Gucky
trabalhou como um mouro. Bikre, que pela primeira vez na vida via
alguma coisa de tecnologia, olhava espantado para Gucky.
De
repente, Gucky soltou um daqueles palavrões de Reginald Bell,
quando, bem na frente de seu capacete, uma meia dúzia de
instrumentos começaram a rodopiar no ar.
— Bikre,
pare com sua brincadeira. Se você fizer isto de novo, tenho que
botá-lo para fora, lá no arzinho gostoso de 60 graus.
De um
momento para o outro, Bikre interrompeu seu folguedo telecinético e
os instrumentos com os quais brincava caíram no chão, entre eles o
aparelho de que Gucky tanto precisava.
— Escangalhado
— disse abatido, quando o apanhou do chão. — Uma esperança a
menos. Mas você não tem culpa, Bikre. Como é que poderia saber
que, como o último dos ratos-castores, você nos acaba de destruir a
última chance?
Teve
depois a impressão de estar sozinho. Sem suspeitar de nada, virou-se
para trás. O lugar onde Bikre esteve sentado o tempo todo ficara
vago.
— Bikre?
E Gucky
repetiu muitas vezes seu grito telepático.
Bikre
tomou ao pé da letra os pensamentos de Gucky na hora do rompante de
cólera. Bikre, o único rato-castor adulto que encontrara até agora
no planeta destinado à destruição, teleportara-se.
— Bikre!
Bikre!
Desesperado,
Gucky emitia seu grito telepático, até que afinal obteve resposta.
— Não...!
— gemeu Gucky desesperado.
Porém seu
gemido não conseguiu livrar da morte horrível lá fora, na areia
incandescente, seu desventurado irmão de raça.
Bikre, sem
saber o que estava fazendo, sem conhecer os perigos a que se expunha,
na sua mania de brincar, abriu lá fora, perto da entrada da toca
onde Gucky o achara, o capacete do uniforme. A areia escaldante, a
uma temperatura próxima da fervura da água na Terra, lhe queimou o
focinho, impedindo-o de reatarraxar o capacete. O único grito de
socorro que emitiu para Gucky, foi também seu último comunicado.
*
* *
Gucky
saltou para fora. Foi recebido pelo efervescente turbilhão de areia
que ameaçava impedir seus movimentos. Mais do que depressa ligou o
envoltório de proteção e fez com que o pequeno gerador
antigravitacional trabalhasse em sentido contrário. Quando este
acusou dois G, deu uma olhada no seu relógio.
“Quatro
horas da tarde apenas, tempo de Vagabundo, e já está ficando
noite!”,
pensou assustado.
— Estes
malandros das naves de “duas
caras”!
— Gucky estava fora de si de cólera. — Os desgraçados com suas
antenas em forma de guindaste vertical. Bikre, Bikre! Por que você
me tirou toda possibilidade de recompor meu aparelho de rastreamento?
Como é que posso localizar agora estas diabólicas usinas
energéticas que arrastam o planeta Vagabundo de encontro ao sol?
Quando
retornou pela escotilha meio aberta do SJ-09 semidestruído, desligou
o gerador antigravitacional.
— Bikre,
Bikre... — disse baixinho, ao entrar na cabina de comando.
Mas Bikre,
o único rato-castor adulto de Vagabundo, não existia mais.
Gucky
também queria deixar de existir. Não havia mais jeito. Tudo, mas
tudo mesmo, era um mausoléu de fracasso. Mas ainda existia nele o
tenente do Corpo de Mutantes. Convivera demais com os homens de
Rhodan e tinha recebido deles o exemplo vivo de que um terrano só
desiste, depois de morto.
— ...e
no fim de tudo, o gorducho ainda vai se envergonhar de me ter
conhecido — disse Gucky para si mesmo.
Pulou de
seu lugar de piloto e começou a andar de um canto para o outro na
cabina de comando, mantendo um monólogo interior.
Tratou
principalmente dos problemas de astrofísica e este animal
superesquisito, de mais ou menos um metro, ponderava agora com todo
sangue-frio a situação, enquanto seu planeta pátrio acelerava cada
vez mais a corrida louca de encontro ao sol.
De
repente, Gucky deu outro salto.
— Perry
Rhodan! — exclamou. — Você virá me buscar, com toda certeza, a
mim e aos filhotinhos nas cavernas! Eu lhe peço este favor. Vou
recebê-lo aqui com fogos de artifício...
E logo
depois, com menos entusiasmo:
— Mas,
primeiro tenho que localizar esta desgraçada usina energética. Sim,
Perry, se eu fosse tão inteligente como você, haveria de achá-la
mais depressa.
Como que
ouvindo alguma coisa, ergueu a cabeça para cima. Tentou lembrar-se
daquelas coordenadas que Walter Grimpel registrara, quando se deram
as erupções energéticas aqui no planeta.
O
rato-castor fez um esforço enorme, exigindo o máximo de sua
memória. Depois de uma hora, acabou desistindo. Casualmente,
encontrava-se neste momento bem diante da pequena positrônica de
bordo.
— Acho
que vou conseguir fazer com que o computador funcione, pelo menos que
consiga fazer o que eu tencionava com o aparelho de rastreamento, que
Bikre acabou rebentando. Mas, se os dados registrados por Grimpel não
foram lançados no computador de bordo, então Perry Rhodan e o
gorducho poderão tirar da lista do Corpo de Mutantes o nome de
Gucky.
Correndo o
mais que podia, dirigiu-se para o setor das máquinas de propulsão,
quase que completamente destruído. Precisava de um transformador, de
um pequeno conversor e de uma centena de outras coisas.
Gucky
estava sentado no meio do turbilhão de areia. Calor e areia
penetravam pela fenda de um metro de largura e oito de comprimento da
carcaça externa. Mas às suas costas estava a fuselagem do jato
felizmente também rebentada, pois do contrário a areia vermelha
teria encoberto tudo. Assim, quase toda a areia passava simplesmente
através dos destroços, sem praticamente inundar o aparelho.
A
refrigeração interna do traje espacial continuava funcionando,
sofrendo porém sempre maiores solicitações. Com isto se
evidenciava que a temperatura em Vagabundo se elevava de hora para
hora e não estaria longe o momento em que a ventania de areia se
transformaria num furacão de gases incandescentes — se é que
ainda existia no planeta qualquer tipo de camada atmosférica.
Gucky foi
se esgueirando através dos escombros da máquina e, bem ou mal, o
farolete de seu capacete lhe ia mostrando o caminho através do
turbilhão de areia.
Havia um
pensamento que não lhe abandonava a mente: era a comparação da
pequena touceira de capim da beira do rio onde quem está se afogando
se apega de unhas e dentes. Mas nem mesmo o significado simbólico
deste pensamento o conseguia afastar do seu plano.
Num grande
esforço de concentração, desencadeou suas forças telecinéticas,
desvencilhou dos destroços um conversor e o encaminhou, flutuando no
ar, até a entrada da cabina de comando.
Continuou
fazendo uso de seus dons extraordinários. Enormes traves de aço,
que lhe impediam os movimentos, cediam a uma força invisível.
