terça-feira, 30 de agosto de 2016

P-102 - A Divisão III Entra em Ação - Kurt Mahr [Parte 1]

Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN


Os cães-de-fila da Terra estão numa pista
quente — Quem destruiu a Carolina?




Uma nova época raiou para a Humanidade. Cinqüenta e sete anos são passados, desde a morte de Crest. Na Terra, registra-se o ano 2.102.
Muita coisa aconteceu neste meio tempo. O arcônida Atlan conseguiu, com o auxílio dos terranos, firmar-se em sua posição de imperador. A aliança entre Árcon e o Império Solar trouxe seus frutos — especialmente para os terranos, muitos dos quais ocupam cargos e posições importantes em Árcon. Atlan tem de tolerar tal situação, já que não pode confiar na maior parte de seus compatriotas.
O Império Solar é agora a mais importante potência comercial da Via Láctea. Há 22 anos, um verdadeiro fluxo de emigrantes dirige-se aos mundos que podem ser colonizados. Além disso, o Império Solar mantém embaixadas e entrepostos comerciais em muitos planetas habitados.
É evidente que, muitas vezes, surgem incidentes perigosos nas amplidões do espaço... Mas qualquer um que atente contra os terranos, terá de haver-se com a Divisão III!






= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Nike QuintoChefe do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, criado por Perry Rhodan.

Ron LandryCapitão da divisão de Nike Quinto.

Larry RandallUm tenente terrano, num posto solitário.

AlboolalChefe do clã dos saltadores no planeta Ghama.

Richard Silligan, Lyn Trenton, Dynah Langmuir, Tony Laughlin e E. D. RykherSobreviventes da Carolina.
1



Estação retransmissora XIV ao cargueiro Carolina:

Nave aproxima-se da área de influência dos saltadores. Cuidado. Desligamos.

Nave cargueira Carolina à estação retransmissora XIV:

Obrigado pelo aviso. Teremos cuidado. Tudo bem a bordo. Desligo.

* * *

Não há nada mais desagradável para um comandante do que ver aparecer, de repente, outra nave junto ao veículo por ele comandado. E muito mais desagradável torna-se a situação quando a espaçonave aproxima-se demais, pois o comandante não tem certeza se conseguirá ou não desviar-se em tempo.
Não há nada mais assustador para um comandante do que ver registrado nos seus instrumentos uma elevada atividade energética a bordo da outra nave. Geralmente essa atividade só pode significar uma coisa: os canhões estão sendo preparados para disparar.
Não há nada que faça o comandante de uma nave cargueira sentir-se mais perplexo do que a súbita luminosidade de seus campos defensivos, pois significa que a outra nave abriu fogo sem aviso.
E tudo isso aconteceu com o comandante Odie Rhyan, depois que sua nave, que se dirigia da Terra para Árcon, havia realizado três transições, que a fizeram percorrer aproximadamente metade do caminho. Odie Rhyan não era nenhum medroso; pelo contrário. Avaliou corretamente a situação e logo concluiu que não poderia fazer nada, absolutamente nada, face ao traiçoeiro ataque. Um cargueiro jamais tem condições de se defender de uma nave de guerra. E o veículo surgido era uma nave de guerra. Tratava-se de um charuto fino e alongado, com uma protuberância circular no centro.
Odie Rhyan continuou no seu lugar e deu o alarma. Isso aconteceu no momento em que os instrumentos fizeram um clique e seus ponteiros bateram na extremidade superior das escalas, enquanto a luz se apagava nos campos defensivos. Odie Rhyan sabia o que isso significava. A próxima salva atingiria a nave, pois os campos defensivos tinham desmoronado.
Odie Rhyan transmitiria o pedido de socorro. A mensagem estava codificada. A única coisa que tinha de fazer era comprimir um botão.
Comprimiu-o e, de súbito, viu-se envolvido por uma torrente de luzes, na qual mergulhou imediatamente. Não sentiu dor.

* * *

Lyn Trenton poderia ser considerado um dos homens que passavam por uma espécie de segunda primavera: as têmporas começavam a tornar-se grisalhas. Ele costumava dizer que a primeira primavera de sua vida nunca sofrerá qualquer interrupção e que, por isso, seria errado falar em segunda primavera. Uma vez que sua posição na hierarquia terrana era tão elevada que os outros mal se atreviam a sonhar com ela, todos davam a maior atenção à sua constatação e ninguém se atrevia a aludir ao “perigoso homem de têmporas grisalhas”.
Naquele momento, Lyn Trenton estava empenhado em justificar a fama que desfrutava. Até então, nunca encontrara oportunidade de trocar mais que algumas palavras indiferentes com Dynah Langmuir. E, em sua maneira abstrata e precisa de exprimir-se, Lyn Trenton disse que, naquele momento, encontrara “uma oportunidade que não poderia perder”.
A nave já havia percorrido metade do caminho para Árcon. Lyn começou a ter receio de que perderia a oportunidade, se não fizesse logo uma ofensiva fulminante.
Atravessou a passo rápido o pedaço de corredor que separava seu camarote do de Dynah Langmuir. Pretendia nada menos que bater na porta do camarote de Dynah e perguntar-lhe se estava disposta a aceitar seu convite para o jantar.
Lyn Trenton tinha certeza de que o convite não deixaria de produzir efeito. Ninguém, nem mesmo uma fascinante mulher como Dynah Langmuir, recusaria um convite do mais categorizado oficial de comunicações que serve em Árcon.
Lyn Trenton viu-se diante da porta de Dynah Langmuir. Naquele momento começou a ouvir o ruído insuportável da sereia de alarma.
Bastante contrariado, Lyn virou-se e pôs-se a caminho do hangar de naves auxiliares, conforme prescrevia o regulamento para o caso de uma emergência como aquela. Mal começara a afastar-se do camarote de Dynah Langmuir, quando a porta abriu e ela, espantada, saiu para o corredor. Lyn notou sua presença ao olhar por cima do ombro. Virou-se e caminhou em sua direção. De repente teve a impressão de que o alarma já não representava uma “afronta pessoal do destino”.
Pretendia pedir-lhe mui respeitosamente que me concedesse o prazer de sua companhia durante o jantar — disse com um sorriso. — Mas do jeito que estão as coisas tenho a impressão de que teremos de jantar no hangar, e por lá o ambiente não é muito agradável.
Dynah sentia-se muito confusa para dar atenção à piada.
O que é isso? — perguntou. — O que significa o alarma?
Face ao medo demonstrado por Dynah, Lyn Trenton resolveu dar mostras de seu lado paternal.
Ninguém sabe, minha filha. O que sei é que o hangar é o lugar mais seguro. Venha comigo.
Dynah hesitou. Lyn pegou-a pelo braço e conduziu-a.
Nesse instante, a nave começou a balançar. Ouviu-se um rugido furioso, vindo não se sabe de onde. Dynah estremeceu. Lyn Trenton compreendeu que a situação realmente era séria. Apressou o passo; Dynah já começara a correr.

* * *

Richard Silligan ficou praguejando contra o monótono serviço que tinha de executar no hangar de naves auxiliares. Não parava de procurar convencer a si mesmo de que Odie Rhyan não possuía nenhuma antipatia especial por ele, embora tantas vezes o escolhesse para montar guarda no hangar. Naturalmente, essa idéia não passava de tolice, pois não havia ninguém que pudesse pôr em dúvida a imparcialidade de Odie Rhyan.
Subitamente soou o alarma e a nave começou a dar saltos que o antígravo não conseguiu absorver. Richard Silligan abriu as comportas principais das naves auxiliares.
Os sargentos e cabos, subordinados a Silligan, enfiaram-se nos trajes espaciais e ocuparam os assentos de piloto das pequenas naves. Os propulsores começaram a funcionar. De repente, o hangar encheu-se de um zumbido que abafou os sons queixosos emitidos pelo exterior da nave.
Richard Silligan esperou. As naves auxiliares destinavam-se aos passageiros. Acontece que não apareceu nenhum passageiro. Richard Silligan começou a lembrar-se de suas responsabilidades para com os subordinados. Se os passageiros não viessem, mandaria decolar as naves auxiliares, a fim de salvar ao menos os soldados que estavam de guarda. Richard Silligan não tinha a menor dúvida de que a nave estava no fim. Não sabia qual era a causa, mas sabia o que uma nave pode suportar e o que não pode.
Richard estava prestes a saltar para o interior de uma nave auxiliar que ocupava o último lugar da fila, quando duas escotilhas se abriram quase ao mesmo tempo. Por uma delas entrou um casal, e pela outra, um homem.
Por um instante, Richard Silligan perdeu o autocontrole.
Andem depressa, seus idiotas! — gritou para os passageiros, que haviam pago vinte e dois mil solares para a viagem da Terra a Árcon.

