quarta-feira, 31 de agosto de 2016

P-103 - O Monstro de Plasma - Kurt Brand [Parte 2]

Ouviram a mensagem de Reginald Bell, que lhes pediu que se identificassem. A mensagem foi repetida três vezes, e por três vezes a tradutora a converteu em sua língua.
Vu-Pooh e Gim Sarem agiram como se fossem deuses. Não se abalaram com o pequeno incômodo causado pelos peles-brancas.
Há um tráfego de rádio muito intenso...
Vu-Pooh fez essa constatação para introduzir um pouco de variedade na monotonia do serviço. Tinha certeza de que Gim Sarem não se pronunciaria. E, como esperava, este não disse nada. A tradutora permaneceu em silêncio, o que constituía um sinal inequívoco de que as mensagens não se referiam diretamente a eles. Não tinham o menor interesse pelo conteúdo das mesmas.
A Retse-U cruzou mais três órbitas planetárias. De repente, três instrumentos saíram simultaneamente do painel de comando. Além disso, a imagem oferecida pela tela modificou-se de um instante para o outro.
Viram uma espaçonave de dimensões gigantescas. Os três instrumentos, que se mantiveram imóveis na altura dos olhos dos acônidas, mostraram a distância que os separava do gigantesco veículo espacial e sua capacidade de aceleração. Ainda revelaram que ele os seguia.
Levarão nove períodos de tempo para alcançar-nos, a não ser que aumentemos nossa velocidade — constatou Vu-Pooh, com um sorriso, e ergueu-se lentamente.
Sua mão esquerda tocou uma roda de regulagem, modificando sua posição.
O quadro oferecido pela tela permaneceu inalterado, mas a posição da Retse-U no interior do sistema Beta modificara-se de um instante para outro. A espaçonave desaparecera do lugar em que pouco antes se encontrara, para surgir, no mesmo instante, sobre o sétimo planeta, que era um gigante de metano.
O quadro reproduzido pela tela modificou-se. Uma massa de gases borbulhantes parecia precipitar-se na sala de comando da Retse-U.
Desenvolvendo uma velocidade incrível, e dirigida ainda pelo sistema de pilotagem automática, a nave achatada iniciou as manobras preparatórias do pouso.
Dali a alguns segundos, as massas de ar que envolviam a nave entraram em incandescência. A tela mostrava faixas de gás metano, reluzindo num vermelho cada vez mais intenso.
Vu-Pooh e Gim Sarem não se interessaram pelo espetáculo. Neste instante chegava uma mensagem. Era a primeira, vinda do interior da nave, desde o momento em que decolara do planeta Esfinge, situado no centro da Via Láctea.
Comando preparado para entrar em ação.
Vu-Pooh respondeu:
Pousaremos em um décimo de período de tempo.
Depois disso voltou a reinar o silêncio.
Na sala em que estavam reunidos dois grupos de técnicos acônidas, também reinava uma tranqüilidade total. Os homens conversavam indiferentes, enquanto aguardavam o pouso da nave. Os finíssimos trajes espaciais, bem ajustados ao corpo, encobriam seus uniformes. Os capacetes, totalmente transparentes, estavam virados para trás, pareciam quebradiços. Às costas dos homens, algo do tamanho de uma caixa de charutos revelava que dispositivos especiais haviam sido adaptados sob o traje espacial.
Uma luz acendeu-se, e as conversas cessaram. Os capacetes espaciais foram fechados. Os jovens distribuíram-se pela sala alongada. Um terço de sua área estava tomado por peças de máquinas de todos os tamanhos.
Cinco acônidas colocaram-se junto a um painel quadrangular, situado nas proximidades de uma comporta. Uma segunda luz verde juntou-se à primeira. No mesmo instante abriu-se a comporta, até então invisível, que servia para a carga e descarga da espaçonave.
As massas de gás metano penetraram no recinto com a força de um furacão e procuraram envolver tudo.
Mais de vinte acônidas saíram da nave. Não demonstraram o menor interesse pelo ambiente mortífero em que se encontravam. No curso das ações por eles desenvolvidas, haviam conhecido tantos planetas, que aquele mundo de metano com seus furacões incessantes já não lhes representava qualquer novidade.
Apesar das massas de gás revoltas, apesar da tremenda gravitação desse astro que representava a própria negação da vida, os acônidas moviam-se com uma segurança inacreditável.
Atrás deles as peças de máquinas, sustentadas por campos antigravitacionais extremamente concentrados, seguiram-nos em seqüência ininterrupta.
Essa equipe acônida estava entrosada como um grupo de artistas. Cada movimento preenchia uma finalidade; o trabalho realizado por um dos homens completava ou iniciava a tarefa do outro. O chão congelado foi perfurado por meio de sondas de radiações até uma profundidade de vinte metros. Barras de metal foram introduzidas nas aberturas.
Num ponto um tanto afastado da equipe principal, o grupo de regulagem entrara em atividade. Todos mantinham contato pelo rádio com a Retse-U.
A elipticidade do planeta de metano, a velocidade de seu movimento de translação, os movimentos do conjunto do sistema em relação ao sistema de seu sol — estes e mais algumas centenas de fatores, cujos efeitos em parte se contradiziam mutuamente, tinham de ser considerados, a fim de que se alcançasse um resultado final, que se harmonizasse com as condições naturais.
No fim do sétimo período de tempo,
Gut-Ko, engenheiro-chefe da equipe, ligou o conversor à base, que tinha a altura de uma casa. Esse conversor era uma reprodução em escala reduzida do gigantesco transmissor instalado no Sistema Azul.
Um aparelho versátil de ensaio, tal qual a mão humana, tateou todas as faces com seus raios, antes que Gut-Ko pudesse liberar a energia.
Juntamente com o grupo de regulagem realizou os últimos ajustamentos. A equipe principal já havia voltado para bordo da Retse-U. Dali a pouco, Gut-Ko e os membros de seus grupos seguiram-nos. A comporta fechou-se silenciosamente, assim que o último homem penetrou no recinto. O gás metano venenoso foi expelido não por bombas, mas por meio de campos energéticos. O processo apenas durou uma fração de segundo.