Grandes instrumentos atarraxados em chapas de sustentação, eram
arrancados e levados pelo vento, acabando soterrados.
Chegou
então o momento em que Gucky, depois de mais de uma hora de esforço
inútil, parecia não mais agüentar. Precisava urgente de um pequeno
relê para conduzir energia na forma certa até o computador. Já
achara quatro relês daquele tipo, mas todos estragados. No meio
daquela procura de rebentar com os nervos, chegou aos seus ouvidos o
grito de socorro dos coitadinhos dos filhotes naquela primeira
caverna de oitocentos metros de profundidade.
— Gucky,
por que você não vem mais nos visitar? Estamos sozinhos e temos
medo.
Transmissões
telepáticas de filhotes de ratos-castores, cujos pais estavam
mortos.
— Seu
pequeno sol apagou, Gucky. Não nos abandone, Gucky.
O pequeno
sol era um farolete sobressalente que Gucky havia deixado com eles na
toca escura. O enguiço do farolete era um mistério para Gucky.
“Mas
não posso sair daqui”,
pensava Gucky, desanimado.
Tinha, no
entanto, um meio certo de tranqüilizar os animaizinhos: a hipnose.
Assim, em poucos segundos, depois de receberem os influxos cerebrais
de Gucky, cessaram os pedidos de socorro e todos ficaram tranqüilos
na toca.
Gucky
continuou em sua faina de procurar pelo relê entre os ferros
retorcidos de seu SJ-09. Mas um tremor e uma forte vibração do solo
deixaram Gucky assustado. Vagabundo sofria assim seu primeiro
terremoto.
Devido à
força de atração do sol, devido à força centrífuga proveniente
da desmesurada rotação do planeta, Vagabundo estava em vias de se
desintegrar estruturalmente. Este processo poderia levar semanas, mas
poderia também acarretar a destruição do planeta em poucos dias.
Gucky acreditava mais nesta última hipótese. Havia alguns minutos
que as entranhas do planeta apresentavam um movimento diferente, com
uma série de abalos. Os escombros do jato balançavam de um lado
para o outro. Gucky se agarrou numa trave de ferro e, apesar da
refrigeração de seu uniforme espacial, sentiu como aquele pedaço
de metal estava quente.
Finalmente,
os tremores foram rareando até cessarem. Sem saber como, Gucky se
sentiu novamente impelido por uma força irresistível a continuar
procurando as peças de que precisava, no montão de ferro velho.
Sabia que sua máquina tinha mais de duas dúzias de relês, mas onde
se localizavam? No meio das ferragens retorcidas ou afundados na
areia quente?
Sua luta
renhida contra a fatalidade revitalizou de uma maneira
extraordinariamente benéfica seus dons telecinéticos. Acabou
revirando todo aquele montão de sucata como se fosse um punhado de
folhas secas. Peças pesadas eram atiradas para o ar, sem seu contato
manual. Depois chegou a vez da massa de areia quente que encobria uma
boa parte do SJ-09. Mais forte do que a violência do furacão foi o
poder telecinético de Gucky, empurrando a areia contra a tormenta.
Gucky
ficou alegre quando viu três destes objetos tão importantes para
ele, brilhando sob a luz do farolete.
Dois dos
relês estavam cem por cento.
— E
agora, vamos ao trabalho — disse para si mesmo.
6
Felizmente
a positrônica de bordo possuía os dados registrados por Walter
Grimpel, quando da erupção energética em Vagabundo. Gucky ficou
exuberante; tinha a sensação de ser Natal e de haver recebido o
maior presente de sua vida, no momento em que pegou a folha plástica
com todos os dados. Mas seu entusiasmo desapareceu como uma bolha de
sabão que explode no ar.
— O que
eu vou fazer com isto, agora? Como vou achar o equador, o ponto a
quarenta e três graus, seis minutos e vinte e um segundos de
longitude?
Estava
banhado em suor, apesar do bom funcionamento do ar condicionado em
seu uniforme. Olhava nervoso para a fita perfurada do computador.
Atirou-a subitamente num canto.
— Todos
os bons espíritos me abandonaram. Erupção energética! Bell, como
é bom que você não esteja presente, pois do contrário, como você
iria caçoar da minha burrice! Que importância tem para mim o local
determinado por Walter Grimpel? Não pode existir mais nada onde
vulcão, terremoto e furacão devastaram tudo.
Desanimado,
olhava para o computador. Não havia dúvida de que realizara uma
grande façanha, fazendo funcionar o computador de bordo por meio de
intercalação de peças quebradas e procuradas nos escombros. Este
mesmo computador devia saber o lugar exato onde se precipitara de
encontro ao solo, pois até este momento, tudo estava funcionando no
SJ-09.
Uma outra
tira perfurada caiu da fenda de saída. Gucky apanhou-a rápido.
— 00:00,09;
171:38,56 — leu ele.
Além
disso, outros dados mostravam que ele fizera a desastrosa
aterrissagem ao sul do equador. Seus olhos de rato se arregalaram e
ficaram fixos no computador. Somente ele podia salvá-lo daquela
situação desesperadora. Primeiramente devia ter armazenado todos os
dados normais do planeta, como também deveria ter registrado toda e
qualquer alteração havida nos instrumentos de medição durante o
vôo ininterrupto para Vagabundo.
Como se
tivesse um ser humano diante de si, Gucky conversava com o
computador:
— Se
você me deixar na mão, será certamente o culpado pelo monumento
que será erguido na Terra em minha homenagem, nos próximos dias.
Preste atenção numa coisa, agora...
Mas, com o
máximo de concentração, Gucky tentava buscar uma solução... A
pergunta que queria fazer ao computador era extremamente complicada.
Com base nas alterações sofridas pelo planeta, a positrônica de
bordo devia calcular de que lugar de Vagabundo se dera o deslocamento
que alterou a órbita. Além disso, queria saber onde encontraria a
estação que fornecia esta energia toda.
Gucky não
tinha dúvida de que o destino de seu planeta pátrio estava selado e
de que não havia nenhum poder no momento capaz de evitar que seu
mundo se projetasse de encontro ao sol. É claro que Gucky não
queria participar do destino de Vagabundo. Iria tentar chamar a
atenção de Rhodan com algum grito de socorro, questão de vida e
morte para ele e para os poucos filhotes de rato-castor que ainda
estariam vivos no fundo daquela caverna, caso os últimos tremores de
terra já não os tivessem soterrado.
O
pensamento nos filhotinhos fez com que Gucky se afastasse um pouco do
computador. Afinal, a resposta às duas perguntas levaria bem meia
hora.
Correu
para o depósito. Lá estavam ainda no armário os vinte e nove
uniformes, todos sem o minicomunicador. Amarrou-os com um cordão
plástico e teleportou-se com eles. Rematerializou-se na toca dos
quinze ratinhos. A caverna suportara, sem maiores danos, todos os
tremores, mas a galeria que conduzia para a superfície estava
tapada.
