quinta-feira, 25 de agosto de 2016

P-092 - Missão Secreta Moluque - William Voltz [Parte 1]

Autor
WILLIAM VOLTZ



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
O último representante de uma estranha raça
pretende transformar os astronautas terranos
em instrumentos...



Com a descoberta de uma nave exploradora dos arcônidas, pousada na Lua, foi lançada a base da união da Humanidade terrana e do Império Solar, que haveria de sair dessa união. Então ninguém, nem mesmo Perry Rhodan, imaginava quantos esforços e firmeza de ânimo se tornariam necessários para, no curso dos anos, defender o Império dos ataques vindos de dentro e de fora.
Graças ao auxílio dos arcônidas, conseguiu-se vencer a ameaça mais grave que pesou sobre a Humanidade, e que culminou na invasão dos druufs e na batalha em defesa do Império Solar. E o perigo interno, provocado por Thomas Cardif, o renegado, foi removido graças à ação isolada de Gucky.
Acontece que a evolução pacífica da Humanidade só será possível, se a paz reinar na Galáxia — e parece que há um longo caminho a percorrer antes que isso aconteça...
Também Atlan, o imortal, que há pouco tempo passou a substituir a máquina gigantesca, que por intermédio das implacáveis frotas robotizadas abafava qualquer revolução no nascedouro, quer a paz.
Atlan, que passou a ser conhecido como Gonozal VIII, e Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, apóiam-se mutuamente, nem que seja pelo simples instinto de autoconservação.
Atlan e Perry Rhodan são verdadeiros amigos e aliados.
Mas Perry Rhodan sabe que, dentro das atuais relações de forças no interior da Via Láctea, outros aliados representarão uma imensa vantagem...
Por isso dá a seguinte ordem ao cruzador ligeiro México: Missão Secreta: Moluque.


= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Coronel Marcus EversonCuja tarefa consiste em conseguir amigos para a Terra.

Samy GoldsteinUm telepata que já fez algumas experiências desagradáveis com os transformadores de moléculas.

Poul WeissQue atravessa paredes, no sentido literal da expressão.

Walt ScoobeyPrimeiro-oficial da nave México.

Dr. MortonMédico de bordo.

Murgut e NapoleãoHabitantes do planeta Moluque.
1



Em certas pessoas, o trabalho nas máquinas cibernéticas pode provocar um complexo de inferioridade.
Sentados junto ao setor de interpretação do computador, não conseguem conformar-se com o fato de que um banco positrônico de dados é mais rápido e meticuloso na formulação de conclusões e argumentos do que qualquer cérebro humano. Essas pessoas simplesmente se esquecem de que são elas que introduzem os fatos nos cérebros positrônicos e formulam as indagações corretas.
Walt Hunter ainda não corria esse tipo de perigo. A antipatia que Hunter sentia diante de um computador positrônico provinha exclusivamente do fato de que este o obrigava a trabalhar durante as horas de serviço. Quanto ao mais, manifestava a maior indiferença diante desse tipo de máquina.
Um dos psicólogos do Serviço de Defesa Solar afirmara que Hunter era de temperamento fleumático. O corpo volumoso do matemático reforçava essa assertiva.
Naquele momento, um cartão perfurado acabara de ser enviado a Hunter por meio do correio pneumático. Tirou-o da caixa.
Ei, Ben! — exclamou em tom contrariado.
Um homem sentado à sua retaguarda levantou-se e aproximou-se. Hunter sacudiu o cartão.
O que será que eles têm em mente? — perguntou.
Ben contemplou o cartão como se fosse um filé bem passado coberto por grande quantidade de cebolas.
Epan — limitou-se a dizer e estalou a língua.
Hunter recebeu a manifestação de entusiasmo do colega com um resmungo aborrecido.
Só pode ser isso — disse. — Todo o centro de computação positrônica do Serviço de Defesa Solar está atrás dos deformadores de moléculas. Ordens de Mercant.
Inchou as bochechas, o que lhe deu o aspecto de uma marmota dourada supersaciada.
Pelo que ouvi dizer, a coisa mais urgente que o velho Mercant tem a fazer é enviar um cruzador ligeiro com dois mutantes a Epan, a fim de descobrir se o misterioso Mataal deixou alguma pista.
Moveu alguns controles do cérebro positrônico. Algumas luzes acenderam-se. Ben inclinou-se sobre o ombro de Hunter.
A idéia de Mercant era correta — disse. — Os mutantes encontraram certos elementos no palácio residencial de Mataal, que podem levar a certas conclusões sobre outras naves dos deformadores de moléculas.
Os relês estalavam, ouviu-se um zumbido e Hunter empurrou o cartão perfurado na fenda do setor de programação.
Na atual situação, o Império Solar só tem uma possibilidade: deve conquistar amigos fortes — disse Ben em tom professoral.
Hunter fungou numa atitude de desprezo.
Já vejo Rhodan passear pelas ruas de Terrânia de mãos dadas com uma dessas criaturas — disse. — Você sabe perfeitamente que Everson teve muitas dificuldades em Epan. Se, naquela oportunidade, Goldstein não se tivesse libertado do domínio espiritual do deformador de moléculas, provavelmente a esta hora não estaríamos aqui.
O processamento de dados já havia fornecido alguns pontos de apoio aos especialistas do Serviço de Defesa Solar. Os mutantes, que Allan D. Mercant enviara a Epan, trouxeram minúsculas folhas de metal. Tais folhas foram encontradas durante as buscas na residência de Mataal. Os epanenses não haviam tocado na casa do falso gladiador, pois estavam convencidos de que o herói da arena haveria de voltar um belo dia.
Logo se verificou que aquelas finíssimas lâminas continham anotações. Os especialistas conseguiram traduzir a língua estranha por meio de máquinas e computadores especiais. Pelo que indicavam os resultados, dentro em breve, uma segunda nave deveria partir do planeta dos deformadores de moléculas. Os relatórios de Mataal não diziam nada sobre a posição de seu planeta. No entanto, havia esperanças de encontrar o planeta de destino da segunda nave.
Não fique quebrando a cabeça sobre a política dos seus chefes — disse Ben, dirigindo-se a Hunter. — Nestes últimos tempos, os saltadores e os druufs já andaram vagando por nosso sistema solar. Ninguém pode afirmar que nos tenham dispensado um tratamento muito gentil. Se conseguirmos descobrir os deformadores de moléculas e transformá-los em nossos aliados, poderemos sentir-nos mais seguros.
O desejo de segurança de Hunter parecia ter morrido há alguns anos, pois limitou-se a responder com um sorriso irônico. A máquina positrônica interrompeu a discussão. O setor de interpretação entrou em funcionamento. Hunter comprimiu várias teclas. A máquina estava empenhada em extrair um resultado lógico dos dados que lhe haviam sido introduzidos.
Trata-se da determinação de um lugar — observou Hunter. — Mercant quer conhecer o grau de probabilidade com que a máquina pode indicar a posição cósmica do planeta de destino da segunda nave dos deformadores de moléculas.
Num gesto que quase chegava a ser carinhoso bateu no revestimento de plástico do computador.
Dali a duas horas, segurava o resultado na mão. Até mesmo para um computador como este, a resposta era de uma precisão extraordinária.
O cérebro positrônico apurara a posição do planeta de destino com uma segurança de 95,639 por cento.

