— Quero
fazer uma pergunta! — gritei para Rhodan, apontando para um dos
reatores que estava sendo desligado. — Suponhamos que isto seja a
usina energética central do cérebro positrônico, e que o
computador não possa funcionar sem ela. Como se explica que o
regente se dê ao luxo de desligar um reator após o outro e conduzir
as sobras de energia para os acumuladores?
Rhodan
empalideceu. Olhou para trás com uma expressão de ansiedade.
Provavelmente já formulara a mesma pergunta para si mesmo. Os
reatores paralisados depunham contra a hipótese de que o computador
não poderia dispensar a usina em que nos encontrávamos.
Bell girou
sobre os calcanhares e saltou para abrigar-se. Acontece que os três
vultos que se aproximavam rapidamente eram apenas o sargento Huster e
os dois especialistas que o acompanhavam.
Pararam
ofegantes e Huster gritou:
— Sir, o
campo energético que corre junto à parede está adquirindo uma
coloração azul muito intensa. Receio que alguém nos tenha colocado
numa tela.
A entrada
do túnel era abobadada. Tinha cerca de trinta metros de altura e
igual largura. Não víamos o que havia atrás do estranho campo
defensivo, já que o túnel descrevia uma curva.
— É
isso! — disse Tanaka Seiko. Seu rosto estava contorcido e coberto
de suor. — Sir, as estranhas vibrações que acabo de captar vêm
de lá. É uma coisa horrível. Sinto dores terríveis na cabeça.
Sir, quase não agüento mais.
Naquele
instante, o infalível setor lógico de minha mente finalmente deu um
sinal de sua presença.
“Trata-se
de um campo energético de categoria superior, uma criação recente,
que ainda lhe é desconhecida. Atrás dele começa o setor
pertencente ao computador.”
— Bell,
fique aqui — gritei. — Bell, ninguém conseguirá atravessar
isso. Nós nos enganamos. A usina energética que ficou para trás é
uma obra de camuflagem. Nossos antepassados não se esqueceram de
proporcionar uma proteção real ao regente.
Vamos
voltar, senão estaremos irremediavelmente na armadilha. Ouça: os
últimos reatores acabam de ser desligados. Depois disso, a usina
ficará morta. E então a situação se tornará séria. Não vá,
Bell!
Rhodan
encontrava-se no meio da entrada do túnel, com os punhos cerrados
numa raiva impotente. Compreendera perfeitamente que aquilo que eu
acabara de dizer era verdade. O leve campo defensivo, situado atrás
da parede dianteira, representava apenas uma manobra diversionista.
O rugido
cessou por completo. Um silêncio medonho tomou conta da abóbada de
pedra, antes tão barulhenta. As palavras de Rhodan, proferidas em
voz alta, doíam no ouvido:
— Sargento,
ligue o detonador. Regule o mecanismo de tempo para cinco minutos.
Tako, leve a bomba para o outro lado do anteparo energético.
Coloque-a em qualquer lugar, no pavilhão que fica atrás do mesmo, e
volte imediatamente. Vamos; apresse-se!
Lancei um
olhar apavorado para aquele homem. Será que ele ainda sabia o que
estava fazendo?
Nem por um
instante, Huster perdeu sua calma espantosa. Com um giro da chave
especial, ajustou o mecanismo de tempo.
— Os
cinco minutos estão correndo, Sir — disse com uma tranqüilidade
férrea.
O
teleportador Tako Kakuta não disse uma única palavra. Sabia que não
podíamos perder tempo. Alguma coisa tinha de ser feita.
Provavelmente a vigilância automática só esperara todos os
reatores serem desligados e os dutos de injeção da massa de reação
catalítica serem esvaziados. Do contrário, uma eventual batalha no
local causaria um terrível incêndio atômico, já que o processo de
fusão da massa físsil tinha início a menos de quarenta mil graus
centígrados.
Tako
comprimiu contra o corpo o objeto oco de cerca de cinqüenta
centímetros de comprimento. Seu aspecto não revelava o tremendo
potencial destrutivo que encerrava.
Os olhos
do mutante fitavam o anteparo energético com uma expressão
distante. Tal anteparo era misterioso. Emitia um brilho prateado,
entremeado vez por outra por uma luminosidade azulada, e constituía
um obstáculo aparentemente intransponível em nosso caminho.
Realizei um esforço desesperado, para estimular minha memória,
geralmente infalível. De repente senti fortes dores de cabeça.
Era
inútil. Nunca vira uma tessitura energética como esta.
Provavelmente esse campo defensivo fora criado pelos últimos
cientistas de escol que ainda se mantinham mentalmente ágeis, isso
há alguns milhares de anos depois do tempo em que passei a ser
considerado morto e desaparecido. Não conseguia imaginar de que tipo
seria a novidade por eles criada.
De
repente, o corpo de Tako desapareceu como se nunca tivesse estado a
apenas dois metros do lugar em que me encontrava. Rhodan olhou para o
relógio.
— O.K.!
— disse em tom frio, mas não teve tempo de fornecer
esclarecimentos.
Terríveis
gritos de dor fizeram-nos estremecer. Olhamos em torno, perplexos,
mas não vimos ninguém que pudesse ter emitido esses sons de
indizível sofrimento. Mas o autor dos mesmos só poderia ter sido um
ser vivo.
Os gritos
cresceram em intensidade até transformarem-se num guincho estridente
e prolongado. No lugar em que o teleportador se desmaterializara,
surgiu uma espiral luminosa tremeluzente.
Essa
espiral parecia descrever um rapidíssimo movimento de rotação, e
era dela que saíam os gritos.
— Tako!
— exclamou Rhodan. Esteve a ponto de precipitar-se sobre a confusa
figura energética, mas tive tempo de puxá-lo pelos ombros.
Cambaleou e foi cair aos meus pés.
Estupefatos,
fitamos o incompreensível. Aos poucos, o corpo de Tako foi saindo
daquele turbilhão de energia. À medida que seus contornos se
definiam, os gritos de dor iam diminuindo.
De
repente, o teleportador estava deitado à nossa frente. Seu rosto
estreito achava-se contorcido, e seus olhos pareciam retratar um
saber misterioso.
Quando
começamos a erguê-lo voltou a gritar, embora agora já se
esforçasse para não dar mostras muito evidentes de sua angústia.
Encostou-se à parede, choramingando e tremendo por todo o corpo.
Suas mãos agitavam-se violentamente. Continuava a segurar a perigosa
bomba. Nada parecia ter mudado.
De repente
Tako calou-se. Os olhos angustiados pareciam a única coisa viva em
seu corpo.
— O que
houve, rapaz? — gritou Rhodan em tom nervoso.
O sargento
Huster deu um enorme salto e caiu pesadamente ao chão. Segurou a
bomba e, com dois movimentos ligeiros, desligou o mecanismo de tempo.
Sua testa estava coberta de suor. Ao que parecia, agira no último
instante. Porém não disse uma única palavra.
O
teleportador respirava com dificuldade. Depois de algum tempo, disse:
— Foi
uma coisa horrível. Alguma coisa segurou-me, brincou comigo, fez-me
descrever um movimento de rotação e atirou-me para trás. Senti
tudo, Sir; não deixei de perceber o menor detalhe. Nunca mais quero
passar por esta experiência.
Gemia,
contorcia-se no solo e procurava cravar as unhas no revestimento de
plástico blindado.
O rosto de
Rhodan estava cinzento. Lançou-me um olhar indagador. Queria uma
explicação. E eu podia dá-la.
— Trata-se
de um campo estrutural estável, que provavelmente funciona com base
numa inversão hipergravitacional dos pólos. É uma energia que
repele o fluxo de impulsos de um corpo desmaterializado da mesma
forma como um campo magnético comum repele uma nuvem de gases
ionizados. Nunca conseguiremos atravessar isso, Perry! Já compreendo
como meus antepassados protegeram o cérebro. Provavelmente este
campo energético é uma das últimas criações de meu povo. Não
posso dar uma explicação precisa. Não há nenhum meio de atingir o
regente.
Tako
foi-se acalmando aos poucos. Totalmente exausto, descansava nos
braços de Huster. Ras Tschubai fitava o companheiro em silêncio. Ao
contemplar o campo energético tão próximo e aparentemente tão
inofensivo, uma ligeira expressão de medo surgiu em seus olhos.
Dali a
três segundos, o grande pavilhão de reatores começou a retumbar. O
silêncio foi interrompido pelos passos pesados de um contingente de
robôs.
