deram-se ao trabalho de realizar pesquisas na biblioteca pública do Império. Descobriram sua linha de ancestrais, sir. Dessa forma sabem que o senhor realmente é Atlan.
Reprimi uma risada colérica. Ninguém desconfiava da existência do meu ativador celular. Mesmo que revelasse meu segredo, essa gente não conseguiria conceber o funcionamento do pequeno aparelho. Eu mesmo sabia apenas que o processo de decadência natural das células e os fenômenos de envelhecimento dele decorrentes eram detidos por meio de misteriosos impulsos estimulantes.
E isso já vinha acontecendo há muitos milênios. Fiz um movimento discreto em direção ao peito do meu uniforme e tateei os contornos do ativador. O mesmo me concedera, com base num processo biofísico, uma vida eterna, vida esta que estava repleta dia por dia, ano após ano, de saudade ardente por Árcon.
Agora estava em casa, mas encontrara condições que me envergonhavam e revoltavam ao mesmo tempo. Alguma coisa tinha de ser feita para que Árcon pudesse conservar sua grandeza. Uma gigantesca frota robotizada não era suficiente para isso.
Abri a sessão do Conselho. Dali a dez minutos surgiram os primeiros protestos. No princípio, os repeli em tom moderado, e depois de algum tempo por meio de claras ameaças.
Dali a uma hora desisti. Seria inútil tentar obrigar esses homens a iniciar uma vida ativa. Marshall me comunicou que os pensamentos e anseios dos presentes se dirigiam a um único objetivo: eliminar o elemento perturbador, que não era outro senão eu. Todos estavam indignados e refletiam sobre os meios de afastar do poder um imperador surgido de repente.
Não houve qualquer sugestão sensata para o fortalecimento do Império. As raras propostas constituíam um indício evidente de que nem sequer se possuía uma visão clara da situação. Alguns membros do Conselho não conheciam sequer as condições reinantes na frente dos druufs.
Ninguém deu atenção ao oficial de ligação terrano. Marshall me comunicou, achando graça, que ele, o telepata altamente capaz, era considerado o representante de um insignificante povo colonial.
Fiz descer o sofá e encerrei a sessão. Sem aguardar os cumprimentos devotos de alguns cortesãos que se encontravam nas proximidades, afastei-me em companhia de minha escolta de robôs.
Mesmo que no palácio de cristal não se soubesse fazer mais nada, ainda sabiam celebrar festas.
Além disso estavam muito bem treinados em bajular o imperador e solicitar privilégios.
Vi-me cercado por parasitas de todos os tipos, que exprimiam em palavras grandiloqüentes a admiração que sentiam por minha pessoa e derramavam sobre minha cabeça pomposas honrarias. O espetáculo quase chegou a enojar-me.
Um deles, que me foi apresentado como o maior filósofo vivo e um grande compositor de jogos simultâneos, queixou-se porque o computador-regente mandara suspender os pagamentos mensais realizados em reconhecimento às suas qualidades.
Já conhecia o que se falava a respeito desse cavalheiro, motivo por que rejeitei em palavras ásperas as suas pretensões e convidei-o a dedicar suas faculdades a uma finalidade mais útil.
Comecei a nadar contra a corrente. Provocava ressentimentos em toda parte. Era-me difícil conseguir angariar amigos. Todos se entrincheiravam atrás de palavras corteses, mas nos olhos dos que me cercavam brilhava a chama do ódio.
Recusei a festa de coroação que estava sendo planejada, o que provocou uma onda de indignação. O chefe do protocolo me disse em tom de súplica:
Permita-me, Vossa Alteza, a liberdade de ponderar que os artistas mais célebres já anunciaram sua chegada. Peço a Vossa Alteza que tenha a bondade de considerar a importância de uma...
Virei-me sobre os calcanhares. O corte-são recuou apavorado.
Encontrávamo-nos num grande compartimento que dava para a sala dos sábios.
Sou de opinião que, na situação atual, uma série de festejos ruidosos seria indefensável — gritei para ele. — Peço-lhe encarecidamente que convoque ao palácio os oficiais superiores da frota. Não admitirei desculpas. Os que não comparecerem à hora marcada serão destituídos dos seus cargos.
Minha guarda pessoal de robôs afastou as pessoas que me cercavam. O terrano John Marshall seguia-me de perto. Seu rosto estava impassível e inexpressivo. Era provável que, como telepata, sentisse ainda mais intensamente o ódio provocado por minha presença.
Os sonhos ligados ao meu regresso ao mundo natal foram-se desvanecendo. Naturalmente gostaria de festejar; com o maior prazer teria dado a festa do milênio.
O Império era rico. Durante a regência do grande computador voltara a florescer o comércio com os inúmeros mundos coloniais, muito embora o trabalho antes individualizado dos mercadores fosse submetido a padrões rígidos.
Mas agora a situação estava modificada. Não conseguia conformar-me com a idéia de investir-me no meu elevado cargo com a pompa que todos esperavam. Minha amargura crescia cada vez mais.
Diante do elevador privativo que levava aos recintos do pavimento superior do palácio, a guarda dos ciclopes, seres de três olhos do planeta Naator, mantinha-se à espera. Instruí os gigantes a manter afastado de mim tudo que pudesse perturbar-me.
Dali a vinte minutos cheguei aos aposentos em que antes de mim já haviam residido outros imperadores. Preferi não usar as salas gigantescas e suntuosas. No curso dos milênios tornara-me mais sóbrio, motivo por que mandara preparar um pequeno grupo de aposentos com vista para o pátio interno do palácio. Onde me sentia mais à vontade era no grande gabinete de trabalho, cujos quadros de comando me mantinham em contato com o grande centro de computação e, através dele, com os centros administrativos do Império.
Entreguei a vistosa ombreira com os símbolos de imperador a um robô de serviço que me esperava. A máquina desapareceu silenciosamente, numa fenda que se abriu no solo.
Embaixo de meu gabinete de trabalho havia um destacamento especial de guardas. Era praticamente impossível penetrar, contra minha vontade, na parte do palácio de cristal por mim ocupada.
John Marshall me seguira. Esperou até que lhe dirigisse a palavra. Coloquei-me à frente da fachada interna, coberta por uma placa protetora transparente, que substituía a galeria de janelas no lado aberto à visão.
Oitocentos metros abaixo do lugar em que me encontrava, ficava a área redonda de mil e quinhentos metros de diâmetro do pátio interno. O palácio de cristal acompanhava nossa arquitetura usual: possuía o formato de um gigantesco funil, que descansava sobre um alicerce em forma de cabo, abrindo-se na parte superior por cima da linda área repleta de parques.
O arredondamento interno do funil estava dividido em pavimentos dispostos em formas de terraços, terraços estes que terminavam lá embaixo, no jardim.
