quarta-feira, 24 de agosto de 2016

P-090 - Atlan em Perigo - Kurt Brand [Parte 3]

Perry Rhodan não deixou que ninguém percebesse o que pensava a respeito da situação.
Comandante supremo — disse calmamente ao obstinado druuf. — Sua fraqueza reside justamente na sua força. A existência de suas naves é apenas uma questão de poucos dias. Fuja para onde quiser: nunca perderemos seu rastro. As possibilidades de retorno ao seu Universo são nulas.
Comandante supremo, quantas naves o senhor enviou à frente, a fim de verificar onde seria mais fácil romper a frente de superposição? Nem quero saber do número de naves de reconhecimento, mas sei que nem uma única delas regressou. A cada hora que passa aumenta a instabilidade da área de descarga, enquanto cresce o potencial de nossa frota de guerra, que até aqui conseguiu impedir que suas naves penetrassem em nosso Universo.
Palavras, palavras, Rhodan, apenas palavras! — interrompeu-o o druuf. — Você quis falar comigo. Já falou. Nossa conversa chegou ao fim.
E seu destino juntamente com o de seus tripulantes também chegou ao fim, druuf — Rhodan modificara a forma de tratamento, mas não o tom de voz. De qualquer maneira, os matizes da mesma não seriam transmitidos para as ultra freqüências.
Harno, o ser esférico que flutuava dentro do campo de visão de Rhodan, mostrava o corpo quadrático do druuf, que entrelaçava os dedos. Ao contrário do corpo maciço, estes eram muito finos. Ao que parecia, estava refletindo.
Rhodan, o que é que você tem a oferecer?
A pergunta desabou que nem um raio. Alguns dos oficiais na sala de comando tiveram de esforçar-se para reprimir uma exclamação de espanto.
O que você está disposto a dar, druuf?
A contra-indagação de Rhodan impressionou o chefe da frota. Muito embora este não fosse capaz de qualquer tipo de comoção humana, fez um gesto impulsivo para que seu estado-maior, reunido atrás dele, permanecesse em silêncio.
Quem nos garante que você nos oferecerá uma possibilidade de voltar ao nosso Universo?
Era a pergunta que Rhodan aguardava, e que não poderia deixar de ser formulada pelo druuf.
Pois eu lhe dou uma garantia dupla — disse Rhodan em tom impassível. — Ordene a uma das naves de sua frota que se aproxime a cem quilômetros de minha nave. Indicarei a posição à mesma, por intermédio de sua nave.
Essa nave, e só essa, poderá voar até seu Universo. A seguir, depois que toda a tripulação convencer-se de que realmente se encontra no espaço a que pertence, você lhe dará ordens para voltar pelo caminho mais rápido ao nosso Universo. É nisso que consiste minha primeira garantia.”
A equipe de cento e vinte homens, que se encontrava junto ao grande projetor de campo de refração, instalado no maior dos hangares da Drusus, estava acompanhando a palestra. Eram cento e vinte homens que esperavam a ordem de entrar em ação, a fim de ligar o projetor cuja força era capaz de abrir a porta para o Universo dos druufs.
O esquema de lugar e tempo das áreas de superposição, já atingidas, fora elaborado nos últimos meses, num trabalho exaustivo realizado por uma equipe de astrônomos, de físicos e de matemáticos em Terrânia.
De repente, a cabeça esférica do druuf pareceu ligar-se rigidamente ao tronco quadrático. Rhodan apenas podia tentar imaginar o que se passava, nesse instante, naquele cérebro inteligente de inseto.
Druuf, qualquer ataque à minha nave seria inútil. Ao primeiro tiro de radiações, o aparelho que permite a vocês voltarem a seu Universo será automaticamente destruído.
O comandante da frota fez de conta que não ouvira a advertência.
Qual é a segunda garantia, Rhodan?
Mandarei cinco dos meus homens como reféns à sua nave.
Segundo as concepções dos druufs, essa oferta não representava qualquer garantia adicional. Porém esses seres inteligentes já haviam percebido que a ética que prevalecia no cosmos daqueles pequenos indivíduos era totalmente diversa da sua. Nela, a vida e a segurança do indivíduo ocupavam um lugar de destaque.
