quinta-feira, 25 de agosto de 2016

P-092 - Missão Secreta Moluque - William Voltz [Parte 2]

Murgut levou-os para a rua. A tempestade amainara.
A perspectiva de ganhar um presente parecia servir de estímulo ao green. Suas longas pernas caminhavam tão rapidamente que, só com muito esforço, os astronautas conseguiram acompanhá-lo. O sol, que antes estivera encoberto pelas nuvens de pó, dardejava seus raios com toda força. Everson lançou um olhar para o termômetro de pulso e verificou que a temperatura já era bem superior a quarenta graus.
Na periferia da aldeia, isto é, bem distante da México, os homens viram pela primeira vez construções alongadas que, ao contrário das residências, tinham um aspecto moderno.
São nossas fábricas e pavilhões de criação — disse Murgut prontamente, respondendo a uma pergunta do comandante.
Ouviram um chiado retumbante e batidas. Uma fumaça azulada saía das aberturas existentes nos telhados.
Estamos fazendo experiências com ar aquecido — explicou Murgut em tom orgulhoso. — Uma vez comprimido, pode ter várias utilizações.
Estão inventando a máquina a vapor — disse Weiss em tom de espanto. — Pelo que se conclui dos ruídos, os primeiros modelos não ficam a dever nada ao engenho de James Watt.
Uma explosão fez com que se calassem.
É claro que às vezes há um contratempo — disse Murgut com a voz deprimida.
Everson imaginava que, a essa hora, um grupo de greens decepcionados devia estar fitando o produto de um trabalho persistente, que acabara de ser destruído. Apesar disso, voltariam a tentar, da mesma forma que a Humanidade sempre o fizera. O desenvolvimento de um povo depende da obstinação com que este age. Isso se aplicava tanto à invenção de uma máquina a vapor, como na criação de uma astronáutica altamente desenvolvida.
Atrás das fábricas estendia-se uma espécie de plantação. Vários greens estavam trabalhando no campo. Ao lado das instalações, ficava um iglu solitário, bastante arruinado. Não exibia o branco reluzente das outras construções.
Chegamos — disse Murgut. — Aqui mora Npln.
Napoleão — disse o Dr. Morton, interpretando a palavra pronunciada por Murgut. — Até mesmo na periferia do centro galáctico seu nome continua vivo!
Em alguma época passada, houvera um antepassado do Dr. Morton em cujas veias corria o sangue real francês. E a tendência do médico, de ressaltar esse fato em qualquer oportunidade, não recuava diante de nada. Contemplou a choupana em ruínas com tamanho enlevo que até parecia ver diante de seus olhos o palácio de Luís XIV.
Passaram por uma trilha estreita que passava junto aos campos de cultura. Os greens interromperam o trabalho e fitaram-nos. Murgut fez um gesto tranqüilizador.
Quando chegaram à residência de “Napoleão”, Murgut pediu que esperassem.
Npln é um velho rabugento — disse a título de desculpa. — Quase sempre está dormindo. Costuma ficar zangado quando é acordado. Quero prepará-lo para a visita.
O senhor acredita que o velho que deve residir aqui poderá ajudar-nos, Sir? — perguntou Weiss em tom de desconfiança. — Com todo respeito que tenho pelo seu pomposo nome — lançou um olhar irônico para o Dr. Morton — sou de opinião que aqui dificilmente encontraremos quem nos apóie.
Antes que o coronel tivesse tempo de responder, Murgut voltou.
Está de mau humor — disse em tom desanimado. — Tive de prometer-lhe muitos presentes para que concordasse em recebê-los.
Entraram por uma porta cujo batente começava a despedaçar-se. Tiveram de acostumar-se à penumbra que reinava no interior da casa. Everson sentiu-se satisfeito ao perceber que o mau cheiro não era tão intenso.
Npln estava sentado num dos cantos da sala.
Sempre era difícil avaliar corretamente a idade de um ser pertencente a uma raça estranha. Mas não havia dúvida de que o green que estava sentado no chão era alto.
Sua pele verde estava cheia de rugas. Era tão fino que lembrava uma armação de arame coberta de papel. Seu rosto era murcho e encovado, e os olhos inflamados, negros como pedaços de carvão, brilhavam no interior das covas profundas.
Ao que parecia, não estava muito impressionado com a aparição de seres dos quais nunca vira nem ouvira nada.
São feios — resmungou, dirigindo-se a Murgut. — Gordos e feios. Especialmente aquele ali.
Um braço magro apontou para o Dr. Morton, que naquele momento bem que gostaria de trocar seu sangue real francês pelo de um guerrilheiro irlandês.
Lamentamos profundamente que nosso aspecto lhe cause desagrado, Napoleão — asseverou Everson. — Mas nossos ricos presentes o recompensarão por essa visão lamentosa.
Napoleão soltou um arroto... de satisfação ou contrariedade, quem seria capaz de dizer?
Everson recorreu ao truque psicológico mais antigo, e que, mesmo nesses dias, ainda era o mais eficiente. Bajulou o velho, para satisfazer sua vaidade.
Viemos à presença do homem mais valente desta aldeia, pois precisamos do seu auxílio — disse. — Todos têm o maior apreço pela sua experiência.
Todo mundo me odeia — grasnou Napoleão em tom contrariado. — Sou um trambolho para todos. Um esquisitão velho que não serve para nada.
Estamos à procura de um guia para uma expedição ao deserto — disse Everson, indo diretamente ao assunto. — Ninguém tem coragem de acompanhar-nos. Que tal você, amigo?
O velho soltou um assobio estridente. Fitou-os com uma expressão de sagacidade.
O mal em sua própria essência — disse em tom matreiro. — Sou o único que se arrisca a andar por aqueles lados. Conheço a terra. Coisas estranhas costumam acontecer por lá. Lá existe uma torre habitada por demônios.
Uma torre? — perguntou Weiss em tom nervoso. — Como é ela?
Com um gesto da mão Napoleão procurou indicar os contornos do edifício.
É forte e enorme. Nem mesmo o furacão mais forte pode fazer-lhe qualquer coisa.
Você poderia levar-nos para lá? — perguntou Everson em tom insistente.
Vocês terão de carregar-me — disse Napoleão. — Sou tão velho e fraco que não posso andar por muito tempo. Dessa forma, eu os levarei a qualquer lugar situado nesse inferno.
Everson sentiu alguém puxar a manga de seu traje protetor. Virou a cabeça e fitou o rosto assustado de Murgut.
Será que posso receber os presentes antes do início da expedição? — perguntou em tom preocupado.
Essa pergunta não era difícil de compreender.
Murgut tinha certeza de que Napoleão levaria os homens para o deserto.
Mas não os traria de volta!
4



