domingo, 28 de agosto de 2016

P-098 - Forças Desencadeadas - Kurt Brand [Parte 1]

Autor
KURT BRAND



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN


Experiências monstruosas... e
com elas se destrói um planeta...


Perry Rhodan e seus fiéis seguidores tiveram que percorrer um longo e árduo caminho, desde os dias da “Terceira Potência” até a unificação política de toda a Humanidade terrana.
Utilizando-se da fabulosa tecnologia arcônida, os terranos abriram, ainda mais, o caminho para o espaço, não obstante enorme oposição e duros reveses internos e externos. E, exatamente por não conhecerem as palavras “resignação” ou “desistência”, mesmo em situações dificílimas, conseguiram criar e manter e até ampliar o Império Solar.
Entrementes, chegamos na Terra ao ano 2.045. A situação está tranqüila e Gucky, o elemento mais competente do Corpo de Mutantes de Rhodan, embora o menos disciplinado, resolve visitar, depois de tantos anos de serviço em prol do Império Solar, seu planeta de origem, Vagabundo. Gucky obtém suas férias — aliás, mais do que merecidas — e parte sozinho num Space-Jet e vai cair no caos das Forças Desencadeadas.




= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Reginald BellAmigo de Rhodan desde longa data.

GuckyRato-castor mutante que tem saudade de seu planeta pátrio.

Walter GrimpelChefe do Serviço de Rastreamento em Terrânia.

Joe PasginComandante do cruzador Burma.

MacintoshRadiotelegrafista da espaçonave mercante Potomac.

Dr. InnogowNunca ouviu falar em Ogros, mas suas pesquisas giram em torno deles.
1



Não eram apenas parecidos com monstros, eram verdadeiros monstros.
Suas cabeças de Jano tinham a forma típica da gota d’água, terminando numa extremidade pontiaguda de uns vinte e cinco centímetros, que lhes servia simultaneamente de antena receptora e transmissora para os impulsos de sua mente. Apesar disso, não possuíam nenhum dom telepático, como também não eram absolutamente humanóides.
A cabeça com a forma de gota d’água estava equipada com quatro glóbulos oculares colocados em sentido oposto. Através de uma vértebra dupla, com uma espécie de articulação esférica, a cabeça de rosto duplo passava para um tronco quase de inseto, de dois metros de comprimento, recoberto por escamas escuras, sendo que na parte superior deste corpo pendiam quatro braços. Todo este conjunto horrível era sustentado por três pernas telescópicas.
Quando um destes monstros se movimentava, via-se então que, sem articulação, as pernas trabalhavam como amortecedores, fazendo com que o tronco demasiadamente delgado, de apenas trinta centímetros de diâmetro, bamboleasse para frente, para trás ou para os lados.
Fazia poucas horas que eles haviam descido das espaçonaves de sua frota, enquanto que os primitivos habitantes do planeta por eles ocupado — ratos-castores, de mais ou menos um metro, divertidos e curiosos — olhavam-nos interessados, sem suspeitarem que, na figura destes monstros, a morte e a destruição estava penetrando em seu planeta.
Estes estranhos seres, com mais de duzentas espaçonaves, invadiram o planeta deserto e frio, em muito semelhante a Marte. Os terranos lhe davam o nome de Vagabundo.
Vagabundo era o único planeta de um sol em vias de extinguir-se, realizando suas rotações a uma distância de 0,78 unidades astronômicas. Comparado com a Terra, o planeta Vagabundo teria um raio de 0,6 e sua gravidade seria de 0,53G.
Vagabundo não possuía mares, nem montanhas propriamente ditas. Três quartos de sua superfície era um deserto ferruginoso de coloração tendente para o avermelhado.
Neste deserto, mais ou menos na zona equatorial, foi onde desceram os monstros com suas esquisitas naves.
Com a cabeça em forma de uma gota d’água, os monstros possuíam dois rostos, como o deus romano Jano. E o mais singular é que refletiram em suas naves o estranho formato de suas cabeças, construindo-as, não com duas frentes, mas com duas fuselagens iguais, formando um só aparelho.
Com a serenidade de conquistadores habituados a dominar qualquer ambiente, desceram calmamente de suas estranhas naves, que em geral não tinham mais de duzentos metros de comprimento. Tudo indicava que, ao pisarem em terra firme, cada um deles já sabia o que tinha de fazer. E por mais monstruosa que fosse sua aparência, mais monstruoso ainda era o que estavam fazendo. De um momento para o outro, movidas e dirigidas por forças ocultas, enormes peças de máquinas, de formato grotesco, saídas das naves, flutuaram no ar, como folhas ao vento. Os ratos-castores, que de seus esconderijos acompanhavam tudo, sentiram despertar em si o arraigado instinto da brincadeira, que junto com o comer e dormir era o resumo de sua vida. Em geral, bons telecinetas, aproveitaram-se de suas faculdades e seguraram as peças metálicas a fim de brincarem, atirando-as para o ar como se fossem petecas.
No mesmo instante, algumas dúzias de ratos-castores rolaram pelo chão, soltando chiados lancinantes. Em poucos segundos, estavam todos mortos.
Pelo menos a metade dos animais que estavam olhando presenciou a horrível morte de seus colegas. Mas nenhum deles podia supor que houvesse alguma ligação entre a morte e a brincadeira empreendida pelos ratos-castores.
Que havia demais em brincar com aqueles objetos enormes que pareciam também estar brincando no espaço?
E os enormes blocos metálicos continuavam saindo do bojo das naves esquisitas, sem o menor ruído, plainando no ar e depois dirigindo-se para o local onde antes estiveram alguns monstros, fazendo qualquer coisa.
Do drama desenrolado a uns cem metros na frente — a morte repentina de algumas dúzias de ratos-castores — nem tomaram conhecimento. Viram a brincadeira telecinética dos pequenos animais, como simples expressão de curiosidade, que fora punida por um choque mortal desferido pelo Ogro, que era quem pensava e agia independentemente, transferindo com seus poderes superiores as peças de máquinas do bojo das naves para o local determinado. As antenas orgânicas, que faziam parte de sua horrorosa cabeça, lhes haviam trazido a notícia da ação punitiva do Ogro. E por alguns instantes, era-lhes impossível qualquer comunicação entre si, devido às ondas mais fortes emitidas pela explicação do Ogro, que supervisionava tudo.
No momento, o Ogro-1 chamava por sua antena orgânica o Ogro-214. Um dos monstros, que estava um pouco mais longe, aos pés da última colina, era o 214. Uma das características da mentalidade destes monstros era o fato desses indivíduos não terem nome próprio, mas apenas um número. O 214 tinha que antepor ao seu número o título de Ogro, cada vez que se encontrasse com um elemento de outro grupo, ou caso quisesse apenas se identificar.
Um grupo nunca passava do número 317, mas também não podia ter menos de 109 indivíduos. Número 1 seria sempre o líder do grupo, chefe autônomo, que só tinha de prestar contas ao Gal, o chefe supremo. Sua jurisdição era delimitada por leis, leis estas que lhe conferiam uma margem de ação bem ampla, dando-lhe até poderes sobre a vida e a morte.
214, por que não iniciou ainda os movimentos telúricos?
O órgão de transmissão e de recepção do 214 trabalhava só com uma fase para as duas operações. Enquanto o receptor encaminhava ao seu cérebro a pergunta do Ogro-1 e convertia os impulsos elétricos em correntes de pensamento, seu transmissor orgânico irradiava a resposta através da antena da cabeça:
Um dos Ogros não manteve a ordem certa na entrega das peças mecânicas, Ogro-1. Já transmiti o pedido de controle ao Nebu-56.
Nebu-56, numa das duzentas naves de carga daqueles monstros, já constatara a razão do erro do Ogro. Chamou um líder de grupo.
Aqui fala 56, Nebu-1. A intervenção dos ratos-castores disritmou um Ogro. Vou me pôr em contato com ele.
O Ogro, que pensava e agia independentemente, ouviu a advertência de Nebu-1.
Nas vibrações auditivas do Nebu-1 ecoou a resposta do Ogro.
Falha de três membranas celulares devido ao ataque telecinético dos ratos-castores. O prosseguimento da ação só foi possível depois da mudança de ligação para a peça Gel. Desta maneira, o depósito sete foi esvaziado antes do seis. O prejuízo só poderá ser reparado quando terminar todo o descarregamento. Tenho de insistir que um novo ataque dos telecinetas deve ser impedido a todo custo.
Isto foi a sentença de morte para muitos ratos-castores em Vagabundo. Até mesmo um líder de grupo tinha que se submeter às ordens de um Ogro.
Através de seu rádio orgânico, Nebu-1 chamou Cul-1, que era o responsável pela segurança de todos os Ogros.
Aqui fala Nebu-1. Nosso Ogro exige que se impeça a qualquer custo um novo ataque telecinético dos ratos-castores.
É claro que os monstros não conheciam o conceito brincadeira ou divertimento. O único objeto de sua comunicação era exclusivamente o trabalho. A palavra pessoal ou individual não existia para eles. O que valia era só o grupo. De acordo com as missões atribuídas ao grupo, formavam-se também os respectivos monstros...
Com exceção dos druufs, a Via Láctea jamais vira monstros daquele tipo.
Logo depois, Cul-1 se pôs em contato com o Ogro que não conseguira fazer a descarga de sua nave, conforme estava programado, devido à intervenção inesperada dos animais brincalhões.
O líder do grupo, Cul-1, ficou então sabendo das providências de proteção que o Ogro havia tomado. Não havia mais dúvida de que os atrevidos animais pagariam com a vida qualquer brincadeira.
Neste exato momento, um grupo de ratos-castores, reunidos no lado sul do deserto, onde começavam as suaves colinas, tentava iniciar uma brincadeira com as peças da maquinaria que iam flutuando no ar, até se alojarem no lugar determinado. Cinco daqueles interessantes animais escolheram uma peça que vinha a boa altura e iam se divertir com ela, levando-a para outra direção. A um dado sinal do rato-castor mais velho, os cinco atacaram ao mesmo tempo o grande bloco de metal.
Flutuando no ar, numa linha quase vertical, a enorme máquina deu, de repente, uma guinada para o alto, num salto de uns trinta metros, iniciando depois uma curva. Os cinco animais quase simultaneamente soltaram um grito de dor, enquanto a pesada máquina se precipitou no solo.
Os monstros que se encontravam no local da queda se afastaram rapidamente, saltitando com suas três pernas telescópicas. Os cinco ratos-castores já estavam mortos, quando começou um grande rebuliço no local da queda. Havia um corre-corre entre os Ogros. Deviam ter recebido um comando qualquer, através de seu rádio orgânico. Seu rosto duplo, com o nariz de cebola achatada, a três dedos abaixo do único olho neste trecho, não deixava transparecer a menor excitação, muito menos qualquer sentimento humano. Apenas a pressa desmesurada para escapar do local dava sinal de que havia perigo iminente.
Os demais ratos-castores se entreolhavam desatinados. Não podiam compreender a morte de seus irmãos de raça e jamais imaginariam que estivesse ligada às brincadeiras telecinéticas. De repente, surgiu do nada um clarão amarelado, atingindo-os com seus raios. Um outro clarão semelhante ofuscou um grupo de ratos-castores, que estava no outro lado onde morreram os primeiros. Assim foram todos dizimados, sem saberem o porquê.
Através de uma freqüência comum, o líder — Cul-1, responsável pela segurança de todos os Ogros — deu um aviso urgente: todos tinham que se afastar imediatamente do local onde foram descarregadas as peças de máquinas.
Das profundezas do local da queda da grande máquina surgia um ruído, que se intensificava cada vez mais.
Tão rápido como surgiu, desapareceu o clarão amarelado que destruíra todos os ratos-castores presentes à estranha chegada dos monstros. Não havia o menor indício de onde viera aquela onda de destruição.
Já não existiam os fluxos energéticos que descarregaram as naves de fuselagem dupla sob o comando de um Ogro. Não se viam mais as misteriosas peças de máquina pairando no ar e nem aquelas figuras grotescas, saltitando desajeitadamente com as três pernas telescópicas, correndo na direção de suas naves.
Pela atmosfera rarefeita do planeta reboou em todos os sentidos um estampido assustador. Ali, onde uma máquina se precipitara no solo, abrindo um grande sulco, irrompia agora um vulcão de forças estranhas.
Da fenda cavada no chão se projetava com violência um fluxo amarelado, para se espalhar depois com incrível velocidade em todos os sentidos.
Entre os monstros em fuga desabalada e o fluxo energético devorando tudo que encontrava à sua frente, parecia haver uma aposta de quem corria mais, corrida esta cuja meta eram as naves de transporte de dupla fuselagem. Além disso, as labaredas que se abriam em leque subiam verticalmente alguns quilômetros no céu de Vagabundo e, da pequena cratera, jorrava aquela torrente de fogo, num crescendo constante de violência.
De tudo que fora descarregado tão soberbamente, através de forças invisíveis, das muitas naves, não restava mais nada. Uma centena daquele bando de monstros já havia caído vítima da onda avassaladora do fogo. Agora, porém, parecia que as labaredas estavam farejando a massa metálica das espaçonaves dos monstros, pois as línguas de fogo, que pareciam se espalhar para os lados, tomaram, subitamente, a direção do local onde estavam as naves.
O mais interessante é que todas as línguas de fogo convergiram para a mesma direção e aquele fluxo ígneo, que lambia o chão a uma altura de meio metro, não produzia calor. O fluxo, que até então varria o solo pobre do planeta desértico, tinha uma espécie de correnteza que seguia uma determinada direção, mas a certa altura começou a se formar um remoinho, sinal de que a violência crescia ainda mais.
Os monstros apavorantes, que, num desesperado bale de três pernas, procuravam chegar a tempo até suas naves, foram a maior vítima de sua avançada tecnologia.
Os cinco ratos-castores, que, no seu instinto natural de brincar com tudo, tentaram se divertir com os estranhos objetos, não morreram inutilmente. O acaso ou um poder superior fez com que eles fossem se divertir exatamente com uma peça que era o coração de uma gigantesca instalação supersofisticada, que iria dar vida a um enorme parque industrial.
Desesperados, os monstros de duas faces olhavam estarrecidos para o fruto de suas pesquisas. As chamas, como se quisessem vingar a morte dos inocentes animais, avançavam sôfregas para a montanha de metal, representada pelas naves de fuselagem dupla. Três não mais existiam.
Como se a destruição das três primeiras espaçonaves fosse o sinal de partida para o ataque definitivo, o clarão amarelado invadiu o areai onde estavam estacionados mais de duzentos aparelhos para transporte pesado. Sua destruição se processou sem o menor ruído.
A carcaça metálica, em contato com o clarão amarelado, perdia toda a consistência, escorrendo como massa amorfa, desaparecendo em seguida entre as chamas que consumiam a nave vizinha.
Houve apenas três testemunhas oculares da catastrófica destruição da grande frota espacial, no pequeno planeta Vagabundo. Mas estes três ratos-castores não podiam compreender que esta destruição salvou sua raça do extermínio.
Dezoito transportes de carga, com sua forma bizarra de duas gotas d’água justapostas, conseguiram escapar. Sem nenhum ruído decolaram. O décimo nono já havia se desprendido do chão, quando o clarão amarelado atingiu-lhe a fuselagem; e como se possuísse garras de um gigantesco guindaste, o fez cair no mar de chamas. E, tal qual os demais, o metal se fundiu como cera, tornando-se uma massa escura.
Durante cinco dias, o clarão amarelado continuou intenso naquele mundo frio e pobre, para acabar desaparecendo no sexto, sem deixar qualquer vestígio.
Vagabundo voltou a ser Vagabundo — frio e pobre como Marte — e os ratos-castores continuaram levando sua vida despreocupada e simples. Não sabiam que sua raça escapara, quase que por milagre, do extermínio total.
2



