Deram duas
voltas em torno do planeta, a baixa altura, sem ver nada de
importante. Nenhuma grande saliência, nem serras, nem vales. Apenas
uma superfície levemente ondulada, sem nenhum característico.
— Que
planeta esquisito! — constatou
Bell, em
voz baixa.
Rhodan era
da mesma opinião, mas não disse nada. Não queria distrair
Claudrin, durante a arriscada manobra de aterrissagem, que estava por
acontecer. O major deve ter percebido o pensamento de Rhodan.
— Podemos
descer em qualquer lugar.
Lá
embaixo, o solo apresenta-se apenas ondulado. Vamos tentar?
Rhodan fez
sinal que sim. — Preparar para aterrissagem — ordenou ele ao
primeiro-oficial. — O planeta parece ser desabitado, mas distribuam
armas leves. Todos devem usar uma pistola energética. O Tenente
Sikhra, com os rapazes de seu comando especial, devem ser os
primeiros a pisar no solo deste mundo desconhecido. Só depois que
ele avisar não haver perigo, é que os outros poderão abandonar o
jato. Não nos devemos expor a uma outra catástrofe.
— O
senhor quer dizer que...
— Eu
quero dizer que há alguma coisa que não está dando certo com o
nosso jato. Vamos acampar bem longe do Space-Jet. Só depois os
técnicos irão ver onde é que está o defeito. E, certamente, o
descobrirão.
Embora a
direção lhe causasse dificuldades, o Major Claudrin fez uma descida
suave, muito mais suave do que se podia supor. Ninguém sentiu o
solavanco do contato com o solo. Era como se este fosse de molas. As
telas mostravam o chão em seus mínimos detalhes: cinza e sem
vegetação, como já haviam constatado antes. Não se podia, porém,
saber se era rocha pura.
Com cinco
dos seus homens, o Tenente Sikhra deixou o jato. Estavam em contato
com Rhodan e os demais tripulantes através do rádio. Sikhra era um
nepalês, que, apesar de conhecido por corajoso e temerário, só
agia com cautela, principalmente quando não podia saber o que ia
encontrar no caminho.
A
escotilha externa se abriu. O ar do planeta era fresco. O sol estava
alto no céu, mas não irradiava muito calor. Parecia que seus raios
não eram suficientes para aquecer a superfície do planeta. Ao
menos, o solo não refletia nada daquele calor, que talvez estivesse
sendo sugado pela superfície.
Sikhra foi
o primeiro a descer pela escada metálica e a pisar no solo do novo
mundo, que ainda não constava de nenhum mapa dos terranos. Ainda não
tinha nome, mas isto não demoraria a acontecer. O chão pareceu a
Sikhra macio demais, mas ainda não desconfiava de nada. Pôde parar
de pé, e não avistou nenhum adversário. No momento, isto lhe
bastava. Fez um sinal para os seus, pedindo que o seguissem.
Caminharam
um trecho para frente. Sikhra tinha a impressão de estar andando
sobre as ondas de um mar solidificado. Assim também parecia toda a
paisagem, ondulada até o horizonte, sem nenhuma saliência maior.
Uniforme, monótona.
— O ar é
bom — comunicou ele a Claudrin. — Nada de vida até agora e não
há muito calor. O solo... é de couro!
Sikhra se
agachou e tocou outra vez no solo com a mão, para ter certeza da
informação que prestara. Era duro, mas de qualquer maneira não era
rocha, parecia mesmo com um couro bem grosso.
— Couro?
— repetiu o comandante, espantado.
— É um
tipo de solo desconhecido. Não é terra, nem pedra. Acho melhor o
senhor mandar um especialista.
— Continue
observando, tenente.
Quando
Sikhra, por mera coincidência, se virou para trás, a fim de ver o
Space-Jet, ficou abismado!
Será que
a espaçonave estava numa depressão? Ou havia afundado neste
intervalo? Percebeu também que seus pés estavam entrando demais no
chão. Chegou então a uma conclusão:
— O solo
não tem estabilidade, capitão! Está cedendo. O disco já afundou
bastante.
— Volte,
imediatamente, Sikhra, depressa!
Começou a
correr. Tinha a impressão de que centenas de garras puxavam seus
pés. Quando se aproximou do jato é que notou seu erro.
Os apoios
telescópicos estavam completamente afundados no chão escuro. Deixou
que seus homens subissem antes dele.
Mal se
fechara a escotilha externa, ouviu-se o ronco da propulsão. Sem se
preocupar com isto, correu até a central de comando, para fazer
pessoalmente seu relatório. Nos corredores entupidos de gente, não
sentiu nenhum movimento do disco voador. O ronco dos motores
continuava.
Ao chegar
ao posto de comando, viu Rhodan de pé ao lado de Claudrin. Os dois
observavam a tela de bordo, onde se descortinava a monótona paisagem
do planeta.
O
primeiro-oficial, Major Krefenbac, veio ao encontro de Sikhra.
— Tenho
a impressão de que sua constatação nos veio muito tarde.
Aterrissamos num planeta de lama.
— Não,
major. Não é lama. É algo muito diferente, tem boa consistência.
Os sustentáculos telescópicos do jato afundaram devido ao imenso
peso do disco voador. Não se esqueça de que está carregado com
oitenta e dois homens. Acho que agora ele não afunda mais.
— É,
mas não podemos decolar. A força de que dispomos não dá. Alguma
coisa retém o jato e não nos permite sair daqui.
— Não
posso compreender isto — disse Sikhra, perplexo. — Em menos de
cinco minutos, que estive fora...
— Sikhra,
é claro que você não tem culpa nenhuma — disse Rhodan,
intervindo na conversa. — Ninguém tem culpa da nossa situação.
Acho que estamos diante de um fenômeno. Uma pergunta, Sikhra: o solo
sustenta bem o peso de um homem?
— Certamente,
sir. Só depois de ficar parado por algum tempo num mesmo lugar, foi
que percebi o solo ceder.
— Não
é, portanto, um barro comum — falou Rhodan, pensativo.
