— O
senhor já ouviu dizer que os aras me convidaram a conferenciar
amanhã com o Conselho dos Dez? Muito bem. Se os senhores, que são
mercadores galácticos, não estão dispostos a investir alguma coisa
em benefício do grande império dos mercadores, não terei outra
alternativa senão aliar-me aos aras. Acho que realmente já dissemos
tudo que tinha que ser dito.
Dali a uma
hora, o grupo de saltadores e Cardif encontravam-se novamente a bordo
da Cok II. O patriarca não fez qualquer comentário sobre a
conferência malsucedida que mantivera no Banco. O velho leu as
notícias recebidas naquele meio tempo e passou-as para Thomas
Cardif. Já percebera que não poderia transformar o jovem terrano
num simples meio para alcançar suas finalidades. O desertor da Frota
Espacial Solar não era um homem do qual se pudesse abusar. Fora dele
a proposta de informar toda a Galáxia pelo hiper-rádio sobre a
mudança de governo, depois que compreendera as chances que os
mercadores galácticos viam nessa mudança secreta.
Cokaze
ainda hesitara. O risco lhe parecia muito grande. Mas os argumentos
de Cardif eram convincentes.
— Transmita
a informação ininterruptamente pelo hipercomunicador — pedira
Thomas Cardif em tom enfático. — Repita a notícia sem cessar,
informando que um certo Atlan está governando o Grande Império.
Fique martelando a Via Láctea com a novidade, Cokaze! Não vá
imediatamente a Archetz. Permaneça no espaço com sua frota e atice
a fogueira de lá.
“O
senhor desencadeará um furacão espacial. Os mercadores galácticos
se revoltarão contra o usurpador Atlan e o afastarão do governo.
“Mas não
espere demais, pois o senhor não está interessado em possuir um
corpo acéfalo. O que o senhor pretende é ocupar o lugar dos
arcônidas, apossando-se de toda a extensão do reino estelar M-13.
Por isso deverá estar em condições de golpear assim que as
primeiras raças coloniais tentem retirar-se do Grande Império.
“Atlan
mesmo lhe fornecerá a prova de que é o novo governante. E o
desenvolvimento catastrófico dos acontecimentos o obrigará a
ministrar a prova de que ocupa o lugar do Grande Coordenador. No
momento em que fizer isso, Cokaze, os mercadores galácticos serão
os senhores do Império de Árcon.”
Cokaze, o
mais rico dos chefes de clã dos saltadores; Cokaze, um homem velho e
experimentado, sagaz e hábil nos negócios, inescrupuloso e
matreiro, quando fosse necessário — esse Cokaze assustou-se com o
ódio demoníaco do jovem terrano.
Descobriu
o que havia dentro dele.
De
repente, o patriarca começou a ter medo de Thomas Cardif.
Esse
velho, que nunca sentira problemas de consciência, quando submetia
mundos recém-descobertos com populações inteligentes à sua
vontade, obrigando-os a celebrarem tratados comerciais com seu clã...
Só agora, esse velho percebia quem era Thomas Cardif. E, além
disso, não pôde deixar de reconhecer que os mercadores galácticos
já não mais podiam recuar.
Thomas
Cardif atrelara-os à sua carruagem, a fim de desencadear uma
revolução no Império de Árcon e destruir seu pai Perry Rhodan.
E Cokaze,
todo apavorado, perguntara ao jovem:
— Afinal,
quem é você, Thomas Cardif? E o que ouvira depois disso? O que
vira?
Ouvira-o
rir e vira-o erguer o corpo. Depois veio a resposta arrogante:
— Sou um
arcônida, saltador! Naquela oportunidade — tudo aquilo se passara
há poucos dias — Cokaze sacudira a cabeça:
— Você
não é nenhum arcônida! Nunca foi. Se no Grande Império houvesse
mil pessoas da sua categoria, vocês nos tangeriam até as cavernas
estelares. E também não é nenhum terrano, Cardif. Você brinca com
mundos, com impérios espaciais. Faz tudo isso para destruir Rhodan.
Somente para isso! Saia da minha frente. Não posso vê-lo mais, seu
monstro.
Mas,
momentos depois, o patriarca dirigira-se espontaneamente ao camarote
do jovem, que há um minuto, bastante descontrolado, chamara de
monstro.
“Esse
é Rhodan”,
pensou Cokaze ao entrar no alojamento de Cardif, quando viu o mesmo
olhar penetrante que notara durante a palestra mantida com Perry
Rhodan, em Terrânia.
— Então,
a tempestade já se transformou num furacão, saltador? — perguntou
Cardif como que ao acaso.
— Ainda
não, mas os aras já chamaram três vezes e pediram insistentemente
que transportasse suas cargas em minhas naves. Esse procedimento é
tão fora do comum que só pode significar que querem falar comigo.
— Cokaze,
o senhor não obterá nenhum lucro nesse negócio em torno do Grande
Império se não garantir sua posição futura. O que vêm a ser suas
dez mil naves? E o que importa sua conta bancária? O que poderá
conseguir pelo simples fato de ter conhecimento de que o cérebro
positrônico foi substituído pelo Almirante Atlan? Nada,
absolutamente nada.
“Ponha
tudo isso a render. Entre em contato com os povos coloniais mais
turbulentos. Negocie a respeito de tudo, mas não perca a cabeça. Na
política, a mesma sempre fica meio frouxa em cima do pescoço. Não
se esqueça de que depois da tempestade, poderá vir o furacão, por
isso não dê margem para esse tal de Atlan retirar a frota de guerra
que se encontra na zona de descarga. Caso isso aconteça, vocês
terão a guerra que só poderá atrapalhar seus planos.
“Vocês
não querem um império em chamas; querem pôr no bolso um lucro
estupendo. Se é assim, cuidem para que o bolso não seja muito
pequeno para guardar o lucro. O senhor compreendeu, saltador?”
Cokaze
teve a impressão de que Cardif falara sem refletir, mas quando se
viu a sós em seu camarote, percebeu que nas palavras de Cardif não
havia a menor incoerência.
Cokaze
chamou a Cok III e a Cok IV. As duas naves encostaram ao longo da
sua. Criou-se uma ligação que permitia passar de uma nave a outra.
As três
potentes estações de hipercomunicações funcionavam
ininterruptamente. O patriarca começou a tecer sua rede. Nem se deu
conta de que estava fazendo exatamente aquilo que Cardif lhe
sugerira: estava procurando o poder, o poder político.
Quando o
terceiro dia chegou ao fim, o patriarca havia lançado suas minas em
todos os cantos. Mais de novecentos clãs de saltadores estavam com
ele e os aras continuavam a insistir em obter frete em suas naves.
Além disso, entrara em contato com os povos coloniais, por
intermédio dos patriarcas de outros clãs ou das feitorias
comerciais dos saltadores, instaladas nos respectivos mundos.
— Não
se exponha tanto — vivia advertindo Cardif.
Muitas
vezes, Cokaze não conseguia compreender por que dava atenção aos
conselhos daquele jovem. Não compreendia a si mesmo, mas sabia que,
no terreno tático-político, o filho de Rhodan tinha uma
superioridade enorme sobre ele.
Naquele
momento, estavam sentados na grande cabina da Cok II. Cokaze empurrou
as últimas notícias para o lado em que estava Cardif.
O panorama
da tempestade que iria desabar desenhava-se nitidamente.
Cada vez
mais se aproximava a hora em que o Almirante Atlan, que se encontrava
em Árcon III, teria de dirigir a palavra ao Grande Império, se não
quisesse assistir ao esfacelamento de seu grande império cósmico.
Mas o
Banco dos Mercadores Galácticos de Titon não dava sinal de vida.
Apesar
disso, Cokaze piscou para Thomas Cardif com uma expressão alegre no
rosto.