O Coronel Marcus Everson escolhera trinta homens, que partiram há três horas, sob seu comando. Walt Scoobey foi investido no comando da México. O primeiro-oficial devia apressar os reparos, guardando todas as cautelas, e concluí-los até o regresso de Everson. A expedição levava aparelhos de radiofonia de grande alcance, a fim de manter contato ininterrupto com a nave. Todos os astronautas estavam fortemente armados e envergavam trajes protetores.
Dois robôs carregaram Napoleão numa maça especialmente feita para o transporte. A estranha trinca abria o cortejo. O coronel fez questão de levar uma boa provisão de alimentos concentrados, cápsulas de água e comprimidos de vitaminas. O Dr. Morton era uma verdadeira enfermaria ambulante.
Para as condições locais, o tempo era bastante calmo. Ainda era cedo, e a temperatura era perfeitamente suportável.
Segundo as indicações de Napoleão, levariam três dias e três noites de Moluque, para avistarem a misteriosa torre. Várias opiniões foram manifestadas sobre o assunto. Antes da partida, Scoobey opinara que essa construção só existia na fantasia do velho green.
Everson ouvira todas as objeções, mas não se deixara demover do seu intento.
Caminhavam pela crista de uma duna alongada, igual a muitas outras. Everson vinha logo atrás dos robôs e de Napoleão, ladeado por Weiss, Bellinger e Goldstein. Sternal, Landis e o Dr. Morton iam na retaguarda.
Sir! — disse Goldstein, colocando-se ao lado de Everson. — À medida que nos afastamos da México, minha capacidade de captar impulsos mentais aumenta.
Não se esqueça de que também nos estamos afastando da aldeia de nativos. A pressão mental dos greens está diminuindo.
É estranho! — disse o mutante em tom pensativo. — O senhor deve estar lembrado de que Murgut me deu muito trabalho. Acontece que Napoleão não exerce a menor interferência na minha faculdade.
Hum — fez o coronel. — Talvez já seja muito velho e não disponha das mesmas forças que os outros greens.
A palestra foi interrompida por um grito que ressoou nos alto-falantes dos capacetes. Pararam. Pentsteven, o astrônomo, correu para a frente. Seus pés levantavam nuvenzinhas de pó. O rosto do jovem estava pálido. Nem mesmo a lâmina do visor conseguia ocultar essa palidez.
É nosso novato! — exclamou Weiss em tom de desprezo. — Deve ter areia nos sapatos e não sabe como tirá-la.
Pentsteven parou à frente de Everson. Sua respiração era ofegante, e a fala, entrecortada.
O receptor de raios goniométricos desapareceu — disse fungando.
O aparelho servia para captar o raio vetor irradiado pela México. Os impulsos, que eram registrados, constituíam um bom meio de orientação. O transporte do aparelho fora confiado ao astrônomo.
O quê? — gritou Everson. — O que está dizendo?
Desapareceu — repetiu Pentsteven em tom queixoso.
O senhor quer dizer que o perdeu! — disse Everson em tom penetrante. — Faça o favor de refletir um pouco, meu filho. Não estou gostando da sua negligência.
O astrônomo virou o rosto desolado para Weiss, mas o biólogo não lhe deu nenhum apoio.
Sir, tenho certeza absoluta de que há alguns minutos ainda o tinha comigo. Controlava constantemente as correias que o prendiam ao cinto. De repente notei que o peso do aparelho estava diminuindo. Quando olhei, ele havia desaparecido.
Será que o senhor quer nos fazer acreditar em milagres? — perguntou o comandante. — A negligência é um pecado grave. Mas se alguém tenta desculpar-se mentindo, esse alguém torna-se indigno de ser um cidadão astronauta do Império Solar.
O que aconteceu? — perguntou Napoleão. Haviam pendurado um microfone e um alto-falante em seu pescoço, para que os astronautas não fossem obrigados a abrir o capacete toda vez que queriam falar com ele.
Everson explicou o acontecimento por alto.
Os demônios do deserto carregaram o aparelho — afirmou o velho. — Este homem é inocente.
Everson não estava inclinado a acreditar na conversa de Napoleão.
Volte ao seu lugar — disse, dirigindo-se a Pentsteven. — Tenho vontade de mandá-lo de volta.
Sim senhor — disse Pentsteven num cochicho quase inaudível.
Vamos andando — ordenou o coronel.
Não acreditou nem em Pentsteven, nem no nativo... até que acontecesse uma coisa com Edward Bellinger.

* * *

Edward Bellinger tinha um metro e noventa e sete centímetros de altura e pesava duzentos e dez quilos. Movia o corpo com a elegância de uma marmota, que, por um infeliz acaso tivesse sido colocada sobre uma superfície lisa de gelo. Nas atividades esportivas da Academia Espacial, Bellinger sempre ocupara uma posição de destaque na luta romana e no halterofilismo, mas sempre costumara ser derrotado no judô.
Um estudo caracterológico da cabeça de Bellinger estaria condenado ao fracasso, pois a camada de gordura que revestia suas faces podia ser esticada, enrugada, ou puxada para os lados à vontade. Bellinger chegara a tornar-se mestre nessa faculdade extraordinária. Encontrara muitos imitadores, mas nenhum concorrente de verdade. Com a idade de 36 anos, o tenente chegara a um ponto em que podia mover as orelhas num ângulo de trinta graus!
O sol a pino refletia-se nas costas polidas dos dois robôs, e só o efeito anti-ofuscante dos visores evitava que os reflexos luminosos perturbassem os homens. Para Bellinger, o fato de que ele, um astronauta, tinha de andar a pé pelo deserto, era uma verdadeira ofensa.
Por que a México não trouxera nenhum dos veículos versáteis da frota espacial? — perguntou-se, em voz baixa.
Subitamente, o sangue parecia congelar nas veias do Tenente Edward Bellinger. Seus companheiros pareciam tornar-se cada vez maiores. Prendeu a respiração e um medo terrível cingiu-lhe a garganta.
O fenômeno continuou. Os robôs, o green, Everson, Weiss e os outros começaram a crescer e esticar-se.
Bellinger quis gritar, mas a garganta fechada recusava-se a obedecer. Pensou que iria enlouquecer. Seu cérebro transformou-se num feixe trepidante de pensamentos confusos. Sua mente recusava-se a aceitar a terrível realidade.
No seu subconsciente, deu-se conta de que o barulho que ouvia era o berreiro dos astronautas que o cercavam. Para o tenente, eles se haviam transformado em monstros enormes, em super-homens ou colossos. Até os grãos de areia eram maiores.
Sentiu-se paralisado pelo pavor. Ouviu que estava soluçando que nem uma criança. Acreditava que iria enlouquecer a qualquer momento. Até fazia votos de que isso acontecesse, pois parecia ser a única salvação.
Mas não enlouqueceu. Apenas reconheceu a realidade:
Os outros não haviam crescido.
Fora ele que mudara.
Encolhera-se e estava reduzido ao tamanho de um anão.
Era tão pequeno que receava ser pisado pelos outros.
Viu um pequeno buraco na areia. Uma caverna! Correu em direção ao mesmo, passando entre as pernas de um dos homens.