Depois de
alguns segundos de silêncio, ordenou:
— Não
desista de sua tentativa, major. Vou providenciar agora para que os
homens recebam a ração de alimentos e de água. As armas já foram
distribuídas. Devemos contar com a possibilidade de termos que ficar
mais tempo neste planeta, onde acamparemos.
Todos
deixaram o jato. O sol estava descambando no poente e as sombras se
alongavam, sombras estas que pouco se destacavam do chão escuro.
Rhodan caminhava na frente com Claudrin. Ninguém temia por qualquer
tipo de ataque. Este mundo tinha que ser mesmo despovoado, pois não
havia o menor sinal de vida. Isto em plena contradição com aquela
agradável atmosfera. Era pensando na atmosfera que Rhodan quebrava
sua cabeça.
Como
poderia um planeta, com uma camada de ar tão boa, deixar de produzir
qualquer tipo de vida? E como ou de onde era renovada esta atmosfera?
Um dos
tripulantes, que caminhava mais para o fim da fila, soltou de repente
um grito assustador. Rhodan parou e virou-se. Viu então uma coisa
que jamais podia ser realidade, talvez fosse um pesadelo, ou uma
alucinação devido ao estado em que se encontravam.
Do
lusco-fusco da tarde avançada, seguia-os um grupo de seres
antropóides, com pernas e braços... mas sem a cabeça! Eram do
mesmo tom do solo, escuros, e caminhavam lentamente em direção aos
homens de Rhodan.
3
Foi um
hipersalto no escuro!
Quando a
Lizard se rematerializou e as estrelas puderam ser vistas, as
constelações estavam todas desencontradas e deslocadas. O muito
experimentado Capitão Graybound não reconheceu nenhuma delas e
naturalmente se desandou a xingar e a dizer palavrões.
— Aquele
chato desgraçado! Por causa dele, perdemos a direção. Será que
estamos no mundo para andar por aí em ziguezagues, perdidos no
Universo?
O Tenente
Rex fez um gesto de quem pede calma.
— Não
fique tão nervoso assim, Samuel. Não se preocupe, pois logo
saberemos onde estamos e então faremos novos cálculos para outros
saltos de transição. O principal é que os tais homens da patrulha
espacial não nos pegaram. Gostaria de ver a careta furiosa do major
que nos queria prender.
Graybound
deu uma estrondosa gargalhada. Imaginando a boa peça que pregara no
oficial, seu aborrecimento evaporou e ele se esqueceu do tempo
perdido.
— Estes
bonecos de uniforme não mereciam outra coisa — dizia ele, todo
prosa. — Seu caçador de homens! O Universo pertence a todos, cada
um pode fazer o que quiser. Somos ou não somos livres para andar por
aí?
— Viva
a democracia! Cada um tem o direito de morrer!
— berrava Toureiro, batendo as asas.
Graybound
olhou espantado para o papagaio.
— Esquisito,
o Toureiro nunca disse isto. Quem foi que lhe ensinou a dizer estas
palavras?
Rex estava
pensando numa boa resposta para seu capitão, mas não chegou a
tanto. Do posto de rádio, surgiu o raquítico Henry Smith, agitando
nervoso os dois braços.
— Novo
sinal de rádio. O hiper-receptor o registrou.
O rubor
subiu novamente à face de Graybound.
— O quê?
De novo? Não é possível que tenhamos caído mais uma vez nas
garras da patrulha espacial. E eu pensava que o Universo fosse
infinito...
— Trata-se
de um curto impulso de socorro, capitão. Durou poucos segundos e foi
por acaso que o captei.
Graybound
olhou pensativo para o pequeno Henry Smith, conhecido como um homem
muito sensível.
— Seu
idiota! — disse ele, talvez pensando que poderia ocorrer nova
inspeção. — Você não pode se afastar um pouco desse rádio
desgraçado?
Depois,
mais calmo, completou:
— Agora,
além do nosso atraso, ainda vamos ser obrigados a nos preocupar com
assuntos dos outros. De onde veio o impulso?
Smith
parecia aniquilado. Estava no umbral da porta, mostrando-se arrasado.
Não compreendeu bem onde o raciocínio de seu chefe queria chegar.
— De
onde vieram os impulsos, perguntei eu.
No seu
modo de falar, Graybound deixava antever uma tempestade iminente.
Smith estava com a voz quase embargada quando começou a falar:
— Direção
e distância ainda não estão determinadas, capitão. Isto não é
fácil.
— Quero
saber a localização desta espaçonave em dez minutos e, se os
homens da patrulha estiverem atrás deste possível truque, o diabo
vai lhe fazer uma serenata.
Smith
desapareceu, sem saber o que fazer.
Rex deu
uma boa gargalhada, terminando-a com uma frase muito sensata:
— Este
“telegrafista”
é um cômico, mas é perfeito na sua profissão.
O velho
capitão da Lizard mirava pensativo a imensidade de estrelas no céu
e franzindo a testa perguntou:
— Você
tem alguma idéia de onde estamos? Olhe um pouco os mapas siderais.
Os dois se
debruçaram sobre os atlas, investigando todos os setores. Não
conseguiram identificar nenhuma constelação.
— Teremos
que reconstruir o salto — propôs Rex. — Não nos resta outro
meio. Vamos fazer isto, Samuel, é uma brincadeira para nós.
— Faça
o que você achar melhor — disse o velho desbravador do espaço.
— Democracia!
— guinchou o louro, deixando cair alguma coisa.
Graybound
olhou com ar de desagrado a mancha esbranquiçada no não muito limpo
chão de aço, olhando com ar de censura para o tagarela pernóstico:
— Porcalhão!
Isto também tem alguma coisa que ver com democracia?
Toureiro
escondeu a cabeça e ficou olhando com os olhos inteligentes por
entre as penas. Estava querendo mostrar-se arrependido. Mas Graybound
deu um grito de cólera, tirou o louro de seu ombro e, sem perder
tempo, o colocou na gaiola, fechando-a com cuidado. Seu dedo
indicador apontou para a areia suja do chão da gaiola, num gesto que
dispensava qualquer outra explicação.