Desfrutei o belo panorama. A base do funil media quinhentos metros de diâmetro. As máquinas e estações de controle, que faziam do palácio de cristal um dos fenômenos da Galáxia, estavam instaladas nos alicerces.
Os antigos imperadores utilizavam a gigantesca construção como residência. Havia inúmeras salas, nas quais já haviam sido recepcionados espécimes de todas as inteligências dos setores conhecidos da Via Láctea.
Marshall colocara-se a meu lado. Parecia sentir minha disposição, muito embora já não pudesse captar o conteúdo consciente de minha mente, já que voltara a erigir o bloqueio mental.
Às vezes fico me perguntando se sou mesmo um verdadeiro arcônida — observei inopinadamente. — John, os soberanos que me precederam em hipótese alguma teriam dispensado a festa.
Marshall limitou-se a acenar com a cabeça, enquanto eu lutava para conservar o autocontrole.
Não sei, John, se Perry Rhodan me fez um favor ao cognominar-me apressadamente de imperador. Na minha opinião teria sido mais conveniente se eu tivesse continuado a agir em segredo.
As circunstâncias pareciam contrárias a isso, sir.
A forma de tratamento me fez bem, embora por muito tempo tivesse sonhado com a hora em que os outros usassem o título mais elevado ao se dirigirem à minha pessoa. Agora chamavam-me de alteza, mas isso não me deixava orgulhoso.
Posso fazer mais alguma coisa pelo senhor, sir? — perguntou Marshall.
Não; muito obrigado. Preciso tentar arranjar-me sozinho. O senhor parece cansado, John.
Marshall limitou-se a sorrir. De repente senti vontade de viver e atuar novamente em companhia de homens de sua espécie.
Olhei para os terraços situados mais embaixo, cujas fachadas transparentes brilhavam sob a luz forte do sol branco de Árcon. Era tudo muito belo, mas eu me sentia deslocado.
A simples idéia parecia uma ironia do destino. Durante minha longa peregrinação através de todos os estágios culturais do planeta Terra, tentara repetidamente promover o adiantamento técnico e científico dos homens.
Finalmente, muito tempo depois do desaparecimento do continente Atlântida, quando a Humanidade descobriu a navegação espacial, minha hora parecia ter soado. Rhodan me trouxera para Árcon, onde o dispositivo de segurança do computador-regente reagiu às minhas vibrações cerebrais. Ao que tudo indicava, era o único arcônida vivo ao qual a gigantesca máquina entregaria o poder sobre o império estelar.
Os imperadores que me precederam não passaram de fantoches submetidos à ditadura do regente.
Marshall sabia de meus pensamentos. Mantinha-se afastado, à maneira modesta que lhe era peculiar, até o momento em que acreditou que devia arrancar-me das minhas reflexões martirizantes.
Descanse algumas horas, sir. Os últimos meses foram extenuantes.
Procurei controlar-me. Era inútil ficar agarrado ao passado. Tinha pela frente uma gigantesca tarefa. E esta só poderia ser cumprida, caso dispusesse de todas as minhas energias físicas e mentais.
Olhei para o relógio. Faltava pouco para o pôr do sol. A estrutura cristalina do palácio iluminou-se. Luzes ofuscantes pareciam derramar-se sobre o pátio interno com seus magníficos jardins e obras de arte.
Em algum lugar um animal não-arcônida soltou um grito triste e agudo. As amplas vias elevadas antigravitacionais também iluminaram-se.
Árcon I era belo. Era meu mundo. Senti-me mais calmo e equilibrado. Deleitei-me com o espetáculo do pôr do sol, até que as últimas torrentes de luz natural se apagassem no horizonte.
As luzes artificiais acenderam-se em toda parte. As numerosas construções situadas nas proximidades do palácio de cristal pareciam desenvolver uma vida independente e fantasmagórica. Tratava-se dos inúmeros ministérios do Império, abrigados em gigantescos edifícios. No interior desses edifícios, ninguém mais trabalhara seriamente no curso dos últimos decênios.
O computador-regente, infalível e incapaz de fazer uma escolha errada, era-me de uma utilidade incalculável. A idéia de confiar aos cansados funcionários e oficiais do estado-maior o abastecimento da frota de guerra causava-me calafrios. Portanto, o centro de computação continuava a cuidar disso. E eu me sentia grato. Nunca seria capaz de dominar os milhões de aspectos dos problemas logísticos. Se não fosse o grande computador, que agora me obedecia, poderia renunciar desde logo ao posto de imperador.
Aproximei-me da grande mesa de trabalho em ferradura e ativei as barreiras energéticas que protegiam a parte do palácio em que residia. Ninguém mais poderia passar pelos amplos corredores.
Marshall lançou-me um olhar preocupado. Quando examinei minha arma energética, tornou-se ainda mais apreensivo.
A cautela nunca é demais — disse. — Vá para a cama, John. Se quiser fazer alguma coisa por Árcon, procure manter atentos seus dons parapsicológicos, mesmo quando estiver descansando.
O que é que o senhor receia, sir? Esquivei-me a uma resposta direta:
Tudo e nada. Tenho certeza de que entre os homens do Grande Conselho, que parecem tão indolentes, ainda existem algumas pessoas ativas, que apenas se acomodaram, isto é, aceitaram o conforto atual. Estas podem tornar-se perigosas.
O senhor goza de uma proteção extraordinária.
Parece que sim. Mas ainda me lembro de que, há algum tempo, Rhodan conseguiu com uma facilidade espantosa surpreender o imperador em seus aposentos.
Participei da ação, sir. Tratava-se de uma ação muito bem planejada dos mutantes.
Isso não exclui a possibilidade de que certos arcônidas, familiarizados com o local, também consigam penetrar aqui.
John Marshall despediu-se. Seu quarto de dormir ficava bem ao lado de meu gabinete. Sentia-me satisfeito por saber que o amigo permaneceria a meu lado.
Fui deitar sem recorrer ao auxílio dos robôs de serviço. Escolhi um confortável leito ortopédico, que ficava próximo à tela energética panorâmica transparente. O quarto pomposo causava-me pavor.
Antes de adormecer, dei-me conta de que já não estava ligado ao meu mundo como estivera antigamente, por ocasião de minha partida em direção ao sistema solar terrano, que naquela época ainda era pouco importante e quase desconhecido.
Com um último movimento coloquei a mão sobre o ativador celular, que pendia junto ao meu peito. Aquele aparelho, do tamanho de um ovo, pulsava com a mesma segurança de sempre.
2



Acordei com fortes náuseas. Quando me levantei abruptamente do leito pneumático, pensei que iria vomitar.
No centro do gabinete, junto à mesa em ferradura, estava deitado John Marshall. O desintegrador caíra de sua mão. O corpo mole e contorcido do terrano jazia sobre o revestimento do soalho. Seu uniforme estava queimado por cima do ombro esquerdo.