* * *

Everson foi o primeiro que venceu a rigidez causada pelo pavor. O acontecimento inacreditável deixara-os estupefatos. O Tenente Bellinger encolhera diante das vistas de todo mundo, até que desapareceu na terra, quando tinha apenas quinze centímetros de altura.
Vamos depressa! — ordenou o coronel. — Cavem a areia. Tenham cuidado para não machucá-lo!
Caíram de joelhos e começaram a cavar a areia com as mãos enluvadas.
Olhe, Sir! — gritou uma voz desfigurada pelo pavor.
Sternal tremia e apontava para o deserto.
A vinte metros do lugar em que cavavam, estava deitado um corpo imóvel. Era o Tenente Bellinger! Em seu tamanho normal...
É o mal em sua própria essência — disse Napoleão num grito estridente.
5



O aprendizado na Academia Espacial de Terrânia era muito duro. E era bom que fosse. Ali os homens — e em casos mais raros também as mulheres — eram preparados para a vida no espaço cósmico. Mostravam-lhes, com todo realismo, o que teriam de esperar lá fora. Só os mais resistentes, corajosos e fortes passavam pelos exames. O homem tinha de aprender a desprender-se das trilhas convencionais do pensamento, pois as coisas que aconteciam entre as estrelas nem sempre correspondiam às concepções tradicionais. Só mesmo um espírito ágil, capaz de assimilar todas as novidades — tanto as positivas quanto as negativas — poderia satisfazer aos padrões exigidos.
Os homens que correram pelo deserto, em direção ao lugar onde Bellinger estava deitado, só eram capazes de lúcidas decisões, em virtude desse aprendizado.
O tenente abrira os olhos e esforçou-se para sorrir.
Hematomas e escoriações — constatou o Dr. Morton depois de um ligeiro exame. — Um pequeno choque nervoso.
Tolice! — respondeu Bellinger em tom indignado. — Estou bem.
Muito bem — confirmou Weiss, depois de haverem cuidado do tenente. — E agora?
Num gesto instintivo, Everson pôs a mão para cima a fim de passá-la pela testa. Porém as pontas dos dedos tocaram no capacete. Por alguns segundos sentiu uma vontade quase irresistível de dar um beliscão no braço, a fim de verificar se aquilo não era um sonho. Estava com a boca ressequida e a dor de cabeça o martirizava.
Ninguém há de dizer que sofremos uma alucinação coletiva — disse com a voz abafada. — O estado de Edward fala uma linguagem eloqüente. Cada um de nós viu que, numa questão de segundos, esse homem encolheu. A modificação foi proporcional, isto é, cada parte do corpo foi afetada pelo processo em igual extensão. Até mesmo o equipamento de Bellinger foi atingido. A estabilidade de uma estrutura molecular é constante, mas só em sentido relativo. A disposição das moléculas pode ser condensada e espalhada, sem que o sistema sofra qualquer alteração. Talvez seja mais fácil explicar o fenômeno por meio de uma fotografia. Pode-se fazer um retrato muito pequeno e ampliá-lo de tal maneira que suas dimensões atinjam proporções gigantescas. Apesar disso, ambas as fotos mostrarão o mesmo corpo, a mesma substância material.
Um sorriso débil surgiu em seu rosto.
Nem penso em oferecer uma explicação do incrível fenômeno a que acabamos de assistir. Qualquer pessoa que tenha visto a demonstração das faculdades de Mataal, no interior da nave girino, poderá confirmar que um deformador molecular é capaz de superar a estabilidade de uma estrutura de moléculas. Esses seres podem modificar e reformular qualquer disposição de moléculas. Esse dom representaria praticamente a mais potente das armas, se não tivéssemos de admitir que até mesmo um deformador molecular esbarra em certos limites...
Quer dizer que, em sua opinião, neste planeta existem seres dessa espécie, Sir? — perguntou Landis, o operador de rádio.
Tudo indica que sim — respondeu Everson. — Suponho que os seres pertencentes à raça de Mataal lançaram mão deste fenômeno para mostrar que estão presentes. Talvez seja uma advertência. Quem sabe? Até agora ninguém de nós foi morto. Este fato não constitui necessariamente um indício das intenções pacatas dessas criaturas, mas faz supor uma certa disposição de aceitar nossa presença até determinado ponto. Só podemos fazer votos de que não demoremos a travar um contato mais estreito com esse seres.
Fez um sinal, e a coluna prosseguiu em sua marcha. Napoleão indicou a direção em que teriam de caminhar. Goldstein disse que não conseguia captar nenhum pensamento estranho.
Ao anoitecer, Everson mandou que o grupo parasse. Sternal sugeriu que tomassem comprimidos de neovitina e prosseguissem na marcha. Everson não concordou. Deviam guardar as forças, e qualquer estímulo artificial poderia produzir efeitos nocivos no futuro.
Landis entrou em contato com a México. Scoobey comunicou que os trabalhos de reparo estavam em pleno andamento e já mostravam os primeiros resultados positivos. No decorrer da tarde, vários greens haviam aparecido e permaneceram nas proximidades da nave. O Dr. Lewellyn chegou à conclusão de que temiam a cólera dos habitantes do deserto e procuravam a proteção dos estranhos. Murgut, que recebera de presente um holofote, chegara mesmo a permanecer no interior da nave.
Everson preferiu não informar Scoobey sobre o que acontecera com Bellinger. Não queria deixar o primeiro-oficial nervoso, pois isso poderia prejudicar seu trabalho.
Depois do jantar, Everson mandou montar as barracas, que eram feitas de plástico muito leve e praticamente indestrutível.
Napoleão recusou-se a dormir numa barraca. Cavou um buraco na areia, xingou os dois robôs, cuja programação não incluía qualquer tipo de conversação com os greens, e adormeceu momentos depois.