* * *

A grande calva do homem era cercada por uma coroa rala de cor dourada. O homem era pequeno e seu rosto parecia exprimir benevolência.
Foi descendo pelo corredor. Era uma figura cheia de vida, que parecia irradiar otimismo por todos os poros. Parou diante de uma larga porta.
Aqui fala Mercant — disse para dentro de um microfone embutido na parede. — Posso entrar?
Vá chegando! — disse uma voz convidativa.
Allan D. Mercant sabia que o homem com o qual se veria frente a frente estava carregado de preocupações como nenhum outro. Abriu a porta e entrou.
Olá — disse Perry Rhodan a título de cumprimento.
Embora fosse um quente dia de agosto, o administrador usava o uniforme em conformidade com as normas do regulamento. Esse homem, que já durante a vida se transformara numa legenda, nunca se prevaleceria de sua posição para usufruir qualquer vantagem perante os subordinados. Rhodan estava sentado atrás da escrivaninha. Um jovem cadete, que estava sentado atrás de outra escrivaninha, muito menor, saltara sobre os pés à entrada de Mercant e fizera continência.
Mercant cumprimentou-o com um gesto, e o rapaz voltou a sentar-se. Havia em seu rosto algo da perplexidade que costuma acometer o homem comum que se vê diante de uma pessoa célebre. Apesar de todo embaraço, aquele jovem se daria por feliz por ter estado na mesma sala em que se encontravam Rhodan e Mercant.
Mercant colocou uma pasta sobre a mesa.
Faça o favor de sentar-se — disse o administrador.
Na presença de outras pessoas, costumava usar maneiras formais.
O chefe do Serviço de Defesa agradeceu.
Trata-se de Epan — disse, apontando para a pasta. — O senhor deve estar lembrado da missão realizada sob o comando do Coronel Everson. Naquela oportunidade Goldstein, um jovem telepata, salvou os tripulantes da nave girino.
O senhor se refere ao problema surgido com aquela criatura medonha que, graças às suas faculdades parapsicológicas, conseguia afetar a estrutura molecular da matéria e introduzir-lhe modificações?
Perfeitamente, Sir — confirmou Mercant.
O cadete estava inclinado sobre a mesa. Esquecera-se dos seus trabalhos escritos.
Estou trazendo certos dados devidamente processados, que provavelmente lhe interessarão — prosseguiu o chefe do Serviço de Defesa Solar, em tom tranqüilo. — Meus colaboradores descobriram certas coisas que, na minha opinião, se revestem de muita importância.
O fato de sempre mencionar seus subordinados constituía uma das características de Mercant. Ele nunca pensaria em apresentar os resultados favoráveis como decorrência de sua capacidade.
Rhodan puxou a pasta para junto de si e abriu-a. Por algum tempo examinou seu conteúdo, sem dizer uma palavra. Mercant não o perturbou. De repente, Rhodan soltou um assobio.
Vejo que seus colaboradores conseguiram calcular em que planeta deve ter pousado a nave dos deformadores de moléculas. Pelo relato de Mataal, trata-se de uma nave de emigrantes. Se já chegou ao destino, seus passageiros ainda devem encontrar-se lá.
O rosto de Mercant exprimia satisfação.
O respectivo sistema solar fica junto ao setor central da Galáxia — disse. — Consta do catálogo estelar de Árcon como o sol verde MEG-1453-AS-34. Sua distância da Terra é de vinte mil anos-luz. Aquele sol, que poderemos chamar de Greenol, tem seis planetas. Todos eles são considerados como desabitados. O segundo poderia interessar-nos. Um dos cibernéticos já o batizou: Moluque.
Inclinou o corpo para a frente e tirou uma folha verde da pasta, a fim de entregá-la a Rhodan.
Aqui está o relato do telepata Samy Goldstein sobre as espantosas faculdades paranormais daquele deformador de moléculas, que viajou como clandestino a bordo do girino de Everson. E procedeu assim, sem ninguém desconfiar, pois o coronel acreditava que se tratava de um nativo de Epan.
Rhodan dobrou o papel e tamborilou sobre a escrivaninha.
Já conheço suas idéias — disse, dirigindo-se a Mercant.
O rosto de seu interlocutor exprimiu uma surpresa mal fingida. Antes que Mercant pudesse formular qualquer objeção, Rhodan prosseguiu.
Para falar com franqueza, devo dizer que nossa situação é desesperadora. As raças de astronautas conhecem a posição da Terra. Por enquanto o Império Solar é muito fraco para resistir a um ataque mais sério. Atlan tem lá as suas preocupações e não nos pode proporcionar o apoio que gostaria de dar-nos. Pelo contrário. Muitas vezes terá uma necessidade premente do nosso auxílio. Uma frota medianamente poderosa poderia arriscar a invasão sem receio de uma reação mais séria. E essa situação poderá tornar-se fatal. Nem mesmo as naves que Atlan nos cedeu num gesto de generosidade, para compensar as pesadas perdas que sofremos, bastam para conferir-nos uma segurança total. É bem verdade que as linhas de montagem da Terra e da Lua estão funcionando dia e noite. A fabricação em série das naves de todos os tipos está sendo realizada a toda velocidade. Acontece que, no momento, ainda seríamos esmagados pela superioridade potencial de qualquer inimigo.
Fez um gesto com a cabeça.
Nestas condições estaria disposto a fazer um pacto com o demônio para salvar a Humanidade. Devemos trilhar todo e qualquer caminho que possa levar-nos a um aliado poderoso. Nosso objetivo há de consistir na busca de amigos poderosos, que possam concorrer para o fortalecimento do Império.
Sou da mesma opinião, Sir — confirmou Mercant. — A tentativa de entrar em contato com os deformadores de moléculas poderá ter um efeito de bumerangue, mas acho que devemos assumir o risco.
Faça o favor de deixar estes dados comigo — disse Rhodan. — Farei um exame meticuloso dos mesmos. Será preferível conversar com vários amigos a este respeito.
Permite que faça mais uma sugestão Sir? — perguntou Mercant em tom cortês.
Naturalmente — disse o administrador, sentado atrás da escrivaninha.
Mande Everson — disse Mercant. — E Goldstein.
O sorriso daqueles dois homens exprimiam preocupação. Tinham receios a respeito do desenvolvimento futuro e da própria existência da raça, cuja ascensão vertiginosa fora detida de uma hora para outra: a Humanidade.
2



Bastava que Poul Weiss se inclinasse sobre a grade protetora da plataforma para enxergar perfeitamente as outras áreas de decolagem. As nuvens já se haviam desfeito e o sol era refletido pelas polidas superfícies metálicas das espaçonaves. Mais embaixo, Weiss viu os mecânicos que examinavam as colunas hidráulicas de apoio da nave esférica. Nos seus trajes brancos pareciam grandes besouros que se arrastavam de um lugar para outro.
O elevador parou perto de Weiss. Werner Sternal também se dirigiu à plataforma situada diante da grande comporta de ar. Como de costume, seu bolso estava recheado, muito além do peso admissível.
As eminências já estão reunidas? — perguntou.
As eminências somos nós — disse Weiss, lançando um olhar de esguelha para a bagagem de Sternal. — A não ser que queiramos conferir este título ao paisano insuportável chamado Morton, que subiu a bordo há alguns minutos.
Sternal desapareceu na comporta de ar do novo cruzador da classe Estado. Tal qual todos os veículos espaciais de sua classe, a superveloz México tinha cem metros de diâmetro. Precisava-se de uma tripulação de cento e cinqüenta homens para dirigir a maravilhosa espaçonave através do cosmos.
Weiss sabia qual era a missão especial que teriam de cumprir. Sob o comando do Coronel Marcus Everson, materializariam-se no espaço, depois de três transições, a 20 mil anos-luz da Terra. Tentariam pousar no segundo planeta do sol Greenol, a fim de procurar os deformadores de moléculas, que, segundo a interpretação dos dados, realizada pelo computador positrônico, deviam viver por lá.
Weiss não gostava de pensar nas experiências pelas quais passara a bordo do girino, juntamente com seus colegas. Não sabia como comunicar-se com uma criatura do tipo de Mataal, sem levar desvantagem.
Viu Everson e Scoobey atravessarem o campo de pouso. Dez homens que pertenciam à antiga tripulação do girino subiriam a bordo da México. Graças à sua experiência, formariam a elite dos tripulantes.
O elevador desceu. Ao abandonar a plataforma, Weiss lançou mais um olhar pelos arredores.
O astronauta vive se despedindo”, pensou.
Apesar disso, nem poderia imaginar em jamais fazer outra coisa, senão penetrar na comporta de ar, para logo depois deixar-se conduzir até o espaço infinito.

