Autor
KURT
BRAND
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Experiências
monstruosas... e
com elas
se destrói um planeta...
Perry
Rhodan e seus fiéis seguidores tiveram que percorrer um longo e
árduo caminho, desde os dias da “Terceira Potência” até a
unificação política de toda a Humanidade terrana.
Utilizando-se
da fabulosa tecnologia arcônida, os terranos abriram, ainda mais, o
caminho para o espaço, não obstante enorme oposição e duros
reveses internos e externos. E, exatamente por não conhecerem as
palavras “resignação” ou “desistência”, mesmo em situações
dificílimas, conseguiram criar e manter e até ampliar o Império
Solar.
Entrementes,
chegamos na Terra ao ano 2.045. A situação está tranqüila e
Gucky, o elemento mais competente do Corpo de Mutantes de Rhodan,
embora o menos disciplinado, resolve visitar, depois de tantos anos
de serviço em prol do Império Solar, seu planeta de origem,
Vagabundo. Gucky obtém suas férias — aliás, mais do que
merecidas — e parte sozinho num Space-Jet e vai cair no caos das
Forças Desencadeadas.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Reginald
Bell
— Amigo
de Rhodan desde longa data.
Gucky
— Rato-castor
mutante que tem saudade de seu planeta pátrio.
Walter
Grimpel
— Chefe
do Serviço de Rastreamento em Terrânia.
Joe
Pasgin
— Comandante
do cruzador Burma.
Macintosh
— Radiotelegrafista
da espaçonave mercante Potomac.
Dr.
Innogow
— Nunca
ouviu falar em Ogros, mas suas pesquisas giram em torno deles.
1
Não eram
apenas parecidos com monstros, eram verdadeiros monstros.
Suas
cabeças de Jano tinham a forma típica da gota d’água, terminando
numa extremidade pontiaguda de uns vinte e cinco centímetros, que
lhes servia simultaneamente de antena receptora e transmissora para
os impulsos de sua mente. Apesar disso, não possuíam nenhum dom
telepático, como também não eram absolutamente humanóides.
A cabeça
com a forma de gota d’água estava equipada com quatro glóbulos
oculares colocados em sentido oposto. Através de uma vértebra
dupla, com uma espécie de articulação esférica, a cabeça de
rosto duplo passava para um tronco quase de inseto, de dois metros de
comprimento, recoberto por escamas escuras, sendo que na parte
superior deste corpo pendiam quatro braços. Todo este conjunto
horrível era sustentado por três pernas telescópicas.
Quando um
destes monstros se movimentava, via-se então que, sem articulação,
as pernas trabalhavam como amortecedores, fazendo com que o tronco
demasiadamente delgado, de apenas trinta centímetros de diâmetro,
bamboleasse para frente, para trás ou para os lados.
Fazia
poucas horas que eles haviam descido das espaçonaves de sua frota,
enquanto que os primitivos habitantes do planeta por eles ocupado —
ratos-castores, de mais ou menos um metro, divertidos e curiosos —
olhavam-nos interessados, sem suspeitarem que, na figura destes
monstros, a morte e a destruição estava penetrando em seu planeta.
Estes
estranhos seres, com mais de duzentas espaçonaves, invadiram o
planeta deserto e frio, em muito semelhante a Marte. Os terranos lhe
davam o nome de Vagabundo.
Vagabundo
era o único planeta de um sol em vias de extinguir-se, realizando
suas rotações a uma distância de 0,78 unidades astronômicas.
Comparado com a Terra, o planeta Vagabundo teria um raio de 0,6 e sua
gravidade seria de 0,53G.
Vagabundo
não possuía mares, nem montanhas propriamente ditas. Três quartos
de sua superfície era um deserto ferruginoso de coloração tendente
para o avermelhado.
Neste
deserto, mais ou menos na zona equatorial, foi onde desceram os
monstros com suas esquisitas naves.
Com a
cabeça em forma de uma gota d’água, os monstros possuíam dois
rostos, como o deus romano Jano. E o mais singular é que refletiram
em suas naves o estranho formato de suas cabeças, construindo-as,
não com duas frentes, mas com duas fuselagens iguais, formando um só
aparelho.
Com a
serenidade de conquistadores habituados a dominar qualquer ambiente,
desceram calmamente de suas estranhas naves, que em geral não tinham
mais de duzentos metros de comprimento. Tudo indicava que, ao pisarem
em terra firme, cada um deles já sabia o que tinha de fazer. E por
mais monstruosa que fosse sua aparência, mais monstruoso ainda era o
que estavam fazendo. De um momento para o outro, movidas e dirigidas
por forças ocultas, enormes peças de máquinas, de formato
grotesco, saídas das naves, flutuaram no ar, como folhas ao vento.
Os ratos-castores, que de seus esconderijos acompanhavam tudo,
sentiram despertar em si o arraigado instinto da brincadeira, que
junto com o comer e dormir era o resumo de sua vida. Em geral, bons
telecinetas, aproveitaram-se de suas faculdades e seguraram as peças
metálicas a fim de brincarem, atirando-as para o ar como se fossem
petecas.
No mesmo
instante, algumas dúzias de ratos-castores rolaram pelo chão,
soltando chiados lancinantes. Em poucos segundos, estavam todos
mortos.
Pelo menos
a metade dos animais que estavam olhando presenciou a horrível morte
de seus colegas. Mas nenhum deles podia supor que houvesse alguma
ligação entre a morte e a brincadeira empreendida pelos
ratos-castores.
Que havia
demais em brincar com aqueles objetos enormes que pareciam também
estar brincando no espaço?
E os
enormes blocos metálicos continuavam saindo do bojo das naves
esquisitas, sem o menor ruído, plainando no ar e depois dirigindo-se
para o local onde antes estiveram alguns monstros, fazendo qualquer
coisa.
Do drama
desenrolado a uns cem metros na frente — a morte repentina de
algumas dúzias de ratos-castores — nem tomaram conhecimento. Viram
a brincadeira telecinética dos pequenos animais, como simples
expressão de curiosidade, que fora punida por um choque mortal
desferido pelo Ogro, que era quem pensava e agia independentemente,
transferindo com seus poderes superiores as peças de máquinas do
bojo das naves para o local determinado. As antenas orgânicas, que
faziam parte de sua horrorosa cabeça, lhes haviam trazido a notícia
da ação punitiva do Ogro. E por alguns instantes, era-lhes
impossível qualquer comunicação entre si, devido às ondas mais
fortes emitidas pela explicação do Ogro, que supervisionava tudo.
No
momento, o Ogro-1 chamava por sua antena orgânica o Ogro-214. Um dos
monstros, que estava um pouco mais longe, aos pés da última colina,
era o 214. Uma das características da mentalidade destes monstros
era o fato desses indivíduos não terem nome próprio, mas apenas um
número. O 214 tinha que antepor ao seu número o título de Ogro,
cada vez que se encontrasse com um elemento de outro grupo, ou caso
quisesse apenas se identificar.
Um grupo
nunca passava do número 317, mas também não podia ter menos de 109
indivíduos. Número 1 seria sempre o líder do grupo, chefe
autônomo, que só tinha de prestar contas ao Gal, o chefe supremo.
Sua jurisdição era delimitada por leis, leis estas que lhe
conferiam uma margem de ação bem ampla, dando-lhe até poderes
sobre a vida e a morte.
— 214,
por que não iniciou ainda os movimentos telúricos?
O órgão
de transmissão e de recepção do 214 trabalhava só com uma fase
para as duas operações. Enquanto o receptor encaminhava ao seu
cérebro a pergunta do Ogro-1 e convertia os impulsos elétricos em
correntes de pensamento, seu transmissor orgânico irradiava a
resposta através da antena da cabeça:
— Um dos
Ogros não manteve a ordem certa na entrega das peças mecânicas,
Ogro-1. Já transmiti o pedido de controle ao Nebu-56.
Nebu-56,
numa das duzentas naves de carga daqueles monstros, já constatara a
razão do erro do Ogro. Chamou um líder de grupo.
— Aqui
fala 56, Nebu-1. A intervenção dos ratos-castores disritmou um
Ogro. Vou me pôr em contato com ele.
O Ogro,
que pensava e agia independentemente, ouviu a advertência de Nebu-1.
Nas
vibrações auditivas do Nebu-1 ecoou a resposta do Ogro.
— Falha
de três membranas celulares devido ao ataque telecinético dos
ratos-castores. O prosseguimento da ação só foi possível depois
da mudança de ligação para a peça Gel. Desta maneira, o depósito
sete foi esvaziado antes do seis. O prejuízo só poderá ser
reparado quando terminar todo o descarregamento. Tenho de insistir
que um novo ataque dos telecinetas deve ser impedido a todo custo.
Isto foi a
sentença de morte para muitos ratos-castores em Vagabundo. Até
mesmo um líder de grupo tinha que se submeter às ordens de um Ogro.
Através
de seu rádio orgânico, Nebu-1 chamou Cul-1, que era o responsável
pela segurança de todos os Ogros.
— Aqui
fala Nebu-1. Nosso Ogro exige que se impeça a qualquer custo um novo
ataque telecinético dos ratos-castores.
É claro
que os monstros não conheciam o conceito brincadeira ou
divertimento. O único objeto de sua comunicação era exclusivamente
o trabalho. A palavra pessoal ou individual não existia para eles. O
que valia era só o grupo. De acordo com as missões atribuídas ao
grupo, formavam-se também os respectivos monstros...
Com
exceção dos druufs, a Via Láctea jamais vira monstros daquele
tipo.
Logo
depois, Cul-1 se pôs em contato com o Ogro que não conseguira fazer
a descarga de sua nave, conforme estava programado, devido à
intervenção inesperada dos animais brincalhões.