* * *

De início foi apenas um farfalhar como o do champanha borbulhante de um cálice que acabava de ser cheio. Depois disso teve-se a impressão de que eram inúmeros pés descalços de crianças que pisassem em ladrilhos. Finalmente, ouviu-se um crepitar, como se alguém remexesse ao longe a lenha de um forno quase apagado.
Everson acordou sobressaltado do sono leve em que estava mergulhado. Pegou a lâmpada e acendeu-a. Weiss e Goldstein, que compartilhavam a mesma barraca, dormiam profundamente. O coronel olhou para o relógio e constatou que a noite só havia começado há duas horas terranas. Haviam tirado os capacetes, já que, apesar do pequeno teor de oxigênio, o ar noturno era refrescante, fazendo com que Everson se lembrasse das excursões pelas montanhas, realizadas na juventude. Mas agora, que o sol se pusera há muito tempo, o ar parecia quente e abafado.
Everson abriu o tampo da barraca e olhou para fora. Uma lufada de ar quente atingiu seu rosto. Grãozinhos de areia fustigaram sua pele. Agora já conhecia a origem do ruído crepitante. Era o vento que carregava a areia e a tangia contra a barraca.
O comandante sacudiu os companheiros de barraca.
Parece que alguma coisa está para acontecer — disse. — Convém que nos preparemos.
O coronel não poderia imaginar que, em meio à natureza enfurecida, todos os preparativos seriam inúteis.
Acordaram os outros homens. Everson mandou que seus comandados firmassem duplamente as barracas e voltassem a colocar os trajes protetores.
Napoleão foi o único a criar problemas. O nativo estava quase completamente coberto de areia e Weiss, que iria informá-lo sobre a situação, por pouco não tropeça nele. O green brindou o biólogo com alguns palavrões, sacudiu-se como um cão que acaba de sair da água e acompanhou-o para as barracas, xingando sempre.
Parece que vamos ter uma tempestade de areia — disse Everson para dentro do microfone de capacete, quando viu Napoleão à sua frente.
É claro que vamos ter uma tempestade de areia — respondeu Napoleão com a voz irritada, levantando a cabeça de abóbora murcha contra o vento.
O que devemos fazer? — perguntou o astronauta.
O nativo começou a falar, usando um tom de desprezo.
Vamos esperar. Que mais poderíamos fazer?
Everson resignou-se com a resposta. O ancião mais rabugento do planeta Terra seria um gentil cavalheiro em comparação com esse monstro. O fígado de Napoleão — se é que possuía esse órgão — devia produzir uma quantidade excessiva de bílis, ou então o velho estava afetado por uma arteriosclerose irreversível, fato que qualquer cosmobiólogo contestaria de forma categórica. Entretanto o certo era que, naquele momento, o green não passava de uma figura magra e bulhenta, do qual não se poderia esperar qualquer conselho válido.
Todos para as barracas — ordenou Everson. — Talvez tenhamos sorte e escapemos sem maiores danos.
O vento já atingira uma velocidade considerável e sacudia ininterruptamente os alojamentos. O plástico era inflado. As lanternas dos astronautas brilhavam em meio à escuridão. Quando Everson voltou ao seu alojamento, Weiss e Goldstein já se encontravam lá.
Tomara que os pinos agüentem — disse o mutante. — Acabo de abrir meu capacete.
O plástico das barracas chicoteava, produzindo estalos que nem os tiros de uma pistola.
Everson cruzou os braços embaixo da cabeça e olhou para o teto. Uma lâmpada espalhava uma luz irregular.
De repente, Everson viu que a barraca começava a girar. Parecia que duas mãos gigantescas estavam torcendo uma peça de roupa molhada. O coronel colocou-se de pé num salto.
Segurem-se — gritou. À luz da lâmpada ainda chegou ver que os dois homens se levantaram.
Depois o furacão começou a deformar a barraca de tal maneira que Everson pareceu estar cercado por todos os lados. Sentiu a pressão do vento, que ameaçava derrubá-lo. Embaralhou-se nas peças de plástico. Os três reviraram os corpos e conseguiram libertar-se. A tormenta arrastava tudo que encontrasse pela frente. As mãos de Everson, que pretendiam segurar vários objetos, apenas atingiam o vazio.
Fiquem juntos — ordenou o experiente coronel.
O ar se movimentava com tamanha velocidade que, em todos os lugares onde o corpo era atingido de frente, os trajes protetores comprimiam-se contra a pele. Everson ligou sua lanterna.
A areia revolvida praticamente sufocou a luz, que não chegava a mais de dois ou três metros. Duas rajadas, em rápida sucessão, derrubaram Everson. Não teve coragem de pôr-se de pé. Preferiu rastejar. Teve a impressão de que o chão vibrava sob suas mãos. Weiss rastejava a seu lado. O telepata estava fora do raio de visão. Provavelmente as rajadas de vento o haviam arrastado. Uma barraca, que estava sendo carregada pela tormenta, bateu ruidosamente no capacete de Everson e quase lhe arranca a cabeça. Sentiu uma dor lancinante na nuca. Qualquer movimento seria inútil. Estendeu-se rente ao chão e cravou as mãos na areia.
Fiquem onde estão — gritou para dentro do microfone. Para muitos homens, não seria fácil cumprir esta ordem, mas de qualquer maneira o cumprimento desta evitaria que corressem ao acaso pela escuridão, à procura de abrigo.
As dores desciam pelas costas de Everson como um fluxo de lava incandescente. Teve a impressão de estar deitado numa grande lâmina que executava um movimento de rotação. Sem que o quisesse soltou um grito. Com um pavor crescente, constatou: o chão realmente se movia.
A rotação cada vez mais rápida gerou a força centrífuga que, junto com a tempestade, fez com que Everson escorregasse pela areia como se estivesse numa pista de gelo. Fez um esforço desesperado para segurar-se em alguma coisa. Um trecho bem definido do deserto girava que nem um pião, e trinta homens também escorregavam como se fossem insetos.
O derradeiro momento se aproximava...
Everson teve a impressão de que se encontrava a meio caminho entre o eixo central e a zona periférica do pião. Mais alguns instantes e os elementos enfurecidos o empurrariam cada vez mais para fora. Dominado pelo pavor, o comandante da México, pensou talvez se tratar de um redemoinho que formava um funil no solo e arrastava tudo para seu interior. Nesse caso, não se encontrariam na superfície de um disco, mas nas paredes internas de um funil. Everson sabia que esse fenômeno podia dar-se num mar tangido pela tempestade. Porém ali não havia condições para tal ocorrência.
Não haveria mesmo? Será que aquilo não representava um jogo das forças terríveis, aquelas mesmas forças que “brincaram” com Bellinger? Será que os invisíveis estavam desferindo seu golpe final, que destruiria os audaciosos terranos?
Em meio ao caos, não encontraria resposta a estas perguntas. Se não fosse o traje protetor, já teria morrido sufocado. Caso realmente se encontrasse na parede interna de um funil, o movimento giratório o levaria, numa série de amplas espirais, ao núcleo inferior e central do mesmo, de onde seria expelido.
Seu corpo estava quase coberto pela areia.
A dor na nuca transformara-se numa pressão surda. Embora não passasse de um joguete dos elementos, não parou de lutar contra aquelas estranhas forças. Perdeu por completo a noção do tempo. Em seus ouvidos havia um ruído igual ao de uma queda de água. Cerrou os dentes. Um objeto duro bateu em seu ombro. Estendeu a mão e conseguiu segurá-lo.
Provavelmente era uma peça de equipamento que também estava sendo tangida pelo solo. Everson não era nenhum jovem, e o esforço continuo deixou-o cada vez mais exausto. Agarrou-se a uma caixa quadrada, como se esta lhe pudesse dar novas forças. De repente levou uma pancada no capacete. Raios coloridos começaram a dançar diante de seus olhos. Ainda percebeu que estava sendo tangido cada vez mais depressa. Depois, teve a impressão de sofrer uma queda no escuro.