Foi depois
para a cabina de rádio. Henry Smith tremeu de medo, quando viu o
chefe entrando.
— Então?
Alguma novidade, meu amigo?
— Estou
quase chegando lá, capitão. A antena de orientação estava na
posição errada, daí o atraso. Tenho que calcular de novo a
intensidade dos impulsos e...
— Não
me tapeie com seu lero-lero técnico — disse Graybound, num momento
de bom humor, quase sorrindo. — Quero saber a direção e a
distância, certo?
Smith
continuou no seu trabalho sério.
Ali ao
lado, Rex Knatterbul exclamou:
— Oba!
Samuel, acho que consegui! Puxa vida! Já temos alguma coisa.
O velho
capitão bateu amigavelmente no ombro de Smith, esquecendo-se de que
lhe podia com isso até quebrar a clavícula. Voltou depois para o
posto de comando.
— E onde
é que nós estamos?
— Olhe
você mesmo isto aqui. Fizemos um salto de quase vinte mil anos-luz.
Como será que a nossa velha carcaça agüentou?
O vozeirão
do chefe o interrompeu. Desta vez, estavam expressas a cólera e a
vaidade ofendida.
— O que
você disse? Velha carcaça!... Você está se referindo dessa
maneira à nossa Lizard? Mais uma palavra e eu o atiro pelo espaço
afora, sem o traje espacial.
Rex apenas
sorriu.
— Desculpe,
não houve má intenção na expressão. Estamos mais ou menos aqui —
apontou um lugar do mapa. — É um setor supersaturado de estrelas.
Mas é por aqui — tornou a apontar — que temos de abrir caminho
para Glatra III.
— Ah!
Sim, os negócios! Graybound quase que os ia esquecendo, tão
preocupado que estava com o pedido de socorro.
Era um
homem que não levava muito a sério as leis da sociedade e era de
fato um comerciante com muitos “negócios
escusos”.
Mas se encontrasse alguém em apuros, ali estava ele para fazer todo
o possível e o impossível, na tentativa de auxiliar. Esta era sua
lei. E nunca desistia mesmo que lhe custasse a camisa do corpo.
— Espere
um pouco — disse para Rex. — Primeiro temos que saber de onde
veio o pedido de socorro... — virando-se para o lado: — Ô, você,
rapaz chato, aí do rádio! Ainda não descobriu nada? Não podemos
passar as férias aqui. Ande depressa, por favor!
Depois,
dirigindo-se para Rex, continuou:
— Reconstrua
o salto de transição com tal exatidão, que com outro salto
idêntico possamos chegar ao local onde encontramos o cruzador. Assim
nos orientaremos melhor.
— Já
está tudo pronto, chefe — disse Rex, sorrindo feliz. E olhando na
direção da cabina de rádio: — O rapaz ali está levando mesmo
muito tempo. Vamos dar um aperto nele.
— Consegui,
capitão! — exclamou neste momento Henry Smith, correndo para a
cabina de comando. Seu rosto irradiava felicidade. — Distância,
mais ou menos de três anos-luz. Direção exatamente cinco graus a
bombordo da atual rota. Graybound ficou todo vermelho. — Mais ou
menos? — gritou ele com tanta fúria que Toureiro se assustou e
escondeu a cabeça. — Que significa isto: mais ou menos? Quero
saber a distância exata para fazermos uma transição perfeita.
Entendeu isto, sua imitação de telegrafista? Smith agitava
nervosamente uma tira de papel. Aproveitou a pausa para dizer
depressa:
— A
distância está marcada com exatidão, capitão. Eu disse apenas
“mais
ou menos”
porque, na realidade, é menos de três anos-luz. Mas tenho os dados
exatos aqui.
Dizendo
isto, entregou a tira de papel ao capitão. O barba-ruiva a leu,
sorriu e fez um sinal amigo para Smith.
— Assim
está ótimo, meu querido. Você foi cem por cento.
Olhou para
o “telegrafista”
por alguns segundos, de repente deu um grito furioso:
— Desapareça!
E Smith se
abrigou na sua cabina de rádio.
Rex
apanhou a tira de papel da mão de Graybound e a estudou.
— Portanto,
dois vírgula oitenta e sete anos-luz. Os impulsos desse rádio devem
ser bem fortes, do contrário não os pegaríamos. Se for um desses
vagabundos cruzadores da Frota Solar, nós vamos dar o fora. Não
tenho nenhuma vontade de ajudá-los.
É claro
que o capitão dizia isto só da boca para fora. Haveria de ajudar a
qualquer um, mesmo ao seu pior inimigo, se estivesse em apuros. Com
aquele velho lobo-do-espaço, ainda valia o antigo provérbio de que
numa casca áspera se esconde um grão de qualidade.
— Temos
de ser um pouco generosos para com eles? — indagou Rex.
E
Graybound, olhando surpreso para seu navegador:
— E você
acha que poderia ser diferente? Vamos acudi-los, imediatamente...
Levou mais
uns vinte minutos até que o cérebro eletrônico elaborasse os dados
necessários. Logo após, Graybound colocou a Lizard na direção
certa e iniciou a transição. Antes disso, instruiu a tripulação
para o que ia acontecer, ordenando que as bem camufladas
bocas-de-fogo estivessem prontas a fim de entrar em ação a qualquer
momento. É claro que ele não ia querer ser enganado por ninguém.
Se aquele pedido de socorro fosse uma armadilha, seus articuladores
teriam uma bela surpresa com a reação da velha Lizard.
Transição.
Mal
apareceram na tela as novas constelações e, de lado, um sol muito
amarelo, soou a voz de Smith da cabina de rádio.
— De
novo os pedidos de socorro, senhor! Origem... vinte minutos-luz.
