sábado, 20 de agosto de 2016

P-081 - A Nave dos Antepassados - Clark Darlton [Parte 2]

Desconfiava de que uma decisão estava iminente. Se M-7 não fosse um espião, seria um amigo. Se ele, M-4, ainda estivesse vivo no dia seguinte, poderia ter certeza de que contava de fato com um amigo.
Muito bem! Então diga o que o deixa tão deprimido. É a vida que levamos? Ou existe algum motivo especial?
Por que vou incomodá-lo com meus problemas? Acho que todo mundo tem de carregar os seus.
Um peso carregado por duas pessoas torna-se mais leve.
M-4 estava de acordo. Refletiu por alguns segundos e disse:
Juntamente com o Doutor Três atraí um vigia para uma cilada e o coloquei fora de ação. Desmontamos suas armas e nos apoderamos das mesmas. Depois disso, D-3 me deu um calmante, e eu me acostumei ao mesmo. Não posso viver mais sem sonhar. Acontece que D-3 está desaparecido há dois dias.
M-7 começou a desconfiar do que havia atrás deste relato lacônico.
Será que, além dele, havia outras pessoas que não concordavam com a ordem vigente e haviam resolvido acabar com o domínio dos robôs e do comandante? Foi por puro acaso que estabeleceu contato com uma dessas pessoas. Mas, ao que parecia, o papel de M-4 era secundário. Entretanto assumia certa importância como elemento de ligação.
É fácil destruir um vigia?
Não é difícil. Os robôs foram construídos de maneira tal que ninguém lhes pode fazer nada, mas seus criadores não se esqueceram de incluir neles um fator de segurança. E, com a inclusão desse fator, seus construtores cometeram uma pequena falha. Na nuca dos robôs existe um parafuso quase imperceptível. Girando-o, o vigia fica desativado. Se necessário, uma forte pancada pode produzir o mesmo resultado. Com isso, ele se transforma num montão de lata indefeso, apesar das perigosas armas energéticas embutidas.
Quer dizer que, se desejássemos, poderíamos colocar fora de ação todos os robôs?
A simples idéia deixou M-4 assustado. Chegou até a empalidecer.
Seria uma loucura...!
Seria mesmo, M-4? O que aconteceria se um grupo de homens decididos resolvesse eliminar todos os vigias? Esses homens poderiam apoderar-se das armas e enfrentar o comandante. Com isso, o regime de terror chegaria ao fim.
Pois já estamos acostumados. Nossos antepassados viveram como nós vivemos hoje. Quando será que isso começou?
Já andei quebrando a cabeça sobre isso. Mas não adianta mais. Chegou a hora de agir. Por coincidência D-3 escolheu-o para seu homem de confiança. A fim de levar avante seu intento, precisava de um maquinista, e escolheu você. Agora também pertenço ao grupo. Precisamos falar imediatamente com D-3...
Ele está desaparecido há dois dias, M-7. Não sei o que aconteceu. Quem sabe se o crime foi descoberto?
Se fosse assim, você também já estaria morto — M-7 sacudiu a cabeça. — Será que você acredita que o médico ficaria calado?
Talvez ficasse quieto — disse M-4 um tanto inseguro. — Onde estará, se ainda estiver vivo?
Não será difícil descobrir. Afinal, é o médico de nossa seção. Se eu disser que estou doente...
Há alguém que o representa.
M-7 calou-se obstinadamente. Esquecera esse detalhe. Depois de algum tempo, disse:
Pois vamos agir! Durante nosso próximo turno de serviço, começaremos a eliminar os vigias. Enquanto ninguém descobrir, tudo bem. E, quando os incidentes se tornarem conhecidos, outras pessoas se juntarão a nós. Na verdade, ninguém está satisfeito com a existência que levamos, já que não nos dizem qual é o destino de nossa viagem.
Antes que pudessem transformar seu plano em realidade, o aparelho de intercomunicação soou no camarote.
Uma voz evidentemente disfarçada disse:
Alô, M-4. Responda!
M-7 fez um sinal ao companheiro.
Aqui fala M-4 — disse o maquinista, depois de ter ligado o videofone.
O senhor está só no camarote?
M-7 acenou vigorosamente com a cabeça. M-4 disse:
Sim, estou só. Quem fala?
O tom de voz do outro interlocutor mudou e, de repente, os dois maquinistas tiveram a impressão de que o mesmo já lhes era conhecido.
Preste atenção, M-4! Pegue suas ferramentas e compareça imediatamente ao setor central. Dirija-se à sala de comando. Estamos esperando o senhor.
É o Doutor Três?
Sim, sou eu. Ande depressa!
Não desligue! — gritou M-4 em tom desesperado. — Quero dizer mais uma coisa.
O que houve?
Posso levar um amigo?
Houve uma ligeira pausa.
Como é que ele soube? — perguntou D-3.
Neste momento não posso explicar nada, mas ele está conosco. Estou precisando do meu tranqüilizante...
Traga seu amigo — disse D-3. — Mas não perca tempo. É uma questão de vida e morte, não só para mim ou para o senhor, mas para todos que vivem nesta nave. Entendido?
Iremos imediatamente!
Outro detalhe, M-4! Passe pelo Instituto Médico e pegue um embrulho já preparado, que se destina a mim. Basta citar seu nome.
E se alguém formular perguntas?
Diga que está obedecendo ordens do comandante. Diga isso a qualquer pessoa que procurar detê-lo. Entendido?
O comandante? — perguntou M-4 em tom de perplexidade.
Mas o médico já havia desligado. Olhou para M-7.