— Marshall
já está informado — disse Rhodan. — O comando de recepção
está esperando. Ras, leve em primeiro lugar Huster e depois os dois
especialistas. Manteremos a posição por aqui. Vamos logo: comece.
Pelo amor de Deus, apresse-se como nunca!
Huster
levantou-se e saltou sobre as costas do mutante. No mesmo instante,
desapareceu.
— Bell,
Atlan, Okura e Seiko, vamos abrigar-nos atrás dos conversores. Tako,
já está em condições de saltar?
O
teleportador esgotado respondeu que não. Parecia desanimado. Não
formulamos outras perguntas. Quando saímos correndo, Ras Tschubai já
estava de volta. Trabalhava com uma rapidez incrível.
— Levarei
duas pessoas de cada vez — gritou atrás de nós. — Não haverá
problema.
Rhodan
limitou-se a fazer um gesto. No momento em que me abriguei atrás do
pesado pedestal de plástico blindado que sustentava o conversor, os
primeiros robôs de guerra apareceram mais ao longe.
Em virtude
do estreitamento afunilado do gigantesco pavilhão, nossa posição
era mais favorável. Atrás de nós começava o túnel relativamente
estreito, e à nossa frente havia apenas dois corredores largos, que
se juntavam perto da última fileira de conversores para formar um
único.
Esperei
até ter uma visão nítida das primeiras máquinas de guerra. O
regulador de intensidade de minha arma de impulsos estava na posição
três. Vi Rhodan esticar o braço para a frente. Apertamos o gatilho
quase ao mesmo tempo.
À medida
que os robôs que se aproximavam inexoravelmente explodiam, raios
ofuscantes cruzavam o recinto. Aconteceu o que tinha de acontecer.
Depois de
algumas salvas, o calor começou a tornar-se insuportável. Um enorme
conversor foi-se inclinando lentamente até encostar no aço
borbulhante, onde provocou uma chuva de fagulhas. Outros conversores
também explodiram. Quando Rhodan começou a abrir fogo contra os
acumuladores pendurados sobre os conversores, o caos foi completo.
Meus
disparos foram dirigidos para o lugar em que os corredores se
cruzavam. Os feixes energéticos bem abertos atingiram o chão e
transformaram o metal plastificado num mingau de lava do qual subiam
vapores venenosos.
Subitamente
houve um silêncio total. Os robôs tinham desaparecido e a parte de
trás da estação de conversores estava transformada num montão de
destroços. Compreendi que o cérebro positrônico que comandava a
ação levaria algum tempo para digerir o fato de uma resistência
tão violenta. Daqui a alguns minutos, as máquinas de guerra
receberiam novas instruções.
Vi Rhodan
através dos vapores corrosivos. Ele estava cutucando o mutante Son
Okura com o pé e apontava para trás. Também olhei para lá.
Ras
Tschubai já havia voltado. Os peritos em armamentos já haviam
desaparecido, e a figura contorcida do infeliz teleportador Kakuta
estava pendurada nas costas de Tschubai.
Assim que
Okura chegou ao lugar em que estava Ras, agarrou-se a ele. No mesmo
instante, os três corpos desapareceram numa ligeira luminosidade.
Agora éramos apenas quatro. Ras teria de saltar mais duas vezes para
colocar-nos em lugar seguro.
Rhodan fez
um sinal para mim. Recusei com um gesto violento e apontei para Bell
e Tanaka Seiko.
Demorou
alguns segundos até que Ras voltasse. Provavelmente nunca trabalhara
tão depressa. Vi que os lábios de Bell se moviam. Certamente não
concordava em ser levado antes de nós.
Mais uma
vez percebi a luminosidade tremeluzente. À nossa frente, o chão
borbulhava. Atingido pelo calor, um conversor cedeu à força da
gravidade e caiu.
Os
segundos transformaram-se numa eternidade. Nossas armas apontavam
ameaçadoramente para a frente. Vi um forte lampejo na bruma que se
estendia entre os conversores ainda intactos. Com um forte estrondo
atingiu a base de plástico blindado. A energia liberada ergueu-me do
solo. Caí pesadamente. Haviam disparado uma arma de choque. Era
nossa única chance. Se o robô que comandava a ação quisesse
conservar a usina energética, não poderia permitir que seus robôs
nos imitassem, disparando armas térmicas.
Olhei para
trás. Ainda não havia o menor sinal de Ras Tschubai. Olhei para o
relógio e notei que apenas vinte segundos se haviam passado desde
sua última aparição. Precisaria pelo menos de trinta segundos. E
era duvidoso que agüentasse mais uma viagem. Justamente os
teleportadores eram muito sensíveis e psiquicamente vulneráveis. Se
Tschubai conseguisse dar conta da última parte de sua tarefa,
teríamos de dispensar sua colaboração ao menos por quinze horas.
Rhodan
gritou alguma coisa para mim. Não compreendi suas palavras, mas um
olhar bastou para fazer-me entender a situação. Um monstro mecânico
cercado por um campo defensivo azulado aproximou-se lenta e
inexoravelmente através do regato de metal derretido. Atrás dele
vinham outros robôs do mesmo tipo. Era o fim.
Fiz três
disparos rápidos contra o atacante que vinha na frente. O único
resultado foi o aumento do calor, que se tornou insuportável. Meu
uniforme ficou chamuscado. Um cheiro repugnante penetrou-me pelo
nariz e pela boca. A tosse me sacudiu e meus olhos lacrimejaram.
Voltei a
disparar. Subitamente vi Rhodan saltar. Deslizava rente ao chão, a
fim de não enfiar a cabeça nos grossos rolos de gases. Segui-o
imediatamente. Ras Tschubai aparecera bem no fundo do túnel, junto
ao misterioso campo energético colorido.
Quando
atingimos o lugar em que se encontrava o teleportador, as primeiras
máquinas de guerra, protegidas por campos defensivos, chegaram ao
lugar em que estivéramos abrigados e pararam. Rhodan enlaçou o
pescoço de Ras Tschubai. Segurei-o por trás.
Notei que
o rosto do mutante estava desfigurado pelo cansaço. Ao que parecia,
o sucessivo transporte de dois homens de cada vez levara-o aos
limites de sua capacidade.
Senti a
dor ligeira da desmaterialização e, a seguir, uma maravilhosa
lufada de ar fresco. Compreendi que por enquanto estávamos em
segurança.
Fungava,
jogado ao chão, e tive a impressão de que iria morrer sufocado.
Alguém gritou meu nome. Era o Tenente Stepan Potkin, que, com o
auxílio do hipno André Noir, acabara de esvaziar a pequena sala
anexa de um dos alojamentos, a fim de proporcionar-nos um local de
chegada.
— Tudo
bem, Sir. Estão todos aqui. Como se sente?
Ouvi a voz
rouca de Rhodan. Tudo indicava que seu pulmão também se enchera de
substâncias venenosas.
— Uniformes
novos; rápido! Os nossos estão meio tostados. Como estão as coisas
por aqui? Já deram o alarma?
— Não
senhor, parece que ninguém sabe o que aconteceu por lá. Sou de
opinião que...
Nunca
conheceríamos a opinião de Potkin. Os apitos arcônidas, altos e
estridentes, que abafavam todos os outros ruídos, reduziram-no ao
silêncio.
A esta
altura, mais de quarenta mil zalitas licenciados, que se encontravam
no amplo pavilhão residencial, estremeceram. Ergueram as cabeças e
fixaram os olhos nos tetos e nas paredes, onde estavam instalados os
aparelhos de alarma.
Fitamo-nos
em silêncio e Bell disse em voz alta:
— Ah, já
perceberam que não estamos mais lá. É interessante!
Olhou
atentamente em torno. Os apitos continuavam a produzir o ruído que
sacudia os homens até a medula dos ossos.
Ergui-me
lentamente. A tosse foi diminuindo.
5
Em meio à
terrível confusão que se estabeleceu imediatamente após o início
do alarma, chegamos sãos e salvos ao bloco C-43-8. Os alto-falantes
mandaram que todos os zalitas licenciados saíssem imediatamente das
amplas ruas, lojas e locais e se apresentassem à portaria robotizada
dos seus alojamentos. O prazo concedido aos quarenta mil habitantes
de Voga IV foi de quinze minutos.
Naturalmente
toda essa gente não teve possibilidade de regressar aos seus
alojamentos num prazo tão reduzido. Rhodan e eu entramos no edifício
poucos segundos antes do término do prazo. Graças às nossas
plaquetas de licença conseguimos entrar sem dificuldades. Notamos,
porém, que houve algo lamentável...