* * *

A nave arrebentou em meio a um fogo de artifício de erupções coloridas, que, por algum tempo, encheram a escuridão do espaço com uma claridade jamais vista.
O atacante desapareceu. De repente, o lugar onde poucos segundos antes a nave alongada com a protuberância circular acompanhara a rota do cargueiro terrano, ficou vazio.
Uma nuvem de gases incandescentes espalhou-se pelo espaço. No meio dos gases havia minúsculos destroços, que continuaram a emitir sua luminosidade por mais algum tempo. Na periferia do caos, um pequeno objeto afastou-se apressadamente. Ninguém saberia dizer se era um fragmento ou uma nave.
Mas, por outro lado, ninguém estaria disposto a acreditar que uma única pessoa tivesse sobrevivido à destruição da Carolina.
2



Carolina chamando estação retransmissora XIV:

CQDEA Socorro! Perigo à vista! Ataque inimigo!

Estação retransmissora XIV chamando Carolina:

Agüentem! Socorro a caminho. Transmitam raio vetor! Desligo.

Carolina chamando estação retransmissora XIV:

— — — — — — — — — — — — — —

* * *

Ora esta”, pensou Ron Landry. “Já conheci chefes mais simpáticos que este!
O “este” era um homem baixo e gordo, de rosto vermelho, suarento e rechonchudo. “Este” tinha cabelos louros muito lisos, penteados para trás, e um par de lábios grossos, sempre úmidos. Dava a impressão de que seu desenvolvimento físico parará na idade de vinte e cinco anos, embora devesse ter ao menos o dobro desta idade.
Ron Landry não gostava dele, desde o momento em que o vira pela primeira vez.
E, quando esse gorduchinho abria a boca, as coisas ficavam bem piores. Sua voz parecia ser a de um guarda de harém egípcio: era alta e estridente.
Porém o que chocava Ron Landry quase tanto quanto a voz era o fato de que nos ombros desse homem deveriam aparecer as insígnias de coronel. E Ron apenas atingira o posto de capitão. Face à natureza de sua profissão, ambos estavam à paisana, mas nunca se esqueciam da diferença de graduação.
Aquele homem antipático era Nike Quinto, chefe do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento.
Não me maltrate, homem! — gritou para Ron Landry em voz estridente. — Como é que o senhor conseguiu chegar a capitão se é tão idiota? O que acontecerá com minha pressão sangüínea se todos os meus subordinados forem como o senhor?
Não estou interessado nem um pouco na sua pressão sangüínea”, pensou Ron muito zangado.
Era de opinião que nem mesmo um superior tinha o direito de chamá-lo de idiota.
Eu lhe ficarei muito grato — disse, então, em tom enérgico — se o senhor quiser especificar a missão. Acho que nem mesmo um gênio sabe o que fazer com as três ou quatro palavras que o senhor me disse.
Nike Quinto fitou-o com uma expressão de perplexidade.
O quê? — gritou. — Além de tudo o senhor ainda me vem com uma fala insolente?
Ron Landry estava prestes a estourar, mas sem saber o porquê, não conseguia levar a cena muito a sério. Continuou calado, esperando que Nike Quinto continuasse a falar.
Que diabo! — vociferou Quinto. — Será que é tão difícil compreender que o senhor deve pegar uma nave e ir a um ponto, perfeitamente definido, do espaço interestelar?
De forma alguma — respondeu Ron, esforçando-se para reprimir um sorriso. — Apenas gostaria de saber por que devo ir para lá.
Por quê? — Quinto estava fora de si. — Desde quando um soldado tem que perguntar por que está recebendo uma ordem? Vá até lá, olhe o que há para olhar e apresente um relatório detalhado. Mas não se esqueça de que a coisa é urgente. Se eu tiver de esperar até sofrer um infarto, o relatório já não me valerá de nada.
Ron fez um gesto de assentimento.
Sim senhor.
Nike Quinto fitou-o com os olhos de sapo.
E só — disse em tom áspero. — Pode retirar-se.
Ron fez continência, embora achasse esquisito fazer continência à paisana, virou-se e caminhou em direção à porta.
Não é para lá — gritou Nike Quinto atrás dele. — Caramba! Para onde pensa que vai?
Ron virou-se. Parecia perplexo.
Vou procurar uma nave, sir — respondeu.
Nike Quinto parecia desolado. Colocou a mão sobre o peito, mais ou menos no lugar em que devia ficar o coração.
O senhor me dá um trabalho terrível, Landry — disse com um suspiro. — Aposto que minha pressão já está em duzentos e vinte; e olhe que não deveria passar de cento e sessenta.
De repente voltou a descontrolar-se.
O senhor acredita mesmo que pode sair sem mais explicações? — gritou. — O que faria se eu não o informasse sobre o que deve fazer e o que está acontecendo por lá? Ron esteve a ponto de dizer que já lhe fizera a mesma pergunta, mas Nike Quinto não permitiu que falasse.
Entre ali! — disse, apontando para uma porta. — Sente na cadeira que está lá dentro e relaxe. Quando tiver terminado saia e venha dizer-me o que acha daquilo. Entendido?
Entendido, sir — respondeu Ron, um tanto perplexo.
Dirigiu-se à porta e abriu-a. Percebeu imediatamente de que tipo era a sala na qual Nike queria que entrasse. A poltrona ultraconfortável, a cor verde-amarelada das paredes e a luz cinzenta, entremeada de violeta, a falta absoluta de outros móveis — tudo aquilo só poderia significar uma coisa: o aprendizado hipnótico.
De repente, Ron Landry passou a ter uma idéia diferente da sua missão. Se eles se davam a tamanho trabalho, devia haver atrás daquilo muito mais do que acreditara.
A porta fechou-se atrás dele. Acomodou-se na poltrona, conforme Nike Quinto lhe ordenara, e estendeu as pernas. Fechou os olhos e esforçou-se para não pensar em nada.
Começou a sentir-se sonolento.

* * *

Dali a algumas horas, já sabia do que se tratava.
Modificou sua opinião a respeito de Nike Quinto, o homem baixo e gordo, de pressão sangüínea elevada, cujo rosto vermelho sempre parecia suarento.
Um cargueiro espacial desaparecera. Conforme a última mensagem do comandante — um pedido de socorro — a nave fora atacada por um veículo espacial inimigo. Ninguém sabia quem era o inimigo, nem por que resolvera atacar o cargueiro terrano. Antes que alguém tivesse feito uma verificação in loco, seria inútil formular suposições.
Era nisso que consistia a missão de Ron Landry. E essa missão não era nada fácil, embora à primeira vista se pudesse pensar que fosse. O inimigo devia saber que os terranos não se conformariam com a perda de uma nave cargueira. Deveria supor que uma expedição seria enviada, a fim de procurar os destroços e tirar certas conclusões. Se não surgisse nenhum fator adverso, os destroços permitiriam averiguar praticamente tudo aquilo que interessava à expedição e às autoridades terranas.
Nike Quinto pensara nisso. As unidades da Frota Terrana, que se encontravam na área em que ocorrera o fato, haviam sido colocadas em estado de prontidão. Ron Landry poderia contar com uma poderosa frota de guerra nas suas costas, quando estivesse inspecionando os destroços do cargueiro. E Nike Quinto ainda se lembrara de outras coisas. A nave que seria entregue a Ron Landry era um cruzador pesado; tratava-se de uma unidade capaz de enfrentar qualquer outra, desde que o inimigo não fosse muito numeroso. Ron Landry fora autorizado a perseguir o atacante desconhecido, assim que conseguisse descobrir sua pista. E o capitão e sua nave poderiam continuar a contar com a proteção da Frota Terrana.
Ron Landry confessou que não teria sido capaz de fazer os preparativos com tamanha eficiência. Não teria notado uma porção de coisas que haviam despertado a atenção de Nike Quinto. Ao despedir-se do coronel, fez o possível para que aquele homem baixo e suarento percebesse o quanto ele o estimava.
Ao que parecia, Nike Quinto não se sentia tocado por isso. Gritou atrás de Ron:
O diabo que o carregue, se o senhor não resolver tudo satisfatoriamente!

