Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Os
cães-de-fila da Terra estão numa pista
quente —
Quem destruiu a Carolina?
Uma
nova época raiou para a Humanidade. Cinqüenta e sete anos são
passados, desde a morte de Crest. Na Terra, registra-se o ano 2.102.
Muita
coisa aconteceu neste meio tempo. O arcônida Atlan conseguiu, com o
auxílio dos terranos, firmar-se em sua posição de imperador. A
aliança entre Árcon e o Império Solar trouxe seus frutos —
especialmente para os terranos, muitos dos quais ocupam cargos e
posições importantes em Árcon. Atlan tem de tolerar tal situação,
já que não pode confiar na maior parte de seus compatriotas.
O
Império Solar é agora a mais importante potência comercial da Via
Láctea. Há 22 anos, um verdadeiro fluxo de emigrantes dirige-se aos
mundos que podem ser colonizados. Além disso, o Império Solar
mantém embaixadas e entrepostos comerciais em muitos planetas
habitados.
É
evidente que, muitas vezes, surgem incidentes perigosos nas amplidões
do espaço... Mas qualquer um que atente contra os terranos, terá de
haver-se com a Divisão III!
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Nike
Quinto
— Chefe
do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, criado por Perry
Rhodan.
Ron
Landry
— Capitão
da
divisão de Nike Quinto.
Larry
Randall
— Um
tenente terrano, num posto solitário.
Alboolal
— Chefe
do clã dos saltadores no planeta Ghama.
Richard
Silligan,
Lyn
Trenton,
Dynah
Langmuir,
Tony
Laughlin
e E.
D. Rykher
— Sobreviventes
da Carolina.
1
Estação
retransmissora XIV ao cargueiro Carolina:
Nave
aproxima-se da área de influência dos saltadores. Cuidado.
Desligamos.
Nave
cargueira Carolina à estação retransmissora XIV:
Obrigado
pelo aviso. Teremos cuidado. Tudo bem a bordo. Desligo.
*
* *
Não há
nada mais desagradável para um comandante do que ver aparecer, de
repente, outra nave junto ao veículo por ele comandado. E muito mais
desagradável torna-se a situação quando a espaçonave aproxima-se
demais, pois o comandante não tem certeza se conseguirá ou não
desviar-se em tempo.
Não há
nada mais assustador para um comandante do que ver registrado nos
seus instrumentos uma elevada atividade energética a bordo da outra
nave. Geralmente essa atividade só pode significar uma coisa: os
canhões estão sendo preparados para disparar.
Não há
nada que faça o comandante de uma nave cargueira sentir-se mais
perplexo do que a súbita luminosidade de seus campos defensivos,
pois significa que a outra nave abriu fogo sem aviso.
E tudo
isso aconteceu com o comandante Odie Rhyan, depois que sua nave, que
se dirigia da Terra para Árcon, havia realizado três transições,
que a fizeram percorrer aproximadamente metade do caminho. Odie Rhyan
não era nenhum medroso; pelo contrário. Avaliou corretamente a
situação e logo concluiu que não poderia fazer nada, absolutamente
nada, face ao traiçoeiro ataque. Um cargueiro jamais tem condições
de se defender de uma nave de guerra. E o veículo surgido era uma
nave de guerra. Tratava-se de um charuto fino e alongado, com uma
protuberância circular no centro.
Odie Rhyan
continuou no seu lugar e deu o alarma. Isso aconteceu no momento em
que os instrumentos fizeram um clique e seus ponteiros bateram na
extremidade superior das escalas, enquanto a luz se apagava nos
campos defensivos. Odie Rhyan sabia o que isso significava. A próxima
salva atingiria a nave, pois os campos defensivos tinham desmoronado.
Odie Rhyan
transmitiria o pedido de socorro. A mensagem estava codificada. A
única coisa que tinha de fazer era comprimir um botão.
Comprimiu-o
e, de súbito, viu-se envolvido por uma torrente de luzes, na qual
mergulhou imediatamente. Não sentiu dor.
*
* *
Lyn
Trenton poderia ser considerado um dos homens que passavam por uma
espécie de segunda primavera: as têmporas começavam a tornar-se
grisalhas. Ele costumava dizer que a primeira primavera de sua vida
nunca sofrerá qualquer interrupção e que, por isso, seria errado
falar em segunda primavera. Uma vez que sua posição na hierarquia
terrana era tão elevada que os outros mal se atreviam a sonhar com
ela, todos davam a maior atenção à sua constatação e ninguém se
atrevia a aludir ao “perigoso
homem de têmporas grisalhas”.
Naquele
momento, Lyn Trenton estava empenhado em justificar a fama que
desfrutava. Até então, nunca encontrara oportunidade de trocar mais
que algumas palavras indiferentes com Dynah Langmuir. E, em sua
maneira abstrata e precisa de exprimir-se, Lyn Trenton disse que,
naquele momento, encontrara “uma
oportunidade que não poderia perder”.
A nave já
havia percorrido metade do caminho para Árcon. Lyn começou a ter
receio de que perderia a oportunidade, se não fizesse logo uma
ofensiva fulminante.
Atravessou
a passo rápido o pedaço de corredor que separava seu camarote do de
Dynah Langmuir. Pretendia nada menos que bater na porta do camarote
de Dynah e perguntar-lhe se estava disposta a aceitar seu convite
para o jantar.
Lyn
Trenton tinha certeza de que o convite não deixaria de produzir
efeito. Ninguém, nem mesmo uma fascinante mulher como Dynah
Langmuir, recusaria um convite do mais categorizado oficial de
comunicações que serve em Árcon.
Lyn
Trenton viu-se diante da porta de Dynah Langmuir. Naquele momento
começou a ouvir o ruído insuportável da sereia de alarma.
Bastante
contrariado, Lyn virou-se e pôs-se a caminho do hangar de naves
auxiliares, conforme prescrevia o regulamento para o caso de uma
emergência como aquela. Mal começara a afastar-se do camarote de
Dynah Langmuir, quando a porta abriu e ela, espantada, saiu para o
corredor. Lyn notou sua presença ao olhar por cima do ombro.
Virou-se e caminhou em sua direção. De repente teve a impressão de
que o alarma já não representava uma “afronta
pessoal do destino”.
— Pretendia
pedir-lhe mui respeitosamente que me concedesse o prazer de sua
companhia durante o jantar — disse com um sorriso. — Mas do jeito
que estão as coisas tenho a impressão de que teremos de jantar no
hangar, e por lá o ambiente não é muito agradável.
Dynah
sentia-se muito confusa para dar atenção à piada.
— O que
é isso? — perguntou. — O que significa o alarma?
Face ao
medo demonstrado por Dynah, Lyn Trenton resolveu dar mostras de seu
lado paternal.
— Ninguém
sabe, minha filha. O que sei é que o hangar é o lugar mais seguro.
Venha comigo.
Dynah
hesitou. Lyn pegou-a pelo braço e conduziu-a.
Nesse
instante, a nave começou a balançar. Ouviu-se um rugido furioso,
vindo não se sabe de onde. Dynah estremeceu. Lyn Trenton compreendeu
que a situação realmente era séria. Apressou o passo; Dynah já
começara a correr.
*
* *
Richard
Silligan ficou praguejando contra o monótono serviço que tinha de
executar no hangar de naves auxiliares. Não parava de procurar
convencer a si mesmo de que Odie Rhyan não possuía nenhuma
antipatia especial por ele, embora tantas vezes o escolhesse para
montar guarda no hangar. Naturalmente, essa idéia não passava de
tolice, pois não havia ninguém que pudesse pôr em dúvida a
imparcialidade de Odie Rhyan.
Subitamente
soou o alarma e a nave começou a dar saltos que o antígravo não
conseguiu absorver. Richard Silligan abriu as comportas principais
das naves auxiliares.
Os
sargentos e cabos, subordinados a Silligan, enfiaram-se nos trajes
espaciais e ocuparam os assentos de piloto das pequenas naves. Os
propulsores começaram a funcionar. De repente, o hangar encheu-se de
um zumbido que abafou os sons queixosos emitidos pelo exterior da
nave.
Richard
Silligan esperou. As naves auxiliares destinavam-se aos passageiros.
Acontece que não apareceu nenhum passageiro. Richard Silligan
começou a lembrar-se de suas responsabilidades para com os
subordinados. Se os passageiros não viessem, mandaria decolar as
naves auxiliares, a fim de salvar ao menos os soldados que estavam de
guarda. Richard Silligan não tinha a menor dúvida de que a nave
estava no fim. Não sabia qual era a causa, mas sabia o que uma nave
pode suportar e o que não pode.
Richard
estava prestes a saltar para o interior de uma nave auxiliar que
ocupava o último lugar da fila, quando duas escotilhas se abriram
quase ao mesmo tempo. Por uma delas entrou um casal, e pela outra, um
homem.