* * *

Uma mulher gordinha estava dobrando peças de roupa branca. Fazia-o com o maior cuidado, e suas mãos alisavam o tecido.
Está recuperando os sentidos — disse uma voz.
Marcus Everson abriu os olhos. Sentiu-se ofuscado por uma forte luz. A mulher transformou-se no Dr. Morton, que manipulava as ataduras e, vez por outra, sacudia fortemente o coronel. Depois de algumas tentativas, Everson acostumou-se à luz do sol. Conseguiu ficar com os olhos abertos.
Estava estendido na areia. Em torno dele, os outros membros da expedição estavam sentados, deitados ou de pé na areia. Seus trajes pareciam bastante estragados. Everson teve a impressão de que seu aspecto também não devia ser dos melhores.
Levantou a cabeça, mas logo interrompeu o movimento, pois uma dor penetrante percorreu sua nuca. Aos poucos foi recuperando a memória.
Everson tentou erguer-se, com maior cuidado.
A expedição — ou melhor, aquilo que restava da expressão — estava numa depressão, em meio ao deserto.
Tudo O.K.? — conseguiu perguntar Everson com grande esforço.
Com exceção dos ferimentos, tudo bem — respondeu o Dr. Morton. — As barracas e grande parte do equipamento desapareceram.
Enrolou uma atadura. O visor do capacete estava tão sujo que mal se conseguia distinguir o rosto barbado.
Quase todos os medicamentos se foram — disse em tom queixoso.
Everson teve de pensar num homem que, em meio a uma explosão nuclear, se queixasse da perda da obturação de um dente.
Onde está Napoleão? — perguntou.
Morton fitou-o.
Também desapareceu — disse em tom contrariado. — Sternal e Weiss já cavaram a areia, mas não o encontraram.
O coronel quis olhar para o relógio, mas constatou que este também se transformara numa vítima da tormenta. O Dr. Morton acompanhara a direção do olhar de Everson.
Há uma hora começou a clarear... — falou reticencioso — ...e estávamos no centro de um belo torvelinho. Até agora vemos os sinais da catástrofe.
O estado da pequena tropa era péssimo, mas poderia ser bem pior. Landis estava limpando a poeira e a areia que penetraram no rádio, o que provava que ainda estariam em condições de falar com a México. Era bem verdade que, face ao desaparecimento do velho green, a procura da torre se transformara numa empresa arriscadíssima.
Poderiam marchar em qualquer direção, pois não havia a menor indicação do rumo que deveriam tomar para chegar ao legendário edifício. Poderiam sair em grupos separados, espalhando-se para todos os lados, mas à medida que se afastassem do centro, a distância entre os grupos aumentaria e, com isso, correriam o risco de não verem a torre.
A depressão era oval. No lugar mais largo chegava a medir 120 metros, e no mais estreito, 70. Suas paredes laterais descreviam um ângulo de cerca de 30 graus e subiam numa altura de menos de três metros, até atingirem a superfície do deserto. Evidentemente essas paredes eram irregulares. Porém em nenhum lugar, eram tão baixas que alguém pudesse deixar de notá-las.
Finalmente, Everson ergueu-se de vez. Ainda estava um pouco entrevado, mas conseguiu andar. Sentia a cabeça dolorida. Passou mancando por Landis e esboçou um sorriso animador. A cada passo que dava, uma agulha incandescente vinda de baixo parecia perfurar sua nuca. Depois de ter percorrido vinte metros, pareciam ser dez agulhas.
Everson ficou refletindo sobre como poderia percorrer vários quilômetros no estado em que se encontrava. Esperava que o Dr. Morton tivesse algum analgésico. O suor começou a porejar por todo o corpo. Não desistiu. Acabou atingindo um lugar onde a parede da depressão parecia ser mais baixa e menos íngreme. Dobrou os joelhos e ouviu as juntas estalarem. Deixou-se cair lentamente para a frente e aparou a queda com as mãos.
Eu o apoiarei — disse uma voz saída de seu receptor de capacete.
Everson virou a cabeça e viu que Poul Weiss se encontrava atrás dele. Com uma agilidade de esportista, o biólogo colocou-se a seu lado.
Faça de conta que sou uma escada — disse Weiss.
Enlaçou as mãos, para que Everson pudesse apoiar o pé nas mesmas. Everson era um homem grande e pesava mais de noventa quilos. Weiss dobrou ligeiramente os joelhos quando teve de sustentar todo o peso de Weiss. Apesar disso, a altura não foi suficiente para que Everson pudesse olhar para longe.
Suba no meu ombro — sugeriu Weiss.
Everson esforçou-se para não decepcionar aquele homem tão disposto a prestar-lhe ajuda. Conseguiu subir. Uma vez sobre os ombros de Weiss, sentiu-se tão esgotado pelas dores e pelo esforço físico que teve de fechar os olhos por um instante.
Está vendo alguma coisa, Sir, — perguntou a escada viva.
Everson fez um grande esforço. De início só viu a areia e o ar tremeluzente. Mas quando virou a cabeça um pouco para o lado, viu outra coisa.
Piscou os olhos e voltou a fitar o interior da depressão para, num segundo golpe de vista, excluir a possibilidade da ocorrência de uma miragem.
Weiss balançou um pouco, e Everson teve de segurar-se.
Está vendo alguma coisa? — repetiu Weiss em tom impaciente.
Estou — disse Everson muito devagar.
Depois de uma pausa destinada a ressaltar a extensão do milagre, acrescentou em tom seco:
Estou vendo a torre!
Weiss soltou uma exclamação de surpresa e quase deixou cair a carga que pesava sobre seus ombros.
Cuidado! — disse Everson.
A torre que, segundo as informações de Napoleão, só iriam atingir dentro de mais dois dias, estava bem à sua frente. Só havia duas possibilidades. A informação do green era falsa, ou então o furacão que soprara, durante a noite, os tangera misteriosamente para perto da torre. Everson achou que a última alternativa era menos plausível.
O edifício que se estendia em direção ao céu de Moluque era imponente. À primeira vista, parecia estranho e apavorante. Em hipótese alguma poderia ter sido construído pelos greens. Erguia-se uns cento e cinqüenta metros acima do solo. Pelo que Everson pôde constatar, seu formato era oitavado. O impacto contínuo das tempestades e dos furacões causara-lhe uma ligeira inclinação. Por certo, os sólidos e profundos alicerces evitaram seu desmoronamento.
Há algum tempo, cuja extensão não poderia ser calculada, o vento, a areia, o frio e o calor haviam corroído a torre. Estava coberta por uma camada verde-cinzenta. Em alguns lugares apareciam fendas de mais de dez centímetros de largura, que pareciam filigranas de vários metros de comprimento a enfeitarem a superfície da construção. Aquele edifício parecia exalar um sopro de infinito abandono. Everson teve a impressão de que era o monumento de um gigante há muito esquecido, que quisesse deixar gravada sua presença na memória dos seres nativos. Fosse quem fosse o idealizador de tal construção, uma coisa era certa: o arquiteto não era natural de Moluque.
6