* * *

Era só o que sobrara da Carolina: uma nuvem de gases frios que se deslocava pelo espaço à velocidade que a nave mantinha no momento da catástrofe e que se espalhava continuamente em conformidade com as leis da Termodinâmica.
No momento em que a Royal Irish atingiu a nuvem, sua densidade devia ser de alguns trilionésimos de grama por centímetro cúbico. Isso significava que a matéria gaseificada da nave enchia uma esfera de mil quilômetros de diâmetro. Face à sua rarefação, essa matéria era quase imperceptível à ótica normal, pois a mesma praticamente não se destacava contra o fundo negro do espaço, com os inúmeros pontos luminosos formados pelas estrelas.
Mas, para os analistas, a densidade da nuvem de gases ainda era mais que suficiente. Mediram o espetro de absorção com base na luz das estrelas, e dessa forma certificaram-se de que a nuvem realmente representava os restos da Carolina. O espetro mostrou as linhas conhecidas dos metais de que são feitos os cascos das naves e as paredes internas de sustentação. O espetro ainda apresentava as linhas dos hidrocarbonatos, das peças de plástico de que era feita boa parte das instalações internas da nave e das substâncias de corpos humanos, que já estiveram impregnadas de vida, quando a bordo da Carolina.
Não havia a menor dúvida de que o cargueiro Carolina fora destruído com tudo que se encontrava a bordo.
E os analistas ainda descobriram outras coisas. Os grupos moleculares dos remanescentes das diversas substâncias foram examinados. A forma de sua cisão revelou a natureza da arma utilizada contra a Carolina. Os fragmentos moleculares foram analiticamente classificados, e o volume da energia dissociativa necessária para transformar as moléculas originárias nesses fragmentos foi apurado por via estatística. Obtiveram um número representativo da energia por molécula.
Conhecido o número de moléculas, tornou-se fácil calcular o volume da energia total derramada sobre a Carolina. E esse volume, por sua vez, permitia tirar conclusões sobre o tipo da arma utilizada.
Cada arma tem um desempenho específico e, uma vez que a luta — se é que houve luta — só poderia ter durado alguns minutos, já que de outra forma Odie Rhyan teria sido capaz de transmitir outras mensagens, além do pedido de socorro codificado, seria possível calcular o desempenho total dos armamentos com base no volume energético total despejado sobre a nave.
Chegou-se, então, a este resultado: a Carolina foi destruída por disparos de armas térmicas. O total da energia utilizada correspondia a quinze vezes o volume necessário para neutralizar os campos defensivos da nave cargueira. Por ocasião do último impacto, a Carolina se desfizera que nem uma bomba detonada.
Cabia a Ron Landry apurar, com base no armamento utilizado, a identidade do inimigo desconhecido, que atacara o indefeso cargueiro nessa rota relativamente bastante freqüentada.
Seria uma tarefa difícil, se Ron Landry dependesse exclusivamente dos resultados das análises que acabavam de ser realizadas. Qualquer nave da Galáxia poderia estar equipada com um canhão térmico. Era bem verdade que uma peça do tamanho da utilizada no ataque custaria um bom dinheiro, mas existia na Via Láctea muita gente de posses. Qualquer uma dessas pessoas poderia ter comprado um canhão desse tipo, instalando-o numa espaçonave, e depois atacado a Carolina. Via-se que a arma, por si só, não esclarecia nada.
Mas havia outro detalhe.
Há cento e vinte anos a Terra começara a fazer parte do concerto galáctico das grandes potências. De início tocara seu instrumento bem baixinho, enquanto os outros, como os tópsidas, os ferrônios e principalmente o Império Arcônida com seus associados batiam fortemente o tambor e tocavam suas trombetas para que todos os ouvissem.
Naquele tempo, a raça dos saltadores, que era uma ramificação da raça arcônida, detinha uma espécie de monopólio comercial. Segundo afirmavam os saltadores, todo o comércio interestelar teria de passar por suas mãos. Qualquer mundo isoladamente não poderia negociar sem a intervenção dos saltadores, a não ser com os mundos vizinhos, situados no mesmo sistema. Para qualquer projeto mais extenso, tornava-se necessário o consentimento dos saltadores. E não era só. Eram estes que cuidavam do projeto e pagavam apenas uma parte insignificante do lucro aos povos que realmente faziam os negócios.
As exigências dos saltadores costumavam ser aceitas. Já que eles tinham o poder. Isso ao menos até que a Terra passasse a usar outro instrumento e começasse a tocar mais alto. Os terranos obstinavam-se em não reconhecer, a priori, as exigências de ninguém, por mais justas ou injustas que fossem. Negociavam por sua conta e logo se pegaram com os saltadores. O resultado da luta representou um exemplo flagrante de como, muitas vezes, a teimosia apresenta certas vantagens sobre os procedimentos convencionais. A Terra ainda continuava a fazer negócios — e negócios de vulto — e, face à aliança muito eficaz entre a Terra e Árcon, os saltadores não tiveram outra alternativa senão ranger os dentes e ir abandonando seus domínios.
É bem verdade que a retirada não foi tão simples assim. Os saltadores começaram a defender-se de uma maneira que correspondia às suas características e ao seu estilo de vida. Ficavam à espreita e, sempre que topavam com uma nave terrana que lhes parecia inferior às suas, eles a atacavam e destruíam. Dessa forma, suas ações prendiam-se exclusivamente às naves cargueiras, ou seja, aos veículos espaciais empregados no comércio terrano.
É bem verdade que algumas vezes os saltadores levaram a pior. Os terranos eram cheios de idéias. Mais de um comandante dos saltadores, que esperava com sua nave nas profundezas do espaço até que lhe aparecesse a primeira vítima, quebrara o costado num cruzador que acreditara ser um cargueiro. Os saltadores não estavam em condições de enfrentar os cruzadores terranos. Geralmente a batalha, que não conhecia perdão, terminava com um vencedor que se afastava às pressas e uma nuvem de gases que ficava para trás. E, se o veículo espacial terrano era uma nave de guerra, quase sempre a nave do saltador assumia o papel da nuvem de gases.
Era uma impiedosa guerra de guerrilhas que se travava nas amplidões do espaço, longe das estradas regulares da política interestelar. Tornava-se difícil pôr as mãos nos saltadores. Pois os mesmos viviam em suas naves.
A Terra já se preparara para travar essa luta por mais alguns séculos. As naves de guerra, que, como estações retransmissoras, permaneciam mais ou menos imóveis no espaço, ali ficavam em boa parte por causa do perigo representado pelos saltadores.
Mas nem mesmo elas conseguiram evitar a destruição da Carolina.
O espírito de Ron Landry revoltava-se contra a idéia de dar por encerrada sua missão e apresentar-se a Nike Quinto com as seguintes palavras: “Foi mais um ataque dos saltadores. Não descobrimos qualquer pista.
Era quase certo que Nike Quinto esperava que ele agisse de forma diferente. Ron Landry viu nos instrumentos a nuvem em expansão, que já fora a Carolina. Em virtude do ensinamento hipnótico de várias horas, que lhe fora ministrado na sala situada atrás do gabinete de Nike Quinto, conhecia os dados relativos à nave. Era uma daquelas naves esféricas de cem metros de diâmetro, trezentas mil toneladas de massa, mecanismo propulsor de transição, que desempenhava as funções de cargueiro e de nave de passageiros. Naquela viagem levava vinte e cinco passageiros, entre eles Lyn Trenton, superintendente da delegação terrana em Árcon, que voltava ao seu posto depois de um período de férias. Armamento, praticamente nenhum.
E uma nave daquele tipo fora atacada traiçoeiramente pelos saltadores, que a destruíram sem que isso lhes pesasse na consciência!
Não podemos permitir que escapem de mais esta”, pensou Ron Landry. “Precisamos fazê-los pagar por isso.”
Acontece que o desejo não bastava. Ron Landry fez mais do que qualquer outro comandante teria feito em seu lugar. Mandou examinar a área, à procura de remanescentes de material propulsor. Se os saltadores tivessem deslocado sua nave por meio do mecanismo propulsor de partículas, por um quilômetro que fosse, deveria ser possível encontrar uma pista que indicasse ao menos a direção de que tinham vindo ou na qual haviam desaparecido.
Acontece que não encontraram nada. Os saltadores haviam-se desmanchado no nada.