O que será isso? Você compreendeu?
M-7 acenou lentamente com a cabeça.
Sim, acho que compreendo. Finalmente apareceu um homem que tem coragem de dar um sentido à existência inútil que levamos. Apressemo-nos, M-4, pois do contrário seu trabalho terá sido em vão. Precisamos ajudá-lo.
Saíram correndo para o corredor.


2



O rosto fitou-os de cima.
Era um rosto de velho. Estava profundamente enrugado, e seus traços mostravam certa resignação. Os olhos avermelhados irradiavam bondade e inflexibilidade. Seus lábios pareciam estar sempre cerrados, revelando um gênio cruel... ou seria apenas enérgico?
O comandante inclinou-se para a tela. Ele, que era o senhor absoluto da vida e da morte de seu povo, inclinou-se diante de uma simples imagem.
Ou será que não era uma imagem?
Não, não era; o rosto moveu-se. A boca começou a falar. Um alto-falante oculto transmitiu uma voz agradável e simpática.
Comandante, você abriu a porta e trouxe três homens. O que significa isso? Esperava que viesse com seu sucessor. Qual é o motivo da presença desses homens?
O comandante voltou a inclinar o corpo. Estava pálido e parecia deprimido. Devia sentir um medo enorme do desconhecido que aparecia na tela.
Eles me obrigaram, senhor. Se não os tivesse trazido, eles me teriam matado antes que eu pudesse transmitir o conhecimento do segredo a meu sucessor. Nosso povo ficaria acéfalo.
O rosto lançou-lhe um olhar colérico.
Você falhou, comandante! A morte seria uma pena muito suave para você, mas, de qualquer maneira, ela o aguarda.
Seguiu-se uma ligeira pausa. O rosto permanecia impassível. Finalmente a voz prosseguiu:
O que desejam de mim e quem são vocês?
Ps-5 procurou libertar-se do encanto irradiado pelo rosto, cuja rigidez o deixou bastante impressionado. Parecia morto, mas a imagem não poderia mentir. O homem que aparecia na tela vivia num setor desconhecido da gigantesca nave...
...e era o verdadeiro soberano de seu povo.
O comandante não passava de uma marionete.
O psicólogo principiou em tom hesitante:
Viemos para saber a verdade. Até hoje acreditávamos que o comandante fosse o guardião de um corpo de leis velhas e superadas. Mas agora descobrimos que há alguém que está acima dele: o senhor. Sou eu que pergunto: quem é o senhor? E por onde anda escondido?
O rosto demonstrou espanto, que logo se transformou em cólera. Mas a voz não revelou essas emoções. Começou em tom calmo e objetivo:
Suas perguntas são monstruosas e contrárias às leis vigentes. Neste momento condeno-os a morrerem no conversor. Comandante, providencie a execução desta ordem; convoque o comando da morte. A sentença será executada imediatamente.
Ps-5 sorriu e dirigiu a arma contra o comandante.
Muito bem, Mestre — disse em tom frio. — Se é assim, vou matar o comandante diante de suas vistas. Vejamos o que acontecerá depois disso.
O médico e R-75 continuavam parados na porta que dava para o aposento particular do comandante. Mantinham as armas engatilhadas e fitavam o grande rosto. Esperavam ouvir a qualquer momento o ruído forte dos passos metálicos, mas tudo permaneceu em silêncio.
Não se preocupem, amigos — disse Ps-5 por cima do ombro. — Não virá ninguém. Quem poderia alarmar os robôs? Só o comandante. O grande Mestre que aparece na tela não o fará, pois ninguém sabe de sua existência. É possível que nem mesmo os vigias saibam — voltou a dirigir-se à tela. — Então, o que me diz? Realmente terei de matar o comandante? Ou está disposto a negociar?
O que deseja? — soou o alto-falante, enquanto os lábios do desconhecido se moviam para formular as palavras.
Ao que parecia, tinha uma habilidade extraordinária para adaptar-se às situações mais variadas.
Qual é o segredo que só pode ser conhecido pelo C-l? Deve ter uma importância tremenda, pois se há duas pessoas que o conhecem, uma delas terá de morrer. Mas a situação ficará melindrosa se o comandante morrer sem revelar o segredo a alguém... Por isso quero fazer uma pergunta a você...
Sem que se desse conta disso, Ps-5 estava usando o tratamento íntimo que o desconhecido usara para com ele. Porém tal tratamento não exprimia intimidade, e sim desprezo.
Quero fazer uma pergunta a você: qual é o segredo?
Por um instante não aconteceu nada, mas finalmente veio a resposta:
Você mesmo acaba de dizer que o segredo só pode ser conhecido por uma criatura mortal de cada vez. Se houver mais de uma criatura que o conheça, todas terão de morrer. Você está com vontade de morrer?
Deixe isso por minha conta, Mestre — respondeu Ps-5 em tom irônico. — Responda à minha pergunta!
Seja o que você quiser. Eu sou a corporificação da vontade de seus antepassados e transmito esta vontade ao comandante. Ele é apenas um intermediário entre os vivos e os mortos. Cabe-lhe manter a ordem vigente e escolher seu sucessor. Feito isso, morrerá. É só.
Ps-5 acenou com a cabeça. Se é que estas palavras o decepcionaram, não deu mostras disso.
Então é só? E os vigias? São seres mecânicos feitos para controlar os homens. Por ordem de quem estão agindo?
Por ordem minha.