Nenhum
deles cumprimentou Gucky, pois sua forte dose de hipnose, transmitida
para acalmar os coitadinhos, ainda estava fazendo efeito. Desligou
seu farolete, abriu o capacete e levantou a cabeça. O rato-castor
respirou aliviado o ar fresco. Os pais daqueles filhotinhos, que os
abrigaram nestas profundidades, deviam estar prevendo o que iria
acontecer com o planeta. Mas, mesmo naquela profundidade de
oitocentos metros, não haveria mais nenhum animal vivo se o
turbilhão de areia incandescente da superfície não tivesse
entupido todas as entradas da caverna, criando assim uma barreira ou
isolamento contra o ar superaquecido. Os tremores do planeta, por sua
vez, contribuíram para que o pouco estoque de ar respirável não
acabasse de todo.
Mas, por
quanto tempo duraria este ar?
Gucky
ligou de novo o farolete e a forte luz cobriu todos que dormiam. E
durante o sono receberam novos influxos hipnóticos para continuarem
dormindo.
“Quem
dorme e quase não se movimenta, consome menos oxigênio e sofre
menos com a fome”,
refletiu.
Teleportou-se
depois de volta ao SJ-09. Chegou na hora em que o computador de bordo
estava dando a resposta.
— Alteração
de órbita se dá a partir da zona equatorial; probabilidade de 97,64
por cento. Distância hipotética do local da aterrissagem: 672
quilômetros; probabilidade de 80,05 por cento. Situação da estação
energética, possível a uma profundidade entre 5 a 15 quilômetros.
Direção desta estação: exatamente para o leste; probabilidade de
97,64 por cento.
Gucky
memorizou todos estes dados. As porcentagens não o deixaram muito
tranqüilo. Teve que confessar que um jato moderníssimo, apesar de
todo seu desempenho tecnológico e de todas as suas soberbas
instalações, em casos de acidente, se positivava como um primitivo
barco de salvamento no meio de um oceano tormentoso.
Fez seus
preparativos com muito cuidado. Deu muita atenção à seleção das
armas de raios energéticos que levaria. Apanhou duas pistolas
energéticas e uma de raios térmicos. Depois fez a revisão de todo
seu uniforme espacial. Com todo estoque possível de energia e ar,
teleportou-se dos escombros do SJ-09 para mais ou menos 670
quilômetros a leste.
Como uma
folha seca, foi apanhado pelo furacão incandescente ao
rematerializar-se. Rodopiou várias vezes no meio da areia quente,
sem poder ver nada. Teve de recorrer a suas forças telecinéticas
para alcançar o chão. Com os geradores funcionando a toda força,
ligara todos os envoltórios de proteção. Deixou de fazer uso de
seu farolete, pois, embora fortes, os raios de luz não penetravam
mais de dois metros.
Quase não
conseguia mais parar de pé, quando se apercebeu que estava sendo
vítima de uma coação moral, como nunca sentira antes. Lembrou-se
da perigosa aventura que ele, Rhodan e Sengu suportaram,
relativamente bem, em Bárcon. Lá, em luta com os invisíveis, quase
que sucumbiu com uma dor de cabeça maluca. Mas aqui era diferente,
muito diferente. Com as forças da telecinese ia rompendo caminho,
apesar da areia quente do furacão. E aguçando os dons telepáticos,
procurava determinar a direção de onde vinha aquela coação moral.
Gucky não
sabia nada da terrível descoberta do Dr. Innogow, a “energia
orgânica”,
e nem a percebia no momento em que, sob a forte proteção do
uniforme, seu pêlo eriçou-se.
Gucky
tinha a sensação de que, de segundo a segundo, ia ficando
desorientado. Até mesmo a faculdade telepática de achar o rumo, sem
o uso dos olhos, foi-lhe diminuindo.
Em
compensação, sentia com certeza que não estava sendo atacado e
exatamente esta sensação o tornava mais irritado.
A coação
moral lhe vinha de dezoito direções diferentes. Sabia perfeitamente
disso, só não sabia o motivo e como.
Não havia
ninguém em Vagabundo que soubesse da existência de dezoito espécies
de guindastes — na realidade enormes antenas — de mais de cem
metros em construção de metal, enterradas no chão em locais
diferentes.
Quando a
compressão mental se tornou insuportável, Gucky teleportou-se um
pouco mais para frente, na direção do leste. Ali a compressão era
bem mais branda.
— Compressão...?
— disse Gucky para si mesmo, chegando à conclusão de que se
tratava de impulsos de extraordinária violência, que, porém, não
o atacavam, apenas lhe roçavam o pêlo.
— Desgraçado
— praguejou na sua linguagem crua. — Em toda parte surgem coisas
novas. Que vá tudo para o inferno.
Mas ele
não se chamaria Gucky, se não desse rédeas à sua curiosidade.
Tentou esquecer a coação ou a compressão mental para poder estudar
os impulsos.
E
conseguiu descobrir telepaticamente de onde vinham.
— Dali
de trás!
Dizendo
isto, desapareceu. Quando se rematerializou, estava gritando de dores
e, não as podendo suportar, atirou-se na areia quente do chão. Foi
tiro e queda: na mesma hora se viu livre de todas as dores.
— Que
coisa esquisita! — exclamou admirado, levantando-se de novo.
Mas mal se
ergueu, as dores se manifestaram.
Lançou-se
de novo no chão, de barriga para cima, para poder ligar o farolete.
“Há
algo de estranho nestas dores!”,
refletiu.
Contudo os
raios do farolete não penetravam muito no turbilhão de areia. Por
isso, Gucky começou a se arrastar pelo chão, tendo o cuidado de não
se erguer.
Subitamente
descobriu diante de si algo por demais esquisito. Já havia visto
coisa semelhante. O próprio Bikre lhe mostrara: era uma antena com a
forma de um guindaste. Gucky não teve coragem de tocá-la, apesar de
sua curiosidade sem limites. Setenta anos de aprendizagem com Perry
Rhodan lhe ensinaram que cautela nunca é demais, se bem que Gucky às
vezes passasse da conta, chegando às raias da temeridade.
A antena
sobressaía da terra uns quatro metros. Gucky viu como o furacão
cada vez mais levava a areia para longe, deixando o corpo da antena
sempre mais a descoberto.
— Que
bandidos do espaço plantaram este negócio aqui? — indagou
apreensivo.
Levantou o
braço direito, tentando tocar na antena. Mas com um grito de dor,
teve que baixá-lo na mesma hora. Como que atingido por uma força
irresistível, a compressão mental se abateu de novo sobre ele.
Foi-lhe
necessário mais tempo para se recuperar. Não chegou a fazer outra
tentativa, mas continuava sondando o misterioso impulso, sem que toda
sua concentração telepática obtivesse resultado. Um leve zunido de
alerta soou em seu uniforme espacial. Era a instalação de ar
condicionado. O pouco de ar que ainda restava em Vagabundo começou a
ficar demasiadamente quente. O próprio termômetro externo não
funcionava mais.
— Santa
Via Láctea! — disse Gucky excitado — logo, logo a areia a meus
pés vai começar a fundir.
Olhou para
os registros na aba inferior do capacete de plástico. A temperatura
dentro do uniforme era de vinte e oito graus positivos. Acionou então
os pequenos geradores diretamente para o ar condicionado, deixando
apenas um ligado com o envoltório de proteção, que afastava dele a
areia incandescente.
