domingo, 28 de agosto de 2016

P-098 - Forças Desencadeadas - Kurt Brand [Parte 3]

Gucky trabalhou como um mouro. Bikre, que pela primeira vez na vida via alguma coisa de tecnologia, olhava espantado para Gucky.
De repente, Gucky soltou um daqueles palavrões de Reginald Bell, quando, bem na frente de seu capacete, uma meia dúzia de instrumentos começaram a rodopiar no ar.
Bikre, pare com sua brincadeira. Se você fizer isto de novo, tenho que botá-lo para fora, lá no arzinho gostoso de 60 graus.
De um momento para o outro, Bikre interrompeu seu folguedo telecinético e os instrumentos com os quais brincava caíram no chão, entre eles o aparelho de que Gucky tanto precisava.
Escangalhado — disse abatido, quando o apanhou do chão. — Uma esperança a menos. Mas você não tem culpa, Bikre. Como é que poderia saber que, como o último dos ratos-castores, você nos acaba de destruir a última chance?
Teve depois a impressão de estar sozinho. Sem suspeitar de nada, virou-se para trás. O lugar onde Bikre esteve sentado o tempo todo ficara vago.
Bikre?
E Gucky repetiu muitas vezes seu grito telepático.
Bikre tomou ao pé da letra os pensamentos de Gucky na hora do rompante de cólera. Bikre, o único rato-castor adulto que encontrara até agora no planeta destinado à destruição, teleportara-se.
Bikre! Bikre!
Desesperado, Gucky emitia seu grito telepático, até que afinal obteve resposta.
Não...! — gemeu Gucky desesperado.
Porém seu gemido não conseguiu livrar da morte horrível lá fora, na areia incandescente, seu desventurado irmão de raça.
Bikre, sem saber o que estava fazendo, sem conhecer os perigos a que se expunha, na sua mania de brincar, abriu lá fora, perto da entrada da toca onde Gucky o achara, o capacete do uniforme. A areia escaldante, a uma temperatura próxima da fervura da água na Terra, lhe queimou o focinho, impedindo-o de reatarraxar o capacete. O único grito de socorro que emitiu para Gucky, foi também seu último comunicado.

* * *

Gucky saltou para fora. Foi recebido pelo efervescente turbilhão de areia que ameaçava impedir seus movimentos. Mais do que depressa ligou o envoltório de proteção e fez com que o pequeno gerador antigravitacional trabalhasse em sentido contrário. Quando este acusou dois G, deu uma olhada no seu relógio.
Quatro horas da tarde apenas, tempo de Vagabundo, e já está ficando noite!”, pensou assustado.
Estes malandros das naves de “duas caras”! — Gucky estava fora de si de cólera. — Os desgraçados com suas antenas em forma de guindaste vertical. Bikre, Bikre! Por que você me tirou toda possibilidade de recompor meu aparelho de rastreamento? Como é que posso localizar agora estas diabólicas usinas energéticas que arrastam o planeta Vagabundo de encontro ao sol?
Quando retornou pela escotilha meio aberta do SJ-09 semidestruído, desligou o gerador antigravitacional.
Bikre, Bikre... — disse baixinho, ao entrar na cabina de comando.
Mas Bikre, o único rato-castor adulto de Vagabundo, não existia mais.
Gucky também queria deixar de existir. Não havia mais jeito. Tudo, mas tudo mesmo, era um mausoléu de fracasso. Mas ainda existia nele o tenente do Corpo de Mutantes. Convivera demais com os homens de Rhodan e tinha recebido deles o exemplo vivo de que um terrano só desiste, depois de morto.
...e no fim de tudo, o gorducho ainda vai se envergonhar de me ter conhecido — disse Gucky para si mesmo.
Pulou de seu lugar de piloto e começou a andar de um canto para o outro na cabina de comando, mantendo um monólogo interior.
Tratou principalmente dos problemas de astrofísica e este animal superesquisito, de mais ou menos um metro, ponderava agora com todo sangue-frio a situação, enquanto seu planeta pátrio acelerava cada vez mais a corrida louca de encontro ao sol.
De repente, Gucky deu outro salto.
Perry Rhodan! — exclamou. — Você virá me buscar, com toda certeza, a mim e aos filhotinhos nas cavernas! Eu lhe peço este favor. Vou recebê-lo aqui com fogos de artifício...
E logo depois, com menos entusiasmo:
Mas, primeiro tenho que localizar esta desgraçada usina energética. Sim, Perry, se eu fosse tão inteligente como você, haveria de achá-la mais depressa.
Como que ouvindo alguma coisa, ergueu a cabeça para cima. Tentou lembrar-se daquelas coordenadas que Walter Grimpel registrara, quando se deram as erupções energéticas aqui no planeta.
O rato-castor fez um esforço enorme, exigindo o máximo de sua memória. Depois de uma hora, acabou desistindo. Casualmente, encontrava-se neste momento bem diante da pequena positrônica de bordo.
Acho que vou conseguir fazer com que o computador funcione, pelo menos que consiga fazer o que eu tencionava com o aparelho de rastreamento, que Bikre acabou rebentando. Mas, se os dados registrados por Grimpel não foram lançados no computador de bordo, então Perry Rhodan e o gorducho poderão tirar da lista do Corpo de Mutantes o nome de Gucky.
Correndo o mais que podia, dirigiu-se para o setor das máquinas de propulsão, quase que completamente destruído. Precisava de um transformador, de um pequeno conversor e de uma centena de outras coisas.
Gucky estava sentado no meio do turbilhão de areia. Calor e areia penetravam pela fenda de um metro de largura e oito de comprimento da carcaça externa. Mas às suas costas estava a fuselagem do jato felizmente também rebentada, pois do contrário a areia vermelha teria encoberto tudo. Assim, quase toda a areia passava simplesmente através dos destroços, sem praticamente inundar o aparelho.
A refrigeração interna do traje espacial continuava funcionando, sofrendo porém sempre maiores solicitações. Com isto se evidenciava que a temperatura em Vagabundo se elevava de hora para hora e não estaria longe o momento em que a ventania de areia se transformaria num furacão de gases incandescentes — se é que ainda existia no planeta qualquer tipo de camada atmosférica.
Gucky foi se esgueirando através dos escombros da máquina e, bem ou mal, o farolete de seu capacete lhe ia mostrando o caminho através do turbilhão de areia.
Havia um pensamento que não lhe abandonava a mente: era a comparação da pequena touceira de capim da beira do rio onde quem está se afogando se apega de unhas e dentes. Mas nem mesmo o significado simbólico deste pensamento o conseguia afastar do seu plano.
Num grande esforço de concentração, desencadeou suas forças telecinéticas, desvencilhou dos destroços um conversor e o encaminhou, flutuando no ar, até a entrada da cabina de comando.
Continuou fazendo uso de seus dons extraordinários. Enormes traves de aço, que lhe impediam os movimentos, cediam a uma força invisível. Grandes instrumentos atarraxados em chapas de sustentação, eram arrancados e levados pelo vento, acabando soterrados.
Chegou então o momento em que Gucky, depois de mais de uma hora de esforço inútil, parecia não mais agüentar. Precisava urgente de um pequeno relê para conduzir energia na forma certa até o computador. Já achara quatro relês daquele tipo, mas todos estragados. No meio daquela procura de rebentar com os nervos, chegou aos seus ouvidos o grito de socorro dos coitadinhos dos filhotes naquela primeira caverna de oitocentos metros de profundidade.
Gucky, por que você não vem mais nos visitar? Estamos sozinhos e temos medo.
Transmissões telepáticas de filhotes de ratos-castores, cujos pais estavam mortos.
Seu pequeno sol apagou, Gucky. Não nos abandone, Gucky.
O pequeno sol era um farolete sobressalente que Gucky havia deixado com eles na toca escura. O enguiço do farolete era um mistério para Gucky.
Mas não posso sair daqui”, pensava Gucky, desanimado.
Tinha, no entanto, um meio certo de tranqüilizar os animaizinhos: a hipnose. Assim, em poucos segundos, depois de receberem os influxos cerebrais de Gucky, cessaram os pedidos de socorro e todos ficaram tranqüilos na toca.
Gucky continuou em sua faina de procurar pelo relê entre os ferros retorcidos de seu SJ-09. Mas um tremor e uma forte vibração do solo deixaram Gucky assustado. Vagabundo sofria assim seu primeiro terremoto.
Devido à força de atração do sol, devido à força centrífuga proveniente da desmesurada rotação do planeta, Vagabundo estava em vias de se desintegrar estruturalmente. Este processo poderia levar semanas, mas poderia também acarretar a destruição do planeta em poucos dias. Gucky acreditava mais nesta última hipótese. Havia alguns minutos que as entranhas do planeta apresentavam um movimento diferente, com uma série de abalos. Os escombros do jato balançavam de um lado para o outro. Gucky se agarrou numa trave de ferro e, apesar da refrigeração de seu uniforme espacial, sentiu como aquele pedaço de metal estava quente.
Finalmente, os tremores foram rareando até cessarem. Sem saber como, Gucky se sentiu novamente impelido por uma força irresistível a continuar procurando as peças de que precisava, no montão de ferro velho. Sabia que sua máquina tinha mais de duas dúzias de relês, mas onde se localizavam? No meio das ferragens retorcidas ou afundados na areia quente?
Sua luta renhida contra a fatalidade revitalizou de uma maneira extraordinariamente benéfica seus dons telecinéticos. Acabou revirando todo aquele montão de sucata como se fosse um punhado de folhas secas. Peças pesadas eram atiradas para o ar, sem seu contato manual. Depois chegou a vez da massa de areia quente que encobria uma boa parte do SJ-09. Mais forte do que a violência do furacão foi o poder telecinético de Gucky, empurrando a areia contra a tormenta.
Gucky ficou alegre quando viu três destes objetos tão importantes para ele, brilhando sob a luz do farolete.
Dois dos relês estavam cem por cento.
E agora, vamos ao trabalho — disse para si mesmo.
6



