terça-feira, 30 de agosto de 2016

P-101 - O Globetrotter das Estrelas - Clark Darlton [Parte 2]

Deram duas voltas em torno do planeta, a baixa altura, sem ver nada de importante. Nenhuma grande saliência, nem serras, nem vales. Apenas uma superfície levemente ondulada, sem nenhum característico.
Que planeta esquisito! — constatou
Bell, em voz baixa.
Rhodan era da mesma opinião, mas não disse nada. Não queria distrair Claudrin, durante a arriscada manobra de aterrissagem, que estava por acontecer. O major deve ter percebido o pensamento de Rhodan.
Podemos descer em qualquer lugar.
Lá embaixo, o solo apresenta-se apenas ondulado. Vamos tentar?
Rhodan fez sinal que sim. — Preparar para aterrissagem — ordenou ele ao primeiro-oficial. — O planeta parece ser desabitado, mas distribuam armas leves. Todos devem usar uma pistola energética. O Tenente Sikhra, com os rapazes de seu comando especial, devem ser os primeiros a pisar no solo deste mundo desconhecido. Só depois que ele avisar não haver perigo, é que os outros poderão abandonar o jato. Não nos devemos expor a uma outra catástrofe.
O senhor quer dizer que...
Eu quero dizer que há alguma coisa que não está dando certo com o nosso jato. Vamos acampar bem longe do Space-Jet. Só depois os técnicos irão ver onde é que está o defeito. E, certamente, o descobrirão.
Embora a direção lhe causasse dificuldades, o Major Claudrin fez uma descida suave, muito mais suave do que se podia supor. Ninguém sentiu o solavanco do contato com o solo. Era como se este fosse de molas. As telas mostravam o chão em seus mínimos detalhes: cinza e sem vegetação, como já haviam constatado antes. Não se podia, porém, saber se era rocha pura.
Com cinco dos seus homens, o Tenente Sikhra deixou o jato. Estavam em contato com Rhodan e os demais tripulantes através do rádio. Sikhra era um nepalês, que, apesar de conhecido por corajoso e temerário, só agia com cautela, principalmente quando não podia saber o que ia encontrar no caminho.
A escotilha externa se abriu. O ar do planeta era fresco. O sol estava alto no céu, mas não irradiava muito calor. Parecia que seus raios não eram suficientes para aquecer a superfície do planeta. Ao menos, o solo não refletia nada daquele calor, que talvez estivesse sendo sugado pela superfície.
Sikhra foi o primeiro a descer pela escada metálica e a pisar no solo do novo mundo, que ainda não constava de nenhum mapa dos terranos. Ainda não tinha nome, mas isto não demoraria a acontecer. O chão pareceu a Sikhra macio demais, mas ainda não desconfiava de nada. Pôde parar de pé, e não avistou nenhum adversário. No momento, isto lhe bastava. Fez um sinal para os seus, pedindo que o seguissem.
Caminharam um trecho para frente. Sikhra tinha a impressão de estar andando sobre as ondas de um mar solidificado. Assim também parecia toda a paisagem, ondulada até o horizonte, sem nenhuma saliência maior. Uniforme, monótona.
O ar é bom — comunicou ele a Claudrin. — Nada de vida até agora e não há muito calor. O solo... é de couro!
Sikhra se agachou e tocou outra vez no solo com a mão, para ter certeza da informação que prestara. Era duro, mas de qualquer maneira não era rocha, parecia mesmo com um couro bem grosso.
Couro? — repetiu o comandante, espantado.
É um tipo de solo desconhecido. Não é terra, nem pedra. Acho melhor o senhor mandar um especialista.
Continue observando, tenente.
Quando Sikhra, por mera coincidência, se virou para trás, a fim de ver o Space-Jet, ficou abismado!
Será que a espaçonave estava numa depressão? Ou havia afundado neste intervalo? Percebeu também que seus pés estavam entrando demais no chão. Chegou então a uma conclusão:
O solo não tem estabilidade, capitão! Está cedendo. O disco já afundou bastante.
Volte, imediatamente, Sikhra, depressa!
Começou a correr. Tinha a impressão de que centenas de garras puxavam seus pés. Quando se aproximou do jato é que notou seu erro.
Os apoios telescópicos estavam completamente afundados no chão escuro. Deixou que seus homens subissem antes dele.
Mal se fechara a escotilha externa, ouviu-se o ronco da propulsão. Sem se preocupar com isto, correu até a central de comando, para fazer pessoalmente seu relatório. Nos corredores entupidos de gente, não sentiu nenhum movimento do disco voador. O ronco dos motores continuava.
Ao chegar ao posto de comando, viu Rhodan de pé ao lado de Claudrin. Os dois observavam a tela de bordo, onde se descortinava a monótona paisagem do planeta.
O primeiro-oficial, Major Krefenbac, veio ao encontro de Sikhra.
Tenho a impressão de que sua constatação nos veio muito tarde. Aterrissamos num planeta de lama.
Não, major. Não é lama. É algo muito diferente, tem boa consistência. Os sustentáculos telescópicos do jato afundaram devido ao imenso peso do disco voador. Não se esqueça de que está carregado com oitenta e dois homens. Acho que agora ele não afunda mais.
É, mas não podemos decolar. A força de que dispomos não dá. Alguma coisa retém o jato e não nos permite sair daqui.
Não posso compreender isto — disse Sikhra, perplexo. — Em menos de cinco minutos, que estive fora...
Sikhra, é claro que você não tem culpa nenhuma — disse Rhodan, intervindo na conversa. — Ninguém tem culpa da nossa situação. Acho que estamos diante de um fenômeno. Uma pergunta, Sikhra: o solo sustenta bem o peso de um homem?
Certamente, sir. Só depois de ficar parado por algum tempo num mesmo lugar, foi que percebi o solo ceder.
