domingo, 28 de agosto de 2016

P-097 - O Preço do Poder - Kurt Brand [Parte 3]

Dê o fora! — o saltador estava enjoado dessas maneiras submissas do soltense. — Saiam ambos! Depressa, seus...
Gritou um palavrão, resmungou mais alguma coisa e prosseguiu no exame dos documentos.
No estreito convés os dois pretensos soltenses viram-se a sós; eram Perry Rhodan e Reginald Bell.
O gordo deu vazão à sua raiva:
Já não tolero isso. Que servilismo! Que tolice foi essa que você disse a respeito do Grande Conselho das Mães?
Não tiveram oportunidade para conversar. Um saltador saiu do depósito de peças sobressalentes, viu-os e os chamou.
Abram o renovador de ar. Depressa! — ordenou.
Tratava-se do recipiente que Gucky fizera pairar à sua frente, por meio de suas forças telecinéticas, quando se dirigia para a Lorch-Arto, que então ainda se encontrava no hangar da Drusus. E, enquanto permanecessem nesse planeta, esse recipiente seria a casa de Gucky. Nenhum saltador devia ver o rato-castor. Gucky poderia deleitar-se com a fama de ser ainda mais conhecido que o próprio Perry Rhodan, no interior do Império de Árcon.
E, naquele momento, Gucky se encontrava dentro do pretenso aparelho de renovação de ar.
Rhodan procurou contactar os pensamentos do rato-castor, mas não captou nenhum impulso.
Abra a tampa, seu corcunda mentiroso! — berrou o saltador, apontando a arma de impulsos.
Isso levou Bell a apressar-se. E o gorducho tremia... de raiva.
A tampa foi levantada e colocada de lado. O saltador aproximou-se com gestos grosseiros e pisou no pé de Bell. Este recuou apressadamente e caiu por cima de um equipamento energético. Engolindo a praga que ia soltar, ergueu-se e teve de se conformar com o sorriso de deboche do saltador.
Ao levantar-se, Bell desmanchou-se em mesuras e disse no pior intercosmo possível:
Meu senhor é tão bom para mim... Diante de tamanha bajulação, o saltador sacudiu-se de nojo. Examinou o interior do aparelho. Entretanto não notou que faltavam algumas chaves de controle.
Não se viu o menor sinal de Gucky.
Ele se afastara!
O saltador saiu ruidosamente e bateu a porta que dava para o depósito de peças sobressalentes.
Perry — cochichou Bell. — Não agüento esse tratamento por muito tempo!
Gucky apareceu, saindo do nada.
Tenho de voltar para dentro desta caixa apertada, patrão? — perguntou dirigindo-se a Rhodan.
Este limitou-se a acenar com a cabeça.
Gucky enfiou-se na caixa. Rhodan e Bell voltaram a colocar a tampa e trancaram o recipiente.
Precisamos aparecer na sala de comando, Bell...
Entraram no momento em que o comandante do destacamento contactava-se com o clã de Cokaze. O filho mais velho deste aparecia na tela.
Fomos avisados da remessa — disse o futuro chefe do clã. — Não existe a menor dúvida. Acho que todo mundo sabe que os soltenses voam com uma licença nossa. Para que servem esses controles demorados?
Sob seu ponto de vista, o filho mais velho de Cokaze estava dizendo a verdade. Mas não desconfiava de que o aviso não viera do segundo planeta, pois fora expedido pela Drusus.
Até então o Serviço de Defesa de Rhodan funcionara perfeitamente.
E agora o filho de Cokaze também descobriu os dois soltenses.
Conhecia Maixpe e Trexca, o primeiro-oficial da Lorch-Arto. Rhodan e Bell transpiravam fortemente sob a cobertura de bioplástico.
Ora, saltador — respondeu o comandante do destacamento policial. — O senhor sabe perfeitamente que, a partir do momento em que se manifestaram as agitações no Grande Império, recebemos ordens de exercer um controle mais rigoroso em Archetz. Vamos liberar a nave e sua tripulação. Disponha dela, saltador!

* * *

Quando o último compartimento de carga da Lorch-Arto já havia sido quase totalmente esvaziado das preciosas peles de odd, ocorreu uma forte explosão na sala de máquinas da nave cargueira.
A explosão abriu um buraco de cinco metros por sete na popa, buraco este do qual saíram chamas que se erguiam ruidosamente.
O alarma de radiações uivou no interior da Lorch-Arto.
Os dezessete soltenses, que em suas casas e diante das mulheres ávidas de mando não podiam abrir a boca, demonstraram um extraordinário sangue-frio perante a catástrofe. Mas se não fosse o auxílio das naves vizinhas com seu equipamento de combate ao incêndio, a Lorch-Arto se teria derretido.
A luta contra as energias liberadas durou dez minutos. Houve novas explosões que produziram temperaturas de milhares de graus. Finalmente o perigo que ameaçava a velha nave cargueira foi removido.
Mas esta não mais poderia decolar. Teria de ser levada a um estaleiro dos salta-dores, a fim de receber um novo mecanismo propulsor.
O que é que eu vou contar ao Grande Conselho das Mães? — perguntou Maixpe com a voz chorosa, dirigindo-se ao membro mais velho do clã dos Cokaze.
Mas logo empertigou-se e disse em tom grandiloqüente:
Que nada! Direi ao conselho que ele não entende nada de acidentes deste tipo e deve ficar bem calado. Será que é isto que eu vou fazer, Trexca?
Não exagere, Maixpe. Até parece que você faz questão de ser considerado um mentiroso — gritou o saltador. — Quando estiver em casa, não se atreverá a dizer uma única palavra e suportará tranqüilamente a surra que vão aplicar em você. Afinal, vocês não são homens; são soltenses. Mas nossos engenheiros ainda não conseguiram descobrir a causa dessa explosão nos propulsores, Maixpe. É estranho!
Isso mesmo — confirmou Maixpe. — É estranho! Será que a polícia saltadora pregou-nos uma peça?
Você está louco, soltense! — repreendeu-o o filho mais velho de Cokaze. — Faremos a prestação de contas depois que meu clã tiver pago o conserto de sua nave, senão nos próximos quinze dias você e sua tripulação gastarão todo o dinheiro em farras.
Ora essa! Precisamos de dinheiro — interveio Trexca, aliás, Bell. — Em Archetz sempre há muita coisa para fazer.
Executou o movimento internacionalmente conhecido de levantar o copo.
Seu beberrão! — disse Maixpe, mas também solicitou um adiantamento.
Está bem. Primeiro providenciarei para que sua nave seja levada a um estaleiro — disse o saltador. — Depois farei um pagamento por conta. De acordo?