Quer dizer que é por ordem dos antepassados, não é? Pois eu lhe digo uma coisa: se os antepassados recorrem a máquinas para nos impor sua vontade, eles não merecem que nos lembremos deles. Nós os esqueceremos e criaremos nossas próprias leis. A morte violenta será banida; não permitiremos que a vida natural cesse prematuramente. Seremos nossos senhores e faremos com que a máquina volte a ser aquilo que sempre deveria ter sido: o servo do homem.
Uma mudança assustadora ocorreu com o rosto. A expressão do desconhecido cambiou entre a raiva, a decepção e um tremendo ódio.
Quando a voz voltou a falar, era fria. Porém também era agradável e melódica. O contraste era tão flagrante que não havia como tirar qualquer conclusão em relação às verdadeiras idéias de quem falava.
Vocês subestimam o valor da máquina e de seus recursos positrônicos. A máquina e o sistema de computação positrônica substituem o homem e até chegam a ser superiores ao mesmo. Quando criaram os vigias, nossos antepassados sabiam disso. Se ignorarmos a vontade deles, estaremos condenando nossa civilização ao desaparecimento.
Pois que desapareça! — exclamou Ps-5 em tom furioso e decidido. — Se não souber defender-se deve desaparecer imediatamente.
Antes de você, já houve pessoas que tentaram isso. Todas elas terminaram no conversor.
Sim, o conversor! Também é uma máquina. No dia em que atirarmos no conversor todos os robôs que se encontram a bordo, teremos uma grande festa. Os robôs fornecerão energia para várias gerações.
Mais uma vez, o rosto foi desfigurado pelo ódio. Os olhos vermelhos brilharam como um par de brasas.
Você está condenado à morte, rebelde! Comandante! Chame os guardas!
O comandante empalideceu.
Ele me matará, senhor. Quem instruirá meu sucessor?
Seu covarde! Caso seja necessário, saiba ao menos morrer como um homem. Mas antes disso cumpra seu dever e dê o alarme para os vigias.
Ps-5 mantinha a arma apontada. Sua mão não tremia.
Comandante, o senhor estará morto antes que tenha tempo de dar um único passo. Como poderia chamar o comando da morte?
Apesar da situação desesperada em que se encontrava, o comandante sorriu.
O senhor não poderá evitar isso, psicólogo. Está vendo a caixinha que tenho na mão? — levantou dois dedos e pôs à mostra um pequeno objeto que até então ficara oculto em sua mão. — Peguei isto há muito tempo. Mesmo que eu morra, logo os vigias estarão aqui. Se eu largar esta caixa, a trave se soltará e o circuito elétrico se fechará. O sinal de rádio convocará o comando da morte. Pode disparar, psicólogo.
O comandante já se sentia mais seguro. Sabia que os conspiradores não cometeriam um ato irrefletido, nem o matariam na situação em que se encontravam. Não se atreveriam a tanto. Se é que a vida do comandante pudesse representar qualquer vantagem para eles, não o matariam.
Seu raciocínio foi correto.
Se eu não atirar, o senhor também dará o alarma? — perguntou Ps-5 em tom de expectativa. Continuava a apontar a arma para o comandante. — Se obedecer ao sujeito que aparece na tela, está liquidado. Ele mesmo acaba de dizer que providenciará sua morte. Para que morrer, se isso em nada ajudará seu povo? Ainda não percebeu que estamos sendo enganados? Não está na hora de cuidarmos do nosso destino, em vez de continuarmos a obedecer às leis de uma geração passada, que hoje já não têm a menor validade, porque estão superadas pelos acontecimentos?
O comandante parecia indeciso. A voz do alto-falante disse sem a menor ênfase:
Obedeça às minhas ordens, comandante. Chame os vigias!
Mas a semente lançada pelo psicólogo já havia germinado. Durante toda a vida, o comandante se conformara com a perspectiva de um fim violento, por considerar o mesmo como um pressuposto da própria existência. E de repente se lhe oferecia a oportunidade de continuar a viver! De continuar a viver até o dia em que a própria idade lhe trouxesse a morte natural.
Sem olhar para o rosto que aparecia na tela, disse:
Se não chamar os vigias, vocês garantem minha vida?
O psicólogo suspirou aliviado. A luta estava decidida.
Damos nossa palavra — disse e abaixou o cano da arma. Apontou para a porta. — Vamos à sala de comando. Não convém que as medidas a serem adotadas sejam discutidas na frente deste fantasma — voltou a dirigir-se à imagem. — Nós o avisaremos do resultado da nossa conferência. Até lá, só podemos pedir-lhe que tenha paciência.
Pela última vez, comandante: dê o alarma!
Ps-5 segurou o comandante pelo braço e levou-o para fora. Sem dizer uma palavra, D-3 e R-75 seguiram-no e fecharam a porta atrás de si. As ordens do desconhecido soaram pelo recinto, sem produzir o menor resultado:
Dê a ordem, comandante! Dê o alarma!
Depois a voz calou-se.
Ps-5 respirou aliviado.
Ainda bem que o senhor agiu razoavelmente, comandante. Não tenho a menor dúvida de que é um homem honesto e cumpridor do dever. O que foi que o levou a mudar de opinião? Terá sido apenas a perspectiva de viver mais algum tempo? Fale com franqueza. Será preferível que, antes de responder, largue o aparelho de alarma.
O comandante fez que sim. Comprimiu o dedo contra um botão quase invisível do instrumento que trazia na mão e colocou-o cautelosamente sobre a mesa. Depois suspirou aliviado e sentou.
