— Dê o
fora! — o saltador estava enjoado dessas maneiras submissas do
soltense. — Saiam ambos! Depressa, seus...
Gritou um
palavrão, resmungou mais alguma coisa e prosseguiu no exame dos
documentos.
No
estreito convés os dois pretensos soltenses viram-se a sós; eram
Perry Rhodan e Reginald Bell.
O gordo
deu vazão à sua raiva:
— Já
não tolero isso. Que servilismo! Que tolice foi essa que você disse
a respeito do Grande Conselho das Mães?
Não
tiveram oportunidade para conversar. Um saltador saiu do depósito de
peças sobressalentes, viu-os e os chamou.
— Abram
o renovador de ar. Depressa! — ordenou.
Tratava-se
do recipiente que Gucky fizera pairar à sua frente, por meio de suas
forças telecinéticas, quando se dirigia para a Lorch-Arto, que
então ainda se encontrava no hangar da Drusus. E, enquanto
permanecessem nesse planeta, esse recipiente seria a casa de Gucky.
Nenhum saltador devia ver o rato-castor. Gucky poderia deleitar-se
com a fama de ser ainda mais conhecido que o próprio Perry Rhodan,
no interior do Império de Árcon.
E, naquele
momento, Gucky se encontrava dentro do pretenso aparelho de renovação
de ar.
Rhodan
procurou contactar os pensamentos do rato-castor, mas não captou
nenhum impulso.
— Abra a
tampa, seu corcunda mentiroso! — berrou o saltador, apontando a
arma de impulsos.
Isso levou
Bell a apressar-se. E o gorducho tremia... de raiva.
A tampa
foi levantada e colocada de lado. O saltador aproximou-se com gestos
grosseiros e pisou no pé de Bell. Este recuou apressadamente e caiu
por cima de um equipamento energético. Engolindo a praga que ia
soltar, ergueu-se e teve de se conformar com o sorriso de deboche do
saltador.
Ao
levantar-se, Bell desmanchou-se em mesuras e disse no pior intercosmo
possível:
— Meu
senhor é tão bom para mim... Diante de tamanha bajulação, o
saltador sacudiu-se de nojo. Examinou o interior do aparelho.
Entretanto não notou que faltavam algumas chaves de controle.
Não se
viu o menor sinal de Gucky.
Ele se
afastara!
O saltador
saiu ruidosamente e bateu a porta que dava para o depósito de peças
sobressalentes.
— Perry
— cochichou Bell. — Não agüento esse tratamento por muito
tempo!
Gucky
apareceu, saindo do nada.
— Tenho
de voltar para dentro desta caixa apertada, patrão? — perguntou
dirigindo-se a Rhodan.
Este
limitou-se a acenar com a cabeça.
Gucky
enfiou-se na caixa. Rhodan e Bell voltaram a colocar a tampa e
trancaram o recipiente.
— Precisamos
aparecer na sala de comando, Bell...
Entraram
no momento em que o comandante do destacamento contactava-se com o
clã de Cokaze. O filho mais velho deste aparecia na tela.
— Fomos
avisados da remessa — disse o futuro chefe do clã. — Não existe
a menor dúvida. Acho que todo mundo sabe que os soltenses voam com
uma licença nossa. Para que servem esses controles demorados?
Sob seu
ponto de vista, o filho mais velho de Cokaze estava dizendo a
verdade. Mas não desconfiava de que o aviso não viera do segundo
planeta, pois fora expedido pela Drusus.
Até então
o Serviço de Defesa de Rhodan funcionara perfeitamente.
E agora o
filho de Cokaze também descobriu os dois soltenses.
Conhecia
Maixpe e Trexca, o primeiro-oficial da Lorch-Arto. Rhodan e Bell
transpiravam fortemente sob a cobertura de bioplástico.
— Ora,
saltador — respondeu o comandante do destacamento policial. — O
senhor sabe perfeitamente que, a partir do momento em que se
manifestaram as agitações no Grande Império, recebemos ordens de
exercer um controle mais rigoroso em Archetz. Vamos liberar a nave e
sua tripulação. Disponha dela, saltador!
*
* *
Quando o
último compartimento de carga da Lorch-Arto já havia sido quase
totalmente esvaziado das preciosas peles de odd, ocorreu uma forte
explosão na sala de máquinas da nave cargueira.
A explosão
abriu um buraco de cinco metros por sete na popa, buraco este do qual
saíram chamas que se erguiam ruidosamente.
O alarma
de radiações uivou no interior da Lorch-Arto.
Os
dezessete soltenses, que em suas casas e diante das mulheres ávidas
de mando não podiam abrir a boca, demonstraram um extraordinário
sangue-frio perante a catástrofe. Mas se não fosse o auxílio das
naves vizinhas com seu equipamento de combate ao incêndio, a
Lorch-Arto se teria derretido.
A luta
contra as energias liberadas durou dez minutos. Houve novas explosões
que produziram temperaturas de milhares de graus. Finalmente o perigo
que ameaçava a velha nave cargueira foi removido.
Mas esta
não mais poderia decolar. Teria de ser levada a um estaleiro dos
salta-dores, a fim de receber um novo mecanismo propulsor.
— O que
é que eu vou contar ao Grande Conselho das Mães? — perguntou
Maixpe com a voz chorosa, dirigindo-se ao membro mais velho do clã
dos Cokaze.
Mas logo
empertigou-se e disse em tom grandiloqüente:
— Que
nada! Direi ao conselho que ele não entende nada de acidentes deste
tipo e deve ficar bem calado. Será que é isto que eu vou fazer,
Trexca?
— Não
exagere, Maixpe. Até parece que você faz questão de ser
considerado um mentiroso — gritou o saltador. — Quando estiver em
casa, não se atreverá a dizer uma única palavra e suportará
tranqüilamente a surra que vão aplicar em você. Afinal, vocês não
são homens; são soltenses. Mas nossos engenheiros ainda não
conseguiram descobrir a causa dessa explosão nos propulsores,
Maixpe. É estranho!
— Isso
mesmo — confirmou Maixpe. — É estranho! Será que a polícia
saltadora pregou-nos uma peça?
— Você
está louco, soltense! — repreendeu-o o filho mais velho de Cokaze.
— Faremos a prestação de contas depois que meu clã tiver pago o
conserto de sua nave, senão nos próximos quinze dias você e sua
tripulação gastarão todo o dinheiro em farras.
— Ora
essa! Precisamos de dinheiro — interveio Trexca, aliás, Bell. —
Em Archetz sempre há muita coisa para fazer.
Executou o
movimento internacionalmente conhecido de levantar o copo.
— Seu
beberrão! — disse Maixpe, mas também solicitou um adiantamento.
— Está
bem. Primeiro providenciarei para que sua nave seja levada a um
estaleiro — disse o saltador. — Depois farei um pagamento por
conta. De acordo?
*
* *
Tal qual o
espaçoporto, a cidade de Lus quase não fora danificada pelo ataque
dos druufs.
Seus
locais de vida noturna continuavam a tentar os astronautas a
desperdiçarem o dinheiro ganho com tanta dificuldade. Os hábeis
saltadores fizeram desse tipo de tentação uma verdadeira indústria.
Quando se tratava de lucrar, não conheciam escrúpulos.
Os
dezessete terranos disfarçados de soltenses submergiram no frenesi
dos divertimentos.
Com os
bolsos cheios de dinheiro, que em virtude da inflação não valia
muita coisa, atiraram-se aos braços dessa indústria dedicada à
exploração dos forasteiros.
— Ei,
mentiroso, venha cá. Vamos tomar um trago.
— Será
que hoje o queridinho da mamãe pode arriscar um joguinho?
Em todo
lugar eram molestados, mas também costumavam ser olhados com uma
compaixão misturada de escárnio. Saltadores embriagados, que por
anos a fio haviam voado de um mundo para outro e agora, que se
encontravam em Archetz, tinham chão firme sob os pés por alguns
dias, convidaram-nos a beberem.
Perry
Rhodan e Bell estavam sentados à mesa com três jogadores
apaixonados.
— Não
arrisque demais! — disse Perry Rhodan em soltense, dirigindo-se ao
gordo.
Ele mesmo
ia jogando cada vez mais alto, assim que as cartas eram distribuídas.
Graças à
sua débil faculdade telepática e à capacidade de ler nos rostos
dos outros, quase sempre descobria o jogo dos parceiros.
Dali a
duas horas pararam. Os saltadores fitaram com um ar de espanto os
soltenses que haviam ganho todo o dinheiro que traziam
— Amanhã
lhes darei revanche — propôs Maixpe, aliás Rhodan, em tom gentil.
— Agradeço!
— resmungou um dos saltadores. — Essa revanche me sairá muito
cara.
As coisas
não foram muito diferentes na mesa em que se fazia o jogo do tol,
onde trinta saltadores, aras e ekhônidas, e um soltense, todos
possuídos pelo demônio do jogo, perseguiam o tremeluzir da lâmina
prismática, iluminada pela luz indireta.
O soltense
ganhava sempre.
O
banqueiro começou a transpirar. Pela terceira vez modificou
discretamente a regulagem positrônica, a fim de que nos próximos
vinte jogos pudesse recuperar os prejuízos da banca.