* * *

Tal qual o espaçoporto, a cidade de Lus quase não fora danificada pelo ataque dos druufs.
Seus locais de vida noturna continuavam a tentar os astronautas a desperdiçarem o dinheiro ganho com tanta dificuldade. Os hábeis saltadores fizeram desse tipo de tentação uma verdadeira indústria. Quando se tratava de lucrar, não conheciam escrúpulos.
Os dezessete terranos disfarçados de soltenses submergiram no frenesi dos divertimentos.
Com os bolsos cheios de dinheiro, que em virtude da inflação não valia muita coisa, atiraram-se aos braços dessa indústria dedicada à exploração dos forasteiros.
Ei, mentiroso, venha cá. Vamos tomar um trago.
Será que hoje o queridinho da mamãe pode arriscar um joguinho?
Em todo lugar eram molestados, mas também costumavam ser olhados com uma compaixão misturada de escárnio. Saltadores embriagados, que por anos a fio haviam voado de um mundo para outro e agora, que se encontravam em Archetz, tinham chão firme sob os pés por alguns dias, convidaram-nos a beberem.
Perry Rhodan e Bell estavam sentados à mesa com três jogadores apaixonados.
Não arrisque demais! — disse Perry Rhodan em soltense, dirigindo-se ao gordo.
Ele mesmo ia jogando cada vez mais alto, assim que as cartas eram distribuídas.
Graças à sua débil faculdade telepática e à capacidade de ler nos rostos dos outros, quase sempre descobria o jogo dos parceiros.
Dali a duas horas pararam. Os saltadores fitaram com um ar de espanto os soltenses que haviam ganho todo o dinheiro que traziam
Amanhã lhes darei revanche — propôs Maixpe, aliás Rhodan, em tom gentil.
Agradeço! — resmungou um dos saltadores. — Essa revanche me sairá muito cara.
As coisas não foram muito diferentes na mesa em que se fazia o jogo do tol, onde trinta saltadores, aras e ekhônidas, e um soltense, todos possuídos pelo demônio do jogo, perseguiam o tremeluzir da lâmina prismática, iluminada pela luz indireta.
O soltense ganhava sempre.
O banqueiro começou a transpirar. Pela terceira vez modificou discretamente a regulagem positrônica, a fim de que nos próximos vinte jogos pudesse recuperar os prejuízos da banca.
John Marshall, que já se acostumara à barba trançada e não fechava mais os olhos por causa da sombra projetada pela saliência da testa, divertiu-se a valer.
Você não perde por esperar, meu velho”, pensou. “Seus truques não lhe adiantarão mais nada. A mim você não engana.
No último instante apostou em prisma 4, verde 3. Era uma possibilidade entre cento e trinta.
Prisma 4, verde 3 acabara de pensar o banqueiro. E, na atitude típica de um banqueiro de jogo, o saltador cruzara os braços diante do peito a fim de, por meio de um telecomando mental, transmitir ao dispositivo automático da mesa de jogo o lance correspondente a prisma 4, verde 3. O impulso foi emitido um décimo de segundo antes do momento em que Marshall atirou um pacote de notas sobre o campo ainda livre.
Os homens soltaram berros de surpresa, as mulheres gritavam. Em todos os olhos lia-se a ganância e a inveja pela sorte tremenda do soltense.
O ganho de cento e trinta por um foi pago ao corcunda. O banqueiro tivera de buscar dinheiro, e jogou maços e mais maços de dinheiro na mesa, à frente de Marshall. Tinha o rosto pálido como cera. Suas mãos tremiam. A sorte ininterrupta do soltense deixava-o apavorado. Mais três corcundas juntaram-se a ele. Um deles disse para todos ouvirem que sua arma de impulsos recebera uma carga nova na manhã daquele dia.
John Marshall abandonou a mesa de tol, acompanhado por três companheiros. Trazia uma fortuna no bolso.
Às 30 horas e 30 minutos, tempo padrão, nem um único dos dezessete soltenses se encontrava no bairro de vida noturna. Estavam sentados em torno de uma mesa, num botequim de astronautas, e conversavam calmamente em soltense. Não precisavam preocupar-se com a possibilidade de alguém ouvir a palestra. Com exceção de alguns lingüistas, não havia no Império arcônida ninguém que dominasse sua língua.
Então, nada! — constatou Maixpe, aliás, Rhodan. — Não contava mesmo com um êxito ou sequer uma pista. Amanhã Mister Reginald Bell e eu tentaremos, levados por Tschubai, conhecer a parte subterrânea da cidade. Marshall, escolha homens que possam agir em Titon...
Acontece que Titon, a capital do planeta, é um monte de escombros! — ponderou Trexca, aliás, Bell.
Só a parte situada na superfície — retificou Rhodan. — Com exceção das vítimas humanas, o ataque dos druufs contra o planeta de Archetz teve o efeito de uma picada de agulha. Este planeta é um segundo Árcon III. E acho que já sabemos o que essa gente pretende fazer, não sabemos, Lloyd?
O mutante localizador confirmou com um gesto.
E o anãozinho Gucky pode dormir à vontade? — observou Bell, em tom contrariado.
Pode — disse Rhodan laconicamente, dando por encerrada a palestra.
Às 31 horas e 45 minutos, tempo padrão, a central subterrânea da polícia de estrangeiros de Archetz recebeu a seguinte informação: os dezessete soltenses foram para o hotel e ficaram em seus quartos.
Acontece que essa informação já não era verdadeira.
Os dois teleportadores, Ras Tschubai e Tako Kakuta, haviam levado André Noir e Fellmer Lloyd a Titon, num salto de teleportação, a fim de que estes verificassem se o bairro de vida noturna da capital do planeta também continuava intacto.
Na minha opinião o chefe está andando muito devagar — disse André Noir, enquanto voltava ao hotel, acompanhado pelos três companheiros. — A cidade de Lus não é o lugar adequado para procurar Thomas Cardif. Se é que ele se encontra em Archetz, só pode estar na parte subterrânea de Titon. Nenhum de vocês tem vontade de ir comigo?