* * *

A México saiu do hiperespaço, concluindo o vôo fantasmagórico que lhe permitia vencer os anos-luz. Os efeitos das transições foram diminuindo. Poul Weiss ergueu-se. Esfregou os olhos.
Um estalido saiu do alto-falante.
A terceira transição acaba de ser concluída.
Era a voz de Everson.
Encontramo-nos no sistema de destino. A distância para o sol Greenol é de cento e setenta milhões de quilômetros. O planeta Moluque, ao qual devemos dirigir-nos, encontra-se, neste momento, situado exatamente atrás do sol. Por enquanto nos limitaremos a pesquisas à distância, a fim de conferir os dados do catálogo estelar de Árcon.
Weiss tirou as pernas de cima do leito pneumático.
Sem bater, Pentsteven, um dos astrônomos, entrou no pequeno camarote. Seus olhos de camundongo fitaram Weiss, que estava bocejando.
É a primeira vez que me encontro numa missão como esta — disse.
Ah, é? — disse Weiss, sem demonstrar muito interesse.
Por que o comandante não se aproxima de Moluque? Na posição em que nos encontramos não poderá descobrir muita coisa.
Além da curiosidade típica do novato, Pentsteven ainda parecia possuir boa dose de obstinação.
Até hoje o sistema não foi tocado por nenhum ser humano — explicou Weiss. — Não sabemos praticamente nada sobre os seis planetas. Seria um verdadeiro absurdo pousarmos, ao acaso, em qualquer lugar. É bem possível que, enquanto estivermos passeando no segundo planeta, alguém que se encontre no planeta número quatro nos envie uma armada. Por isso queremos adquirir uma visão de conjunto, antes de dedicarmos nossa atenção a Moluque.
Naturalmente — disse Pentsteven em tom simplório.
Weiss lançou-lhe um olhar de recriminação.
Quanto tempo demorará antes que pousemos em Moluque? — indagou o astrônomo. — Para mim, tudo isto é muito excitante.
O rosto de Weiss tornou-se rubro, o que fez com que Pentsteven saísse apressadamente.
Dali a pouco, quando Weiss se dirigiu à sala de comando e de navegação, os especialistas já haviam iniciado a interpretação dos resultados das primeiras medições. O computador positrônico de bordo foi alimentado ininterruptamente com novos dados.
As condições reinantes nos dois planetas exteriores são semelhantes às de Plutão — estava dizendo Marcus Everson. — Não é de se supor que neles exista vida. Também não precisamos cogitar do planeta interno, que fica tão próximo de Greenol, que sua superfície provavelmente se encontrará em estado de incandescência. Quer dizer que só devemos interessar-nos pelos números dois, três e quatro.
O primeiro-oficial Scoobey disse:
Por enquanto não descobrimos o menor vestígio de vida.
Weiss observou que de tanto nervosismo Pentsteven perfurava um mapa estelar com a ponta do compasso. Samy Goldstein, o telepata, encontrava-se próximo às instalações de intercomunicação. Seu rosto jovem parecia tenso. Não pertencia à primeira fornada de mutantes. No entanto, as experiências que colhera com Mataal o tornaram apto para a missão em que estavam empenhados.
De qualquer maneira nos aproximaremos de Moluque — disse Everson. — Tenho certeza de que os especialistas do Serviço de Defesa interpretaram corretamente o material de que dispomos.
Weiss ouviu estas palavras com estranha sensação.
Compreendia perfeitamente que Rhodan desejasse conquistar aliados de qualquer maneira. No entanto, indagou a si mesmo se para a tripulação da México não seria preferível não descobrirem nenhum deformador de moléculas.
Cada coisa tem dois lados”, pensou Weiss. “É que nem uma moeda jogada para o alto. Ninguém sabe qual a face que vai surgir.”

* * *

Depois de doze horas terranas, o Coronel Everson deu ordem para que a nave se aproximasse de Moluque. O exame dos outros planetas não trouxera qualquer resultado capaz de infundir maiores receios.
Moluque levava 38 horas e 18 minutos para girar em torno de seu eixo. Da lentidão do movimento de rotação resultavam perturbações atmosféricas, já que a face noturna esfriava por mais tempo e as massas de ar frio se precipitavam violentamente para as áreas de ar aquecido.
Everson, cuja cautela quase chegara a tornar-se proverbial nos seus longos anos de serviço, mandou que a México se aproximasse da face noturna do planeta. O primeiro resultado com os telerrastreadores individuais deu resultado positivo:
Moluque era um planeta habitado.
O serviço de escuta não revelou o menor sinal que permitisse concluir a existência de qualquer tipo de comunicações de rádio. É bem verdade que o operador de rádio de uma nave esférica costuma ficar muito nervoso, quando as perturbações, causadas por uma atmosfera agitada parecem enlouquecer o equipamento. Porém não se descobriu qualquer indício de uma transmissão de mensagens realizadas por seres inteligentes.
Se por aqui realmente existem seres tecnicamente evoluídos, deveria haver algum sinal disso — observou Scoobey.
Não nos restará outra alternativa, senão voltarmos a usar nossos aparelhos — disse Everson aos tripulantes. — E faremos um teste meticuloso.
Os aparelhos de rastreamento e de medição estavam funcionando a plena potência.
Ao que tudo indicava, Moluque ofereceria um tempo quente aos astronautas, se é que estes chegariam a pousar nesse planeta. Era um mundo pobre de água, coberto de grandes desertos e entrecortado apenas por algumas faixas estreitas de vegetação. Pelo que diziam os astrônomos, a temperatura média na face diurna ficava em torno de 42 graus centígrados.
42 à sombra! — disse Pentsteven, dirigindo-se a Weiss, que acabara de soltar um gemido.
De qualquer maneira, o ar era respirável. Sua percentagem de oxigênio era inferior à da atmosfera terrana. Segundo as medições e as análises, o teor de gases nobres era bastante elevado.
As tempestades de areia, os furacões de poeira e as trovoadas secas seguiam-se em rápida sucessão.
Goldstein, o mutante, captou vibrações mentais de seres primitivos. Não encontrou o menor sinal da existência de seres paranormais.
Seguiram-se outras 48 horas, durante as quais se realizaram todas as observações possíveis. Finalmente Everson deu ordem para que a México pousasse na face noturna do planeta Moluque.

