Ouviram a
mensagem de Reginald Bell, que lhes pediu que se identificassem. A
mensagem foi repetida três vezes, e por três vezes a tradutora a
converteu em sua língua.
Vu-Pooh e
Gim Sarem agiram como se fossem deuses. Não se abalaram com o
pequeno incômodo causado pelos peles-brancas.
— Há um
tráfego de rádio muito intenso...
Vu-Pooh
fez essa constatação para introduzir um pouco de variedade na
monotonia do serviço. Tinha certeza de que Gim Sarem não se
pronunciaria. E, como esperava, este não disse nada. A tradutora
permaneceu em silêncio, o que constituía um sinal inequívoco de
que as mensagens não se referiam diretamente a eles. Não tinham o
menor interesse pelo conteúdo das mesmas.
A Retse-U
cruzou mais três órbitas planetárias. De repente, três
instrumentos saíram simultaneamente do painel de comando. Além
disso, a imagem oferecida pela tela modificou-se de um instante para
o outro.
Viram uma
espaçonave de dimensões gigantescas. Os três instrumentos, que se
mantiveram imóveis na altura dos olhos dos acônidas, mostraram a
distância que os separava do gigantesco veículo espacial e sua
capacidade de aceleração. Ainda revelaram que ele os seguia.
— Levarão
nove períodos de tempo para alcançar-nos, a não ser que aumentemos
nossa velocidade — constatou Vu-Pooh, com um sorriso, e ergueu-se
lentamente.
Sua mão
esquerda tocou uma roda de regulagem, modificando sua posição.
O quadro
oferecido pela tela permaneceu inalterado, mas a posição da Retse-U
no interior do sistema Beta modificara-se de um instante para outro.
A espaçonave desaparecera do lugar em que pouco antes se encontrara,
para surgir, no mesmo instante, sobre o sétimo planeta, que era um
gigante de metano.
O quadro
reproduzido pela tela modificou-se. Uma massa de gases borbulhantes
parecia precipitar-se na sala de comando da Retse-U.
Desenvolvendo
uma velocidade incrível, e dirigida ainda pelo sistema de pilotagem
automática, a nave achatada iniciou as manobras preparatórias do
pouso.
Dali a
alguns segundos, as massas de ar que envolviam a nave entraram em
incandescência. A tela mostrava faixas de gás metano, reluzindo num
vermelho cada vez mais intenso.
Vu-Pooh e
Gim Sarem não se interessaram pelo espetáculo. Neste instante
chegava uma mensagem. Era a primeira, vinda do interior da nave,
desde o momento em que decolara do planeta Esfinge, situado no centro
da Via Láctea.
— Comando
preparado para entrar em ação.
Vu-Pooh
respondeu:
— Pousaremos
em um décimo de período de tempo.
Depois
disso voltou a reinar o silêncio.
Na sala em
que estavam reunidos dois grupos de técnicos acônidas, também
reinava uma tranqüilidade total. Os homens conversavam indiferentes,
enquanto aguardavam o pouso da nave. Os finíssimos trajes espaciais,
bem ajustados ao corpo, encobriam seus uniformes. Os capacetes,
totalmente transparentes, estavam virados para trás, pareciam
quebradiços. Às costas dos homens, algo do tamanho de uma caixa de
charutos revelava que dispositivos especiais haviam sido adaptados
sob o traje espacial.
Uma luz
acendeu-se, e as conversas cessaram. Os capacetes espaciais foram
fechados. Os jovens distribuíram-se pela sala alongada. Um terço de
sua área estava tomado por peças de máquinas de todos os tamanhos.
Cinco
acônidas colocaram-se junto a um painel quadrangular, situado nas
proximidades de uma comporta. Uma segunda luz verde juntou-se à
primeira. No mesmo instante abriu-se a comporta, até então
invisível, que servia para a carga e descarga da espaçonave.
As massas
de gás metano penetraram no recinto com a força de um furacão e
procuraram envolver tudo.
Mais de
vinte acônidas saíram da nave. Não demonstraram o menor interesse
pelo ambiente mortífero em que se encontravam. No curso das ações
por eles desenvolvidas, haviam conhecido tantos planetas, que aquele
mundo de metano com seus furacões incessantes já não lhes
representava qualquer novidade.
Apesar das
massas de gás revoltas, apesar da tremenda gravitação desse astro
que representava a própria negação da vida, os acônidas moviam-se
com uma segurança inacreditável.
Atrás
deles as peças de máquinas, sustentadas por campos
antigravitacionais extremamente concentrados, seguiram-nos em
seqüência ininterrupta.
Essa
equipe acônida estava entrosada como um grupo de artistas. Cada
movimento preenchia uma finalidade; o trabalho realizado por um dos
homens completava ou iniciava a tarefa do outro. O chão congelado
foi perfurado por meio de sondas de radiações até uma profundidade
de vinte metros. Barras de metal foram introduzidas nas aberturas.
Num ponto
um tanto afastado da equipe principal, o grupo de regulagem entrara
em atividade. Todos mantinham contato pelo rádio com a Retse-U.
A
elipticidade do planeta de metano, a velocidade de seu movimento de
translação, os movimentos do conjunto do sistema em relação ao
sistema de seu sol — estes e mais algumas centenas de fatores,
cujos efeitos em parte se contradiziam mutuamente, tinham de ser
considerados, a fim de que se alcançasse um resultado final, que se
harmonizasse com as condições naturais.
No fim do
sétimo período de tempo,
Gut-Ko,
engenheiro-chefe da equipe, ligou o conversor à base, que tinha a
altura de uma casa. Esse conversor era uma reprodução em escala
reduzida do gigantesco transmissor instalado no Sistema Azul.
Um
aparelho versátil de ensaio, tal qual a mão humana, tateou todas as
faces com seus raios, antes que Gut-Ko pudesse liberar a energia.
Juntamente
com o grupo de regulagem realizou os últimos ajustamentos. A equipe
principal já havia voltado para bordo da Retse-U. Dali a pouco,
Gut-Ko e os membros de seus grupos seguiram-nos. A comporta fechou-se
silenciosamente, assim que o último homem penetrou no recinto. O gás
metano venenoso foi expelido não por bombas, mas por meio de campos
energéticos. O processo apenas durou uma fração de segundo.
Mais uma
vez, a luz verde acendeu-se. A mesma informava à equipe de
especialistas de que a Retse-U estava decolando.
