Murgut
levou-os para a rua. A tempestade amainara.
A
perspectiva de ganhar um presente parecia servir de estímulo ao
green. Suas longas pernas caminhavam tão rapidamente que, só com
muito esforço, os astronautas conseguiram acompanhá-lo. O sol, que
antes estivera encoberto pelas nuvens de pó, dardejava seus raios
com toda força. Everson lançou um olhar para o termômetro de pulso
e verificou que a temperatura já era bem superior a quarenta graus.
Na
periferia da aldeia, isto é, bem distante da México, os homens
viram pela primeira vez construções alongadas que, ao contrário
das residências, tinham um aspecto moderno.
— São
nossas fábricas e pavilhões de criação — disse Murgut
prontamente, respondendo a uma pergunta do comandante.
Ouviram um
chiado retumbante e batidas. Uma fumaça azulada saía das aberturas
existentes nos telhados.
— Estamos
fazendo experiências com ar aquecido — explicou Murgut em tom
orgulhoso. — Uma vez comprimido, pode ter várias utilizações.
— Estão
inventando a máquina a vapor — disse Weiss em tom de espanto. —
Pelo que se conclui dos ruídos, os primeiros modelos não ficam a
dever nada ao engenho de James Watt.
Uma
explosão fez com que se calassem.
— É
claro que às vezes há um contratempo — disse Murgut com a voz
deprimida.
Everson
imaginava que, a essa hora, um grupo de greens decepcionados devia
estar fitando o produto de um trabalho persistente, que acabara de
ser destruído. Apesar disso, voltariam a tentar, da mesma forma que
a Humanidade sempre o fizera. O desenvolvimento de um povo depende da
obstinação com que este age. Isso se aplicava tanto à invenção
de uma máquina a vapor, como na criação de uma astronáutica
altamente desenvolvida.
Atrás das
fábricas estendia-se uma espécie de plantação. Vários greens
estavam trabalhando no campo. Ao lado das instalações, ficava um
iglu solitário, bastante arruinado. Não exibia o branco reluzente
das outras construções.
— Chegamos
— disse Murgut. — Aqui mora Npln.
— Napoleão
— disse o Dr. Morton, interpretando a palavra pronunciada por
Murgut. — Até mesmo na periferia do centro galáctico seu nome
continua vivo!
Em alguma
época passada, houvera um antepassado do Dr. Morton em cujas veias
corria o sangue real francês. E a tendência do médico, de
ressaltar esse fato em qualquer oportunidade, não recuava diante de
nada. Contemplou a choupana em ruínas com tamanho enlevo que até
parecia ver diante de seus olhos o palácio de Luís XIV.
Passaram
por uma trilha estreita que passava junto aos campos de cultura. Os
greens interromperam o trabalho e fitaram-nos. Murgut fez um gesto
tranqüilizador.
Quando
chegaram à residência de “Napoleão”,
Murgut pediu que esperassem.
— Npln é
um velho rabugento — disse a título de desculpa. — Quase sempre
está dormindo. Costuma ficar zangado quando é acordado. Quero
prepará-lo para a visita.
— O
senhor acredita que o velho que deve residir aqui poderá ajudar-nos,
Sir? — perguntou Weiss em tom de desconfiança. — Com todo
respeito que tenho pelo seu pomposo nome — lançou um olhar irônico
para o Dr. Morton — sou de opinião que aqui dificilmente
encontraremos quem nos apóie.
Antes que
o coronel tivesse tempo de responder, Murgut voltou.
— Está
de mau humor — disse em tom desanimado. — Tive de prometer-lhe
muitos presentes para que concordasse em recebê-los.
Entraram
por uma porta cujo batente começava a despedaçar-se. Tiveram de
acostumar-se à penumbra que reinava no interior da casa. Everson
sentiu-se satisfeito ao perceber que o mau cheiro não era tão
intenso.
Npln
estava sentado num dos cantos da sala.
Sempre era
difícil avaliar corretamente a idade de um ser pertencente a uma
raça estranha. Mas não havia dúvida de que o green que estava
sentado no chão era alto.
Sua pele
verde estava cheia de rugas. Era tão fino que lembrava uma armação
de arame coberta de papel. Seu rosto era murcho e encovado, e os
olhos inflamados, negros como pedaços de carvão, brilhavam no
interior das covas profundas.
Ao que
parecia, não estava muito impressionado com a aparição de seres
dos quais nunca vira nem ouvira nada.
— São
feios — resmungou, dirigindo-se a Murgut. — Gordos e feios.
Especialmente aquele ali.
Um braço
magro apontou para o Dr. Morton, que naquele momento bem que gostaria
de trocar seu sangue real francês pelo de um guerrilheiro irlandês.
— Lamentamos
profundamente que nosso aspecto lhe cause desagrado, Napoleão —
asseverou Everson. — Mas nossos ricos presentes o recompensarão
por essa visão lamentosa.
Napoleão
soltou um arroto... de satisfação ou contrariedade, quem seria
capaz de dizer?
Everson
recorreu ao truque psicológico mais antigo, e que, mesmo nesses
dias, ainda era o mais eficiente. Bajulou o velho, para satisfazer
sua vaidade.
— Viemos
à presença do homem mais valente desta aldeia, pois precisamos do
seu auxílio — disse. — Todos têm o maior apreço pela sua
experiência.
— Todo
mundo me odeia — grasnou Napoleão em tom contrariado. — Sou um
trambolho para todos. Um esquisitão velho que não serve para nada.
— Estamos
à procura de um guia para uma expedição ao deserto — disse
Everson, indo diretamente ao assunto. — Ninguém tem coragem de
acompanhar-nos. Que tal você, amigo?
O velho
soltou um assobio estridente. Fitou-os com uma expressão de
sagacidade.
— O mal
em sua própria essência — disse em tom matreiro. — Sou o único
que se arrisca a andar por aqueles lados. Conheço a terra. Coisas
estranhas costumam acontecer por lá. Lá existe uma torre habitada
por demônios.
— Uma
torre? — perguntou Weiss em tom nervoso. — Como é ela?
Com um
gesto da mão Napoleão procurou indicar os contornos do edifício.
— É
forte e enorme. Nem mesmo o furacão mais forte pode fazer-lhe
qualquer coisa.
— Você
poderia levar-nos para lá? — perguntou Everson em tom insistente.
— Vocês
terão de carregar-me — disse Napoleão. — Sou tão velho e fraco
que não posso andar por muito tempo. Dessa forma, eu os levarei a
qualquer lugar situado nesse inferno.