Mais uma vez, a luz verde acendeu-se. A mesma informava à equipe de especialistas de que a Retse-U estava decolando.
Na pequena sala de comando, Gim Sarem dirigiu uma pergunta a Vu-Pooh:
O que vamos fazer com Mal-Se, Vu?
Nada. Vamos levá-lo de volta, pois ainda temos uma vantagem superior a um período de tempo sobre os peles-brancas — uma ligeira expressão de triunfo surgiu em seu rosto marcante. — A lentidão das naves dessas criaturas é ridícula. O Conselho Deliberativo ficará surpreso, quando eu o informar sobre a lentidão desses veículos espaciais. Em compensação, torna-se ainda mais incompreensível o fato deles terem rompido a barreira energética.
Enquanto a atmosfera de metano voltava a rugir em torno da Retse-U e a espaçonave acônida abandonava o planeta hostil à vida, desenvolvendo uma aceleração inacreditável, um ligeiro zumbido se fez ouvir na tranqüila sala de comando.
Por meio desse sinal, o transmissor, que os acônidas haviam instalado no planeta do sistema Beta, anunciava que mantinha contato com a gigantesca estação transmissora do Sistema Azul.
Vu-Pooh não esperara outra coisa de seus especialistas. Afinal, não era a primeira vez que executava esse serviço-relâmpago.
Gut-Ko, o engenheiro-chefe, entrou na sala de comando. Queria obter informações sobre a nave gigante dos peles-brancas.
Gim Sarem efetuou uma regulagem, e à sua frente uma estranha tela surgiu do nada, tela esta que representava um modelo do sistema Beta com seus planetas, e também indicava a posição da nave dos desconhecidos de pele-branca e de sua própria nave.
Neste momento, o sol se interpõe entre nós e os estranhos — disse Gim Sarem, dirigindo-se ao engenheiro. — Só mesmo sua estação localizadora pode atingir-nos neste instante. A grande nave está penetrando no sistema com 0,9 da velocidade da luz. Vamos ampliar ao infinito nossa vantagem de um período de tempo.
Gim Sarem ergueu a cabeça e fitou o engenheiro-chefe.
Não está muito satisfeito, Gut-Ko? — perguntou ao ver a boca contorcida de seu interlocutor.
Gut-Ko confirmou com um gesto e disse:
Gim, de que forma esses desconhecidos, que voam em gigantescas naves totalmente antiquadas, penetraram em nosso império estelar? Não pode ter sido um simples acaso.
Dentro de pouco tempo será totalmente indiferente que tenha sido acaso ou não, Gut-Ko. Os desconhecidos pousarão e então receberão a visita de Mal-Se. Por isso seria ocioso continuarmos a falar sobre o assunto.
Naquele momento, a Retse-U desapareceu do cosmos e penetrou numa dimensão espacial superior.
Os rastreadores de relevo da estação Ori 12-1.818 não mais conseguiram que a nave se tornasse visível na tela espacial. Ao mesmo tempo, o oscilograma do rastreamento estrutural voltou a apresentar as amplitudes achatadas que representavam um enigma para todos.
4



Desenvolvendo 0,9 da velocidade da luz, a Drusus penetrou no sistema do sol gigante de Beta. Os efeitos secundários da rematerialização haviam cessado em todos os ocupantes da nave. Enquanto Bell e Deringhouse conversavam a meia voz, mantendo-se de pé à frente do mapa estelar em que estava assinalada a rota da pequena nave desconhecida, Perry Rhodan continuava sentado em sua poltrona e refletia intensamente.
Nem mesmo a mensagem do setor de rastreamento estrutural conseguiu arrancar Rhodan de suas reflexões:
Abalo estrutural com amplitudes anormalmente alongadas. Posição: cerca de um milhão de quilômetros acima do planeta número sete.
Sentia que o aparecimento dos acônidas numa área tão próxima ao sistema terrano não poderia ser um simples acaso, mas era incapaz de descobrir o plano que havia por trás dessa rápida visita.
Ori 12-1.818 chamou. A mensagem foi transmitida simultaneamente ao quartel-general da Frota Solar.
Nave desconhecida abandonou nosso complexo espaço-temporal há um minuto e dezoito segundos, provavelmente por meio de uma transição. Rastreador de relevo não reage mais. Fim da mensagem.
De repente Rhodan pareceu adquirir vida. Levantou-se e foi até o hipercomunicador.
Aqui fala Rhodan. Estação Ori, por quanto tempo a nave desconhecida permaneceu no planeta número sete e em que ponto do mesmo pousou? Aguardo resposta.
No momento em que pronunciou estas palavras a palestra entre Bell e o general cessou abruptamente. Os dois viraram-se para Perry Rhodan, que continuava de pé à frente do microfone.
Estação Ori 12-1.818 ao chefe — disse a voz do Tenente Harald Fitzgerald, saída do alto-falante. — Tempo de permanência da nave estranha no Sete: vinte e nove minutos e quatro segundos. Local de pouso...
O computador de bordo assimilou automaticamente os dados que o Tenente Fitzgerald estava fornecendo.
Quando a mensagem chegou ao fim, Rhodan levantou a cabeça; parecia pensativo. Muitos dos homens que se encontravam na sala de comando viram-no balançar a cabeça.
Quanto tempo ainda demorará? — a pergunta, um tanto desconexa, foi compreendida pelo co-piloto.
Daqui a vinte ou vinte e cinco minutos poderemos chegar ao local de pouso, sir, desde que a localização seja exata.
Obrigado — respondeu Rhodan e foi para junto de Bell e Deringhouse. — Então, o que me dizem, senhores?
Bell envolveu-se em silêncio. O General Deringhouse levantou os ombros e deixou-os cair.
Isso é misterioso, sir! Uma atitude totalmente inexplicável. O que se pode fazer durante uma visita de trinta minutos a um planeta estranho?
Bell irrompeu com o pensamento que lhe passou pela cabeça:
Pode-se deixar um contrabando! Deringhouse soltou uma risadinha e disse:
Sim, se existisse um contrabando galáctico.