Por um
instante, Richard Silligan perdeu o autocontrole.
— Andem
depressa, seus idiotas! — gritou para os passageiros, que haviam
pago vinte e dois mil solares para a viagem da Terra a Árcon.
*
* *
A nave
arrebentou em meio a um fogo de artifício de erupções coloridas,
que, por algum tempo, encheram a escuridão do espaço com uma
claridade jamais vista.
O atacante
desapareceu. De repente, o lugar onde poucos segundos antes a nave
alongada com a protuberância circular acompanhara a rota do
cargueiro terrano, ficou vazio.
Uma nuvem
de gases incandescentes espalhou-se pelo espaço. No meio dos gases
havia minúsculos destroços, que continuaram a emitir sua
luminosidade por mais algum tempo. Na periferia do caos, um pequeno
objeto afastou-se apressadamente. Ninguém saberia dizer se era um
fragmento ou uma nave.
Mas, por
outro lado, ninguém estaria disposto a acreditar que uma única
pessoa tivesse sobrevivido à destruição da Carolina.
2
Carolina
chamando estação retransmissora XIV:
CQDEA
Socorro! Perigo à vista! Ataque inimigo!
Estação
retransmissora XIV chamando Carolina:
Agüentem!
Socorro a caminho. Transmitam raio vetor! Desligo.
Carolina
chamando estação retransmissora XIV:
— — — — — — — — — — — —
— —
*
* *
“Ora
esta”,
pensou Ron Landry. “Já
conheci chefes mais simpáticos que este!”
O “este”
era um homem baixo e gordo, de rosto vermelho, suarento e
rechonchudo. “Este”
tinha cabelos louros muito lisos, penteados para trás, e um par de
lábios grossos, sempre úmidos. Dava a impressão de que seu
desenvolvimento físico parará na idade de vinte e cinco anos,
embora devesse ter ao menos o dobro desta idade.
Ron Landry
não gostava dele, desde o momento em que o vira pela primeira vez.
E, quando
esse gorduchinho abria a boca, as coisas ficavam bem piores. Sua voz
parecia ser a de um guarda de harém egípcio: era alta e estridente.
Porém o
que chocava Ron Landry quase tanto quanto a voz era o fato de que nos
ombros desse homem deveriam aparecer as insígnias de coronel. E Ron
apenas atingira o posto de capitão. Face à natureza de sua
profissão, ambos estavam à paisana, mas nunca se esqueciam da
diferença de graduação.
Aquele
homem antipático era Nike Quinto, chefe do Fundo Social Intercósmico
de Desenvolvimento.
— Não
me maltrate, homem! — gritou para Ron Landry em voz estridente. —
Como é que o senhor conseguiu chegar a capitão se é tão idiota? O
que acontecerá com minha pressão sangüínea se todos os meus
subordinados forem como o senhor?
“Não
estou interessado nem um pouco na sua pressão sangüínea”,
pensou Ron muito zangado.
Era de
opinião que nem mesmo um superior tinha o direito de chamá-lo de
idiota.
— Eu lhe
ficarei muito grato — disse, então, em tom enérgico — se o
senhor quiser especificar a missão. Acho que nem mesmo um gênio
sabe o que fazer com as três ou quatro palavras que o senhor me
disse.
Nike
Quinto fitou-o com uma expressão de perplexidade.
— O quê?
— gritou. — Além de tudo o senhor ainda me vem com uma fala
insolente?
Ron Landry
estava prestes a estourar, mas sem saber o porquê, não conseguia
levar a cena muito a sério. Continuou calado, esperando que Nike
Quinto continuasse a falar.
— Que
diabo! — vociferou Quinto. — Será que é tão difícil
compreender que o senhor deve pegar uma nave e ir a um ponto,
perfeitamente definido, do espaço interestelar?
— De
forma alguma — respondeu Ron, esforçando-se para reprimir um
sorriso. — Apenas gostaria de saber por que devo ir para lá.
— Por
quê? — Quinto estava fora de si. — Desde quando um soldado tem
que perguntar por que está recebendo uma ordem? Vá até lá, olhe o
que há para olhar e apresente um relatório detalhado. Mas não se
esqueça de que a coisa é urgente. Se eu tiver de esperar até
sofrer um infarto, o relatório já não me valerá de nada.
Ron fez um
gesto de assentimento.
— Sim
senhor.
Nike
Quinto fitou-o com os olhos de sapo.
— E só
— disse em tom áspero. — Pode retirar-se.
Ron fez
continência, embora achasse esquisito fazer continência à paisana,
virou-se e caminhou em direção à porta.
— Não é
para lá — gritou Nike Quinto atrás dele. — Caramba! Para onde
pensa que vai?
Ron
virou-se. Parecia perplexo.
— Vou
procurar uma nave, sir — respondeu.
Nike
Quinto parecia desolado. Colocou a mão sobre o peito, mais ou menos
no lugar em que devia ficar o coração.
— O
senhor me dá um trabalho terrível, Landry — disse com um suspiro.
— Aposto que minha pressão já está em duzentos e vinte; e olhe
que não deveria passar de cento e sessenta.
De repente
voltou a descontrolar-se.
— O
senhor acredita mesmo que pode sair sem mais explicações? —
gritou. — O que faria se eu não o informasse sobre o que deve
fazer e o que está acontecendo por lá? Ron esteve a ponto de dizer
que já lhe fizera a mesma pergunta, mas Nike Quinto não permitiu
que falasse.
— Entre
ali! — disse, apontando para uma porta. — Sente na cadeira que
está lá dentro e relaxe. Quando tiver terminado saia e venha
dizer-me o que acha daquilo. Entendido?
— Entendido,
sir — respondeu Ron, um tanto perplexo.
Dirigiu-se
à porta e abriu-a. Percebeu imediatamente de que tipo era a sala na
qual Nike queria que entrasse. A poltrona ultraconfortável, a cor
verde-amarelada das paredes e a luz cinzenta, entremeada de violeta,
a falta absoluta de outros móveis — tudo aquilo só poderia
significar uma coisa: o aprendizado hipnótico.
De
repente, Ron Landry passou a ter uma idéia diferente da sua missão.
Se eles se davam a tamanho trabalho, devia haver atrás daquilo muito
mais do que acreditara.
A porta
fechou-se atrás dele. Acomodou-se na poltrona, conforme Nike Quinto
lhe ordenara, e estendeu as pernas. Fechou os olhos e esforçou-se
para não pensar em nada.
Começou a
sentir-se sonolento.
*
* *
Dali a
algumas horas, já sabia do que se tratava.
Modificou
sua opinião a respeito de Nike Quinto, o homem baixo e gordo, de
pressão sangüínea elevada, cujo rosto vermelho sempre parecia
suarento.
Um
cargueiro espacial desaparecera. Conforme a última mensagem do
comandante — um pedido de socorro — a nave fora atacada por um
veículo espacial inimigo. Ninguém sabia quem era o inimigo, nem por
que resolvera atacar o cargueiro terrano. Antes que alguém tivesse
feito uma verificação in loco, seria inútil formular suposições.
Era nisso
que consistia a missão de Ron Landry. E essa missão não era nada
fácil, embora à primeira vista se pudesse pensar que fosse. O
inimigo devia saber que os terranos não se conformariam com a perda
de uma nave cargueira. Deveria supor que uma expedição seria
enviada, a fim de procurar os destroços e tirar certas conclusões.
Se não surgisse nenhum fator adverso, os destroços permitiriam
averiguar praticamente tudo aquilo que interessava à expedição e
às autoridades terranas.
Nike
Quinto pensara nisso. As unidades da Frota Terrana, que se
encontravam na área em que ocorrera o fato, haviam sido colocadas em
estado de prontidão. Ron Landry poderia contar com uma poderosa
frota de guerra nas suas costas, quando estivesse inspecionando os
destroços do cargueiro. E Nike Quinto ainda se lembrara de outras
coisas. A nave que seria entregue a Ron Landry era um cruzador
pesado; tratava-se de uma unidade capaz de enfrentar qualquer outra,
desde que o inimigo não fosse muito numeroso. Ron Landry fora
autorizado a perseguir o atacante desconhecido, assim que conseguisse
descobrir sua pista. E o capitão e sua nave poderiam continuar a
contar com a proteção da Frota Terrana.
Ron Landry
confessou que não teria sido capaz de fazer os preparativos com
tamanha eficiência. Não teria notado uma porção de coisas que
haviam despertado a atenção de Nike Quinto. Ao despedir-se do
coronel, fez o possível para que aquele homem baixo e suarento
percebesse o quanto ele o estimava.
Ao que
parecia, Nike Quinto não se sentia tocado por isso. Gritou atrás de
Ron:
— O
diabo que o carregue, se o senhor não resolver tudo
satisfatoriamente!