Macintosh era radiotelegrafista na Potomac, trinta e cinco anos e casado.
A Potomac era uma espaçonave mercante do Império Solar e estava viajando a sessenta e oito anos-luz do planeta Vagabundo, na direção do planeta Abeis, para fazer um carregamento de lysir.
Lysir era um tipo de resina que só existia naquele planeta, resina esta muito procurada na Terra, principalmente para a fabricação dos uniformes espaciais, mais exatamente para sua impermeabilização no tocante às irradiações espaciais, tornando assim tais uniformes superiores aos de fabricação arcônida.
Sentado na sua cabina de rádio, Macintosh não pensava nem em lysir, nem no planeta Vagabundo, terra de Gucky, nem em nada referente à navegação espacial. O que o preocupava mesmo eram seus dois filhos Charles e Ben. O primeiro tinha dezoito anos e o caçula dezessete. O mais velho aprontava cada uma... e era em tudo ajudado pelo mais moço.
E o quê que devem ter arranjado neste meio tempo?”, perguntou-se Macintosh, já antevendo novidades desagradáveis, quando chegasse à Terra.
Depois que a Potomac pousasse no espaçoporto de Terrânia, costumava ter três dias de descanso. Mas era exatamente nestes dias que tinha de passar pelos maiores aborrecimentos e geralmente quem mais sofria era seu bolso, pela obrigação de pagar os estragos causados pelos dois garotos.
E se os malandros pintaram o caneco de novo e a intimação de pagamento já estiver lá em casa, então...”
Seus pensamentos foram interrompidos. A tela do rastreador começou a dar sinais diferentes. E no mesmo instante, as preocupações com as peraltices dos dois rapazes cederam lugar ao radiotelegrafista consciente de seus deveres.
Macintosh passou a observar o oscilógrafo do rastreador. Na metade superior apresentava uma terrível confusão de amplitudes e, na parte de baixo, tinha apenas um diagrama.
Macintosh, o homem de pequena estatura, modesto, mantendo-se sempre atrás dos bastidores, cuja única vaidade era um cavanhaque bem cuidado, indiferente às caçoadas dos colegas, neste momento arregalou os olhos. Com a respiração acelerada, postou-se imóvel diante do oscilógrafo, como se desse instrumento viesse a solução dos grandes mistérios do espaço.
Santa Via Láctea! — exclamou assustado. — O que é isto? Nunca vi coisa assim!
Embora soubesse que o computador de sua cabina de rádio armazenava tudo que o rastreador registrava, sentiu-se na obrigação de verificar pessoalmente se isto estava mesmo acontecendo. Esta confusão de amplitude, este diagrama completamente estranho, impossível de ser lido, pareciam-lhe tão importantes que, embora tivesse a certeza de que o pequeno computador de bordo registrava tudo, levantou-se, foi até a positrônica, vendo com os próprios olhos o funcionamento automático do cérebro eletrônico.
Somente depois disso, voltou ao seu lugar na radiotelegrafia. Mais por instinto do que mesmo por reflexão, ligou o Telecom e chamou a estação de rastreamento de Terrânia.
Aqui fala da nave cargueira Potomac, registro O-34, radiotelegrafista Macintosh. Forte rastreamento energético na direção do planeta Vagabundo, provavelmente oriundo do mencionado planeta. Nossa distância de Vagabundo, no momento, é de sessenta e oito anos-luz. O quadro de amplitudes e o diagrama do meu oscilógrafo estão de tal maneira indecifráveis e misteriosos, que me vejo obrigado a solicitar o controle central do rastreamento energético.
A resposta de Terrânia não tardou:
Muito obrigado pela comunicação. Já fizemos o rastreamento energético na direção do planeta Vagabundo, com os nossos aparelhos ultrapotentes. Chamaremos de novo, caso nos surjam dúvidas.
Mas os cientistas de Terrânia não voltaram a chamar o radiotelegrafista Macintosh.
A Potomac aterrissou no planeta Abeis. Ali, recebeu das mãos dos semi-inteligentes rikkers, uma raça de anões humanóides, a cobiçada carga de lysir e já estava se preparando para decolar rumo à Terra, quando lhe chegou, via Telecom, uma ordem de Terrânia. Tal ordem dizia para que não viessem diretamente até a Terra, mas que passassem antes pelo planeta Vagabundo e dessem algumas voltas, a fim de observar bem este mundo quase idêntico a Marte.
Antes que Macintosh pudesse fazer qualquer pergunta, o possante hiper-rádio de Terrânia cortou a ligação.
O comandante Hodkin, que mais parecia um campeão de box peso pesado, começou a esbravejar, quando o radiotelegrafista Macintosh lhe transmitiu a ordem de Terrânia para fazer vôos de inspeção no horroroso planeta de Gucky.
Você é o único culpado por esta volta enorme que vamos dar, Macintosh. Prepare desde já seu espírito, pois quando chegarmos à Terra, não haverá três dias de folga para ninguém. Por que você tem que transmitir para Terrânia qualquer coisinha que vê no rastreador?
Meia hora depois, a Potomac entrou em transição, vindo parar entre o fraco e bruxuleante sol e seu planeta Vagabundo, já no espaço normal.
Sete dias já se haviam passado desde o rádio de Macintosh para Terrânia. A Potomac sobrevoara por sete vezes aquele planeta quase deserto e, por acaso, passara três vezes a mil quilômetros de altura sobre o local, onde o solo, numa extensão de dois quilômetros quadrados, estava completamente vitrificado, fluorescendo brandamente num azulado de aço.
Mas, no oscilógrafo do rastreador da Potomac não mais apareceu aquela confusão de amplitudes... Já no dia anterior, sobre o planeta Abeis, não se via mais nada. Para Macintosh, as gigantescas fontes de energia, de onde se originou toda aquela erupção, já se haviam fechado.
Comandante — atreveu-se Macintosh a dar um palpite — não acharia razoável que déssemos tantas voltas em torno de Vagabundo, até que conseguíssemos fazer um levantamento cartográfico completo da superfície do planeta?
Hodkin olhou furioso para seu radiotelegrafista.
Quem foi que deu esta nova ordem? Foi o próprio chefão, não foi?
Não, comandante, pelo menos não tem a assinatura de Perry Rhodan...
Então me faça o favor de confessar quem foi que assinou esta ordem, Mister Macintosh? — disse-lhe o comandante Hodkin já um tanto áspero.
Foi Grimpel, da Central de Rastreamento de Terrânia, comandante. É um nome que aliás não conheço.
Nem eu. De qualquer maneira, vamos agora rumo à Terra. E dizer que deste planeta miserável, puro deserto, é que saiu Gucky, o rato-castor. Incrível! Mas, com os diabos, Macintosh! Que foi mesmo que você descobriu por aí? Será que esta energia toda saiu mesmo daqui?
Exatamente do rumo de onde estava
Vagabundo, senhor — respondeu Macintosh, deixando perceber que não se sentia muito bem no meio de todo aquele mistério.
Também não podia se esquecer do modo conciso como aquele funcionário falara no telecom.
Dezoito horas depois, a Potomac estava descendo no espaçoporto de Terrânia.
Mal os apoios telescópicos haviam tocado o solo, soou um aviso no intercomunicador de bordo:
Radiotelegrafista Macintosh, procurar Mister Grimpel, chefe do Rastreamento Energético. Radiotelegrafista Macintosh, dirigir-se com todos os documentos à presença de Mister Grimpel. Radiotelegrafista Macintosh...
O chamado foi repetido três vezes. Casualmente estavam juntos o comandante Hodkin e o telegrafista Macintosh, quando os alto-falantes transmitiam a ordem.
Ninguém sabe quem é que manda aqui. Mas Macintosh, quando estiver na presença deste Grimpel e lhe contar que você me aconselhou a fazer um levantamento cartográfico de todo o planeta Vagabundo e que eu não o quis fazer, então que o diabo o... Você entendeu, não é?
Desta vez, porém, Macintosh estava menos tímido e havia se esquecido de que ficar calado num canto era uma das características de seu temperamento. Despediu-se de seu comandante com belo sorriso no rosto, dizendo-lhe:
