Desconfiava
de que uma decisão estava iminente. Se M-7 não fosse um espião,
seria um amigo. Se ele, M-4, ainda estivesse vivo no dia seguinte,
poderia ter certeza de que contava de fato com um amigo.
— Muito
bem! Então diga o que o deixa tão deprimido. É a vida que levamos?
Ou existe algum motivo especial?
— Por
que vou incomodá-lo com meus problemas? Acho que todo mundo tem de
carregar os seus.
— Um
peso carregado por duas pessoas torna-se mais leve.
M-4 estava
de acordo. Refletiu por alguns segundos e disse:
— Juntamente
com o Doutor Três atraí um vigia para uma cilada e o coloquei fora
de ação. Desmontamos suas armas e nos apoderamos das mesmas. Depois
disso, D-3 me deu um calmante, e eu me acostumei ao mesmo. Não posso
viver mais sem sonhar. Acontece que D-3 está desaparecido há dois
dias.
M-7
começou a desconfiar do que havia atrás deste relato lacônico.
Será que,
além dele, havia outras pessoas que não concordavam com a ordem
vigente e haviam resolvido acabar com o domínio dos robôs e do
comandante? Foi por puro acaso que estabeleceu contato com uma dessas
pessoas. Mas, ao que parecia, o papel de M-4 era secundário.
Entretanto assumia certa importância como elemento de ligação.
— É
fácil destruir um vigia?
— Não é
difícil. Os robôs foram construídos de maneira tal que ninguém
lhes pode fazer nada, mas seus criadores não se esqueceram de
incluir neles um fator de segurança. E, com a inclusão desse fator,
seus construtores cometeram uma pequena falha. Na nuca dos robôs
existe um parafuso quase imperceptível. Girando-o, o vigia fica
desativado. Se necessário, uma forte pancada pode produzir o mesmo
resultado. Com isso, ele se transforma num montão de lata indefeso,
apesar das perigosas armas energéticas embutidas.
— Quer
dizer que, se desejássemos, poderíamos colocar fora de ação todos
os robôs?
A simples
idéia deixou M-4 assustado. Chegou até a empalidecer.
— Seria
uma loucura...!
— Seria
mesmo, M-4? O que aconteceria se um grupo de homens decididos
resolvesse eliminar todos os vigias? Esses homens poderiam
apoderar-se das armas e enfrentar o comandante. Com isso, o regime de
terror chegaria ao fim.
— Pois
já estamos acostumados. Nossos antepassados viveram como nós
vivemos hoje. Quando será que isso começou?
— Já
andei quebrando a cabeça sobre isso. Mas não adianta mais. Chegou a
hora de agir. Por coincidência D-3 escolheu-o para seu homem de
confiança. A fim de levar avante seu intento, precisava de um
maquinista, e escolheu você. Agora também pertenço ao grupo.
Precisamos falar imediatamente com D-3...
— Ele
está desaparecido há dois dias, M-7. Não sei o que aconteceu. Quem
sabe se o crime foi descoberto?
— Se
fosse assim, você também já estaria morto — M-7 sacudiu a
cabeça. — Será que você acredita que o médico ficaria calado?
— Talvez
ficasse quieto — disse M-4 um tanto inseguro. — Onde estará, se
ainda estiver vivo?
— Não
será difícil descobrir. Afinal, é o médico de nossa seção. Se
eu disser que estou doente...
— Há
alguém que o representa.
M-7
calou-se obstinadamente. Esquecera esse detalhe. Depois de algum
tempo, disse:
— Pois
vamos agir! Durante nosso próximo turno de serviço, começaremos a
eliminar os vigias. Enquanto ninguém descobrir, tudo bem. E, quando
os incidentes se tornarem conhecidos, outras pessoas se juntarão a
nós. Na verdade, ninguém está satisfeito com a existência que
levamos, já que não nos dizem qual é o destino de nossa viagem.
Antes que
pudessem transformar seu plano em realidade, o aparelho de
intercomunicação soou no camarote.
Uma voz
evidentemente disfarçada disse:
— Alô,
M-4. Responda!
M-7 fez um
sinal ao companheiro.
— Aqui
fala M-4 — disse o maquinista, depois de ter ligado o videofone.
— O
senhor está só no camarote?
M-7 acenou
vigorosamente com a cabeça. M-4 disse:
— Sim,
estou só. Quem fala?
O tom de
voz do outro interlocutor mudou e, de repente, os dois maquinistas
tiveram a impressão de que o mesmo já lhes era conhecido.
— Preste
atenção, M-4! Pegue suas ferramentas e compareça imediatamente ao
setor central. Dirija-se à sala de comando. Estamos esperando o
senhor.
— É o
Doutor Três?
— Sim,
sou eu. Ande depressa!
— Não
desligue! — gritou M-4 em tom desesperado. — Quero dizer mais uma
coisa.
— O que
houve?
— Posso
levar um amigo?
Houve uma
ligeira pausa.
— Como é
que ele soube? — perguntou D-3.
— Neste
momento não posso explicar nada, mas ele está conosco. Estou
precisando do meu tranqüilizante...
— Traga
seu amigo — disse D-3. — Mas não perca tempo. É uma questão de
vida e morte, não só para mim ou para o senhor, mas para todos que
vivem nesta nave. Entendido?
— Iremos
imediatamente!
— Outro
detalhe, M-4! Passe pelo Instituto Médico e pegue um embrulho já
preparado, que se destina a mim. Basta citar seu nome.
— E se
alguém formular perguntas?
— Diga
que está obedecendo ordens do comandante. Diga isso a qualquer
pessoa que procurar detê-lo. Entendido?
— O
comandante? — perguntou M-4 em tom de perplexidade.
Mas o
médico já havia desligado. Olhou para M-7.
— O que
será isso? Você compreendeu?