As minas
haviam sido colocadas; bastava detoná-las. O patriarca possuía o
detonador, e mais uma vez devia agradecer a Cardif por estar de posse
de um poder que obrigaria Ortece e Atual a ajoelharem-se.
As
notícias continuaram a chegar. O joio já fora separado do trigo.
Cokaze e Cardif foram os únicos que as leram. Os filhos mais velhos
do patriarca não passavam de artistas figurantes. Não deixavam
perceber o que pensavam sobre o papel que lhes fora atribuído. Não
gostavam de Thomas Cardif, e não faziam questão de esconder esse
fato.
O filho de
Perry Rhodan não se incomodava com isso. Sabia que ainda era o mais
forte, mas tinha bastante inteligência para não jogar
desnecessariamente com sua força. Fazia questão de que todos
percebessem que apenas era o conselheiro do patriarca, e cada
conselho que dava constituía um sinal dessa situação. Depois de um
rigoroso exame, qualquer um chegaria à conclusão de que não
deveria atribuir motivos egoístas a Cardif.
Mas Cardif
fazia jus à condição de filho de Perry. Se bem que não possuía o
caráter puro do pai, tinha o saber intuitivo de Perry, que lhe
permitia reconhecer num instante o desenvolvimento de qualquer
situação até o desenlace final, sem esquecer-se de considerar as
circunstâncias imponderáveis.
Na
verdade, agia sem refletir, de forma puramente intuitiva.
— Saltador,
será que não está na hora de informarmos Atual e Ortece sobre os
novos acontecimentos? Depois dos saltadores, os aras são a maior
família racial do Império de Árcon, e o Conselho dos Dez volta a
perguntar quando o senhor chega a Aralon.
— Será
que não é cedo para isso? — atreveu-se um dos filhos mais velhos
de Cokaze a perguntar.
Mas logo
teve de ouvir uma repreensão áspera. No mesmo instante, Cokaze
pediu uma ligação com os dois diretores do banco.
Muitos
minutos se passaram até que o rosto de Atual surgisse na tela,
instalada no camarote de Cokaze. O chefe de clã não perdeu tempo
com preâmbulos.
— Atual,
neste momento, estou falando em nome de oitocentos e cinqüenta e
sete patriarcas, em nome de cento e vinte e seis estaleiros, em nome
da indústria pesada e da indústria de armamentos. Falo em nome de
todos os chefes dos superpesados. Depois deste aviso enviarei um
mensageiro, com todos os documentos necessários, segundo os quais as
pessoas e entidades, que acabam de ser mencionadas, liquidam suas
contas nesse banco. O lugar para o qual deverão ser remetidos os
fundos consta dos documentos e...
— Faremos
o que o senhor desejar, patriarca — interrompeu-o Atual sem revelar
o menor abalo. — Aguardamos os documentos.
Com um
leve aceno de cabeça interrompeu a ligação.
Houve
certa inquietação entre os filhos de Cokaze, que se encontravam às
costas do patriarca. Ninguém contara com esse malogro. Os banqueiros
saltadores deviam ser indivíduos dotados de qualidades especiais.
O
patriarca estava fora de si. Thomas Cardif deleitava-se com um
cigarro. Nesse instante, seria idêntico a Perry Rhodan, se não
fossem os olhos amarelos de arcônida. Sorria alegremente.
— Não
vai enviar os documentos ao banco, saltador? — e logo depois,
disse: — Acho que devemos informar o Conselho dos Dez sobre a nossa
chegada.
O
experimentado chefe de clã ainda não estava perfeitamente entrosado
com o jovem Cardif.
— Deixaremos
que Ortece e Atual esperem até hoje de noite. Quero que acreditem no
blefe. Depois disso, talvez mostrarão maior disposição para
abandonarem a reservada posição em que se encontram... e até lá
poderei estabelecer mais alguns contatos.
Cokaze
demonstrou que fazia jus à condição de mais rico dos chefes de clã
dos mercadores galácticos. Sabia negociar, e a capacidade de
conferir credibilidade às suas palavras devia ser inata. Sempre
fizera questão de dizer aos filhos que, por meio de mentiras
táticas, pode-se perder tudo, mas raramente se consegue adquirir
riquezas.
Conseguiu
encontrar-se com quatro grandes industriais num local previamente
combinado. Conferenciou com estes. Dali a três horas, quando voltou
à Cok II, entregou mais nove documentos a Thomas Cardif, para que
este os examinasse.
— Cokaze,
pela primeira vez na vida admiro um mercador galáctico! — exclamou
Thomas Cardif em tom impulsivo e, segundo o costume terrano, estendeu
a mão ao patriarca.
Este já
vira esse costume na Terra e, muitas vezes, se divertira à custa de
tal confraternização. Mas agora pegou a mão de Cardif sem a menor
hesitação e retribuiu a pressão da mesma. O rosto de Cokaze estava
radiante. Sentia-se satisfeito com o entusiasmo sincero de Cardif.
*
* *
Naquele
mesmo instante, impulsos condensados de telecomunicação percorriam
velozmente a distância entre Árcon e Terra. Seria impossível
interceptar esse tráfego de comunicações e converter os impulsos
condensados para o comprimento normal. As antenas ainda os irradiavam
em forma distorcida e codificada. Apesar disso, saíam quase
instantaneamente, em texto claro, dos alto-falantes que se
encontravam junto a Rhodan e Atlan.
— Mas
ainda não é tudo, almirante — disse Rhodan para dentro do
microfone. — Vejo pelo seu rosto. Então, o que me diz?
Atlan
fitou o amigo a uma distância de 34 mil anos-luz.
— É
verdade, Perry! Ainda não lhe contei tudo e, neste momento, fico
triste por ter que dizer isto justamente a você. Quem está atrás
de todas estas intrigas é Thomas Cardif. É o estrategista que cria
estas situações.
— Thomas
Cardif? — interrompeu Rhodan em tom áspero e incrédulo. — Ele
mal saiu da adolescência e...
De Árcon,
do gigantesco salão de controle do gigantesco cérebro, ouviu-se uma
respiração pesada. A tela colorida que se estendia diante de Rhodan
mostrou que Atlan sacudia a cabeça. De repente, fez um aceno.
— Perry,
você teria razão se Thomas Cardif não fosse seu filho. Sabe que
resposta o cérebro positrônico me deu, quando indaguei quem está
atrás desses movimentos subversivos? Citou seu nome. Disse: Rhodan.
Mas não disse qual era o Rhodan.
— E você
acredita nisso? — perguntou o administrador em tom mais penetrante
do que pretendia usar.
— Você
não acredita, bárbaro? No fundo, poderia orgulhar-se por seu filho,
se a situação fosse outra. Entretanto, no presente caso, ele trama
minha queda... Era o que eu queria calar diante de você, meu amigo.
Mas acho que já nos conhecemos bastante para que nenhum de nós
possa esconder qualquer coisa do outro. Rhodan contra Rhodan... Quem
teria pensado ser isso possível?
Houve uma
pausa, durante a qual reinou um silêncio completo. Apenas a imagem
permaneceu na tela.
A ligação
com Árcon fora previamente anunciada. Rhodan tivera tempo para
convocar seus colaboradores mais chegados. Agora estavam sentados
atrás dele, numa posição em que viam a tela e podiam ouvir cada
palavra pronunciada.
Rhodan
contra Rhodan — quem teria pensado ser isso possível? A última
frase ainda ressoava nos ouvidos dos presentes, e todos ainda se
sentiam dominados pelo susto, provocado pela informação de Atlan.
Segundo esta, o maior cérebro positrônico da Galáxia identificara
um certo Rhodan como autor dos movimentos subversivos iniciados no
seio do Império de Árcon.