Na pequena
sala de comando, Gim Sarem dirigiu uma pergunta a Vu-Pooh:
— O que
vamos fazer com Mal-Se, Vu?
— Nada.
Vamos levá-lo de volta, pois ainda temos uma vantagem superior a um
período de tempo sobre os peles-brancas — uma ligeira expressão
de triunfo surgiu em seu rosto marcante. — A lentidão das naves
dessas criaturas é ridícula. O Conselho Deliberativo ficará
surpreso, quando eu o informar sobre a lentidão desses veículos
espaciais. Em compensação, torna-se ainda mais incompreensível o
fato deles terem rompido a barreira energética.
Enquanto a
atmosfera de metano voltava a rugir em torno da Retse-U e a
espaçonave acônida abandonava o planeta hostil à vida,
desenvolvendo uma aceleração inacreditável, um ligeiro zumbido se
fez ouvir na tranqüila sala de comando.
Por meio
desse sinal, o transmissor, que os acônidas haviam instalado no
planeta do sistema Beta, anunciava que mantinha contato com a
gigantesca estação transmissora do Sistema Azul.
Vu-Pooh
não esperara outra coisa de seus especialistas. Afinal, não era a
primeira vez que executava esse serviço-relâmpago.
Gut-Ko, o
engenheiro-chefe, entrou na sala de comando. Queria obter informações
sobre a nave gigante dos peles-brancas.
Gim Sarem
efetuou uma regulagem, e à sua frente uma estranha tela surgiu do
nada, tela esta que representava um modelo do sistema Beta com seus
planetas, e também indicava a posição da nave dos desconhecidos de
pele-branca e de sua própria nave.
— Neste
momento, o sol se interpõe entre nós e os estranhos — disse Gim
Sarem, dirigindo-se ao engenheiro. — Só mesmo sua estação
localizadora pode atingir-nos neste instante. A grande nave está
penetrando no sistema com 0,9 da velocidade da luz. Vamos ampliar ao
infinito nossa vantagem de um período de tempo.
Gim Sarem
ergueu a cabeça e fitou o engenheiro-chefe.
— Não
está muito satisfeito, Gut-Ko? — perguntou ao ver a boca
contorcida de seu interlocutor.
Gut-Ko
confirmou com um gesto e disse:
— Gim,
de que forma esses desconhecidos, que voam em gigantescas naves
totalmente antiquadas, penetraram em nosso império estelar? Não
pode ter sido um simples acaso.
— Dentro
de pouco tempo será totalmente indiferente que tenha sido acaso ou
não, Gut-Ko. Os desconhecidos pousarão e então receberão a visita
de Mal-Se. Por isso seria ocioso continuarmos a falar sobre o
assunto.
Naquele
momento, a Retse-U desapareceu do cosmos e penetrou numa dimensão
espacial superior.
Os
rastreadores de relevo da estação Ori 12-1.818 não mais
conseguiram que a nave se tornasse visível na tela espacial. Ao
mesmo tempo, o oscilograma do rastreamento estrutural voltou a
apresentar as amplitudes achatadas que representavam um enigma para
todos.
4
Desenvolvendo
0,9 da velocidade da luz, a Drusus penetrou no sistema do sol gigante
de Beta. Os efeitos secundários da rematerialização haviam cessado
em todos os ocupantes da nave. Enquanto Bell e Deringhouse
conversavam a meia voz, mantendo-se de pé à frente do mapa estelar
em que estava assinalada a rota da pequena nave desconhecida, Perry
Rhodan continuava sentado em sua poltrona e refletia intensamente.
Nem mesmo
a mensagem do setor de rastreamento estrutural conseguiu arrancar
Rhodan de suas reflexões:
— Abalo
estrutural com amplitudes anormalmente alongadas. Posição: cerca de
um milhão de quilômetros acima do planeta número sete.
Sentia que
o aparecimento dos acônidas numa área tão próxima ao sistema
terrano não poderia ser um simples acaso, mas era incapaz de
descobrir o plano que havia por trás dessa rápida visita.
Ori
12-1.818 chamou. A mensagem foi transmitida simultaneamente ao
quartel-general da Frota Solar.
— Nave
desconhecida abandonou nosso complexo espaço-temporal há um minuto
e dezoito segundos, provavelmente por meio de uma transição.
Rastreador de relevo não reage mais. Fim da mensagem.
De repente
Rhodan pareceu adquirir vida. Levantou-se e foi até o
hipercomunicador.
— Aqui
fala Rhodan. Estação Ori, por quanto tempo a nave desconhecida
permaneceu no planeta número sete e em que ponto do mesmo pousou?
Aguardo resposta.
No momento
em que pronunciou estas palavras a palestra entre Bell e o general
cessou abruptamente. Os dois viraram-se para Perry Rhodan, que
continuava de pé à frente do microfone.
— Estação
Ori 12-1.818 ao chefe — disse a voz do Tenente Harald Fitzgerald,
saída do alto-falante. — Tempo de permanência da nave estranha no
Sete: vinte e nove minutos e quatro segundos. Local de pouso...
O
computador de bordo assimilou automaticamente os dados que o Tenente
Fitzgerald estava fornecendo.
Quando a
mensagem chegou ao fim, Rhodan levantou a cabeça; parecia pensativo.
Muitos dos homens que se encontravam na sala de comando viram-no
balançar a cabeça.
— Quanto
tempo ainda demorará? — a pergunta, um tanto desconexa, foi
compreendida pelo co-piloto.
— Daqui
a vinte ou vinte e cinco minutos poderemos chegar ao local de pouso,
sir, desde que a localização seja exata.
— Obrigado
— respondeu Rhodan e foi para junto de Bell e Deringhouse. —
Então, o que me dizem, senhores?
Bell
envolveu-se em silêncio. O General Deringhouse levantou os ombros e
deixou-os cair.
— Isso é
misterioso, sir! Uma atitude totalmente inexplicável. O que se pode
fazer durante uma visita de trinta minutos a um planeta estranho?
Bell
irrompeu com o pensamento que lhe passou pela cabeça:
— Pode-se
deixar um contrabando! Deringhouse soltou uma risadinha e disse:
— Sim,
se existisse um contrabando galáctico.
No mesmo
instante, o general lançou um olhar de alarma para Bell e apontou
discretamente para Perry Rhodan.