Embora o sistema de renovação de ar estivesse funcionando, sentia-se o cheiro de plástico queimado. O sangue coagulado provava que John sofrerá um ferimento sério.
Dominei a fraqueza momentânea. Sem perder uma palavra, cambaleei em direção ao homem ferido. Exausto, caí ao chão a seu lado.
John! — gritei. — Acorde, John.
Marshall não se movia, mas sua respiração parecia normal. Provavelmente não demoraria a acordar.
Fiquei sentado a seu lado, até que minha mente voltasse a funcionar com alguma clareza.
Gás!”, anunciou meu cérebro adicional numa série de impulsos que se tornaram dolorosos. “Alguém o deixou inconsciente.”
Lutei para conservar o autocontrole. Meu setor de lógica nunca se enganara. Obedecia a um cérebro adicional que não podia ser influenciado por mim, e por isso seu funcionamento era mais claro e preciso que o do raciocínio por mim controlado.
Examinei a arma de John. O desintegrador, uma arma que dissolve as moléculas, não fora disparado. O registro de carga mostrava a palavra “cheio”. O medidor de energia não indicava qualquer descarga. Concluía-se que o telepata não tivera tempo de fazer aquilo que provavelmente tencionava.
Comecei a refletir, o que me ajudou a vencer as náuseas.
Marshall achava-se em meu gabinete. Logo, ao contrário do que acontecera comigo, ouvira alguma coisa. Provavelmente me encontrava mergulhado num sono profundo, quando fui surpreendido pela carga de gás, que me narcotizou imediatamente. De onde poderia ter vindo o gás narcótico?
Olhei cautelosamente em torno, até que meu cérebro adicional voltou a chamar.
As instalações de condicionamento de ar, seu idiota! Você seguiu o costume terrano, ligando o suprimento de ar do exterior.”
Era isso mesmo. Na Terra distante, eu me acostumara há muitos séculos a dormir com as janelas abertas. Uma pessoa radicada em Árcon nunca teria tido a idéia de modificar a regulagem do equipamento de condicionamento de ar pela forma que eu fizera. O ar puro era aspirado do exterior. Mas depois disso, passava por controles robotizados de primeira ordem, que o purificavam e eliminavam os componentes nocivos.
Percebi nitidamente que na verdade já deixara de ser um verdadeiro arcônida. Adotei muitos hábitos dos terranos.
Continuei a refletir. Alguém, que estava familiarizado com o meu modo de agir e soubera interpretá-lo corretamente, fizera penetrar o gás nos bocais de sucção, a fim de deixar-me inconsciente.
Até ali estava tudo claro, se bem que não sabia quem era responsável por isso. A pergunta, que se impunha antes de qualquer outra, era esta: por que fizeram uma coisa dessas? O ferimento no ombro de Marshall constituía uma prova evidente de que algum “visitante” penetrara em meu gabinete. Por quê?
Não poderia ter sido um assassino, pois do contrário a essa hora não seria capaz de fazer as reflexões que enchiam minha cabeça.
Teriam sido ladrões? Olhei em torno, perplexo. Não havia nada para roubar. Além disso, o padrão de vida no mundo de cristal era tão elevado que já há muitos séculos não ocorria nenhum furto. Era uma hipótese falha, pouco objetiva.
O que pretendiam conseguir ao deixar-me inconsciente? O gemido de Marshall despertou-me da letargia. Sacudi os últimos vestígios da narcose produzida pelo gás. O martelar na minha cabeça diminuiu.
Rasguei o plástico chamuscado que cobria o ombro de John. O ferimento era menos grave do que eu supusera. Tudo indicava que a junta fora atingida de raspão por um finíssimo raio térmico.
Descobri o local onde o disparo alvejara. O impacto térmico atingira minha mesa de comando. Um precioso gobelino estava queimado. Na parede que ficava atrás do gobelino, havia um buraco vitrificado de mais de dez centímetros de diâmetro.
Esperei até que os olhos de Marshall se abrissem. Quando isso aconteceu, levantou-se com a mesma disposição com que eu o fizera pouco antes. Soltou um gemido e tombou.
Segurei sua cabeça em meus braços e disse-lhe algumas palavras tranqüilizadoras.
O.K., John, está tudo O.K. O senhor me compreende? Desta vez ainda escapamos sãos e salvos. A ferida de seu ombro estará cicatrizada dentro de vinte e quatro horas. Fale, John, reaja. Se estiver com vontade de vomitar, não se constranja. Ao que parece, fomos narcotizados por algum gás. John...
Depois de alguns segundos seu cérebro começou a funcionar. Fitei seus olhos claros. Com grande dificuldade conseguiu balbuciar:
Atlan, che... cheguei tarde. Foram dois homens que vestiam capas largas. Seus impulsos cerebrais me despertaram, mas quando abri a porta já havia respirado muito gás. Eu... Atlan, o que aconteceu?
Com um sorriso tranqüilizador ergui seu corpo. A cabeça encostou em meu peito. Trajava apenas as largas roupas de dormir, usadas pelos arcônidas.
Quando a expressão de seu rosto se alterou, comecei a inquietar-me. Girou lentamente a cabeça. Fitei seus olhos arregalados.
O que houve? — perguntei em tom alarmado.
Sir, onde... onde está seu ativador celular?
Apressadamente afastei-o, para pôr a mão no peito. No lugar em que costumava ficar o aparelho em forma de ovo, não consegui apalpar mais nada. Já sabia por que haviam colocado o gás nos bocais de sucção.
Tive a impressão de que iria mergulhar num abismo. As náuseas voltaram de repente. Fraco e desamparado, já não dominava meus atos. Vomitei.
Até o momento em que senti a mão de John pousada em meu ombro, permaneci deitado no mosaico do soalho. Todos os sentimentos pareciam ter-se apagado dentro de mim. Não queria compreender que o aparelho vital havia desaparecido.
Não se exalte, sir — disse a voz do amigo terrano. — Tranqüilize-se. Moveremos céus e infernos para recuperar o ativador. Os criminosos ainda não podem ter ido muito longe. Chame imediatamente o centro de computação e pergunte que naves decolaram nestas últimas horas. Ficamos inconscientes mais ou menos por três horas. Antes de ser ferido, ainda lancei um olhar ligeiro para o relógio. Por isso posso determinar, com exatidão, a hora do ataque. Pergunte ao regente quais foram as naves que saíram do planeta nestas últimas três horas. Se nenhuma decolou, o aparelho ainda deve encontrar-se neste planeta. Proíba a decolagem e o pouso de qualquer espaçonave em Árcon I. Com isso, praticamente já teremos agarrado os sujeitos.
John Marshall parecia ser um excelente psicólogo. Compreendera que minha depressão geral não poderia ser vencida por corriqueiras palavras de consolo. Recorrera a um meio muito mais eficiente.
A análise imediata e a concatenação dos acontecimentos ajudaram-me muito mais do que eu supusera.