No mesmo instante, o general lançou um olhar de alarma para Bell e apontou discretamente para Perry Rhodan.
Este fitava o mapa estelar, mas não parecia vê-lo.
Enquanto isso, a Drusus passou velozmente a uma distância segura de Beta e, logo depois, mudou de rumo, para tomar a rota do grande planeta de gás metano.
A gigantesca tela de visão global fora obscurecida, deixando passar somente a décima parte da torrente luminosa do monstruoso sol vermelho-amarelento. Apesar disso a luminosidade continuava a ser muito mais intensa que a iluminação normal da sala de comando.
Contrabando galáctico — repetiu Rhodan e fitou Bell. — Às vezes você tem idéias impagáveis, gordo.
Meu Deus, eu não disse nada — objetou Reginald Bell, que estava interpretando erroneamente as palavras de Rhodan.
Disse, sim. Você até disse muita coisa. Desde o momento em que ouvi sua observação, a pressão que sentia na cabeça desapareceu.
Pode ser — disse Bell, que não se sentia muito à vontade. — Mas não compreendo o que é que minhas palavras podem...
Rhodan sorriu. Com um ligeiro olhar procurou verificar se o general percebera quanta verdade havia na observação que Bell soltara por acaso. Mas Deringhouse também não conseguira acompanhar o raciocínio de Rhodan.
Muito bem — disse este. — Por ora não falaremos mais sobre isto. Quando atingirmos o campo de pouso dos acônidas no Sete, talvez possamos dar uma olhada no contrabando que deixaram lá.
Você não espera muita coisa boa deles, Perry — voltou Bell.
Rhodan refletiu e perguntou:
Será que nossas experiências com os pré-arcônidas foram boas? Quando travamos conhecimento com os arcônidas, eles fizeram questão de que sentíssemos seu orgulho e arrogância. E quando chegamos ao Sistema Azul, onde conhecemos o povo do qual descendem os arcônidas, eles nem tomaram conhecimento de nossa presença. Será que isso não é orgulho e arrogância?
Hum... Os acônidas têm um adiantamento de quarenta mil anos sobre nossa técnica. Se partirmos desse pressuposto, e admitindo que você acredita no contrabando galáctico, o que nos esperará no gigante de metano?”
Fez uma pausa e concluiu.
Um perigo! Um perigo traiçoeiro, que talvez seja ainda mais temível porque não o reconhecemos como tal.
O chamado do setor de localização energética interrompeu a palestra.
Sir — gritou um tenente. — Acabamos de observar uma emissão de energia pouco intensa, mas constante. Vem do Sete, mais precisamente, do local de pouso da nave desconhecida, determinado por Ori 12-1.818.
Avise assim que haja qualquer alteração, por menor que seja — ordenou Rhodan.
A nave esférica de um quilômetro e meio de diâmetro começou a frear; a força da inércia foi neutralizada pelo dispositivo de absorção. Poucos minutos depois, a Drusus passou de uma velocidade próxima à da luz para 300 km/seg. Nesse lapso de tempo a terça parte dos conversores trabalhou com a potência máxima, os propulsores de jato da protuberância equatorial rugiram e os transformadores e usinas de força zumbiram. Apesar do tamanho da nave e da distância que separava a sala de máquinas da sala de comando, estes ruídos romperam todos os isolamentos acústicos e obrigaram os homens que se encontravam na sala de comando a falar mais alto.
A luz de Beta já se reduzira a um nível suportável ao olho humano. O planeta Sete, que gravitava a uma tremenda distância do enorme sol, surgiu na extremidade superior da tela de visão global sob a forma de um astro do tamanho de uma bola de futebol. À primeira vista parecia consistir numa nuvem de gases que se encontrava em estado de turbulência, mas assim que o computador de bordo efetuou algumas regulagens, a atmosfera nevoenta desapareceu, deixando descoberto um gigantesco planeta.
Era um mundo sem vida, enrijecido de frio, que parecia jazer imóvel no espaço. O planeta levava cento e noventa e três horas para efetuar um movimento de rotação, mas em comparação com suas dimensões gigantescas girava com uma rapidez espantosa, do que resultavam fortes convulsões na atmosfera.
Os instrumentos da Drusus, que nunca se enganavam, constataram a presença de furacões de quatrocentos quilômetros por hora. Quatro mil quilômetros acima da superfície do planeta as massas gasosas corriam a uma velocidade dez vezes superior.
O Sete era um mundo morto. Face à gravitação de 5,3 G, contava-se entre os planetas pesados.
Quanto mais penso, menos compreendo o que os acônidas vieram fazer justamente aqui — disse Deringhouse.
O general dera ordens pelo intercomunicador para que os homens, que fossem desembarcar, vestissem trajes espaciais do feitio especial.
Desde o momento em que a Drusus reduzira a velocidade, todos os seus tripulantes entraram de prontidão. As torres de canhões estavam guarnecidas, as escotilhas que cobriam as peças de artilharia foram abertas. Na sala de comando de tiro reinava uma tensão extrema. Dois conveses abaixo, cento e oitenta homens trocaram, sem dizer uma única palavra, seus trajes espaciais pelos trajes protetores especiais.
Dez minutos antes do pouso da Drusus no Sete, a sala de comando recebeu o último aviso de que tudo estava preparado.
Ao que parecia, o supercouraçado da Frota Solar achava-se pronto para qualquer eventualidade, inclusive para o contrabando galáctico que os acônidas possivelmente haviam escondido no planeta.

* * *

A Drusus pousou no sétimo planeta do sistema Beta. Apesar do furacão que rugia, a nave mantinha-se segura e tranqüila como se estivesse no espaçoporto de Terrânia. Mas por enquanto todas as comportas continuaram fechadas; nem um único robô e nem uma única sonda-foguete foram enviados para fora.
Ainda não havia sido dada a ordem de entrar em ação. E Perry Rhodan nem pensava em dar.
Antes disso teria que descobrir qual era a finalidade da coisa que se encontrava a uns quatro quilômetros e tinha o tamanho de uma casa comum.