Muito obrigado, apesar de tudo, pelos três dias de folga, comandante Hodkin.
Este o olhou como se não tivesse entendido sua frase. Depois, seu rosto sério se abriu num sorriso e disse num tom mais carinhoso:
Ah! É verdade! Estamos chegando a uma idade, Macintosh, em que a gente corre o perigo de esquecer pequenas coisas de muita importância. Ainda bem que você me lembrou de sua folga. Bom proveito!
Entre a Frota Espacial Solar de Perry Rhodan e as naves comerciais havia uma pequena rivalidade e estes momentos de tensão não eram fáceis de debelar. Mas os psicólogos deixaram de pesquisar suas causas, depois que Reginald Bell lhes disse:
Meus senhores, por que razão querem extirpar uma coisa tão sadia? Rivalidade já existia entre Caim e Abel e o próprio Adão não conseguiu manter seus dois filhos de rédea curta. E vocês pensam em fazer com que os homens da Frota Solar se tornem amigos íntimos dos tripulantes das naves mercantes?
Assim, com o sentimento de ir ao encontro de um sério concorrente seu, Macintosh cumprimentou o chefe do Serviço de Rastreamento de Terrânia, Walter Grimpel.
Mas ficou admirado ao ver a maneira como Grimpel o cumprimentou efusivo, agradecendo-lhe mais de uma vez a interessante comunicação que Macintosh lhe fizera do planeta Abeis.
Macintosh se via na obrigação de corrigir seus conceitos a respeito da Frota Espacial e Walter Grimpel, que devia ter, no máximo, trinta anos, lhe era cada vez mais simpático.
Por favor, mostre-me o relato dos acontecimentos, Mister Macintosh. Permita-me uma pergunta: chegou a ter alguma explicação para a confusão das amplitudes? Eu até hoje não estou claro sobre a causa deste fenômeno.
Esta sinceridade cativou totalmente a simpatia de Macintosh pelo jovem chefe do rastreamento, surgindo daí em diante um ambiente de muita cordialidade entre os dois.
Macintosh começou a sorrir.
Eu me alegro em saber que também para o senhor estas amplitudes e os diagramas continuam sendo um mistério, Mister Grimpel, mas o senhor deve ter conseguido alguma coisa com tudo isto, dados os meios que lhe estão à disposição aqui em Terrânia.
O senhor tem um pouco de razão. Até mesmo a positrônica de Vênus não sabe o que fazer com esta babel de amplitudes e de diagramas. Diante dos dados que nós lhe transmitimos, apenas nos pôde dizer o seguinte: “Energia com estes valores contraditórios não existe.” Bonito, não é? Mas, por favor, sente-se, Mister Macintosh.
Duas horas mais tarde, quando Macintosh já estava de novo a caminho da Potomac, para de lá pegar um avião e dirigir-se até a Inglaterra, a fim de gozar sua curta folga de três dias, Perry Rhodan encontrou sobre sua mesa de trabalho o relatório de Grimpel.
Vagabundo? — disse pensativo.
Tinha automaticamente que se lembrar de Gucky, oriundo deste planeta, muito semelhante a Marte, com pouca vegetação.
Energia que, conforme a positrônica de Vênus, não existe? E Grimpel também não obteve nada com os mais potentes rastreadores?
Será que nas profundezas de Vagabundo havia mistérios dos quais os homens ainda não tinham conhecimento?
Rhodan ficou ali parado, com o relatório na mão, mais tempo do que pretendia. Quando, à noite, depois de um dia de estafantes conversações políticas, entrou novamente em seu escritório, pegou automaticamente o relatório de Grimpel. Alguma coisa não o deixava sossegado. Concentrou-se mais uma vez no que ali estava. Já ia abandonar aquele mistério inextrincável, quando, casualmente, seus olhos se depararam com a expressão “levantamento cartográfico feito pela nave mercante Potomac”. Na mesma hora, ligou o videofone para Grimpel.
Aqui fala Rhodan. Seu relatório está em minhas mãos. Por que razão não anexou as fotografias tiradas pela Potomac, Grimpel?
Na sua tela, Rhodan viu como Grimpel, se escusando, balançava os ombros.
Infelizmente não se pode fazer nada com elas, senhor. O comandante da Potomac, Capitão Hodkin, não fez um levantamento cem por cento do planeta Vagabundo. Mais ou menos dezesseis por cento de sua superfície não foi fotografada... portanto sem valor.
Mas você mandou analisar estas fotografias que tem em mãos?
Dediquei meu melhor esforço a elas, sir. Mas não adianta nada, pois está faltando a parte mais importante. Não foi fotografada aquela região que nossos instrumentos apontaram como o centro da erupção energética.
A voz de Grimpel denotava então irritação e sua fisionomia exprimia descontentamento.
Grimpel — voltou Rhodan com uma ponta de ironia — não vá culpar o pobre comandante da Potomac.
Walter Grimpel sentiu-se apanhado em flagrante e teve um leve estremecimento.
Senhor — disse ele dando vazão aos seus sentimentos — a gente julga ter achado a pista de um grande enigma e de repente tem que constatar que um bobo, que nada entende do assunto, destruiu, por pura ignorância, toda possibilidade de êxito.
Perry Rhodan estranhou a explosão temperamental de seu auxiliar.
Com isto, você está afirmando categoricamente que a erupção energética se realizou de fato em Vagabundo, Grimpel? Lembre-se de quantas possibilidades de engano podem ocorrer numa distância de tantos anos-luz assim, falsificando total ou parcialmente os dados do rastreamento.
Walter Grimpel, porém, estava muito firme em suas convicções.
Sir, quando se deu a erupção energética em Vagabundo, a Potomac se encontrava apenas a sessenta e oito anos-luz do planeta. O radiotelegrafista Macintosh tinha à sua disposição somente o aparelho de rastreamento M-17. Este modelo, embora seja um pouco antiquado, ainda é, para as dimensões abaixo de cem anos-luz, o instrumento mais exato que possuímos. Comparei seus resultados com os nossos de Terrânia. Não há dúvida, sir. A erupção energética se deu mesmo em Vagabundo e eu estou em condições de determinar a origem desta energia misteriosa com a exatidão de até cinco quilômetros.
Acredito no que você está dizendo, Grimpel, mas responda apenas à minha pergunta: você já fez uma comparação entre estes valores auferidos dos nossos registros e os do universo dos druufs?
Também isto já foi feito, e com muito esmero. Do maior computador de que dispomos na Terra não saiu resposta nenhuma. No entanto, a positrônica de Vênus constatou que, com uma probabilidade de 97,53%, esta misteriosa energia não tem nada a ver com o universo dos druufs, afirmando ao mesmo tempo que...
Rhodan o interrompeu. Seus olhos castanhos olhavam pensativos para Grimpel.
Eu sei disso, o cérebro eletrônico se recusa a admitir a existência de uma energia deste tipo. Voltarei ainda a este assunto. Comunicar-lhe-ei brevemente se vou ou não enviá-lo ao planeta Vagabundo.
Surpreso, Grimpel levantou a cabeça, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, ouviu a voz de Rhodan:
No mais tardar, em três dias, Grimpel. Dentro de uma hora estarei voando para Vênus. Mande levar os documentos até a comporta da Drusus e não se esqueça do material deste radiotelegrafista. Eu mesmo quero fazer umas perguntas ao cérebro eletrônico. Pretendo estar de volta depois de amanhã. Muito obrigado, caro Grimpel.
Rhodan desligou. Antes de se dedicar a outros assuntos, por uns segundos ficou pensando em Gucky, o rato-castor. Teve instintivamente a vontade de falar com ele sobre os misteriosos acontecimentos em Vagabundo. Porém Gucky estava numa missão especial com John Marshall, no mundo de cristal, em Árcon, para auxiliar Atlan num caso político muito melindroso.
Ao penetrar na comporta principal da Drusus, Rhodan recebeu todo o material enviado pelo chefe do Serviço de Rastreamento.
No mais tardar, em três dias, saberemos alguma coisa mais”, pensava Rhodan.
3



