quarta-feira, 24 de agosto de 2016

P-090 - Atlan em Perigo - Kurt Brand [Parte 2]

O senhor já ouviu dizer que os aras me convidaram a conferenciar amanhã com o Conselho dos Dez? Muito bem. Se os senhores, que são mercadores galácticos, não estão dispostos a investir alguma coisa em benefício do grande império dos mercadores, não terei outra alternativa senão aliar-me aos aras. Acho que realmente já dissemos tudo que tinha que ser dito.
Dali a uma hora, o grupo de saltadores e Cardif encontravam-se novamente a bordo da Cok II. O patriarca não fez qualquer comentário sobre a conferência malsucedida que mantivera no Banco. O velho leu as notícias recebidas naquele meio tempo e passou-as para Thomas Cardif. Já percebera que não poderia transformar o jovem terrano num simples meio para alcançar suas finalidades. O desertor da Frota Espacial Solar não era um homem do qual se pudesse abusar. Fora dele a proposta de informar toda a Galáxia pelo hiper-rádio sobre a mudança de governo, depois que compreendera as chances que os mercadores galácticos viam nessa mudança secreta.
Cokaze ainda hesitara. O risco lhe parecia muito grande. Mas os argumentos de Cardif eram convincentes.
Transmita a informação ininterruptamente pelo hipercomunicador — pedira Thomas Cardif em tom enfático. — Repita a notícia sem cessar, informando que um certo Atlan está governando o Grande Império. Fique martelando a Via Láctea com a novidade, Cokaze! Não vá imediatamente a Archetz. Permaneça no espaço com sua frota e atice a fogueira de lá.
O senhor desencadeará um furacão espacial. Os mercadores galácticos se revoltarão contra o usurpador Atlan e o afastarão do governo.
Mas não espere demais, pois o senhor não está interessado em possuir um corpo acéfalo. O que o senhor pretende é ocupar o lugar dos arcônidas, apossando-se de toda a extensão do reino estelar M-13. Por isso deverá estar em condições de golpear assim que as primeiras raças coloniais tentem retirar-se do Grande Império.
Atlan mesmo lhe fornecerá a prova de que é o novo governante. E o desenvolvimento catastrófico dos acontecimentos o obrigará a ministrar a prova de que ocupa o lugar do Grande Coordenador. No momento em que fizer isso, Cokaze, os mercadores galácticos serão os senhores do Império de Árcon.”
Cokaze, o mais rico dos chefes de clã dos saltadores; Cokaze, um homem velho e experimentado, sagaz e hábil nos negócios, inescrupuloso e matreiro, quando fosse necessário — esse Cokaze assustou-se com o ódio demoníaco do jovem terrano.
Descobriu o que havia dentro dele.
De repente, o patriarca começou a ter medo de Thomas Cardif.
Esse velho, que nunca sentira problemas de consciência, quando submetia mundos recém-descobertos com populações inteligentes à sua vontade, obrigando-os a celebrarem tratados comerciais com seu clã... Só agora, esse velho percebia quem era Thomas Cardif. E, além disso, não pôde deixar de reconhecer que os mercadores galácticos já não mais podiam recuar.
Thomas Cardif atrelara-os à sua carruagem, a fim de desencadear uma revolução no Império de Árcon e destruir seu pai Perry Rhodan.
E Cokaze, todo apavorado, perguntara ao jovem:
Afinal, quem é você, Thomas Cardif? E o que ouvira depois disso? O que vira?
Ouvira-o rir e vira-o erguer o corpo. Depois veio a resposta arrogante:
Sou um arcônida, saltador! Naquela oportunidade — tudo aquilo se passara há poucos dias — Cokaze sacudira a cabeça:
Você não é nenhum arcônida! Nunca foi. Se no Grande Império houvesse mil pessoas da sua categoria, vocês nos tangeriam até as cavernas estelares. E também não é nenhum terrano, Cardif. Você brinca com mundos, com impérios espaciais. Faz tudo isso para destruir Rhodan. Somente para isso! Saia da minha frente. Não posso vê-lo mais, seu monstro.
Mas, momentos depois, o patriarca dirigira-se espontaneamente ao camarote do jovem, que há um minuto, bastante descontrolado, chamara de monstro.
Esse é Rhodan”, pensou Cokaze ao entrar no alojamento de Cardif, quando viu o mesmo olhar penetrante que notara durante a palestra mantida com Perry Rhodan, em Terrânia.
Então, a tempestade já se transformou num furacão, saltador? — perguntou Cardif como que ao acaso.
Ainda não, mas os aras já chamaram três vezes e pediram insistentemente que transportasse suas cargas em minhas naves. Esse procedimento é tão fora do comum que só pode significar que querem falar comigo.
Cokaze, o senhor não obterá nenhum lucro nesse negócio em torno do Grande Império se não garantir sua posição futura. O que vêm a ser suas dez mil naves? E o que importa sua conta bancária? O que poderá conseguir pelo simples fato de ter conhecimento de que o cérebro positrônico foi substituído pelo Almirante Atlan? Nada, absolutamente nada.
Ponha tudo isso a render. Entre em contato com os povos coloniais mais turbulentos. Negocie a respeito de tudo, mas não perca a cabeça. Na política, a mesma sempre fica meio frouxa em cima do pescoço. Não se esqueça de que depois da tempestade, poderá vir o furacão, por isso não dê margem para esse tal de Atlan retirar a frota de guerra que se encontra na zona de descarga. Caso isso aconteça, vocês terão a guerra que só poderá atrapalhar seus planos.
Vocês não querem um império em chamas; querem pôr no bolso um lucro estupendo. Se é assim, cuidem para que o bolso não seja muito pequeno para guardar o lucro. O senhor compreendeu, saltador?”
Cokaze teve a impressão de que Cardif falara sem refletir, mas quando se viu a sós em seu camarote, percebeu que nas palavras de Cardif não havia a menor incoerência.
Cokaze chamou a Cok III e a Cok IV. As duas naves encostaram ao longo da sua. Criou-se uma ligação que permitia passar de uma nave a outra.
As três potentes estações de hipercomunicações funcionavam ininterruptamente. O patriarca começou a tecer sua rede. Nem se deu conta de que estava fazendo exatamente aquilo que Cardif lhe sugerira: estava procurando o poder, o poder político.
Quando o terceiro dia chegou ao fim, o patriarca havia lançado suas minas em todos os cantos. Mais de novecentos clãs de saltadores estavam com ele e os aras continuavam a insistir em obter frete em suas naves. Além disso, entrara em contato com os povos coloniais, por intermédio dos patriarcas de outros clãs ou das feitorias comerciais dos saltadores, instaladas nos respectivos mundos.
Não se exponha tanto — vivia advertindo Cardif.
Muitas vezes, Cokaze não conseguia compreender por que dava atenção aos conselhos daquele jovem. Não compreendia a si mesmo, mas sabia que, no terreno tático-político, o filho de Rhodan tinha uma superioridade enorme sobre ele.
Naquele momento, estavam sentados na grande cabina da Cok II. Cokaze empurrou as últimas notícias para o lado em que estava Cardif.
O panorama da tempestade que iria desabar desenhava-se nitidamente.
Cada vez mais se aproximava a hora em que o Almirante Atlan, que se encontrava em Árcon III, teria de dirigir a palavra ao Grande Império, se não quisesse assistir ao esfacelamento de seu grande império cósmico.