Senti-me tomado pela esperança. Se é que ainda se podia fazer alguma coisa, a iniciativa deveria ser tomada imediatamente.
Levantei-me. John já parecia ter vencido as náuseas.
Obrigado, John — disse com a voz áspera de nervosismo. — A solução é esta. O senhor sabe que, sem o ativador celular, passarei por um processo abrupto de envelhecimento. E, mais tardar, dentro de mais alguns dias morrerei... como um ancião. John, trata-se de alguém que sabia perfeitamente não haver necessidade de assassinar-me. O furto desse aparelho bastaria para eliminar-me, num prazo extremamente curto...
John fitou-me com uma expressão pensativa e disse em meio às suas reflexões:
Quem poderia saber que o senhor possui um aparelho desse tipo? Em Árcon ninguém tinha a menor idéia disso. Ainda acontece o seguinte: Se a tal pessoa está informada sobre a importância vital do aparelho, e o furto parece provar este fato, o crime não terá sido praticado em vão. Muito em breve alguém formulará exigências. O Grande Império está em jogo, Atlan.
Exigências?
Tenho tanta certeza disso como de que meu nome é Marshall. Chame o computador-regente, sir.
Dali a cinco minutos já sabia que, durante aquelas três horas, nove espaçonaves haviam deixado o planeta. Qualquer uma delas poderia ter transportado o ativador. Ordenei ao centro de computação que verificasse com a maior precisão, recorrendo a todos os meios de que podia dispor, para onde as naves se haviam dirigido.
Era a única coisa que se podia fazer. Enquanto raciocinávamos e formulávamos conjeturas, tratei da ferida de Marshall. No quarto contíguo havia medicamentos de sobra. Meus conhecimentos médicos eram mais que suficientes para limpar a ferida e lançar-lhe o spray com o plasma regenerador de células. Uma injeção pressurizada livrou-o das dores.
Antes que chegassem os resultados das investigações do regente, o telepata já havia vestido outro uniforme. Eu também mudei de roupa. Preferi não dar o alarma, pois sabia que os apáticos oficiais da guarda palaciana não poderiam prestar-nos qualquer auxílio.
Dali a três minutos, o regente chamou pelo comprimento de onda especial do imperador. O modelo de linhas confusas surgiu na grande tela.
Ouvi com o maior interesse. Cinco das naves que haviam deixado o planeta eram veículos de passageiros de linhas regulares, que se destinavam a planetas distantes, situados fora do sistema de Árcon.
Outras quatro naves pertenciam a particulares. Todas elas haviam pousado em Árcon II, o mundo do comércio intercósmico e da indústria privada.
Vossa Alteza deseja que sejam realizadas investigações? — indagou o maior centro de computação do Universo.
Respondi que não. John Marshall sorriu. Parecia adivinhar meus pensamentos.
Desliguei e virei a cabeça. O palácio estava em silêncio. Dava a impressão de que ninguém tinha a menor idéia do que acabara de acontecer. Se por aqui havia algum cúmplice do criminoso, este deveria manifestar um nervosismo cada vez maior. Por certo estaria convencido de que não calcularam com meu procedimento tipicamente terrano. Qualquer arcônida normal, desde que pertencesse à nova geração, seria dominado pelo pânico e daria imediatamente o alarma.
Dirigi-me ao quadro de regulagem e reduzi a intensidade da luz. E a tela panorâmica, regulada para o efeito reflexivo, não deixava escapar qualquer raio luminoso para fora.
Alguém no interior deste palácio deve estar muito nervoso, aguardando meu pedido de socorro — disse em tom pensativo. — Não lhe faremos esse favor. Seria insensato incumbirmos os guardas de qualquer tipo de investigação. Já aprendi bastante para saber disso.
Concordo plenamente, sir.
O que sugere, John?
Marshall fitou-me atentamente e começou a falar:
Sir, Perry Rhodan, que, depois de minha saída do planeta Peregrino, determinou que eu desempenhasse as funções de oficial de ligação em Árcon, já se encontra na Terra há alguns dias. Recomendaria encarecidamente que o senhor solicitasse imediatamente o auxílio do Exército de Mutantes. Somos as únicas pessoas capazes de recuperar o ativador.
Acha que devo invocar a aliança que celebrei com Rhodan?
Não, não é isso. Acho que o senhor deveria dirigir-se a Rhodan como amigo, e não ao administrador do Império Solar.
Como amigo? Como soa isso! — disse em tom pensativo. — John, agirei como você pensa. Se não recuperarmos o aparelho dentro de sessenta horas, minha longa vida chegará ao fim. Talvez deva assumir o risco.
E o Império, Almirante Atlan?
A observação fora proferida em tom áspero. Além disso, ele me chamara de almirante. Fitei-o com uma expressão irônica.
Não se faça de altruísta, Marshall! Sabe perfeitamente que, se eu morrer, a Terra estará perdida. Ou será que, depois de minha morte, o computador-regente, que voltaria a investir-se na plenitude de suas funções, deixaria de dar a devida atenção a um perigo como o que é representado pelo planeta Terra? Poucos dias depois da minha morte, dez mil couraçados ou mais emergirão do hiperespaço, a fim de subjugar ou destruir a Terra e todo o Império Solar. Acho que estamos de acordo neste ponto, não estamos?
Perfeitamente, sir — respondeu Marshall em tom deprimido.
Muito bem. Sei apreciar sua franqueza, John. É uma coisa que em Árcon parece não existir mais. Para ser sincero, gostaria de acrescentar que também não gostaria de morrer, ao menos na situação atual. Vamos entrar em contato com Rhodan. Ele compreenderá imediatamente que é de seu interesse comparecer com todos os mutantes. A Terra ainda não tem força para resistir a um ataque em grande escala. Todavia, faço questão de ressaltar que não tenho a menor objeção a que a Humanidade continue a evoluir. Se puder, continuarei a apoiá-la.
Já sabemos disso, sir.
Já me recuperara do choque provocado pelo furto. Logo após essa palestra, chamei o gigantesco computador positrônico e pedi-lhe que estabelecesse uma ligação de hipercomunicação com a grande estação de rádio de Terrânia.
Desde o momento do ataque frustrado da frota dos druufs contra o sistema solar, o regente sabia onde encontrar o planeta Terra, cuja posição até então ficara envolta em mistério.
Sabia que em Árcon III, o mundo da guerra e da frota, as gigantescas antenas direcionais — as maiores da Galáxia — estariam girando em direção a certo setor espacial.
A Terra ficava a 34 mil anos-luz. Apesar disso, a transmissão de mensagens não apresentava o menor problema.
Dali a pouco, a grande tela de meu gabinete iluminou-se. O rosto de um oficial terrano apareceu. Imediatamente o terrano transferiu a ligação para o local de trabalho do administrador.
Quando o rosto estreito de Perry Rhodan apareceu na tela, comecei a falar, sem o menor intróito.