* * *

O rosto impassível de Marcus Everson fitou a lâmina fosca que se encontrava à frente de seu peito. Sustentado pelo campo antigravitacional, o cruzador, agora sem peso, foi flutuando lentamente em direção à superfície. Everson preferira não deixar os propulsores ligados durante o pouso. A forte luminosidade do jato seria visível a longa distância em meio à noite.
O altímetro indicava 142 metros.
À esquerda de Everson estava sentado Carmene, o navegador.
A 34 metros acima do solo aconteceu o inesperado.
De repente, a mão de um gigante parecia segurar Everson. Seu estômago transformou-se numa massa espremida, que causou náuseas e vertigens. Embora tudo se desenrolasse dentro de poucos segundos, teve tempo para gritar.
O campo antigravitacional entrou em pane!
No mesmo instante, houve o impacto. O coronel foi atirado para fora da poltrona. Sentiu-se levantado. Num movimento instintivo de defesa, colocou os dois braços à frente do rosto. Enquanto voava pela sala de comando, as luzes apagaram-se. Alguém soltou um grito em meio à escuridão.
Everson foi atirado contra o computador de bordo. Sentiu uma dor cruciante no ombro direito.
Uma das telas quebrou-se com um forte estouro. Em algum lugar ouviu-se um estalido de metais. Gemidos soaram em meio à escuridão. Um dos astronautas saiu rastejando debaixo da mesa de navegação. Everson ouviu seu corpo roçar nos mapas.
Empurrou-se para a frente, a fim de poder segurar-se na borda saliente do computador. Assim que pôs as mãos na mesma, levantou-se.
Alguém se encontra próximo à iluminação de emergência? — perguntou Everson em meio à escuridão.
Estou deitado bem embaixo dela — disse alguém.
Fora Scoobey que proferira estas palavras.
Bellinger, esse hipopótamo, alojou-se em cima de minha barriga e não permite que eu me levante — acrescentou.
Apesar da dor que sentia, Everson não pôde deixar de rir. Imaginava como Bellinger, um homem maciço, devia estar comprimindo o oficial franzino.
Acho que conseguirei — disse outro homem.
Everson esperou. Alguém começou a praguejar em voz baixa, mas enfática, contra o campo antigravitacional.
Finalmente as luzes acenderam-se.
A sala de comando oferecia um triste quadro. Até parecia que um gigante havia criado toda essa confusão com uma batedeira de dimensões enormes. Bem à frente de Everson, alguns homens se esforçavam para libertar seus corpos enlaçados uns nos outros. Poul Weiss saiu rastejando. Seu braço estava enfeitado por dois hematomas simétricos. Lançou um olhar expressivo para Everson e apontou com o polegar para trás. O comandante viu Pentsteven, que surgia em meio a um montão de mapas.
Carmene era o único que continuava sentado no mesmo lugar. Balançava elegantemente a perna e sorria.
Tirem logo este sujeito de cima de mim — gritou Scoobey.
Sternal e Landis precipitaram-se sobre Bellinger e arrastaram-no para longe do primeiro-oficial. Alguns homens estavam inconscientes.
Everson pegou um microfone.
Aqui fala o comandante — disse com a voz tranqüila.
Esperava que sua voz pudesse ser ouvida em todos os cantos da nave. E desejava que todos os tripulantes estivessem em condições de entendê-lo.
O campo antigravitacional da México deixou de funcionar pouco antes do pouso. Ainda não conhecemos os motivos dessa falha. Todos sabem o que fazer num caso como este. A partir deste momento, entram em vigor as regras de emergência. Além disso, convoco os tripulantes para um estado de rigorosa prontidão.
Interrompeu-se a fim de fazer um sinal tranqüilizador para o Dr. Morton, que se aproximava apressadamente. O médico dedicou sua atenção aos homens feridos ou inconscientes.
O impacto não foi forte; devemos recear a ocorrência de mortes — prosseguiu Everson. — O Dr. Morton e o Dr. Lewellyn cuidarão dos feridos. O Dr. Morton fará uma ronda pela nave. Os casos mais graves deverão ser entregues ao Dr. Lewellyn, que permanecerá na enfermaria. Os técnicos que não sofreram ferimentos começarão imediatamente a verificar as avarias ocorridas com a México. Quero ser informado sobre qualquer dano mais sério.
Viu Scoobey levantar-se e caminhar lentamente em sua direção. Bellinger continuava inconsciente. Pentsteven estava arrumando os mapas estelares.
Não se esqueçam de que nos achamos num planeta desconhecido. Na situação em que nos encontramos, toda cautela é pouca. Ninguém sairá da nave sem que tenha ordens expressas para isso. Encontramo-nos na periferia de uma enorme área desértica. Daqui a sete horas a noite chegará ao fim. Depois disso, poderemos começar a investigar o ambiente externo, na medida em que os respectivos instrumentos ainda estejam em ordem. Mas é bom que saibam que não temos qualquer possibilidade de fugir. Oportunamente fornecerei novas notícias. Desligo.
Scoobey, que já se encontrava a seu lado, esfregou o peito.
Acho que antes de mais nada devemos cuidar do sistema de condicionamento de ar — sugeriu. — Não teremos necessidade de expor nosso sistema de fornecimento de ar a uma solicitação excessiva, desde que queiramos contentar-nos com o ar de Moluque.
Isso é apenas um dos problemas — disse o coronel.
Qual é o outro? — indagou Walt Scoobey.
Os dedos de Everson crisparam-se em torno do microfone.
Não é tanto um problema, mas antes uma pergunta muito importante — respondeu. — Por que o sistema antigravitacional falhou de repente? Não existe nenhum motivo para isso. A única explicação que consigo encontrar é que houve alguma influência externa.
Isso parece um tanto fantástico — objetou Scoobey. — Talvez os técnicos descubram o motivo da pane.
O alto-falante emitiu um estalido e interrompeu a discussão.
Aqui fala o técnico Ferranion, Sir — disse uma voz nervosa.
Everson colocou o microfone à frente da boca.
O que houve? — perguntou.
Tenho más notícias, Sir. O hangar com as naves auxiliares foi totalmente esmagado durante o impacto. Haverá necessidade de reparos extensos para colocá-lo em condições de uso. Duas naves auxiliares estão intatas, mas não existe a menor possibilidade de serem usadas...
Obrigado — disse Everson em tom contrariado.
Agora estamos presos na armadilha — constatou Carmene em tom seco.
O senhor percebe tudo — disse Scoobey em tom irônico.
Dirigindo-se a Everson, acrescentou:
Talvez possamos desmontar as duas naves auxiliares e retirá-las pela comporta de ar. Lá fora poderíamos montá-las de novo.
Quanto tempo demoraria isso? — perguntou Everson.
Scoobey hesitou um pouco.
Uns vinte dias — disse finalmente. — Talvez mais.
Foram interrompidos por um gemido. Era Edward Bellinger quem estava recuperando os sentidos. O Dr. Morton levantou-o. Bellinger segurava a cabeça.
O que aconteceu? — perguntou num cochicho.
Enquanto Pentsteven lhe relatou em poucas palavras o ocorrido, Everson refletiu sobre a sugestão do primeiro-oficial.
Acho que podemos poupar-nos o trabalho com as naves auxiliares — decidiu depois de algum tempo. — Faremos apenas os reparos, que não deverão consumir muito tempo.
Os indicadores de estabilidade da México não estavam funcionando. Everson acreditava que todas as colunas de apoio estivessem quebradas. A nave esférica apresentava uma inclinação para a frente de mais de vinte graus, conforme mostrava o ângulo do soalho da sala de comando.
Quatro horas depois, Everson ficou informado sobre a extensão do desastre.
Mais de cinqüenta homens estavam feridos a ponto de não poderem executar seus serviços costumeiros. Everson ainda contava com cerca de cem homens dos quais poderia lançar mão em caso de necessidade.
Os técnicos calcularam que os trabalhos necessários para colocar a México em condições de decolar demorariam cerca de trinta dias. Duas das colunas de apoio se haviam esfacelado como se fossem palitos de fósforo. Estavam completamente inutilizadas. Outra se desprendera e as demais estavam mais ou menos entortadas.
O dano mais lamentável foi o que atingiu o equipamento eletrônico hipersensível. Instrumentos preciosos estavam irremediavelmente inutilizados. Apenas um dos aparelhos de rastreamento resistira ao impacto. O rastreador de matéria estava completamente esfacelado. Quase todos os oscilógrafos, as telas e as lâminas translúcidas estavam quebradas. O pequeno observatório de bordo, que ficava ao lado do hangar das naves auxiliares, fora totalmente destruído por um veículo espacial que se desprendera.
O hangar propriamente dito era a imagem da desolação. Três barcos espaciais se haviam desprendido e causaram danos consideráveis nos lugares em que bateram.
O cruzador superveloz da classe Estado estava destroçado.
Imobilizado, jazia em meio ao deserto do estranho planeta.

* * *

Everson entrou na comporta aberta e “farejou” o ar. Era um dia de tempo bom. O sol verde ainda não atingira o ponto mais alto, mas o ar superaquecido já tremeluzia sobre o deserto.
À direita da México, estendia-se uma colina achatada, coberta por uma vegetação rala e sem folhas. Atrás dessa elevação, começava uma das estreitas faixas de vegetação de Moluque.
Dê-me o binóculo — disse Everson, dirigindo-se a Weiss, que se encontrava a seu lado.
O que pretende descobrir? — perguntou Goldstein, que também se encontrava na comporta de ar.
O telepata trazia o braço esquerdo numa tipóia: destroncara-o durante a queda.
Everson pegou o binóculo. Encostou-o aos olhos e regulou a distância.
Daqui dificilmente poderemos descobrir alguma coisa — disse depois de algum tempo. — Esta colina impede a visão para a área que talvez seja habitada.
Sacudiu a cabeça e abaixou o binóculo.
O que vamos fazer? — perguntou Weiss.
Enviaremos uma expedição, que irá a essa colina para verificar o que existe do outro lado. No momento é só.
Fez um sinal para Weiss.
Encarregue-se disso, Poul. Chame o Dr. Morton. Ele e Goldstein o acompanharão. Será conveniente colocar os trajes protetores. Peça a Mr. Scoobey que lhe entregue armas.
Weiss desapareceu com um sorriso de satisfação. Goldstein manteve-se em atitude de expectativa.
Será que o senhor poderá acompanhar a expedição com esse braço machucado? — perguntou o coronel.
Naturalmente, Sir.
Everson notou que o jovem mutante mantinha uma atitude hesitante. Havia alguma coisa que o deixava inseguro. Everson colocou a mão sobre o ombro do telepata.
O senhor quer me dizer mais alguma coisa?
Quero — disse Goldstein. — Desde o momento em que pousamos, minha faculdade telepática desapareceu quase por completo.
O quê? — exclamou o comandante da México. — Quer dizer que o senhor não está mais em condições de penetrar nos pensamentos de outros seres?
Acho que é isso — confessou Goldstein. — Estou enfrentando as maiores dificuldades, Sir. Não é apenas porque minha capacidade de percepção extra-sensorial tenha sido afetada, mas também sinto uma pressão mental vinda de fora.
Everson fitou-o com um nervosismo cada vez mais intenso.
Explique-se melhor — pediu.
Seus pensamentos só me atingem de forma totalmente confusa, Sir — enrubesceu ligeiramente. — Queira desculpar. Não pense que quero espionar. Foi apenas um teste.
Está bem — disse Everson. — Prossiga.
Goldstein passou a mão pelo rosto. O suor começou a porejar na testa. Parecia muito nervoso.
É difícil de explicar, Sir. Imagine que o senhor quer ler a letra de alguém na penumbra. Demorará bastante para conseguir.
Compreendo — respondeu o coronel. — Os sintomas lhe evocam alguma lembrança de Mataal e de suas faculdades extraordinárias?
De forma alguma — disse o mutante. Everson lançou um olhar pensativo para o deserto. Uma brisa ligeira agitava a vegetação ressequida das dunas.
Apesar disso, quer acompanhar a expedição? — indagou Everson.
Naturalmente — respondeu Goldstein em tom resoluto.