John
Marshall, que já se acostumara à barba trançada e não fechava
mais os olhos por causa da sombra projetada pela saliência da testa,
divertiu-se a valer.
“Você
não perde por esperar, meu velho”,
pensou. “Seus
truques não lhe adiantarão mais nada. A mim você não engana.”
No último
instante apostou em prisma 4, verde 3. Era uma possibilidade entre
cento e trinta.
Prisma 4,
verde 3 acabara de pensar o banqueiro. E, na atitude típica de um
banqueiro de jogo, o saltador cruzara os braços diante do peito a
fim de, por meio de um telecomando mental, transmitir ao dispositivo
automático da mesa de jogo o lance correspondente a prisma 4, verde
3. O impulso foi emitido um décimo de segundo antes do momento em
que Marshall atirou um pacote de notas sobre o campo ainda livre.
Os homens
soltaram berros de surpresa, as mulheres gritavam. Em todos os olhos
lia-se a ganância e a inveja pela sorte tremenda do soltense.
O ganho de
cento e trinta por um foi pago ao corcunda. O banqueiro tivera de
buscar dinheiro, e jogou maços e mais maços de dinheiro na mesa, à
frente de Marshall. Tinha o rosto pálido como cera. Suas mãos
tremiam. A sorte ininterrupta do soltense deixava-o apavorado. Mais
três corcundas juntaram-se a ele. Um deles disse para todos ouvirem
que sua arma de impulsos recebera uma carga nova na manhã daquele
dia.
John
Marshall abandonou a mesa de tol, acompanhado por três companheiros.
Trazia uma fortuna no bolso.
Às 30
horas e 30 minutos, tempo padrão, nem um único dos dezessete
soltenses se encontrava no bairro de vida noturna. Estavam sentados
em torno de uma mesa, num botequim de astronautas, e conversavam
calmamente em soltense. Não precisavam preocupar-se com a
possibilidade de alguém ouvir a palestra. Com exceção de alguns
lingüistas, não havia no Império arcônida ninguém que dominasse
sua língua.
— Então,
nada! — constatou Maixpe, aliás, Rhodan. — Não contava mesmo
com um êxito ou sequer uma pista. Amanhã Mister Reginald Bell e eu
tentaremos, levados por Tschubai, conhecer a parte subterrânea da
cidade. Marshall, escolha homens que possam agir em Titon...
— Acontece
que Titon, a capital do planeta, é um monte de escombros! —
ponderou Trexca, aliás, Bell.
— Só a
parte situada na superfície — retificou Rhodan. — Com exceção
das vítimas humanas, o ataque dos druufs contra o planeta de Archetz
teve o efeito de uma picada de agulha. Este planeta é um segundo
Árcon III. E acho que já sabemos o que essa gente pretende fazer,
não sabemos, Lloyd?
O mutante
localizador confirmou com um gesto.
— E o
anãozinho Gucky pode dormir à vontade? — observou Bell, em tom
contrariado.
— Pode —
disse Rhodan laconicamente, dando por encerrada a palestra.
Às 31
horas e 45 minutos, tempo padrão, a central subterrânea da polícia
de estrangeiros de Archetz recebeu a seguinte informação: os
dezessete soltenses foram para o hotel e ficaram em seus quartos.
Acontece
que essa informação já não era verdadeira.
Os dois
teleportadores, Ras Tschubai e Tako Kakuta, haviam levado André Noir
e Fellmer Lloyd a Titon, num salto de teleportação, a fim de que
estes verificassem se o bairro de vida noturna da capital do planeta
também continuava intacto.
— Na
minha opinião o chefe está andando muito devagar — disse André
Noir, enquanto voltava ao hotel, acompanhado pelos três
companheiros. — A cidade de Lus não é o lugar adequado para
procurar Thomas Cardif. Se é que ele se encontra em Archetz, só
pode estar na parte subterrânea de Titon. Nenhum de vocês tem
vontade de ir comigo?
*
* *
A máscara
de bioplástico de Rhodan ocultava seu aborrecimento, mas o
desaparecimento — quase total — dos olhos embaixo da
protuberância da testa dizia bastante.
A medida
que André Noir prosseguia no seu relato, mais contrariado se sentia.
Deixaram-se levar pela corrente dos transeuntes. Vez por outra eram
separados, mas logo se reencontravam, e Noir prosseguia no seu relato
sobre a excursão noturna à parte subterrânea de Titon.
— Ah, é?
— foi só o que Rhodan teve a dizer.
Continuavam
a falar em soltense. Essa língua não conhecia a palavra sir.
— Senhor
— disse o teleportador Ras Tschubai, que se encontrava ao lado de
Rhodan. — Na noite passada só resolvemos sobre o que deve ser
feito hoje e...
Rhodan
interrompeu-o. Parou junto a um ponto de táxis planadores. Noir,
Tschubai, Kakuta e Lloyd cercavam-no, enquanto Bell e os outros onze
homens entravam num planador, a fim de visitar o estaleiro em que sua
nave estava sendo reparada.
— Não
compreendo os senhores — disse Rhodan, em tom penetrante. — Seu
procedimento negligente é inexplicável. Não sei quais foram suas
intenções, mas é inacreditável que, no momento em que estávamos
dormindo no hotel, sem saber de nada, os senhores nos tenham exposto
a um perigo mortal. Quando voltarmos à Terra, conversaremos melhor
sobre o caso. No momento não tenho mais nada a dizer.
Rhodan
dirigiu-se ao planador mais próximo. Os quatro mutantes que acabavam
de ser repreendidos seguiram-no em silêncio.
Não
disseram uma única palavra, enquanto o planador se dirigia
velozmente para a área periférica da cidade de Lus, onde as faixas
de montagem se estendiam uma ao lado da outra, e o espaço entre as
mesmas estava ocupado com extensos complexos industriais.
A uma
altura de mil e duzentos metros, contemplaram esse centro de
indústria pesada. Estendia-se até o horizonte distante e continuava
a espalhar-se que nem o feixe de luz de um holofote, a fim de
entremear-se com outros distritos industriais, de ambos os lados das
últimas áreas residenciais.
Esforçaram-se
em vão para descobrir alguma marca de destruição, deixada pelo
ataque das naves dos druufs. Essa área do planeta não sofrerá
qualquer dano com o ataque inesperado dos monstros.
Naquele
momento, os cinco homens — muito bem mascarados de soltenses —
viam a mesma coisa! Só em Árcon III havia algo parecido!
Apesar de
todos os esforços, a Terra ainda não estava em condições de
apresentar algo equivalente, muito embora não estivesse muito
distante o dia em que a lua terrana estivesse escavada a muitas
centenas de quilômetros de profundidade e se visse transformada num
só complexo industrial.
O
regulador automático de rota do planador fez o veículo descer sobre
o terreno do estaleiro, onde a Lorch-Arto aguardava o momento em que
os robôs trabalhadores dos saltadores lhe dessem um novo mecanismo
de propulsão.
Naquele
momento, dois engenheiros do clã de Cokaze estavam saindo da
Lorch-Arto. Sacudindo a cabeça de espanto, declaravam que não
sabiam explicar o que poderia ter explodido na sala de máquinas da
nave cargueira.
Rhodan não
lhes poderia dizer que essa explosão era obra dos especialistas do
Serviço Secreto Terrano, e que ele e seus homens não tinham muita
pressa em sair de Archetz. Desempenhava com uma perfeição cada vez
maior o seu papel de soltense.
Os dois
engenheiros saltadores já não suportavam as bazófias arrepiantes
de Maixpe-Rhodan.
Um deles interrompeu-o em tom bonachão:
— Pode
desistir, soltense. Pare de mentir. Você está com medo de voltar
para Solten e justificar-se perante o Grande Conselho das Mães.
— Acontece
que na última noite os demônios compadeceram-se de nós, meus
senhores! — disse Rhodan em tom animado, enquanto se desmanchava em
tamanhas mesuras que Bell lhe deu as costas, soltando uma praga em
voz baixa. — Ganhei uma fortuna no jogo de baralho e meu engenheiro
ganhou vinte fortunas na mesa de tol. Vamos...
— Sim,
sim; está bem! — interrompeu o outro saltador em tom contrariado,
dando-lhe as costas.
Não
acreditava na história dos ganhos no jogo, que o comandante espacial
sol-tense acabara de lhe contar. Conhecia perfeitamente a exploração
desenfreada e desavergonhada a que os astronautas estavam sujeitos no
bairro de vida noturna.
Os
terranos subiram a bordo da Lorch-Arto para mudar de roupa. Os trajes
soltenses não eram apropriados para a ação a ser desenvolvida nas
próximas horas. O macacão, que costumava ser usado principalmente
pelos ekhônidas durante suas viagens espaciais, prestaria serviços
muito melhores.
Bell
praguejou contra a incômoda barba de trancinhas e disse que era uma
caricatura, quando Rhodan o interrompeu com a exclamação:
— Gucky
não está aqui!
O aparelho
de renovação de ar, que servia de esconderijo a Gucky, estava
vazio.