Serei sincero. Peço-lhes que me permitam que comece do início. Quando fui chamado à presença do comandante, que me informou sobre a tarefa a ser cumprida, eu ainda era muito jovem. Levei-o ao conversor, conforme era minha obrigação, e assumi minhas funções. Desde então, sou um homem solitário. Eu lhe garanto que minha vida é mais monótona que a sua. Afinal, todos vocês conhecem o trabalho e a companhia de outras pessoas. Nem sequer tenho direito às férias e também não tenho descendentes. A única variação que ocorre na minha vida são as conferências diárias, a elaboração da lista das pessoas que devem morrer e a emissão das ordens recebidas pelo Mestre. É assim que ele quer ser chamado.
Quem é esse Mestre, C-l? — perguntou o psicólogo. — O senhor tem alguma idéia de onde ele vive, ou de qual é a parte da nave em que se esconde?
Infelizmente não. Ele só apareceu na minha frente sob a forma que os senhores já conhecem. A tela é a única forma de contato.
Como foi que ele pôde exercer uma influência tão forte sobre o senhor?
Isso é fácil de explicar, Ps-5. Desde jovem, não conheço outra coisa senão esse rosto que aparece na tela. Todos os dias recebia suas instruções, e, caso não o obedecesse, aquele rosto me ameaçava com os castigos mais cruéis. Mas o que mais me impressionava era a alusão constante à herança dos antepassados. O Mestre sempre fazia questão de ressaltar que devíamos colocar nossas vidas a serviço do povo, até que a nave chegue ao destino. Nunca fiquei sabendo qual é esse destino. Nunca me encontrei pessoalmente com o Mestre. Porém sua imagem ampliada exerce um poder tão forte que sempre me tem sido impossível subtrair-me à sua influência. Além disso, ninguém tem coragem de romper com uma tradição antiga.
Pois nós temos! — respondeu Ps-5 com um gesto zangado. — Compreendo o senhor. Entretanto, por mais estranho que possa parecer, o Mestre não exerceu sobre mim uma impressão tão marcante. Notei nele alguma coisa que me incomodava. Não sei o que foi, mas a imagem não parecia viva e autêntica. Além disso, há certa dissonância entre som e imagem; tive a impressão de que a transmissão não funciona bem. Não sei se consegui fazer-me entendido...
Sei o que você quer dizer — interveio o médico. — Tive uma impressão semelhante, mas não sei o que me incomodou. De qualquer maneira estou convencido de que há algo de errado naquilo. O que é que você acha, R-75?
Concordo plenamente com vocês. Infelizmente não sou especialista em aparelhos eletrônicos, mas os homens da Seção Mecânica deveriam ser capazes de ajudar-nos.
Os homens da Seção Mecânica são os maquinistas — disse D-3, refletindo em voz alta. — Sim; talvez a solução seja esta.
Está pensando em seu elemento de confiança M-4? — perguntou o psicólogo, adivinhando os pensamentos do amigo. — É verdade; devíamos consultá-lo.
Sem compreender nada, o comandante assistira à discussão. Sua mente teria de realizar uma tremenda adaptação para ver na imagem do Mestre, que até então fora seu soberano absoluto, apenas uma transmissão defeituosa de televisão, cuja sincronização não funcionava como devia.
Não sei se devemos atribuir tanta importância a esse fato... — principiou em tom hesitante.
Devemos, sim! — retrucou Ps-5 em tom resoluto. — Acho que este ponto se reveste da maior importância. Devemos descobrir se o defeito realmente existe. É bem possível que o equipamento de transmissão esteja em perfeito estado.
Os homens fitaram-no sem compreender nada. Não sabiam onde pretendia chegar. Mas o psicólogo não teve tempo de abordar o assunto com maiores detalhes, pois nesse instante o interfone deu um sinal.
Alguém desejava falar com o comandante.
Quer que responda?
Ps-5 fez que sim.
Naturalmente. Enquanto não tivermos chegado a uma conclusão sobre as medidas que devemos adotar, não devemos provocar suspeitas. Talvez seja apenas um chamado de rotina.
O comandante levantou e comprimiu um botão embutido na armação. A tela da esquerda iluminou-se.
Era o oficial de ligação.
O que houve, O-2?
O jovem de cabelos brancos fez um gesto vago, como se quisesse pedir desculpas pelo incômodo.
O-l quer falar com urgência com o senhor. Eu lhe disse que o senhor se encontra na conferência diária, mas ele insiste. O que devo fazer?
Diga-lhe que terá de esperar — respondeu o comandante, lançando um olhar indagador para o psicólogo. — Quando puder falar com ele, eu lhe avisarei.
Está bem, C-l — disse O-2 com certo alívio na voz.
A tela apagou-se.
Quem é esse O-2? — perguntou o médico. — Tive uma boa impressão dele. Você não concorda comigo, Ps-5?
Você acha que poderia ser nosso aliado?
Acredito que sim. Até chego a acreditar que quase todos os homens serão nossos aliados quando souberem da verdade, isto é, quando souberem quais são nossos objetivos.
Tenho certeza disso — concordou Ps-5 e dirigiu-se ao comandante. — Que tal O-l? Será que estará disposto a colaborar?
Não tenho certeza. Está aguardando o momento de ocupar meu lugar. Como já viu, quer falar comigo. Tenho certeza de que está louco de vontade para matar-me. Nem pode esperar a hora.
Ps-5 refletiu intensamente. Depois levantou a cabeça.
Quando é que O-2 deverá ser eliminado no conversor?
O comandante parecia espantado, mas não formulou nenhuma pergunta. Levantou-se e foi à parede, onde havia um bloco com uma placa inclinada, na qual se via uma série de controles eletrônicos. Os dedos ágeis do comandante manejaram esses controles, até que o aparelho expelisse uma ficha de plástico. Pegou-a e leu os dados consignados na mesma. Depois disse:
O tempo de vida que resta a O-2 corresponde ao quinto de uma geração.