* * *

Três figuras caminharam lentamente pela areia.
Poul Weiss parou. Virou-se e olhou para a México. Acabavam de abandonar a segurança duvidosa da espaçonave. Weiss sabia que as torres de canhões e os lança-torpedos estavam prontos para entrar em ação.
Atrás de cada canhão de radiações, atrás de cada peça de nêutrons havia um artilheiro, que daria uma resposta adequada a qualquer ataque que fosse desfechado contra aqueles três homens.
Apesar disso, Weiss não se sentia muito à vontade.
O que houve? — perguntou o Dr. Morton em tom impaciente.
Sua barba ruiva e rebelde aparecia mesmo através do visor do capacete. Os olhos azuis fitavam Weiss com uma expressão de hostilidade.
Apenas resolvi olhar para trás — informou Weiss.
O médico resmungou e continuou a andar. O braço ferido de Weiss descansava na tipóia. Quando atingiram a primeira vegetação, Weiss parou de novo.
Esfregou uma folha entre os dedos polegar e indicador. A folha esfacelou-se. Weiss abriu o capacete e soprou os restos da palma da mão.
Estão secas — disse em tom lacônico.
Será preferível que o senhor volte a fechar o capacete — disse o Dr. Morton.
Weiss arrancou um galho e enfiou-o na mochila.
Gostaria de saber onde essas coisinhas finas armazenam a água... — disse em tom curioso. — O caule é oco.
Venha — disse Morton em tom insistente. — Vamos adiante.
Continuaram a subir pela suave encosta. Mantinham contato ininterrupto pelos comunicadores de capacete. Estes também lhes permitiam entrar em contato com a México.
À medida que subiam, a vegetação tornava-se mais densa. Pequenos arbustos foram surgindo.
Finalmente atingiram um lugar do qual podiam ver o outro lado da colina. Em certos trechos, a vegetação era muito densa. Animais parecidos com lagartos corriam velozmente sobre a areia, que apresentava uma coloração mais escura.
Olhe, Poul! — exclamou Goldstein em tom exaltado. — Lá adiante!
Dr. Morton colocou a mão na frente do visor, a fim de proteger os olhos contra a luz do sol.
O que é aquilo? — perguntou, quase gritando.
Uma cidade — limitou-se Weiss a dizer.
3



Realmente era uma cidade, embora para os padrões terranos a palavra aldeia fosse mais adequada. Estava cercada de estranhas florestas e ficava no fundo do vale.
As casas pareciam cestos. Nenhuma delas tinha mais de quatro metros de altura. Ficavam bem juntas e eram feitas de um material branco reluzente. Viam-se aberturas altas e estreitas, que deviam ser portas, e janelas redondas. Num rápido olhar, acreditava-se que o número das casas não era muito elevado. Mas, a um exame mais atento, verificava-se que estavam tão estreitamente ligadas umas às outras, portanto, bem que podiam ser mais de mil.
O Dr. Morton foi o primeiro a voltar a falar.
O aspecto é bastante primitivo — disse. — Parecem colméias de abelhas. Se os seres que as habitam forem tão produtivos como as abelhas terranas, mas menos dispostos para a luta, poderemos dar-nos por satisfeitos.
Goldstein — disse Weiss, dirigindo-se ao telepata. — Está percebendo alguma coisa?
Nada — respondeu Goldstein com a voz desanimada.
Nada?
Não consigo captar qualquer irradiação mental — explicou Goldstein, num tom que quase chegava a ser de desespero. — Minha capacidade telepática extinguiu-se de vez.
Isso não é possível — interveio o médico. — Seu cérebro não pode tornar-se normal de uma hora para outra.
Acontece que se tornou. Weiss observava a cidade.
Será que por lá havia alguma coisa capaz de afetar as qualidades paranormais de Goldstein? Será que já haviam descoberto um sinal da presença dos deformadores de moléculas?
Não”, pensou Weiss. “Uma raça tecnicamente evoluída nunca viveria em construções desse tipo. Deve haver outra explicação para a mudança mental de Goldstein.
Parece que a cidade está habitada — disse o Dr. Morton. — Acontece que não se vê nenhuma criatura viva.
Vamos dar uma olhada — sugeriu Weiss.
Espere aí! — disse uma voz nos seus alto-falantes de capacete.
Era Everson. Viraram a cabeça e olharam para a México, embora a essa distância, nem os contornos da nave pudessem ser vistos.
Não faça tolices, Poul — disse Everson. — O senhor não sabe o que o espera por lá. Antes de mais nada, devemos observar atentamente esse núcleo populacional.
Um tanto contrariado, Weiss mexeu na sua sacola.
Aquilo tem um aspecto totalmente inofensivo — observou. — Estamos armados e permanecemos em contato com a nave.
Nesse momento, o Dr. Morton disse:
Não há necessidade de procurarmos os nativos. Eles já vêm em nossa direção.
Apontou para o vale. Weiss tropeçou ao virar-se abruptamente. Seus olhos se arregalaram. Sentiu seu coração bater com mais força. Ouviu que Goldstein respirava pesadamente.
Um grupo de seres estranhos acabara de sair de sob as árvores, que cercavam a aldeia, e aproximava-se lentamente dos três astronautas. Seu andar era ereto, o que bastava para que se concluísse que tinham inteligência.
Antes que a Humanidade conquistasse o espaço já havia cientistas famosos que estavam convencidos de que só as criaturas de andar ereto eram capazes de criar uma civilização no sentido humano do termo. E essa teoria se confirmara em suas linhas gerais.
Os nativos eram um pouco mais altos que os homens. Possuíam dois braços e duas pernas. Weiss notou que tinham cabeças alongadas, em forma de abóbora. O tronco era muito curto. Em compensação dispunham de um par de pernas longas e robustas.
Quando os nativos se aproximaram, os terranos perceberam que a pele desses seres era de ura tom que quase chegava a ser verde-escuro e que suas bocas tinham o aspecto de bicos de pato.
Weiss disse o que todos estavam pensando.
Parecem aves pernaltas!
Não consigo senti-los — disse Goldstein em voz baixa. — Devem estar irradiando impulsos mentais.
Estão carregando alguma coisa — constatou o Dr. Morton. — O senhor consegue ver o que é, Poul?
Parecem bastões — disse o biólogo. — Bastões de madeira com uma extremidade mais grossa que a outra.
Morton segurou o braço de seu companheiro.
Isso me faz lembrar alguma coisa — disse em tom tenso.
Os nativos — eram cerca de trinta — pararam a uma distância de cinqüenta metros. Antes que o médico tivesse tempo de dizer que lembrança aquilo lhe evocava, os seres iniciaram um trabalho incompreensível. Enfiavam as pontas dos bastões na areia, de maneira tal que as extremidades mais grossas ficavam cerca de um metro acima da superfície. Os homens fitaram-nos em silêncio.
Estão pondo fogo naquilo! — exclamou Weiss em tom exaltado. — Veja, doutor. Conhecem o fogo.
Trinta explosões sacudiram o ar.
Deitar! — gritou o Dr. Morton. — Com o rosto para baixo.
O que será isso? — perguntou Weiss, respirando com dificuldade e comprimindo a cabeça contra a areia.
Alguma coisa caiu a seus pés. Levantou cautelosamente a cabeça. Os nativos vieram correndo em sua direção, desenvolvendo uma velocidade inacreditável. O Dr.
Morton pegou o paralisador e abriu fogo. Goldstein e Weiss seguiram seu exemplo. Os seres-pássaro tombaram. Seus fluxos nervosos deixaram de funcionar.
Goldstein arrancou do chão o objeto em forma de lança. Mostrou-o a Weiss.
É um tipo de flecha — disse o biólogo em tom pensativo. — Parece que é de metal. A ponta deve ser de bronze.
Já sei o que me lembraram esses bastões — disse o Dr. Morton e voltou a guardar a arma. — Foguetes.
É verdade! — exclamou Weiss em tom de surpresa. — Trata-se de foguetes primitivos. Na ponta encontra-se a carga, que, no caso, consiste numa flecha metálica. Apenas precisam de uma substância explosiva e de pavio.
Em torno deles, estavam espalhados outros projéteis desse tipo. Um deles detonara no local do disparo e, em conseqüência disso, o respectivo possuidor caíra ao chão, ferido.
Os alto-falantes de capacete emitiram um estalido, e a voz de Everson se fez ouvir.
Procure trazer para bordo dois desses seres, Poul. Retirem-se. Quando os outros recuperarem os sentidos, não terão uma disposição muito amistosa. Não gostaria de atacar esses seres primitivos com lança-raios.
Um sorriso triste surgiu no rosto de Weiss. Ao que tudo indicava, a esperança de Rhodan, que desejava encontrar aliados fortes, era enganadora. De qualquer maneira, as armas desses seres-pássaro não ajudariam em nada. Esse tipo de foguete já fora usado pelos chineses no ano de 1.232, durante a defesa de Kaifung-Fu. E os mongóis, contra os quais os mesmos foram disparados, eram um inimigo muito menos perigoso que uma frota dos saltadores.