O líder
do grupo, Cul-1, ficou então sabendo das providências de proteção
que o Ogro havia tomado. Não havia mais dúvida de que os atrevidos
animais pagariam com a vida qualquer brincadeira.
Neste
exato momento, um grupo de ratos-castores, reunidos no lado sul do
deserto, onde começavam as suaves colinas, tentava iniciar uma
brincadeira com as peças da maquinaria que iam flutuando no ar, até
se alojarem no lugar determinado. Cinco daqueles interessantes
animais escolheram uma peça que vinha a boa altura e iam se divertir
com ela, levando-a para outra direção. A um dado sinal do
rato-castor mais velho, os cinco atacaram ao mesmo tempo o grande
bloco de metal.
Flutuando
no ar, numa linha quase vertical, a enorme máquina deu, de repente,
uma guinada para o alto, num salto de uns trinta metros, iniciando
depois uma curva. Os cinco animais quase simultaneamente soltaram um
grito de dor, enquanto a pesada máquina se precipitou no solo.
Os
monstros que se encontravam no local da queda se afastaram
rapidamente, saltitando com suas três pernas telescópicas. Os cinco
ratos-castores já estavam mortos, quando começou um grande rebuliço
no local da queda. Havia um corre-corre entre os Ogros. Deviam ter
recebido um comando qualquer, através de seu rádio orgânico. Seu
rosto duplo, com o nariz de cebola achatada, a três dedos abaixo do
único olho neste trecho, não deixava transparecer a menor
excitação, muito menos qualquer sentimento humano. Apenas a pressa
desmesurada para escapar do local dava sinal de que havia perigo
iminente.
Os demais
ratos-castores se entreolhavam desatinados. Não podiam compreender a
morte de seus irmãos de raça e jamais imaginariam que estivesse
ligada às brincadeiras telecinéticas. De repente, surgiu do nada um
clarão amarelado, atingindo-os com seus raios. Um outro clarão
semelhante ofuscou um grupo de ratos-castores, que estava no outro
lado onde morreram os primeiros. Assim foram todos dizimados, sem
saberem o porquê.
Através
de uma freqüência comum, o líder — Cul-1, responsável pela
segurança de todos os Ogros — deu um aviso urgente: todos tinham
que se afastar imediatamente do local onde foram descarregadas as
peças de máquinas.
Das
profundezas do local da queda da grande máquina surgia um ruído,
que se intensificava cada vez mais.
Tão
rápido como surgiu, desapareceu o clarão amarelado que destruíra
todos os ratos-castores presentes à estranha chegada dos monstros.
Não havia o menor indício de onde viera aquela onda de destruição.
Já não
existiam os fluxos energéticos que descarregaram as naves de
fuselagem dupla sob o comando de um Ogro. Não se viam mais as
misteriosas peças de máquina pairando no ar e nem aquelas figuras
grotescas, saltitando desajeitadamente com as três pernas
telescópicas, correndo na direção de suas naves.
Pela
atmosfera rarefeita do planeta reboou em todos os sentidos um
estampido assustador. Ali, onde uma máquina se precipitara no solo,
abrindo um grande sulco, irrompia agora um vulcão de forças
estranhas.
Da fenda
cavada no chão se projetava com violência um fluxo amarelado, para
se espalhar depois com incrível velocidade em todos os sentidos.
Entre os
monstros em fuga desabalada e o fluxo energético devorando tudo que
encontrava à sua frente, parecia haver uma aposta de quem corria
mais, corrida esta cuja meta eram as naves de transporte de dupla
fuselagem. Além disso, as labaredas que se abriam em leque subiam
verticalmente alguns quilômetros no céu de Vagabundo e, da pequena
cratera, jorrava aquela torrente de fogo, num crescendo constante de
violência.
De tudo
que fora descarregado tão soberbamente, através de forças
invisíveis, das muitas naves, não restava mais nada. Uma centena
daquele bando de monstros já havia caído vítima da onda
avassaladora do fogo. Agora, porém, parecia que as labaredas estavam
farejando a massa metálica das espaçonaves dos monstros, pois as
línguas de fogo, que pareciam se espalhar para os lados, tomaram,
subitamente, a direção do local onde estavam as naves.
O mais
interessante é que todas as línguas de fogo convergiram para a
mesma direção e aquele fluxo ígneo, que lambia o chão a uma
altura de meio metro, não produzia calor. O fluxo, que até então
varria o solo pobre do planeta desértico, tinha uma espécie de
correnteza que seguia uma determinada direção, mas a certa altura
começou a se formar um remoinho, sinal de que a violência crescia
ainda mais.
Os
monstros apavorantes, que, num desesperado bale de três pernas,
procuravam chegar a tempo até suas naves, foram a maior vítima de
sua avançada tecnologia.
Os cinco
ratos-castores, que, no seu instinto natural de brincar com tudo,
tentaram se divertir com os estranhos objetos, não morreram
inutilmente. O acaso ou um poder superior fez com que eles fossem se
divertir exatamente com uma peça que era o coração de uma
gigantesca instalação supersofisticada, que iria dar vida a um
enorme parque industrial.
Desesperados,
os monstros de duas faces olhavam estarrecidos para o fruto de suas
pesquisas. As chamas, como se quisessem vingar a morte dos inocentes
animais, avançavam sôfregas para a montanha de metal, representada
pelas naves de fuselagem dupla. Três não mais existiam.
Como se a
destruição das três primeiras espaçonaves fosse o sinal de
partida para o ataque definitivo, o clarão amarelado invadiu o areai
onde estavam estacionados mais de duzentos aparelhos para transporte
pesado. Sua destruição se processou sem o menor ruído.
A carcaça
metálica, em contato com o clarão amarelado, perdia toda a
consistência, escorrendo como massa amorfa, desaparecendo em seguida
entre as chamas que consumiam a nave vizinha.
Houve
apenas três testemunhas oculares da catastrófica destruição da
grande frota espacial, no pequeno planeta Vagabundo. Mas estes três
ratos-castores não podiam compreender que esta destruição salvou
sua raça do extermínio.
Dezoito
transportes de carga, com sua forma bizarra de duas gotas d’água
justapostas, conseguiram escapar. Sem nenhum ruído decolaram. O
décimo nono já havia se desprendido do chão, quando o clarão
amarelado atingiu-lhe a fuselagem; e como se possuísse garras de um
gigantesco guindaste, o fez cair no mar de chamas. E, tal qual os
demais, o metal se fundiu como cera, tornando-se uma massa escura.
Durante
cinco dias, o clarão amarelado continuou intenso naquele mundo frio
e pobre, para acabar desaparecendo no sexto, sem deixar qualquer
vestígio.
Vagabundo
voltou a ser Vagabundo — frio e pobre como Marte — e os
ratos-castores continuaram levando sua vida despreocupada e simples.
Não sabiam que sua raça escapara, quase que por milagre, do
extermínio total.
2
Macintosh
era radiotelegrafista na Potomac, trinta e cinco anos e casado.
A Potomac
era uma espaçonave mercante do Império Solar e estava viajando a
sessenta e oito anos-luz do planeta Vagabundo, na direção do
planeta Abeis, para fazer um carregamento de lysir.
Lysir era
um tipo de resina que só existia naquele planeta, resina esta muito
procurada na Terra, principalmente para a fabricação dos uniformes
espaciais, mais exatamente para sua impermeabilização no tocante às
irradiações espaciais, tornando assim tais uniformes superiores aos
de fabricação arcônida.
Sentado na
sua cabina de rádio, Macintosh não pensava nem em lysir, nem no
planeta Vagabundo, terra de Gucky, nem em nada referente à navegação
espacial. O que o preocupava mesmo eram seus dois filhos Charles e
Ben. O primeiro tinha dezoito anos e o caçula dezessete. O mais
velho aprontava cada uma... e era em tudo ajudado pelo mais moço.
“E
o quê que devem ter arranjado neste meio tempo?”,
perguntou-se Macintosh, já antevendo novidades desagradáveis,
quando chegasse à Terra.
Depois que
a Potomac pousasse no espaçoporto de Terrânia, costumava ter três
dias de descanso. Mas era exatamente nestes dias que tinha de passar
pelos maiores aborrecimentos e geralmente quem mais sofria era seu
bolso, pela obrigação de pagar os estragos causados pelos dois
garotos.
“E
se os malandros pintaram o caneco de novo e a intimação de
pagamento já estiver lá em casa, então...”
Seus
pensamentos foram interrompidos. A tela do rastreador começou a dar
sinais diferentes. E no mesmo instante, as preocupações com as
peraltices dos dois rapazes cederam lugar ao radiotelegrafista
consciente de seus deveres.
Macintosh
passou a observar o oscilógrafo do rastreador. Na metade superior
apresentava uma terrível confusão de amplitudes e, na parte de
baixo, tinha apenas um diagrama.
Macintosh,
o homem de pequena estatura, modesto, mantendo-se sempre atrás dos
bastidores, cuja única vaidade era um cavanhaque bem cuidado,
indiferente às caçoadas dos colegas, neste momento arregalou os
olhos. Com a respiração acelerada, postou-se imóvel diante do
oscilógrafo, como se desse instrumento viesse a solução dos
grandes mistérios do espaço.
— Santa
Via Láctea! — exclamou assustado. — O que é isto? Nunca vi
coisa assim!
Embora
soubesse que o computador de sua cabina de rádio armazenava tudo que
o rastreador registrava, sentiu-se na obrigação de verificar
pessoalmente se isto estava mesmo acontecendo. Esta confusão de
amplitude, este diagrama completamente estranho, impossível de ser
lido, pareciam-lhe tão importantes que, embora tivesse a certeza de
que o pequeno computador de bordo registrava tudo, levantou-se, foi
até a positrônica, vendo com os próprios olhos o funcionamento
automático do cérebro eletrônico.