Segundos
depois, silenciou o zunido de alarme do uniforme e Gucky recomeçou a
procurar de onde vinham os impulsos. Mas, novamente nenhum resultado,
até que finalmente ouviu qualquer coisa. Abaixo dele, bem fundo...
um impulso muito fraco.
Como é
que podia saber que acabara de detectar um Ogro, um produto híbrido
do técnico com o orgânico, coisa nunca vista!
— Espera
um pouco, meu amigo, você vai ver alguma coisa!
Gucky se
teleportou na direção dos impulsos, a 10 mil metros abaixo da
superfície candente de Vagabundo, aterrissando numa imensa caverna,
toda escura. A luz da lanterna lhe permitiu ver alguma coisa e chegou
a se assustar com o gigantismo da maquinaria que ali estava diante
dele. Nunca vira coisa semelhante na Terra. E o mais esquisito é que
nenhuma máquina fazia o menor ruído. Tudo num silêncio que
simbolizava morte e destruição.
Gucky
sentiu que uma onda de pavor o tentava tragar e seu primeiro
pensamento foi teleportar-se e fugir daquele monstro de metal. Mas,
como sempre, sua curiosidade se sobrepunha ao medo. E depois, então,
se lembrou de seu grande amigo — Perry Rhodan — e este jamais
fugiria de máquinas negras trabalhando em silêncio.
Onde
estava, porém, o ser invisível cujos impulsos ele sentira através
de dez mil metros de rocha e terra?
Gucky
estava parado diante de um conjunto de instrumentos mais altos que
uma casa e o leque de luz do farolete pesquisava em volta. A duzentos
metros acima de onde se encontrava, o teto daquela catedral dos maus
espíritos, se fechava em abóbada. O cone luminoso varria a
escuridão, até se diluir ao longe. Foi aí que o rato-castor teve
uma idéia exata da terrificante extensão daquela galeria de
máquinas. A procura pelo ser misterioso, porém, fora infrutífera.
Teleportou-se
até a distância que o cone luminoso cobria. Quase perdeu o fôlego,
quando, paralisado de estupefação, deu com uma construção
camuflada que lhe lembrava um verme ciclópico. Num semi-círculo de
mais ou menos cinqüenta metros de diâmetro, Gucky estava envolvido
por este verme-monstro. Mas nem mesmo assim conseguiu captar algum
pensamento ou qualquer outro impulso.
Não
queria confessar de que maneira este fenômeno mais do que estranho o
inquietava. Somente pôde dominar esta intranqüilidade com o
argumento de que o “outro”,
que ele percebera lá em cima aos pés da antena, estaria em
condições de captar as irradiações de sua mente.
Mas Gucky
não acreditava nisso. Teleportou-se mais vezes de um canto para o
outro e quanto mais procurava pelo ser misterioso, mais crescia sua
intranqüilidade. Depois, um outro tremor se abateu sobre o planeta.
Gucky
ouviu a primeira explosão catastrófica nas profundezas do planeta,
quando já se tinha teleportado para a superfície lá fora.
“Antes
morrer carbonizado”,
pensava ele, “do
que ser sepultado vivo sob dez mil metros de pedra.”
Por uma
meia hora, que lhe pareceu uma eternidade, permaneceu lá em cima, na
superfície, exposto à violência inaudita do furacão de gás que
esfuziava na areia candente.
Tão
repentino como chegou, o tremor do solo desapareceu. Gucky
teleportou-se de volta para as instalações subterrâneas do imenso
parque da esquisita maquinaria. Já estava mentalmente preparado para
encontrar tudo destruído. Qual não foi sua surpresa ao constatar
que tudo estava intacto. E mais uma vez, recomeçou a procura do ser
invisível, do “outro”.
A situação
foi ficando cada vez mais desagradável para o rato-castor, que não
compreendia por que não estava sendo atacado, pois seu farolete já
havia atingido o objetivo. Não desistira do seu fantástico plano de
fazer explodir as enormes instalações e assim chamar a atenção de
Rhodan, através das erupções energéticas, para o que estava se
passando em Vagabundo. Mas, quanto mais estudava aquele complexo
diabólico de construções desconhecidas, operando com um silêncio
que causava calafrios, tanto mais difícil lhe parecia a execução
do que planejara.
Já
realizara mais de cem teleportações, ali nas entranhas do planeta,
para examinar melhor o monstro técnico-orgânico. O relógio lhe
mostrou quantas horas haviam passado. E não havia necessidade de que
ninguém lhe dissesse que, neste meio tempo, o planeta Vagabundo se
aproximara muito mais do sol e que o momento fatídico do choque
estava próximo.
Teleportou-se
mais uma vez e, inesperadamente, um forte impulso o atingiu. No mesmo
instante determinou o lugar de onde vinha, vendo, à sua frente, uma
carcaça negra e assimétrica. Tentou comunicar-se, mas não recebeu
nenhuma resposta. O impulso continuava. Chegou mesmo a desconfiar dos
seus sentidos.
Captava
pensamentos, mas por que não recebia resposta? E por que não estava
em condições de entender os pensamentos recebidos?
Lembrou-se
novamente de Bárcon, mas lá, sentira nitidamente que os impulsos de
pensamento que não conseguia entender, lhe eram francamente hostis.
Aqui, porém, captava apenas os impulsos e nada mais.
O cone
luminoso do farolete se detinha imóvel na carcaça assimétrica de
uns dois metros de altura e uns cinco de comprimento. Foi com a luz
forte do farolete que Gucky percebeu que desta instalação, desta
carcaça negra e misteriosa, partiam ligações para todos os lados.
Concentrou
a luz no centro da carcaça, concentrou-se para aumentar suas forças
telepáticas e endereçou à estranha fonte de impulsos a intimação
de se pôr em contato com ele.
Mais uma
vez, sem resultado. O impulso continuava invariável.
— Você
que tenta estupidamente jogar futebol com o planeta — ameaçou-o
Gucky — espera só uns segundos.
E então,
os raios energéticos de sua arma penetraram na carcaça e atingiram
o mecanismo. Neste mesmo instante, Gucky parecia ofegante, não
acreditando no que seus olhos viam. Desligou o farolete. Continuava
somente o jato contínuo da pistola energética, mas estes raios não
destruíam a carcaça. Atravessavam-na, sem destruí-la. E, em algum
lugar, no centro deste mecanismo, havia algo que simplesmente
resistia aos raios energéticos. Uma coisa tão esquisita, que Gucky
pensou ser vítima de alucinações.
Apareceu,
no interior do mecanismo, um singular ponto amarelo, que, se
estufando, crescia cada vez mais. E este ponto amarelo era exatamente
o que absorvia os raios energéticos da pistola de Gucky.
Será que
começaria mais um daqueles tremores planetares?
Gucky
mantinha o gatilho apertado e o jato energético continuava
ininterrupto de encontro ao ponto amarelo que já se inflara, ficando
do tamanho de uma bola de futebol.
— Você
ou eu!
— e Gucky ainda usava com todas as forças os seus dons
telepáticos. — Apresente-se,
manifeste seus pensamentos!