O velho
capitão ficou pensativo. Ele se enganara. Os sinais de socorro
vinham do sistema do sol amarelo, ou mesmo de um planeta daquele
sistema. Não parecia de uma nave que vagasse pelo espaço. Talvez se
tratasse até de náufragos que desejavam ser salvos. O pensamento de
ter de encher sua nave com gente estranha e ter de abdicar
momentaneamente de seus negócios rendosos era para Graybound tudo,
menos agradável. Começou a refletir com mais calma. Primeiro teve
vontade de amaldiçoar o radiotelegrafista, embora este simplesmente
cumprisse seu dever. Depois maldisse a si mesmo, por ter um coração
tão mole.
De repente
Graybound teve um estalo:
— Quem
sabe também outros ouviram os pedidos de socorro e estão vindo para
acudir? Esperemos mais um pouco. Seria maravilhoso se pudéssemos
ficar livres deste abacaxi. Se permanecermos vagando por aqui,
ninguém nos descobrirá. O que você acha, Rex?
Rex
Knatterbul, também muito melhor que a fama que dele espalhavam,
tinha suas dúvidas.
— Pode
também ser que eles estejam em extrema necessidade e cada minuto de
atraso pode significar sua morte. Não sei ao certo se podemos ou não
arcar com a responsabilidade...
— Besteira!
Que responsabilidade o quê? Minha responsabilidade é com minha
gente, com a companhia, com minha Lizard e com a nossa mercadoria. Se
eu tiver que ajudá-los, terá de ser por minha livre e espontânea
vontade.
Parou para
pensar um pouco. Rex aproveitou a pausa e colocou a Lizard no rumo
certo. Voavam agora diretamente para o sol amarelo. A velocidade não
passava de três décimos da da luz. Dentro de uma hora chegariam ao
sol amarelo, caso não se desviassem da rota. Parecia, no entanto,
que o capitão havia chegado a uma resolução:
— Acho,
pelo menos, que podemos dar uma olhada na situação deles. Se for
ruim para nós, podemos escapulir a tempo.
Rex
concordou. Assim assumiam em parte um compromisso. Se houvesse mesmo
homens em apuro, o barba-ruiva sabia o que tinha a fazer.
Meia hora
depois, ficaram cientes de que o sol amarelo tinha quatro planetas. O
mais próximo do sol não entrava em cogitação, mas os outros três
podiam servir de refúgio para náufragos.
— Smith!
Muito
assustado, o telegrafista quase que arranca os aparelhos da parede,
pois ao ouvir a voz do capitão, deu um salto.
— Pronto,
comandante! — respondeu ele.
— De
onde vêm os sinais de rádio?
Smith
estremeceu.
— Os
sinais, no momento, silenciaram. Mas fiz uma orientação completa,
estou quase terminando os cálculos.
— Ligeiro
com isto!
Smith
desapareceu na sua cabina e voltou com um papel na mão.
— É
apenas um cálculo, senhor, mas certamente o vai ajudar.
— Quanto
à direção, este cálculo está certo?
— A
direção está absolutamente certa, senhor, agora quanto à
distância...
— Esta
não tem maior importância — explicou Graybound. — Pode ir
embora e fique firme na escuta. Ao menor sinal, me avise, entendido?
— Certo,
senhor — respondeu Smith, já a caminho de sua cabina.
No fundo,
o radiotelegrafista tinha grande respeito por Graybound. Não lhe
levava a mal as brincadeiras malucas, pois era bem pago no seu
serviço. Desde que deixou a Frota Espacial, por um pequeno deslize,
deu graças a Deus por poder trabalhar na “Globetrotter
das Estrelas”,
que não dava muita importância à vida pregressa de seus homens. O
essencial era ser competente.
Graybound
deu a Rex o papel com os cálculos.
— A
direção parece estar muito clara — o primeiro-oficial comparou os
dados com os números na tela do computador de bordo.
— O
segundo planeta... Se estes sinais vêm de algum lugar, só pode ser
do segundo planeta. Vamos conferir?
— Claro
que vamos. Para isto estamos aqui.
Rex
sorriu, balançando a cabeça. Houve um instante de silêncio, e este
logo foi aproveitado pela voz rachada do louro:
— Quero
sair daqui!
O capitão
não se deu ao trabalho de virar para trás, disse apenas:
— Cale a
boca, estamos ocupados. Mas a resposta não demorou:
— Vagabundos!
Fingidos!
Graybound
contemplou por uns instantes suas mãos pesadonas e disse:
— Sei,
minhas queridas, que vocês gostariam de torcer o pescoço deste
papagaio sujo. Eu também gostaria de fazê-lo. Mas ele não tem
culpa de sua burrice. Seus antepassados viviam nas proximidades de
Hiroshima, como vocês devem saber. O desgraçado nasceu lá também.
Pertence a uma espécie que sofreu mutação e isto alterou seus
miolos. Acha que é melhor do que os demais papagaios, enquanto não
passa de uma ave boba e tagarela. Agora que vocês sabem de tudo,
tenham paciência com ele, como eu tenho.
Rex não
se deixou atrapalhar em seu serviço. Estava acostumado a ver
Graybound falar consigo mesmo, ou, como nesta ocasião, com suas
próprias mãos. Já que o louro calara a boca e se fazia agora de
melindroso ofendido, tivera tempo de terminar os cálculos.
— Claro
que é o segundo planeta. Em poucos minutos vamos entrar em sua
atmosfera. Se nossos instrumentos estão funcionando bem, diria que o
ar do planeta é muito bom.
Os olhos
de Graybound adquiriram de repente um estranho brilho.
— O
sistema está registrado?
Rex acenou
negativamente.
— Não,
não consta do catálogo. Por quê?
— Talvez
tenhamos sorte e encontremos aí bons minérios e outras
matérias-primas. Aí, pelo menos nossa viagem não seria perdida.
Rex
consultou novamente os instrumentos.
— Até
agora não tenho nenhum valor exato. Está muito difícil de se
avaliar a superfície, que parece nem existir. Não se distinguem
continentes, tudo parece sem contornos, como se fosse uma massa
plana.
— Ótimo
— acudiu o capitão — ao menos assim não corremos o risco de
morrermos afogados, se tivermos uma aterrissagem infeliz.
— Puxa!
Como é que você pode dizer uma besteira desta?