*
* *
Era só o
que sobrara da Carolina: uma nuvem de gases frios que se deslocava
pelo espaço à velocidade que a nave mantinha no momento da
catástrofe e que se espalhava continuamente em conformidade com as
leis da Termodinâmica.
No momento
em que a Royal Irish atingiu a nuvem, sua densidade devia ser de
alguns trilionésimos de grama por centímetro cúbico. Isso
significava que a matéria gaseificada da nave enchia uma esfera de
mil quilômetros de diâmetro. Face à sua rarefação, essa matéria
era quase imperceptível à ótica normal, pois a mesma praticamente
não se destacava contra o fundo negro do espaço, com os inúmeros
pontos luminosos formados pelas estrelas.
Mas, para
os analistas, a densidade da nuvem de gases ainda era mais que
suficiente. Mediram o espetro de absorção com base na luz das
estrelas, e dessa forma certificaram-se de que a nuvem realmente
representava os restos da Carolina. O espetro mostrou as linhas
conhecidas dos metais de que são feitos os cascos das naves e as
paredes internas de sustentação. O espetro ainda apresentava as
linhas dos hidrocarbonatos, das peças de plástico de que era feita
boa parte das instalações internas da nave e das substâncias de
corpos humanos, que já estiveram impregnadas de vida, quando a bordo
da Carolina.
Não havia
a menor dúvida de que o cargueiro Carolina fora destruído com tudo
que se encontrava a bordo.
E os
analistas ainda descobriram outras coisas. Os grupos moleculares dos
remanescentes das diversas substâncias foram examinados. A forma de
sua cisão revelou a natureza da arma utilizada contra a Carolina. Os
fragmentos moleculares foram analiticamente classificados, e o volume
da energia dissociativa necessária para transformar as moléculas
originárias nesses fragmentos foi apurado por via estatística.
Obtiveram um número representativo da energia por molécula.
Conhecido
o número de moléculas, tornou-se fácil calcular o volume da
energia total derramada sobre a Carolina. E esse volume, por sua vez,
permitia tirar conclusões sobre o tipo da arma utilizada.
Cada arma
tem um desempenho específico e, uma vez que a luta — se é que
houve luta — só poderia ter durado alguns minutos, já que de
outra forma Odie Rhyan teria sido capaz de transmitir outras
mensagens, além do pedido de socorro codificado, seria possível
calcular o desempenho total dos armamentos com base no volume
energético total despejado sobre a nave.
Chegou-se,
então, a este resultado: a Carolina foi destruída por disparos de
armas térmicas. O total da energia utilizada correspondia a quinze
vezes o volume necessário para neutralizar os campos defensivos da
nave cargueira. Por ocasião do último impacto, a Carolina se
desfizera que nem uma bomba detonada.
Cabia a
Ron Landry apurar, com base no armamento utilizado, a identidade do
inimigo desconhecido, que atacara o indefeso cargueiro nessa rota
relativamente bastante freqüentada.
Seria uma
tarefa difícil, se Ron Landry dependesse exclusivamente dos
resultados das análises que acabavam de ser realizadas. Qualquer
nave da Galáxia poderia estar equipada com um canhão térmico. Era
bem verdade que uma peça do tamanho da utilizada no ataque custaria
um bom dinheiro, mas existia na Via Láctea muita gente de posses.
Qualquer uma dessas pessoas poderia ter comprado um canhão desse
tipo, instalando-o numa espaçonave, e depois atacado a Carolina.
Via-se que a arma, por si só, não esclarecia nada.
Mas havia
outro detalhe.
Há cento
e vinte anos a Terra começara a fazer parte do concerto galáctico
das grandes potências. De início tocara seu instrumento bem
baixinho, enquanto os outros, como os tópsidas, os ferrônios e
principalmente o Império Arcônida com seus associados batiam
fortemente o tambor e tocavam suas trombetas para que todos os
ouvissem.
Naquele
tempo, a raça dos saltadores, que era uma ramificação da raça
arcônida, detinha uma espécie de monopólio comercial. Segundo
afirmavam os saltadores, todo o comércio interestelar teria de
passar por suas mãos. Qualquer mundo isoladamente não poderia
negociar sem a intervenção dos saltadores, a não ser com os mundos
vizinhos, situados no mesmo sistema. Para qualquer projeto mais
extenso, tornava-se necessário o consentimento dos saltadores. E não
era só. Eram estes que cuidavam do projeto e pagavam apenas uma
parte insignificante do lucro aos povos que realmente faziam os
negócios.
As
exigências dos saltadores costumavam ser aceitas. Já que eles
tinham o poder. Isso ao menos até que a Terra passasse a usar outro
instrumento e começasse a tocar mais alto. Os terranos obstinavam-se
em não reconhecer, a priori, as exigências de ninguém, por mais
justas ou injustas que fossem. Negociavam por sua conta e logo se
pegaram com os saltadores. O resultado da luta representou um exemplo
flagrante de como, muitas vezes, a teimosia apresenta certas
vantagens sobre os procedimentos convencionais. A Terra ainda
continuava a fazer negócios — e negócios de vulto — e, face à
aliança muito eficaz entre a Terra e Árcon, os saltadores não
tiveram outra alternativa senão ranger os dentes e ir abandonando
seus domínios.
É bem
verdade que a retirada não foi tão simples assim. Os saltadores
começaram a defender-se de uma maneira que correspondia às suas
características e ao seu estilo de vida. Ficavam à espreita e,
sempre que topavam com uma nave terrana que lhes parecia inferior às
suas, eles a atacavam e destruíam. Dessa forma, suas ações
prendiam-se exclusivamente às naves cargueiras, ou seja, aos
veículos espaciais empregados no comércio terrano.
É bem
verdade que algumas vezes os saltadores levaram a pior. Os terranos
eram cheios de idéias. Mais de um comandante dos saltadores, que
esperava com sua nave nas profundezas do espaço até que lhe
aparecesse a primeira vítima, quebrara o costado num cruzador que
acreditara ser um cargueiro. Os saltadores não estavam em condições
de enfrentar os cruzadores terranos. Geralmente a batalha, que não
conhecia perdão, terminava com um vencedor que se afastava às
pressas e uma nuvem de gases que ficava para trás. E, se o veículo
espacial terrano era uma nave de guerra, quase sempre a nave do
saltador assumia o papel da nuvem de gases.
Era uma
impiedosa guerra de guerrilhas que se travava nas amplidões do
espaço, longe das estradas regulares da política interestelar.
Tornava-se difícil pôr as mãos nos saltadores. Pois os mesmos
viviam em suas naves.
A Terra já
se preparara para travar essa luta por mais alguns séculos. As naves
de guerra, que, como estações retransmissoras, permaneciam mais ou
menos imóveis no espaço, ali ficavam em boa parte por causa do
perigo representado pelos saltadores.
Mas nem
mesmo elas conseguiram evitar a destruição da Carolina.
O espírito
de Ron Landry revoltava-se contra a idéia de dar por encerrada sua
missão e apresentar-se a Nike Quinto com as seguintes palavras: “Foi
mais um ataque dos saltadores. Não descobrimos qualquer pista.”
Era quase
certo que Nike Quinto esperava que ele agisse de forma diferente. Ron
Landry viu nos instrumentos a nuvem em expansão, que já fora a
Carolina. Em virtude do ensinamento hipnótico de várias horas, que
lhe fora ministrado na sala situada atrás do gabinete de Nike
Quinto, conhecia os dados relativos à nave. Era uma daquelas naves
esféricas de cem metros de diâmetro, trezentas mil toneladas de
massa, mecanismo propulsor de transição, que desempenhava as
funções de cargueiro e de nave de passageiros. Naquela viagem
levava vinte e cinco passageiros, entre eles Lyn Trenton,
superintendente da delegação terrana em Árcon, que voltava ao seu
posto depois de um período de férias. Armamento, praticamente
nenhum.
E uma nave
daquele tipo fora atacada traiçoeiramente pelos saltadores, que a
destruíram sem que isso lhes pesasse na consciência!
“Não
podemos permitir que escapem de mais esta”,
pensou Ron Landry. “Precisamos
fazê-los pagar por isso.”
Acontece
que o desejo não bastava. Ron Landry fez mais do que qualquer outro
comandante teria feito em seu lugar. Mandou examinar a área, à
procura de remanescentes de material propulsor. Se os saltadores
tivessem deslocado sua nave por meio do mecanismo propulsor de
partículas, por um quilômetro que fosse, deveria ser possível
encontrar uma pista que indicasse ao menos a direção de que tinham
vindo ou na qual haviam desaparecido.
Acontece
que não encontraram nada. Os saltadores haviam-se desmanchado no
nada.
*
* *
Ron Landry
só dispusera de algumas horas para escolher seus tripulantes. Não
conhecia o homem que se encontrava à sua frente. Só sabia que seu
nome era Marty Nolan, e que desempenhava as funções de analista.