Everson desceu, ainda um tanto perplexo com a estranha visão. Se é que já vira um rosto curioso, este rosto era o de Weiss naquele momento. Absteve-se de qualquer observação apressada.
Acompanhe-me para junto dos outros — disse, dirigindo-se ao biólogo. — Não quero contar duas vezes a mesma coisa.
Weiss demonstrou seu desapontamento por meio de um pontapé na areia e acompanhou o comandante. Os astronautas haviam acompanhado tudo e sentiam-se muito curiosos.
Encontramos a torre — principiou Everson laconicamente e relatou em palavras ligeiras o que acabara de descobrir.
O que vamos fazer, Sir? — perguntou Bellinger, cujo corpo era o que mais devia ter sofrido na noite anterior.
Iremos até lá e a examinaremos. Mas, antes disso, vamos verificar se Landis já está em condições de entrar em contato com a México. Não sabemos o que nos espera, e não podemos dispensar a cobertura de retaguarda.
O senhor pode falar com a México quando quiser — anunciou Landis.
Num gesto quase carinhoso passou a mão pelo aparelho. Algumas peças eram mantidas presas pelo material retirado das caixas de ataduras do Dr. Morton. Everson fez questão de não ver esse tipo de improvisação.
Está bem — disse o coronel com um olhar desconfiado para a obra de Landis. — Não custa tentar.
Contrariando sua previsão, o operador de rádio levou apenas dois minutos para estabelecer a ligação com a México. Scoobey informou que a espaçonave também fora atingida pela tormenta, mas não havia sofrido nenhum dano. O trabalho dos técnicos progredia bem. O primeiro-oficial acreditava que os reparos só consumiriam alguns dias. Neste ponto, o pessimismo inicial se revelara falso.
Scoobey obteve minuciosas informações sobre a situação da expedição. O rádio fazia com que, se necessário, os homens da nave pudessem encontrar a expedição, independentemente de um aparelho emissor de raios vetores ou da indicação de sua posição.
O coronel concluiu com as seguintes palavras:
Não há a menor dúvida de que por aqui existem forças que se mostrarão infinitamente superiores a nós, caso resolverem agir seriamente. Reunirei alguns homens e procurarei entrar na torre. É possível que lá encontremos outros elementos.
Nos minutos que se seguiram, Everson submeteu-se ao tratamento do Dr. Morton. O médico conseguiu reduzir as dores o suficiente para que o comandante pudesse andar normalmente.
Iremos para junto da torre — disse Everson, explicando a ação que pretendia desenvolver. — Bellinger, Goldstein, Weiss, Sternal e eu faremos o possível para penetrar no interior da construção. Combinaremos com os outros um tempo limite para estarmos de volta.
Constatou-se que os astronautas haviam superado relativamente bem os terríveis acontecimentos da noite anterior. Ajudaram-se mutuamente para sair da depressão.
Quando o imenso edifício surgiu à sua frente, Everson teve de esforçar-se para interromper a discussão que iria ter início.
A trinta metros do destino, Bellinger parou de repente. Apontou para o chão.
São rastros, Sir — disse.
Everson colocou-se a seu lado. O tenente não se enganara. Meio encobertas pela areia tangida pelo vento, as impressões de pés largos, de quatro dedos, desenhavam-se à sua frente. Só havia uma pessoa que poderia ter produzido essas impressões.
Era Napoleão!
Acontece que o green desaparecera. Não havia a menor dúvida sobre a direção da pista. Os rastros iam até a misteriosa construção.
Será que Napoleão fora raptado, ou teria ido voluntariamente? Onde estaria naquele momento?
Everson não soube responder a essas perguntas. E sua perplexidade deveria aumentar ainda mais, instantes depois.
Olhe a torre, Sir! — exclamou Landis.
O que aconteceu com ela? — perguntou o coronel.
A resposta do operador de rádio esclareceu um mistério, mas trouxe muitos outros. A afirmação de Landis foi tão patente, e de tamanha simplicidade, que todos espantaram-se por não terem dado com a mesma.
É uma espaçonave — disse Landis.