Quer dizer que ele se sentirá grato se estendermos o tempo que lhe resta. Com O-l as coisas são diferentes. Ele quer ser comandante, mesmo que, um belo dia, tenha de ser morto por seu sucessor. Aceita esta perspectiva porque deseja o exercício temporário do poder. Quer dizer que será nosso inimigo.
É isso mesmo — confirmou o comandante.
O que devemos fazer?
Por que não lhe comunicamos oficialmente a decisão que tomamos? — perguntou D-3, em tom apaixonado. — Acho que seria mais simples se...
Não será simples — disse Ps-5, sacudindo a cabeça. — Você se esquece dos vigias. Eles possuem armas. E, diante delas, nosso povo fica indefeso. Além disso, não sabemos quais as medidas tomadas por nosso amigo do aposento ao lado. Nós, que estamos na sala de comando, podemos defender-nos, pois esta foi feita para isso. Mas nenhum de nós pode sair deste recinto, sem expor-se ao risco de ser morto assim que chegue lá fora. Os vigias atêm-se estritamente às velhas leis, pois não conhecem outra coisa. Obedecem ao Mestre, pouco se importando quem seja ele. Não; devemos encontrar outros caminhos para acabar com o domínio do desconhecido. E não deveremos usar a violência, mas a astúcia. Devemos eliminar discretamente os vigias, um após o outro. Seu amigo M-4 ajudará a fazer isso.
O rosto do médico iluminou-se.
Você tem razão, Ps-5; como sempre. Mandarei chamar M-4. Será que, sem sair daqui, podemos fazer isso, comandante? Talvez possamos enviar-lhe o recado por intermédio de O-2...
Acho preferível não recorrer a ele — disse Ps-5. — Devemos chamá-lo diretamente. Faça a ligação, comandante.
Falarei com ele — sugeriu o médico. — Pedir-lhe-ei que traga ferramentas e alimentos concentrados. Instruirei minha seção — sorriu. — São ordens do comandante.
E foi assim que, dali a quinze minutos, os quatro conspiradores receberam reforços.
Só depois disso, chamaram O-2 e o informaram sobre o plano. O Oficial Dois colocou-se ao lado dos amigos e prometeu fazer tudo que estivesse a seu alcance para garantir o êxito do plano. Resolveram mandá-lo para fora, a fim de que pudesse aliciar novos aliados. Os dois maquinistas receberam ordens de pôr fora de ação os vigias, que estivessem em posições isoladas, e levar à sala de comando as armas, depois de desembuti-las da carcaça dessas máquinas. O ataque contra os soberanos da nave só seria lançado quando o grupo dispusesse de um número suficiente de armas.
Até então não havia acontecido nada que pudesse justificar a suspeita de que o Mestre estava tomando qualquer providência para impedir a atuação do grupo. Ao que tudo indicava, resolvera aguardar. Será que seu único meio de comunicação com o povo era a tela de imagem que ficava atrás da sala de comando?
Essa questão tornava-se importante, e teria de ser esclarecida o quanto antes.
De qualquer maneira, a ação morte natural para todos acabara de ser desencadeada.
E não haveria mais nada que pudesse detê-la.

* * *

Por enquanto a máquina implacável, posta em funcionamento pelos antepassados, continuava em ação.
Emitidas pelo comandante, as ordens de matar foram executadas pontualmente pelos comandos da morte. Nunca se assistira à revogação de uma ordem desse tipo, e seria inconcebível que esta fosse verificar-se agora.
Os seis robôs marchavam em passo cadenciado pelos corredores do mundo metálico e aproximavam-se do setor técnico. Um indivíduo chamado T-39 já vivera bastante. Hoje teria de morrer, a fim de que, com a energia de seu corpo, retribuísse à comunidade aquilo que era devido à mesma. A comunidade o vestira e alimentara, e agora chegara a hora de pagar por isso. Nesse mundo impiedoso não se dava nada de graça; nem mesmo a vida.
T-39 não sabia que sua hora já havia chegado. Ninguém sabia. Qualquer um poderia imaginar a época em que seria eliminado, pois a expectativa de vida aproximada era conhecida, mas a data da execução era mantida em segredo até o último instante.
T-39 não estava só em seu camarote.
Espantou-se ao reconhecer o visitante que desejava falar com ele. Não era todos os dias que O-2 entrava em contato com o pessoal técnico, nem mesmo com os chefes da respectiva divisão.
T-39 apontou para uma cadeira.
Sente-se, O-2. Espero que sua visita não signifique nada de mau.
Não se preocupe — respondeu o jovem oficial, que já havia informado os chefes das outras divisões sobre os acontecimentos mais recentes. — Vim para trazer uma notícia alegre e para pedir sua ajuda. É uma história comprida, que pode ser encurtada.
T-39 ouviu-o em silêncio, sem interrompê-lo uma única vez. Lembrou-se do comando da morte, que poderia aparecer qualquer dia para levá-lo. A morte era encarada com tanta naturalidade que não tinha nada de apavorante.
Mas, de repente, surgiu a possibilidade de continuar a viver em vez de morrer no conversor. De um instante para outro, o quadro do futuro modificava-se por completo. Não teria de morrer: poderia viver.
A morte já não era aceita como uma coisa natural.
Levantou-se abruptamente.
Conte comigo, O-2! O que posso fazer para ajudar o senhor e seus amigos? Os vigias...