Não é, portanto, um barro comum — falou Rhodan, pensativo.
Depois de alguns segundos de silêncio, ordenou:
Não desista de sua tentativa, major. Vou providenciar agora para que os homens recebam a ração de alimentos e de água. As armas já foram distribuídas. Devemos contar com a possibilidade de termos que ficar mais tempo neste planeta, onde acamparemos.
Todos deixaram o jato. O sol estava descambando no poente e as sombras se alongavam, sombras estas que pouco se destacavam do chão escuro. Rhodan caminhava na frente com Claudrin. Ninguém temia por qualquer tipo de ataque. Este mundo tinha que ser mesmo despovoado, pois não havia o menor sinal de vida. Isto em plena contradição com aquela agradável atmosfera. Era pensando na atmosfera que Rhodan quebrava sua cabeça.
Como poderia um planeta, com uma camada de ar tão boa, deixar de produzir qualquer tipo de vida? E como ou de onde era renovada esta atmosfera?
Um dos tripulantes, que caminhava mais para o fim da fila, soltou de repente um grito assustador. Rhodan parou e virou-se. Viu então uma coisa que jamais podia ser realidade, talvez fosse um pesadelo, ou uma alucinação devido ao estado em que se encontravam.
Do lusco-fusco da tarde avançada, seguia-os um grupo de seres antropóides, com pernas e braços... mas sem a cabeça! Eram do mesmo tom do solo, escuros, e caminhavam lentamente em direção aos homens de Rhodan.
3



Foi um hipersalto no escuro!
Quando a Lizard se rematerializou e as estrelas puderam ser vistas, as constelações estavam todas desencontradas e deslocadas. O muito experimentado Capitão Graybound não reconheceu nenhuma delas e naturalmente se desandou a xingar e a dizer palavrões.
Aquele chato desgraçado! Por causa dele, perdemos a direção. Será que estamos no mundo para andar por aí em ziguezagues, perdidos no Universo?
O Tenente Rex fez um gesto de quem pede calma.
Não fique tão nervoso assim, Samuel. Não se preocupe, pois logo saberemos onde estamos e então faremos novos cálculos para outros saltos de transição. O principal é que os tais homens da patrulha espacial não nos pegaram. Gostaria de ver a careta furiosa do major que nos queria prender.
Graybound deu uma estrondosa gargalhada. Imaginando a boa peça que pregara no oficial, seu aborrecimento evaporou e ele se esqueceu do tempo perdido.
Estes bonecos de uniforme não mereciam outra coisa — dizia ele, todo prosa. — Seu caçador de homens! O Universo pertence a todos, cada um pode fazer o que quiser. Somos ou não somos livres para andar por aí?
Viva a democracia! Cada um tem o direito de morrer! — berrava Toureiro, batendo as asas.
Graybound olhou espantado para o papagaio.
Esquisito, o Toureiro nunca disse isto. Quem foi que lhe ensinou a dizer estas palavras?
Rex estava pensando numa boa resposta para seu capitão, mas não chegou a tanto. Do posto de rádio, surgiu o raquítico Henry Smith, agitando nervoso os dois braços.
Novo sinal de rádio. O hiper-receptor o registrou.
O rubor subiu novamente à face de Graybound.
O quê? De novo? Não é possível que tenhamos caído mais uma vez nas garras da patrulha espacial. E eu pensava que o Universo fosse infinito...
Trata-se de um curto impulso de socorro, capitão. Durou poucos segundos e foi por acaso que o captei.
Graybound olhou pensativo para o pequeno Henry Smith, conhecido como um homem muito sensível.
Seu idiota! — disse ele, talvez pensando que poderia ocorrer nova inspeção. — Você não pode se afastar um pouco desse rádio desgraçado?
Depois, mais calmo, completou:
Agora, além do nosso atraso, ainda vamos ser obrigados a nos preocupar com assuntos dos outros. De onde veio o impulso?
Smith parecia aniquilado. Estava no umbral da porta, mostrando-se arrasado. Não compreendeu bem onde o raciocínio de seu chefe queria chegar.
De onde vieram os impulsos, perguntei eu.
No seu modo de falar, Graybound deixava antever uma tempestade iminente. Smith estava com a voz quase embargada quando começou a falar:
Direção e distância ainda não estão determinadas, capitão. Isto não é fácil.
Quero saber a localização desta espaçonave em dez minutos e, se os homens da patrulha estiverem atrás deste possível truque, o diabo vai lhe fazer uma serenata.
Smith desapareceu, sem saber o que fazer.
Rex deu uma boa gargalhada, terminando-a com uma frase muito sensata:
Este “telegrafista” é um cômico, mas é perfeito na sua profissão.
O velho capitão da Lizard mirava pensativo a imensidade de estrelas no céu e franzindo a testa perguntou:
Você tem alguma idéia de onde estamos? Olhe um pouco os mapas siderais.
Os dois se debruçaram sobre os atlas, investigando todos os setores. Não conseguiram identificar nenhuma constelação.
Teremos que reconstruir o salto — propôs Rex. — Não nos resta outro meio. Vamos fazer isto, Samuel, é uma brincadeira para nós.
Faça o que você achar melhor — disse o velho desbravador do espaço.
Democracia! — guinchou o louro, deixando cair alguma coisa.
Graybound olhou com ar de desagrado a mancha esbranquiçada no não muito limpo chão de aço, olhando com ar de censura para o tagarela pernóstico:
Porcalhão! Isto também tem alguma coisa que ver com democracia?
Toureiro escondeu a cabeça e ficou olhando com os olhos inteligentes por entre as penas. Estava querendo mostrar-se arrependido. Mas Graybound deu um grito de cólera, tirou o louro de seu ombro e, sem perder tempo, o colocou na gaiola, fechando-a com cuidado. Seu dedo indicador apontou para a areia suja do chão da gaiola, num gesto que dispensava qualquer outra explicação.