— Acredito
que o senhor terá suas dúvidas — disse Marty Nolan um tanto
embaraçado. — Quanto a mim, tenho uma certeza razoável.
Com um
gesto, Ron convidou-o a sentar.
— Marty
— começou — quero dizer-lhe duas coisas. Primeiro, chame-me de
Ron; tenho certeza de que isso em nada afetará o respeito que o
senhor sente por mim. Em segundo lugar, diga logo do que se trata. Do
contrário não poderei confirmar nem desmentir seus receios.
Marty
parecia sentir-se grato pelos modos pouco convencionais de Ron
Landry. Ficou um tanto mais descontraído. Era um homem baixo, magro,
olhos grandes e inteligentes, e uma vasta cabeleira escura. Seu olhar
levava à conclusão de que sofria complexos de inferioridade.
— Medi a
nuvem, sir... Ron — principiou. — Estou ensaiando um novo método.
Se conseguirmos determinar precisamente a densidade da nuvem e se
conhecermos seu volume, poderemos calcular sua massa, não é?
Um sorriso
ligeiro surgiu nos lábios de Ron Landry.
— Compreendo
— disse em resposta ao olhar indagador de Marty.
— Muito
bem. Suponhamos que eu conheça a densidade, sem a menor margem de
erro, e o volume da massa gasosa, com uma precisão de mais ou menos
cinco por cento. Nesse caso, poderei calcular também a massa do
artefato, com uma precisão de mais ou menos cinco por cento.
Mais uma
vez lançou um olhar indagador para Ron Landry.
— É
verdade — confirmou Ron.
— Pois
bem — prosseguiu Marty Nolan. — Já fiz estes cálculos. O
resultado é o seguinte: a massa da nuvem gasosa é de duzentas e
setenta e oito mil toneladas.
Ron Landry
aguçou o ouvido.
— A
massa nominal da Carolina é de duzentas e noventa e oito mil
toneladas — disse.
Desta vez
Marty confirmou com a cabeça.
— Perfeitamente.
E, como já disse, meu cálculo tem uma precisão de mais ou menos
cinco por cento. Com isso, o limite superior seria de duzentas e
noventa e duas mil toneladas, não de duzentas e noventa e oito mil
toneladas.
Ron
levantou-se.
— Tem
certeza de que o erro não pode ser superior a cinco por cento? —
perguntou em tom insistente.
— Certeza
absoluta, sir... Perdão, Ron. Na verdade, a margem de erro é menor.
Chega a uns três vírgula oito por cento. Apenas quis ter certeza
absoluta.
Ron
virou-se nos calcanhares, com uma rapidez tamanha que Marty se
sobressaltou, e perguntou:
— O que
é que o senhor conclui daí?
Marty
levantou as mãos, como se quisesse oferecer alguma coisa a Ron.
— Concluo
que uma das naves auxiliares conseguiu escapar, Ron. A diferença de
massa corresponde quase exatamente à mesma. Uma nave auxiliar pesa
entre dezoito e vinte e duas mil toneladas. A Carolina trazia três
veículos desse tipo a bordo.
Ron Landry
mordeu o lábio.
— O
senhor tem certeza, Marty? — perguntou. — Quero que me compreenda
perfeitamente. Não duvido das suas boas intenções, nem da sua
capacidade. Mas gostaria que, antes de expedirmos uma mensagem a este
respeito, consultasse mais uma vez a consciência. Seus cálculos e
medições são corretos?
Marty
respondeu sem a menor hesitação:
— O
risco que assumo ao acreditar na exatidão das minhas medições não
é maior que o que assumo ao acreditar que duas vezes dois são
quatro.
— O
senhor se exprimiu em palavras muito bonitas — falou Ron, em tom
irônico.
Subitamente
seu rosto assumiu uma expressão séria. Deu alguns passos, voltou a
ficar parado e disse em tom pensativo:
— Quer
dizer que uma das naves auxiliares escapou à catástrofe!
3
Cruzador
Royal Irish para retransmissora XIV:
Notaram
qualquer indício de que, depois da explosão, um veículo dirigido
tenha abandonado o local? Desligo.
Retransmissora
XIV para cruzador Royal Irish:
Não
notamos qualquer indício. Por quê? Têm alguma esperança? Desligo.
Cruzador
Royal Irish para retransmissora XIV:
Temos.
Desligo.
*
* *
Não se
sabia como, mas o fato é que haviam escapado. Por algum motivo o
fogo de artifício chamejante, quente, crepitante, não os atingira,
mas apenas à nave, que deixaram para trás com uma velocidade
tremenda. De alguma forma, precipitaram-se pela escotilha da comporta
no momento exato em que esta ameaçava desmanchar-se e ficar
aprisionada no inferno em que a Carolina se dissolveu.
Sua
inteligência fora incapaz de, naqueles momentos de pavor, assimilar
os acontecimentos corretamente e na seqüência certa. Quando se
perguntavam sobre o que realmente acontecera, sua memória falhava.
O fato é
que haviam escapado. A bola incandescente que já fora a Carolina
ficara bem para trás. Estavam em segurança, e era o que realmente
importava, segundo achava Lyn Trenton.
A maneira
pela qual o barco escapara à catástrofe no último instante
representara uma pesada carga para os nervos de Richard Silligan. Por
algum tempo, ele deixara o veículo prosseguir em linha reta pelo
espaço afora. Finalmente lembrou-se dos seus deveres e certificou-se
de que ao menos a bordo de seu barco tudo estava em ordem. Aliás,
nem tudo.
Os
aparelhos necessários à sobrevivência imediata funcionavam
perfeitamente, como, por exemplo, o equipamento de renovação e de
condicionamento de ar. E havia provisões para uma viagem espacial de
vários meses. No entanto, as gigantescas descargas eletromagnéticas
haviam afetado os dois transmissores de bordo a tal ponto que estes
não poderiam ser reparados com os recursos existentes a bordo.
O barco
estava isolado do mundo exterior. Richard Silligan procurou localizar
até outras duas naves que, juntamente com a sua, se haviam preparado
para decolar no hangar da Carolina. Não descobriu o menor sinal das
mesmas. Deviam ter voado em outra direção, ou então não
conseguiram sair em tempo da nave que explodira.
A próxima
tarefa de Richard consistiria em determinar o destino do barco. Antes
disso, queria ouvir a opinião dos três passageiros e do cabo que
pilotara o barco nos primeiros momentos do vôo.
A sala de
comando também servia de cabina de passageiros. Três fileiras, com
seis confortáveis poltronas, estavam dispostas em torno da poltrona
do piloto. A maior das quatro telas de imagem estava colocada à
frente do lugar do piloto.
Richard
Silligan virou-se. Naturalmente conhecia Lyn Trenton, o funcionário
mais graduado da representação terrana em Árcon. Também já vira
Dynah Langmuir, que lhe despertara a atenção. Mas não tinha a
menor lembrança do terceiro passageiro. Era um velhinho baixo, que
parecia não se sentir muito à vontade no seu terno distinto, que,
segundo tudo indicava, era novo. Parecia que o homem não fora feito
para aquela espécie de roupa e ansiava por trajar logo um pulôver e
uma calça de linho azul.
— Devemos
fixar nosso destino, senhores — principiou Richard Silligan, sem
qualquer intróito. — Alguém tem uma sugestão? Também estou me
referindo ao senhor, cabo Laughlin.
A primeira
reação às palavras de Silligan consistiu num sorriso irônico,
condescendente e arrogante de Lyn Trenton. Richard teve vontade de
levantar-se e dar-lhe uma bofetada. Mas forçou-se a ficar quieto,
permanecendo com o rosto imóvel.
— Será
que o senhor não está pedindo demais de nós, capitão? —
perguntou Lyn Trenton, com a voz tranqüila. — Afinal, não sabemos
como é o setor do espaço em que nos encontramos, não conhecemos as
possibilidades e ignoramos o poder de vôo desta nave.
Estava
acostumado a agir assim. Conferia um título demasiadamente alto a
outra pessoa para deleitar-se ao ver que esta, contra a vontade,
tinha de confessar que ainda não chegara a tanto.
— Em
primeiro lugar — respondeu Richard Silligan prontamente, num tom
cuja hostilidade não poderia deixar de ser notada — sou apenas um
tenente. Em segundo lugar, sempre é possível que alguém aqui
presente conheça as coisas melhor que o senhor, não acha?
Sentia-se
satisfeito por ter dito isso. Fora um bom contra-ataque, e o fato de
se ter defendido dava-lhe certo prazer, embora Lyn Trenton não
mostrasse a menor reação. O olhar de Richard dirigiu-se para Dynah
Langmuir, dando a entender que esperava ouvir alguma coisa da jovem.
Ela obrigou-se a exibir um sorriso, balançou a cabeça e disse:
— Sinto
muito, tenente. Estou tão mal informada como Mr. Trenton.
Trenton
virou a cabeça e cumprimentou-a com um gesto amável.