Everson
sentiu alguém puxar a manga de seu traje protetor. Virou a cabeça e
fitou o rosto assustado de Murgut.
— Será
que posso receber os presentes antes do início da expedição? —
perguntou em tom preocupado.
Essa
pergunta não era difícil de compreender.
Murgut
tinha certeza de que Napoleão levaria os homens para o deserto.
Mas não
os traria de volta!
4
O Coronel
Marcus Everson escolhera trinta homens, que partiram há três horas,
sob seu comando. Walt Scoobey foi investido no comando da México. O
primeiro-oficial devia apressar os reparos, guardando todas as
cautelas, e concluí-los até o regresso de Everson. A expedição
levava aparelhos de radiofonia de grande alcance, a fim de manter
contato ininterrupto com a nave. Todos os astronautas estavam
fortemente armados e envergavam trajes protetores.
Dois robôs
carregaram Napoleão numa maça especialmente feita para o
transporte. A estranha trinca abria o cortejo. O coronel fez questão
de levar uma boa provisão de alimentos concentrados, cápsulas de
água e comprimidos de vitaminas. O Dr. Morton era uma verdadeira
enfermaria ambulante.
Para as
condições locais, o tempo era bastante calmo. Ainda era cedo, e a
temperatura era perfeitamente suportável.
Segundo as
indicações de Napoleão, levariam três dias e três noites de
Moluque, para avistarem a misteriosa torre. Várias opiniões foram
manifestadas sobre o assunto. Antes da partida, Scoobey opinara que
essa construção só existia na fantasia do velho green.
Everson
ouvira todas as objeções, mas não se deixara demover do seu
intento.
Caminhavam
pela crista de uma duna alongada, igual a muitas outras. Everson
vinha logo atrás dos robôs e de Napoleão, ladeado por Weiss,
Bellinger e Goldstein. Sternal, Landis e o Dr. Morton iam na
retaguarda.
— Sir! —
disse Goldstein, colocando-se ao lado de Everson. — À medida que
nos afastamos da México, minha capacidade de captar impulsos mentais
aumenta.
— Não
se esqueça de que também nos estamos afastando da aldeia de
nativos. A pressão mental dos greens está diminuindo.
— É
estranho! — disse o mutante em tom pensativo. — O senhor deve
estar lembrado de que Murgut me deu muito trabalho. Acontece que
Napoleão não exerce a menor interferência na minha faculdade.
— Hum —
fez o coronel. — Talvez já seja muito velho e não disponha das
mesmas forças que os outros greens.
A palestra
foi interrompida por um grito que ressoou nos alto-falantes dos
capacetes. Pararam. Pentsteven, o astrônomo, correu para a frente.
Seus pés levantavam nuvenzinhas de pó. O rosto do jovem estava
pálido. Nem mesmo a lâmina do visor conseguia ocultar essa palidez.
— É
nosso novato! — exclamou Weiss em tom de desprezo. — Deve ter
areia nos sapatos e não sabe como tirá-la.
Pentsteven
parou à frente de Everson. Sua respiração era ofegante, e a fala,
entrecortada.
— O
receptor de raios goniométricos desapareceu — disse fungando.
O aparelho
servia para captar o raio vetor irradiado pela México. Os impulsos,
que eram registrados, constituíam um bom meio de orientação. O
transporte do aparelho fora confiado ao astrônomo.
— O quê?
— gritou Everson. — O que está dizendo?
— Desapareceu
— repetiu Pentsteven em tom queixoso.
— O
senhor quer dizer que o perdeu! — disse Everson em tom penetrante.
— Faça o favor de refletir um pouco, meu filho. Não estou
gostando da sua negligência.
O
astrônomo virou o rosto desolado para Weiss, mas o biólogo não lhe
deu nenhum apoio.
— Sir,
tenho certeza absoluta de que há alguns minutos ainda o tinha
comigo. Controlava constantemente as correias que o prendiam ao
cinto. De repente notei que o peso do aparelho estava diminuindo.
Quando olhei, ele havia desaparecido.
— Será
que o senhor quer nos fazer acreditar em milagres? — perguntou o
comandante. — A negligência é um pecado grave. Mas se alguém
tenta desculpar-se mentindo, esse alguém torna-se indigno de ser um
cidadão astronauta do Império Solar.
— O que
aconteceu? — perguntou Napoleão. Haviam pendurado um microfone e
um alto-falante em seu pescoço, para que os astronautas não fossem
obrigados a abrir o capacete toda vez que queriam falar com ele.
Everson
explicou o acontecimento por alto.
— Os
demônios do deserto carregaram o aparelho — afirmou o velho. —
Este homem é inocente.
Everson
não estava inclinado a acreditar na conversa de Napoleão.
— Volte
ao seu lugar — disse, dirigindo-se a Pentsteven. — Tenho vontade
de mandá-lo de volta.
— Sim
senhor — disse Pentsteven num cochicho quase inaudível.
— Vamos
andando — ordenou o coronel.
Não
acreditou nem em Pentsteven, nem no nativo... até que acontecesse
uma coisa com Edward Bellinger.
*
* *
Edward
Bellinger tinha um metro e noventa e sete centímetros de altura e
pesava duzentos e dez quilos. Movia o corpo com a elegância de uma
marmota, que, por um infeliz acaso tivesse sido colocada sobre uma
superfície lisa de gelo. Nas atividades esportivas da Academia
Espacial, Bellinger sempre ocupara uma posição de destaque na luta
romana e no halterofilismo, mas sempre costumara ser derrotado no
judô.
Um estudo
caracterológico da cabeça de Bellinger estaria condenado ao
fracasso, pois a camada de gordura que revestia suas faces podia ser
esticada, enrugada, ou puxada para os lados à vontade. Bellinger
chegara a tornar-se mestre nessa faculdade extraordinária.
Encontrara muitos imitadores, mas nenhum concorrente de verdade. Com
a idade de 36 anos, o tenente chegara a um ponto em que podia mover
as orelhas num ângulo de trinta graus!
O sol a
pino refletia-se nas costas polidas dos dois robôs, e só o efeito
anti-ofuscante dos visores evitava que os reflexos luminosos
perturbassem os homens. Para Bellinger, o fato de que ele, um
astronauta, tinha de andar a pé pelo deserto, era uma verdadeira
ofensa.
— Por
que a México não trouxera nenhum dos veículos versáteis da frota
espacial? — perguntou-se, em voz baixa.
Subitamente,
o sangue parecia congelar nas veias do Tenente Edward Bellinger. Seus
companheiros pareciam tornar-se cada vez maiores. Prendeu a
respiração e um medo terrível cingiu-lhe a garganta.