Foi depois para a cabina de rádio. Henry Smith tremeu de medo, quando viu o chefe entrando.
Então? Alguma novidade, meu amigo?
Estou quase chegando lá, capitão. A antena de orientação estava na posição errada, daí o atraso. Tenho que calcular de novo a intensidade dos impulsos e...
Não me tapeie com seu lero-lero técnico — disse Graybound, num momento de bom humor, quase sorrindo. — Quero saber a direção e a distância, certo?
Smith continuou no seu trabalho sério.
Ali ao lado, Rex Knatterbul exclamou:
Oba! Samuel, acho que consegui! Puxa vida! Já temos alguma coisa.
O velho capitão bateu amigavelmente no ombro de Smith, esquecendo-se de que lhe podia com isso até quebrar a clavícula. Voltou depois para o posto de comando.
E onde é que nós estamos?
Olhe você mesmo isto aqui. Fizemos um salto de quase vinte mil anos-luz. Como será que a nossa velha carcaça agüentou?
O vozeirão do chefe o interrompeu. Desta vez, estavam expressas a cólera e a vaidade ofendida.
O que você disse? Velha carcaça!... Você está se referindo dessa maneira à nossa Lizard? Mais uma palavra e eu o atiro pelo espaço afora, sem o traje espacial.
Rex apenas sorriu.
Desculpe, não houve má intenção na expressão. Estamos mais ou menos aqui — apontou um lugar do mapa. — É um setor supersaturado de estrelas. Mas é por aqui — tornou a apontar — que temos de abrir caminho para Glatra III.
Ah! Sim, os negócios! Graybound quase que os ia esquecendo, tão preocupado que estava com o pedido de socorro.
Era um homem que não levava muito a sério as leis da sociedade e era de fato um comerciante com muitos “negócios escusos”. Mas se encontrasse alguém em apuros, ali estava ele para fazer todo o possível e o impossível, na tentativa de auxiliar. Esta era sua lei. E nunca desistia mesmo que lhe custasse a camisa do corpo.
Espere um pouco — disse para Rex. — Primeiro temos que saber de onde veio o pedido de socorro... — virando-se para o lado: — Ô, você, rapaz chato, aí do rádio! Ainda não descobriu nada? Não podemos passar as férias aqui. Ande depressa, por favor!
Depois, dirigindo-se para Rex, continuou:
Reconstrua o salto de transição com tal exatidão, que com outro salto idêntico possamos chegar ao local onde encontramos o cruzador. Assim nos orientaremos melhor.
Já está tudo pronto, chefe — disse Rex, sorrindo feliz. E olhando na direção da cabina de rádio: — O rapaz ali está levando mesmo muito tempo. Vamos dar um aperto nele.
Consegui, capitão! — exclamou neste momento Henry Smith, correndo para a cabina de comando. Seu rosto irradiava felicidade. — Distância, mais ou menos de três anos-luz. Direção exatamente cinco graus a bombordo da atual rota. Graybound ficou todo vermelho. — Mais ou menos? — gritou ele com tanta fúria que Toureiro se assustou e escondeu a cabeça. — Que significa isto: mais ou menos? Quero saber a distância exata para fazermos uma transição perfeita. Entendeu isto, sua imitação de telegrafista? Smith agitava nervosamente uma tira de papel. Aproveitou a pausa para dizer depressa:
A distância está marcada com exatidão, capitão. Eu disse apenas “mais ou menos” porque, na realidade, é menos de três anos-luz. Mas tenho os dados exatos aqui.
Dizendo isto, entregou a tira de papel ao capitão. O barba-ruiva a leu, sorriu e fez um sinal amigo para Smith.
Assim está ótimo, meu querido. Você foi cem por cento.
Olhou para o “telegrafista” por alguns segundos, de repente deu um grito furioso:
Desapareça!
E Smith se abrigou na sua cabina de rádio.
Rex apanhou a tira de papel da mão de Graybound e a estudou.
Portanto, dois vírgula oitenta e sete anos-luz. Os impulsos desse rádio devem ser bem fortes, do contrário não os pegaríamos. Se for um desses vagabundos cruzadores da Frota Solar, nós vamos dar o fora. Não tenho nenhuma vontade de ajudá-los.
É claro que o capitão dizia isto só da boca para fora. Haveria de ajudar a qualquer um, mesmo ao seu pior inimigo, se estivesse em apuros. Com aquele velho lobo-do-espaço, ainda valia o antigo provérbio de que numa casca áspera se esconde um grão de qualidade.
Temos de ser um pouco generosos para com eles? — indagou Rex.
E Graybound, olhando surpreso para seu navegador:
E você acha que poderia ser diferente? Vamos acudi-los, imediatamente...
Levou mais uns vinte minutos até que o cérebro eletrônico elaborasse os dados necessários. Logo após, Graybound colocou a Lizard na direção certa e iniciou a transição. Antes disso, instruiu a tripulação para o que ia acontecer, ordenando que as bem camufladas bocas-de-fogo estivessem prontas a fim de entrar em ação a qualquer momento. É claro que ele não ia querer ser enganado por ninguém. Se aquele pedido de socorro fosse uma armadilha, seus articuladores teriam uma bela surpresa com a reação da velha Lizard.
Transição.
Mal apareceram na tela as novas constelações e, de lado, um sol muito amarelo, soou a voz de Smith da cabina de rádio.
De novo os pedidos de socorro, senhor! Origem... vinte minutos-luz.
