Autor
K.
H. SCHEER
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
O destino
do Império Arcônida está
nas mãos
de um ladrão!
Com o
descobrimento na Lua de uma espaçonave arcônida acidentada, foram
lançados os alicerces para a unificação de toda a Humanidade
terrana e, desta unificação, surgiu o Império Solar. Ninguém
podia supor, nem mesmo Perry Rhodan, quantos esforços e firmeza de
ânimo seriam necessários, no correr dos anos, para manter este
Império frente aos ataques internos e externos.
A mais
séria ameaça à Humanidade, que teve seu clímax na invasão dos
druufs e na batalha em defesa do Império Solar, pôde ser debelada
graças ao eficaz auxílio de Árcon. E a crise na política interna,
provocada pelo desertor e traidor Thomas Cardif, foi removida por
Gucky.
Porém,
um desenvolvimento constante da Humanidade será possível quando
houver uma paz definitiva na Galáxia — e até lá, parece haver
ainda um longo caminho...
O
próprio Atlan, o imortal, que há pouco tempo substituiu a
gigantesca máquina eletrônica que costumava sufocar no nascedouro,
com suas frotas robotizadas, qualquer tentativa de revolução contra
o poder central de Árcon, é o primeiro a desejar a paz.
Atlan,
agora com o nome de Imperador Gonozal VIII, e Perry Rhodan, o
administrador do Império Solar, já por simples instinto de
conservação, se apóiam mutuamente em suas aspirações.
Não
faz muito tempo, foi assinado um pacto de assistência mútua entre
Árcon e a Terra. Assim, as velozes espaçonaves do Império Solar
estão preparadas para entrarem em ação em qualquer lugar da
Galáxia, onde a paz e a ordem forem perturbadas.
Ao
voltar de sua excursão à Eternidade, Perry Rhodan considera
precária a situação política em Árcon. Então confia a John
Marshall, comandante do Exército de Mutantes, o cargo de oficial de
ligação junto a Atlan. Mas, ao dar esta ordem, Perry ainda não
sabia da existência do Anti.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Atlan
— Um
imortal que só dispõe de sessenta horas para conservar a
imortalidade...
John
Marshall
— Não
é sem motivo que um telepata exerce as funções de oficial de
ligação terrano em Árcon.
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Segno
Kaata
— Chefe
do culto de Baalol, em Árcon.
Ivã
Ivanovitch
Goratchim
— Um
membro muito importante do Exército de mutantes.
1
— Sua
Alteza dos milhões de olhos, que tudo vê e tudo sabe, governante de
Árcon e dos mundos da ilha desolada, Sua Magnificência Imperial
Gonozal VIII, divindade da estirpe dos ancestrais do mundo, houve por
bem declarar aberta a sessão do Grande Conselho de Árcon.
Por vezes
os passos dos robôs que mantinham as armas preparadas para disparar
abafavam as palavras solenes. O chefe do protocolo fizera o possível
para que a cerimônia corresse segundo o milenar ritual.
Os
cientistas do Grande Conselho de Árcon levantaram-se. Segundo a
tradição, os governantes do império estelar deviam vir
acompanhados de uma guarda pessoal. Mais de um imperador já fora
vitimado pelas intrigas misteriosas da corte.
Cometi uma
infração grave ao protocolo, quando determinei que minha guarda
pessoal fosse formada por robôs especiais. Não estava interessado
em sucumbir ao tiro energético de um guarda naat, que tivesse sido
subornado ou submetido a outro tipo de influência.
Sabia que
me odiavam! Odiavam-me com toda a intensidade de que ainda eram
capazes.
Eu era um
intruso, um remanescente dos tempos passados, que aparecera de
repente e, graças aos dotes físicos e espirituais, superava em
muito os últimos descendentes da raça — antigamente tão ativa —
dos arcônidas.
Sabiam
que, com o auxílio de um comando terrano, eu conseguira desligar o
grande centro de computação, que até então parecia onipotente,
para assumir o governo do Grande Império.
Ainda
teriam perdoado meu regresso, que se verificara com um atraso de dez
mil anos, e, com toda certeza, não se teriam tornado malévolos ou
invejosos, apesar das minhas pretensões ao poder, desde que me
deixasse enfeixar no molde da decadência geral. Ninguém teria
levado a mal minha descendência da antiga família reinante, caso me
mostrasse disposto a aceitar a decadência dos costumes, a indolência
mental e a inatividade, com um sorriso de resignação dos lábios.
Mas, como
não estava disposto a permitir que o Império, corroído pelas
revoltas e guerras coloniais que eclodiam em toda parte, decaísse
ainda mais, fiz indiretamente pesadas exigências àqueles sonhadores
moral e psiquicamente degenerados, que durante sete decênios se
haviam sentido à vontade sob o governo-fantoche de psicopatas e
indivíduos neuróticos.
Na
verdade, o poder fora exercido por um gigantesco centro positrônico
de computação, que os cientistas clarividentes de meu povo haviam
programado com uma sábia previsão.
Os
habitantes dos três mundos de Árcon já se haviam acostumado à
ditadura implacável de uma máquina. Mas de repente eu apareci...
Parei na
extremidade da tribuna arqueada. Tive, diante de mim, o gigantesco
salão no qual, em tempos idos, o Grande Conselho de Árcon fundara o
Império, resolvera ampliar suas fronteiras e fizera de meu povo a
raça mais poderosa e opulenta dos setores conhecidos da Via Láctea.
E agora as
poltronas pneumáticas de muitas cores eram ocupadas pelos
descendentes desses pioneiros. E o que fora feito dos representantes
de meu povo?
Não se
podia dizer que os rostos fossem estúpidos. Mas tive a impressão de
que em todos os olhares havia um grande vazio e uma total falta de
interesse. Sabia que se sentiam indignados e indagavam por que foram
perturbados na calma a que estavam acostumados. Afinal, para que
existia um computador-regente, que já provara que em sua programação
não havia nada que constituísse uma desvantagem pessoal para os
representantes do Império?
Os homens
que ocupavam as confortáveis poltronas eram tão indolentes que eu
jamais poderia esperar qualquer colaboração de sua parte.
Provavelmente já não seriam capazes de mais nada. Os cientistas
terranos manifestaram de forma clara e inequívoca a opinião de que
os membros do Grande Conselho estavam submetidos a um processo de
degenerescência... e não só estes.
A
decadência espiritual era visível em todas as partes de Árcon I, o
lendário mundo de cristal. Os indivíduos dedicavam-se a prazeres
insensatos, aos jogos simultâneos e a doutrinas filosóficas alheias
à realidade. Esse estado não encontrava nenhum equivalente nos
vinte mil anos de história do império estelar.
Todos
acreditavam que deviam manter-se ocupados, para escapar do trabalho.
Os representantes de meu povo haviam chegado ao fim do caminho.
Perderam tudo aquilo que antigamente distinguia os políticos,
cientistas e oficiais arcônidas.
O chefe do
protocolo voltou a desfiar algumas frases cerimoniosas, em que eram
exaltadas minhas qualidades de divindade dos milhões de olhos e
alteza que tudo vê.
Aquelas
palavras, que há séculos eram adequadas e significativas,
causavam-me repugnância. Naquele ambiente perdiam todo sentido.
Os vinte
robôs de guerra colocaram-se à direita e à esquerda do estrado do
trono, que flutuava sobre um campo antigravitacional. Os campos
defensivos energéticos que protegiam cada uma das máquinas provavam
que minhas intenções eram sérias...
E uma
demonstração ainda mais inequívoca das minhas intenções residia
no alongado aparelho de comando, que usava de forma perfeitamente
visível no antebraço esquerdo.
Tratava-se
de um transmissor e receptor de impulsos regulado para minhas
vibrações orgânicas, que me permitia entrar em contato, a qualquer
momento, com o grande centro de computação instalado em Árcon III.
Todos
sabiam que soma de poder estava ligada a isso. Ninguém, a não ser
eu, estava em condições de dar ordens ao regente.
Era a
quarta sessão que estava sendo realizada no grande salão dos
ancestrais. Durante as três sessões anteriores, declarara e provara
que eu, o Almirante Atlan, membro da dinastia governante dos Gonozal,
ficara retido num mundo estranho em virtude de circunstâncias
adversas.
Ainda
relatara como conseguira escapar à catástrofe de Atlântida e por
que só agora me fora possível regressar ao sistema de Árcon, dez
mil anos depois de minha partida.
Os
oficiais de ligação terranos e Perry Rhodan em pessoa confirmaram
minhas alegações. Isso não teria adiantado muito, se o
computador-regente não tivesse confirmado integralmente as provas
por mim apresentadas, tornando-as irrefutáveis.