* * *

O nativo estava estendido na cama e sua respiração era forte e ligeira. Mantinha os olhos fechados, mas não havia a menor dúvida de que recuperara os sentidos. As mãos de quatro articulações estavam firmemente comprimidas contra o corpo.
A pequena expedição trouxera para bordo dois greens, nome que Morton dera a esses nativos. A fim de dar uma demonstração de amizade, Morton libertara um dos dois nativos.
O outro estava deitado na enfermaria do Dr. Lewellyn e se fingia de inconsciente. Everson imaginava perfeitamente que medo devia ter essa criatura.
O Dr. Lewellyn inclinou-se sobre o green. O médico era uma pessoa de estatura média com rosto de artista de cinema. Ao contrário do Dr. Morton, tinha muito cuidado com sua aparência.
Bateu suavemente no braço do estranho. Weiss, que se mantinha num lugar mais afastado, pigarreou para demonstrar sua impaciência. O Dr. Morton estava sentado ao pé da cama e cocava a barba.
Já lhe disse que seu método não presta — disse, dirigindo-se ao Dr. Lewellyn. — O senhor nunca conseguirá incutir-lhe boa vontade.
Everson fez um sinal para que se calasse. O Dr. Lewellyn começou a falar ao green com a voz tranqüilizadora. Vez por outra, tocava suavemente em seu corpo.
Depois de algum tempo, o green abriu os olhos. Eram olhos castanhos e sérios. As pestanas sem cílios davam-lhe um aspecto reptílico. Não havia um único cabelo na cabeça e no corpo do prisioneiro.
O green fitou o Dr. Lewellyn. Seus olhos exprimiam medo e incompreensão. Muito devagar, a fim de não assustar aquele ser, o médico levou a mão fechada ao peito.
Doutor — disse em voz baixa.
Morton resmungou. Não se poderia saber se essa manifestação de desagrado se dirigia contra a pessoa do Dr. Lewellyn, ou contra a maneira pela qual seu colega pretendia estabelecer contato com o estranho.
Prossiga — ordenou Everson. — Precisamos encontrar um meio de comunicar-nos com ele.
Com uma enorme paciência, o Dr. Lewellyn continuou a colocar a mão no peito, repetindo a palavra “doutor”.
O corpo do green descontraiu-se um pouco. A mão de quatro articulações subiu cautelosamente. A boca revestida de uma córnea moveu-se.
Mrght — disse num grasnado.
Morton enfiou os dedos nos ouvidos.
Não gosto das reuniões de consoantes — disse. — Elas me deixam doente.
Está bem, Murgut—disse o Dr. Lewellyn. — Isso já é um bom começo.
Dgtr — disse Murgut em tom esperançoso. — Drftgz hgbsg!
Ele diz que quer beber alguma coisa — afirmou Weiss.
Começou a rir, mas sua risada cessou imediatamente, quando olhou para Goldstein.
O mutante comprimia ambas as mãos contra a cabeça.
Não consigo alcançá-lo — disse o telepata com um gemido. — É inteligente, mas é difícil penetrar em sua mente.
Antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa, Samy Goldstein saiu correndo do recinto. A escotilha fechou-se ruidosamente atrás dele. Murgut sobressaltou-se.
O que é isso? — perguntou Everson, esticando as palavras.
Cuidarei dele — disse o Dr. Morton e levantou-se.
Everson sentiu-se deprimido ao lembrar-se das ocorrências que se verificaram a bordo do girino.
Naquela oportunidade, Goldstein ficara maluco sob a influência de Mataal, um deformador de moléculas. Será que aqui o caso era semelhante? Ainda era cedo para dizer qualquer coisa. De qualquer maneira, as experiências teriam de ser realizadas com o maior cuidado. Rhodan, que não podia dispensar nenhuma de suas naves, só os mandara para Moluque porque esperava que eventualmente pudessem encontrar auxílio neste planeta. O comandante devia ter sempre em mente a seguinte norma: aproveitar todas as horas que passasse nesse mundo.
Continue, doutor — disse, dirigindo-se a Lewellyn. — Faça o favor de me avisar quando ele estiver em condições de ser levado à tradutora.
Os nativos eram civilizados, mas sua evolução não era muito avançada. Justamente isso parecia representar um paradoxo, pois duas coisas haviam acontecido que não poderiam ter sido causadas pelos greens. O campo antigravitacional deixara de funcionar e, ao encontrar-se com os nativos, Goldstein perdera sua capacidade parapsicológica.
Everson era um homem experimentado. Não era qualquer suspeita que podia levá-lo a agir. Ninguém melhor que ele sabia que, na história da navegação espacial humana, muitas vezes coisas incríveis aconteciam.
Se houvesse alguma ligação entre os greens, o campo antigravitacional e o mutante, deveria ser possível descobri-la. Ou existiria neste planeta algo que ainda não haviam descoberto?
Lembrou-se que, quando a México ainda se encontrava no espaço, Goldstein captara impulsos. Após a queda da nave, a faculdade do mutante começara a diminuir e, depois do encontro com os greens, desapareceu de vez.
O comandante refletiu. Dali se concluía, simplesmente, que o dom de Goldstein se tornara mais fraco na medida em que ele se aproximara dos nativos.
Seria apenas uma coincidência? Ou será que os greens tinham a capacidade de impor um bloqueio parapsicológico a Goldstein? De qualquer maneira havia uma pista que deveria ser seguida.
Everson estava pensativo ao sair da enfermaria. Ao que tudo indicava, a situação da México e de seus tripulantes não era perigosa. Apenas havia algumas indagações ainda não respondidas. E respostas poderiam, de repente, revelar um perigo de cuja existência nem desconfiavam.