O fenômeno
continuou. Os robôs, o green, Everson, Weiss e os outros começaram
a crescer e esticar-se.
Bellinger
quis gritar, mas a garganta fechada recusava-se a obedecer. Pensou
que iria enlouquecer. Seu cérebro transformou-se num feixe
trepidante de pensamentos confusos. Sua mente recusava-se a aceitar a
terrível realidade.
No seu
subconsciente, deu-se conta de que o barulho que ouvia era o berreiro
dos astronautas que o cercavam. Para o tenente, eles se haviam
transformado em monstros enormes, em super-homens ou colossos. Até
os grãos de areia eram maiores.
Sentiu-se
paralisado pelo pavor. Ouviu que estava soluçando que nem uma
criança. Acreditava que iria enlouquecer a qualquer momento. Até
fazia votos de que isso acontecesse, pois parecia ser a única
salvação.
Mas não
enlouqueceu. Apenas reconheceu a realidade:
Os outros
não haviam crescido.
Fora ele
que mudara.
Encolhera-se
e estava reduzido ao tamanho de um anão.
Era tão
pequeno que receava ser pisado pelos outros.
Viu um
pequeno buraco na areia. Uma caverna! Correu em direção ao mesmo,
passando entre as pernas de um dos homens.
*
* *
Everson
foi o primeiro que venceu a rigidez causada pelo pavor. O
acontecimento inacreditável deixara-os estupefatos. O Tenente
Bellinger encolhera diante das vistas de todo mundo, até que
desapareceu na terra, quando tinha apenas quinze centímetros de
altura.
— Vamos
depressa! — ordenou o coronel. — Cavem a areia. Tenham cuidado
para não machucá-lo!
Caíram de
joelhos e começaram a cavar a areia com as mãos enluvadas.
— Olhe,
Sir! — gritou uma voz desfigurada pelo pavor.
Sternal
tremia e apontava para o deserto.
A vinte
metros do lugar em que cavavam, estava deitado um corpo imóvel. Era
o Tenente Bellinger! Em seu tamanho normal...
— É o
mal em sua própria essência — disse Napoleão num grito
estridente.
5
O
aprendizado na Academia Espacial de Terrânia era muito duro. E era
bom que fosse. Ali os homens — e em casos mais raros também as
mulheres — eram preparados para a vida no espaço cósmico.
Mostravam-lhes, com todo realismo, o que teriam de esperar lá fora.
Só os mais resistentes, corajosos e fortes passavam pelos exames. O
homem tinha de aprender a desprender-se das trilhas convencionais do
pensamento, pois as coisas que aconteciam entre as estrelas nem
sempre correspondiam às concepções tradicionais. Só mesmo um
espírito ágil, capaz de assimilar todas as novidades — tanto as
positivas quanto as negativas — poderia satisfazer aos padrões
exigidos.
Os homens
que correram pelo deserto, em direção ao lugar onde Bellinger
estava deitado, só eram capazes de lúcidas decisões, em virtude
desse aprendizado.
O tenente
abrira os olhos e esforçou-se para sorrir.
— Hematomas
e escoriações — constatou o Dr. Morton depois de um ligeiro
exame. — Um pequeno choque nervoso.
— Tolice!
— respondeu Bellinger em tom indignado. — Estou bem.
— Muito
bem — confirmou Weiss, depois de haverem cuidado do tenente. — E
agora?
Num gesto
instintivo, Everson pôs a mão para cima a fim de passá-la pela
testa. Porém as pontas dos dedos tocaram no capacete. Por alguns
segundos sentiu uma vontade quase irresistível de dar um beliscão
no braço, a fim de verificar se aquilo não era um sonho. Estava com
a boca ressequida e a dor de cabeça o martirizava.
— Ninguém
há de dizer que sofremos uma alucinação coletiva — disse com a
voz abafada. — O estado de Edward fala uma linguagem eloqüente.
Cada um de nós viu que, numa questão de segundos, esse homem
encolheu. A modificação foi proporcional, isto é, cada parte do
corpo foi afetada pelo processo em igual extensão. Até mesmo o
equipamento de Bellinger foi atingido. A estabilidade de uma
estrutura molecular é constante, mas só em sentido relativo. A
disposição das moléculas pode ser condensada e espalhada, sem que
o sistema sofra qualquer alteração. Talvez seja mais fácil
explicar o fenômeno por meio de uma fotografia. Pode-se fazer um
retrato muito pequeno e ampliá-lo de tal maneira que suas dimensões
atinjam proporções gigantescas. Apesar disso, ambas as fotos
mostrarão o mesmo corpo, a mesma substância material.
Um sorriso
débil surgiu em seu rosto.
— Nem
penso em oferecer uma explicação do incrível fenômeno a que
acabamos de assistir. Qualquer pessoa que tenha visto a demonstração
das faculdades de Mataal, no interior da nave girino, poderá
confirmar que um deformador molecular é capaz de superar a
estabilidade de uma estrutura de moléculas. Esses seres podem
modificar e reformular qualquer disposição de moléculas. Esse dom
representaria praticamente a mais potente das armas, se não
tivéssemos de admitir que até mesmo um deformador molecular esbarra
em certos limites...
— Quer
dizer que, em sua opinião, neste planeta existem seres dessa
espécie, Sir? — perguntou Landis, o operador de rádio.
— Tudo
indica que sim — respondeu Everson. — Suponho que os seres
pertencentes à raça de Mataal lançaram mão deste fenômeno para
mostrar que estão presentes. Talvez seja uma advertência. Quem
sabe? Até agora ninguém de nós foi morto. Este fato não constitui
necessariamente um indício das intenções pacatas dessas criaturas,
mas faz supor uma certa disposição de aceitar nossa presença até
determinado ponto. Só podemos fazer votos de que não demoremos a
travar um contato mais estreito com esse seres.
Fez um
sinal, e a coluna prosseguiu em sua marcha. Napoleão indicou a
direção em que teriam de caminhar. Goldstein disse que não
conseguia captar nenhum pensamento estranho.
Ao
anoitecer, Everson mandou que o grupo parasse. Sternal sugeriu que
tomassem comprimidos de neovitina e prosseguissem na marcha. Everson
não concordou. Deviam guardar as forças, e qualquer estímulo
artificial poderia produzir efeitos nocivos no futuro.
Landis
entrou em contato com a México. Scoobey comunicou que os trabalhos
de reparo estavam em pleno andamento e já mostravam os primeiros
resultados positivos. No decorrer da tarde, vários greens haviam
aparecido e permaneceram nas proximidades da nave. O Dr. Lewellyn
chegou à conclusão de que temiam a cólera dos habitantes do
deserto e procuravam a proteção dos estranhos. Murgut, que recebera
de presente um holofote, chegara mesmo a permanecer no interior da
nave.