Quatro grandes naves mercantes de fuselagem dupla, construídas com o formato de gotas d’água, desceram quase verticalmente e pousaram ao lado do solo vitrificado, que brilhava com um tom de azul-aço.
Em cada uma das estranhas naves, surgiu um Ogro, responsável pelo descarrega-mento dos enormes bojos duplos de sua nave. E, novamente, como que numa invisível esteira rolante, saía flutuando uma peça de máquina após outra, para depois serem montadas todas num grande conjunto... por forças misteriosas.
Patenteava-se aqui uma nova técnica que ultrapassava tudo que as galáxias conheciam.
Dos dois lados do chão vi trincado, moviam-se algumas dezenas de monstros, com seu andar troteado. Tais seres eram dotados de quatro braços, geralmente escondidos, que seriam sua verdadeira ferramenta de trabalho.
Somente por este tipo de braços disformes podia-se calcular a horribilidade angustiante daqueles seres, ou melhor, daqueles monstros. Raios de uma potência incrível, que saíam de uma pequena abertura entre as garras de suas mãos ou patas, cortavam placas de mais ou menos meio metro daquela camada de metal vitrificado do chão.
Era mesmo surpreendente ver como aqueles raios serravam tão facilmente a duríssima massa vitrificada. Depois, entrava em ação o Ogro de cada nave, o misterioso ser que pensava e agia independentemente, pois as placas elípticas, recortadas do chão metálico, se erguiam no ar e vinham flutuando no espaço em direção à comporta da respectiva nave, como se fossem transportadas por uma invisível esteira rolante.
Entrementes, os componentes mecânicos da grande instalação estavam sendo montados ao lado do tapete de metal derretido. Um único rato-castor, que do alto de uma distante colina estava olhando os monstros, encolheu a cauda de medo e, logo depois, saiu pulando e, cheio de pavor ante o que via, se enfiou numa toca subterrânea.
O conjunto de máquinas montadas, de mais de duzentos metros de comprimento, se separou lentamente do solo, pairando a uma altura de pouco menos de meio metro, e aproximou-se da grande zona de metal derretido. O espaço entre o conjunto de máquinas e a área de metal vitrificado começou a apresentar uma cintilação esquisita... uma tonalidade alaranjada. As bordas do grande tapete de metal vitrificado começaram a se dissolver, como uma camada de gelo ao receber água quente. Mas, ao contrário do que acontece com o gelo, a parte da camada derretida desapareceu, sem deixar nenhum vestígio de sua mudança de estado.
A dissolução se dava cada vez mais depressa e o conjunto de máquinas, sem provocar o menor ruído, se aproximava do local onde estavam os quatro aparelhos de duas fuselagens.
Duas horas depois, não restava mais o menor vestígio da camada de metal derretido em Vagabundo. Os monstros apagaram qualquer sombra de sua passagem por ali. Mas ainda não estavam satisfeitos com o resultado.
Assombrosamente, no maior silêncio, o soberbo conjunto do planejado parque industrial foi sendo desmontado com a mesma supertécnica de transporte como fora erguido. Todas as suas peças desapareceram nos bojos enormes das quatro naves de transporte pesado. Ao lado das naves, não se via mais nenhum daqueles monstros de rosto duplo. Fecharam-se as comportas elípticas das espaçonaves daquela raça misteriosa. Pareciam prontas para decolar. Mas não houve nenhuma decolagem.
Ao invés disso, a uns cem quilômetros de distância, em pleno deserto de areia ferruginosa do miserável planeta, surgiu um furacão, levantando uma enorme coluna de areia, num amplo movimento de sucção. E seu diâmetro se ampliava cada vez mais, sem se alterar, porém, seu ponto de apoio. Em pouco menos de meia hora, era uma coluna de poeira de mais de vinte quilômetros de altura, rodopiando numa velocidade descomunal. O zunido e o sibilar do furacão foram coisas inauditas para a tranqüilidade do pequeno planeta. Em suas profundas e espaçosas tocas, os ratos-castores tremiam de medo perante a inclemência da natureza e a catástrofe iminente, cuja melodia terrificante atordoava seus ouvidos. Nem mesmo o mais curioso daqueles interessantes animais se atreveu a chegar lá fora para ver o que se passava.
E, de repente, aquela imensa coluna giratória se pôs em movimento. Numa velocidade espantosa, a tempestade de vento chegou ao local onde há poucas horas atrás havia mais de dois quilômetros quadrados de metal derretido e vitrificado. Entrementes, o ciclone levantara uma enorme massa de areia do deserto. Com um fragor assustador, o céu se escureceu e, em pleno dia, a noite se abateu sobre aquela região. Como que abandonados, continuavam lá embaixo os quatro transportes de fuselagem dupla. Os monstros em seu interior pareciam não dar nenhuma importância ao que acontecia lá fora, nem tomar conhecimento do furacão.
Já atingira a região de dois quilômetros quadrados de metal fundido e, quase de repente, seu movimento para frente parou e sua velocidade foi diminuindo.
Grande quantidade de areia cobrira esta região do frio planeta. Em poucos minutos, tudo estava sepultado sob uma camada de vinte metros de uma areia avermelhada e fina. Até mesmo os quatro aparelhos de transporte pesado dos monstros não foram poupados. Os cimos das colinas mais próximas quase não sobressaíam mais na paisagem. Assim, em tão pouco tempo, a visão do local se transformara totalmente.
O ciclone continuou, mas não mais com aquela fúria toda. Enquanto seu movimento de avanço ainda estava em torno de cem quilômetros horários, a enorme coluna foi perdendo a altura, alargando-se mais junto do solo. Por onde passava, ia sepultando tudo com uma grande camada de areia e isto numa extensão de quinhentos quilômetros de comprimento por cem de largura.
Então, mais uma vez, sem que ninguém esperasse — o que deixava entrever, naturalmente, que se tratava de um furacão provocado artificialmente — a gigantesca catástrofe desapareceu, para voltar ao desolado planeta o silêncio e o frio de sempre.
Na segunda espaçonave dos monstros, encontrava-se o chefe supremo a quem obedeciam os líderes de grupos. Não diferia dos demais pelo traje usado, mas sim pela maneira como estava sentado à frente de um estranho aparelho de observação. Ali, pelo modo como todos o contemplavam com respeito, se percebia a força de seu poder. Em sua cadeira giratória, virou-se para trás, assim que notou que o ciclone estava chegando ao fim e, através de seu transmissor orgânico, entrou em contato com seus subordinados, chefes de grupos:
Partiremos em cinco períodos de tempo. Os rebaixamentos no solo do planeta deixados pela decolagem de nossas naves devem ser nivelados.
Os transportes dos estranhos seres estavam atolados na areia mais ou menos até os vinte metros de altura. Os restantes oitenta metros sobressaíam da camada cor de ferrugem. Depois que as quatro naves se desprenderam do solo, sem o mínimo ruído, viam-se abaixo delas as oito grandes cavidades no deserto de areia, provocadas pelas fuselagens duplas dos quatro transportes pesados. Todas se mantinham pairando a pouca altura do solo. De um momento para outro, foi como se uma mão invisível, mão de muitos metros, passasse por sobre a areia para encher as oito grandes valas, apagando assim qualquer vestígio da presença de alguém.
Silenciosamente, as naves subiram na vertical e, numa aceleração intensa, desapareceram no espaço.
Nove horas após a aterrissagem de suas naves, não restava nada que pudesse provar a presença de estranhos no planeta.
Foi exatamente na mesma hora em que Perry Rhodan deu ao chefe do Serviço de Rastreamento de Terrânia a missão de voar com uma espaçonave da classe Estado para o planeta Vagabundo, a fim de realizar os exames mais profundos possíveis.