Os vigias devem ser mantidos na ignorância até o último momento. Tudo deve continuar como antes. Não provoque suspeitas, T-39! Informe as pessoas nas quais possa confiar. E não hesite em eliminar imediatamente um possível traidor. Só quando tivermos armas em quantidade suficiente, poderemos declarar guerra aos vigias.
T-39 lembrou-se da situação em que se encontrava. Não queria que O-2 percebesse que a pergunta a ser formulada desse a entender que ele se referia à sua própria pessoa.
O que vamos fazer quando o comando da morte aparecer para levar alguém? Procuraremos salvar a vítima?
De forma alguma! Isso seria a coisa mais errada que poderíamos fazer. Os seis vigias pertencentes ao comando reagiriam imediatamente e entrariam em contato com o comando. E esse comando, meu caro, não tem nada que ver com nosso comandante. Precisamos sacrificar as pessoas que estejam prestes a ser levadas ao conversor, para que os outros possam viver. Infelizmente não podemos alterar isto.
Compreendo — disse T-39 em tom desanimado.
Subitamente sentiu uma coisa comprimir-lhe a garganta, mas esforçou-se para evitar que o segundo-oficial percebesse alguma coisa.
Não devemos fazer nada que possa despertar a atenção dos vigias. A rotina costumeira não deve ser interrompida...
Por enquanto! — disse O-2 com uma estranha ênfase e levantou-se. — Permita que me despeça. Cumpra seu dever; e o senhor há de reconhecer que é um dever mais nobre que o que vínhamos cumprindo. Teremos uma vida livre e segura pela frente.
T-39 viu a porta fechar-se. De repente, teve a impressão de estar só no mundo ou na nave. Nunca se sentira tão abandonado e desamparado.
Onde deveria começar? Evidentemente com os homens de sua divisão. Ele os esclareceria e os prepararia para o momento inicial da resistência contra os vigias!
Ouviu passos...
T-39 aguçou o ouvido e empalideceu de repente.
Lá fora, no corredor, soaram passos. Eram passos regulares e metálicos. Só podiam ser os vigias.
Eram ao menos seis vigias!
Ao perceber o significado daquilo que se aproximava, T-39 sentiu-se dominado pelo pânico. Era bem verdade que ainda havia uma esperança: talvez viessem para levar outra pessoa de sua seção. Mas quem mais residia nesse corredor? Somente T-18, que entrara no exercício de suas funções há poucos dias, para um belo dia...
Subitamente T-39 deu-se conta de que T-18 seria seu sucessor. Enquanto instruía aquele jovem e o transformara em seu assistente, a idéia nunca lhe ocorrera.
Seu sucessor...
Os passos cessaram abruptamente.
Dedos metálicos bateram fortemente à porta.
Estava na hora!
Subitamente T-39, que nutria a esperança de mais alguns anos de vida pacata e feliz, teve uma amarga decepção: o comando da morte ainda não desconfiava da revolução e continuava a agir da mesma forma que vinha agindo há milênios.
T-39 foi incapaz de emitir um som. Seus lábios estavam enrijecidos. Encontrava-se no centro do recinto em que vivera durante toda a vida. Era uma moradia pobre e apertada, mas nunca conhecera outra coisa. Apesar de tudo, achara que a vida valia a pena de ser vivida, embora não visse um sentido especial na mesma.
O que tinha um sentido grandioso era morrer uma morte natural. Nesse caso, a morte não seria um fim cruel da vida, mas uma redenção. Quando tivesse completado sua existência, o homem se deitaria para dormir. Para sempre. Era apenas isto.
Mas agora...
A porta abriu-se. Um dos vigias entrou. Os outros permaneceram no corredor, bloqueando todos os caminhos de fuga. Não o faziam por uma simples questão de rotina, pois havia pessoas que resistiam ao inevitável e tinham de ser levadas à força.
Não! — gritou T-39 e recuou até bater com as costas contra a cama. — Não! Agora não!
As lentes brilhantes do vigia fitaram-no com uma expressão indiferente. O robô não conhecia sentimentos. Fora construído para essa tarefa, e a cumpria fria e precisamente.
O comandante mandou que o senhor fosse eliminado — disse com a voz automática. — Venha conosco.
T-39 refletiu intensamente para descobrir uma saída. Será que, se soubesse o que estava acontecendo, O-2 poderia salvá-lo? Ou o comandante?
Por que não me avisaram antes? — respondeu com a maior calma de que foi capaz.
Um súbito lampejo de esperança restituiu-lhe um pouco de sua tranqüilidade, embora em seu interior rugisse a tormenta do desespero.
Não posso abandonar os projetos em andamento sem expor a comunidade a um grave risco. Tenho de transmitir algumas instruções da maior importância. Será que posso falar com o comandante?
O comandante ordenou sua morte — respondeu o robô com a voz fria. — Ele deve ter providenciado para que não haja nenhuma lacuna. Venha conosco!
Talvez ele se esqueceu...
O comandante é infalível.
Sim”, pensou T-39 com o coração amargurado, “o comandante é infalível, mas ele se esqueceu de que me condenou à morte. E agora só me resta morrer sem poder recorrer ao seu auxílio.
Por que não?
Não perdeu tempo. Saltou para o lado e comprimiu fortemente o botão do interfone, estabelecendo uma ligação direta com o oficial de serviço.
Aqui fala o comandante! — respondeu uma voz. — Quem está chamando O-2?
T-39. O comando da morte chegou e quer levar-me. Há cinco minutos falei com O-2. O senhor sabe...