Everson
preferiu não informar Scoobey sobre o que acontecera com Bellinger.
Não queria deixar o primeiro-oficial nervoso, pois isso poderia
prejudicar seu trabalho.
Depois do
jantar, Everson mandou montar as barracas, que eram feitas de
plástico muito leve e praticamente indestrutível.
Napoleão
recusou-se a dormir numa barraca. Cavou um buraco na areia, xingou os
dois robôs, cuja programação não incluía qualquer tipo de
conversação com os greens, e adormeceu momentos depois.
*
* *
De início
foi apenas um farfalhar como o do champanha borbulhante de um cálice
que acabava de ser cheio. Depois disso teve-se a impressão de que
eram inúmeros pés descalços de crianças que pisassem em
ladrilhos. Finalmente, ouviu-se um crepitar, como se alguém
remexesse ao longe a lenha de um forno quase apagado.
Everson
acordou sobressaltado do sono leve em que estava mergulhado. Pegou a
lâmpada e acendeu-a. Weiss e Goldstein, que compartilhavam a mesma
barraca, dormiam profundamente. O coronel olhou para o relógio e
constatou que a noite só havia começado há duas horas terranas.
Haviam tirado os capacetes, já que, apesar do pequeno teor de
oxigênio, o ar noturno era refrescante, fazendo com que Everson se
lembrasse das excursões pelas montanhas, realizadas na juventude.
Mas agora, que o sol se pusera há muito tempo, o ar parecia quente e
abafado.
Everson
abriu o tampo da barraca e olhou para fora. Uma lufada de ar quente
atingiu seu rosto. Grãozinhos de areia fustigaram sua pele. Agora já
conhecia a origem do ruído crepitante. Era o vento que carregava a
areia e a tangia contra a barraca.
O
comandante sacudiu os companheiros de barraca.
— Parece
que alguma coisa está para acontecer — disse. — Convém que nos
preparemos.
O coronel
não poderia imaginar que, em meio à natureza enfurecida, todos os
preparativos seriam inúteis.
Acordaram
os outros homens. Everson mandou que seus comandados firmassem
duplamente as barracas e voltassem a colocar os trajes protetores.
Napoleão
foi o único a criar problemas. O nativo estava quase completamente
coberto de areia e Weiss, que iria informá-lo sobre a situação,
por pouco não tropeça nele. O green brindou o biólogo com alguns
palavrões, sacudiu-se como um cão que acaba de sair da água e
acompanhou-o para as barracas, xingando sempre.
— Parece
que vamos ter uma tempestade de areia — disse Everson para dentro
do microfone de capacete, quando viu Napoleão à sua frente.
— É
claro que vamos ter uma tempestade de areia — respondeu Napoleão
com a voz irritada, levantando a cabeça de abóbora murcha contra o
vento.
— O que
devemos fazer? — perguntou o astronauta.
O nativo
começou a falar, usando um tom de desprezo.
— Vamos
esperar. Que mais poderíamos fazer?
Everson
resignou-se com a resposta. O ancião mais rabugento do planeta Terra
seria um gentil cavalheiro em comparação com esse monstro. O fígado
de Napoleão — se é que possuía esse órgão — devia produzir
uma quantidade excessiva de bílis, ou então o velho estava afetado
por uma arteriosclerose irreversível, fato que qualquer cosmobiólogo
contestaria de forma categórica. Entretanto o certo era que, naquele
momento, o green não passava de uma figura magra e bulhenta, do qual
não se poderia esperar qualquer conselho válido.
— Todos
para as barracas — ordenou Everson. — Talvez tenhamos sorte e
escapemos sem maiores danos.
O vento já
atingira uma velocidade considerável e sacudia ininterruptamente os
alojamentos. O plástico era inflado. As lanternas dos astronautas
brilhavam em meio à escuridão. Quando Everson voltou ao seu
alojamento, Weiss e Goldstein já se encontravam lá.
— Tomara
que os pinos agüentem — disse o mutante. — Acabo de abrir meu
capacete.
O plástico
das barracas chicoteava, produzindo estalos que nem os tiros de uma
pistola.
Everson
cruzou os braços embaixo da cabeça e olhou para o teto. Uma lâmpada
espalhava uma luz irregular.
De
repente, Everson viu que a barraca começava a girar. Parecia que
duas mãos gigantescas estavam torcendo uma peça de roupa molhada. O
coronel colocou-se de pé num salto.
— Segurem-se
— gritou. À luz da lâmpada ainda chegou ver que os dois homens se
levantaram.
Depois o
furacão começou a deformar a barraca de tal maneira que Everson
pareceu estar cercado por todos os lados. Sentiu a pressão do vento,
que ameaçava derrubá-lo. Embaralhou-se nas peças de plástico. Os
três reviraram os corpos e conseguiram libertar-se. A tormenta
arrastava tudo que encontrasse pela frente. As mãos de Everson, que
pretendiam segurar vários objetos, apenas atingiam o vazio.
— Fiquem
juntos — ordenou o experiente coronel.
O ar se
movimentava com tamanha velocidade que, em todos os lugares onde o
corpo era atingido de frente, os trajes protetores comprimiam-se
contra a pele. Everson ligou sua lanterna.
A areia
revolvida praticamente sufocou a luz, que não chegava a mais de dois
ou três metros. Duas rajadas, em rápida sucessão, derrubaram
Everson. Não teve coragem de pôr-se de pé. Preferiu rastejar. Teve
a impressão de que o chão vibrava sob suas mãos. Weiss rastejava a
seu lado. O telepata estava fora do raio de visão. Provavelmente as
rajadas de vento o haviam arrastado. Uma barraca, que estava sendo
carregada pela tormenta, bateu ruidosamente no capacete de Everson e
quase lhe arranca a cabeça. Sentiu uma dor lancinante na nuca.
Qualquer movimento seria inútil. Estendeu-se rente ao chão e cravou
as mãos na areia.
— Fiquem
onde estão — gritou para dentro do microfone. Para muitos homens,
não seria fácil cumprir esta ordem, mas de qualquer maneira o
cumprimento desta evitaria que corressem ao acaso pela escuridão, à
procura de abrigo.
As dores
desciam pelas costas de Everson como um fluxo de lava incandescente.
Teve a impressão de estar deitado numa grande lâmina que executava
um movimento de rotação. Sem que o quisesse soltou um grito. Com um
pavor crescente, constatou: o chão realmente se movia.