Rhodan
pediu a Marshall e ao localiza-dor Fellmer Lloyd que comparecessem ao
depósito de peças sobressalentes. Em poucas palavras explicou a
situação.
— Procurem
descobrir onde Gucky se meteu! — ordenou.
Marshall
foi o primeiro a desistir. Recorreu às suas faculdades telepáticas,
mas não conseguiu localizar o rato-castor. Dali a pouco, o mutante
Lloyd também confessou que não conseguira encontrá-lo.
— Provavelmente
o rato-castor bloqueou seus impulsos mentais. Ninguém melhor que ele
para isso...
De
repente, Fellmer Lloyd estacou e levantou a cabeça.
— Senhor
— disse apressadamente, usando a língua soltense, tal qual faziam
seus companheiros. — A polícia dos saltadores vem para cá. Deverá
pousar dentro de três minutos. O que terá acontecido?
Rhodan,
Bell e Marshall fitaram atentamente o localizador. Além de saber
identificar os modelos de vibrações cerebrais, Lloyd era capaz de
localizá-las e verificar quem vinha, por que vinha, e se suas
intenções eram boas ou más.
Naquele
instante, examinou as intenções da polícia dos saltadores que se
aproximava numa aeronave.
— Senhor,
isso deve ter algo a ver com Gucky. Aqui em Lus, em Titon, em Mold e
em Fror, coisas inexplicáveis têm acontecido, sempre nas
profundidades. Aqui no estaleiro também. Foi hoje de manhã. Três
robôs voaram pelo ar e bateram contra um conversor de aço, distante
cinco quilômetros. Não, não desconfiam diretamente de nós. Querem
verificar se estamos todos a bordo.
Mold e
Fror também eram cidades importantíssimas do mundo dos saltadores.
Rhodan
parecia um tanto perplexo.
— Marshall,
o que está acontecendo com seus mutantes? Na noite passada Tschubai,
Lloyd, Noir e Kakuta deram um passeio por conta própria. E agora é
Gucky. E olhe que ele sabe perfeitamente que em hipótese alguma deve
ser visto.
— Meu
polegar! — observou Bell. — Este maldito ano 2.044...
— Vá
para o inferno com essa história ridícula do polegar. Não a
suporto mais, gorducho. Não me venha mais com essa bobagem! —
disse Rhodan, em tom furioso.
— A
polícia está subindo a bordo — anunciou Lloyd, o localizador.
Logo o
destacamento ocupou a nave.
“Por
que estão aqui? Desde quando? A que hora saíram do centro de Lus?
Como chegaram aqui?”
Centenas
de perguntas desabaram sobre os dezessete homens. Cada um deles foi
interrogado por um saltador. E sempre numa sala separada.
A situação
de Rhodan e seus homens tornava-se cada vez mais crítica. Marshall
indagou por via telepática se deveria colocar em ação os mutantes
dos diversos setores.
Na opinião
de Rhodan, a situação ainda não era tão perigosa que justificasse
a utilização dos mutantes.
— Aguarde,
Marshall.
Rhodan, ou
melhor, o comandante Maixpe, estava sendo interrogado por dois
policiais saltadores. E os dois homens da polícia de estrangeiros
entendiam de seu serviço...
— Acho
que deveríamos enviar uma hipermensagem a Solten e pedir informações
sobre a tripulação desta nave cargueira — sugeriu um dos
saltadores.
Isso não
deveria acontecer em hipótese alguma.
— Marshall,
chame André Noir! — disse Rhodan ao comandante de seu Exército de
Mutantes, usando a via telepática. — Os dois saltadores que me
interrogam pretendem enviar uma hipermensagem para Solten, a fim de
pedir informações a nosso respeito. Entendido?
— Entendido,
chefe.
— Cuidarei
disso imediatamente — falou o outro saltador. — Usarei o
radiofone para pedir à grande estação de hiper-rádio que cuide
disso. Acho que a resposta... Soltense, eu gostaria de saber onde
você aprendeu o jogo de bando-bando.
Não se
falou mais na hipermensagem que seria enviada para Solten. E o
policial que acabara de fazer a sugestão não se espantou nem um
pouco com isso.
Noir, o
hipno, que estava sendo interrogado no compartimento de carga número
2, conseguira realizar a concentração quase inacreditável que se
tornava necessária para aplicar aos dois homens da polícia de
estrangeiros, que se encontravam na sala de comando, um bloqueio
hipnótico tão forte que só dali a quinze dias começaria a ceder,
liberando a recordação do fato de que há dias tiveram a intenção
de chamar o planeta Solten.
Enquanto
isso, Rhodan, transformado no comandante Maixpe, forneceu uma
explicação prolixa de como aprendera o bando-bando. Afirmou que
todos o temiam, já que era um jogador que ganhava sempre.
— Oh,
deuses! — berrou subitamente um dos saltadores. — Por que puseram
no mundo um mentiroso como este? Soltense corcunda... Procure falar a
verdade ao menos uma única vez. Você tem um jogo, Anxga?
Ao que
parecia, vez por outra os dois membros da polícia de estrangeiros
não levavam muito a sério as atribuições de seu cargo.
As cartas
foram distribuídas. As apostas começaram a ser feitas, e Rhodan
logo as forçou para o alto...
O
complicado jogo com suas inúmeras possibilidades estava em pleno
andamento. Rhodan apostou na antepenúltima folha.
— Seu
convencido! — exclamou o grande saltador.
Anxga
sorriu. Parecia satisfeito. Ganhou a jogada. E também ganhou a
jogada seguinte. Parecia que o soltense tinha perdido o jogo. Foi
quando mostrou a última carta aos saltadores.
— Ganhei,
meus senhores. Perdoem. Querem mais um jogo?
A
bajulação misturava-se ao atrevimento.
— Vamos
continuar! — disse Anxga. Durante a quarta rodada, Anxga largou as
cartas com uma praga.
— Ora
esta! A gente acredita que estes mentirosos sempre mentem, e quando a
gente pensa que está diante de mais uma mentira deles, eles já nos
lograram.
— Meu
grande senhor — disse Maixpe, em tom servil. — Poderia fazer o
favor de repetir a frase? Não compreendi muito bem. Mas acho que
ganhei mais este jogo. O senhor largou as cartas. É o que dizem as
regras do jogo, não é mesmo, meus senhores?
Dali a uma
hora, vinte e três saltadores pertencentes à polícia de
estrangeiros deixaram a Lorch-Arto.
Ao
entrarem na viatura policial, que logo decolou, Anxga e seu colega
ainda esbravejavam contra os soltenses, aquele povo de mentirosos.
Rhodan não
deixou que seus homens refletissem sobre o incidente.
— Onde
está Gucky? O que será que esse sujeito andou fazendo?
Suas
perguntas ficaram sem respostas. Os funcionários da polícia de
estrangeiros só haviam pensado de forma fragmentária nos
acontecimentos misteriosos, aparentemente sobrenaturais, que se
desenrolaram em Titon, Lus, Mold e Fror.
*
* *
Gucky
ouviu quando os robôs dos saltadores entraram na Lorch-Arto. Também
entraram no depósito de peças sobressalentes da nave cargueira.
Gucky recolhera-se ao seu esconderijo — o aparelho de renovação
de ar — e manteve-se à espera.
Nunca
soubera fazer muita coisa com os impulsos positrônicos deformados
dos robôs, mas constatou que uma dessas máquinas devia ser um
especialista, já que suas emanações diferiam acentuadamente das
dos outros.
Com isso,
a desgraça desabou sobre Gucky...
Esse robô
especializado, que os saltadores haviam construído para prestar
serviço em seus estaleiros, era apenas uma máquina de levantamento
de estoque. Revistava peça por peça de qualquer nave que entrasse
no estabelecimento e fazia o levantamento dos objetos existentes nos
camarotes e compartimentos de carga, a fim de verificar, no caso de
eventuais reclamações dos tripulantes, se durante o tempo de
permanência no estaleiro ocorreu de fato algum furto ou outro
prejuízo qualquer.
O robô
especializado constatou que o aparelho de renovação de ar não
estava em perfeitas condições.
Gucky
constatou que esse robô com seus recursos radioscópicos quase
ilimitados poderia representar um perigo para ele. Resolveu
teleportar-se. Mas o azar grudara-se nele. Rematerializou-se na
cozinha de bordo, onde foi registrado simultaneamente por três robôs
de trabalho.
Gucky não
perdeu tempo. Sabia que, em hipótese alguma, deveria ser visto, nem
mesmo por um robô. Acontecia que acabara de ser visto pelos robôs
que se encontravam no interior da nave. Portanto, deveriam ser
destruídos, pois a memória positrônica poderia denunciá-lo.
De repente
as máquinas começaram a voar. Seus campos antigravitacionais não
conseguiam sobrepor-se ao ataque telecinético desfechado pelo
rato-castor. Dirigiram-se inexoravelmente para a grande comporta de
carga, atravessaram-na e subiram verticalmente. Gucky transmitiu-lhes
um impulso artificial, a fim de poder libertá-los por um segundo da
força telecinética. Teleportou-se para fora, colocando-se sobre o
telhado ligeiramente abaulado de um dos estaleiros. Voltou a segurar
os três robôs e viu ao longe uma construção de aço em forma de
semi-esfera.