A ampliação máxima fez com que o estranho objeto preenchesse a tela frontal. Constatou-se inequivocamente que de lá provinham as emanações energéticas; eram fracas, mas de intensidade constante.
Então, senhores — disse a voz de Rhodan, rompendo o silêncio, que reinava na sala de comando. — O que é isso? Eu não sei. Será que alguém sabe dizer?
Ninguém respondeu à pergunta. Consultou a sala de comando de tiro, e de lá informaram que mais de cinqüenta por cento dos canhões da nave estavam dirigidos para a construção desconhecida.
Essa certeza tranqüilizou os presentes, pois bastavam trinta por cento do potencial de fogo da Drusus para, num bombardeio ininterrupto de alguns minutos, devastar um pequeno planeta, sem recorrer às bombas de fusão. Estas também se achavam no interior da nave, prontas para serem lançadas. Nada poderia acontecer ao supercouraçado, mas todos tiveram a impressão de se encontrarem diante de um perigo contra o qual não havia proteção.
O que é isso? — disse Perry Rhodan, repetindo a pergunta. Seus olhos cinzentos exprimiam uma tremenda tensão. — Não foi por nada que os acônidas se deram tanto trabalho para que encontrássemos isso tão depressa. O que será, Bell?
Um maldito contrabando! — limitou-se Bell a exclamar, dando de ombros num gesto de desânimo.
Sir! — o tenente que trabalhava junto à localização energética pronunciou esta palavra num grito. — Houve uma emissão de outra espécie. Nunca vi uma coisa dessas. Parecem ondas de choque, mas são diferentes. Terminou... a emissão desapareceu.
Será que estas palavras representaram um sinal para que Rhodan entrasse em ação?
Atenção, pessoal da computação. Peço a interpretação dos dados; rápido!
Bell e Deringhouse entreolharam-se rapidamente. Conheciam muito bem o significado desse tom na voz de Rhodan.
Uma folha de plástico saiu do computador de bordo. Um oficial pegou-a, lançou-lhe um olhar, estremeceu e disse com a voz entrecortada:
Nada! O computador não pode informar nada sobre a emissão energética.
Rhodan respondeu com a voz tranqüila:
Não esperava outra coisa. Então, Bell, ainda tem alguma dúvida de que essa nave era tripulada por acônidas?
Infelizmente não tenho. Mas nem por isso sabemos o que vem a ser aquilo.
Rhodan retrucou em tom sarcástico:
Uma vez que os acônidas não nos forneceram as instruções de uso, quero assumir o menor risco possível. Prefiro não envolver os homens nisso. Deringhouse, os robôs de guerra estão preparados?
São quatro grupos de sessenta unidades, chefe.
E os técnicos-robôs, general?
Dei ordens para programar cinco unidades.
Mande que estes também entrem em ação. Ficaremos aqui e os acompanharemos pela tela. Bell, você tem outra sugestão?
Harno, o televisor vivo, está a bordo, Perry?
Não. Já lamentei sua ausência. Talvez Harno pudesse dar-nos informações mais precisas.
Nesse momento ouviu-se barulho às costas dos homens. Uma voz áspera perguntou:
O que está fazendo por aqui? Afinal, quem é o senhor?
Perry Rhodan sabia perfeitamente quem acabara de entrar na sala de comando. Virou a cabeça e viu que Poul Naya detivera Walt Ballin, o jornalista.
Deixe o cavalheiro passar, Naya. É jornalista do Europa News de Paris e afirmou num artigo de fundo que a Administração Solar está realizando uma política autodestrutiva, pois não mantém os terranos suficientemente informados sobre os acontecimentos felizes e infelizes, que se verificam na Galáxia.
Estas palavras representaram uma agulhada nos sentimentos de todos os que se encontravam na sala de comando da Drusus. Estes homens, que não hesitavam em enfrentar qualquer perigo quando se tratava de ajudar o chefe, eram inimigos de todos que formulassem acusações contra Perry.
Ah, é? — disse Poul Naya, e seus olhos começaram a chamejar. — Sir, será que este escrevinhador não é o homem indicado para realizar esta missão? Poderia dar uma olhada na coisa que está lá fora. Assim, ele faria uma reportagem ao vivo.
Apesar da situação incerta em que se encontrava a Drusus, os homens aproveitaram a oportunidade para dar vazão à contrariedade. Nunca foram amigos dos jornalistas.
Acontece que todos se enganaram em relação a Walt Ballin. Ele não estava disposto a transformar-se em mártir e pagar pelos pecados de seus colegas. Num gesto impulsivo estendeu a mão para Poul Naya e disse:
De acordo. Mas só sairei para cumprir a missão depois que o senhor tiver escrito um razoável artigo de fundo para o Europa News.
Ora, eu não sou jornalista! — respondeu Poul Naya, sem pensar em nada.
Walt Ballin acenou tranqüilamente com a cabeça.
E eu não pertenço à Frota Solar, mister. Encontro-me a bordo da Drusus na qualidade de convidado do administrador.
Rhodan sorriu com a presença de espírito do jornalista, que, com as palavras que acabara de pronunciar, tornara impossível qualquer ataque à sua pessoa. Rhodan pediu-lhe que se aproximasse.
O Tenente Naya teve certa razão de lhe falar sobre o ensino visual, mister Ballin. Sente-se nesta poltrona e acompanhe pela tela a evolução dos acontecimentos. Já obteve informações sobre nossa tarefa?
Sim senhor. O Tenente Gucky já me forneceu alguns esclarecimentos.
Bell assumiu instintivamente uma posição de espreita. Não queria perder uma única palavra, pois supunha que os pretensos esclarecimentos representavam mais uma das artes do rato-castor.
O que foi que o Tenente Gucky lhe disse, Ballin? — indagou Rhodan, em cujos olhos cinzentos surgiu um brilho ligeiro.
Disse que no curso desta missão teremos um encontro com os acônidas do Sistema Azul. Disse mais que seu desenvolvimento técnico é infinitamente superior ao nosso, a tal ponto que, para eles, será facílimo destruir o Império de Árcon juntamente com o sistema solar. Por que ficou tão espantado? A informação não é correta?
