Autor
WILLIAM
VOLTZ
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
O último
representante de uma estranha raça
pretende
transformar os astronautas terranos
em
instrumentos...
Com a
descoberta de uma nave exploradora dos arcônidas, pousada na Lua,
foi lançada a base da união da Humanidade terrana e do Império
Solar, que haveria de sair dessa união. Então ninguém, nem mesmo
Perry Rhodan, imaginava quantos esforços e firmeza de ânimo se
tornariam necessários para, no curso dos anos, defender o Império
dos ataques vindos de dentro e de fora.
Graças
ao auxílio dos arcônidas, conseguiu-se vencer a ameaça mais grave
que pesou sobre a Humanidade, e que culminou na invasão dos druufs e
na batalha em defesa do Império Solar. E o perigo interno, provocado
por Thomas Cardif, o renegado, foi removido graças à ação isolada
de Gucky.
Acontece
que a evolução pacífica da Humanidade só será possível, se a
paz reinar na Galáxia — e parece que há um longo caminho a
percorrer antes que isso aconteça...
Também
Atlan, o imortal, que há pouco tempo passou a substituir a máquina
gigantesca, que por intermédio das implacáveis frotas robotizadas
abafava qualquer revolução no nascedouro, quer a paz.
Atlan,
que passou a ser conhecido como Gonozal VIII, e Perry Rhodan, o
administrador do Império Solar, apóiam-se mutuamente, nem que seja
pelo simples instinto de autoconservação.
Atlan e
Perry Rhodan são verdadeiros amigos e aliados.
Mas
Perry Rhodan sabe que, dentro das atuais relações de forças no
interior da Via Láctea, outros aliados representarão uma imensa
vantagem...
Por
isso dá a seguinte ordem ao cruzador ligeiro México: Missão
Secreta: Moluque.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Coronel
Marcus
Everson
— Cuja
tarefa consiste em conseguir amigos para a Terra.
Samy
Goldstein
— Um
telepata que já fez algumas experiências desagradáveis com os
transformadores de moléculas.
Poul
Weiss
— Que
atravessa paredes, no sentido literal da expressão.
Walt
Scoobey
— Primeiro-oficial
da nave México.
Dr.
Morton
— Médico
de bordo.
Murgut
e Napoleão
— Habitantes
do planeta Moluque.
1
Em certas
pessoas, o trabalho nas máquinas cibernéticas pode provocar um
complexo de inferioridade.
Sentados
junto ao setor de interpretação do computador, não conseguem
conformar-se com o fato de que um banco positrônico de dados é mais
rápido e meticuloso na formulação de conclusões e argumentos do
que qualquer cérebro humano. Essas pessoas simplesmente se esquecem
de que são elas que introduzem os fatos nos cérebros positrônicos
e formulam as indagações corretas.
Walt
Hunter ainda não corria esse tipo de perigo. A antipatia que Hunter
sentia diante de um computador positrônico provinha exclusivamente
do fato de que este o obrigava a trabalhar durante as horas de
serviço. Quanto ao mais, manifestava a maior indiferença diante
desse tipo de máquina.
Um dos
psicólogos do Serviço de Defesa Solar afirmara que Hunter era de
temperamento fleumático. O corpo volumoso do matemático reforçava
essa assertiva.
Naquele
momento, um cartão perfurado acabara de ser enviado a Hunter por
meio do correio pneumático. Tirou-o da caixa.
— Ei,
Ben! — exclamou em tom contrariado.
Um homem
sentado à sua retaguarda levantou-se e aproximou-se. Hunter sacudiu
o cartão.
— O que
será que eles têm em mente? — perguntou.
Ben
contemplou o cartão como se fosse um filé bem passado coberto por
grande quantidade de cebolas.
— Epan —
limitou-se a dizer e estalou a língua.
Hunter
recebeu a manifestação de entusiasmo do colega com um resmungo
aborrecido.
— Só
pode ser isso — disse. — Todo o centro de computação
positrônica do Serviço de Defesa Solar está atrás dos
deformadores de moléculas. Ordens de Mercant.
Inchou as
bochechas, o que lhe deu o aspecto de uma marmota dourada
supersaciada.
— Pelo
que ouvi dizer, a coisa mais urgente que o velho Mercant tem a fazer
é enviar um cruzador ligeiro com dois mutantes a Epan, a fim de
descobrir se o misterioso Mataal deixou alguma pista.
Moveu
alguns controles do cérebro positrônico. Algumas luzes
acenderam-se. Ben inclinou-se sobre o ombro de Hunter.
— A
idéia de Mercant era correta — disse. — Os mutantes encontraram
certos elementos no palácio residencial de Mataal, que podem levar a
certas conclusões sobre outras naves dos deformadores de moléculas.
Os relês
estalavam, ouviu-se um zumbido e Hunter empurrou o cartão perfurado
na fenda do setor de programação.
— Na
atual situação, o Império Solar só tem uma possibilidade: deve
conquistar amigos fortes — disse Ben em tom professoral.
Hunter
fungou numa atitude de desprezo.
— Já
vejo Rhodan passear pelas ruas de Terrânia de mãos dadas com uma
dessas criaturas — disse. — Você sabe perfeitamente que Everson
teve muitas dificuldades em Epan. Se, naquela oportunidade, Goldstein
não se tivesse libertado do domínio espiritual do deformador de
moléculas, provavelmente a esta hora não estaríamos aqui.
O
processamento de dados já havia fornecido alguns pontos de apoio aos
especialistas do Serviço de Defesa Solar. Os mutantes, que Allan D.
Mercant enviara a Epan, trouxeram minúsculas folhas de metal. Tais
folhas foram encontradas durante as buscas na residência de Mataal.
Os epanenses não haviam tocado na casa do falso gladiador, pois
estavam convencidos de que o herói da arena haveria de voltar um
belo dia.
Logo se
verificou que aquelas finíssimas lâminas continham anotações. Os
especialistas conseguiram traduzir a língua estranha por meio de
máquinas e computadores especiais. Pelo que indicavam os resultados,
dentro em breve, uma segunda nave deveria partir do planeta dos
deformadores de moléculas. Os relatórios de Mataal não diziam nada
sobre a posição de seu planeta. No entanto, havia esperanças de
encontrar o planeta de destino da segunda nave.
— Não
fique quebrando a cabeça sobre a política dos seus chefes — disse
Ben, dirigindo-se a Hunter. — Nestes últimos tempos, os saltadores
e os druufs já andaram vagando por nosso sistema solar. Ninguém
pode afirmar que nos tenham dispensado um tratamento muito gentil. Se
conseguirmos descobrir os deformadores de moléculas e transformá-los
em nossos aliados, poderemos sentir-nos mais seguros.
O desejo
de segurança de Hunter parecia ter morrido há alguns anos, pois
limitou-se a responder com um sorriso irônico. A máquina
positrônica interrompeu a discussão. O setor de interpretação
entrou em funcionamento. Hunter comprimiu várias teclas. A máquina
estava empenhada em extrair um resultado lógico dos dados que lhe
haviam sido introduzidos.
— Trata-se
da determinação de um lugar — observou Hunter. — Mercant quer
conhecer o grau de probabilidade com que a máquina pode indicar a
posição cósmica do planeta de destino da segunda nave dos
deformadores de moléculas.
Num gesto
que quase chegava a ser carinhoso bateu no revestimento de plástico
do computador.
Dali a
duas horas, segurava o resultado na mão. Até mesmo para um
computador como este, a resposta era de uma precisão extraordinária.
O cérebro
positrônico apurara a posição do planeta de destino com uma
segurança de 95,639 por cento.
*
* *
A grande
calva do homem era cercada por uma coroa rala de cor dourada. O homem
era pequeno e seu rosto parecia exprimir benevolência.
Foi
descendo pelo corredor. Era uma figura cheia de vida, que parecia
irradiar otimismo por todos os poros. Parou diante de uma larga
porta.
— Aqui
fala Mercant — disse para dentro de um microfone embutido na
parede. — Posso entrar?
— Vá
chegando! — disse uma voz convidativa.
Allan D.
Mercant sabia que o homem com o qual se veria frente a frente estava
carregado de preocupações como nenhum outro. Abriu a porta e
entrou.
— Olá —
disse Perry Rhodan a título de cumprimento.
Embora
fosse um quente dia de agosto, o administrador usava o uniforme em
conformidade com as normas do regulamento. Esse homem, que já
durante a vida se transformara numa legenda, nunca se prevaleceria de
sua posição para usufruir qualquer vantagem perante os
subordinados. Rhodan estava sentado atrás da escrivaninha. Um jovem
cadete, que estava sentado atrás de outra escrivaninha, muito menor,
saltara sobre os pés à entrada de Mercant e fizera continência.