O que terei de fazer, Rhodan? — perguntou o druuf, sem demonstrar qualquer tipo de concordância face à oferta de Rhodan.
A única coisa que terá de fazer é aparecer subitamente com sua frota nas proximidades de um planeta que lhe será indicado. Você tem o direito de enviar naves de reconhecimento para certificar-se de que não pretendo atraí-lo a uma armadilha. Dois dos cinco homens, sujeitos às suas ordens, levarão as naves de reconhecimento com toda segurança e pelo caminho mais curto à estrela que será o alvo da ação.
O que pretende conseguir com isso, Rhodan?
Trata-se de uma manobra de intimidação. Quero impedir a eclosão de uma revolução sem derramamento de sangue e...
O druuf interrompeu-o.
Rhodan, pelo que constatamos não há muita diferença entre a inteligência de vocês e a nossa. Você realmente supõe que eu seria capaz de acreditar nisso?
Estava na hora de Rhodan valer-se do perigoso trunfo.
Comandante, para nós vocês são monstros, verdadeiros fantasmas. O homem comum tem medo de vocês. Suas naves carregam o pavor. O mundo que com sua revolução representa o foco de perigos mal se atreverá a respirar se depois de nossa advertência realmente aparecer uma frota dos druufs acima de suas cabeças.
Druuf, realize um vôo de demonstração de poder e de intimidação, e, por tudo que é sagrado, eu juro que depois disso mandarei sua frota de volta ao seu Universo, por intermédio de minha porta.
Mostre-me a porta, Rhodan. Deixe passar uma das minhas naves, que receberá ordens para regressar, assim que estiver convencida de ter chegado ao seu Universo. Depois que essa nave regressar, continuaremos a conversar.
De acordo — respondeu Rhodan. — Mande que uma de suas naves de aproxime a cem quilômetros. Depois indicaremos a posição exata.
Cobriu o microfone com a mão e olhou para Bell.
A nave-correio já chegou?
Emitiu um impulso condensado e está esperando na posição combinada, Perry. Será que você realmente confia nesse druuf?
Deixemos isso para depois. Marshall, quem foi que fez explodir aquela bomba entre as naves?
Foi Gucky. Quase morreu, Sir! — respondeu Marshall.
A observação final visava à proteção do rato-castor. Mas ninguém conseguiria enganar o excelente sentido do tempo de que era dotado Perry Rhodan.
Lançou um olhar penetrante para Marshall.
Quer dizer que Gucky deve ter ligado o detonador antes da hora.
Marshall limitou-se a acenar com a cabeça.
Rhodan não disse nada. Alguma coisa muito desagradável esperava o rato-castor.
O administrador voltou a dedicar sua atenção ao comandante dos druufs.
Rhodan, estou enviando a nave mais veloz que tenho. Você a vê nos seus instrumentos?
A nave já era perfeitamente visível, pois todos os holofotes da tal nave estavam ligados. O veículo espacial aproximava-se velozmente. Tinha o aspecto de uma estrela branco-azulada.

* * *

O colapso econômico do Grande Império ameaçava esfacelar o gigantesco reino estelar do grupo M-13. A cada hora que passava, a inflação assumia feições mais assustadoras. Por ordem de Árcon as Bolsas foram fechadas em todos os planetas. Já não havia registros de cotações. Não adiantava tirar o dinheiro do banco, pois a moeda desvalorizava terrivelmente.
Os médicos galácticos tinham mais um motivo para não fornecer medicamentos. Mesmo que quisessem, não poderiam fazê-lo, pois as naves dos saltadores, com os bilhões de toneladas de capacidade de carga, não pousavam mais em qualquer mundo. Reuniram-se em grupos gigantescos no espaço interestelar e aguardavam o desenrolar dos acontecimentos.
Demorou apenas vinte horas até que surgisse a primeira pane numa linha de montagem de Árcon III, porque mais de quarenta naves especiais, que deveriam trazer acessórios importantes, regressaram vazias.
A política de aprovisionamento do cérebro também demonstrara sua eficiência na área dos acessórios mas, uma vez que as naves voltavam sem carga, teve de lançar mão pela primeira vez das reservas, que estavam dimensionadas para três meses. O cérebro continuava a dirigir todo o processo produtivo. Atlan nem pensava em retirar-lhe os controles, pois tinha trabalho de sobra para substituir programações, já superadas, que se harmonizassem com os acontecimentos mais recentes.