Quando os
robôs começaram a disparar, ainda estava com o pé do lado de fora
da pesada porta. Ainda agora sinto o rugido das pesadas armas
energéticas, cujo furacão atômico matou mais de cem zalitas. Se
não tivéssemos conseguido entrar no último instante, nosso destino
teria sido semelhante ao destes homens.
O regente
não tinha a menor contemplação. Qualquer pessoa, que, depois de
findo o prazo concedido, ainda se encontrasse nas ruas, era morta a
tiros.
Já vira
muitos massacres cruéis durante minha longa vida, mas o que estava
presenciando agora era o mais chocante de todos. Um autômato
construído por meus veneráveis antepassados acabara de executar um
assassinato em massa. Em última análise me cabia uma
responsabilidade indireta por esse massacre.
Quando
tirei apressadamente o uniforme de tripulante e voltei a colocar as
vestes de comandante, que estavam sendo usadas por meu sósia, tive a
impressão de estar reduzido a uma insensibilidade total.
Rhodan e
Bell também, estavam trocando seus uniformes. Nossos
“representantes”
desapareceram e voltamos a ocupar nossos lugares.
Os membros
do grupo de recepção de Potkin ofereceram seu relato. As notícias
inquietantes circularam aos cochichos. Tako Kakuta, que continuava
tão debilitado que não conseguia manter-se de pé, acabara de
receber as primeiras injeções aplicadas pelo pessoal da equipe
médica. Não estava passando bem.
Saí de
meu quarto individual e dirigi-me ao alojamento dos oficiais. O
vozerio exaltado, que enchia todo o bloco, fez com que pudéssemos
arriscar uma ligeira conferência sobre a situação.
O sargento
Huster, com o rosto obstinado, desmontava sua bomba ultratérmica.
Nossos homens formavam em torno dele um círculo no qual se travavam
discussões animadas. Dessa forma, Huster estava muito bem abrigado,
enquanto se mantinha sentado no chão e decompunha a perigosa arma em
suas peças.
Lancei um
olhar ligeiro para a sala 18-B, onde o restante dos nossos cento e
cinqüenta homens se comprimiam em obediência às ordens que haviam
recebido.
Dos
cinqüenta zalitas genuínos da minha tripulação só dezoito haviam
regressado. Segundo as declarações dos sobreviventes, o Tenente
Kecc, operador dos aparelhos de observação, encontrava-se entre os
mortos.
Mandei que
os trêmulos zalitas se recolhessem ao seu alojamento e ordenei-lhes
que mantivessem um silêncio absoluto. Dali a alguns minutos,
encontrei-me com os oficiais do estado-maior de Rhodan.
Perry
Rhodan mantinha-se de pé junto à feia parede de plástico do
alojamento dos oficiais. Recebeu-me com um ligeiro cumprimento. Bell
lançou-me um olhar de total resignação e John Marshall fazia
esforços desesperados para captar impulsos mentais.
— Não
se incomode, John — disse Rhodan com uma voz que soou estranhamente
aos presentes. — Por aqui só existem robôs, e estes não pensam.
Os poucos arcônidas que se encontram no outro pavilhão residencial
não sabem de nada. A ordem de assassinar foi ministrada diretamente
pelo regente.
Marshall
desistiu. Um homem anunciou que a desmontagem da bomba fora
concluída. Rhodan agradeceu com um gesto distraído. Quando passou
os olhos por nós, parecia muito tranqüilo.
— Sabem
o que significa isso? Desaparecemos misteriosamente da usina de
força. Acontece que o regente já calculou que só podemos ter vindo
destes alojamentos de soldados. Por isso mandou evacuar as ruas, a
fim de iniciar o quanto antes um exame que será bastante embaraçoso
para nós. A ordem de disparar resultou de uma espécie de
curto-circuito do mecanismo positrônico, que certamente foi causado
pelo setor de autoconservação do computador. Já sabe que por aqui
existem armas perigosas e procurará localizá-las.
— Teremos
de livrar-nos dessas armas — disse Marshall em tom exaltado. —
Basta que Ras Tschubai dê alguns saltos para colocá-las num lugar
escondido. Depois disso, o regente poderá procurar adivinhar a quem
pertenciam.
A idéia
era perfeitamente lógica, mas tinha um ponto fraco...
Sabia
perfeitamente qual seria a reação do espírito lúcido de Rhodan.
— Você
está enganado, John! O regente não esquece nada. Levará apenas
alguns segundos para lembrar-se da atuação de nossos mutantes,
realizada há cerca de setenta anos, e tirará suas conclusões. A
esta hora já deve dispor de provas irrefutáveis de que as pessoas
que penetraram na usina não podem ter chegado pelos meios naturais.
Dispõe de uma série de dados sobre as operações já realizadas
por nossos agentes em todos os pontos do Império. Já sabe que está
lidando com terranos. Todas as pessoas que se encontram neste setor
da cidade serão submetidas a um exame minucioso. Esconder as armas
não adiantará nada.
— É uma
teoria um tanto arriscada — ponderou Bell.
— Não é
arriscada coisa alguma. Conheço essa máquina. Ela extrairá
exatamente as conclusões que acabo de apontar. Atlan, qual é sua
opinião?
— É
isso mesmo. Ainda que o regente não se lembre do planeta Terra, não
deixará de ordenar o exame. E infelizmente não existe nenhum meio
de modificarmos a freqüência de nossas vibrações cerebrais
humanas ou arcônidas. Se puserem os olhos em nós, estaremos
perdidos. As máscaras serão inúteis.
Num gesto
nervoso, Rhodan passou a mão pelos cabelos longos. Seu sorriso
parecia um tanto forçado.
— Quer
dizer que será preferível ficarmos com as armas. Quando formos
agarrados, não quero estar desarmado. Alguém vê uma possibilidade
de forçarmos passagem para cima?
Potkin deu
uma risadinha e sacudiu a cabeça.
— Não
existe a menor possibilidade — afirmei, procurando dar um tom
tranqüilo à minha voz. — Neste setor só existe uma entrada, que
já conhecemos. Não há nenhuma possibilidade de chegarmos aos
estaleiros. Mesmo que conseguíssemos chegar lá, qualquer tentativa
de escapar seria inútil. As naves são levadas para baixo por meio
de gigantescos poços antigravitacionais. E nunca conseguiríamos
subir.
Rhodan
sentou sobre a cama pneumática. Sabia que o jogo estava perdido. Se
o atentado tão cuidadosamente planejado tivesse sido bem sucedido,
as coisas seriam muito diferentes. Sem dúvida, em meio ao caos
teríamos encontrado uma possibilidade de chegar à superfície, pois
o regente já não existiria.
Acontece
que agora o computador revidava os golpes com o máximo de rigor. Nem
tudo estava perdido, pois ainda nos restava uma saída perfeitamente
viável. Hesitei em comunicá-la aos outros.
— Não
devemos iludir-nos: fatalmente seremos descobertos. E uma resistência
armada até o último homem seria tola e inútil. Se nos
apresentarmos imediatamente, seremos prisioneiros do regente. É
provável que ele nos solte sem criar maiores problemas, já que não
pode dispensar o auxílio da Terra. É apenas uma idéia.
Os olhos
de Rhodan brilharam sob o efeito da luz que incidia obliquamente.
— Você
acha, arcônida? Será que você realmente acredita nisso? O regente
nos receberá e a seguir nos submeterá a um interrogatório
extremamente penoso. Descobrirá a posição galáctica da Terra e
atacará imediatamente. Há anos não está querendo outra coisa.
Bell
fitou-me com os olhos semicerrados. Sua atitude intranqüilizou-me.
Senti a cólera apossar-se de minha mente. Alem da situação
desesperadora, ainda tinha de enfrentar a desconfiança dos terranos.
— Pois
façam o que quiserem, seus heróis de meia-tigela — disse em tom
revoltado. — Se quiserem, morram com bandeiras esvoaçantes e
gritos de entusiasmo. Vocês são uns idiotas que nunca aprendem.
Sabem atirar e enfrentar uma morte insensata, mas não entendem da
verdadeira política. Talvez haja um meio de enganar o cérebro.
— Não!
A palavra
encheu o pequeno recinto como se tivesse sido transformada num objeto
sólido.
Rhodan
acabara de tomar uma decisão. Lancei-lhe um olhar furioso e cerrei
os punhos. Ninguém dizia uma palavra. Em compensação os olhos
frios dos homens pareciam cortar-me em pedaços.