Mercant
cumprimentou-o com um gesto, e o rapaz voltou a sentar-se. Havia em
seu rosto algo da perplexidade que costuma acometer o homem comum que
se vê diante de uma pessoa célebre. Apesar de todo embaraço,
aquele jovem se daria por feliz por ter estado na mesma sala em que
se encontravam Rhodan e Mercant.
Mercant
colocou uma pasta sobre a mesa.
— Faça
o favor de sentar-se — disse o administrador.
Na
presença de outras pessoas, costumava usar maneiras formais.
O chefe do
Serviço de Defesa agradeceu.
— Trata-se
de Epan — disse, apontando para a pasta. — O senhor deve estar
lembrado da missão realizada sob o comando do Coronel Everson.
Naquela oportunidade Goldstein, um jovem telepata, salvou os
tripulantes da nave girino.
— O
senhor se refere ao problema surgido com aquela criatura medonha que,
graças às suas faculdades parapsicológicas, conseguia afetar a
estrutura molecular da matéria e introduzir-lhe modificações?
— Perfeitamente,
Sir — confirmou Mercant.
O cadete
estava inclinado sobre a mesa. Esquecera-se dos seus trabalhos
escritos.
— Estou
trazendo certos dados devidamente processados, que provavelmente lhe
interessarão — prosseguiu o chefe do Serviço de Defesa Solar, em
tom tranqüilo. — Meus colaboradores descobriram certas coisas que,
na minha opinião, se revestem de muita importância.
O fato de
sempre mencionar seus subordinados constituía uma das
características de Mercant. Ele nunca pensaria em apresentar os
resultados favoráveis como decorrência de sua capacidade.
Rhodan
puxou a pasta para junto de si e abriu-a. Por algum tempo examinou
seu conteúdo, sem dizer uma palavra. Mercant não o perturbou. De
repente, Rhodan soltou um assobio.
— Vejo
que seus colaboradores conseguiram calcular em que planeta deve ter
pousado a nave dos deformadores de moléculas. Pelo relato de Mataal,
trata-se de uma nave de emigrantes. Se já chegou ao destino, seus
passageiros ainda devem encontrar-se lá.
O rosto de
Mercant exprimia satisfação.
— O
respectivo sistema solar fica junto ao setor central da Galáxia —
disse. — Consta do catálogo estelar de Árcon como o sol verde
MEG-1453-AS-34. Sua distância da Terra é de vinte mil anos-luz.
Aquele sol, que poderemos chamar de Greenol, tem seis planetas. Todos
eles são considerados como desabitados. O segundo poderia
interessar-nos. Um dos cibernéticos já o batizou: Moluque.
Inclinou o
corpo para a frente e tirou uma folha verde da pasta, a fim de
entregá-la a Rhodan.
— Aqui
está o relato do telepata Samy Goldstein sobre as espantosas
faculdades paranormais daquele deformador de moléculas, que viajou
como clandestino a bordo do girino de Everson. E procedeu assim, sem
ninguém desconfiar, pois o coronel acreditava que se tratava de um
nativo de Epan.
Rhodan
dobrou o papel e tamborilou sobre a escrivaninha.
— Já
conheço suas idéias — disse, dirigindo-se a Mercant.
O rosto de
seu interlocutor exprimiu uma surpresa mal fingida. Antes que Mercant
pudesse formular qualquer objeção, Rhodan prosseguiu.
— Para
falar com franqueza, devo dizer que nossa situação é
desesperadora. As raças de astronautas conhecem a posição da
Terra. Por enquanto o Império Solar é muito fraco para resistir a
um ataque mais sério. Atlan tem lá as suas preocupações e não
nos pode proporcionar o apoio que gostaria de dar-nos. Pelo
contrário. Muitas vezes terá uma necessidade premente do nosso
auxílio. Uma frota medianamente poderosa poderia arriscar a invasão
sem receio de uma reação mais séria. E essa situação poderá
tornar-se fatal. Nem mesmo as naves que Atlan nos cedeu num gesto de
generosidade, para compensar as pesadas perdas que sofremos, bastam
para conferir-nos uma segurança total. É bem verdade que as linhas
de montagem da Terra e da Lua estão funcionando dia e noite. A
fabricação em série das naves de todos os tipos está sendo
realizada a toda velocidade. Acontece que, no momento, ainda seríamos
esmagados pela superioridade potencial de qualquer inimigo.
Fez um
gesto com a cabeça.
— Nestas
condições estaria disposto a fazer um pacto com o demônio para
salvar a Humanidade. Devemos trilhar todo e qualquer caminho que
possa levar-nos a um aliado poderoso. Nosso objetivo há de consistir
na busca de amigos poderosos, que possam concorrer para o
fortalecimento do Império.
— Sou da
mesma opinião, Sir — confirmou Mercant. — A tentativa de entrar
em contato com os deformadores de moléculas poderá ter um efeito de
bumerangue, mas acho que devemos assumir o risco.
— Faça
o favor de deixar estes dados comigo — disse Rhodan. — Farei um
exame meticuloso dos mesmos. Será preferível conversar com vários
amigos a este respeito.
— Permite
que faça mais uma sugestão Sir? — perguntou Mercant em tom
cortês.
— Naturalmente
— disse o administrador, sentado atrás da escrivaninha.
— Mande
Everson — disse Mercant. — E Goldstein.
O sorriso
daqueles dois homens exprimiam preocupação. Tinham receios a
respeito do desenvolvimento futuro e da própria existência da raça,
cuja ascensão vertiginosa fora detida de uma hora para outra: a
Humanidade.
2
Bastava
que Poul Weiss se inclinasse sobre a grade protetora da plataforma
para enxergar perfeitamente as outras áreas de decolagem. As nuvens
já se haviam desfeito e o sol era refletido pelas polidas
superfícies metálicas das espaçonaves. Mais embaixo, Weiss viu os
mecânicos que examinavam as colunas hidráulicas de apoio da nave
esférica. Nos seus trajes brancos pareciam grandes besouros que se
arrastavam de um lugar para outro.
O elevador
parou perto de Weiss. Werner Sternal também se dirigiu à plataforma
situada diante da grande comporta de ar. Como de costume, seu bolso
estava recheado, muito além do peso admissível.
— As
eminências já estão reunidas? — perguntou.
— As
eminências somos nós — disse Weiss, lançando um olhar de
esguelha para a bagagem de Sternal. — A não ser que queiramos
conferir este título ao paisano insuportável chamado Morton, que
subiu a bordo há alguns minutos.
Sternal
desapareceu na comporta de ar do novo cruzador da classe Estado. Tal
qual todos os veículos espaciais de sua classe, a superveloz México
tinha cem metros de diâmetro. Precisava-se de uma tripulação de
cento e cinqüenta homens para dirigir a maravilhosa espaçonave
através do cosmos.
Weiss
sabia qual era a missão especial que teriam de cumprir. Sob o
comando do Coronel Marcus Everson, materializariam-se no espaço,
depois de três transições, a 20 mil anos-luz da Terra. Tentariam
pousar no segundo planeta do sol Greenol, a fim de procurar os
deformadores de moléculas, que, segundo a interpretação dos dados,
realizada pelo computador positrônico, deviam viver por lá.
Weiss não
gostava de pensar nas experiências pelas quais passara a bordo do
girino, juntamente com seus colegas. Não sabia como comunicar-se com
uma criatura do tipo de Mataal, sem levar desvantagem.
Viu
Everson e Scoobey atravessarem o campo de pouso. Dez homens que
pertenciam à antiga tripulação do girino subiriam a bordo da
México. Graças à sua experiência, formariam a elite dos
tripulantes.
O elevador
desceu. Ao abandonar a plataforma, Weiss lançou mais um olhar pelos
arredores.
“O
astronauta vive se despedindo”,
pensou.
Apesar
disso, nem poderia imaginar em jamais fazer outra coisa, senão
penetrar na comporta de ar, para logo depois deixar-se conduzir até
o espaço infinito.
*
* *
A México
saiu do hiperespaço, concluindo o vôo fantasmagórico que lhe
permitia vencer os anos-luz. Os efeitos das transições foram
diminuindo. Poul Weiss ergueu-se. Esfregou os olhos.
Um
estalido saiu do alto-falante.
— A
terceira transição acaba de ser concluída.
Era a voz
de Everson.
— Encontramo-nos
no sistema de destino. A distância para o sol Greenol é de cento e
setenta milhões de quilômetros. O planeta Moluque, ao qual devemos
dirigir-nos, encontra-se, neste momento, situado exatamente atrás do
sol. Por enquanto nos limitaremos a pesquisas à distância, a fim de
conferir os dados do catálogo estelar de Árcon.
Weiss
tirou as pernas de cima do leito pneumático.
Sem bater,
Pentsteven, um dos astrônomos, entrou no pequeno camarote. Seus
olhos de camundongo fitaram Weiss, que estava bocejando.
— É a
primeira vez que me encontro numa missão como esta — disse.
— Ah, é?
— disse Weiss, sem demonstrar muito interesse.
— Por
que o comandante não se aproxima de Moluque? Na posição em que nos
encontramos não poderá descobrir muita coisa.
Além da
curiosidade típica do novato, Pentsteven ainda parecia possuir boa
dose de obstinação.
— Até
hoje o sistema não foi tocado por nenhum ser humano — explicou
Weiss. — Não sabemos praticamente nada sobre os seis planetas.
Seria um verdadeiro absurdo pousarmos, ao acaso, em qualquer lugar. É
bem possível que, enquanto estivermos passeando no segundo planeta,
alguém que se encontre no planeta número quatro nos envie uma
armada. Por isso queremos adquirir uma visão de conjunto, antes de
dedicarmos nossa atenção a Moluque.
— Naturalmente
— disse Pentsteven em tom simplório.
Weiss
lançou-lhe um olhar de recriminação.
— Quanto
tempo demorará antes que pousemos em Moluque? — indagou o
astrônomo. — Para mim, tudo isto é muito excitante.
O rosto de
Weiss tornou-se rubro, o que fez com que Pentsteven saísse
apressadamente.
Dali a
pouco, quando Weiss se dirigiu à sala de comando e de navegação,
os especialistas já haviam iniciado a interpretação dos resultados
das primeiras medições. O computador positrônico de bordo foi
alimentado ininterruptamente com novos dados.
— As
condições reinantes nos dois planetas exteriores são semelhantes
às de Plutão — estava dizendo Marcus Everson. — Não é de se
supor que neles exista vida. Também não precisamos cogitar do
planeta interno, que fica tão próximo de Greenol, que sua
superfície provavelmente se encontrará em estado de incandescência.
Quer dizer que só devemos interessar-nos pelos números dois, três
e quatro.
O
primeiro-oficial Scoobey disse:
— Por
enquanto não descobrimos o menor vestígio de vida.
Weiss
observou que de tanto nervosismo Pentsteven perfurava um mapa estelar
com a ponta do compasso. Samy Goldstein, o telepata, encontrava-se
próximo às instalações de intercomunicação. Seu rosto jovem
parecia tenso. Não pertencia à primeira fornada de mutantes. No
entanto, as experiências que colhera com Mataal o tornaram apto para
a missão em que estavam empenhados.
— De
qualquer maneira nos aproximaremos de Moluque — disse Everson. —
Tenho certeza de que os especialistas do Serviço de Defesa
interpretaram corretamente o material de que dispomos.
Weiss
ouviu estas palavras com estranha sensação.
Compreendia
perfeitamente que Rhodan desejasse conquistar aliados de qualquer
maneira. No entanto, indagou a si mesmo se para a tripulação da
México não seria preferível não descobrirem nenhum deformador de
moléculas.
“Cada
coisa tem dois lados”, pensou Weiss. “É que nem uma moeda jogada
para o alto. Ninguém sabe qual a face que vai surgir.”
*
* *
Depois de
doze horas terranas, o Coronel Everson deu ordem para que a nave se
aproximasse de Moluque. O exame dos outros planetas não trouxera
qualquer resultado capaz de infundir maiores receios.
Moluque
levava 38 horas e 18 minutos para girar em torno de seu eixo. Da
lentidão do movimento de rotação resultavam perturbações
atmosféricas, já que a face noturna esfriava por mais tempo e as
massas de ar frio se precipitavam violentamente para as áreas de ar
aquecido.
Everson,
cuja cautela quase chegara a tornar-se proverbial nos seus longos
anos de serviço, mandou que a México se aproximasse da face noturna
do planeta. O primeiro resultado com os telerrastreadores individuais
deu resultado positivo:
Moluque
era um planeta habitado.
O serviço
de escuta não revelou o menor sinal que permitisse concluir a
existência de qualquer tipo de comunicações de rádio. É bem
verdade que o operador de rádio de uma nave esférica costuma ficar
muito nervoso, quando as perturbações, causadas por uma atmosfera
agitada parecem enlouquecer o equipamento. Porém não se descobriu
qualquer indício de uma transmissão de mensagens realizadas por
seres inteligentes.
— Se por
aqui realmente existem seres tecnicamente evoluídos, deveria haver
algum sinal disso — observou Scoobey.
— Não
nos restará outra alternativa, senão voltarmos a usar nossos
aparelhos — disse Everson aos tripulantes. — E faremos um teste
meticuloso.
Os
aparelhos de rastreamento e de medição estavam funcionando a plena
potência.
Ao que
tudo indicava, Moluque ofereceria um tempo quente aos astronautas, se
é que estes chegariam a pousar nesse planeta. Era um mundo pobre de
água, coberto de grandes desertos e entrecortado apenas por algumas
faixas estreitas de vegetação. Pelo que diziam os astrônomos, a
temperatura média na face diurna ficava em torno de 42 graus
centígrados.
— 42 à
sombra! — disse Pentsteven, dirigindo-se a Weiss, que acabara de
soltar um gemido.
De
qualquer maneira, o ar era respirável. Sua percentagem de oxigênio
era inferior à da atmosfera terrana. Segundo as medições e as
análises, o teor de gases nobres era bastante elevado.
As
tempestades de areia, os furacões de poeira e as trovoadas secas
seguiam-se em rápida sucessão.
Goldstein,
o mutante, captou vibrações mentais de seres primitivos. Não
encontrou o menor sinal da existência de seres paranormais.
Seguiram-se
outras 48 horas, durante as quais se realizaram todas as observações
possíveis. Finalmente Everson deu ordem para que a México pousasse
na face noturna do planeta Moluque.
*
* *
O rosto
impassível de Marcus Everson fitou a lâmina fosca que se encontrava
à frente de seu peito. Sustentado pelo campo antigravitacional, o
cruzador, agora sem peso, foi flutuando lentamente em direção à
superfície. Everson preferira não deixar os propulsores ligados
durante o pouso. A forte luminosidade do jato seria visível a longa
distância em meio à noite.
O
altímetro indicava 142 metros.
À
esquerda de Everson estava sentado Carmene, o navegador.
A 34
metros acima do solo aconteceu o inesperado.
De
repente, a mão de um gigante parecia segurar Everson. Seu estômago
transformou-se numa massa espremida, que causou náuseas e vertigens.
Embora tudo se desenrolasse dentro de poucos segundos, teve tempo
para gritar.
— O
campo antigravitacional entrou em pane!
No mesmo
instante, houve o impacto. O coronel foi atirado para fora da
poltrona. Sentiu-se levantado. Num movimento instintivo de defesa,
colocou os dois braços à frente do rosto. Enquanto voava pela sala
de comando, as luzes apagaram-se. Alguém soltou um grito em meio à
escuridão.
Everson
foi atirado contra o computador de bordo. Sentiu uma dor cruciante no
ombro direito.
Uma das
telas quebrou-se com um forte estouro. Em algum lugar ouviu-se um
estalido de metais. Gemidos soaram em meio à escuridão. Um dos
astronautas saiu rastejando debaixo da mesa de navegação. Everson
ouviu seu corpo roçar nos mapas.
Empurrou-se
para a frente, a fim de poder segurar-se na borda saliente do
computador. Assim que pôs as mãos na mesma, levantou-se.
— Alguém
se encontra próximo à iluminação de emergência? — perguntou
Everson em meio à escuridão.
— Estou
deitado bem embaixo dela — disse alguém.
Fora
Scoobey que proferira estas palavras.
— Bellinger,
esse hipopótamo, alojou-se em cima de minha barriga e não permite
que eu me levante — acrescentou.
Apesar da
dor que sentia, Everson não pôde deixar de rir. Imaginava como
Bellinger, um homem maciço, devia estar comprimindo o oficial
franzino.
— Acho
que conseguirei — disse outro homem.
Everson
esperou. Alguém começou a praguejar em voz baixa, mas enfática,
contra o campo antigravitacional.
Finalmente
as luzes acenderam-se.
A sala de
comando oferecia um triste quadro. Até parecia que um gigante havia
criado toda essa confusão com uma batedeira de dimensões enormes.
Bem à frente de Everson, alguns homens se esforçavam para libertar
seus corpos enlaçados uns nos outros. Poul Weiss saiu rastejando.
Seu braço estava enfeitado por dois hematomas simétricos. Lançou
um olhar expressivo para Everson e apontou com o polegar para trás.
O comandante viu Pentsteven, que surgia em meio a um montão de
mapas.
Carmene
era o único que continuava sentado no mesmo lugar. Balançava
elegantemente a perna e sorria.
— Tirem
logo este sujeito de cima de mim — gritou Scoobey.
Sternal e
Landis precipitaram-se sobre Bellinger e arrastaram-no para longe do
primeiro-oficial. Alguns homens estavam inconscientes.
Everson
pegou um microfone.
— Aqui
fala o comandante — disse com a voz tranqüila.
Esperava
que sua voz pudesse ser ouvida em todos os cantos da nave. E desejava
que todos os tripulantes estivessem em condições de entendê-lo.
— O
campo antigravitacional da México deixou de funcionar pouco antes do
pouso. Ainda não conhecemos os motivos dessa falha. Todos sabem o
que fazer num caso como este. A partir deste momento, entram em vigor
as regras de emergência. Além disso, convoco os tripulantes para um
estado de rigorosa prontidão.
Interrompeu-se
a fim de fazer um sinal tranqüilizador para o Dr. Morton, que se
aproximava apressadamente. O médico dedicou sua atenção aos homens
feridos ou inconscientes.
— O
impacto não foi forte; devemos recear a ocorrência de mortes —
prosseguiu Everson. — O Dr. Morton e o Dr. Lewellyn cuidarão dos
feridos. O Dr. Morton fará uma ronda pela nave. Os casos mais graves
deverão ser entregues ao Dr. Lewellyn, que permanecerá na
enfermaria. Os técnicos que não sofreram ferimentos começarão
imediatamente a verificar as avarias ocorridas com a México. Quero
ser informado sobre qualquer dano mais sério.
Viu
Scoobey levantar-se e caminhar lentamente em sua direção. Bellinger
continuava inconsciente. Pentsteven estava arrumando os mapas
estelares.
— Não
se esqueçam de que nos achamos num planeta desconhecido. Na situação
em que nos encontramos, toda cautela é pouca. Ninguém sairá da
nave sem que tenha ordens expressas para isso. Encontramo-nos na
periferia de uma enorme área desértica. Daqui a sete horas a noite
chegará ao fim. Depois disso, poderemos começar a investigar o
ambiente externo, na medida em que os respectivos instrumentos ainda
estejam em ordem. Mas é bom que saibam que não temos qualquer
possibilidade de fugir. Oportunamente fornecerei novas notícias.
Desligo.
Scoobey,
que já se encontrava a seu lado, esfregou o peito.
— Acho
que antes de mais nada devemos cuidar do sistema de condicionamento
de ar — sugeriu. — Não teremos necessidade de expor nosso
sistema de fornecimento de ar a uma solicitação excessiva, desde
que queiramos contentar-nos com o ar de Moluque.
— Isso é
apenas um dos problemas — disse o coronel.
— Qual é
o outro? — indagou Walt Scoobey.
Os dedos
de Everson crisparam-se em torno do microfone.
— Não é
tanto um problema, mas antes uma pergunta muito importante —
respondeu. — Por que o sistema antigravitacional falhou de repente?
Não existe nenhum motivo para isso. A única explicação que
consigo encontrar é que houve alguma influência externa.
— Isso
parece um tanto fantástico — objetou Scoobey. — Talvez os
técnicos descubram o motivo da pane.
O
alto-falante emitiu um estalido e interrompeu a discussão.
— Aqui
fala o técnico Ferranion, Sir — disse uma voz nervosa.
Everson
colocou o microfone à frente da boca.
— O que
houve? — perguntou.
— Tenho
más notícias, Sir. O hangar com as naves auxiliares foi totalmente
esmagado durante o impacto. Haverá necessidade de reparos extensos
para colocá-lo em condições de uso. Duas naves auxiliares estão
intatas, mas não existe a menor possibilidade de serem usadas...
— Obrigado
— disse Everson em tom contrariado.
— Agora
estamos presos na armadilha — constatou Carmene em tom seco.
— O
senhor percebe tudo — disse Scoobey em tom irônico.
Dirigindo-se
a Everson, acrescentou:
— Talvez
possamos desmontar as duas naves auxiliares e retirá-las pela
comporta de ar. Lá fora poderíamos montá-las de novo.
— Quanto
tempo demoraria isso? — perguntou Everson.
Scoobey
hesitou um pouco.
— Uns
vinte dias — disse finalmente. — Talvez mais.
Foram
interrompidos por um gemido. Era Edward Bellinger quem estava
recuperando os sentidos. O Dr. Morton levantou-o. Bellinger segurava
a cabeça.
— O que
aconteceu? — perguntou num cochicho.
Enquanto
Pentsteven lhe relatou em poucas palavras o ocorrido, Everson
refletiu sobre a sugestão do primeiro-oficial.
— Acho
que podemos poupar-nos o trabalho com as naves auxiliares — decidiu
depois de algum tempo. — Faremos apenas os reparos, que não
deverão consumir muito tempo.
Os
indicadores de estabilidade da México não estavam funcionando.
Everson acreditava que todas as colunas de apoio estivessem
quebradas. A nave esférica apresentava uma inclinação para a
frente de mais de vinte graus, conforme mostrava o ângulo do soalho
da sala de comando.
Quatro
horas depois, Everson ficou informado sobre a extensão do desastre.
Mais de
cinqüenta homens estavam feridos a ponto de não poderem executar
seus serviços costumeiros. Everson ainda contava com cerca de cem
homens dos quais poderia lançar mão em caso de necessidade.
Os
técnicos calcularam que os trabalhos necessários para colocar a
México em condições de decolar demorariam cerca de trinta dias.
Duas das colunas de apoio se haviam esfacelado como se fossem palitos
de fósforo. Estavam completamente inutilizadas. Outra se desprendera
e as demais estavam mais ou menos entortadas.
O dano
mais lamentável foi o que atingiu o equipamento eletrônico
hipersensível. Instrumentos preciosos estavam irremediavelmente
inutilizados. Apenas um dos aparelhos de rastreamento resistira ao
impacto. O rastreador de matéria estava completamente esfacelado.
Quase todos os oscilógrafos, as telas e as lâminas translúcidas
estavam quebradas. O pequeno observatório de bordo, que ficava ao
lado do hangar das naves auxiliares, fora totalmente destruído por
um veículo espacial que se desprendera.
O hangar
propriamente dito era a imagem da desolação. Três barcos espaciais
se haviam desprendido e causaram danos consideráveis nos lugares em
que bateram.
O cruzador
superveloz da classe Estado estava destroçado.
Imobilizado,
jazia em meio ao deserto do estranho planeta.
*
* *
Everson
entrou na comporta aberta e “farejou”
o ar. Era um dia de tempo bom. O sol verde ainda não atingira o
ponto mais alto, mas o ar superaquecido já tremeluzia sobre o
deserto.
À direita
da México, estendia-se uma colina achatada, coberta por uma
vegetação rala e sem folhas. Atrás dessa elevação, começava uma
das estreitas faixas de vegetação de Moluque.
— Dê-me
o binóculo — disse Everson, dirigindo-se a Weiss, que se
encontrava a seu lado.
— O que
pretende descobrir? — perguntou Goldstein, que também se
encontrava na comporta de ar.
O telepata
trazia o braço esquerdo numa tipóia: destroncara-o durante a queda.
Everson
pegou o binóculo. Encostou-o aos olhos e regulou a distância.
— Daqui
dificilmente poderemos descobrir alguma coisa — disse depois de
algum tempo. — Esta colina impede a visão para a área que talvez
seja habitada.
Sacudiu a
cabeça e abaixou o binóculo.
— O que
vamos fazer? — perguntou Weiss.
— Enviaremos
uma expedição, que irá a essa colina para verificar o que existe
do outro lado. No momento é só.
Fez um
sinal para Weiss.
— Encarregue-se
disso, Poul. Chame o Dr. Morton. Ele e Goldstein o acompanharão.
Será conveniente colocar os trajes protetores. Peça a Mr. Scoobey
que lhe entregue armas.
Weiss
desapareceu com um sorriso de satisfação. Goldstein manteve-se em
atitude de expectativa.
— Será
que o senhor poderá acompanhar a expedição com esse braço
machucado? — perguntou o coronel.
— Naturalmente,
Sir.
Everson
notou que o jovem mutante mantinha uma atitude hesitante. Havia
alguma coisa que o deixava inseguro. Everson colocou a mão sobre o
ombro do telepata.
— O
senhor quer me dizer mais alguma coisa?
— Quero
— disse Goldstein. — Desde o momento em que pousamos, minha
faculdade telepática desapareceu quase por completo.
— O quê?
— exclamou o comandante da México. — Quer dizer que o senhor não
está mais em condições de penetrar nos pensamentos de outros
seres?
— Acho
que é isso — confessou Goldstein. — Estou enfrentando as maiores
dificuldades, Sir. Não é apenas porque minha capacidade de
percepção extra-sensorial tenha sido afetada, mas também sinto uma
pressão mental vinda de fora.
Everson
fitou-o com um nervosismo cada vez mais intenso.
— Explique-se
melhor — pediu.
— Seus
pensamentos só me atingem de forma totalmente confusa, Sir —
enrubesceu ligeiramente. — Queira desculpar. Não pense que quero
espionar. Foi apenas um teste.
— Está
bem — disse Everson. — Prossiga.
Goldstein
passou a mão pelo rosto. O suor começou a porejar na testa. Parecia
muito nervoso.
— É
difícil de explicar, Sir. Imagine que o senhor quer ler a letra de
alguém na penumbra. Demorará bastante para conseguir.
— Compreendo
— respondeu o coronel. — Os sintomas lhe evocam alguma lembrança
de Mataal e de suas faculdades extraordinárias?
— De
forma alguma — disse o mutante. Everson lançou um olhar pensativo
para o deserto. Uma brisa ligeira agitava a vegetação ressequida
das dunas.
— Apesar
disso, quer acompanhar a expedição? — indagou Everson.
— Naturalmente
— respondeu Goldstein em tom resoluto.
*
* *
Três
figuras caminharam lentamente pela areia.
Poul Weiss
parou. Virou-se e olhou para a México. Acabavam de abandonar a
segurança duvidosa da espaçonave. Weiss sabia que as torres de
canhões e os lança-torpedos estavam prontos para entrar em ação.
Atrás de
cada canhão de radiações, atrás de cada peça de nêutrons havia
um artilheiro, que daria uma resposta adequada a qualquer ataque que
fosse desfechado contra aqueles três homens.
Apesar
disso, Weiss não se sentia muito à vontade.
— O que
houve? — perguntou o Dr. Morton em tom impaciente.
Sua barba
ruiva e rebelde aparecia mesmo através do visor do capacete. Os
olhos azuis fitavam Weiss com uma expressão de hostilidade.
— Apenas
resolvi olhar para trás — informou Weiss.
O médico
resmungou e continuou a andar. O braço ferido de Weiss descansava na
tipóia. Quando atingiram a primeira vegetação, Weiss parou de
novo.
Esfregou
uma folha entre os dedos polegar e indicador. A folha esfacelou-se.
Weiss abriu o capacete e soprou os restos da palma da mão.
— Estão
secas — disse em tom lacônico.
— Será
preferível que o senhor volte a fechar o capacete — disse o Dr.
Morton.
Weiss
arrancou um galho e enfiou-o na mochila.
— Gostaria
de saber onde essas coisinhas finas armazenam a água... — disse em
tom curioso. — O caule é oco.
— Venha
— disse Morton em tom insistente. — Vamos adiante.
Continuaram
a subir pela suave encosta. Mantinham contato ininterrupto pelos
comunicadores de capacete. Estes também lhes permitiam entrar em
contato com a México.
À medida
que subiam, a vegetação tornava-se mais densa. Pequenos arbustos
foram surgindo.
Finalmente
atingiram um lugar do qual podiam ver o outro lado da colina. Em
certos trechos, a vegetação era muito densa. Animais parecidos com
lagartos corriam velozmente sobre a areia, que apresentava uma
coloração mais escura.
— Olhe,
Poul! — exclamou Goldstein em tom exaltado. — Lá adiante!
Dr. Morton
colocou a mão na frente do visor, a fim de proteger os olhos contra
a luz do sol.
— O que
é aquilo? — perguntou, quase gritando.
— Uma
cidade — limitou-se Weiss a dizer.
3
Realmente
era uma cidade, embora para os padrões terranos a palavra aldeia
fosse mais adequada. Estava cercada de estranhas florestas e ficava
no fundo do vale.
As casas
pareciam cestos. Nenhuma delas tinha mais de quatro metros de altura.
Ficavam bem juntas e eram feitas de um material branco reluzente.
Viam-se aberturas altas e estreitas, que deviam ser portas, e janelas
redondas. Num rápido olhar, acreditava-se que o número das casas
não era muito elevado. Mas, a um exame mais atento, verificava-se
que estavam tão estreitamente ligadas umas às outras, portanto, bem
que podiam ser mais de mil.
O Dr.
Morton foi o primeiro a voltar a falar.
— O
aspecto é bastante primitivo — disse. — Parecem colméias de
abelhas. Se os seres que as habitam forem tão produtivos como as
abelhas terranas, mas menos dispostos para a luta, poderemos dar-nos
por satisfeitos.
— Goldstein
— disse Weiss, dirigindo-se ao telepata. — Está percebendo
alguma coisa?
— Nada —
respondeu Goldstein com a voz desanimada.
— Nada?
— Não
consigo captar qualquer irradiação mental — explicou Goldstein,
num tom que quase chegava a ser de desespero. — Minha capacidade
telepática extinguiu-se de vez.
— Isso
não é possível — interveio o médico. — Seu cérebro não pode
tornar-se normal de uma hora para outra.
— Acontece
que se tornou. Weiss observava a cidade.
Será que
por lá havia alguma coisa capaz de afetar as qualidades paranormais
de Goldstein? Será que já haviam descoberto um sinal da presença
dos deformadores de moléculas?
“Não”,
pensou Weiss. “Uma
raça tecnicamente evoluída nunca viveria em construções desse
tipo. Deve haver outra explicação para a mudança mental de
Goldstein.”
— Parece
que a cidade está habitada — disse o Dr. Morton. — Acontece que
não se vê nenhuma criatura viva.
— Vamos
dar uma olhada — sugeriu Weiss.
— Espere
aí! — disse uma voz nos seus alto-falantes de capacete.
Era
Everson. Viraram a cabeça e olharam para a México, embora a essa
distância, nem os contornos da nave pudessem ser vistos.
— Não
faça tolices, Poul — disse Everson. — O senhor não sabe o que o
espera por lá. Antes de mais nada, devemos observar atentamente esse
núcleo populacional.
Um tanto
contrariado, Weiss mexeu na sua sacola.
— Aquilo
tem um aspecto totalmente inofensivo — observou. — Estamos
armados e permanecemos em contato com a nave.
Nesse
momento, o Dr. Morton disse:
— Não
há necessidade de procurarmos os nativos. Eles já vêm em nossa
direção.
Apontou
para o vale. Weiss tropeçou ao virar-se abruptamente. Seus olhos se
arregalaram. Sentiu seu coração bater com mais força. Ouviu que
Goldstein respirava pesadamente.
Um grupo
de seres estranhos acabara de sair de sob as árvores, que cercavam a
aldeia, e aproximava-se lentamente dos três astronautas. Seu andar
era ereto, o que bastava para que se concluísse que tinham
inteligência.
Antes que
a Humanidade conquistasse o espaço já havia cientistas famosos que
estavam convencidos de que só as criaturas de andar ereto eram
capazes de criar uma civilização no sentido humano do termo. E essa
teoria se confirmara em suas linhas gerais.
Os nativos
eram um pouco mais altos que os homens. Possuíam dois braços e duas
pernas. Weiss notou que tinham cabeças alongadas, em forma de
abóbora. O tronco era muito curto. Em compensação dispunham de um
par de pernas longas e robustas.
Quando os
nativos se aproximaram, os terranos perceberam que a pele desses
seres era de ura tom que quase chegava a ser verde-escuro e que suas
bocas tinham o aspecto de bicos de pato.
Weiss
disse o que todos estavam pensando.
— Parecem
aves pernaltas!
— Não
consigo senti-los — disse Goldstein em voz baixa. — Devem estar
irradiando impulsos mentais.
— Estão
carregando alguma coisa — constatou o Dr. Morton. — O senhor
consegue ver o que é, Poul?
— Parecem
bastões — disse o biólogo. — Bastões de madeira com uma
extremidade mais grossa que a outra.
Morton
segurou o braço de seu companheiro.
— Isso
me faz lembrar alguma coisa — disse em tom tenso.
Os nativos
— eram cerca de trinta — pararam a uma distância de cinqüenta
metros. Antes que o médico tivesse tempo de dizer que lembrança
aquilo lhe evocava, os seres iniciaram um trabalho incompreensível.
Enfiavam as pontas dos bastões na areia, de maneira tal que as
extremidades mais grossas ficavam cerca de um metro acima da
superfície. Os homens fitaram-nos em silêncio.
— Estão
pondo fogo naquilo! — exclamou Weiss em tom exaltado. — Veja,
doutor. Conhecem o fogo.
Trinta
explosões sacudiram o ar.
— Deitar!
— gritou o Dr. Morton. — Com o rosto para baixo.
— O que
será isso? — perguntou Weiss, respirando com dificuldade e
comprimindo a cabeça contra a areia.
Alguma
coisa caiu a seus pés. Levantou cautelosamente a cabeça. Os nativos
vieram correndo em sua direção, desenvolvendo uma velocidade
inacreditável. O Dr.
Morton
pegou o paralisador e abriu fogo. Goldstein e Weiss seguiram seu
exemplo. Os seres-pássaro tombaram. Seus fluxos nervosos deixaram de
funcionar.
Goldstein
arrancou do chão o objeto em forma de lança. Mostrou-o a Weiss.
— É um
tipo de flecha — disse o biólogo em tom pensativo. — Parece que
é de metal. A ponta deve ser de bronze.
— Já
sei o que me lembraram esses bastões — disse o Dr. Morton e voltou
a guardar a arma. — Foguetes.
— É
verdade! — exclamou Weiss em tom de surpresa. — Trata-se de
foguetes primitivos. Na ponta encontra-se a carga, que, no caso,
consiste numa flecha metálica. Apenas precisam de uma substância
explosiva e de pavio.
Em torno
deles, estavam espalhados outros projéteis desse tipo. Um deles
detonara no local do disparo e, em conseqüência disso, o respectivo
possuidor caíra ao chão, ferido.
Os
alto-falantes de capacete emitiram um estalido, e a voz de Everson se
fez ouvir.
— Procure
trazer para bordo dois desses seres, Poul. Retirem-se. Quando os
outros recuperarem os sentidos, não terão uma disposição muito
amistosa. Não gostaria de atacar esses seres primitivos com
lança-raios.
Um sorriso
triste surgiu no rosto de Weiss. Ao que tudo indicava, a esperança
de Rhodan, que desejava encontrar aliados fortes, era enganadora. De
qualquer maneira, as armas desses seres-pássaro não ajudariam em
nada. Esse tipo de foguete já fora usado pelos chineses no ano de
1.232, durante a defesa de Kaifung-Fu. E os mongóis, contra os quais
os mesmos foram disparados, eram um inimigo muito menos perigoso que
uma frota dos saltadores.
*
* *
O nativo
estava estendido na cama e sua respiração era forte e ligeira.
Mantinha os olhos fechados, mas não havia a menor dúvida de que
recuperara os sentidos. As mãos de quatro articulações estavam
firmemente comprimidas contra o corpo.
A pequena
expedição trouxera para bordo dois greens, nome que Morton dera a
esses nativos. A fim de dar uma demonstração de amizade, Morton
libertara um dos dois nativos.
O outro
estava deitado na enfermaria do Dr. Lewellyn e se fingia de
inconsciente. Everson imaginava perfeitamente que medo devia ter essa
criatura.
O Dr.
Lewellyn inclinou-se sobre o green. O médico era uma pessoa de
estatura média com rosto de artista de cinema. Ao contrário do Dr.
Morton, tinha muito cuidado com sua aparência.
Bateu
suavemente no braço do estranho. Weiss, que se mantinha num lugar
mais afastado, pigarreou para demonstrar sua impaciência. O Dr.
Morton estava sentado ao pé da cama e cocava a barba.
— Já
lhe disse que seu método não presta — disse, dirigindo-se ao Dr.
Lewellyn. — O senhor nunca conseguirá incutir-lhe boa vontade.
Everson
fez um sinal para que se calasse. O Dr. Lewellyn começou a falar ao
green com a voz tranqüilizadora. Vez por outra, tocava suavemente em
seu corpo.
Depois de
algum tempo, o green abriu os olhos. Eram olhos castanhos e sérios.
As pestanas sem cílios davam-lhe um aspecto reptílico. Não havia
um único cabelo na cabeça e no corpo do prisioneiro.
O green
fitou o Dr. Lewellyn. Seus olhos exprimiam medo e incompreensão.
Muito devagar, a fim de não assustar aquele ser, o médico levou a
mão fechada ao peito.
— Doutor
— disse em voz baixa.
Morton
resmungou. Não se poderia saber se essa manifestação de desagrado
se dirigia contra a pessoa do Dr. Lewellyn, ou contra a maneira pela
qual seu colega pretendia estabelecer contato com o estranho.
— Prossiga
— ordenou Everson. — Precisamos encontrar um meio de
comunicar-nos com ele.
Com uma
enorme paciência, o Dr. Lewellyn continuou a colocar a mão no
peito, repetindo a palavra “doutor”.
O corpo do
green descontraiu-se um pouco. A mão de quatro articulações subiu
cautelosamente. A boca revestida de uma córnea moveu-se.
— Mrght
— disse num grasnado.
Morton
enfiou os dedos nos ouvidos.
— Não
gosto das reuniões de consoantes — disse. — Elas me deixam
doente.
— Está
bem, Murgut—disse o Dr. Lewellyn. — Isso já é um bom começo.
— Dgtr —
disse Murgut em tom esperançoso. — Drftgz hgbsg!
— Ele
diz que quer beber alguma coisa — afirmou Weiss.
Começou a
rir, mas sua risada cessou imediatamente, quando olhou para
Goldstein.
O mutante
comprimia ambas as mãos contra a cabeça.
— Não
consigo alcançá-lo — disse o telepata com um gemido. — É
inteligente, mas é difícil penetrar em sua mente.
Antes que
alguém pudesse dizer qualquer coisa, Samy Goldstein saiu correndo do
recinto. A escotilha fechou-se ruidosamente atrás dele. Murgut
sobressaltou-se.
— O que
é isso? — perguntou Everson, esticando as palavras.
— Cuidarei
dele — disse o Dr. Morton e levantou-se.
Everson
sentiu-se deprimido ao lembrar-se das ocorrências que se verificaram
a bordo do girino.
Naquela
oportunidade, Goldstein ficara maluco sob a influência de Mataal, um
deformador de moléculas. Será que aqui o caso era semelhante? Ainda
era cedo para dizer qualquer coisa. De qualquer maneira, as
experiências teriam de ser realizadas com o maior cuidado. Rhodan,
que não podia dispensar nenhuma de suas naves, só os mandara para
Moluque porque esperava que eventualmente pudessem encontrar auxílio
neste planeta. O comandante devia ter sempre em mente a seguinte
norma: aproveitar todas as horas que passasse nesse mundo.
— Continue,
doutor — disse, dirigindo-se a Lewellyn. — Faça o favor de me
avisar quando ele estiver em condições de ser levado à tradutora.
Os nativos
eram civilizados, mas sua evolução não era muito avançada.
Justamente isso parecia representar um paradoxo, pois duas coisas
haviam acontecido que não poderiam ter sido causadas pelos greens. O
campo antigravitacional deixara de funcionar e, ao encontrar-se com
os nativos, Goldstein perdera sua capacidade parapsicológica.
Everson
era um homem experimentado. Não era qualquer suspeita que podia
levá-lo a agir. Ninguém melhor que ele sabia que, na história da
navegação espacial humana, muitas vezes coisas incríveis
aconteciam.
Se
houvesse alguma ligação entre os greens, o campo antigravitacional
e o mutante, deveria ser possível descobri-la. Ou existiria neste
planeta algo que ainda não haviam descoberto?
Lembrou-se
que, quando a México ainda se encontrava no espaço, Goldstein
captara impulsos. Após a queda da nave, a faculdade do mutante
começara a diminuir e, depois do encontro com os greens, desapareceu
de vez.
O
comandante refletiu. Dali se concluía, simplesmente, que o dom de
Goldstein se tornara mais fraco na medida em que ele se aproximara
dos nativos.
Seria
apenas uma coincidência? Ou será que os greens tinham a capacidade
de impor um bloqueio parapsicológico a Goldstein? De qualquer
maneira havia uma pista que deveria ser seguida.
Everson
estava pensativo ao sair da enfermaria. Ao que tudo indicava, a
situação da México e de seus tripulantes não era perigosa. Apenas
havia algumas indagações ainda não respondidas. E respostas
poderiam, de repente, revelar um perigo de cuja existência nem
desconfiavam.
*
* *
Depois de
quatro dias, Everson, Weiss, Scoobey, Goldstein, Lewellyn e Morton
adquiriram, por meio da máquina tradutora e do computador de bordo,
conhecimentos do idioma dos greens que lhes permitiam comunicar-se
com Murgut. Outros tripulantes estavam empenhados em torcer a língua
para treinar a linguagem de Murgut.
— Se
soubéssemos que vocês vinham do deserto não para destruir nossa
nave nunca teríamos atacado — disse Murgut para desculpar o
disparo dos foguetes.
O medo,
que os greens sentiam pelo deserto e por tudo que estava ligado ao
mesmo, era tão patente que se exprimia em cada frase pronunciada por
Murgut. Não havia a menor dúvida de que essa atitude podia ser
generalizada para toda a raça. Os nativos sentiam-se dominados por
um medo supersticioso.
Depois que
o Dr. Lewellyn conseguiu convencer o green de que a México caíra do
céu, a desconfiança de Murgut diminuiu imediatamente. Tornou-se
mais loquaz.
— Preste
atenção, amigo — disse o Dr. Lewellyn, esfregando o queixo liso.
— Por que vocês têm tanto medo do deserto? Será que é por causa
das terríveis tempestades? Ou será que pensam que é habitado por
deuses e demônios?
Sublinhou
suas palavras por meio de sinais e gestos. O ser-pássaro fez um
gesto afirmativo.
— A
desolação do deserto é o mal em sua própria essência, doutor —
disse Murgut em tom receoso. — Muitos greens desapareceram por lá,
ou voltaram com o espírito doente. Coisas estranhas costumam
acontecer, e nos infundem medo.
— Provavelmente
alguns desses bicos de pato foram atacados de insolação —
observou o Dr. Morton. — Isso não seria de admirar com o calor que
reina lá fora, durante o dia.
— Também
não seria de admirar se um deles morresse numa tempestade de areia —
disse Weiss. — Para a mente primitiva destes seres, a culpa é do
deserto, motivo por que dizem que suas areias são o mal em sua
própria essência.
— Qual é
sua opinião, doutor? — perguntou Everson.
— Acho
que estamos simplificando demais as coisas — disse o Dr. Lewellyn.
— Não nos esqueçamos de que os greens cresceram sob a influência
deste ambiente. Uma geração após outra viveu aqui. O oceano de
areia deveria fazer parte de seu ambiente; logo, deveriam
considerá-lo normal. Na minha opinião, esta raça conhece
perfeitamente os perigos de um furacão de poeira e sabe que alguém
pode ser carregado por ele.
Refletiu
por um instante. Murgut acompanhava a palestra em língua inglesa,
batendo as pestanas, sem compreender nada.
— Segundo
minha teoria — prosseguiu o Dr. Lewellyn — o medo dos nativos foi
provocado por acontecimentos mais recentes. No deserto, devem estar
acontecendo coisas que antes não aconteciam, e é por isso que os
greens estão amedrontados.
Everson
umedeceu cautelosamente os lábios.
— O
senhor tem uma idéia definida sobre o que está acontecendo no
deserto, não tem, doutor? — perguntou.
— Uma
hipótese vale tanto quanto qualquer outra — disse o médico para
esquivar-se.
— Não
se incomode comigo — exclamou Samy Goldstein em tom estridente.
Deu alguns
passos em direção ao Dr. Lewellyn.
— O
senhor acredita que os deformadores moleculares estão lá fora —
gritou para o médico. — E receia que já me tenham sob controle.
*
* *
A tormenta
trazia grossas nuvens de areia. Arbustos arrancados eram atirados
pelo ar. O céu assumira uma coloração cinza-escura. Quatro vultos
fantasmagóricos deslocavam-se em meio à tempestade.
Eram três
homens, envergando trajes protetores e um green. Os homens caminhavam
com o corpo inclinado para a frente, forçavam o corpo para resistir
à força do vento, enquanto a tormenta turbilhonava.
Everson
praguejou contra o azar que, logo agora, fez desabar a tempestade de
areia sobre eles. O coronel, o Dr. Morton e Murgut estavam a caminho
da cidade dos greens. A tormenta começara de repente. Everson não
conseguiu livrar-se da suspeita de que o nativo soubera disso. Murgut
era apenas uma sombra escura caminhando, mas movia-se sem a menor
dificuldade, como se a tempestade de areia não fosse nenhum
problema.
— Tenho
a impressão de que estamos caminhando na direção errada — disse
a voz do biólogo reproduzida pelo alto-falante do capacete de
Everson.
— Só
podemos confiar na capacidade de orientação de Murgut — respondeu
o coronel.
Instintivamente,
levantara a voz, a fim de superar o ruído do vento. Era uma reação
do subconsciente, pois o capacete lhes dava uma proteção quase
total contra os ruídos da natureza selvagem.
Weiss não
se deu por satisfeito com tão pouca coisa.
— Prefiro
confiar no meu sentimento — disse. — E meu sentimento me diz que
estamos perdidos.
“Everson
sentiu-se contagiado pelo nervosismo do biólogo. Será que o green
quer levar-nos a uma armadilha e desaparecer?”, pensou.
Mas o
coronel logo se lembrou de que mantinham contato com a México e, a
qualquer momento, poderiam transmitir um pedido de socorro. Apesar
disso não poderia fazer mal se interrogasse Murgut.
O green
encontrava-se à sua frente. Suas pernas compridas pisavam com toda
segurança nas dunas. Everson teve de esforçar-se para acompanhar a
marcha. O vento soprava com toda força, ameaçando derrubá-lo. O
vulto robusto de Morton surgiu a seu lado.
Sem dizer
uma palavra, Everson apontou para o green. O médico fez sinal de que
tinha compreendido. Fagulhas azuis e amarelas saltavam constantemente
em meio à penumbra. Na opinião de Everson, deviam ser descargas
elétricas. Cambaleou e teve de apoiar-se nas duas mãos para
levantar. O chão em que pisavam parecia mole e movediço, como se
fosse uma massa viva.
Everson
colocou-se ao lado do ser-pássaro. Segurou o braço de Murgut. O
green parou. Disse alguma coisa, mas o comandante da México apenas
conseguiu enxergar os movimentos da boca em forma de bico. Everson
ainda não conhecia a língua bastante bem, para poder ler as
palavras pelos movimentos da “boca” do nativo.
Teve de
abrir o capacete.
Weiss e os
médicos já os haviam alcançado. O biólogo manteve o corpo
ligeiramente inclinado para a frente. Parecia que a fúria dos
elementos o comprimira. Morton, que era mais baixo, parecia uma rocha
plantada em meio à paisagem fantasmagórica.
Everson
abriu o visor do capacete. Felizmente se virará de costas para a
tempestade, de maneira que esta não podia atingir o interior do
capacete. Mas o barulho bastou para deixá-lo sem audição por
alguns segundos.
Everson
puxou Murgut para junto de si.
— Onde
fica a aldeia? — berrou.
Sua voz
foi arrastada pela tempestade e perdeu-se em meio ao fragor dos
elementos.
O green
encostou a cabeça de abóbora ao rosto de Everson. Por um instante,
o astronauta teve a impressão de que via o brilho dos olhos
castanhos.
— Onde
fica a aldeia? — repetiu Everson.
Desta vez,
Murgut o compreendera. Sua mão articulada apontou na direção em
que vinham caminhando.
— Tem
certeza? — gritou Everson, cujo rosto enrubescera com o esforço.
O green
fez um gesto afirmativo. Everson soltou-o, e continuaram a caminhar
pesadamente.
— Sir —
disse uma voz saída do alto-falante do capacete de Everson. — Aqui
fala Goldstein, a bordo da México.
— Tudo
em ordem — disse o coronel. — Estamos a caminho da aldeia. Murgut
conhece o terreno.
— Tenho
uma notícia para o senhor — disse o mutante. Falava com a voz tão
baixa que Everson mal conseguia entendê-lo. — O Dr. Lewellyn acha
que devia informar...
— Fale
logo — ordenou Everson.
— Depois
que Murgut saiu da nave, tornei-me apto outra vez para captar
impulsos débeis — disse o telepata.
As botas
de Everson levantavam nuvens de areia.
“Então
é isso mesmo”, pensou.
— São
os nativos, Samy — disse. — Ao que parece, emitem impulsos
mentais que têm um efeito colateral sobre as capacidades
parapsicológicas. Mas, ao que tudo indica, não têm conhecimento
desse dom. Quanto maior é seu número, e quanto mais se aproximam de
você, maior é a redução de sua capacidade paranormal.
A resposta
de Goldstein deixava entrever um forte nervosismo.
— O Dr.
Lewellyn é da mesma opinião. Quer tentar, juntamente com os dois
psicotécnicos, a criação de um campo defensivo psíquico que me
resguarde da pressão mental.
— Está
bem — concordou Everson. — Diga-lhes que se apressem.
Uma idéia
passou pelo cérebro de Everson. Estacou instintivamente. A
tempestade aproveitou a oportunidade para realizar um ataque frontal.
A rajada de vento quase chegou a levantar Everson. O coronel
cambaleou de encontro a Weiss. Ambos caíram. O Dr. Morton
aproximou-se e ajudou-os a se porem de pé. Murgut parou, em atitude
de expectativa.
Quando
prosseguiram, a idéia que passara pela cabeça de Everson quase se
consolidara numa certeza.
Se a
qualidade parapsicológica de Goldstein sofrerá a influência da
pressão mental, produzida pelas irradiações perturbadoras dos
greens, a mesma coisa devia ter acontecido com os deformadores de
moléculas. Nesse caso, seria apenas natural que os deformadores se
retirassem para o deserto, a fim de conservar seus dons.
Se em
Moluque havia deformadores, estes só poderiam ser encontrados nos
areais do planeta.
Acontece
que os desertos eram o mal em sua própria essência!
A idéia
provocou um calafrio em Everson.
“Não
importa”, pensou. “Na Terra há um homem altivo e solitário,
Perry Rhodan, que não recua diante de qualquer luta que tenha de
travar em benefício da Humanidade. E Rhodan necessita
desesperadamente de auxílio...”
— Se nas
planícies calorentas de Moluque existirem seres que possam aliar-se
à Humanidade, eu os encontrarei — foi este o juramento que Everson
balbuciou nesse instante.
Alguém
tocou nele. Era Murgut. O ser-pássaro apontou para a frente.
Lá estava
a aldeia.
Embora
reconhecesse apenas os contornos das casas, o comandante teve uma
sensação de alívio. Agora, que estavam descendo da colina, o
furacão perdera um pouco de sua violência. Com um ligeiro movimento
da mão, Everson certificou-se de que o paralisador continuava no
mesmo lugar. Não queria, de uma hora para outra, ser perfurado por
uma flecha-foguete. Murgut lhe garantira que não havia o menor
perigo, mas o coronel não tinha tanta certeza. O objetivo do pequeno
grupo consistia em interrogar outros greens sobre o deserto e os
fenômenos estranhos de que Murgut lhes falara.
Atingiram
as primeiras casas. Everson lamentou-se que a penumbra não lhe
permitisse ver os detalhes. As portas e janelas estavam vedadas com
placas, a fim de evitar a penetração da areia. Ruas estreitas,
pelas quais o vento tangia arbustos e detritos, corriam entre as
casas. Toda vida parecia ter cessado. Certamente, os greens se haviam
retirado para suas casas, a fim de melhor resistir à tormenta. As
construções esféricas davam uma impressão de robustez, muito
embora parecessem apenas cavernas, e não alojamentos de seres
evoluídos.
Murgut
levou-os pela rua, até que parou diante de um dos “iglus”.
Everson perguntou a si mesmo como os greens poderiam distinguir as
casas umas das outras. Para ele, eram todas iguais. Uma luz trêmula
passava pelas frestas das portas e janelas, mas dali não se poderia
concluir que os nativos conheciam a eletricidade.
Murgut
pediu aos homens que esperassem e desapareceu rapidamente no interior
da casa. Everson arriscou-se a abrir o capacete, mas a única coisa
que ouviu foi o vento que cantava sua triste canção, em meio aos
iglus. O ar estava quente e seco. Everson sentiu a areia ranger entre
seus dentes.
Depois que
o coronel voltara a fechar o visor, Murgut retornou. Fez um sinal
para que os terranos o acompanhassem até o interior da casa.
— Poul —
ordenou Everson. — Espere aqui fora até que eu venha buscá-lo. Se
dentro de três minutos não estiver de volta, haverá algo de
errado.
Fez um
sinal para Morton, e os dois acompanharam o ser-pássaro. Weiss
permaneceu do lado de fora. Em meio a um mundo estranho, que recebera
os visitantes com uma série de descortesias e segredos ameaçadores,
parecia uma figura perdida.
Everson e
o médico entraram num recinto bastante enfumaçado. Luminárias
abertas, cheias de uma substância inflamável, estavam penduradas
nas paredes e atiravam reflexos irreais sobre o solo. Everson
percebeu que não teria outra alternativa, senão voltar a abrir o
capacete.
Sentiu-se
atingido por um fedor penetrante. Tossiu e diminuiu o ritmo da
respiração. Só agora viu que o recinto estava repleto de greens.
Agachados junto às paredes, fitavam os dois homens com os rostos
apáticos. O comandante teve a impressão de se encontrar numa sessão
espírita.
— Bem
que gostaria de trocar de lugar com Lewellyn — disse o Dr. Morton
em tom azedo. A fonte deste mau cheiro provavelmente representaria um
problema grave para seu senso de limpeza.
— Meus
amigos lhes dão as boas-vindas — disse Murgut. — Lamentam o
ataque com foguetes e estão dispostos a prestar uma reparação.
Estes, que aqui se acham reunidos, constituem o conselho de
reprodução da cidade.
Everson
achou preferível agradecer pela hospitalidade, antes de pensar
seriamente na expressão “conselho de reprodução”. De qualquer
maneira, viam-se diante da classe dominante dos greens.
— Chame
Poul — disse, dirigindo-se ao médico.
Pela
rapidez com que cumpriu a ordem concluía-se que o médico se sentia
satisfeito por ter escapado, durante um instante, dos odores que o
cercavam. Ao retornar em companhia de Weiss, seu rosto exibia um
sorriso irônico, que se tornou ainda mais marcante, quando o biólogo
abriu seu capacete.
Weiss
“farejou” cautelosamente. Enquanto o sorriso morria nos lábios
de Morton, seu rosto assumiu uma expressão de enlevo.
— Ah...
— disse num arrebatamento. — Que perfume delicioso.
— O
senhor acha? — perguntou o médico.
Weiss
levantou ambas as mãos, num gesto de defesa, como se receasse que
seu olfato pudesse sofrer os efeitos da voz zangada do Dr. Morton.
Estendeu a cabeça para a frente e aspirou o ar como se fosse um
elixir.
Everson
pôs fim à demonstração de arte dramática de Weiss. Dirigiu-se
aos greens ali reunidos:
— Viemos
das... — estacou, pois não conhecia a palavra com que os greens
designavam as estrelas, se é que tal vocábulo existia.
Murgut
ajudou-o com uma explicação prolixa.
— Nosso
mundo fica longe daqui, tão longe que vocês dificilmente poderiam
imaginar a distância. Viemos com um objetivo e gostaríamos de
contar com o auxílio de vocês. Queremos realizar uma expedição ao
deserto.
Enquanto
proferia as últimas palavras, um silêncio apavorante encheu o
recinto. Os greens mantiveram-se totalmente imóveis.
— O mal
em sua própria essência — disse Murgut, depois de algum tempo. —
Não encontrarão ninguém que esteja disposto a acompanhá-los.
Outro
green levantou-se e colocou-se à frente de Everson. Era mais velho
que Murgut. Pelo murmúrio respeitoso que acompanhou seus movimentos,
o coronel concluiu que devia tratar-se do chefe. O velho lançou um
olhar prolongado para Everson.
— Já
houve um tempo em que o senhor teria encontrado quem o ajudasse —
grasnou o originário de pássaros. — Mas esse tempo já passou há
muito. As terras arenosas encerram grandes perigos e trazem a morte.
Coisas medonhas acontecem por lá. Qualquer um que, durante a caçada,
se afaste muito da aldeia acaba morrendo.
Bateu com
o pé córneo, a fim de reforçar suas palavras.
— Nós
temos armas poderosas — disse Everson. — Não existe nenhuma
força que não possamos vencer. Não tenham medo. Prometemos que os
que nos acompanharem voltarão à aldeia.
— O mal
em sua própria essência não pode ser derrotado — disse o green
em tom enfático.
Ouviu-se
um murmúrio de aprovação. Everson sentiu uma amargura cada vez
mais forte apoderar-se dele. Como não dispusesse das naves
auxiliares, seria obrigado a percorrer o deserto a pé. E para isso,
não poderia dispensar o auxílio de um guia nativo. Durante a
tempestade de areia, notara que Murgut fora o único que conseguira
orientar-se. E era bastante duvidoso que, em meio à fúria dos
elementos, os aparelhos de localização continuassem a funcionar.
— Dar-lhes-emos
presentes — disse numa nova tentativa. — Traremos a luz eterna, o
trovão mortífero e os raios para a caça.
— Um
morto não pode caçar — dissera-lhe numa lógica contundente.
O velho
retirou-se. Sua resposta fora definitiva.
— Não
adianta — disse Weiss com um gesto de resignação. — Nunca
conseguiremos convencê-los, Sir. A não ser que empreguemos a
violência.
— Nem
penso em usar de violência por aqui — asseverou o coronel.
— Conheço
um green que talvez os acompanharia — disse Murgut.
Hesitou e
lançou um olhar inseguro para seus companheiros de espécimen.
— Se eu
os levar para junto dele, poderei ganhar um desses presentes?
— Claro!
— disse Everson. — Se nos ajudar, será recompensado.
— O mal
em sua própria essência mata-lo-á por esse desafio — exclamou
uma voz de advertência em meio à fumaça.
— Acho
que devemos apressar-nos — disse o Dr. Morton. — Senão esses
tagarelas ainda farão nosso amigo mudar de opinião.

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