Porém até mesmo os trabalhos inadiáveis não mais podiam ser executados.
A cada minuto que passava, o cérebro informava-o sobre novos fatores de perigo surgidos no Império. Via-se cada vez mais nitidamente que Thomas Cardif, ajudado pelo saltador Cokaze, desencadeara uma tormenta, uma verdadeira avalancha de proporções galácticas.
Lançou um olhar pensativo para o Anel dos Nibelungos que se encontrava à sua frente. Lembrou-se de que fitara o mensageiro com uma expressão de espanto, quando este o cumprimentou.
O Anel dos Nibelungos? — repetira e lembrara-se dos tempos em que viveu e lutou ao lado de Gunter, de Hagen e de Sigfredo.
Conhecera os três, e justamente o sombrio Hagen fora seu amigo. Mas naquele tempo não havia nenhum Anel dos Nibelungos. Tal história fora inventada pela lenda.
Ah! — exclamou Atlan nesse instante. Seu segundo cérebro entrou em atividade e lhe forneceu a solução.
Passou pelo terrano perplexo e dirigiu-se ao pequeno computador de bordo. Fitou o pequeno anel preso ao revestimento, que normalmente apenas servia para que se pudesse puxá-lo, caso ficasse preso.
Certa vez, Rhodan chamara sua atenção para um anel semelhante e lhe dissera em tom de brincadeira:
Isso não é um verdadeiro Anel dos Nibelungos? Se o revestimento empinar, não haverá meio de atingir os tesouros armazenados no interior do computador se não dispusermos deste anel.
A nave-correio de Rhodan já partira de novo. Seguira em direção ao insignificante sistema solar, onde a frota dos druufs se mantinha escondida em dois planetas.
Atlan segurou o anel. O mesmo fora fabricado especialmente. Fora fácil tirá-lo das alças no interior da nave-correio. Porém para descobrir o mecanismo de abertura do anel, levara alguns minutos.
Por que tantas complicações? — perguntou em tom irritado.
Girou o anel de um lado para outro. Era feito de um metal leve com elevada resistência à tração.
Há cem anos os homens nem se atreveriam a pensar num material destes, mas atualmente era encontrado em qualquer residência terrana.
É isto! — espantou-se consigo mesmo e sacudiu a cabeça.
De repente compreendeu por que o anel fora feito dessa liga de metal leve e por que fora chamado de Anel dos Nibelungos.
Perry, tenho de pedir perdão a você.
Afinal, não é um grande romântico, mas apenas o formidável realista de sempre com umas pequenas ambições românticas...
Uma fita transportadora expressa levou-o ao setor de laboratórios do gigantesco computador positrônico. Entrou na sala destinada aos exames fotográfico-metalúrgicos. O anel foi colocado à frente do revelador tridimensional. Era um aparelho que trabalhava com base em campos magnéticos dirigidos e tateava o metal camada por camada. Ao primeiro sinal de uma exposição fotográfico-metalúrgica, passava a funcionar como revelador tridimensional.
Atlan acomodou-se na poltrona e fitou atentamente a tela. A seu lado, o revelador tridimensional emitia um zumbido suave. De repente, a tela iluminou-se. O rastreador acoplado ao revelador acabara de descobrir a camada de metal com a mensagem de Rhodan.
Atlan, um homem que se conservara jovem nos últimos dez mil anos, graças ao ativador celular preso ao peito, ainda conseguiu surpreender-se, apesar de todas as experiências pelas quais já tinha passado.
Rhodan lhe comunicava o que vinha a ser a missão pega-moscas.
Atlan mantinha-se ereto na poltrona. Leu atentamente a mensagem.
Se ele conseguir isso... — disse o arcônida para si mesmo, em voz baixa. Sentiu uma profunda admiração por Rhodan. — Bárbaro, acho que você ainda leva certa vantagem sobre seu filho.
Voltou a desligar o revelador tridimensional, saiu da sala e voltou pela fita expressa. As notícias chegadas nesse meio tempo já não poderiam surpreendê-lo. Os acontecimentos evoluíam inexoravelmente em direção ao colapso total.