Mercant,
Freyt, Deringhouse, Marshall e Reginald Bell não queriam acreditar
nisso; não queriam aceitar o fato de que o filho de Rhodan herdara
justamente essas faculdades do pai.
— Perry
— voltou a falar Atlan, no interior do gigantesco recinto abobadado
do cérebro positrônico de Árcon III. — Retirarei da frente dos
druufs todas as naves de guerra que ainda têm uma tripulação de
robôs.
— Almirante,
se eu fosse você desta vez não obedeceria ao conselho do
computador. Se você intervir pessoalmente, ou por intermédio de
naves robotizadas, criará um incêndio no Império, que não poderá
ser apagado. Depois de seu primeiro chamado, tive uma idéia, mas
tenho de esperar até que meus cientistas consigam resolver um
problema setorial ligado à hiperpropulsão linear. Você compreende?
De
propósito, Rhodan não se exprimira com muita clareza. Não confiava
demais na afirmativa dos especialistas em hiper-rádio, segundo os
quais a escuta de uma transmissão dessa espécie era impossível.
— Entendido,
Perry — respondeu Atlan depois de ligeira reflexão. — Mas, para
mim, isso ainda não vem a ser uma idéia completa. Tem algo a ver
com os saltadores?
Rhodan
limitou-se a sorrir.
— Tenho
a impressão de que possuo um pega-moscas.
Ouviu-se
um gemido vindo de Árcon.
— Perry,
neste momento agradeço aos deuses por ter-me encontrado com um
bárbaro como você. Mas se acredita que sou um superarcônida, só
posso agradecer por sua confiança. Acontece, porém, que não sou.
Até parece que dez mil anos de permanência na Terra me incutiram
certas fraquezas humanas. Começo a ver as coisas pretas e penso no
polegar de Bell e no seu pega-moscas.
No mesmo
instante os olhos do arcônida se arregalaram.
— Então
é isso? Pelos deuses eternos, Perry! — até parecia que Atlan
pretendia colocar as mãos nos ombros de Rhodan a uma distância de
34 mil anos-luz. — Quer dizer que seu pega-moscas é...
Rhodan
interrompeu-o.
— Acho
que já nos entendemos, almirante!
— Não,
ainda não nos entendemos. Será que você pretende expulsar o
demônio com Belzebu? — a pergunta foi formulada em tom
extremamente áspero.
Rhodan
respondeu com a voz muito calma:
— Falei
num pega-moscas; nem aludi ao demônio ou a Belzebu. Conforme as
circunstâncias, com um pega-moscas pode-se agarrar duas moscas ao
mesmo tempo.
— Agora
já não estou entendendo mais nada, bárbaro! Caramba!
— Você
teve algum contato prolongado com Bell? — perguntou Rhodan com uma
indiferença fingida.
Bell
catucou as costas de Perry. A tela transmitiu a risada de Atlan.
— É por
causa da expressão pesada? Não se trata disso, Perry. Apenas
acontece que ainda não compreendi sua idéia. Ainda bem que Thomas
Cardif não tem sua experiência.
A palestra
entre a Terra e Árcon chegou ao fim.
Para Perry
Rhodan e seus homens, começou o trabalho. Allan D. Mercant, chefe do
Serviço de Defesa Solar, era o único que conhecia o plano arrojado
do administrador.
Enquanto a
equipe 065-propulsão não concluísse sua tarefa, a operação
pega-moscas teria de permanecer no terreno das idéias.
E o homem
que deu um impulso inesperado a essa tarefa foi Rabintorge, o indiano
de Laore.
4
Dali a
vinte e quatro horas, as grandes emissoras do computador-regente de
Árcon III introduziram-se nos noticiários mais importantes
transmitidos pelo hiper-rádio. Em todos os setores do Grande
Império, as telas mostraram o sinal de identificação do cérebro
positrônico, substituído logo depois pela imagem do edifício
abobadado. Após isso, começou a soar a voz metálica do cérebro.
Era uma
voz ameaçadora; não pelo tom nem pela expressão, mas pela lógica
desalmada que falava sem o menor constrangimento sobre os planos dos
saltadores, dos aras, dos ekhônidas e de mais cinqüenta grandes
povos compreendidos no Império Arcônida.
O cérebro
não formulou qualquer advertência sobre o caos. Aludiu à frente
dos druufs, apenas de forma vaga.
— Retiraremos
nossas frotas. Não faremos mais nada para evitar a penetração dos
druufs em nosso Universo. Retiraremos nossas frotas com tamanha
lentidão que as naves dos druufs não poderão deixar de encontrar o
caminho que conduz ao nosso Grande Império. Um Império que não
está disposto a manter-se não tem direito de existir.
No fim
voltou a surgir nas telas a grande abóbada do cérebro positrônico
e o sinal identificador da faixa de ondas.
Para
muitas inteligências do Império de Árcon, essas palavras
representaram uma advertência seríssima!
*
* *
Cokaze e
Thomas Cardif ouviram essa transmissão durante o vôo de regresso,
depois da conferência com o Conselho dos Dez. A mesma causou certa
impressão ao patriarca. Porém, para Cardif, não representou nem
mesmo um princípio de advertência.
— É um
blefe! — opinou. — Atlan continua a usar o cérebro, Cokaze. Se o
computador tivesse falado por iniciativa própria, eu não daria a
menor chance aos mercadores. Acontece que hoje em dia o cérebro não
é mais o que já foi. Atlan não acaba de provar que agi
acertadamente ao aconselhá-lo a entrar em contato com os comandantes
de esquadrilhas, que se encontram na frente dos druufs?
Sua voz
soava fria e facilmente poderia ser confundida com a de Rhodan.
Acontece que o pai desse jovem nunca falara com tamanha frieza e
insensibilidade.
Um
movimento instintivo de autodefesa obrigou o patriarca a reclinar-se.
Cardif reconheceu o significado do movimento.
— Sou um
monstro, não é, saltador? É o que o senhor está pensando mais uma
vez, mas esquece que meu plano não prevê nenhuma operação bélica.
Não quero transformar-me num monstro que traga sangue e lágrimas
para dentro do Grande Império. Apenas quero destruir Rhodan e apagar
seu nome, para que, daqui a dez anos, ninguém mais fale nele. Depois
disso, desaparecerei e serei esquecido. Porém, até o fim dos meus
dias, terei consciência de que minha vida não foi inútil.
— Cardif,
Rhodan é igual a você? O patriarca Cokaze não pôde deixar de
formular a pergunta. Alguma coisa dentro dele obrigava-o a isso.
— Acha
que Rhodan é igual a mim? Nada disso, saltador! O único ponto de
semelhança é o rosto que herdei dele. Rhodan é um terrano, um
feixe de sentimentos que representam uma contradição ininterrupta
aos seus conhecimentos. Acontece que eu sou e sinto como um arcônida.
Naquele
momento, o comerciante passou a falar pela boca de Cokaze.
— Quer
dizer que não pretende extrair nenhuma vantagem da destruição de
Rhodan?
Cardif
fitou-o sem compreender.
— Alguma
vantagem para mim? Nem sequer chego a brincar com a idéia de
transformar-me em seu sucessor no sistema solar. Quero destruí-lo,
castigá-lo pelo assassinato de minha mãe. Depois disso, ficarei
satisfeito, pois me bastará saber que ele recebeu aquilo que merece.
Apenas não compreendo por que o senhor vive insistindo para que fale
em Rhodan.
— Porque
às vezes você me assusta, e porque outras vezes não posso deixar
de admirá-lo, mesmo que não queira. Nunca poderá negar que é
filho de Rhodan. Se estivesse no seu lugar, eu me orgulharia de ter
um pai como ele.