Banquei o
irônico e virei-me. Seguiu-se o chamado áspero que já esperava.
Esses bárbaros que estavam subindo depressa demais nunca mudariam.
— Aonde
vai, arcônida?
Virei a
cabeça. O corpo retesado de Rhodan convenceu-me de que o bárbaro já
não confiava em mim.
— Vou à
cantina — respondi em tom irônico. — Para que tanto nervosismo,
imortal? Não está com fome?
Bell
sorriu e o corpo de Rhodan descontraiu-se.
— Você
é um sujeito muito frio, não é? — perguntou em tom pensativo.
— Só de
fora. Receio que, num futuro próximo, meu lindo ativador celular se
tornará inútil. A morte acidental constitui um fenômeno exterior,
não resultante de qualquer tipo de condicionamento orgânico, motivo
por que dificilmente existirá um meio de evitá-la. Se considerarmos
que o impacto de uma arma de radiações é um acidente, havemos de
compreender o que nos espera. Convém refletir mais um pouco sobre a
hipótese da capitulação. Conheço o cérebro e sei que não
demorará a tomar suas providências. No momento, todos os zalitas
estão presos nos alojamentos. Com isso foi eliminada uma atividade
que começava a tornar-se perigosa para o regente. É o primeiro
lance de uma série de medidas que se revestem de lógica patente. As
medidas posteriores serão muito mais desagradáveis.
A título
de cumprimento pus a mão no capacete. Antes que chegasse à porta,
os grandes alto-falantes começaram a berrar do lado de fora. Desta
vez era o regente “em
pessoa”.
Parei para
ouvir melhor. Rhodan colocou-se apressadamente a meu lado e abriu a
porta com o pé. O anúncio foi feito com um volume tão forte que
ninguém poderia deixar de entender as palavras.
— Regente
a todos os comandantes zalitas
— disse a voz que encheu os pavilhões e corredores. — Coloquem
suas tripulações em ordem de marcha. Chamaremos nave por nave e
providenciaremos o transporte para a superfície. A partir deste
momento todas as licenças estão suspensas. Ninguém pode sair dos
edifícios dos alojamentos. As tripulações serão escoltadas por
robôs de guerra. Não se admite qualquer pergunta dirigida a mim.
Fitamo-nos
com uma expressão de perplexidade. Qual seria a finalidade disso?
Será que as instruções que acabavam de ser ministradas também
constituíam resultado da lógica mecânica? Se fosse assim, o que
pretendia o computador com o transporte? Por que não realizava aqui
embaixo os exames individuais que sem dúvida se seguiriam?
Foi meu
segundo cérebro quem deu a resposta.
Assim que
a mesma chegou ao meu nível de consciência, fiz alguma coisa de que
poucos segundos depois me arrependi amargamente. Dirigi-me a Rhodan e
expliquei apressadamente o que acabara de apurar:
— O
computador está tirando suas conclusões. Não quer assumir o risco
de mandar examinar os homens na cidade, pois certamente descobriu
que, ao penetrarmos na usina, tínhamos uma arma de elevado potencial
destrutivo. Do contrário, tudo isso não faria o menor sentido, pois
com os radiadores portáteis não poderíamos prejudicar seriamente o
regente, mesmo que conseguíssemos penetrar em suas entranhas
mecânicas.
— É uma
explicação plausível. Prossiga! — interrompeu Rhodan.
— Em
virtude do que acaba de ser dito, está empenhado em afastar todo
mundo o mais depressa possível do lugar em que uma pessoa que
disponha de meios adequados poderá causar um prejuízo muito maior
que na superfície. Por isso aqui embaixo nenhum exame será
realizado. Tal exame consumiria tempo, e o computador não está
interessado em dar tempo a ninguém. No espaçoporto, o ambiente
deverá esquentar.
A
expressão do rosto de Rhodan me fez calar. Uma máscara não poderia
ser mais rígida e indiferente. Levou apenas três segundos para
tomar sua decisão. E quando a anunciou, foi minha vez de
empalidecer.
— Sargento
Huster!
O perito
em armamentos estava parado no corredor. Dirigia o chamado comando
explosivo. Apareceu imediatamente e ficou em posição de sentido à
frente de Rhodan.
— Perry...!
— ponderei em tom exaltado. Alguma coisa parecia comprimir minha
garganta. — Perry!
Rhodan não
me deu a menor atenção. Começou a falar com a voz monótona.
— Mr.
Huster, ordeno-lhe no interesse da Humanidade que monte o mais
depressa possível as peças da bomba arcônida, ponha seu mecanismo
em condições de funcionamento e coloque o detonador de tempo. Avise
assim que esta ordem tenha sido cumprida.
Huster fez
continência. Desapareceu antes que tivesse tempo de dizer qualquer
coisa. Os cento e cinqüenta homens de nosso comando aglomeraram-se
discretamente. A bomba de Árcon, que constituía a arma mais
perigosa de meu povo, representava a solução de emergência a que
Rhodan resolvera recorrer.
Corri para
o corredor e lancei um olhar ligeiro para a sala 18-B. Huster já
desaparecera em meio aos homens aglomerados. Provavelmente as peças
trazidas apressadamente à luz do dia já estavam chegando às suas
mãos.
Quando
voltei ao pequeno alojamento dos oficiais, o regente começava a
transmitir as primeiras instruções para o transporte dos homens. Os
comandantes de dez naves receberam ordens de retirar suas tripulações
dos blocos residenciais e conduzi-las em forma para os lugares
indicados pelos robôs.
Compreendi
que o regente estava agindo muito depressa. A qualquer momento
poderia chegar nossa vez. Ninguém sabia qual seria a próxima
tripulação que receberia ordem para pôr-se em marcha. Apenas me
restava esperar que o regente não desse ao tal do sargento Huster o
tempo necessário para concluir a montagem da bomba arcônida.
Quase
louco, entrei precipitadamente no alojamento, mas nunca desconfiaria
do que me esperava por lá. Provavelmente a idéia logo me teria
acudido, se não estivesse tão nervoso. Afinal, conhecia os homens
há dez mil anos.
O cano da
arma de radiações de Rhodan estava dirigida sobre meu peito. Mais
três armas ameaçavam-me. Parei e lancei um olhar de perplexidade
para a fluorescência vermelha que saía dos canos.
Finalmente
levantei a cabeça.
— Sinto
muito — disse Rhodan em tom triste. — Acreditamos que a ordem que
acabo de dar talvez possa levá-lo a fazer alguma bobagem. Até que
recebamos ordem para pôr-nos em marcha, ficaremos de olho em você.
Alguma objeção?
Senti-me
chocado pela ironia gelada dessas palavras. Abafei a raiva insensata
e esforcei-me ao máximo para manter a calma.i
— Nada
de truques — disse Bell em tom amável. — Acho que já nos
conhecemos.
Soltei uma
risada amarga. Realmente nos conhecíamos.
— Quer
dizer que você pretende destruir o planeta da guerra? Já se deu
conta de que isso trará uma revolta na Via Láctea? Se as fábricas
de naves de Árcon forem destruídas, o Império será um...
— Sei
disso.
— Mais
de cinqüenta mil mundos coloniais perceberão imediatamente que o
império cósmico deixou de existir. Será o caos. Além disso, temos
o perigo representado pelos druufs. Será que terei de apresentar
mais argumentos, seu arrivista louco?
— Sinto
muito. Dentro de alguns meses, o perigo dos druufs desaparecerá por
si, em virtude da instabilidade progressiva da frente de
superposição. Quanto às revoltas nos setores coloniais do Império
Arcônida, acho que conseguiremos vencê-las.
— Para o
bem da Terra! — respondi em tom de escárnio.
— Para o
bem da Terra, arcônida. Dou-lhe uma chance de construirmos juntos um
novo império. De qualquer maneira você se encontra numa posição
perdida. Será que já se esqueceu de como são os membros de seu
povo? Com eles, você nem sequer conseguiria abafar uma revolta
interna. Você há de reconhecer que, na situação atual, a
destruição deste gigantesco mundo da guerra é a única saída. Nem
mesmo o regente resistirá ao incêndio atômico que começará
lavrar depois de detonada a bomba. Seus supercampos protetores
desmoronarão e o planeta entrará em ebulição. Antes disso,
teremos oportunidade de decolar numa nave. Nenhum ser humano morrerá.