Sei, sim — interrompeu-o o comandante. Seguiu-se uma pequena pausa. — Não posso fazer nada pelo senhor, T-39. O senhor sabe por quê. Acompanhe os vigias.
O mundo parecia desmoronar à frente de T-39. Viu que os robôs se puseram em movimento e se aproximaram dele. Desesperado, procurou segurar-se na cama.
Não quero, não quero! Faça alguma coisa, comandante. O senhor pode. Agora, que o futuro...
Não conseguiu prosseguir. Subitamente alguma coisa pareceu fechar-lhe a boca. Lembrou-se dos milhares de seres que se encontravam nos corredores e nos camarotes da nave. Todos eles teriam diante de si o mesmo destino que ele, mas agora contariam com a possibilidade de um futuro melhor.
Desde que ele, T-39, não os traísse.
Deixou cair os braços. O interfone continuava ligado. T-39 sabia que o comandante ouvia e esperava que ele se conformasse com o destino...
O desespero do técnico transformou-se num heroísmo inconcebível.
Está bem, vigias — disse com a maior tranqüilidade. — Não resistirei mais; irei com vocês. Passe bem, comandante. E... tudo de bom para o senhor.
Tenha coragem, T-39! — disse a voz saída do alto-falante, revelando uma tristeza evidente. — O que o senhor está fazendo não será em vão; reverterá em benefício de toda a comunidade. Boa sorte!
Obrigado — respondeu T-39 em voz baixa e voltou a dirigir-se aos vigias. — Vamos embora.
O vigia não demonstrou o menor espanto diante da repentina modificação na atitude de sua vítima. Afastou-se para dar passagem ao técnico. Sem olhar para trás, T-39 saiu e, uma vez no corredor, seguiu para a direita. Sabia que os robôs do comando da morte tinham vindo dessa direção.
Com a vítima no centro, estes seguiram por inúmeros corredores. O débil zumbido dos potentes mecanismos situados no interior da nave tornou-se cada vez mais forte. Cruzaram com mecânicos e outros homens da equipe técnica. Estes pararam para dar passagem ao grupo macabro. Quase todos os dias encontravam-se com o comando da morte.
T-39 olhou para a frente; não lançou os olhos para a direita nem para a esquerda. Preferia não ver ninguém, pois tinha receio de trair o plano.
Entraram num corredor estreito que terminava numa única porta. Esta abriu-se automaticamente, deixando livre a passagem para uma sala.
T-39 prosseguiu em sua caminhada e parou no centro da sala. Olhou em torno, perplexo. Os vigias entraram em forma, depois que a porta de entrada fechou-se atrás deles.
T-39 sabia que ninguém podia presenciar as execuções. Nunca ninguém soubera dizer como era a sala da morte. Aquela tampa oval na parede devia ser a entrada do conversor.
O chefe dos vigias foi até lá e acionou o controle eletrônico. A tampa metálica abriu-se lentamente, pondo à mostra uma abertura negra, pela qual poderia passar um homem. Atrás dela, viu-se um plano inclinado que levava para baixo. Era fácil adivinhar o que havia lá embaixo.
T-39 estremeceu. De súbito, a ânsia de viver voltou a dominá-lo, fazendo com que se esforçasse febrilmente para descobrir uma saída.
Mas, de repente, teve a impressão de que ouviu a voz de O-2, falando-lhe do futuro de seu povo. Também ouviu a ordem do comandante, e os votos de felicidade que lhe dedicara.
Não! Não há nenhuma saída! Tenho de conformar-me com o destino!”, pensou desesperado.
Coloque a cabeça na abertura! — disse a voz insensível do vigia.
T-39 teve a impressão de que oferecia a cabeça ao cutelo do carrasco, muito embora nunca tivesse ouvido falar numa decapitação. Ouviu os passos dos robôs que se aproximaram, vindos de trás, e sentiu que alguém o segurava pelas pernas.
Levou um forte empurrão... e escorregou pelo plano inclinado, para as profundezas negras e incertas do reator.
A morte aguardava-o...
Lá em cima, a tampa voltou a fechar-se, e tudo foi escuridão.
Mas subitamente viu uma luz!
Seria a fogueira atômica?
O calor dessa fogueira atômica deveria devorá-lo?
Não sentiu nada. Talvez fossem os nervos que já não reagiam como antes. Quem sabe se não perdera os sentidos?
De repente, parou de escorregar...


3



A nave-patrulha do Império Solar materializou-se, saindo do hiperespaço e retornando ao Universo normal. Vencera mais de dois mil anos-luz num único salto, e agora os tripulantes levariam pelo menos trinta minutos para calcular os dados do próximo salto e introduzi-los no computador positrônico do aparelho de navegação.
Quando viu o imediato levantar-se e “sacudir” as últimas dores da transição, o comandante Wilmar Lund respirou aliviado.
É sempre a mesma coisa — disse para consolá-lo. — Comigo também acontece isso. Entre em contato com a enfermaria e pergunte se houve algum acidente.
Isso era raro, mas acontecia vez por outra. A passagem da quinta dimensão para a quarta e a materialização ligada à mesma traziam certas modificações estruturais. Via de regra, estas eram insignificantes e não exigiam uma atenção especial.
Enquanto o imediato ligava o interfone, Lund deleitou-se com a visão ampla do Universo estrelado. A gigantesca tela panorâmica dava ao observador a impressão de estar fitando diretamente a profusão de sóis. Na verdade, apresentava apenas a imagem produzida pelos impulsos eletrônicos. Em outras palavras, via-se apenas um quadro, não o espaço propriamente dito.