* * *

Ron Landry só dispusera de algumas horas para escolher seus tripulantes. Não conhecia o homem que se encontrava à sua frente. Só sabia que seu nome era Marty Nolan, e que desempenhava as funções de analista.
Acredito que o senhor terá suas dúvidas — disse Marty Nolan um tanto embaraçado. — Quanto a mim, tenho uma certeza razoável.
Com um gesto, Ron convidou-o a sentar.
Marty — começou — quero dizer-lhe duas coisas. Primeiro, chame-me de Ron; tenho certeza de que isso em nada afetará o respeito que o senhor sente por mim. Em segundo lugar, diga logo do que se trata. Do contrário não poderei confirmar nem desmentir seus receios.
Marty parecia sentir-se grato pelos modos pouco convencionais de Ron Landry. Ficou um tanto mais descontraído. Era um homem baixo, magro, olhos grandes e inteligentes, e uma vasta cabeleira escura. Seu olhar levava à conclusão de que sofria complexos de inferioridade.
Medi a nuvem, sir... Ron — principiou. — Estou ensaiando um novo método. Se conseguirmos determinar precisamente a densidade da nuvem e se conhecermos seu volume, poderemos calcular sua massa, não é?
Um sorriso ligeiro surgiu nos lábios de Ron Landry.
Compreendo — disse em resposta ao olhar indagador de Marty.
Muito bem. Suponhamos que eu conheça a densidade, sem a menor margem de erro, e o volume da massa gasosa, com uma precisão de mais ou menos cinco por cento. Nesse caso, poderei calcular também a massa do artefato, com uma precisão de mais ou menos cinco por cento.
Mais uma vez lançou um olhar indagador para Ron Landry.
É verdade — confirmou Ron.
Pois bem — prosseguiu Marty Nolan. — Já fiz estes cálculos. O resultado é o seguinte: a massa da nuvem gasosa é de duzentas e setenta e oito mil toneladas.
Ron Landry aguçou o ouvido.
A massa nominal da Carolina é de duzentas e noventa e oito mil toneladas — disse.
Desta vez Marty confirmou com a cabeça.
Perfeitamente. E, como já disse, meu cálculo tem uma precisão de mais ou menos cinco por cento. Com isso, o limite superior seria de duzentas e noventa e duas mil toneladas, não de duzentas e noventa e oito mil toneladas.
Ron levantou-se.
Tem certeza de que o erro não pode ser superior a cinco por cento? — perguntou em tom insistente.
Certeza absoluta, sir... Perdão, Ron. Na verdade, a margem de erro é menor. Chega a uns três vírgula oito por cento. Apenas quis ter certeza absoluta.
Ron virou-se nos calcanhares, com uma rapidez tamanha que Marty se sobressaltou, e perguntou:
O que é que o senhor conclui daí?
Marty levantou as mãos, como se quisesse oferecer alguma coisa a Ron.
Concluo que uma das naves auxiliares conseguiu escapar, Ron. A diferença de massa corresponde quase exatamente à mesma. Uma nave auxiliar pesa entre dezoito e vinte e duas mil toneladas. A Carolina trazia três veículos desse tipo a bordo.
Ron Landry mordeu o lábio.
O senhor tem certeza, Marty? — perguntou. — Quero que me compreenda perfeitamente. Não duvido das suas boas intenções, nem da sua capacidade. Mas gostaria que, antes de expedirmos uma mensagem a este respeito, consultasse mais uma vez a consciência. Seus cálculos e medições são corretos?
Marty respondeu sem a menor hesitação:
O risco que assumo ao acreditar na exatidão das minhas medições não é maior que o que assumo ao acreditar que duas vezes dois são quatro.
O senhor se exprimiu em palavras muito bonitas — falou Ron, em tom irônico.
Subitamente seu rosto assumiu uma expressão séria. Deu alguns passos, voltou a ficar parado e disse em tom pensativo:
Quer dizer que uma das naves auxiliares escapou à catástrofe!
3



Cruzador Royal Irish para retransmissora XIV:

Notaram qualquer indício de que, depois da explosão, um veículo dirigido tenha abandonado o local? Desligo.

Retransmissora XIV para cruzador Royal Irish:

Não notamos qualquer indício. Por quê? Têm alguma esperança? Desligo.

Cruzador Royal Irish para retransmissora XIV:

Temos. Desligo.

* * *

Não se sabia como, mas o fato é que haviam escapado. Por algum motivo o fogo de artifício chamejante, quente, crepitante, não os atingira, mas apenas à nave, que deixaram para trás com uma velocidade tremenda. De alguma forma, precipitaram-se pela escotilha da comporta no momento exato em que esta ameaçava desmanchar-se e ficar aprisionada no inferno em que a Carolina se dissolveu.
Sua inteligência fora incapaz de, naqueles momentos de pavor, assimilar os acontecimentos corretamente e na seqüência certa. Quando se perguntavam sobre o que realmente acontecera, sua memória falhava.
O fato é que haviam escapado. A bola incandescente que já fora a Carolina ficara bem para trás. Estavam em segurança, e era o que realmente importava, segundo achava Lyn Trenton.
A maneira pela qual o barco escapara à catástrofe no último instante representara uma pesada carga para os nervos de Richard Silligan. Por algum tempo, ele deixara o veículo prosseguir em linha reta pelo espaço afora. Finalmente lembrou-se dos seus deveres e certificou-se de que ao menos a bordo de seu barco tudo estava em ordem. Aliás, nem tudo.
Os aparelhos necessários à sobrevivência imediata funcionavam perfeitamente, como, por exemplo, o equipamento de renovação e de condicionamento de ar. E havia provisões para uma viagem espacial de vários meses. No entanto, as gigantescas descargas eletromagnéticas haviam afetado os dois transmissores de bordo a tal ponto que estes não poderiam ser reparados com os recursos existentes a bordo.
O barco estava isolado do mundo exterior. Richard Silligan procurou localizar até outras duas naves que, juntamente com a sua, se haviam preparado para decolar no hangar da Carolina. Não descobriu o menor sinal das mesmas. Deviam ter voado em outra direção, ou então não conseguiram sair em tempo da nave que explodira.
A próxima tarefa de Richard consistiria em determinar o destino do barco. Antes disso, queria ouvir a opinião dos três passageiros e do cabo que pilotara o barco nos primeiros momentos do vôo.
A sala de comando também servia de cabina de passageiros. Três fileiras, com seis confortáveis poltronas, estavam dispostas em torno da poltrona do piloto. A maior das quatro telas de imagem estava colocada à frente do lugar do piloto.
Richard Silligan virou-se. Naturalmente conhecia Lyn Trenton, o funcionário mais graduado da representação terrana em Árcon. Também já vira Dynah Langmuir, que lhe despertara a atenção. Mas não tinha a menor lembrança do terceiro passageiro. Era um velhinho baixo, que parecia não se sentir muito à vontade no seu terno distinto, que, segundo tudo indicava, era novo. Parecia que o homem não fora feito para aquela espécie de roupa e ansiava por trajar logo um pulôver e uma calça de linho azul.
Devemos fixar nosso destino, senhores — principiou Richard Silligan, sem qualquer intróito. — Alguém tem uma sugestão? Também estou me referindo ao senhor, cabo Laughlin.
A primeira reação às palavras de Silligan consistiu num sorriso irônico, condescendente e arrogante de Lyn Trenton. Richard teve vontade de levantar-se e dar-lhe uma bofetada. Mas forçou-se a ficar quieto, permanecendo com o rosto imóvel.
Será que o senhor não está pedindo demais de nós, capitão? — perguntou Lyn Trenton, com a voz tranqüila. — Afinal, não sabemos como é o setor do espaço em que nos encontramos, não conhecemos as possibilidades e ignoramos o poder de vôo desta nave.
Estava acostumado a agir assim. Conferia um título demasiadamente alto a outra pessoa para deleitar-se ao ver que esta, contra a vontade, tinha de confessar que ainda não chegara a tanto.
Em primeiro lugar — respondeu Richard Silligan prontamente, num tom cuja hostilidade não poderia deixar de ser notada — sou apenas um tenente. Em segundo lugar, sempre é possível que alguém aqui presente conheça as coisas melhor que o senhor, não acha?
Sentia-se satisfeito por ter dito isso. Fora um bom contra-ataque, e o fato de se ter defendido dava-lhe certo prazer, embora Lyn Trenton não mostrasse a menor reação. O olhar de Richard dirigiu-se para Dynah Langmuir, dando a entender que esperava ouvir alguma coisa da jovem. Ela obrigou-se a exibir um sorriso, balançou a cabeça e disse:
Sinto muito, tenente. Estou tão mal informada como Mr. Trenton.
Trenton virou a cabeça e cumprimentou-a com um gesto amável.
Estão agindo de comum acordo”, pensou Richard e sentiu-se contrariado.
Muito bem — resmungou. — Quem sabe...
O homenzinho do terno elegante e pouco confortável entendeu a indireta.
Meu nome é Ezequiel Dunlop Rykher — disse numa ridícula voz berrante. — Sou de Lapine, Oregon — acrescentou. — Ganhei este vôo num concurso. Se dependesse de mim, nunca teria participado daquela maldita competição. Mas o senhor sabe como são as coisas. Sempre há alguém que força a gente — fitou Richard. — Quanto à sua pergunta, tenente... Acho que estamos nas proximidades do sistema de Toghma, não é? Na minha opinião não deveríamos assumir maiores riscos. Agiríamos com prudência se fôssemos para lá. Não acha?
Richard sentiu-se perplexo, e a mesma coisa acontecia com as demais pessoas no recinto. Inclusive Trenton.
Quem teria esperado que Ezequiel Dunlop Rykher, um homem de Lapine, Oregon, soubesse exatamente em que lugar se encontrava durante a viagem da Terra para Árcon?
O senhor está muito bem informado, Mr. Rykher — respondeu Richard, depois de se ter recuperado da surpresa. — Estamos...
Rykher interrompeu-o.
Chame-me de Ez; é o que todo mundo faz — disse. — E o senhor é Dick, não é? Dick Silligan.
Richard fez um gesto afirmativo.
Muito bem, Ez. O senhor está muito bem informado. Daqui para Toghma são cerca de mil e cem unidades astronômicas, o que corresponde aproximadamente a seis e meio dias-luz. O sistema tem quatro planetas. O planeta número dois é habitado. Seu nome é Ghama. Ghama é um mundo aquático, onde vivem inteligências nativas, mas primitivas. No planeta há uma representação terrana do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento. Além disso, existe uma grande base comercial dos saltadores. É só o que sabemos sobre Toghma e Ghama.
Ez Rykher ergueu as sobrancelhas.
Saltadores? — repetiu em tom hesitante. — Neste caso, talvez seja preferível procurarmos outro lugar. Pelo que sei da política terrana, concluí que nossa base é muito pequena, e pouco poderá fazer para evitar que os saltadores nos agarrem.
De repente, Lyn Trenton soltou uma estrondosa gargalhada.
Formidável! — exclamou. — Se os saltadores nos agarrarem... Por que haveriam de fazer uma coisa dessas, que só lhes pode trazer dificuldades diplomáticas? Ora, meu caro, não ponha miss Langmuir nervosa com essas suas histórias de raptos.
Passou a mão pelo braço de Dynah, num gesto tranqüilizador. Richard ficou irritado ao notar que ela não se importou com tal atitude.
Ez Rykher continuava tranqüilo.
Acho que o senhor não sabe mesmo de nada — disse num tom indiferente, como quem tece comentários sobre o tempo. — Todos sabem que os saltadores costumam atacar e destruir nossos cargueiros. E, se fazem uma coisa dessas, não vejo por que deixariam de apoderar-se de cinco terranos indefesos.
Voltou-se para Richard Silligan, fazendo de conta que não valia a pena perder mais tempo com Lyn Trenton.
Qual é a distância até o lugar aproveitável mais próximo?
Richard não teve necessidade de refletir.
Desgraça — respondeu. — São sete anos-luz daqui.
Ez Rykher refletiu intensamente.
Este barco só dispõe de um propulsor que não nos permite atingir mais de noventa e nove vírgula sei lá quantos por cento da velocidade da luz.
Parecia que falava para si mesmo.
Katherine não agüentará tanto tempo. Sou de opinião que apesar de tudo devemos ir para Ghama.
Richard fez um gesto de assentimento.
Cabo Laughlin? — perguntou.
De acordo, sir.
Richard girou a poltrona e inclinou-se sobre o painel de controle. Esperava que Lyn Trenton protestasse contra a decisão a respeito da qual não fora consultado. Já tinha a resposta na ponta da língua. Mas Lyn Trenton era mais inteligente do que ele supusera. Não protestou, evitando assim a vergonha de uma recriminação.
Laughlin, siga a rota de Ghama! — ordenou Richard.