Thomas
Cardif respondeu em tom sarcástico:
— Como
mercador galáctico, o senhor é muito sentimental!
O sistema
de intercomunicação de bordo interrompeu a conversa. O chamado
vinha da sala de rádio.
— Senhor,
faça o favor de ouvir isto — disse o operador de rádio em tom
exaltado.
O sistema
de armazenamento acoplado ao hiper-rádio, que era uma peça
minúscula do cérebro positrônico de bordo, reproduziu uma notícia
transmitida por Árcon.
A 1.529
anos-luz de Árcon, no sistema de Dartol, formado por dois sóis e 36
planetas, os rasis, uma raça anfíbia inteligente, separaram-se do
Império de Árcon.
Há uma
hora, duzentas naves arcônidas apareceram sobre três planetas
habitados por rasis e, sem a menor advertência, gaseificaram uma das
muitas pequenas luas que gravitavam em torno de cada um dos três
planetas. O gigantesco cérebro positrônico informou em tom
indiferente:
— As
fortes radiações obrigaram os seres anfíbios dos três mundos dos
rasis a dirigir-se ao mar e recolher-se às cúpulas submarinas. Numa
de suas últimas mensagens o governo da federação tripla de Rasis
declarou que é um vassalo fiel do Grande Império.
— Árcon
está agindo! — disse Cokaze em tom assustado.
Cardif o
contraditou.
— Não é
Árcon, mas Atlan! O computador gigante teria transformado os mundos
dos rasis em sóis para mostrar ao Império que seu castigo é
implacável. Atlan apenas gaseificou três luas minúsculas, sem
disparar um único tiro contra os planetas.
Inclinou-se
para a frente e, falando mais baixo que antes, quase como um sedutor
diabólico, disse:
— Cokaze,
será que não devemos chamar a atenção dos mercadores galácticos
para esta diferença?
Quando a
Cok II voltou a pousar no espaçoporto de Titon, Atual e Ortece
esperaram que a comporta da nave cilíndrica se abrisse e que a rampa
fosse descida.
Atual e
Ortece procuravam o patriarca Cokaze, porque o mesmo lhes provara ser
o mais forte. E, com o documento assinado pelos aras no bolso,
segundo o qual os médicos galácticos estavam dispostos a encerrar
todas as suas contas, sua situação se fortalecera ainda mais.
Ortece e
Atual examinaram o documento. As mãos de Ortece tremiam levemente
enquanto o devolvia ao patriarca. Com a voz pesada, disse:
— Tomamos
todas as providências, Cokaze, mas não podemos deixar de formular
mais uma advertência.
— Por
quê? — Cardif formulou a pergunta em tom frio.
Ortece e
Atual, patriarcas de dois clãs que há alguns milênios eram donos
do
Banco,
estremeceram e fitaram perplexos e contrariados o jovem. Depois
lançaram um olhar indagador para Cokaze.
— Cardif
tem razão e está perguntando em meu nome — afirmou o patriarca.
Essas
palavras equivaliam a um pedido de resposta.
Dezoito
saltadores e Cardif estavam sentados à frente dos dois financistas.
Dezoito saltadores não se atreviam a contraditar os argumentos dos
experimentados banqueiros. Porém, este jovem, que se parecia com
Perry Rhodan, desfazia-lhes todos os argumentos e, no fim, colocou-os
em situação tão difícil que Atual não conseguiu deixar de
confessar, em tom abatido, que as idéias de Cardif também poderiam
ser corretas.
— Nesse
caso, tudo se resume numa questão de risco — retrucou Cardif com a
voz controlada. — O Banco não perderá dinheiro, desde que os
senhores desencadeiem uma inflação no Império de Árcon. A mesma
apenas causará o abalo econômico de Árcon. E um revés monetário
pesa muito mais que uma batalha perdida.
“Quando
pretendem desencadear a inflação? Decidam logo, pois, do contrário,
usaremos os documentos que temos em nosso poder e, dentro de uma
hora, o Banco dos Mercadores Galácticos de Titon irá à falência.”
Desde a
fundação do Banco, nunca ninguém exercera tamanha chantagem contra
o mesmo. Há muitas gerações os clãs dos Atual e dos Ortece se
gabavam de que sempre eram tratados com o maior respeito.
E agora um
homem, que era filho de Perry Rhodan e tinha por mãe uma princesa
arcônida, fazia-os concordarem com seus planos e desencadear uma
inflação no Grande Império, ou declarar sua falência dentro de
uma hora.
O suor
porejava nas testas de dezoito saltadores, de Atual e de Ortece.
Thomas Cardif, que estava sentado ao lado de Cokaze, fumava
tranqüilamente. Seus olhos acompanhavam os anéis de fumaça.
Ortece, o
saltador franzino, pigarreou.
— Amanhã,
terrano! Amanhã, três unidades de tempo depois do momento em que
Árcon tiver transmitido as últimas cotações.
A
expressão terrano soara como uma maldição. A voz de Ortece tremia
de raiva. Thomas Cardif apagou o cigarro.
— Obrigado
— disse e sorriu para os dois.
Compreendeu
perfeitamente por que os dois banqueiros se retiraram sem
despedir-se.
Dezoito
saltadores viam nele um perigo mortal. Cokaze perguntou com a voz
insegura:
— Cardif,
onde foi que o senhor adquiriu esses conhecimentos sobre a técnica
financeira?
— O que
o senhor acha que eu tenho? — perguntou Cardif em tom de espanto. —
Conhecimentos sobre assuntos financeiros? Não posso responder à sua
pergunta, pois até o momento em que iniciei a conferência com Atual
e Ortece nunca pensei sobre isso.
*
* *
A GHC
Company, sediada na Cidade do Cabo, já não era um complexo da
indústria pesada pertencente à Federação Africana. Com base nos
novos dispositivos da legislação de emergência, Perry Rhodan
confiscara a companhia e a incorporara ao Serviço de Defesa Solar.
As buscas trouxeram tantas provas da existência de traidores, todos
ligados ao clã de Cokaze, que nem mesmo os partidos da oposição da
Federação Africana se atreveram a abrir polêmica sobre o confisco.
Os
laboratórios médicos analisaram os tóxicos descobertos em poder de
Rochard, Artun e Sharkey e constataram que se tratavam de toxinas
desconhecidas. Ao serem injetadas, estas conferiam aos seres humanos
faculdades hipnóticas ou sugestivas de intensidade fenomenal. Seu
perigo não residia tanto no poder tóxico, mas antes no fato de que
seus efeitos perduravam por seis meses.
No
primeiro semestre do ano de 2.044, o sistema solar fora sacudido de
uma calma enganosa, em virtude do aparecimento de naves dos druufs.
Depois disso, assistira à chegada de uma grande frota robotizada dos
arcônidas e também travara contato com as naves cilíndricas dos
mercadores galácticos.
Ao se
defrontarem subitamente com esses fatos e compreenderem que afinal o
poder gigantesco do Império Solar não chegava tão longe assim, os
ânimos dos terranos se descontrolaram e se deixaram arrastar por
tensões políticas internas extremamente graves. Rhodan conseguira,
em parte, dominá-las, e a frota dos saltadores, comandada pelo
patriarca Cokaze, abandonara o sistema. Graças à generosa ajuda de
Atlan, as frotas solares tornaram-se mais fortes que nunca.
Entretanto,
no momento, o poder do Império Arcônida andava um tanto abalado e,
por conseguinte, caso Árcon ruísse, desmoronaria também o Império
Solar.
Mais uma
vez, o destino da Humanidade repousava nas mãos de um único homem,
e, como das outras vezes, pouca gente sabia disso. Nem mesmo os
membros da equipe 065-propulsão desconfiavam dos motivos que levavam
Rhodan a insistir, já há alguns dias, para que concluíssem o
trabalho.