É correta, sim. Estou espantado por causa de Gucky que...
No mesmo instante, Gucky surgiu no meio do grupo e piou, numa tentativa grotesca de ficar em posição de sentido:
Aqui estou, Perry. Você deveria saber que entre seus oficiais não existe nenhum mentiroso e nenhum contador de histórias de fadas.
No mesmo instante, Gucky desapareceu.
As risadas dos oficiais da sala de comando cessaram imediatamente, quando a tela mostrou 245 máquinas de guerra que caminhavam em direção à coisa que estava a quatro quilômetros. Nem a tremenda gravitação do planeta de metano, nem o furacão conseguiram detê-las.
Uma ação em grande escala dos robôs contra o cavalo de Tróia! — observou Bell, em voz baixa:
Ninguém percebeu que Perry Rhodan estremeceu ligeiramente. A alusão ao cavalo de Tróia fizera com que compreendesse instantaneamente o que representava a coisa.
Era um transmissor construído pelos acônidas!

* * *

O transmissor instalado no sétimo planeta do sistema Beta era de um tipo especial.
Além de ser um meio de transporte interestelar, servia à transmissão de imagens.
No planeta Esfinge três acônidas estavam sentados à frente de uma tela, ligeiramente abaulada, e contemplavam com uma expressão indiferente a gigantesca nave de mil e quinhentos metros de diâmetro e o grupo de robôs, que marchava e já se havia aproximado dois quilômetros da estação do transmissor.
O mais jovem dos três acônidas soltou uma risada.
O destino está do nosso lado. Mal-Se nem precisará esforçar-se.
O velho acônida que se encontrava à sua esquerda contraditou-o.
Isso não é uma manifestação do destino, mas do Comando Energético e das qualidades superiores de Vu-Pooh. O lugar foi escolhido de tal forma que a nave dos peles-brancas forçosamente teria de pousar ali. O que vem a ser o destino? Apenas um jogo do acaso. E os números não deixam campo para o acaso. Até são capazes de encerrar o próprio acaso em números. Não se esqueça disso, Hut-Up!
Farei o possível, mestre — respondeu Hut-Up, e calou-se.
Sem se impressionarem com o espetáculo, com uma expressão que quase chegava a ser de tédio, os três acônidas do Sistema Azul acompanharam o avanço dos robôs terranos em direção à estação do transmissor. Quando as primeiras máquinas do grupo ainda se achavam a algumas centenas de metros do destino, o acônida que fora chamado de mestre por Hut-Up, disse ao que se encontrava à sua direita:
Mal-Se pode começar.
O homem ao qual foram dirigidas estas palavras repetiu a ordem, proferindo-as em outra direção. E logo veio a resposta:
Mal-Se começará dentro de um vinte e cinco avôs de um período de tempo.
O mestre fez que sim e desligou.
Concluímos nosso trabalho. Mais uma vez, o Conselho Deliberativo ficará satisfeito com a atuação do Comando Energético. Vu-Pooh já entrou em contato conosco?
Já, mestre — informou Hut-Up. — A Retse-U chegará no primeiro quinto do quarto período.
Está bem. Diga a Vu-Pooh que entre em contato comigo. Preciso falar com ele, Hut-Up.

* * *

Você tem razão! — exclamou Bell. — Realmente é um transmissor acônida.
Já não havia a menor dúvida.
Um campo energético de mais de cem metros de altura e igual largura surgira numa questão de segundos acima da coisa. Resistiu à fúria dos elementos e emitiu uma luminosidade avermelhada nas bordas interiores. Aquela figura devia ser uma concentração de linhas energéticas potentes e condensadas, que fizeram surgir um túnel negro.
A única pessoa que disse alguma coisa na sala de comando da Drusus foi o General Deringhouse. Ordenou aos robôs, pelo rádio, que ficassem parados e aguardassem novas ordens. Não precisou dizer mais do que isso. O resto ficava a cargo da programação.
As máquinas de guerra terranas pararam a duzentos metros do transmissor acônida.
Rhodan puxou o microfone para junto de si.
Qualquer coisa que saia da estação do transmissor deve ser aprisionada; em hipótese alguma deverá ser morta ou destruída.
Devolveu o microfone ao general.
Depois disso teve início a espera.
Os canhões do costado da Drusus, apontados para a construção dos acônidas, estavam prontos para disparar. As pesadas peças de raios térmicos, de desintegração e de impulsos ficaram dirigidas para a obra técnica de uma raça estranha; a qualquer momento fariam com que esta submergisse num furacão de fogo.
O jornalista Walt Ballin estava recebendo um ensino visual sobre as atividades da Frota Solar com o qual nunca chegara a sonhar.
Olhava constantemente para Rhodan. E, quanto mais olhava, mais admirava este homem cauteloso, ponderado e frio. Perry Rhodan não era nenhum ditador, e nem um tagarela que sempre queria estar com a razão.
Naquele momento disse:
Tenho certeza de que os acônidas não estão apenas brincando conosco. Será que não estamos esperando demais?
Por enquanto não aconteceu nada — ponderou Bell.
Rhodan não se impressionou.
Deringhouse, faça recolher os robôs à nave. Mande que voltem o mais depressa possível. Isto já está me assustando. O que dizem os instrumentos?
A pergunta foi dirigida aos oficiais da sala de comando. Deringhouse deu ordem pelo rádio para que os robôs voltassem. Bell não estava de acordo, mas limitou-se a balançar a cabeça.
Pela primeira vez em toda vida, Walt Ballin compreendeu o que significava ter os pés frios.
Sentia um medo terrível, não da luminosidade vermelha ou da estranha construção, mas de alguma coisa que não sabia o que fosse.
Na tela de visão global viu-se que os robôs já haviam percorrido metade do caminho.
Torre polar. Pode abrir fogo contra o alvo.
A voz de Rhodan tinha um som metálico, quando proferiu a ordem para dentro do microfone do intercomunicador.