Mas um
Ogro não é telepata. Só pode comunicar-se através das ondas
orgânicas dos monstros. O Ogro tomava os impulsos telepáticos de
Gucky como energia, mas não como um meio de comunicação. E o que
não conseguia assimilar em sua existência orgânica, transferia
para a parte técnica.
Porém, a
energia da pistola de Gucky lhe era estranha e mesmo mortífera. Por
isso, Gucky sabia a razão do grande estremecimento que parecia um
tremor de terra. O Ogro se contorcia, trovejando enfurecido.
Ao se
teleportar, Gucky ainda viu o início de uma enorme descarga
energética. O salto do rato-castor fora de dois mil quilômetros. No
momento da rematerialização, ainda teve que fechar os olhos,
ofuscados por uma terrível claridade amarela, que penetrou no espaço
por dezenas de milhares de quilômetros.
— Perry
Rhodan, estou chamando você!
Foi o
pensamento de Gucky, quando se teleportou para a caverna dos últimos
filhotes de ratos-castores, enquanto o planeta era atingido por uma
série de explosões catastróficas.
*
* *
No mundo
dos monstros, porém, um Gal entrava em contato com líderes de
grupo, naquele momento:
— Nossa
tentativa sideral fracassou no último instante. O melhor Ogro que
construímos, falhou totalmente no último estágio.
7
A revisão
rotineira de todos os registros de bordo, feita em fins de setembro
de 2.044, avisou que um importante dado de um computador deixou de
ser observado. Logo após o ano-novo, todos os registros de bordo
foram novamente estudados em Terrânia, em longos trabalhos de
pesquisa. Entre eles, o diário de bordo de um cruzador leve, que em
setembro do ano anterior havia estado no planeta Vagabundo.
Na noite
de 8 para 9 de janeiro de 2.045, Perry Rhodan foi despertado pela
comissão examinadora, que, usando os maiores computadores,
investigara, um por um, todos os diários de bordo das espaçonaves
acidentadas.
Rhodan
acordou Reginald Bell e Allan D. Mercant, chefe da Defesa Solar,
convocando também um certo grupo de cientistas, que tiveram de
interromper o sono e se reunirem sob a direção do Dr. Innogow, o
tal que ainda quebrava a cabeça com a misteriosa pedrinha encontrada
por Grimpel no planeta Vagabundo. Também na casa do responsável
pelo depósito 18 Ômega, soou o alarme. O homem correu poucos
segundos após para o depósito, procurou desesperado por um refletor
de ondas, desmontado em setembro do ano anterior de um cruzador leve.
Achando-o, dirigiu-se às pressas para o escritório de Perry Rhodan.
— Para o
chefe! Santo Deus — dizia ele. — Que vai fazer com esta peça
escangalhada?
Mas a peça
não estava escangalhada. Funcionou maravilhosamente com uma
declinação de apenas 0,0005.
E nesta
conferência de emergência, ouviu-se de repente a voz do plantonista
da maior estação de rastreamento de Terrânia:
— Sir,
violentíssima erupção energética em Vagabundo. O planeta deve
estar em chamas e pode explodir a qualquer hora.
O
semblante de Rhodan se anuviou. Bell empalideceu. E os dois homens se
entreolharam apavorados. A mão de Rhodan tremia sobre o botão de
alarme...
Alarme
para o controle da Frota Solar!
A imagem
no videofone ficou estável. Ao lado estava também a tecla que
ligava o escritório com a estação de rastreamento e a de
hiper-rádio.
— Em
qual espaçonave se encontram os mutantes... com teleportadores a
bordo nas proximidades do planeta Vagabundo? Pergunta urgentíssima.
Ao ouvirem
esta pergunta, uma dúzia de homens prenderam a respiração. A
resposta veio breve.
— Sir,
não há nenhuma nave, com ou sem teleportadores a bordo, naquela
região.
— Qual é
o cruzador leve mais próximo do planeta?
— O
Burma, com o comandante Joe Pasgin em vôo para...
— Obrigado
— disse Rhodan.
Desfez a
ligação e virou-se para o videofone que estava em ligação com a
estação do intercom.
— Você
ouviu nossa conversa?
— Perfeitamente,
chefe!
— Ordem
de emergência para o cruzador Burma. Rota de Vagabundo, o mais
rápido possível. Gucky está em perigo de vida. Chame também Árcon
III. O cérebro positrônico de Árcon deve também transmitir minha
ordem, imediatamente, ao Burma. Assim que conseguir ligação para o
comandante Pasgin, avise-me. Transmita-me imediatamente toda e
qualquer referência importante sobre Vagabundo. Fim.
Desfazendo
a ligação com a estação de intercom, recostou-se no espaldar da
poltrona e cerrou os olhos.
— E nós
dois estávamos crentes de proporcionar uma grande alegria a Gucky,
dando-lhe estas férias — disse Bell, abatido. — Se não
estivesse nesta reunião, gostaria de dar uns berros...
Com uma
certa aspereza, Rhodan o atalhou:
— Você
quer me complicar ainda mais as coisas?
O volumoso
Bell não levou a mal a advertência. Inclinou-se para frente,
esticou o braço diante do amigo e fez a ligação para o
espaçoporto.
— Decolagem
de emergência para a Drusus. O chefe e eu estaremos a bordo. Fim.
Depois
olhou firme em volta e disse com determinação:
— Os
senhores irão conosco. Por favor, meus senhores.
Ao se
levantar, ligou o minicom de pulso. Estava-lhe, pois, garantida uma
comunicação direta com a estação de hiper-rádio.
Não houve
nenhuma precipitação na sala de conferência, mas também não se
perdeu nenhum minuto.
Onze
minutos depois, estavam todos entrando pela escotilha central da
Drusus, nave capitania de Perry Rhodan e, com 1.500 metros de
diâmetro, a maior nave da Frota Solar.
Quando o
supercouraçado, com seu mecanismo de propulsão roncando mais que o
trovão, se ergueu de Terrânia, ainda envolta no véu da noite, lá
em Vagabundo estava Gucky, segurando um filhotinho de rato-castor,
que ele mesmo, com os fluxos hipnóticos, fizera adormecer.
— Se meu
amigo Perry Rhodan não ouviu este foguetório todo, então estamos
perdidos. Mas, durma sossegado, não se preocupe com nada. O único
que está preocupado é Perry Rhodan. É um sujeito maravilhoso. Um
homem assim, só existe uma vez no mundo. E ele vai nos tirar daqui.
E Gucky
acariciou o animalzinho.
*
* *
O Tenente
Hendrik Olavson, verdadeiro gênio em vôo espacial, desligou a tecla
do intercom, quando ouviu do alto-falante do receptor de hiper-rádio
a expressão: “Ordem
de emergência”.
Ordem
de emergência ao cruzador Burma! Vôo imediato para Vagabundo.
Violenta erupção energética. Gucky se encontra em Vagabundo. Deve
estar em grande perigo.
Assinado
Rhodan.
O Burma,
um cruzador médio de cem metros de diâmetro, da Frota Espacial,
saíra há quinze minutos de uma transição do hiperespaço para o
espaço normal. Seu destino agora era 456 LL-4, planeta do Império
Arcônida, para substituir uma guarnição terrana lá estacionada.