Este
fitava o mapa estelar, mas não parecia vê-lo.
Enquanto
isso, a Drusus passou velozmente a uma distância segura de Beta e,
logo depois, mudou de rumo, para tomar a rota do grande planeta de
gás metano.
A
gigantesca tela de visão global fora obscurecida, deixando passar
somente a décima parte da torrente luminosa do monstruoso sol
vermelho-amarelento. Apesar disso a luminosidade continuava a ser
muito mais intensa que a iluminação normal da sala de comando.
— Contrabando
galáctico — repetiu Rhodan e fitou Bell. — Às vezes você tem
idéias impagáveis, gordo.
— Meu
Deus, eu não disse nada — objetou Reginald Bell, que estava
interpretando erroneamente as palavras de Rhodan.
— Disse,
sim. Você até disse muita coisa. Desde o momento em que ouvi sua
observação, a pressão que sentia na cabeça desapareceu.
— Pode
ser — disse Bell, que não se sentia muito à vontade. — Mas não
compreendo o que é que minhas palavras podem...
Rhodan
sorriu. Com um ligeiro olhar procurou verificar se o general
percebera quanta verdade havia na observação que Bell soltara por
acaso. Mas Deringhouse também não conseguira acompanhar o
raciocínio de Rhodan.
— Muito
bem — disse este. — Por ora não falaremos mais sobre isto.
Quando atingirmos o campo de pouso dos acônidas no Sete, talvez
possamos dar uma olhada no contrabando que deixaram lá.
— Você
não espera muita coisa boa deles, Perry — voltou Bell.
Rhodan
refletiu e perguntou:
— Será
que nossas experiências com os pré-arcônidas foram boas? Quando
travamos conhecimento com os arcônidas, eles fizeram questão de que
sentíssemos seu orgulho e arrogância. E quando chegamos ao Sistema
Azul, onde conhecemos o povo do qual descendem os arcônidas, eles
nem tomaram conhecimento de nossa presença. Será que isso não é
orgulho e arrogância?
“Hum...
Os acônidas têm um adiantamento de quarenta mil anos sobre nossa
técnica. Se partirmos desse pressuposto, e admitindo que você
acredita no contrabando galáctico, o que nos esperará no gigante de
metano?”
Fez uma
pausa e concluiu.
— Um
perigo! Um perigo traiçoeiro, que talvez seja ainda mais temível
porque não o reconhecemos como tal.
O chamado
do setor de localização energética interrompeu a palestra.
— Sir —
gritou um tenente. — Acabamos de observar uma emissão de energia
pouco intensa, mas constante. Vem do Sete, mais precisamente, do
local de pouso da nave desconhecida, determinado por Ori 12-1.818.
— Avise
assim que haja qualquer alteração, por menor que seja — ordenou
Rhodan.
A nave
esférica de um quilômetro e meio de diâmetro começou a frear; a
força da inércia foi neutralizada pelo dispositivo de absorção.
Poucos minutos depois, a Drusus passou de uma velocidade próxima à
da luz para 300 km/seg. Nesse lapso de tempo a terça parte dos
conversores trabalhou com a potência máxima, os propulsores de jato
da protuberância equatorial rugiram e os transformadores e usinas de
força zumbiram. Apesar do tamanho da nave e da distância que
separava a sala de máquinas da sala de comando, estes ruídos
romperam todos os isolamentos acústicos e obrigaram os homens que se
encontravam na sala de comando a falar mais alto.
A luz de
Beta já se reduzira a um nível suportável ao olho humano. O
planeta Sete, que gravitava a uma tremenda distância do enorme sol,
surgiu na extremidade superior da tela de visão global sob a forma
de um astro do tamanho de uma bola de futebol. À primeira vista
parecia consistir numa nuvem de gases que se encontrava em estado de
turbulência, mas assim que o computador de bordo efetuou algumas
regulagens, a atmosfera nevoenta desapareceu, deixando descoberto um
gigantesco planeta.
Era um
mundo sem vida, enrijecido de frio, que parecia jazer imóvel no
espaço. O planeta levava cento e noventa e três horas para efetuar
um movimento de rotação, mas em comparação com suas dimensões
gigantescas girava com uma rapidez espantosa, do que resultavam
fortes convulsões na atmosfera.
Os
instrumentos da Drusus, que nunca se enganavam, constataram a
presença de furacões de quatrocentos quilômetros por hora. Quatro
mil quilômetros acima da superfície do planeta as massas gasosas
corriam a uma velocidade dez vezes superior.
O Sete era
um mundo morto. Face à gravitação de 5,3 G, contava-se entre os
planetas pesados.
— Quanto
mais penso, menos compreendo o que os acônidas vieram fazer
justamente aqui — disse Deringhouse.
O general
dera ordens pelo intercomunicador para que os homens, que fossem
desembarcar, vestissem trajes espaciais do feitio especial.
Desde o
momento em que a Drusus reduzira a velocidade, todos os seus
tripulantes entraram de prontidão. As torres de canhões estavam
guarnecidas, as escotilhas que cobriam as peças de artilharia foram
abertas. Na sala de comando de tiro reinava uma tensão extrema. Dois
conveses abaixo, cento e oitenta homens trocaram, sem dizer uma única
palavra, seus trajes espaciais pelos trajes protetores especiais.
Dez
minutos antes do pouso da Drusus no Sete, a sala de comando recebeu o
último aviso de que tudo estava preparado.
Ao que
parecia, o supercouraçado da Frota Solar achava-se pronto para
qualquer eventualidade, inclusive para o contrabando galáctico que
os acônidas possivelmente haviam escondido no planeta.
*
* *
A Drusus
pousou no sétimo planeta do sistema Beta. Apesar do furacão que
rugia, a nave mantinha-se segura e tranqüila como se estivesse no
espaçoporto de Terrânia. Mas por enquanto todas as comportas
continuaram fechadas; nem um único robô e nem uma única
sonda-foguete foram enviados para fora.
Ainda não
havia sido dada a ordem de entrar em ação. E Perry Rhodan nem
pensava em dar.
Antes
disso teria que descobrir qual era a finalidade da coisa que se
encontrava a uns quatro quilômetros e tinha o tamanho de uma casa
comum.
A
ampliação máxima fez com que o estranho objeto preenchesse a tela
frontal. Constatou-se inequivocamente que de lá provinham as
emanações energéticas; eram fracas, mas de intensidade constante.