Felizmente a positrônica de bordo possuía os dados registrados por Walter Grimpel, quando da erupção energética em Vagabundo. Gucky ficou exuberante; tinha a sensação de ser Natal e de haver recebido o maior presente de sua vida, no momento em que pegou a folha plástica com todos os dados. Mas seu entusiasmo desapareceu como uma bolha de sabão que explode no ar.
O que eu vou fazer com isto, agora? Como vou achar o equador, o ponto a quarenta e três graus, seis minutos e vinte e um segundos de longitude?
Estava banhado em suor, apesar do bom funcionamento do ar condicionado em seu uniforme. Olhava nervoso para a fita perfurada do computador. Atirou-a subitamente num canto.
Todos os bons espíritos me abandonaram. Erupção energética! Bell, como é bom que você não esteja presente, pois do contrário, como você iria caçoar da minha burrice! Que importância tem para mim o local determinado por Walter Grimpel? Não pode existir mais nada onde vulcão, terremoto e furacão devastaram tudo.
Desanimado, olhava para o computador. Não havia dúvida de que realizara uma grande façanha, fazendo funcionar o computador de bordo por meio de intercalação de peças quebradas e procuradas nos escombros. Este mesmo computador devia saber o lugar exato onde se precipitara de encontro ao solo, pois até este momento, tudo estava funcionando no SJ-09.
Uma outra tira perfurada caiu da fenda de saída. Gucky apanhou-a rápido.
00:00,09; 171:38,56 — leu ele.
Além disso, outros dados mostravam que ele fizera a desastrosa aterrissagem ao sul do equador. Seus olhos de rato se arregalaram e ficaram fixos no computador. Somente ele podia salvá-lo daquela situação desesperadora. Primeiramente devia ter armazenado todos os dados normais do planeta, como também deveria ter registrado toda e qualquer alteração havida nos instrumentos de medição durante o vôo ininterrupto para Vagabundo.
Como se tivesse um ser humano diante de si, Gucky conversava com o computador:
Se você me deixar na mão, será certamente o culpado pelo monumento que será erguido na Terra em minha homenagem, nos próximos dias. Preste atenção numa coisa, agora...
Mas, com o máximo de concentração, Gucky tentava buscar uma solução... A pergunta que queria fazer ao computador era extremamente complicada. Com base nas alterações sofridas pelo planeta, a positrônica de bordo devia calcular de que lugar de Vagabundo se dera o deslocamento que alterou a órbita. Além disso, queria saber onde encontraria a estação que fornecia esta energia toda.
Gucky não tinha dúvida de que o destino de seu planeta pátrio estava selado e de que não havia nenhum poder no momento capaz de evitar que seu mundo se projetasse de encontro ao sol. É claro que Gucky não queria participar do destino de Vagabundo. Iria tentar chamar a atenção de Rhodan com algum grito de socorro, questão de vida e morte para ele e para os poucos filhotes de rato-castor que ainda estariam vivos no fundo daquela caverna, caso os últimos tremores de terra já não os tivessem soterrado.
O pensamento nos filhotinhos fez com que Gucky se afastasse um pouco do computador. Afinal, a resposta às duas perguntas levaria bem meia hora.
Correu para o depósito. Lá estavam ainda no armário os vinte e nove uniformes, todos sem o minicomunicador. Amarrou-os com um cordão plástico e teleportou-se com eles. Rematerializou-se na toca dos quinze ratinhos. A caverna suportara, sem maiores danos, todos os tremores, mas a galeria que conduzia para a superfície estava tapada.
Nenhum deles cumprimentou Gucky, pois sua forte dose de hipnose, transmitida para acalmar os coitadinhos, ainda estava fazendo efeito. Desligou seu farolete, abriu o capacete e levantou a cabeça. O rato-castor respirou aliviado o ar fresco. Os pais daqueles filhotinhos, que os abrigaram nestas profundidades, deviam estar prevendo o que iria acontecer com o planeta. Mas, mesmo naquela profundidade de oitocentos metros, não haveria mais nenhum animal vivo se o turbilhão de areia incandescente da superfície não tivesse entupido todas as entradas da caverna, criando assim uma barreira ou isolamento contra o ar superaquecido. Os tremores do planeta, por sua vez, contribuíram para que o pouco estoque de ar respirável não acabasse de todo.
Mas, por quanto tempo duraria este ar?
Gucky ligou de novo o farolete e a forte luz cobriu todos que dormiam. E durante o sono receberam novos influxos hipnóticos para continuarem dormindo.
Quem dorme e quase não se movimenta, consome menos oxigênio e sofre menos com a fome”, refletiu.
Teleportou-se depois de volta ao SJ-09. Chegou na hora em que o computador de bordo estava dando a resposta.
Alteração de órbita se dá a partir da zona equatorial; probabilidade de 97,64 por cento. Distância hipotética do local da aterrissagem: 672 quilômetros; probabilidade de 80,05 por cento. Situação da estação energética, possível a uma profundidade entre 5 a 15 quilômetros. Direção desta estação: exatamente para o leste; probabilidade de 97,64 por cento.
Gucky memorizou todos estes dados. As porcentagens não o deixaram muito tranqüilo. Teve que confessar que um jato moderníssimo, apesar de todo seu desempenho tecnológico e de todas as suas soberbas instalações, em casos de acidente, se positivava como um primitivo barco de salvamento no meio de um oceano tormentoso.
Fez seus preparativos com muito cuidado. Deu muita atenção à seleção das armas de raios energéticos que levaria. Apanhou duas pistolas energéticas e uma de raios térmicos. Depois fez a revisão de todo seu uniforme espacial. Com todo estoque possível de energia e ar, teleportou-se dos escombros do SJ-09 para mais ou menos 670 quilômetros a leste.
Como uma folha seca, foi apanhado pelo furacão incandescente ao rematerializar-se. Rodopiou várias vezes no meio da areia quente, sem poder ver nada. Teve de recorrer a suas forças telecinéticas para alcançar o chão. Com os geradores funcionando a toda força, ligara todos os envoltórios de proteção. Deixou de fazer uso de seu farolete, pois, embora fortes, os raios de luz não penetravam mais de dois metros.