* * *

A máscara de bioplástico de Rhodan ocultava seu aborrecimento, mas o desaparecimento — quase total — dos olhos embaixo da protuberância da testa dizia bastante.
A medida que André Noir prosseguia no seu relato, mais contrariado se sentia. Deixaram-se levar pela corrente dos transeuntes. Vez por outra eram separados, mas logo se reencontravam, e Noir prosseguia no seu relato sobre a excursão noturna à parte subterrânea de Titon.
Ah, é? — foi só o que Rhodan teve a dizer.
Continuavam a falar em soltense. Essa língua não conhecia a palavra sir.
Senhor — disse o teleportador Ras Tschubai, que se encontrava ao lado de Rhodan. — Na noite passada só resolvemos sobre o que deve ser feito hoje e...
Rhodan interrompeu-o. Parou junto a um ponto de táxis planadores. Noir, Tschubai, Kakuta e Lloyd cercavam-no, enquanto Bell e os outros onze homens entravam num planador, a fim de visitar o estaleiro em que sua nave estava sendo reparada.
Não compreendo os senhores — disse Rhodan, em tom penetrante. — Seu procedimento negligente é inexplicável. Não sei quais foram suas intenções, mas é inacreditável que, no momento em que estávamos dormindo no hotel, sem saber de nada, os senhores nos tenham exposto a um perigo mortal. Quando voltarmos à Terra, conversaremos melhor sobre o caso. No momento não tenho mais nada a dizer.
Rhodan dirigiu-se ao planador mais próximo. Os quatro mutantes que acabavam de ser repreendidos seguiram-no em silêncio.
Não disseram uma única palavra, enquanto o planador se dirigia velozmente para a área periférica da cidade de Lus, onde as faixas de montagem se estendiam uma ao lado da outra, e o espaço entre as mesmas estava ocupado com extensos complexos industriais.
A uma altura de mil e duzentos metros, contemplaram esse centro de indústria pesada. Estendia-se até o horizonte distante e continuava a espalhar-se que nem o feixe de luz de um holofote, a fim de entremear-se com outros distritos industriais, de ambos os lados das últimas áreas residenciais.
Esforçaram-se em vão para descobrir alguma marca de destruição, deixada pelo ataque das naves dos druufs. Essa área do planeta não sofrerá qualquer dano com o ataque inesperado dos monstros.
Naquele momento, os cinco homens — muito bem mascarados de soltenses — viam a mesma coisa! Só em Árcon III havia algo parecido!
Apesar de todos os esforços, a Terra ainda não estava em condições de apresentar algo equivalente, muito embora não estivesse muito distante o dia em que a lua terrana estivesse escavada a muitas centenas de quilômetros de profundidade e se visse transformada num só complexo industrial.
O regulador automático de rota do planador fez o veículo descer sobre o terreno do estaleiro, onde a Lorch-Arto aguardava o momento em que os robôs trabalhadores dos saltadores lhe dessem um novo mecanismo de propulsão.
Naquele momento, dois engenheiros do clã de Cokaze estavam saindo da Lorch-Arto. Sacudindo a cabeça de espanto, declaravam que não sabiam explicar o que poderia ter explodido na sala de máquinas da nave cargueira.
Rhodan não lhes poderia dizer que essa explosão era obra dos especialistas do Serviço Secreto Terrano, e que ele e seus homens não tinham muita pressa em sair de Archetz. Desempenhava com uma perfeição cada vez maior o seu papel de soltense.
Os dois engenheiros saltadores já não suportavam as bazófias arrepiantes de Maixpe-Rhodan. Um deles interrompeu-o em tom bonachão:
Pode desistir, soltense. Pare de mentir. Você está com medo de voltar para Solten e justificar-se perante o Grande Conselho das Mães.
Acontece que na última noite os demônios compadeceram-se de nós, meus senhores! — disse Rhodan em tom animado, enquanto se desmanchava em tamanhas mesuras que Bell lhe deu as costas, soltando uma praga em voz baixa. — Ganhei uma fortuna no jogo de baralho e meu engenheiro ganhou vinte fortunas na mesa de tol. Vamos...
Sim, sim; está bem! — interrompeu o outro saltador em tom contrariado, dando-lhe as costas.
Não acreditava na história dos ganhos no jogo, que o comandante espacial sol-tense acabara de lhe contar. Conhecia perfeitamente a exploração desenfreada e desavergonhada a que os astronautas estavam sujeitos no bairro de vida noturna.
Os terranos subiram a bordo da Lorch-Arto para mudar de roupa. Os trajes soltenses não eram apropriados para a ação a ser desenvolvida nas próximas horas. O macacão, que costumava ser usado principalmente pelos ekhônidas durante suas viagens espaciais, prestaria serviços muito melhores.
Bell praguejou contra a incômoda barba de trancinhas e disse que era uma caricatura, quando Rhodan o interrompeu com a exclamação:
Gucky não está aqui!
O aparelho de renovação de ar, que servia de esconderijo a Gucky, estava vazio.
Rhodan pediu a Marshall e ao localiza-dor Fellmer Lloyd que comparecessem ao depósito de peças sobressalentes. Em poucas palavras explicou a situação.
Procurem descobrir onde Gucky se meteu! — ordenou.
Marshall foi o primeiro a desistir. Recorreu às suas faculdades telepáticas, mas não conseguiu localizar o rato-castor. Dali a pouco, o mutante Lloyd também confessou que não conseguira encontrá-lo.
Provavelmente o rato-castor bloqueou seus impulsos mentais. Ninguém melhor que ele para isso...
De repente, Fellmer Lloyd estacou e levantou a cabeça.
Senhor — disse apressadamente, usando a língua soltense, tal qual faziam seus companheiros. — A polícia dos saltadores vem para cá. Deverá pousar dentro de três minutos. O que terá acontecido?
Rhodan, Bell e Marshall fitaram atentamente o localizador. Além de saber identificar os modelos de vibrações cerebrais, Lloyd era capaz de localizá-las e verificar quem vinha, por que vinha, e se suas intenções eram boas ou más.
Naquele instante, examinou as intenções da polícia dos saltadores que se aproximava numa aeronave.
Senhor, isso deve ter algo a ver com Gucky. Aqui em Lus, em Titon, em Mold e em Fror, coisas inexplicáveis têm acontecido, sempre nas profundidades. Aqui no estaleiro também. Foi hoje de manhã. Três robôs voaram pelo ar e bateram contra um conversor de aço, distante cinco quilômetros. Não, não desconfiam diretamente de nós. Querem verificar se estamos todos a bordo.
Mold e Fror também eram cidades importantíssimas do mundo dos saltadores.
Rhodan parecia um tanto perplexo.
Marshall, o que está acontecendo com seus mutantes? Na noite passada Tschubai, Lloyd, Noir e Kakuta deram um passeio por conta própria. E agora é Gucky. E olhe que ele sabe perfeitamente que em hipótese alguma deve ser visto.
Meu polegar! — observou Bell. — Este maldito ano 2.044...
Vá para o inferno com essa história ridícula do polegar. Não a suporto mais, gorducho. Não me venha mais com essa bobagem! — disse Rhodan, em tom furioso.
A polícia está subindo a bordo — anunciou Lloyd, o localizador.
Logo o destacamento ocupou a nave.
Por que estão aqui? Desde quando? A que hora saíram do centro de Lus? Como chegaram aqui?
Centenas de perguntas desabaram sobre os dezessete homens. Cada um deles foi interrogado por um saltador. E sempre numa sala separada.
A situação de Rhodan e seus homens tornava-se cada vez mais crítica. Marshall indagou por via telepática se deveria colocar em ação os mutantes dos diversos setores.
Na opinião de Rhodan, a situação ainda não era tão perigosa que justificasse a utilização dos mutantes.
Aguarde, Marshall.
Rhodan, ou melhor, o comandante Maixpe, estava sendo interrogado por dois policiais saltadores. E os dois homens da polícia de estrangeiros entendiam de seu serviço...
Acho que deveríamos enviar uma hipermensagem a Solten e pedir informações sobre a tripulação desta nave cargueira — sugeriu um dos saltadores.
Isso não deveria acontecer em hipótese alguma.
Marshall, chame André Noir! — disse Rhodan ao comandante de seu Exército de Mutantes, usando a via telepática. — Os dois saltadores que me interrogam pretendem enviar uma hipermensagem para Solten, a fim de pedir informações a nosso respeito. Entendido?
Entendido, chefe.
Cuidarei disso imediatamente — falou o outro saltador. — Usarei o radiofone para pedir à grande estação de hiper-rádio que cuide disso. Acho que a resposta... Soltense, eu gostaria de saber onde você aprendeu o jogo de bando-bando.
Não se falou mais na hipermensagem que seria enviada para Solten. E o policial que acabara de fazer a sugestão não se espantou nem um pouco com isso.
Noir, o hipno, que estava sendo interrogado no compartimento de carga número 2, conseguira realizar a concentração quase inacreditável que se tornava necessária para aplicar aos dois homens da polícia de estrangeiros, que se encontravam na sala de comando, um bloqueio hipnótico tão forte que só dali a quinze dias começaria a ceder, liberando a recordação do fato de que há dias tiveram a intenção de chamar o planeta Solten.
Enquanto isso, Rhodan, transformado no comandante Maixpe, forneceu uma explicação prolixa de como aprendera o bando-bando. Afirmou que todos o temiam, já que era um jogador que ganhava sempre.
Oh, deuses! — berrou subitamente um dos saltadores. — Por que puseram no mundo um mentiroso como este? Soltense corcunda... Procure falar a verdade ao menos uma única vez. Você tem um jogo, Anxga?
Ao que parecia, vez por outra os dois membros da polícia de estrangeiros não levavam muito a sério as atribuições de seu cargo.
As cartas foram distribuídas. As apostas começaram a ser feitas, e Rhodan logo as forçou para o alto...
O complicado jogo com suas inúmeras possibilidades estava em pleno andamento. Rhodan apostou na antepenúltima folha.
Seu convencido! — exclamou o grande saltador.
Anxga sorriu. Parecia satisfeito. Ganhou a jogada. E também ganhou a jogada seguinte. Parecia que o soltense tinha perdido o jogo. Foi quando mostrou a última carta aos saltadores.
Ganhei, meus senhores. Perdoem. Querem mais um jogo?
A bajulação misturava-se ao atrevimento.
Vamos continuar! — disse Anxga. Durante a quarta rodada, Anxga largou as cartas com uma praga.
Ora esta! A gente acredita que estes mentirosos sempre mentem, e quando a gente pensa que está diante de mais uma mentira deles, eles já nos lograram.
Meu grande senhor — disse Maixpe, em tom servil. — Poderia fazer o favor de repetir a frase? Não compreendi muito bem. Mas acho que ganhei mais este jogo. O senhor largou as cartas. É o que dizem as regras do jogo, não é mesmo, meus senhores?
Dali a uma hora, vinte e três saltadores pertencentes à polícia de estrangeiros deixaram a Lorch-Arto.
Ao entrarem na viatura policial, que logo decolou, Anxga e seu colega ainda esbravejavam contra os soltenses, aquele povo de mentirosos.
Rhodan não deixou que seus homens refletissem sobre o incidente.
Onde está Gucky? O que será que esse sujeito andou fazendo?
Suas perguntas ficaram sem respostas. Os funcionários da polícia de estrangeiros só haviam pensado de forma fragmentária nos acontecimentos misteriosos, aparentemente sobrenaturais, que se desenrolaram em Titon, Lus, Mold e Fror.