Olá, barbarozinho, que horas são na Terra?
Perry riu. Seu rosto descontraiu-se. Tive a impressão de fitar diretamente seus olhos cinzentos e irônicos. A ligação de rádio, que funcionava à velocidade superior à da luz, estava excelente. Apenas a imagem sofria, vez por outra, uma distorção.
Obrigado pela pergunta, arcônida. Estava almoçando.
Sinto muito. Quero fazer uma pergunta, Perry: você poderia imaginar o que aconteceria se alguém me roubasse o ativador celular?
Fiquei curioso para ver a reação de Rhodan. Foi aquilo que eu esperava. Seu rosto transformou-se numa máscara inexpressiva.
Sei. Não venha me dizer que alguém...
Pois foi exatamente isso. Aconteceu há três horas e meia. Marshall e eu ficamos inconscientes com uma carga de gás. Ainda não dei nenhum alarma por aqui. Já descobrimos algumas pistas por meio das investigações realizadas pelo regente. Mas isso é tudo. Marshall não conseguirá solucionar o caso sozinho. Tem alguma sugestão aproveitável?
Perry limitou-se a sorrir. Não seria Perry Rhodan se, a essa hora, ainda perdesse tempo com mais perguntas. Aquele homem inteligente, que nunca perdia o autocontrole, compreendera o significado do acontecimento e sabia quais seriam as conseqüências.
Não deu maiores explicações. Limitou-se a dizer:
O.K. Sem comentário. Dentro de duas horas decolarei acompanhado por todo o Exército de Mutantes. Por enquanto controle os nervos e abra meu caminho. Não quero ser detido pelas unidades de vigilância, nem obrigado a dirigir-me a Árcon III, a fim de ser submetido a algum controle. Pousarei com a Drusus e dois cruzadores da classe Estado no espaçoporto do imperador. Providencie para que não sejamos incomodados com as perguntas de muitos dos arcônidas apáticos, que habitam o mundo de cristal. Repito: controle seus nervos. Desligo.
Foi só isso que Rhodan teve a dizer sobre esse assunto, que, para mim, assumia uma importância extraordinária.
Pensativo e ligeiramente nervoso, fitei a tela que se apagava. O símbolo do regente surgiu imediatamente.
A palestra foi concluída, alteza — disse a voz enfática saída do alto-falante.
Confirmei com um gesto e desliguei. Marshall disse em tom de elogio:
Isso foi rápido. Daqui a 24 horas, Perry chegará. Já lhe disse que, sem o ativador, o senhor só terá sessenta horas de vida?
Ele sabe disso desde nosso segundo encontro. Naquela época, ainda éramos inimigos. Era ao menos o que acreditávamos. Mostre seu ombro.
Verifiquei a atadura transparente de bioplástico. O efeito curativo já tivera início.
Voltou a sentir dores?
John fez que não e respondeu com a voz controlada:
Se não puder agüentar, avisarei. Durma mais um pouco, sir. Ainda teremos muito em que pensar.
Dirigi-me ao meu leito e me sentei. Quem poderia saber que, para mim, o ativador era uma peça insubstituível? E, principalmente, qual das pessoas familiarizadas com a importância do mecanismo transmitira seus conhecimentos a algum arcônida traidor? Tive a impressão de que esta pergunta era ainda mais importante.
Por enquanto consegui reprimir o nervosismo angustiante causado pelo roubo. Um tanto pensativo, passei a ponta dos dedos pela cicatriz larga e feia que havia em meu ventre.
Durante minha permanência na Terra, por mais de uma vez vira-me obrigado a engolir o pequeno aparelho. Muitas vezes houve necessidade de operações, realizadas em condições que ainda agora me causavam calafrios. Infelizmente não houvera outra possibilidade de retirar o ativador do estômago.
Lembrava-me perfeitamente do médico de campanha, pertencente à oitava legião romana. Este pretendera investir contra mim, sem qualquer tipo de anestesia e com instrumentos que não haviam sofrido esterilização. No entanto, ainda consegui chegar ao meu traje voador, cuidadosamente escondido, que me levou no último instante à cúpula submarina, onde os robôs especializados se encarregaram da operação.
Das outras vezes não me fora possível voar até minha base de operações.
Agora, porém, as coisas eram diferentes. Meu ativador celular fora furtado.
Como puderam entrar aqui? Estremeci. Marshall estava sentado numa poltrona articulada, cujo dispositivo automático de reclinamento fora desligado.
Como?
Como foi que os ladrões entraram aqui? Vi o senhor fechar todos os acessos por meio de barreiras energéticas.
Soltei uma risada amarga.
John, você ainda não conhece Árcon. Na época em que este palácio foi construído, os atentados eram uma coisa corriqueira. Provavelmente, ainda existem numerosas passagens secretas, que deviam servir de caminhos de fuga aos imperadores de então. É praticamente impossível descobrir todos os acessos camuflados, construídos com todos os recursos da tecnologia arcônida. Os rastreadores de espaços ocos e outros instrumentos seriam inúteis para isso. Os ladrões deviam saber da existência de ao menos uma dessas passagens. Caso contrário, nunca teriam passado pelas linhas de vigilância dos robôs e pelas barreiras energéticas.
Hum, então é isso. Meus colegas encontrarão alguma coisa; não tenha a menor dúvida. O senhor deveria mandar construir uma casa, apenas para seu uso, nas imediações deste palácio.
Voltei a rir. Fitei o terrano com uma expressão que quase chegava a ser de compaixão.
Meu jovem amigo, você pensa em termos excessivamente terranos. Para um imperador arcônida, seria inconcebível abandonar o palácio. Só aqui podem ser instalados os controles concentrados. O que não aconteceria se todos estes conjuntos mecânicos tivessem de ser reconstruídos? É bom desistir logo da idéia.
Isso é uma vida infernal, sir. Para ser franco, não gostaria de estar no seu couro.
Infelizmente não posso sair dele. Vá dormir, John. A ferida no ombro exige descanso.
Onde arranjou os medicamentos?
Só neste palácio existem três salas de operações reservadas exclusivamente ao imperador. Cada conjunto de quartos possui uma enfermaria para os primeiros socorros. Os medicamentos deteriorados são substituídos regularmente pelos robôs médicos. Já compreendeu que meus antecessores estavam muito preocupados com sua segurança?
Marshall ficou calado. Sacudiu a cabeça e ligou o dispositivo de reclinamento automático, que adaptava a poltrona automática aos contornos de seu corpo.
O silêncio passou a reinar no grande gabinete de trabalho. Nas paredes e sobre a mesa de controle, as numerosas telas pareciam grandes olhos traiçoeiros, nos quais estava escrito o escárnio e a ameaça.
Assim que Marshall adormeceu, passei a cruzar o gabinete a passos nervosos. O que esperavam conseguir com o furto do ativador? Por conta de quem teriam agido os ladrões?