— Então,
senhores — disse a voz de Rhodan, rompendo o silêncio, que reinava
na sala de comando. — O que é isso? Eu não sei. Será que alguém
sabe dizer?
Ninguém
respondeu à pergunta. Consultou a sala de comando de tiro, e de lá
informaram que mais de cinqüenta por cento dos canhões da nave
estavam dirigidos para a construção desconhecida.
Essa
certeza tranqüilizou os presentes, pois bastavam trinta por cento do
potencial de fogo da Drusus para, num bombardeio ininterrupto de
alguns minutos, devastar um pequeno planeta, sem recorrer às bombas
de fusão. Estas também se achavam no interior da nave, prontas para
serem lançadas. Nada poderia acontecer ao supercouraçado, mas todos
tiveram a impressão de se encontrarem diante de um perigo contra o
qual não havia proteção.
— O que
é isso? — disse Perry Rhodan, repetindo a pergunta. Seus olhos
cinzentos exprimiam uma tremenda tensão. — Não foi por nada que
os acônidas se deram tanto trabalho para que encontrássemos isso
tão depressa. O que será, Bell?
— Um
maldito contrabando! — limitou-se Bell a exclamar, dando de ombros
num gesto de desânimo.
— Sir! —
o tenente que trabalhava junto à localização energética
pronunciou esta palavra num grito. — Houve uma emissão de outra
espécie. Nunca vi uma coisa dessas. Parecem ondas de choque, mas são
diferentes. Terminou... a emissão desapareceu.
Será que
estas palavras representaram um sinal para que Rhodan entrasse em
ação?
— Atenção,
pessoal da computação. Peço a interpretação dos dados; rápido!
Bell e
Deringhouse entreolharam-se rapidamente. Conheciam muito bem o
significado desse tom na voz de Rhodan.
Uma folha
de plástico saiu do computador de bordo. Um oficial pegou-a,
lançou-lhe um olhar, estremeceu e disse com a voz entrecortada:
— Nada!
O computador não pode informar nada sobre a emissão energética.
Rhodan
respondeu com a voz tranqüila:
— Não
esperava outra coisa. Então, Bell, ainda tem alguma dúvida de que
essa nave era tripulada por acônidas?
— Infelizmente
não tenho. Mas nem por isso sabemos o que vem a ser aquilo.
Rhodan
retrucou em tom sarcástico:
— Uma
vez que os acônidas não nos forneceram as instruções de uso,
quero assumir o menor risco possível. Prefiro não envolver os
homens nisso. Deringhouse, os robôs de guerra estão preparados?
— São
quatro grupos de sessenta unidades, chefe.
— E os
técnicos-robôs, general?
— Dei
ordens para programar cinco unidades.
— Mande
que estes também entrem em ação. Ficaremos aqui e os
acompanharemos pela tela. Bell, você tem outra sugestão?
— Harno,
o televisor vivo, está a bordo, Perry?
— Não.
Já lamentei sua ausência. Talvez Harno pudesse dar-nos informações
mais precisas.
Nesse
momento ouviu-se barulho às costas dos homens. Uma voz áspera
perguntou:
— O que
está fazendo por aqui? Afinal, quem é o senhor?
Perry
Rhodan sabia perfeitamente quem acabara de entrar na sala de comando.
Virou a cabeça e viu que Poul Naya detivera Walt Ballin, o
jornalista.
— Deixe
o cavalheiro passar, Naya. É jornalista do Europa News de Paris e
afirmou num artigo de fundo que a Administração Solar está
realizando uma política autodestrutiva, pois não mantém os
terranos suficientemente informados sobre os acontecimentos felizes e
infelizes, que se verificam na Galáxia.
Estas
palavras representaram uma agulhada nos sentimentos de todos os que
se encontravam na sala de comando da Drusus. Estes homens, que não
hesitavam em enfrentar qualquer perigo quando se tratava de ajudar o
chefe, eram inimigos de todos que formulassem acusações contra
Perry.
— Ah, é?
— disse Poul Naya, e seus olhos começaram a chamejar. — Sir,
será que este escrevinhador não é o homem indicado para realizar
esta missão? Poderia dar uma olhada na coisa que está lá fora.
Assim, ele faria uma reportagem ao vivo.
Apesar da
situação incerta em que se encontrava a Drusus, os homens
aproveitaram a oportunidade para dar vazão à contrariedade. Nunca
foram amigos dos jornalistas.
Acontece
que todos se enganaram em relação a Walt Ballin. Ele não estava
disposto a transformar-se em mártir e pagar pelos pecados de seus
colegas. Num gesto impulsivo estendeu a mão para Poul Naya e disse:
— De
acordo. Mas só sairei para cumprir a missão depois que o senhor
tiver escrito um razoável artigo de fundo para o Europa News.
— Ora,
eu não sou jornalista! — respondeu Poul Naya, sem pensar em nada.
Walt
Ballin acenou tranqüilamente com a cabeça.
— E eu
não pertenço à Frota Solar, mister. Encontro-me a bordo da Drusus
na qualidade de convidado do administrador.
Rhodan
sorriu com a presença de espírito do jornalista, que, com as
palavras que acabara de pronunciar, tornara impossível qualquer
ataque à sua pessoa. Rhodan pediu-lhe que se aproximasse.
— O
Tenente Naya teve certa razão de lhe falar sobre o ensino visual,
mister Ballin. Sente-se nesta poltrona e acompanhe pela tela a
evolução dos acontecimentos. Já obteve informações sobre nossa
tarefa?
— Sim
senhor. O Tenente Gucky já me forneceu alguns esclarecimentos.
Bell
assumiu instintivamente uma posição de espreita. Não queria perder
uma única palavra, pois supunha que os pretensos esclarecimentos
representavam mais uma das artes do rato-castor.
— O que
foi que o Tenente Gucky lhe disse, Ballin? — indagou Rhodan, em
cujos olhos cinzentos surgiu um brilho ligeiro.
— Disse
que no curso desta missão teremos um encontro com os acônidas do
Sistema Azul. Disse mais que seu desenvolvimento técnico é
infinitamente superior ao nosso, a tal ponto que, para eles, será
facílimo destruir o Império de Árcon juntamente com o sistema
solar. Por que ficou tão espantado? A informação não é correta?
— É
correta, sim. Estou espantado por causa de Gucky que...