Quase não conseguia mais parar de pé, quando se apercebeu que estava sendo vítima de uma coação moral, como nunca sentira antes. Lembrou-se da perigosa aventura que ele, Rhodan e Sengu suportaram, relativamente bem, em Bárcon. Lá, em luta com os invisíveis, quase que sucumbiu com uma dor de cabeça maluca. Mas aqui era diferente, muito diferente. Com as forças da telecinese ia rompendo caminho, apesar da areia quente do furacão. E aguçando os dons telepáticos, procurava determinar a direção de onde vinha aquela coação moral.
Gucky não sabia nada da terrível descoberta do Dr. Innogow, a “energia orgânica”, e nem a percebia no momento em que, sob a forte proteção do uniforme, seu pêlo eriçou-se.
Gucky tinha a sensação de que, de segundo a segundo, ia ficando desorientado. Até mesmo a faculdade telepática de achar o rumo, sem o uso dos olhos, foi-lhe diminuindo.
Em compensação, sentia com certeza que não estava sendo atacado e exatamente esta sensação o tornava mais irritado.
A coação moral lhe vinha de dezoito direções diferentes. Sabia perfeitamente disso, só não sabia o motivo e como.
Não havia ninguém em Vagabundo que soubesse da existência de dezoito espécies de guindastes — na realidade enormes antenas — de mais de cem metros em construção de metal, enterradas no chão em locais diferentes.
Quando a compressão mental se tornou insuportável, Gucky teleportou-se um pouco mais para frente, na direção do leste. Ali a compressão era bem mais branda.
Compressão...? — disse Gucky para si mesmo, chegando à conclusão de que se tratava de impulsos de extraordinária violência, que, porém, não o atacavam, apenas lhe roçavam o pêlo.
Desgraçado — praguejou na sua linguagem crua. — Em toda parte surgem coisas novas. Que vá tudo para o inferno.
Mas ele não se chamaria Gucky, se não desse rédeas à sua curiosidade. Tentou esquecer a coação ou a compressão mental para poder estudar os impulsos.
E conseguiu descobrir telepaticamente de onde vinham.
Dali de trás!
Dizendo isto, desapareceu. Quando se rematerializou, estava gritando de dores e, não as podendo suportar, atirou-se na areia quente do chão. Foi tiro e queda: na mesma hora se viu livre de todas as dores.
Que coisa esquisita! — exclamou admirado, levantando-se de novo.
Mas mal se ergueu, as dores se manifestaram.
Lançou-se de novo no chão, de barriga para cima, para poder ligar o farolete.
Há algo de estranho nestas dores!”, refletiu.
Contudo os raios do farolete não penetravam muito no turbilhão de areia. Por isso, Gucky começou a se arrastar pelo chão, tendo o cuidado de não se erguer.
Subitamente descobriu diante de si algo por demais esquisito. Já havia visto coisa semelhante. O próprio Bikre lhe mostrara: era uma antena com a forma de um guindaste. Gucky não teve coragem de tocá-la, apesar de sua curiosidade sem limites. Setenta anos de aprendizagem com Perry Rhodan lhe ensinaram que cautela nunca é demais, se bem que Gucky às vezes passasse da conta, chegando às raias da temeridade.
A antena sobressaía da terra uns quatro metros. Gucky viu como o furacão cada vez mais levava a areia para longe, deixando o corpo da antena sempre mais a descoberto.
Que bandidos do espaço plantaram este negócio aqui? — indagou apreensivo.
Levantou o braço direito, tentando tocar na antena. Mas com um grito de dor, teve que baixá-lo na mesma hora. Como que atingido por uma força irresistível, a compressão mental se abateu de novo sobre ele.
Foi-lhe necessário mais tempo para se recuperar. Não chegou a fazer outra tentativa, mas continuava sondando o misterioso impulso, sem que toda sua concentração telepática obtivesse resultado. Um leve zunido de alerta soou em seu uniforme espacial. Era a instalação de ar condicionado. O pouco de ar que ainda restava em Vagabundo começou a ficar demasiadamente quente. O próprio termômetro externo não funcionava mais.
Santa Via Láctea! — disse Gucky excitado — logo, logo a areia a meus pés vai começar a fundir.
Olhou para os registros na aba inferior do capacete de plástico. A temperatura dentro do uniforme era de vinte e oito graus positivos. Acionou então os pequenos geradores diretamente para o ar condicionado, deixando apenas um ligado com o envoltório de proteção, que afastava dele a areia incandescente.
Segundos depois, silenciou o zunido de alarme do uniforme e Gucky recomeçou a procurar de onde vinham os impulsos. Mas, novamente nenhum resultado, até que finalmente ouviu qualquer coisa. Abaixo dele, bem fundo... um impulso muito fraco.
Como é que podia saber que acabara de detectar um Ogro, um produto híbrido do técnico com o orgânico, coisa nunca vista!
Espera um pouco, meu amigo, você vai ver alguma coisa!
Gucky se teleportou na direção dos impulsos, a 10 mil metros abaixo da superfície candente de Vagabundo, aterrissando numa imensa caverna, toda escura. A luz da lanterna lhe permitiu ver alguma coisa e chegou a se assustar com o gigantismo da maquinaria que ali estava diante dele. Nunca vira coisa semelhante na Terra. E o mais esquisito é que nenhuma máquina fazia o menor ruído. Tudo num silêncio que simbolizava morte e destruição.
Gucky sentiu que uma onda de pavor o tentava tragar e seu primeiro pensamento foi teleportar-se e fugir daquele monstro de metal. Mas, como sempre, sua curiosidade se sobrepunha ao medo. E depois, então, se lembrou de seu grande amigo — Perry Rhodan — e este jamais fugiria de máquinas negras trabalhando em silêncio.
Onde estava, porém, o ser invisível cujos impulsos ele sentira através de dez mil metros de rocha e terra?
Gucky estava parado diante de um conjunto de instrumentos mais altos que uma casa e o leque de luz do farolete pesquisava em volta. A duzentos metros acima de onde se encontrava, o teto daquela catedral dos maus espíritos, se fechava em abóbada. O cone luminoso varria a escuridão, até se diluir ao longe. Foi aí que o rato-castor teve uma idéia exata da terrificante extensão daquela galeria de máquinas. A procura pelo ser misterioso, porém, fora infrutífera.