Fez os
robôs entrarem em mergulho e chocarem-se contra essa construção. E
ele o fez de forma tal, que os cérebros positrônicos instalados em
suas cabeças metálicas foram totalmente destruídos. Afinal, Gucky
sabia qual era o melhor meio de destruir os homens mecânicos.
Por
enquanto o fato de que o vôo daqueles monstros de várias toneladas
não poderia deixar de ser observado não causou maiores preocupações
a Gucky. Desapareceu de cima do telhado e voltou a rematerializar-se
a alguns quilômetros de profundidade, num dos conjuntos industriais
de Lus.
Viu-se
entre o ribombo de gigantescas prensas. No momento em que suas patas
de rato-castor se levantaram para tapar os ouvidos, soaram as
sirenes. As gigantescas prensas, que fabricavam perfis destinados às
espaçonaves, pararam de repente.
“Fiz
soar o alarma”,
pensou Gucky muito assustado e escondeu o dente roedor.
Não havia
motivo para riso. A situação era muito séria.
“Como
será que eles me localizaram?”,
perguntou-se mentalmente. “Por
via ótica? Por meio de um detector de massa? Ou terá sido uma
barreira de radiações?”
Gucky
concentrou-se. Constatou a direção de que vinha maior volume de
impulsos mentais e, no mesmo instante, desapareceu de entre as
prensas, para reaparecer na estação de comando das fileiras
quilométricas de prensas, atrás de um regulador magnético que
zumbia levemente.
— O quê?
O aparelho não registra mais nada? Você tem certeza de que o
detector de massa está regulado entre o duzentos e dezessete e o
duzentos e dezoito? — gritava um saltador, em tom exaltado.
— Desapareceu.
Até parece que foi apagado da face da terra. Não entendo mais nada
— respondeu outro mercador galáctico.
Dali a dez
minutos, os dois saltadores foram interrogados por um comando que
acorreu às pressas. Mantiveram-se inflexíveis na afirmativa de que
não tiveram conhecimento da presença de qualquer pessoa não
autorizada. E permaneceram firmes em sua afirmativa, mesmo quando o
computador positrônico lhes indicou, com precisão de uma fração
de segundo, o momento exato em que um ser vivo deveria ter aparecido
entre as prensas duzentos e dezessete e duzentos e dezoito.
Depois de
algum tempo, até mesmo o comando teve suas dúvidas.
A massa,
cuja presença fora detectada pelo aparelho, correspondia ao peso de
uma criança saltadora de cinco ou seis anos.
O mistério
não encontrou solução.
Depois da
sexta “pane”,
Gucky começou a desanimar.
Encontrava-se
na parte subterrânea da cidade de Mold. As construções da
superfície haviam sido totalmente destruídas por ocasião do
bombardeio realizado pelos druufs.
A
rematerialização de Gucky provocou o sexto alarma.
Praguejava
que nem Bell. E tinha todo o motivo para isso. Também tinha motivo
para tributar sua admiração irrestrita aos dispositivos de
segurança dos mercadores galácticos.
Nenhuma
pessoa não autorizada poderia penetrar no gigantesco império
industrial subterrâneo, sem ser vista ou detectada.
Ouviu as
sereias de alarma.
Não sabia
que suas várias aparições tinham dado origem a um alarma de âmbito
planetário.
Desde
quando Archetz passou a ser o mundo central dos saltadores, nunca
houvera tantas prisões como naquele dia.
Por três
vezes Gucky tivera que fugir de saltadores. Por três vezes os
mercadores galácticos foram presos. Por meio de suas energias
telecinéticas, Gucky demolira três estações de controle,
paralisando uma série de linhas de montagem de cujas dimensões não
tinha a menor idéia.
Duzentos e
quatorze quilômetros abaixo da superfície de Mold, a cidade
destruída, foi alcançado pelo sistema de vigilância ótica. Apesar
de tudo, teve sorte no azar.
Em três
das vinte telas supergrandes da central de segurança, apareceu a
imagem de um animal.
Oito
saltadores estavam de serviço na central. Sete deles não conheciam
o rato-castor. O oitavo já o vira durante a transmissão de um
noticioso. Quis refletir sobre quem era esse animal, que lhe parecia
conhecido, mas no momento não se lembrou de onde já o vira.
Acontece
que os outros sete mercadores galácticos ficaram tão exaltados que
perturbaram suas reflexões. Por isso a observação dos saltadores
não foi transmitida imediatamente à central planetária.
Era aí
que estava a sorte de Gucky!
O
rato-castor apareceu na central de segurança sem ser visto. Usou um
hipnoprojetor arcônida para apagar sua imagem da memória dos oito
saltadores. Depois pôs-se a brincar...
Não teve
outra alternativa. Seu retrato estava armazenado na memória
positrônica.
Oito
saltadores mergulhados numa estranha letargia contemplaram com uma
indiferença total o quadro do computador positrônico de várias
toneladas ser arrancado das bases, flutuar em direção à usina
energética pequena, mas superpotente, e cair sobre esta com uma
violência que não correspondia ao seu peso.
Gucky
executou um salto de teleportação para fugir ao terrível fogo dos
curto-circuitos, que derreteu o computador positrônico numa questão
de segundos, transformando-o numa massa disforme.
A seguir,
rematerializou-se no duto principal de purificação de ar do grande
sistema de cavernas.
Coberto de
imundícies de todos os tipos e com as vias respiratórias obstruídas
por poeiras e finíssimas partículas metálicas, Gucky sentiu-se
tangido por uma fortíssima corrente de ar aquecido, que o empurrou
para cima como se fosse uma folha seca. Pensou que sua hora tivesse
soado. Até parecia que estava morrendo sufocado naquela fedentina.
Só tinha um objetivo: voltar para a Lorch-Arto. Acreditava que,
apesar dos robôs inventariantes, estaria mais seguro por lá que
naquele inferno de imundícies poeirentas e malcheirosas.
Dezessete
terranos disfarçados em soltenses viram um torvelinho de ar
tremeluzente, do qual saiu um rato-castor que tossia violentamente e
sacudia o corpo.
Como
estava Gucky? E que mau cheiro era aquele?
— Gucky!
— gritou Rhodan em tom de espanto, recuando diante da nuvem
malcheirosa.
Gucky
esfregou os olhos com as patinhas. As partículas de pó irritavam
seus olhos e as lágrimas escorriam abundantemente.
Tossia sem
parar.
— Água!
Tako
Kakuta teleportou-se até a cozinha de bordo e voltou com água. O
rato-castor sorveu o líquido como se estivesse morrendo de sede.
— Que
gosto nojento! Quanta sujeira devo ter engolido!
No entanto
a tosse de Gucky diminuía sensivelmente. O lacrimejamento também
tornou-se menos intenso.
— Será
que sou eu que estou fedendo?
— perguntou
de repente.
— Ora,
não somos nós! — gritou Bell em tom indignado.
Gucky
desapareceu, mas Marshall continuou telepaticamente grudado em seus
calcanhares.
— Está
tomando um banho de chuveiro — disse.
O
rato-castor voltou a surgir do nada, totalmente molhado.
— Oh,
Perry... — principiou. — Desta vez realmente não tenho a menor
culpa. Não tenho mesmo. Não realizei nenhuma excursão por conta
própria.
— Realmente?
Pois apresente seu relato, Tenente Guck! A esta hora, já deve saber
que graças ao senhor fomos interrogados mais uma vez pela polícia
de estrangeiros.
Gucky, que
costumava tremer quando Rhodan omitia o ípsilon
de seu nome e não gostava que o tratassem pelo posto hierárquico,
proferiu uma simples observação em resposta à pergunta de Rhodan,
que encerrava boa dose de recriminação:
— Não é
de admirar que eu tenha mobilizado a polícia de estrangeiros...
— Caramba,
Tenente Gucky! Quero seu relatório! Não estou interessado em ouvir
frases tolas. Este tipo de brincadeira fica proibido de uma vez por
todas.
— O que
foi que eu fiz? — indagou, tentando bancar o inocente.
Exibiu o
dente roedor a Perry Rhodan, e não se abalou nem um pouco com a
bronca que acabara de levar.
Apresentou
seu relato. Principiou da seguinte forma:
— Uma
criança recém-nascida não pode ser mais inocente que eu. Mas nem
sei por que estou fazendo afirmações solenes, quando não tenho a
menor necessidade disso. Deixarei que os fatos falem por mim,
Administrador-Geral do Império Solar...
Bell
soltou um berreiro. Gucky não se incomodou nem um pouco. Dirigiu-se
a Marshall e, enquanto Bell ainda esbravejava, disse ao chefe dos
mutantes:
— No
momento, sua leitura de pensamentos não funciona, John. Você terá
de aguardar meu relato, tal qual um simples não-telepata. Esse
gorducho ainda está berrando?
Finalmente
Gucky começou a contar. Além de relatar sua atuação arrojada,
ofereceu uma série de dados detalhados sobre o sistema de segurança
dos saltadores.
O
rato-castor sentiu-se como o senhor da situação.