No mesmo instante, os raios de impulsos e de desintegração de vários metros de espessura destruíram o transmissor acônida. Tudo submergiu numa nuvem de gases atomizados, que foi desmanchada imediatamente pelo furacão de gás metano. O local em que estivera a estação entrou em incandescência. A rocha congelada derreteu-se e gaseificou-se.
A torre polar da Drusus abrira fogo por três segundos. Quando os canhões de radiações foram desligados, viu-se a quatro quilômetros uma cratera, na qual a rocha liquefeita foi endurecendo, formando uma compacta massa vitrificada.
Se eu fosse você, teria esperado mais algum tempo, Perry!
Esperado o quê, Bell? — indagou Rhodan, apreensivo.
O homem baixo e sardento não deu mostras do espanto que lhe causara o nervosismo de Rhodan. Limitou-se a dizer:
Então você está assim....
Pois eu também estou”, pensou Walt Ballin, que não compreendia por que ainda estava com medo.
Dali a pouco Deringhouse dirigiu-se a Rhodan:
Sir, os robôs já entraram na nave. Instruí os robôs técnicos a comparecerem à sala de comando.
Bell, encarregue-se do computador. Desejo conhecer quanto antes a interpretação dos dados colhidos pelos robôs, muito embora não espere muita coisa.
OK!
Bell dirigiu-se ao computador e colocou-o na posição de consulta.
Antes que os robôs chegassem à sala de comando, a fim de entregar o resultado de suas observações, mais dez minutos se passaram. Rhodan aproveitou este tempo para conversar com Walt Ballin. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi o aspecto nada sadio do jornalista.
Walt Ballin estava com medo; sentia o mesmo medo que ele.
Ocultou de forma magistral o espanto e a perplexidade. Concentrou-se no serviço profissional de Ballin e envolveu o jornalista numa palestra interessantíssima.
Quer dizer que posso escrever o que quiser, sir? Não haverá necessidade de submeter minha reportagem ao senhor ou a alguma comissão quando voltar à Terra?
Rhodan riu com os olhos, embora a expressão do rosto permanecesse inalterada.
Ora, Ballin, não vivemos numa ditadura! E, o que é mais importante, senhor jornalista, a administração não tem nada a esconder, a não ser as coisas que, em qualquer lugar, costumam ser mantidas em segredo. Apenas estou ansioso para saber o que o senhor fará publicar nos jornais e o que não fará publicar.
Farei publicar tudo, sir. Não omitirei nada — afirmou Walt Ballin, em tom convicto.
Também já pensei assim, Ballin. Faz muito tempo. Era tão jovem como o senhor. Mas depois surgiu a responsabilidade e as dúvidas, e fiquei perguntando a mim mesmo sobre o que deveria trazer ao conhecimento do público e o que não deveria.
Sir, um jornalista também tem certa responsabilidade!
Walt Ballin teve a impressão de que deveria defender o conceito de sua profissão.
Foi justamente por acreditar que o senhor é um homem dotado de senso de responsabilidade que o convidei a ir para Terrânia... Olhe os robôs, Ballin. Mais uma vez temos de interromper nossa palestra.
Cinco robôs entraram ruidosamente na sala de comando. A visão dos colossos metálicos em movimento nunca deixava de ser um espetáculo imponente. Ballin, que os ouviu falar um de cada vez e teve de constatar que não compreendia suas palavras, por lhe faltarem os conhecimentos técnicos, começou a admirar essas criaturas artificiais e seus criadores.
Mas Bell não as admirou. Manteve-se inativo diante do computador de bordo. A cada segundo que passava, a expressão de seu rosto tornava-se mais zangada.
As observações colhidas pelos robôs científicos não serviam para nada. As medições por eles realizadas diante do transmissor acônida eram contraditórias e evidentemente falsas.
Deringhouse apagou a programação especial das máquinas e mandou que voltassem ao depósito.
No momento em que Rhodan pretendia dar ordem para decolar, houve um chamado do depósito de robôs número 4. Ortlow, que era o chefe do depósito, informou que todos os robôs estavam sujos.
Ora, Ortlow, a bordo desta nave existem instalações de lavagem; use-as — disse Rhodan em tom contrariado, por ter sido interrompido em suas atividades por causa de uma bagatela como essa.
Acontece que a sujeira não sai. Parece incrustada nos robôs.
Isso não me interessa, Ortlow. Arranje-se como puder. Desligo.
Dirigiu-se a Deringhouse.
Assuma a nave, general. Decolaremos...
Rhodan foi interrompido pelo setor de hipercomunicação, que anunciou uma mensagem urgente dirigida a Rhodan, expedida pela nave-hospital III. Os traços que apareciam na tela da sala de comando estabilizaram-se.
Sir — principiou — constatamos a presença da doença de endurecimento intestinal na nave cilíndrica UG DVI. Os homens do comando de abordagem também contraíram a moléstia. Mas não é por isso que estou chamando. O mais importante é que a doença foi provocada artificialmente a bordo da nave dos mercadores galácticos. Ao que tudo indica, as culturas da doença provêm da Terra.
Professor Degen, pense bem no que está dizendo! — advertiu Rhodan, em tom enérgico.
O médico fez um gesto com o braço esquerdo, gesto este que deveria representar um pedido de desculpas, mas disse:
Sir, é claro que não sou nenhum policial e posso estar enganado, mas como é que uma ampola quebrada com restos de culturas da doença veio parar na nave dos saltadores? Aviso-lhe que nos últimos trinta dias a nave só entrou em contato com terranos.
Ora, professor, meu dia também só tem vinte e quatro horas, nem um minuto a mais. Suspenda a palestra neste ponto e entre em contato com o chefe da Segurança Solar, Allan D. Mercant, expondo ao...
Sir, há poucos minutos ele me pediu que entrasse em contato com o senhor e lhe transmitisse em seu nome o pedido de passar por nossa posição, a fim de que a ampola chegue à Terra o mais depressa possível. Naturalmente o transporte não envolve o menor perigo. O material contaminado foi acondicionado. Não há perigo.
Rhodan fez um sinal para a tela do telecomunicador.
Está bem. Dentro de uma hora estaremos aí.