Teleportou-se até a distância que o cone luminoso cobria. Quase perdeu o fôlego, quando, paralisado de estupefação, deu com uma construção camuflada que lhe lembrava um verme ciclópico. Num semi-círculo de mais ou menos cinqüenta metros de diâmetro, Gucky estava envolvido por este verme-monstro. Mas nem mesmo assim conseguiu captar algum pensamento ou qualquer outro impulso.
Não queria confessar de que maneira este fenômeno mais do que estranho o inquietava. Somente pôde dominar esta intranqüilidade com o argumento de que o “outro”, que ele percebera lá em cima aos pés da antena, estaria em condições de captar as irradiações de sua mente.
Mas Gucky não acreditava nisso. Teleportou-se mais vezes de um canto para o outro e quanto mais procurava pelo ser misterioso, mais crescia sua intranqüilidade. Depois, um outro tremor se abateu sobre o planeta.
Gucky ouviu a primeira explosão catastrófica nas profundezas do planeta, quando já se tinha teleportado para a superfície lá fora.
Antes morrer carbonizado”, pensava ele, “do que ser sepultado vivo sob dez mil metros de pedra.
Por uma meia hora, que lhe pareceu uma eternidade, permaneceu lá em cima, na superfície, exposto à violência inaudita do furacão de gás que esfuziava na areia candente.
Tão repentino como chegou, o tremor do solo desapareceu. Gucky teleportou-se de volta para as instalações subterrâneas do imenso parque da esquisita maquinaria. Já estava mentalmente preparado para encontrar tudo destruído. Qual não foi sua surpresa ao constatar que tudo estava intacto. E mais uma vez, recomeçou a procura do ser invisível, do “outro”.
A situação foi ficando cada vez mais desagradável para o rato-castor, que não compreendia por que não estava sendo atacado, pois seu farolete já havia atingido o objetivo. Não desistira do seu fantástico plano de fazer explodir as enormes instalações e assim chamar a atenção de Rhodan, através das erupções energéticas, para o que estava se passando em Vagabundo. Mas, quanto mais estudava aquele complexo diabólico de construções desconhecidas, operando com um silêncio que causava calafrios, tanto mais difícil lhe parecia a execução do que planejara.
Já realizara mais de cem teleportações, ali nas entranhas do planeta, para examinar melhor o monstro técnico-orgânico. O relógio lhe mostrou quantas horas haviam passado. E não havia necessidade de que ninguém lhe dissesse que, neste meio tempo, o planeta Vagabundo se aproximara muito mais do sol e que o momento fatídico do choque estava próximo.
Teleportou-se mais uma vez e, inesperadamente, um forte impulso o atingiu. No mesmo instante determinou o lugar de onde vinha, vendo, à sua frente, uma carcaça negra e assimétrica. Tentou comunicar-se, mas não recebeu nenhuma resposta. O impulso continuava. Chegou mesmo a desconfiar dos seus sentidos.
Captava pensamentos, mas por que não recebia resposta? E por que não estava em condições de entender os pensamentos recebidos?
Lembrou-se novamente de Bárcon, mas lá, sentira nitidamente que os impulsos de pensamento que não conseguia entender, lhe eram francamente hostis. Aqui, porém, captava apenas os impulsos e nada mais.
O cone luminoso do farolete se detinha imóvel na carcaça assimétrica de uns dois metros de altura e uns cinco de comprimento. Foi com a luz forte do farolete que Gucky percebeu que desta instalação, desta carcaça negra e misteriosa, partiam ligações para todos os lados.
Concentrou a luz no centro da carcaça, concentrou-se para aumentar suas forças telepáticas e endereçou à estranha fonte de impulsos a intimação de se pôr em contato com ele.
Mais uma vez, sem resultado. O impulso continuava invariável.
Você que tenta estupidamente jogar futebol com o planeta — ameaçou-o Gucky — espera só uns segundos.
E então, os raios energéticos de sua arma penetraram na carcaça e atingiram o mecanismo. Neste mesmo instante, Gucky parecia ofegante, não acreditando no que seus olhos viam. Desligou o farolete. Continuava somente o jato contínuo da pistola energética, mas estes raios não destruíam a carcaça. Atravessavam-na, sem destruí-la. E, em algum lugar, no centro deste mecanismo, havia algo que simplesmente resistia aos raios energéticos. Uma coisa tão esquisita, que Gucky pensou ser vítima de alucinações.
Apareceu, no interior do mecanismo, um singular ponto amarelo, que, se estufando, crescia cada vez mais. E este ponto amarelo era exatamente o que absorvia os raios energéticos da pistola de Gucky.
Será que começaria mais um daqueles tremores planetares?
Gucky mantinha o gatilho apertado e o jato energético continuava ininterrupto de encontro ao ponto amarelo que já se inflara, ficando do tamanho de uma bola de futebol.
Você ou eu! — e Gucky ainda usava com todas as forças os seus dons telepáticos. — Apresente-se, manifeste seus pensamentos!
Mas um Ogro não é telepata. Só pode comunicar-se através das ondas orgânicas dos monstros. O Ogro tomava os impulsos telepáticos de Gucky como energia, mas não como um meio de comunicação. E o que não conseguia assimilar em sua existência orgânica, transferia para a parte técnica.
Porém, a energia da pistola de Gucky lhe era estranha e mesmo mortífera. Por isso, Gucky sabia a razão do grande estremecimento que parecia um tremor de terra. O Ogro se contorcia, trovejando enfurecido.
Ao se teleportar, Gucky ainda viu o início de uma enorme descarga energética. O salto do rato-castor fora de dois mil quilômetros. No momento da rematerialização, ainda teve que fechar os olhos, ofuscados por uma terrível claridade amarela, que penetrou no espaço por dezenas de milhares de quilômetros.
Perry Rhodan, estou chamando você!
Foi o pensamento de Gucky, quando se teleportou para a caverna dos últimos filhotes de ratos-castores, enquanto o planeta era atingido por uma série de explosões catastróficas.