* * *

A esfera azul formada por Ghama brilhava na grande tela. Reconheciam-se perfeitamente as superfícies cintilantes dos gigantescos mares e os pontos escuros que representavam as pequenas ilhas. Era uma visão bela e estranha, mas a única pessoa que realmente se deleitou foi Ez Rykher.
Desse jeito — disse — realmente me oferecem algo em troca desse concurso idiota. Acho que Árcon seria bastante monótono. Aqui as coisas serão diferentes.
O barco percorrera a distância de mil e cem unidades astronômicas em pouco menos de trinta horas, tempo de bordo. O propulsor funcionara perfeitamente, e a distorção relativista do tempo, verificada durante o vôo a alta velocidade, fizera com que para os ocupantes do barco o tempo não parecesse tão longo como para um observador estranho, que se encontrasse em posição imóvel.
Assim que o sistema de Toghma surgiu na tela, Richard Silligan confiou a pilotagem da nave exclusivamente ao cabo
Laughlin e passou a ocupar-se com os receptores de bordo, esforçando-se para fazer com que ao menos um deles voltasse a funcionar. Conforme já fora ressaltado por Ez Rykher, o pouso em Ghama envolvia riscos consideráveis. Os saltadores costumavam ficar de olho em tudo, e os nativos dependiam deles, motivo por que teriam de submeter-se às suas ordens. Richard não fazia a menor idéia de qual das inúmeras ilhas abrigava o estabelecimento terrano. Esperava conseguir reparar o receptor, a fim de acompanhar o tráfego de mensagens de rádio que se desenvolvia acima de Ghama.
Mas essa esperança revelou-se ilusória. Os aparelhos estavam tão avariados que não havia como repará-los.
Lyn Trenton acompanhara os esforços de Richard com a maior atenção. Quando Richard finalmente confessou seu fracasso, disse:
O senhor não é culpado, tenente. Na Terra deveriam ensinar mais Eletrônica aos oficiais.
Não diga tolices! — retrucou Richard. — Nem mesmo um chefe de Eletrônica seria capaz de reparar este receptor.
A voz entrecortada de Ez Rykher fez-se ouvir nos fundos:
Deve haver gente que consegue repará-lo com a boca, Dick!
Lyn Trenton olhou para trás. Era a primeira vez, desde o momento em que Richard começara a observá-lo, que parecia irritado. Richard sentiu-se satisfeito com isso, muito embora, se quisesse ser objetivo, teria de confessar que, naquele ambiente estranho, povoado de saltadores e cheio de perigo, a vida não seria nada agradável para os cinco náufragos, se estes só procurassem ofender-se mutuamente.
Dynah Langmuir permanecera em silêncio durante todo o tempo de vôo. Lyn procurara envolvê-la numa conversa, mas as respostas de Dynah eram tão lacônicas que acabou desistindo. Reclinou a poltrona e dormiu um pouco. Dynah, Ez e, evidentemente, os dois tripulantes, continuaram acordados.
Nas horas em que não havia nada para fazer, Ez Rykher conversava demoradamente com Richard. Contava-lhe a respeito da fazenda que possuía em Lapine, de sua esposa Katherine e de seus dois filhos, um dos quais freqüentava a Academia Espacial de Terrânia. Richard ouvia-o atentamente. Ez contava as coisas com tamanho realismo que o ouvinte esquecia o ambiente em que se encontrava. Richard chegou a sentir cheiro das bétulas de Oregon, o perfume dos prados, ouvir o mugido das vacas e o zumbido das abelhas. Depois de algum tempo já não sabia o que estava fazendo num lugar como aquele, situado a dezoito mil anos-luz da Terra e no caminho de Toghma.
Ez Rykher era um homem estranho. Entendia bastante de madeira, capim, galinhas, vacas, leite e outras coisas semelhantes — conforme se podia esperar — e não entendia menos de Galatologia, Astronáutica e Matemática — isto, não se podia esperar. Discutiu a respeito de uma série de problemas nos quais Richard deveria possuir certa superioridade sobre ele, mas não possuía. Rykher não o deixou perceber. Tinha uma maneira gentil e conciliadora de fazer com que alguém reconhecesse que se enganara num ou noutro ponto, e que, na verdade, as coisas não eram tão fáceis como supunha. Ez Rykher foi um dos contatos mais estranhos e agradáveis que Richard fizera em sua vida.
Naquele momento dirigiu-se para a frente, a fim de acompanhar a manobra de pouso que estava sendo realizada por Tony Laughlin. O cabo fez com que o veículo penetrasse em ângulo aberto nas camadas superiores da atmosfera, a fim de economizar combustível. Sua intenção era obter redução da velocidade por atrito, em vez de realizar a manobra de frenagem. O barco ainda dispunha de uma quantidade suficiente de energia, mas segundo uma lei da Astronáutica jamais se devia desperdiçar combustível, caso houvesse um meio de economizá-lo.
Tinham tempo. Dariam algumas voltas em torno de Ghama, até que o barco desenvolvesse a velocidade que lhe permitisse pousar. Isso oferecia outra vantagem, pois poderiam procurar o posto terrano. Era ao menos o que imaginavam. Acontece que, quando o barco estava prestes a iniciar a segunda volta em torno do planeta, foi atingido por um golpe violento. Girou algumas vezes em torno de seu eixo longitudinal e lateral e desceu cambaleante.
Ninguém tinha a menor idéia do que acontecera. Parecia um impacto de meteoro, mas não se descobriu o menor vestígio desse impacto. O propulsor direcional permitiu a Tony Laughlin acertar a posição do barco e levantá-lo um pouco, fazendo com que perdesse parte da velocidade perigosamente elevada.
Mas foi só. O barco precipitou-se para baixo que nem uma pedra. O propulsor deixara de funcionar. O antígravo fora posto fora de ação, e os cinco terranos levitavam na pequena sala de comando. Tony Laughlin e Richard Silligan desistiram dos seus esforços e fitaram a grande tela, na qual a superfície verde-azulada do oceano se aproximava com uma velocidade apavorante.
Sentiram um medo terrível. O impacto da queda os mataria.