* * *

Mais uma vez, Atual e Ortece estavam sentados no interior da nave cilíndrica Cok II, à frente de Cokaze e Thomas Cardif.
E mais uma vez, os dois financistas insistiam junto a eles para que lhes dessem uma chance de intervir nos acontecimentos.
Amanhã será tarde, patriarca. Uma inflação não conhece qualquer lei. O colapso não pode ser detido à vontade. Pelos nossos deuses, Cokaze, não dê mais atenção a este terrano. Dê atenção às nossas palavras.
Se tivesse feito isso, nós, os mercadores galácticos, não estaríamos no ponto em que estamos — respondeu Cokaze em tom frio e com certa ironia na voz. — Os arcônidas estão arruinados. O tal do Atlan atreve-se a usar sua frota robotizada junto a pequenos povos coloniais, mas para enfrentar os saltadores precisará de algo mais que algumas naves robotizadas. Árcon sabe perfeitamente que nossas naves cilíndricas não são navios de peregrinos que confiam exclusivamente na proteção dos deuses.
Atual interrompeu o patriarca em tom nervoso:
Patriarca, não blasfeme contra os deuses para que não sejamos atingidos por sua maldição. Árcon continua a ser uma realidade. O perigo representado pelos druufs, aqueles monstros vindos de um outro Universo, ainda está presente. Por enquanto o regente ainda existe, mesmo que tenha sido desligado por Atlan, e Rhodan também continua a existir. Rhodan...
Cokaze irrompeu numa estrondosa gargalhada.
Rhodan! Sim, Rhodan! Basta citar este nome no Grande Império para que todo mundo acredite que os demônios estelares estão atrás da gente. Já tive oportunidade de travar conhecimento com ele. Sei até onde chega seu poder. Por vários decênios fez de tolos a nós do Grande Império!
Não foi o que eu disse? — esbravejou Atual. Tinha um temperamento bastante agitado para um banqueiro.
Quem está sentado a meu lado, Atual? — perguntou Cokaze em tom de escárnio. — Será que o senhor veio apenas nos dizer que está com medo?
Ortece, o delicado diretor do Banco dos Mercadores Galácticos de Titon, que até então não havia dito quase nada, interveio na palestra:
O Império, e isso inclui a nós, ao senhor, patriarca, e ao mais pobre dos salta-dores, já perdeu um terço do seu patrimônio.
Thomas Cardif ergueu-se lentamente. Seus olhos de arcônida chamejavam num fogo amarelo, mas o brilho apenas espalhava frieza. Um sorriso irônico dava um feitio esquisito à sua boca.
O senhor já falou muito, mas não disse uma única palavra para explicar por que motivo o banco oficial de Árcon não fez qualquer tentativa para sustentar as cotações por meio de compras. Dê-me uma explicação precisa sobre isso, Ortece, e nós lhe permitiremos deter imediatamente o colapso econômico. Possuímos os poderes e os documentos necessários a isso.
Ortece teve a impressão de ter à sua frente um ser vindo de outro mundo. O saltador delicado fitou o patriarca como se quisesse pedir socorro. Mas, nos olhos deste, não havia compaixão nem ajuda.
Não posso explicar. Para Atual e para mim, a atitude passiva do banco oficial também é um mistério.
A ironia de Cokaze foi-se espalhando por seu rosto. O patriarca fez um gesto de triunfo para Thomas Cardif, que fumava tranqüilamente.
Ortece, por que Cardif teve condições de, antes da inflação, dizer a nós, os patriarcas dos saltadores, e ao Conselho dos Dez, que o banco oficial de Árcon não interviria no mercado? Como explica isso?
Os olhos de Ortece chamejaram de raiva.
Cokaze, nós não somos profetas. Somos banqueiros que levam sua profissão a sério e nunca agiremos como charlatães.
Cardif interveio tranqüilamente com uma pergunta:
Quanto ganhará seu banco se ainda hoje tentar deter a inflação, se as indústrias voltarem a funcionar, se as frotas dos saltadores levarem as mercadorias de um planeta a outro? De quantos bilhões será o lucro?
Será que não poderíamos dividir esse lucro? — perguntou Cokaze em tom sarcástico e lançou um olhar penetrante para os dois homens.