* * *

No mundo dos monstros, porém, um Gal entrava em contato com líderes de grupo, naquele momento:
Nossa tentativa sideral fracassou no último instante. O melhor Ogro que construímos, falhou totalmente no último estágio.
7



A revisão rotineira de todos os registros de bordo, feita em fins de setembro de 2.044, avisou que um importante dado de um computador deixou de ser observado. Logo após o ano-novo, todos os registros de bordo foram novamente estudados em Terrânia, em longos trabalhos de pesquisa. Entre eles, o diário de bordo de um cruzador leve, que em setembro do ano anterior havia estado no planeta Vagabundo.
Na noite de 8 para 9 de janeiro de 2.045, Perry Rhodan foi despertado pela comissão examinadora, que, usando os maiores computadores, investigara, um por um, todos os diários de bordo das espaçonaves acidentadas.
Rhodan acordou Reginald Bell e Allan D. Mercant, chefe da Defesa Solar, convocando também um certo grupo de cientistas, que tiveram de interromper o sono e se reunirem sob a direção do Dr. Innogow, o tal que ainda quebrava a cabeça com a misteriosa pedrinha encontrada por Grimpel no planeta Vagabundo. Também na casa do responsável pelo depósito 18 Ômega, soou o alarme. O homem correu poucos segundos após para o depósito, procurou desesperado por um refletor de ondas, desmontado em setembro do ano anterior de um cruzador leve. Achando-o, dirigiu-se às pressas para o escritório de Perry Rhodan.
Para o chefe! Santo Deus — dizia ele. — Que vai fazer com esta peça escangalhada?
Mas a peça não estava escangalhada. Funcionou maravilhosamente com uma declinação de apenas 0,0005.
E nesta conferência de emergência, ouviu-se de repente a voz do plantonista da maior estação de rastreamento de Terrânia:
Sir, violentíssima erupção energética em Vagabundo. O planeta deve estar em chamas e pode explodir a qualquer hora.
O semblante de Rhodan se anuviou. Bell empalideceu. E os dois homens se entreolharam apavorados. A mão de Rhodan tremia sobre o botão de alarme...
Alarme para o controle da Frota Solar!
A imagem no videofone ficou estável. Ao lado estava também a tecla que ligava o escritório com a estação de rastreamento e a de hiper-rádio.
Em qual espaçonave se encontram os mutantes... com teleportadores a bordo nas proximidades do planeta Vagabundo? Pergunta urgentíssima.
Ao ouvirem esta pergunta, uma dúzia de homens prenderam a respiração. A resposta veio breve.
Sir, não há nenhuma nave, com ou sem teleportadores a bordo, naquela região.
Qual é o cruzador leve mais próximo do planeta?
O Burma, com o comandante Joe Pasgin em vôo para...
Obrigado — disse Rhodan.
Desfez a ligação e virou-se para o videofone que estava em ligação com a estação do intercom.
Você ouviu nossa conversa?
Perfeitamente, chefe!
Ordem de emergência para o cruzador Burma. Rota de Vagabundo, o mais rápido possível. Gucky está em perigo de vida. Chame também Árcon III. O cérebro positrônico de Árcon deve também transmitir minha ordem, imediatamente, ao Burma. Assim que conseguir ligação para o comandante Pasgin, avise-me. Transmita-me imediatamente toda e qualquer referência importante sobre Vagabundo. Fim.
Desfazendo a ligação com a estação de intercom, recostou-se no espaldar da poltrona e cerrou os olhos.
E nós dois estávamos crentes de proporcionar uma grande alegria a Gucky, dando-lhe estas férias — disse Bell, abatido. — Se não estivesse nesta reunião, gostaria de dar uns berros...
Com uma certa aspereza, Rhodan o atalhou:
Você quer me complicar ainda mais as coisas?
O volumoso Bell não levou a mal a advertência. Inclinou-se para frente, esticou o braço diante do amigo e fez a ligação para o espaçoporto.
Decolagem de emergência para a Drusus. O chefe e eu estaremos a bordo. Fim.
Depois olhou firme em volta e disse com determinação:
Os senhores irão conosco. Por favor, meus senhores.
Ao se levantar, ligou o minicom de pulso. Estava-lhe, pois, garantida uma comunicação direta com a estação de hiper-rádio.
Não houve nenhuma precipitação na sala de conferência, mas também não se perdeu nenhum minuto.
Onze minutos depois, estavam todos entrando pela escotilha central da Drusus, nave capitania de Perry Rhodan e, com 1.500 metros de diâmetro, a maior nave da Frota Solar.
Quando o supercouraçado, com seu mecanismo de propulsão roncando mais que o trovão, se ergueu de Terrânia, ainda envolta no véu da noite, lá em Vagabundo estava Gucky, segurando um filhotinho de rato-castor, que ele mesmo, com os fluxos hipnóticos, fizera adormecer.
Se meu amigo Perry Rhodan não ouviu este foguetório todo, então estamos perdidos. Mas, durma sossegado, não se preocupe com nada. O único que está preocupado é Perry Rhodan. É um sujeito maravilhoso. Um homem assim, só existe uma vez no mundo. E ele vai nos tirar daqui.
E Gucky acariciou o animalzinho.

* * *

O Tenente Hendrik Olavson, verdadeiro gênio em vôo espacial, desligou a tecla do intercom, quando ouviu do alto-falante do receptor de hiper-rádio a expressão: “Ordem de emergência”.

Ordem de emergência ao cruzador Burma! Vôo imediato para Vagabundo. Violenta erupção energética. Gucky se encontra em Vagabundo. Deve estar em grande perigo.
Assinado Rhodan.