Mas o Banco dos Mercadores Galácticos de Titon não dava sinal de vida.
Apesar disso, Cokaze piscou para Thomas Cardif com uma expressão alegre no rosto.
As minas haviam sido colocadas; bastava detoná-las. O patriarca possuía o detonador, e mais uma vez devia agradecer a Cardif por estar de posse de um poder que obrigaria Ortece e Atual a ajoelharem-se.
As notícias continuaram a chegar. O joio já fora separado do trigo. Cokaze e Cardif foram os únicos que as leram. Os filhos mais velhos do patriarca não passavam de artistas figurantes. Não deixavam perceber o que pensavam sobre o papel que lhes fora atribuído. Não gostavam de Thomas Cardif, e não faziam questão de esconder esse fato.
O filho de Perry Rhodan não se incomodava com isso. Sabia que ainda era o mais forte, mas tinha bastante inteligência para não jogar desnecessariamente com sua força. Fazia questão de que todos percebessem que apenas era o conselheiro do patriarca, e cada conselho que dava constituía um sinal dessa situação. Depois de um rigoroso exame, qualquer um chegaria à conclusão de que não deveria atribuir motivos egoístas a Cardif.
Mas Cardif fazia jus à condição de filho de Perry. Se bem que não possuía o caráter puro do pai, tinha o saber intuitivo de Perry, que lhe permitia reconhecer num instante o desenvolvimento de qualquer situação até o desenlace final, sem esquecer-se de considerar as circunstâncias imponderáveis.
Na verdade, agia sem refletir, de forma puramente intuitiva.
Saltador, será que não está na hora de informarmos Atual e Ortece sobre os novos acontecimentos? Depois dos saltadores, os aras são a maior família racial do Império de Árcon, e o Conselho dos Dez volta a perguntar quando o senhor chega a Aralon.
Será que não é cedo para isso? — atreveu-se um dos filhos mais velhos de Cokaze a perguntar.
Mas logo teve de ouvir uma repreensão áspera. No mesmo instante, Cokaze pediu uma ligação com os dois diretores do banco.
Muitos minutos se passaram até que o rosto de Atual surgisse na tela, instalada no camarote de Cokaze. O chefe de clã não perdeu tempo com preâmbulos.
Atual, neste momento, estou falando em nome de oitocentos e cinqüenta e sete patriarcas, em nome de cento e vinte e seis estaleiros, em nome da indústria pesada e da indústria de armamentos. Falo em nome de todos os chefes dos superpesados. Depois deste aviso enviarei um mensageiro, com todos os documentos necessários, segundo os quais as pessoas e entidades, que acabam de ser mencionadas, liquidam suas contas nesse banco. O lugar para o qual deverão ser remetidos os fundos consta dos documentos e...
Faremos o que o senhor desejar, patriarca — interrompeu-o Atual sem revelar o menor abalo. — Aguardamos os documentos.
Com um leve aceno de cabeça interrompeu a ligação.
Houve certa inquietação entre os filhos de Cokaze, que se encontravam às costas do patriarca. Ninguém contara com esse malogro. Os banqueiros saltadores deviam ser indivíduos dotados de qualidades especiais.
O patriarca estava fora de si. Thomas Cardif deleitava-se com um cigarro. Nesse instante, seria idêntico a Perry Rhodan, se não fossem os olhos amarelos de arcônida. Sorria alegremente.
Não vai enviar os documentos ao banco, saltador? — e logo depois, disse: — Acho que devemos informar o Conselho dos Dez sobre a nossa chegada.
O experimentado chefe de clã ainda não estava perfeitamente entrosado com o jovem Cardif.
Deixaremos que Ortece e Atual esperem até hoje de noite. Quero que acreditem no blefe. Depois disso, talvez mostrarão maior disposição para abandonarem a reservada posição em que se encontram... e até lá poderei estabelecer mais alguns contatos.
Cokaze demonstrou que fazia jus à condição de mais rico dos chefes de clã dos mercadores galácticos. Sabia negociar, e a capacidade de conferir credibilidade às suas palavras devia ser inata. Sempre fizera questão de dizer aos filhos que, por meio de mentiras táticas, pode-se perder tudo, mas raramente se consegue adquirir riquezas.
Conseguiu encontrar-se com quatro grandes industriais num local previamente combinado. Conferenciou com estes. Dali a três horas, quando voltou à Cok II, entregou mais nove documentos a Thomas Cardif, para que este os examinasse.
Cokaze, pela primeira vez na vida admiro um mercador galáctico! — exclamou Thomas Cardif em tom impulsivo e, segundo o costume terrano, estendeu a mão ao patriarca.
Este já vira esse costume na Terra e, muitas vezes, se divertira à custa de tal confraternização. Mas agora pegou a mão de Cardif sem a menor hesitação e retribuiu a pressão da mesma. O rosto de Cokaze estava radiante. Sentia-se satisfeito com o entusiasmo sincero de Cardif.

* * *

Naquele mesmo instante, impulsos condensados de telecomunicação percorriam velozmente a distância entre Árcon e Terra. Seria impossível interceptar esse tráfego de comunicações e converter os impulsos condensados para o comprimento normal. As antenas ainda os irradiavam em forma distorcida e codificada. Apesar disso, saíam quase instantaneamente, em texto claro, dos alto-falantes que se encontravam junto a Rhodan e Atlan.
Mas ainda não é tudo, almirante — disse Rhodan para dentro do microfone. — Vejo pelo seu rosto. Então, o que me diz?
Atlan fitou o amigo a uma distância de 34 mil anos-luz.
É verdade, Perry! Ainda não lhe contei tudo e, neste momento, fico triste por ter que dizer isto justamente a você. Quem está atrás de todas estas intrigas é Thomas Cardif. É o estrategista que cria estas situações.
Thomas Cardif? — interrompeu Rhodan em tom áspero e incrédulo. — Ele mal saiu da adolescência e...
De Árcon, do gigantesco salão de controle do gigantesco cérebro, ouviu-se uma respiração pesada. A tela colorida que se estendia diante de Rhodan mostrou que Atlan sacudia a cabeça. De repente, fez um aceno.
Perry, você teria razão se Thomas Cardif não fosse seu filho. Sabe que resposta o cérebro positrônico me deu, quando indaguei quem está atrás desses movimentos subversivos? Citou seu nome. Disse: Rhodan. Mas não disse qual era o Rhodan.
E você acredita nisso? — perguntou o administrador em tom mais penetrante do que pretendia usar.
Você não acredita, bárbaro? No fundo, poderia orgulhar-se por seu filho, se a situação fosse outra. Entretanto, no presente caso, ele trama minha queda... Era o que eu queria calar diante de você, meu amigo. Mas acho que já nos conhecemos bastante para que nenhum de nós possa esconder qualquer coisa do outro. Rhodan contra Rhodan... Quem teria pensado ser isso possível?
Houve uma pausa, durante a qual reinou um silêncio completo. Apenas a imagem permaneceu na tela.
A ligação com Árcon fora previamente anunciada. Rhodan tivera tempo para convocar seus colaboradores mais chegados. Agora estavam sentados atrás dele, numa posição em que viam a tela e podiam ouvir cada palavra pronunciada.
Rhodan contra Rhodan — quem teria pensado ser isso possível? A última frase ainda ressoava nos ouvidos dos presentes, e todos ainda se sentiam dominados pelo susto, provocado pela informação de Atlan. Segundo esta, o maior cérebro positrônico da Galáxia identificara um certo Rhodan como autor dos movimentos subversivos iniciados no seio do Império de Árcon.