O regente
provara que eu era Atlan, membro da antiga família reinante dos
Gonozal, motivo por que achava-me plenamente capacitado a reivindicar
as dignidades de imperador.
Há quatro
dias mudara-me para o palácio de cristal de Árcon I. Dispensara as
cerimônias da coroação, que consumiriam algumas semanas, e tentara
imediatamente localizar os membros do Grande Conselho, que residiam
em locais bastante afastados.
Alguns
dias depois estavam sentados à minha frente, os velhos e os jovens,
os nobres e os distintos, que sempre pensavam e agiam segundo o mesmo
esquema.
Pouco
antes se verificara o pouso das naves de transporte, que enviara a um
sistema solar distante. Os homens altamente competentes de Rhodan
haviam conseguido encontrar uma nave emigrante de meu povo, há muito
esquecida, e resgatar seus ocupantes.
Tratava-se
de cerca de cem mil arcônidas, dos quais cinco mil partiram há
alguns milênios, mas foram colocados num estado de hibernação
biológica, em virtude de um acidente e de uma série de
circunstâncias extraordinárias.
Aqueles
homens e mulheres conservavam plenamente sua capacidade de ação,
embora tivessem partido depois do meu tempo.
Acontece
que ainda não podia recorrer ao seu auxílio. Estavam esgotados e
precisavam de descanso.
De
qualquer maneira, este achado representava um ponto positivo para
mim. Esperava que cem mil arcônidas arrojados e ativos me ajudassem
reconstruir o Império. Se, além disso, cuidasse para que a geração
ainda não nascida fosse submetida a métodos educacionais adequados,
a fim de ser subtraída ao torvelinho generalizado da decadência,
devia ser possível renovar o Império dentro de alguns decênios.
Tratava-se,
porém, de visões futuristas, que não poderiam ser concretizadas,
sem o auxílio dos terranos.
Fui
sentando sobre o sofá largo e fiz com que o campo antigravitacional
me erguesse. Parei três metros acima da tribuna. Obtive uma
excelente visão de conjunto.
Os membros
do Conselho estavam sentados de novo. Acharam natural um
comportamento que eu não me permitia. Refestelaram-se
confortavelmente nas poltronas, cruzaram as pernas e esperaram
apaticamente pelo que estava para vir.
Um tanto
desanimado, olhei para o oficial de ligação terrano que Perry
Rhodan designara recentemente para Árcon.
Tratava-se
de um homem esbelto e simpático, chefe do Exército de Mutantes do
planeta Terra. Seu nome era John Marshall, e sua extraordinária
capacidade telepática estava inteiramente à minha disposição.
Notou meu
olhar, que parecia pedir socorro. Abri meu campo de bloqueio
parapsicológico, a fim de poder captar os impulsos telepáticos de
Marshall. Meu cérebro adicional, ativado há vários milênios, deu
sinal de sua presença através de uma pressão dolorosa na parte
posterior do crânio.
— Muito
bem, sir
— dizia a manifestação consciente irradiada por Marshall e
captada por mim.
Mais uma
vez lamentei não dispor de um dom natural desse tipo. Só entendia
John, quando ele se concentrava diretamente sobre minha pessoa. E
era-me praticamente impossível chamá-lo contra sua vontade. Só
conseguia estabelecer contato telepático com ele, no momento em que
se concentrasse em mim.
— O
que estão pensando?
— perguntei.
— Não
muita coisa, sir. Diria que os pensamentos habituais enchem suas
cabeças.
— Perguntam
por que ainda estou vivo, não é?
— Exatamente.
Não compreendem como o senhor, que partiu há dez mil anos do
Império de Árcon, pode ter voltado sem maiores sinais de velhice.
Alguns cientistas deram-se ao trabalho de realizar pesquisas na
biblioteca pública do Império. Descobriram sua linha de ancestrais,
sir. Dessa forma sabem que o senhor realmente é Atlan.
Reprimi
uma risada colérica. Ninguém desconfiava da existência do meu
ativador celular. Mesmo que revelasse meu segredo, essa gente não
conseguiria conceber o funcionamento do pequeno aparelho. Eu mesmo
sabia apenas que o processo de decadência natural das células e os
fenômenos de envelhecimento dele decorrentes eram detidos por meio
de misteriosos impulsos estimulantes.
E isso já
vinha acontecendo há muitos milênios. Fiz um movimento discreto em
direção ao peito do meu uniforme e tateei os contornos do ativador.
O mesmo me concedera, com base num processo biofísico, uma vida
eterna, vida esta que estava repleta dia por dia, ano após ano, de
saudade ardente por Árcon.
Agora
estava em casa, mas encontrara condições que me envergonhavam e
revoltavam ao mesmo tempo. Alguma coisa tinha de ser feita para que
Árcon pudesse conservar sua grandeza. Uma gigantesca frota
robotizada não era suficiente para isso.
Abri a
sessão do Conselho. Dali a dez minutos surgiram os primeiros
protestos. No princípio, os repeli em tom moderado, e depois de
algum tempo por meio de claras ameaças.
Dali a uma
hora desisti. Seria inútil tentar obrigar esses homens a iniciar uma
vida ativa. Marshall me comunicou que os pensamentos e anseios dos
presentes se dirigiam a um único objetivo: eliminar o elemento
perturbador, que não era outro senão eu. Todos estavam indignados e
refletiam sobre os meios de afastar do poder um imperador surgido de
repente.
Não houve
qualquer sugestão sensata para o fortalecimento do Império. As
raras propostas constituíam um indício evidente de que nem sequer
se possuía uma visão clara da situação. Alguns membros do
Conselho não conheciam sequer as condições reinantes na frente dos
druufs.
Ninguém
deu atenção ao oficial de ligação terrano. Marshall me comunicou,
achando graça, que ele, o telepata altamente capaz, era considerado
o representante de um insignificante povo colonial.
Fiz descer
o sofá e encerrei a sessão. Sem aguardar os cumprimentos devotos de
alguns cortesãos que se encontravam nas proximidades, afastei-me em
companhia de minha escolta de robôs.
Mesmo que
no palácio de cristal não se soubesse fazer mais nada, ainda sabiam
celebrar festas.
Além
disso
estavam muito bem treinados em bajular o imperador e solicitar
privilégios.
Vi-me
cercado por parasitas de todos os tipos, que exprimiam em palavras
grandiloqüentes a admiração que sentiam por minha pessoa e
derramavam sobre minha cabeça pomposas honrarias. O espetáculo
quase chegou a enojar-me.
Um deles,
que me foi apresentado como o maior filósofo vivo e um grande
compositor de jogos simultâneos, queixou-se porque o
computador-regente mandara suspender os pagamentos mensais realizados
em reconhecimento às suas qualidades.
Já
conhecia o que se falava a respeito desse cavalheiro, motivo por que
rejeitei em palavras ásperas as suas pretensões e convidei-o a
dedicar suas faculdades a uma finalidade mais útil.
Comecei a
nadar contra a corrente. Provocava ressentimentos em toda parte.
Era-me difícil conseguir angariar amigos. Todos se entrincheiravam
atrás de palavras corteses, mas nos olhos dos que me cercavam
brilhava a chama do ódio.
Recusei a
festa de coroação que estava sendo planejada, o que provocou uma
onda de indignação. O chefe do protocolo me disse em tom de
súplica:
— Permita-me,
Vossa Alteza, a liberdade de ponderar que os artistas mais célebres
já anunciaram sua chegada. Peço a Vossa Alteza que tenha a bondade
de considerar a importância de uma...
Virei-me
sobre os calcanhares. O corte-são recuou apavorado.
Encontrávamo-nos
num grande compartimento que dava para a sala dos sábios.
— Sou de
opinião que, na situação atual, uma série de festejos ruidosos
seria indefensável — gritei para ele. — Peço-lhe
encarecidamente que convoque ao palácio os oficiais superiores da
frota. Não admitirei desculpas. Os que não comparecerem à hora
marcada serão destituídos dos seus cargos.
Minha
guarda pessoal de robôs afastou as pessoas que me cercavam. O
terrano John Marshall seguia-me de perto. Seu rosto estava impassível
e inexpressivo. Era provável que, como telepata, sentisse ainda mais
intensamente o ódio provocado por minha presença.
Os sonhos
ligados ao meu regresso ao mundo natal foram-se desvanecendo.
Naturalmente gostaria de festejar; com o maior prazer teria dado a
festa do milênio.
O Império
era rico. Durante a regência do grande computador voltara a
florescer o comércio com os inúmeros mundos coloniais, muito embora
o trabalho antes individualizado dos mercadores fosse submetido a
padrões rígidos.