O velho capitão ficou pensativo. Ele se enganara. Os sinais de socorro vinham do sistema do sol amarelo, ou mesmo de um planeta daquele sistema. Não parecia de uma nave que vagasse pelo espaço. Talvez se tratasse até de náufragos que desejavam ser salvos. O pensamento de ter de encher sua nave com gente estranha e ter de abdicar momentaneamente de seus negócios rendosos era para Graybound tudo, menos agradável. Começou a refletir com mais calma. Primeiro teve vontade de amaldiçoar o radiotelegrafista, embora este simplesmente cumprisse seu dever. Depois maldisse a si mesmo, por ter um coração tão mole.
De repente Graybound teve um estalo:
Quem sabe também outros ouviram os pedidos de socorro e estão vindo para acudir? Esperemos mais um pouco. Seria maravilhoso se pudéssemos ficar livres deste abacaxi. Se permanecermos vagando por aqui, ninguém nos descobrirá. O que você acha, Rex?
Rex Knatterbul, também muito melhor que a fama que dele espalhavam, tinha suas dúvidas.
Pode também ser que eles estejam em extrema necessidade e cada minuto de atraso pode significar sua morte. Não sei ao certo se podemos ou não arcar com a responsabilidade...
Besteira! Que responsabilidade o quê? Minha responsabilidade é com minha gente, com a companhia, com minha Lizard e com a nossa mercadoria. Se eu tiver que ajudá-los, terá de ser por minha livre e espontânea vontade.
Parou para pensar um pouco. Rex aproveitou a pausa e colocou a Lizard no rumo certo. Voavam agora diretamente para o sol amarelo. A velocidade não passava de três décimos da da luz. Dentro de uma hora chegariam ao sol amarelo, caso não se desviassem da rota. Parecia, no entanto, que o capitão havia chegado a uma resolução:
Acho, pelo menos, que podemos dar uma olhada na situação deles. Se for ruim para nós, podemos escapulir a tempo.
Rex concordou. Assim assumiam em parte um compromisso. Se houvesse mesmo homens em apuro, o barba-ruiva sabia o que tinha a fazer.
Meia hora depois, ficaram cientes de que o sol amarelo tinha quatro planetas. O mais próximo do sol não entrava em cogitação, mas os outros três podiam servir de refúgio para náufragos.
Smith!
Muito assustado, o telegrafista quase que arranca os aparelhos da parede, pois ao ouvir a voz do capitão, deu um salto.
Pronto, comandante! — respondeu ele.
De onde vêm os sinais de rádio?
Smith estremeceu.
Os sinais, no momento, silenciaram. Mas fiz uma orientação completa, estou quase terminando os cálculos.
Ligeiro com isto!
Smith desapareceu na sua cabina e voltou com um papel na mão.
É apenas um cálculo, senhor, mas certamente o vai ajudar.
Quanto à direção, este cálculo está certo?
A direção está absolutamente certa, senhor, agora quanto à distância...
Esta não tem maior importância — explicou Graybound. — Pode ir embora e fique firme na escuta. Ao menor sinal, me avise, entendido?
Certo, senhor — respondeu Smith, já a caminho de sua cabina.
No fundo, o radiotelegrafista tinha grande respeito por Graybound. Não lhe levava a mal as brincadeiras malucas, pois era bem pago no seu serviço. Desde que deixou a Frota Espacial, por um pequeno deslize, deu graças a Deus por poder trabalhar na “Globetrotter das Estrelas”, que não dava muita importância à vida pregressa de seus homens. O essencial era ser competente.
Graybound deu a Rex o papel com os cálculos.
A direção parece estar muito clara — o primeiro-oficial comparou os dados com os números na tela do computador de bordo.
O segundo planeta... Se estes sinais vêm de algum lugar, só pode ser do segundo planeta. Vamos conferir?
Claro que vamos. Para isto estamos aqui.
Rex sorriu, balançando a cabeça. Houve um instante de silêncio, e este logo foi aproveitado pela voz rachada do louro:
Quero sair daqui!
O capitão não se deu ao trabalho de virar para trás, disse apenas:
Cale a boca, estamos ocupados. Mas a resposta não demorou:
Vagabundos! Fingidos!
Graybound contemplou por uns instantes suas mãos pesadonas e disse:
Sei, minhas queridas, que vocês gostariam de torcer o pescoço deste papagaio sujo. Eu também gostaria de fazê-lo. Mas ele não tem culpa de sua burrice. Seus antepassados viviam nas proximidades de Hiroshima, como vocês devem saber. O desgraçado nasceu lá também. Pertence a uma espécie que sofreu mutação e isto alterou seus miolos. Acha que é melhor do que os demais papagaios, enquanto não passa de uma ave boba e tagarela. Agora que vocês sabem de tudo, tenham paciência com ele, como eu tenho.
Rex não se deixou atrapalhar em seu serviço. Estava acostumado a ver Graybound falar consigo mesmo, ou, como nesta ocasião, com suas próprias mãos. Já que o louro calara a boca e se fazia agora de melindroso ofendido, tivera tempo de terminar os cálculos.
Claro que é o segundo planeta. Em poucos minutos vamos entrar em sua atmosfera. Se nossos instrumentos estão funcionando bem, diria que o ar do planeta é muito bom.
Os olhos de Graybound adquiriram de repente um estranho brilho.
O sistema está registrado?
Rex acenou negativamente.
Não, não consta do catálogo. Por quê?
Talvez tenhamos sorte e encontremos aí bons minérios e outras matérias-primas. Aí, pelo menos nossa viagem não seria perdida.
Rex consultou novamente os instrumentos.
Até agora não tenho nenhum valor exato. Está muito difícil de se avaliar a superfície, que parece nem existir. Não se distinguem continentes, tudo parece sem contornos, como se fosse uma massa plana.
Ótimo — acudiu o capitão — ao menos assim não corremos o risco de morrermos afogados, se tivermos uma aterrissagem infeliz.