A rotação
cada vez mais rápida gerou a força centrífuga que, junto com a
tempestade, fez com que Everson escorregasse pela areia como se
estivesse numa pista de gelo. Fez um esforço desesperado para
segurar-se em alguma coisa. Um trecho bem definido do deserto girava
que nem um pião, e trinta homens também escorregavam como se fossem
insetos.
O
derradeiro momento se aproximava...
Everson
teve a impressão de que se encontrava a meio caminho entre o eixo
central e a zona periférica do pião. Mais alguns instantes e os
elementos enfurecidos o empurrariam cada vez mais para fora. Dominado
pelo pavor, o comandante da México, pensou talvez se tratar de um
redemoinho que formava um funil no solo e arrastava tudo para seu
interior. Nesse caso, não se encontrariam na superfície de um
disco, mas nas paredes internas de um funil. Everson sabia que esse
fenômeno podia dar-se num mar tangido pela tempestade. Porém ali
não havia condições para tal ocorrência.
Não
haveria mesmo? Será que aquilo não representava um jogo das forças
terríveis, aquelas mesmas forças que “brincaram”
com Bellinger? Será que os invisíveis estavam desferindo seu golpe
final, que destruiria os audaciosos terranos?
Em meio ao
caos, não encontraria resposta a estas perguntas. Se não fosse o
traje protetor, já teria morrido sufocado. Caso realmente se
encontrasse na parede interna de um funil, o movimento giratório o
levaria, numa série de amplas espirais, ao núcleo inferior e
central do mesmo, de onde seria expelido.
Seu corpo
estava quase coberto pela areia.
A dor na
nuca transformara-se numa pressão surda. Embora não passasse de um
joguete dos elementos, não parou de lutar contra aquelas estranhas
forças. Perdeu por completo a noção do tempo. Em seus ouvidos
havia um ruído igual ao de uma queda de água. Cerrou os dentes. Um
objeto duro bateu em seu ombro. Estendeu a mão e conseguiu
segurá-lo.
Provavelmente
era uma peça de equipamento que também estava sendo tangida pelo
solo. Everson não era nenhum jovem, e o esforço continuo deixou-o
cada vez mais exausto. Agarrou-se a uma caixa quadrada, como se esta
lhe pudesse dar novas forças. De repente levou uma pancada no
capacete. Raios coloridos começaram a dançar diante de seus olhos.
Ainda percebeu que estava sendo tangido cada vez mais depressa.
Depois, teve a impressão de sofrer uma queda no escuro.
*
* *
Uma mulher
gordinha estava dobrando peças de roupa branca. Fazia-o com o maior
cuidado, e suas mãos alisavam o tecido.
— Está
recuperando os sentidos — disse uma voz.
Marcus
Everson abriu os olhos. Sentiu-se ofuscado por uma forte luz. A
mulher transformou-se no Dr. Morton, que manipulava as ataduras e,
vez por outra, sacudia fortemente o coronel. Depois de algumas
tentativas, Everson acostumou-se à luz do sol. Conseguiu ficar com
os olhos abertos.
Estava
estendido na areia. Em torno dele, os outros membros da expedição
estavam sentados, deitados ou de pé na areia. Seus trajes pareciam
bastante estragados. Everson teve a impressão de que seu aspecto
também não devia ser dos melhores.
Levantou a
cabeça, mas logo interrompeu o movimento, pois uma dor penetrante
percorreu sua nuca. Aos poucos foi recuperando a memória.
Everson
tentou erguer-se, com maior cuidado.
A
expedição — ou melhor, aquilo que restava da expressão —
estava numa depressão, em meio ao deserto.
— Tudo
O.K.? — conseguiu perguntar Everson com grande esforço.
— Com
exceção dos ferimentos, tudo bem — respondeu o Dr. Morton. — As
barracas e grande parte do equipamento desapareceram.
Enrolou
uma atadura. O visor do capacete estava tão sujo que mal se
conseguia distinguir o rosto barbado.
— Quase
todos os medicamentos se foram — disse em tom queixoso.
Everson
teve de pensar num homem que, em meio a uma explosão nuclear, se
queixasse da perda da obturação de um dente.
— Onde
está Napoleão? — perguntou.
Morton
fitou-o.
— Também
desapareceu — disse em tom contrariado. — Sternal e Weiss já
cavaram a areia, mas não o encontraram.
O coronel
quis olhar para o relógio, mas constatou que este também se
transformara numa vítima da tormenta. O Dr. Morton acompanhara a
direção do olhar de Everson.
— Há
uma hora começou a clarear... — falou reticencioso — ...e
estávamos no centro de um belo torvelinho. Até agora vemos os
sinais da catástrofe.
O estado
da pequena tropa era péssimo, mas poderia ser bem pior. Landis
estava limpando a poeira e a areia que penetraram no rádio, o que
provava que ainda estariam em condições de falar com a México. Era
bem verdade que, face ao desaparecimento do velho green, a procura da
torre se transformara numa empresa arriscadíssima.
Poderiam
marchar em qualquer direção, pois não havia a menor indicação do
rumo que deveriam tomar para chegar ao legendário edifício.
Poderiam sair em grupos separados, espalhando-se para todos os lados,
mas à medida que se afastassem do centro, a distância entre os
grupos aumentaria e, com isso, correriam o risco de não verem a
torre.
A
depressão era oval. No lugar mais largo chegava a medir 120 metros,
e no mais estreito, 70. Suas paredes laterais descreviam um ângulo
de cerca de 30 graus e subiam numa altura de menos de três metros,
até atingirem a superfície do deserto. Evidentemente essas paredes
eram irregulares. Porém em nenhum lugar, eram tão baixas que alguém
pudesse deixar de notá-las.
Finalmente,
Everson ergueu-se de vez. Ainda estava um pouco entrevado, mas
conseguiu andar. Sentia a cabeça dolorida. Passou mancando por
Landis e esboçou um sorriso animador. A cada passo que dava, uma
agulha incandescente vinda de baixo parecia perfurar sua nuca. Depois
de ter percorrido vinte metros, pareciam ser dez agulhas.
Everson
ficou refletindo sobre como poderia percorrer vários quilômetros no
estado em que se encontrava. Esperava que o Dr. Morton tivesse algum
analgésico. O suor começou a porejar por todo o corpo. Não
desistiu. Acabou atingindo um lugar onde a parede da depressão
parecia ser mais baixa e menos íngreme. Dobrou os joelhos e ouviu as
juntas estalarem. Deixou-se cair lentamente para a frente e aparou a
queda com as mãos.
— Eu o
apoiarei — disse uma voz saída de seu receptor de capacete.