Mas agora
a situação estava modificada. Não conseguia conformar-me com a
idéia de investir-me no meu elevado cargo com a pompa que todos
esperavam. Minha amargura crescia cada vez mais.
Diante do
elevador privativo que levava aos recintos do pavimento superior do
palácio, a guarda dos ciclopes, seres de três olhos do planeta
Naator, mantinha-se à espera. Instruí os gigantes a manter afastado
de mim tudo que pudesse perturbar-me.
Dali a
vinte minutos cheguei aos aposentos em que antes de mim já haviam
residido outros imperadores. Preferi não usar as salas gigantescas e
suntuosas. No curso dos milênios tornara-me mais sóbrio, motivo por
que mandara preparar um pequeno grupo de aposentos com vista para o
pátio interno do palácio. Onde me sentia mais à vontade era no
grande gabinete de trabalho, cujos quadros de comando me mantinham em
contato com o grande centro de computação e, através dele, com os
centros administrativos do Império.
Entreguei
a vistosa ombreira com os símbolos de imperador a um robô de
serviço que me esperava. A máquina desapareceu silenciosamente,
numa fenda que se abriu no solo.
Embaixo de
meu gabinete de trabalho havia um destacamento especial de guardas.
Era praticamente impossível penetrar, contra minha vontade, na parte
do palácio de cristal por mim ocupada.
John
Marshall me seguira. Esperou até que lhe dirigisse a palavra.
Coloquei-me à frente da fachada interna, coberta por uma placa
protetora transparente, que substituía a galeria de janelas no lado
aberto à visão.
Oitocentos
metros abaixo do lugar em que me encontrava, ficava a área redonda
de mil e quinhentos metros de diâmetro do pátio interno. O palácio
de cristal acompanhava nossa arquitetura usual: possuía o formato de
um gigantesco funil, que descansava sobre um alicerce em forma de
cabo, abrindo-se na parte superior por cima da linda área repleta de
parques.
O
arredondamento interno do funil estava dividido em pavimentos
dispostos em formas de terraços, terraços estes que terminavam lá
embaixo, no jardim.
Desfrutei
o belo panorama. A base do funil media quinhentos metros de diâmetro.
As máquinas e estações de controle, que faziam do palácio de
cristal um dos fenômenos da Galáxia, estavam instaladas nos
alicerces.
Os antigos
imperadores utilizavam a gigantesca construção como residência.
Havia inúmeras salas, nas quais já haviam sido recepcionados
espécimes de todas as inteligências dos setores conhecidos da Via
Láctea.
Marshall
colocara-se a meu lado. Parecia sentir minha disposição, muito
embora já não pudesse captar o conteúdo consciente de minha mente,
já que voltara a erigir o bloqueio mental.
— Às
vezes fico me perguntando se sou mesmo um verdadeiro arcônida —
observei inopinadamente. — John, os soberanos que me precederam em
hipótese alguma teriam dispensado a festa.
Marshall
limitou-se a acenar com a cabeça, enquanto eu lutava para conservar
o autocontrole.
— Não
sei, John, se Perry Rhodan me fez um favor ao cognominar-me
apressadamente de imperador. Na minha opinião teria sido mais
conveniente se eu tivesse continuado a agir em segredo.
— As
circunstâncias pareciam contrárias a isso, sir.
A forma de
tratamento me fez bem, embora por muito tempo tivesse sonhado com a
hora em que os outros usassem o título mais elevado ao se dirigirem
à minha pessoa. Agora chamavam-me de alteza, mas isso não me
deixava orgulhoso.
— Posso
fazer mais alguma coisa pelo senhor, sir? — perguntou Marshall.
— Não;
muito obrigado. Preciso tentar arranjar-me sozinho. O senhor parece
cansado, John.
Marshall
limitou-se a sorrir. De repente senti vontade de viver e atuar
novamente em companhia de homens de sua espécie.
Olhei para
os terraços situados mais embaixo, cujas fachadas transparentes
brilhavam sob a luz forte do sol branco de Árcon. Era tudo muito
belo, mas eu me sentia deslocado.
A simples
idéia parecia uma ironia do destino. Durante minha longa
peregrinação através de todos os estágios culturais do planeta
Terra, tentara repetidamente promover o adiantamento técnico e
científico dos homens.
Finalmente,
muito tempo depois do desaparecimento do continente Atlântida,
quando a Humanidade descobriu a navegação espacial, minha hora
parecia ter soado. Rhodan me trouxera para Árcon, onde o dispositivo
de segurança do computador-regente reagiu às minhas vibrações
cerebrais. Ao que tudo indicava, era o único arcônida vivo ao qual
a gigantesca máquina entregaria o poder sobre o império estelar.
Os
imperadores que me precederam não passaram de fantoches submetidos à
ditadura do regente.
Marshall
sabia de meus pensamentos. Mantinha-se afastado, à maneira modesta
que lhe era peculiar, até o momento em que acreditou que devia
arrancar-me das minhas reflexões martirizantes.
— Descanse
algumas horas, sir. Os últimos meses foram extenuantes.
Procurei
controlar-me. Era inútil ficar agarrado ao passado. Tinha pela
frente uma gigantesca tarefa. E esta só poderia ser cumprida, caso
dispusesse de todas as minhas energias físicas e mentais.
Olhei para
o relógio. Faltava pouco para o pôr do sol. A estrutura cristalina
do palácio iluminou-se. Luzes ofuscantes pareciam derramar-se sobre
o pátio interno com seus magníficos jardins e obras de arte.
Em algum
lugar um animal não-arcônida soltou um grito triste e agudo. As
amplas vias elevadas antigravitacionais também iluminaram-se.
Árcon I
era belo. Era meu mundo. Senti-me mais calmo e equilibrado.
Deleitei-me com o espetáculo do pôr do sol, até que as últimas
torrentes de luz natural se apagassem no horizonte.
As luzes
artificiais acenderam-se em toda parte. As numerosas construções
situadas nas proximidades do palácio de cristal pareciam desenvolver
uma vida independente e fantasmagórica. Tratava-se dos inúmeros
ministérios do Império, abrigados em gigantescos edifícios. No
interior desses edifícios, ninguém mais trabalhara seriamente no
curso dos últimos decênios.
O
computador-regente, infalível e incapaz de fazer uma escolha errada,
era-me de uma utilidade incalculável. A idéia de confiar aos
cansados funcionários e oficiais do estado-maior o abastecimento da
frota de guerra causava-me calafrios. Portanto, o centro de
computação continuava a cuidar disso. E eu me sentia grato. Nunca
seria capaz de dominar os milhões de aspectos dos problemas
logísticos. Se não fosse o grande computador, que agora me
obedecia, poderia renunciar desde logo ao posto de imperador.
Aproximei-me
da grande mesa de trabalho em ferradura e ativei as barreiras
energéticas que protegiam a parte do palácio em que residia.
Ninguém mais poderia passar pelos amplos corredores.
Marshall
lançou-me um olhar preocupado. Quando examinei minha arma
energética, tornou-se ainda mais apreensivo.
— A
cautela nunca é demais — disse. — Vá para a cama, John. Se
quiser fazer alguma coisa por Árcon, procure manter atentos seus
dons parapsicológicos, mesmo quando estiver descansando.
— O que
é que o senhor receia, sir? Esquivei-me a uma resposta direta:
— Tudo e
nada. Tenho certeza de que entre os homens do Grande Conselho, que
parecem tão indolentes, ainda existem algumas pessoas ativas, que
apenas se acomodaram, isto é, aceitaram o conforto atual. Estas
podem tornar-se perigosas.
— O
senhor goza de uma proteção extraordinária.
— Parece
que sim. Mas ainda me lembro de que, há algum tempo, Rhodan
conseguiu com uma facilidade espantosa surpreender o imperador em
seus aposentos.
— Participei
da ação, sir. Tratava-se de uma ação muito bem planejada dos
mutantes.
— Isso
não exclui a possibilidade de que certos arcônidas, familiarizados
com o local, também consigam penetrar aqui.
John
Marshall despediu-se. Seu quarto de dormir ficava bem ao lado de meu
gabinete. Sentia-me satisfeito por saber que o amigo permaneceria a
meu lado.
Fui deitar
sem recorrer ao auxílio dos robôs de serviço. Escolhi um
confortável leito ortopédico, que ficava próximo à tela
energética panorâmica transparente. O quarto pomposo causava-me
pavor.
Antes de
adormecer, dei-me conta de que já não estava ligado ao meu mundo
como estivera antigamente, por ocasião de minha partida em direção
ao sistema solar terrano, que naquela época ainda era pouco
importante e quase desconhecido.
Com um
último movimento coloquei a mão sobre o ativador celular, que
pendia junto ao meu peito. Aquele aparelho, do tamanho de um ovo,
pulsava com a mesma segurança de sempre.