Rabintorge,
o indiano descoberto por Frank Lemmon, chefe da Seção F-l do
Serviço de Defesa Solar, transformara-se na peça motora da equipe.
Sentia-se fustigado pela ambição de demonstrar que sua arrojada
hipótese era correta. Já não o contestavam com a mesma freqüência
dos primeiros dias. Um dos maiores computadores de Terrânia, que
fora requisitado por ele, sempre lhe dava razão. Mas antes que o
cérebro positrônico pudesse ser alimentado com os dados
extraordinários, tais cifras tinham de ser apuradas.
O problema
básico consistia nos abalos estruturais causados pelo funcionamento
do hiperpropulsor linear. E esse problema tornava-se ainda mais
difícil porque os cientistas não conheciam esse tipo de propulsão,
com exceção de algumas indicações vagas.
Perry
Rhodan foi acordado no meio da noite. A tela do intercomunicador
iluminou-se ao lado de sua cama. O rosto moreno do indiano Rabintorge
fitou-o. Era o rosto de um velho ou o rosto de um homem próximo à
exaustão.
— Sir, o
aparelho está pronto...
Rhodan viu
o jovem indiano desfalecer lentamente. O rosto desapareceu da tela.
Num
instante entrou em contato com o grande hospital.
— Aqui
fala Rhodan! Acionar imediatamente o dispositivo de alarma médico e
enviar todos os recursos ao setor 18, divisão 065-propulsão! Todos
os homens que forem encontrados lá deverão receber tratamento
médico. Esgotamento total. Desligo.
Depois
disso, Bell foi acordado pelo chamado de Rhodan.
O rosto
sonolento de Reginald Bell surgiu na tela.
— É
você? — perguntou em tom contrariado. — Quer saber que horas
são?
— Bell,
o aparelho está pronto! Bell ainda não despertara de vez.
— O
hiperpropulsor linear?! — Rhodan viu na tela que Bell cerrou
fortemente os olhos, passou a mão pelo rosto, bocejou à vontade e
acordou de vez. — Então está pronto? Quem me poderá explicar o
funcionamento do aparelho?
Rhodan
interrompeu-o apressadamente.
— Voltarei
a chamar daqui a pouco. Acabara de cometer um erro. Voltou a ligar
com o pronto-socorro. Lá lhe disseram que a equipe já estava a
caminho do setor 18.
— Pois
ligue-me com a equipe! — pediu em tom enérgico.
Dali a um
instante, respondeu o planador Aeskul-6, pertencente ao serviço de
pronto-socorro.
— Preste
atenção — disse Rhodan apressadamente pelo intercomunicador,
dirigindo-se ao médico. — Na divisão 065 o senhor encontrará um
indiano totalmente exausto. Ponha-o em forma por meia hora, mas só
se achar que pode fazê-lo sem riscos. Terá que dar algumas
explicações a Mister Bell.
No
alto-falante de Rhodan ouviu-se um estalo. Já transferira a ligação
para Bell, mas o gorducho não apareceu na tela.
— Bell...!
— exclamou em tom contrariado.
A imagem
não apareceu, mas Rhodan ouviu pelo alto-falante:
— Feche
os olhos, Perry. Estou embaixo do chuveiro.
Rhodan
armou-se de paciência. Isso o deixou mais descontraído.
— Pois
bem... — Reginald Bell apareceu na tela. Estava completamente
vestido.
— Rabintorge,
que se encontra na divisão 065-propulsão, lhe dará informações
sobre o novo aparelho.
*
* *
Dali a
quatro horas Bell, a bordo da Califórnia, com a qual avançara
espaço afora, transmitiu uma mensagem de apenas uma palavra:
Pega-moscas.
No mesmo
instante, a Drusus, um supercouraçado de 1.500 metros de diâmetro,
decolou de Terrânia, com Perry Rhodan, Mercant, Freyt e a maior
parte do Exército de Mutantes a bordo. Além disso, encontravam-se
na nave duzentos especialistas das mais diversas áreas. Todos
participariam dessa missão especial, identificada pelo estranho nome
pega-moscas.
Bem longe
da órbita de Plutão, a Drusus avisou as estações medidoras de
abalos estruturais do que estava para ocorrer, e transmitiu o tempo
da transição que pretendia levar a efeito.
Só numa
situação de emergência permitia-se a realização de uma transição
no interior do sistema. Ao lembrar-se disso, Perry Rhodan soltou uma
risada amarga. Mais uma vez, seria tudo ou nada!
A
trezentos mil quilômetros da Califórnia, a Drusus emergiu do
hiperespaço e retornou ao Universo normal. Dali a cinco minutos,
Bell flutuava juntamente com alguns companheiros e um robô de
trabalho em direção à Drusus, que estava parada próximo à sua
nave.
O robô de
trabalho carregava o novo aparelho de localização. Bell nem se
atrevera a levá-lo, embora pesasse apenas alguns quilos e pudesse
ser transportado facilmente, em perfeita segurança. Acontecia que,
no momento, era o único aparelho desse tipo de que dispunham e, por
isso,
Bell
achava que era seu dever não confiá-lo a ninguém a não ser a um
robô.
O grupo
levou dez minutos para percorrer a distância que separava a comporta
da Drusus da gigantesca sala de comando da supernave. No momento, não
havia motivo para apressar-se. Quando se encontrava no interior da
comporta da imensa nave esférica, chamara Perry pelo
intercomunicador e lhe dissera:
— 1625/F
13/S27, catálogo estelar dos arcônidas.
O
computador positrônico de bordo ouvira a mensagem e, imediatamente,
expelira a fita perfurada pela fenda.
O grupo de
letras e algarismos representava a identificação arcônida de um
pequenino sol vermelho, que ficava a 8.136 anos-luz da Terra e tinha
dois planetas igualmente pequenos e desabitados. Foi nesse sistema,
próximo do chamado Saca-rolhas, um braço da Galáxia com o formato
desse utensílio, que Reginald Bell constatou, mediante o novo
aparelho de localização de abalos estruturais causados pela
utilização do hiperpropulsor linear, a presença dos três mil
veículos espaciais dos druufs que, depois da fuga do sistema solar,
permaneciam escondidos nas profundezas da Via Láctea.
A fita
perfurada, que Perry Rhodan segurava, continha todas as informações
que se tornavam necessárias para dirigir-se a esse sol
vermelho-escuro, um oitavo do sol terrano.
Naquele
instante, a Drusus e a Califórnia encontravam-se a quatro anos-luz
da Terra. Esse fato já fora considerado nas indicações fornecidas
pelo computador positrônico de bordo.
Na grande
sala de comando, começou a desenvolver-se um procedimento dotado de
uma perfeição militar. Rhodan transmitiu ordens lacônicas e
inequívocas, ouviu confirmações e não deixou que as numerosas
perguntas o enervassem.
No momento
em que o grupo dirigido por Bell, que trazia um robô com o novo
aparelho, chegou à sala de comando, a Califórnia, uma nave de cem
metros de diâmetro, pertencente à classe Estado, já estava
regressando à Terra. Enquanto isso, a Drusus preparava-se para a
transição, que a transportaria por uma distância de 8.100
anos-luz, para junto do insignificante sistema do pequeno sol, que
naquele instante assumia uma importância relevante para Rhodan.
O
supercouraçado começou a acelerar. O computador positrônico de
bordo marcara o salto pelo hiperespaço para dali a trinta e um
minutos.
Perry
Rhodan saiu da sala de comando, acompanhado por Bell, Mercant e John
Marshall.
Deixara o comando do supergigante a cargo de Deringhouse.
Uma
conferência realizada no camarote de Rhodan fora o sinal de que uma
missão importante estava prestes a acontecer.