* * *

Gucky ouviu quando os robôs dos saltadores entraram na Lorch-Arto. Também entraram no depósito de peças sobressalentes da nave cargueira. Gucky recolhera-se ao seu esconderijo — o aparelho de renovação de ar — e manteve-se à espera.
Nunca soubera fazer muita coisa com os impulsos positrônicos deformados dos robôs, mas constatou que uma dessas máquinas devia ser um especialista, já que suas emanações diferiam acentuadamente das dos outros.
Com isso, a desgraça desabou sobre Gucky...
Esse robô especializado, que os saltadores haviam construído para prestar serviço em seus estaleiros, era apenas uma máquina de levantamento de estoque. Revistava peça por peça de qualquer nave que entrasse no estabelecimento e fazia o levantamento dos objetos existentes nos camarotes e compartimentos de carga, a fim de verificar, no caso de eventuais reclamações dos tripulantes, se durante o tempo de permanência no estaleiro ocorreu de fato algum furto ou outro prejuízo qualquer.
O robô especializado constatou que o aparelho de renovação de ar não estava em perfeitas condições.
Gucky constatou que esse robô com seus recursos radioscópicos quase ilimitados poderia representar um perigo para ele. Resolveu teleportar-se. Mas o azar grudara-se nele. Rematerializou-se na cozinha de bordo, onde foi registrado simultaneamente por três robôs de trabalho.
Gucky não perdeu tempo. Sabia que, em hipótese alguma, deveria ser visto, nem mesmo por um robô. Acontecia que acabara de ser visto pelos robôs que se encontravam no interior da nave. Portanto, deveriam ser destruídos, pois a memória positrônica poderia denunciá-lo.
De repente as máquinas começaram a voar. Seus campos antigravitacionais não conseguiam sobrepor-se ao ataque telecinético desfechado pelo rato-castor. Dirigiram-se inexoravelmente para a grande comporta de carga, atravessaram-na e subiram verticalmente. Gucky transmitiu-lhes um impulso artificial, a fim de poder libertá-los por um segundo da força telecinética. Teleportou-se para fora, colocando-se sobre o telhado ligeiramente abaulado de um dos estaleiros. Voltou a segurar os três robôs e viu ao longe uma construção de aço em forma de semi-esfera.
Fez os robôs entrarem em mergulho e chocarem-se contra essa construção. E ele o fez de forma tal, que os cérebros positrônicos instalados em suas cabeças metálicas foram totalmente destruídos. Afinal, Gucky sabia qual era o melhor meio de destruir os homens mecânicos.
Por enquanto o fato de que o vôo daqueles monstros de várias toneladas não poderia deixar de ser observado não causou maiores preocupações a Gucky. Desapareceu de cima do telhado e voltou a rematerializar-se a alguns quilômetros de profundidade, num dos conjuntos industriais de Lus.
Viu-se entre o ribombo de gigantescas prensas. No momento em que suas patas de rato-castor se levantaram para tapar os ouvidos, soaram as sirenes. As gigantescas prensas, que fabricavam perfis destinados às espaçonaves, pararam de repente.
Fiz soar o alarma”, pensou Gucky muito assustado e escondeu o dente roedor.
Não havia motivo para riso. A situação era muito séria.
Como será que eles me localizaram?”, perguntou-se mentalmente. “Por via ótica? Por meio de um detector de massa? Ou terá sido uma barreira de radiações?
Gucky concentrou-se. Constatou a direção de que vinha maior volume de impulsos mentais e, no mesmo instante, desapareceu de entre as prensas, para reaparecer na estação de comando das fileiras quilométricas de prensas, atrás de um regulador magnético que zumbia levemente.
O quê? O aparelho não registra mais nada? Você tem certeza de que o detector de massa está regulado entre o duzentos e dezessete e o duzentos e dezoito? — gritava um saltador, em tom exaltado.
Desapareceu. Até parece que foi apagado da face da terra. Não entendo mais nada — respondeu outro mercador galáctico.
Dali a dez minutos, os dois saltadores foram interrogados por um comando que acorreu às pressas. Mantiveram-se inflexíveis na afirmativa de que não tiveram conhecimento da presença de qualquer pessoa não autorizada. E permaneceram firmes em sua afirmativa, mesmo quando o computador positrônico lhes indicou, com precisão de uma fração de segundo, o momento exato em que um ser vivo deveria ter aparecido entre as prensas duzentos e dezessete e duzentos e dezoito.
Depois de algum tempo, até mesmo o comando teve suas dúvidas.
A massa, cuja presença fora detectada pelo aparelho, correspondia ao peso de uma criança saltadora de cinco ou seis anos.
O mistério não encontrou solução.
Depois da sexta “pane”, Gucky começou a desanimar.
Encontrava-se na parte subterrânea da cidade de Mold. As construções da superfície haviam sido totalmente destruídas por ocasião do bombardeio realizado pelos druufs.
A rematerialização de Gucky provocou o sexto alarma.
Praguejava que nem Bell. E tinha todo o motivo para isso. Também tinha motivo para tributar sua admiração irrestrita aos dispositivos de segurança dos mercadores galácticos.
Nenhuma pessoa não autorizada poderia penetrar no gigantesco império industrial subterrâneo, sem ser vista ou detectada.
Ouviu as sereias de alarma.
Não sabia que suas várias aparições tinham dado origem a um alarma de âmbito planetário.
Desde quando Archetz passou a ser o mundo central dos saltadores, nunca houvera tantas prisões como naquele dia.
Por três vezes Gucky tivera que fugir de saltadores. Por três vezes os mercadores galácticos foram presos. Por meio de suas energias telecinéticas, Gucky demolira três estações de controle, paralisando uma série de linhas de montagem de cujas dimensões não tinha a menor idéia.
Duzentos e quatorze quilômetros abaixo da superfície de Mold, a cidade destruída, foi alcançado pelo sistema de vigilância ótica. Apesar de tudo, teve sorte no azar.
Em três das vinte telas supergrandes da central de segurança, apareceu a imagem de um animal.
Oito saltadores estavam de serviço na central. Sete deles não conheciam o rato-castor. O oitavo já o vira durante a transmissão de um noticioso. Quis refletir sobre quem era esse animal, que lhe parecia conhecido, mas no momento não se lembrou de onde já o vira.
Acontece que os outros sete mercadores galácticos ficaram tão exaltados que perturbaram suas reflexões. Por isso a observação dos saltadores não foi transmitida imediatamente à central planetária.
Era aí que estava a sorte de Gucky!
O rato-castor apareceu na central de segurança sem ser visto. Usou um hipnoprojetor arcônida para apagar sua imagem da memória dos oito saltadores. Depois pôs-se a brincar...
Não teve outra alternativa. Seu retrato estava armazenado na memória positrônica.
Oito saltadores mergulhados numa estranha letargia contemplaram com uma indiferença total o quadro do computador positrônico de várias toneladas ser arrancado das bases, flutuar em direção à usina energética pequena, mas superpotente, e cair sobre esta com uma violência que não correspondia ao seu peso.
Gucky executou um salto de teleportação para fugir ao terrível fogo dos curto-circuitos, que derreteu o computador positrônico numa questão de segundos, transformando-o numa massa disforme.
A seguir, rematerializou-se no duto principal de purificação de ar do grande sistema de cavernas.
Coberto de imundícies de todos os tipos e com as vias respiratórias obstruídas por poeiras e finíssimas partículas metálicas, Gucky sentiu-se tangido por uma fortíssima corrente de ar aquecido, que o empurrou para cima como se fosse uma folha seca. Pensou que sua hora tivesse soado. Até parecia que estava morrendo sufocado naquela fedentina. Só tinha um objetivo: voltar para a Lorch-Arto. Acreditava que, apesar dos robôs inventariantes, estaria mais seguro por lá que naquele inferno de imundícies poeirentas e malcheirosas.
Dezessete terranos disfarçados em soltenses viram um torvelinho de ar tremeluzente, do qual saiu um rato-castor que tossia violentamente e sacudia o corpo.
Como estava Gucky? E que mau cheiro era aquele?
Gucky! — gritou Rhodan em tom de espanto, recuando diante da nuvem malcheirosa.
Gucky esfregou os olhos com as patinhas. As partículas de pó irritavam seus olhos e as lágrimas escorriam abundantemente.
Tossia sem parar.
Água!
Tako Kakuta teleportou-se até a cozinha de bordo e voltou com água. O rato-castor sorveu o líquido como se estivesse morrendo de sede.
Que gosto nojento! Quanta sujeira devo ter engolido!
No entanto a tosse de Gucky diminuía sensivelmente. O lacrimejamento também tornou-se menos intenso.
Será que sou eu que estou fedendo?
perguntou de repente.
Ora, não somos nós! — gritou Bell em tom indignado.
Gucky desapareceu, mas Marshall continuou telepaticamente grudado em seus calcanhares.
Está tomando um banho de chuveiro — disse.
O rato-castor voltou a surgir do nada, totalmente molhado.
Oh, Perry... — principiou. — Desta vez realmente não tenho a menor culpa. Não tenho mesmo. Não realizei nenhuma excursão por conta própria.
Realmente? Pois apresente seu relato, Tenente Guck! A esta hora, já deve saber que graças ao senhor fomos interrogados mais uma vez pela polícia de estrangeiros.
Gucky, que costumava tremer quando Rhodan omitia o ípsilon de seu nome e não gostava que o tratassem pelo posto hierárquico, proferiu uma simples observação em resposta à pergunta de Rhodan, que encerrava boa dose de recriminação:
Não é de admirar que eu tenha mobilizado a polícia de estrangeiros...
Caramba, Tenente Gucky! Quero seu relatório! Não estou interessado em ouvir frases tolas. Este tipo de brincadeira fica proibido de uma vez por todas.
O que foi que eu fiz? — indagou, tentando bancar o inocente.
Exibiu o dente roedor a Perry Rhodan, e não se abalou nem um pouco com a bronca que acabara de levar.
Apresentou seu relato. Principiou da seguinte forma:
Uma criança recém-nascida não pode ser mais inocente que eu. Mas nem sei por que estou fazendo afirmações solenes, quando não tenho a menor necessidade disso. Deixarei que os fatos falem por mim, Administrador-Geral do Império Solar...
Bell soltou um berreiro. Gucky não se incomodou nem um pouco. Dirigiu-se a Marshall e, enquanto Bell ainda esbravejava, disse ao chefe dos mutantes:
No momento, sua leitura de pensamentos não funciona, John. Você terá de aguardar meu relato, tal qual um simples não-telepata. Esse gorducho ainda está berrando?
Finalmente Gucky começou a contar. Além de relatar sua atuação arrojada, ofereceu uma série de dados detalhados sobre o sistema de segurança dos saltadores.
O rato-castor sentiu-se como o senhor da situação.
Então, Perry, você ainda vai me chamar de senhor e Tenente Guck, seu administrador-geral do...
Gucky, será que você não precisaria tossir mais um pouco para aprender a calar a boca? — disse Rhodan.
Seu rosto feio de soltense riu, fazendo vibrar cada trancinha de barba.