Mercant, Freyt, Deringhouse, Marshall e Reginald Bell não queriam acreditar nisso; não queriam aceitar o fato de que o filho de Rhodan herdara justamente essas faculdades do pai.
Perry — voltou a falar Atlan, no interior do gigantesco recinto abobadado do cérebro positrônico de Árcon III. — Retirarei da frente dos druufs todas as naves de guerra que ainda têm uma tripulação de robôs.
Almirante, se eu fosse você desta vez não obedeceria ao conselho do computador. Se você intervir pessoalmente, ou por intermédio de naves robotizadas, criará um incêndio no Império, que não poderá ser apagado. Depois de seu primeiro chamado, tive uma idéia, mas tenho de esperar até que meus cientistas consigam resolver um problema setorial ligado à hiperpropulsão linear. Você compreende?
De propósito, Rhodan não se exprimira com muita clareza. Não confiava demais na afirmativa dos especialistas em hiper-rádio, segundo os quais a escuta de uma transmissão dessa espécie era impossível.
Entendido, Perry — respondeu Atlan depois de ligeira reflexão. — Mas, para mim, isso ainda não vem a ser uma idéia completa. Tem algo a ver com os saltadores?
Rhodan limitou-se a sorrir.
Tenho a impressão de que possuo um pega-moscas.
Ouviu-se um gemido vindo de Árcon.
Perry, neste momento agradeço aos deuses por ter-me encontrado com um bárbaro como você. Mas se acredita que sou um superarcônida, só posso agradecer por sua confiança. Acontece, porém, que não sou. Até parece que dez mil anos de permanência na Terra me incutiram certas fraquezas humanas. Começo a ver as coisas pretas e penso no polegar de Bell e no seu pega-moscas.
No mesmo instante os olhos do arcônida se arregalaram.
Então é isso? Pelos deuses eternos, Perry! — até parecia que Atlan pretendia colocar as mãos nos ombros de Rhodan a uma distância de 34 mil anos-luz. — Quer dizer que seu pega-moscas é...
Rhodan interrompeu-o.
Acho que já nos entendemos, almirante!
Não, ainda não nos entendemos. Será que você pretende expulsar o demônio com Belzebu? — a pergunta foi formulada em tom extremamente áspero.
Rhodan respondeu com a voz muito calma:
Falei num pega-moscas; nem aludi ao demônio ou a Belzebu. Conforme as circunstâncias, com um pega-moscas pode-se agarrar duas moscas ao mesmo tempo.
Agora já não estou entendendo mais nada, bárbaro! Caramba!
Você teve algum contato prolongado com Bell? — perguntou Rhodan com uma indiferença fingida.
Bell catucou as costas de Perry. A tela transmitiu a risada de Atlan.
É por causa da expressão pesada? Não se trata disso, Perry. Apenas acontece que ainda não compreendi sua idéia. Ainda bem que Thomas Cardif não tem sua experiência.
A palestra entre a Terra e Árcon chegou ao fim.
Para Perry Rhodan e seus homens, começou o trabalho. Allan D. Mercant, chefe do Serviço de Defesa Solar, era o único que conhecia o plano arrojado do administrador.
Enquanto a equipe 065-propulsão não concluísse sua tarefa, a operação pega-moscas teria de permanecer no terreno das idéias.
E o homem que deu um impulso inesperado a essa tarefa foi Rabintorge, o indiano de Laore.
4



Dali a vinte e quatro horas, as grandes emissoras do computador-regente de Árcon III introduziram-se nos noticiários mais importantes transmitidos pelo hiper-rádio. Em todos os setores do Grande Império, as telas mostraram o sinal de identificação do cérebro positrônico, substituído logo depois pela imagem do edifício abobadado. Após isso, começou a soar a voz metálica do cérebro.
Era uma voz ameaçadora; não pelo tom nem pela expressão, mas pela lógica desalmada que falava sem o menor constrangimento sobre os planos dos saltadores, dos aras, dos ekhônidas e de mais cinqüenta grandes povos compreendidos no Império Arcônida.
O cérebro não formulou qualquer advertência sobre o caos. Aludiu à frente dos druufs, apenas de forma vaga.
Retiraremos nossas frotas. Não faremos mais nada para evitar a penetração dos druufs em nosso Universo. Retiraremos nossas frotas com tamanha lentidão que as naves dos druufs não poderão deixar de encontrar o caminho que conduz ao nosso Grande Império. Um Império que não está disposto a manter-se não tem direito de existir.
No fim voltou a surgir nas telas a grande abóbada do cérebro positrônico e o sinal identificador da faixa de ondas.
Para muitas inteligências do Império de Árcon, essas palavras representaram uma advertência seríssima!

* * *

Cokaze e Thomas Cardif ouviram essa transmissão durante o vôo de regresso, depois da conferência com o Conselho dos Dez. A mesma causou certa impressão ao patriarca. Porém, para Cardif, não representou nem mesmo um princípio de advertência.
É um blefe! — opinou. — Atlan continua a usar o cérebro, Cokaze. Se o computador tivesse falado por iniciativa própria, eu não daria a menor chance aos mercadores. Acontece que hoje em dia o cérebro não é mais o que já foi. Atlan não acaba de provar que agi acertadamente ao aconselhá-lo a entrar em contato com os comandantes de esquadrilhas, que se encontram na frente dos druufs?
Sua voz soava fria e facilmente poderia ser confundida com a de Rhodan. Acontece que o pai desse jovem nunca falara com tamanha frieza e insensibilidade.
Um movimento instintivo de autodefesa obrigou o patriarca a reclinar-se. Cardif reconheceu o significado do movimento.
Sou um monstro, não é, saltador? É o que o senhor está pensando mais uma vez, mas esquece que meu plano não prevê nenhuma operação bélica. Não quero transformar-me num monstro que traga sangue e lágrimas para dentro do Grande Império. Apenas quero destruir Rhodan e apagar seu nome, para que, daqui a dez anos, ninguém mais fale nele. Depois disso, desaparecerei e serei esquecido. Porém, até o fim dos meus dias, terei consciência de que minha vida não foi inútil.
Cardif, Rhodan é igual a você? O patriarca Cokaze não pôde deixar de formular a pergunta. Alguma coisa dentro dele obrigava-o a isso.
Acha que Rhodan é igual a mim? Nada disso, saltador! O único ponto de semelhança é o rosto que herdei dele. Rhodan é um terrano, um feixe de sentimentos que representam uma contradição ininterrupta aos seus conhecimentos. Acontece que eu sou e sinto como um arcônida.
Naquele momento, o comerciante passou a falar pela boca de Cokaze.
Quer dizer que não pretende extrair nenhuma vantagem da destruição de Rhodan?
Cardif fitou-o sem compreender.
Alguma vantagem para mim? Nem sequer chego a brincar com a idéia de transformar-me em seu sucessor no sistema solar. Quero destruí-lo, castigá-lo pelo assassinato de minha mãe. Depois disso, ficarei satisfeito, pois me bastará saber que ele recebeu aquilo que merece. Apenas não compreendo por que o senhor vive insistindo para que fale em Rhodan.
Porque às vezes você me assusta, e porque outras vezes não posso deixar de admirá-lo, mesmo que não queira. Nunca poderá negar que é filho de Rhodan. Se estivesse no seu lugar, eu me orgulharia de ter um pai como ele.