* * *

Depois de quatro dias, Everson, Weiss, Scoobey, Goldstein, Lewellyn e Morton adquiriram, por meio da máquina tradutora e do computador de bordo, conhecimentos do idioma dos greens que lhes permitiam comunicar-se com Murgut. Outros tripulantes estavam empenhados em torcer a língua para treinar a linguagem de Murgut.
Se soubéssemos que vocês vinham do deserto não para destruir nossa nave nunca teríamos atacado — disse Murgut para desculpar o disparo dos foguetes.
O medo, que os greens sentiam pelo deserto e por tudo que estava ligado ao mesmo, era tão patente que se exprimia em cada frase pronunciada por Murgut. Não havia a menor dúvida de que essa atitude podia ser generalizada para toda a raça. Os nativos sentiam-se dominados por um medo supersticioso.
Depois que o Dr. Lewellyn conseguiu convencer o green de que a México caíra do céu, a desconfiança de Murgut diminuiu imediatamente. Tornou-se mais loquaz.
Preste atenção, amigo — disse o Dr. Lewellyn, esfregando o queixo liso. — Por que vocês têm tanto medo do deserto? Será que é por causa das terríveis tempestades? Ou será que pensam que é habitado por deuses e demônios?
Sublinhou suas palavras por meio de sinais e gestos. O ser-pássaro fez um gesto afirmativo.
A desolação do deserto é o mal em sua própria essência, doutor — disse Murgut em tom receoso. — Muitos greens desapareceram por lá, ou voltaram com o espírito doente. Coisas estranhas costumam acontecer, e nos infundem medo.
Provavelmente alguns desses bicos de pato foram atacados de insolação — observou o Dr. Morton. — Isso não seria de admirar com o calor que reina lá fora, durante o dia.
Também não seria de admirar se um deles morresse numa tempestade de areia — disse Weiss. — Para a mente primitiva destes seres, a culpa é do deserto, motivo por que dizem que suas areias são o mal em sua própria essência.
Qual é sua opinião, doutor? — perguntou Everson.
Acho que estamos simplificando demais as coisas — disse o Dr. Lewellyn. — Não nos esqueçamos de que os greens cresceram sob a influência deste ambiente. Uma geração após outra viveu aqui. O oceano de areia deveria fazer parte de seu ambiente; logo, deveriam considerá-lo normal. Na minha opinião, esta raça conhece perfeitamente os perigos de um furacão de poeira e sabe que alguém pode ser carregado por ele.
Refletiu por um instante. Murgut acompanhava a palestra em língua inglesa, batendo as pestanas, sem compreender nada.
Segundo minha teoria — prosseguiu o Dr. Lewellyn — o medo dos nativos foi provocado por acontecimentos mais recentes. No deserto, devem estar acontecendo coisas que antes não aconteciam, e é por isso que os greens estão amedrontados.
Everson umedeceu cautelosamente os lábios.
O senhor tem uma idéia definida sobre o que está acontecendo no deserto, não tem, doutor? — perguntou.
Uma hipótese vale tanto quanto qualquer outra — disse o médico para esquivar-se.
Não se incomode comigo — exclamou Samy Goldstein em tom estridente.
Deu alguns passos em direção ao Dr. Lewellyn.
O senhor acredita que os deformadores moleculares estão lá fora — gritou para o médico. — E receia que já me tenham sob controle.