O Burma, um cruzador médio de cem metros de diâmetro, da Frota Espacial, saíra há quinze minutos de uma transição do hiperespaço para o espaço normal. Seu destino agora era 456 LL-4, planeta do Império Arcônida, para substituir uma guarnição terrana lá estacionada.
O comandante do Burma, Joe Pasgin, foi arrancado da cama pelo alarme.
Olavson — gritou ele, assim que pulou da cama.
Olavson estava na poltrona do piloto e interrompeu seu chefe.
Burma está seguindo nova rota. A positrônica já está trabalhando para nova transição em cinco minutos.
Certo — disse o comandante Pasgin, enquanto vestia o uniforme.
Mais uma vez ecoou o som saído do alto-falante do telecom. Era a voz inconfundível do cérebro positrônico de Árcon III. Deu a mensagem de emergência, com as mesmas palavras.
Meu Deus”, pensava Joe Pasgin no caminho para a central, “se Árcon III repete a mensagem de alarme, não deve sobrar mesmo muita coisa de Vagabundo.”
O Tenente Olavson nem olhou para o lado, quando o comandante chegou à cabina central. Suas mãos estavam ocupadas em pôr Burma numa outra rota. Fazia-o com a naturalidade de uma criança se divertindo com seus brinquedos. Parece que tinha um sexto sentido para lhe dizer sempre o que tinha de fazer. E sempre se positivava que suas reações eram certas.
O computador de bordo apresentou os dados para a transição. Olavson apanhou a folha plástica e a colocou à sua frente. Executou todas as ligações para a transição e não se esqueceu de atingir, antes do salto, a velocidade necessária. Não gostava de iniciar o salto para o hiperespaço sem mais nem menos. Ele, que aliás era tão ousado, achava esta operação demasiadamente perigosa.
O Burma, com uma tripulação prevista para cento e cinqüenta homens, pertencia ao tipo de nave com uma potência de aceleração fora do comum, ultrapassando a velocidade da luz em questão de cinco minutos. Claro que para isto tinha de dispor de um mecanismo de propulsão superpotente, o que o colocava entre os cruzadores pesados e as naves da classe Solar. Isto sem falar naturalmente nos outros equipamentos, como principalmente seu poder de fogo.
Espaçonaves da classe Estado eram em geral naves de reconhecimento e, em virtude de seu poder de superaceleração, estavam em condições de atingir os locais mais distantes num tempo recorde.
Agora, porém, o Burma tinha de ser mais veloz do que nunca. Tratava-se de salvar Gucky. Não havia ninguém entre os tripulantes que não conhecesse Gucky. Todos já haviam se divertido muito com seus golpes magistrais e sabiam da sua coragem e dedicação sem limites, comprovadas a todo momento. Além disso, muitos homens deviam a vida ao sangue-frio e à determinação do rato-castor.
Agora é ele quem está em apuros — disse Olavson amargurado, enquanto a calculadora do computador dava, com sua voz metálica, as distâncias-tempo para a transição.
Setenta e dois segundos antes da transição, o posto de radiotelegrafia ligou seus alto-falantes:
Estação de hiper-rádio de Terrânia — anunciou o radioperador. — Atenção para o Burma. Perigo iminente numa aterrissagem em Vagabundo. O planeta está em vias de se projetar de encontro ao sol. Erupções energéticas na zona equatorial aceleram este choque entre Vagabundo e seu sol. Não aterrissar. Proibição do chefe. Instrução do administrador à tripulação do Burma: pensem em Gucky com toda a intensidade, quando o Burma estiver circunvoando o planeta. A pedido do administrador. Assinado Bell.
Faltavam ainda quinze segundos para a transição e Burma voava já com 0,7 da velocidade da luz.
Hendrik acionou o sincronizador central e transmitiu à positrônica todos os dados de navegabilidade e funcionamento do conjunto de propulsão.
O jovem tenente e o experimentado comandante se entreolharam por um instante. Estavam cientes do que os esperava.
Que calamidade! — exclamou Joe Pasgin. — É exatamente o pobre do Gucky que tem de estar preso neste caldeirão do diabo? Se é que ainda esteja vivo...
Deu-se então a transição.
No ponto zero, desapareceu o espaço e com ele o Burma, para rematerializar-se no espaço normal a anos-luz do local do salto.
Da tela panorâmica irrompiam intensas faixas de luz ofuscante, enchendo a sala de comando. O Burma saíra do hiperespaço entre o sol e o planeta. Distância do sol: 84 milhões de quilômetros; distância do planeta: 9,5 milhões.
Não havia terrano que pudesse gostar destes vôos mais ou menos próximos de sóis, independente de suas características. Nunca se estava seguro em sua proximidade e os registros automáticos do Burma reagiram de pronto ao perigoso campo de gravitação, que puxava sensivelmente o aparelho, com um zunido selvagem dos superpotentes motores de propulsão.
Na cabina de comando não se trocou uma palavra. Do posto de rádio veio a seguinte mensagem:
Comunicação de Terrânia: o chefe está a caminho de Vagabundo com a Drusus.
Pasgin, comandante do Burma, apertou o botão geral da intercomunicação de bordo:
Pensar intensamente em Gucky. Nenhum dos cento e cinqüenta homens da tripulação estranhou o aviso. Não havia um que não tivesse já presenciado maravilhas dos dons parapsicológicos de Gucky.
O Burma devorava o espaço em direção ao planeta, com os motores a toda, devido à forte atração do sol.
Por sua vez, Vagabundo parecia também convertido num pequeno sol. Sua superfície ardia em chamas.
Erupções de gás, como se fossem protuberâncias, lambiam o único planeta daquele sistema. E os homens a bordo do Burma sabiam o que significavam as figuras estranhas na grande tela. Não precisavam ser astrofísicos para isto.
Vagabundo estava em vias de expelir para o espaço o último resto do ar candente. Seria a última reação, antes da explosão-monstro e da precipitação contra o sol.
Hendrik Olavson acelerou a nave ao máximo, ligando em série três geradores energéticos para dar maior resistência ao envoltório de proteção. Não podia supor o que o esperava, quando o Burma começou a sobrevoar o planeta a alguns milhares de metros de altura.
Joe Pasgin repetiu sua exortação:
Pensar intensamente em Gucky. Como em todo vôo rasante de encontro à superfície de um corpo celeste, dava a impressão de que o infeliz planeta Vagabundo se atirava célere contra a potente espaçonave. Cada vez maior, o planeta condenado à morte; cada vez mais dantesco, o espetáculo da destruição pelo fogo.
Será que ele ainda está vivo? — perguntou alguém desesperado na cabina de comando.
A cena de horror chegou ao seu clímax. O piloto Hendrik Olavson ouviu como seu comandante, quase ofegante, perguntou:
E o serviço de rastreamento?
Continua funcionando desde o fim da transição — foi a rápida resposta.