2
Acordei
com fortes náuseas. Quando me levantei abruptamente do leito
pneumático, pensei que iria vomitar.
No centro
do gabinete, junto à mesa em ferradura, estava deitado John
Marshall. O desintegrador caíra de sua mão. O corpo mole e
contorcido do terrano jazia sobre o revestimento do soalho. Seu
uniforme estava queimado por cima do ombro esquerdo.
Embora o
sistema de renovação de ar estivesse funcionando, sentia-se o
cheiro de plástico queimado. O sangue coagulado provava que John
sofrerá um ferimento sério.
Dominei a
fraqueza momentânea. Sem perder uma palavra, cambaleei em direção
ao homem ferido. Exausto, caí ao chão a seu lado.
— John!
— gritei. — Acorde, John.
Marshall
não se movia, mas sua respiração parecia normal. Provavelmente não
demoraria a acordar.
Fiquei
sentado a seu lado, até que minha mente voltasse a funcionar com
alguma clareza.
“Gás!”,
anunciou meu cérebro adicional numa série de impulsos que se
tornaram dolorosos. “Alguém o deixou inconsciente.”
Lutei para
conservar o autocontrole. Meu setor de lógica nunca se enganara.
Obedecia a um cérebro adicional que não podia ser influenciado por
mim, e por isso seu funcionamento era mais claro e preciso que o do
raciocínio por mim controlado.
Examinei a
arma de John. O desintegrador, uma arma que dissolve as moléculas,
não fora disparado. O registro de carga mostrava a palavra “cheio”.
O medidor de energia não indicava qualquer descarga. Concluía-se
que o telepata não tivera tempo de fazer aquilo que provavelmente
tencionava.
Comecei a
refletir, o que me ajudou a vencer as náuseas.
Marshall
achava-se em meu gabinete. Logo, ao contrário do que acontecera
comigo, ouvira alguma coisa. Provavelmente me encontrava mergulhado
num sono profundo, quando fui surpreendido pela carga de gás, que me
narcotizou imediatamente. De onde poderia ter vindo o gás narcótico?
Olhei
cautelosamente em torno, até que meu cérebro adicional voltou a
chamar.
“As
instalações de condicionamento de ar, seu idiota! Você seguiu o
costume terrano, ligando o suprimento de ar do exterior.”
Era isso
mesmo. Na Terra distante, eu me acostumara há muitos séculos a
dormir com as janelas abertas. Uma pessoa radicada em Árcon nunca
teria tido a idéia de modificar a regulagem do equipamento de
condicionamento de ar pela forma que eu fizera. O ar puro era
aspirado do exterior. Mas depois disso, passava por controles
robotizados de primeira ordem, que o purificavam e eliminavam os
componentes nocivos.
Percebi
nitidamente que na verdade já deixara de ser um verdadeiro arcônida.
Adotei muitos hábitos dos terranos.
Continuei
a refletir. Alguém, que estava familiarizado com o meu modo de agir
e soubera interpretá-lo corretamente, fizera penetrar o gás nos
bocais de sucção, a fim de deixar-me inconsciente.
Até ali
estava tudo claro, se bem que não sabia quem era responsável por
isso. A pergunta, que se impunha antes de qualquer outra, era esta:
por que fizeram uma coisa dessas? O ferimento no ombro de Marshall
constituía uma prova evidente de que algum “visitante”
penetrara em meu gabinete. Por quê?
Não
poderia ter sido um assassino, pois do contrário a essa hora não
seria capaz de fazer as reflexões que enchiam minha cabeça.
Teriam
sido ladrões? Olhei em torno, perplexo. Não havia nada para roubar.
Além disso, o padrão de vida no mundo de cristal era tão elevado
que já há muitos séculos não ocorria nenhum furto. Era uma
hipótese falha, pouco objetiva.
O que
pretendiam conseguir ao deixar-me inconsciente? O gemido de Marshall
despertou-me da letargia. Sacudi os últimos vestígios da narcose
produzida pelo gás. O martelar na minha cabeça diminuiu.
Rasguei o
plástico chamuscado que cobria o ombro de John. O ferimento era
menos grave do que eu supusera. Tudo indicava que a junta fora
atingida de raspão por um finíssimo raio térmico.
Descobri o
local onde o disparo alvejara. O impacto térmico atingira minha mesa
de comando. Um precioso gobelino estava queimado. Na parede que
ficava atrás do gobelino, havia um buraco vitrificado de mais de dez
centímetros de diâmetro.
Esperei
até que os olhos de Marshall se abrissem. Quando isso aconteceu,
levantou-se com a mesma disposição com que eu o fizera pouco antes.
Soltou um gemido e tombou.
Segurei
sua cabeça em meus braços e disse-lhe algumas palavras
tranqüilizadoras.
— O.K.,
John, está tudo O.K. O senhor me compreende? Desta vez ainda
escapamos sãos e salvos. A ferida de seu ombro estará cicatrizada
dentro de vinte e quatro horas. Fale, John, reaja. Se estiver com
vontade de vomitar, não se constranja. Ao que parece, fomos
narcotizados por algum gás. John...
Depois de
alguns segundos seu cérebro começou a funcionar. Fitei seus olhos
claros. Com grande dificuldade conseguiu balbuciar:
— Atlan,
che... cheguei tarde. Foram dois homens que vestiam capas largas.
Seus impulsos cerebrais me despertaram, mas quando abri a porta já
havia respirado muito gás. Eu... Atlan, o que aconteceu?
Com um
sorriso tranqüilizador ergui seu corpo. A cabeça encostou em meu
peito. Trajava apenas as largas roupas de dormir, usadas pelos
arcônidas.
Quando a
expressão de seu rosto se alterou, comecei a inquietar-me. Girou
lentamente a cabeça. Fitei seus olhos arregalados.
— O que
houve? — perguntei em tom alarmado.
— Sir,
onde... onde está seu ativador celular?
Apressadamente
afastei-o, para pôr a mão no peito. No lugar em que costumava ficar
o aparelho em forma de ovo, não consegui apalpar mais nada. Já
sabia por que haviam colocado o gás nos bocais de sucção.
Tive a
impressão de que iria mergulhar num abismo. As náuseas voltaram de
repente. Fraco e desamparado, já não dominava meus atos. Vomitei.
Até o
momento em que senti a mão de John pousada em meu ombro, permaneci
deitado no mosaico do soalho. Todos os sentimentos pareciam ter-se
apagado dentro de mim. Não queria compreender que o aparelho vital
havia desaparecido.
— Não
se exalte, sir — disse a voz do amigo terrano. — Tranqüilize-se.
Moveremos céus e infernos para recuperar o ativador. Os criminosos
ainda não podem ter ido muito longe. Chame imediatamente o centro de
computação e pergunte que naves decolaram nestas últimas horas.
Ficamos inconscientes mais ou menos por três horas. Antes de ser
ferido, ainda lancei um olhar ligeiro para o relógio. Por isso posso
determinar, com exatidão, a hora do ataque. Pergunte ao regente
quais foram as naves que saíram do planeta nestas últimas três
horas. Se nenhuma decolou, o aparelho ainda deve encontrar-se neste
planeta. Proíba a decolagem e o pouso de qualquer espaçonave em
Árcon I. Com isso, praticamente já teremos agarrado os sujeitos.
John
Marshall parecia ser um excelente psicólogo. Compreendera que minha
depressão geral não poderia ser vencida por corriqueiras palavras
de consolo. Recorrera a um meio muito mais eficiente.
A análise
imediata e a concatenação dos acontecimentos ajudaram-me muito mais
do que eu supusera.
Senti-me
tomado pela esperança. Se é que ainda se podia fazer alguma coisa,
a iniciativa deveria ser tomada imediatamente.
Levantei-me.
John já parecia ter vencido as náuseas.
— Obrigado,
John — disse com a voz áspera de nervosismo. — A solução é
esta. O senhor sabe que, sem o ativador celular, passarei por um
processo abrupto de envelhecimento. E, mais tardar, dentro de mais
alguns dias morrerei... como um ancião. John, trata-se de alguém
que sabia perfeitamente não haver necessidade de assassinar-me. O
furto desse aparelho bastaria para eliminar-me, num prazo
extremamente curto...
John
fitou-me com uma expressão pensativa e disse em meio às suas
reflexões:
— Quem
poderia saber que o senhor possui um aparelho desse tipo? Em Árcon
ninguém tinha a menor idéia disso. Ainda acontece o seguinte: Se a
tal pessoa está informada sobre a importância vital do aparelho, e
o furto parece provar este fato, o crime não terá sido praticado em
vão. Muito em breve alguém formulará exigências. O Grande Império
está em jogo, Atlan.