* * *

Quando ouviu o uivo estridente, Larry Randall levantou os olhos. O ruído vinha do céu azul e límpido, mas Larry não conseguiu ver sua causa.
Com um suspiro recolheu a vara de pescar e atirou-a no barco. Ao que parecia, não pegaria nenhuma arraia lunar. Voltou a olhar para o alto e colocou a mão sobre o acelerador do pequeno motor silencioso, a fim de estar preparado se acontecesse algo de importante.
O uivo subira de tom. Parecia um vento rijo e constante que assobiasse pelas frestas das janelas de um edifício. Larry nunca ouvira um ruído como aquele. Ficou admirado. De repente viu alguma coisa. Era um pontinho cintilante vindo do céu, e se precipitava em direção à água como se fosse uma pedra.
É um veículo espacial dos saltadores”, pensou Larry. “Está caindo. Não se deve ser odiento, mas seria bom que todos eles caíssem.
Algumas centenas de metros acima da água o ponto cintilante parecia querer parar. A queda vertical passou a desenvolver-se num ângulo mais aberto. O uivo mudou de tom. O ponto descreveu uma curva fechada e voltou a subir. Sua velocidade diminuiu. Atingido o ponto mais elevado de sua trajetória, voltou a cair, depois de descrever outra curva. Projetou-se n’água a alguns quilômetros de distância, fazendo saltar um jato alto e espumoso.
Larry Randall colocou seu barco em movimento. Eram saltadores que tiveram o azar de cair n’água, e seria bom que o diabo carregasse tudo quanto fosse saltador. Mas não se podia deixar que morressem afogados. Se alguém tivesse saído do veículo espacial, esse alguém ficaria nadando, mas logo seria devorado por um lidioque. Era uma morte que Larry não desejava nem mesmo a um saltador.
Quando Larry aumentou a velocidade do barco, este ergueu-se ligeiramente na água. Por enquanto não se ouvia nenhum ruído além do borbulhar da água. Larry olhou rapidamente para trás. A linha alongada do litoral foi mergulhando lentamente no mar. Deu-se conta de que se afastava da costa a uma distância maior do que jamais se arriscara. Comparou a posição do sol com a situação do litoral, a fim de poder orientar-se. De repente foi de opinião que era verdadeiramente ridícula a busca que realizava, pois nem sequer possuía uma bússola que lhe permitisse orientar-se.
Depois de algum tempo atingiu as ondas levantadas no local do impacto. O pequeno barco começou a balançar. Larry reduziu a velocidade e olhou em torno. A fim de aumentar seu campo de visão, levantou-se. Entretanto não conseguiu enxergar nada, além da água. Não havia o menor sinal da cabeça de alguém que estivesse nadando, nenhuma peça do veículo que ali afundara.
Durante uma hora, Larry ficou cruzando pela área, olhando em torno e chamando de vez em quando. Finalmente chegou à conclusão de que ninguém sobrevivera à queda e dispôs-se a voltar.
Naquele momento ouviu um ruído borbulhante e viu algumas bolhas que subiam ao lado do barco. Atrás das bolhas vinha uma sombra cinzenta. De início pensou que fosse um lidioque e esteve prestes a fugir, pois um lidioque era tão grande e forte que poderia estraçalhar não só ele, como também seu barco. Mas quando a tal coisa subiu mais um pouco, Larry pôde ver que tinha o formato de um trapézio. Um lidioque não tinha formato de trapézio. Larry esperou.
Finalmente o objeto atingiu a superfície. Alguns segundos antes Larry já reconhecera o que era: uma peça do mecanismo direcional!
A peça metálica, mais leve que a água, subiu à superfície. Larry admirou-se de que tivesse levado tanto tempo.
E mais admirado ficou quando leu o que estava escrito na peça.
Carolina II! — balbuciou.
De repente teve muita pressa. Não havia mais nada que pudesse fazer pela pessoa que caíra na Carolina II, fosse ela quem fosse. Mas a Terra teria de ser informada sobre o incidente, e isso o mais cedo possível.
Larry olhou para o sol, colocou o barco na direção certa e empurrou a alavanca do acelerador para a posição máxima.
4



Retransmissora XIV para cruzador Royal Irish:

RHH IT. Dirija-se imediatamente porto matrícula! Desligo.

Cruzador Royal Irish para retransmissora XIV:

VXD. Entendido! Desligo.

* * *

Ninguém era capaz de imaginar qual seria o motivo dessa ordem, e Ron Landry, ainda menos que qualquer outra pessoa. A volta à Terra contrariava parte das instruções que Ron recebera durante o aprendizado hipnótico. Mas não havia nenhuma dúvida: quem expedira essa ordem fora Nike Quinto em pessoa, motivo por que o melhor que Ron Landry tinha a fazer era obedecer à mesma.
Seis dias após a decolagem, a Royal Irish voltou a pousar no espaçoporto de Terrânia. Ron Landry teve uma idéia da importância de sua missão ao perceber que Nike Quinto em pessoa viera buscá-lo.
Geralmente Nike Quinto, que nominalmente era diretor do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, uma organização não-militar, teria coisa melhor a fazer, e não aparecer nas proximidades de um cruzador pesado. Devia evitar qualquer indicação, por mais leve que fosse, de que a Divisão III, submetida a Nike Quinto, não tinha nada a ver com o auxílio para o desenvolvimento. Coisas extraordinárias aconteceram, pois, do contrário, Nike Quinto não teria deixado de lado as medidas usuais de segurança.
Ron Landry não demorou a descobrir de que se tratava.
O Tenente Randall, que se encontrava em Ghama, retirara do mar, nas proximidades do posto terrano, uma peça da nave auxiliar Carolina II. Do barco, observara a queda. Escrevera um relatório bem elucidativo. Além disso, Randall examinara a peça do barco espacial, formada por um pedaço do dispositivo direcional aerodinâmico, e constatara que, pouco antes da queda, o veículo fora atingido por um tremendo choque energético. A grade cristalográfica dos metais sofrerá uma deformação extrema, e a inversão do processo permitiu a Randall que, com base no tempo de relaxação desse tipo de cristal, calculasse o momento do impacto.
Concluiu que a nave fora derrubada.
Os nativos de Ghama não possuíam canhões energéticos. Portanto, a nave fora derrubada pelos saltadores.
Porém estes não derrubariam sem mais nem menos um veículo espacial, quando no momento do disparo nem poderiam saber, em condições normais, de onde vinha e nem a quem pertencia. Dali se concluía que os saltadores estabelecidos em Ghama estavam informados sobre o destino que atingira a Carolina e receavam que os ocupantes da nave auxiliar pudessem ajudar a identificar o traiçoeiro atacante.
Quer dizer que já temos uma pista — disse Nike Quinto, com sua voz aguda.
Estava bastante esbaforido.
Acho que não é necessário ressaltar que devemos agir com muito cuidado — prosseguiu. — Caso não acredite nas minhas palavras, poderá ver a ordem escrita do Marechal Mercant. Ghama é muito importante para nós. Primeiro, por sua posição galáctica; depois, em virtude de certas matérias-primas que nos são fornecidas pelos nativos. Por enquanto esses nativos dependem dos saltadores e por isso lhes são bastante dedicados. Os saltadores têm adotado uma política diplomática por demais hábil em Ghama. Não podemos contar com a antipatia dos guameses para com os saltadores
É claro que depois da destruição da Carolina os saltadores não podem jamais escapar. Devem ser punidos. Isso significa que precisamos trazer os responsáveis para a Terra, a fim de processá-los. Não virão espontaneamente; logo, teremos de obrigá-los. E é nisso que consiste sua tarefa. Se a mesma provocar tumultos entre os nativos, não terá sido cumprida segundo as intenções do Marechal Mercant e terá de ser considerada um fracasso. Não se esqueça disso; acho que é o ponto mais importante.
E agora sente-se novamente nessa poltrona e deixe que lhe ensinem o que ainda terá de saber.”