Encontravam-se a vinte mil anos-luz da Terra. A nave Arctic, um cruzador ligeiro do Império Solar, era capaz de realizar hipersaltos até a distância de dois mil anos-luz. Dali a seis ou sete horas, estariam pousando na Terra.
Depois de um vôo de patrulhamento, trazendo de volta alguns agentes do Serviço de Segurança Solar, que vinham à Terra para apresentar seu relatório, a Arctic retornava ao sistema solar. Entre tais agentes, havia um tenente do Exército de Mutantes, um rato-castor chamado Gucky.
Conforme já foi dito, Gucky não era um ser humano.
Em algum lugar do planeta do sol Moribundo viviam os últimos indivíduos de sua raça, condenada à extinção, aguardando o destino que os esperava. Um belo dia aquele sol frio se extinguiria de vez, ou então se transformaria num sol novo, que consumiria tudo. Isso poderia durar alguns milênios ou alguns anos.
Gucky era uma mistura feliz entre um rato gigantesco e um castor. Tinha pele cor de ferrugem e alcançara um domínio espantoso da linguagem humana. Via de regra, ficava agachado sobre as pernas traseiras e se apoiava sobre a cauda achatada de castor, para não perder o equilíbrio. Sempre que sorria exibia o único dente roedor, que também preenchia a função de triturar cenouras cruas, isto é, seu alimento predileto.
Tudo isso não representaria nada de notável, se não houvesse outras circunstâncias que faziam de Gucky uma criatura milagrosa. Não era por nada que esse ser despretensioso tornara-se membro do temido Exército de Mutantes, uma tropa especial do administrador-geral do Império Solar, Perry Rhodan.
Gucky era telepata. Sabia absorver e compreender os pensamentos de seres que se encontravam a grande distância. Além disso, era telecineta. Movia um objeto sem tocar nele, e isso por uma distância considerável. Por fim, gozava da fama de ser um dos melhores teleportadores do Universo. Suas forças espirituais lhe permitiam transferir seu corpo de um lugar para outro. Para isso, ele se desmaterializava e voltava a materializar-se no local escolhido.
Graças a essas três qualidades, Gucky gozava entre os terranos maior fama que qualquer outro membro do Exército de Mutantes. Seu aspecto esquisito e sua estatura que não ultrapassava um metro em nada abalavam sua fama. Todos o tratavam com o devido respeito. Era bem verdade que, muitas vezes, esse tratamento era inspirado no medo. É que não se pode deixar de ressaltar que Gucky tinha o hábito de brincar com seus dons. Geralmente ele o fazia para divertir-se; mas dali não se poderia concluir que a pessoa que se tornasse objeto das suas brincadeiras também se alegrasse com as mesmas.
Quando a Arctic materializou-se, Gucky estava a caminho do depósito de mantimentos. Sentia fome e pretendia saciá-la o quanto antes. Desde o momento em que viera dar em Blisher III, um planeta situado nos confins do Saco de Carvão, que em sua opinião não se revestia da menor importância, seu dente roedor não se exercitara em mais nada que valesse a pena. Estava na hora de que houvesse uma modificação no que dissesse respeito às suas provisões de mantimentos.
O cadete Brugg gostava muito de animais, mas não foi por isso que lhe confiaram o cargo de oficial aprovisionador.
No entanto, quando de repente a porta de seu “reino” se abriu, dando passagem a um pequeno monstro de pêlo cor de ferrugem, que sorria com seu dente roedor, por pouco o cadete não sofre um ataque.
Nunca vira Gucky, embora soubesse que a bordo da Arctic havia membros do Exército de Mutantes. Por outro lado, um animal ou mesmo uma inteligência com aspecto de animal não era nada de extraordinário. Todavia, Brugg nunca teria a idéia de acreditar que Gucky fosse uma criatura inteligente.
De onde você fugiu? — perguntou em tom desconfiado, assim que se recuperou do susto. — Seu dono se esqueceu de trancá-lo?
Abaixou-se para acariciar o estranho visitante.
Venha logo e conte ao titio onde é seu lugar...
No primeiro instante, Gucky perdeu a fala, mas logo percebeu, por via telepática, que o cadete Brugg era bondoso e inofensivo. Deixou-se cair sobre os pés e ficou sentado que nem um coelho. Deixou as patas dianteiras na horizontal, com as “mãozinhas” caídas, mais ou menos como um cão bassê que fica sentado sobre as pernas traseiras.
Lançou um olhar devoto para o cadete e sorriu numa atitude de expectativa.
Ora veja! Que engraçadinho! — disse Brugg, meneando a cabeça. — O que é que o bichinho quer por isso?
Gucky teve vontade de dizer-lhe que algumas cenouras bem fresquinhas não lhe fariam mal, mas resolveu continuar com a brincadeira. Não era todos os dias que se encontrava com alguém que ainda não o conhecia. Ergueu as orelhas pontudas e bateu com a cauda no chão. Parecia uma foca à qual se oferece um peixe.
Que tal um pedacinho de açúcar? — perguntou o cadete Brugg, sem esperar resposta.
Afinal, quem fala com cachorros e gatos não costuma esperar resposta. Quando o estranho visitante sacudiu violentamente a cabeça, o espanto de Brugg foi tamanho.
Ah; não quer um pedacinho de açúcar? — Brugg admirou-se e ficou refletindo sobre quem teria ensinado isso a esse bichinho engraçado. — Quer um pedaço de lingüiça?
Gucky sacudiu a cabeça com mais força. Não fazia segredo da repugnância que sentia pela alimentação não-vegetariana.

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