M-7 acenou
lentamente com a cabeça.
— Sim,
acho que compreendo. Finalmente apareceu um homem que tem coragem de
dar um sentido à existência inútil que levamos. Apressemo-nos,
M-4, pois do contrário seu trabalho terá sido em vão. Precisamos
ajudá-lo.
Saíram
correndo para o corredor.
2
O rosto
fitou-os de cima.
Era um
rosto de velho. Estava profundamente enrugado, e seus traços
mostravam certa resignação. Os olhos avermelhados irradiavam
bondade e inflexibilidade. Seus lábios pareciam estar sempre
cerrados, revelando um gênio cruel... ou seria apenas enérgico?
O
comandante inclinou-se para a tela. Ele, que era o senhor absoluto da
vida e da morte de seu povo, inclinou-se diante de uma simples
imagem.
Ou será
que não era uma imagem?
Não, não
era; o rosto moveu-se. A boca começou a falar. Um alto-falante
oculto transmitiu uma voz agradável e simpática.
— Comandante,
você abriu a porta e trouxe três homens. O que significa isso?
Esperava que viesse com seu sucessor. Qual é o motivo da presença
desses homens?
O
comandante voltou a inclinar o corpo. Estava pálido e parecia
deprimido. Devia sentir um medo enorme do desconhecido que aparecia
na tela.
— Eles
me obrigaram, senhor. Se não os tivesse trazido, eles me teriam
matado antes que eu pudesse transmitir o conhecimento do segredo a
meu sucessor. Nosso povo ficaria acéfalo.
O rosto
lançou-lhe um olhar colérico.
— Você
falhou, comandante! A morte seria uma pena muito suave para você,
mas, de qualquer maneira, ela o aguarda.
Seguiu-se
uma ligeira pausa. O rosto permanecia impassível. Finalmente a voz
prosseguiu:
— O que
desejam de mim e quem são vocês?
Ps-5
procurou libertar-se do encanto irradiado pelo rosto, cuja rigidez o
deixou bastante impressionado. Parecia morto, mas a imagem não
poderia mentir. O homem que aparecia na tela vivia num setor
desconhecido da gigantesca nave...
...e era o
verdadeiro soberano de seu povo.
O
comandante não passava de uma marionete.
O
psicólogo principiou em tom hesitante:
— Viemos
para saber a verdade. Até hoje acreditávamos que o comandante fosse
o guardião de um corpo de leis velhas e superadas. Mas agora
descobrimos que há alguém que está acima dele: o senhor. Sou eu
que pergunto: quem é o senhor? E por onde anda escondido?
O rosto
demonstrou espanto, que logo se transformou em cólera. Mas a voz não
revelou essas emoções. Começou em tom calmo e objetivo:
— Suas
perguntas são monstruosas e contrárias às leis vigentes. Neste
momento condeno-os a morrerem no conversor. Comandante, providencie a
execução desta ordem; convoque o comando da morte. A sentença será
executada imediatamente.
Ps-5
sorriu e dirigiu a arma contra o comandante.
— Muito
bem, Mestre — disse em tom frio. — Se é assim, vou matar o
comandante diante de suas vistas. Vejamos o que acontecerá depois
disso.
O médico
e R-75 continuavam parados na porta que dava para o aposento
particular do comandante. Mantinham as armas engatilhadas e fitavam o
grande rosto. Esperavam ouvir a qualquer momento o ruído forte dos
passos metálicos, mas tudo permaneceu em silêncio.
— Não
se preocupem, amigos — disse Ps-5 por cima do ombro. — Não virá
ninguém. Quem poderia alarmar os robôs? Só o comandante. O grande
Mestre que aparece na tela não o fará, pois ninguém sabe de sua
existência. É possível que nem mesmo os vigias saibam — voltou a
dirigir-se à tela. — Então, o que me diz? Realmente terei de
matar o comandante? Ou está disposto a negociar?
— O que
deseja? — soou o alto-falante, enquanto os lábios do desconhecido
se moviam para formular as palavras.
Ao que
parecia, tinha uma habilidade extraordinária para adaptar-se às
situações mais variadas.
— Qual é
o segredo que só pode ser conhecido pelo C-l? Deve ter uma
importância tremenda, pois se há duas pessoas que o conhecem, uma
delas terá de morrer. Mas a situação ficará melindrosa se o
comandante morrer sem revelar o segredo a alguém... Por isso quero
fazer uma pergunta a você...
Sem que se
desse conta disso, Ps-5 estava usando o tratamento íntimo que o
desconhecido usara para com ele. Porém tal tratamento não exprimia
intimidade, e sim desprezo.
— Quero
fazer uma pergunta a você: qual é o segredo?
Por um
instante não aconteceu nada, mas finalmente veio a resposta:
— Você
mesmo acaba de dizer que o segredo só pode ser conhecido por uma
criatura mortal de cada vez. Se houver mais de uma criatura que o
conheça, todas terão de morrer. Você está com vontade de morrer?
— Deixe
isso por minha conta, Mestre — respondeu Ps-5 em tom irônico. —
Responda à minha pergunta!
— Seja o
que você quiser. Eu sou a corporificação da vontade de seus
antepassados e transmito esta vontade ao comandante. Ele é apenas um
intermediário entre os vivos e os mortos. Cabe-lhe manter a ordem
vigente e escolher seu sucessor. Feito isso, morrerá. É só.
Ps-5
acenou com a cabeça. Se é que estas palavras o decepcionaram, não
deu mostras disso.
— Então
é só? E os vigias? São seres mecânicos feitos para controlar os
homens. Por ordem de quem estão agindo?
— Por
ordem minha.
— Quer
dizer que é por ordem dos antepassados, não é? Pois eu lhe digo
uma coisa: se os antepassados recorrem a máquinas para nos impor sua
vontade, eles não merecem que nos lembremos deles. Nós os
esqueceremos e criaremos nossas próprias leis. A morte violenta será
banida; não permitiremos que a vida natural cesse prematuramente.