Thomas Cardif respondeu em tom sarcástico:
Como mercador galáctico, o senhor é muito sentimental!
O sistema de intercomunicação de bordo interrompeu a conversa. O chamado vinha da sala de rádio.
Senhor, faça o favor de ouvir isto — disse o operador de rádio em tom exaltado.
O sistema de armazenamento acoplado ao hiper-rádio, que era uma peça minúscula do cérebro positrônico de bordo, reproduziu uma notícia transmitida por Árcon.
A 1.529 anos-luz de Árcon, no sistema de Dartol, formado por dois sóis e 36 planetas, os rasis, uma raça anfíbia inteligente, separaram-se do Império de Árcon.
Há uma hora, duzentas naves arcônidas apareceram sobre três planetas habitados por rasis e, sem a menor advertência, gaseificaram uma das muitas pequenas luas que gravitavam em torno de cada um dos três planetas. O gigantesco cérebro positrônico informou em tom indiferente:
As fortes radiações obrigaram os seres anfíbios dos três mundos dos rasis a dirigir-se ao mar e recolher-se às cúpulas submarinas. Numa de suas últimas mensagens o governo da federação tripla de Rasis declarou que é um vassalo fiel do Grande Império.
Árcon está agindo! — disse Cokaze em tom assustado.
Cardif o contraditou.
Não é Árcon, mas Atlan! O computador gigante teria transformado os mundos dos rasis em sóis para mostrar ao Império que seu castigo é implacável. Atlan apenas gaseificou três luas minúsculas, sem disparar um único tiro contra os planetas.
Inclinou-se para a frente e, falando mais baixo que antes, quase como um sedutor diabólico, disse:
Cokaze, será que não devemos chamar a atenção dos mercadores galácticos para esta diferença?
Quando a Cok II voltou a pousar no espaçoporto de Titon, Atual e Ortece esperaram que a comporta da nave cilíndrica se abrisse e que a rampa fosse descida.
Atual e Ortece procuravam o patriarca Cokaze, porque o mesmo lhes provara ser o mais forte. E, com o documento assinado pelos aras no bolso, segundo o qual os médicos galácticos estavam dispostos a encerrar todas as suas contas, sua situação se fortalecera ainda mais.
Ortece e Atual examinaram o documento. As mãos de Ortece tremiam levemente enquanto o devolvia ao patriarca. Com a voz pesada, disse:
Tomamos todas as providências, Cokaze, mas não podemos deixar de formular mais uma advertência.
Por quê? — Cardif formulou a pergunta em tom frio.
Ortece e Atual, patriarcas de dois clãs que há alguns milênios eram donos do
Banco, estremeceram e fitaram perplexos e contrariados o jovem. Depois lançaram um olhar indagador para Cokaze.
Cardif tem razão e está perguntando em meu nome — afirmou o patriarca.
Essas palavras equivaliam a um pedido de resposta.
Dezoito saltadores e Cardif estavam sentados à frente dos dois financistas. Dezoito saltadores não se atreviam a contraditar os argumentos dos experimentados banqueiros. Porém, este jovem, que se parecia com Perry Rhodan, desfazia-lhes todos os argumentos e, no fim, colocou-os em situação tão difícil que Atual não conseguiu deixar de confessar, em tom abatido, que as idéias de Cardif também poderiam ser corretas.
Nesse caso, tudo se resume numa questão de risco — retrucou Cardif com a voz controlada. — O Banco não perderá dinheiro, desde que os senhores desencadeiem uma inflação no Império de Árcon. A mesma apenas causará o abalo econômico de Árcon. E um revés monetário pesa muito mais que uma batalha perdida.
Quando pretendem desencadear a inflação? Decidam logo, pois, do contrário, usaremos os documentos que temos em nosso poder e, dentro de uma hora, o Banco dos Mercadores Galácticos de Titon irá à falência.”
Desde a fundação do Banco, nunca ninguém exercera tamanha chantagem contra o mesmo. Há muitas gerações os clãs dos Atual e dos Ortece se gabavam de que sempre eram tratados com o maior respeito.
E agora um homem, que era filho de Perry Rhodan e tinha por mãe uma princesa arcônida, fazia-os concordarem com seus planos e desencadear uma inflação no Grande Império, ou declarar sua falência dentro de uma hora.
O suor porejava nas testas de dezoito saltadores, de Atual e de Ortece. Thomas Cardif, que estava sentado ao lado de Cokaze, fumava tranqüilamente. Seus olhos acompanhavam os anéis de fumaça.
Ortece, o saltador franzino, pigarreou.
Amanhã, terrano! Amanhã, três unidades de tempo depois do momento em que Árcon tiver transmitido as últimas cotações.
A expressão terrano soara como uma maldição. A voz de Ortece tremia de raiva. Thomas Cardif apagou o cigarro.
Obrigado — disse e sorriu para os dois.
Compreendeu perfeitamente por que os dois banqueiros se retiraram sem despedir-se.
Dezoito saltadores viam nele um perigo mortal. Cokaze perguntou com a voz insegura:
Cardif, onde foi que o senhor adquiriu esses conhecimentos sobre a técnica financeira?
O que o senhor acha que eu tenho? — perguntou Cardif em tom de espanto. — Conhecimentos sobre assuntos financeiros? Não posso responder à sua pergunta, pois até o momento em que iniciei a conferência com Atual e Ortece nunca pensei sobre isso.

* * *

A GHC Company, sediada na Cidade do Cabo, já não era um complexo da indústria pesada pertencente à Federação Africana. Com base nos novos dispositivos da legislação de emergência, Perry Rhodan confiscara a companhia e a incorporara ao Serviço de Defesa Solar. As buscas trouxeram tantas provas da existência de traidores, todos ligados ao clã de Cokaze, que nem mesmo os partidos da oposição da Federação Africana se atreveram a abrir polêmica sobre o confisco.
Os laboratórios médicos analisaram os tóxicos descobertos em poder de Rochard, Artun e Sharkey e constataram que se tratavam de toxinas desconhecidas. Ao serem injetadas, estas conferiam aos seres humanos faculdades hipnóticas ou sugestivas de intensidade fenomenal. Seu perigo não residia tanto no poder tóxico, mas antes no fato de que seus efeitos perduravam por seis meses.
No primeiro semestre do ano de 2.044, o sistema solar fora sacudido de uma calma enganosa, em virtude do aparecimento de naves dos druufs. Depois disso, assistira à chegada de uma grande frota robotizada dos arcônidas e também travara contato com as naves cilíndricas dos mercadores galácticos.
Ao se defrontarem subitamente com esses fatos e compreenderem que afinal o poder gigantesco do Império Solar não chegava tão longe assim, os ânimos dos terranos se descontrolaram e se deixaram arrastar por tensões políticas internas extremamente graves. Rhodan conseguira, em parte, dominá-las, e a frota dos saltadores, comandada pelo patriarca Cokaze, abandonara o sistema. Graças à generosa ajuda de Atlan, as frotas solares tornaram-se mais fortes que nunca.
Entretanto, no momento, o poder do Império Arcônida andava um tanto abalado e, por conseguinte, caso Árcon ruísse, desmoronaria também o Império Solar.
Mais uma vez, o destino da Humanidade repousava nas mãos de um único homem, e, como das outras vezes, pouca gente sabia disso. Nem mesmo os membros da equipe 065-propulsão desconfiavam dos motivos que levavam Rhodan a insistir, já há alguns dias, para que concluíssem o trabalho.