* * *

Cinco dias mais tarde, Walter Grimpel já estava de volta à Terrânia. Sentado diante de Perry Rhodan, fazia seu relatório.
...finalizando o assunto de nossas investigações, resta-nos dizer que não encontramos nada, sir. Não há o menor indício de que tenham irrompido em Vagabundo explosões energéticas daquela intensidade. Nossa suspeita ficou sempre naquela faixa de areia de quase seiscentos quilômetros de extensão, cobrindo rigorosamente a região geográfica em questão, de acordo com nossas medições, minhas e de Macintosh.
Tentamos, pois, remover a grande camada de areia no ponto determinado, para se chegar ao chão, propriamente. Depois de algum sacrifício, nós o conseguimos. Outra decepção. Não havia nada de palpável. Fiz tudo para não ser vítima de um engano. Nossa nave já estava preparada pra decolar de volta, quando não sei por que ainda saí sozinho e achei isto aqui, chefe.”
Walter Grimpel colocou em frente do administrador do Império Solar, Perry Rhodan, um pedacinho de aço azulado fosforescente, do tamanho de um grão de ervilha.
Interessado, Rhodan o apanhou entre os dedos, colocou-o na palma da mão para lhe medir o peso.
Curioso, extraordinariamente pesado, Grimpel! Que é isto?
Grimpel estava meio sem jeito.
Senhor, ainda não sabemos.
Rhodan o olhou surpreso. Com toda calma, como era seu hábito nas horas mais difíceis, disse:
Grimpel, você não escolheu para sua viagem de pesquisa os melhores colaboradores?
O chefe do Serviço de Rastreamento deu de ombros, numa expressão de desânimo.
O Doutor Innogow...
Innogow? — repetiu Rhodan admirado. — E o Dr. Innogow não conseguiu analisar isto? É estranho.
Mais estranho ainda é o comportamento físico deste material fosforescente, sir. Não reage a nada.
Mas, certamente, será possível constatar seu peso atômico.
Já o constatamos, senhor. Mas ninguém pode acreditar que o objeto de exame não passa de areia...
Areia?! — o olhar de Rhodan parecia ver coisa muito distante. — Você falou em areia? E falou também de uma tempestade de areia em Vagabundo? Este material pesado será areia?
Grimpel sorriu sem jeito.
A mesma pergunta fiz eu ao Dr. Innogow. Respondeu com um “não” categórico. Mas logo depois acrescentou: “O que podemos constatar neste material são vestígios de areia fundida, mais ou menos na proporção de quatro milésimos do conjunto. Mas não me pergunte o que seja o restante, Grimpel, não sei mesmo.” É este meu relatório, chefe.
Rhodan o olhou pensativo.
Estou sentindo falta de uma coisa muito importante em seu relatório, Grimpel. Você não cuidou de entrar em contato com os ratos-castores?
Claro que sim, sir. Dei ordens a respeito. Mas, num raio de mil quilômetros, não vimos nenhum deles. Encontramos os primeiros na região do pólo sul e, dois dias depois, nos deparamos com um grande grupo deles, no outro lado do planeta, na zona equatorial. Infelizmente, foi-nos impossível entrar em contato com eles. Embora sejam criaturas adoráveis, estes ratos-castores, com sua mania de brincar o tempo todo, principalmente com suas forças telecinéticas, transformaram nossa espaçonave num verdadeiro hospício. Tudo que não estava aparafusado no chão, começou a voar e pairar rente ao teto. Por três vezes fui vítima de suas peraltices telecinéticas.
Tivemos que fugir desta raça de bagunceiros, pois queríamos chegar à Terra e não ficarmos condenados a passar o resto da vida numa nave semidestruída. Senhor, estes ratos-castores podem se transformar numa praga. Admiro-me muito de como nosso Gucky seja tão moderado.”
Se você soubesse, Grimpel, quantas o pequeno Gucky já aprontou — disse Rhodan distraído, sem esconder, porém, seu descontentamento com os resultados obtidos com a investigação em Vagabundo. Continuava ainda com a pedrinha na palma da mão. Olhou-a de novo.
Grimpel, você examinou bem o chão?
Chefe, não houve uma coisa que nós não fizéssemos para descobrir a causa das erupções. Mas tudo foi inútil.
Grimpel e Bell se encontraram na saída do escritório de Rhodan. Bell, que dispunha de uma memória fantástica para fisionomias, reconheceu logo o chefe do Serviço de Rastreamento e sabia qual fora sua última missão.
Então? — perguntou Bell, ao sentar-se na poltrona, ocupada até pouco antes por Grimpel. — Alguma novidade?
Sim, isto aqui! — disse Perry mostrando na palma da mão a pedrinha azulada.
E o que é isto? — perguntou Bell, sem tocar a pedrinha.
Quatro milésimos do tamanho total é areia fundida, seu gorducho.
Reginald Bell olhou interessado. Apanhou com todo cuidado o pedacinho de aço fosforescente. Estranhou inicialmente o peso.
Santo Deus, isto é mais pesado do que chumbo.
É isso. Um material superpesado, e assim se esgota todo nosso conhecimento. Apenas posso ainda informar que foi encontrado no planeta Vagabundo, sob uma camada de mais de vinte metros de areia, exatamente no local onde Grimpel julga ser o centro das erupções energéticas.
E por que você não mandou Gucky tomar parte nesta excursão? Seria o número um, num caso deste.
Bell, você sabe perfeitamente que Gucky se encontra com John Marshall no mundo de cristal, ajudando Atlan, sendo impossível entrar em contato agora com ele.
Bell sorriu complacentemente.
Quando você fala tão calmamente assim, Perry, pode enganar os outros, a mim, não. Resumindo: você quer dizer que a expedição para Vagabundo fracassou, não é?
Grimpel nem conseguiu entrar em contato com um rato-castor.
Quer dizer que Grimpel acabou fugindo deles em Vagabundo, não é? E você não o pode censurar por isto, Perry. Estes ratos-castores, quando começam a brincar, parecem loucos. Você se lembra dos apuros em que Gucky nos deixava nos primeiros anos? E o que tivemos que agüentar em Vagabundo? Eu dou graças a Deus por Grimpel ter podido voltar são e salvo.
Puxa! Você o está defendendo?
De maneira alguma, procuro somente fazer com que você compreenda as circunstâncias que o pobre Grimpel teve de enfrentar. Mas, voltando a este pedacinho de metal, você já pensou nos druufs?
Já sim! É bem possível que algumas naves dos druufs tenham descido no planeta Vagabundo e estejam agora vagando por aí, entre as estrelas. Mas nossos homens também não estão dormindo. Tudo que temos no arquivo sobre os druufs foi consultado para se poder decifrar os diagramas e a confusão nas amplitudes. Fiz perguntas a respeito na positrônica de Vênus. Com um não categórico, os druufs foram excluídos. Eles não têm, pois, nada a ver com as erupções energéticas em Vagabundo.
Bell deu um longo suspiro.
Cérebro eletrônico, superpositrônica, positrônica de Vênus... sempre este “deus ex machina”! Aceito estas coisas como simples instrumentos de auxílio, mas aí pára minha simpatia por elas. Perry, se fosse possível injetar um pouco de vida nestas máquinas eletrônicas, então eu daria valor aos seus números e resultados. Mas sem isso, desculpe dizer, Perry: odeio estes monstros de cifras frias.
E se os druufs de fato andaram fazendo alguma malandragem lá por Vagabundo? Será que conhecemos mesmo tão bem assim o mundo dos druufs? Será que queremos enganar a nós mesmos? Pretendemos dizer com arrogância que conhecemos todos os insondáveis confins das galáxias? Não acha um pouco exagerado isto? Positrônica de Vênus para cá, positrônica de Vênus para lá... o que adianta isto? E a nossa fantasia, o dom de combinar as coisas, forças que constituem a grandeza da Humanidade... Portanto, meu palpite é que alguma nave dos druufs andou fazendo qualquer experiência no planeta Vagabundo. Que diz a análise com o C14 sobre a idade deste material tão pesado?”
Não diz nada. E para que você não tenha mais dúvidas a respeito, Bell, esta pedrinha que você teve entre os dedos não responde a nenhum exame com o C14. O que me diz agora?
O olhar de Bell oscilava entre o material e Rhodan. Depois falou com ponderação:
Portanto, não foram os druufs! O material deles não resiste a um exame. Santo Deus! As coisas vão se ampliando. Há poucas semanas travamos contato com os homens-peixe de Opghan, e agora este negócio em Vagabundo! Mas será que estas erupções energéticas se realizaram em Vagabundo ou diante de Vagabundo, em pleno espaço? As medições de nossos instrumentos de rastreamento estão exatas? Tão exatas que excluam um erro?
Bell, gostaria de poder dizer que as medições estão erradas. Infelizmente não o posso. O que posso afirmar é que cometi um erro muito grande em não mandar Gucky para Vagabundo. Não queria realmente criticar o trabalho de Grimpel, mas não posso me livrar do pensamento de que ele se esqueceu de algo muito importante. Mas, daqui para diante, haveremos de controlar tudo que se passa neste planeta.