— Exigências?
— Tenho
tanta certeza disso como de que meu nome é Marshall. Chame o
computador-regente, sir.
Dali a
cinco minutos já sabia que, durante aquelas três horas, nove
espaçonaves haviam deixado o planeta. Qualquer uma delas poderia ter
transportado o ativador. Ordenei ao centro de computação que
verificasse com a maior precisão, recorrendo a todos os meios de que
podia dispor, para onde as naves se haviam dirigido.
Era a
única coisa que se podia fazer. Enquanto raciocinávamos e
formulávamos conjeturas, tratei da ferida de Marshall. No quarto
contíguo havia medicamentos de sobra. Meus conhecimentos médicos
eram mais que suficientes para limpar a ferida e lançar-lhe o spray
com o plasma regenerador de células. Uma injeção pressurizada
livrou-o das dores.
Antes que
chegassem os resultados das investigações do regente, o telepata já
havia vestido outro uniforme. Eu também mudei de roupa. Preferi não
dar o alarma, pois sabia que os apáticos oficiais da guarda
palaciana não poderiam prestar-nos qualquer auxílio.
Dali a
três minutos, o regente chamou pelo comprimento de onda especial do
imperador. O modelo de linhas confusas surgiu na grande tela.
Ouvi com o
maior interesse. Cinco das naves que haviam deixado o planeta eram
veículos de passageiros de linhas regulares, que se destinavam a
planetas distantes, situados fora do sistema de Árcon.
Outras
quatro naves pertenciam a particulares. Todas elas haviam pousado em
Árcon II, o mundo do comércio intercósmico e da indústria
privada.
— Vossa
Alteza deseja que sejam realizadas investigações? — indagou o
maior centro de computação do Universo.
Respondi
que não. John Marshall sorriu. Parecia adivinhar meus pensamentos.
Desliguei
e virei a cabeça. O palácio estava em silêncio. Dava a impressão
de que ninguém tinha a menor idéia do que acabara de acontecer. Se
por aqui havia algum cúmplice do criminoso, este deveria manifestar
um nervosismo cada vez maior. Por certo estaria convencido de que não
calcularam com meu procedimento tipicamente terrano. Qualquer
arcônida normal, desde que pertencesse à nova geração, seria
dominado pelo pânico e daria imediatamente o alarma.
Dirigi-me
ao quadro de regulagem e reduzi a intensidade da luz. E a tela
panorâmica, regulada para o efeito reflexivo, não deixava escapar
qualquer raio luminoso para fora.
— Alguém
no interior deste palácio deve estar muito nervoso, aguardando meu
pedido de socorro — disse em tom pensativo. — Não lhe faremos
esse favor. Seria insensato incumbirmos os guardas de qualquer tipo
de investigação. Já aprendi bastante para saber disso.
— Concordo
plenamente, sir.
— O que
sugere, John?
Marshall
fitou-me atentamente e começou a falar:
— Sir,
Perry Rhodan, que, depois de minha saída do planeta Peregrino,
determinou que eu desempenhasse as funções de oficial de ligação
em Árcon, já se encontra na Terra há alguns dias. Recomendaria
encarecidamente que o senhor solicitasse imediatamente o auxílio do
Exército de Mutantes. Somos as únicas pessoas capazes de recuperar
o ativador.
— Acha
que devo invocar a aliança que celebrei com Rhodan?
— Não,
não é isso. Acho que o senhor deveria dirigir-se a Rhodan como
amigo, e não ao administrador do Império Solar.
— Como
amigo? Como soa isso! — disse em tom pensativo. — John, agirei
como você pensa. Se não recuperarmos o aparelho dentro de sessenta
horas, minha longa vida chegará ao fim. Talvez deva assumir o risco.
— E o
Império, Almirante Atlan?
A
observação fora proferida em tom áspero. Além disso, ele me
chamara de almirante. Fitei-o com uma expressão irônica.
— Não
se faça de altruísta, Marshall! Sabe perfeitamente que, se eu
morrer, a Terra estará perdida. Ou será que, depois de minha morte,
o computador-regente, que voltaria a investir-se na plenitude de suas
funções, deixaria de dar a devida atenção a um perigo como o que
é representado pelo planeta Terra? Poucos dias depois da minha
morte, dez mil couraçados ou mais emergirão do hiperespaço, a fim
de subjugar ou destruir a Terra e todo o Império Solar. Acho que
estamos de acordo neste ponto, não estamos?
— Perfeitamente,
sir — respondeu Marshall em tom deprimido.
— Muito
bem. Sei apreciar sua franqueza, John. É uma coisa que em Árcon
parece não existir mais. Para ser sincero, gostaria de acrescentar
que também não gostaria de morrer, ao menos na situação atual.
Vamos entrar em contato com Rhodan. Ele compreenderá imediatamente
que é de seu interesse comparecer com todos os mutantes. A Terra
ainda não tem força para resistir a um ataque em grande escala.
Todavia, faço questão de ressaltar que não tenho a menor objeção
a que a Humanidade continue a evoluir. Se puder, continuarei a
apoiá-la.
— Já
sabemos disso, sir.
Já me
recuperara do choque provocado pelo furto. Logo após essa palestra,
chamei o gigantesco computador positrônico e pedi-lhe que
estabelecesse uma ligação de hipercomunicação com a grande
estação de rádio de Terrânia.
Desde o
momento do ataque frustrado da frota dos druufs contra o sistema
solar, o regente sabia onde encontrar o planeta Terra, cuja posição
até então ficara envolta em mistério.
Sabia que
em Árcon III, o mundo da guerra e da frota, as gigantescas antenas
direcionais — as maiores da Galáxia — estariam girando em
direção a certo setor espacial.
A Terra
ficava a 34 mil anos-luz. Apesar disso, a transmissão de mensagens
não apresentava o menor problema.
Dali a
pouco, a grande tela de meu gabinete iluminou-se. O rosto de um
oficial terrano apareceu. Imediatamente o terrano transferiu a
ligação para o local de trabalho do administrador.
Quando o
rosto estreito de Perry Rhodan apareceu na tela, comecei a falar, sem
o menor intróito.
— Olá,
barbarozinho, que horas são na Terra?
Perry riu.
Seu rosto descontraiu-se. Tive a impressão de fitar diretamente seus
olhos cinzentos e irônicos. A ligação de rádio, que funcionava à
velocidade superior à da luz, estava excelente. Apenas a imagem
sofria, vez por outra, uma distorção.
— Obrigado
pela pergunta, arcônida. Estava almoçando.
— Sinto
muito. Quero fazer uma pergunta, Perry: você poderia imaginar o que
aconteceria se alguém me roubasse o ativador celular?
Fiquei
curioso para ver a reação de Rhodan. Foi aquilo que eu esperava.
Seu rosto transformou-se numa máscara inexpressiva.
— Sei.
Não venha me dizer que alguém...
— Pois
foi exatamente isso. Aconteceu há três horas e meia. Marshall e eu
ficamos inconscientes com uma carga de gás. Ainda não dei nenhum
alarma por aqui. Já descobrimos algumas pistas por meio das
investigações realizadas pelo regente. Mas isso é tudo. Marshall
não conseguirá solucionar o caso sozinho. Tem alguma sugestão
aproveitável?
Perry
limitou-se a sorrir. Não seria Perry Rhodan se, a essa hora, ainda
perdesse tempo com mais perguntas. Aquele homem inteligente, que
nunca perdia o autocontrole, compreendera o significado do
acontecimento e sabia quais seriam as conseqüências.
Não deu
maiores explicações. Limitou-se a dizer:
— O.K.
Sem comentário. Dentro de duas horas decolarei acompanhado por todo
o Exército de Mutantes. Por enquanto controle os nervos e abra meu
caminho. Não quero ser detido pelas unidades de vigilância, nem
obrigado a dirigir-me a Árcon III, a fim de ser submetido a algum
controle. Pousarei com a Drusus e dois cruzadores da classe Estado no
espaçoporto do imperador. Providencie para que não sejamos
incomodados com as perguntas de muitos dos arcônidas apáticos, que
habitam o mundo de cristal. Repito: controle seus nervos. Desligo.
Foi só
isso que Rhodan teve a dizer sobre esse assunto, que, para mim,
assumia uma importância extraordinária.
Pensativo
e ligeiramente nervoso, fitei a tela que se apagava. O símbolo do
regente surgiu imediatamente.
— A
palestra foi concluída, alteza — disse a voz enfática saída do
alto-falante.
Confirmei
com um gesto e desliguei. Marshall disse em tom de elogio:
— Isso
foi rápido. Daqui a 24 horas, Perry chegará. Já lhe disse que, sem
o ativador, o senhor só terá sessenta horas de vida?