Por que não me assassinaram? Não poderia haver uma oportunidade melhor de livrar-se do imperador.
Antes que o setor lógico de minha mente pudesse dar sinal de sua presença, eu mesmo encontrei a solução. Não se arriscaram a matar-me, enquanto estava dormindo, porque o computador-regente fora programado por mim, num trabalho de várias semanas. Se eu morresse de repente, ele imediatamente assumiria o poder e restabeleceria as condições reinantes antes do meu desaparecimento.
Ao que parecia, aqueles que arquitetaram o plano não estavam interessados em viver novamente sob a ditadura de uma máquina. Alguém desejava conquistar o poder.
Com isso, a suposição de Marshall encontrava um fundamento lógico. Ao que tudo indicava, acreditavam que eu era um homem que amava a vida como milhões de outras pessoas. Portanto pensavam que poderiam fazer chantagem comigo. Era a única pessoa que poderia reprogramar o centro de computação!
Comecei a caminhar ainda mais nervosamente. Naturalmente, era esta a solução do problema. Alguém queria obrigar-me a fazer uma coisa que levaria inevitavelmente à destruição do Império.
Comecei um solilóquio em voz alta. Marshall abriu os olhos.
O senhor deveria descansar, sir — disse em tom de recriminação. — Tudo se arranjará. Os arcônidas perdem os nervos com muita facilidade.
Nos dez mil anos que passei na Terra deveria ter perdido esse hábito — respondi em tom sarcástico. — Está bem; vou deitar.
Com isso teve início o período de espera por Perry Rhodan. Era estranho como minha dependência do amigo terrano de repente se tornara tão forte. Quando me lembrei da luta que travamos no museu terrano de Vênus, tive de sorrir.
Também me lembrei de uma moça chamada Marlis Gentner. Fora gentil, muito gentil.
3



O espaçoporto destinado exclusivamente ao uso do imperador e das pessoas por ele autorizadas ficava a poucos quilômetros das extensas colinas, sobre as quais fora construído o palácio do imperador.
Mandara isolar a área por unidades de robôs fortemente armadas e uma divisão dos naats.
Aqueles ciclopes, com seus três metros de altura e três olhos enormes na cabeça redonda, eram mais ativos, fiéis e experimentados que as inúmeras tropas arcônidas de desembarque especial. Praticamente, estas só existiam no papel.
John Marshall examinara os oficiais das unidades dos naats por meio de seus dons parapsicológicos, investigando cuidadosamente o conteúdo do espírito consciente de cada um desses seres.
Constatou-se de forma inequívoca que a guarda imperial de naats não tivera a menor participação no furto. Os ciclopes não sabiam de nada.
Quinze mil habitantes do quinto planeta, dotados de equipamentos modernos, entre os quais se incluíam trajes especiais de vôo e campos defensivos individuais, fecharam hermeticamente o grande espaçoporto.
Era um contingente respeitável, que ainda era reforçado pelos tanques robotizados e canhões energéticos autopropulsados.
Naturalmente, o fato chamaria a atenção de muita gente. Os cortesãos preocupados sufocaram-me com perguntas, mas limitei-me a sorrir. Que pensassem o que quisessem.
O fato de pensar num homem chamado Perry Rhodan não correspondia à atitude de suprema arrogância dos nobres. Nos círculos dos conspiradores devia lavrar o maior desassossego. Marshall supôs que essa gente talvez estivesse pensando que eu possuía outro ativador. Só assim se explicaria minha tranqüilidade.
Já havíamos recebido o resultado da interpretação dos dados, realizada pelo computador-regente. A máquina confirmara integralmente o resultado das minhas reflexões. Os criminosos não quiseram assumir o risco de assassinar-me. Queriam tudo ou nada. Portanto, a probabilidade de uma tentativa de chantagem tornava-se cada vez maior.
Encontrava-me ao lado do acampamento da divisão, que era móvel e capaz de voar. Os oficiais dos naats pareciam quebrar suas enormes cabeças para descobrir o que significava tudo isso.
Minha guarda pessoal de robôs formou um semicírculo em torno de mim. Os canos das pesadas armas energéticas cintilavam.
Dez minutos depois de minha chegada ao espaçoporto, os avisos de localização tornavam-se cada vez mais freqüentes. E os aparelhos do posto de combate estavam ligados ao centro de computação.
Três naves de guerra desconhecidas, dois cruzadores ligeiros e um supercouraçado da classe Império, acabavam de sair do hiperespaço de quinta dimensão bem no centro do sistema de Árcon.
O décimo primeiro planeta sofrerá um forte abalo provocado por uma onda de choque estrutural. Pelo que se dizia, em sua superfície rugiam tremores tectônicos e furacões violentíssimos.
Isso não importava. Árcon XI era um planeta desabitado. E a atuação de Rhodan fora coerente.
A distância de Árcon à Terra era tão grande que não poderia ser vencida num único salto. Por mais que forçasse as máquinas de suas naves, teria de saltar pelo menos quatro vezes.
Observei o pouso da Drusus, a nave capitania da Frota Solar, que media mil e quinhentos metros de diâmetro.
O gigante pousou, com toda precisão, sobre as colunas de sustentação abertas. Logo a seguir, pousaram mais dois cruzadores ligeiros da classe terrana Estado, cuja aceleração enorme até então não fora alcançada por qualquer outro veículo espacial.
Uma onda de pressão provocada pelas massas de ar superaquecido passou ruidosamente pelo terreno. Depois disso, as máquinas da Drusus silenciaram. Parecia uma montanha de aço e preenchia o campo de visão a tal ponto que nem sequer a metade visível da esfera podia ser abrangida com o olhar.
Conhecia perfeitamente o potencial combativo desse veículo espacial da classe Império. E, ao lembrar-me disso, pensava menos nas máquinas, armamentos e instalações eletrônicas que nos homens postados atrás desse equipamento. Mesmo nessa época, em que a robotização chegara a noventa e oito por cento, tudo dependia em última análise do espírito e da competência da tripulação viva.
Senti-me amargurado. Eu, que era o novo imperador do reino estelar dos arcônidas, dispunha de mais de dois mil supercouraçados desse tipo. Bastaria uma ordem minha para que esses titãns partissem para o espaço.
No entanto, dei-me conta de que uma frota terrana de apenas quinhentas naves desse porte acabaria muito depressa com meu contingente gigantesco de supernaves, já que não possuíamos as tripulações altamente qualificadas com que contava Perry Rhodan.
Voamos do acampamento da divisão até o couraçado. Quando as escotilhas inferiores se abriram e o comando de sentinelas das comportas, chefiado por um jovem policial, entrou em forma, senti-me muito mais à vontade.
Eram rostos e uniformes familiares. Eram os homens nos quais se podia confiar sem restrições, fosse qual fosse a situação. Eram os especialistas altamente qualificados, que sabiam usar o cérebro em conformidade com sua própria iniciativa. Tratava-se de soldados que, numa situação imprevista, sabiam tomar decisões pessoais.