Dali a pouco a Drusus decolou do gigantesco planeta de metano. Reginald Bell encontrava-se no camarote de Rhodan. O baixote caminhava de uma poltrona para outra e não sossegava em nenhuma delas. Enquanto isso, Perry Rhodan demonstrava uma tranqüilidade extraordinária.
Se Allan D. Mercant recorre a nós, é porque atribui a maior importância ao caso, ligado a esta doença, Bell. Muito bem; façamos-lhe este favor. No momento não perderemos nada por causa da pequena volta que daremos. Por mais duras que possam parecer estas palavras, o fato é que o caso não me interessa. Não tenho tempo para ocupar-me com ele, pois a misteriosa visita-relâmpago dos acônidas causa-me tamanha preocupação que não consigo pensar em outra coisa. Sinto uma sensação cada vez mais forte de que existe um detalhe que nos escapou.
Naturalmente não há ninguém que chame nossa atenção para isso, mesmo depois que aconteceu... O que houve? Perry, é a estação. Deve ser para você.
O Tenente Harald Fitzgerald da estação Ori 12-1.818 tinha uma informação para Rhodan.
Sir, cometemos um engano nas nossas observações. A estação receptora sincronizada com o transmissor emitiu duas séries de ondas de choque. A primeira série também deve ter sido registrada pelos instrumentos da Drusus. Porém exatamente vinte e três minutos e oito segundos após o primeiro impulso, houve uma segunda emissão. Entretanto esta era abafada por um impulso de categoria superior e foi tão débil que só por um acaso a notamos. Sir, passamos tudo de novo...
Está bem, tenente — disse Rhodan, interrompendo o Tenente Fitzgerald, que falava com certa insegurança. — Vou ligá-lo com a sala de comando da Drusus. Passe novamente o respectivo trecho e transmita-o pelo rádio. Quero observá-lo pessoalmente. Muito obrigado.
Dali a pouco correu apressadamente em direção à sala de comando, acompanhado por Bell. A transmissão da estação Ori 12-1.818 já fora realizada. Os oficiais cederam lugar para Rhodan e Bell, e dali a pouco ouviram o primeiro dizer:
É perfeitamente compreensível que não tenham notado isso.
Regulou a imagem para um setor específico e mandou retroceder o aparelho, para voltar a olhar tudo a partir de determinado instante.
Quando no interior do Sistema Azul, Rhodan e Bell viram muitas vezes essas curvas, supuseram tratar-se de ondas de choque expelidas pelos transmissores. Porém não conheciam as ondas de superposição que encobriam quase totalmente as amplitudes achatadas.
Não sabemos mais que antes — disse Bell subitamente, em tom impulsivo.
Entretanto calou-se ao sentir a mão de Rhodan pousada em seu braço.
Você está enganado, Bell. Ao menos já sabemos que os acônidas enviaram mais alguma coisa ao sétimo planeta e se deram ao trabalho de evitar que tivéssemos conhecimento disso. Deringhouse, ponha em ação a frota. O mundo número sete deve ser mantido sob vigilância cuidadosa e ininterrupta. Não devemos dar aos acônidas a menor possibilidade de instalar uma base por lá. Ordene ao comandante da frota que evite isso, usando todos os meios ao seu alcance. Quando entraremos em transição?
O salto realizou-se dali a três minutos.
5



A Drusus voltara a ocupar a área que lhe estava reservada no espaçoporto de Terrânia. Fazia meia hora que a ampola, encontrada na nave cilíndrica UG DVI, fora retirada por dois médicos. Lidaram com o pequeno invólucro, como se fosse um explosivo que pudesse detonar ao menor abalo.
Bell, o General Deringhouse e o jornalista Walt Ballin estavam sentados no planador de Rhodan.
O veículo corria vertiginosamente em direção ao arranha-céu. De repente descreveu uma curva para pousar. Foi quando Rhodan rompeu o silêncio.
Poucas vezes voltei de uma ação com uma sensação tão desagradável como hoje. Não sei...
O planador pousou suavemente; desceram e o elevador antigravitacional levou-os ao gabinete do administrador, situado um andar abaixo da cobertura. No momento em que o grupo passou pela ante-sala, as autoridades mais importantes de Terrânia tornaram-se logo cientes de que o chefe estava de volta.
A tela do intercomunicador já fora ligada, e nela se via o rosto de Allan D. Mercant. No momento em que se acomodava na poltrona, Rhodan falou para dentro do microfone:
Mercant, deixe-me em paz com essa doença de endurecimento intestinal. Não sei o que há por trás disso, mas no momento não estou interessado. É a respeito da moléstia que quer falar comigo?
Mercant fez que não.
Sir, a Drusus alarmou a Segurança Solar. Há suspeita de sabotagem nos depósitos de robôs. Ortlow, o chefe do depósito, solicitou uma investigação minuciosa. Todos os robôs, até mesmo os de trabalho que atuam no interior da nave, apresentam danos... As amostras, que examinei há poucos instantes, foram alarmantes.
Está bem, Mercant. Se as suspeitas de sabotagem se confirmarem, avise-me. Mais alguma coisa?
O chefe da Segurança Solar conhecia Perry Rhodan e compreendia que naquele momento não queria ser incomodado com ninharias. Apressou-se em dar resposta negativa à pergunta que acabara de ser formulada e em desligar o aparelho.
Então, Ballin — disse Rhodan, dirigindo-se ao jornalista. — O que vamos ler amanhã no Europa News sobre a última missão da Drusus? Já tem uma idéia do que vai escrever?
Por enquanto não vou escrever uma única linha, sir — respondeu Walt Ballin. — Não posso publicar um artigo baseado em conjeturas.
Bell e Deringhouse fitaram-no com uma expressão de espanto. Não esperavam uma resposta dessas.
Mas por nosso intermédio o senhor ouviu falar pela primeira vez nos acônidas, Ballin. A administração terá muito prazer em fornecer-lhes outros dados a respeito — disse Rhodan, a fim de fazê-lo sair da atitude de reserva em que se mantinha.