Puxa! Como é que você pode dizer uma besteira desta?
Foi uma simples brincadeira — disse o velho comandante, sorridente e olhando para a tela, onde se via com nitidez o misterioso planeta. — Mas isto está parecendo muito esquisito, você não acha? Que dizem os analisadores?
Aí é que está a questão — sentenciou Rex, observando os valores registrados nos instrumentos. — Constata-se a presença de muitos elementos, mas nem um só anorgânico. Um planeta não pode se compor apenas de elementos orgânicos.
Graybound olhou confuso para Rex.
Que você está dizendo? A superfície de todo o planeta está composta só de elementos orgânicos, isto é impossível.
Sei que é impossível. Mas você acha que os instrumentos estão mentindo? Ou estamos ficando loucos?
Orgânico! — repetia o capitão, admirado. — Quem sabe, o planeta tem uma densidade demográfica tão grande que os raios analíticos de pesquisa não conseguem penetrar, mas são simplesmente refletidos?
Em poucas palavras, Rex destruiu esta teoria absurda.
Os valores auferidos podem ter validade em parte até uma certa profundidade, vamos dizer duzentos metros abaixo da superfície. Você pode me explicar como isto é possível, sendo que...
Está certo — disse o velho numa evasiva. — Foi só um palpite meu.
E continuou olhando para a tela, onde o planeta já estava bem maior. Seu albedo, isto é, o poder de reflexão do seu solo, era muito diminuto. A luz do sol amarelo não chegava propriamente a ser refletida pela superfície.
É tudo cinza-escuro e sem relevo — constatou Rex. — Nunca vi uma coisa assim. Nem serras, nem vales, nada de rios ou de florestas. Nem mesmo vegetação. E no entanto, tudo é orgânico. Uma contradição, acho eu.
O capitão se ergueu.
Smith! Nenhum sinal mais? — perguntou ele.
Não, tudo calmo no rádio. Graybound sentou-se de novo.
O coitado é um imbecil, mas não tem culpa de ser assim. Como podemos então encontrar os pobres náufragos?
Será que o rádio deles enguiçou?
Provavelmente. Primeiro, transmitiram em hiperimpulso, portanto devem estar numa nave moderna. Depois vieram simples sinais, que acabaram silenciando. Temos de supor que sua instalação de rádio não está mais funcionando. Por quê?
Rex nada respondeu, porque não sabia mesmo. Fez com que a Lizard começasse a circunvoar o planeta e penetrasse bem mais na camada de ar. Os valores nas escalas dos analisadores não se alteraram. Lá embaixo, na superfície, não havia mesmo matéria anorgânica.
Na mente de Graybound começava a surgir uma leve suspeita, mas ele logo a afastou. Mas não conseguiu tranqüilizar-se. E cada vez mais, lhe parecia ser a única conclusão lógica, que se podia deduzir dos dados das medições. Mas as palavras doidas do papagaio o arrancaram de seus pensamentos.
Você tem razão, monstro vermelho! O capitão não se zangou com a ofensa.
Pareceu não ter escutado. Só isto bastava para comprovar que estava passando por um descontrole emocional.
Você sabe ler pensamentos, não é? — dizendo isto, apoiou-se no espaldar da poltrona e olhou desesperado para Rex: — Será possível que o planeta é orgânico, que ele viva?
O primeiro-oficial era, antes de tudo, um homem realista, que não se ligava muito nas coisas sobrenaturais. Sabia, porém, que nos infinitos confins do Universo podia-se deparar com verdadeiros milagres, com fenômenos que a simples razão humana não explicava. Sabia também que, no decorrer da História, foram descobertas estranhas formas de vida extraterrenas. Mas todas estas formas de vida possuíam uma certa afinidade, havia sempre, no mínimo, um paralelo entre elas.
Um planeta vivo? — começou Rex a gargalhar. — Não, isto nunca existiu. E como poderia ter surgido uma coisa assim?
Um olhar casual para o analisador o obrigou a ficar quieto. A superfície cinza e monótona estava agora mais nítida. De cima, parecia de fato um mar de leve ondulação que, de repente, tivesse se solidificado, em pleno movimento das vagas. É claro que não havia espuma, mas lá estavam pequeninas colinas e mansos vales, que só se percebiam pela ampliação da imagem.
Graybound continuava apontando para baixo.
E isto deve ter vida? — perguntou indeciso.
Acho que sim! — exclamou Rex.
Os instrumentos, porém, diziam exatamente o contrário.
Smith apareceu na porta.
Será que devo transmitir alguns sinais? Pode ser que eles respondam.
Graybound despertou de suas fantasias.
Você quer a todo custo jogar este bando de gente nas nossas costas, não é? Ainda não sabemos bem do que se trata. Além do mais, temos agora outros problemas. Espere um pouco, até receber nova informação, entendido?
Entendido, chefe.
A cabeça do Toureiro desaparecera entre as penas da asa. Estava murmurando alguma coisa, em voz bem mais fraca:
Socorro, a polícia está chegando!
Depois resolveu cochilar por alguns minutos.
Se eles aterrissaram, teremos que ver a sua nave. Pelo menos ela não poderá ser exclusivamente de matéria orgânica — dizia Rex. — O analisador haveria de reagir e apontá-la.
Concordo — acudiu o capitão, já mais aliviado com o silêncio do papagaio. — Então, vamos procurar primeiro a espaçonave.
Assim o problema do “planeta vivo” passou para um segundo plano, embora não fosse esquecido.
Voavam a baixa altura, com os olhos fixos na superfície. No lado da noite, a escuridão era total, pois a luz das estrelas não era refletida. Mas o sol não demorou a aparecer no horizonte e tudo ficou claro. Mas não viam nem sinal da nave procurada.