— Foi
uma simples brincadeira — disse o velho comandante, sorridente e
olhando para a tela, onde se via com nitidez o misterioso planeta. —
Mas isto está parecendo muito esquisito, você não acha? Que dizem
os analisadores?
— Aí é
que está a questão — sentenciou Rex, observando os valores
registrados nos instrumentos. — Constata-se a presença de muitos
elementos, mas nem um só anorgânico. Um planeta não pode se compor
apenas de elementos orgânicos.
Graybound
olhou confuso para Rex.
— Que
você está dizendo? A superfície de todo o planeta está composta
só de elementos orgânicos, isto é impossível.
— Sei
que é impossível. Mas você acha que os instrumentos estão
mentindo? Ou estamos ficando loucos?
— Orgânico!
— repetia o capitão, admirado. — Quem sabe, o planeta tem uma
densidade demográfica tão grande que os raios analíticos de
pesquisa não conseguem penetrar, mas são simplesmente refletidos?
Em poucas
palavras, Rex destruiu esta teoria absurda.
— Os
valores auferidos podem ter validade em parte até uma certa
profundidade, vamos dizer duzentos metros abaixo da superfície. Você
pode me explicar como isto é possível, sendo que...
— Está
certo — disse o velho numa evasiva. — Foi só um palpite meu.
E
continuou olhando para a tela, onde o planeta já estava bem maior.
Seu albedo, isto é, o poder de reflexão do seu solo, era muito
diminuto. A luz do sol amarelo não chegava propriamente a ser
refletida pela superfície.
— É
tudo cinza-escuro e sem relevo — constatou Rex. — Nunca vi uma
coisa assim. Nem serras, nem vales, nada de rios ou de florestas. Nem
mesmo vegetação. E no entanto, tudo é orgânico. Uma contradição,
acho eu.
O capitão
se ergueu.
— Smith!
Nenhum sinal mais? — perguntou ele.
— Não,
tudo calmo no rádio. Graybound sentou-se de novo.
— O
coitado é um imbecil, mas não tem culpa de ser assim. Como podemos
então encontrar os pobres náufragos?
— Será
que o rádio deles enguiçou?
— Provavelmente.
Primeiro, transmitiram em hiperimpulso, portanto devem estar numa
nave moderna. Depois vieram simples sinais, que acabaram silenciando.
Temos de supor que sua instalação de rádio não está mais
funcionando. Por quê?
Rex nada
respondeu, porque não sabia mesmo. Fez com que a Lizard começasse a
circunvoar o planeta e penetrasse bem mais na camada de ar. Os
valores nas escalas dos analisadores não se alteraram. Lá embaixo,
na superfície, não havia mesmo matéria anorgânica.
Na mente
de Graybound começava a surgir uma leve suspeita, mas ele logo a
afastou. Mas não conseguiu tranqüilizar-se. E cada vez mais, lhe
parecia ser a única conclusão lógica, que se podia deduzir dos
dados das medições. Mas as palavras doidas do papagaio o arrancaram
de seus pensamentos.
— Você
tem razão, monstro vermelho! O capitão não se zangou com a ofensa.
Pareceu
não ter escutado. Só isto bastava para comprovar que estava
passando por um descontrole emocional.
— Você
sabe ler pensamentos, não é? — dizendo isto, apoiou-se no
espaldar da poltrona e olhou desesperado para Rex: — Será possível
que o planeta é orgânico, que ele viva?
O
primeiro-oficial era, antes de tudo, um homem realista, que não se
ligava muito nas coisas sobrenaturais. Sabia, porém, que nos
infinitos confins do Universo podia-se deparar com verdadeiros
milagres, com fenômenos que a simples razão humana não explicava.
Sabia também que, no decorrer da História, foram descobertas
estranhas formas de vida extraterrenas. Mas todas estas formas de
vida possuíam uma certa afinidade, havia sempre, no mínimo, um
paralelo entre elas.
— Um
planeta vivo? — começou Rex a gargalhar. — Não, isto nunca
existiu. E como poderia ter surgido uma coisa assim?
Um olhar
casual para o analisador o obrigou a ficar quieto. A superfície
cinza e monótona estava agora mais nítida. De cima, parecia de fato
um mar de leve ondulação que, de repente, tivesse se solidificado,
em pleno movimento das vagas. É claro que não havia espuma, mas lá
estavam pequeninas colinas e mansos vales, que só se percebiam pela
ampliação da imagem.
Graybound
continuava apontando para baixo.
— E isto
deve ter vida? — perguntou indeciso.
— Acho
que sim! — exclamou Rex.
Os
instrumentos, porém, diziam exatamente o contrário.
Smith
apareceu na porta.
— Será
que devo transmitir alguns sinais? Pode ser que eles respondam.
Graybound
despertou de suas fantasias.
— Você
quer a todo custo jogar este bando de gente nas nossas costas, não
é? Ainda não sabemos bem do que se trata. Além do mais, temos
agora outros problemas. Espere um pouco, até receber nova
informação, entendido?
— Entendido,
chefe.
A cabeça
do Toureiro desaparecera entre as penas da asa. Estava murmurando
alguma coisa, em voz bem mais fraca:
— Socorro,
a polícia está chegando!
Depois
resolveu cochilar por alguns minutos.
— Se
eles aterrissaram, teremos que ver a sua nave. Pelo menos ela não
poderá ser exclusivamente de matéria orgânica — dizia Rex. — O
analisador haveria de reagir e apontá-la.
— Concordo
— acudiu o capitão, já mais aliviado com o silêncio do papagaio.
— Então, vamos procurar primeiro a espaçonave.
Assim o
problema do “planeta
vivo”
passou para um segundo plano, embora não fosse esquecido.
Voavam a
baixa altura, com os olhos fixos na superfície. No lado da noite, a
escuridão era total, pois a luz das estrelas não era refletida. Mas
o sol não demorou a aparecer no horizonte e tudo ficou claro. Mas
não viam nem sinal da nave procurada.