* * *

Não se precisava desenvolver muita fantasia para acrescentar outras conclusões à que acabava de ser enunciada. Tratava-se de uma nave que sofrerá um acidente. Mesmo que parte dela estivesse enterrada no solo, não era muito grande para os padrões terranos. A distância entre o piso inferior e superior devia ser de um pouco mais de quarenta metros. É claro que o veículo espacial ou seus construtores poderiam ser subestimados. A periculosidade não tinha nada a ver com o tamanho do engenho. Se a nave era a dos deformadores de moléculas, mencionada nas anotações de Mataal, suas dimensões não tinham a menor importância.
É verdade — disse Everson depois de algum tempo.
À medida que se aproximavam, perceberam outros detalhes. O envoltório externo estava coberto por uma fina crosta de areia. Em vários lugares, a cor preta sobressaía sob a camada cinza-verde. A pista de Napoleão contornava o veículo espacial. Por mais que refletisse, Everson não conseguiu compreender que ligação o green teria com os acontecimentos.
Do lado oposto encontraram uma abertura. Era redonda, tinha um diâmetro pouco inferior a dois metros e ficava à altura dos joelhos. Atrás dela reinava uma escuridão que nem mesmo os raios do sol, que penetravam obliquamente pela abertura, conseguiam desfazer o bastante para que se pudesse reconhecer qualquer coisa.
Conseguiu captar algum impulso mental ou modelo de pensamento? — perguntou Everson, dirigindo-se ao mutante.
Não senhor — respondeu Goldstein. — Não encontrei o menor sinal de vida.
Minhas ordens são claras — disse o coronel. — Se dentro de uma hora Samy, Sternal, Weiss e o tenente não tiverem saído, avise a México. Em hipótese alguma siga-nos, Landis.
Não perdeu mais tempo. Atravessou a abertura.
De início teve a impressão de que uma lufada de ar frio passara pelo seu rosto. Mas, evidentemente, era apenas sua imaginação, pois o capacete estava fechado. Olhou para trás e viu uma das pernas de Weiss.
No mesmo instante, foi atingido por um movimento de sucção, que o arrastou para cima.
Turbilhonava que nem um pedaço de papel numa chaminé. Felizmente não bateu em lugar nenhum. Num movimento instintivo, moveu as mãos pela escuridão, à procura de um lugar em que pudesse agarrar-se.
Naturalmente não se tratava de nenhum movimento de sucção, mas apenas de um campo energético de pólo invertido que eliminara a gravidade. E a tensão magnética arrastava-o para cima. Essas reflexões foram surgindo lentamente no cérebro de Everson, e este sabia que havia outras possibilidades. Talvez forças paramecânicas estivessem agindo sobre ele. Era uma sensação nada agradável.
Subitamente sentiu um ligeiro solavanco e foi empurrado para o lado. No mesmo instante, surgiu-lhe o chão firme. A gravitação normal fora restabelecida.
O coronel viu-se no interior de uma sala de quatro metros por oito, bem iluminada. De onde vinha tal luz? A cor das paredes era indefinível. O chão e o teto, brancos. O astronauta olhou em torno e viu uma abertura quadrática na parede. O recinto estava completamente vazio, com exceção de um objeto estranho que se encontrava diante dos pés de Everson.
O objeto lembrava uma roda dupla. Dois aros, que se encontravam a uns quarenta centímetros de distância, estavam ligados por várias hastes. Antes que Everson tivesse tempo para examiná-lo, alguém esbarrou em suas costas.
Estremeceu, mas viu que era apenas Weiss que tropeçara ao sair do poço.
Cá estamos — disse, proferindo uma evidente redundância. — É um meio de transporte rápido e confortável, não acha?
Everson não conseguiu compartilhar desse entusiasmo. E Sternal, Bellinger e Goldstein, que apareceram logo depois, também não pareciam muito satisfeitos com a recepção que lhes fora proporcionada.
Pronto! — disse Bellinger. — A ratoeira fechou-se atrás de nós.
O que é isso? — perguntou Sternal, apontando para a roda dupla.
Pode ser qualquer coisa — disse o tenente e abaixou-se para examinar o objeto de perto.
Tateou-a e tentou sacudi-la, mas a roda permaneceu imóvel.
Psssum! — fez alguma coisa nos seus receptores.
O poço! — gritou Goldstein. — Onde está?
A abertura pela qual haviam vindo parecia ter-se dissolvido. Em torno deles, só havia paredes inteiriças.
Tolice — disse Everson em tom tranqüilizador. — Alguém fechou a entrada.
Suas palavras provocaram um resultado contrário ao pretendido. Os homens começaram a berrar ao mesmo tempo e a tatear febrilmente a parede, à procura do poço. Everson compreendia perfeitamente que não gostavam de ficar presos, mas dessa forma nunca recuperaria a liberdade.
Parem! — gritou. — Isso não adianta.
Será que esses fenômenos não foram provocados por seres vivos, mas sim por uma máquina, que continuava em funcionamento e que fora programada para tomar automaticamente as medidas adequadas, assim que uma criatura estranha penetrasse na nave?
Nossas intenções são pacíficas — gritou Everson. — Viemos para negociar.
Esperou, mas não obteve resposta. Qualquer inteligência desconhecida deveria supor que estava conversando com seus companheiros.
A roda que se encontrava à frente deles entrou em incandescência. Sua cor passou para o amarelo-escuro. Everson inclinou-se sobre a mesma. A temperatura marcada por seu termômetro de pulso permaneceu nos 43 graus. De repente, o coronel teve a impressão de que estava olhando para um espelho. Sentiu uma tontura. Não queria desprender-se da visão que, tinha diante de si. Seus lábios abriram-se para soltar um grito de advertência, mas as cordas vocais recusaram-se a obedecer. O quadro observado era tridimensional. Enquanto cerrava os olhos, para ver os detalhes, a miragem foi-se aproximando. Uma sala gigantesca estendia-se à sua frente.
De súbito, ouviu uma voz forte, que rugiu em seu receptor que nem uma trovoada:
O que estão procurando aqui?
Até que Everson se desse conta de que essas palavras haviam sido pronunciadas por Samy Goldstein, passou-se algum tempo. Fez um esforço desesperado para libertar-se do poder quase hipnótico do estranho quadro que tinha diante de si. Seu corpo estava coberto de suor. Goldstein pendia frouxamente nos braços de Bellinger. Ao que parecia, estava inconsciente.
De repente, desmaiou — informou Weiss.
Alguém me formulou uma pergunta por intermédio dele — disse Everson em tom enfático.
Não compreendo — disse o biólogo, perplexo. — O que quer dizer com isso?
Os rostos preocupados de Bellinger e Sternal convenceram o coronel de que só ele ouvira a voz do mutante... em seu cérebro. Não era telepata nem possuía outros dons paranormais.
Dali só se podia concluir que o estranho objeto, sobre o qual se inclinara, fizera a pergunta chegar à sua consciência...
Do lado oposto da sala, uma abertura surgiu na parede, com o que se tornou dispensável qualquer resposta de Everson. Contornaram a roda. Bellinger arrastava cuidadosamente o corpo de Goldstein. Saíram todos da sala em que se encontravam, passando pela abertura de, aproximadamente, um metro e oitenta. Viram-se num corredor estreito.
Notaram que alguma coisa se mexera no fim do corredor. Everson esforçou-se para enxergar melhor. Uma figura fina, de aparência quebradiça, foi-se aproximando. Mantiveram-se na expectativa. A criatura foi-se aproximando, muito embora se tivesse a impressão de que a cada passo dado, iria partir-se.
Era Napoleão!