O planeta tinha mais ou menos o tamanho da Terra, com valores de gravitação quase idênticos. Naturalmente, precisavam de muito tempo para percorrer toda sua superfície.
De repente, Rex deu um pulo de sua poltrona e apontou para a tela.
Olhem, que é aquilo? Graybound pareceu despertar de um sonho.
Onde?
Exatamente na direção em que voamos. Diminua a velocidade para vermos melhor. Será que são eles?
Sim!... Os náufragos?
Graybound já havia reconhecido os vultos de quem Rex falava. De fato, lá embaixo moviam-se alguns vultos, talvez sete ou oito, não restava dúvida. Mas havia algo de errado com eles.
Rex, com muito jeito, manobrou o aparelho bem junto do grupo e ligou os campos antigravitacionais. Assim a Lizard pairou sobre os poucos homens... se é que eram homens.
O capitão, aos poucos, começou a ter suas dúvidas. Primeiro, foi um sentimento indefinido, depois uma conclusão mais lógica. Aqueles vultos não mostraram nenhuma reação com o aparecimento da Lizard sobre eles. De qualquer maneira era uma coisa muito esquisita. Talvez tivessem emitido imperceptíveis sinais de alarme. Mas, mesmo assim!
Desça mais!
E a Lizard abaixou de encontro ao grupo. O capitão não os perdia de vista e eles ficaram parados.
Só então foi que Graybound reparou não terem eles cabeças...
4



Tenente Sikhra!
O corpulento nepalês veio correndo.
Pronto, sir.
Rhodan apontou para os vultos lá embaixo, que se distinguiam muito pouco na meia-luz do horizonte. No momento, estavam parados, imóveis.
Pegue sua gente e procure averiguar quem são ou talvez o que é aquilo.
O senhor está se referindo...?
Não tenho nenhuma certeza. Eu mesmo me pergunto como é possível terem surgido de repente seres humanos nesse planeta. Mesmo sendo um tanto parecidos com homens têm um aspecto estranho. Vá, por favor, mas ao menor, sinal de ataque, usem as armas.
Bell, de pé junto de Rhodan, esperou até que Sikhra partisse, para depois falar:
O que houve, Perry? Até hoje você nunca se havia recusado entrar em contato com inteligências desconhecidas. Quem sabe elas podem nos ajudar!?
Rhodan continuava olhando na direção do grupo. Abanou a cabeça e apontou para o solo lá embaixo.
Você já imaginou o que pode ser aquilo? Você acredita mesmo que se trata de pedra? Ou de barro ou lama? Quando nosso Space-Jet afundou, você não reparou em nada?
No que devia eu ter reparado?
Rhodan deu de ombros e olhou inquisitivamente para Claudrin, que estava também de pé ao lado de Bell.
Também o senhor não percebeu nada, major?
Que eu saiba, não. Rhodan aspirou profundamente.
Quando o disco estava pousando, não me passou despercebido um fato. Reparei, então, num funil sob o bojo do disco. Abriu-se numa gigantesca garganta, como que para engolir o aparelho. Compreenda-me bem, major. O barro ou lama, ou como o queiram chamar, recuou ainda antes que o peso do disco pudesse afundá-lo. Portanto, recuou por si, independente de qualquer compressão de cima.
O major olhava atônito para Rhodan, enquanto Bell, nervosamente, mudava o apoio do corpo de uma perna para outra.
Isto me levou a uma suposição muito doida, mas eu não queria assustar ninguém. O brejo, e agora estou certo disso, tem vida própria. Pode até pensar e agir. Foi ele quem afundou o disco para nos cortar toda possibilidade de fuga.
Perry... isto é uma coisa absurda... Não... Horrível!
Bell estava branco como cera. O círculo dos ouvintes aumentara de repente. Todos se esqueceram do comando de ação de Sikhra.
Não é nada de absurdo, Bell. É uma coisa possível, real. Mais tarde, os especialistas poderão nos explicar melhor. No momento, temos de aceitar a realidade, aliás a terrível realidade, de que nos encontramos com uma inteligência estranha, originada da conjunção de todas as células existentes neste planeta. Uma espécie de ameba gigantesca. Através dos relatos de expedições de exploradores, sabemos que um fato como este já foi constatado mais de uma vez, com a diferença de que nenhuma destas expedições teve a coragem de aterrissar num mundo assim e, para nós, não houve opção.
Uma única inteligência, tão grande que pode abranger um planeta — falou Bell, balançando a cabeça e olhando para o chão, num misto de horror e curiosidade. — Realmente, não consigo acreditar nisso. Por que que ela não nos devora?
Como devorou nosso jato? — refletiu Rhodan, hesitando. — Francamente, não sei. Além disso...
Foi interrompido. Na extremidade da fila humana, alguém estava gritando. Depois, ouviu-se os disparos energéticos e um clarão vivo se espalhou pelo ar. Rhodan arrancou sua arma do cinturão e saiu correndo na direção do comando de ação do Tenente Sikhra. Alguns homens corajosos o seguiram.
Conforme lhe relatou Sikhra, o que aconteceu foi o seguinte:
Os seis homens do comando se aproximaram do grupo dos desconhecidos, que no momento havia parado. Os vultos tinham traços humanos, mas nada de comum com os homens. Constituíam-se do mesmo material que o amorfo protozoário. Não reagiram a nenhum apelo. Então, Sikhra apanhou um farolete e dirigiu o jato de luz de encontro aos seres estranhos. No mesmo instante, um fluxo de vida lhes penetrou. Vagarosamente, colocaram-se em movimento e se dirigiram contra os seis homens. Quando o primeiro deles alçou o enorme braço em torno de um cadete e começou a querer afundá-lo no chão, Sikhra teve que abrir fogo.
Rhodan chegou a ver, pessoalmente, o cadete gritando desesperado. Seria completamente sem sentido atirar no atacante, pois com isso o terrano poderia ser atingido.