* * *

Larry Randall não ficou surpreso, quando a nave de abastecimento, que costumava pousar em Ghama uma vez por mês, chegou alguns dias mais cedo do que era aguardada. Esperara que suas informações sobre a queda da nave auxiliar Carolina II provocassem certas reações, e a antecipação da viagem da nave de abastecimento parecia ter algo a ver com essas reações.
Sentado à escrivaninha, Larry olhava pela grande janela. Viu o tapete de relva florida da ilha, a superfície cinzenta da estrada e o edifício achatado do espaçoporto, atrás do qual a nave estava pousando nesse instante. Era a mesma de sempre, a Empress of Arkon. Estava equipada com um propulsor do novo tipo; durante o pouso, não se ouviu nenhum ruído, com exceção de um ligeiro zumbido. Larry sempre se sentia fascinado ao ver um colosso metálico como aquele descer do céu suavemente e quase sem o menor ruído.
Ficou refletindo sobre se deveria ir ao espaçoporto. Não costumava ir, pois sabia que a chegada dos oficiais e tripulantes da nave deixaria o pequeno núcleo terrano de Killanak movimentado por alguns dias. Resolveu que naquele dia também não iria. Alguma coisa estava para acontecer, e seria preferível não modificar seus hábitos, a fim de não chamar a atenção. Os nativos de pele lisa, que viviam em Killanak, andavam sempre atentos, e Larry preferiu não arriscar-se a que um deles percorresse a nado os duzentos e cinqüenta quilômetros que os separavam da grande base dos saltadores e informasse: “Homem branco... ir nave... outras vezes não fazer... hoje fazer.”
Por isso Larry Randall ficou sentado, esperando.

* * *

De repente um dos nativos apareceu à porta. Era pequeno e tinha pele lisa e olhos grandes, um pouco salientes. A pele era marrom-bronzeada, e a gordura, que os poros eliminavam ininterruptamente, fazia a pele brilhar. As guelras, formando uma pequena abertura atrás do maxilar, tremiam ligeiramente, como se aquele homem estivesse nervoso.
Era Zatok. Nas primeiras semanas de sua estada em Ghama, Larry tivera dificuldades em distinguir nominalmente os habitantes do planeta. A única diferença que conseguia perceber de forma inequívoca era a seguinte: existiam homens e mulheres. Os ghameses só traziam uma peça de roupa apertada nos quadris, e sua constituição física era bastante semelhante à dos terranos.
Atualmente Larry já não tinha dificuldades em distinguir os habitantes do planeta uns dos outros. O homem que se encontrava na porta era Zatok e, como suas guelras tremessem, estava nervoso.
Homem estranho chegou, meu amigo — disse em sua linguagem gutural.
Larry confirmou com a cabeça.
Peça-lhe que entre — respondeu na mesma língua. — Decerto quer falar comigo.
Zatok também fez um gesto com a cabeça.
Também acho — disse. Larry espantou-se.
Mas... será que é ele mesmo? — perguntou, um tanto incerto.
Zatok fez uma careta e exibiu seus dentes brancos, numa espécie de sorriso amável.
Acredito que sim. Larry levantou-se.
Pois diga-lhe que entre, seu monstro marrom — ordenou com um sorriso.
Zatok virou-se e saiu andando. Aliás, andar não é a palavra adequada para designar o que realmente fez. Arrastou-se graciosamente, numa forma de locomoção típica de seres que estão acostumados a permanecer mais na água que na terra.
Dali a alguns segundos, outro homem apareceu na porta. Era grande. Sua largura quase enchia todo o espaço da porta. A primeira impressão de Larry: não gostaria de envolver-se numa briga com aquele homem, caso não dispusesse de outras armas além dos punhos. O homem não parecia ter mais de trinta anos, mas seus olhos revelavam a experiência de uma idade superior, e seus movimentos, apesar do tamanho descomunal, pareciam elegantes e seguros.
Seu cabelo era castanho-escuro. Larry nunca o vira. Mas conhecia essa espécie de gente.
Divisão III!
Larry levantou-se.
Meu nome é Ron Landry — disse o desconhecido. — Se o senhor for Larry Randall e tiver alguma coisa para beber, estou no lugar certo.
Larry sorriu.
Ambas as suposições são corretas, Mr. Landry.
Apontou para uma poltrona. Ron sentou-se e esticou as pernas. Sentado, chegava a parecer mais maciço que em pé. Larry pegou uma garrafa e dois copos e encheu-os.
Mandaram-me para cá, Larry — principiou Ron sem esperar que seu interlocutor falasse — porque são de opinião que o senhor precisa de auxílio. Face à influência cada vez maior dos saltadores, devemos fazer um trabalho de ajuda ao desenvolvimento em Ghama. Quero que me entenda bem. O fato de eu ter sido enviado para cá, de forma alguma significa que na Terra não estejam satisfeitos com o senhor. Acontece apenas que o trabalho a iniciar-se por aqui não poderá ser realizado exclusivamente pelo senhor.
Larry ouviu-o sem maior interesse e, quando Ron fez uma pausa, acenou-lhe com a cabeça. Larry sabia que não havia necessidade de guardar na memória o que Ron lhe dissesse, pois era tudo inventado. Saberia de outra forma o que realmente Ron desejava. Isto é: uma maneira da qual pudessem ter certeza de que os saltadores não pudessem escutá-los.
Ron pegou mais um copo de bebida e prosseguiu:
Trouxe uma porção de diretivas enfeixadas num manual, que se encontra a bordo da Empress of Arkon. Ainda não estudei o manual; na minha opinião será preferível que façamos isso em conjunto. O chefe acredita que, se utilizarmos os meios adequados, deverá ser possível ganhar terreno, face aos saltadores.
Larry aguçou o ouvido. Já eram falas mais precisas.
O chefe acredita que podemos oferecer aos nativos a mesma coisa e até mais que os saltadores. O problema é modificar seus hábitos antigos. Há séculos os saltadores lhes trazem aquilo de que precisam. Basta convencer alguns deles de que conosco poderão ter mais vantagem, para que a novidade circule por aí e os saltadores percam terreno.
Isso não vem ao caso”, pensou Larry.
Antes de mais nada, nunca devemos esquecer-nos de uma coisa: o que mais importa é o bem-estar dos ghameses. Seja lá o que resolvermos fazer, não devemos contrariar os nativos, pois se isso acontecer, tudo será em vão.
Ah”, pensou Larry. “O caso é sério.”
Naquele instante, Zatok voltou a aparecer na porta. Ron estava de costas para a mesma. Quando esteve a ponto de prosseguir, Larry fez-lhe um sinal. Ron virou-se.
O que deseja, amigo? — perguntou, falando corretamente a língua dos ghameses.
Zatok espantou-se e, seguindo o costume de sua raça, deu mostras evidentes de seu espanto. Ergueu os sobrecenhos sem cabelo, arregalou os olhos, que já eram grandes, e deu três ou quatro saltos que, por pouco, não fizeram com que sua cabeça batesse no batente da porta.
Você fala minha língua, amigo — disse num estranho tom cantante, que exprimia sua alegria profunda. — Com isso meu coração fica leve e minhas mãos começam a nadar.
Fico satisfeito em saber disso, amigo! — exclamou Ron e, para espanto de Larry, dominou o tom cantante sem o menor sotaque. — Será que tem alguma objeção a que permaneça algum tempo no belo mundo de Ghama?
Zatok bateu palmas energicamente, o que constituía sinal de uma negativa inequívoca.
Em absoluto, amigo. Isso também faz meu coração ficar leve.
Ron fez um gesto grave. Estendeu o braço direito para o lado e curvou-o, como se quisesse abraçar uma pessoa invisível. Era um gesto de concordância e de afirmação, que encerrava o tema sobre o qual se acabava de falar. Ron executou-o com uma elegância inimitável.
Deve ter feito um curso hipnótico”, refletiu Larry. “Se as coisas chegaram a este ponto, algo de muito grave está acontecendo.”
Quando você entrou aqui, pretendia dizer alguma coisa, amigo — lembrou-lhe Ron. — O que foi? Não tive a intenção de interrompê-lo.
Zatok fez uma espécie de sinal-da-cruz com a mão direita, na altura da cabeça. Isso significava: “Sim, é claro.”
Acho que alguém quer ver um dos amigos — falou em seu tom cantante.
Um sorriso amável surgiu nos lábios de Ron.
Se você diz isso, meu amigo, esse alguém já deve estar lá fora. Traga-o para dentro. Quem é?
Neste momento ouviu-se alguém bater ruidosamente com os pés. Zatok foi empurrado para o lado, e o vulto gigantesco de um homem barbudo, um pouco maior ainda que Ron Landry, entrou pesadamente no pequeno recinto.
Larry esforçou-se para disfarçar o espanto.
O homem que acabara de entrar era Alboolal, chefe do clã dos saltadores, que explorava o grande entreposto comercial de Ghama.