* * *

Duzentos e setenta e quatro quilômetros abaixo da capital planetária destruída, o patriarca Cokaze mandara que o levassem através do bairro operário. Não olhava para a direita nem para a esquerda e nem se admirava com as agradáveis condições ambientais que os seres de sua raça haviam criado artificialmente nesse planeta.
Só vez por outra aparecia a pedra cinzenta do teto da caverna. Nos outros lugares, um céu ligeiramente nublado parecia pairar sobre os bairros residenciais. Este céu irradiava uma mistura de luzes, colocando diante dos olhos dos eternos habitantes de cavernas os encantos de um lindo dia de verão da superfície de Archetz.
Depois de uma viagem rapidíssima, o carro do trem expresso freou subitamente, parou e abriu uma porta para que o patriarca descesse.
Uma grande praça revestida de plástico azulado era o ponto final. Apenas o semi-círculo que fechava a praça pelo lado norte estava ladeado de casas. Do lado sul começava o império do patriarca Gatru, o rei da indústria pesada de Archetz.
Cokaze teve de usar três elevadores antigravitacionais para chegar ao centro administrativo do império de Gatru. Nunca estivera ali embaixo. Mas, apesar disso, logo desistiu de admirar-se com a profusão de instalações de controle e de segurança.
Finalmente viu-se diante de Gatru.
Não se haviam encontrado mais, depois do bate-boca que travaram.
Fitaram-se com olhares que quase chegavam a ser hostis.
Gatru, preciso falar com Thomas Cardif — pediu Cokaze.
Não é possível, Cokaze — limitou-se Gatru a responder.
Que interessante, Gatru!
O grande saltador manteve-se tranqüilo. Sem dizer uma palavra, mostrou a Gatru o documento oficial que lhe concedia permissão para falar com Cardif.
Gatru nem olhou para o papel.
Cokaze sorriu.
Será que Cardif faleceu de repente, por não ter suportado algum remédio dos aras?
Gatru não reagiu à insinuação.
Muito bem.
Cokaze parecia conformado com a derrota.
Retirou-se do escritório instalado com todo luxo imaginável, mas parou na porta. Virou-se, voltou a sorrir e disse:
É bom que você saiba, Gatru: os banqueiros Atual e Ortece dão mais valor às idéias táticas de Cardif que à sua ação diletante. A esta hora, você já deve saber que a revolta do planeta Hoond foi sufocada às onze horas, tempo padrão, pela frota robotizada de Árcon. E a idéia de fazer com que a revolta voltasse a eclodir justamente ali foi sua. E também foi sua a idéia de entrar em choque comigo. Mas a idéia de levá-lo à falência por meio de um boicote é minha. E o velho Cokaze não é nenhum tagarela, Gatru. Posso garantir-lhe isso.
Cokaze já formulara essa ameaça, mas Gatru sentiu que desta vez estava falando sério. Sabia que Cokaze exercia uma influência tremenda sobre os outros clãs dos astronautas saltadores.
A respeito de que você deseja falar com Cardif? Sobre os acontecimentos misteriosos que se verificaram em nossas usinas nos últimos cinco dias? Será que esse terrano arrogante é um vidente?
Gatru formulara três perguntas. E por três vezes Cokaze exibira seu sorriso quase irônico. Mas não respondeu às perguntas.
Quando você estiver falando com o terrano, quero estar presente, Cokaze!
Não restava muito da atitude arrogante de Gatru. A ameaça de boicote formulada por Cokaze deixara-o muito abalado.
Você poderá estar presente, quando eu fizer a seguinte pergunta a Cardif, Gatru: será que os terranos andam fazendo das suas em Archetz?
Terranos em Archetz? Entre nós? Aqui embaixo? Você enlouqueceu, Cokaze?
Mais uma vez, o patriarca não reagiu às perguntas.
Caminharam um bom pedaço. Dali a meia hora, Cokaze formulou uma pergunta:
A que profundidade nos encontramos, Gatru?
Quinhentos e trinta e nove quilômetros.
E que sistema defendido por barreiras de radiações é este? Será que é uma prisão?
Será que a gente vê alguma coisa? — retrucou Gatru, em tom áspero.
Atravessaram mais um controle positronicamente comandado e viram-se diante de Thomas Cardif.
Cokaze!
O tom de voz em que foi proferido este nome exprimia espanto e desprezo. Thomas Cardif, que naqueles poucos dias de prisão se tornara ainda mais semelhante a Perry Rhodan, não se levantou.
Cardif...
Patriarca Cokaze, você é um traidor! — interrompeu Thomas Cardif em tom áspero. Seus olhos amarelos de arcônida chamejavam de cólera. — Sou um desertor, pois violei meu juramento. E isso também não deixa de ser traição. Mas minha traição não tem sua origem em motivos baixos e fúteis. Cokaze, você sabe perfeitamente por que sou inimigo de Rhodan, por que não posso deixar de sê-lo, enquanto tiver um pinguinho de honra. Meu objetivo consiste em abater o assassino de Thora, minha mãe. E qualquer caminho me serve para alcançar esse objetivo. Vocês teriam lucrado com isso, seus saltadores gananciosos! O sistema solar teria caído em suas mãos que nem uma fruta madura, e... também... o Império de Árcon.
Porém vocês não têm gabarito para aceitar uma perda. Vocês só pensam no lucro imediato. Patriarca, acreditei que fosse meu aliado. O que foi que você fez quando nós perdemos o primeiro round? Traiu-me em benefício dessas almas mercenárias. Permitiu que eu ficasse preso. Prisão preventiva! Nem sei por que não estou rindo. Estou sendo conservado, para um belo dia, depois da morte de Perry Rhodan, ser um administrador-fantoche do Império Solar, por obra e graça sua. Quantas vezes ainda terei de dizer que não tenho ambições políticas? Quero que o assassino de minha mãe seja passado pelas armas. Depois disso não quero mais nada, absolutamente nada. Não estou interessado de ser administrador. Procurem compreender! Afinal, não sou uma alma mercenária como você, Cokaze! O que querem de mim?”
Nem Cokaze e nem Gatru conseguiram interromper a fala de Thomas Cardif. As palavras passaram por seus lábios com a força de uma cachoeira.
Cardif — principiou Cokaze, que se obrigou a ficar calmo. — Oportunamente poderemos discutir sobre se eu o traí. Quando isso acontecer, você se convencerá de que não o traí. Vou dizer-lhe por que viemos...
Relatou as destruições misteriosas que nos últimos cinco dias vinham ocorrendo ininterruptamente nas instalações subterrâneas. Concluiu o relato com uma pergunta:
Cardif, será que, face aos fatos que acabo de relatar, você pode informar se há terranos em Archetz, e se os atos de destruição devem ser atribuídos aos mesmos?
São os mutantes de Rhodan”, pensou Cardif muito assustado, mal Cokaze iniciou seu relato. Mas logo adquiriu a calma fria que Perry Rhodan costumava guardar nas situações difíceis.
Bem, Cokaze, vejo que vocês estão precisando novamente de mim. Querem que banque o traidor de meia-tigela e coloque o laço em torno do meu pescoço, não é? Não estou interessado, Cokaze, pois gosto da vida aqui embaixo. Muito obrigado pela visita.
Nenhuma palavra e nenhum gesto traíam a conclusão depreendida do relato de Cokaze: os mutantes de Rhodan haviam chegado a Archetz! Estavam à sua procura.
E Thomas Cardif tinha certeza de que o encontrariam.
Para ele, havia chegado o fim... ao menos por enquanto.
6