O
comandante do Burma, Joe Pasgin, foi arrancado da cama pelo alarme.
— Olavson
— gritou ele, assim que pulou da cama.
Olavson
estava na poltrona do piloto e interrompeu seu chefe.
— Burma
está seguindo nova rota. A positrônica já está trabalhando para
nova transição em cinco minutos.
— Certo
— disse o comandante Pasgin, enquanto vestia o uniforme.
Mais uma
vez ecoou o som saído do alto-falante do telecom. Era a voz
inconfundível do cérebro positrônico de Árcon III. Deu a mensagem
de emergência, com as mesmas palavras.
“Meu
Deus”,
pensava Joe Pasgin no caminho para a central, “se
Árcon III repete a mensagem de alarme, não deve sobrar mesmo muita
coisa de Vagabundo.”
O Tenente
Olavson nem olhou para o lado, quando o comandante chegou à cabina
central. Suas mãos estavam ocupadas em pôr Burma numa outra rota.
Fazia-o com a naturalidade de uma criança se divertindo com seus
brinquedos. Parece que tinha um sexto sentido para lhe dizer sempre o
que tinha de fazer. E sempre se positivava que suas reações eram
certas.
O
computador de bordo apresentou os dados para a transição. Olavson
apanhou a folha plástica e a colocou à sua frente. Executou todas
as ligações para a transição e não se esqueceu de atingir, antes
do salto, a velocidade necessária. Não gostava de iniciar o salto
para o hiperespaço sem mais nem menos. Ele, que aliás era tão
ousado, achava esta operação demasiadamente perigosa.
O Burma,
com uma tripulação prevista para cento e cinqüenta homens,
pertencia ao tipo de nave com uma potência de aceleração fora do
comum, ultrapassando a velocidade da luz em questão de cinco
minutos. Claro que para isto tinha de dispor de um mecanismo de
propulsão superpotente, o que o colocava entre os cruzadores pesados
e as naves da classe Solar. Isto sem falar naturalmente nos outros
equipamentos, como principalmente seu poder de fogo.
Espaçonaves
da classe Estado eram em geral naves de reconhecimento e, em virtude
de seu poder de superaceleração, estavam em condições de atingir
os locais mais distantes num tempo recorde.
Agora,
porém, o Burma tinha de ser mais veloz do que nunca. Tratava-se de
salvar Gucky. Não havia ninguém entre os tripulantes que não
conhecesse Gucky. Todos já haviam se divertido muito com seus golpes
magistrais e sabiam da sua coragem e dedicação sem limites,
comprovadas a todo momento. Além disso, muitos homens deviam a vida
ao sangue-frio e à determinação do rato-castor.
— Agora
é ele quem está em apuros — disse Olavson amargurado, enquanto a
calculadora do computador dava, com sua voz metálica, as
distâncias-tempo para a transição.
Setenta e
dois segundos antes da transição, o posto de radiotelegrafia ligou
seus alto-falantes:
— Estação
de hiper-rádio de Terrânia — anunciou o radioperador. — Atenção
para o Burma. Perigo iminente numa aterrissagem em Vagabundo. O
planeta está em vias de se projetar de encontro ao sol. Erupções
energéticas na zona equatorial aceleram este choque entre Vagabundo
e seu sol. Não aterrissar. Proibição do chefe. Instrução do
administrador à tripulação do Burma: pensem em Gucky com toda a
intensidade, quando o Burma estiver circunvoando o planeta. A pedido
do administrador. Assinado Bell.
Faltavam
ainda quinze segundos para a transição e Burma voava já com 0,7 da
velocidade da luz.
Hendrik
acionou o sincronizador central e transmitiu à positrônica todos os
dados de navegabilidade e funcionamento do conjunto de propulsão.
O jovem
tenente e o experimentado comandante se entreolharam por um instante.
Estavam cientes do que os esperava.
— Que
calamidade! — exclamou Joe Pasgin. — É exatamente o pobre do
Gucky que tem de estar preso neste caldeirão do diabo? Se é que
ainda esteja vivo...
Deu-se
então a transição.
No ponto
zero, desapareceu o espaço e com ele o Burma, para rematerializar-se
no espaço normal a anos-luz do local do salto.
Da tela
panorâmica irrompiam intensas faixas de luz ofuscante, enchendo a
sala de comando. O Burma saíra do hiperespaço entre o sol e o
planeta. Distância do sol: 84 milhões de quilômetros; distância
do planeta: 9,5 milhões.
Não havia
terrano que pudesse gostar destes vôos mais ou menos próximos de
sóis, independente de suas características. Nunca se estava seguro
em sua proximidade e os registros automáticos do Burma reagiram de
pronto ao perigoso campo de gravitação, que puxava sensivelmente o
aparelho, com um zunido selvagem dos superpotentes motores de
propulsão.
Na cabina
de comando não se trocou uma palavra. Do posto de rádio veio a
seguinte mensagem:
— Comunicação
de Terrânia: o chefe está a caminho de Vagabundo com a Drusus.
Pasgin,
comandante do Burma, apertou o botão geral da intercomunicação de
bordo:
— Pensar
intensamente em Gucky. Nenhum dos cento e cinqüenta homens da
tripulação estranhou o aviso. Não havia um que não tivesse já
presenciado maravilhas dos dons parapsicológicos de Gucky.
O Burma
devorava o espaço em direção ao planeta, com os motores a toda,
devido à forte atração do sol.
Por sua
vez, Vagabundo parecia também convertido num pequeno sol. Sua
superfície ardia em chamas.
Erupções
de gás, como se fossem protuberâncias, lambiam o único planeta
daquele sistema. E os homens a bordo do Burma sabiam o que
significavam as figuras estranhas na grande tela. Não precisavam ser
astrofísicos para isto.
Vagabundo
estava em vias de expelir para o espaço o último resto do ar
candente. Seria a última reação, antes da explosão-monstro e da
precipitação contra o sol.
Hendrik
Olavson acelerou a nave ao máximo, ligando em série três geradores
energéticos para dar maior resistência ao envoltório de proteção.
Não podia supor o que o esperava, quando o Burma começou a
sobrevoar o planeta a alguns milhares de metros de altura.
Joe Pasgin
repetiu sua exortação:
— Pensar
intensamente em Gucky. Como em todo vôo rasante de encontro à
superfície de um corpo celeste, dava a impressão de que o infeliz
planeta Vagabundo se atirava célere contra a potente espaçonave.
Cada vez maior, o planeta condenado à morte; cada vez mais dantesco,
o espetáculo da destruição pelo fogo.
— Será
que ele ainda está vivo? — perguntou alguém desesperado na cabina
de comando.
A cena de
horror chegou ao seu clímax. O piloto Hendrik Olavson ouviu como seu
comandante, quase ofegante, perguntou:
— E o
serviço de rastreamento?
— Continua
funcionando desde o fim da transição — foi a rápida resposta.
Os homens
da tripulação, que já haviam presenciado tanta coisa maravilhosa
na galáxia, contemplavam fascinados um cone amarelado com a ponta
para baixo.
Energia
amarela, era um tipo de expressão energética que não conheciam
ainda.