No mesmo
instante, Gucky surgiu no meio do grupo e piou, numa tentativa
grotesca de ficar em posição de sentido:
— Aqui
estou, Perry. Você deveria saber que entre seus oficiais não existe
nenhum mentiroso e nenhum contador de histórias de fadas.
No mesmo
instante, Gucky desapareceu.
As risadas
dos oficiais da sala de comando cessaram imediatamente, quando a tela
mostrou 245 máquinas de guerra que caminhavam em direção à coisa
que estava a quatro quilômetros. Nem a tremenda gravitação do
planeta de metano, nem o furacão conseguiram detê-las.
— Uma
ação em grande escala dos robôs contra o cavalo de Tróia! —
observou Bell, em voz baixa:
Ninguém
percebeu que Perry Rhodan estremeceu ligeiramente. A alusão ao
cavalo de Tróia fizera com que compreendesse instantaneamente o que
representava a coisa.
Era um
transmissor construído pelos acônidas!
*
* *
O
transmissor instalado no sétimo planeta do sistema Beta era de um
tipo especial.
Além de
ser um meio de transporte interestelar, servia à transmissão de
imagens.
No planeta
Esfinge três acônidas estavam sentados à frente de uma tela,
ligeiramente abaulada, e contemplavam com uma expressão indiferente
a gigantesca nave de mil e quinhentos metros de diâmetro e o grupo
de robôs, que marchava e já se havia aproximado dois quilômetros
da estação do transmissor.
O mais
jovem dos três acônidas soltou uma risada.
— O
destino está do nosso lado. Mal-Se nem precisará esforçar-se.
O velho
acônida que se encontrava à sua esquerda contraditou-o.
— Isso
não é uma manifestação do destino, mas do Comando Energético e
das qualidades superiores de Vu-Pooh. O lugar foi escolhido de tal
forma que a nave dos peles-brancas forçosamente teria de pousar ali.
O que vem a ser o destino? Apenas um jogo do acaso. E os números não
deixam campo para o acaso. Até são capazes de encerrar o próprio
acaso em números. Não se esqueça disso, Hut-Up!
— Farei
o possível, mestre — respondeu Hut-Up, e calou-se.
Sem se
impressionarem com o espetáculo, com uma expressão que quase
chegava a ser de tédio, os três acônidas do Sistema Azul
acompanharam o avanço dos robôs terranos em direção à estação
do transmissor. Quando as primeiras máquinas do grupo ainda se
achavam a algumas centenas de metros do destino, o acônida que fora
chamado de mestre por Hut-Up, disse ao que se encontrava à sua
direita:
— Mal-Se
pode começar.
O homem ao
qual foram dirigidas estas palavras repetiu a ordem, proferindo-as em
outra direção. E logo veio a resposta:
— Mal-Se
começará dentro de um vinte e cinco avôs de um período de tempo.
O mestre
fez que sim e desligou.
— Concluímos
nosso trabalho. Mais uma vez, o Conselho Deliberativo ficará
satisfeito com a atuação do Comando Energético. Vu-Pooh já entrou
em contato conosco?
— Já,
mestre — informou Hut-Up. — A Retse-U chegará no primeiro quinto
do quarto período.
— Está
bem. Diga a Vu-Pooh que entre em contato comigo. Preciso falar com
ele, Hut-Up.
*
* *
— Você
tem razão! — exclamou Bell. — Realmente é um transmissor
acônida.
Já não
havia a menor dúvida.
Um campo
energético de mais de cem metros de altura e igual largura surgira
numa questão de segundos acima da coisa. Resistiu à fúria dos
elementos e emitiu uma luminosidade avermelhada nas bordas
interiores. Aquela figura devia ser uma concentração de linhas
energéticas potentes e condensadas, que fizeram surgir um túnel
negro.
A única
pessoa que disse alguma coisa na sala de comando da Drusus foi o
General Deringhouse. Ordenou aos robôs, pelo rádio, que ficassem
parados e aguardassem novas ordens. Não precisou dizer mais do que
isso. O resto ficava a cargo da programação.
As
máquinas de guerra terranas pararam a duzentos metros do transmissor
acônida.
Rhodan
puxou o microfone para junto de si.
— Qualquer
coisa que saia da estação do transmissor deve ser aprisionada; em
hipótese alguma deverá ser morta ou destruída.
Devolveu o
microfone ao general.
Depois
disso teve início a espera.
Os canhões
do costado da Drusus, apontados para a construção dos acônidas,
estavam prontos para disparar. As pesadas peças de raios térmicos,
de desintegração e de impulsos ficaram dirigidas para a obra
técnica de uma raça estranha; a qualquer momento fariam com que
esta submergisse num furacão de fogo.
O
jornalista Walt Ballin estava recebendo um ensino visual sobre as
atividades da Frota Solar com o qual nunca chegara a sonhar.
Olhava
constantemente para Rhodan. E, quanto mais olhava, mais admirava este
homem cauteloso, ponderado e frio. Perry Rhodan não era nenhum
ditador, e nem um tagarela que sempre queria estar com a razão.
Naquele
momento disse:
— Tenho
certeza de que os acônidas não estão apenas brincando conosco.
Será que não estamos esperando demais?
— Por
enquanto não aconteceu nada — ponderou Bell.
Rhodan não
se impressionou.
— Deringhouse,
faça recolher os robôs à nave. Mande que voltem o mais depressa
possível. Isto já está me assustando. O que dizem os instrumentos?
A pergunta
foi dirigida aos oficiais da sala de comando. Deringhouse deu ordem
pelo rádio para que os robôs voltassem. Bell não estava de acordo,
mas limitou-se a balançar a cabeça.
Pela
primeira vez em toda vida, Walt Ballin compreendeu o que significava
ter os pés frios.
Sentia um
medo terrível, não da luminosidade vermelha ou da estranha
construção, mas de alguma coisa que não sabia o que fosse.
Na tela de
visão global viu-se que os robôs já haviam percorrido metade do
caminho.
— Torre
polar. Pode abrir fogo contra o alvo.
A voz de
Rhodan tinha um som metálico, quando proferiu a ordem para dentro do
microfone do intercomunicador.
No mesmo
instante, os raios de impulsos e de desintegração de vários metros
de espessura destruíram o transmissor acônida. Tudo submergiu numa
nuvem de gases atomizados, que foi desmanchada imediatamente pelo
furacão de gás metano. O local em que estivera a estação entrou
em incandescência. A rocha congelada derreteu-se e gaseificou-se.