Os homens da tripulação, que já haviam presenciado tanta coisa maravilhosa na galáxia, contemplavam fascinados um cone amarelado com a ponta para baixo.
Energia amarela, era um tipo de expressão energética que não conheciam ainda.
Não chegue perto demais! — recomendou o capitão ao seu piloto.
Respondendo com um simples sinal da cabeça, continuou o vertiginoso vôo rumo à superfície de Vagabundo.
Ordem do comandante, através do intercom:
Vestir os trajes espaciais!
A 49 mil metros de altura, Hendrik diminuiu a velocidade e mudou de rumo. A positrônica de bordo continuava recebendo dados sobre o planeta moribundo.
Nada ainda — disse Pasgin.
Não havia ainda nenhum sinal da vida do rato-castor.
Pergunta do comandante Pasgin ao operador de rádio:
O chefe já está informado de que estamos sobrevoando o planeta?
Perfeitamente. Atenção! Está entrando um comunicado da Drusus. Pronto, já está aqui: procurem Gucky, tentem encontrá-lo, por tudo que nos é sagrado neste mundo!
Era a própria voz de Rhodan, um homem que temia pela vida de um de seus amigos e que via agora que não poderia fazer nenhum milagre.
Gucky... — disse Olavson, pronunciando o nome bem silabado. — Gucky — repetiu ele, sacudindo a cabeça desanimado.
Fortes tremores planetares da maior intensidade — veio a informação deprimente do rastreamento. — Se continuarem, Vagabundo vai deixar de existir dentro de dez horas.
Um outro da central de comando interveio:
Em dez horas? Muito antes. A excessiva velocidade de rotação do planeta vai rebentar com ele em menos de quatro horas.
O cruzador Burma estava circunvoando um verdadeiro inferno, um mundo sem camada atmosférica, onde o forte conteúdo de oxigênio do solo expelia, em forma de explosões de gases incandescentes, os componentes do ar. Somente as ligas metálicas mais nobres podiam resistir à altíssima temperatura reinante.
O cruzador esférico iniciava sua quinta circunvolução do planeta e o comandante Joe Pasgin ouvia a voz desanimada de Olavson:
Ainda nada!
Mais uma vez, o comandante voltou a repetir a mesma exortação no microfone do intercom:
Pensar mais intensamente em Gucky...!
E, no mesmo instante, assustado, dando um grito e esticando o braço, o comandante apanhou um objeto atirado por Gucky!
Pegue, Pasgin, e trate com muito cuidado o meu filhotinho!
Gucky estava ali e, no mesmo instante, já havia desaparecido.
Frear, Olavson! Fazer com que a nave fique parada — ordenou Pasgin, não podendo conter a alegria.
Mas o que estava em seus braços?
Ao lado de Pasgin, estava Michel Dung, que não conseguia fechar a boca. Dung tinha também alguma coisa nos braços.
Santa Via Láctea! — Pasgin deu um grito de alegria. — Isto aqui é um pequeno Gucky...
E é bonitinho, não é? — disse Gucky, que já havia executado a segunda teleportação, voltando com mais quatro filhotinhos. — Isto é um Guckyzinho fêmea, Joe...
Falou e desapareceu novamente.
Na sala de comando do Burma, deu-se uma cena que a Frota Solar, em toda sua existência, jamais presenciara. Seis oficiais estavam ali postados, segurando filhotinhos, enquanto Gucky ia e vinha trazendo mais daqueles cômicos animaizinhos. Rematerializava-se numa caverna a mais de oitocentos metros de profundidade. Acima dele, o pavor e a morte reinavam.
De repente, alguma coisa se chocou contra o capacete plástico de Gucky, atirando-o ao chão. Era tarde para qualquer movimento. Mas não tão tarde para se teleportar e afastar-se alguns metros. Quando dirigiu o cone de luz do farolete para ver o que foi que o derrubou, viu que o teto da caverna estava se arqueando e rachando.
Em um ou dois segundos, terra e pedra se abateriam sobre Gucky e os filhotinhos que ali dormiam. Mais do que depressa, começou a agir. Um, dois, três, quatro, cinco... ainda prendeu o sexto entre as pernas e mais um, no último instante, e com sete filhotinhos teleportou-se para o Burma, enquanto a caverna desabava, sepultando vários animaizinhos.
Quantos são ao todo? — foi sua primeira pergunta, depois de puxar para trás o capacete e olhar em volta radioso.
Vinte e oito, Tenente Gucky! — o comandante Joe Pasgin usara espontaneamente o grau hierárquico de Gucky.
Vinte e oito... entre alguns milhares — disse Gucky, cansado, perdendo a expressão de alegria. — Vinte e oito... e tudo isto, só porque um bando de aventureiros do espaço queria fazer suas experiências no meu planeta.
Sem que Gucky o notasse, o comandante transferiu a ligação do intercom para a cabina de radiotelegrafia. Lá se sabia perfeitamente o que o comandante Pasgin pretendia fazer, isto é, que através do hiper-rádio, Perry Rhodan, na Drusus, ouvisse tudo que Gucky queria dizer.
Mas Gucky não disse muita coisa, pois subitamente constatou que o cruzador Burma ainda estava sobre o planeta.
Será que no final de tudo, nós todos temos que fazer uma aterrissagem no sol, Pasgin? Temos que sair daqui imediatamente. Vagabundo pode explodir a qualquer minuto.
Está certo!
Hendrik tomou a observação de Gucky como uma ordem, e fez com que o Burma acelerasse imediatamente, quando uma muralha de luz ofuscante inundou a tela panorâmica. Alguns homens em pânico começaram a gritar.
No entanto, Olavson já tinha engrenado o sincronizador-mestre, entregando o Burma à positrônica de bordo.
Foram necessários muitos minutos até que todos os homens recuperassem a visão.
Onde está o planeta Vagabundo? — perguntou Pasgin apontando para a tela onde se via apenas o sol.
Explodiu — respondeu alguém chiando. — Acho que bombardeei demais com os raios energéticos aquele olho amarelo. Talvez tenha sido isso, Joe. Mas de qualquer maneira consegui chamar a atenção de vocês com estes “fogos de artifício”. Porém, só nos últimos instantes, tive a certeza de que aquela instalação diabólica nas entranhas do planeta iria provocar sua explosão. Não compreendo o que poderia ser aquele olho amarelo.
Ninguém o poderá compreender, como também ninguém saberá explicar como o planeta se transformou em luz e fogo.
Não estamos saindo do lugar, comandante! O Burma não aumenta a aceleração — disse Hendrik Olavson, alarmando o comandante e os homens na sala de comando.
No entanto, a julgar pelo zunido dos motores de propulsão que funcionavam com plena potência, a nave esférica já devia estar longe deste diminuto sistema solar.
Gucky levantou-se de um salto e foi para frente do aparelho de rastreamento, olhando a imagem dupla do oscilógrafo. Embora nada soubesse da teoria do Dr. Innogow, viu imediatamente o caráter parcialmente orgânico daquela energia, que apesar de tudo continuava ainda existindo, embora Vagabundo já tivesse explodido e desaparecido.
Transição direta do ponto em que estamos — gritou ele — temos que sair daqui.