— Então,
Perry, você ainda vai me chamar de senhor e Tenente Guck, seu
administrador-geral do...
— Gucky,
será que você não precisaria tossir mais um pouco para aprender a
calar a boca? — disse Rhodan.
Seu rosto
feio de soltense riu, fazendo vibrar cada trancinha de barba.
*
* *
Duzentos e
setenta e quatro quilômetros abaixo da capital planetária
destruída, o patriarca Cokaze mandara que o levassem através do
bairro operário. Não olhava para a direita nem para a esquerda e
nem se admirava com as agradáveis condições ambientais que os
seres de sua raça haviam criado artificialmente nesse planeta.
Só vez
por outra aparecia a pedra cinzenta do teto da caverna. Nos outros
lugares, um céu ligeiramente nublado parecia pairar sobre os bairros
residenciais. Este céu irradiava uma mistura de luzes, colocando
diante dos olhos dos eternos habitantes de cavernas os encantos de um
lindo dia de verão da superfície de Archetz.
Depois de
uma viagem rapidíssima, o carro do trem expresso freou subitamente,
parou e abriu uma porta para que o patriarca descesse.
Uma grande
praça revestida de plástico azulado era o ponto final. Apenas o
semi-círculo que fechava a praça pelo lado norte estava ladeado de
casas. Do lado sul começava o império do patriarca Gatru, o rei da
indústria pesada de Archetz.
Cokaze
teve de usar três elevadores antigravitacionais para chegar ao
centro administrativo do império de Gatru. Nunca estivera ali
embaixo. Mas, apesar disso, logo desistiu de admirar-se com a
profusão de instalações de controle e de segurança.
Finalmente
viu-se diante de Gatru.
Não se
haviam encontrado mais, depois do bate-boca que travaram.
Fitaram-se
com olhares que quase chegavam a ser hostis.
— Gatru,
preciso falar com Thomas Cardif — pediu Cokaze.
— Não é
possível, Cokaze — limitou-se Gatru a responder.
— Que
interessante, Gatru!
O grande
saltador manteve-se tranqüilo. Sem dizer uma palavra, mostrou a
Gatru o documento oficial que lhe concedia permissão para falar com
Cardif.
Gatru nem
olhou para o papel.
Cokaze
sorriu.
— Será
que Cardif faleceu de repente, por não ter suportado algum remédio
dos aras?
Gatru não
reagiu à insinuação.
— Muito
bem.
Cokaze
parecia conformado com a derrota.
Retirou-se
do escritório instalado com todo luxo imaginável, mas parou na
porta. Virou-se, voltou a sorrir e disse:
— É bom
que você saiba, Gatru: os banqueiros Atual e Ortece dão mais valor
às idéias táticas de Cardif que à sua ação diletante. A esta
hora, você já deve saber que a revolta do planeta Hoond foi
sufocada às onze horas, tempo padrão, pela frota robotizada de
Árcon. E a idéia de fazer com que a revolta voltasse a eclodir
justamente ali foi sua. E também foi sua a idéia de entrar em
choque comigo. Mas a idéia de levá-lo à falência por meio de um
boicote é minha. E o velho Cokaze não é nenhum tagarela, Gatru.
Posso garantir-lhe isso.
Cokaze já
formulara essa ameaça, mas Gatru sentiu que desta vez estava falando
sério. Sabia que Cokaze exercia uma influência tremenda sobre os
outros clãs dos astronautas saltadores.
— A
respeito de que você deseja falar com Cardif? Sobre os
acontecimentos misteriosos que se verificaram em nossas usinas nos
últimos cinco dias? Será que esse terrano arrogante é um vidente?
Gatru
formulara três perguntas. E por três vezes Cokaze exibira seu
sorriso quase irônico. Mas não respondeu às perguntas.
— Quando
você estiver falando com o terrano, quero estar presente, Cokaze!
Não
restava muito da atitude arrogante de Gatru. A ameaça de boicote
formulada por Cokaze deixara-o muito abalado.
— Você
poderá estar presente, quando eu fizer a seguinte pergunta a Cardif,
Gatru: será que os terranos andam fazendo das suas em Archetz?
— Terranos
em Archetz? Entre nós? Aqui embaixo? Você enlouqueceu, Cokaze?
Mais uma
vez, o patriarca não reagiu às perguntas.
Caminharam
um bom pedaço. Dali a meia hora, Cokaze formulou uma pergunta:
— A que
profundidade nos encontramos, Gatru?
— Quinhentos
e trinta e nove quilômetros.
— E que
sistema defendido por barreiras de radiações é este? Será que é
uma prisão?
— Será
que a gente vê alguma coisa? — retrucou Gatru, em tom áspero.
Atravessaram
mais um controle positronicamente comandado e viram-se diante de
Thomas Cardif.
— Cokaze!
O tom de
voz em que foi proferido este nome exprimia espanto e desprezo.
Thomas Cardif, que naqueles poucos dias de prisão se tornara ainda
mais semelhante a Perry Rhodan, não se levantou.
— Cardif...
— Patriarca
Cokaze, você é um traidor! — interrompeu Thomas Cardif em tom
áspero. Seus olhos amarelos de arcônida chamejavam de cólera. —
Sou um desertor, pois violei meu juramento. E isso também não deixa
de ser traição. Mas minha traição não tem sua origem em motivos
baixos e fúteis. Cokaze, você sabe perfeitamente por que sou
inimigo de Rhodan, por que não posso deixar de sê-lo, enquanto
tiver um pinguinho de honra. Meu objetivo consiste em abater o
assassino de Thora, minha mãe. E qualquer caminho me serve para
alcançar esse objetivo. Vocês teriam lucrado com isso, seus
saltadores gananciosos! O sistema solar teria caído em suas mãos
que nem uma fruta madura, e... também... o Império de Árcon.
“Porém
vocês não têm gabarito para aceitar uma perda. Vocês só pensam
no lucro imediato. Patriarca, acreditei que fosse meu aliado. O que
foi que você fez quando nós perdemos o primeiro round? Traiu-me em
benefício dessas almas mercenárias. Permitiu que eu ficasse preso.
Prisão preventiva! Nem sei por que não estou rindo. Estou sendo
conservado, para um belo dia, depois da morte de Perry Rhodan, ser um
administrador-fantoche do Império Solar, por obra e graça sua.
Quantas vezes ainda terei de dizer que não tenho ambições
políticas? Quero que o assassino de minha mãe seja passado pelas
armas. Depois disso não quero mais nada, absolutamente nada. Não
estou interessado de ser administrador. Procurem compreender! Afinal,
não sou uma alma mercenária como você, Cokaze! O que querem de
mim?”
Nem Cokaze
e nem Gatru conseguiram interromper a fala de Thomas Cardif. As
palavras passaram por seus lábios com a força de uma cachoeira.
— Cardif
— principiou Cokaze, que se obrigou a ficar calmo. —
Oportunamente poderemos discutir sobre se eu o traí. Quando isso
acontecer, você se convencerá de que não o traí. Vou dizer-lhe
por que viemos...
Relatou as
destruições misteriosas que nos últimos cinco dias vinham
ocorrendo ininterruptamente nas instalações subterrâneas. Concluiu
o relato com uma pergunta:
— Cardif,
será que, face aos fatos que acabo de relatar, você pode informar
se há terranos em Archetz, e se os atos de destruição devem ser
atribuídos aos mesmos?
“São
os mutantes de Rhodan”,
pensou Cardif muito assustado, mal Cokaze iniciou seu relato. Mas
logo adquiriu a calma fria que Perry Rhodan costumava guardar nas
situações difíceis.
— Bem,
Cokaze, vejo que vocês estão precisando novamente de mim. Querem
que banque o traidor de meia-tigela e coloque o laço em torno do meu
pescoço, não é? Não estou interessado, Cokaze, pois gosto da vida
aqui embaixo. Muito obrigado pela visita.
Nenhuma
palavra e nenhum gesto traíam a conclusão depreendida do relato de
Cokaze: os mutantes de Rhodan haviam chegado a Archetz! Estavam à
sua procura.
E Thomas
Cardif tinha certeza de que o encontrariam.
Para ele,
havia chegado o fim... ao menos por enquanto.
6
Oito dias
depois da primeira excursão de Gucky às indústrias subterrâneas
de Archetz e depois dos primeiros atos de destruição que teve de
praticar para salvar seu couro de rato-castor, o rigoroso controle da
polícia de estrangeiros tornou-se menos intenso.
Fellmer
Lloyd, o localizador, foi o primeiro a registrar o fato. Pouco
depois, os outros mutantes confirmaram a observação do localizador.
De acordo com essas observações, a desconfiada polícia dos
mercadores galácticos eliminou os dezessete tripulantes soltenses da
nave Lorch-Arto do rol dos suspeitos. Em todo o planeta, não havia
nenhuma criatura cujo comportamento fosse mais inofensivo que o dos
dezessete soltenses, que tinham reservada uma boa sova, logo que
voltassem para junto de suas severas e autoritárias mulheres. Em
compensação, o décimo oitavo tripulante, o Tenente Gucky,
pertencente ao Exército de Mutantes do Império Solar, desenvolveu
uma atividade assustadora.