Everson
virou a cabeça e viu que Poul Weiss se encontrava atrás dele. Com
uma agilidade de esportista, o biólogo colocou-se a seu lado.
— Faça
de conta que sou uma escada — disse Weiss.
Enlaçou
as mãos, para que Everson pudesse apoiar o pé nas mesmas. Everson
era um homem grande e pesava mais de noventa quilos. Weiss dobrou
ligeiramente os joelhos quando teve de sustentar todo o peso de
Weiss. Apesar disso, a altura não foi suficiente para que Everson
pudesse olhar para longe.
— Suba
no meu ombro — sugeriu Weiss.
Everson
esforçou-se para não decepcionar aquele homem tão disposto a
prestar-lhe ajuda. Conseguiu subir. Uma vez sobre os ombros de Weiss,
sentiu-se tão esgotado pelas dores e pelo esforço físico que teve
de fechar os olhos por um instante.
— Está
vendo alguma coisa, Sir, — perguntou a escada viva.
Everson
fez um grande esforço. De início só viu a areia e o ar
tremeluzente. Mas quando virou a cabeça um pouco para o lado, viu
outra coisa.
Piscou os
olhos e voltou a fitar o interior da depressão para, num segundo
golpe de vista, excluir a possibilidade da ocorrência de uma
miragem.
Weiss
balançou um pouco, e Everson teve de segurar-se.
— Está
vendo alguma coisa? — repetiu Weiss em tom impaciente.
— Estou
— disse Everson muito devagar.
Depois de
uma pausa destinada a ressaltar a extensão do milagre, acrescentou
em tom seco:
— Estou
vendo a torre!
Weiss
soltou uma exclamação de surpresa e quase deixou cair a carga que
pesava sobre seus ombros.
— Cuidado!
— disse Everson.
A torre
que, segundo as informações de Napoleão, só iriam atingir dentro
de mais dois dias, estava bem à sua frente. Só havia duas
possibilidades. A informação do green era falsa, ou então o
furacão que soprara, durante a noite, os tangera misteriosamente
para perto da torre. Everson achou que a última alternativa era
menos plausível.
O edifício
que se estendia em direção ao céu de Moluque era imponente. À
primeira vista, parecia estranho e apavorante. Em hipótese alguma
poderia ter sido construído pelos greens. Erguia-se uns cento e
cinqüenta metros acima do solo. Pelo que Everson pôde constatar,
seu formato era oitavado. O impacto contínuo das tempestades e dos
furacões causara-lhe uma ligeira inclinação. Por certo, os sólidos
e profundos alicerces evitaram seu desmoronamento.
Há algum
tempo, cuja extensão não poderia ser calculada, o vento, a areia, o
frio e o calor haviam corroído a torre. Estava coberta por uma
camada verde-cinzenta. Em alguns lugares apareciam fendas de mais de
dez centímetros de largura, que pareciam filigranas de vários
metros de comprimento a enfeitarem a superfície da construção.
Aquele edifício parecia exalar um sopro de infinito abandono.
Everson teve a impressão de que era o monumento de um gigante há
muito esquecido, que quisesse deixar gravada sua presença na memória
dos seres nativos. Fosse quem fosse o idealizador de tal construção,
uma coisa era certa: o arquiteto não era natural de Moluque.
6
Everson
desceu, ainda um tanto perplexo com a estranha visão. Se é que já
vira um rosto curioso, este rosto era o de Weiss naquele momento.
Absteve-se de qualquer observação apressada.
— Acompanhe-me
para junto dos outros — disse, dirigindo-se ao biólogo. — Não
quero contar duas vezes a mesma coisa.
Weiss
demonstrou seu desapontamento por meio de um pontapé na areia e
acompanhou o comandante. Os astronautas haviam acompanhado tudo e
sentiam-se muito curiosos.
— Encontramos
a torre — principiou Everson laconicamente e relatou em palavras
ligeiras o que acabara de descobrir.
— O que
vamos fazer, Sir? — perguntou Bellinger, cujo corpo era o que mais
devia ter sofrido na noite anterior.
— Iremos
até lá e a examinaremos. Mas, antes disso, vamos verificar se
Landis já está em condições de entrar em contato com a México.
Não sabemos o que nos espera, e não podemos dispensar a cobertura
de retaguarda.
— O
senhor pode falar com a México quando quiser — anunciou Landis.
Num gesto
quase carinhoso passou a mão pelo aparelho. Algumas peças eram
mantidas presas pelo material retirado das caixas de ataduras do Dr.
Morton. Everson fez questão de não ver esse tipo de improvisação.
— Está
bem — disse o coronel com um olhar desconfiado para a obra de
Landis. — Não custa tentar.
Contrariando
sua previsão, o operador de rádio levou apenas dois minutos para
estabelecer a ligação com a México. Scoobey informou que a
espaçonave também fora atingida pela tormenta, mas não havia
sofrido nenhum dano. O trabalho dos técnicos progredia bem. O
primeiro-oficial acreditava que os reparos só consumiriam alguns
dias. Neste ponto, o pessimismo inicial se revelara falso.
Scoobey
obteve minuciosas informações sobre a situação da expedição. O
rádio fazia com que, se necessário, os homens da nave pudessem
encontrar a expedição, independentemente de um aparelho emissor de
raios vetores ou da indicação de sua posição.
O coronel
concluiu com as seguintes palavras:
— Não
há a menor dúvida de que por aqui existem forças que se mostrarão
infinitamente superiores a nós, caso resolverem agir seriamente.
Reunirei alguns homens e procurarei entrar na torre. É possível que
lá encontremos outros elementos.
Nos
minutos que se seguiram, Everson submeteu-se ao tratamento do Dr.
Morton. O médico conseguiu reduzir as dores o suficiente para que o
comandante pudesse andar normalmente.
— Iremos
para junto da torre — disse Everson, explicando a ação que
pretendia desenvolver. — Bellinger, Goldstein, Weiss, Sternal e eu
faremos o possível para penetrar no interior da construção.
Combinaremos com os outros um tempo limite para estarmos de volta.
Constatou-se
que os astronautas haviam superado relativamente bem os terríveis
acontecimentos da noite anterior. Ajudaram-se mutuamente para sair da
depressão.
Quando o
imenso edifício surgiu à sua frente, Everson teve de esforçar-se
para interromper a discussão que iria ter início.
A trinta
metros do destino, Bellinger parou de repente. Apontou para o chão.
— São
rastros, Sir — disse.