* * *

A tormenta trazia grossas nuvens de areia. Arbustos arrancados eram atirados pelo ar. O céu assumira uma coloração cinza-escura. Quatro vultos fantasmagóricos deslocavam-se em meio à tempestade.
Eram três homens, envergando trajes protetores e um green. Os homens caminhavam com o corpo inclinado para a frente, forçavam o corpo para resistir à força do vento, enquanto a tormenta turbilhonava.
Everson praguejou contra o azar que, logo agora, fez desabar a tempestade de areia sobre eles. O coronel, o Dr. Morton e Murgut estavam a caminho da cidade dos greens. A tormenta começara de repente. Everson não conseguiu livrar-se da suspeita de que o nativo soubera disso. Murgut era apenas uma sombra escura caminhando, mas movia-se sem a menor dificuldade, como se a tempestade de areia não fosse nenhum problema.
Tenho a impressão de que estamos caminhando na direção errada — disse a voz do biólogo reproduzida pelo alto-falante do capacete de Everson.
Só podemos confiar na capacidade de orientação de Murgut — respondeu o coronel.
Instintivamente, levantara a voz, a fim de superar o ruído do vento. Era uma reação do subconsciente, pois o capacete lhes dava uma proteção quase total contra os ruídos da natureza selvagem.
Weiss não se deu por satisfeito com tão pouca coisa.
Prefiro confiar no meu sentimento — disse. — E meu sentimento me diz que estamos perdidos.
Everson sentiu-se contagiado pelo nervosismo do biólogo. Será que o green quer levar-nos a uma armadilha e desaparecer?”, pensou.
Mas o coronel logo se lembrou de que mantinham contato com a México e, a qualquer momento, poderiam transmitir um pedido de socorro. Apesar disso não poderia fazer mal se interrogasse Murgut.
O green encontrava-se à sua frente. Suas pernas compridas pisavam com toda segurança nas dunas. Everson teve de esforçar-se para acompanhar a marcha. O vento soprava com toda força, ameaçando derrubá-lo. O vulto robusto de Morton surgiu a seu lado.
Sem dizer uma palavra, Everson apontou para o green. O médico fez sinal de que tinha compreendido. Fagulhas azuis e amarelas saltavam constantemente em meio à penumbra. Na opinião de Everson, deviam ser descargas elétricas. Cambaleou e teve de apoiar-se nas duas mãos para levantar. O chão em que pisavam parecia mole e movediço, como se fosse uma massa viva.
Everson colocou-se ao lado do ser-pássaro. Segurou o braço de Murgut. O green parou. Disse alguma coisa, mas o comandante da México apenas conseguiu enxergar os movimentos da boca em forma de bico. Everson ainda não conhecia a língua bastante bem, para poder ler as palavras pelos movimentos da “boca” do nativo.
Teve de abrir o capacete.
Weiss e os médicos já os haviam alcançado. O biólogo manteve o corpo ligeiramente inclinado para a frente. Parecia que a fúria dos elementos o comprimira. Morton, que era mais baixo, parecia uma rocha plantada em meio à paisagem fantasmagórica.
Everson abriu o visor do capacete. Felizmente se virará de costas para a tempestade, de maneira que esta não podia atingir o interior do capacete. Mas o barulho bastou para deixá-lo sem audição por alguns segundos.
Everson puxou Murgut para junto de si.
Onde fica a aldeia? — berrou.
Sua voz foi arrastada pela tempestade e perdeu-se em meio ao fragor dos elementos.
O green encostou a cabeça de abóbora ao rosto de Everson. Por um instante, o astronauta teve a impressão de que via o brilho dos olhos castanhos.
Onde fica a aldeia? — repetiu Everson.
Desta vez, Murgut o compreendera. Sua mão articulada apontou na direção em que vinham caminhando.
Tem certeza? — gritou Everson, cujo rosto enrubescera com o esforço.
O green fez um gesto afirmativo. Everson soltou-o, e continuaram a caminhar pesadamente.
Sir — disse uma voz saída do alto-falante do capacete de Everson. — Aqui fala Goldstein, a bordo da México.
Tudo em ordem — disse o coronel. — Estamos a caminho da aldeia. Murgut conhece o terreno.
Tenho uma notícia para o senhor — disse o mutante. Falava com a voz tão baixa que Everson mal conseguia entendê-lo. — O Dr. Lewellyn acha que devia informar...
Fale logo — ordenou Everson.
Depois que Murgut saiu da nave, tornei-me apto outra vez para captar impulsos débeis — disse o telepata.
As botas de Everson levantavam nuvens de areia.
Então é isso mesmo”, pensou.
São os nativos, Samy — disse. — Ao que parece, emitem impulsos mentais que têm um efeito colateral sobre as capacidades parapsicológicas. Mas, ao que tudo indica, não têm conhecimento desse dom. Quanto maior é seu número, e quanto mais se aproximam de você, maior é a redução de sua capacidade paranormal.
A resposta de Goldstein deixava entrever um forte nervosismo.
O Dr. Lewellyn é da mesma opinião. Quer tentar, juntamente com os dois psicotécnicos, a criação de um campo defensivo psíquico que me resguarde da pressão mental.
Está bem — concordou Everson. — Diga-lhes que se apressem.
Uma idéia passou pelo cérebro de Everson. Estacou instintivamente. A tempestade aproveitou a oportunidade para realizar um ataque frontal. A rajada de vento quase chegou a levantar Everson. O coronel cambaleou de encontro a Weiss. Ambos caíram. O Dr. Morton aproximou-se e ajudou-os a se porem de pé. Murgut parou, em atitude de expectativa.
Quando prosseguiram, a idéia que passara pela cabeça de Everson quase se consolidara numa certeza.
Se a qualidade parapsicológica de Goldstein sofrerá a influência da pressão mental, produzida pelas irradiações perturbadoras dos greens, a mesma coisa devia ter acontecido com os deformadores de moléculas. Nesse caso, seria apenas natural que os deformadores se retirassem para o deserto, a fim de conservar seus dons.
Se em Moluque havia deformadores, estes só poderiam ser encontrados nos areais do planeta.
Acontece que os desertos eram o mal em sua própria essência!
A idéia provocou um calafrio em Everson.
Não importa”, pensou. “Na Terra há um homem altivo e solitário, Perry Rhodan, que não recua diante de qualquer luta que tenha de travar em benefício da Humanidade. E Rhodan necessita desesperadamente de auxílio...”
Se nas planícies calorentas de Moluque existirem seres que possam aliar-se à Humanidade, eu os encontrarei — foi este o juramento que Everson balbuciou nesse instante.
Alguém tocou nele. Era Murgut. O ser-pássaro apontou para a frente.
Lá estava a aldeia.
Embora reconhecesse apenas os contornos das casas, o comandante teve uma sensação de alívio. Agora, que estavam descendo da colina, o furacão perdera um pouco de sua violência. Com um ligeiro movimento da mão, Everson certificou-se de que o paralisador continuava no mesmo lugar. Não queria, de uma hora para outra, ser perfurado por uma flecha-foguete. Murgut lhe garantira que não havia o menor perigo, mas o coronel não tinha tanta certeza. O objetivo do pequeno grupo consistia em interrogar outros greens sobre o deserto e os fenômenos estranhos de que Murgut lhes falara.
Atingiram as primeiras casas. Everson lamentou-se que a penumbra não lhe permitisse ver os detalhes. As portas e janelas estavam vedadas com placas, a fim de evitar a penetração da areia. Ruas estreitas, pelas quais o vento tangia arbustos e detritos, corriam entre as casas. Toda vida parecia ter cessado. Certamente, os greens se haviam retirado para suas casas, a fim de melhor resistir à tormenta. As construções esféricas davam uma impressão de robustez, muito embora parecessem apenas cavernas, e não alojamentos de seres evoluídos.
Murgut levou-os pela rua, até que parou diante de um dos “iglus”. Everson perguntou a si mesmo como os greens poderiam distinguir as casas umas das outras. Para ele, eram todas iguais. Uma luz trêmula passava pelas frestas das portas e janelas, mas dali não se poderia concluir que os nativos conheciam a eletricidade.
Murgut pediu aos homens que esperassem e desapareceu rapidamente no interior da casa. Everson arriscou-se a abrir o capacete, mas a única coisa que ouviu foi o vento que cantava sua triste canção, em meio aos iglus. O ar estava quente e seco. Everson sentiu a areia ranger entre seus dentes.
Depois que o coronel voltara a fechar o visor, Murgut retornou. Fez um sinal para que os terranos o acompanhassem até o interior da casa.
Poul — ordenou Everson. — Espere aqui fora até que eu venha buscá-lo. Se dentro de três minutos não estiver de volta, haverá algo de errado.
Fez um sinal para Morton, e os dois acompanharam o ser-pássaro. Weiss permaneceu do lado de fora. Em meio a um mundo estranho, que recebera os visitantes com uma série de descortesias e segredos ameaçadores, parecia uma figura perdida.
Everson e o médico entraram num recinto bastante enfumaçado. Luminárias abertas, cheias de uma substância inflamável, estavam penduradas nas paredes e atiravam reflexos irreais sobre o solo. Everson percebeu que não teria outra alternativa, senão voltar a abrir o capacete.
Sentiu-se atingido por um fedor penetrante. Tossiu e diminuiu o ritmo da respiração. Só agora viu que o recinto estava repleto de greens. Agachados junto às paredes, fitavam os dois homens com os rostos apáticos. O comandante teve a impressão de se encontrar numa sessão espírita.
Bem que gostaria de trocar de lugar com Lewellyn — disse o Dr. Morton em tom azedo. A fonte deste mau cheiro provavelmente representaria um problema grave para seu senso de limpeza.
Meus amigos lhes dão as boas-vindas — disse Murgut. — Lamentam o ataque com foguetes e estão dispostos a prestar uma reparação. Estes, que aqui se acham reunidos, constituem o conselho de reprodução da cidade.
Everson achou preferível agradecer pela hospitalidade, antes de pensar seriamente na expressão “conselho de reprodução”. De qualquer maneira, viam-se diante da classe dominante dos greens.
Chame Poul — disse, dirigindo-se ao médico.
Pela rapidez com que cumpriu a ordem concluía-se que o médico se sentia satisfeito por ter escapado, durante um instante, dos odores que o cercavam. Ao retornar em companhia de Weiss, seu rosto exibia um sorriso irônico, que se tornou ainda mais marcante, quando o biólogo abriu seu capacete.
Weiss “farejou” cautelosamente. Enquanto o sorriso morria nos lábios de Morton, seu rosto assumiu uma expressão de enlevo.
Ah... — disse num arrebatamento. — Que perfume delicioso.
O senhor acha? — perguntou o médico.
Weiss levantou ambas as mãos, num gesto de defesa, como se receasse que seu olfato pudesse sofrer os efeitos da voz zangada do Dr. Morton. Estendeu a cabeça para a frente e aspirou o ar como se fosse um elixir.
Everson pôs fim à demonstração de arte dramática de Weiss. Dirigiu-se aos greens ali reunidos:
Viemos das... — estacou, pois não conhecia a palavra com que os greens designavam as estrelas, se é que tal vocábulo existia.
Murgut ajudou-o com uma explicação prolixa.
Nosso mundo fica longe daqui, tão longe que vocês dificilmente poderiam imaginar a distância. Viemos com um objetivo e gostaríamos de contar com o auxílio de vocês. Queremos realizar uma expedição ao deserto.
Enquanto proferia as últimas palavras, um silêncio apavorante encheu o recinto. Os greens mantiveram-se totalmente imóveis.
O mal em sua própria essência — disse Murgut, depois de algum tempo. — Não encontrarão ninguém que esteja disposto a acompanhá-los.
Outro green levantou-se e colocou-se à frente de Everson. Era mais velho que Murgut. Pelo murmúrio respeitoso que acompanhou seus movimentos, o coronel concluiu que devia tratar-se do chefe. O velho lançou um olhar prolongado para Everson.
Já houve um tempo em que o senhor teria encontrado quem o ajudasse — grasnou o originário de pássaros. — Mas esse tempo já passou há muito. As terras arenosas encerram grandes perigos e trazem a morte. Coisas medonhas acontecem por lá. Qualquer um que, durante a caçada, se afaste muito da aldeia acaba morrendo.
Bateu com o pé córneo, a fim de reforçar suas palavras.
Nós temos armas poderosas — disse Everson. — Não existe nenhuma força que não possamos vencer. Não tenham medo. Prometemos que os que nos acompanharem voltarão à aldeia.
O mal em sua própria essência não pode ser derrotado — disse o green em tom enfático.
Ouviu-se um murmúrio de aprovação. Everson sentiu uma amargura cada vez mais forte apoderar-se dele. Como não dispusesse das naves auxiliares, seria obrigado a percorrer o deserto a pé. E para isso, não poderia dispensar o auxílio de um guia nativo. Durante a tempestade de areia, notara que Murgut fora o único que conseguira orientar-se. E era bastante duvidoso que, em meio à fúria dos elementos, os aparelhos de localização continuassem a funcionar.
Dar-lhes-emos presentes — disse numa nova tentativa. — Traremos a luz eterna, o trovão mortífero e os raios para a caça.
Um morto não pode caçar — dissera-lhe numa lógica contundente.
O velho retirou-se. Sua resposta fora definitiva.
Não adianta — disse Weiss com um gesto de resignação. — Nunca conseguiremos convencê-los, Sir. A não ser que empreguemos a violência.
Nem penso em usar de violência por aqui — asseverou o coronel.
Conheço um green que talvez os acompanharia — disse Murgut.
Hesitou e lançou um olhar inseguro para seus companheiros de espécimen.
Se eu os levar para junto dele, poderei ganhar um desses presentes?
Claro! — disse Everson. — Se nos ajudar, será recompensado.
O mal em sua própria essência mata-lo-á por esse desafio — exclamou uma voz de advertência em meio à fumaça.
Acho que devemos apressar-nos — disse o Dr. Morton. — Senão esses tagarelas ainda farão nosso amigo mudar de opinião.

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