Rabintorge, o indiano descoberto por Frank Lemmon, chefe da Seção F-l do Serviço de Defesa Solar, transformara-se na peça motora da equipe. Sentia-se fustigado pela ambição de demonstrar que sua arrojada hipótese era correta. Já não o contestavam com a mesma freqüência dos primeiros dias. Um dos maiores computadores de Terrânia, que fora requisitado por ele, sempre lhe dava razão. Mas antes que o cérebro positrônico pudesse ser alimentado com os dados extraordinários, tais cifras tinham de ser apuradas.
O problema básico consistia nos abalos estruturais causados pelo funcionamento do hiperpropulsor linear. E esse problema tornava-se ainda mais difícil porque os cientistas não conheciam esse tipo de propulsão, com exceção de algumas indicações vagas.
Perry Rhodan foi acordado no meio da noite. A tela do intercomunicador iluminou-se ao lado de sua cama. O rosto moreno do indiano Rabintorge fitou-o. Era o rosto de um velho ou o rosto de um homem próximo à exaustão.
Sir, o aparelho está pronto...
Rhodan viu o jovem indiano desfalecer lentamente. O rosto desapareceu da tela.
Num instante entrou em contato com o grande hospital.
Aqui fala Rhodan! Acionar imediatamente o dispositivo de alarma médico e enviar todos os recursos ao setor 18, divisão 065-propulsão! Todos os homens que forem encontrados lá deverão receber tratamento médico. Esgotamento total. Desligo.
Depois disso, Bell foi acordado pelo chamado de Rhodan.
O rosto sonolento de Reginald Bell surgiu na tela.
É você? — perguntou em tom contrariado. — Quer saber que horas são?
Bell, o aparelho está pronto! Bell ainda não despertara de vez.
O hiperpropulsor linear?! — Rhodan viu na tela que Bell cerrou fortemente os olhos, passou a mão pelo rosto, bocejou à vontade e acordou de vez. — Então está pronto? Quem me poderá explicar o funcionamento do aparelho?
Rhodan interrompeu-o apressadamente.
Voltarei a chamar daqui a pouco. Acabara de cometer um erro. Voltou a ligar com o pronto-socorro. Lá lhe disseram que a equipe já estava a caminho do setor 18.
Pois ligue-me com a equipe! — pediu em tom enérgico.
Dali a um instante, respondeu o planador Aeskul-6, pertencente ao serviço de pronto-socorro.
Preste atenção — disse Rhodan apressadamente pelo intercomunicador, dirigindo-se ao médico. — Na divisão 065 o senhor encontrará um indiano totalmente exausto. Ponha-o em forma por meia hora, mas só se achar que pode fazê-lo sem riscos. Terá que dar algumas explicações a Mister Bell.
No alto-falante de Rhodan ouviu-se um estalo. Já transferira a ligação para Bell, mas o gorducho não apareceu na tela.
Bell...! — exclamou em tom contrariado.
A imagem não apareceu, mas Rhodan ouviu pelo alto-falante:
Feche os olhos, Perry. Estou embaixo do chuveiro.
Rhodan armou-se de paciência. Isso o deixou mais descontraído.
Pois bem... — Reginald Bell apareceu na tela. Estava completamente vestido.
Rabintorge, que se encontra na divisão 065-propulsão, lhe dará informações sobre o novo aparelho.

* * *

Dali a quatro horas Bell, a bordo da Califórnia, com a qual avançara espaço afora, transmitiu uma mensagem de apenas uma palavra: Pega-moscas.
No mesmo instante, a Drusus, um supercouraçado de 1.500 metros de diâmetro, decolou de Terrânia, com Perry Rhodan, Mercant, Freyt e a maior parte do Exército de Mutantes a bordo. Além disso, encontravam-se na nave duzentos especialistas das mais diversas áreas. Todos participariam dessa missão especial, identificada pelo estranho nome pega-moscas.
Bem longe da órbita de Plutão, a Drusus avisou as estações medidoras de abalos estruturais do que estava para ocorrer, e transmitiu o tempo da transição que pretendia levar a efeito.
Só numa situação de emergência permitia-se a realização de uma transição no interior do sistema. Ao lembrar-se disso, Perry Rhodan soltou uma risada amarga. Mais uma vez, seria tudo ou nada!
A trezentos mil quilômetros da Califórnia, a Drusus emergiu do hiperespaço e retornou ao Universo normal. Dali a cinco minutos, Bell flutuava juntamente com alguns companheiros e um robô de trabalho em direção à Drusus, que estava parada próximo à sua nave.
O robô de trabalho carregava o novo aparelho de localização. Bell nem se atrevera a levá-lo, embora pesasse apenas alguns quilos e pudesse ser transportado facilmente, em perfeita segurança. Acontecia que, no momento, era o único aparelho desse tipo de que dispunham e, por isso,
Bell achava que era seu dever não confiá-lo a ninguém a não ser a um robô.
O grupo levou dez minutos para percorrer a distância que separava a comporta da Drusus da gigantesca sala de comando da supernave. No momento, não havia motivo para apressar-se. Quando se encontrava no interior da comporta da imensa nave esférica, chamara Perry pelo intercomunicador e lhe dissera:
1625/F 13/S27, catálogo estelar dos arcônidas.
O computador positrônico de bordo ouvira a mensagem e, imediatamente, expelira a fita perfurada pela fenda.
O grupo de letras e algarismos representava a identificação arcônida de um pequenino sol vermelho, que ficava a 8.136 anos-luz da Terra e tinha dois planetas igualmente pequenos e desabitados. Foi nesse sistema, próximo do chamado Saca-rolhas, um braço da Galáxia com o formato desse utensílio, que Reginald Bell constatou, mediante o novo aparelho de localização de abalos estruturais causados pela utilização do hiperpropulsor linear, a presença dos três mil veículos espaciais dos druufs que, depois da fuga do sistema solar, permaneciam escondidos nas profundezas da Via Láctea.
A fita perfurada, que Perry Rhodan segurava, continha todas as informações que se tornavam necessárias para dirigir-se a esse sol vermelho-escuro, um oitavo do sol terrano.
Naquele instante, a Drusus e a Califórnia encontravam-se a quatro anos-luz da Terra. Esse fato já fora considerado nas indicações fornecidas pelo computador positrônico de bordo.
Na grande sala de comando, começou a desenvolver-se um procedimento dotado de uma perfeição militar. Rhodan transmitiu ordens lacônicas e inequívocas, ouviu confirmações e não deixou que as numerosas perguntas o enervassem.
No momento em que o grupo dirigido por Bell, que trazia um robô com o novo aparelho, chegou à sala de comando, a Califórnia, uma nave de cem metros de diâmetro, pertencente à classe Estado, já estava regressando à Terra. Enquanto isso, a Drusus preparava-se para a transição, que a transportaria por uma distância de 8.100 anos-luz, para junto do insignificante sistema do pequeno sol, que naquele instante assumia uma importância relevante para Rhodan.
O supercouraçado começou a acelerar. O computador positrônico de bordo marcara o salto pelo hiperespaço para dali a trinta e um minutos.
Perry Rhodan saiu da sala de comando, acompanhado por Bell, Mercant e John
Marshall. Deixara o comando do supergigante a cargo de Deringhouse.