* * *

Os monstros voltaram pela terceira vez a Vagabundo, e nenhuma estação, nem da Terra, nem de Árcon, conseguiu registrar sua chegada.
Desta vez, mais de quinhentas naves de dupla fuselagem, no estranho formato de gota d’água, desceram no lado oposto, isto é, na zona do equador. Ocuparam ali uma área de oito quilômetros de diâmetro.
Quem comandava os trabalhos não era mais um chefe de grupo, mas o chefe supremo Enn.
Novamente o mesmo tipo de descarregamento das naves de transporte e os mesmos monstros de rosto duplo moviam-se intensamente. Mas o que estavam fazendo, os ratos-castores escondidos não podiam compreender. E nem mesmo um terrano, se ali estivesse, haveria de entender.
Os monstros não sentiam nada de extraordinário durante o trabalho. Não possuíam a faculdade de distinguir entre uma coisa boa ou ruim. Uma missão era um trabalho a ser feito, e toda sua vida não passava de trabalho. Até mesmo a vida de um líder de grupo ou do próprio Gal Enn.
Viviam numa comunidade em que não havia o conceito de obrigação nem o de submissão. Como um não se diferenciava do outro, o fato de um poder distinguir o outro na multidão, principalmente quando se comunicavam por intermédio do rádio orgânico, era um tanto extraordinário. Cada qual dispunha de uma freqüência especial, que lhes servia de identificação, como acontece nos homens com a impressão digital. Apenas, esta freqüência especial não tinha nada a ver com os nomes dos chefes ou com o número dos monstros. Não lhes parecia nada anormal que, ao nascer, cada um deles fosse registrado como um objeto. Pois, para quem não existe tristeza nem alegria, um ser que nunca poderá ter seu eu vive e morre como mera parcela de uma inteligência-grupo.
Durou dois dias o descarregamento da grande frota. Os ratos-castores, que tinham suas tocas nas proximidades do local escolhido para aterrissagem, olhavam estarrecidos aquelas peças metálicas que pairavam silenciosas e depois iam se acomodando no solo, como se lá estivessem superguindastes automáticos.
No terceiro dia, o espetáculo começou a ficar monótono para os animais telecinetas. Oito deles, de um grupo de cinqüenta cabeças, haviam combinado de fazer com que aquela espécie de grua ou guindaste, de cem metros de altura, voasse pelos ares. Eram os oito mais fortes telecinetas do grupo. Nas escaramuças com outros grupos de ratos-castores, sempre saíam vitoriosos, usando apenas suas forças telecinéticas, com as quais levantavam as colinas habitadas por seus rivais e as afastavam por muitos quilômetros. Muitas vezes, as colinas eram alçadas a grande altura e, ao cair de mais de mil metros, não eram mais colinas, e sim areia e terra que acabavam sepultando muitos irmãos de raça.
Possuídos pelo instinto da brincadeira, os oito atacaram o suposto guindaste, que deu uma forte guinada para o alto, bem longe do solo. Porém, no mesmo instante, os oito animais foram atingidos por uma força descomunal, que não tinha nada a ver com poderes telecinéticos, enquanto que o guindaste misteriosamente tomou a posição horizontal. Ficou pairando a um metro do chão.
Uma cena horrível se desenrolou entre o grupo dos animais que estava ali parado, de olhos arregalados. Velhos e mais moços, todos rolaram pelo chão, vítimas de grandes dores.
Seus gritos ainda enchiam o espaço, quando uma muralha negra avançou contra a colina onde ficavam as tocas. Como o raio que atingiu os oito telecinetas, a muralha negra também logo voltou a desaparecer.
Não restou nem vestígio dos pobres animais!
De um momento para outro, todo e qualquer sinal de vida desapareceu das galerias subterrâneas que davam para os abrigos dos ratos-castores. Os monstros haviam vencido.
Como que guindado por mãos misteriosas, o objeto semelhante a um guindaste se ergueu verticalmente no ar, alcançando uma altura de mais de cem metros.
A partir daí, nas redondezas não havia mais ninguém para presenciar o trabalho dos monstros.
O Gal, chefe supremo, que se chamava Enn, controlava o Ogro de sua nave.
Numa tina aberta, em forma de elipse, mexia-se qualquer coisa que tanto podia ser um plasma como também quitina líquida. Do meio desta massa ou líquido grosso começou a surgir um brilho intenso, quando o Gal virou um de seus dois rostos para a tina, concentrando o olhar.
Ogro, será que seremos ainda importunados? — perguntou o Gal ao Ogro, através de seu rádio orgânico.
A tina aberta, que repousava numa carcaça assimétrica, deu a resposta através do mesmo meio de comunicação:
Gal Enn, a duzentas léguas daqui ainda existem três grupos de ratos-castores. Posso liquidá-los?
Sim, liquide-os — ordenou o Gal. — Abra-te, Ogro!
O Gal deu um passo para trás, abaixou a cabeça e um de seus quatro olhos passou a mirar a carcaça assimétrica que cada vez se tornava mais transparente, deixando ver uma formação confusa de pequenos elementos escuros e blindados. Fagulhas saltavam para todos os lados.
O Gal ergueu o braço, que saía de seu corpo naquele lado, na altura do ombro humano, mais ou menos onde fica nosso esterno. Esticou-o na direção do ponto amarelo entre os elementos escuros blindados. Depois, abriu bem os dedos, ou melhor, garras, deixando um espaço maior entre o segundo e o terceiro. Um raio sibilante, mas invisível, devia irromper daquele espaço. E, realmente, no momento em que começou o ruído, o ponto amarelo sofreu grandes alterações: inflou-se, como uma bola transparente, envolvendo os elementos blindados mais próximos, deixando-os bem à vista: era um organismo com câmaras, músculos e veias, mas também com campos vibratórios e com o quadro típico de campos magnéticos, tornados visíveis pela presença da limalha de ferro. Portanto, o orgânico e o técnico formavam aqui uma unidade, e esta unidade recebia agora energia extra através do Gal Enn.
O ponto amarelo já tomava a terça parte do volume total da carcaça, quando o Gal terminou sua transmissão energética. O ruído sibilante cessou, o crescimento do ponto amarelo estancou e foi voltando ao normal. Desapareceu também a transparência da carcaça assimétrica, onde se apoiava a tina elíptica. O Gal deixou cair o braço estendido, virou-se, deixando o compartimento, cujas paredes recebiam uma iluminação indireta.
E o manto da morte se abateu sobre os pobres ratos-castores na forma de uma muralha negra, tão veloz como a luz, mas silenciosa como a própria morte.
Neste momento de destruição e de morte, desencadeado e dirigido pelo Ogro — aquele produto híbrido do mundo dos monstros, um misto do orgânico com o técnico — deixaram de existir algumas centenas dos habitantes primitivos de Vagabundo. E, num âmbito de milhares e milhares de quilômetros em torno do local onde desceram as horrendas naves de fuselagem dupla, o planeta se tornou de fato um mundo deserto, onde nem mais uma planta germinaria.