A única
pessoa já informada sobre o plano pega-moscas era Allan D. Mercant.
O
administrador não era dado a longos preâmbulos.
— Pela
meia-noite, a Califórnia voltará a pousar em Terrânia. A essa
hora, a Drusus se terá aproximado a dez ou quinze anos-luz do
sistema em que a frota dos druufs se abrigou. Em Terrânia, uma
nave-correio ficará à espera da notícia de que nos aproximamos dos
dois planetas em que pousaram as naves dos druufs. Assim que receber
nossa notícia, a nave-correio decolará em direção a Árcon III, a
fim de entrar em contato com Atlan. O correio não terá conhecimento
das notícias que transmitirá ao almirante. Nem mesmo no computador
de bordo serão introduzidos dados a este respeito. Mas faço votos
para que Atlan se lembre do que eu quis dizer quando, certa vez, na
sala de comando de uma nave esférica, falei no Anel dos Nibelungos.
O correio apenas transmitirá esta senha.
Rhodan viu
Bell respirar profundamente.
— Está
com falta de ar, gorducho?
— Será
que você não poderia complicar as coisas mais do que isso? —
perguntou em tom tão amável e sacudiu a cabeça.
— Complicar
as coisas? — repetiu Rhodan, espantado. — De forma alguma.
Acontece que nesta missão não estou disposto a assumir o menor
risco.
— Atlan
pedirá que lhe tragam o Anel dos Nibelungos da sala de comando da
nave-correio. Compreenderá imediatamente o que lhe mandei dizer.
Depois disso, a nave-correio não voltará à Terra. Ela nos seguirá
e se manterá à espera numa coordenada que ainda lhe será
fornecida. Enquanto isso entraremos em contato com os druufs...
Bell e
Marshall estiveram a ponto de levantarem-se, mas não o fizeram. Bell
fitou o polegar com uma expressão pensativa.
Um brilho
ligeiro surgiu nos olhos cinzentos de Rhodan, porém não fez caso da
alusão de Bell.
— Chegaremos
a um acordo com o comandante dos druufs!
Subitamente,
o tom de voz de Rhodan era diferente. A afirmativa, que parecia
incrível, perdia a incredibilidade graças à sua autoconfiança
sugestiva.
Naquele
momento, Bell lembrou-se das muitas gentilezas dos druufs. Nunca se
esqueceria das mesmas. A lembrança que tinha desses seres não era
nada agradável, e não era do feitio de Bell guardar sua opinião
para si mesmo.
— Perry,
só conseguiremos chegar a qualquer acordo com o chefe dos druufs,
quando ele não tiver mais a menor chance de continuar vivendo.
— Como
você sabe avaliar bem a situação dos druufs! — disse Rhodan com
uma suave ironia. — Acontece que eles não têm mais chance de
voltar ao seu Universo.
“A área
de superposição entre o Universo deles e nosso tornou-se tão
instável que a passagem de um espaço para outro torna-se mais
difícil a cada dia que passa. Nós sabemos disso, e Atlan também.
Porém nem uma única pessoa no Império de Árcon, inclusive um
certo Thomas Cardif, sabe disso.
“E o
nosso ponto chave é o fato de que os comandantes das três mil naves
dos druufs também sabem. Já devem ter percebido que seus
fantásticos hiperpropulsores não lhes servirão para nada, pois não
há nenhuma velocidade que leve do nosso espaço ao Universo deles e,
além disso, eles não têm nossos projetores de campo de re-fração.
“Ainda
há outro fato que os coloca em situação menos favorável. Face à
dimensão temporal, que trouxeram de seu Universo, só desenvolvem
metade da nossa velocidade. Num vôo espacial normal, só serão
capazes de atingir metade da velocidade da luz.
“Um belo
dia, eles calcularão onde encontrar a abertura de descarga estável
dos dois Universos, que se deslocam um ao lado do outro. Mas faria
qualquer aposta com você, Bell, de que o dia em que isso acontecer
esse ponto estará num futuro muito distante.
“Quando
esse dia chegar, o druuf que tiver vida mais longa já terá
apodrecido há muitos decênios.”
— Perry
— perguntou Bell no tom de voz que lhe era peculiar. — Você
nunca ouviu falar que uma pessoa desesperada e dominada pelo pânico
muitas vezes age como um louco e faz exatamente o contrário do que
se espera?
Perry
Rhodan confirmou com um gesto e indagou:
— Você
nunca ouviu falar no medo da morte, Bell?
— Se não
se tratasse dos druufs, eu diria que você tem razão. Acontece que
esses seres têm uma mentalidade que para nós é incompreensível.
— Quando
a morte está à vista... Quando surge o medo de morrer, todos os
seres são iguais, Bell. Parto deste princípio ao projetar as
negociações com os druufs.
O
intercomunicador deu um sinal. Rhodan teve que dedicar sua atenção
à tela que naquele instante se acendeu.
— Sir,
são notícias do almirante! — disse o oficial que estava de
plantão na grande sala de rádio da Drusus.
O rosto
contrariado de Atlan fitou os homens que se encontravam no camarote
de Rhodan.
— Perry,
meus parabéns pelo filho que você tem. Você se orgulharia, caso
ele estivesse do nosso lado.
Estas
palavras foram ditas a título de intróito. Rhodan empalideceu
ligeiramente.
— Bárbaro,
o maior banco do Império dos Arcônidas, o Banco dos Mercadores
galácticos de Titon, cedeu à pressão de um certo Thomas Cardif e
provocou uma inflação no Grande Império.
“Afinal,
temos uma instituição semelhante à Bolsa de vocês. Há três
horas, o local transformou-se em ponto de reunião de doidos. Nem
mesmo com os recursos do banco oficial consegui sustentar as cotações
que caem ininterruptamente. O cérebro positrônico recomendou que
não fizesse nada para impedir a queda.
“Nossos
queridos amigos, os aras, invocaram um pretexto tolo e suspenderam
temporariamente o fornecimento de todo e qualquer medicamento.
Descobri que Thomas Cardif e Cokaze conferenciaram durante várias
horas com o Conselho dos Dez, em Aralon.
“De
todos os setores do Império, chegam notícias de que nenhuma nave
dos saltadores está pousando para descarregar suas mercadorias. Nos
espaçoportos dos diversos mundos só estão pousadas naves
cilíndricas, incapazes de voar.
“Três
esquadrilhas de cruzadores, que operavam na frente dos druufs e
estavam sendo dirigidas pelos mercadores galácticos, procuraram
transferir-se para M-13. Quando fiquei sabendo disso, a proteção
robotizada automática já havia entrado em ação e destruiu as três
esquadrilhas, sem deixar uma única nave. Foram trezentas e sessenta
e duas unidades!
“Segundo
notícias dignas de crédito, os superpesados estão voando em torno
de Archetz para proteger o planeta. Os únicos mundos em que ainda
não se notou a presença do fermento revolucionário são Árcon I,
II e III. O cérebro avalia a confiabilidade dos comandantes de naves
de guerra que atuam na frente dos druufs em 47,3 por cento.
“Agora,
a medida do cérebro positrônico, que mandou substituir a maior
parte das tripulações robotizadas da frente dos druufs por homens,
está-se virando contra nós. Se nas próximas dez horas a situação
continuar a deteriorar-se, farei explodir o planeta Archetz depois de
um último aviso. E se isso não bastar para intimidá-los, farei com
que recebam aquilo que...”
Nessa
altura, Rhodan interrompeu-o.
— Atlan,
seria recomendável que você não fizesse nada antes de receber
notícias minhas.
— Não
subestime seu filho, Perry. Quase chego a admirá-lo. De qualquer
maneira, esperarei desde que Cardif me dê tempo para isso.