Uma conferência realizada no camarote de Rhodan fora o sinal de que uma missão importante estava prestes a acontecer.
A única pessoa já informada sobre o plano pega-moscas era Allan D. Mercant.
O administrador não era dado a longos preâmbulos.
Pela meia-noite, a Califórnia voltará a pousar em Terrânia. A essa hora, a Drusus se terá aproximado a dez ou quinze anos-luz do sistema em que a frota dos druufs se abrigou. Em Terrânia, uma nave-correio ficará à espera da notícia de que nos aproximamos dos dois planetas em que pousaram as naves dos druufs. Assim que receber nossa notícia, a nave-correio decolará em direção a Árcon III, a fim de entrar em contato com Atlan. O correio não terá conhecimento das notícias que transmitirá ao almirante. Nem mesmo no computador de bordo serão introduzidos dados a este respeito. Mas faço votos para que Atlan se lembre do que eu quis dizer quando, certa vez, na sala de comando de uma nave esférica, falei no Anel dos Nibelungos. O correio apenas transmitirá esta senha.
Rhodan viu Bell respirar profundamente.
Está com falta de ar, gorducho?
Será que você não poderia complicar as coisas mais do que isso? — perguntou em tom tão amável e sacudiu a cabeça.
Complicar as coisas? — repetiu Rhodan, espantado. — De forma alguma. Acontece que nesta missão não estou disposto a assumir o menor risco.
Atlan pedirá que lhe tragam o Anel dos Nibelungos da sala de comando da nave-correio. Compreenderá imediatamente o que lhe mandei dizer. Depois disso, a nave-correio não voltará à Terra. Ela nos seguirá e se manterá à espera numa coordenada que ainda lhe será fornecida. Enquanto isso entraremos em contato com os druufs...
Bell e Marshall estiveram a ponto de levantarem-se, mas não o fizeram. Bell fitou o polegar com uma expressão pensativa.
Um brilho ligeiro surgiu nos olhos cinzentos de Rhodan, porém não fez caso da alusão de Bell.
Chegaremos a um acordo com o comandante dos druufs!
Subitamente, o tom de voz de Rhodan era diferente. A afirmativa, que parecia incrível, perdia a incredibilidade graças à sua autoconfiança sugestiva.
Naquele momento, Bell lembrou-se das muitas gentilezas dos druufs. Nunca se esqueceria das mesmas. A lembrança que tinha desses seres não era nada agradável, e não era do feitio de Bell guardar sua opinião para si mesmo.
Perry, só conseguiremos chegar a qualquer acordo com o chefe dos druufs, quando ele não tiver mais a menor chance de continuar vivendo.
Como você sabe avaliar bem a situação dos druufs! — disse Rhodan com uma suave ironia. — Acontece que eles não têm mais chance de voltar ao seu Universo.
A área de superposição entre o Universo deles e nosso tornou-se tão instável que a passagem de um espaço para outro torna-se mais difícil a cada dia que passa. Nós sabemos disso, e Atlan também. Porém nem uma única pessoa no Império de Árcon, inclusive um certo Thomas Cardif, sabe disso.
E o nosso ponto chave é o fato de que os comandantes das três mil naves dos druufs também sabem. Já devem ter percebido que seus fantásticos hiperpropulsores não lhes servirão para nada, pois não há nenhuma velocidade que leve do nosso espaço ao Universo deles e, além disso, eles não têm nossos projetores de campo de re-fração.
Ainda há outro fato que os coloca em situação menos favorável. Face à dimensão temporal, que trouxeram de seu Universo, só desenvolvem metade da nossa velocidade. Num vôo espacial normal, só serão capazes de atingir metade da velocidade da luz.
Um belo dia, eles calcularão onde encontrar a abertura de descarga estável dos dois Universos, que se deslocam um ao lado do outro. Mas faria qualquer aposta com você, Bell, de que o dia em que isso acontecer esse ponto estará num futuro muito distante.
Quando esse dia chegar, o druuf que tiver vida mais longa já terá apodrecido há muitos decênios.”
Perry — perguntou Bell no tom de voz que lhe era peculiar. — Você nunca ouviu falar que uma pessoa desesperada e dominada pelo pânico muitas vezes age como um louco e faz exatamente o contrário do que se espera?
Perry Rhodan confirmou com um gesto e indagou:
Você nunca ouviu falar no medo da morte, Bell?
Se não se tratasse dos druufs, eu diria que você tem razão. Acontece que esses seres têm uma mentalidade que para nós é incompreensível.
Quando a morte está à vista... Quando surge o medo de morrer, todos os seres são iguais, Bell. Parto deste princípio ao projetar as negociações com os druufs.
O intercomunicador deu um sinal. Rhodan teve que dedicar sua atenção à tela que naquele instante se acendeu.
Sir, são notícias do almirante! — disse o oficial que estava de plantão na grande sala de rádio da Drusus.
O rosto contrariado de Atlan fitou os homens que se encontravam no camarote de Rhodan.
Perry, meus parabéns pelo filho que você tem. Você se orgulharia, caso ele estivesse do nosso lado.
Estas palavras foram ditas a título de intróito. Rhodan empalideceu ligeiramente.
Bárbaro, o maior banco do Império dos Arcônidas, o Banco dos Mercadores galácticos de Titon, cedeu à pressão de um certo Thomas Cardif e provocou uma inflação no Grande Império.
Afinal, temos uma instituição semelhante à Bolsa de vocês. Há três horas, o local transformou-se em ponto de reunião de doidos. Nem mesmo com os recursos do banco oficial consegui sustentar as cotações que caem ininterruptamente. O cérebro positrônico recomendou que não fizesse nada para impedir a queda.
Nossos queridos amigos, os aras, invocaram um pretexto tolo e suspenderam temporariamente o fornecimento de todo e qualquer medicamento. Descobri que Thomas Cardif e Cokaze conferenciaram durante várias horas com o Conselho dos Dez, em Aralon.
De todos os setores do Império, chegam notícias de que nenhuma nave dos saltadores está pousando para descarregar suas mercadorias. Nos espaçoportos dos diversos mundos só estão pousadas naves cilíndricas, incapazes de voar.
Três esquadrilhas de cruzadores, que operavam na frente dos druufs e estavam sendo dirigidas pelos mercadores galácticos, procuraram transferir-se para M-13. Quando fiquei sabendo disso, a proteção robotizada automática já havia entrado em ação e destruiu as três esquadrilhas, sem deixar uma única nave. Foram trezentas e sessenta e duas unidades!
Segundo notícias dignas de crédito, os superpesados estão voando em torno de Archetz para proteger o planeta. Os únicos mundos em que ainda não se notou a presença do fermento revolucionário são Árcon I, II e III. O cérebro avalia a confiabilidade dos comandantes de naves de guerra que atuam na frente dos druufs em 47,3 por cento.
Agora, a medida do cérebro positrônico, que mandou substituir a maior parte das tripulações robotizadas da frente dos druufs por homens, está-se virando contra nós. Se nas próximas dez horas a situação continuar a deteriorar-se, farei explodir o planeta Archetz depois de um último aviso. E se isso não bastar para intimidá-los, farei com que recebam aquilo que...”
Nessa altura, Rhodan interrompeu-o.
Atlan, seria recomendável que você não fizesse nada antes de receber notícias minhas.
Não subestime seu filho, Perry. Quase chego a admirá-lo. De qualquer maneira, esperarei desde que Cardif me dê tempo para isso.