Sir, não sou um repórter sensacionalista — começou Ballin, cocando a mão esquerda. — O senhor mesmo disse que sabe muito pouco a respeito dos acônidas. Tenho a impressão de que o assunto terá de amadurecer antes de ser publicado. Por que está rindo, sir?
Bell e Deringhouse também irromperam numa gargalhada. O homem sardento chegava a balançar-se de tanto rir e disse:
O senhor está seguindo nossas pegadas, Ballin. Sempre pensamos da mesma forma que o senhor, mas foram surgindo novidades e mais outras novidades, quando as primeiras ainda não estavam maduras. Um belo dia alguém disse no Parlamento que violamos nosso dever de prestar informações. Caramba, como minha mão está cocando. O que será?
A minha também está — falou Deringhouse.
A minha também!
Estas últimas palavras foram proferidas por Rhodan. Quatro homens contemplavam as mãos. E quatro homens viram alguns pontos do tamanho da cabeça de um alfinete, que se mostrava visível um pouco abaixo da pele.
Esta coceira chega a ser uma impertinência! — exclamou Bell, que nunca fora um homem paciente, e sempre ficava nervoso quando qualquer coisa o incomodava. — Vou chamar o médico de plantão. Pedir-lhe-ei que me dê um remédio contra isso. Deixe-me usar o intercomunicador, Perry.
Por causa de uma bobagem dessas, Bell?! Bem, fique à vontade.
Afastou-se. Bell pediu o comparecimento do médico. Por coincidência este encontrava-se no mesmo andar.
Estarei aí num instante, mister Bell.
Dali a pouco estava entre eles. Contemplou quatro mãos. Balançou a cabeça, perplexo.
Sir — disse, dirigindo-se a Rhodan. — Há pouco pediram-me que diagnosticasse um caso idêntico, mas não sei de que se trata. Na minha opinião isto deve ser um trabalho para a divisão dermatológica. O senhor também tem algumas manchas vermelhas no rosto.
O aparelho de telecomunicação emitiu um zumbido.
Era a Drusus. Um dos oficiais estava no aparelho.
Sir, há algo de errado na Drusus. De um instante para outro, todos os tripulantes foram atacados por uma terrível coceira. Já notifiquei a grande clinica de Terrânia.
Antes que Rhodan tivesse tempo para responder, o médico falou.
Coloque sua mão junto à objetiva! — pediu ao homem que falava da Drusus.
O oficial atendeu ao pedido, e o médico constatou:
É o mesmo quadro mórbido. Caramba, também estou começando a sentir coceira!
Doutor — disse Bell. — Será que fomos atacados pela doença de endurecimento intestinal?
Deringhouse e Walt Ballin entesaram o corpo.
Não, senhores, esta suposição é absurda. A doença de endurecimento intestinal não apresenta estes sintomas.
Posso desligar, sir? — perguntou o oficial, que se encontrava na sala de comando da Drusus.
Rhodan fez que sim. A imagem da tela desfez-se. Mas logo houve outro chamado. Era a grande clínica de Terrânia.
Sim?! — a voz de Rhodan denotava nervosismo.
Sir, acabo de ordenar que a Drusus fique de quarentena. E vejo-me obrigado a pedir ao senhor e a todas as pessoas, com as quais entrou em contato após o pouso, que não saiam dos recintos onde se encontram.
Estas palavras foram pronunciadas pelo doutor Haenning, chefe do setor de quarentena e inspetor sanitário de todo o Império Solar.
Rhodan nem pensou em formular qualquer objeção, mas sentiu-se tomado pela curiosidade que fustiga qualquer pessoa enferma, e não inteirada a respeito de sua doença: quis saber alguma coisa a este respeito.
Não posso dar nenhuma informação, sir — respondeu o doutor Haenning, em tom triste. — Ao que tudo indica, a doença não é perigosa, mas as normas de quarentena me obrigam...
Houve um chamado de emergência da grande estação de hiper-rádio.
Peço-lhe que aguarde um instante, doutor Haenning — disse Rhodan, interrompendo o médico. — Fique na linha.
A imagem da segunda tela estabilizou-se. O rosto do médico-chefe da nave-hospital III fitou-o com uma expressão preocupada.
Sir, acabo de ouvir a notícia de que a Drusus foi colocada sob quarentena. A Drusus foi contaminada por nós, por ocasião da entrega das culturas, ou então sua nave levou a doença à minha, à Nil e à nave cilíndrica UG DVI. De um instante para outro, os mesmos sintomas se manifestaram nos tripulantes das três naves.
Que reação em cadeia será esta? — indagou Bell em tom exaltado, e fitou Deringhouse com uma expressão preocupada.
É impossível que tenhamos sido os portadores da infecção — afirmou o general e fitou a mão com uma expressão contrariada. — Que diabo! — praguejou, embora raramente usasse este tipo de expressão. — As manchas estão cada vez maiores, e meu ombro esquerdo também já está cocando.
Pois eu estou sentindo coceira na sola dos pés — resmungou Bell e perguntou ao jornalista. — Onde é que o senhor está sendo atacado, meu caro?
A expressão não é bem esta, mister Bell. Sinto-me incomodado em toda parte. Nunca vi uma coisa destas.
Enquanto isso, o doutor Haenning colocou sob quarentena a Nil, a nave-hospital III e a UG DVI. E a determinação que acrescentou a esta ordem fez com que os homens do gabinete de Rhodan se sobressaltassem.
O médico não deixou que as três espaçonaves se dirigissem a qualquer planeta.
Faço questão de que o senhor explique o motivo desta ordem, doutor — disse Perry Rhodan com a voz penetrante. — Quero que o senhor me relate a quantas andamos, sem preocupar-se com a minha doença.
O rosto do doutor Haenning assumiu uma expressão rígida.
Sir, infelizmente nunca houve um caso como este no Império Solar. Três colegas, que estavam estudando a infecção, adoeceram, muito embora tenham observado as rigorosas medidas de segurança. E eu também já começo a sentir coceiras.
Doutor — principiou Rhodan. — De repente me ocorreu uma hipótese sobre a causa desta terrível infecção. O senhor seria capaz de imaginar que até mesmo os robôs podem ser atacados pela doença?

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