Dali a dois minutos, viram-se a sós. Os banqueiros mais ricos e influentes do Grande Império quase chegaram a fugir da nave de Cokaze.
Que patifes! — exclamou o patriarca atrás deles e sacudiu a cabeça.
Lançou um olhar indagador para Cardif.
Sei lidar com dinheiro e também sei o que devo fazer para multiplicá-lo. Porém não sei como se pode auferir lucros gigantescos numa inflação em que todos perdem seu dinheiro.
Para isso, deve-se fazer o seguinte:... — principiou Cardif.
Nesse momento, o intercomunicador da Cok II emitiu um sinal.
Senhor — disse o operador de rádio para seu patriarca — os grandes transmissores de Árcon III anunciam um comunicado importante para os próximos minutos. Usarão todas as faixas de hiper-rádio...
Passe a transmissão para cá assim que a mesma chegue e não fale tanto. Seja mais breve em suas explicações. Da próxima vez não se esqueça disso!
6



O comandante dos druufs e Perry Rhodan mantiveram a segunda palestra pelo rádio. Mais uma vez Harno, o ser esférico, fez com que Rhodan pudesse observar o monstro quadrático na sala central de sua nave, enquanto o comandante não desconfiava de nada.
Nesse meio tempo, a nave enviada ao Universo dos druufs voltara pela porta aberta por meio do projetor de campo de refração, instalado no maior dos hangares da Drusus, e apresentara um relato dos acontecimentos ao comandante.
Harno — perguntou Rhodan ao ser esférico — você consegue ouvir o que o comandante da nave de reconhecimento está dizendo a seu chefe?
Harno conseguira, e Rhodan não teve nada a objetar ao relato apresentado pelo monstro que acabara de regressar do outro Universo.
Rhodan — disse o druuf — estamos em segurança em qualquer lugar em que você não esteja. Você procura atrair-nos com a promessa de podermos voltar ao nosso Universo, desde que antes disso concordemos com sua proposta. Na verdade, porém, você tentará destruir-nos.
Rhodan sentiu que com palavras não conseguiria mais nada junto ao druuf. Precisava de provas palpáveis de suas intenções honestas. Mas como conseguir essas provas?
Não se podia cogitar do transmissor fictício, a única arma de seu tipo e a mais terrível de todas. Os druufs não deveriam saber de sua existência, pois isso aguçaria ainda mais seu apetite de apoderar-se da Drusus.
Guiado antes pelo sentimento que pelo intelecto, respondeu em voz alta:
Druuf, não se esqueça de que não tive necessidade de procurar você e sua frota, pois, ao sair de meu mundo, já sabia onde você estava escondido. Poderia perfeitamente ter vindo com todas as minhas naves. Nesse caso a batalha contra sua frota já teria chegado ao fim. Não tenho mais nada a dizer. Se quiser falar comigo, não demore.
Era o velho Rhodan que mais uma vez lançava mão de todos os recursos de sua personalidade. Graças à sua ampla visão, tinha uma certeza quase absoluta de que o comandante dos druufs estava disposto a aceitar sua proposta.
Na gigantesca sala de comando da nave esférica, os homens voltaram a conversar entre si, mas ninguém saiu do lugar. A nave capitania de Rhodan continuava cercada pelas unidades da frota dos druufs. Se houvesse uma luta para valer, seu destino se consumaria ainda mais depressa que o da Kublai Khan, durante a batalha travada no mundo dos lagartos.
A mensagem destinada a Atlan já foi elaborada? — perguntou Rhodan, dirigindo-se ao General Deringhouse.
Este entesou ligeiramente o corpo.
Sim senhor. Só falta a hora.
Logo saberemos a hora — arriscou-se Rhodan a dizer.
Nenhum dos homens que se encontravam na sala atreveu-se a esboçar um sorriso de incredulidade. Perry Rhodan raramente fazia prognósticos como este e, quando os apresentava, estes se realizavam.
Marshall!
O chefe do Exército de Mutantes encontrava-se ao lado de Bell, junto ao aparelho especial de localização. Limitou-se a erguer a cabeça.
Comunique a Tako Kakuta que ele será destacado para servir de astronauta na nave capitania dos druufs. Em compensação o doutor Small ficará.