— Ele
sabe disso desde nosso segundo encontro. Naquela época, ainda éramos
inimigos. Era ao menos o que acreditávamos. Mostre seu ombro.
Verifiquei
a atadura transparente de bioplástico. O efeito curativo já tivera
início.
— Voltou
a sentir dores?
John fez
que não e respondeu com a voz controlada:
— Se não
puder agüentar, avisarei. Durma mais um pouco, sir. Ainda teremos
muito em que pensar.
Dirigi-me
ao meu leito e me sentei. Quem poderia saber que, para mim, o
ativador era uma peça insubstituível? E, principalmente, qual das
pessoas familiarizadas com a importância do mecanismo transmitira
seus conhecimentos a algum arcônida traidor? Tive a impressão de
que esta pergunta era ainda mais importante.
Por
enquanto consegui reprimir o nervosismo angustiante causado pelo
roubo. Um tanto pensativo, passei a ponta dos dedos pela cicatriz
larga e feia que havia em meu ventre.
Durante
minha permanência na Terra, por mais de uma vez vira-me obrigado a
engolir o pequeno aparelho. Muitas vezes houve necessidade de
operações, realizadas em condições que ainda agora me causavam
calafrios. Infelizmente não houvera outra possibilidade de retirar o
ativador do estômago.
Lembrava-me
perfeitamente do médico de campanha, pertencente à oitava legião
romana. Este pretendera investir contra mim, sem qualquer tipo de
anestesia e com instrumentos que não haviam sofrido esterilização.
No entanto, ainda consegui chegar ao meu traje voador, cuidadosamente
escondido, que me levou no último instante à cúpula submarina,
onde os robôs especializados se encarregaram da operação.
Das outras
vezes não me fora possível voar até minha base de operações.
Agora,
porém, as coisas eram diferentes. Meu ativador celular fora furtado.
— Como
puderam entrar aqui? Estremeci. Marshall estava sentado numa poltrona
articulada, cujo dispositivo automático de reclinamento fora
desligado.
— Como?
— Como
foi que os ladrões entraram aqui? Vi o senhor fechar todos os
acessos por meio de barreiras energéticas.
Soltei uma
risada amarga.
— John,
você ainda não conhece Árcon. Na época em que este palácio foi
construído, os atentados eram uma coisa corriqueira. Provavelmente,
ainda existem numerosas passagens secretas, que deviam servir de
caminhos de fuga aos imperadores de então. É praticamente
impossível descobrir todos os acessos camuflados, construídos com
todos os recursos da tecnologia arcônida. Os rastreadores de espaços
ocos e outros instrumentos seriam inúteis para isso. Os ladrões
deviam saber da existência de ao menos uma dessas passagens. Caso
contrário, nunca teriam passado pelas linhas de vigilância dos
robôs e pelas barreiras energéticas.
— Hum,
então é isso. Meus colegas encontrarão alguma coisa; não tenha a
menor dúvida. O senhor deveria mandar construir uma casa, apenas
para seu uso, nas imediações deste palácio.
Voltei a
rir. Fitei o terrano com uma expressão que quase chegava a ser de
compaixão.
— Meu
jovem amigo, você pensa em termos excessivamente terranos. Para um
imperador arcônida, seria inconcebível abandonar o palácio. Só
aqui podem ser instalados os controles concentrados. O que não
aconteceria se todos estes conjuntos mecânicos tivessem de ser
reconstruídos? É bom desistir logo da idéia.
— Isso é
uma vida infernal, sir. Para ser franco, não gostaria de estar no
seu couro.
— Infelizmente
não posso sair dele. Vá dormir, John. A ferida no ombro exige
descanso.
— Onde
arranjou os medicamentos?
— Só
neste palácio existem três salas de operações reservadas
exclusivamente ao imperador. Cada conjunto de quartos possui uma
enfermaria para os primeiros socorros. Os medicamentos deteriorados
são substituídos regularmente pelos robôs médicos. Já
compreendeu que meus antecessores estavam muito preocupados com sua
segurança?
Marshall
ficou calado. Sacudiu a cabeça e ligou o dispositivo de reclinamento
automático, que adaptava a poltrona automática aos contornos de seu
corpo.
O silêncio
passou a reinar no grande gabinete de trabalho. Nas paredes e sobre a
mesa de controle, as numerosas telas pareciam grandes olhos
traiçoeiros, nos quais estava escrito o escárnio e a ameaça.
Assim que
Marshall adormeceu, passei a cruzar o gabinete a passos nervosos. O
que esperavam conseguir com o furto do ativador? Por conta de quem
teriam agido os ladrões?
Por que
não me assassinaram? Não poderia haver uma oportunidade melhor de
livrar-se do imperador.
Antes que
o setor lógico de minha mente pudesse dar sinal de sua presença, eu
mesmo encontrei a solução. Não se arriscaram a matar-me, enquanto
estava dormindo, porque o computador-regente fora programado por mim,
num trabalho de várias semanas. Se eu morresse de repente, ele
imediatamente assumiria o poder e restabeleceria as condições
reinantes antes do meu desaparecimento.
Ao que
parecia, aqueles que arquitetaram o plano não estavam interessados
em viver novamente sob a ditadura de uma máquina. Alguém desejava
conquistar o poder.
Com isso,
a suposição de Marshall encontrava um fundamento lógico. Ao que
tudo indicava, acreditavam que eu era um homem que amava a vida como
milhões de outras pessoas. Portanto pensavam que poderiam fazer
chantagem comigo. Era a única pessoa que poderia reprogramar o
centro de computação!
Comecei a
caminhar ainda mais nervosamente. Naturalmente, era esta a solução
do problema. Alguém queria obrigar-me a fazer uma coisa que levaria
inevitavelmente à destruição do Império.
Comecei um
solilóquio em voz alta. Marshall abriu os olhos.
— O
senhor deveria descansar, sir — disse em tom de recriminação. —
Tudo se arranjará. Os arcônidas perdem os nervos com muita
facilidade.
— Nos
dez mil anos que passei na Terra deveria ter perdido esse hábito —
respondi em tom sarcástico. — Está bem; vou deitar.
Com isso
teve início o período de espera por Perry Rhodan. Era estranho como
minha dependência do amigo terrano de repente se tornara tão forte.
Quando me lembrei da luta que travamos no museu terrano de Vênus,
tive de sorrir.
Também me
lembrei de uma moça chamada Marlis Gentner. Fora gentil, muito
gentil.
3
O
espaçoporto destinado exclusivamente ao uso do imperador e das
pessoas por ele autorizadas ficava a poucos quilômetros das extensas
colinas, sobre as quais fora construído o palácio do imperador.
Mandara
isolar a área por unidades de robôs fortemente armadas e uma
divisão dos naats.
Aqueles
ciclopes, com seus três metros de altura e três olhos enormes na
cabeça redonda, eram mais ativos, fiéis e experimentados que as
inúmeras tropas arcônidas de desembarque especial. Praticamente,
estas só existiam no papel.
John
Marshall examinara os oficiais das unidades dos naats por meio de
seus dons parapsicológicos, investigando cuidadosamente o conteúdo
do espírito consciente de cada um desses seres.
Constatou-se
de forma inequívoca que a guarda imperial de naats não tivera a
menor participação no furto. Os ciclopes não sabiam de nada.
Quinze mil
habitantes do quinto planeta, dotados de equipamentos modernos, entre
os quais se incluíam trajes especiais de vôo e campos defensivos
individuais, fecharam hermeticamente o grande espaçoporto.
Era um
contingente respeitável, que ainda era reforçado pelos tanques
robotizados e canhões energéticos autopropulsados.
Naturalmente,
o fato chamaria a atenção de muita gente. Os cortesãos preocupados
sufocaram-me com perguntas, mas limitei-me a sorrir. Que pensassem o
que quisessem.
O fato de
pensar num homem chamado Perry Rhodan não correspondia à atitude de
suprema arrogância dos nobres. Nos círculos dos conspiradores devia
lavrar o maior desassossego. Marshall supôs que essa gente talvez
estivesse pensando que eu possuía outro ativador. Só assim se
explicaria minha tranqüilidade.
Já
havíamos recebido o resultado da interpretação dos dados,
realizada pelo computador-regente. A máquina confirmara
integralmente o resultado das minhas reflexões. Os criminosos não
quiseram assumir o risco de assassinar-me. Queriam tudo ou nada.
Portanto, a probabilidade de uma tentativa de chantagem tornava-se
cada vez maior.
Encontrava-me
ao lado do acampamento da divisão, que era móvel e capaz de voar.