Naquele momento esqueci-me da dignidade recém-adquirida. Esqueci-me de todas as convenções e precipitei-me sobre os homens do comando, para cumprimentá-los. Mantiveram-se rígidos e imóveis à minha frente, conforme exigia a disciplina rigorosa dos terranos.
Mas percebi o brilho dos seus olhos e o sorriso disfarçado que brincava em torno de seus lábios. Estaria disposto a pagar alto, se pudesse entrar na nave e sair voando com essa gente.
O oficial dos sentinelas era o Tenente Fron Wroma, um terrano alto e anguloso, vindo do estado confederado da África. Por estranho que possa parecer, naquele momento nem pensei em sua formidável voz de barítono. Seu canto já me salvara de uma terrível crise de nervos...
As recordações precipitaram-se em minha mente. Não dei atenção aos oficiais do estado-maior dos naats, mudos de espanto, nem me preocupei com o constrangimento dos funcionários da corte.
Quando ainda estava conversando com Wroma, o ar começou a tremer à minha frente. Um pequeno corpo, de um metro de altura, começou a mostrar seus contornos apagados, e logo a seguir adquiriu sua estabilidade material.
Fitei um par de olhos grandes e inteligentes e um dente roedor muito branco de dimensões respeitáveis. Gucky, o rato-castor do planeta Vagabundo, acenava com as mãozinhas delicadas e gritou com sua voz estridente e inconfundível:
Olá, seu velho teimoso! Como vão as coisas?
O mordomo de meu palácio, um arcônida muito conservador, pertencente à classe degenerada, começou a cambalear. Perplexo e muito apavorado com esse crime de lesa-majestade, procurou algum apoio, que lhe foi proporcionado por um terrano sorridente.
O ambiente não está nada bom por aqui, não é, meu velho? — perguntou o sargento em tom bonachão e bateu carinhosamente nas costas do cortesão que ocupava o posto de ministro.
Tive de esforçar-me muito para não soltar uma risada.
Gucky, que usava o uniforme especialmente talhado para ele com uma abertura na parte traseira, caminhou a passo balouçante em minha direção. Sua cauda, que terminava em forma de colher, estava muito levantada.
Para espanto dos meus acompanhantes arcônidas, tomei nos braços aquela criatura pequenina, à qual estava ligado por uma forte amizade, nutrida por uma série de brincadeiras picantes. Acariciei o pêlo macio, logo abaixo do capacete.
Isso que é classe! — suspirou Gucky, revirando os olhos. Seu rosto de rato iluminou-se. — E que classe! Como esses dedos são macios. Quase chegaria a dizer que são dedos de quem está acostumado a não fazer nada.
Quer que aperte com mais força, seu convencido? — perguntei com uma risada.
Seu bruto! Bem, o que é que se pode esperar de um imperador? Li nos livros que essa gente gosta de matar seus súditos. Você conheceu um indivíduo desses que se chamava Nero?
Se conheci! Até fui membro de sua guarda pretoriana.
O rosto de Gucky tornou-se pensativo. Fitou-me atentamente. Continuava a acariciar o pêlo de sua nuca. A poucos metros de distância, Fron Wroma fazia um esforço tremendo, tentando convencer um dos oficiais dos naats que o rato-castor não era nenhum monstro e nem um animal comestível.
Cochichei apressadamente ao ouvido de Gucky:
Nem pense em fazer alguém voar. Faço questão de que suas faculdades supersensoriais não sejam conhecidas.
Faculdades supersensoriais? Que honra — disse o rato-castor com uma risadinha. — Quem é esse sujeito de uniforme espalhafatoso?
Virei a cabeça. Bem atrás de nós havia um homem velho. Seus olhos atentos chamavam a atenção.
É o Almirante Tara, comandante da vigésima segunda frota de couraçados. Continua muito ativo e é inteligente. Por quê?
Ele o odeia. Neste instante estava pensando em sua família, que também quer o seu emprego.
Emprego?
Isso mesmo, seu emprego. Sente-se muito indignado com seu comportamento. Que inferno! Agora está pensando em mim. Diz que sou um pincel com olhos de peixe. Imagine: um pincel com olhos de peixe! — acrescentou Gucky com um grito furioso.
Antes que a pequena criatura, profundamente ofendida, pudesse fazer alguma tolice, ouviu-se uma voz conhecida. O tom da mesma era firme e exigia respeito.
Silêncio! Controle-se, Gucky. Pensei que tivesse entendido minhas instruções.
Soltei o rato-castor, que esperneava fortemente. Ao que parecia teve de fazer um esforço tremendo para não se vingar. Felizmente anunciara o resultado de seu exame telepático da mente consciente em língua inglesa, da qual nem o Almirante Tara e nem meus acompanhantes arcônidas compreendiam uma única palavra.
Era forte e musculoso, seu andar era elástico e, apesar do talho simples, o uniforme verde-pálido do Império Solar caía-lhe muito bem. Talvez fosse mesmo a atitude discreta que o distinguia dos outros homens. Era um dos homens que até um observador apressado costuma olhar ao menos duas vezes.
Não usava condecorações ou distintivos vistosos. Na verdade, era apenas a arma de impulsos trabalhada à mão que chamava a atenção para sua pessoa.
Rhodan colocou a ponta dos dedos no boné amassado. A estreita faixa dourada estava gasta e desbotada.
Sorri. Como era fácil subestimar os terranos! Mas as pessoas que já o tinham feito, logo tiveram de reconhecer seu erro.
O grande homem não gastou muitas palavras. Antes de mais nada, lançou um olhar para meu relógio especial.
Os cumprimentos ficam para depois, meu velho — disse com um sorriso. — Quanto tempo ainda temos?
Era uma atitude típica de Perry Rhodan. Nunca perdia tempo, quando os segundos eram preciosos. Olhei para o relógio.
Dispomos de exatamente trinta horas e dois minutos, com uma tolerância de mais ou menos duas horas.
O.K.; era o que eu queria saber. Providenciou alojamentos para meus homens?
Eles morarão nos aposentos de hóspedes do palácio.
Muito bem. A equipe de combate ficará na nave, sob o comando de Bell. Será necessário cumprimentar todos estes cortesãos?
Eles sabem quem é você. É bem verdade que costumam subestimá-lo. Acham que é um pequeno e bárbaro soberano, que conseguiu por acaso arranjar uma nave da classe Império.
Rhodan soltou uma risada bonachona, o que fez com que eu me sentisse ainda mais à vontade. Quando os mutantes surgiram na pequena comporta de passageiros, fiquei completamente tranqüilo. Ivã Goratchim, o gigante de duas cabeças, provocou um alvoroço ainda maior que Gucky, que ainda parecia refletir sobre o que deveria fazer com o almirante.