O incêndio provocado pela bomba leva algumas horas para
disseminar-se pelo planeta. Face a isso, todos terão oportunidade de
escapar para o espaço livre. Quem terá de ficar para trás será
apenas o regente firmemente ancorado na rocha. Com isso teríamos
atingido nosso objetivo.
— Você
destruirá o Império — disse em tom insistente. — Você
destruirá tudo que criamos e construímos num trabalho de vinte mil
anos. Não permitirei que isso aconteça. Não sabe que existem
inúmeros povos que só aguardam este momento? Eles cairão sobre nós
que nem uma matilha de lobos. As raças não-humanóides terão tempo
e oportunidade para fazer prevalecer sua influência.
— É um
risco que teremos de aceitar. Você não vai impedir coisa alguma,
Atlan.
Dei uma
risada sarcástica bem no rosto de Rhodan, que recuou um tanto
embaraçado. Interrompeu-me com um sinal e disse com a voz muito
tranqüila:
— Atlan,
também haveremos de vencer esta barreira que se interpõe no caminho
da nossa amizade. Fique tranqüilo e procure raciocinar logicamente
sobre os fatos. O regente tem de ser posto fora de ação.
— Mas
não nestas condições — gritei fora de mim.
Totalmente
exausto, sentei numa cama pneumática.
— Muito
bem, arcônida!
Lancei um
olhar prolongado para Rhodan, que sentiu o ódio que subitamente
começava a tomar conta de mim. Cochichei com os lábios ressequidos:
— Quando
lutamos no museu de Vênus, eu deveria ter enterrado a espada em seu
pescoço, seu idiota! Se Árcon III for destruído, nos outros dois
planetas do sistema surgirão terríveis inundações e tremores de
terra. Afinal, você não entende nada do sistema bem elaborado de
estabilização recíproca das forças.
Lancei-lhe
um olhar de súplica. Será que Rhodan não queria compreender?
— Terminaremos
dentro de trinta minutos — disse um homem que olhou ligeiramente
para dentro do alojamento.
Comecei a
desesperar no meu íntimo. Por que não aparecia nenhum robô de
vigilância? Em outras oportunidades os mesmos costumavam aparecer a
toda hora. Bell bloqueava a porta. Sabia que atiraria se eu tentasse
a fuga.
6
— Mais
rápido, mais rápido — ordenou o robô de guerra de três metros
de altura, forçando ao máximo seus órgãos vocais biomecânicos.
Há dez
minutos não fazíamos outra coisa senão correr. Fomos obrigados a
movimentar as pernas até mesmo sobre a rápida fita larga de
transporte, muito embora esse meio de transporte de massa corresse à
velocidade de quarenta quilômetros por hora sobre os cilindros
invisíveis.
Agora
estávamos correndo em direção à entrada reluzente de um elevador
antigravitacional. Já esperava que não seríamos levados para cima
pelo caminho já conhecido, mas nunca pensaria que o regente mandasse
conduzir-nos pelos grandes elevadores do estaleiro espacial que
ficava próximo aos alojamentos.
De
qualquer maneira, o computador teve o cuidado de mandar bloquear os
largos corredores, que se estendiam entre as estradas rolantes
automáticas, por meio de suas máquinas de guerra. Corremos entre
duas fileiras de armas erguidas em atitude ameaçadora, que de
repente poderiam despejar sobre nós suas descargas mortíferas.
Fui o
quinto a saltar para dentro do campo antigravitacional do elevador.
Os terranos, dispostos a qualquer coisa, precipitaram-se atrás de
mim. Vi Rhodan lançar um olhar ligeiro para o relógio. Depois,
muito preocupado fitou Huster. Porém o sargento apenas acenou-lhe
nervosamente com as mãos.
Compreendi
que o momento em que a bomba deveria ter detonado automaticamente já
passara.
Segurei-me
na parede e fiz um esforço para não ser arrastado pois havia
ausência de gravidade. Os homens de nosso grupo ainda não estavam
todos reunidos. Recebêramos ordens para só subirmos juntos.
— O que
houve, Huster? — perguntou Rhodan para o homem gigantesco.
Em seu
rosto havia uma expressão tensa.
— Já
deveria ter estourado, Sir — disse o especialista em armamentos.
Alguém soltava pragas terríveis. Não consegui apurar do que se
tratava.
Atrás de
nós, algumas máquinas de guerra penetravam no poço de mais de
duzentos metros de diâmetro. Fomos impulsionados por meio de um jato
de ar comprimido, que nos arrastou violentamente para cima. O enorme
poço subia verticalmente em meio à rocha.
Apoiei-me
nos ombros largos de um soldado e flutuei para junto de Rhodan. Sua
arma já havia desaparecido. Fitou-me com uma expressão que já não
era fria, mas desesperada. Segurei seus ombros, e, em virtude disso,
começamos a girar.
— Onde
mandou o teleportador colocar a bomba? — perguntei apressadamente.
— Fale logo. Onde?
— Ele a
colocou junto à parede que separa a usina energética. Bem embaixo
da curva da grande tubulação.
— Quer
dizer que foi colocada justamente no lugar em que o equipamento de
vigilância é mais forte. Vocês são uns idiotas! Por que não a
deixaram simplesmente no alojamento? Uma bomba arcônida é detonada
mediante um elevado dispêndio de energia. É claro que foi
localizada e desativada assim que o mecanismo-relógio começou a
funcionar.
— Isso é
impossível; dispunha de um dispositivo de segurança contra a
localização — respondeu Rhodan em tom assustado.
— Você
acha mesmo que conhece todos os recursos do grande cérebro? No
momento em que o processo de estímulo energético foi iniciado no
campo de reflexão da bomba, esta se transformou numa esfera radiante
de energia. Com isso superou imediatamente as influências do
ambiente, tornando fácil a localização. Já deve ter sido
desativada por um comando de robôs.
— Não;
não é possível...
— Aposto
qualquer coisa. O que me diz? Como foi que não aconteceu nada que
indique a ocorrência da detonação final? Perry, pense um pouco.
Estamos sendo esperados lá em cima.
Os
acontecimentos seguintes foram tão rápidos que mal conseguimos
acompanhá-los. Subimos com uma velocidade considerável. De repente,
a porta blindada que fechava o poço abriu-se e sentimo-nos ofuscados
pela luz do sol.
O campo
energético da chegada deteve a queda. Recuperamos nosso peso. Acima
de nós estendia-se uma gigantesca abóbada de aço de Árcon. Só
vimos cinco dos tripulantes levados para lá antes de nós. Estavam
prestes a atravessar, em forma, uma barreira de alta-tensão, atrás
da qual se encontrava um rastreador energético montado sobre rodas.
Seria
impossível continuarmos com as nossas armas, que funcionavam em base
energética. Provavelmente, quando nos aproximássemos a trinta ou
quarenta metros, o aparelho extremamente sensível começaria a
reagir. Era exatamente o que eu imaginara.
Rhodan
disse alguma coisa que não entendi muito bem. Os membros do comando,
que haviam chegado juntamente com ele, formaram o círculo e Rhodan
pôs a mão no bolso.
Sem dar a
menor atenção ao perigo que poderia resultar, trouxera a microbomba
nuclear. Tinha formato achatado e era como um estojo de jóias, mas a
energia por ela produzida chegava a quinhentas toneladas de TNT. Com
um simples movimento de mão, Huster colocou o pequeno mecanismo de
propulsão de combustível sólido, que tinha a forma de um bastão,
e moveu a pequena alavanca de alumínio que o prendia. Com isso, o
corpo achatado transformou-se num microfoguete de vôo estável.
Rhodan
inclinou-se sobre a abertura, mandou que dois homens o segurassem
pelos pés e estendeu a mão direita para baixo. O chiado agudo do
combustível químico foi superado pela confusão de nossas vozes.
Percebi apenas o raio ofuscante de gases incandescentes, que passou
junto ao rosto de Rhodan. Quando este se ergueu repentinamente e
saltou para trás, o estranho projétil já descia pelo grande poço
do elevador antigravitacional. Assim que a microbomba atingisse o
solo, a uns mil e oitocentos metros de profundidade, haveria uma
explosão devastadora.
Os poucos
robôs de guerra que nos acompanhavam ainda se encontravam no
interior do poço. Estavam esperando que chegássemos em cima. Os
cento e cinqüenta homens de nosso comando correram desesperadamente.
Em carreira desabalada deslocaram-se ao ponto mais afastado da
abóbada, atiraram-se ao solo e arrancaram as armas dos bolsos do
uniforme.
Segui-os,
também me atirei ao solo e, no mesmo instante, senti-me envolvido
pela tormenta atômica.