Os oficiais dos naats pareciam quebrar suas enormes cabeças para
descobrir o que significava tudo isso.
Minha
guarda pessoal de robôs formou um semicírculo em torno de mim. Os
canos das pesadas armas energéticas cintilavam.
Dez
minutos depois de minha chegada ao espaçoporto, os avisos de
localização tornavam-se cada vez mais freqüentes. E os aparelhos
do posto de combate estavam ligados ao centro de computação.
Três
naves de guerra desconhecidas, dois cruzadores ligeiros e um
supercouraçado da classe Império, acabavam de sair do hiperespaço
de quinta dimensão bem no centro do sistema de Árcon.
O décimo
primeiro planeta sofrerá um forte abalo provocado por uma onda de
choque estrutural. Pelo que se dizia, em sua superfície rugiam
tremores tectônicos e furacões violentíssimos.
Isso não
importava. Árcon XI era um planeta desabitado. E a atuação de
Rhodan fora coerente.
A
distância de Árcon à Terra era tão grande que não poderia ser
vencida num único salto. Por mais que forçasse as máquinas de suas
naves, teria de saltar pelo menos quatro vezes.
Observei o
pouso da Drusus, a nave capitania da Frota Solar, que media mil e
quinhentos metros de diâmetro.
O gigante
pousou, com toda precisão, sobre as colunas de sustentação
abertas. Logo a seguir, pousaram mais dois cruzadores ligeiros da
classe terrana Estado, cuja aceleração enorme até então não fora
alcançada por qualquer outro veículo espacial.
Uma onda
de pressão provocada pelas massas de ar superaquecido passou
ruidosamente pelo terreno. Depois disso, as máquinas da Drusus
silenciaram. Parecia uma montanha de aço e preenchia o campo de
visão a tal ponto que nem sequer a metade visível da esfera podia
ser abrangida com o olhar.
Conhecia
perfeitamente o potencial combativo desse veículo espacial da classe
Império. E, ao lembrar-me disso, pensava menos nas máquinas,
armamentos e instalações eletrônicas que nos homens postados atrás
desse equipamento. Mesmo nessa época, em que a robotização chegara
a noventa e oito por cento, tudo dependia em última análise do
espírito e da competência da tripulação viva.
Senti-me
amargurado. Eu, que era o novo imperador do reino estelar dos
arcônidas, dispunha de mais de dois mil supercouraçados desse tipo.
Bastaria uma ordem minha para que esses titãns partissem para o
espaço.
No
entanto, dei-me conta de que uma frota terrana de apenas quinhentas
naves desse porte acabaria muito depressa com meu contingente
gigantesco de supernaves, já que não possuíamos as tripulações
altamente qualificadas com que contava Perry Rhodan.
Voamos do
acampamento da divisão até o couraçado. Quando as escotilhas
inferiores se abriram e o comando de sentinelas das comportas,
chefiado por um jovem policial, entrou em forma, senti-me muito mais
à vontade.
Eram
rostos e uniformes familiares. Eram os homens nos quais se podia
confiar sem restrições, fosse qual fosse a situação. Eram os
especialistas altamente qualificados, que sabiam usar o cérebro em
conformidade com sua própria iniciativa. Tratava-se de soldados que,
numa situação imprevista, sabiam tomar decisões pessoais.
Naquele
momento esqueci-me da dignidade recém-adquirida. Esqueci-me de todas
as convenções e precipitei-me sobre os homens do comando, para
cumprimentá-los. Mantiveram-se rígidos e imóveis à minha frente,
conforme exigia a disciplina rigorosa dos terranos.
Mas
percebi o brilho dos seus olhos e o sorriso disfarçado que brincava
em torno de seus lábios. Estaria disposto a pagar alto, se pudesse
entrar na nave e sair voando com essa gente.
O oficial
dos sentinelas era o Tenente Fron Wroma, um terrano alto e anguloso,
vindo do estado confederado da África. Por estranho que possa
parecer, naquele momento nem pensei em sua formidável voz de
barítono. Seu canto já me salvara de uma terrível crise de
nervos...
As
recordações precipitaram-se em minha mente. Não dei atenção aos
oficiais do estado-maior dos naats, mudos de espanto, nem me
preocupei com o constrangimento dos funcionários da corte.
Quando
ainda estava conversando com Wroma, o ar começou a tremer à minha
frente. Um pequeno corpo, de um metro de altura, começou a mostrar
seus contornos apagados, e logo a seguir adquiriu sua estabilidade
material.
Fitei um
par de olhos grandes e inteligentes e um dente roedor muito branco de
dimensões respeitáveis. Gucky, o rato-castor do planeta Vagabundo,
acenava com as mãozinhas delicadas e gritou com sua voz estridente e
inconfundível:
— Olá,
seu velho teimoso! Como vão as coisas?
O mordomo
de meu palácio, um arcônida muito conservador, pertencente à
classe degenerada, começou a cambalear. Perplexo e muito apavorado
com esse crime de lesa-majestade, procurou algum apoio, que lhe foi
proporcionado por um terrano sorridente.
— O
ambiente não está nada bom por aqui, não é, meu velho? —
perguntou o sargento em tom bonachão e bateu carinhosamente nas
costas do cortesão que ocupava o posto de ministro.
Tive de
esforçar-me muito para não soltar uma risada.
Gucky, que
usava o uniforme especialmente talhado para ele com uma abertura na
parte traseira, caminhou a passo balouçante em minha direção. Sua
cauda, que terminava em forma de colher, estava muito levantada.
Para
espanto dos meus acompanhantes arcônidas, tomei nos braços aquela
criatura pequenina, à qual estava ligado por uma forte amizade,
nutrida por uma série de brincadeiras picantes. Acariciei o pêlo
macio, logo abaixo do capacete.
— Isso
que é classe! — suspirou Gucky, revirando os olhos. Seu rosto de
rato iluminou-se. — E que classe! Como esses dedos são macios.
Quase chegaria a dizer que são dedos de quem está acostumado a não
fazer nada.
— Quer
que aperte com mais força, seu convencido? — perguntei com uma
risada.
— Seu
bruto! Bem, o que é que se pode esperar de um imperador? Li nos
livros que essa gente gosta de matar seus súditos. Você conheceu um
indivíduo desses que se chamava Nero?
— Se
conheci! Até fui membro de sua guarda pretoriana.
O rosto de
Gucky tornou-se pensativo. Fitou-me atentamente. Continuava a
acariciar o pêlo de sua nuca. A poucos metros de distância, Fron
Wroma fazia um esforço tremendo, tentando convencer um dos oficiais
dos naats que o rato-castor não era nenhum monstro e nem um animal
comestível.
Cochichei
apressadamente ao ouvido de Gucky:
— Nem
pense em fazer alguém voar. Faço questão de que suas faculdades
supersensoriais não sejam conhecidas.
— Faculdades
supersensoriais? Que honra — disse o rato-castor com uma risadinha.
— Quem é esse sujeito de uniforme espalhafatoso?
Virei a
cabeça. Bem atrás de nós havia um homem velho. Seus olhos atentos
chamavam a atenção.
— É o
Almirante Tara, comandante da vigésima segunda frota de couraçados.
Continua muito ativo e é inteligente. Por quê?
— Ele o
odeia. Neste instante estava pensando em sua família, que também
quer o seu emprego.
— Emprego?
— Isso
mesmo, seu emprego. Sente-se muito indignado com seu comportamento.
Que inferno! Agora está pensando em mim. Diz que sou um pincel com
olhos de peixe. Imagine: um pincel com olhos de peixe! —
acrescentou Gucky com um grito furioso.
Antes que
a pequena criatura, profundamente ofendida, pudesse fazer alguma
tolice, ouviu-se uma voz conhecida. O tom da mesma era firme e exigia
respeito.
— Silêncio!
Controle-se, Gucky. Pensei que tivesse entendido minhas instruções.
Soltei o
rato-castor, que esperneava fortemente. Ao que parecia teve de fazer
um esforço tremendo para não se vingar. Felizmente anunciara o
resultado de seu exame telepático da mente consciente em língua
inglesa, da qual nem o Almirante Tara e nem meus acompanhantes
arcônidas compreendiam uma única palavra.
Era forte
e musculoso, seu andar era elástico e, apesar do talho simples, o
uniforme verde-pálido do Império Solar caía-lhe muito bem. Talvez
fosse mesmo a atitude discreta que o distinguia dos outros homens.
Era um dos homens que até um observador apressado costuma olhar ao
menos duas vezes.
Não usava
condecorações ou distintivos vistosos. Na verdade, era apenas a
arma de impulsos trabalhada à mão que chamava a atenção para sua
pessoa.
Rhodan
colocou a ponta dos dedos no boné amassado. A estreita faixa dourada
estava gasta e desbotada.