A torre
polar da Drusus abrira fogo por três segundos. Quando os canhões de
radiações foram desligados, viu-se a quatro quilômetros uma
cratera, na qual a rocha liquefeita foi endurecendo, formando uma
compacta massa vitrificada.
— Se eu
fosse você, teria esperado mais algum tempo, Perry!
— Esperado
o quê, Bell? — indagou Rhodan, apreensivo.
O homem
baixo e sardento não deu mostras do espanto que lhe causara o
nervosismo de Rhodan. Limitou-se a dizer:
— Então
você está assim....
“Pois
eu também estou”,
pensou Walt Ballin, que não compreendia por que ainda estava com
medo.
Dali a
pouco Deringhouse dirigiu-se a Rhodan:
— Sir,
os robôs já entraram na nave. Instruí os robôs técnicos a
comparecerem à sala de comando.
— Bell,
encarregue-se do computador. Desejo conhecer quanto antes a
interpretação dos dados colhidos pelos robôs, muito embora não
espere muita coisa.
— OK!
Bell
dirigiu-se ao computador e colocou-o na posição de consulta.
Antes que
os robôs chegassem à sala de comando, a fim de entregar o resultado
de suas observações, mais dez minutos se passaram. Rhodan
aproveitou este tempo para conversar com Walt Ballin. A primeira
coisa que lhe chamou a atenção foi o aspecto nada sadio do
jornalista.
Walt
Ballin estava com medo; sentia o mesmo medo que ele.
Ocultou de
forma magistral o espanto e a perplexidade. Concentrou-se no serviço
profissional de Ballin e envolveu o jornalista numa palestra
interessantíssima.
— Quer
dizer que posso escrever o que quiser, sir? Não haverá necessidade
de submeter minha reportagem ao senhor ou a alguma comissão quando
voltar à Terra?
Rhodan riu
com os olhos, embora a expressão do rosto permanecesse inalterada.
— Ora,
Ballin, não vivemos numa ditadura! E, o que é mais importante,
senhor jornalista, a administração não tem nada a esconder, a não
ser as coisas que, em qualquer lugar, costumam ser mantidas em
segredo. Apenas estou ansioso para saber o que o senhor fará
publicar nos jornais e o que não fará publicar.
— Farei
publicar tudo, sir. Não omitirei nada — afirmou Walt Ballin, em
tom convicto.
— Também
já pensei assim, Ballin. Faz muito tempo. Era tão jovem como o
senhor. Mas depois surgiu a responsabilidade e as dúvidas, e fiquei
perguntando a mim mesmo sobre o que deveria trazer ao conhecimento do
público e o que não deveria.
— Sir,
um jornalista também tem certa responsabilidade!
Walt
Ballin teve a impressão de que deveria defender o conceito de sua
profissão.
— Foi
justamente por acreditar que o senhor é um homem dotado de senso de
responsabilidade que o convidei a ir para Terrânia... Olhe os robôs,
Ballin. Mais uma vez temos de interromper nossa palestra.
Cinco
robôs entraram ruidosamente na sala de comando. A visão dos
colossos metálicos em movimento nunca deixava de ser um espetáculo
imponente. Ballin, que os ouviu falar um de cada vez e teve de
constatar que não compreendia suas palavras, por lhe faltarem os
conhecimentos técnicos, começou a admirar essas criaturas
artificiais e seus criadores.
Mas Bell
não as admirou. Manteve-se inativo diante do computador de bordo. A
cada segundo que passava, a expressão de seu rosto tornava-se mais
zangada.
As
observações colhidas pelos robôs científicos não serviam para
nada. As medições por eles realizadas diante do transmissor acônida
eram contraditórias e evidentemente falsas.
Deringhouse
apagou a programação especial das máquinas e mandou que voltassem
ao depósito.
No momento
em que Rhodan pretendia dar ordem para decolar, houve um chamado do
depósito de robôs número 4. Ortlow, que era o chefe do depósito,
informou que todos os robôs estavam sujos.
— Ora,
Ortlow, a bordo desta nave existem instalações de lavagem; use-as —
disse Rhodan em tom contrariado, por ter sido interrompido em suas
atividades por causa de uma bagatela como essa.
— Acontece
que a sujeira não sai. Parece incrustada nos robôs.
— Isso
não me interessa, Ortlow. Arranje-se como puder. Desligo.
Dirigiu-se
a Deringhouse.
— Assuma
a nave, general. Decolaremos...
Rhodan foi
interrompido pelo setor de hipercomunicação, que anunciou uma
mensagem urgente dirigida a Rhodan, expedida pela nave-hospital III.
Os traços que apareciam na tela da sala de comando estabilizaram-se.
— Sir —
principiou — constatamos a presença da doença de endurecimento
intestinal na nave cilíndrica UG DVI. Os homens do comando de
abordagem também contraíram a moléstia. Mas não é por isso que
estou chamando. O mais importante é que a doença foi provocada
artificialmente a bordo da nave dos mercadores galácticos. Ao que
tudo indica, as culturas da doença provêm da Terra.
— Professor
Degen, pense bem no que está dizendo! — advertiu Rhodan, em tom
enérgico.
O médico
fez um gesto com o braço esquerdo, gesto este que deveria
representar um pedido de desculpas, mas disse:
— Sir, é
claro que não sou nenhum policial e posso estar enganado, mas como é
que uma ampola quebrada com restos de culturas da doença veio parar
na nave dos saltadores? Aviso-lhe que nos últimos trinta dias a nave
só entrou em contato com terranos.
— Ora,
professor, meu dia também só tem vinte e quatro horas, nem um
minuto a mais. Suspenda a palestra neste ponto e entre em contato com
o chefe da Segurança Solar, Allan D. Mercant, expondo ao...
— Sir,
há poucos minutos ele me pediu que entrasse em contato com o senhor
e lhe transmitisse em seu nome o pedido de passar por nossa posição,
a fim de que a ampola chegue à Terra o mais depressa possível.
Naturalmente o transporte não envolve o menor perigo. O material
contaminado foi acondicionado. Não há perigo.
Rhodan fez
um sinal para a tela do telecomunicador.
— Está
bem. Dentro de uma hora estaremos aí.