Seremos nossos senhores e faremos com que a máquina volte a ser
aquilo que sempre deveria ter sido: o servo do homem.
Uma
mudança assustadora ocorreu com o rosto. A expressão do
desconhecido cambiou entre a raiva, a decepção e um tremendo ódio.
Quando a
voz voltou a falar, era fria. Porém também era agradável e
melódica. O contraste era tão flagrante que não havia como tirar
qualquer conclusão em relação às verdadeiras idéias de quem
falava.
— Vocês
subestimam o valor da máquina e de seus recursos positrônicos. A
máquina e o sistema de computação positrônica substituem o homem
e até chegam a ser superiores ao mesmo. Quando criaram os vigias,
nossos antepassados sabiam disso. Se ignorarmos a vontade deles,
estaremos condenando nossa civilização ao desaparecimento.
— Pois
que desapareça! — exclamou Ps-5 em tom furioso e decidido. — Se
não souber defender-se deve desaparecer imediatamente.
— Antes
de você, já houve pessoas que tentaram isso. Todas elas terminaram
no conversor.
— Sim, o
conversor! Também é uma máquina. No dia em que atirarmos no
conversor todos os robôs que se encontram a bordo, teremos uma
grande festa. Os robôs fornecerão energia para várias gerações.
Mais uma
vez, o rosto foi desfigurado pelo ódio. Os olhos vermelhos brilharam
como um par de brasas.
— Você
está condenado à morte, rebelde! Comandante! Chame os guardas!
O
comandante empalideceu.
— Ele me
matará, senhor. Quem instruirá meu sucessor?
— Seu
covarde! Caso seja necessário, saiba ao menos morrer como um homem.
Mas antes disso cumpra seu dever e dê o alarme para os vigias.
Ps-5
mantinha a arma apontada. Sua mão não tremia.
— Comandante,
o senhor estará morto antes que tenha tempo de dar um único passo.
Como poderia chamar o comando da morte?
Apesar da
situação desesperada em que se encontrava, o comandante sorriu.
— O
senhor não poderá evitar isso, psicólogo. Está vendo a caixinha
que tenho na mão? — levantou dois dedos e pôs à mostra um
pequeno objeto que até então ficara oculto em sua mão. — Peguei
isto há muito tempo. Mesmo que eu morra, logo os vigias estarão
aqui. Se eu largar esta caixa, a trave se soltará e o circuito
elétrico se fechará. O sinal de rádio convocará o comando da
morte. Pode disparar, psicólogo.
O
comandante já se sentia mais seguro. Sabia que os conspiradores não
cometeriam um ato irrefletido, nem o matariam na situação em que se
encontravam. Não se atreveriam a tanto. Se é que a vida do
comandante pudesse representar qualquer vantagem para eles, não o
matariam.
Seu
raciocínio foi correto.
— Se eu
não atirar, o senhor também dará o alarma? — perguntou Ps-5 em
tom de expectativa. Continuava a apontar a arma para o comandante. —
Se obedecer ao sujeito que aparece na tela, está liquidado. Ele
mesmo acaba de dizer que providenciará sua morte. Para que morrer,
se isso em nada ajudará seu povo? Ainda não percebeu que estamos
sendo enganados? Não está na hora de cuidarmos do nosso destino, em
vez de continuarmos a obedecer às leis de uma geração passada, que
hoje já não têm a menor validade, porque estão superadas pelos
acontecimentos?
O
comandante parecia indeciso. A voz do alto-falante disse sem a menor
ênfase:
— Obedeça
às minhas ordens, comandante. Chame os vigias!
Mas a
semente lançada pelo psicólogo já havia germinado. Durante toda a
vida, o comandante se conformara com a perspectiva de um fim
violento, por considerar o mesmo como um pressuposto da própria
existência. E de repente se lhe oferecia a oportunidade de continuar
a viver! De continuar a viver até o dia em que a própria idade lhe
trouxesse a morte natural.
Sem olhar
para o rosto que aparecia na tela, disse:
— Se não
chamar os vigias, vocês garantem minha vida?
O
psicólogo suspirou aliviado. A luta estava decidida.
— Damos
nossa palavra — disse e abaixou o cano da arma. Apontou para a
porta. — Vamos à sala de comando. Não convém que as medidas a
serem adotadas sejam discutidas na frente deste fantasma — voltou a
dirigir-se à imagem. — Nós o avisaremos do resultado da nossa
conferência. Até lá, só podemos pedir-lhe que tenha paciência.
— Pela
última vez, comandante: dê o alarma!
Ps-5
segurou o comandante pelo braço e levou-o para fora. Sem dizer uma
palavra, D-3 e R-75 seguiram-no e fecharam a porta atrás de si. As
ordens do desconhecido soaram pelo recinto, sem produzir o menor
resultado:
— Dê a
ordem, comandante! Dê o alarma!
Depois a
voz calou-se.
Ps-5
respirou aliviado.
— Ainda
bem que o senhor agiu razoavelmente, comandante. Não tenho a menor
dúvida de que é um homem honesto e cumpridor do dever. O que foi
que o levou a mudar de opinião? Terá sido apenas a perspectiva de
viver mais algum tempo? Fale com franqueza. Será preferível que,
antes de responder, largue o aparelho de alarma.
O
comandante fez que sim. Comprimiu o dedo contra um botão quase
invisível do instrumento que trazia na mão e colocou-o
cautelosamente sobre a mesa. Depois suspirou aliviado e sentou.