* * *

Seis dias depois, nove transportes de fuselagem dupla estavam voltando de um vôo pelo planeta. No trecho percorrido, cada nave fez duas aterrissagens. Em cada um destes pousos, descarregou, por intermédio das forças do Ogro, um daqueles enormes guindastes, afundando-o de tal maneira no solo, que só sobressaía um trecho não maior do que um antebraço humano.
Antes das naves dos monstros prosseguirem em sua viagem, surgia sempre a muralha preta para cobrir uma área de pelo menos oitenta quilômetros quadrados.
Mal as nove naves haviam chegado de volta ao local de onde partiram, teve início a “construção” do parque industrial. Tal maneira de construir daria aos terranos uma estranha impressão, caso estes a presenciassem.
Assistido por três chefes de grupo, o Gal Enn deu, na sala de comando de sua nave, uma série de ordens pelo rádio orgânico. Postados diante de um quadro levemente côncavo, apresentando um grande número de botões de ligação, não maiores do que a unha do dedo polegar, estavam os três chefes de grupo. Manipulavam os pequenos botões, com três dos seus quatro braços.
Depois que o Gal Enn acabara de irradiar sua última mensagem, os chefes de grupo não mais se moveram.
Mais de quinhentas espaçonaves dos estranhos monstros estavam em Vagabundo. Cada aparelho de duas fuselagens dispunha de um Ogro. Através de suas ordens, com a assistência dos três líderes de grupo, Gal Enn conseguira fazer deles uma grande corrente de força. Por meio de seus Ogros, os monstros construíram o poderoso parque industrial nas profundezas do planeta Vagabundo.
Utilizavam-se de forças completamente desconhecidas tanto para os terranos como para os arcônidas. O que se apresentava como um grave problema técnico para a mais avançada tecnologia terrana ou arcônida, parecia uma brincadeira para aqueles monstros.
A dez quilômetros de profundidade, as rochas maciças se liquefizeram. Originou-se, assim, uma série de veios de rochas líquida, cada um deles partindo do centro da pedra, para os espaços vazios em volta. Ali então se assentavam novos blocos de pedra, trazidos facilmente em estado líquido.
No curto espaço de meio dia de Vagabundo, surgiu a dez mil metros de profundidade uma gigantesca catedral subterrânea de cinco quilômetros quadrados de superfície, com altura média de duzentos metros.
Assim que o Gal Enn, através do Ogro de sua nave, soube que a cavidade subterrânea atingira o tamanho necessário, ordenou por seu rádio orgânico que se iniciasse a instalação.
Seus três líderes de grupo, sentados diante do quadro de comando, manipularam apenas algumas vezes os pequenos botões.
Perante as naves dos monstros, desenrolou-se, no maior silêncio, um cenário de assombrosa dramaticidade.
Do enorme conjunto técnico-industrial, ali montado, foi desaparecendo peça por peça, como que dissolvidas no ar. Sem a ajuda de nenhum transmissor fictício ou de uma contra-estação, montara-se numa cavidade cavada através de 10 mil metros de terra e rocha uma gigantesca instalação de supermaquinaria na extensão de mais de três quilômetros quadrados, peça por peça, exatamente como já estava montada ao lado das espaçonaves.
Esta cena inacreditável não durou mais de meia hora, tempo de Vagabundo. Gal Enn recebeu então a comunicação de que o trabalho estava executado. O chefe supremo, portanto, não necessitava mais da concentração energética de todos os Ogros. Seus três líderes de grupo receberam a ordem de suspender a ligação em corrente única. E começou novamente a manipulação mecânica dos botões e alavancas no quadro côncavo.
Ao receber em sua freqüência de alarme a comunicação de que “uma espaçonave desconhecida estava em vôo direto para este planeta”, Gal Enn não se assustou.
Completamente tranqüilo, Gal Enn apenas disse em seu rádio orgânico:
Executar operação escurecimento.
Após o que, não se interessou mais pela nave desconhecida. Sabia por longa experiência que o escurecimento era uma proteção infalível.
No interior de uma das naves, estava um líder de grupo sozinho. Achava-se num aposento cheio de instrumentos inexplicáveis. Não havia nada semelhante aos medidores e dispositivos de construção arcônida, terrana ou dos druufs. Tudo ali era terrivelmente esquisito, como todas as coisas naquelas espaçonaves. Este líder de grupo observava, com seus dois rostos, todos os instrumentos de controle na frente e atrás dele, sendo que seus quatro braços, como também seus quatro olhos, que lhe davam uma visão de 360 graus, estavam ocupados.
Tinha sido avisado pelo Gal Enn de que as instalações a dez mil metros dentro da terra e da rocha já estavam em pleno funcionamento. Sua missão agora era constatar se as alterações na forma haviam se efetuado de acordo com as provisões dos seus cientistas.
Enquanto uma espaçonave terrana da classe dos cruzadores leves circunvoava o planeta a alguns milhares de metros de altura, fazendo um levantamento aerofotogramétrico, lá embaixo, mais de quinhentas naves dos monstros, muito bem camufladas, aguardavam pelas primeiras provas de que sua experiência daria bom resultado.
O líder de grupo, que no seu laboratório observava com os quatro olhos os instrumentos ao seu redor, comparava de memória as previsões dos cientistas com os dados fornecidos pelos instrumentos de medição. Mas ainda hesitava em comunicar ao Gal Enn o sucesso total da experiência.
Passou mais uma hora do tempo de Vagabundo e o cruzador leve da Frota Solar continuava circunvoando o planeta. Entrementes, soube o líder de grupo, com plena evidência, que o sucesso era absoluto e transmitiu ao Gal Enn os resultados de suas observações.
Partida em dez períodos de tempo — ordenou Gal Enn.
Continuava não dando nenhuma importância à nave terrana que sobrevoava todo o planeta. Terminara o décimo período de tempo. Mais de quinhentas naves de dupla fuselagem deixaram Vagabundo, sempre protegidas pela camuflagem da escuridão total. Mas sabiam bem o que estavam fazendo.
Apesar de tudo, o cruzador leve terrano as conseguiu localizar.
E, devido ao fato de não ser possível um rastreamento espacial normal, pois havia algo impedindo, desconfiava-se do refletor de ondas e mais ainda do resultado de suas medições que assinalavam que a 74 quilômetros Grün 45,32:49 se movia um corpo de vários quilômetros de diâmetro em direção ao espaço.
A tela panorâmica foi ligada para a maior ampliação possível e mesmo assim não apareceu nada. Com isso, a tripulação da sala de comando estava convencida de que o refletor de ondas de sua nave esférica estava ultrapassado ou carente de uma revisão.
Por coincidência de certas circunstâncias, a gigantesca frota dos monstros passou invisível diante da nave terrana e abandonou o planeta Vagabundo.
4



Já há algum tempo que alguma coisa estranha se passava com Gucky, tenente do Corpo de Mutantes. Não era mais o Gucky que todos conheciam.
Depois de sua última missão contra Thomas Cardif no importante planeta arcônida Archetz e após sua volta à Terra, deu-se uma alteração em Gucky, só descoberta por Reginald Bell já em fase mais adiantada.
Alô, little mouse — disse-lhe brincando Bell, enquanto lhe passava a mão pesada pelos ombros — o que há com você? Está doente ou anda se “abastecendo” demais no meu conhaque?
Gucky estremeceu sobre a mão do amigo e respondeu áspero:
Pelo amor de Deus, me dispense de suas asneiras, me deixe em paz — com estas palavras teleportou-se para outro lugar distante, deixando Bell boquiaberto e estupefato.
Dando de ombros, sem poder explicar o que acontecia com o amigo, Bell passou para os trabalhos do dia. Tempos depois, em conversa com Rhodan, ouviu a seguinte frase:
Não estou gostando de Gucky, gorducho. Parece que o inteligente animal perdeu todo o entusiasmo. Não faz mais das suas brincadeiras, foge de todo mundo, inclusive de mim. De você também?
Em sua maneira espalhafatosa, Bell disse o que pensava de Gucky:
Ele anda por aí escondendo-se, como alguém que está na fossa, que não agüenta nem mesmo consigo. Só Deus sabe o que se passa com ele. Mas, não tenha medo que ele voltará ao normal.
O ano 2.044 estava chegando ao fim e a situação no Império de Árcon ia se normalizando. A Terra passava por um período de calma. Mas, uma criatura que se tornava cada dia mais estranha, era Gucky.
Sempre que lhe era possível, ficava sentado em seu bangalô, olhando para as paredes nuas, escondendo seu dente de roedor e entregue ao seu cismar.
Ele mesmo não sabia o que lhe faltava. Não se sentia propriamente doente, mas estranhamente deprimido, sem vontade para nada, constantemente inquieto. Às vezes tentava escapar de si mesmo. Mas não conseguia, como ninguém, aliás, consegue quando chega a uma situação desta.
No dia anterior, o chefe o havia chamado. Perry queria encorajá-lo. Mas Gucky não desejava saber de entusiasmo, queria ter seu sossego, não falar com ninguém, nem ver ninguém.
Depois de poucas palavras, Rhodan terminou sua conversa e muito preocupado mandou chamar John Marshall, chefe do Corpo de Mutantes.
Marshall, dê uma chegada até aqui. John veio imediatamente.
Marshall, você sabe o que está acontecendo com Gucky?
O chefe do Exército de Mutantes também não sabia.
Ele não permite que a gente leia seus pensamentos, sir — respondeu o melhor telepata de que dispunha Perry Rhodan. — E, além disso, recusa qualquer conversa. Talvez esteja doente ou é a idade que se faz sentir de repente. Qual é a idade dele agora? O senhor sabe?
Ninguém sabe — respondeu Rhodan. — Recordo-me de que, há mais de uns quarenta anos, Bell tentou saber dele a idade exata, mas como uma senhora vaidosa, não quis de maneira alguma falar em idade. É interessante lembrar estas coisas, mas não deixa de ser constrangedor, quando se considera a possibilidade de um rápido envelhecimento. Será que seu organismo reagiria a uma ducha celular?
O que Marshall respondeu foi mais uma conversa consigo mesmo, do que com Rhodan.
Gucky e velho? Não consigo unir estes dois conceitos, chefe. Mas, muito menos pensar que ele esteja doente. Não dá a impressão de uma grande depressão?
Rhodan se recostou no espaldar da poltrona e quando Marshall olhou para ele, vislumbrou certa intranqüilidade nos olhos do administrador do Império Solar.
John, você não quer fazer mais uma tentativa? Quem sabe, Gucky lhe vai dizer alguma coisa.
A mim, chefe? Quando se esquiva até do senhor e de Bell, não querendo falar com ninguém! Nem vai permitir que eu me aproxime. De qualquer maneira, vou tentar. Não creio, porém, em sucesso.