Dali a
pouco a Drusus decolou do gigantesco planeta de metano. Reginald Bell
encontrava-se no camarote de Rhodan. O baixote caminhava de uma
poltrona para outra e não sossegava em nenhuma delas. Enquanto isso,
Perry Rhodan demonstrava uma tranqüilidade extraordinária.
— Se
Allan D. Mercant recorre a nós, é porque atribui a maior
importância ao caso, ligado a esta doença, Bell. Muito bem;
façamos-lhe este favor. No momento não perderemos nada por causa da
pequena volta que daremos. Por mais duras que possam parecer estas
palavras, o fato é que o caso não me interessa. Não tenho tempo
para ocupar-me com ele, pois a misteriosa visita-relâmpago dos
acônidas causa-me tamanha preocupação que não consigo pensar em
outra coisa. Sinto uma sensação cada vez mais forte de que existe
um detalhe que nos escapou.
— Naturalmente
não há ninguém que chame nossa atenção para isso, mesmo depois
que aconteceu... O que houve? Perry, é a estação. Deve ser para
você.
O Tenente
Harald Fitzgerald da estação Ori 12-1.818 tinha uma informação
para Rhodan.
— Sir,
cometemos um engano nas nossas observações. A estação receptora
sincronizada com o transmissor emitiu duas séries de ondas de
choque. A primeira série também deve ter sido registrada pelos
instrumentos da Drusus. Porém exatamente vinte e três minutos e
oito segundos após o primeiro impulso, houve uma segunda emissão.
Entretanto esta era abafada por um impulso de categoria superior e
foi tão débil que só por um acaso a notamos. Sir, passamos tudo de
novo...
— Está
bem, tenente — disse Rhodan, interrompendo o Tenente Fitzgerald,
que falava com certa insegurança. — Vou ligá-lo com a sala de
comando da Drusus. Passe novamente o respectivo trecho e transmita-o
pelo rádio. Quero observá-lo pessoalmente. Muito obrigado.
Dali a
pouco correu apressadamente em direção à sala de comando,
acompanhado por Bell. A transmissão da estação Ori 12-1.818 já
fora realizada. Os oficiais cederam lugar para Rhodan e Bell, e dali
a pouco ouviram o primeiro dizer:
— É
perfeitamente compreensível que não tenham notado isso.
Regulou a
imagem para um setor específico e mandou retroceder o aparelho, para
voltar a olhar tudo a partir de determinado instante.
Quando no
interior do Sistema Azul, Rhodan e Bell viram muitas vezes essas
curvas, supuseram tratar-se de ondas de choque expelidas pelos
transmissores. Porém não conheciam as ondas de superposição que
encobriam quase totalmente as amplitudes achatadas.
— Não
sabemos mais que antes — disse Bell subitamente, em tom impulsivo.
Entretanto
calou-se ao sentir a mão de Rhodan pousada em seu braço.
— Você
está enganado, Bell. Ao menos já sabemos que os acônidas enviaram
mais alguma coisa ao sétimo planeta e se deram ao trabalho de evitar
que tivéssemos conhecimento disso. Deringhouse, ponha em ação a
frota. O mundo número sete deve ser mantido sob vigilância
cuidadosa e ininterrupta. Não devemos dar aos acônidas a menor
possibilidade de instalar uma base por lá. Ordene ao comandante da
frota que evite isso, usando todos os meios ao seu alcance. Quando
entraremos em transição?
O salto
realizou-se dali a três minutos.
5
A Drusus
voltara a ocupar a área que lhe estava reservada no espaçoporto de
Terrânia. Fazia meia hora que a ampola, encontrada na nave
cilíndrica UG DVI, fora retirada por dois médicos. Lidaram com o
pequeno invólucro, como se fosse um explosivo que pudesse detonar ao
menor abalo.
Bell, o
General Deringhouse e o jornalista Walt Ballin estavam sentados no
planador de Rhodan.
O veículo
corria vertiginosamente em direção ao arranha-céu. De repente
descreveu uma curva para pousar. Foi quando Rhodan rompeu o silêncio.
— Poucas
vezes voltei de uma ação com uma sensação tão desagradável como
hoje. Não sei...
O planador
pousou suavemente; desceram e o elevador antigravitacional levou-os
ao gabinete do administrador, situado um andar abaixo da cobertura.
No momento em que o grupo passou pela ante-sala, as autoridades mais
importantes de Terrânia tornaram-se logo cientes de que o chefe
estava de volta.
A tela do
intercomunicador já fora ligada, e nela se via o rosto de Allan D.
Mercant. No momento em que se acomodava na poltrona, Rhodan falou
para dentro do microfone:
— Mercant,
deixe-me em paz com essa doença de endurecimento intestinal. Não
sei o que há por trás disso, mas no momento não estou interessado.
É a respeito da moléstia que quer falar comigo?
Mercant
fez que não.
— Sir, a
Drusus alarmou a Segurança Solar. Há suspeita de sabotagem nos
depósitos de robôs. Ortlow, o chefe do depósito, solicitou uma
investigação minuciosa. Todos os robôs, até mesmo os de trabalho
que atuam no interior da nave, apresentam danos... As amostras, que
examinei há poucos instantes, foram alarmantes.
— Está
bem, Mercant. Se as suspeitas de sabotagem se confirmarem, avise-me.
Mais alguma coisa?
O chefe da
Segurança Solar conhecia Perry Rhodan e compreendia que naquele
momento não queria ser incomodado com ninharias. Apressou-se em dar
resposta negativa à pergunta que acabara de ser formulada e em
desligar o aparelho.
— Então,
Ballin — disse Rhodan, dirigindo-se ao jornalista. — O que vamos
ler amanhã no Europa News sobre a última missão da Drusus? Já tem
uma idéia do que vai escrever?
— Por
enquanto não vou escrever uma única linha, sir — respondeu Walt
Ballin. — Não posso publicar um artigo baseado em conjeturas.
Bell e
Deringhouse fitaram-no com uma expressão de espanto. Não esperavam
uma resposta dessas.
— Mas
por nosso intermédio o senhor ouviu falar pela primeira vez nos
acônidas, Ballin. A administração terá muito prazer em
fornecer-lhes outros dados a respeito — disse Rhodan, a fim de
fazê-lo sair da atitude de reserva em que se mantinha.
— Sir,
não sou um repórter sensacionalista — começou Ballin, cocando a
mão esquerda. — O senhor mesmo disse que sabe muito pouco a
respeito dos acônidas. Tenho a impressão de que o assunto terá de
amadurecer antes de ser publicado. Por que está rindo, sir?