Mais tarde, Rhodan não saberia explicar o que lhe fez dar esta resposta a Atlan:
Ele lhe dará, almirante!
Atlan, que se encontrava só na cúpula gigantesca do enorme cérebro positrônico de Árcon III, fitou Rhodan com uma expressão de espanto. Depois refletiu ligeiramente e disse:
É Rhodan contra Rhodan, meu caro! Será que ele o conhece tão bem quanto você a ele? E será que conheço você bastante para colocar o Império dos meus antepassados e dos meus descendentes, dependendo das suas ações por algumas horas? Você ainda não compreendeu que submeteu nossa amizade a uma prova muito dura?
O que foi que você disse? Cardif lhe dará tempo, almirante.
Reflita sobre aquilo que eu poderia ver atrás destas palavras, e não esqueça da resposta que o cérebro deu à minha pergunta sobre o autor dos movimentos subversivos. Apenas mencionou Rhodan, esquecendo-se de fazer qualquer alusão ao primeiro nome. Deveria ter citado Thomas Rhodan, ou melhor, Thomas Cardif!
Quero que Bell me dê ajuda, mas não com a mão do dedo machucado.”
A ligação foi interrompida em Árcon. A essa hora, Perry Rhodan, que sempre soubera avaliar prontamente qualquer acontecimento e tinha a faculdade de adaptar-se instantaneamente a qualquer situação, falhou por completo.
Ficou parado à frente da tela para não mostrar o rosto aos homens que se encontravam presentes, pois sua fisionomia retratava a tormenta que rugia em seu interior.
Era isso mesmo! Acabara de submeter a amizade que o unia a Atlan a uma prova extremamente dura. A afirmativa de que Cardif lhe daria tempo fez nascer a suspeita de que ele e seu filho trabalhavam juntos.
Qualquer pessoa que se encontrasse na situação de Atlan teria chegado a essa conclusão. Mas Atlan só reagira com uma pergunta: Cardif o conhece tão bem quanto você a ele?
Por que resolvera dizer aquilo?
Rhodan, o homem mais poderoso do Império Solar, procurou obrigar-se a pensar em outra coisa. Porém desta vez, os sentimentos foram mais fortes. Chamavam por Thomas. Era o pai que chamava o filho único.
Acontece que Thomas Cardif estava do outro lado. Para ele, não havia nenhum pai que se chamasse Perry Rhodan.
5



O pequeno sol vermelho-escuro aparecia apenas como um pontinho na gigantesca tela de visão global da Drusus. O supercouraçado de Rhodan aproximara-se a oito anos-luz do sistema. Há alguns minutos, o aparelho de rádio, usado durante as operações no Universo dos druufs, estava ligado.
O centro de controle de tiro avisou que estava preparado. A Drusus encontrava-se em prontidão rigorosa. Mais de 2.200 pessoas a bordo da gigantesca esfera envergavam trajes espaciais. A tensão crepitava no interior da nave. Há meia hora, pouco antes da transição, Rhodan informara seus homens em frases curtas sobre a missão que iriam executar e os riscos a correr.
A idéia de Rhodan transformara-se na missão pega-moscas, mas só Marshall, Freyt, Mercant e Bell sabiam o que significava isso.
Sentira-se perfeitamente a frieza que os homens haviam adquirido no curso de centenas de missões.
Perry Rhodan deu o passo decisivo. Estava prestes a entrar em contato com o comandante da frota dos druufs, composta de três mil naves.
Ao lado dele flutuava Harno, o televisor vivo, o misterioso ser esférico.
Antes que Rhodan abrisse a boca para pronunciar a primeira palavra de sua mensagem destinada aos druufs, Harno tornou visível o corpo quadrático e grosseiro do comandante que tinha quase três metros de altura. Ao que parecia, em meio a três mil naves com suas grandes tripulações, localizara-o imediatamente.
A imagem reproduzia o brilho marrom-escuro da pele lisa, semelhante ao couro, daquele ser. Os quatro olhos e a boca triangular não contribuíam para embelezar a cabeça esférica de meio metro de diâmetro, que não tinha nariz nem orelhas. Rhodan e seus amigos já estavam acostumados ao aspecto assustador dos druufs.
Ao ver, por intermédio de Harno, o chefe da frota dos druufs, Perry hesitou em fazer o chamado. Com o auxílio desse ser e de suas três mil naves de guerra, pretendia levar avante um plano arrojado. O que aconteceria, porém, se de repente o druuf deixasse de cumprir o combinado e passasse a agir por conta própria?
Haveria centenas de motivos para agir dessa maneira. Quaisquer considerações humanas teriam de ser eliminadas desde o início. A mentalidade dos druufs não era humana, pois estes descendiam de insetos. Só mesmo as considerações utilitárias e o medo, que lhes infundissem os terranos, talvez os levariam a cumprir exatamente o que se combinasse... se é que haveria alguma combinação.
Sir, localização no amarelo dezoito! — anunciou o tenente que estava de plantão junto ao rastreador espacial. — Oitenta a cem naves se aproximam. Velocidade 0,4 da luz. Distância sete minutos-luz.
Rhodan virou a cabeça para a direita. Viu John Marshall, chefe dos mutantes. Trinta destes, que formavam parte do respectivo exército, encontravam-se a bordo da Drusus, nave capitania do Império Solar.
Marshall fez um sinal para Rhodan. Os dois comunicaram-se por via telepática. A seguir, Marshall recorreu ao mesmo meio para avisar seu grupo, entrando em contato com o hipno André Noir.
Os teleportadores prepararam-se: iam entrar em ação. Um deles tinha apenas um metro de altura e constituía uma combinação entre rato e castor. Era Gucky.
O endiabrado ser prendeu ao corpo a pequena fileira de bombas especiais. Bastava detonar uma delas numa nave para transformá-la num sol atômico. A fileira de bombas era formada de vinte peças. Os teleportadores humanos levaram o dobro dessa quantidade.
Aguardavam apenas a ordem de saltar.
Mas essa ordem demorou bastante.
O localizador especial, que reagia ao hiperpropulsor linear e o media, anunciava uma situação perigosa. Bell, que se encontrava junto ao aparelho, avisou:
Quatrocentas naves aproximam-se do amarelo dezoito à velocidade superior à da luz. Distância cerca de três dias-luz... Ora bolas, há mais um bando de marimbondos a menos de duas horas-luz. São sessenta naves.
Se é assim, está na hora — disse Perry Rhodan.
Empurrou os outros microfones para o lado, ficando apenas com o que se destinava ao transmissor dos druufs.
Rhodan chamando o chefe da frota. Favor responder...
Repetiu o chamado dez vezes; depois calou-se. Na sala de comando não se ouvia nada, além do zumbido dos tubos de imagem, das espulas e dos transformadores. Mas subitamente surgiu um chiado que se tornava cada vez mais forte.
A sala de rádio regulou para o máximo o volume do receptor dos druufs, mas este apenas reproduzia o chiado produzido pelos campos elétricos instáveis situados entre as estrelas.
Depois de algum tempo, a voz de Bell se fez ouvir:
A frota de quatrocentas unidades está desenvolvendo uma estupenda velocidade. É muito rápida... — havia um pouco de inveja em sua voz, produzida pelo fato de que a Terra não dispunha do fantástico hiperpropulsor linear, que permitia locomover-se à velocidade superior à da luz no espaço normal, fazendo com que os ocupantes das naves deixassem de experimentar os choques da transição.