A bomba já
devia ter tocado o chão bem antes, mas provavelmente possuía um
detonador de retardamento. Naquele instante, os homens de Rhodan
abriram fogo contra os robôs que iam chegando e derrubaram-nos tão
depressa que as máquinas não tiveram tempo de esboçar qualquer
tipo de defesa.
O próximo
alvo a explodir foi a barreira de alta-tensão com o instrumento de
observação montado sobre rodas. Os robôs, que se encontravam ao
lado da tal barreira, perderam o equilíbrio em virtude da onda de
compressão. Antes que conseguissem recuperá-lo, estavam
transformados num montão de destroços incandescentes.
De repente
não parecia haver mais nada que nos ameaçasse. A entrada estava
aberta à nossa frente. Vi alguns zalitas que fugiam apavorados.
Haviam chegado antes de nós.
— Fiquem
deitados — gritou Rhodan. — Daqui a pouco vai explodir.
Imaginava
perfeitamente o estrago da explosão. Segurei-me firmemente a uma das
travessas, que apoiavam a abóbada, e comprimi o rosto contra o solo.
O chão estremeceu sob o efeito de uma terrível detonação.
Do grande
poço do elevador saiu uma coluna de fogo surpreendentemente fraca.
Em compensação, o abalo foi tão forte que me senti arrancado da
travessa em que me segurava. Fui atirado sobre o material liso do
piso.
A onda de
compressão saiu do poço do elevador com um enorme rugido e arrancou
a abóbada. Uma chuva de peças fumegantes foram lançadas das
profundezas.
O terrível
trovejar parecia não terminar nunca. Mais uma onda de compressão
atingiu-nos e outra coluna de fogo, mais forte, saiu do poço do
elevador, que se transformou na boca de um gigantesco canhão.
Rhodan
parecia ter contado com isso.
A borda do
poço de elevador desmoronou. Os últimos destroços foram atirados
das profundezas trovejantes. A abóbada, que cobria a saída do poço,
estava transformada num montão de destroços. Grandes aberturas
surgiram nas paredes. Rhodan foi o primeiro a pôr-se de pé. Saltou
para uma das fendas e olhou para fora. Já estávamos jogando com as
cartas abertas.
— Vejo
naves, muitas naves — gritou em tom exaltado. — Procuraremos
atingir a mais próximas delas. Aconteça o que acontecer, não
poderemos permitir que nos peguem.
Sabíamos
que, apesar do êxito momentâneo, não tínhamos a menor chance.
Mesmo que conseguíssemos decolar com uma das naves, seríamos
atingidos assim que esta se erguesse do solo. Era inútil, mas de
qualquer maneira corremos.
Saltei
para a forte luminosidade do sol de Árcon e tive a impressão de que
meu sangue iria gelar nas veias. A menos de um quilômetro do lugar
em que me encontrava, a gigantesca abóbada energética do
computador-regente erguia-se para o céu límpido. A comporta por nós
destruída ficava muito perto do campo defensivo.
Os cento e
cinqüenta homens tresloucados correram como nunca haviam corrido. Os
zalitas genuínos ficaram para trás, totalmente perturbados. Não
estavam compreendendo mais nada. Segui Rhodan, pois não tinha outra
alternativa. Quando nos encontrávamos a uns cem metros da nave
cobiçada, que era um cruzador ligeiro da frota arcônida, seus
mecanismos propulsores entraram em atividade. Ergueu-se com um forte
rugido, deixando atrás de si uma cauda escaldante.
De
repente, as pernas de Rhodan pareciam ceder. Dobraram-se lentamente
e, depois de algum tempo, o terrano caiu ao chão, onde ficou
deitado, completamente imobilizado. Seus olhos apáticos fitaram o
cruzador que se afastava vertiginosamente. As outras unidades também
foram decolando. O rugido surdo dos mecanismos propulsores parecia um
canto da morte.
Rhodan
continuava deitado no mesmo lugar. Sua boca estava muito aberta.
Respirava pesadamente. A muralha reluzente da abóbada energética
ficava a menos de quinhentos metros. À medida que as naves
decolavam, o campo de visão se ampliava, até que nos víssemos sós
diante da barreira que cobria toda a linha do horizonte.
Os outros
membros do comando também cessaram a corrida vertiginosa. Fungavam e
olhavam em torno. Finalmente viram o que eu já havia descoberto.
Bem ao
longe, a cerca de três quilômetros de distância, numerosos vultos
escuros saíam da porta blindada, que poucas horas antes usáramos
para entrar na cidade subterrânea. Visto de longe, o panorama se
parecia com um formigueiro que estivesse expelindo em rápida
seqüência seus habitantes enfurecidos.
Depois de
algum tempo, a corrente compacta subdividiu-se. Logo compreendemos
que os robôs estavam formando linhas de tiro.
Um
silêncio deprimente reinava em torno de nós. O rugido dos
propulsores chegara ao fim. O enorme espaçoporto parecia deserto.
Ainda não ouvíamos os passos pesados dos robôs. Quando ouvíssemos,
seria tarde.
Bell
procurou orientar-se. Apontou para uma muralha de plástico blindado.
— Aquilo
nos servirá de refúgio. Vamos abrigar-nos.
Aproximou-se
de Rhodan, segurou-o embaixo dos braços e ergueu-o violentamente.
— Por
que diabo as naves robotizadas não atiraram? Por quê? Bastaria uma
salva para liquidar-nos.
— Eles
nos querem vivos, meu caro — respondi. — É bom acostumar-se à
idéia. Provavelmente os robôs de guerra usarão apenas armas de
choque.
Lançou-me
um olhar desesperado. Finalmente um sorriso martirizado apareceu em
seu rosto.
— O.K.
Deixe que venham. Ainda vê uma possibilidade de fugirmos?
— Devíamos
capitular. Por que sacrificar os homens?
O corpo de
Rhodan entesou-se.
— Ninguém
revelará a posição galáctica da Terra.
Sabia
perfeitamente que se tratava de um argumento válido.
— Para
isso você teria de matar seus soldados e no fim a si mesmo. Uma vez
que os robôs usarão exclusivamente armas de choque, não teremos
outra alternativa. Se não fizer o que estou dizendo, acabaremos
caindo mais cedo nas mãos do regente.
Rhodan fez
como se não tivesse ouvido as últimas palavras por mim proferidas.
Provavelmente recuava diante da conclusão que se impunha. Esperava
que as máquinas de guerra acabassem atirando com armas mortíferas.
Corremos
mais uns cento e cinqüenta metros, saltamos por cima da muralha de
plástico blindado pintada de vermelho, que tinha quase dois metros
de altura, e abrigamo-nos.
A uns
cinqüenta metros atrás de nós, começava a área de perigo
propriamente dita. Não seria recomendável aproximar-se a menos de
trezentos metros do campo energético, no qual sem dúvida reinava
uma tensão elevada.
Ficamos
deitados por algum tempo, até que Ras Tschubai se aproximasse do
lugar em que nos encontrávamos. Fez continência para Rhodan e
anunciou em tom singelo:
— Sir,
tentarei atravessar o campo energético com algumas bombas manuais.
Talvez consiga.
Rhodan
fitou-o em silêncio. Ainda sem dizer uma palavra, entregou ao
teleportador cinco dos artefatos explosivos.
Esperamos
que Ras se concentrasse. Quando saltou, houve o fenômeno luminoso
que já conhecíamos. Logo após o salto voltamos a ouvir os
terríveis gritos que já ouvíramos poucas horas antes.
Demorou
bastante até que a espiral energética se desmanchasse, liberando o
corpo de Tschubai que se materializava lentamente. Quando nossos
médicos lhe aplicaram as primeiras injeções de analgésico ainda
estava gritando.
— Um
campo energético em forma de favo — disse John Marshall em tom
indiferente. — Será que esse campo é constante, ou só é ativado
quando o cérebro se vê diante de uma ameaça mais grave?
Rhodan não
respondeu. Fitei-o de lado e assustei-me, quando ouvi as ordens por
ele emitidas.
As
microbombas foram saindo dos bolsos chatos do uniforme. Os suportes
com pequenos trilhos de lançamento e os propulsores de combustível
sólido com as aletas estabilizadoras foram colocados. Cada um de nós
possuía uma bomba desse tipo, com exceção daqueles que tiveram de
utilizar o lugar disponível em seus uniformes para transportar
outras peças.
Bell e
Rhodan fizeram pontaria, regularam os parafusos dióptricos de
aspecto primitivo para a distância adequada e puxaram o gatilho.