A massa cinzenta do tal barro já lhe havia chegado até o peito. O monstro amorfo, que ainda agarrava com os dois braços o pobre cadete, foi se unindo de novo com a massa comum do solo, de onde se originara. Acabou se dissolvendo no chão mole, levando consigo sua vítima.
No mesmo instante, Rhodan compreendeu a gravidade da situação. Sabia que aquele seria o destino de todos, caso não ocorresse um milagre.
O monstro do planeta orgânico não possuía apenas uma determinada inteligência, mas também um notável poder de imitação. Viu nos homens uma presa fácil e logo se moldou num corpo semelhante ao deles. Não havia nenhuma vantagem em destruir estas imitações, pois surgiriam outras iguais: milhares ou mesmo milhões, se necessário fosse.
De qualquer maneira, teriam de lutar. Levaria algum tempo para que o monstro plasmasse outras imitações. E não havia tempo a perder!
Os pensamentos atropelavam-se no cérebro de Perry.
Gucky!
O rato-castor se materializou junto de Rhodan.
Meu amigo, puxe o cadete para fora. Por telecinésia, hein! Não se aproxime muito.
Gucky compreendeu. Concentrou-se na sua missão e emitiu o fluxo energético de seu cérebro. As forças telecinéticas agarraram o jovem cadete e o foram erguendo lentamente do “brejo”, que fazia tudo para retê-lo.
Sikhra! — disse Rhodan ao tenente — destrua todas estas imitações, para que elas não ataquem mais ninguém.
Os cinco elementos restantes do pelotão abriram um fogo mortal. Seu escrúpulo já havia acabado à vista do que acontecera com um colega. Os raios energéticos dissolveram aquelas figuras horrendas e a massa incandescente foi absorvida pelo solo.
Naquele momento, sentiu-se um forte movimento vibratório, como aquele provocado por uma pedra ao cair na água, com a única diferença de que as ondas são mais lentas.
Será que o monstro inteligente estaria sentindo dores?
Rhodan não o sabia. E mesmo não lhe interessava saber. Tinham é que salvar a própria vida, pois estavam sendo atacados por um ser materialmente muito superior a eles.
Nesse meio tempo, Gucky, sem sair do lugar, acabara de arrancar o jovem cadete das entranhas daquele chão misterioso. Os últimos pedaços da massa cinzenta caíam no chão. E Gucky entregou o rapaz aos seus colegas.
Vamos — disse Rhodan. — Não podemos ficar parados no mesmo lugar, para não permitir que o monstro tenha tempo de fazer outras imitações. Acho que ele precisa de algum tempo para isto.
Puseram-se a caminho. O fim da fila era fechado por Sikhra e seus rapazes, que constantemente estavam olhando para trás, para descobrirem a tempo qualquer tentativa de ataque.
O primeiro encontro fora bem superado.

* * *

Já estava ficando escuro. As luzes fortes dos faroletes lhes mostrava o caminho. Mas podiam também andar sem iluminação. Não havia nenhum empecilho à sua frente. A paisagem era aquela monotonia de sempre.
Rhodan caminhava na frente. A seu lado, Claudrin e Bell. Gucky seguia com os três mutantes e, geralmente, era carregado por Ivã Goratchin. Ajeitava-se comodamente entre as duas cabeças do gigante. John Marshall e Tama Yokida conversavam em voz baixa sobre as últimas experiências. Mas a conversa mais animada era a do grupo da frente, Rhodan, Claudrin e Bell.
Como é que nós podemos sair daqui?
perguntou Bell, que não estava apreciando muito aquela longa caminhada. — O monstro é onipresente, isto é, acha-se em toda parte. Estamos sempre correndo de encontro a ele.
Rhodan concordou.
É verdade. Mas enquanto permanecermos em movimento não haverá ponto de apoio para o ataque. Temos que estar em fuga constante, até que alguém nos venha salvar. Meu caro Bell, nunca estivemos numa situação tão desesperadora como esta.
Mas a inteligência do monstro não é como a nossa — tentou Claudrin amenizar o pessimismo que havia no olhar de todos.
Fosse ele igual a nós, ter-nos-ia devorado.
Acho que não pode fazer isto — ponderou Rhodan, que há pouco tempo tivera uma longa conversa com o médico Gorl Nkolate. — Este ser coletivo deve pensar muito lentamente e age de igual maneira.
Quando ele engoliu o jato, sentimos isto. Se ficássemos mais tempo no mesmo lugar, certamente nos aconteceria a mesma coisa.
E enquanto estivermos em movimento, não nos poderá acontecer nada? — perguntou Bell, visivelmente aliviado. — Não podemos ficar andando a vida toda.
Somos obrigados a isso, Bell. Não nos resta outra opção.
E quando é que vamos dormir?
Já pensei nisto. Podemos arranjar um período para dormir. Enquanto cinco ou dez homens descansam, os outros carregam-nos. Mas, esperemos até o clarear do dia. Com a luz do dia, talvez surjam outras possibilidades.
E continuaram caminhando. Acima deles, aquela infinidade de estrelas; abaixo, aquela pele elástica de um ser vivo... faminto.

* * *

O dia começou a raiar. E então aconteceu o que há tanto tempo temiam: formando forte silhueta contra o sol da manhã, surgiram bastante nítidas as primeiras imitações!
Durante toda a noite, nada acontecera. Dormiram tranqüilamente, sendo carregados em revezamento constante. Enquanto caminhavam, alimentaram-se. E, agora que estava claro, o monstro reiniciava seus ataques. Eram pelo menos duzentos vultos, que caminhavam lentamente de encontro à gente de Rhodan. Eram maiores que os do dia anterior, mas não portavam armas. Tinha-se a impressão de que o ser inteligente não podia copiar nenhuma matéria anorgânica.