Sorri.
Como era fácil subestimar os terranos! Mas as pessoas que já o
tinham feito, logo tiveram de reconhecer seu erro.
O grande
homem não gastou muitas palavras. Antes de mais nada, lançou um
olhar para meu relógio especial.
— Os
cumprimentos ficam para depois, meu velho — disse com um sorriso. —
Quanto tempo ainda temos?
Era uma
atitude típica de Perry Rhodan. Nunca perdia tempo, quando os
segundos eram preciosos. Olhei para o relógio.
— Dispomos
de exatamente trinta horas e dois minutos, com uma tolerância de
mais ou menos duas horas.
— O.K.;
era o que eu queria saber. Providenciou alojamentos para meus homens?
— Eles
morarão nos aposentos de hóspedes do palácio.
— Muito
bem. A equipe de combate ficará na nave, sob o comando de Bell. Será
necessário cumprimentar todos estes cortesãos?
— Eles
sabem quem é você. É bem verdade que costumam subestimá-lo. Acham
que é um pequeno e bárbaro soberano, que conseguiu por acaso
arranjar uma nave da classe Império.
Rhodan
soltou uma risada bonachona, o que fez com que eu me sentisse ainda
mais à vontade. Quando os mutantes surgiram na pequena comporta de
passageiros, fiquei completamente tranqüilo. Ivã Goratchim, o
gigante de duas cabeças, provocou um alvoroço ainda maior que
Gucky, que ainda parecia refletir sobre o que deveria fazer com o
almirante.
Os
cumprimentos foram lacônicos. Rhodan não perdeu muitas palavras.
Agradeceu pelo convite, mas disse que pretendia visitar as
universidades arcônidas.
O
Almirante Tara foi o único que examinou detidamente o terrano de
estatura elevada. Até esforçou-se para ser gentil, usando a palavra
alteza.
— Vossa
Alteza possui uma nave excelente — disse Tara em tom gentil. —
Deve ser de construção arcônida, não é?
Rhodan
ofereceu-lhe o sorriso mais indiferente de que era capaz.
— Foi
construída na Terra, sir — informou. — Já iniciamos a produção
em série. A situação junto ao front dos druufs exige um aumento
rápido da capacidade de produção dos estaleiros.
O
comandante da vigésima segunda frota arcônida de couraçados
lançou-me um olhar: estava surpreso.
— Seria
conveniente que no futuro o senhor se mantivesse mais bem informado
sobre o equipamento militar dos povos não-arcônidas — disse em
tom de recriminação. — Enquanto os senhores ficam repousando
sobre os louros dos êxitos passados, celebro alianças com soberanos
poderosos. Acho que isso corresponde muito mais aos interesses do
Império do que celebrar diariamente uma festa pomposa.
Tara
conseguiu dominar-se. Era um dos poucos oficiais e membros do Grande
Conselho, que se mantiveram ativos. Fez uma mesura irônica.
— Com
soberanos poderosos, alteza?
Enquanto
proferia estas palavras, olhou para Rhodan, que fez como se não
tivesse ouvido a alusão.
— Realmente,
com soberanos poderosos — confirmei em tom frio. — Basta olhar
para os tripulantes deste supercouraçado para convencer-se disso.
— São
bárbaros, alteza!
— É
engano seu! São soldados, técnicos e cientistas altamente
qualificados, que ainda há pouco conseguiram destruir uma frota
materialmente superior: a frota dos druufs. O senhor não ouviu falar
nisso, não é mesmo?
Minhas
palavras foram suficientemente claras para fazê-lo empalidecer. Os
funcionários da corte e oficiais que nos cercavam retiraram-se
cautelosamente.
Rhodan
passou por eles, sem dar-lhes a menor atenção. Achou que não valia
a pena retribuir as honrarias dispensadas a contragosto. Divertiu-me
a sua atitude deliberadamente arrogante.
Entramos
nos carros pomposos que nos esperavam e voamos em direção ao
palácio distante. Os mutantes seguiram-nos num grande planador de
passageiros.
Quando nos
vimos sós, Rhodan soltou um suspiro de alívio. Sua risada seca
despertou minha atenção.
— Com
esta sociedade impregnada de decadência até a medula dos ossos,
você não conseguirá muita coisa, Atlan! Ouça um bom conselho.
Livre-se deles, aposente-os, faça qualquer coisa para afastá-los
dos postos mais importantes. Por enquanto você ainda detém o poder
absoluto. Como estão os cem mil ancestrais que eu lhe trouxe? Já
estão em condições de entrarem em ação?
— A
situação é mais difícil do que supúnhamos. Poucos deles possuem
conhecimentos atualizados. Não podemos esquecer que se trata de
colonos. Dali se conclui que noventa e nove por cento deles provêm
das camadas populares. Já iniciei o programa de treinamento. As
estações hipnóticas de Árcon III estão trabalhando dia e noite.
O regente foi cuidadosamente programado.
Rhodan
acenou com a cabeça; parecia pensativo.
— Você
não poderá utilizá-los antes de um ano. Procure superar este lapso
de tempo.
— Será
que daqui a um ano ainda estarei vivo?
Recostou-se
na sua poltrona e fitou-me atentamente.
— O.K.
Passemos à lastimável ocorrência. Não queria começar logo com
isso. Como se deu o assalto?
Fiz um
ligeiro relato. Quando o plana-dor robotizado subiu num ângulo
íngreme, a fim de passar por cima da borda superior do palácio em
forma de funil, o terrano já estava informado.
Pelo
radiofone ordenei ao chefe da divisão dos naats que continuasse a
isolar o espaçoporto. No momento em que pousamos no grande terraço
suspenso, situado junto aos meus aposentos privados, e outro grande
planador, que trazia os passageiros, pousava logo atrás de nós,
recebemos uma mensagem do computador-regente.
A mensagem
informava-nos de que o tráfego comercial intercósmico fora
suspenso. Árcon II acabara de ser declarada área interdita.
Houvera um
ligeiro combate de artilharia entre um cruzador pesado do regente e
uma nave mercante dos mercadores galácticos. A dos saltadores fora
atingida e estava incapacitada para a manobra.
As
investigações já haviam sido iniciadas. Por enquanto não haviam
encontrado a bordo da nave mercante qualquer coisa que tivesse a
menor ligação com o ativador furtado.
Rhodan
aguardou o fim da mensagem. Depois disse em tom de elogio:
— Foi um
trabalho bem feito. Na sua programação atual, o grande cérebro
representa um elemento insubstituível. Se não fosse o centro de
computação, o caos já estaria reinando por aqui.
Bem
embaixo de nós ficavam os parques.
Rhodan
inclinou-se por cima da amurada, até que a grade protetora
energética o deteve suavemente.
— Isto é
lindo — disse — lindo mesmo. Não é de admirar que o invejem
nessa posição poderosa. Já devem estar refletindo sobre minha
chegada logo após o furto. A recepção fugiu demais às convenções.
Não houve desfiles, nem longos discursos, absolutamente nada. Os
maquinadores devem estar dando tratos à bola. Até que ponto os
habitantes deste mundo estão informados sobre as faculdades dos
mutantes? Afinal, atuamos muitas vezes por aqui.
— O
regente conhece-os muito bem, mas estes apáticos, que nunca
estiveram em contato com o computador-regente, nem sequer sabem como
o dispositivo de segurança reconheceu minha qualidade de imperador.
— Mas
Gucky e Goratchim chamam a atenção.
Fiz um
gesto de pouco caso e olhei para o mutante de duas cabeças.
— Soltei
algumas observações a respeito. Por aí acreditam que o baixinho é
uma espécie de animal doméstico e Ivã...
— O quê?
— gritou Gucky em tom indignado.
— Silêncio
— disse Rhodan em tom apaziguador. — Trata-se de um simples
disfarce.
— Que
disfarce! — repetiu o rato-castor, irritado. — Não permitirei
que por aí profiram ofensas em série contra mim.
O
habitante do planeta Vagabundo saiu muito zangado, balouçando sobre
suas pernas curtas.
Deixamos o
resto da discussão para o momento em que chegássemos à sala de
recepção, onde mandei que o chefe arcônida dos robôs de serviço
se retirasse.
Só depois
tive oportunidade de cumprimentar os membros do Exército de
Mutantes. Betty Toufry fora a única mulher que Rhodan conseguira
alcançar na pressa.
Sentia-me
satisfeito por saber que aquela telepata e telecineta competentíssima
se encontrava em Árcon I.
Uma vez
ligadas as barreiras de segurança, realizamos a primeira
conferência. Voltei a relatar os acontecimentos e pedi sugestões,
que foram fornecidas prontamente.

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