“Estão
agindo de comum acordo”,
pensou Richard e sentiu-se contrariado.
— Muito
bem — resmungou. — Quem sabe...
O
homenzinho do terno elegante e pouco confortável entendeu a
indireta.
— Meu
nome é Ezequiel Dunlop Rykher — disse numa ridícula voz berrante.
— Sou de Lapine, Oregon — acrescentou. — Ganhei este vôo num
concurso. Se dependesse de mim, nunca teria participado daquela
maldita competição. Mas o senhor sabe como são as coisas. Sempre
há alguém que força a gente — fitou Richard. — Quanto à sua
pergunta, tenente... Acho que estamos nas proximidades do sistema de
Toghma, não é? Na minha opinião não deveríamos assumir maiores
riscos. Agiríamos com prudência se fôssemos para lá. Não acha?
Richard
sentiu-se perplexo, e a mesma coisa acontecia com as demais pessoas
no recinto. Inclusive Trenton.
Quem teria
esperado que Ezequiel Dunlop Rykher, um homem de Lapine, Oregon,
soubesse exatamente em que lugar se encontrava durante a viagem da
Terra para Árcon?
— O
senhor está muito bem informado, Mr. Rykher — respondeu Richard,
depois de se ter recuperado da surpresa. — Estamos...
Rykher
interrompeu-o.
— Chame-me
de Ez; é o que todo mundo faz — disse. — E o senhor é Dick, não
é? Dick Silligan.
Richard
fez um gesto afirmativo.
— Muito
bem, Ez. O senhor está muito bem informado. Daqui para Toghma são
cerca de mil e cem unidades astronômicas, o que corresponde
aproximadamente a seis e meio dias-luz. O sistema tem quatro
planetas. O planeta número dois é habitado. Seu nome é Ghama.
Ghama é um mundo aquático, onde vivem inteligências nativas, mas
primitivas. No planeta há uma representação terrana do Fundo
Social Intercósmico de Desenvolvimento. Além disso, existe uma
grande base comercial dos saltadores. É só o que sabemos sobre
Toghma e Ghama.
Ez Rykher
ergueu as sobrancelhas.
— Saltadores?
— repetiu em tom hesitante. — Neste caso, talvez seja preferível
procurarmos outro lugar. Pelo que sei da política terrana, concluí
que nossa base é muito pequena, e pouco poderá fazer para evitar
que os saltadores nos agarrem.
De
repente, Lyn Trenton soltou uma estrondosa gargalhada.
— Formidável!
— exclamou. — Se os saltadores nos agarrarem... Por que haveriam
de fazer uma coisa dessas, que só lhes pode trazer dificuldades
diplomáticas? Ora, meu caro, não ponha miss Langmuir nervosa com
essas suas histórias de raptos.
Passou a
mão pelo braço de Dynah, num gesto tranqüilizador. Richard ficou
irritado ao notar que ela não se importou com tal atitude.
Ez Rykher
continuava tranqüilo.
— Acho
que o senhor não sabe mesmo de nada — disse num tom indiferente,
como quem tece comentários sobre o tempo. — Todos sabem que os
saltadores costumam atacar e destruir nossos cargueiros. E, se fazem
uma coisa dessas, não vejo por que deixariam de apoderar-se de cinco
terranos indefesos.
Voltou-se
para Richard Silligan, fazendo de conta que não valia a pena perder
mais tempo com Lyn Trenton.
— Qual é
a distância até o lugar aproveitável mais próximo?
Richard
não teve necessidade de refletir.
— Desgraça
— respondeu. — São sete anos-luz daqui.
Ez Rykher
refletiu intensamente.
— Este
barco só dispõe de um propulsor que não nos permite atingir mais
de noventa e nove vírgula sei lá quantos por cento da velocidade da
luz.
Parecia
que falava para si mesmo.
— Katherine
não agüentará tanto tempo. Sou de opinião que apesar de tudo
devemos ir para Ghama.
Richard
fez um gesto de assentimento.
— Cabo
Laughlin? — perguntou.
— De
acordo, sir.
Richard
girou a poltrona e inclinou-se sobre o painel de controle. Esperava
que Lyn Trenton protestasse contra a decisão a respeito da qual não
fora consultado. Já tinha a resposta na ponta da língua. Mas Lyn
Trenton era mais inteligente do que ele supusera. Não protestou,
evitando assim a vergonha de uma recriminação.
— Laughlin,
siga a rota de Ghama! — ordenou Richard.
*
* *
A esfera
azul formada por Ghama brilhava na grande tela. Reconheciam-se
perfeitamente as superfícies cintilantes dos gigantescos mares e os
pontos escuros que representavam as pequenas ilhas. Era uma visão
bela e estranha, mas a única pessoa que realmente se deleitou foi Ez
Rykher.
— Desse
jeito — disse — realmente me oferecem algo em troca desse
concurso idiota. Acho que Árcon seria bastante monótono. Aqui as
coisas serão diferentes.
O barco
percorrera a distância de mil e cem unidades astronômicas em pouco
menos de trinta horas, tempo de bordo. O propulsor funcionara
perfeitamente, e a distorção relativista do tempo, verificada
durante o vôo a alta velocidade, fizera com que para os ocupantes do
barco o tempo não parecesse tão longo como para um observador
estranho, que se encontrasse em posição imóvel.
Assim que
o sistema de Toghma surgiu na tela, Richard Silligan confiou a
pilotagem da nave exclusivamente ao cabo
Laughlin e
passou a ocupar-se com os receptores de bordo, esforçando-se para
fazer com que ao menos um deles voltasse a funcionar. Conforme já
fora ressaltado por Ez Rykher, o pouso em Ghama envolvia riscos
consideráveis. Os saltadores costumavam ficar de olho em tudo, e os
nativos dependiam deles, motivo por que teriam de submeter-se às
suas ordens. Richard não fazia a menor idéia de qual das inúmeras
ilhas abrigava o estabelecimento terrano. Esperava conseguir reparar
o receptor, a fim de acompanhar o tráfego de mensagens de rádio que
se desenvolvia acima de Ghama.
Mas essa
esperança revelou-se ilusória. Os aparelhos estavam tão avariados
que não havia como repará-los.
Lyn
Trenton acompanhara os esforços de Richard com a maior atenção.
Quando Richard finalmente confessou seu fracasso, disse:
— O
senhor não é culpado, tenente. Na Terra deveriam ensinar mais
Eletrônica aos oficiais.
— Não
diga tolices! — retrucou Richard. — Nem mesmo um chefe de
Eletrônica seria capaz de reparar este receptor.
A voz
entrecortada de Ez Rykher fez-se ouvir nos fundos:
— Deve
haver gente que consegue repará-lo com a boca, Dick!
Lyn
Trenton olhou para trás. Era a primeira vez, desde o momento em que
Richard começara a observá-lo, que parecia irritado. Richard
sentiu-se satisfeito com isso, muito embora, se quisesse ser
objetivo, teria de confessar que, naquele ambiente estranho, povoado
de saltadores e cheio de perigo, a vida não seria nada agradável
para os cinco náufragos, se estes só procurassem ofender-se
mutuamente.
Dynah
Langmuir permanecera em silêncio durante todo o tempo de vôo. Lyn
procurara envolvê-la numa conversa, mas as respostas de Dynah eram
tão lacônicas que acabou desistindo. Reclinou a poltrona e dormiu
um pouco. Dynah, Ez e, evidentemente, os dois tripulantes,
continuaram acordados.
Nas horas
em que não havia nada para fazer, Ez Rykher conversava demoradamente
com Richard. Contava-lhe a respeito da fazenda que possuía em
Lapine, de sua esposa Katherine e de seus dois filhos, um dos quais
freqüentava a Academia Espacial de Terrânia. Richard ouvia-o
atentamente. Ez contava as coisas com tamanho realismo que o ouvinte
esquecia o ambiente em que se encontrava. Richard chegou a sentir
cheiro das bétulas de Oregon, o perfume dos prados, ouvir o mugido
das vacas e o zumbido das abelhas. Depois de algum tempo já não
sabia o que estava fazendo num lugar como aquele, situado a dezoito
mil anos-luz da Terra e no caminho de Toghma.
Ez Rykher
era um homem estranho. Entendia bastante de madeira, capim, galinhas,
vacas, leite e outras coisas semelhantes — conforme se podia
esperar — e não entendia menos de Galatologia, Astronáutica e
Matemática — isto, não se podia esperar. Discutiu a respeito de
uma série de problemas nos quais Richard deveria possuir certa
superioridade sobre ele, mas não possuía. Rykher não o deixou
perceber. Tinha uma maneira gentil e conciliadora de fazer com que
alguém reconhecesse que se enganara num ou noutro ponto, e que, na
verdade, as coisas não eram tão fáceis como supunha. Ez Rykher foi
um dos contatos mais estranhos e agradáveis que Richard fizera em
sua vida.