À direita também há alguns! — exclamou alguém das últimas fileiras, — Eles nos cercaram.
Vinham também da esquerda e de trás. Centenas, milhares.
Rhodan sentiu uma fraqueza nas pernas. A princípio, pensou ser sinal de esgotamento físico, mas depois constatou com terrível clareza que se tratava mesmo de medo. Ele, Perry Rhodan, tinha medo. E não lhe era nenhum consolo saber que todos os demais também estavam com medo. A situação era de desespero e cada um via a morte diante de si, tão horrenda, tão nojenta. Podiam adiá-la por uns momentos, mas até quando?
Bell estava branco e seu cabelo vermelho, hirsuto. Mas desta vez não havia ninguém para achar a cena engraçada. Nem mesmo Gucky.
Vamos ser tragados? — perguntou o rato-castor, que ainda continuava sendo carregado por Ivã, o mutante de duas cabeças.
Rhodan sentia os olhares de todos convergirem para ele.
Ainda não, meu amigo — disse ele. — Se tivermos que morrer, não será de braços cruzados.
Olhou em volta e enfrentou firme a inquietação de sua gente. Havia determinação no semblante do administrador.
Vamos forçar uma passagem por entre eles, e até que se reúnam de novo, já estaremos longe. Não sei se vai dar resultado. Mas enquanto houver um sopro de vida em nós, temos que tentar e não podemos desanimar.
Balançaram a cabeça afirmativamente e tiraram a arma do cinturão. Rhodan não esperava outra coisa. Olhou pensativo para Ivã Goratchin. O “detonador” seria um trunfo de reserva.
Ainda não sei com clareza — continuou Rhodan — por que razão o monstro orgânico faz questão de imitar nossos corpos, quando nos quer atacar. Quem sabe é porque nunca viu outra forma de corpo, outra forma de vida e acha que só nos pode vencer, usando nossa própria imagem? Parece-me que deve “pensar” que, isoladamente, somos pequenos e fracos para resistir. Mas tudo isto não passa de um palpite meu.
Virou-se de repente para Gucky e John Marshall.
Vocês, telepatas, não conseguem captar nenhum impulso mental emanado desse monstro?
Os dois fizeram um gesto que não.
É pena! Teremos então que agir como nos manda o instinto de conservação. Tenente Sikhra, o senhor comanda a segurança na retaguarda. Major Krefenbac, cubra o lado esquerdo e o senhor, Claudrin, o lado direito. Bell e eu ficamos na linha da frente. Tenho a impressão de que o monstro está disposto a atacar. Na direção que seguimos, até agora sem interrupção, deve existir alguma coisa que nos possa proteger. Por que razão, pois, que o monstro nos quer cortar este caminho? Acho que vocês estão me compreendendo.
Continuaram caminhando. As imitações de trás não se aproximaram. Mas as outras, as laterais e as da frente, duplicaram sua velocidade.
Fogo! — ordenou Rhodan, decidido. Seu medo não existia mais. O frio metal de sua arma lhe aumentou a confiança. O mesmo devia estar acontecendo com toda sua gente. Até os cabelos de Bell estavam assentados, sendo que também seu rosto tinha o vermelho “sadio” de quem está zangado.
De vinte armas pesadas jorravam jatos Incandescentes encontrando facilmente seu alvo. Os monstros em forma humana quedavam parados, assim que eram atingidos. Era como se algo dentro deles desligasse. Ficavam incandescentes e iam derretendo e, ao mesmo tempo, imergindo na massa cinza do solo, para se unir a ela. Será que se tornariam matéria morta?
Já estava aberta a passagem. Quando alcançou a largura desejada, os terranos irromperam. No momento em que o Tenente Sikhra atingiu o fim da passagem e olhou para trás, viu que os monstros se preparavam para persegui-los.
Vamos tomar uma boa dianteira — explicou Rhodan — pois só assim teremos uma pausa. Durante o dia, isto não pode ser perigoso.
Os monstros ficaram para trás e depois de algum tempo sumiram no solo escuro.
Caminharam uma hora sem parar. Só então Rhodan ordenou uma parada para o repouso. A maioria dos homens caiu exausta. Estavam muito cansados. Fecharam os olhos e tentaram dormir. Rhodan foi o único que, apesar de não ter pregado o olho um instante, não quis descansar. Não conseguia se livrar de um pressentimento de que novas surpresas o esperavam, embora o monstro se mantivesse “calado” na última hora. Assim pensando foi fazer uma ronda em companhia de Bell e de Claudrin.
Víveres existiam em abundância, como também cargas para as armas energéticas.
Estas últimas, porém, talvez não fossem suficientes para mais cinco ou seis ataques. Depois disso, só restava mesmo Ivã Goratchin. O mutante de duas cabeças tinha o estranho dom de, mesmo a grande distância, poder transformar qualquer matéria em energia atômica.
Depois, Rhodan sentou-se no chão e sentiu a leve vibração do solo enganador. Não chegou a afundar, mas não estranharia se isto acontecesse. A ondulação continuava até se perder de vista no horizonte. Aquela massa orgânica do monstro cobria o planeta. Será que todo o planeta? Ou havia lugares não cobertos pela massa orgânica? Talvez os píncaros das montanhas?
Rhodan maldisse sua afobada aterrissagem. Deviam ter dado várias voltas pelo planeta para examiná-lo mais atentamente. Teriam, pelo menos, uma resposta para esta pergunta.
Seu olhar se deteve num ponto no horizonte. Parecia uma corcova, baixa e arredondada. Se a distância não o estivesse enganando, aquela saliência tinha o diâmetro de uns cem metros. Era uma coisa fora do comum, pois, até então, o monstro, ou melhor, o solo não formara nenhuma elevação maior.

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