Bell e
Deringhouse também irromperam numa gargalhada. O homem sardento
chegava a balançar-se de tanto rir e disse:
— O
senhor está seguindo nossas pegadas, Ballin. Sempre pensamos da
mesma forma que o senhor, mas foram surgindo novidades e mais outras
novidades, quando as primeiras ainda não estavam maduras. Um belo
dia alguém disse no Parlamento que violamos nosso dever de prestar
informações. Caramba, como minha mão está cocando. O que será?
— A
minha também está — falou Deringhouse.
— A
minha também!
Estas
últimas palavras foram proferidas por Rhodan. Quatro homens
contemplavam as mãos. E quatro homens viram alguns pontos do tamanho
da cabeça de um alfinete, que se mostrava visível um pouco abaixo
da pele.
— Esta
coceira chega a ser uma impertinência! — exclamou Bell, que nunca
fora um homem paciente, e sempre ficava nervoso quando qualquer coisa
o incomodava. — Vou chamar o médico de plantão. Pedir-lhe-ei que
me dê um remédio contra isso. Deixe-me usar o intercomunicador,
Perry.
— Por
causa de uma bobagem dessas, Bell?! Bem, fique à vontade.
Afastou-se.
Bell pediu o comparecimento do médico. Por coincidência este
encontrava-se no mesmo andar.
— Estarei
aí num instante, mister Bell.
Dali a
pouco estava entre eles. Contemplou quatro mãos. Balançou a cabeça,
perplexo.
— Sir —
disse, dirigindo-se a Rhodan. — Há pouco pediram-me que
diagnosticasse um caso idêntico, mas não sei de que se trata. Na
minha opinião isto deve ser um trabalho para a divisão
dermatológica. O senhor também tem algumas manchas vermelhas no
rosto.
O aparelho
de telecomunicação emitiu um zumbido.
Era a
Drusus. Um dos oficiais estava no aparelho.
— Sir,
há algo de errado na Drusus. De um instante para outro, todos os
tripulantes foram atacados por uma terrível coceira. Já notifiquei
a grande clinica de Terrânia.
Antes que
Rhodan tivesse tempo para responder, o médico falou.
— Coloque
sua mão junto à objetiva! — pediu ao homem que falava da Drusus.
O oficial
atendeu ao pedido, e o médico constatou:
— É o
mesmo quadro mórbido. Caramba, também estou começando a sentir
coceira!
— Doutor
— disse Bell. — Será que fomos atacados pela doença de
endurecimento intestinal?
Deringhouse
e Walt Ballin entesaram o corpo.
— Não,
senhores, esta suposição é absurda. A doença de endurecimento
intestinal não apresenta estes sintomas.
— Posso
desligar, sir? — perguntou o oficial, que se encontrava na sala de
comando da Drusus.
Rhodan fez
que sim. A imagem da tela desfez-se. Mas logo houve outro chamado.
Era a grande clínica de Terrânia.
— Sim?!
— a voz de Rhodan denotava nervosismo.
— Sir,
acabo de ordenar que a Drusus fique de quarentena. E vejo-me obrigado
a pedir ao senhor e a todas as pessoas, com as quais entrou em
contato após o pouso, que não saiam dos recintos onde se encontram.
Estas
palavras foram pronunciadas pelo doutor Haenning, chefe do setor de
quarentena e inspetor sanitário de todo o Império Solar.
Rhodan nem
pensou em formular qualquer objeção, mas sentiu-se tomado pela
curiosidade que fustiga qualquer pessoa enferma, e não inteirada a
respeito de sua doença: quis saber alguma coisa a este respeito.
— Não
posso dar nenhuma informação, sir — respondeu o doutor Haenning,
em tom triste. — Ao que tudo indica, a doença não é perigosa,
mas as normas de quarentena me obrigam...
Houve um
chamado de emergência da grande estação de hiper-rádio.
— Peço-lhe
que aguarde um instante, doutor Haenning — disse Rhodan,
interrompendo o médico. — Fique na linha.
A imagem
da segunda tela estabilizou-se. O rosto do médico-chefe da
nave-hospital III fitou-o com uma expressão preocupada.
— Sir,
acabo de ouvir a notícia de que a Drusus foi colocada sob
quarentena. A Drusus foi contaminada por nós, por ocasião da
entrega das culturas, ou então sua nave levou a doença à minha, à
Nil e à nave cilíndrica UG DVI. De um instante para outro, os
mesmos sintomas se manifestaram nos tripulantes das três naves.
— Que
reação em cadeia será esta? — indagou Bell em tom exaltado, e
fitou Deringhouse com uma expressão preocupada.
— É
impossível que tenhamos sido os portadores da infecção — afirmou
o general e fitou a mão com uma expressão contrariada. — Que
diabo! — praguejou, embora raramente usasse este tipo de expressão.
— As manchas estão cada vez maiores, e meu ombro esquerdo também
já está cocando.
— Pois
eu estou sentindo coceira na sola dos pés — resmungou Bell e
perguntou ao jornalista. — Onde é que o senhor está sendo
atacado, meu caro?
— A
expressão não é bem esta, mister Bell. Sinto-me incomodado em toda
parte. Nunca vi uma coisa destas.
Enquanto
isso, o doutor Haenning colocou sob quarentena a Nil, a nave-hospital
III e a UG DVI. E a determinação que acrescentou a esta ordem fez
com que os homens do gabinete de Rhodan se sobressaltassem.
O médico
não deixou que as três espaçonaves se dirigissem a qualquer
planeta.
— Faço
questão de que o senhor explique o motivo desta ordem, doutor —
disse Perry Rhodan com a voz penetrante. — Quero que o senhor me
relate a quantas andamos, sem preocupar-se com a minha doença.
O rosto do
doutor Haenning assumiu uma expressão rígida.
— Sir,
infelizmente nunca houve um caso como este no Império Solar. Três
colegas, que estavam estudando a infecção, adoeceram, muito embora
tenham observado as rigorosas medidas de segurança. E eu também já
começo a sentir coceiras.
— Doutor
— principiou Rhodan. — De repente me ocorreu uma hipótese sobre
a causa desta terrível infecção. O senhor seria capaz de imaginar
que até mesmo os robôs podem ser atacados pela doença?

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