Naquele
momento dirigiu-se para a frente, a fim de acompanhar a manobra de
pouso que estava sendo realizada por Tony Laughlin. O cabo fez com
que o veículo penetrasse em ângulo aberto nas camadas superiores da
atmosfera, a fim de economizar combustível. Sua intenção era obter
redução da velocidade por atrito, em vez de realizar a manobra de
frenagem. O barco ainda dispunha de uma quantidade suficiente de
energia, mas segundo uma lei da Astronáutica jamais se devia
desperdiçar combustível, caso houvesse um meio de economizá-lo.
Tinham
tempo. Dariam algumas voltas em torno de Ghama, até que o barco
desenvolvesse a velocidade que lhe permitisse pousar. Isso oferecia
outra vantagem, pois poderiam procurar o posto terrano. Era ao menos
o que imaginavam. Acontece que, quando o barco estava prestes a
iniciar a segunda volta em torno do planeta, foi atingido por um
golpe violento. Girou algumas vezes em torno de seu eixo longitudinal
e lateral e desceu cambaleante.
Ninguém
tinha a menor idéia do que acontecera. Parecia um impacto de
meteoro, mas não se descobriu o menor vestígio desse impacto. O
propulsor direcional permitiu a Tony Laughlin acertar a posição do
barco e levantá-lo um pouco, fazendo com que perdesse parte da
velocidade perigosamente elevada.
Mas foi
só. O barco precipitou-se para baixo que nem uma pedra. O propulsor
deixara de funcionar. O antígravo fora posto fora de ação, e os
cinco terranos levitavam na pequena sala de comando. Tony Laughlin e
Richard Silligan desistiram dos seus esforços e fitaram a grande
tela, na qual a superfície verde-azulada do oceano se aproximava com
uma velocidade apavorante.
Sentiram
um medo terrível. O impacto da queda os mataria.
*
* *
Quando
ouviu o uivo estridente, Larry Randall levantou os olhos. O ruído
vinha do céu azul e límpido, mas Larry não conseguiu ver sua
causa.
Com um
suspiro recolheu a vara de pescar e atirou-a no barco. Ao que
parecia, não pegaria nenhuma arraia lunar. Voltou a olhar para o
alto e colocou a mão sobre o acelerador do pequeno motor silencioso,
a fim de estar preparado se acontecesse algo de importante.
O uivo
subira de tom. Parecia um vento rijo e constante que assobiasse pelas
frestas das janelas de um edifício. Larry nunca ouvira um ruído
como aquele. Ficou admirado. De repente viu alguma coisa. Era um
pontinho cintilante vindo do céu, e se precipitava em direção à
água como se fosse uma pedra.
“É
um veículo espacial dos saltadores”,
pensou Larry. “Está
caindo. Não se deve ser odiento, mas seria bom que todos eles
caíssem.”
Algumas
centenas de metros acima da água o ponto cintilante parecia querer
parar. A queda vertical passou a desenvolver-se num ângulo mais
aberto. O uivo mudou de tom. O ponto descreveu uma curva fechada e
voltou a subir. Sua velocidade diminuiu. Atingido o ponto mais
elevado de sua trajetória, voltou a cair, depois de descrever outra
curva. Projetou-se n’água a alguns quilômetros de distância,
fazendo saltar um jato alto e espumoso.
Larry
Randall colocou seu barco em movimento. Eram saltadores que tiveram o
azar de cair n’água, e seria bom que o diabo carregasse tudo
quanto fosse saltador. Mas não se podia deixar que morressem
afogados. Se alguém tivesse saído do veículo espacial, esse alguém
ficaria nadando, mas logo seria devorado por um lidioque. Era uma
morte que Larry não desejava nem mesmo a um saltador.
Quando
Larry aumentou a velocidade do barco, este ergueu-se ligeiramente na
água. Por enquanto não se ouvia nenhum ruído além do borbulhar da
água. Larry olhou rapidamente para trás. A linha alongada do
litoral foi mergulhando lentamente no mar. Deu-se conta de que se
afastava da costa a uma distância maior do que jamais se arriscara.
Comparou a posição do sol com a situação do litoral, a fim de
poder orientar-se. De repente foi de opinião que era verdadeiramente
ridícula a busca que realizava, pois nem sequer possuía uma bússola
que lhe permitisse orientar-se.
Depois de
algum tempo atingiu as ondas levantadas no local do impacto. O
pequeno barco começou a balançar. Larry reduziu a velocidade e
olhou em torno. A fim de aumentar seu campo de visão, levantou-se.
Entretanto não conseguiu enxergar nada, além da água. Não havia o
menor sinal da cabeça de alguém que estivesse nadando, nenhuma peça
do veículo que ali afundara.
Durante
uma hora, Larry ficou cruzando pela área, olhando em torno e
chamando de vez em quando. Finalmente chegou à conclusão de que
ninguém sobrevivera à queda e dispôs-se a voltar.
Naquele
momento ouviu um ruído borbulhante e viu algumas bolhas que subiam
ao lado do barco. Atrás das bolhas vinha uma sombra cinzenta. De
início pensou que fosse um lidioque e esteve prestes a fugir, pois
um lidioque era tão grande e forte que poderia estraçalhar não só
ele, como também seu barco. Mas quando a tal coisa subiu mais um
pouco, Larry pôde ver que tinha o formato de um trapézio. Um
lidioque não tinha formato de trapézio. Larry esperou.
Finalmente
o objeto atingiu a superfície. Alguns segundos antes Larry já
reconhecera o que era: uma peça do mecanismo direcional!
A peça
metálica, mais leve que a água, subiu à superfície. Larry
admirou-se de que tivesse levado tanto tempo.
E mais
admirado ficou quando leu o que estava escrito na peça.
— Carolina
II! — balbuciou.
De repente
teve muita pressa. Não havia mais nada que pudesse fazer pela pessoa
que caíra na Carolina II, fosse ela quem fosse. Mas a Terra teria de
ser informada sobre o incidente, e isso o mais cedo possível.
Larry
olhou para o sol, colocou o barco na direção certa e empurrou a
alavanca do acelerador para a posição máxima.
4
Retransmissora
XIV para cruzador Royal Irish:
RHH IT.
Dirija-se imediatamente porto matrícula! Desligo.
Cruzador
Royal Irish para retransmissora XIV:
VXD.
Entendido! Desligo.
*
* *
Ninguém
era capaz de imaginar qual seria o motivo dessa ordem, e Ron Landry,
ainda menos que qualquer outra pessoa. A volta à Terra contrariava
parte das instruções que Ron recebera durante o aprendizado
hipnótico. Mas não havia nenhuma dúvida: quem expedira essa ordem
fora Nike Quinto em pessoa, motivo por que o melhor que Ron Landry
tinha a fazer era obedecer à mesma.
Seis dias
após a decolagem, a Royal Irish voltou a pousar no espaçoporto de
Terrânia. Ron Landry teve uma idéia da importância de sua missão
ao perceber que Nike Quinto em pessoa viera buscá-lo.
Geralmente
Nike Quinto, que nominalmente era diretor do Fundo Social
Intercósmico de Desenvolvimento, uma organização não-militar,
teria coisa melhor a fazer, e não aparecer nas proximidades de um
cruzador pesado. Devia evitar qualquer indicação, por mais leve que
fosse, de que a Divisão III, submetida a Nike Quinto, não tinha
nada a ver com o auxílio para o desenvolvimento. Coisas
extraordinárias aconteceram, pois, do contrário, Nike Quinto não
teria deixado de lado as medidas usuais de segurança.
Ron Landry
não demorou a descobrir de que se tratava.
O Tenente
Randall, que se encontrava em Ghama, retirara do mar, nas
proximidades do posto terrano, uma peça da nave auxiliar Carolina
II. Do barco, observara a queda. Escrevera um relatório bem
elucidativo. Além disso, Randall examinara a peça do barco
espacial, formada por um pedaço do dispositivo direcional
aerodinâmico, e constatara que, pouco antes da queda, o veículo
fora atingido por um tremendo choque energético. A grade
cristalográfica dos metais sofrerá uma deformação extrema, e a
inversão do processo permitiu a Randall que, com base no tempo de
relaxação desse tipo de cristal, calculasse o momento do impacto.
Concluiu
que a nave fora derrubada.
Os nativos
de Ghama não possuíam canhões energéticos. Portanto, a nave fora
derrubada pelos saltadores.
Porém
estes não derrubariam sem mais nem menos um veículo espacial,
quando no momento do disparo nem poderiam saber, em condições
normais, de onde vinha e nem a quem pertencia. Dali se concluía que
os saltadores estabelecidos em Ghama estavam informados sobre o
destino que atingira a Carolina e receavam que os ocupantes da nave
auxiliar pudessem ajudar a identificar o traiçoeiro atacante.