* * *

O green continuou a caminhar em sua direção. O aparelho de comunicação permanecia pendurado em seu pescoço. Sob a estranha iluminação do corredor, a cabeça de abóbora enrugada era ainda mais feia. Todo sofrimento do planeta parecia ter-se gravado nesse rosto velhíssimo.
Se Napoleão tivesse aparecido no restaurante do Hotel Waldorf Astória, a clientela refinada não teria ficado mais surpresa do que, naquele momento, Everson e seus companheiros se sentiram. Naturalmente, o green poderia ter chegado a esse lugar pelo mesmo caminho que os astronautas praticamente foram obrigados a tomar. Everson refletia febrilmente. O mais simples seria interrogar o nativo. Antes que o coronel tivesse tempo para isso, a voz de Napoleão soou em seus alto-falantes de capacete.
Achei preferível apresentar-me aos senhores sob a forma que já lhes é conhecida — disse com a voz firme. — Para que chocar ainda mais seus nervos já arrasados?
O que está dizendo? — gaguejou Everson.
Será que o green enlouquecera, ou estaria sujeito a uma influência hipnótica? Estaria sendo usado como instrumento por alguém?
Um braço estendido com a pistola de choque surgiu no campo de visão de Everson. O braço pertencia a Weiss, cujo rosto furioso aparecia sob a lâmina do visor de seu capacete. O comandante da México empurrou a mão do biólogo para o lado.
Esse jovem está um tanto exaltado — disse Napoleão, ou fosse lá quem fosse aquela criatura, em tom complacente. — Não devemos condená-lo por isso. A propósito, os senhores podem tirar os desconfortáveis trajes protetores, cavalheiros. O ar a bordo desta nave lhes parecerá muito agradável.
Cruzou os braços sobre o peito, bateu um pouco com a boca em forma de bico e prosseguiu muito satisfeito:
Além disso, os senhores terão de acostumar-se à atmosfera deste planeta, pois nunca mais sairão daqui.
Agora o próprio Everson tirou a arma térmica e apontou-a para o peito do velho.
Quem disse isso? — perguntou o coronel.
Napoleão fez um gesto de indiferença. Não se sabia por quê, mas a debilidade e a senilidade o haviam abandonado.
Para mim, o fato de ser ameaçado de arma em punho nem de longe representa um perigo. Se resolver disparar, posso fazer muitas coisas diferentes. Posso desaparecer, absorver a energia e fazê-la refluir, destruir a arma, paralisar sua mão, criar uma barreira entre nós ou fazer o senhor explodir. São apenas algumas das possibilidades. Lembre-se de Bellinger ou do furacão, e há de reconhecer que essa arma não me pode causar a menor preocupação.
A busca não fora em vão. Haviam encontrado os seres cujo auxílio Perry Rhodan pretendia obter. A essa hora, já se sabia que Napoleão era um deformador de moléculas. Não poderia imaginar que os homens que se encontravam à sua frente, com exceção do Tenente Bellinger, já haviam tido suas experiências com outro membro de sua raça.
Não pensem que eu os considero como inimigos — asseverou Napoleão. — Para mim, não passam de um meio de atingir determinado objetivo. O tremendo acaso que os fez pousar neste planeta representará minha salvação. Queiram acompanhar-me, cavalheiros!
Fez um movimento com a mão. Na parede surgiu uma abertura suficientemente larga para dar passagem a um homem. Goldstein continuava inconsciente. Na sala em que penetraram, a iluminação era mais agradável.
Acho que os senhores preferem sentar-se confortavelmente — disse o green... ou melhor, o deformador de moléculas.
Cinco poltronas materializaram-se à sua frente. Napoleão fez um gesto convidativo.
Se desejarem, posso modificar o formato destas poltronas. Basta dizer qual é o tipo preferido. Quanto a mim, prefiro ficar de pé.
O espetáculo foi encenado com a única finalidade de deixá-los perplexos e intimidá-los. Everson resolveu não capitular diante de uma série de impressões óticas. Antes de mais nada, as posições teriam que ser definidas.
Os trajes protetores — lembrou Napoleão em tom amável.

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