Somente
depois disso, voltou ao seu lugar na radiotelegrafia. Mais por
instinto do que mesmo por reflexão, ligou o Telecom e chamou a
estação de rastreamento de Terrânia.
— Aqui
fala da nave cargueira Potomac, registro O-34, radiotelegrafista
Macintosh. Forte rastreamento energético na direção do planeta
Vagabundo, provavelmente oriundo do mencionado planeta. Nossa
distância de Vagabundo, no momento, é de sessenta e oito anos-luz.
O quadro de amplitudes e o diagrama do meu oscilógrafo estão de tal
maneira indecifráveis e misteriosos, que me vejo obrigado a
solicitar o controle central do rastreamento energético.
A resposta
de Terrânia não tardou:
— Muito
obrigado pela comunicação. Já fizemos o rastreamento energético
na direção do planeta Vagabundo, com os nossos aparelhos
ultrapotentes. Chamaremos de novo, caso nos surjam dúvidas.
Mas os
cientistas de Terrânia não voltaram a chamar o radiotelegrafista
Macintosh.
A Potomac
aterrissou no planeta Abeis. Ali, recebeu das mãos dos
semi-inteligentes rikkers,
uma raça de anões humanóides, a cobiçada carga de lysir e já
estava se preparando para decolar rumo à Terra, quando lhe chegou,
via Telecom, uma ordem de Terrânia. Tal ordem dizia para que não
viessem diretamente até a Terra, mas que passassem antes pelo
planeta Vagabundo e dessem algumas voltas, a fim de observar bem este
mundo quase idêntico a Marte.
Antes que
Macintosh pudesse fazer qualquer pergunta, o possante hiper-rádio de
Terrânia cortou a ligação.
O
comandante Hodkin, que mais parecia um campeão de box peso pesado,
começou a esbravejar, quando o radiotelegrafista Macintosh lhe
transmitiu a ordem de Terrânia para fazer vôos de inspeção no
horroroso planeta de Gucky.
— Você
é o único culpado por esta volta enorme que vamos dar, Macintosh.
Prepare desde já seu espírito, pois quando chegarmos à Terra, não
haverá três dias de folga para ninguém. Por que você tem que
transmitir para Terrânia qualquer coisinha que vê no rastreador?
Meia hora
depois, a Potomac entrou em transição, vindo parar entre o fraco e
bruxuleante sol e seu planeta Vagabundo, já no espaço normal.
Sete dias
já se haviam passado desde o rádio de Macintosh para Terrânia. A
Potomac sobrevoara por sete vezes aquele planeta quase deserto e, por
acaso, passara três vezes a mil quilômetros de altura sobre o
local, onde o solo, numa extensão de dois quilômetros quadrados,
estava completamente vitrificado, fluorescendo brandamente num
azulado de aço.
Mas, no
oscilógrafo do rastreador da Potomac não mais apareceu aquela
confusão de amplitudes... Já no dia anterior, sobre o planeta
Abeis, não se via mais nada. Para Macintosh, as gigantescas fontes
de energia, de onde se originou toda aquela erupção, já se haviam
fechado.
— Comandante
— atreveu-se Macintosh a dar um palpite — não acharia razoável
que déssemos tantas voltas em torno de Vagabundo, até que
conseguíssemos fazer um levantamento cartográfico completo da
superfície do planeta?
Hodkin
olhou furioso para seu radiotelegrafista.
— Quem
foi que deu esta nova ordem? Foi o próprio chefão, não foi?
— Não,
comandante, pelo menos não tem a assinatura de Perry Rhodan...
— Então
me faça o favor de confessar quem foi que assinou esta ordem, Mister
Macintosh? — disse-lhe o comandante Hodkin já um tanto áspero.
— Foi
Grimpel, da Central de Rastreamento de Terrânia, comandante. É um
nome que aliás não conheço.
— Nem
eu. De qualquer maneira, vamos agora rumo à Terra. E dizer que deste
planeta miserável, puro deserto, é que saiu Gucky, o rato-castor.
Incrível! Mas, com os diabos, Macintosh! Que foi mesmo que você
descobriu por aí? Será que esta energia toda saiu mesmo daqui?
— Exatamente
do rumo de onde estava
Vagabundo,
senhor — respondeu Macintosh, deixando perceber que não se sentia
muito bem no meio de todo aquele mistério.
Também
não podia se esquecer do modo conciso como aquele funcionário
falara no telecom.
Dezoito
horas depois, a Potomac estava descendo no espaçoporto de Terrânia.
Mal os
apoios telescópicos haviam tocado o solo, soou um aviso no
intercomunicador de bordo:
— Radiotelegrafista
Macintosh, procurar Mister Grimpel, chefe do Rastreamento Energético.
Radiotelegrafista Macintosh, dirigir-se com todos os documentos à
presença de Mister Grimpel. Radiotelegrafista Macintosh...
O chamado
foi repetido três vezes. Casualmente estavam juntos o comandante
Hodkin e o telegrafista Macintosh, quando os alto-falantes
transmitiam a ordem.
— Ninguém
sabe quem é que manda aqui. Mas Macintosh, quando estiver na
presença deste Grimpel e lhe contar que você me aconselhou a fazer
um levantamento cartográfico de todo o planeta Vagabundo e que eu
não o quis fazer, então que o diabo o... Você entendeu, não é?
Desta vez,
porém, Macintosh estava menos tímido e havia se esquecido de que
ficar calado num canto era uma das características de seu
temperamento. Despediu-se de seu comandante com belo sorriso no
rosto, dizendo-lhe:
— Muito
obrigado, apesar de tudo, pelos três dias de folga, comandante
Hodkin.
Este o
olhou como se não tivesse entendido sua frase. Depois, seu rosto
sério se abriu num sorriso e disse num tom mais carinhoso:
— Ah! É
verdade! Estamos chegando a uma idade, Macintosh, em que a gente
corre o perigo de esquecer pequenas coisas de muita importância.
Ainda bem que você me lembrou de sua folga. Bom proveito!
Entre a
Frota Espacial Solar de Perry Rhodan e as naves comerciais havia uma
pequena rivalidade e estes momentos de tensão não eram fáceis de
debelar. Mas os psicólogos deixaram de pesquisar suas causas, depois
que Reginald Bell lhes disse:
— Meus
senhores, por que razão querem extirpar uma coisa tão sadia?
Rivalidade já existia entre Caim e Abel e o próprio Adão não
conseguiu manter seus dois filhos de rédea curta. E vocês pensam em
fazer com que os homens da Frota Solar se tornem amigos íntimos dos
tripulantes das naves mercantes?
Assim, com
o sentimento de ir ao encontro de um sério concorrente seu,
Macintosh cumprimentou o chefe do Serviço de Rastreamento de
Terrânia, Walter Grimpel.
Mas ficou
admirado ao ver a maneira como Grimpel o cumprimentou efusivo,
agradecendo-lhe mais de uma vez a interessante comunicação que
Macintosh lhe fizera do planeta Abeis.
Macintosh
se via na obrigação de corrigir seus conceitos a respeito da Frota
Espacial e Walter Grimpel, que devia ter, no máximo, trinta anos,
lhe era cada vez mais simpático.
— Por
favor, mostre-me o relato dos acontecimentos, Mister Macintosh.
Permita-me uma pergunta: chegou a ter alguma explicação para a
confusão das amplitudes? Eu até hoje não estou claro sobre a causa
deste fenômeno.
Esta
sinceridade cativou totalmente a simpatia de Macintosh pelo jovem
chefe do rastreamento, surgindo daí em diante um ambiente de muita
cordialidade entre os dois.
Macintosh
começou a sorrir.
— Eu me
alegro em saber que também para o senhor estas amplitudes e os
diagramas continuam sendo um mistério, Mister Grimpel, mas o senhor
deve ter conseguido alguma coisa com tudo isto, dados os meios que
lhe estão à disposição aqui em Terrânia.
— O
senhor tem um pouco de razão. Até mesmo a positrônica de Vênus
não sabe o que fazer com esta babel de amplitudes e de diagramas.
Diante dos dados que nós lhe transmitimos, apenas nos pôde dizer o
seguinte: “Energia com estes valores contraditórios não existe.”
Bonito, não é? Mas, por favor, sente-se, Mister Macintosh.
Duas horas
mais tarde, quando Macintosh já estava de novo a caminho da Potomac,
para de lá pegar um avião e dirigir-se até a Inglaterra, a fim de
gozar sua curta folga de três dias, Perry Rhodan encontrou sobre sua
mesa de trabalho o relatório de Grimpel.
— Vagabundo?
— disse pensativo.
Tinha
automaticamente que se lembrar de Gucky, oriundo deste planeta, muito
semelhante a Marte, com pouca vegetação.
— Energia
que, conforme a positrônica de Vênus, não existe? E Grimpel também
não obteve nada com os mais potentes rastreadores?
Será que
nas profundezas de Vagabundo havia mistérios dos quais os homens
ainda não tinham conhecimento?
Rhodan
ficou ali parado, com o relatório na mão, mais tempo do que
pretendia. Quando, à noite, depois de um dia de estafantes
conversações políticas, entrou novamente em seu escritório, pegou
automaticamente o relatório de Grimpel. Alguma coisa não o deixava
sossegado. Concentrou-se mais uma vez no que ali estava. Já ia
abandonar aquele mistério inextrincável, quando, casualmente, seus
olhos se depararam com a expressão “levantamento
cartográfico feito pela nave mercante Potomac”.
Na mesma hora, ligou o videofone para Grimpel.
— Aqui
fala Rhodan. Seu relatório está em minhas mãos. Por que razão não
anexou as fotografias tiradas pela Potomac, Grimpel?
Na sua
tela, Rhodan viu como Grimpel, se escusando, balançava os ombros.
— Infelizmente
não se pode fazer nada com elas, senhor. O comandante da Potomac,
Capitão Hodkin, não fez um levantamento cem por cento do planeta
Vagabundo. Mais ou menos dezesseis por cento de sua superfície não
foi fotografada... portanto sem valor.
— Mas
você mandou analisar estas fotografias que tem em mãos?
— Dediquei
meu melhor esforço a elas, sir. Mas não adianta nada, pois está
faltando a parte mais importante. Não foi fotografada aquela região
que nossos instrumentos apontaram como o centro da erupção
energética.
A voz de
Grimpel denotava então irritação e sua fisionomia exprimia
descontentamento.
— Grimpel
— voltou Rhodan com uma ponta de ironia — não vá culpar o pobre
comandante da Potomac.
Walter
Grimpel sentiu-se apanhado em flagrante e teve um leve
estremecimento.
— Senhor
— disse ele dando vazão aos seus sentimentos — a gente julga ter
achado a pista de um grande enigma e de repente tem que constatar que
um bobo, que nada entende do assunto, destruiu, por pura ignorância,
toda possibilidade de êxito.
Perry
Rhodan estranhou a explosão temperamental de seu auxiliar.
— Com
isto, você está afirmando categoricamente que a erupção
energética se realizou de fato em Vagabundo, Grimpel? Lembre-se de
quantas possibilidades de engano podem ocorrer numa distância de
tantos anos-luz assim, falsificando total ou parcialmente os dados do
rastreamento.
Walter
Grimpel, porém, estava muito firme em suas convicções.
— Sir,
quando se deu a erupção energética em Vagabundo, a Potomac se
encontrava apenas a sessenta e oito anos-luz do planeta. O
radiotelegrafista Macintosh tinha à sua disposição somente o
aparelho de rastreamento M-17. Este modelo, embora seja um pouco
antiquado, ainda é, para as dimensões abaixo de cem anos-luz, o
instrumento mais exato que possuímos. Comparei seus resultados com
os nossos de Terrânia. Não há dúvida, sir. A erupção energética
se deu mesmo em Vagabundo e eu estou em condições de determinar a
origem desta energia misteriosa com a exatidão de até cinco
quilômetros.
— Acredito
no que você está dizendo, Grimpel, mas responda apenas à minha
pergunta: você já fez uma comparação entre estes valores
auferidos dos nossos registros e os do universo dos druufs?
— Também
isto já foi feito, e com muito esmero. Do maior computador de que
dispomos na Terra não saiu resposta nenhuma. No entanto, a
positrônica de Vênus constatou que, com uma probabilidade de
97,53%, esta misteriosa energia não tem nada a ver com o universo
dos druufs, afirmando ao mesmo tempo que...
Rhodan o
interrompeu. Seus olhos castanhos olhavam pensativos para Grimpel.
— Eu sei
disso, o cérebro eletrônico se recusa a admitir a existência de
uma energia deste tipo. Voltarei ainda a este assunto.
Comunicar-lhe-ei brevemente se vou ou não enviá-lo ao planeta
Vagabundo.
Surpreso,
Grimpel levantou a cabeça, mas antes que pudesse dizer qualquer
coisa, ouviu a voz de Rhodan:
— No
mais tardar, em três dias, Grimpel. Dentro de uma hora estarei
voando para Vênus. Mande levar os documentos até a comporta da
Drusus e não se esqueça do material deste radiotelegrafista. Eu
mesmo quero fazer umas perguntas ao cérebro eletrônico. Pretendo
estar de volta depois de amanhã. Muito obrigado, caro Grimpel.
Rhodan
desligou. Antes de se dedicar a outros assuntos, por uns segundos
ficou pensando em Gucky, o rato-castor. Teve instintivamente a
vontade de falar com ele sobre os misteriosos acontecimentos em
Vagabundo. Porém Gucky estava numa missão especial com John
Marshall, no mundo de cristal, em Árcon, para auxiliar Atlan num
caso político muito melindroso.
Ao
penetrar na comporta principal da Drusus, Rhodan recebeu todo o
material enviado pelo chefe do Serviço de Rastreamento.
“No
mais tardar, em três dias, saberemos alguma coisa mais”,
pensava Rhodan.
3
Quatro
grandes naves mercantes de fuselagem dupla, construídas com o
formato de gotas d’água, desceram quase verticalmente e pousaram
ao lado do solo vitrificado, que brilhava com um tom de azul-aço.
Em cada
uma das estranhas naves, surgiu um Ogro, responsável pelo
descarrega-mento dos enormes bojos duplos de sua nave. E, novamente,
como que numa invisível esteira rolante, saía flutuando uma peça
de máquina após outra, para depois serem montadas todas num grande
conjunto... por forças misteriosas.
Patenteava-se
aqui uma nova técnica que ultrapassava tudo que as galáxias
conheciam.
Dos dois
lados do chão vi trincado, moviam-se algumas dezenas de monstros,
com seu andar troteado. Tais seres eram dotados de quatro braços,
geralmente escondidos, que seriam sua verdadeira ferramenta de
trabalho.
Somente
por este tipo de braços disformes podia-se calcular a horribilidade
angustiante daqueles seres, ou melhor, daqueles monstros. Raios de
uma potência incrível, que saíam de uma pequena abertura entre as
garras de suas mãos ou patas, cortavam placas de mais ou menos meio
metro daquela camada de metal vitrificado do chão.
Era mesmo
surpreendente ver como aqueles raios serravam tão facilmente a
duríssima massa vitrificada. Depois, entrava em ação o Ogro de
cada nave, o misterioso ser que pensava e agia independentemente,
pois as placas elípticas, recortadas do chão metálico, se erguiam
no ar e vinham flutuando no espaço em direção à comporta da
respectiva nave, como se fossem transportadas por uma invisível
esteira rolante.
Entrementes,
os componentes mecânicos da grande instalação estavam sendo
montados ao lado do tapete de metal derretido. Um único rato-castor,
que do alto de uma distante colina estava olhando os monstros,
encolheu a cauda de medo e, logo depois, saiu pulando e, cheio de
pavor ante o que via, se enfiou numa toca subterrânea.
O conjunto
de máquinas montadas, de mais de duzentos metros de comprimento, se
separou lentamente do solo, pairando a uma altura de pouco menos de
meio metro, e aproximou-se da grande zona de metal derretido. O
espaço entre o conjunto de máquinas e a área de metal vitrificado
começou a apresentar uma cintilação esquisita... uma tonalidade
alaranjada. As bordas do grande tapete de metal vitrificado começaram
a se dissolver, como uma camada de gelo ao receber água quente. Mas,
ao contrário do que acontece com o gelo, a parte da camada derretida
desapareceu, sem deixar nenhum vestígio de sua mudança de estado.
A
dissolução se dava cada vez mais depressa e o conjunto de máquinas,
sem provocar o menor ruído, se aproximava do local onde estavam os
quatro aparelhos de duas fuselagens.
Duas horas
depois, não restava mais o menor vestígio da camada de metal
derretido em Vagabundo. Os monstros apagaram qualquer sombra de sua
passagem por ali. Mas ainda não estavam satisfeitos com o resultado.
Assombrosamente,
no maior silêncio, o soberbo conjunto do planejado parque industrial
foi sendo desmontado com a mesma supertécnica de transporte como
fora erguido. Todas as suas peças desapareceram nos bojos enormes
das quatro naves de transporte pesado. Ao lado das naves, não se via
mais nenhum daqueles monstros de rosto duplo. Fecharam-se as
comportas elípticas das espaçonaves daquela raça misteriosa.
Pareciam prontas para decolar. Mas não houve nenhuma decolagem.
Ao invés
disso, a uns cem quilômetros de distância, em pleno deserto de
areia ferruginosa do miserável planeta, surgiu um furacão,
levantando uma enorme coluna de areia, num amplo movimento de sucção.
E seu diâmetro se ampliava cada vez mais, sem se alterar, porém,
seu ponto de apoio. Em pouco menos de meia hora, era uma coluna de
poeira de mais de vinte quilômetros de altura, rodopiando numa
velocidade descomunal. O zunido e o sibilar do furacão foram coisas
inauditas para a tranqüilidade do pequeno planeta. Em suas profundas
e espaçosas tocas, os ratos-castores tremiam de medo perante a
inclemência da natureza e a catástrofe iminente, cuja melodia
terrificante atordoava seus ouvidos. Nem mesmo o mais curioso
daqueles interessantes animais se atreveu a chegar lá fora para ver
o que se passava.
E, de
repente, aquela imensa coluna giratória se pôs em movimento. Numa
velocidade espantosa, a tempestade de vento chegou ao local onde há
poucas horas atrás havia mais de dois quilômetros quadrados de
metal derretido e vitrificado. Entrementes, o ciclone levantara uma
enorme massa de areia do deserto. Com um fragor assustador, o céu se
escureceu e, em pleno dia, a noite se abateu sobre aquela região.
Como que abandonados, continuavam lá embaixo os quatro transportes
de fuselagem dupla. Os monstros em seu interior pareciam não dar
nenhuma importância ao que acontecia lá fora, nem tomar
conhecimento do furacão.
Já
atingira a região de dois quilômetros quadrados de metal fundido e,
quase de repente, seu movimento para frente parou e sua velocidade
foi diminuindo.
Grande
quantidade de areia cobrira esta região do frio planeta. Em poucos
minutos, tudo estava sepultado sob uma camada de vinte metros de uma
areia avermelhada e fina. Até mesmo os quatro aparelhos de
transporte pesado dos monstros não foram poupados. Os cimos das
colinas mais próximas quase não sobressaíam mais na paisagem.
Assim, em tão pouco tempo, a visão do local se transformara
totalmente.
O ciclone
continuou, mas não mais com aquela fúria toda. Enquanto seu
movimento de avanço ainda estava em torno de cem quilômetros
horários, a enorme coluna foi perdendo a altura, alargando-se mais
junto do solo. Por onde passava, ia sepultando tudo com uma grande
camada de areia e isto numa extensão de quinhentos quilômetros de
comprimento por cem de largura.
Então,
mais uma vez, sem que ninguém esperasse — o que deixava entrever,
naturalmente, que se tratava de um furacão provocado artificialmente
— a gigantesca catástrofe desapareceu, para voltar ao desolado
planeta o silêncio e o frio de sempre.
Na segunda
espaçonave dos monstros, encontrava-se o chefe supremo a quem
obedeciam os líderes de grupos. Não diferia dos demais pelo traje
usado, mas sim pela maneira como estava sentado à frente de um
estranho aparelho de observação. Ali, pelo modo como todos o
contemplavam com respeito, se percebia a força de seu poder. Em sua
cadeira giratória, virou-se para trás, assim que notou que o
ciclone estava chegando ao fim e, através de seu transmissor
orgânico, entrou em contato com seus subordinados, chefes de grupos:
— Partiremos
em cinco períodos de tempo. Os rebaixamentos no solo do planeta
deixados pela decolagem de nossas naves devem ser nivelados.
Os
transportes dos estranhos seres estavam atolados na areia mais ou
menos até os vinte metros de altura. Os restantes oitenta metros
sobressaíam da camada cor de ferrugem. Depois que as quatro naves se
desprenderam do solo, sem o mínimo ruído, viam-se abaixo delas as
oito grandes cavidades no deserto de areia, provocadas pelas
fuselagens duplas dos quatro transportes pesados. Todas se mantinham
pairando a pouca altura do solo. De um momento para outro, foi como
se uma mão invisível, mão de muitos metros, passasse por sobre a
areia para encher as oito grandes valas, apagando assim qualquer
vestígio da presença de alguém.
Silenciosamente,
as naves subiram na vertical e, numa aceleração intensa,
desapareceram no espaço.
Nove horas
após a aterrissagem de suas naves, não restava nada que pudesse
provar a presença de estranhos no planeta.
Foi
exatamente na mesma hora em que Perry Rhodan deu ao chefe do Serviço
de Rastreamento de Terrânia a missão de voar com uma espaçonave da
classe Estado para o planeta Vagabundo, a fim de realizar os exames
mais profundos possíveis.
*
* *
Cinco dias
mais tarde, Walter Grimpel já estava de volta à Terrânia. Sentado
diante de Perry Rhodan, fazia seu relatório.
— ...finalizando
o assunto de nossas investigações, resta-nos dizer que não
encontramos nada, sir. Não há o menor indício de que tenham
irrompido em Vagabundo explosões energéticas daquela intensidade.
Nossa suspeita ficou sempre naquela faixa de areia de quase
seiscentos quilômetros de extensão, cobrindo rigorosamente a região
geográfica em questão, de acordo com nossas medições, minhas e de
Macintosh.
“Tentamos,
pois, remover a grande camada de areia no ponto determinado, para se
chegar ao chão, propriamente. Depois de algum sacrifício, nós o
conseguimos. Outra decepção. Não havia nada de palpável. Fiz tudo
para não ser vítima de um engano. Nossa nave já estava preparada
pra decolar de volta, quando não sei por que ainda saí sozinho e
achei isto aqui, chefe.”
Walter
Grimpel colocou em frente do administrador do Império Solar, Perry
Rhodan, um pedacinho de aço azulado fosforescente, do tamanho de um
grão de ervilha.
Interessado,
Rhodan o apanhou entre os dedos, colocou-o na palma da mão para lhe
medir o peso.
— Curioso,
extraordinariamente pesado, Grimpel! Que é isto?
Grimpel
estava meio sem jeito.
— Senhor,
ainda não sabemos.
Rhodan o
olhou surpreso. Com toda calma, como era seu hábito nas horas mais
difíceis, disse:
— Grimpel,
você não escolheu para sua viagem de pesquisa os melhores
colaboradores?
O chefe do
Serviço de Rastreamento deu de ombros, numa expressão de desânimo.
— O
Doutor Innogow...
— Innogow?
— repetiu Rhodan admirado. — E o Dr. Innogow não conseguiu
analisar isto? É estranho.
— Mais
estranho ainda é o comportamento físico deste material
fosforescente, sir. Não reage a nada.
— Mas,
certamente, será possível constatar seu peso atômico.
— Já o
constatamos, senhor. Mas ninguém pode acreditar que o objeto de
exame não passa de areia...
— Areia?!
— o olhar de Rhodan parecia ver coisa muito distante. — Você
falou em areia? E falou também de uma tempestade de areia em
Vagabundo? Este material pesado será areia?
Grimpel
sorriu sem jeito.
— A
mesma pergunta fiz eu ao Dr. Innogow. Respondeu com um “não”
categórico. Mas logo depois acrescentou: “O
que podemos constatar neste material são vestígios de areia
fundida, mais ou menos na proporção de quatro milésimos do
conjunto. Mas não me pergunte o que seja o restante, Grimpel, não
sei mesmo.”
É este meu relatório, chefe.
Rhodan o
olhou pensativo.
— Estou
sentindo falta de uma coisa muito importante em seu relatório,
Grimpel. Você não cuidou de entrar em contato com os
ratos-castores?
— Claro
que sim, sir. Dei ordens a respeito. Mas, num raio de mil
quilômetros, não vimos nenhum deles. Encontramos os primeiros na
região do pólo sul e, dois dias depois, nos deparamos com um grande
grupo deles, no outro lado do planeta, na zona equatorial.
Infelizmente, foi-nos impossível entrar em contato com eles. Embora
sejam criaturas adoráveis, estes ratos-castores, com sua mania de
brincar o tempo todo, principalmente com suas forças telecinéticas,
transformaram nossa espaçonave num verdadeiro hospício. Tudo que
não estava aparafusado no chão, começou a voar e pairar rente ao
teto. Por três vezes fui vítima de suas peraltices telecinéticas.
“Tivemos
que fugir desta raça de bagunceiros, pois queríamos chegar à Terra
e não ficarmos condenados a passar o resto da vida numa nave
semidestruída. Senhor, estes ratos-castores podem se transformar
numa praga. Admiro-me muito de como nosso Gucky seja tão moderado.”
— Se
você soubesse, Grimpel, quantas o pequeno Gucky já aprontou —
disse Rhodan distraído, sem esconder, porém, seu descontentamento
com os resultados obtidos com a investigação em Vagabundo.
Continuava ainda com a pedrinha na palma da mão. Olhou-a de novo.
— Grimpel,
você examinou bem o chão?
— Chefe,
não houve uma coisa que nós não fizéssemos para descobrir a causa
das erupções. Mas tudo foi inútil.
Grimpel e
Bell se encontraram na saída do escritório de Rhodan. Bell, que
dispunha de uma memória fantástica para fisionomias, reconheceu
logo o chefe do Serviço de Rastreamento e sabia qual fora sua última
missão.
— Então?
— perguntou Bell, ao sentar-se na poltrona, ocupada até pouco
antes por Grimpel. — Alguma novidade?
— Sim,
isto aqui! — disse Perry mostrando na palma da mão a pedrinha
azulada.
— E o
que é isto? — perguntou Bell, sem tocar a pedrinha.
— Quatro
milésimos do tamanho total é areia fundida, seu gorducho.
Reginald
Bell olhou interessado. Apanhou com todo cuidado o pedacinho de aço
fosforescente. Estranhou inicialmente o peso.
— Santo
Deus, isto é mais pesado do que chumbo.
— É
isso. Um material superpesado, e assim se esgota todo nosso
conhecimento. Apenas posso ainda informar que foi encontrado no
planeta Vagabundo, sob uma camada de mais de vinte metros de areia,
exatamente no local onde Grimpel julga ser o centro das erupções
energéticas.
— E por
que você não mandou Gucky tomar parte nesta excursão? Seria o
número um, num caso deste.
— Bell,
você sabe perfeitamente que Gucky se encontra com John Marshall no
mundo de cristal, ajudando Atlan, sendo impossível entrar em contato
agora com ele.
Bell
sorriu complacentemente.
— Quando
você fala tão calmamente assim, Perry, pode enganar os outros, a
mim, não. Resumindo: você quer dizer que a expedição para
Vagabundo fracassou, não é?
— Grimpel
nem conseguiu entrar em contato com um rato-castor.
— Quer
dizer que Grimpel acabou fugindo deles em Vagabundo, não é? E você
não o pode censurar por isto, Perry. Estes ratos-castores, quando
começam a brincar, parecem loucos. Você se lembra dos apuros em que
Gucky nos deixava nos primeiros anos? E o que tivemos que agüentar
em Vagabundo? Eu dou graças a Deus por Grimpel ter podido voltar são
e salvo.
— Puxa!
Você o está defendendo?
— De
maneira alguma, procuro somente fazer com que você compreenda as
circunstâncias que o pobre Grimpel teve de enfrentar. Mas, voltando
a este pedacinho de metal, você já pensou nos druufs?
— Já
sim! É bem possível que algumas naves dos druufs tenham descido no
planeta Vagabundo e estejam agora vagando por aí, entre as estrelas.
Mas nossos homens também não estão dormindo. Tudo que temos no
arquivo sobre os druufs foi consultado para se poder decifrar os
diagramas e a confusão nas amplitudes. Fiz perguntas a respeito na
positrônica de Vênus. Com um não categórico, os druufs foram
excluídos. Eles não têm, pois, nada a ver com as erupções
energéticas em Vagabundo.
Bell deu
um longo suspiro.
— Cérebro
eletrônico, superpositrônica, positrônica de Vênus... sempre este
“deus
ex machina”!
Aceito estas coisas como simples instrumentos de auxílio, mas aí
pára minha simpatia por elas. Perry, se fosse possível injetar um
pouco de vida nestas máquinas eletrônicas, então eu daria valor
aos seus números e resultados. Mas sem isso, desculpe dizer, Perry:
odeio estes monstros de cifras frias.
“E se os
druufs de fato andaram fazendo alguma malandragem lá por Vagabundo?
Será que conhecemos mesmo tão bem assim o mundo dos druufs? Será
que queremos enganar a nós mesmos? Pretendemos dizer com arrogância
que conhecemos todos os insondáveis confins das galáxias? Não acha
um pouco exagerado isto? Positrônica de Vênus para cá, positrônica
de Vênus para lá... o que adianta isto? E a nossa fantasia, o dom
de combinar as coisas, forças que constituem a grandeza da
Humanidade... Portanto, meu palpite é que alguma nave dos druufs
andou fazendo qualquer experiência no planeta Vagabundo. Que diz a
análise com o C14
sobre a idade deste material tão pesado?”
— Não
diz nada. E para que você não tenha mais dúvidas a respeito, Bell,
esta pedrinha que você teve entre os dedos não responde a nenhum
exame com o C14.
O que me diz agora?
O olhar de
Bell oscilava entre o material e Rhodan. Depois falou com ponderação:
— Portanto,
não foram os druufs! O material deles não resiste a um exame. Santo
Deus! As coisas vão se ampliando. Há poucas semanas travamos
contato com os homens-peixe de Opghan, e agora este negócio em
Vagabundo! Mas será que estas erupções energéticas se realizaram
em Vagabundo ou diante de Vagabundo, em pleno espaço? As medições
de nossos instrumentos de rastreamento estão exatas? Tão exatas que
excluam um erro?
— Bell,
gostaria de poder dizer que as medições estão erradas.
Infelizmente não o posso. O que posso afirmar é que cometi um erro
muito grande em não mandar Gucky para Vagabundo. Não queria
realmente criticar o trabalho de Grimpel, mas não posso me livrar do
pensamento de que ele se esqueceu de algo muito importante. Mas,
daqui para diante, haveremos de controlar tudo que se passa neste
planeta.
*
* *
Os
monstros voltaram pela terceira vez a Vagabundo, e nenhuma estação,
nem da Terra, nem de Árcon, conseguiu registrar sua chegada.
Desta vez,
mais de quinhentas naves de dupla fuselagem, no estranho formato de
gota d’água, desceram no lado oposto, isto é, na zona do equador.
Ocuparam ali uma área de oito quilômetros de diâmetro.
Quem
comandava os trabalhos não era mais um chefe de grupo, mas o chefe
supremo Enn.
Novamente
o mesmo tipo de descarregamento das naves de transporte e os mesmos
monstros de rosto duplo moviam-se intensamente. Mas o que estavam
fazendo, os ratos-castores escondidos não podiam compreender. E nem
mesmo um terrano, se ali estivesse, haveria de entender.
Os
monstros não sentiam nada de extraordinário durante o trabalho. Não
possuíam a faculdade de distinguir entre uma coisa boa ou ruim. Uma
missão era um trabalho a ser feito, e toda sua vida não passava de
trabalho. Até mesmo a vida de um líder de grupo ou do próprio Gal
Enn.
Viviam
numa comunidade em que não havia o conceito de obrigação nem o de
submissão. Como um não se diferenciava do outro, o fato de um poder
distinguir o outro na multidão, principalmente quando se comunicavam
por intermédio do rádio orgânico, era um tanto extraordinário.
Cada qual dispunha de uma freqüência especial, que lhes servia de
identificação, como acontece nos homens com a impressão digital.
Apenas, esta freqüência especial não tinha nada a ver com os nomes
dos chefes ou com o número dos monstros. Não lhes parecia nada
anormal que, ao nascer, cada um deles fosse registrado como um
objeto. Pois, para quem não existe tristeza nem alegria, um ser que
nunca poderá ter seu eu vive e morre como mera parcela de uma
inteligência-grupo.
Durou dois
dias o descarregamento da grande frota. Os ratos-castores, que tinham
suas tocas nas proximidades do local escolhido para aterrissagem,
olhavam estarrecidos aquelas peças metálicas que pairavam
silenciosas e depois iam se acomodando no solo, como se lá
estivessem superguindastes automáticos.
No
terceiro dia, o espetáculo começou a ficar monótono para os
animais telecinetas. Oito deles, de um grupo de cinqüenta cabeças,
haviam combinado de fazer com que aquela espécie de grua ou
guindaste, de cem metros de altura, voasse pelos ares. Eram os oito
mais fortes telecinetas do grupo. Nas escaramuças com outros grupos
de ratos-castores, sempre saíam vitoriosos, usando apenas suas
forças telecinéticas, com as quais levantavam as colinas habitadas
por seus rivais e as afastavam por muitos quilômetros. Muitas vezes,
as colinas eram alçadas a grande altura e, ao cair de mais de mil
metros, não eram mais colinas, e sim areia e terra que acabavam
sepultando muitos irmãos de raça.
Possuídos
pelo instinto da brincadeira, os oito atacaram o suposto guindaste,
que deu uma forte guinada para o alto, bem longe do solo. Porém, no
mesmo instante, os oito animais foram atingidos por uma força
descomunal, que não tinha nada a ver com poderes telecinéticos,
enquanto que o guindaste misteriosamente tomou a posição
horizontal. Ficou pairando a um metro do chão.
Uma cena
horrível se desenrolou entre o grupo dos animais que estava ali
parado, de olhos arregalados. Velhos e mais moços, todos rolaram
pelo chão, vítimas de grandes dores.
Seus
gritos ainda enchiam o espaço, quando uma muralha negra avançou
contra a colina onde ficavam as tocas. Como o raio que atingiu os
oito telecinetas, a muralha negra também logo voltou a desaparecer.
Não
restou nem vestígio dos pobres animais!
De um
momento para outro, todo e qualquer sinal de vida desapareceu das
galerias subterrâneas que davam para os abrigos dos ratos-castores.
Os monstros haviam vencido.
Como que
guindado por mãos misteriosas, o objeto semelhante a um guindaste se
ergueu verticalmente no ar, alcançando uma altura de mais de cem
metros.
A partir
daí, nas redondezas não havia mais ninguém para presenciar o
trabalho dos monstros.
O Gal,
chefe supremo, que se chamava Enn, controlava o Ogro de sua nave.
Numa tina
aberta, em forma de elipse, mexia-se qualquer coisa que tanto podia
ser um plasma como também quitina líquida. Do meio desta massa ou
líquido grosso começou a surgir um brilho intenso, quando o Gal
virou um de seus dois rostos para a tina, concentrando o olhar.
— Ogro,
será que seremos ainda importunados? — perguntou o Gal ao Ogro,
através de seu rádio orgânico.
A tina
aberta, que repousava numa carcaça assimétrica, deu a resposta
através do mesmo meio de comunicação:
— Gal
Enn, a duzentas léguas daqui ainda existem três grupos de
ratos-castores. Posso liquidá-los?
— Sim,
liquide-os — ordenou o Gal. — Abra-te, Ogro!
O Gal deu
um passo para trás, abaixou a cabeça e um de seus quatro olhos
passou a mirar a carcaça assimétrica que cada vez se tornava mais
transparente, deixando ver uma formação confusa de pequenos
elementos escuros e blindados. Fagulhas saltavam para todos os lados.
O Gal
ergueu o braço, que saía de seu corpo naquele lado, na altura do
ombro humano, mais ou menos onde fica nosso esterno. Esticou-o na
direção do ponto amarelo entre os elementos escuros blindados.
Depois, abriu bem os dedos, ou melhor, garras, deixando um espaço
maior entre o segundo e o terceiro. Um raio sibilante, mas invisível,
devia irromper daquele espaço. E, realmente, no momento em que
começou o ruído, o ponto amarelo sofreu grandes alterações:
inflou-se, como uma bola transparente, envolvendo os elementos
blindados mais próximos, deixando-os bem à vista: era um organismo
com câmaras, músculos e veias, mas também com campos vibratórios
e com o quadro típico de campos magnéticos, tornados visíveis pela
presença da limalha de ferro. Portanto, o orgânico e o técnico
formavam aqui uma unidade, e esta unidade recebia agora energia extra
através do Gal Enn.
O ponto
amarelo já tomava a terça parte do volume total da carcaça, quando
o Gal terminou sua transmissão energética. O ruído sibilante
cessou, o crescimento do ponto amarelo estancou e foi voltando ao
normal. Desapareceu também a transparência da carcaça assimétrica,
onde se apoiava a tina elíptica. O Gal deixou cair o braço
estendido, virou-se, deixando o compartimento, cujas paredes recebiam
uma iluminação indireta.
E o manto
da morte se abateu sobre os pobres ratos-castores na forma de uma
muralha negra, tão veloz como a luz, mas silenciosa como a própria
morte.
Neste
momento de destruição e de morte, desencadeado e dirigido pelo Ogro
— aquele produto híbrido do mundo dos monstros, um misto do
orgânico com o técnico — deixaram de existir algumas centenas dos
habitantes primitivos de Vagabundo. E, num âmbito de milhares e
milhares de quilômetros em torno do local onde desceram as horrendas
naves de fuselagem dupla, o planeta se tornou de fato um mundo
deserto, onde nem mais uma planta germinaria.
*
* *
Seis dias
depois, nove transportes de fuselagem dupla estavam voltando de um
vôo pelo planeta. No trecho percorrido, cada nave fez duas
aterrissagens. Em cada um destes pousos, descarregou, por intermédio
das forças do Ogro, um daqueles enormes guindastes, afundando-o de
tal maneira no solo, que só sobressaía um trecho não maior do que
um antebraço humano.
Antes das
naves dos monstros prosseguirem em sua viagem, surgia sempre a
muralha preta para cobrir uma área de pelo menos oitenta quilômetros
quadrados.
Mal as
nove naves haviam chegado de volta ao local de onde partiram, teve
início a “construção”
do parque industrial. Tal maneira de construir daria aos terranos uma
estranha impressão, caso estes a presenciassem.
Assistido
por três chefes de grupo, o Gal Enn deu, na sala de comando de sua
nave, uma série de ordens pelo rádio orgânico. Postados diante de
um quadro levemente côncavo, apresentando um grande número de
botões de ligação, não maiores do que a unha do dedo polegar,
estavam os três chefes de grupo. Manipulavam os pequenos botões,
com três dos seus quatro braços.
Depois que
o Gal Enn acabara de irradiar sua última mensagem, os chefes de
grupo não mais se moveram.
Mais de
quinhentas espaçonaves dos estranhos monstros estavam em Vagabundo.
Cada aparelho de duas fuselagens dispunha de um Ogro. Através de
suas ordens, com a assistência dos três líderes de grupo, Gal Enn
conseguira fazer deles uma grande corrente de força. Por meio de
seus Ogros, os monstros construíram o poderoso parque industrial nas
profundezas do planeta Vagabundo.
Utilizavam-se
de forças completamente desconhecidas tanto para os terranos como
para os arcônidas. O que se apresentava como um grave problema
técnico para a mais avançada tecnologia terrana ou arcônida,
parecia uma brincadeira para aqueles monstros.
A dez
quilômetros de profundidade, as rochas maciças se liquefizeram.
Originou-se, assim, uma série de veios de rochas líquida, cada um
deles partindo do centro da pedra, para os espaços vazios em volta.
Ali então se assentavam novos blocos de pedra, trazidos facilmente
em estado líquido.
No curto
espaço de meio dia de Vagabundo, surgiu a dez mil metros de
profundidade uma gigantesca catedral subterrânea de cinco
quilômetros quadrados de superfície, com altura média de duzentos
metros.
Assim que
o Gal Enn, através do Ogro de sua nave, soube que a cavidade
subterrânea atingira o tamanho necessário, ordenou por seu rádio
orgânico que se iniciasse a instalação.
Seus três
líderes de grupo, sentados diante do quadro de comando, manipularam
apenas algumas vezes os pequenos botões.
Perante as
naves dos monstros, desenrolou-se, no maior silêncio, um cenário de
assombrosa dramaticidade.
Do enorme
conjunto técnico-industrial, ali montado, foi desaparecendo peça
por peça, como que dissolvidas no ar. Sem a ajuda de nenhum
transmissor fictício ou de uma contra-estação, montara-se numa
cavidade cavada através de 10 mil metros de terra e rocha uma
gigantesca instalação de supermaquinaria na extensão de mais de
três quilômetros quadrados, peça por peça, exatamente como já
estava montada ao lado das espaçonaves.
Esta cena
inacreditável não durou mais de meia hora, tempo de Vagabundo. Gal
Enn recebeu então a comunicação de que o trabalho estava
executado. O chefe supremo, portanto, não necessitava mais da
concentração energética de todos os Ogros. Seus três líderes de
grupo receberam a ordem de suspender a ligação em corrente única.
E começou novamente a manipulação mecânica dos botões e
alavancas no quadro côncavo.
Ao receber
em sua freqüência de alarme a comunicação de que “uma
espaçonave desconhecida estava em vôo direto para este planeta”,
Gal Enn não se assustou.
Completamente
tranqüilo, Gal Enn apenas disse em seu rádio orgânico:
— Executar
operação escurecimento.
Após o
que, não se interessou mais pela nave desconhecida. Sabia por longa
experiência que o escurecimento era uma proteção infalível.
No
interior de uma das naves, estava um líder de grupo sozinho.
Achava-se num aposento cheio de instrumentos inexplicáveis. Não
havia nada semelhante aos medidores e dispositivos de construção
arcônida, terrana ou dos druufs. Tudo ali era terrivelmente
esquisito, como todas as coisas naquelas espaçonaves. Este líder de
grupo observava, com seus dois rostos, todos os instrumentos de
controle na frente e atrás dele, sendo que seus quatro braços, como
também seus quatro olhos, que lhe davam uma visão de 360 graus,
estavam ocupados.
Tinha sido
avisado pelo Gal Enn de que as instalações a dez mil metros dentro
da terra e da rocha já estavam em pleno funcionamento. Sua missão
agora era constatar se as alterações na forma haviam se efetuado de
acordo com as provisões dos seus cientistas.
Enquanto
uma espaçonave terrana da classe dos cruzadores leves circunvoava o
planeta a alguns milhares de metros de altura, fazendo um
levantamento aerofotogramétrico, lá embaixo, mais de quinhentas
naves dos monstros, muito bem camufladas, aguardavam pelas primeiras
provas de que sua experiência daria bom resultado.
O líder
de grupo, que no seu laboratório observava com os quatro olhos os
instrumentos ao seu redor, comparava de memória as previsões dos
cientistas com os dados fornecidos pelos instrumentos de medição.
Mas ainda hesitava em comunicar ao Gal Enn o sucesso total da
experiência.
Passou
mais uma hora do tempo de Vagabundo e o cruzador leve da Frota Solar
continuava circunvoando o planeta. Entrementes, soube o líder de
grupo, com plena evidência, que o sucesso era absoluto e transmitiu
ao Gal Enn os resultados de suas observações.
— Partida
em dez períodos de tempo — ordenou Gal Enn.
Continuava
não dando nenhuma importância à nave terrana que sobrevoava todo o
planeta. Terminara o décimo período de tempo. Mais de quinhentas
naves de dupla fuselagem deixaram Vagabundo, sempre protegidas pela
camuflagem da escuridão total. Mas sabiam bem o que estavam fazendo.
Apesar de
tudo, o cruzador leve terrano as conseguiu localizar.
E, devido
ao fato de não ser possível um rastreamento espacial normal, pois
havia algo impedindo, desconfiava-se do refletor de ondas e mais
ainda do resultado de suas medições que assinalavam que a 74
quilômetros Grün 45,32:49 se movia um corpo de vários quilômetros
de diâmetro em direção ao espaço.
A tela
panorâmica foi ligada para a maior ampliação possível e mesmo
assim não apareceu nada. Com isso, a tripulação da sala de comando
estava convencida de que o refletor de ondas de sua nave esférica
estava ultrapassado ou carente de uma revisão.
Por
coincidência de certas circunstâncias, a gigantesca frota dos
monstros passou invisível diante da nave terrana e abandonou o
planeta Vagabundo.
4
Já há
algum tempo que alguma coisa estranha se passava com Gucky, tenente
do Corpo de Mutantes. Não era mais o Gucky que todos conheciam.
Depois de
sua última missão contra Thomas Cardif no importante planeta
arcônida Archetz e após sua volta à Terra, deu-se uma alteração
em Gucky, só descoberta por Reginald Bell já em fase mais
adiantada.
— Alô,
little
mouse
— disse-lhe brincando Bell, enquanto lhe passava a mão pesada
pelos ombros — o que há com você? Está doente ou anda se
“abastecendo”
demais no meu conhaque?
Gucky
estremeceu sobre a mão do amigo e respondeu áspero:
— Pelo
amor de Deus, me dispense de suas asneiras, me deixe em paz — com
estas palavras teleportou-se para outro lugar distante, deixando Bell
boquiaberto e estupefato.
Dando de
ombros, sem poder explicar o que acontecia com o amigo, Bell passou
para os trabalhos do dia. Tempos depois, em conversa com Rhodan,
ouviu a seguinte frase:
— Não
estou gostando de Gucky, gorducho. Parece que o inteligente animal
perdeu todo o entusiasmo. Não faz mais das suas brincadeiras, foge
de todo mundo, inclusive de mim. De você também?
Em sua
maneira espalhafatosa, Bell disse o que pensava de Gucky:
— Ele
anda por aí escondendo-se, como alguém que está na fossa, que não
agüenta nem mesmo consigo. Só Deus sabe o que se passa com ele.
Mas, não tenha medo que ele voltará ao normal.
O ano
2.044 estava chegando ao fim e a situação no Império de Árcon ia
se normalizando. A Terra passava por um período de calma. Mas, uma
criatura que se tornava cada dia mais estranha, era Gucky.
Sempre que
lhe era possível, ficava sentado em seu bangalô, olhando para as
paredes nuas, escondendo seu dente de roedor e entregue ao seu
cismar.
Ele mesmo
não sabia o que lhe faltava. Não se sentia propriamente doente, mas
estranhamente deprimido, sem vontade para nada, constantemente
inquieto. Às vezes tentava escapar de si mesmo. Mas não conseguia,
como ninguém, aliás, consegue quando chega a uma situação desta.
No dia
anterior, o chefe o havia chamado. Perry queria encorajá-lo. Mas
Gucky não desejava saber de entusiasmo, queria ter seu sossego, não
falar com ninguém, nem ver ninguém.
Depois de
poucas palavras, Rhodan terminou sua conversa e muito preocupado
mandou chamar John Marshall, chefe do Corpo de Mutantes.
— Marshall,
dê uma chegada até aqui. John veio imediatamente.
— Marshall,
você sabe o que está acontecendo com Gucky?
O chefe do
Exército de Mutantes também não sabia.
— Ele
não permite que a gente leia seus pensamentos, sir — respondeu o
melhor telepata de que dispunha Perry Rhodan. — E, além disso,
recusa qualquer conversa. Talvez esteja doente ou é a idade que se
faz sentir de repente. Qual é a idade dele agora? O senhor sabe?
— Ninguém
sabe — respondeu Rhodan. — Recordo-me de que, há mais de uns
quarenta anos, Bell tentou saber dele a idade exata, mas como uma
senhora vaidosa, não quis de maneira alguma falar em idade. É
interessante lembrar estas coisas, mas não deixa de ser
constrangedor, quando se considera a possibilidade de um rápido
envelhecimento. Será que seu organismo reagiria a uma ducha celular?
O que
Marshall respondeu foi mais uma conversa consigo mesmo, do que com
Rhodan.
— Gucky
e velho? Não consigo unir estes dois conceitos, chefe. Mas, muito
menos pensar que ele esteja doente. Não dá a impressão de uma
grande depressão?
Rhodan se
recostou no espaldar da poltrona e quando Marshall olhou para ele,
vislumbrou certa intranqüilidade nos olhos do administrador do
Império Solar.
— John,
você não quer fazer mais uma tentativa? Quem sabe, Gucky lhe vai
dizer alguma coisa.
— A mim,
chefe? Quando se esquiva até do senhor e de Bell, não querendo
falar com ninguém! Nem vai permitir que eu me aproxime. De qualquer
maneira, vou tentar. Não creio, porém, em sucesso.
*
* *
Para a
festa do réveillon, Rhodan fez questão de convidar Gucky.
— Pelo
amor de Deus — dizia Gucky — me dispense desta, nem consigo mais
olhar para mim mesmo. Não tenho o direito de lhes estragar a festa e
a boa disposição. Pretendo fazer outra coisa. Tenho que me
divertir. Pretendo dar uma chegada a Paris, deve ser uma cidade
maluca, não é? Você conhece Paris, Perry?
Mas tudo
isto tinha um tom de cansaço e de desinteresse, de maneira que Perry
Rhodan chegou à conclusão de que Gucky devia estar seriamente
doente.
Descreveu-lhe
Paris nas cores mais maravilhosas, porém, em meio à sua exaltação
à Cidade Luz, Gucky o interrompeu enfastiado:
— Ah!
Não quero passar meu réveillon em Paris. Que bobagem! Fico entre
minhas quatro paredes. Faça-me apenas um favor, Perry: tire Bell do
meu caminho. Não posso suportar sua compaixão, apesar de o coitado
querer ajudar-me. Miséria... dá vontade de a gente sumir de uma
vez.
Decepcionado,
Perry continuou olhando para seu videofone. Gucky já desligara.
“Que
está se passando com Gucky?”,
perguntou Rhodan a si mesmo, mergulhado em séria preocupação.
*
* *
Seis dias
antes daquela conferência de emergência, em que desempenharam o
papel de mais importância o diário de bordo de um cruzador leve e o
refletor de ondas, o ar cintilou de repente diante de Rhodan. Gucky
tornou-se visível.
— Bom
dia, chefe!
Era o
velho tom brincalhão de Gucky e, bastante surpreso, Rhodan olhou
para ele.
— Oba!
Gucky, como é, já está tudo cem por cento?
E, se
fosse preciso, Rhodan continuaria naquele tom de gozação, usado
sempre pelo rato-castor.
— Como
banquei o bobo, Perry!
— Você,
um bobo, Gucky? Impossível. Ou você aprontou mais uma das suas e a
consciência lhe dói agora. Escute aqui, de antemão está tudo
perdoado e esquecido, meu amigo.
Perry
Rhodan bancou o generoso e magnânimo.
Viu então
o famoso dente roedor. E, soltando um longo chiado, o rato-castor
falou:
— Aceito.
Sua absolvição geral, eu transfiro para minha próxima falta,
chefe. Mas agora tenho que decepcioná-lo. Realmente não aprontei
nada de errado, apenas sei agora o que me está faltando. Mas, por
favor, Perry, não vá caçoar de mim, não é? Estou louco de
saudade do meu planeta. Gostaria de gritar com toda força, tanta é
a alegria que sinto. Por favor, Perry, deixe-me voar para Vagabundo.
“Saudade”,
pensou Perry assustado, e, puxando Gucky para junto de si, o abraçou.
— Gucky,
meu pobre amigo!
E isto foi
dito com sentimento, com sinceridade e com compreensão.
— Perry...
meu caro Perry!
Os braços
do rato-castor envolveram o pescoço de Perry Rhodan, comprimindo sua
cabeça contra o peito do homem mais poderoso do Império Solar.
“É
saudade que ele tem”,
pensava ainda Rhodan. “Este
pequeno animal tem saudade do deserto e frio planeta Vagabundo e de
seus companheiros de raça. Sente saudade como um ser humano que, de
repente, percebe que não pode criar raízes numa terra estranha.”
— Você
pode partir amanhã, Gucky. Quer que uma nave o leve para lá ou
prefere chegar sozinho?
Ao
terminar a pergunta, Rhodan percebeu de novo o dente roedor em toda a
sua grandeza. Isto já era um sinal evidente do contentamento de
Gucky. No entanto, não se contendo de alegria, deu rédeas a seu
entusiasmo:
— Sozinho,
Perry, ceda-me uma nave tipo Space-Jet.
Prometo-lhe trazer de volta o aparelho sem nenhum arranhão.
— Certo,
Gucky, mas um Space-Jet exige pelo menos uma tripulação de quatro
homens.
Mais do
que depressa Gucky largou suas mãos das de Rhodan, aprumou-se todo e
se postou na frente de seu chefe, respondendo:
— Quatro
homens... Mas queria ir sozinho para Vagabundo! E o que é necessário
para transformar um jato de quatro tripulantes em um aparelho de um
só tripulante? Somente uma ordem sua, alguns robôs e, em três
horas, está tudo resolvido.
Nesta
altura, Perry desandou num grande sorriso. Assim como Gucky se sentia
feliz e aliviado por ter reconhecido depois de semanas e semanas de
angústias a causa de sua depressão, também Rhodan se sentia
contente e livre dos cuidados em torno do rato-castor. Seu sorriso
espelhava o que lhe ia no íntimo.
Neste
momento, Reginald Bell entrou no escritório de Rhodan. Viu Gucky
abraçado a Perry Rhodan e ouviu o final da boa gargalhada do
administrador.
— Vocês
dois estão indo muito bem, como vejo — observou Bell que de nada
suspeitava, sentando-se depois à sua mesa de trabalho.
— Fantasticamente
bem — concedeu Rhodan. — Sinto-me aliviado, gorducho. Gucky se...
— Por
favor, Perry — suplicou o rato-castor, interrompendo o chefe.
Mas Rhodan
não se deixou levar e concluiu:
— Como
estava dizendo, Gucky se queixa de que você lhe ensina muita coisa
errada com sua linguagem que não é nada de salão.
— Este
santinho que está aí abraçado a você já recuperou a saúde? Sim
ou não? — vociferou o temperamental Bell, descendo de sua mesa e
indo para a frente de Rhodan e de Gucky, querendo pegar este último.
— Gucky
está se convalescendo, Bell — disse-lhe Rhodan. — Esteve doente
de saudade e voa amanhã sozinho para Vagabundo num Space-Jet
adaptado.
— Saudade?
— Bell ficou pensativo e se esqueceu na mesma hora de que tinha uma
rusgazinha com Gucky. — Coitado do pobre-diabo!
E aquela
mesma mão que queria agredi-lo, alisou seu pêlo com carinho.
— Gorducho
— falou o rato-castor — você é, depois de Perry, o sujeito mais
bacana, só que você não me deve ensinar tantas palavras
impróprias, como tem feito. Perry acha que desta maneira você
poderia me...
— Estou
vendo que você se recuperou depressa demais, Gucky — atalhou-o
Rhodan e sua voz estava um pouco mais dura.
— E o
motivo disto é porque amanhã vou voar para minha terra, Perry.
Estou com medo de explodir no ar de tanto contentamento. Quanto tempo
de licença você me dá?
— Se não
acontecer nada neste meio tempo, um mês inteiro, Gucky. Isto basta?
— Um
mês, chefe, um mês inteiro de férias? Não é demais para mim?
O
inteligente animal não cabia em si de feliz. Apesar de todas as suas
peraltices e pequenos atos de indisciplina, que lhe causavam depois
muitas horas de arrependimento, não havia perdido nada de sua
modéstia.
E olhando
de Rhodan para Bell:
— Um mês
inteiro de férias?
Ainda não
estava acreditando. Acudiu-lhe de repente uma suspeita:
— Ou
será que eu recebo este mês de férias, para não poder participar
de uma missão que está para se realizar?
E contra a
ordem expressa, procurou com seus fortes dons telepáticos ler os
pensamentos do administrador. Rhodan, porém, se protegeu de forma
que Gucky nada percebeu.
— Gucky,
não há previsão para nenhuma missão. Se durante seu tempo de
férias se positivar a necessidade de sua presença, então fique
tranqüilo que nós o chamaremos por hiper-rádio.
As
palavras de Rhodan o tranqüilizaram, mas se preocupava ainda com a
duração de suas férias.

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