Os cumprimentos foram lacônicos. Rhodan não perdeu muitas palavras. Agradeceu pelo convite, mas disse que pretendia visitar as universidades arcônidas.
O Almirante Tara foi o único que examinou detidamente o terrano de estatura elevada. Até esforçou-se para ser gentil, usando a palavra alteza.
Vossa Alteza possui uma nave excelente — disse Tara em tom gentil. — Deve ser de construção arcônida, não é?
Rhodan ofereceu-lhe o sorriso mais indiferente de que era capaz.
Foi construída na Terra, sir — informou. — Já iniciamos a produção em série. A situação junto ao front dos druufs exige um aumento rápido da capacidade de produção dos estaleiros.
O comandante da vigésima segunda frota arcônida de couraçados lançou-me um olhar: estava surpreso.
Seria conveniente que no futuro o senhor se mantivesse mais bem informado sobre o equipamento militar dos povos não-arcônidas — disse em tom de recriminação. — Enquanto os senhores ficam repousando sobre os louros dos êxitos passados, celebro alianças com soberanos poderosos. Acho que isso corresponde muito mais aos interesses do Império do que celebrar diariamente uma festa pomposa.
Tara conseguiu dominar-se. Era um dos poucos oficiais e membros do Grande Conselho, que se mantiveram ativos. Fez uma mesura irônica.
Com soberanos poderosos, alteza?
Enquanto proferia estas palavras, olhou para Rhodan, que fez como se não tivesse ouvido a alusão.
Realmente, com soberanos poderosos — confirmei em tom frio. — Basta olhar para os tripulantes deste supercouraçado para convencer-se disso.
São bárbaros, alteza!
É engano seu! São soldados, técnicos e cientistas altamente qualificados, que ainda há pouco conseguiram destruir uma frota materialmente superior: a frota dos druufs. O senhor não ouviu falar nisso, não é mesmo?
Minhas palavras foram suficientemente claras para fazê-lo empalidecer. Os funcionários da corte e oficiais que nos cercavam retiraram-se cautelosamente.
Rhodan passou por eles, sem dar-lhes a menor atenção. Achou que não valia a pena retribuir as honrarias dispensadas a contragosto. Divertiu-me a sua atitude deliberadamente arrogante.
Entramos nos carros pomposos que nos esperavam e voamos em direção ao palácio distante. Os mutantes seguiram-nos num grande planador de passageiros.
Quando nos vimos sós, Rhodan soltou um suspiro de alívio. Sua risada seca despertou minha atenção.
Com esta sociedade impregnada de decadência até a medula dos ossos, você não conseguirá muita coisa, Atlan! Ouça um bom conselho. Livre-se deles, aposente-os, faça qualquer coisa para afastá-los dos postos mais importantes. Por enquanto você ainda detém o poder absoluto. Como estão os cem mil ancestrais que eu lhe trouxe? Já estão em condições de entrarem em ação?
A situação é mais difícil do que supúnhamos. Poucos deles possuem conhecimentos atualizados. Não podemos esquecer que se trata de colonos. Dali se conclui que noventa e nove por cento deles provêm das camadas populares. Já iniciei o programa de treinamento. As estações hipnóticas de Árcon III estão trabalhando dia e noite. O regente foi cuidadosamente programado.
Rhodan acenou com a cabeça; parecia pensativo.
Você não poderá utilizá-los antes de um ano. Procure superar este lapso de tempo.
Será que daqui a um ano ainda estarei vivo?
Recostou-se na sua poltrona e fitou-me atentamente.
O.K. Passemos à lastimável ocorrência. Não queria começar logo com isso. Como se deu o assalto?
Fiz um ligeiro relato. Quando o plana-dor robotizado subiu num ângulo íngreme, a fim de passar por cima da borda superior do palácio em forma de funil, o terrano já estava informado.
Pelo radiofone ordenei ao chefe da divisão dos naats que continuasse a isolar o espaçoporto. No momento em que pousamos no grande terraço suspenso, situado junto aos meus aposentos privados, e outro grande planador, que trazia os passageiros, pousava logo atrás de nós, recebemos uma mensagem do computador-regente.
A mensagem informava-nos de que o tráfego comercial intercósmico fora suspenso. Árcon II acabara de ser declarada área interdita.
Houvera um ligeiro combate de artilharia entre um cruzador pesado do regente e uma nave mercante dos mercadores galácticos. A dos saltadores fora atingida e estava incapacitada para a manobra.
As investigações já haviam sido iniciadas. Por enquanto não haviam encontrado a bordo da nave mercante qualquer coisa que tivesse a menor ligação com o ativador furtado.
Rhodan aguardou o fim da mensagem. Depois disse em tom de elogio:
Foi um trabalho bem feito. Na sua programação atual, o grande cérebro representa um elemento insubstituível. Se não fosse o centro de computação, o caos já estaria reinando por aqui.
Bem embaixo de nós ficavam os parques.
Rhodan inclinou-se por cima da amurada, até que a grade protetora energética o deteve suavemente.
Isto é lindo — disse — lindo mesmo. Não é de admirar que o invejem nessa posição poderosa. Já devem estar refletindo sobre minha chegada logo após o furto. A recepção fugiu demais às convenções. Não houve desfiles, nem longos discursos, absolutamente nada. Os maquinadores devem estar dando tratos à bola. Até que ponto os habitantes deste mundo estão informados sobre as faculdades dos mutantes? Afinal, atuamos muitas vezes por aqui.
O regente conhece-os muito bem, mas estes apáticos, que nunca estiveram em contato com o computador-regente, nem sequer sabem como o dispositivo de segurança reconheceu minha qualidade de imperador.
Mas Gucky e Goratchim chamam a atenção.
Fiz um gesto de pouco caso e olhei para o mutante de duas cabeças.
Soltei algumas observações a respeito. Por aí acreditam que o baixinho é uma espécie de animal doméstico e Ivã...
O quê? — gritou Gucky em tom indignado.
Silêncio — disse Rhodan em tom apaziguador. — Trata-se de um simples disfarce.
Que disfarce! — repetiu o rato-castor, irritado. — Não permitirei que por aí profiram ofensas em série contra mim.
O habitante do planeta Vagabundo saiu muito zangado, balouçando sobre suas pernas curtas.
Deixamos o resto da discussão para o momento em que chegássemos à sala de recepção, onde mandei que o chefe arcônida dos robôs de serviço se retirasse.
Só depois tive oportunidade de cumprimentar os membros do Exército de Mutantes. Betty Toufry fora a única mulher que Rhodan conseguira alcançar na pressa.
Sentia-me satisfeito por saber que aquela telepata e telecineta competentíssima se encontrava em Árcon I.
Uma vez ligadas as barreiras de segurança, realizamos a primeira conferência. Voltei a relatar os acontecimentos e pedi sugestões, que foram fornecidas prontamente.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html