* * *

Estava por perto — disse Alboolal em voz alta, falando o arcônida à maneira de sua raça. — Pensei que seria bom dar uma chegada.
Olhou em torno. Larry convidou-o a sentar e fez as apresentações de Ron e Alboolal.
Quer dizer que pretende ficar aqui por algum tempo? — perguntou o saltador em tom curioso.
Ron manteve atitude reservada. Não se esforçou para ser cortês e falou um arcônida tão horrível que até mesmo Larry quase não conseguiu entendê-lo.
Não sei. Depende de algumas coisas.
Depois veremos.
Alboolal soltou uma estrondosa gargalhada.
Ah, sim. Compreendo. É segredo, não é? É preferível que a concorrência não fique sabendo. Mas posso tranqüilizá-lo. O negócio de Ghama começa a ficar pouco interessante para nós. Acho que não demoraremos em retirar-nos. Pode ficar com esse deserto aquático.
Ah, é? — perguntou Ron, desconfiado.
Sem dúvida. Para o senhor, isto ainda poderá ser um grande negócio — fez um gesto de desprezo. — Afinal, nossos padrões são diferentes.
Ninguém respondeu. Alboolal olhou em torno. De repente parecia sentir-se pouco à vontade. Levantou-se.
Prefiro não incomodá-los mais. Só quis dar uma chegada. Desejo uma boa estada.
Fez um gesto para Ron. Este levantou-se, e, embora tivesse meio palmo menos que Alboolal, ainda impressionava graças à sua elegância e agilidade. O rosto sorridente de Alboolal enrijeceu-se. Ao que parecia, sentia a hostilidade que irradiava de Ron. Estava prestes a retirar-se, mas ficou parado, como se o olhar de Ron o impedisse de movimentar-se.
Não se esqueça de fazer seu testamento e nomear o novo chefe do clã — disse Ron em voz baixa, mas perfeitamente inteligível, falando um arcônida sem sotaque.
5



Retransmissora XIV para cargueiro Empress of Arkon:

Todas as xícaras no armário. Todas as xícaras no armário. Desligo.

Cargueiro Empress of Arkon para retransmissora XIV:

Aqui estão. E aí? Desligo.

* * *

Mais tarde Richard Silligan não saberia reconstituir a natureza e a seqüência dos fatos. Quando voltou a raciocinar claramente estava sentado num banco de madeira, e via diante de seus olhos o rosto de uma criatura que poderia ter sido gerada num pesadelo.
Tony tentara erguer o veículo espacial mais uma vez, pouco antes de atingir a superfície da água. Conseguiu em parte. A máquina gemera como se quisesse estourar. O barco descrevera uma curva, subindo mais um pedacinho.
Isso reduziu a velocidade. Mas depois de uma queda de duzentos metros o impacto na água ainda fora muito forte. Por alguns segundos Richard ficou inconsciente. Seu traje espacial fora fechado, conforme mandava o regulamento, motivo por que, mesmo embaixo d’água, nada lhe poderia acontecer. Vagara pela água, a grande profundidade, conforme concluíra pela pouca claridade. Assim que voltou a raciocinar claramente, começou a gritar. Seus companheiros também haviam fechado os trajes espaciais, e, a não ser que por ocasião do impacto algo lhes tivesse acontecido, pelo menos um já deveria estar em condições de ouvi-lo.
Mas antes que Richard recebesse qualquer resposta, subitamente houve um movimento na água. Richard viu uma sombra aproximar-se. De início acreditara que um grande peixe o tivesse localizado. Os monstros vorazes, que povoavam seus mares, tornavam o planeta conhecido e temido. E a idéia de que poderia tratar-se de um lidioque provocara uma reação nada simpática em sua mente.
Acontece que não era nenhum lidioque. Era um barco bem tosco, com uma série de furos no casco, que pareciam ter sido revestidos de vidro grosso. O barco parará a seu lado. Uma escotilha abriu-se no casco, e algumas mãos robustas o arrastaram para dentro. A escotilha voltou a fechar-se e a água foi bombeada para fora do pequeno recinto. Até então Richard não vira nenhum dos homens que o haviam salvo.
Depois de algum tempo, outra escotilha abriu-se atrás dele, e alguém arrastou-o para o interior do barco. Ofegante, Richard se deixara cair sobre um banco de madeira. Havia vários bancos no recinto mal iluminado em que se encontrava. Ficou sentado, aguardando.
A criatura de pele marrom com os olhos salientes e o crânio calvo fitou-o demoradamente, como se quisesse fixar os traços de seu rosto para nunca mais esquecê-los.
É um ghamês”, pensou Richard. “São criaturas amáveis e pacatas, dotadas de uma curiosidade infantil e muito dedicadas aos saltadores. Este último traço é o único antipático”, refletiu, concluindo suas elucubrações mentais.
Olhou em torno. Dois bancos atrás dele estava sentado Tony Laughlin, que já baixara o capacete e arregalava os olhos. Na extremidade do mesmo banco, Lyn Trenton e Dynah Langmuir apoiavam-se na parede. Por enquanto os dois não haviam aberto seus capacetes. Dynah parecia inconsciente. Devia ser por causa do susto.
Subitamente houve um movimento. Os dois bancos começaram a balançar e uma cabeleira branca e desgrenhada apareceu entre os mesmos. Sob a cabeleira surgiu um par de olhos curiosos de camundongo. Finalmente o homem ergueu-se em toda sua altura, pouco imponente, atirando o capacete sobre os ombros, num gesto desleixado.
Maldito concurso! — exclamou Ezequiel Dunlop Rykher.

* * *

Com exceção daquele que já concluíra o estudo do rosto de Richard Silligan, não havia mais nenhum ghamês no recinto. Quando seus olhos se acostumaram à penumbra, Richard viu uma porta na parede que ficava à sua frente. Provavelmente dava para a ponte de comando, onde devia haver outros homens-peixe.
A escassa iluminação do recinto passava pelas lâminas de vidro, e vinha diretamente da água. O barco estava em movimento. Richard notou-o pelo borbulhar da água e sentiu-o face ao forte zumbido, vindo das paredes.
Havia um cheiro de mar e peixe. O ghamês também exalava um cheiro de mar e peixe.
Isso não é de admirar”, pensou Richard. “Não poderia ter outro cheiro.”
Ainda se sentia perturbado; o raciocínio só voltava lentamente. Há alguns instantes ainda estivera numa nave auxiliar que se precipitava em direção à superfície do planeta. E agora estava sentado num banco no interior de um submarino de madeira, que estava sendo pilotado por nativos de pele lisa.
O ghamês acabara de recuar até a parede em que havia a escotilha e, com um sorriso no rosto, contemplava os cinco terranos. Richard virou a cabeça.
Como vai, Tony? — perguntou.

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