Gucky
estava irreconhecível. Dependendo exclusivamente de si mesmo, e
sentindo o peso da responsabilidade de ver colocado em suas mãos o
destino dos melhores amigos e do próprio sistema solar, desistira
dos seus modos de duende. Antes de cada ação, refletia sobre a
melhor maneira de, usando os menores recursos possíveis, causar o
maior desassossego aos mercadores galácticos.
O número
de suas ações crescia a cada dia que passava. E a cada dia que
passava familiarizava-se mais e mais com os labirintos subterrâneos
do planeta Archetz. Mas o que assumia maior importância era o
conhecimento que adquirira a respeito dos dispositivos de segurança.
Acontecia apenas que não encontrava a menor pista de Thomas Cardif,
e isso o deixava muito preocupado, pois, para Rhodan e seus homens, o
tempo durante o qual poderiam permanecer em Archetz escoava-se
inexoravelmente. Os reparos da nave cargueira estavam prestes a ser
concluídos.
Como fazia
todos os dias, Gucky apresentava seu relatório a Rhodan por via
telepática. Sentado sobre o aparelho de renovação de ar que lhe
servia de abrigo, roia uma enorme cenoura. Enquanto mastigava
gostosamente, irradiava seus pensamentos em direção ao chefe.
— Mais
uma vez nada, Perry! Não compreendo. Não encontro o menor indício
que aponte para Thomas. Afinal, não posso demolir todas as
indústrias subterrâneas de Titon. Essa tarefa ultrapassaria minhas
forças.
Rhodan,
que se encontrava em seu quarto de hotel, respondeu pela mesma via:
— Fomos
avisados de que a nave cargueira ficará pronta amanhã, Gucky. Você
continua a recomendar que não lancemos mão dos mutantes? Gucky,
lembre-se do que sua resposta poderá significar para mim, para todos
nós, inclusive para Thomas!
— Patrão,
se você pergunta nesse tom, até mesmo a melhor cenoura perde o
sabor. Dê-me um pouco de tempo para responder. Iniciarei outra ação
em Titon. Descerei ainda mais. Deverei voltar dentro de uma hora. De
acordo, Perry?
— De
acordo, meu amiguinho. Fim da transmissão.
Gucky
deixou cair a cenoura. Perry o chamara de meu amiguinho. Comovido,
esfregou os grandes e belos olhos de rato.
Antes de
teleportar-se, removeu todos os vestígios de sua presença do
aparelho de renovação de ar. Quando voltou a materializar-se,
encontrava-se a duzentos e setenta quilômetros de profundidade.
Pousou na central geral de segurança do sistema de cavernas.
Gucky já
descobrira como penetrar naqueles subterrâneos, sem desencadear
qualquer alarma. Em qualquer área, o único lugar a que poderia
chegar sem ser notado era a respectiva central de segurança.
Quatro
saltadores estavam de serviço no lugar para o qual saltara. Dois
deles conversavam, enquanto os outros observavam as telas.
— Você
é capaz de compreender uma coisa dessas, Lonk? — ouviu o saltador
que estava sentado atrás dos controles sincronizados perguntar.
Gucky
examinou por via telepática o conteúdo da mente dos dois mercadores
galácticos. Por pouco não solta um assobio.
Pensavam e
conversavam sobre a prisão e resmungavam contra o sistema de
segurança quintuplicada que há dois dias fora adotado no setor.
Muito
tenso, Gucky manteve-se espreitando a mente dos dois saltadores. Mas
estes voltaram a falar sobre as misteriosas catástrofes, que naquele
dia haviam ocorrido em oito lugares diferentes de Titon.
De repente
Gucky sentiu necessidade de falar com Perry Rhodan. Procurou
estabelecer comunicação com o chefe. O contato completou-se
instantaneamente. Numa questão de segundos, Gucky informou o chefe.
— Você
não me disse que há três dias inspecionou a prisão de Titon,
Gucky? — perguntou Rhodan por via telepática.
— Sim,
chefe, mas naquela oportunidade ainda não sabia que os ciganos
estelares têm duas prisões. Ainda não sei onde fica a outra. Será
que o reforço do sistema de segurança significa alguma coisa,
Perry?
— Procure
descobrir, mas tenha o máximo de cuidado. Há trinta minutos Bell
vive dizendo que a ponta do polegar direito está cocando.
— Ora,
Perry! Será que até você deu para acreditar nessa idiotice? —
perguntou Gucky, com um espanto imenso.
— É que
não quero perdê-lo, Gucky. Por isso resolvi avisá-lo. Tenha
cuidado. Não arrisque nada. Fim.
*
* *
A
Lorch-Arto possuía um novo sistema de propulsão e os reparos do
envoltório externo da velha nave cargueira dos soltenses também
haviam sido executados de forma impecável. Os robôs haviam pilotado
a espaçonave do estaleiro ao espaçoporto. Naquele momento estava
sendo entregue ao comandante Maixpe.
A
administração do espaçoporto marcou a decolagem para as 7 horas e
50 minutos, tempo padrão. Era um prazo extremamente curto, que nem
sequer permitia um vôo de experiência destinado a testar os novos
propulsores. Rhodan e seus homens sabiam perfeitamente que a polícia
de estrangeiros ainda desconfiava dos soltenses.
Mas isso
pouco importava.
O Comando
de Risco Solten não fora bem sucedido. Não encontraram o menor
vestígio de Thomas Cardif. Os dezessete homens sabiam perfeitamente
o que viria depois. Árcon procuraria prender Thomas Cardif. Os
mecanismos jurídicos do Grande Império entrariam em funcionamento,
e, mais dia menos dia, o agitador Thomas Cardif seria triturado em
suas engrenagens.
Bell viu o
último saltador retirar-se da Lorch-Arto. Sob a testa de
bioplástico, lançou-lhe um olhar furioso. Num gesto inconsciente,
esfregou a ponta do polegar direito na palma da outra mão.
— Será
que você não poderia deixar de fazer isso? — disse Rhodan, com
ligeira recriminação na voz.
Quem
conhecesse Perry Rhodan saberia perfeitamente o que se passava
naquele instante na mente daquele homem.
Thomas
Cardif, o filho rebelde, escapara definitivamente de suas mãos e
caminhava que nem um cego em direção à própria destruição.
Rhodan refletiu sobre o que Atlan lhe dissera a respeito das leis de
Árcon. Até mesmo o imperador teria de cumprir as leis. Estaria com
as mãos atadas, quando uma corte arcônida condenasse Cardif à
morte.
— O que
foi que eu fiz? — perguntou Bell, em soltense.
Só depois
disso deu-se conta do que estava fazendo.
— Ora!
Maldito polegar! O que terá acontecido com ele? Diga-me uma coisa,
Perry. Gucky está ou não a bordo?
— Gucky?
O sistema
de intercomunicação fez soar em todos os camarotes e compartimentos
de carga da Lorch-Arto a pergunta sobre o paradeiro de Gucky.
Gucky
estivera a bordo, mas já não se encontrava na nave. Não estava no
interior do aparelho de renovação de ar.
Fellmer
Lloyd, o localizador, Marshall e os outros telepatas foram convocados
à sala de comando.
— Procurem
localizar Gucky! — ordenou Rhodan.
Mas quando
não queria ser encontrado, o rato-castor isolava seus impulsos
mentais, e então todos os mutantes, inclusive Lloyd, o localizador,
atingiam apenas o vazio.
Era o que
estava acontecendo naquele instante...
E a
Lorch-Arto teria que decolar dentro de cinco minutos, tempo padrão.
Os novos propulsores já estavam sendo aquecidos, as unidades
energéticas corriam em ponto morto. A Lorch-Arto estava pronta para
decolar.
Bell viu
Perry Rhodan dirigir-se ao pequeno aparelho de hipercomunicação.
— O que
pretende fazer? — perguntou num pressentimento.
Sem
virar-se, Rhodan respondeu em tom de desespero:
— Se
além de Thomas ainda tivesse que perder Gucky, isso seria demais
para mim. Vou irradiar o sinal condensado que combinei com Árcon.
— E a
grande estação de hiper-rádio deste querido planeta captará a
mensagem e saberá que estamos aqui! — disse Bell em tom de
advertência.
— Os
saltadores poderão perfeitamente pensar que transmitimos para Solten
a notícia do início do vôo. A mensagem não encerra qualquer
sentido. Limita-se ao número treze.
— Que
bonito! — disse Bell em tom sarcástico e sacudiu a cabeça.
Lançou um
olhar indagador para Fellmer Lloyd, o localizador.
— Nada,
sir. Nenhum sinal de Gucky. Naquele instante foi expedido o sinal
combinado com Atlan.
— O que
acontecerá agora, Perry? — indagou Bell.
— Não
decolaremos. Avisaremos à direção do espaçoporto que há um
defeito em nosso sistema de propulsão. Com isso ganharemos trinta
minutos. É mais ou menos o tempo de que Atlan precisa para realizar
uma transição até o planeta Archetz, a fim de verificar o que está
acontecendo por aqui.
— Perry!
— Bell não conseguiu dizer mais que isso.
*
* *
— Aqui
fala o controle espaço portuário. Por que não decola, comandante
Maixpe?