Oito dias depois da primeira excursão de Gucky às indústrias subterrâneas de Archetz e depois dos primeiros atos de destruição que teve de praticar para salvar seu couro de rato-castor, o rigoroso controle da polícia de estrangeiros tornou-se menos intenso.
Fellmer Lloyd, o localizador, foi o primeiro a registrar o fato. Pouco depois, os outros mutantes confirmaram a observação do localizador. De acordo com essas observações, a desconfiada polícia dos mercadores galácticos eliminou os dezessete tripulantes soltenses da nave Lorch-Arto do rol dos suspeitos. Em todo o planeta, não havia nenhuma criatura cujo comportamento fosse mais inofensivo que o dos dezessete soltenses, que tinham reservada uma boa sova, logo que voltassem para junto de suas severas e autoritárias mulheres. Em compensação, o décimo oitavo tripulante, o Tenente Gucky, pertencente ao Exército de Mutantes do Império Solar, desenvolveu uma atividade assustadora.
Gucky estava irreconhecível. Dependendo exclusivamente de si mesmo, e sentindo o peso da responsabilidade de ver colocado em suas mãos o destino dos melhores amigos e do próprio sistema solar, desistira dos seus modos de duende. Antes de cada ação, refletia sobre a melhor maneira de, usando os menores recursos possíveis, causar o maior desassossego aos mercadores galácticos.
O número de suas ações crescia a cada dia que passava. E a cada dia que passava familiarizava-se mais e mais com os labirintos subterrâneos do planeta Archetz. Mas o que assumia maior importância era o conhecimento que adquirira a respeito dos dispositivos de segurança. Acontecia apenas que não encontrava a menor pista de Thomas Cardif, e isso o deixava muito preocupado, pois, para Rhodan e seus homens, o tempo durante o qual poderiam permanecer em Archetz escoava-se inexoravelmente. Os reparos da nave cargueira estavam prestes a ser concluídos.
Como fazia todos os dias, Gucky apresentava seu relatório a Rhodan por via telepática. Sentado sobre o aparelho de renovação de ar que lhe servia de abrigo, roia uma enorme cenoura. Enquanto mastigava gostosamente, irradiava seus pensamentos em direção ao chefe.
Mais uma vez nada, Perry! Não compreendo. Não encontro o menor indício que aponte para Thomas. Afinal, não posso demolir todas as indústrias subterrâneas de Titon. Essa tarefa ultrapassaria minhas forças.
Rhodan, que se encontrava em seu quarto de hotel, respondeu pela mesma via:
Fomos avisados de que a nave cargueira ficará pronta amanhã, Gucky. Você continua a recomendar que não lancemos mão dos mutantes? Gucky, lembre-se do que sua resposta poderá significar para mim, para todos nós, inclusive para Thomas!
Patrão, se você pergunta nesse tom, até mesmo a melhor cenoura perde o sabor. Dê-me um pouco de tempo para responder. Iniciarei outra ação em Titon. Descerei ainda mais. Deverei voltar dentro de uma hora. De acordo, Perry?
De acordo, meu amiguinho. Fim da transmissão.
Gucky deixou cair a cenoura. Perry o chamara de meu amiguinho. Comovido, esfregou os grandes e belos olhos de rato.
Antes de teleportar-se, removeu todos os vestígios de sua presença do aparelho de renovação de ar. Quando voltou a materializar-se, encontrava-se a duzentos e setenta quilômetros de profundidade. Pousou na central geral de segurança do sistema de cavernas.
Gucky já descobrira como penetrar naqueles subterrâneos, sem desencadear qualquer alarma. Em qualquer área, o único lugar a que poderia chegar sem ser notado era a respectiva central de segurança.
Quatro saltadores estavam de serviço no lugar para o qual saltara. Dois deles conversavam, enquanto os outros observavam as telas.
Você é capaz de compreender uma coisa dessas, Lonk? — ouviu o saltador que estava sentado atrás dos controles sincronizados perguntar.
Gucky examinou por via telepática o conteúdo da mente dos dois mercadores galácticos. Por pouco não solta um assobio.
Pensavam e conversavam sobre a prisão e resmungavam contra o sistema de segurança quintuplicada que há dois dias fora adotado no setor.
Muito tenso, Gucky manteve-se espreitando a mente dos dois saltadores. Mas estes voltaram a falar sobre as misteriosas catástrofes, que naquele dia haviam ocorrido em oito lugares diferentes de Titon.
De repente Gucky sentiu necessidade de falar com Perry Rhodan. Procurou estabelecer comunicação com o chefe. O contato completou-se instantaneamente. Numa questão de segundos, Gucky informou o chefe.
Você não me disse que há três dias inspecionou a prisão de Titon, Gucky? — perguntou Rhodan por via telepática.
Sim, chefe, mas naquela oportunidade ainda não sabia que os ciganos estelares têm duas prisões. Ainda não sei onde fica a outra. Será que o reforço do sistema de segurança significa alguma coisa, Perry?
Procure descobrir, mas tenha o máximo de cuidado. Há trinta minutos Bell vive dizendo que a ponta do polegar direito está cocando.
Ora, Perry! Será que até você deu para acreditar nessa idiotice? — perguntou Gucky, com um espanto imenso.
É que não quero perdê-lo, Gucky. Por isso resolvi avisá-lo. Tenha cuidado. Não arrisque nada. Fim.

* * *

A Lorch-Arto possuía um novo sistema de propulsão e os reparos do envoltório externo da velha nave cargueira dos soltenses também haviam sido executados de forma impecável. Os robôs haviam pilotado a espaçonave do estaleiro ao espaçoporto. Naquele momento estava sendo entregue ao comandante Maixpe.
A administração do espaçoporto marcou a decolagem para as 7 horas e 50 minutos, tempo padrão. Era um prazo extremamente curto, que nem sequer permitia um vôo de experiência destinado a testar os novos propulsores. Rhodan e seus homens sabiam perfeitamente que a polícia de estrangeiros ainda desconfiava dos soltenses.
Mas isso pouco importava.
O Comando de Risco Solten não fora bem sucedido. Não encontraram o menor vestígio de Thomas Cardif. Os dezessete homens sabiam perfeitamente o que viria depois. Árcon procuraria prender Thomas Cardif. Os mecanismos jurídicos do Grande Império entrariam em funcionamento, e, mais dia menos dia, o agitador Thomas Cardif seria triturado em suas engrenagens.
Bell viu o último saltador retirar-se da Lorch-Arto. Sob a testa de bioplástico, lançou-lhe um olhar furioso. Num gesto inconsciente, esfregou a ponta do polegar direito na palma da outra mão.
Será que você não poderia deixar de fazer isso? — disse Rhodan, com ligeira recriminação na voz.
Quem conhecesse Perry Rhodan saberia perfeitamente o que se passava naquele instante na mente daquele homem.
Thomas Cardif, o filho rebelde, escapara definitivamente de suas mãos e caminhava que nem um cego em direção à própria destruição. Rhodan refletiu sobre o que Atlan lhe dissera a respeito das leis de Árcon. Até mesmo o imperador teria de cumprir as leis. Estaria com as mãos atadas, quando uma corte arcônida condenasse Cardif à morte.
O que foi que eu fiz? — perguntou Bell, em soltense.
Só depois disso deu-se conta do que estava fazendo.
Ora! Maldito polegar! O que terá acontecido com ele? Diga-me uma coisa, Perry. Gucky está ou não a bordo?
Gucky?
O sistema de intercomunicação fez soar em todos os camarotes e compartimentos de carga da Lorch-Arto a pergunta sobre o paradeiro de Gucky.
Gucky estivera a bordo, mas já não se encontrava na nave. Não estava no interior do aparelho de renovação de ar.
Fellmer Lloyd, o localizador, Marshall e os outros telepatas foram convocados à sala de comando.
Procurem localizar Gucky! — ordenou Rhodan.
Mas quando não queria ser encontrado, o rato-castor isolava seus impulsos mentais, e então todos os mutantes, inclusive Lloyd, o localizador, atingiam apenas o vazio.
Era o que estava acontecendo naquele instante...
E a Lorch-Arto teria que decolar dentro de cinco minutos, tempo padrão. Os novos propulsores já estavam sendo aquecidos, as unidades energéticas corriam em ponto morto. A Lorch-Arto estava pronta para decolar.
Bell viu Perry Rhodan dirigir-se ao pequeno aparelho de hipercomunicação.
O que pretende fazer? — perguntou num pressentimento.
Sem virar-se, Rhodan respondeu em tom de desespero:
Se além de Thomas ainda tivesse que perder Gucky, isso seria demais para mim. Vou irradiar o sinal condensado que combinei com Árcon.
E a grande estação de hiper-rádio deste querido planeta captará a mensagem e saberá que estamos aqui! — disse Bell em tom de advertência.
Os saltadores poderão perfeitamente pensar que transmitimos para Solten a notícia do início do vôo. A mensagem não encerra qualquer sentido. Limita-se ao número treze.
Que bonito! — disse Bell em tom sarcástico e sacudiu a cabeça.
Lançou um olhar indagador para Fellmer Lloyd, o localizador.
Nada, sir. Nenhum sinal de Gucky. Naquele instante foi expedido o sinal combinado com Atlan.
O que acontecerá agora, Perry? — indagou Bell.
Não decolaremos. Avisaremos à direção do espaçoporto que há um defeito em nosso sistema de propulsão. Com isso ganharemos trinta minutos. É mais ou menos o tempo de que Atlan precisa para realizar uma transição até o planeta Archetz, a fim de verificar o que está acontecendo por aqui.
Perry! — Bell não conseguiu dizer mais que isso.