— Não
chegue perto demais! — recomendou o capitão ao seu piloto.
Respondendo
com um simples sinal da cabeça, continuou o vertiginoso vôo rumo à
superfície de Vagabundo.
Ordem do
comandante, através do intercom:
— Vestir
os trajes espaciais!
A 49 mil
metros de altura, Hendrik diminuiu a velocidade e mudou de rumo. A
positrônica de bordo continuava recebendo dados sobre o planeta
moribundo.
— Nada
ainda — disse Pasgin.
Não havia
ainda nenhum sinal da vida do rato-castor.
Pergunta
do comandante Pasgin ao operador de rádio:
— O
chefe já está informado de que estamos sobrevoando o planeta?
— Perfeitamente.
Atenção! Está entrando um comunicado da Drusus. Pronto, já está
aqui: procurem Gucky, tentem encontrá-lo, por tudo que nos é
sagrado neste mundo!
Era a
própria voz de Rhodan, um homem que temia pela vida de um de seus
amigos e que via agora que não poderia fazer nenhum milagre.
— Gucky...
— disse Olavson, pronunciando o nome bem silabado. — Gucky —
repetiu ele, sacudindo a cabeça desanimado.
— Fortes
tremores planetares da maior intensidade — veio a informação
deprimente do rastreamento. — Se continuarem, Vagabundo vai deixar
de existir dentro de dez horas.
Um outro
da central de comando interveio:
— Em dez
horas? Muito antes. A excessiva velocidade de rotação do planeta
vai rebentar com ele em menos de quatro horas.
O cruzador
Burma estava circunvoando um verdadeiro inferno, um mundo sem camada
atmosférica, onde o forte conteúdo de oxigênio do solo expelia, em
forma de explosões de gases incandescentes, os componentes do ar.
Somente as ligas metálicas mais nobres podiam resistir à altíssima
temperatura reinante.
O cruzador
esférico iniciava sua quinta circunvolução do planeta e o
comandante Joe Pasgin ouvia a voz desanimada de Olavson:
— Ainda
nada!
Mais uma
vez, o comandante voltou a repetir a mesma exortação no microfone
do intercom:
— Pensar
mais intensamente em Gucky...!
E, no
mesmo instante, assustado, dando um grito e esticando o braço, o
comandante apanhou um objeto atirado por Gucky!
— Pegue,
Pasgin, e trate com muito cuidado o meu filhotinho!
Gucky
estava ali e, no mesmo instante, já havia desaparecido.
— Frear,
Olavson! Fazer com que a nave fique parada — ordenou Pasgin, não
podendo conter a alegria.
Mas o que
estava em seus braços?
Ao lado de
Pasgin, estava Michel Dung, que não conseguia fechar a boca. Dung
tinha também alguma coisa nos braços.
— Santa
Via Láctea! — Pasgin deu um grito de alegria. — Isto aqui é um
pequeno Gucky...
— E é
bonitinho, não é? — disse Gucky, que já havia executado a
segunda teleportação, voltando com mais quatro filhotinhos. —
Isto é um Guckyzinho fêmea, Joe...
Falou e
desapareceu novamente.
Na sala de
comando do Burma, deu-se uma cena que a Frota Solar, em toda sua
existência, jamais presenciara. Seis oficiais estavam ali postados,
segurando filhotinhos, enquanto Gucky ia e vinha trazendo mais
daqueles cômicos animaizinhos. Rematerializava-se numa caverna a
mais de oitocentos metros de profundidade. Acima dele, o pavor e a
morte reinavam.
De
repente, alguma coisa se chocou contra o capacete plástico de Gucky,
atirando-o ao chão. Era tarde para qualquer movimento. Mas não tão
tarde para se teleportar e afastar-se alguns metros. Quando dirigiu o
cone de luz do farolete para ver o que foi que o derrubou, viu que o
teto da caverna estava se arqueando e rachando.
Em um ou
dois segundos, terra e pedra se abateriam sobre Gucky e os
filhotinhos que ali dormiam. Mais do que depressa, começou a agir.
Um, dois, três, quatro, cinco... ainda prendeu o sexto entre as
pernas e mais um, no último instante, e com sete filhotinhos
teleportou-se para o Burma, enquanto a caverna desabava, sepultando
vários animaizinhos.
— Quantos
são ao todo? — foi sua primeira pergunta, depois de puxar para
trás o capacete e olhar em volta radioso.
— Vinte
e oito, Tenente Gucky! — o comandante Joe Pasgin usara
espontaneamente o grau hierárquico de Gucky.
— Vinte
e oito... entre alguns milhares — disse Gucky, cansado, perdendo a
expressão de alegria. — Vinte e oito... e tudo isto, só porque um
bando de aventureiros do espaço queria fazer suas experiências no
meu planeta.
Sem que
Gucky o notasse, o comandante transferiu a ligação do intercom para
a cabina de radiotelegrafia. Lá se sabia perfeitamente o que o
comandante Pasgin pretendia fazer, isto é, que através do
hiper-rádio, Perry Rhodan, na Drusus, ouvisse tudo que Gucky queria
dizer.
Mas Gucky
não disse muita coisa, pois subitamente constatou que o cruzador
Burma ainda estava sobre o planeta.
— Será
que no final de tudo, nós todos temos que fazer uma aterrissagem no
sol, Pasgin? Temos que sair daqui imediatamente. Vagabundo pode
explodir a qualquer minuto.
— Está
certo!
Hendrik
tomou a observação de Gucky como uma ordem, e fez com que o Burma
acelerasse imediatamente, quando uma muralha de luz ofuscante inundou
a tela panorâmica. Alguns homens em pânico começaram a gritar.
No
entanto, Olavson já tinha engrenado o sincronizador-mestre,
entregando o Burma à positrônica de bordo.
Foram
necessários muitos minutos até que todos os homens recuperassem a
visão.
— Onde
está o planeta Vagabundo? — perguntou Pasgin apontando para a tela
onde se via apenas o sol.
— Explodiu
— respondeu alguém chiando. — Acho que bombardeei demais com os
raios energéticos aquele olho amarelo. Talvez tenha sido isso, Joe.
Mas de qualquer maneira consegui chamar a atenção de vocês com
estes “fogos
de artifício”.
Porém, só nos últimos instantes, tive a certeza de que aquela
instalação diabólica nas entranhas do planeta iria provocar sua
explosão. Não compreendo o que poderia ser aquele olho amarelo.
Ninguém o
poderá compreender, como também ninguém saberá explicar como o
planeta se transformou em luz e fogo.
— Não
estamos saindo do lugar, comandante! O Burma não aumenta a
aceleração — disse Hendrik Olavson, alarmando o comandante e os
homens na sala de comando.
No
entanto, a julgar pelo zunido dos motores de propulsão que
funcionavam com plena potência, a nave esférica já devia estar
longe deste diminuto sistema solar.
Gucky
levantou-se de um salto e foi para frente do aparelho de
rastreamento, olhando a imagem dupla do oscilógrafo. Embora nada
soubesse da teoria do Dr. Innogow, viu imediatamente o caráter
parcialmente orgânico daquela energia, que apesar de tudo continuava
ainda existindo, embora Vagabundo já tivesse explodido e
desaparecido.