Era a voz
severa de um saltador que saía do alto-falante. Perry Rhodan
inclinou-se para o microfone.
— Há
problemas com os novos propulsores. Os jatos começam a funcionar com
atraso. Será que devo quebrar o pescoço já na decolagem, meu
senhor? O que dirão nossas mulheres se formos enterrados em Archetz
e...
O mercador
galáctico perdeu a paciência.
— Seus
idiotas! — berrou a voz saída do alto-falante. — Desliguem os
propulsores, enviaremos uma... O quê?
Provavelmente
fora interrompido por alguém que também se encontrava na sala de
rádio, pois seu rosto desapareceu da tela.
Bell
sentiu quase fisicamente o desastre que se aproximava. Pensava
constantemente na grande estação de hiper-rádio de Archetz.
E foi de
lá que veio a desgraça. O rosto do mercador galáctico voltou a
aparecer na tela.
— Para
onde vocês enviaram a hiper-mensagem irradiada há poucos minutos,
seus mentirosos? A decolagem da nave fica proibida. Não se atrevam a
decolar, pois nesse caso transformaremos sua nave numa nuvem de
gases.
— Meu
senhor — respondeu Rhodan em tom submisso. — Não queremos
decolar, muito menos morrer. Apenas queremos voltar para junto de
nossas queridas mulheres. Anunciamos nossa partida de Archetz e...
— Será
que vocês também avisaram Árcon, seus mentirosos? — esbravejou o
saltador. — Não venham me dizer que nossos rastreadores
estruturais também mentem. Não se esqueçam da proibição de
decolar. Fim! — gritou o saltador e desapareceu da tela.
— E a
Frota Solar, Perry? — resolveu perguntar Bell.
— Permanecerá
no sistema solar, meus senhores. Vamos deixar as coisas bem claras.
Sei perfeitamente o que estou arriscando juntamente com Atlan.
Trata-se de meu filho e também de Gucky. Mas trata-se principalmente
de fazer com que os salta-dores compreendam que o Imperador Gonozal
VIII sabe enfrentar o mundo central dos mercadores galácticos, e que
o pacto de amizade entre Árcon e o Império Solar não é um simples
acordo de papel.
— É só
o que...
O susto
fez com que se espalhassem.
Gucky
surgiu entre eles, mas não estava só.
Perry
Rhodan viu-se diante de seu filho Thomas Cardif.
Gucky o
trouxera num salto de teleportação; obrigara-o por meio de sua
energia telecinética a acompanhá-lo.
Os olhos
albinóides avermelhados chamejaram de ódio quando Cardif viu-se à
frente do pai. Os lábios estavam firmemente cerrados e os cantos da
boca puxados para baixo.
Naquele
instante, Perry Rhodan deu-se conta de que o caminho que leva ao
coração de uma pessoa às vezes é mais longo que o caminho que
conduz às estrelas.
John
Marshall teve um pressentimento desagradável. Recorreu à sua
faculdade telepática, mas esta não produziu qualquer resultado. Por
acaso seu olhar caiu sobre a tela do oscilógrafo.
Nela se
via uma amplitude constante, que constituía o sinal característico
de um sinal goniométrico ininterrupto. E o traço era tão forte que
até se tinha a impressão de que o transmissor se encontrava na sala
de comando da Lorch-Arto.
— Chefe!
— seu braço apontava silenciosamente para o oscilógrafo que
mostrava a onda de hipertransmissão.
No mesmo
instante, Rhodan acionou o hipercomunicador.
Por três
vezes, o transmissor irradiou o número treze, sem qualquer cifragem,
sem condensador ou distorçor. Depois disso, Perry Rhodan virou-se e
disse em tom tranqüilo:
— Thomas
Cardif traz um transmissor goniométrico camuflado. Talvez saiba,
talvez não. Neste instante, os mercadores galácticos já sabem onde
se encontra. Nosso papel de soltenses chegou ao fim, senhores.
Podemos desmascarar-nos e preparar-nos para passar alguns instantes
bem desagradáveis.
*
* *
Gucky não
teve a menor vontade de contar como fizera para encontrar Thomas
Cardif. E não havia tempo para isso.
— Estão
chegando! — constatou Rhodan, em tom seco. — Se nos mexermos, os
mercadores não terão a menor contemplação: farão uso de suas
armas de radiações. Tenente Cardif, espero que o senhor saiba
avaliar corretamente a situação em que se encontra neste momento.
Não tente arranjar incidentes. Gucky saberá impedi-los, não é
mesmo Gucky?
Fitou o
rato-castor, mas o gesto com que este confirmou as palavras de Rhodan
não parecia muito entusiasmado. Mais uma vez teve a impressão de
que Rhodan não sabia lidar corretamente com seu filho.
Cardif não
tomou conhecimento da advertência de Rhodan; permaneceu em silêncio.
— Dois
cruzadores cilíndricos pesados — constatou Rhodan, com um olhar
para a tela.
Os
saltadores lançaram mão de todo o poder bélico de que dispunham, e
o ultimato para a rendição já estava chegando.
— Exigimos
a rendição incondicional, Perry Rhodan, do contrário nós os
destruiremos.
O ultimato
não poderia ser mais lacônico.
Alguém
riu.
Foi Thomas
Cardif.
— Vejam
só. Ainda acabarei conseguindo o que quero. Obrigado, rato-castor,
por ter-me trazido para cá!
Seus olhos
de arcônida chamejaram em direção a Perry Rhodan com um ódio que
não conhecia perdão.
O pai
fitou o filho com uma expressão pensativa. Essa vaga de ódio, que
se debateu sobre ele, tornava vãs todas as esperanças de encontrar
o caminho que conduzia ao coração do filho.
— Concedemos-lhes
cinco minutos, tempo padrão, para abandonarem a Lorch-Arto. É o
último aviso — disse a voz severa saída do alto-falante.
Tako
Kakuta, o teleportador, encontrava-se ao lado do rastreador
estrutural. Com exceção de uns poucos abalos, que não assumiam
maior importância, uma estranha calma reinava no setor espacial do
sistema de Rusuma. Provavelmente a frota de Atlan, que representava a
palha à qual se agarravam suas esperanças, chegaria tarde.
Dois
cruzadores cilíndricos pesados, dezenove cruzadores leves e meia
centena de viaturas policiais fortemente armadas cercaram a pequena
nave cargueira.
— Faltam
quatro minutos — disse Rhodan com a voz tranqüila. — Também
duvido de que Atlan chegue a tempo. Quer dizer que teremos de entrar
em ação. Deixe-me ver, Kakuta.
O
teleportador afastou-se do rastreador estrutural. Rhodan dedicou sua
atenção ao oscilógrafo que ficava atrás do rastreador.
Mexeu no
telecomunicador, colocando-o regulado para a mesma freqüência do
mini-transmissor goniométrico que provavelmente se encontrava no
corpo de Thomas Cardif.
— O
tempo, por favor — disse em tom calmo. Sua tranqüilidade foi
contagiante.
— Três
minutos e vinte segundos — respondeu John Marshall.
— O.K.
Os teleportadores entrarão em ação. Objetivo: sala de rádio da
administração aeroportuária. Apliquem uma hipnose em Thomas
Cardif. Rápido! Temos pressa, senhores teleportadores!
Havia três
teleportadores presentes: Gucky, Tako Kakuta e Ras Tschubai. Quinze
homens teriam de ser teleportados. E para isso dispunham de pouco
mais de cento e oitenta segundos. Apenas trinta e seis segundos para
cada salto duplo. Era pouco, muito pouco.
— Mister
Bell, Cardif e eu iremos em último lugar — ordenou Rhodan.
Kitai
Ishibashi aplicou o máximo de sua capacidade sugestiva no filho de
Rhodan. Ordenou-lhe que não fizesse nada contra o pai e Bell e
também não fizesse nenhuma tentativa de embaraçar a ação dos
mutantes.
Thomas
Cardif estava indefeso diante do ataque. Sem perceber, aceitou a
compulsão sugestiva.
— O
tempo está ficando escasso — disse Bell, quando os três
teleportadores voltaram do primeiro salto, no qual haviam gasto mais
de quarenta segundos.
— Há
dezoito saltadores na sala — piou Gucky, exibiu em toda sua
plenitude o dente roedor e desapareceu com outro homem.
Os
teleportadores foram recuperando a perda de tempo.
Estavam a
caminho do quarto salto.
— A sala
de rádio transformou-se num verdadeiro inferno — disse Tako
Kakuta, em tom exaltado, antes que saltasse com Kitai Ishibashi, que
se agarrava fortemente a seu corpo.
— Ainda
dispomos de quarenta e dois segundos — disse Bell, em tom
tranqüilo, acompanhando a marcha dos segundos.
— Venha,
gorducho. Quero levar você! — piou Gucky a seu lado.
A cintura
de Thomas Cardif foi enlaçada pelos braços de Ras Tschubai. Tako
Kakuta estendeu a mão em direção a Rhodan.
— Um
instante, Tako! — pediu Rhodan e, com um movimento da mão, acionou
o telecomunicador.