O planeta
tinha mais ou menos o tamanho da Terra, com valores de gravitação
quase idênticos. Naturalmente, precisavam de muito tempo para
percorrer toda sua superfície.
De
repente, Rex deu um pulo de sua poltrona e apontou para a tela.
— Olhem,
que é aquilo? Graybound pareceu despertar de um sonho.
— Onde?
— Exatamente
na direção em que voamos. Diminua a velocidade para vermos melhor.
Será que são eles?
— Sim!...
Os náufragos?
Graybound
já havia reconhecido os vultos de quem Rex falava. De fato, lá
embaixo moviam-se alguns vultos, talvez sete ou oito, não restava
dúvida. Mas havia algo de errado com eles.
Rex, com
muito jeito, manobrou o aparelho bem junto do grupo e ligou os campos
antigravitacionais. Assim a Lizard pairou sobre os poucos homens...
se é que eram homens.
O capitão,
aos poucos, começou a ter suas dúvidas. Primeiro, foi um sentimento
indefinido, depois uma conclusão mais lógica. Aqueles vultos não
mostraram nenhuma reação com o aparecimento da Lizard sobre eles.
De qualquer maneira era uma coisa muito esquisita. Talvez tivessem
emitido imperceptíveis sinais de alarme. Mas, mesmo assim!
— Desça
mais!
E a Lizard
abaixou de encontro ao grupo. O capitão não os perdia de vista e
eles ficaram parados.
Só então
foi que Graybound reparou não terem eles cabeças...
4
— Tenente
Sikhra!
O
corpulento nepalês veio correndo.
— Pronto,
sir.
Rhodan
apontou para os vultos lá embaixo, que se distinguiam muito pouco na
meia-luz do horizonte. No momento, estavam parados, imóveis.
— Pegue
sua gente e procure averiguar quem são ou talvez o que é aquilo.
— O
senhor está se referindo...?
— Não
tenho nenhuma certeza. Eu mesmo me pergunto como é possível terem
surgido de repente seres humanos nesse planeta. Mesmo sendo um tanto
parecidos com homens têm um aspecto estranho. Vá, por favor, mas ao
menor, sinal de ataque, usem as armas.
Bell, de
pé junto de Rhodan, esperou até que Sikhra partisse, para depois
falar:
— O que
houve, Perry? Até hoje você nunca se havia recusado entrar em
contato com inteligências desconhecidas. Quem sabe elas podem nos
ajudar!?
Rhodan
continuava olhando na direção do grupo. Abanou a cabeça e apontou
para o solo lá embaixo.
— Você
já imaginou o que pode ser aquilo? Você acredita mesmo que se trata
de pedra? Ou de barro ou lama? Quando nosso Space-Jet afundou, você
não reparou em nada?
— No que
devia eu ter reparado?
Rhodan deu
de ombros e olhou inquisitivamente para Claudrin, que estava também
de pé ao lado de Bell.
— Também
o senhor não percebeu nada, major?
— Que eu
saiba, não. Rhodan aspirou profundamente.
— Quando
o disco estava pousando, não me passou despercebido um fato.
Reparei, então, num funil sob o bojo do disco. Abriu-se numa
gigantesca garganta, como que para engolir o aparelho. Compreenda-me
bem, major. O barro ou lama, ou como o queiram chamar, recuou ainda
antes que o peso do disco pudesse afundá-lo. Portanto, recuou por
si, independente de qualquer compressão de cima.
O major
olhava atônito para Rhodan, enquanto Bell, nervosamente, mudava o
apoio do corpo de uma perna para outra.
— Isto
me levou a uma suposição muito doida, mas eu não queria assustar
ninguém. O brejo, e agora estou certo disso, tem vida própria. Pode
até pensar e agir. Foi ele quem afundou o disco para nos cortar toda
possibilidade de fuga.
— Perry...
isto é uma coisa absurda... Não... Horrível!
Bell
estava branco como cera. O círculo dos ouvintes aumentara de
repente. Todos se esqueceram do comando de ação de Sikhra.
— Não é
nada de absurdo, Bell. É uma coisa possível, real. Mais tarde, os
especialistas poderão nos explicar melhor. No momento, temos de
aceitar a realidade, aliás a terrível realidade, de que nos
encontramos com uma inteligência estranha, originada da conjunção
de todas as células existentes neste planeta. Uma espécie de ameba
gigantesca. Através dos relatos de expedições de exploradores,
sabemos que um fato como este já foi constatado mais de uma vez, com
a diferença de que nenhuma destas expedições teve a coragem de
aterrissar num mundo assim e, para nós, não houve opção.
— Uma
única inteligência, tão grande que pode abranger um planeta —
falou Bell, balançando a cabeça e olhando para o chão, num misto
de horror e curiosidade. — Realmente, não consigo acreditar nisso.
Por que que ela não nos devora?
— Como
devorou nosso jato? — refletiu Rhodan, hesitando. — Francamente,
não sei. Além disso...
Foi
interrompido. Na extremidade da fila humana, alguém estava gritando.
Depois, ouviu-se os disparos energéticos e um clarão vivo se
espalhou pelo ar. Rhodan arrancou sua arma do cinturão e saiu
correndo na direção do comando de ação do Tenente Sikhra. Alguns
homens corajosos o seguiram.
Conforme
lhe relatou Sikhra, o que aconteceu foi o seguinte:
Os seis
homens do comando se aproximaram do grupo dos desconhecidos, que no
momento havia parado. Os vultos tinham traços humanos, mas nada de
comum com os homens. Constituíam-se do mesmo material que o amorfo
protozoário. Não reagiram a nenhum apelo. Então, Sikhra apanhou um
farolete e dirigiu o jato de luz de encontro aos seres estranhos. No
mesmo instante, um fluxo de vida lhes penetrou. Vagarosamente,
colocaram-se em movimento e se dirigiram contra os seis homens.
Quando o primeiro deles alçou o enorme braço em torno de um cadete
e começou a querer afundá-lo no chão, Sikhra teve que abrir fogo.
Rhodan
chegou a ver, pessoalmente, o cadete gritando desesperado. Seria
completamente sem sentido atirar no atacante, pois com isso o terrano
poderia ser atingido.