Mais
tarde, Rhodan não saberia explicar o que lhe fez dar esta resposta a
Atlan:
— Ele
lhe dará, almirante!
Atlan, que
se encontrava só na cúpula gigantesca do enorme cérebro
positrônico de Árcon III, fitou Rhodan com uma expressão de
espanto. Depois refletiu ligeiramente e disse:
— É
Rhodan contra Rhodan, meu caro! Será que ele o conhece tão bem
quanto você a ele? E será que conheço você bastante para colocar
o Império dos meus antepassados e dos meus descendentes, dependendo
das suas ações por algumas horas? Você ainda não compreendeu que
submeteu nossa amizade a uma prova muito dura?
“O que
foi que você disse? Cardif lhe dará tempo, almirante.
“Reflita
sobre aquilo que eu poderia ver atrás destas palavras, e não
esqueça da resposta que o cérebro deu à minha pergunta sobre o
autor dos movimentos subversivos. Apenas mencionou Rhodan,
esquecendo-se de fazer qualquer alusão ao primeiro nome. Deveria ter
citado Thomas Rhodan, ou melhor, Thomas Cardif!
“Quero
que Bell me dê ajuda, mas não com a mão do dedo machucado.”
A ligação
foi interrompida em Árcon. A essa hora, Perry Rhodan, que sempre
soubera avaliar prontamente qualquer acontecimento e tinha a
faculdade de adaptar-se instantaneamente a qualquer situação,
falhou por completo.
Ficou
parado à frente da tela para não mostrar o rosto aos homens que se
encontravam presentes, pois sua fisionomia retratava a tormenta que
rugia em seu interior.
Era isso
mesmo! Acabara de submeter a amizade que o unia a Atlan a uma prova
extremamente dura. A afirmativa de que Cardif lhe daria tempo fez
nascer a suspeita de que ele e seu filho trabalhavam juntos.
Qualquer
pessoa que se encontrasse na situação de Atlan teria chegado a essa
conclusão. Mas Atlan só reagira com uma pergunta: Cardif o conhece
tão bem quanto você a ele?
Por que
resolvera dizer aquilo?
Rhodan, o
homem mais poderoso do Império Solar, procurou obrigar-se a pensar
em outra coisa. Porém desta vez, os sentimentos foram mais fortes.
Chamavam por Thomas. Era o pai que chamava o filho único.
Acontece
que Thomas Cardif estava do outro lado. Para ele, não havia nenhum
pai que se chamasse Perry Rhodan.
5
O pequeno
sol vermelho-escuro aparecia apenas como um pontinho na gigantesca
tela de visão global da Drusus. O supercouraçado de Rhodan
aproximara-se a oito anos-luz do sistema. Há alguns minutos, o
aparelho de rádio, usado durante as operações no Universo dos
druufs, estava ligado.
O centro
de controle de tiro avisou que estava preparado. A Drusus
encontrava-se em prontidão rigorosa. Mais de 2.200 pessoas a bordo
da gigantesca esfera envergavam trajes espaciais. A tensão crepitava
no interior da nave. Há meia hora, pouco antes da transição,
Rhodan informara seus homens em frases curtas sobre a missão que
iriam executar e os riscos a correr.
A idéia
de Rhodan transformara-se na missão pega-moscas, mas só Marshall,
Freyt, Mercant e Bell sabiam o que significava isso.
Sentira-se
perfeitamente a frieza que os homens haviam adquirido no curso de
centenas de missões.
Perry
Rhodan deu o passo decisivo. Estava prestes a entrar em contato com o
comandante da frota dos druufs, composta de três mil naves.
Ao lado
dele flutuava Harno, o televisor vivo, o misterioso ser esférico.
Antes que
Rhodan abrisse a boca para pronunciar a primeira palavra de sua
mensagem destinada aos druufs, Harno tornou visível o corpo
quadrático e grosseiro do comandante que tinha quase três metros de
altura. Ao que parecia, em meio a três mil naves com suas grandes
tripulações, localizara-o imediatamente.
A imagem
reproduzia o brilho marrom-escuro da pele lisa, semelhante ao couro,
daquele ser. Os quatro olhos e a boca triangular não contribuíam
para embelezar a cabeça esférica de meio metro de diâmetro, que
não tinha nariz nem orelhas. Rhodan e seus amigos já estavam
acostumados ao aspecto assustador dos druufs.
Ao ver,
por intermédio de Harno, o chefe da frota dos druufs, Perry hesitou
em fazer o chamado. Com o auxílio desse ser e de suas três mil
naves de guerra, pretendia levar avante um plano arrojado. O que
aconteceria, porém, se de repente o druuf deixasse de cumprir o
combinado e passasse a agir por conta própria?
Haveria
centenas de motivos para agir dessa maneira. Quaisquer considerações
humanas teriam de ser eliminadas desde o início. A mentalidade dos
druufs não era humana, pois estes descendiam de insetos. Só mesmo
as considerações utilitárias e o medo, que lhes infundissem os
terranos, talvez os levariam a cumprir exatamente o que se
combinasse... se é que haveria alguma combinação.
— Sir,
localização no amarelo dezoito! — anunciou o tenente que estava
de plantão junto ao rastreador espacial. — Oitenta a cem naves se
aproximam. Velocidade 0,4 da luz. Distância sete minutos-luz.
Rhodan
virou a cabeça para a direita. Viu John Marshall, chefe dos
mutantes. Trinta destes, que formavam parte do respectivo exército,
encontravam-se a bordo da Drusus, nave capitania do Império Solar.
Marshall
fez um sinal para Rhodan. Os dois comunicaram-se por via telepática.
A seguir, Marshall recorreu ao mesmo meio para avisar seu grupo,
entrando em contato com o hipno André Noir.
Os
teleportadores prepararam-se: iam entrar em ação. Um deles tinha
apenas um metro de altura e constituía uma combinação entre rato e
castor. Era Gucky.
O
endiabrado ser prendeu ao corpo a pequena fileira de bombas
especiais. Bastava detonar uma delas numa nave para transformá-la
num sol atômico. A fileira de bombas era formada de vinte peças. Os
teleportadores humanos levaram o dobro dessa quantidade.
Aguardavam
apenas a ordem de saltar.
Mas essa
ordem demorou bastante.
O
localizador especial, que reagia ao hiperpropulsor linear e o media,
anunciava uma situação perigosa. Bell, que se encontrava junto ao
aparelho, avisou:
— Quatrocentas
naves aproximam-se do amarelo dezoito à velocidade superior à da
luz. Distância cerca de três dias-luz... Ora bolas, há mais um
bando de marimbondos a menos de duas horas-luz. São sessenta naves.
— Se é
assim, está na hora — disse Perry Rhodan.
Empurrou
os outros microfones para o lado, ficando apenas com o que se
destinava ao transmissor dos druufs.
— Rhodan
chamando o chefe da frota. Favor responder...
Repetiu o
chamado dez vezes; depois calou-se. Na sala de comando não se ouvia
nada, além do zumbido dos tubos de imagem, das espulas e dos
transformadores. Mas subitamente surgiu um chiado que se tornava cada
vez mais forte.
A sala de
rádio regulou para o máximo o volume do receptor dos druufs, mas
este apenas reproduzia o chiado produzido pelos campos elétricos
instáveis situados entre as estrelas.
Depois de
algum tempo, a voz de Bell se fez ouvir:
— A
frota de quatrocentas unidades está desenvolvendo uma estupenda
velocidade. É muito rápida... — havia um pouco de inveja em sua
voz, produzida pelo fato de que a Terra não dispunha do fantástico
hiperpropulsor linear, que permitia locomover-se à velocidade
superior à da luz no espaço normal, fazendo com que os ocupantes
das naves deixassem de experimentar os choques da transição.