— Serei
sincero. Peço-lhes que me permitam que comece do início. Quando fui
chamado à presença do comandante, que me informou sobre a tarefa a
ser cumprida, eu ainda era muito jovem. Levei-o ao conversor,
conforme era minha obrigação, e assumi minhas funções. Desde
então, sou um homem solitário. Eu lhe garanto que minha vida é
mais monótona que a sua. Afinal, todos vocês conhecem o trabalho e
a companhia de outras pessoas. Nem sequer tenho direito às férias e
também não tenho descendentes. A única variação que ocorre na
minha vida são as conferências diárias, a elaboração da lista
das pessoas que devem morrer e a emissão das ordens recebidas pelo
Mestre. É assim que ele quer ser chamado.
— Quem é
esse Mestre, C-l? — perguntou o psicólogo. — O senhor tem alguma
idéia de onde ele vive, ou de qual é a parte da nave em que se
esconde?
— Infelizmente
não. Ele só apareceu na minha frente sob a forma que os senhores já
conhecem. A tela é a única forma de contato.
— Como
foi que ele pôde exercer uma influência tão forte sobre o senhor?
— Isso é
fácil de explicar, Ps-5. Desde jovem, não conheço outra coisa
senão esse rosto que aparece na tela. Todos os dias recebia suas
instruções, e, caso não o obedecesse, aquele rosto me ameaçava
com os castigos mais cruéis. Mas o que mais me impressionava era a
alusão constante à herança dos antepassados. O Mestre sempre fazia
questão de ressaltar que devíamos colocar nossas vidas a serviço
do povo, até que a nave chegue ao destino. Nunca fiquei sabendo qual
é esse destino. Nunca me encontrei pessoalmente com o Mestre. Porém
sua imagem ampliada exerce um poder tão forte que sempre me tem sido
impossível subtrair-me à sua influência. Além disso, ninguém tem
coragem de romper com uma tradição antiga.
— Pois
nós temos! — respondeu Ps-5 com um gesto zangado. — Compreendo o
senhor. Entretanto, por mais estranho que possa parecer, o Mestre não
exerceu sobre mim uma impressão tão marcante. Notei nele alguma
coisa que me incomodava. Não sei o que foi, mas a imagem não
parecia viva e autêntica. Além disso, há certa dissonância entre
som e imagem; tive a impressão de que a transmissão não funciona
bem. Não sei se consegui fazer-me entendido...
— Sei o
que você quer dizer — interveio o médico. — Tive uma impressão
semelhante, mas não sei o que me incomodou. De qualquer maneira
estou convencido de que há algo de errado naquilo. O que é que você
acha, R-75?
— Concordo
plenamente com vocês. Infelizmente não sou especialista em
aparelhos eletrônicos, mas os homens da Seção Mecânica deveriam
ser capazes de ajudar-nos.
— Os
homens da Seção Mecânica são os maquinistas — disse D-3,
refletindo em voz alta. — Sim; talvez a solução seja esta.
— Está
pensando em seu elemento de confiança M-4? — perguntou o
psicólogo, adivinhando os pensamentos do amigo. — É verdade;
devíamos consultá-lo.
Sem
compreender nada, o comandante assistira à discussão. Sua mente
teria de realizar uma tremenda adaptação para ver na imagem do
Mestre, que até então fora seu soberano absoluto, apenas uma
transmissão defeituosa de televisão, cuja sincronização não
funcionava como devia.
— Não
sei se devemos atribuir tanta importância a esse fato... —
principiou em tom hesitante.
— Devemos,
sim! — retrucou Ps-5 em tom resoluto. — Acho que este ponto se
reveste da maior importância. Devemos descobrir se o defeito
realmente existe. É bem possível que o equipamento de transmissão
esteja em perfeito estado.
Os homens
fitaram-no sem compreender nada. Não sabiam onde pretendia chegar.
Mas o psicólogo não teve tempo de abordar o assunto com maiores
detalhes, pois nesse instante o interfone deu um sinal.
Alguém
desejava falar com o comandante.
— Quer
que responda?
Ps-5 fez
que sim.
— Naturalmente.
Enquanto não tivermos chegado a uma conclusão sobre as medidas que
devemos adotar, não devemos provocar suspeitas. Talvez seja apenas
um chamado de rotina.
O
comandante levantou e comprimiu um botão embutido na armação. A
tela da esquerda iluminou-se.
Era o
oficial de ligação.
— O que
houve, O-2?
O jovem de
cabelos brancos fez um gesto vago, como se quisesse pedir desculpas
pelo incômodo.
— O-l
quer falar com urgência com o senhor. Eu lhe disse que o senhor se
encontra na conferência diária, mas ele insiste. O que devo fazer?
— Diga-lhe
que terá de esperar — respondeu o comandante, lançando um olhar
indagador para o psicólogo. — Quando puder falar com ele, eu lhe
avisarei.
— Está
bem, C-l — disse O-2 com certo alívio na voz.
A tela
apagou-se.
— Quem é
esse O-2? — perguntou o médico. — Tive uma boa impressão dele.
Você não concorda comigo, Ps-5?
— Você
acha que poderia ser nosso aliado?
— Acredito
que sim. Até chego a acreditar que quase todos os homens serão
nossos aliados quando souberem da verdade, isto é, quando souberem
quais são nossos objetivos.
— Tenho
certeza disso — concordou Ps-5 e dirigiu-se ao comandante. — Que
tal O-l? Será que estará disposto a colaborar?
— Não
tenho certeza. Está aguardando o momento de ocupar meu lugar. Como
já viu, quer falar comigo. Tenho certeza de que está louco de
vontade para matar-me. Nem pode esperar a hora.
Ps-5
refletiu intensamente. Depois levantou a cabeça.
— Quando
é que O-2 deverá ser eliminado no conversor?
O
comandante parecia espantado, mas não formulou nenhuma pergunta.