A sala de controle de tiro chamou pelo intercomunicador.
Sir, todas as unidades energéticas de reserva foram acopladas com as torres de canhões.
Face às notícias transmitidas por Bell, o oficial de controle de tiro fizera uma avaliação da situação e agira por conta própria. O aviso transmitido a Perry Rhodan era uma questão de rotina, rotina esta que muitas vezes os salvara em situações desesperadoras.
OK! — disse Rhodan.
O sistema de intercomunicação de bordo transmitiu suas palavras para todos os cantos da nave.
Os druufs estão voando ainda mais depressa! — a essa altura, a voz de Bell parecia nervosa.
Rhodan levantou a cabeça.
Qual é a velocidade?
Bell lançou um olhar desconfiado para o novo rastreador de abalos estruturais produzidos por hiperpropulsores lineares.
Está quebrado!
Contato visual! — gritou um oficial que se encontrava na sala de comando e apontou para a grande tela de visão global da nave capitania.
Quase no mesmo instante, os teleportadores saltaram em direção ao grupo de naves que se aproximava.
Rhodan sabia perfeitamente que sua atuação não poderia produzir um resultado decisivo. A destruição misteriosa de algumas de suas naves poderia provocar certo nervosismo e confusão entre os druufs, mas nunca seria possível fazer aquela raça de gigantescos seres quadráticos bater em retirada. Por isso, Rhodan repetiu seu chamado destinado ao comandante supremo da frota vinda de outro Universo.
Rhodan chamando chefe da frota dos druufs! Favor responder! Rhodan chamando chefe da frota! Favor responder...
O aparelho foi ligado para a recepção. Mais uma vez, só se ouviu o forte chiado produzido pelos campos elétricos interestelares.
Sir, estão nos cercando! — foi outra noticia alarmante.
Rhodan acenou com a cabeça. Parecia distraído. Estava tudo preparado para uma transição-relâmpago. Mas naquele instante não pensava nisso, da mesma forma que não pensava no perigo que se aproximava inexoravelmente.
O que estava em jogo era demasiadamente valioso. Teria de arriscar tudo para obter um ganho total.
Três minutos, Sir — anunciou Marshall num cochicho.
Fazia três minutos que os telepatas haviam saltado. Segundo o cronograma, as primeiras bombas seriam detonadas cinco minutos após o salto. Depois disso, ainda haveria um prazo de segurança de quarenta e cinco segundos para que o teleportador abandonasse a nave.
Rhodan chamando chefe da frota dos druufs! Favor responder! Rhodan chamando chefe...
Observara por intermédio de Harno o comportamento do comandante supremo e vira que este fazia meia-volta sobre suas pernas disformes e se aproximava de alguma coisa que Rhodan identificou como um aparelho de rádio.
Rhodan, aqui fala Uong-Zterds-Klighf, comandante supremo. O que deseja?
Todos os nomes dos druufs eram verdadeiros monstros léxicos. Era impossível pronunciá-los e conservá-los na memória. Os homens já haviam constatado esse fato por ocasião de sua primeira visita ao Universo deles. Por isso, Rhodan não fez o menor esforço para guardar o nome do comandante supremo. Mas no momento em que a voz do druuf se fez ouvir por intermédio dos aparelhos retificadores acoplados, Rhodan transmitiu uma mensagem telepática muito importante a Marshall:
Chame de volta os teleportadores! Nenhuma bomba deve ser detonada!
Marshall não teve necessidade de olhar para o cronômetro para chegar à conclusão de que aquilo seria uma corrida contra o tempo. Seu traje espacial de agente era equipado com a mesma perfeição dos usados pelos teleportadores. Num instante, fechou o capacete, ligou o minúsculo, mas potente telecomunicador construído pelos swoons, e chamou o grupo de teleportadores para que regressassem imediatamente à Drusus, trazendo os artefatos explosivos.
Ainda proferia apressadamente a ordem, quando uma voz piou:
O que vou fazer com a bomba cujo detonador já está funcionando, John?
Faça o que puder, Gucky! — respondeu Marshall em tom penetrante. Com um pressentimento tremendo na mente perguntou: — Onde está você?
Na nave capitania dos druufs. Onde poderia estar?
Pelo amor de Deus, Gucky, justamente aí não deve acontecer nada.
Viu que suas palavras eram inúteis. Pelo ligeiro crepitar de seu alto-falante, concluiu que não poderia falar mais com o rato-castor.
Marshall abriu lentamente o capacete e sentiu que o suor lhe cobria a testa.
Neste meio tempo, uma palestra fluente em intergaláctico se desenvolvera entre Rhodan e o chefe dos druufs. A comunicação só se tornou possível graças aos complicados aparelhos existentes em ambas as naves, pois os druufs não possuíam órgãos vocais propriamente ditos. Comunicavam-se por freqüências que não estavam ao alcance do ouvido humano. Seus corpos possuíam transmissores e receptores orgânicos destinados a esse intercâmbio.
O druuf perguntou seguidamente pela frota de Rhodan. Não se conformava com o fato de ter descoberto uma única nave esférica. Evidentemente, pensava na gigantesca frota robotizada que, além de obrigá-lo a desistir da conquista do sistema solar, o fizera fugir para esta área inóspita da Galáxia.
E Rhodan dizia constantemente:
As unidades aguardam minhas ordens! A frota está acompanhando nossa palestra!
Era um blefe. Rhodan não conseguiu descobrir se o druuf estava acreditando no mesmo. Subitamente, houve um forte lampejo entre as duas frentes. Rhodan e o druuf perguntaram ao mesmo tempo:
O que foi isso?
Gucky poderia explicar minuciosamente. Era uma bomba que acabara de explodir. Tratava-se da bomba que deveria ter destruído a nave capitania dos druufs, mas que depois da contra-ordem de Marshall fora retirada por Gucky, com o mecanismo de relógio do detonador já em funcionamento, e largada no espaço por meio de um salto de teleportação.
O traje especial de Gucky, fortemente chamuscado do lado direito, provava que por pouco aquilo não terminou num desastre. Uma prova ainda mais cabal consistia nas expressões usadas pelo rato-castor, quando voltou ao ponto de partida.
Então saí com aquilo... Ainda dispunha de três segundos até a detonação da bomba. Saltei da nave dos druufs para o espaço e larguei a bomba. Quando ia teleportar-me para a Drusus...
Nenhum dos mutantes riu do rato-castor que esbravejava furiosamente. Todos compreenderam o que Gucky havia arriscado e muitos foram bastante honestos para se perguntarem: Será que eu também teria assumido esse risco? E ainda foram bastante honestos para dar resposta negativa a esta pergunta.
Deve ter havido um intervalo de mais ou menos um milésimo de segundo entre a explosão da bomba e meu salto de teleportação. Bem, tudo acabou bem, mas estou curioso para ver como continuarão as coisas. Olhem só: estamos completamente cercados pelos druufs!
A sala de operações dos mutantes era uma reprodução em escala menor da sala de comando da Drusus. Havia vários aparelhos de rastreamento e telas com sistemas de ampliação direta.
Gucky não estava exagerando. Se os druufs não estivessem dispostos a entrar em acordo, dentro em breve a Drusus deixaria de existir. Mais de duas mil naves dos estranhos seres já participavam do cerco, e uma concentração como essa fazia com que até mesmo uma transição repentina não tivesse a menor possibilidade de êxito.

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