Com um
chiado, os pequenos projéteis saíram numa parábola ampla.
Atingiram o solo bem à frente das linhas de robôs e explodiram numa
ofuscante reação nuclear.
O processo
de fusão era livre de radiações, motivo por que só teríamos de
recear as energias térmicas liberadas na explosão e as ondas de
compressão. O furacão escaldante uivou acima das nossas cabeças e
os cogumelos atômicos escuros subiram acima do campo de pouso. Os
destroços foram chovendo e finalmente o silêncio voltou a reinar.
Levantamo-nos
do paredão, que proporcionava uma proteção ideal, e olhamos para a
frente. Duas crateras chatas e liquefeitas abriam-se no revestimento
de plástico. Provavelmente numerosas máquinas de guerra haviam sido
derretidas. Porém, de ambos os lados da cratera aberta pela
explosão, os outros robôs continuavam a marchar com uma
tranqüilidade mecânica. A perspectiva da destruição não os
atemorizava.
Naquela
altura, já não podíamos usar as armas pesadas. O alvo estava
próximo demais.
Bell
escondeu o rosto nos braços entrecruzados. Dava a impressão de
estar dormindo. Os ombros trêmulos eram o único sinal de que esse
homem também tinha sentimentos. Voltei-me para Rhodan. A fim de
prosseguir na resistência insensata, Perry estava tirando sua arma
de impulsos térmicos.
— Você
seria capaz de assassinar seus homens para evitar que eles revelem a
posição da Terra?
— Assassinar?
— repetiu Rhodan em tom de perplexidade. — Nunca usei essa
palavra. Nós nos defenderemos. Haja o que houver. Todos possuímos
um bloqueio hipnótico que entrará em ação na hipótese de um
interrogatório psíquico. Você saberá proteger-se. Se o regente
recorrer à tortura física naturalmente passaremos momentos bem
desagradáveis.
— Se é
assim, por que tem receio de que alguma declaração possa prejudicar
a Terra?
Rhodan
deixou cair a cabeça e respondeu em voz baixa:
— Não
confio muito nos bloqueios hipnóticos. Se o regente recorrer aos
médicos galácticos...
Compreendi
perfeitamente. Os sentimentos de Rhodan arrastavam sua mente de um
lado para outro. Sabia que o jogo estava perdido. Dali a alguns
segundos, os homens começaram a atirar.
Por algum
tempo prestei atenção aos estalos ininterruptos das armas
energéticas. Vi os feixes de raios serem desviados pelos campos
defensivos individuais dos robôs. Finalmente estes abriram fogo
contra nós. Atiravam com armas de choque relativamente inofensivas,
conforme previra. O cérebro nos queria vivos, e conseguiria.
Bati no
ombro de Rhodan e levantei-me. O paredão protegia-me contra os
disparos dos robôs. Só quem subisse ao mesmo para lutar poderia ser
atingido.
Segurei a
microbomba na mão esquerda e saí caminhando em direção ao campo
defensivo do cérebro.
*
* *
Empurrei a
chave do meu transmissor de capacete para a esquerda e liguei a faixa
de freqüência pela qual me comunicara com o regente logo após o
pouso.
Por
estranho que pudesse parecer, a serenidade da idade avançada
manifestou-sede uma forma que nunca teria esperado. Estava disposto a
desistir. Porém, antes disso, fazia questão de mostrar quem era e
de onde vinha, e provar ser infinitamente superior àquele artefato
construído por homens como eu. Queria fustigar e humilhar uma
máquina, ofendê-la com meu intelecto causticante, muito embora não
houvesse nada que pudesse ser fustigado, humilhado ou ofendido.
Apesar
disso comecei a falar como se me dirigisse a um ser humano. Era uma
loucura, mas apenas tive, numa área recôndita de minha mente
consciente, uma percepção débil dessa situação.
— Regente,
aqui o comandante do couraçado Kon-Velete. Você me conhece pelo
nome de Ighur. Acontece que este nome é falso. Utilizei meu saber
para trazer para Árcon III um grupo de terranos, pois já não
estava disposto a tolerar esse seu regime tirânico.
“Sou
Atlan, príncipe de cristal do Império, membro da família reinante
de Gonozal, sobrinho e sucessor de Sua Alteza, o Imperador Gonozal
VII, Almirante da Frota do Império, chefe da 18a
esquadrilha de combate, comandada por Sakal; vencedor de vinte e sete
batalhas travadas nas proximidades do setor de nebulosas. Subjuguei o
sistema de Iskolart, pertencente a Maahk e situado na área das
manchas escuras.
Ainda sou
membro do Grande Conselho de Árcon, beneficiário do processo de
ativação cerebral em virtude de decisão do Alto Grêmio, inventor
e fabricante de uma arma que decidiu a guerra do metano. Exijo a
submissão e obediência que cabe a uma máquina construída por meus
descendentes.”
Parei. Meu
corpo foi sacudido por uma gargalhada de louco. Inclinei-me para a
frente, apoiei as mãos nos joelhos e refleti sobre os argumentos que
ainda poderia oferecer. Aquilo que restava do meu raciocínio lógico
informou-me de que provavelmente acabara de perder o controle sobre
minha mente.
Prossegui
em tom áspero e com uma fria voz de comando:
— Acabo
de dizer que você, cérebro positrônico, só assumiu o poder porque
eu, o Almirante Atlan, fiquei retido no sistema solar dos terranos em
virtude de uma série de circunstâncias adversas. Recebi um aparelho
que me garantiu a imortalidade. Voltei para exigir obediência.
Suspenda imediatamente todas as hostilidades em curso contra minha
pessoa, abra o campo defensivo para dar-me passagem e entregue-me seu
centro de programação. Declaro-o incapaz para dirigir os destinos
do Império. Ordeno-lhe que cesse imediatamente todos os
procedimentos oficiais, dê instruções aos comandantes das
espaçonaves que operam na frente dos druufs para que se mantenham em
posição de espera e expeça uma proibição de entrada no sistema
de Árcon aplicável a toda e qualquer nave. Será que você
compreendeu, servo de meu povo?
Ao
proferir as últimas palavras, encontrava-me a apenas dois metros da
linha vermelha. Naquele momento, meu espírito se desanuviou e
percebi nitidamente os absurdos que acabara de dizer. Deixara-me
envolver por um entusiasmo insensato, provocado pelas palavras
grandiloqüentes e pelas frases que deveriam soar tolas e ridículas.
Esperei
pelo raio energético que me envolveria. Aproximara-me demais do
campo energético. Senti vergonha dos amigos, que provavelmente
haviam escutado minhas falas idiotas pelos rádios de capacetes.
Sentiriam pena de mim, e isso me doía. Seria capaz de suportar
qualquer coisa, menos a compaixão.
Fui
caminhando devagar, aproximando-me cada vez mais da mortífera
abóbada energética. Quando me vi bem perto da mesma, ouvi um forte
estalo no meu receptor de capacete. Uma voz metálica começou a
falar.
— Dispositivo
de segurança A-l falando, Alteza. Os dados fornecidos foram
conferidos nos arquivos e chegou-se à conclusão de que são exatos.
A medição de suas vibrações cerebrais coincide com os dados
armazenados. Reconheço em Vossa Alteza o príncipe de cristal do
Império e o futuro soberano de Árcon. O computador, que costuma ser
chamado de regente, acaba de ser desligado. Os setores que cuidam da
segurança do Império continuam a funcionar. Os ataques contra seus
subalternos foram suspensos. Tais medidas são adotadas em virtude da
programação de segurança Sêneca, que me obriga a entregar o poder
de comando absoluto a um arcônida de raça pura, desde que este se
apresente com o poderio no olhar e no espírito, e seja capaz como os
antigos, puro como os antigos e animado de um desejo ínfimo de
pugnar pela existência do Grande Império. Essas condições acabam
de ser cumpridas. O serviço do cérebro positrônico está
concluído. Aguardo as instruções de Vossa Alteza.
Avancei
mais alguns metros aos tropeções. A barreira energética abriu-se à
minha frente. Ultrapassei-a, sem compreender o que estava
acontecendo. Não sabia muito bem o que a voz acabara de dizer.
Alteza...?
Não era este o título do Imperador? Será que o dispositivo de
segurança A-l era tão poderoso que podia paralisar o gigantesco
cérebro?
Devia
estar sonhando...
Perplexo,
fitei um veículo que se aproximava. Dois robôs saltaram e ficaram
em posição de sentido. Subitamente o silêncio passou a reinar
atrás de mim. Ninguém estava atirando.