Levantou-se e foi à parede, onde havia um bloco com uma placa
inclinada, na qual se via uma série de controles eletrônicos. Os
dedos ágeis do comandante manejaram esses controles, até que o
aparelho expelisse uma ficha de plástico. Pegou-a e leu os dados
consignados na mesma. Depois disse:
— O
tempo de vida que resta a O-2 corresponde ao quinto de uma geração.
— Quer
dizer que ele se sentirá grato se estendermos o tempo que lhe resta.
Com O-l as coisas são diferentes. Ele quer ser comandante, mesmo
que, um belo dia, tenha de ser morto por seu sucessor. Aceita esta
perspectiva porque deseja o exercício temporário do poder. Quer
dizer que será nosso inimigo.
— É
isso mesmo — confirmou o comandante.
— O que
devemos fazer?
— Por
que não lhe comunicamos oficialmente a decisão que tomamos? —
perguntou D-3, em tom apaixonado. — Acho que seria mais simples
se...
— Não
será simples — disse Ps-5, sacudindo a cabeça. — Você se
esquece dos vigias. Eles possuem armas. E, diante delas, nosso povo
fica indefeso. Além disso, não sabemos quais as medidas tomadas por
nosso amigo do aposento ao lado. Nós, que estamos na sala de
comando, podemos defender-nos, pois esta foi feita para isso. Mas
nenhum de nós pode sair deste recinto, sem expor-se ao risco de ser
morto assim que chegue lá fora. Os vigias atêm-se estritamente às
velhas leis, pois não conhecem outra coisa. Obedecem ao Mestre,
pouco se importando quem seja ele. Não; devemos encontrar outros
caminhos para acabar com o domínio do desconhecido. E não deveremos
usar a violência, mas a astúcia. Devemos eliminar discretamente os
vigias, um após o outro. Seu amigo M-4 ajudará a fazer isso.
O rosto do
médico iluminou-se.
— Você
tem razão, Ps-5; como sempre. Mandarei chamar M-4. Será que, sem
sair daqui, podemos fazer isso, comandante? Talvez possamos
enviar-lhe o recado por intermédio de O-2...
— Acho
preferível não recorrer a ele — disse Ps-5. — Devemos chamá-lo
diretamente. Faça a ligação, comandante.
— Falarei
com ele — sugeriu o médico. — Pedir-lhe-ei que traga ferramentas
e alimentos concentrados. Instruirei minha seção — sorriu. —
São ordens do comandante.
E foi
assim que, dali a quinze minutos, os quatro conspiradores receberam
reforços.
Só depois
disso, chamaram O-2 e o informaram sobre o plano. O Oficial Dois
colocou-se ao lado dos amigos e prometeu fazer tudo que estivesse a
seu alcance para garantir o êxito do plano. Resolveram mandá-lo
para fora, a fim de que pudesse aliciar novos aliados. Os dois
maquinistas receberam ordens de pôr fora de ação os vigias, que
estivessem em posições isoladas, e levar à sala de comando as
armas, depois de desembuti-las da carcaça dessas máquinas. O ataque
contra os soberanos da nave só seria lançado quando o grupo
dispusesse de um número suficiente de armas.
Até então
não havia acontecido nada que pudesse justificar a suspeita de que o
Mestre estava tomando qualquer providência para impedir a atuação
do grupo. Ao que tudo indicava, resolvera aguardar. Será que seu
único meio de comunicação com o povo era a tela de imagem que
ficava atrás da sala de comando?
Essa
questão tornava-se importante, e teria de ser esclarecida o quanto
antes.
De
qualquer maneira, a ação morte natural para todos acabara de ser
desencadeada.
E não
haveria mais nada que pudesse detê-la.
*
* *
Por
enquanto a máquina implacável, posta em funcionamento pelos
antepassados, continuava em ação.
Emitidas
pelo comandante, as ordens de matar foram executadas pontualmente
pelos comandos da morte. Nunca se assistira à revogação de uma
ordem desse tipo, e seria inconcebível que esta fosse verificar-se
agora.
Os seis
robôs marchavam em passo cadenciado pelos corredores do mundo
metálico e aproximavam-se do setor técnico. Um indivíduo chamado
T-39 já vivera bastante. Hoje teria de morrer, a fim de que, com a
energia de seu corpo, retribuísse à comunidade aquilo que era
devido à mesma. A comunidade o vestira e alimentara, e agora chegara
a hora de pagar por isso. Nesse mundo impiedoso não se dava nada de
graça; nem mesmo a vida.
T-39 não
sabia que sua hora já havia chegado. Ninguém sabia. Qualquer um
poderia imaginar a época em que seria eliminado, pois a expectativa
de vida aproximada era conhecida, mas a data da execução era
mantida em segredo até o último instante.
T-39 não
estava só em seu camarote.
Espantou-se
ao reconhecer o visitante que desejava falar com ele. Não era todos
os dias que O-2 entrava em contato com o pessoal técnico, nem mesmo
com os chefes da respectiva divisão.
T-39
apontou para uma cadeira.
— Sente-se,
O-2. Espero que sua visita não signifique nada de mau.
— Não
se preocupe — respondeu o jovem oficial, que já havia informado os
chefes das outras divisões sobre os acontecimentos mais recentes. —
Vim para trazer uma notícia alegre e para pedir sua ajuda. É uma
história comprida, que pode ser encurtada.
T-39
ouviu-o em silêncio, sem interrompê-lo uma única vez. Lembrou-se
do comando da morte, que poderia aparecer qualquer dia para levá-lo.
A morte era encarada com tanta naturalidade que não tinha nada de
apavorante.
Mas, de
repente, surgiu a possibilidade de continuar a viver em vez de morrer
no conversor. De um instante para outro, o quadro do futuro
modificava-se por completo. Não teria de morrer: poderia viver.
A morte já
não era aceita como uma coisa natural.
Levantou-se
abruptamente.
— Conte
comigo, O-2! O que posso fazer para ajudar o senhor e seus amigos? Os
vigias...
— Os
vigias devem ser mantidos na ignorância até o último momento. Tudo
deve continuar como antes. Não provoque suspeitas, T-39! Informe as
pessoas nas quais possa confiar. E não hesite em eliminar
imediatamente um possível traidor. Só quando tivermos armas em
quantidade suficiente, poderemos declarar guerra aos vigias.
T-39
lembrou-se da situação em que se encontrava. Não queria que O-2
percebesse que a pergunta a ser formulada desse a entender que ele se
referia à sua própria pessoa.
— O que
vamos fazer quando o comando da morte aparecer para levar alguém?
Procuraremos salvar a vítima?
— De
forma alguma! Isso seria a coisa mais errada que poderíamos fazer.
Os seis vigias pertencentes ao comando reagiriam imediatamente e
entrariam em contato com o comando. E esse comando, meu caro, não
tem nada que ver com nosso comandante. Precisamos sacrificar as
pessoas que estejam prestes a ser levadas ao conversor, para que os
outros possam viver. Infelizmente não podemos alterar isto.
— Compreendo
— disse T-39 em tom desanimado.
Subitamente
sentiu uma coisa comprimir-lhe a garganta, mas esforçou-se para
evitar que o segundo-oficial percebesse alguma coisa.
— Não
devemos fazer nada que possa despertar a atenção dos vigias. A
rotina costumeira não deve ser interrompida...
— Por
enquanto! — disse O-2 com uma estranha ênfase e levantou-se. —
Permita que me despeça. Cumpra seu dever; e o senhor há de
reconhecer que é um dever mais nobre que o que vínhamos cumprindo.
Teremos uma vida livre e segura pela frente.
T-39 viu a
porta fechar-se. De repente, teve a impressão de estar só no mundo
ou na nave. Nunca se sentira tão abandonado e desamparado.
Onde
deveria começar? Evidentemente com os homens de sua divisão. Ele os
esclareceria e os prepararia para o momento inicial da resistência
contra os vigias!
Ouviu
passos...
T-39
aguçou o ouvido e empalideceu de repente.
Lá fora,
no corredor, soaram passos. Eram passos regulares e metálicos. Só
podiam ser os vigias.
Eram ao
menos seis vigias!
Ao
perceber o significado daquilo que se aproximava, T-39 sentiu-se
dominado pelo pânico. Era bem verdade que ainda havia uma esperança:
talvez viessem para levar outra pessoa de sua seção. Mas quem mais
residia nesse corredor? Somente T-18, que entrara no exercício de
suas funções há poucos dias, para um belo dia...
Subitamente
T-39 deu-se conta de que T-18 seria seu sucessor. Enquanto instruía
aquele jovem e o transformara em seu assistente, a idéia nunca lhe
ocorrera.
Seu
sucessor...
Os passos
cessaram abruptamente.
Dedos
metálicos bateram fortemente à porta.
Estava na
hora!
Subitamente
T-39, que nutria a esperança de mais alguns anos de vida pacata e
feliz, teve uma amarga decepção: o comando da morte ainda não
desconfiava da revolução e continuava a agir da mesma forma que
vinha agindo há milênios.
T-39 foi
incapaz de emitir um som. Seus lábios estavam enrijecidos.
Encontrava-se no centro do recinto em que vivera durante toda a vida.
Era uma moradia pobre e apertada, mas nunca conhecera outra coisa.
Apesar de tudo, achara que a vida valia a pena de ser vivida, embora
não visse um sentido especial na mesma.
O que
tinha um sentido grandioso era morrer uma morte natural. Nesse caso,
a morte não seria um fim cruel da vida, mas uma redenção. Quando
tivesse completado sua existência, o homem se deitaria para dormir.
Para sempre. Era apenas isto.
Mas
agora...
A porta
abriu-se. Um dos vigias entrou. Os outros permaneceram no corredor,
bloqueando todos os caminhos de fuga. Não o faziam por uma simples
questão de rotina, pois havia pessoas que resistiam ao inevitável e
tinham de ser levadas à força.
— Não!
— gritou T-39 e recuou até bater com as costas contra a cama. —
Não! Agora não!
As lentes
brilhantes do vigia fitaram-no com uma expressão indiferente. O robô
não conhecia sentimentos. Fora construído para essa tarefa, e a
cumpria fria e precisamente.
— O
comandante mandou que o senhor fosse eliminado — disse com a voz
automática. — Venha conosco.
T-39
refletiu intensamente para descobrir uma saída. Será que, se
soubesse o que estava acontecendo, O-2 poderia salvá-lo? Ou o
comandante?
— Por
que não me avisaram antes? — respondeu com a maior calma de que
foi capaz.
Um súbito
lampejo de esperança restituiu-lhe um pouco de sua tranqüilidade,
embora em seu interior rugisse a tormenta do desespero.
— Não
posso abandonar os projetos em andamento sem expor a comunidade a um
grave risco. Tenho de transmitir algumas instruções da maior
importância. Será que posso falar com o comandante?
— O
comandante ordenou sua morte — respondeu o robô com a voz fria. —
Ele deve ter providenciado para que não haja nenhuma lacuna. Venha
conosco!
— Talvez
ele se esqueceu...
— O
comandante é infalível.
“Sim”,
pensou T-39 com o coração amargurado, “o
comandante é infalível, mas ele se esqueceu de que me condenou à
morte. E agora só me resta morrer sem poder recorrer ao seu
auxílio.”
Por que
não?
Não
perdeu tempo. Saltou para o lado e comprimiu fortemente o botão do
interfone, estabelecendo uma ligação direta com o oficial de
serviço.
— Aqui
fala o comandante! — respondeu uma voz. — Quem está chamando
O-2?
— T-39.
O comando da morte chegou e quer levar-me. Há cinco minutos falei
com O-2. O senhor sabe...
— Sei,
sim — interrompeu-o o comandante. Seguiu-se uma pequena pausa. —
Não posso fazer nada pelo senhor, T-39. O senhor sabe por quê.
Acompanhe os vigias.
O mundo
parecia desmoronar à frente de T-39. Viu que os robôs se puseram em
movimento e se aproximaram dele. Desesperado, procurou segurar-se na
cama.
— Não
quero, não quero! Faça alguma coisa, comandante. O senhor pode.
Agora, que o futuro...
Não
conseguiu prosseguir. Subitamente alguma coisa pareceu fechar-lhe a
boca. Lembrou-se dos milhares de seres que se encontravam nos
corredores e nos camarotes da nave. Todos eles teriam diante de si o
mesmo destino que ele, mas agora contariam com a possibilidade de um
futuro melhor.
Desde que
ele, T-39, não os traísse.
Deixou
cair os braços. O interfone continuava ligado. T-39 sabia que o
comandante ouvia e esperava que ele se conformasse com o destino...
O
desespero do técnico transformou-se num heroísmo inconcebível.
— Está
bem, vigias — disse com a maior tranqüilidade. — Não resistirei
mais; irei com vocês. Passe bem, comandante. E... tudo de bom para o
senhor.
— Tenha
coragem, T-39! — disse a voz saída do alto-falante, revelando uma
tristeza evidente. — O que o senhor está fazendo não será em
vão; reverterá em benefício de toda a comunidade. Boa sorte!
— Obrigado
— respondeu T-39 em voz baixa e voltou a dirigir-se aos vigias. —
Vamos embora.
O vigia
não demonstrou o menor espanto diante da repentina modificação na
atitude de sua vítima. Afastou-se para dar passagem ao técnico. Sem
olhar para trás, T-39 saiu e, uma vez no corredor, seguiu para a
direita. Sabia que os robôs do comando da morte tinham vindo dessa
direção.
Com a
vítima no centro, estes seguiram por inúmeros corredores. O débil
zumbido dos potentes mecanismos situados no interior da nave
tornou-se cada vez mais forte. Cruzaram com mecânicos e outros
homens da equipe técnica. Estes pararam para dar passagem ao grupo
macabro. Quase todos os dias encontravam-se com o comando da morte.
T-39 olhou
para a frente; não lançou os olhos para a direita nem para a
esquerda. Preferia não ver ninguém, pois tinha receio de trair o
plano.
Entraram
num corredor estreito que terminava numa única porta. Esta abriu-se
automaticamente, deixando livre a passagem para uma sala.
T-39
prosseguiu em sua caminhada e parou no centro da sala. Olhou em
torno, perplexo. Os vigias entraram em forma, depois que a porta de
entrada fechou-se atrás deles.
T-39 sabia
que ninguém podia presenciar as execuções. Nunca ninguém soubera
dizer como era a sala da morte. Aquela tampa oval na parede devia ser
a entrada do conversor.
O chefe
dos vigias foi até lá e acionou o controle eletrônico. A tampa
metálica abriu-se lentamente, pondo à mostra uma abertura negra,
pela qual poderia passar um homem. Atrás dela, viu-se um plano
inclinado que levava para baixo. Era fácil adivinhar o que havia lá
embaixo.
T-39
estremeceu. De súbito, a ânsia de viver voltou a dominá-lo,
fazendo com que se esforçasse febrilmente para descobrir uma saída.
Mas, de
repente, teve a impressão de que ouviu a voz de O-2, falando-lhe do
futuro de seu povo. Também ouviu a ordem do comandante, e os votos
de felicidade que lhe dedicara.
“Não!
Não há nenhuma saída! Tenho de conformar-me com o destino!”,
pensou desesperado.
— Coloque
a cabeça na abertura! — disse a voz insensível do vigia.
T-39 teve
a impressão de que oferecia a cabeça ao cutelo do carrasco, muito
embora nunca tivesse ouvido falar numa decapitação. Ouviu os passos
dos robôs que se aproximaram, vindos de trás, e sentiu que alguém
o segurava pelas pernas.
Levou um
forte empurrão... e escorregou pelo plano inclinado, para as
profundezas negras e incertas do reator.
A morte
aguardava-o...
Lá em
cima, a tampa voltou a fechar-se, e tudo foi escuridão.
Mas
subitamente viu uma luz!
Seria a
fogueira atômica?
O calor
dessa fogueira atômica deveria devorá-lo?
Não
sentiu nada. Talvez fossem os nervos que já não reagiam como antes.
Quem sabe se não perdera os sentidos?
De
repente, parou de escorregar...
3
A
nave-patrulha do Império Solar materializou-se, saindo do
hiperespaço e retornando ao Universo normal. Vencera mais de dois
mil anos-luz num único salto, e agora os tripulantes levariam pelo
menos trinta minutos para calcular os dados do próximo salto e
introduzi-los no computador positrônico do aparelho de navegação.
Quando viu
o imediato levantar-se e “sacudir”
as últimas dores da transição, o comandante Wilmar Lund respirou
aliviado.
— É
sempre a mesma coisa — disse para consolá-lo. — Comigo também
acontece isso. Entre em contato com a enfermaria e pergunte se houve
algum acidente.
Isso era
raro, mas acontecia vez por outra. A passagem da quinta dimensão
para a quarta e a materialização ligada à mesma traziam certas
modificações estruturais. Via de regra, estas eram insignificantes
e não exigiam uma atenção especial.
Enquanto o
imediato ligava o interfone, Lund deleitou-se com a visão ampla do
Universo estrelado. A gigantesca tela panorâmica dava ao observador
a impressão de estar fitando diretamente a profusão de sóis. Na
verdade, apresentava apenas a imagem produzida pelos impulsos
eletrônicos. Em outras palavras, via-se apenas um quadro, não o
espaço propriamente dito.
Encontravam-se
a vinte mil anos-luz da Terra. A nave Arctic, um cruzador ligeiro do
Império Solar, era capaz de realizar hipersaltos até a distância
de dois mil anos-luz. Dali a seis ou sete horas, estariam pousando na
Terra.
Depois de
um vôo de patrulhamento, trazendo de volta alguns agentes do Serviço
de Segurança Solar, que vinham à Terra para apresentar seu
relatório, a Arctic retornava ao sistema solar. Entre tais agentes,
havia um tenente do Exército de Mutantes, um rato-castor chamado
Gucky.
Conforme
já foi dito, Gucky não era um ser humano.
Em algum
lugar do planeta do sol Moribundo viviam os últimos indivíduos de
sua raça, condenada à extinção, aguardando o destino que os
esperava. Um belo dia aquele sol frio se extinguiria de vez, ou então
se transformaria num sol novo, que consumiria tudo. Isso poderia
durar alguns milênios ou alguns anos.
Gucky era
uma mistura feliz entre um rato gigantesco e um castor. Tinha pele
cor de ferrugem e alcançara um domínio espantoso da linguagem
humana. Via de regra, ficava agachado sobre as pernas traseiras e se
apoiava sobre a cauda achatada de castor, para não perder o
equilíbrio. Sempre que sorria exibia o único dente roedor, que
também preenchia a função de triturar cenouras cruas, isto é, seu
alimento predileto.
Tudo isso
não representaria nada de notável, se não houvesse outras
circunstâncias que faziam de Gucky uma criatura milagrosa. Não era
por nada que esse ser despretensioso tornara-se membro do temido
Exército de Mutantes, uma tropa especial do administrador-geral do
Império Solar, Perry Rhodan.
Gucky era
telepata. Sabia absorver e compreender os pensamentos de seres que se
encontravam a grande distância. Além disso, era telecineta. Movia
um objeto sem tocar nele, e isso por uma distância considerável.
Por fim, gozava da fama de ser um dos melhores teleportadores do
Universo. Suas forças espirituais lhe permitiam transferir seu corpo
de um lugar para outro. Para isso, ele se desmaterializava e voltava
a materializar-se no local escolhido.
Graças a
essas três qualidades, Gucky gozava entre os terranos maior fama que
qualquer outro membro do Exército de Mutantes. Seu aspecto esquisito
e sua estatura que não ultrapassava um metro em nada abalavam sua
fama. Todos o tratavam com o devido respeito. Era bem verdade que,
muitas vezes, esse tratamento era inspirado no medo. É que não se
pode deixar de ressaltar que Gucky tinha o hábito de brincar com
seus dons. Geralmente ele o fazia para divertir-se; mas dali não se
poderia concluir que a pessoa que se tornasse objeto das suas
brincadeiras também se alegrasse com as mesmas.
Quando a
Arctic materializou-se, Gucky estava a caminho do depósito de
mantimentos. Sentia fome e pretendia saciá-la o quanto antes. Desde
o momento em que viera dar em Blisher III, um planeta situado nos
confins do Saco de Carvão, que em sua opinião não se revestia da
menor importância, seu dente roedor não se exercitara em mais nada
que valesse a pena. Estava na hora de que houvesse uma modificação
no que dissesse respeito às suas provisões de mantimentos.
O cadete
Brugg gostava muito de animais, mas não foi por isso que lhe
confiaram o cargo de oficial aprovisionador.
No
entanto, quando de repente a porta de seu “reino”
se abriu, dando passagem a um pequeno monstro de pêlo cor de
ferrugem, que sorria com seu dente roedor, por pouco o cadete não
sofre um ataque.
Nunca vira
Gucky, embora soubesse que a bordo da Arctic havia membros do
Exército de Mutantes. Por outro lado, um animal ou mesmo uma
inteligência com aspecto de animal não era nada de extraordinário.
Todavia, Brugg nunca teria a idéia de acreditar que Gucky fosse uma
criatura inteligente.
— De
onde você fugiu? — perguntou em tom desconfiado, assim que se
recuperou do susto. — Seu dono se esqueceu de trancá-lo?
Abaixou-se
para acariciar o estranho visitante.
— Venha
logo e conte ao titio onde é seu lugar...
No
primeiro instante, Gucky perdeu a fala, mas logo percebeu, por via
telepática, que o cadete Brugg era bondoso e inofensivo. Deixou-se
cair sobre os pés e ficou sentado que nem um coelho. Deixou as patas
dianteiras na horizontal, com as “mãozinhas”
caídas, mais ou menos como um cão bassê que fica sentado sobre as
pernas traseiras.
Lançou um
olhar devoto para o cadete e sorriu numa atitude de expectativa.
— Ora
veja! Que engraçadinho! — disse Brugg, meneando a cabeça. — O
que é que o bichinho quer por isso?
Gucky teve
vontade de dizer-lhe que algumas cenouras bem fresquinhas não lhe
fariam mal, mas resolveu continuar com a brincadeira. Não era todos
os dias que se encontrava com alguém que ainda não o conhecia.
Ergueu as orelhas pontudas e bateu com a cauda no chão. Parecia uma
foca à qual se oferece um peixe.
— Que
tal um pedacinho de açúcar? — perguntou o cadete Brugg, sem
esperar resposta.
Afinal,
quem fala com cachorros e gatos não costuma esperar resposta. Quando
o estranho visitante sacudiu violentamente a cabeça, o espanto de
Brugg foi tamanho.
— Ah;
não quer um pedacinho de açúcar? — Brugg admirou-se e ficou
refletindo sobre quem teria ensinado isso a esse bichinho engraçado.
— Quer um pedaço de lingüiça?
Gucky
sacudiu a cabeça com mais força. Não fazia segredo da repugnância
que sentia pela alimentação não-vegetariana.

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