* * *

Para a festa do réveillon, Rhodan fez questão de convidar Gucky.
Pelo amor de Deus — dizia Gucky — me dispense desta, nem consigo mais olhar para mim mesmo. Não tenho o direito de lhes estragar a festa e a boa disposição. Pretendo fazer outra coisa. Tenho que me divertir. Pretendo dar uma chegada a Paris, deve ser uma cidade maluca, não é? Você conhece Paris, Perry?
Mas tudo isto tinha um tom de cansaço e de desinteresse, de maneira que Perry Rhodan chegou à conclusão de que Gucky devia estar seriamente doente.
Descreveu-lhe Paris nas cores mais maravilhosas, porém, em meio à sua exaltação à Cidade Luz, Gucky o interrompeu enfastiado:
Ah! Não quero passar meu réveillon em Paris. Que bobagem! Fico entre minhas quatro paredes. Faça-me apenas um favor, Perry: tire Bell do meu caminho. Não posso suportar sua compaixão, apesar de o coitado querer ajudar-me. Miséria... dá vontade de a gente sumir de uma vez.
Decepcionado, Perry continuou olhando para seu videofone. Gucky já desligara.
Que está se passando com Gucky?”, perguntou Rhodan a si mesmo, mergulhado em séria preocupação.

* * *

Seis dias antes daquela conferência de emergência, em que desempenharam o papel de mais importância o diário de bordo de um cruzador leve e o refletor de ondas, o ar cintilou de repente diante de Rhodan. Gucky tornou-se visível.
Bom dia, chefe!
Era o velho tom brincalhão de Gucky e, bastante surpreso, Rhodan olhou para ele.
Oba! Gucky, como é, já está tudo cem por cento?
E, se fosse preciso, Rhodan continuaria naquele tom de gozação, usado sempre pelo rato-castor.
Como banquei o bobo, Perry!
Você, um bobo, Gucky? Impossível. Ou você aprontou mais uma das suas e a consciência lhe dói agora. Escute aqui, de antemão está tudo perdoado e esquecido, meu amigo.
Perry Rhodan bancou o generoso e magnânimo.
Viu então o famoso dente roedor. E, soltando um longo chiado, o rato-castor falou:
Aceito. Sua absolvição geral, eu transfiro para minha próxima falta, chefe. Mas agora tenho que decepcioná-lo. Realmente não aprontei nada de errado, apenas sei agora o que me está faltando. Mas, por favor, Perry, não vá caçoar de mim, não é? Estou louco de saudade do meu planeta. Gostaria de gritar com toda força, tanta é a alegria que sinto. Por favor, Perry, deixe-me voar para Vagabundo.
Saudade”, pensou Perry assustado, e, puxando Gucky para junto de si, o abraçou.
Gucky, meu pobre amigo!
E isto foi dito com sentimento, com sinceridade e com compreensão.
Perry... meu caro Perry!
Os braços do rato-castor envolveram o pescoço de Perry Rhodan, comprimindo sua cabeça contra o peito do homem mais poderoso do Império Solar.
É saudade que ele tem”, pensava ainda Rhodan. “Este pequeno animal tem saudade do deserto e frio planeta Vagabundo e de seus companheiros de raça. Sente saudade como um ser humano que, de repente, percebe que não pode criar raízes numa terra estranha.
Você pode partir amanhã, Gucky. Quer que uma nave o leve para lá ou prefere chegar sozinho?
Ao terminar a pergunta, Rhodan percebeu de novo o dente roedor em toda a sua grandeza. Isto já era um sinal evidente do contentamento de Gucky. No entanto, não se contendo de alegria, deu rédeas a seu entusiasmo:
Sozinho, Perry, ceda-me uma nave tipo Space-Jet. Prometo-lhe trazer de volta o aparelho sem nenhum arranhão.
Certo, Gucky, mas um Space-Jet exige pelo menos uma tripulação de quatro homens.
Mais do que depressa Gucky largou suas mãos das de Rhodan, aprumou-se todo e se postou na frente de seu chefe, respondendo:
Quatro homens... Mas queria ir sozinho para Vagabundo! E o que é necessário para transformar um jato de quatro tripulantes em um aparelho de um só tripulante? Somente uma ordem sua, alguns robôs e, em três horas, está tudo resolvido.
Nesta altura, Perry desandou num grande sorriso. Assim como Gucky se sentia feliz e aliviado por ter reconhecido depois de semanas e semanas de angústias a causa de sua depressão, também Rhodan se sentia contente e livre dos cuidados em torno do rato-castor. Seu sorriso espelhava o que lhe ia no íntimo.
Neste momento, Reginald Bell entrou no escritório de Rhodan. Viu Gucky abraçado a Perry Rhodan e ouviu o final da boa gargalhada do administrador.
Vocês dois estão indo muito bem, como vejo — observou Bell que de nada suspeitava, sentando-se depois à sua mesa de trabalho.
Fantasticamente bem — concedeu Rhodan. — Sinto-me aliviado, gorducho. Gucky se...
Por favor, Perry — suplicou o rato-castor, interrompendo o chefe.
Mas Rhodan não se deixou levar e concluiu:
Como estava dizendo, Gucky se queixa de que você lhe ensina muita coisa errada com sua linguagem que não é nada de salão.
Este santinho que está aí abraçado a você já recuperou a saúde? Sim ou não? — vociferou o temperamental Bell, descendo de sua mesa e indo para a frente de Rhodan e de Gucky, querendo pegar este último.
Gucky está se convalescendo, Bell — disse-lhe Rhodan. — Esteve doente de saudade e voa amanhã sozinho para Vagabundo num Space-Jet adaptado.
Saudade? — Bell ficou pensativo e se esqueceu na mesma hora de que tinha uma rusgazinha com Gucky. — Coitado do pobre-diabo!
E aquela mesma mão que queria agredi-lo, alisou seu pêlo com carinho.
Gorducho — falou o rato-castor — você é, depois de Perry, o sujeito mais bacana, só que você não me deve ensinar tantas palavras impróprias, como tem feito. Perry acha que desta maneira você poderia me...
Estou vendo que você se recuperou depressa demais, Gucky — atalhou-o Rhodan e sua voz estava um pouco mais dura.
E o motivo disto é porque amanhã vou voar para minha terra, Perry. Estou com medo de explodir no ar de tanto contentamento. Quanto tempo de licença você me dá?
Se não acontecer nada neste meio tempo, um mês inteiro, Gucky. Isto basta?
Um mês, chefe, um mês inteiro de férias? Não é demais para mim?
O inteligente animal não cabia em si de feliz. Apesar de todas as suas peraltices e pequenos atos de indisciplina, que lhe causavam depois muitas horas de arrependimento, não havia perdido nada de sua modéstia.
E olhando de Rhodan para Bell:
Um mês inteiro de férias?
Ainda não estava acreditando. Acudiu-lhe de repente uma suspeita:
Ou será que eu recebo este mês de férias, para não poder participar de uma missão que está para se realizar?
E contra a ordem expressa, procurou com seus fortes dons telepáticos ler os pensamentos do administrador. Rhodan, porém, se protegeu de forma que Gucky nada percebeu.
Gucky, não há previsão para nenhuma missão. Se durante seu tempo de férias se positivar a necessidade de sua presença, então fique tranqüilo que nós o chamaremos por hiper-rádio.
As palavras de Rhodan o tranqüilizaram, mas se preocupava ainda com a duração de suas férias.

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