* * *

Aqui fala o controle espaço portuário. Por que não decola, comandante Maixpe?
Era a voz severa de um saltador que saía do alto-falante. Perry Rhodan inclinou-se para o microfone.
Há problemas com os novos propulsores. Os jatos começam a funcionar com atraso. Será que devo quebrar o pescoço já na decolagem, meu senhor? O que dirão nossas mulheres se formos enterrados em Archetz e...
O mercador galáctico perdeu a paciência.
Seus idiotas! — berrou a voz saída do alto-falante. — Desliguem os propulsores, enviaremos uma... O quê?
Provavelmente fora interrompido por alguém que também se encontrava na sala de rádio, pois seu rosto desapareceu da tela.
Bell sentiu quase fisicamente o desastre que se aproximava. Pensava constantemente na grande estação de hiper-rádio de Archetz.
E foi de lá que veio a desgraça. O rosto do mercador galáctico voltou a aparecer na tela.
Para onde vocês enviaram a hiper-mensagem irradiada há poucos minutos, seus mentirosos? A decolagem da nave fica proibida. Não se atrevam a decolar, pois nesse caso transformaremos sua nave numa nuvem de gases.
Meu senhor — respondeu Rhodan em tom submisso. — Não queremos decolar, muito menos morrer. Apenas queremos voltar para junto de nossas queridas mulheres. Anunciamos nossa partida de Archetz e...
Será que vocês também avisaram Árcon, seus mentirosos? — esbravejou o saltador. — Não venham me dizer que nossos rastreadores estruturais também mentem. Não se esqueçam da proibição de decolar. Fim! — gritou o saltador e desapareceu da tela.
E a Frota Solar, Perry? — resolveu perguntar Bell.
Permanecerá no sistema solar, meus senhores. Vamos deixar as coisas bem claras. Sei perfeitamente o que estou arriscando juntamente com Atlan. Trata-se de meu filho e também de Gucky. Mas trata-se principalmente de fazer com que os salta-dores compreendam que o Imperador Gonozal VIII sabe enfrentar o mundo central dos mercadores galácticos, e que o pacto de amizade entre Árcon e o Império Solar não é um simples acordo de papel.
É só o que...
O susto fez com que se espalhassem.
Gucky surgiu entre eles, mas não estava só.
Perry Rhodan viu-se diante de seu filho Thomas Cardif.
Gucky o trouxera num salto de teleportação; obrigara-o por meio de sua energia telecinética a acompanhá-lo.
Os olhos albinóides avermelhados chamejaram de ódio quando Cardif viu-se à frente do pai. Os lábios estavam firmemente cerrados e os cantos da boca puxados para baixo.
Naquele instante, Perry Rhodan deu-se conta de que o caminho que leva ao coração de uma pessoa às vezes é mais longo que o caminho que conduz às estrelas.
John Marshall teve um pressentimento desagradável. Recorreu à sua faculdade telepática, mas esta não produziu qualquer resultado. Por acaso seu olhar caiu sobre a tela do oscilógrafo.
Nela se via uma amplitude constante, que constituía o sinal característico de um sinal goniométrico ininterrupto. E o traço era tão forte que até se tinha a impressão de que o transmissor se encontrava na sala de comando da Lorch-Arto.
Chefe! — seu braço apontava silenciosamente para o oscilógrafo que mostrava a onda de hipertransmissão.
No mesmo instante, Rhodan acionou o hipercomunicador.
Por três vezes, o transmissor irradiou o número treze, sem qualquer cifragem, sem condensador ou distorçor. Depois disso, Perry Rhodan virou-se e disse em tom tranqüilo:
Thomas Cardif traz um transmissor goniométrico camuflado. Talvez saiba, talvez não. Neste instante, os mercadores galácticos já sabem onde se encontra. Nosso papel de soltenses chegou ao fim, senhores. Podemos desmascarar-nos e preparar-nos para passar alguns instantes bem desagradáveis.

* * *

Gucky não teve a menor vontade de contar como fizera para encontrar Thomas Cardif. E não havia tempo para isso.
Estão chegando! — constatou Rhodan, em tom seco. — Se nos mexermos, os mercadores não terão a menor contemplação: farão uso de suas armas de radiações. Tenente Cardif, espero que o senhor saiba avaliar corretamente a situação em que se encontra neste momento. Não tente arranjar incidentes. Gucky saberá impedi-los, não é mesmo Gucky?
Fitou o rato-castor, mas o gesto com que este confirmou as palavras de Rhodan não parecia muito entusiasmado. Mais uma vez teve a impressão de que Rhodan não sabia lidar corretamente com seu filho.
Cardif não tomou conhecimento da advertência de Rhodan; permaneceu em silêncio.
Dois cruzadores cilíndricos pesados — constatou Rhodan, com um olhar para a tela.
Os saltadores lançaram mão de todo o poder bélico de que dispunham, e o ultimato para a rendição já estava chegando.
Exigimos a rendição incondicional, Perry Rhodan, do contrário nós os destruiremos.
O ultimato não poderia ser mais lacônico.
Alguém riu.
Foi Thomas Cardif.
Vejam só. Ainda acabarei conseguindo o que quero. Obrigado, rato-castor, por ter-me trazido para cá!
Seus olhos de arcônida chamejaram em direção a Perry Rhodan com um ódio que não conhecia perdão.
O pai fitou o filho com uma expressão pensativa. Essa vaga de ódio, que se debateu sobre ele, tornava vãs todas as esperanças de encontrar o caminho que conduzia ao coração do filho.
Concedemos-lhes cinco minutos, tempo padrão, para abandonarem a Lorch-Arto. É o último aviso — disse a voz severa saída do alto-falante.
Tako Kakuta, o teleportador, encontrava-se ao lado do rastreador estrutural. Com exceção de uns poucos abalos, que não assumiam maior importância, uma estranha calma reinava no setor espacial do sistema de Rusuma. Provavelmente a frota de Atlan, que representava a palha à qual se agarravam suas esperanças, chegaria tarde.
Dois cruzadores cilíndricos pesados, dezenove cruzadores leves e meia centena de viaturas policiais fortemente armadas cercaram a pequena nave cargueira.
Faltam quatro minutos — disse Rhodan com a voz tranqüila. — Também duvido de que Atlan chegue a tempo. Quer dizer que teremos de entrar em ação. Deixe-me ver, Kakuta.
O teleportador afastou-se do rastreador estrutural. Rhodan dedicou sua atenção ao oscilógrafo que ficava atrás do rastreador.
Mexeu no telecomunicador, colocando-o regulado para a mesma freqüência do mini-transmissor goniométrico que provavelmente se encontrava no corpo de Thomas Cardif.
O tempo, por favor — disse em tom calmo. Sua tranqüilidade foi contagiante.
Três minutos e vinte segundos — respondeu John Marshall.
O.K. Os teleportadores entrarão em ação. Objetivo: sala de rádio da administração aeroportuária. Apliquem uma hipnose em Thomas Cardif. Rápido! Temos pressa, senhores teleportadores!
Havia três teleportadores presentes: Gucky, Tako Kakuta e Ras Tschubai. Quinze homens teriam de ser teleportados. E para isso dispunham de pouco mais de cento e oitenta segundos. Apenas trinta e seis segundos para cada salto duplo. Era pouco, muito pouco.
Mister Bell, Cardif e eu iremos em último lugar — ordenou Rhodan.
Kitai Ishibashi aplicou o máximo de sua capacidade sugestiva no filho de Rhodan. Ordenou-lhe que não fizesse nada contra o pai e Bell e também não fizesse nenhuma tentativa de embaraçar a ação dos mutantes.
Thomas Cardif estava indefeso diante do ataque. Sem perceber, aceitou a compulsão sugestiva.
O tempo está ficando escasso — disse Bell, quando os três teleportadores voltaram do primeiro salto, no qual haviam gasto mais de quarenta segundos.
Há dezoito saltadores na sala — piou Gucky, exibiu em toda sua plenitude o dente roedor e desapareceu com outro homem.
Os teleportadores foram recuperando a perda de tempo.
Estavam a caminho do quarto salto.
A sala de rádio transformou-se num verdadeiro inferno — disse Tako Kakuta, em tom exaltado, antes que saltasse com Kitai Ishibashi, que se agarrava fortemente a seu corpo.
Ainda dispomos de quarenta e dois segundos — disse Bell, em tom tranqüilo, acompanhando a marcha dos segundos.
Venha, gorducho. Quero levar você! — piou Gucky a seu lado.
A cintura de Thomas Cardif foi enlaçada pelos braços de Ras Tschubai. Tako Kakuta estendeu a mão em direção a Rhodan.
Um instante, Tako! — pediu Rhodan e, com um movimento da mão, acionou o telecomunicador.
Naquele instante havia dois transmissores goniométricos em Archetz, o que Thomas Cardif trazia no corpo e outro, com a mesma freqüência e os mesmos impulsos permanentes, representado pelo telecomunicador da Lorch-Arto.
Quando Perry Rhodan materializou-se com Tako Kakuta na sala de rádio do controle espaço portuário, Bell estava colocando fora de ação o último saltador com um violento golpe de direita.
Gucky estava sentado diante do comando geral, e com a pata esquerda dava ininterruptamente o alarma espacial.
Gucky — ia gritar Rhodan, mas controlou-se no último instante e só pôde espantar-se com a idéia genial do rato-castor.
Todo o planeta de Archetz estava sendo colocado em estado de alarma.
Alarma espacial! Um ataque vindo do espaço!
E, além disso, ainda dois impulsos goniométricos transmitidos na mesma freqüência!
Os mercadores galácticos, que já deviam estar um tanto confusos pelo fato de Rhodan se encontrar em seu mundo, acompanhado de um grupo de terranos, agora estariam enlouquecendo em série, a não ser que possuíssem nervos extraordinários.
Os mutantes de Rhodan passaram ao ataque seguinte. Saltadores iam chegando de outra seção. Procuravam forçar a entrada da sala de rádio e correram para dentro de um feixe aberto de raios, disparado por meia dúzia de hipnoprojetores.
No campo de pouso, a Lorch-Arto desmanchou-se numa nuvem de gás vermelho-amarelento. Os mercadores galácticos haviam perdido a cabeça e dispararam com canhões pesadíssimos contra a velha nave cargueira do sistema de Forit.
De repente, um tremor de terra pareceu sacudir Archetz.
O grande edifício do controle espaço-portuário tremeu até os alicerces.
Bell soltou um grito.
Chegaram!
Num gesto violento levantou o braço, que apontou para o céu.
Atlan estava chegando.
Árcon trazia seu poder.
Nem um único dos fortes planetários, que cercavam o planeta de Archetz, atreveu-se a disparar um único tiro contra a frota de supercouraçados do Imperador Gonozal VIII.
Mais de trezentas espaçonaves esféricas de 1.500 metros de diâmetro desaceleraram ao máximo e penetraram em alta velocidade nas camadas mais densas da atmosfera de Archetz.
Desencadearam um verdadeiro furacão! Fizeram estremecer os edifícios de todo um planeta, precipitaram-se em direção à superfície e obscureceram o céu. A três mil metros acima de Archetz, uma nave enfileirava-se ao lado da outra. Era uma formidável demonstração de poder.