Everson
colocou-se a seu lado. O tenente não se enganara. Meio encobertas
pela areia tangida pelo vento, as impressões de pés largos, de
quatro dedos, desenhavam-se à sua frente. Só havia uma pessoa que
poderia ter produzido essas impressões.
Era
Napoleão!
Acontece
que o green desaparecera. Não havia a menor dúvida sobre a direção
da pista. Os rastros iam até a misteriosa construção.
Será que
Napoleão fora raptado, ou teria ido voluntariamente? Onde estaria
naquele momento?
Everson
não soube responder a essas perguntas. E sua perplexidade deveria
aumentar ainda mais, instantes depois.
— Olhe a
torre, Sir! — exclamou Landis.
— O que
aconteceu com ela? — perguntou o coronel.
A resposta
do operador de rádio esclareceu um mistério, mas trouxe muitos
outros. A afirmação de Landis foi tão patente, e de tamanha
simplicidade, que todos espantaram-se por não terem dado com a
mesma.
— É uma
espaçonave — disse Landis.
*
* *
Não se
precisava desenvolver muita fantasia para acrescentar outras
conclusões à que acabava de ser enunciada. Tratava-se de uma nave
que sofrerá um acidente. Mesmo que parte dela estivesse enterrada no
solo, não era muito grande para os padrões terranos. A distância
entre o piso inferior e superior devia ser de um pouco mais de
quarenta metros. É claro que o veículo espacial ou seus
construtores poderiam ser subestimados. A periculosidade não tinha
nada a ver com o tamanho do engenho. Se a nave era a dos deformadores
de moléculas, mencionada nas anotações de Mataal, suas dimensões
não tinham a menor importância.
— É
verdade — disse Everson depois de algum tempo.
À medida
que se aproximavam, perceberam outros detalhes. O envoltório externo
estava coberto por uma fina crosta de areia. Em vários lugares, a
cor preta sobressaía sob a camada cinza-verde. A pista de Napoleão
contornava o veículo espacial. Por mais que refletisse, Everson não
conseguiu compreender que ligação o green teria com os
acontecimentos.
Do lado
oposto encontraram uma abertura. Era redonda, tinha um diâmetro
pouco inferior a dois metros e ficava à altura dos joelhos. Atrás
dela reinava uma escuridão que nem mesmo os raios do sol, que
penetravam obliquamente pela abertura, conseguiam desfazer o bastante
para que se pudesse reconhecer qualquer coisa.
— Conseguiu
captar algum impulso mental ou modelo de pensamento? — perguntou
Everson, dirigindo-se ao mutante.
— Não
senhor — respondeu Goldstein. — Não encontrei o menor sinal de
vida.
— Minhas
ordens são claras — disse o coronel. — Se dentro de uma hora
Samy, Sternal, Weiss e o tenente não tiverem saído, avise a México.
Em hipótese alguma siga-nos, Landis.
Não
perdeu mais tempo. Atravessou a abertura.
De início
teve a impressão de que uma lufada de ar frio passara pelo seu
rosto. Mas, evidentemente, era apenas sua imaginação, pois o
capacete estava fechado. Olhou para trás e viu uma das pernas de
Weiss.
No mesmo
instante, foi atingido por um movimento de sucção, que o arrastou
para cima.
Turbilhonava
que nem um pedaço de papel numa chaminé. Felizmente não bateu em
lugar nenhum. Num movimento instintivo, moveu as mãos pela
escuridão, à procura de um lugar em que pudesse agarrar-se.
Naturalmente
não se tratava de nenhum movimento de sucção, mas apenas de um
campo energético de pólo invertido que eliminara a gravidade. E a
tensão magnética arrastava-o para cima. Essas reflexões foram
surgindo lentamente no cérebro de Everson, e este sabia que havia
outras possibilidades. Talvez forças paramecânicas estivessem
agindo sobre ele. Era uma sensação nada agradável.
Subitamente
sentiu um ligeiro solavanco e foi empurrado para o lado. No mesmo
instante, surgiu-lhe o chão firme. A gravitação normal fora
restabelecida.
O coronel
viu-se no interior de uma sala de quatro metros por oito, bem
iluminada. De onde vinha tal luz? A cor das paredes era indefinível.
O chão e o teto, brancos. O astronauta olhou em torno e viu uma
abertura quadrática na parede. O recinto estava completamente vazio,
com exceção de um objeto estranho que se encontrava diante dos pés
de Everson.
O objeto
lembrava uma roda dupla. Dois aros, que se encontravam a uns quarenta
centímetros de distância, estavam ligados por várias hastes. Antes
que Everson tivesse tempo para examiná-lo, alguém esbarrou em suas
costas.
Estremeceu,
mas viu que era apenas Weiss que tropeçara ao sair do poço.
— Cá
estamos — disse, proferindo uma evidente redundância. — É um
meio de transporte rápido e confortável, não acha?
Everson
não conseguiu compartilhar desse entusiasmo. E Sternal, Bellinger e
Goldstein, que apareceram logo depois, também não pareciam muito
satisfeitos com a recepção que lhes fora proporcionada.
— Pronto!
— disse Bellinger. — A ratoeira fechou-se atrás de nós.
— O que
é isso? — perguntou Sternal, apontando para a roda dupla.
— Pode
ser qualquer coisa — disse o tenente e abaixou-se para examinar o
objeto de perto.
Tateou-a e
tentou sacudi-la, mas a roda permaneceu imóvel.
— Psssum!
— fez alguma coisa nos seus receptores.
— O
poço! — gritou Goldstein. — Onde está?
A abertura
pela qual haviam vindo parecia ter-se dissolvido. Em torno deles, só
havia paredes inteiriças.
— Tolice
— disse Everson em tom tranqüilizador. — Alguém fechou a
entrada.
Suas
palavras provocaram um resultado contrário ao pretendido. Os homens
começaram a berrar ao mesmo tempo e a tatear febrilmente a parede, à
procura do poço. Everson compreendia perfeitamente que não gostavam
de ficar presos, mas dessa forma nunca recuperaria a liberdade.
— Parem!
— gritou. — Isso não adianta.
Será que
esses fenômenos não foram provocados por seres vivos, mas sim por
uma máquina, que continuava em funcionamento e que fora programada
para tomar automaticamente as medidas adequadas, assim que uma
criatura estranha penetrasse na nave?
— Nossas
intenções são pacíficas — gritou Everson. — Viemos para
negociar.
Esperou,
mas não obteve resposta. Qualquer inteligência desconhecida deveria
supor que estava conversando com seus companheiros.