A massa
cinzenta do tal barro já lhe havia chegado até o peito. O monstro
amorfo, que ainda agarrava com os dois braços o pobre cadete, foi se
unindo de novo com a massa comum do solo, de onde se originara.
Acabou se dissolvendo no chão mole, levando consigo sua vítima.
No mesmo
instante, Rhodan compreendeu a gravidade da situação. Sabia que
aquele seria o destino de todos, caso não ocorresse um milagre.
O monstro
do planeta orgânico não possuía apenas uma determinada
inteligência, mas também um notável poder de imitação. Viu nos
homens uma presa fácil e logo se moldou num corpo semelhante ao
deles. Não havia nenhuma vantagem em destruir estas imitações,
pois surgiriam outras iguais: milhares ou mesmo milhões, se
necessário fosse.
De
qualquer maneira, teriam de lutar. Levaria algum tempo para que o
monstro plasmasse outras imitações. E não havia tempo a perder!
Os
pensamentos atropelavam-se no cérebro de Perry.
— Gucky!
O
rato-castor se materializou junto de Rhodan.
— Meu
amigo, puxe o cadete para fora. Por telecinésia, hein! Não se
aproxime muito.
Gucky
compreendeu. Concentrou-se na sua missão e emitiu o fluxo energético
de seu cérebro. As forças telecinéticas agarraram o jovem cadete e
o foram erguendo lentamente do “brejo”,
que fazia tudo para retê-lo.
— Sikhra!
— disse Rhodan ao tenente — destrua todas estas imitações, para
que elas não ataquem mais ninguém.
Os cinco
elementos restantes do pelotão abriram um fogo mortal. Seu escrúpulo
já havia acabado à vista do que acontecera com um colega. Os raios
energéticos dissolveram aquelas figuras horrendas e a massa
incandescente foi absorvida pelo solo.
Naquele
momento, sentiu-se um forte movimento vibratório, como aquele
provocado por uma pedra ao cair na água, com a única diferença de
que as ondas são mais lentas.
Será que
o monstro inteligente estaria sentindo dores?
Rhodan não
o sabia. E mesmo não lhe interessava saber. Tinham é que salvar a
própria vida, pois estavam sendo atacados por um ser materialmente
muito superior a eles.
Nesse meio
tempo, Gucky, sem sair do lugar, acabara de arrancar o jovem cadete
das entranhas daquele chão misterioso. Os últimos pedaços da massa
cinzenta caíam no chão. E Gucky entregou o rapaz aos seus colegas.
— Vamos
— disse Rhodan. — Não podemos ficar parados no mesmo lugar, para
não permitir que o monstro tenha tempo de fazer outras imitações.
Acho que ele precisa de algum tempo para isto.
Puseram-se
a caminho. O fim da fila era fechado por Sikhra e seus rapazes, que
constantemente estavam olhando para trás, para descobrirem a tempo
qualquer tentativa de ataque.
O primeiro
encontro fora bem superado.
*
* *
Já estava
ficando escuro. As luzes fortes dos faroletes lhes mostrava o
caminho. Mas podiam também andar sem iluminação. Não havia nenhum
empecilho à sua frente. A paisagem era aquela monotonia de sempre.
Rhodan
caminhava na frente. A seu lado, Claudrin e Bell. Gucky seguia com os
três mutantes e, geralmente, era carregado por Ivã Goratchin.
Ajeitava-se comodamente entre as duas cabeças do gigante. John
Marshall e Tama Yokida conversavam em voz baixa sobre as últimas
experiências. Mas a conversa mais animada era a do grupo da frente,
Rhodan, Claudrin e Bell.
— Como é
que nós podemos sair daqui?
— perguntou
Bell, que não estava apreciando muito aquela longa caminhada. — O
monstro é onipresente, isto é, acha-se em toda parte. Estamos
sempre correndo de encontro a ele.
Rhodan
concordou.
— É
verdade. Mas enquanto permanecermos em movimento não haverá ponto
de apoio para o ataque. Temos que estar em fuga constante, até que
alguém nos venha salvar. Meu caro Bell, nunca estivemos numa
situação tão desesperadora como esta.
— Mas a
inteligência do monstro não é como a nossa — tentou Claudrin
amenizar o pessimismo que havia no olhar de todos.
— Fosse
ele igual a nós, ter-nos-ia devorado.
— Acho
que não pode fazer isto — ponderou Rhodan, que há pouco tempo
tivera uma longa conversa com o médico Gorl Nkolate. — Este ser
coletivo deve pensar muito lentamente e age de igual maneira.
Quando ele
engoliu o jato, sentimos isto. Se ficássemos mais tempo no mesmo
lugar, certamente nos aconteceria a mesma coisa.
— E
enquanto estivermos em movimento, não nos poderá acontecer nada? —
perguntou Bell, visivelmente aliviado. — Não podemos ficar andando
a vida toda.
— Somos
obrigados a isso, Bell. Não nos resta outra opção.
— E
quando é que vamos dormir?
— Já
pensei nisto. Podemos arranjar um período para dormir. Enquanto
cinco ou dez homens descansam, os outros carregam-nos. Mas, esperemos
até o clarear do dia. Com a luz do dia, talvez surjam outras
possibilidades.
E
continuaram caminhando. Acima deles, aquela infinidade de estrelas;
abaixo, aquela pele elástica de um ser vivo... faminto.
*
* *
O dia
começou a raiar. E então aconteceu o que há tanto tempo temiam:
formando forte silhueta contra o sol da manhã, surgiram bastante
nítidas as primeiras imitações!
Durante
toda a noite, nada acontecera. Dormiram tranqüilamente, sendo
carregados em revezamento constante. Enquanto caminhavam,
alimentaram-se. E, agora que estava claro, o monstro reiniciava seus
ataques. Eram pelo menos duzentos vultos, que caminhavam lentamente
de encontro à gente de Rhodan. Eram maiores que os do dia anterior,
mas não portavam armas. Tinha-se a impressão de que o ser
inteligente não podia copiar nenhuma matéria anorgânica.