* * *

Em meio do trajeto, entre o sol de Vagabundo e a Terra, o Burma entrou novamente no espaço normal.
Por favor, Joe — falou Gucky — não faça mais transição. Permita que os filhotinhos voltem primeiro a si. Você já avisou Rhodan onde ele nos pode encontrar? Faça-o, por favor! Eu vou para o local onde estão os animaizinhos, ver o que estão fazendo.
Apenas uma hora depois, Joe Pasgin chamou Gucky pelo intercom.
Que grupo de bagunceiros você trouxe cá para o Burma? Não são nada de filhotinhos inocentes, são é verdadeiros diabinhos.
No camarote que escolhera para repousar, Gucky viu, perplexo, na tela do videofone o rosto zangado do comandante, do que naturalmente não gostou.
O que meus filhotinhos fizeram, Joe? — perguntou Gucky um tanto incerto.
Exatamente dois dos seus filhotinhos inocentes penetraram na casa de máquinas três e acionaram a alavanca da instalação contra incêndio, deixando tudo mergulhado n’água. Como souberam de que maneira a instalação funciona? Será que podem ler o pensamento como você? Será que são também teleportadores e telecinetas? Acho que você se diverte muito com este bando brincalhão.
Eu...
Gucky não concluiu. O comandante estava recebendo uma mensagem.
Gucky — retomou o comandante já com voz ameaçadora — três destes diabinhos foram surpreendidos... Que houve? O quê? De novo? Onde? Com o que eles querem atirar? Com armas de impulsos energéticos? Santo Deus! Eu acabo estourando. Gucky, você ouviu tudo isto? Ponha este bando sob quatro chaves, ou eu me vejo obrigado a denunciá-lo em corte marcial!
Mas Gucky não estava mais em sua cabina. Saiu à procura dos seus irmãos de raça. Ao surpreender quatro filhotinhos brincando no depósito de gêneros alimentícios, onde haviam aberto um saco de farinha de trigo, atirando-a num turbilhão branco para dentro do poço de ventilação, e se divertindo a valer, ficou também zangado.
Mal acabara de botar sob cadeado os pequenos “malfeitores” e de lhes passar uma descompostura, ouviu de novo seu nome no intercom:
Gucky, que está acontecendo com o tubo de ventilação?
Não sabia de nada. Estava no encalço dos outros peraltas que em alguma parte da nave faziam das suas.
Gucky, aqui fala da sala de comando! — era a voz do comandante Joe Pasgin.
Gucky, já bem aborrecido, pegava um filhotinho no arquivo, onde todas as gavetas e prateleiras estavam vazias, havendo apenas um montão de tudo entre os móveis.
Gucky, Gucky — repetia o intercom. — Apanhamos um dos seus aqui, mas, excepcionalmente, este está mais ou menos quieto. Diga-me o que significa Og tule tu! Não pára de repetir isto. Será que ele quer comer alguma coisa?
Og tule tu? — repetiu Gucky, distraído. — Joe, isto quer dizer: eu preciso fazer...
O quê? — disse Joe exasperado. — Isso é o cúmulo, Gucky.
Mas Gucky não respondeu mais. Num salto transportou-se para o recinto onde já prendera a maior parte dos sobreviventes de Vagabundo, levando debaixo do braço o “aprendiz de arquivista”. Contou-os um por um. Eram vinte e sete. O último estava na sala de comando, repetindo a frase — Og tule tu. E Gucky estava de novo radiante, com o dente roedor à mostra.
O comandante Joe Pasgin haveria de ver como Gucky sabia resolver qualquer problema, inclusive o da peraltice dos filhotinhos.

* * *

Perry Rhodan e Bell fizeram o transbordo para o cruzador Burma.
Meu amigo...! — foi a palavra de saudação que Rhodan dirigiu a Gucky, numa expressão de alegria pelo feliz reecontro.
Quanto a Reginald Bell, não havia meios de tirá-lo do aposento onde Gucky prendera os vinte e sete filhotinhos. Pegou vários filhotinhos de uma só vez no colo, encantado com eles, fazendo mesmo sombra ao desvelo de Gucky.
Enquanto isto o rato-castor relatava os acontecimentos. Não embelezou nada, mas não omitiu também nenhum detalhe importante. Referiu-se com veemência aos estranhos seres, que desembarcaram em Vagabundo dos aparelhos de duas fuselagens e ali construíram as enormes instalações que acabaram destruindo o planeta.
Então devemos estar preparados para enfrentarmos esta raça estranha — disse Rhodan pensativo, quando Gucky terminou seu relato. — inteligências que destroem inescrupulosamente as outras, nunca me são simpáticas.
E como devem então ser simpáticas para mim, Rhodan... — disse o rato-castor, cheio de amargura. — ...estes assassinos!
Perry Rhodan se abraçou com Gucky, o que aliás lhe era um gesto muito raro.
Gucky, ninguém deve permanecer no ódio, meu amigo, o ódio é venenoso. Quem sabe, estes monstros não tiveram diretamente a intenção de matar ninguém. Talvez olhem as coisas de um modo bem diferente. Mas tudo isto haveremos de pôr em pratos limpos, quando nos defrontarmos com eles. O mais importante, porém, é que seu povo, seus irmãos de raça não se extingam. Salvou um bom número de seus irmãos. Você vai ver como eles encontrarão em Marte uma nova pátria e continuarão lá o que eram antes: um povo unido. Gucky, eu me orgulho de você.
Gucky estava muito comovido e para não se deixar dominar pelo sentimento que o invadia, respondeu brincando:
Não deixe Joe Pasgin saber que nós os estamos levando para Marte, Perry. Ele fica maluco quando pensa nos filhotinhos e só se acalma com uma expressão, que deve ter uma força hipnótica para ele...
E como é esta expressão, Gucky? — perguntou Rhodan.
Og tule tu — respondeu Gucky, piscando o olho. Quando ouviu, porém, a gargalhada de Rhodan, teve certeza de que o chefe lhe havia lido o pensamento.
Malandro!... — disse Rhodan sorrindo e balançando a cabeça.






* * *
* *
*






Apenas vinte e oito filhotinhos foram salvos. Eram os mesmos que o comandante do cruzador Burma, encolerizado, chamara de “bando de bagunceiros”. Não se pode taxá-los assim, com esta severidade. Finalmente, todos os ratos-castores têm uma mentalidade infantil, e o instinto da brincadeira, que se conserva mesmo nos mais velhos, como é o caso de Gucky, é-lhes um característico inato.
O próximo número trata de um assunto totalmente diferente, embora tenha como figura central, Crest!
Em Um Amigo da Humanidade, o grande cientista arcônida vive, de modo heróico, talvez, seus últimos dias...

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