A roda que
se encontrava à frente deles entrou em incandescência. Sua cor
passou para o amarelo-escuro. Everson inclinou-se sobre a mesma. A
temperatura marcada por seu termômetro de pulso permaneceu nos 43
graus. De repente, o coronel teve a impressão de que estava olhando
para um espelho. Sentiu uma tontura. Não queria desprender-se da
visão que, tinha diante de si. Seus lábios abriram-se para soltar
um grito de advertência, mas as cordas vocais recusaram-se a
obedecer. O quadro observado era tridimensional. Enquanto cerrava os
olhos, para ver os detalhes, a miragem foi-se aproximando. Uma sala
gigantesca estendia-se à sua frente.
De súbito,
ouviu uma voz forte, que rugiu em seu receptor que nem uma trovoada:
— O que
estão procurando aqui?
Até que
Everson se desse conta de que essas palavras haviam sido pronunciadas
por Samy Goldstein, passou-se algum tempo. Fez um esforço
desesperado para libertar-se do poder quase hipnótico do estranho
quadro que tinha diante de si. Seu corpo estava coberto de suor.
Goldstein pendia frouxamente nos braços de Bellinger. Ao que
parecia, estava inconsciente.
— De
repente, desmaiou — informou Weiss.
— Alguém
me formulou uma pergunta por intermédio dele — disse Everson em
tom enfático.
— Não
compreendo — disse o biólogo, perplexo. — O que quer dizer com
isso?
Os rostos
preocupados de Bellinger e Sternal convenceram o coronel de que só
ele ouvira a voz do mutante... em seu cérebro. Não era telepata nem
possuía outros dons paranormais.
Dali só
se podia concluir que o estranho objeto, sobre o qual se inclinara,
fizera a pergunta chegar à sua consciência...
Do lado
oposto da sala, uma abertura surgiu na parede, com o que se tornou
dispensável qualquer resposta de Everson. Contornaram a roda.
Bellinger arrastava cuidadosamente o corpo de Goldstein. Saíram
todos da sala em que se encontravam, passando pela abertura de,
aproximadamente, um metro e oitenta. Viram-se num corredor estreito.
Notaram
que alguma coisa se mexera no fim do corredor. Everson esforçou-se
para enxergar melhor. Uma figura fina, de aparência quebradiça,
foi-se aproximando. Mantiveram-se na expectativa. A criatura foi-se
aproximando, muito embora se tivesse a impressão de que a cada passo
dado, iria partir-se.
Era
Napoleão!
*
* *
O green
continuou a caminhar em sua direção. O aparelho de comunicação
permanecia pendurado em seu pescoço. Sob a estranha iluminação do
corredor, a cabeça de abóbora enrugada era ainda mais feia. Todo
sofrimento do planeta parecia ter-se gravado nesse rosto velhíssimo.
Se
Napoleão tivesse aparecido no restaurante do Hotel Waldorf Astória,
a clientela refinada não teria ficado mais surpresa do que, naquele
momento, Everson e seus companheiros se sentiram. Naturalmente, o
green poderia ter chegado a esse lugar pelo mesmo caminho que os
astronautas praticamente foram obrigados a tomar. Everson refletia
febrilmente. O mais simples seria interrogar o nativo. Antes que o
coronel tivesse tempo para isso, a voz de Napoleão soou em seus
alto-falantes de capacete.
— Achei
preferível apresentar-me aos senhores sob a forma que já lhes é
conhecida — disse com a voz firme. — Para que chocar ainda mais
seus nervos já arrasados?
— O que
está dizendo? — gaguejou Everson.
Será que
o green enlouquecera, ou estaria sujeito a uma influência hipnótica?
Estaria sendo usado como instrumento por alguém?
Um braço
estendido com a pistola de choque surgiu no campo de visão de
Everson. O braço pertencia a Weiss, cujo rosto furioso aparecia sob
a lâmina do visor de seu capacete. O comandante da México empurrou
a mão do biólogo para o lado.
— Esse
jovem está um tanto exaltado — disse Napoleão, ou fosse lá quem
fosse aquela criatura, em tom complacente. — Não devemos
condená-lo por isso. A propósito, os senhores podem tirar os
desconfortáveis trajes protetores, cavalheiros. O ar a bordo desta
nave lhes parecerá muito agradável.
Cruzou os
braços sobre o peito, bateu um pouco com a boca em forma de bico e
prosseguiu muito satisfeito:
— Além
disso, os senhores terão de acostumar-se à atmosfera deste planeta,
pois nunca mais sairão daqui.
Agora o
próprio Everson tirou a arma térmica e apontou-a para o peito do
velho.
— Quem
disse isso? — perguntou o coronel.
Napoleão
fez um gesto de indiferença. Não se sabia por quê, mas a
debilidade e a senilidade o haviam abandonado.
— Para
mim, o fato de ser ameaçado de arma em punho nem de longe representa
um perigo. Se resolver disparar, posso fazer muitas coisas
diferentes. Posso desaparecer, absorver a energia e fazê-la refluir,
destruir a arma, paralisar sua mão, criar uma barreira entre nós ou
fazer o senhor explodir. São apenas algumas das possibilidades.
Lembre-se de Bellinger ou do furacão, e há de reconhecer que essa
arma não me pode causar a menor preocupação.
A busca
não fora em vão. Haviam encontrado os seres cujo auxílio Perry
Rhodan pretendia obter. A essa hora, já se sabia que Napoleão era
um deformador de moléculas. Não poderia imaginar que os homens que
se encontravam à sua frente, com exceção do Tenente Bellinger, já
haviam tido suas experiências com outro membro de sua raça.
— Não
pensem que eu os considero como inimigos — asseverou Napoleão. —
Para mim, não passam de um meio de atingir determinado objetivo. O
tremendo acaso que os fez pousar neste planeta representará minha
salvação. Queiram acompanhar-me, cavalheiros!
Fez um
movimento com a mão. Na parede surgiu uma abertura suficientemente
larga para dar passagem a um homem. Goldstein continuava
inconsciente. Na sala em que penetraram, a iluminação era mais
agradável.
— Acho
que os senhores preferem sentar-se confortavelmente — disse o
green... ou melhor, o deformador de moléculas.
Cinco
poltronas materializaram-se à sua frente. Napoleão fez um gesto
convidativo.
— Se
desejarem, posso modificar o formato destas poltronas. Basta dizer
qual é o tipo preferido. Quanto a mim, prefiro ficar de pé.
O
espetáculo foi encenado com a única finalidade de deixá-los
perplexos e intimidá-los. Everson resolveu não capitular diante de
uma série de impressões óticas. Antes de mais nada, as posições
teriam que ser definidas.
— Os
trajes protetores — lembrou Napoleão em tom amável.

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