Naquele
instante havia dois transmissores goniométricos em Archetz, o que
Thomas Cardif trazia no corpo e outro, com a mesma freqüência e os
mesmos impulsos permanentes, representado pelo telecomunicador da
Lorch-Arto.
Quando
Perry Rhodan materializou-se com Tako Kakuta na sala de rádio do
controle espaço portuário, Bell estava colocando fora de ação o
último saltador com um violento golpe de direita.
Gucky
estava sentado diante do comando geral, e com a pata esquerda dava
ininterruptamente o alarma espacial.
— Gucky
— ia gritar Rhodan, mas controlou-se no último instante e só pôde
espantar-se com a idéia genial do rato-castor.
Todo o
planeta de Archetz estava sendo colocado em estado de alarma.
Alarma
espacial! Um ataque vindo do espaço!
E, além
disso, ainda dois impulsos goniométricos transmitidos na mesma
freqüência!
Os
mercadores galácticos, que já deviam estar um tanto confusos pelo
fato de Rhodan se encontrar em seu mundo, acompanhado de um grupo de
terranos, agora estariam enlouquecendo em série, a não ser que
possuíssem nervos extraordinários.
Os
mutantes de Rhodan passaram ao ataque seguinte. Saltadores iam
chegando de outra seção. Procuravam forçar a entrada da sala de
rádio e correram para dentro de um feixe aberto de raios, disparado
por meia dúzia de hipnoprojetores.
No campo
de pouso, a Lorch-Arto desmanchou-se numa nuvem de gás
vermelho-amarelento. Os mercadores galácticos haviam perdido a
cabeça e dispararam com canhões pesadíssimos contra a velha nave
cargueira do sistema de Forit.
De
repente, um tremor de terra pareceu sacudir Archetz.
O grande
edifício do controle espaço-portuário tremeu até os alicerces.
Bell
soltou um grito.
— Chegaram!
Num gesto
violento levantou o braço, que apontou para o céu.
Atlan
estava chegando.
Árcon
trazia seu poder.
Nem um
único dos fortes planetários, que cercavam o planeta de Archetz,
atreveu-se a disparar um único tiro contra a frota de
supercouraçados do Imperador Gonozal VIII.
Mais de
trezentas espaçonaves esféricas de 1.500 metros de diâmetro
desaceleraram ao máximo e penetraram em alta velocidade nas camadas
mais densas da atmosfera de Archetz.
Desencadearam
um verdadeiro furacão! Fizeram estremecer os edifícios de todo um
planeta, precipitaram-se em direção à superfície e obscureceram o
céu. A três mil metros acima de Archetz, uma nave enfileirava-se ao
lado da outra. Era uma formidável demonstração de poder.
*
* *
— Os
mercadores galácticos nunca esquecerão o que fizemos com eles —
disse Perry Rhodan, dirigindo-se a Bell, enquanto saíam,
acompanhados por Thomas Cardif, do edifício do controle espaço
portuário.
Sem que
ninguém os molestasse, se dirigiram à nave capitania de Atlan, a
única a pousar no planeta.
Numa raiva
impotente, milhares de saltadores viram o odiado Rhodan caminhar com
mais alguns homens pelo concreto plástico do campo de pouso. Perry e
seu grupo dirigiram-se à comporta polar da nave arcônida e
desapareceram no interior da mesma.
Cardif foi
conduzido a um camarote individual. Dois robôs de guerra montaram
guarda à porta da pequena sala. Antes de mais nada, Rhodan e seus
mutantes procuraram livrar-se das máscaras soltenses. Sentiam-se
satisfeitos porque pelo aspecto exterior já não precisavam
pertencer à classe dos homens dignos de compaixão daquele povo.
Enquanto os bioplásticos removiam cuidadosamente as máscaras,
Rhodan deu uma ordem a Bell, que estava deitado a seu lado.
— Liquide
em Solten a questão da indenização a ser paga pela perda da
Lorch-Arto. Cuide também do problema dos dezessete soltenses, que
ainda se encontram a bordo da Drusus. Não quero que por nossa causa
o Grande Conselho das Mães lhes aplique a pena do açoite, nem que
sofram qualquer prejuízo financeiro.
— Por
que não manda Gucky fazer isso, Perry? Afinal, essa maldita idéia
foi dele — opôs-se Bell em tom enérgico.
Nos
próximos vinte anos não queria que ninguém lhe falasse a respeito
dos soltenses.
— Se a
situação fosse outra, eu mandaria Gucky, Bell. Acontece que lhe
ensinou certa palavra, trobel, e, além disso, permitiu que ele
fizesse chantagem com você. O que acha que Allan D. Mercant pensará
de você se Gucky lhe contar que esta palavra, pertencente ao
vocabulário soltense...
— Se ele
contar, eu lhe torço o pescoço — disse Bell, em tom indignado.
— Pois
vá a Solten e liquide as coisas junto ao Grande Conselho das Mães.
Nesse caso pedirei a Gucky que não conte nada a Mercant.
— Bem —
concordou Bell — se você não está fazendo chantagem, não sei
mais o que é chantagem. Está certo; irei a Solten.
— Tome
cuidado para que as mulheres não lhe dêem uma surra.
A única
reação de Bell consistiu num profundo suspiro.
*
* *
Rhodan
encontrava-se diante de Rhodan: pai e filho.
O bloqueio
sugestivo que Ishibashi aplicara em Cardif fora retirado. Cardif
voltara a ser ele mesmo.
— Thomas
— começou Rhodan, numa última tentativa de construir uma ponte. —
Não faz muito tempo que John Marshall me disse: “Se
eu fosse Thomas Cardif, também não lhe teria dado a mão junto ao
mausoléu da Lua.”
Para fundamentar estas palavras, que me abalaram bastante,
prosseguiu: “O
senhor estendeu a mão a Thomas na qualidade de administrador, não
na de pai, pois nesse caso estaria faltando aos seus deveres de
administrador.”
Mas agora, Thomas... nos muitos decênios durante os quais exerço o
poder, pela primeira vez utilizei-o para transgredir as leis feitas
por mim, pois minha intenção era encontrar o caminho que leva a
você, e você o caminho que leva a mim...
— Isso é
um sentimentalismo barato! Foi esta a resposta de Thomas Cardif.
Rhodan
teve a impressão de que alguém lhe batera no rosto.
— Thomas,
pense bem no que está dizendo.
— Quem
assassinou minha mãe, administrador? Quem achou que ela era velha
demais? Quem foi que a mandou a Árcon, para vê-la regressar como
cadáver? Foi você! Só você! Queria livrar-se da mulher que estava
envelhecendo. Seu covarde...
Ouviu-se
um estalo.
O lado
esquerdo do rosto de Thomas Cardif ficou vermelho.
— Sinto
muito ter batido em você... — estas palavras de Rhodan foram
proferidas em tom apagado.
Cambaleando
ligeiramente, dirigiu-se à porta.
*
* *
— Sim! —
disse o administrador-geral do Império Solar, e com esta palavra
enterrou suas esperanças.
O sim que
acabara de proferir decidira o destino de Thomas Cardif.
— Amigo...
— disse Atlan e abraçou-o. — O que adianta o poder, se devemos
continuar a ser humanos? Devíamos transformar-nos em máquinas
frias, desalmadas e brutais. Nesse caso, o ato de condenar o próprio
filho à morte seria uma bagatela. Mas da forma que são as coisas...
bem, da forma que são as coisas, a gente pensa que o mundo vai
explodir e soterrar-nos em seus escombros. Mas isso não acontecerá,
amigo. O mundo nos obriga a continuarmos a viver e a exercer o poder.
É este o preço do poder, amigo Perry!
Estavam
parados sob a abóbada gigantesca do computador positrônico de Árcon
III. Thomas Cardif achava-se deitado sob o hipnotron; parecia dormir.
O conjunto
hipnótico teve com esse terrano um cuidado que nunca tivera com
ninguém. Camada após camada, foi montando um bloqueio hipnótico em
seu cérebro. E Thomas Cardif foi-se esquecendo de quem era ele, de
onde vinha, quem eram seus pais. Mas quanto ao resto, seu ser
permaneceu intato: sua inteligência, seu saber, suas qualidades.
Dali a algumas horas, nem se deu conta de que acabara de sair de uma
cova, para a partir de determinado momento ver-se colocado em meio à
vida.
Sua mente
nunca indagava: de onde vim? o que me fez ficar isso que sou?
Se alguém
lhe perguntasse pelo passado, ficava devendo a resposta. E uma
pergunta desse tipo jamais o deixaria exaltado. Limitava-se a
balançar a cabeça e sorria como um sonhador.
Thomas
Cardif, o sonhador sorridente!
Esquecera-se
de odiar.
*
* *
*
*
*
Com a
modificação do comportamento de Cardif, a tranqüilidade de Perry e
de todo o império retornou.
Gucky,
o mais competente e também o mais indisciplinado mutante, vai gozar
férias em Vagabundo, seu planeta de origem. Gozar não é o termo
certo, pois em Vagabundo o rato-castor vê-se envolvido num caos...
Em
Forças
Desencadeadas,
título do próximo volume, Gucky irá viver em meio a estranhos
acontecimentos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário