segunda-feira, 22 de agosto de 2016

P-086 - A Chave do Poder - K. H. Scheer [Parte 3]

Quero fazer uma pergunta! — gritei para Rhodan, apontando para um dos reatores que estava sendo desligado. — Suponhamos que isto seja a usina energética central do cérebro positrônico, e que o computador não possa funcionar sem ela. Como se explica que o regente se dê ao luxo de desligar um reator após o outro e conduzir as sobras de energia para os acumuladores?
Rhodan empalideceu. Olhou para trás com uma expressão de ansiedade. Provavelmente já formulara a mesma pergunta para si mesmo. Os reatores paralisados depunham contra a hipótese de que o computador não poderia dispensar a usina em que nos encontrávamos.
Bell girou sobre os calcanhares e saltou para abrigar-se. Acontece que os três vultos que se aproximavam rapidamente eram apenas o sargento Huster e os dois especialistas que o acompanhavam.
Pararam ofegantes e Huster gritou:
Sir, o campo energético que corre junto à parede está adquirindo uma coloração azul muito intensa. Receio que alguém nos tenha colocado numa tela.
A entrada do túnel era abobadada. Tinha cerca de trinta metros de altura e igual largura. Não víamos o que havia atrás do estranho campo defensivo, já que o túnel descrevia uma curva.
É isso! — disse Tanaka Seiko. Seu rosto estava contorcido e coberto de suor. — Sir, as estranhas vibrações que acabo de captar vêm de lá. É uma coisa horrível. Sinto dores terríveis na cabeça. Sir, quase não agüento mais.
Naquele instante, o infalível setor lógico de minha mente finalmente deu um sinal de sua presença.
Trata-se de um campo energético de categoria superior, uma criação recente, que ainda lhe é desconhecida. Atrás dele começa o setor pertencente ao computador.”
Bell, fique aqui — gritei. — Bell, ninguém conseguirá atravessar isso. Nós nos enganamos. A usina energética que ficou para trás é uma obra de camuflagem. Nossos antepassados não se esqueceram de proporcionar uma proteção real ao regente.
Vamos voltar, senão estaremos irremediavelmente na armadilha. Ouça: os últimos reatores acabam de ser desligados. Depois disso, a usina ficará morta. E então a situação se tornará séria. Não vá, Bell!
Rhodan encontrava-se no meio da entrada do túnel, com os punhos cerrados numa raiva impotente. Compreendera perfeitamente que aquilo que eu acabara de dizer era verdade. O leve campo defensivo, situado atrás da parede dianteira, representava apenas uma manobra diversionista.
O rugido cessou por completo. Um silêncio medonho tomou conta da abóbada de pedra, antes tão barulhenta. As palavras de Rhodan, proferidas em voz alta, doíam no ouvido:
Sargento, ligue o detonador. Regule o mecanismo de tempo para cinco minutos. Tako, leve a bomba para o outro lado do anteparo energético. Coloque-a em qualquer lugar, no pavilhão que fica atrás do mesmo, e volte imediatamente. Vamos; apresse-se!
Lancei um olhar apavorado para aquele homem. Será que ele ainda sabia o que estava fazendo?
Nem por um instante, Huster perdeu sua calma espantosa. Com um giro da chave especial, ajustou o mecanismo de tempo.
Os cinco minutos estão correndo, Sir — disse com uma tranqüilidade férrea.
O teleportador Tako Kakuta não disse uma única palavra. Sabia que não podíamos perder tempo. Alguma coisa tinha de ser feita. Provavelmente a vigilância automática só esperara todos os reatores serem desligados e os dutos de injeção da massa de reação catalítica serem esvaziados. Do contrário, uma eventual batalha no local causaria um terrível incêndio atômico, já que o processo de fusão da massa físsil tinha início a menos de quarenta mil graus centígrados.
Tako comprimiu contra o corpo o objeto oco de cerca de cinqüenta centímetros de comprimento. Seu aspecto não revelava o tremendo potencial destrutivo que encerrava.
Os olhos do mutante fitavam o anteparo energético com uma expressão distante. Tal anteparo era misterioso. Emitia um brilho prateado, entremeado vez por outra por uma luminosidade azulada, e constituía um obstáculo aparentemente intransponível em nosso caminho. Realizei um esforço desesperado, para estimular minha memória, geralmente infalível. De repente senti fortes dores de cabeça.
Era inútil. Nunca vira uma tessitura energética como esta. Provavelmente esse campo defensivo fora criado pelos últimos cientistas de escol que ainda se mantinham mentalmente ágeis, isso há alguns milhares de anos depois do tempo em que passei a ser considerado morto e desaparecido. Não conseguia imaginar de que tipo seria a novidade por eles criada.
De repente, o corpo de Tako desapareceu como se nunca tivesse estado a apenas dois metros do lugar em que me encontrava. Rhodan olhou para o relógio.
O.K.! — disse em tom frio, mas não teve tempo de fornecer esclarecimentos.
Terríveis gritos de dor fizeram-nos estremecer. Olhamos em torno, perplexos, mas não vimos ninguém que pudesse ter emitido esses sons de indizível sofrimento. Mas o autor dos mesmos só poderia ter sido um ser vivo.
Os gritos cresceram em intensidade até transformarem-se num guincho estridente e prolongado. No lugar em que o teleportador se desmaterializara, surgiu uma espiral luminosa tremeluzente.
Essa espiral parecia descrever um rapidíssimo movimento de rotação, e era dela que saíam os gritos.
Tako! — exclamou Rhodan. Esteve a ponto de precipitar-se sobre a confusa figura energética, mas tive tempo de puxá-lo pelos ombros. Cambaleou e foi cair aos meus pés.
Estupefatos, fitamos o incompreensível. Aos poucos, o corpo de Tako foi saindo daquele turbilhão de energia. À medida que seus contornos se definiam, os gritos de dor iam diminuindo.
De repente, o teleportador estava deitado à nossa frente. Seu rosto estreito achava-se contorcido, e seus olhos pareciam retratar um saber misterioso.
Quando começamos a erguê-lo voltou a gritar, embora agora já se esforçasse para não dar mostras muito evidentes de sua angústia. Encostou-se à parede, choramingando e tremendo por todo o corpo. Suas mãos agitavam-se violentamente. Continuava a segurar a perigosa bomba. Nada parecia ter mudado.
De repente Tako calou-se. Os olhos angustiados pareciam a única coisa viva em seu corpo.
O que houve, rapaz? — gritou Rhodan em tom nervoso.
O sargento Huster deu um enorme salto e caiu pesadamente ao chão. Segurou a bomba e, com dois movimentos ligeiros, desligou o mecanismo de tempo. Sua testa estava coberta de suor. Ao que parecia, agira no último instante. Porém não disse uma única palavra.
O teleportador respirava com dificuldade. Depois de algum tempo, disse:
Foi uma coisa horrível. Alguma coisa segurou-me, brincou comigo, fez-me descrever um movimento de rotação e atirou-me para trás. Senti tudo, Sir; não deixei de perceber o menor detalhe. Nunca mais quero passar por esta experiência.
Gemia, contorcia-se no solo e procurava cravar as unhas no revestimento de plástico blindado.
O rosto de Rhodan estava cinzento. Lançou-me um olhar indagador. Queria uma explicação. E eu podia dá-la.
Trata-se de um campo estrutural estável, que provavelmente funciona com base numa inversão hipergravitacional dos pólos. É uma energia que repele o fluxo de impulsos de um corpo desmaterializado da mesma forma como um campo magnético comum repele uma nuvem de gases ionizados. Nunca conseguiremos atravessar isso, Perry! Já compreendo como meus antepassados protegeram o cérebro. Provavelmente este campo energético é uma das últimas criações de meu povo. Não posso dar uma explicação precisa. Não há nenhum meio de atingir o regente.
Tako foi-se acalmando aos poucos. Totalmente exausto, descansava nos braços de Huster. Ras Tschubai fitava o companheiro em silêncio. Ao contemplar o campo energético tão próximo e aparentemente tão inofensivo, uma ligeira expressão de medo surgiu em seus olhos.
Dali a três segundos, o grande pavilhão de reatores começou a retumbar. O silêncio foi interrompido pelos passos pesados de um contingente de robôs.
Marshall já está informado — disse Rhodan. — O comando de recepção está esperando. Ras, leve em primeiro lugar Huster e depois os dois especialistas. Manteremos a posição por aqui. Vamos logo: comece. Pelo amor de Deus, apresse-se como nunca!
Huster levantou-se e saltou sobre as costas do mutante. No mesmo instante, desapareceu.
Bell, Atlan, Okura e Seiko, vamos abrigar-nos atrás dos conversores. Tako, já está em condições de saltar?
O teleportador esgotado respondeu que não. Parecia desanimado. Não formulamos outras perguntas. Quando saímos correndo, Ras Tschubai já estava de volta. Trabalhava com uma rapidez incrível.
Levarei duas pessoas de cada vez — gritou atrás de nós. — Não haverá problema.
Rhodan limitou-se a fazer um gesto. No momento em que me abriguei atrás do pesado pedestal de plástico blindado que sustentava o conversor, os primeiros robôs de guerra apareceram mais ao longe.
Em virtude do estreitamento afunilado do gigantesco pavilhão, nossa posição era mais favorável. Atrás de nós começava o túnel relativamente estreito, e à nossa frente havia apenas dois corredores largos, que se juntavam perto da última fileira de conversores para formar um único.
Esperei até ter uma visão nítida das primeiras máquinas de guerra. O regulador de intensidade de minha arma de impulsos estava na posição três. Vi Rhodan esticar o braço para a frente. Apertamos o gatilho quase ao mesmo tempo.
À medida que os robôs que se aproximavam inexoravelmente explodiam, raios ofuscantes cruzavam o recinto. Aconteceu o que tinha de acontecer.
Depois de algumas salvas, o calor começou a tornar-se insuportável. Um enorme conversor foi-se inclinando lentamente até encostar no aço borbulhante, onde provocou uma chuva de fagulhas. Outros conversores também explodiram. Quando Rhodan começou a abrir fogo contra os acumuladores pendurados sobre os conversores, o caos foi completo.
Meus disparos foram dirigidos para o lugar em que os corredores se cruzavam. Os feixes energéticos bem abertos atingiram o chão e transformaram o metal plastificado num mingau de lava do qual subiam vapores venenosos.
Subitamente houve um silêncio total. Os robôs tinham desaparecido e a parte de trás da estação de conversores estava transformada num montão de destroços. Compreendi que o cérebro positrônico que comandava a ação levaria algum tempo para digerir o fato de uma resistência tão violenta. Daqui a alguns minutos, as máquinas de guerra receberiam novas instruções.
Vi Rhodan através dos vapores corrosivos. Ele estava cutucando o mutante Son Okura com o pé e apontava para trás. Também olhei para lá.
Ras Tschubai já havia voltado. Os peritos em armamentos já haviam desaparecido, e a figura contorcida do infeliz teleportador Kakuta estava pendurada nas costas de Tschubai.
Assim que Okura chegou ao lugar em que estava Ras, agarrou-se a ele. No mesmo instante, os três corpos desapareceram numa ligeira luminosidade. Agora éramos apenas quatro. Ras teria de saltar mais duas vezes para colocar-nos em lugar seguro.
Rhodan fez um sinal para mim. Recusei com um gesto violento e apontei para Bell e Tanaka Seiko.
Demorou alguns segundos até que Ras voltasse. Provavelmente nunca trabalhara tão depressa. Vi que os lábios de Bell se moviam. Certamente não concordava em ser levado antes de nós.
Mais uma vez percebi a luminosidade tremeluzente. À nossa frente, o chão borbulhava. Atingido pelo calor, um conversor cedeu à força da gravidade e caiu.
Os segundos transformaram-se numa eternidade. Nossas armas apontavam ameaçadoramente para a frente. Vi um forte lampejo na bruma que se estendia entre os conversores ainda intactos. Com um forte estrondo atingiu a base de plástico blindado. A energia liberada ergueu-me do solo. Caí pesadamente. Haviam disparado uma arma de choque. Era nossa única chance. Se o robô que comandava a ação quisesse conservar a usina energética, não poderia permitir que seus robôs nos imitassem, disparando armas térmicas.
Olhei para trás. Ainda não havia o menor sinal de Ras Tschubai. Olhei para o relógio e notei que apenas vinte segundos se haviam passado desde sua última aparição. Precisaria pelo menos de trinta segundos. E era duvidoso que agüentasse mais uma viagem. Justamente os teleportadores eram muito sensíveis e psiquicamente vulneráveis. Se Tschubai conseguisse dar conta da última parte de sua tarefa, teríamos de dispensar sua colaboração ao menos por quinze horas.
Rhodan gritou alguma coisa para mim. Não compreendi suas palavras, mas um olhar bastou para fazer-me entender a situação. Um monstro mecânico cercado por um campo defensivo azulado aproximou-se lenta e inexoravelmente através do regato de metal derretido. Atrás dele vinham outros robôs do mesmo tipo. Era o fim.
Fiz três disparos rápidos contra o atacante que vinha na frente. O único resultado foi o aumento do calor, que se tornou insuportável. Meu uniforme ficou chamuscado. Um cheiro repugnante penetrou-me pelo nariz e pela boca. A tosse me sacudiu e meus olhos lacrimejaram.
Voltei a disparar. Subitamente vi Rhodan saltar. Deslizava rente ao chão, a fim de não enfiar a cabeça nos grossos rolos de gases. Segui-o imediatamente. Ras Tschubai aparecera bem no fundo do túnel, junto ao misterioso campo energético colorido.
Quando atingimos o lugar em que se encontrava o teleportador, as primeiras máquinas de guerra, protegidas por campos defensivos, chegaram ao lugar em que estivéramos abrigados e pararam. Rhodan enlaçou o pescoço de Ras Tschubai. Segurei-o por trás.
Notei que o rosto do mutante estava desfigurado pelo cansaço. Ao que parecia, o sucessivo transporte de dois homens de cada vez levara-o aos limites de sua capacidade.
Senti a dor ligeira da desmaterialização e, a seguir, uma maravilhosa lufada de ar fresco. Compreendi que por enquanto estávamos em segurança.
Fungava, jogado ao chão, e tive a impressão de que iria morrer sufocado. Alguém gritou meu nome. Era o Tenente Stepan Potkin, que, com o auxílio do hipno André Noir, acabara de esvaziar a pequena sala anexa de um dos alojamentos, a fim de proporcionar-nos um local de chegada.
Tudo bem, Sir. Estão todos aqui. Como se sente?
Ouvi a voz rouca de Rhodan. Tudo indicava que seu pulmão também se enchera de substâncias venenosas.
Uniformes novos; rápido! Os nossos estão meio tostados. Como estão as coisas por aqui? Já deram o alarma?
Não senhor, parece que ninguém sabe o que aconteceu por lá. Sou de opinião que...
Nunca conheceríamos a opinião de Potkin. Os apitos arcônidas, altos e estridentes, que abafavam todos os outros ruídos, reduziram-no ao silêncio.
A esta altura, mais de quarenta mil zalitas licenciados, que se encontravam no amplo pavilhão residencial, estremeceram. Ergueram as cabeças e fixaram os olhos nos tetos e nas paredes, onde estavam instalados os aparelhos de alarma.
Fitamo-nos em silêncio e Bell disse em voz alta:
Ah, já perceberam que não estamos mais lá. É interessante!
Olhou atentamente em torno. Os apitos continuavam a produzir o ruído que sacudia os homens até a medula dos ossos.
Ergui-me lentamente. A tosse foi diminuindo.
5



Em meio à terrível confusão que se estabeleceu imediatamente após o início do alarma, chegamos sãos e salvos ao bloco C-43-8. Os alto-falantes mandaram que todos os zalitas licenciados saíssem imediatamente das amplas ruas, lojas e locais e se apresentassem à portaria robotizada dos seus alojamentos. O prazo concedido aos quarenta mil habitantes de Voga IV foi de quinze minutos.
Naturalmente toda essa gente não teve possibilidade de regressar aos seus alojamentos num prazo tão reduzido. Rhodan e eu entramos no edifício poucos segundos antes do término do prazo. Graças às nossas plaquetas de licença conseguimos entrar sem dificuldades. Notamos, porém, que houve algo lamentável...
Quando os robôs começaram a disparar, ainda estava com o pé do lado de fora da pesada porta. Ainda agora sinto o rugido das pesadas armas energéticas, cujo furacão atômico matou mais de cem zalitas. Se não tivéssemos conseguido entrar no último instante, nosso destino teria sido semelhante ao destes homens.
O regente não tinha a menor contemplação. Qualquer pessoa, que, depois de findo o prazo concedido, ainda se encontrasse nas ruas, era morta a tiros.
Já vira muitos massacres cruéis durante minha longa vida, mas o que estava presenciando agora era o mais chocante de todos. Um autômato construído por meus veneráveis antepassados acabara de executar um assassinato em massa. Em última análise me cabia uma responsabilidade indireta por esse massacre.
Quando tirei apressadamente o uniforme de tripulante e voltei a colocar as vestes de comandante, que estavam sendo usadas por meu sósia, tive a impressão de estar reduzido a uma insensibilidade total.
Rhodan e Bell também, estavam trocando seus uniformes. Nossos “representantes” desapareceram e voltamos a ocupar nossos lugares.
Os membros do grupo de recepção de Potkin ofereceram seu relato. As notícias inquietantes circularam aos cochichos. Tako Kakuta, que continuava tão debilitado que não conseguia manter-se de pé, acabara de receber as primeiras injeções aplicadas pelo pessoal da equipe médica. Não estava passando bem.
Saí de meu quarto individual e dirigi-me ao alojamento dos oficiais. O vozerio exaltado, que enchia todo o bloco, fez com que pudéssemos arriscar uma ligeira conferência sobre a situação.
O sargento Huster, com o rosto obstinado, desmontava sua bomba ultratérmica. Nossos homens formavam em torno dele um círculo no qual se travavam discussões animadas. Dessa forma, Huster estava muito bem abrigado, enquanto se mantinha sentado no chão e decompunha a perigosa arma em suas peças.
Lancei um olhar ligeiro para a sala 18-B, onde o restante dos nossos cento e cinqüenta homens se comprimiam em obediência às ordens que haviam recebido.
Dos cinqüenta zalitas genuínos da minha tripulação só dezoito haviam regressado. Segundo as declarações dos sobreviventes, o Tenente Kecc, operador dos aparelhos de observação, encontrava-se entre os mortos.
Mandei que os trêmulos zalitas se recolhessem ao seu alojamento e ordenei-lhes que mantivessem um silêncio absoluto. Dali a alguns minutos, encontrei-me com os oficiais do estado-maior de Rhodan.
Perry Rhodan mantinha-se de pé junto à feia parede de plástico do alojamento dos oficiais. Recebeu-me com um ligeiro cumprimento. Bell lançou-me um olhar de total resignação e John Marshall fazia esforços desesperados para captar impulsos mentais.
Não se incomode, John — disse Rhodan com uma voz que soou estranhamente aos presentes. — Por aqui só existem robôs, e estes não pensam. Os poucos arcônidas que se encontram no outro pavilhão residencial não sabem de nada. A ordem de assassinar foi ministrada diretamente pelo regente.
Marshall desistiu. Um homem anunciou que a desmontagem da bomba fora concluída. Rhodan agradeceu com um gesto distraído. Quando passou os olhos por nós, parecia muito tranqüilo.
Sabem o que significa isso? Desaparecemos misteriosamente da usina de força. Acontece que o regente já calculou que só podemos ter vindo destes alojamentos de soldados. Por isso mandou evacuar as ruas, a fim de iniciar o quanto antes um exame que será bastante embaraçoso para nós. A ordem de disparar resultou de uma espécie de curto-circuito do mecanismo positrônico, que certamente foi causado pelo setor de autoconservação do computador. Já sabe que por aqui existem armas perigosas e procurará localizá-las.
Teremos de livrar-nos dessas armas — disse Marshall em tom exaltado. — Basta que Ras Tschubai dê alguns saltos para colocá-las num lugar escondido. Depois disso, o regente poderá procurar adivinhar a quem pertenciam.
A idéia era perfeitamente lógica, mas tinha um ponto fraco...
Sabia perfeitamente qual seria a reação do espírito lúcido de Rhodan.
Você está enganado, John! O regente não esquece nada. Levará apenas alguns segundos para lembrar-se da atuação de nossos mutantes, realizada há cerca de setenta anos, e tirará suas conclusões. A esta hora já deve dispor de provas irrefutáveis de que as pessoas que penetraram na usina não podem ter chegado pelos meios naturais. Dispõe de uma série de dados sobre as operações já realizadas por nossos agentes em todos os pontos do Império. Já sabe que está lidando com terranos. Todas as pessoas que se encontram neste setor da cidade serão submetidas a um exame minucioso. Esconder as armas não adiantará nada.
É uma teoria um tanto arriscada — ponderou Bell.
Não é arriscada coisa alguma. Conheço essa máquina. Ela extrairá exatamente as conclusões que acabo de apontar. Atlan, qual é sua opinião?
É isso mesmo. Ainda que o regente não se lembre do planeta Terra, não deixará de ordenar o exame. E infelizmente não existe nenhum meio de modificarmos a freqüência de nossas vibrações cerebrais humanas ou arcônidas. Se puserem os olhos em nós, estaremos perdidos. As máscaras serão inúteis.
Num gesto nervoso, Rhodan passou a mão pelos cabelos longos. Seu sorriso parecia um tanto forçado.
Quer dizer que será preferível ficarmos com as armas. Quando formos agarrados, não quero estar desarmado. Alguém vê uma possibilidade de forçarmos passagem para cima?
Potkin deu uma risadinha e sacudiu a cabeça.
Não existe a menor possibilidade — afirmei, procurando dar um tom tranqüilo à minha voz. — Neste setor só existe uma entrada, que já conhecemos. Não há nenhuma possibilidade de chegarmos aos estaleiros. Mesmo que conseguíssemos chegar lá, qualquer tentativa de escapar seria inútil. As naves são levadas para baixo por meio de gigantescos poços antigravitacionais. E nunca conseguiríamos subir.
Rhodan sentou sobre a cama pneumática. Sabia que o jogo estava perdido. Se o atentado tão cuidadosamente planejado tivesse sido bem sucedido, as coisas seriam muito diferentes. Sem dúvida, em meio ao caos teríamos encontrado uma possibilidade de chegar à superfície, pois o regente já não existiria.
Acontece que agora o computador revidava os golpes com o máximo de rigor. Nem tudo estava perdido, pois ainda nos restava uma saída perfeitamente viável. Hesitei em comunicá-la aos outros.
Não devemos iludir-nos: fatalmente seremos descobertos. E uma resistência armada até o último homem seria tola e inútil. Se nos apresentarmos imediatamente, seremos prisioneiros do regente. É provável que ele nos solte sem criar maiores problemas, já que não pode dispensar o auxílio da Terra. É apenas uma idéia.
Os olhos de Rhodan brilharam sob o efeito da luz que incidia obliquamente.
Você acha, arcônida? Será que você realmente acredita nisso? O regente nos receberá e a seguir nos submeterá a um interrogatório extremamente penoso. Descobrirá a posição galáctica da Terra e atacará imediatamente. Há anos não está querendo outra coisa.
Bell fitou-me com os olhos semicerrados. Sua atitude intranqüilizou-me. Senti a cólera apossar-se de minha mente. Alem da situação desesperadora, ainda tinha de enfrentar a desconfiança dos terranos.
Pois façam o que quiserem, seus heróis de meia-tigela — disse em tom revoltado. — Se quiserem, morram com bandeiras esvoaçantes e gritos de entusiasmo. Vocês são uns idiotas que nunca aprendem. Sabem atirar e enfrentar uma morte insensata, mas não entendem da verdadeira política. Talvez haja um meio de enganar o cérebro.
Não!
A palavra encheu o pequeno recinto como se tivesse sido transformada num objeto sólido.
Rhodan acabara de tomar uma decisão. Lancei-lhe um olhar furioso e cerrei os punhos. Ninguém dizia uma palavra. Em compensação os olhos frios dos homens pareciam cortar-me em pedaços.
Banquei o irônico e virei-me. Seguiu-se o chamado áspero que já esperava. Esses bárbaros que estavam subindo depressa demais nunca mudariam.
Aonde vai, arcônida?
Virei a cabeça. O corpo retesado de Rhodan convenceu-me de que o bárbaro já não confiava em mim.
Vou à cantina — respondi em tom irônico. — Para que tanto nervosismo, imortal? Não está com fome?
Bell sorriu e o corpo de Rhodan descontraiu-se.
Você é um sujeito muito frio, não é? — perguntou em tom pensativo.
Só de fora. Receio que, num futuro próximo, meu lindo ativador celular se tornará inútil. A morte acidental constitui um fenômeno exterior, não resultante de qualquer tipo de condicionamento orgânico, motivo por que dificilmente existirá um meio de evitá-la. Se considerarmos que o impacto de uma arma de radiações é um acidente, havemos de compreender o que nos espera. Convém refletir mais um pouco sobre a hipótese da capitulação. Conheço o cérebro e sei que não demorará a tomar suas providências. No momento, todos os zalitas estão presos nos alojamentos. Com isso foi eliminada uma atividade que começava a tornar-se perigosa para o regente. É o primeiro lance de uma série de medidas que se revestem de lógica patente. As medidas posteriores serão muito mais desagradáveis.
A título de cumprimento pus a mão no capacete. Antes que chegasse à porta, os grandes alto-falantes começaram a berrar do lado de fora. Desta vez era o regente “em pessoa”.
Parei para ouvir melhor. Rhodan colocou-se apressadamente a meu lado e abriu a porta com o pé. O anúncio foi feito com um volume tão forte que ninguém poderia deixar de entender as palavras.
Regente a todos os comandantes zalitas — disse a voz que encheu os pavilhões e corredores. — Coloquem suas tripulações em ordem de marcha. Chamaremos nave por nave e providenciaremos o transporte para a superfície. A partir deste momento todas as licenças estão suspensas. Ninguém pode sair dos edifícios dos alojamentos. As tripulações serão escoltadas por robôs de guerra. Não se admite qualquer pergunta dirigida a mim.
Fitamo-nos com uma expressão de perplexidade. Qual seria a finalidade disso? Será que as instruções que acabavam de ser ministradas também constituíam resultado da lógica mecânica? Se fosse assim, o que pretendia o computador com o transporte? Por que não realizava aqui embaixo os exames individuais que sem dúvida se seguiriam?
Foi meu segundo cérebro quem deu a resposta.
Assim que a mesma chegou ao meu nível de consciência, fiz alguma coisa de que poucos segundos depois me arrependi amargamente. Dirigi-me a Rhodan e expliquei apressadamente o que acabara de apurar:
O computador está tirando suas conclusões. Não quer assumir o risco de mandar examinar os homens na cidade, pois certamente descobriu que, ao penetrarmos na usina, tínhamos uma arma de elevado potencial destrutivo. Do contrário, tudo isso não faria o menor sentido, pois com os radiadores portáteis não poderíamos prejudicar seriamente o regente, mesmo que conseguíssemos penetrar em suas entranhas mecânicas.
É uma explicação plausível. Prossiga! — interrompeu Rhodan.
Em virtude do que acaba de ser dito, está empenhado em afastar todo mundo o mais depressa possível do lugar em que uma pessoa que disponha de meios adequados poderá causar um prejuízo muito maior que na superfície. Por isso aqui embaixo nenhum exame será realizado. Tal exame consumiria tempo, e o computador não está interessado em dar tempo a ninguém. No espaçoporto, o ambiente deverá esquentar.
A expressão do rosto de Rhodan me fez calar. Uma máscara não poderia ser mais rígida e indiferente. Levou apenas três segundos para tomar sua decisão. E quando a anunciou, foi minha vez de empalidecer.
Sargento Huster!
O perito em armamentos estava parado no corredor. Dirigia o chamado comando explosivo. Apareceu imediatamente e ficou em posição de sentido à frente de Rhodan.
Perry...! — ponderei em tom exaltado. Alguma coisa parecia comprimir minha garganta. — Perry!
Rhodan não me deu a menor atenção. Começou a falar com a voz monótona.
Mr. Huster, ordeno-lhe no interesse da Humanidade que monte o mais depressa possível as peças da bomba arcônida, ponha seu mecanismo em condições de funcionamento e coloque o detonador de tempo. Avise assim que esta ordem tenha sido cumprida.
Huster fez continência. Desapareceu antes que tivesse tempo de dizer qualquer coisa. Os cento e cinqüenta homens de nosso comando aglomeraram-se discretamente. A bomba de Árcon, que constituía a arma mais perigosa de meu povo, representava a solução de emergência a que Rhodan resolvera recorrer.
Corri para o corredor e lancei um olhar ligeiro para a sala 18-B. Huster já desaparecera em meio aos homens aglomerados. Provavelmente as peças trazidas apressadamente à luz do dia já estavam chegando às suas mãos.
Quando voltei ao pequeno alojamento dos oficiais, o regente começava a transmitir as primeiras instruções para o transporte dos homens. Os comandantes de dez naves receberam ordens de retirar suas tripulações dos blocos residenciais e conduzi-las em forma para os lugares indicados pelos robôs.
Compreendi que o regente estava agindo muito depressa. A qualquer momento poderia chegar nossa vez. Ninguém sabia qual seria a próxima tripulação que receberia ordem para pôr-se em marcha. Apenas me restava esperar que o regente não desse ao tal do sargento Huster o tempo necessário para concluir a montagem da bomba arcônida.
Quase louco, entrei precipitadamente no alojamento, mas nunca desconfiaria do que me esperava por lá. Provavelmente a idéia logo me teria acudido, se não estivesse tão nervoso. Afinal, conhecia os homens há dez mil anos.
O cano da arma de radiações de Rhodan estava dirigida sobre meu peito. Mais três armas ameaçavam-me. Parei e lancei um olhar de perplexidade para a fluorescência vermelha que saía dos canos.
Finalmente levantei a cabeça.
Sinto muito — disse Rhodan em tom triste. — Acreditamos que a ordem que acabo de dar talvez possa levá-lo a fazer alguma bobagem. Até que recebamos ordem para pôr-nos em marcha, ficaremos de olho em você. Alguma objeção?
Senti-me chocado pela ironia gelada dessas palavras. Abafei a raiva insensata e esforcei-me ao máximo para manter a calma.i
Nada de truques — disse Bell em tom amável. — Acho que já nos conhecemos.
Soltei uma risada amarga. Realmente nos conhecíamos.
Quer dizer que você pretende destruir o planeta da guerra? Já se deu conta de que isso trará uma revolta na Via Láctea? Se as fábricas de naves de Árcon forem destruídas, o Império será um...
Sei disso.
Mais de cinqüenta mil mundos coloniais perceberão imediatamente que o império cósmico deixou de existir. Será o caos. Além disso, temos o perigo representado pelos druufs. Será que terei de apresentar mais argumentos, seu arrivista louco?
Sinto muito. Dentro de alguns meses, o perigo dos druufs desaparecerá por si, em virtude da instabilidade progressiva da frente de superposição. Quanto às revoltas nos setores coloniais do Império Arcônida, acho que conseguiremos vencê-las.
Para o bem da Terra! — respondi em tom de escárnio.
Para o bem da Terra, arcônida. Dou-lhe uma chance de construirmos juntos um novo império. De qualquer maneira você se encontra numa posição perdida. Será que já se esqueceu de como são os membros de seu povo? Com eles, você nem sequer conseguiria abafar uma revolta interna. Você há de reconhecer que, na situação atual, a destruição deste gigantesco mundo da guerra é a única saída. Nem mesmo o regente resistirá ao incêndio atômico que começará lavrar depois de detonada a bomba. Seus supercampos protetores desmoronarão e o planeta entrará em ebulição. Antes disso, teremos oportunidade de decolar numa nave. Nenhum ser humano morrerá. O incêndio provocado pela bomba leva algumas horas para disseminar-se pelo planeta. Face a isso, todos terão oportunidade de escapar para o espaço livre. Quem terá de ficar para trás será apenas o regente firmemente ancorado na rocha. Com isso teríamos atingido nosso objetivo.
Você destruirá o Império — disse em tom insistente. — Você destruirá tudo que criamos e construímos num trabalho de vinte mil anos. Não permitirei que isso aconteça. Não sabe que existem inúmeros povos que só aguardam este momento? Eles cairão sobre nós que nem uma matilha de lobos. As raças não-humanóides terão tempo e oportunidade para fazer prevalecer sua influência.
É um risco que teremos de aceitar. Você não vai impedir coisa alguma, Atlan.
Dei uma risada sarcástica bem no rosto de Rhodan, que recuou um tanto embaraçado. Interrompeu-me com um sinal e disse com a voz muito tranqüila:
Atlan, também haveremos de vencer esta barreira que se interpõe no caminho da nossa amizade. Fique tranqüilo e procure raciocinar logicamente sobre os fatos. O regente tem de ser posto fora de ação.
Mas não nestas condições — gritei fora de mim.
Totalmente exausto, sentei numa cama pneumática.
Muito bem, arcônida!
Lancei um olhar prolongado para Rhodan, que sentiu o ódio que subitamente começava a tomar conta de mim. Cochichei com os lábios ressequidos:
Quando lutamos no museu de Vênus, eu deveria ter enterrado a espada em seu pescoço, seu idiota! Se Árcon III for destruído, nos outros dois planetas do sistema surgirão terríveis inundações e tremores de terra. Afinal, você não entende nada do sistema bem elaborado de estabilização recíproca das forças.
Lancei-lhe um olhar de súplica. Será que Rhodan não queria compreender?
Terminaremos dentro de trinta minutos — disse um homem que olhou ligeiramente para dentro do alojamento.
Comecei a desesperar no meu íntimo. Por que não aparecia nenhum robô de vigilância? Em outras oportunidades os mesmos costumavam aparecer a toda hora. Bell bloqueava a porta. Sabia que atiraria se eu tentasse a fuga.
6



Mais rápido, mais rápido — ordenou o robô de guerra de três metros de altura, forçando ao máximo seus órgãos vocais biomecânicos.
Há dez minutos não fazíamos outra coisa senão correr. Fomos obrigados a movimentar as pernas até mesmo sobre a rápida fita larga de transporte, muito embora esse meio de transporte de massa corresse à velocidade de quarenta quilômetros por hora sobre os cilindros invisíveis.
Agora estávamos correndo em direção à entrada reluzente de um elevador antigravitacional. Já esperava que não seríamos levados para cima pelo caminho já conhecido, mas nunca pensaria que o regente mandasse conduzir-nos pelos grandes elevadores do estaleiro espacial que ficava próximo aos alojamentos.
De qualquer maneira, o computador teve o cuidado de mandar bloquear os largos corredores, que se estendiam entre as estradas rolantes automáticas, por meio de suas máquinas de guerra. Corremos entre duas fileiras de armas erguidas em atitude ameaçadora, que de repente poderiam despejar sobre nós suas descargas mortíferas.
Fui o quinto a saltar para dentro do campo antigravitacional do elevador. Os terranos, dispostos a qualquer coisa, precipitaram-se atrás de mim. Vi Rhodan lançar um olhar ligeiro para o relógio. Depois, muito preocupado fitou Huster. Porém o sargento apenas acenou-lhe nervosamente com as mãos.
Compreendi que o momento em que a bomba deveria ter detonado automaticamente já passara.
Segurei-me na parede e fiz um esforço para não ser arrastado pois havia ausência de gravidade. Os homens de nosso grupo ainda não estavam todos reunidos. Recebêramos ordens para só subirmos juntos.
O que houve, Huster? — perguntou Rhodan para o homem gigantesco.
Em seu rosto havia uma expressão tensa.
Já deveria ter estourado, Sir — disse o especialista em armamentos. Alguém soltava pragas terríveis. Não consegui apurar do que se tratava.
Atrás de nós, algumas máquinas de guerra penetravam no poço de mais de duzentos metros de diâmetro. Fomos impulsionados por meio de um jato de ar comprimido, que nos arrastou violentamente para cima. O enorme poço subia verticalmente em meio à rocha.
Apoiei-me nos ombros largos de um soldado e flutuei para junto de Rhodan. Sua arma já havia desaparecido. Fitou-me com uma expressão que já não era fria, mas desesperada. Segurei seus ombros, e, em virtude disso, começamos a girar.
Onde mandou o teleportador colocar a bomba? — perguntei apressadamente. — Fale logo. Onde?
Ele a colocou junto à parede que separa a usina energética. Bem embaixo da curva da grande tubulação.
Quer dizer que foi colocada justamente no lugar em que o equipamento de vigilância é mais forte. Vocês são uns idiotas! Por que não a deixaram simplesmente no alojamento? Uma bomba arcônida é detonada mediante um elevado dispêndio de energia. É claro que foi localizada e desativada assim que o mecanismo-relógio começou a funcionar.
Isso é impossível; dispunha de um dispositivo de segurança contra a localização — respondeu Rhodan em tom assustado.
Você acha mesmo que conhece todos os recursos do grande cérebro? No momento em que o processo de estímulo energético foi iniciado no campo de reflexão da bomba, esta se transformou numa esfera radiante de energia. Com isso superou imediatamente as influências do ambiente, tornando fácil a localização. Já deve ter sido desativada por um comando de robôs.
Não; não é possível...
Aposto qualquer coisa. O que me diz? Como foi que não aconteceu nada que indique a ocorrência da detonação final? Perry, pense um pouco. Estamos sendo esperados lá em cima.
Os acontecimentos seguintes foram tão rápidos que mal conseguimos acompanhá-los. Subimos com uma velocidade considerável. De repente, a porta blindada que fechava o poço abriu-se e sentimo-nos ofuscados pela luz do sol.
O campo energético da chegada deteve a queda. Recuperamos nosso peso. Acima de nós estendia-se uma gigantesca abóbada de aço de Árcon. Só vimos cinco dos tripulantes levados para lá antes de nós. Estavam prestes a atravessar, em forma, uma barreira de alta-tensão, atrás da qual se encontrava um rastreador energético montado sobre rodas.
Seria impossível continuarmos com as nossas armas, que funcionavam em base energética. Provavelmente, quando nos aproximássemos a trinta ou quarenta metros, o aparelho extremamente sensível começaria a reagir. Era exatamente o que eu imaginara.
Rhodan disse alguma coisa que não entendi muito bem. Os membros do comando, que haviam chegado juntamente com ele, formaram o círculo e Rhodan pôs a mão no bolso.
Sem dar a menor atenção ao perigo que poderia resultar, trouxera a microbomba nuclear. Tinha formato achatado e era como um estojo de jóias, mas a energia por ela produzida chegava a quinhentas toneladas de TNT. Com um simples movimento de mão, Huster colocou o pequeno mecanismo de propulsão de combustível sólido, que tinha a forma de um bastão, e moveu a pequena alavanca de alumínio que o prendia. Com isso, o corpo achatado transformou-se num microfoguete de vôo estável.
Rhodan inclinou-se sobre a abertura, mandou que dois homens o segurassem pelos pés e estendeu a mão direita para baixo. O chiado agudo do combustível químico foi superado pela confusão de nossas vozes. Percebi apenas o raio ofuscante de gases incandescentes, que passou junto ao rosto de Rhodan. Quando este se ergueu repentinamente e saltou para trás, o estranho projétil já descia pelo grande poço do elevador antigravitacional. Assim que a microbomba atingisse o solo, a uns mil e oitocentos metros de profundidade, haveria uma explosão devastadora.
Os poucos robôs de guerra que nos acompanhavam ainda se encontravam no interior do poço. Estavam esperando que chegássemos em cima. Os cento e cinqüenta homens de nosso comando correram desesperadamente. Em carreira desabalada deslocaram-se ao ponto mais afastado da abóbada, atiraram-se ao solo e arrancaram as armas dos bolsos do uniforme.
Segui-os, também me atirei ao solo e, no mesmo instante, senti-me envolvido pela tormenta atômica.
A bomba já devia ter tocado o chão bem antes, mas provavelmente possuía um detonador de retardamento. Naquele instante, os homens de Rhodan abriram fogo contra os robôs que iam chegando e derrubaram-nos tão depressa que as máquinas não tiveram tempo de esboçar qualquer tipo de defesa.
O próximo alvo a explodir foi a barreira de alta-tensão com o instrumento de observação montado sobre rodas. Os robôs, que se encontravam ao lado da tal barreira, perderam o equilíbrio em virtude da onda de compressão. Antes que conseguissem recuperá-lo, estavam transformados num montão de destroços incandescentes.
De repente não parecia haver mais nada que nos ameaçasse. A entrada estava aberta à nossa frente. Vi alguns zalitas que fugiam apavorados. Haviam chegado antes de nós.
Fiquem deitados — gritou Rhodan. — Daqui a pouco vai explodir.
Imaginava perfeitamente o estrago da explosão. Segurei-me firmemente a uma das travessas, que apoiavam a abóbada, e comprimi o rosto contra o solo. O chão estremeceu sob o efeito de uma terrível detonação.
Do grande poço do elevador saiu uma coluna de fogo surpreendentemente fraca. Em compensação, o abalo foi tão forte que me senti arrancado da travessa em que me segurava. Fui atirado sobre o material liso do piso.
A onda de compressão saiu do poço do elevador com um enorme rugido e arrancou a abóbada. Uma chuva de peças fumegantes foram lançadas das profundezas.
O terrível trovejar parecia não terminar nunca. Mais uma onda de compressão atingiu-nos e outra coluna de fogo, mais forte, saiu do poço do elevador, que se transformou na boca de um gigantesco canhão.
Rhodan parecia ter contado com isso.
A borda do poço de elevador desmoronou. Os últimos destroços foram atirados das profundezas trovejantes. A abóbada, que cobria a saída do poço, estava transformada num montão de destroços. Grandes aberturas surgiram nas paredes. Rhodan foi o primeiro a pôr-se de pé. Saltou para uma das fendas e olhou para fora. Já estávamos jogando com as cartas abertas.
Vejo naves, muitas naves — gritou em tom exaltado. — Procuraremos atingir a mais próximas delas. Aconteça o que acontecer, não poderemos permitir que nos peguem.
Sabíamos que, apesar do êxito momentâneo, não tínhamos a menor chance. Mesmo que conseguíssemos decolar com uma das naves, seríamos atingidos assim que esta se erguesse do solo. Era inútil, mas de qualquer maneira corremos.
Saltei para a forte luminosidade do sol de Árcon e tive a impressão de que meu sangue iria gelar nas veias. A menos de um quilômetro do lugar em que me encontrava, a gigantesca abóbada energética do computador-regente erguia-se para o céu límpido. A comporta por nós destruída ficava muito perto do campo defensivo.
Os cento e cinqüenta homens tresloucados correram como nunca haviam corrido. Os zalitas genuínos ficaram para trás, totalmente perturbados. Não estavam compreendendo mais nada. Segui Rhodan, pois não tinha outra alternativa. Quando nos encontrávamos a uns cem metros da nave cobiçada, que era um cruzador ligeiro da frota arcônida, seus mecanismos propulsores entraram em atividade. Ergueu-se com um forte rugido, deixando atrás de si uma cauda escaldante.
De repente, as pernas de Rhodan pareciam ceder. Dobraram-se lentamente e, depois de algum tempo, o terrano caiu ao chão, onde ficou deitado, completamente imobilizado. Seus olhos apáticos fitaram o cruzador que se afastava vertiginosamente. As outras unidades também foram decolando. O rugido surdo dos mecanismos propulsores parecia um canto da morte.
Rhodan continuava deitado no mesmo lugar. Sua boca estava muito aberta. Respirava pesadamente. A muralha reluzente da abóbada energética ficava a menos de quinhentos metros. À medida que as naves decolavam, o campo de visão se ampliava, até que nos víssemos sós diante da barreira que cobria toda a linha do horizonte.
Os outros membros do comando também cessaram a corrida vertiginosa. Fungavam e olhavam em torno. Finalmente viram o que eu já havia descoberto.
Bem ao longe, a cerca de três quilômetros de distância, numerosos vultos escuros saíam da porta blindada, que poucas horas antes usáramos para entrar na cidade subterrânea. Visto de longe, o panorama se parecia com um formigueiro que estivesse expelindo em rápida seqüência seus habitantes enfurecidos.
Depois de algum tempo, a corrente compacta subdividiu-se. Logo compreendemos que os robôs estavam formando linhas de tiro.
Um silêncio deprimente reinava em torno de nós. O rugido dos propulsores chegara ao fim. O enorme espaçoporto parecia deserto. Ainda não ouvíamos os passos pesados dos robôs. Quando ouvíssemos, seria tarde.
Bell procurou orientar-se. Apontou para uma muralha de plástico blindado.
Aquilo nos servirá de refúgio. Vamos abrigar-nos.
Aproximou-se de Rhodan, segurou-o embaixo dos braços e ergueu-o violentamente.
Por que diabo as naves robotizadas não atiraram? Por quê? Bastaria uma salva para liquidar-nos.
Eles nos querem vivos, meu caro — respondi. — É bom acostumar-se à idéia. Provavelmente os robôs de guerra usarão apenas armas de choque.
Lançou-me um olhar desesperado. Finalmente um sorriso martirizado apareceu em seu rosto.
O.K. Deixe que venham. Ainda vê uma possibilidade de fugirmos?
Devíamos capitular. Por que sacrificar os homens?
O corpo de Rhodan entesou-se.
Ninguém revelará a posição galáctica da Terra.
Sabia perfeitamente que se tratava de um argumento válido.
Para isso você teria de matar seus soldados e no fim a si mesmo. Uma vez que os robôs usarão exclusivamente armas de choque, não teremos outra alternativa. Se não fizer o que estou dizendo, acabaremos caindo mais cedo nas mãos do regente.
Rhodan fez como se não tivesse ouvido as últimas palavras por mim proferidas. Provavelmente recuava diante da conclusão que se impunha. Esperava que as máquinas de guerra acabassem atirando com armas mortíferas.
Corremos mais uns cento e cinqüenta metros, saltamos por cima da muralha de plástico blindado pintada de vermelho, que tinha quase dois metros de altura, e abrigamo-nos.
A uns cinqüenta metros atrás de nós, começava a área de perigo propriamente dita. Não seria recomendável aproximar-se a menos de trezentos metros do campo energético, no qual sem dúvida reinava uma tensão elevada.
Ficamos deitados por algum tempo, até que Ras Tschubai se aproximasse do lugar em que nos encontrávamos. Fez continência para Rhodan e anunciou em tom singelo:
Sir, tentarei atravessar o campo energético com algumas bombas manuais. Talvez consiga.
Rhodan fitou-o em silêncio. Ainda sem dizer uma palavra, entregou ao teleportador cinco dos artefatos explosivos.
Esperamos que Ras se concentrasse. Quando saltou, houve o fenômeno luminoso que já conhecíamos. Logo após o salto voltamos a ouvir os terríveis gritos que já ouvíramos poucas horas antes.
Demorou bastante até que a espiral energética se desmanchasse, liberando o corpo de Tschubai que se materializava lentamente. Quando nossos médicos lhe aplicaram as primeiras injeções de analgésico ainda estava gritando.
Um campo energético em forma de favo — disse John Marshall em tom indiferente. — Será que esse campo é constante, ou só é ativado quando o cérebro se vê diante de uma ameaça mais grave?
Rhodan não respondeu. Fitei-o de lado e assustei-me, quando ouvi as ordens por ele emitidas.
As microbombas foram saindo dos bolsos chatos do uniforme. Os suportes com pequenos trilhos de lançamento e os propulsores de combustível sólido com as aletas estabilizadoras foram colocados. Cada um de nós possuía uma bomba desse tipo, com exceção daqueles que tiveram de utilizar o lugar disponível em seus uniformes para transportar outras peças.
Bell e Rhodan fizeram pontaria, regularam os parafusos dióptricos de aspecto primitivo para a distância adequada e puxaram o gatilho.
Com um chiado, os pequenos projéteis saíram numa parábola ampla. Atingiram o solo bem à frente das linhas de robôs e explodiram numa ofuscante reação nuclear.
O processo de fusão era livre de radiações, motivo por que só teríamos de recear as energias térmicas liberadas na explosão e as ondas de compressão. O furacão escaldante uivou acima das nossas cabeças e os cogumelos atômicos escuros subiram acima do campo de pouso. Os destroços foram chovendo e finalmente o silêncio voltou a reinar.
Levantamo-nos do paredão, que proporcionava uma proteção ideal, e olhamos para a frente. Duas crateras chatas e liquefeitas abriam-se no revestimento de plástico. Provavelmente numerosas máquinas de guerra haviam sido derretidas. Porém, de ambos os lados da cratera aberta pela explosão, os outros robôs continuavam a marchar com uma tranqüilidade mecânica. A perspectiva da destruição não os atemorizava.
Naquela altura, já não podíamos usar as armas pesadas. O alvo estava próximo demais.
Bell escondeu o rosto nos braços entrecruzados. Dava a impressão de estar dormindo. Os ombros trêmulos eram o único sinal de que esse homem também tinha sentimentos. Voltei-me para Rhodan. A fim de prosseguir na resistência insensata, Perry estava tirando sua arma de impulsos térmicos.
Você seria capaz de assassinar seus homens para evitar que eles revelem a posição da Terra?
Assassinar? — repetiu Rhodan em tom de perplexidade. — Nunca usei essa palavra. Nós nos defenderemos. Haja o que houver. Todos possuímos um bloqueio hipnótico que entrará em ação na hipótese de um interrogatório psíquico. Você saberá proteger-se. Se o regente recorrer à tortura física naturalmente passaremos momentos bem desagradáveis.
Se é assim, por que tem receio de que alguma declaração possa prejudicar a Terra?
Rhodan deixou cair a cabeça e respondeu em voz baixa:
Não confio muito nos bloqueios hipnóticos. Se o regente recorrer aos médicos galácticos...
Compreendi perfeitamente. Os sentimentos de Rhodan arrastavam sua mente de um lado para outro. Sabia que o jogo estava perdido. Dali a alguns segundos, os homens começaram a atirar.
Por algum tempo prestei atenção aos estalos ininterruptos das armas energéticas. Vi os feixes de raios serem desviados pelos campos defensivos individuais dos robôs. Finalmente estes abriram fogo contra nós. Atiravam com armas de choque relativamente inofensivas, conforme previra. O cérebro nos queria vivos, e conseguiria.
Bati no ombro de Rhodan e levantei-me. O paredão protegia-me contra os disparos dos robôs. Só quem subisse ao mesmo para lutar poderia ser atingido.
Segurei a microbomba na mão esquerda e saí caminhando em direção ao campo defensivo do cérebro.

* * *

Empurrei a chave do meu transmissor de capacete para a esquerda e liguei a faixa de freqüência pela qual me comunicara com o regente logo após o pouso.
Por estranho que pudesse parecer, a serenidade da idade avançada manifestou-sede uma forma que nunca teria esperado. Estava disposto a desistir. Porém, antes disso, fazia questão de mostrar quem era e de onde vinha, e provar ser infinitamente superior àquele artefato construído por homens como eu. Queria fustigar e humilhar uma máquina, ofendê-la com meu intelecto causticante, muito embora não houvesse nada que pudesse ser fustigado, humilhado ou ofendido.
Apesar disso comecei a falar como se me dirigisse a um ser humano. Era uma loucura, mas apenas tive, numa área recôndita de minha mente consciente, uma percepção débil dessa situação.
Regente, aqui o comandante do couraçado Kon-Velete. Você me conhece pelo nome de Ighur. Acontece que este nome é falso. Utilizei meu saber para trazer para Árcon III um grupo de terranos, pois já não estava disposto a tolerar esse seu regime tirânico.
Sou Atlan, príncipe de cristal do Império, membro da família reinante de Gonozal, sobrinho e sucessor de Sua Alteza, o Imperador Gonozal VII, Almirante da Frota do Império, chefe da 18a esquadrilha de combate, comandada por Sakal; vencedor de vinte e sete batalhas travadas nas proximidades do setor de nebulosas. Subjuguei o sistema de Iskolart, pertencente a Maahk e situado na área das manchas escuras.
Ainda sou membro do Grande Conselho de Árcon, beneficiário do processo de ativação cerebral em virtude de decisão do Alto Grêmio, inventor e fabricante de uma arma que decidiu a guerra do metano. Exijo a submissão e obediência que cabe a uma máquina construída por meus descendentes.”
Parei. Meu corpo foi sacudido por uma gargalhada de louco. Inclinei-me para a frente, apoiei as mãos nos joelhos e refleti sobre os argumentos que ainda poderia oferecer. Aquilo que restava do meu raciocínio lógico informou-me de que provavelmente acabara de perder o controle sobre minha mente.
Prossegui em tom áspero e com uma fria voz de comando:
Acabo de dizer que você, cérebro positrônico, só assumiu o poder porque eu, o Almirante Atlan, fiquei retido no sistema solar dos terranos em virtude de uma série de circunstâncias adversas. Recebi um aparelho que me garantiu a imortalidade. Voltei para exigir obediência. Suspenda imediatamente todas as hostilidades em curso contra minha pessoa, abra o campo defensivo para dar-me passagem e entregue-me seu centro de programação. Declaro-o incapaz para dirigir os destinos do Império. Ordeno-lhe que cesse imediatamente todos os procedimentos oficiais, dê instruções aos comandantes das espaçonaves que operam na frente dos druufs para que se mantenham em posição de espera e expeça uma proibição de entrada no sistema de Árcon aplicável a toda e qualquer nave. Será que você compreendeu, servo de meu povo?
Ao proferir as últimas palavras, encontrava-me a apenas dois metros da linha vermelha. Naquele momento, meu espírito se desanuviou e percebi nitidamente os absurdos que acabara de dizer. Deixara-me envolver por um entusiasmo insensato, provocado pelas palavras grandiloqüentes e pelas frases que deveriam soar tolas e ridículas.
Esperei pelo raio energético que me envolveria. Aproximara-me demais do campo energético. Senti vergonha dos amigos, que provavelmente haviam escutado minhas falas idiotas pelos rádios de capacetes. Sentiriam pena de mim, e isso me doía. Seria capaz de suportar qualquer coisa, menos a compaixão.
Fui caminhando devagar, aproximando-me cada vez mais da mortífera abóbada energética. Quando me vi bem perto da mesma, ouvi um forte estalo no meu receptor de capacete. Uma voz metálica começou a falar.
Dispositivo de segurança A-l falando, Alteza. Os dados fornecidos foram conferidos nos arquivos e chegou-se à conclusão de que são exatos. A medição de suas vibrações cerebrais coincide com os dados armazenados. Reconheço em Vossa Alteza o príncipe de cristal do Império e o futuro soberano de Árcon. O computador, que costuma ser chamado de regente, acaba de ser desligado. Os setores que cuidam da segurança do Império continuam a funcionar. Os ataques contra seus subalternos foram suspensos. Tais medidas são adotadas em virtude da programação de segurança Sêneca, que me obriga a entregar o poder de comando absoluto a um arcônida de raça pura, desde que este se apresente com o poderio no olhar e no espírito, e seja capaz como os antigos, puro como os antigos e animado de um desejo ínfimo de pugnar pela existência do Grande Império. Essas condições acabam de ser cumpridas. O serviço do cérebro positrônico está concluído. Aguardo as instruções de Vossa Alteza.
Avancei mais alguns metros aos tropeções. A barreira energética abriu-se à minha frente. Ultrapassei-a, sem compreender o que estava acontecendo. Não sabia muito bem o que a voz acabara de dizer.
Alteza...? Não era este o título do Imperador? Será que o dispositivo de segurança A-l era tão poderoso que podia paralisar o gigantesco cérebro?
Devia estar sonhando...
Perplexo, fitei um veículo que se aproximava. Dois robôs saltaram e ficaram em posição de sentido. Subitamente o silêncio passou a reinar atrás de mim. Ninguém estava atirando.
Vossa Alteza está esgotado — disse um dos robôs em tom submisso. — Podemos tocar em seu corpo?
Gaguejei um sim. Os robôs me colocaram em seus braços de aço, levaram-me para o planador de campo de repulsão e saíram em carreira desabalada. Uma abóbada de aço abriu-se. No setor médico de Árcon, fui recebido por cinco máquinas especiais. Tratava-se de construções altamente sofisticadas cujos rostos de plástico exibiam um sorriso devoto. No meu tempo, os robôs sempre foram assim. Nunca os conhecera de outra forma...
E o chamado regente também não passava de um robô, apesar do seu tamanho.
Esperem — disse, falando com dificuldade.
As máquinas recuaram imediatamente. Fiquei sabendo já estar inserido no cérebro dos robôs. Não podia ser um sonho.
Ouvi fortes gritos saídos do meu receptor de capacete. Rhodan chamava com a voz muito nervosa.
Atlan! Você me ouve, Atlan? Atlan, o que aconteceu? O ataque foi suspenso e estou recebendo pelo rádio um pedido para locomover-me até a área situada atrás do campo defensivo. A voz diz que você teria dado ordens para isso. Atlan, qual é o jogo? Trata-se de um truque? Você me ouve? Responda, Atlan. Atlan...!
Logo compreendi que não estava louco. Minha mente continuava a funcionar; os órgãos dos sentidos trabalhavam.
Alguns robôs especializados se mantinham em atitude respeitosa. Ergui-me lentamente. Fora colocado numa maça, e saí da mesma com um brusco movimento.
Dispositivo de segurança A-l, desejo que os impulsos emitidos por meu transmissor de capacete sejam captados, ampliados e irradiados aos meus amigos.
Aguardei ansiosamente pela resposta, que foi imediata.
Ordem cumprida, Eminência. Amplificador funcionando.
Passei pelos robôs e falei para dentro do microfone de capacete:
Atlan para Perry Rhodan! Não é nenhum truque! Repito: Não é nenhum truque. Traga os homens para dentro da área e aguarde novas notícias. Dei ordem para que as hostilidades sejam suspensas imediatamente. Os robôs se mantêm quietos?
Alguém respirava forte e apressadamente. Depois de algum tempo ouvi a resposta.
Sim! Será que você enlouqueceu? — perguntou Rhodan. — Prenderam-no e o obrigaram a...
Não fizeram outra coisa senão prestar a obediência devida a um príncipe de cristal do Império — disse.
Sentia minha mente tranqüila e equilibrada. Subitamente tudo se tornara claro.
Atlan, você está sonhando! Alguma coisa está errada!
Está tudo certo. Apenas nossa operação estava errada, porque não correspondia à realidade dos fatos. O dispositivo de segurança existe, conforme supúnhamos. A elite dos cientistas arcônidas nunca teria deixado de instalá-la. O autômato A-l acaba de entrar em ação. O regente deixou de existir na forma que conhecemos. Transformou-se num simples cérebro mecânico, que tem de submeter-se às minhas ordens tal qual a mais insignificante das máquinas. Mandarei apagar as programações já superadas e utilizarei as faculdades, sem dúvida estupendas, do cérebro de acordo com uma visão atualizada. Daqui por diante, um arcônida comandará tudo.
Acho que estou enlouquecendo! — disse uma voz arranhenta.
Só podia ser Reginald Bell.
Também acreditei que estivesse ficando louco — respondi com um sorriso de alívio. O ativador celular pulsava sobre meu peito. O fluxo de impulsos estimulantes atingia todas as fibras de meu organismo.
O que houve de errado? — perguntou Rhodan.
Nosso procedimento estava totalmente errado. Foi tudo em vão, os esforços, perigos e canseiras. A única coisa que eu deveria ter feito era descer da nave logo após o pouso e colocar-me à frente do campo energético. O dispositivo de segurança, que funciona há cinco mil anos, teria realizado imediatamente um tateamento a distância das minhas vibrações cerebrais, e chegaria à conclusão de que não sou um arcônida novo e degenerado, mas um dos homens que fundaram o Império e construíram o computador-regente. Teria sido tão fácil, terrano! Até poderia ter vindo ao planeta numa pequena nave, sem ser molestado, desde que, previamente, tivesse chamado o regente pelo rádio e lhe tivesse fornecido minha identidade. O dispositivo de segurança exercia a vigilância de todas as mensagens recebidas, e forçosamente me teria reconhecido. Não me envolveria no menor perigo. Perry, dê-se por satisfeito porque sua bomba de Árcon foi descoberta em tempo.
Houve um silêncio prolongado. Indaguei junto a A-l se minhas suposições eram corretas. A resposta veio sob a forma de um vigoroso ‘Sim, Eminência’.
Entrem e aguardem atrás da barreira energética — disse. Voltei a sentir-me dominado pelo cansaço. — Descansem. Providenciarei alimento e bebidas. Assim que tiver tomado as providências necessárias, voltarei a chamar.
Que providências necessárias são estas, Atlan?
Deixe de desconfianças, bárbaro. Você nunca aprende. Será que pensa que pretendo matá-lo o mais depressa possível?
Mandei que a abóbada energética fosse fechada novamente, o que provocou uma exclamação nervosa.
Fique tranqüilo, Perry — disse com um suspiro. — Este cérebro é tão precioso que não quero deixá-lo desprotegido. Controle-se e procure dominar o nervosismo. Vencemos, entendeu? Vencemos!
Desliguei e ordenei a um robô que me levasse à sala de controle do dispositivo de segurança.
Ao passar pelas amplas salas cheias de instalações extremamente complexas, senti-me orgulhoso e feliz. Aquela maravilha, que só estava falhando em virtude de uma programação já superada, fora construída pelos homens e mulheres de meu povo. Era-me de direito tomar posse da mesma.
Para mim, já não havia nenhum regente, mas para as outras inteligências, ele deveria continuar a existir. Por enquanto tais inteligências não deveriam saber que as medidas por ele tomadas já estavam sendo submetidas a um controle inteligente.
Planos, planos gigantescos foram amadurecendo em meu cérebro antes que chegasse ao dispositivo de segurança. Entrei na sala de programação cujas paredes estavam revestidas de enormes telas.
Seja bem-vindo, Alteza. — disse a mesma voz cheia.
O rosto de um cientista arcônida surgiu numa das telas.
Esta é a gravação em vídeo, realizada segundo o dispositivo de segurança Sêneca. Quando você me ouvir, provavelmente já estarei morto há muito tempo. Todavia, a freqüência de minha voz continua à disposição do mecanismo de segurança A-l. Sou Epetran, cientista-chefe do Conselho. As ordens transmitidas a A-l determinam que o poder seja entregue a um arcônida que tenha conservado a atividade, força física e psíquica, e cujo grau de inteligência seja ao menos de cinqüenta lerc. Esperamos que um dia a decadência que está tendo início seja detida. Se o rebaixamento do nível espiritual ultrapassar o nível perigoso, o grande cérebro assumirá o comando da história do Grande Império até que apareça alguém que seja como nós. Não sei quando isso acontecerá, mas tenho certeza de que um dia surgirá uma pessoa que seja como os antigos. Quando isso acontecer, A-l assumirá minha voz e falará em conformidade com sua programação. É o que está acontecendo neste momento. Mais uma vez, seja bem-vindo, Alteza!
Meus antepassados não se haviam esquecido de nada. Na verdade, eram meus descendentes. Para um imortal torna-se difícil estabelecer essas distinções sutis...






* * *
* *
*





Os impulsos cerebrais, que identificaram Atlan, o imortal, como um arcônida não degenerado e dotado de elevadas qualidades espirituais, fizeram com que um dispositivo de segurança do invencível computador-regente entrasse em funcionamento e lhe entregasse o governo do Império de Árcon.
A Perry Rhodan não restava outra coisa senão esperar que Atlan continuasse a mostrar-se amigo da Humanidade.
Em As Cavernas do Sono, título do próximo volume, as emoções são ainda mais fortes.

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