— À
direita também há alguns! — exclamou alguém das últimas
fileiras, — Eles nos cercaram.
Vinham
também da esquerda e de trás. Centenas, milhares.
Rhodan
sentiu uma fraqueza nas pernas. A princípio, pensou ser sinal de
esgotamento físico, mas depois constatou com terrível clareza que
se tratava mesmo de medo. Ele, Perry Rhodan, tinha medo. E não lhe
era nenhum consolo saber que todos os demais também estavam com
medo. A situação era de desespero e cada um via a morte diante de
si, tão horrenda, tão nojenta. Podiam adiá-la por uns momentos,
mas até quando?
Bell
estava branco e seu cabelo vermelho, hirsuto. Mas desta vez não
havia ninguém para achar a cena engraçada. Nem mesmo Gucky.
— Vamos
ser tragados? — perguntou o rato-castor, que ainda continuava sendo
carregado por Ivã, o mutante de duas cabeças.
Rhodan
sentia os olhares de todos convergirem para ele.
— Ainda
não, meu amigo — disse ele. — Se tivermos que morrer, não será
de braços cruzados.
Olhou em
volta e enfrentou firme a inquietação de sua gente. Havia
determinação no semblante do administrador.
— Vamos
forçar uma passagem por entre eles, e até que se reúnam de novo,
já estaremos longe. Não sei se vai dar resultado. Mas enquanto
houver um sopro de vida em nós, temos que tentar e não podemos
desanimar.
Balançaram
a cabeça afirmativamente e tiraram a arma do cinturão. Rhodan não
esperava outra coisa. Olhou pensativo para Ivã Goratchin. O
“detonador”
seria um trunfo de reserva.
— Ainda
não sei com clareza — continuou Rhodan — por que razão o
monstro orgânico faz questão de imitar nossos corpos, quando nos
quer atacar. Quem sabe é porque nunca viu outra forma de corpo,
outra forma de vida e acha que só nos pode vencer, usando nossa
própria imagem? Parece-me que deve “pensar”
que, isoladamente, somos pequenos e fracos para resistir. Mas tudo
isto não passa de um palpite meu.
Virou-se
de repente para Gucky e John Marshall.
— Vocês,
telepatas, não conseguem captar nenhum impulso mental emanado desse
monstro?
Os dois
fizeram um gesto que não.
— É
pena! Teremos então que agir como nos manda o instinto de
conservação. Tenente Sikhra, o senhor comanda a segurança na
retaguarda. Major Krefenbac, cubra o lado esquerdo e o senhor,
Claudrin, o lado direito. Bell e eu ficamos na linha da frente. Tenho
a impressão de que o monstro está disposto a atacar. Na direção
que seguimos, até agora sem interrupção, deve existir alguma coisa
que nos possa proteger. Por que razão, pois, que o monstro nos quer
cortar este caminho? Acho que vocês estão me compreendendo.
Continuaram
caminhando. As imitações de trás não se aproximaram. Mas as
outras, as laterais e as da frente, duplicaram sua velocidade.
— Fogo!
— ordenou Rhodan, decidido. Seu medo não existia mais. O frio
metal de sua arma lhe aumentou a confiança. O mesmo devia estar
acontecendo com toda sua gente. Até os cabelos de Bell estavam
assentados, sendo que também seu rosto tinha o vermelho “sadio”
de quem está zangado.
De vinte
armas pesadas jorravam jatos Incandescentes encontrando facilmente
seu alvo. Os monstros em forma humana quedavam parados, assim que
eram atingidos. Era como se algo dentro deles desligasse. Ficavam
incandescentes e iam derretendo e, ao mesmo tempo, imergindo na massa
cinza do solo, para se unir a ela. Será que se tornariam matéria
morta?
Já estava
aberta a passagem. Quando alcançou a largura desejada, os terranos
irromperam. No momento em que o Tenente Sikhra atingiu o fim da
passagem e olhou para trás, viu que os monstros se preparavam para
persegui-los.
— Vamos
tomar uma boa dianteira — explicou Rhodan — pois só assim
teremos uma pausa. Durante o dia, isto não pode ser perigoso.
Os
monstros ficaram para trás e depois de algum tempo sumiram no solo
escuro.
Caminharam
uma hora sem parar. Só então Rhodan ordenou uma parada para o
repouso. A maioria dos homens caiu exausta. Estavam muito cansados.
Fecharam os olhos e tentaram dormir. Rhodan foi o único que, apesar
de não ter pregado o olho um instante, não quis descansar. Não
conseguia se livrar de um pressentimento de que novas surpresas o
esperavam, embora o monstro se mantivesse “calado”
na última hora. Assim pensando foi fazer uma ronda em companhia de
Bell e de Claudrin.
Víveres
existiam em abundância, como também cargas para as armas
energéticas.
Estas
últimas, porém, talvez não fossem suficientes para mais cinco ou
seis ataques. Depois disso, só restava mesmo Ivã Goratchin. O
mutante de duas cabeças tinha o estranho dom de, mesmo a grande
distância, poder transformar qualquer matéria em energia atômica.
Depois,
Rhodan sentou-se no chão e sentiu a leve vibração do solo
enganador. Não chegou a afundar, mas não estranharia se isto
acontecesse. A ondulação continuava até se perder de vista no
horizonte. Aquela massa orgânica do monstro cobria o planeta. Será
que todo o planeta? Ou havia lugares não cobertos pela massa
orgânica? Talvez os píncaros das montanhas?
Rhodan
maldisse sua afobada aterrissagem. Deviam ter dado várias voltas
pelo planeta para examiná-lo mais atentamente. Teriam, pelo menos,
uma resposta para esta pergunta.
Seu olhar
se deteve num ponto no horizonte. Parecia uma corcova, baixa e
arredondada. Se a distância não o estivesse enganando, aquela
saliência tinha o diâmetro de uns cem metros. Era uma coisa fora do
comum, pois, até então, o monstro, ou melhor, o solo não formara
nenhuma elevação maior.

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