— Quer
dizer que já temos uma pista — disse Nike Quinto, com sua voz
aguda.
Estava
bastante esbaforido.
— Acho
que não é necessário ressaltar que devemos agir com muito cuidado
— prosseguiu. — Caso não acredite nas minhas palavras, poderá
ver a ordem escrita do Marechal Mercant. Ghama é muito importante
para nós. Primeiro, por sua posição galáctica; depois, em virtude
de certas matérias-primas que nos são fornecidas pelos nativos. Por
enquanto esses nativos dependem dos saltadores e por isso lhes são
bastante dedicados. Os saltadores têm adotado uma política
diplomática por demais hábil em Ghama. Não podemos contar com a
antipatia dos guameses para com os saltadores
“É
claro que depois da destruição da Carolina os saltadores não podem
jamais escapar. Devem ser punidos. Isso significa que precisamos
trazer os responsáveis para a Terra, a fim de processá-los. Não
virão espontaneamente; logo, teremos de obrigá-los. E é nisso que
consiste sua tarefa. Se a mesma provocar tumultos entre os nativos,
não terá sido cumprida segundo as intenções do Marechal Mercant e
terá de ser considerada um fracasso. Não se esqueça disso; acho
que é o ponto mais importante.
“E agora
sente-se novamente nessa poltrona e deixe que lhe ensinem o que ainda
terá de saber.”
*
* *
Larry
Randall não ficou surpreso, quando a nave de abastecimento, que
costumava pousar em Ghama uma vez por mês, chegou alguns dias mais
cedo do que era aguardada. Esperara que suas informações sobre a
queda da nave auxiliar Carolina II provocassem certas reações, e a
antecipação da viagem da nave de abastecimento parecia ter algo a
ver com essas reações.
Sentado à
escrivaninha, Larry olhava pela grande janela. Viu o tapete de relva
florida da ilha, a superfície cinzenta da estrada e o edifício
achatado do espaçoporto, atrás do qual a nave estava pousando nesse
instante. Era a mesma de sempre, a Empress
of
Arkon.
Estava equipada com um propulsor do novo tipo; durante o pouso, não
se ouviu nenhum ruído, com exceção de um ligeiro zumbido. Larry
sempre se sentia fascinado ao ver um colosso metálico como aquele
descer do céu suavemente e quase sem o menor ruído.
Ficou
refletindo sobre se deveria ir ao espaçoporto. Não costumava ir,
pois sabia que a chegada dos oficiais e tripulantes da nave deixaria
o pequeno núcleo terrano de Killanak movimentado por alguns dias.
Resolveu que naquele dia também não iria. Alguma coisa estava para
acontecer, e seria preferível não modificar seus hábitos, a fim de
não chamar a atenção. Os nativos de pele lisa, que viviam em
Killanak, andavam sempre atentos, e Larry preferiu não arriscar-se a
que um deles percorresse a nado os duzentos e cinqüenta quilômetros
que os separavam da grande base dos saltadores e informasse: “Homem
branco... ir nave... outras vezes não fazer... hoje fazer.”
Por isso
Larry Randall ficou sentado, esperando.
*
* *
De repente
um dos nativos apareceu à porta. Era pequeno e tinha pele lisa e
olhos grandes, um pouco salientes. A pele era marrom-bronzeada, e a
gordura, que os poros eliminavam ininterruptamente, fazia a pele
brilhar. As guelras, formando uma pequena abertura atrás do maxilar,
tremiam ligeiramente, como se aquele homem estivesse nervoso.
Era Zatok.
Nas primeiras semanas de sua estada em Ghama, Larry tivera
dificuldades em distinguir nominalmente os habitantes do planeta. A
única diferença que conseguia perceber de forma inequívoca era a
seguinte: existiam homens e mulheres. Os ghameses só traziam uma
peça de roupa apertada nos quadris, e sua constituição física era
bastante semelhante à dos terranos.
Atualmente
Larry já não tinha dificuldades em distinguir os habitantes do
planeta uns dos outros. O homem que se encontrava na porta era Zatok
e, como suas guelras tremessem, estava nervoso.
— Homem
estranho chegou, meu amigo — disse em sua linguagem gutural.
Larry
confirmou com a cabeça.
— Peça-lhe
que entre — respondeu na mesma língua. — Decerto quer falar
comigo.
Zatok
também fez um gesto com a cabeça.
— Também
acho — disse. Larry espantou-se.
— Mas...
será que é ele mesmo? — perguntou, um tanto incerto.
Zatok fez
uma careta e exibiu seus dentes brancos, numa espécie de sorriso
amável.
— Acredito
que sim. Larry levantou-se.
— Pois
diga-lhe que entre, seu monstro marrom — ordenou com um sorriso.
Zatok
virou-se e saiu andando. Aliás, andar não é a palavra adequada
para designar o que realmente fez. Arrastou-se graciosamente, numa
forma de locomoção típica de seres que estão acostumados a
permanecer mais na água que na terra.
Dali a
alguns segundos, outro homem apareceu na porta. Era grande. Sua
largura quase enchia todo o espaço da porta. A primeira impressão
de Larry: não gostaria de envolver-se numa briga com aquele homem,
caso não dispusesse de outras armas além dos punhos. O homem não
parecia ter mais de trinta anos, mas seus olhos revelavam a
experiência de uma idade superior, e seus movimentos, apesar do
tamanho descomunal, pareciam elegantes e seguros.
Seu cabelo
era castanho-escuro. Larry nunca o vira. Mas conhecia essa espécie
de gente.
Divisão
III!
Larry
levantou-se.
— Meu
nome é Ron Landry — disse o desconhecido. — Se o senhor for
Larry Randall e tiver alguma coisa para beber, estou no lugar certo.
Larry
sorriu.
— Ambas
as suposições são corretas, Mr. Landry.
Apontou
para uma poltrona. Ron sentou-se e esticou as pernas. Sentado,
chegava a parecer mais maciço que em pé. Larry pegou uma garrafa e
dois copos e encheu-os.
— Mandaram-me
para cá, Larry — principiou Ron sem esperar que seu interlocutor
falasse — porque são de opinião que o senhor precisa de auxílio.
Face à influência cada vez maior dos saltadores, devemos fazer um
trabalho de ajuda ao desenvolvimento em Ghama. Quero que me entenda
bem. O fato de eu ter sido enviado para cá, de forma alguma
significa que na Terra não estejam satisfeitos com o senhor.
Acontece apenas que o trabalho a iniciar-se por aqui não poderá ser
realizado exclusivamente pelo senhor.
Larry
ouviu-o sem maior interesse e, quando Ron fez uma pausa, acenou-lhe
com a cabeça. Larry sabia que não havia necessidade de guardar na
memória o que Ron lhe dissesse, pois era tudo inventado. Saberia de
outra forma o que realmente Ron desejava. Isto é: uma maneira da
qual pudessem ter certeza de que os saltadores não pudessem
escutá-los.
Ron pegou
mais um copo de bebida e prosseguiu:
— Trouxe
uma porção de diretivas enfeixadas num manual, que se encontra a
bordo da Empress of Arkon. Ainda não estudei o manual; na minha
opinião será preferível que façamos isso em conjunto. O chefe
acredita que, se utilizarmos os meios adequados, deverá ser possível
ganhar terreno, face aos saltadores.
Larry
aguçou o ouvido. Já eram falas mais precisas.
— O
chefe acredita que podemos oferecer aos nativos a mesma coisa e até
mais que os saltadores. O problema é modificar seus hábitos
antigos. Há séculos os saltadores lhes trazem aquilo de que
precisam. Basta convencer alguns deles de que conosco poderão ter
mais vantagem, para que a novidade circule por aí e os saltadores
percam terreno.
“Isso
não vem ao caso”,
pensou Larry.
— Antes
de mais nada, nunca devemos esquecer-nos de uma coisa: o que mais
importa é o bem-estar dos ghameses. Seja lá o que resolvermos
fazer, não devemos contrariar os nativos, pois se isso acontecer,
tudo será em vão.
“Ah”,
pensou Larry. “O
caso é sério.”
Naquele
instante, Zatok voltou a aparecer na porta. Ron estava de costas para
a mesma. Quando esteve a ponto de prosseguir, Larry fez-lhe um sinal.
Ron virou-se.
— O que
deseja, amigo? — perguntou, falando corretamente a língua dos
ghameses.
Zatok
espantou-se e, seguindo o costume de sua raça, deu mostras evidentes
de seu espanto. Ergueu os sobrecenhos sem cabelo, arregalou os olhos,
que já eram grandes, e deu três ou quatro saltos que, por pouco,
não fizeram com que sua cabeça batesse no batente da porta.
— Você
fala minha língua, amigo — disse num estranho tom cantante, que
exprimia sua alegria profunda. — Com isso meu coração fica leve e
minhas mãos começam a nadar.