— Vossa
Alteza está esgotado — disse um dos robôs em tom submisso. —
Podemos tocar em seu corpo?
Gaguejei
um sim. Os robôs me colocaram em seus braços de aço, levaram-me
para o planador de campo de repulsão e saíram em carreira
desabalada. Uma abóbada de aço abriu-se. No setor médico de Árcon,
fui recebido por cinco máquinas especiais. Tratava-se de construções
altamente sofisticadas cujos rostos de plástico exibiam um sorriso
devoto. No meu tempo, os robôs sempre foram assim. Nunca os
conhecera de outra forma...
E o
chamado regente também não passava de um robô, apesar do seu
tamanho.
— Esperem
— disse, falando com dificuldade.
As
máquinas recuaram imediatamente. Fiquei sabendo já estar inserido
no cérebro dos robôs. Não podia ser um sonho.
Ouvi
fortes gritos saídos do meu receptor de capacete. Rhodan chamava com
a voz muito nervosa.
— Atlan!
Você me ouve, Atlan? Atlan,
o que aconteceu? O ataque foi suspenso e estou recebendo pelo rádio
um pedido para locomover-me até a área situada atrás do campo
defensivo. A voz diz que você teria dado ordens para isso. Atlan,
qual é o jogo? Trata-se de um truque? Você me ouve? Responda,
Atlan. Atlan...!
Logo
compreendi que não estava louco. Minha mente continuava a funcionar;
os órgãos dos sentidos trabalhavam.
Alguns
robôs especializados se mantinham em atitude respeitosa. Ergui-me
lentamente. Fora colocado numa maça, e saí da mesma com um brusco
movimento.
— Dispositivo
de segurança A-l, desejo que os impulsos emitidos por meu
transmissor de capacete sejam captados, ampliados e irradiados aos
meus amigos.
Aguardei
ansiosamente pela resposta, que foi imediata.
— Ordem
cumprida, Eminência. Amplificador funcionando.
Passei
pelos robôs e falei para dentro do microfone de capacete:
— Atlan
para Perry Rhodan! Não é nenhum truque! Repito: Não é nenhum
truque. Traga os homens para dentro da área e aguarde novas
notícias. Dei ordem para que as hostilidades sejam suspensas
imediatamente. Os robôs se mantêm quietos?
Alguém
respirava forte e apressadamente. Depois de algum tempo ouvi a
resposta.
— Sim!
Será que você enlouqueceu? — perguntou Rhodan. — Prenderam-no e
o obrigaram a...
— Não
fizeram outra coisa senão prestar a obediência devida a um príncipe
de cristal do Império — disse.
Sentia
minha mente tranqüila e equilibrada. Subitamente tudo se tornara
claro.
— Atlan,
você está sonhando! Alguma coisa está errada!
— Está
tudo certo. Apenas nossa operação estava errada, porque não
correspondia à realidade dos fatos. O dispositivo de segurança
existe, conforme supúnhamos. A elite dos cientistas arcônidas nunca
teria deixado de instalá-la. O autômato A-l acaba de entrar em
ação. O regente deixou de existir na forma que conhecemos.
Transformou-se num simples cérebro mecânico, que tem de submeter-se
às minhas ordens tal qual a mais insignificante das máquinas.
Mandarei apagar as programações já superadas e utilizarei as
faculdades, sem dúvida estupendas, do cérebro de acordo com uma
visão atualizada. Daqui por diante, um arcônida comandará tudo.
— Acho
que estou enlouquecendo! — disse uma voz arranhenta.
Só podia
ser Reginald Bell.
— Também
acreditei que estivesse ficando louco — respondi com um sorriso de
alívio. O ativador celular pulsava sobre meu peito. O fluxo de
impulsos estimulantes atingia todas as fibras de meu organismo.
— O que
houve de errado? — perguntou Rhodan.
— Nosso
procedimento estava totalmente errado. Foi tudo em vão, os esforços,
perigos e canseiras. A única coisa que eu deveria ter feito era
descer da nave logo após o pouso e colocar-me à frente do campo
energético. O dispositivo de segurança, que funciona há cinco mil
anos, teria realizado imediatamente um tateamento a distância das
minhas vibrações cerebrais, e chegaria à conclusão de que não
sou um arcônida novo e degenerado, mas um dos homens que fundaram o
Império e construíram o computador-regente. Teria sido tão fácil,
terrano! Até poderia ter vindo ao planeta numa pequena nave, sem ser
molestado, desde que, previamente, tivesse chamado o regente pelo
rádio e lhe tivesse fornecido minha identidade. O dispositivo de
segurança exercia a vigilância de todas as mensagens recebidas, e
forçosamente me teria reconhecido. Não me envolveria no menor
perigo. Perry, dê-se por satisfeito porque sua bomba de Árcon foi
descoberta em tempo.
Houve um
silêncio prolongado. Indaguei junto a A-l se minhas suposições
eram corretas. A resposta veio sob a forma de um vigoroso ‘Sim,
Eminência’.
— Entrem
e aguardem atrás da barreira energética — disse. Voltei a
sentir-me dominado pelo cansaço. — Descansem. Providenciarei
alimento e bebidas. Assim que tiver tomado as providências
necessárias, voltarei a chamar.
— Que
providências necessárias são estas, Atlan?
— Deixe
de desconfianças, bárbaro. Você nunca aprende. Será que pensa que
pretendo matá-lo o mais depressa possível?
Mandei que
a abóbada energética fosse fechada novamente, o que provocou uma
exclamação nervosa.
— Fique
tranqüilo, Perry — disse com um suspiro. — Este cérebro é tão
precioso que não quero deixá-lo desprotegido. Controle-se e procure
dominar o nervosismo. Vencemos, entendeu? Vencemos!
Desliguei
e ordenei a um robô que me levasse à sala de controle do
dispositivo de segurança.
Ao passar
pelas amplas salas cheias de instalações extremamente complexas,
senti-me orgulhoso e feliz. Aquela maravilha, que só estava falhando
em virtude de uma programação já superada, fora construída pelos
homens e mulheres de meu povo. Era-me de direito tomar posse da
mesma.
Para mim,
já não havia nenhum regente, mas para as outras inteligências, ele
deveria continuar a existir. Por enquanto tais inteligências não
deveriam saber que as medidas por ele tomadas já estavam sendo
submetidas a um controle inteligente.
Planos,
planos gigantescos foram amadurecendo em meu cérebro antes que
chegasse ao dispositivo de segurança. Entrei na sala de programação
cujas paredes estavam revestidas de enormes telas.
— Seja
bem-vindo, Alteza.
— disse a mesma voz cheia.
O rosto de
um cientista arcônida surgiu numa das telas.
— Esta é
a gravação em vídeo, realizada segundo o dispositivo de segurança
Sêneca. Quando você me ouvir, provavelmente já estarei morto há
muito tempo. Todavia, a freqüência de minha voz continua à
disposição do mecanismo de segurança A-l. Sou Epetran,
cientista-chefe do Conselho. As ordens transmitidas a A-l determinam
que o poder seja entregue a um arcônida que tenha conservado a
atividade, força física e psíquica, e cujo grau de inteligência
seja ao menos de cinqüenta lerc.
Esperamos que um dia a decadência que está tendo início seja
detida. Se o rebaixamento do nível espiritual ultrapassar o nível
perigoso, o grande cérebro assumirá o comando da história do
Grande Império até que apareça alguém que seja como nós. Não
sei quando isso acontecerá, mas tenho certeza de que um dia surgirá
uma pessoa que seja como os antigos. Quando isso acontecer, A-l
assumirá minha voz e falará em conformidade com sua programação.
É o que está acontecendo neste momento. Mais uma vez, seja
bem-vindo, Alteza!
Meus
antepassados não se haviam esquecido de nada. Na verdade, eram meus
descendentes. Para um imortal torna-se difícil estabelecer essas
distinções sutis...
*
* *
*
*
*
Os
impulsos cerebrais, que identificaram Atlan, o imortal, como um
arcônida não degenerado e dotado de elevadas qualidades
espirituais, fizeram com que um dispositivo de segurança do
invencível computador-regente entrasse em funcionamento e lhe
entregasse o governo do Império de Árcon.
A Perry
Rhodan não restava outra coisa senão esperar que Atlan continuasse
a mostrar-se amigo da Humanidade.
Em As
Cavernas do Sono,
título do próximo volume, as emoções são ainda mais fortes.

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