* * *

Os mercadores galácticos nunca esquecerão o que fizemos com eles — disse Perry Rhodan, dirigindo-se a Bell, enquanto saíam, acompanhados por Thomas Cardif, do edifício do controle espaço portuário.
Sem que ninguém os molestasse, se dirigiram à nave capitania de Atlan, a única a pousar no planeta.
Numa raiva impotente, milhares de saltadores viram o odiado Rhodan caminhar com mais alguns homens pelo concreto plástico do campo de pouso. Perry e seu grupo dirigiram-se à comporta polar da nave arcônida e desapareceram no interior da mesma.
Cardif foi conduzido a um camarote individual. Dois robôs de guerra montaram guarda à porta da pequena sala. Antes de mais nada, Rhodan e seus mutantes procuraram livrar-se das máscaras soltenses. Sentiam-se satisfeitos porque pelo aspecto exterior já não precisavam pertencer à classe dos homens dignos de compaixão daquele povo. Enquanto os bioplásticos removiam cuidadosamente as máscaras, Rhodan deu uma ordem a Bell, que estava deitado a seu lado.
Liquide em Solten a questão da indenização a ser paga pela perda da Lorch-Arto. Cuide também do problema dos dezessete soltenses, que ainda se encontram a bordo da Drusus. Não quero que por nossa causa o Grande Conselho das Mães lhes aplique a pena do açoite, nem que sofram qualquer prejuízo financeiro.
Por que não manda Gucky fazer isso, Perry? Afinal, essa maldita idéia foi dele — opôs-se Bell em tom enérgico.
Nos próximos vinte anos não queria que ninguém lhe falasse a respeito dos soltenses.
Se a situação fosse outra, eu mandaria Gucky, Bell. Acontece que lhe ensinou certa palavra, trobel, e, além disso, permitiu que ele fizesse chantagem com você. O que acha que Allan D. Mercant pensará de você se Gucky lhe contar que esta palavra, pertencente ao vocabulário soltense...
Se ele contar, eu lhe torço o pescoço — disse Bell, em tom indignado.
Pois vá a Solten e liquide as coisas junto ao Grande Conselho das Mães. Nesse caso pedirei a Gucky que não conte nada a Mercant.
Bem — concordou Bell — se você não está fazendo chantagem, não sei mais o que é chantagem. Está certo; irei a Solten.
Tome cuidado para que as mulheres não lhe dêem uma surra.
A única reação de Bell consistiu num profundo suspiro.

* * *

Rhodan encontrava-se diante de Rhodan: pai e filho.
O bloqueio sugestivo que Ishibashi aplicara em Cardif fora retirado. Cardif voltara a ser ele mesmo.
Thomas — começou Rhodan, numa última tentativa de construir uma ponte. — Não faz muito tempo que John Marshall me disse: “Se eu fosse Thomas Cardif, também não lhe teria dado a mão junto ao mausoléu da Lua.” Para fundamentar estas palavras, que me abalaram bastante, prosseguiu: “O senhor estendeu a mão a Thomas na qualidade de administrador, não na de pai, pois nesse caso estaria faltando aos seus deveres de administrador.” Mas agora, Thomas... nos muitos decênios durante os quais exerço o poder, pela primeira vez utilizei-o para transgredir as leis feitas por mim, pois minha intenção era encontrar o caminho que leva a você, e você o caminho que leva a mim...
Isso é um sentimentalismo barato! Foi esta a resposta de Thomas Cardif.
Rhodan teve a impressão de que alguém lhe batera no rosto.
Thomas, pense bem no que está dizendo.
Quem assassinou minha mãe, administrador? Quem achou que ela era velha demais? Quem foi que a mandou a Árcon, para vê-la regressar como cadáver? Foi você! Só você! Queria livrar-se da mulher que estava envelhecendo. Seu covarde...
Ouviu-se um estalo.
O lado esquerdo do rosto de Thomas Cardif ficou vermelho.
Sinto muito ter batido em você... — estas palavras de Rhodan foram proferidas em tom apagado.
Cambaleando ligeiramente, dirigiu-se à porta.

* * *

Sim! — disse o administrador-geral do Império Solar, e com esta palavra enterrou suas esperanças.
O sim que acabara de proferir decidira o destino de Thomas Cardif.
Amigo... — disse Atlan e abraçou-o. — O que adianta o poder, se devemos continuar a ser humanos? Devíamos transformar-nos em máquinas frias, desalmadas e brutais. Nesse caso, o ato de condenar o próprio filho à morte seria uma bagatela. Mas da forma que são as coisas... bem, da forma que são as coisas, a gente pensa que o mundo vai explodir e soterrar-nos em seus escombros. Mas isso não acontecerá, amigo. O mundo nos obriga a continuarmos a viver e a exercer o poder. É este o preço do poder, amigo Perry!
Estavam parados sob a abóbada gigantesca do computador positrônico de Árcon III. Thomas Cardif achava-se deitado sob o hipnotron; parecia dormir.
O conjunto hipnótico teve com esse terrano um cuidado que nunca tivera com ninguém. Camada após camada, foi montando um bloqueio hipnótico em seu cérebro. E Thomas Cardif foi-se esquecendo de quem era ele, de onde vinha, quem eram seus pais. Mas quanto ao resto, seu ser permaneceu intato: sua inteligência, seu saber, suas qualidades. Dali a algumas horas, nem se deu conta de que acabara de sair de uma cova, para a partir de determinado momento ver-se colocado em meio à vida.
Sua mente nunca indagava: de onde vim? o que me fez ficar isso que sou?
Se alguém lhe perguntasse pelo passado, ficava devendo a resposta. E uma pergunta desse tipo jamais o deixaria exaltado. Limitava-se a balançar a cabeça e sorria como um sonhador.
Thomas Cardif, o sonhador sorridente!
Esquecera-se de odiar.


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Com a modificação do comportamento de Cardif, a tranqüilidade de Perry e de todo o império retornou.
Gucky, o mais competente e também o mais indisciplinado mutante, vai gozar férias em Vagabundo, seu planeta de origem. Gozar não é o termo certo, pois em Vagabundo o rato-castor vê-se envolvido num caos...
Em Forças Desencadeadas, título do próximo volume, Gucky irá viver em meio a estranhos acontecimentos.

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