— Fico
satisfeito em saber disso, amigo! — exclamou Ron e, para espanto de
Larry, dominou o tom cantante sem o menor sotaque. — Será que tem
alguma objeção a que permaneça algum tempo no belo mundo de Ghama?
Zatok
bateu palmas energicamente, o que constituía sinal de uma negativa
inequívoca.
— Em
absoluto, amigo. Isso também faz meu coração ficar leve.
Ron fez um
gesto grave. Estendeu o braço direito para o lado e curvou-o, como
se quisesse abraçar uma pessoa invisível. Era um gesto de
concordância e de afirmação, que encerrava o tema sobre o qual se
acabava de falar. Ron executou-o com uma elegância inimitável.
“Deve
ter feito um curso hipnótico”,
refletiu Larry. “Se
as coisas chegaram a este ponto, algo de muito grave está
acontecendo.”
— Quando
você entrou aqui, pretendia dizer alguma coisa, amigo —
lembrou-lhe Ron. — O que foi? Não tive a intenção de
interrompê-lo.
Zatok fez
uma espécie de sinal-da-cruz com a mão direita, na altura da
cabeça. Isso significava: “Sim,
é claro.”
— Acho
que alguém quer ver um dos amigos — falou em seu tom cantante.
Um sorriso
amável surgiu nos lábios de Ron.
— Se
você diz isso, meu amigo, esse alguém já deve estar lá fora.
Traga-o para dentro. Quem é?
Neste
momento ouviu-se alguém bater ruidosamente com os pés. Zatok foi
empurrado para o lado, e o vulto gigantesco de um homem barbudo, um
pouco maior ainda que Ron Landry, entrou pesadamente no pequeno
recinto.
Larry
esforçou-se para disfarçar o espanto.
O homem
que acabara de entrar era Alboolal, chefe do clã dos saltadores, que
explorava o grande entreposto comercial de Ghama.
*
* *
— Estava
por perto — disse Alboolal em voz alta, falando o arcônida à
maneira de sua raça. — Pensei que seria bom dar uma chegada.
Olhou em
torno. Larry convidou-o a sentar e fez as apresentações de Ron e
Alboolal.
— Quer
dizer que pretende ficar aqui por algum tempo? — perguntou o
saltador em tom curioso.
Ron
manteve atitude reservada. Não se esforçou para ser cortês e falou
um arcônida tão horrível que até mesmo Larry quase não conseguiu
entendê-lo.
— Não
sei. Depende de algumas coisas.
Depois
veremos.
Alboolal
soltou uma estrondosa gargalhada.
— Ah,
sim. Compreendo. É segredo, não é? É preferível que a
concorrência não fique sabendo. Mas posso tranqüilizá-lo. O
negócio de Ghama começa a ficar pouco interessante para nós. Acho
que não demoraremos em retirar-nos. Pode ficar com esse deserto
aquático.
— Ah, é?
— perguntou Ron, desconfiado.
— Sem
dúvida. Para o senhor, isto ainda poderá ser um grande negócio —
fez um gesto de desprezo. — Afinal, nossos padrões são
diferentes.
Ninguém
respondeu. Alboolal olhou em torno. De repente parecia sentir-se
pouco à vontade. Levantou-se.
— Prefiro
não incomodá-los mais. Só quis dar uma chegada. Desejo uma boa
estada.
Fez um
gesto para Ron. Este levantou-se, e, embora tivesse meio palmo menos
que Alboolal, ainda impressionava graças à sua elegância e
agilidade. O rosto sorridente de Alboolal enrijeceu-se. Ao que
parecia, sentia a hostilidade que irradiava de Ron. Estava prestes a
retirar-se, mas ficou parado, como se o olhar de Ron o impedisse de
movimentar-se.
— Não
se esqueça de fazer seu testamento e nomear o novo chefe do clã —
disse Ron em voz baixa, mas perfeitamente inteligível, falando um
arcônida sem sotaque.
5
Retransmissora
XIV para cargueiro Empress of Arkon:
Todas
as xícaras no armário. Todas as xícaras no armário. Desligo.
Cargueiro
Empress of Arkon para retransmissora XIV:
Aqui
estão. E aí? Desligo.
*
* *
Mais tarde
Richard Silligan não saberia reconstituir a natureza e a seqüência
dos fatos. Quando voltou a raciocinar claramente estava sentado num
banco de madeira, e via diante de seus olhos o rosto de uma criatura
que poderia ter sido gerada num pesadelo.
Tony
tentara erguer o veículo espacial mais uma vez, pouco antes de
atingir a superfície da água. Conseguiu em parte. A máquina gemera
como se quisesse estourar. O barco descrevera uma curva, subindo mais
um pedacinho.
Isso
reduziu a velocidade. Mas depois de uma queda de duzentos metros o
impacto na água ainda fora muito forte. Por alguns segundos Richard
ficou inconsciente. Seu traje espacial fora fechado, conforme mandava
o regulamento, motivo por que, mesmo embaixo d’água, nada lhe
poderia acontecer. Vagara pela água, a grande profundidade, conforme
concluíra pela pouca claridade. Assim que voltou a raciocinar
claramente, começou a gritar. Seus companheiros também haviam
fechado os trajes espaciais, e, a não ser que por ocasião do
impacto algo lhes tivesse acontecido, pelo menos um já deveria estar
em condições de ouvi-lo.
Mas antes
que Richard recebesse qualquer resposta, subitamente houve um
movimento na água. Richard viu uma sombra aproximar-se. De início
acreditara que um grande peixe o tivesse localizado. Os monstros
vorazes, que povoavam seus mares, tornavam o planeta conhecido e
temido. E a idéia de que poderia tratar-se de um lidioque provocara
uma reação nada simpática em sua mente.
Acontece
que não era nenhum lidioque. Era um barco bem tosco, com uma série
de furos no casco, que pareciam ter sido revestidos de vidro grosso.
O barco parará a seu lado. Uma escotilha abriu-se no casco, e
algumas mãos robustas o arrastaram para dentro. A escotilha voltou a
fechar-se e a água foi bombeada para fora do pequeno recinto. Até
então Richard não vira nenhum dos homens que o haviam salvo.
Depois de
algum tempo, outra escotilha abriu-se atrás dele, e alguém
arrastou-o para o interior do barco. Ofegante, Richard se deixara
cair sobre um banco de madeira. Havia vários bancos no recinto mal
iluminado em que se encontrava. Ficou sentado, aguardando.
A criatura
de pele marrom com os olhos salientes e o crânio calvo fitou-o
demoradamente, como se quisesse fixar os traços de seu rosto para
nunca mais esquecê-los.
“É
um ghamês”,
pensou Richard. “São
criaturas amáveis e pacatas, dotadas de uma curiosidade infantil e
muito dedicadas aos saltadores. Este último traço é o único
antipático”,
refletiu, concluindo suas elucubrações mentais.
Olhou em
torno. Dois bancos atrás dele estava sentado Tony Laughlin, que já
baixara o capacete e arregalava os olhos. Na extremidade do mesmo
banco, Lyn Trenton e Dynah Langmuir apoiavam-se na parede. Por
enquanto os dois não haviam aberto seus capacetes. Dynah parecia
inconsciente. Devia ser por causa do susto.
Subitamente
houve um movimento. Os dois bancos começaram a balançar e uma
cabeleira branca e desgrenhada apareceu entre os mesmos. Sob a
cabeleira surgiu um par de olhos curiosos de camundongo. Finalmente o
homem ergueu-se em toda sua altura, pouco imponente, atirando o
capacete sobre os ombros, num gesto desleixado.
— Maldito
concurso! — exclamou Ezequiel Dunlop Rykher.
*
* *
Com
exceção daquele que já concluíra o estudo do rosto de Richard
Silligan, não havia mais nenhum ghamês no recinto. Quando seus
olhos se acostumaram à penumbra, Richard viu uma porta na parede que
ficava à sua frente. Provavelmente dava para a ponte de comando,
onde devia haver outros homens-peixe.
A escassa
iluminação do recinto passava pelas lâminas de vidro, e vinha
diretamente da água. O barco estava em movimento. Richard notou-o
pelo borbulhar da água e sentiu-o face ao forte zumbido, vindo das
paredes.
Havia um
cheiro de mar e peixe. O ghamês também exalava um cheiro de mar e
peixe.
“Isso
não é de admirar”,
pensou Richard. “Não
poderia ter outro cheiro.”
Ainda se
sentia perturbado; o raciocínio só voltava lentamente. Há alguns
instantes ainda estivera numa nave auxiliar que se precipitava em
direção à superfície do planeta. E agora estava sentado num banco
no interior de um submarino de madeira, que estava sendo pilotado por
nativos de pele lisa.
O ghamês
acabara de recuar até a parede em que havia a escotilha e, com um
sorriso no rosto, contemplava os cinco terranos. Richard virou a
cabeça.
— Como
vai, Tony? — perguntou.

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