— Transição
direta do ponto em que estamos — gritou ele — temos que sair
daqui.
*
* *
Em meio do
trajeto, entre o sol de Vagabundo e a Terra, o Burma entrou novamente
no espaço normal.
— Por
favor, Joe — falou Gucky — não faça mais transição. Permita
que os filhotinhos voltem primeiro a si. Você já avisou Rhodan onde
ele nos pode encontrar? Faça-o, por favor! Eu vou para o local onde
estão os animaizinhos, ver o que estão fazendo.
Apenas uma
hora depois, Joe Pasgin chamou Gucky pelo intercom.
— Que
grupo de bagunceiros você trouxe cá para o Burma? Não são nada de
filhotinhos inocentes, são é verdadeiros diabinhos.
No
camarote que escolhera para repousar, Gucky viu, perplexo, na tela do
videofone o rosto zangado do comandante, do que naturalmente não
gostou.
— O que
meus filhotinhos fizeram, Joe? — perguntou Gucky um tanto incerto.
— Exatamente
dois dos seus filhotinhos inocentes penetraram na casa de máquinas
três e acionaram a alavanca da instalação contra incêndio,
deixando tudo mergulhado n’água. Como souberam de que maneira a
instalação funciona? Será que podem ler o pensamento como você?
Será que são também teleportadores e telecinetas? Acho que você
se diverte muito com este bando brincalhão.
— Eu...
Gucky não
concluiu. O comandante estava recebendo uma mensagem.
— Gucky
— retomou o comandante já com voz ameaçadora — três destes
diabinhos foram surpreendidos... Que houve? O quê? De novo? Onde?
Com o que eles querem atirar? Com armas de impulsos energéticos?
Santo Deus! Eu acabo estourando. Gucky, você ouviu tudo isto? Ponha
este bando sob quatro chaves, ou eu me vejo obrigado a denunciá-lo
em corte marcial!
Mas Gucky
não estava mais em sua cabina. Saiu à procura dos seus irmãos de
raça. Ao surpreender quatro filhotinhos brincando no depósito de
gêneros alimentícios, onde haviam aberto um saco de farinha de
trigo, atirando-a num turbilhão branco para dentro do poço de
ventilação, e se divertindo a valer, ficou também zangado.
Mal
acabara de botar sob cadeado os pequenos “malfeitores”
e de lhes passar uma descompostura, ouviu de novo seu nome no
intercom:
— Gucky,
que está acontecendo com o tubo de ventilação?
Não sabia
de nada. Estava no encalço dos outros peraltas que em alguma parte
da nave faziam das suas.
— Gucky,
aqui fala da sala de comando! — era a voz do comandante Joe Pasgin.
Gucky, já
bem aborrecido, pegava um filhotinho no arquivo, onde todas as
gavetas e prateleiras estavam vazias, havendo apenas um montão de
tudo entre os móveis.
— Gucky,
Gucky — repetia o intercom. — Apanhamos um dos seus aqui, mas,
excepcionalmente, este está mais ou menos quieto. Diga-me o que
significa Og
tule tu!
Não pára de repetir isto. Será que ele quer comer alguma coisa?
— Og
tule tu? — repetiu Gucky, distraído. — Joe, isto quer dizer: eu
preciso fazer...
— O quê?
— disse Joe exasperado. — Isso é o cúmulo, Gucky.
Mas Gucky
não respondeu mais. Num salto transportou-se para o recinto onde já
prendera a maior parte dos sobreviventes de Vagabundo, levando
debaixo do braço o “aprendiz
de arquivista”.
Contou-os um por um. Eram vinte e sete. O último estava na sala de
comando, repetindo a frase — Og tule tu. E Gucky estava de novo
radiante, com o dente roedor à mostra.
O
comandante Joe Pasgin haveria de ver como Gucky sabia resolver
qualquer problema, inclusive o da peraltice dos filhotinhos.
*
* *
Perry
Rhodan e Bell fizeram o transbordo para o cruzador Burma.
— Meu
amigo...! — foi a palavra de saudação que Rhodan dirigiu a Gucky,
numa expressão de alegria pelo feliz reecontro.
Quanto a
Reginald Bell, não havia meios de tirá-lo do aposento onde Gucky
prendera os vinte e sete filhotinhos. Pegou vários filhotinhos de
uma só vez no colo, encantado com eles, fazendo mesmo sombra ao
desvelo de Gucky.
Enquanto
isto o rato-castor relatava os acontecimentos. Não embelezou nada,
mas não omitiu também nenhum detalhe importante. Referiu-se com
veemência aos estranhos seres, que desembarcaram em Vagabundo dos
aparelhos de duas fuselagens e ali construíram as enormes
instalações que acabaram destruindo o planeta.
— Então
devemos estar preparados para enfrentarmos esta raça estranha —
disse Rhodan pensativo, quando Gucky terminou seu relato. —
inteligências que destroem inescrupulosamente as outras, nunca me
são simpáticas.
— E como
devem então ser simpáticas para mim, Rhodan... — disse o
rato-castor, cheio de amargura. — ...estes assassinos!
Perry
Rhodan se abraçou com Gucky, o que aliás lhe era um gesto muito
raro.
— Gucky,
ninguém deve permanecer no ódio, meu amigo, o ódio é venenoso.
Quem sabe, estes monstros não tiveram diretamente a intenção de
matar ninguém. Talvez olhem as coisas de um modo bem diferente. Mas
tudo isto haveremos de pôr em pratos limpos, quando nos defrontarmos
com eles. O mais importante, porém, é que seu povo, seus irmãos de
raça não se extingam. Salvou um bom número de seus irmãos. Você
vai ver como eles encontrarão em Marte uma nova pátria e
continuarão lá o que eram antes: um povo unido. Gucky, eu me
orgulho de você.
Gucky
estava muito comovido e para não se deixar dominar pelo sentimento
que o invadia, respondeu brincando:
— Não
deixe Joe Pasgin saber que nós os estamos levando para Marte, Perry.
Ele fica maluco quando pensa nos filhotinhos e só se acalma com uma
expressão, que deve ter uma força hipnótica para ele...
— E como
é esta expressão, Gucky? — perguntou Rhodan.
— Og
tule tu — respondeu Gucky, piscando o olho. Quando ouviu, porém, a
gargalhada de Rhodan, teve certeza de que o chefe lhe havia lido o
pensamento.
— Malandro!...
— disse Rhodan sorrindo e balançando a cabeça.
*
* *
*
*
*
Apenas
vinte e oito filhotinhos foram salvos. Eram os mesmos que o
comandante do cruzador Burma, encolerizado, chamara de “bando de
bagunceiros”. Não se pode taxá-los assim, com esta severidade.
Finalmente, todos os ratos-castores têm uma mentalidade infantil, e
o instinto da brincadeira, que se conserva mesmo nos mais velhos,
como é o caso de Gucky, é-lhes um característico inato.
O
próximo número trata de um assunto totalmente diferente, embora
tenha como figura central, Crest!
Em Um
Amigo da Humanidade,
o grande cientista arcônida vive, de modo heróico, talvez, seus
últimos dias...

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