A sala de
controle de tiro chamou pelo intercomunicador.
— Sir,
todas as unidades energéticas de reserva foram acopladas com as
torres de canhões.
Face às
notícias transmitidas por Bell, o oficial de controle de tiro fizera
uma avaliação da situação e agira por conta própria. O aviso
transmitido a Perry Rhodan era uma questão de rotina, rotina esta
que muitas vezes os salvara em situações desesperadoras.
— OK! —
disse Rhodan.
O sistema
de intercomunicação de bordo transmitiu suas palavras para todos os
cantos da nave.
— Os
druufs estão voando ainda mais depressa! — a essa altura, a voz de
Bell parecia nervosa.
Rhodan
levantou a cabeça.
— Qual é
a velocidade?
Bell
lançou um olhar desconfiado para o novo rastreador de abalos
estruturais produzidos por hiperpropulsores lineares.
— Está
quebrado!
— Contato
visual! — gritou um oficial que se encontrava na sala de comando e
apontou para a grande tela de visão global da nave capitania.
Quase no
mesmo instante, os teleportadores saltaram em direção ao grupo de
naves que se aproximava.
Rhodan
sabia perfeitamente que sua atuação não poderia produzir um
resultado decisivo. A destruição misteriosa de algumas de suas
naves poderia provocar certo nervosismo e confusão entre os druufs,
mas nunca seria possível fazer aquela raça de gigantescos seres
quadráticos bater em retirada. Por isso, Rhodan repetiu seu chamado
destinado ao comandante supremo da frota vinda de outro Universo.
— Rhodan
chamando chefe da frota dos druufs! Favor responder! Rhodan chamando
chefe da frota! Favor responder...
O aparelho
foi ligado para a recepção. Mais uma vez, só se ouviu o forte
chiado produzido pelos campos elétricos interestelares.
— Sir,
estão nos cercando! — foi outra noticia alarmante.
Rhodan
acenou com a cabeça. Parecia distraído. Estava tudo preparado para
uma transição-relâmpago. Mas naquele instante não pensava nisso,
da mesma forma que não pensava no perigo que se aproximava
inexoravelmente.
O que
estava em jogo era demasiadamente valioso. Teria de arriscar tudo
para obter um ganho total.
— Três
minutos, Sir — anunciou Marshall num cochicho.
Fazia três
minutos que os telepatas haviam saltado. Segundo o cronograma, as
primeiras bombas seriam detonadas cinco minutos após o salto. Depois
disso, ainda haveria um prazo de segurança de quarenta e cinco
segundos para que o teleportador abandonasse a nave.
— Rhodan
chamando chefe da frota dos druufs! Favor responder! Rhodan chamando
chefe...
Observara
por intermédio de Harno o comportamento do comandante supremo e vira
que este fazia meia-volta sobre suas pernas disformes e se aproximava
de alguma coisa que Rhodan identificou como um aparelho de rádio.
— Rhodan,
aqui fala Uong-Zterds-Klighf, comandante supremo. O que deseja?
Todos os
nomes dos druufs eram verdadeiros monstros léxicos. Era impossível
pronunciá-los e conservá-los na memória. Os homens já haviam
constatado esse fato por ocasião de sua primeira visita ao Universo
deles. Por isso, Rhodan não fez o menor esforço para guardar o nome
do comandante supremo. Mas no momento em que a voz do druuf se fez
ouvir por intermédio dos aparelhos retificadores acoplados, Rhodan
transmitiu uma mensagem telepática muito importante a Marshall:
— Chame
de volta os teleportadores! Nenhuma bomba deve ser detonada!
Marshall
não teve necessidade de olhar para o cronômetro para chegar à
conclusão de que aquilo seria uma corrida contra o tempo. Seu traje
espacial de agente era equipado com a mesma perfeição dos usados
pelos teleportadores. Num instante, fechou o capacete, ligou o
minúsculo, mas potente telecomunicador construído pelos swoons, e
chamou o grupo de teleportadores para que regressassem imediatamente
à Drusus, trazendo os artefatos explosivos.
Ainda
proferia apressadamente a ordem, quando uma voz piou:
— O que
vou fazer com a bomba cujo detonador já está funcionando, John?
— Faça
o que puder, Gucky! — respondeu Marshall em tom penetrante. Com um
pressentimento tremendo na mente perguntou: — Onde está você?
— Na
nave capitania dos druufs. Onde poderia estar?
— Pelo
amor de Deus, Gucky, justamente aí não deve acontecer nada.
Viu que
suas palavras eram inúteis. Pelo ligeiro crepitar de seu
alto-falante, concluiu que não poderia falar mais com o rato-castor.
Marshall
abriu lentamente o capacete e sentiu que o suor lhe cobria a testa.
Neste meio
tempo, uma palestra fluente em intergaláctico se desenvolvera entre
Rhodan e o chefe dos druufs. A comunicação só se tornou possível
graças aos complicados aparelhos existentes em ambas as naves, pois
os druufs não possuíam órgãos vocais propriamente ditos.
Comunicavam-se por freqüências que não estavam ao alcance do
ouvido humano. Seus corpos possuíam transmissores e receptores
orgânicos destinados a esse intercâmbio.
O druuf
perguntou seguidamente pela frota de Rhodan. Não se conformava com o
fato de ter descoberto uma única nave esférica. Evidentemente,
pensava na gigantesca frota robotizada que, além de obrigá-lo a
desistir da conquista do sistema solar, o fizera fugir para esta área
inóspita da Galáxia.
E Rhodan
dizia constantemente:
— As
unidades aguardam minhas ordens! A frota está acompanhando nossa
palestra!
Era um
blefe. Rhodan não conseguiu descobrir se o druuf estava acreditando
no mesmo. Subitamente, houve um forte lampejo entre as duas frentes.
Rhodan e o druuf perguntaram ao mesmo tempo:
— O que
foi isso?
Gucky
poderia explicar minuciosamente. Era uma bomba que acabara de
explodir. Tratava-se da bomba que deveria ter destruído a nave
capitania dos druufs, mas que depois da contra-ordem de Marshall fora
retirada por Gucky, com o mecanismo de relógio do detonador já em
funcionamento, e largada no espaço por meio de um salto de
teleportação.
O traje
especial de Gucky, fortemente chamuscado do lado direito, provava que
por pouco aquilo não terminou num desastre. Uma prova ainda mais
cabal consistia nas expressões usadas pelo rato-castor, quando
voltou ao ponto de partida.
— Então
saí com aquilo... Ainda dispunha de três segundos até a detonação
da bomba. Saltei da nave dos druufs para o espaço e larguei a bomba.
Quando ia teleportar-me para a Drusus...
Nenhum dos
mutantes riu do rato-castor que esbravejava furiosamente. Todos
compreenderam o que Gucky havia arriscado e muitos foram bastante
honestos para se perguntarem: Será que eu também teria assumido
esse risco? E ainda foram bastante honestos para dar resposta
negativa a esta pergunta.
— Deve
ter havido um intervalo de mais ou menos um milésimo de segundo
entre a explosão da bomba e meu salto de teleportação. Bem, tudo
acabou bem, mas estou curioso para ver como continuarão as coisas.
Olhem só: estamos completamente cercados pelos druufs!
A sala de
operações dos mutantes era uma reprodução em escala menor da sala
de comando da Drusus. Havia vários aparelhos de rastreamento e telas
com sistemas de ampliação direta.
Gucky não
estava exagerando. Se os druufs não estivessem dispostos a entrar em
acordo, dentro em breve a Drusus deixaria de existir. Mais de duas
mil naves dos estranhos seres já participavam do cerco, e uma
concentração como essa fazia com que até mesmo uma transição
repentina não tivesse a menor possibilidade de êxito.

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