Mas Kakuta não é nenhum astronauta.
Em compensação é um ótimo teleportador, Marshall — ponderou Rhodan.
Bell acenou levemente com a cabeça. Percebera o que Perry Rhodan pretendia conseguir com essa mudança de função, mas Marshall parecia encontrar-se num dia nada favorável.
Sir, não compreendo.
Nesse caso, recomendo-lhe que procure livrar-se da desconfiança. Talvez haja uma boa terapia para isso. Será que agora o senhor já compreendeu?
OK, chefe! — Marshall não sabia o que estava acontecendo com ele.
Tako Kakuta, o japonês pequeno e franzino com rosto de criança, nem pestanejou quando Marshall lhe transmitiu a ordem do chefe. Gucky, que, em virtude de seu “perigoso excesso de zelo”, ainda tinha que esperar uma bronca de Rhodan, foi o único que disse o que pensava.
Ainda não sei se gosto mais dos lagartos de Topsid, dos médicos galácticos ou dos druufs. Acho que no fundo não gosto de nenhum deles, pois todos me causam repugnância. Acontece que no meu coração há um lugar todo especial para os druufs... Não confio nem um pouco neles. Tako, tome cuidado com nossos reguladores de curso estelar e traga-os de volta sãos e salvos.
Acho que hoje você se encontra muito loquaz, Gucky — disse Marshall em tom de recriminação.
Não — respondeu o rato-castor e sorriu com o dente roedor solitário. — Será que é proibido pensar no polegar de Bell e...
Marshall, que ainda se sentia aborrecido pela lerdeza mental que acabara de demonstrar, gritou:
Será que você ainda tem que repetir as tolices de Bell?
Bell ficará muito satisfeito em conhecer a boa opinião que o chefe dos mutantes faz a respeito dele, quando eu lhe disser, naturalmente ao acaso, o que você andou falando... É possível que eu consiga esquecer-me de suas palavras para sempre, caso alise meu pêlo por duas horas.
Uma verdadeira chantagem! E Gucky sabia disso, mas era um rato-castor e podia permitir-se esse procedimento. Mas Marshall não estava disposto a cair na sua conversa.
Diga-lhe o que quiser, meu caro. Vamos esperar para ver, quando você receberá outra tarefa. Acho que, antes disso, sua presa cairá.
Nunca ninguém chamara de presa o dente roedor de que Gucky tanto se orgulhava. Mas o que deixou-o mais abalado foi a ameaça de Marshall. John dera a entender que não lhe confiaria mais nenhuma tarefa. Ouvir essas palavras era mais terrível que ficar dez semanas sem cenouras frescas.
John — disse em tom humilde. — Será que não poderíamos fazer um acordo?
Com um chantagista como você? Gucky não se deu por vencido tão depressa.
OK, John! Quer dizer que eu sou um chantagista. Mas você é um caluniador. E isso não lhe fica bem!
Estas palavras do rato-castor desarmaram o adversário. Todos riram; até mesmo Kakuta exibiu seu misterioso riso japonês.
Estava pronto para entrar em ação. Desligou-se do grupo de Marshall, para juntar-se à equipe de astronautas, e desapareceu no mesmo instante.
Perry Rhodan esperava receber pelo sistema de intercomunicação da nave a notícia de que o druuf tomasse a iniciativa de fazer uma ligação de rádio. A tensão crescia a cada minuto que passava. Durante o período de espera, a sala de rádio transmitiu o noticiário irradiado pelas grandes estações de hiper-rádio de Árcon.
O Grande Império fervia em todos os cantos, muito embora em cada notícia se notasse de que a mesma se destinava a preencher um fim específico: atiçar ainda mais os distúrbios. Mas, mesmo que se fizesse um bom desconto, não havia dúvida de que a situação política de Atlan piorava a cada hora que passava. Não podia estar longe o momento em que se esfacelasse o Grande Império que já tinha mais de 15 mil anos de existência.
Bell disse em meio a uma pausa:
Se esse druuf descobrir que deverá desempenhar ao mesmo tempo o papel de mosca e de pega-moscas, então...
Os receios de Reginald Bell não eram infundados.
As naves de reconhecimento dos druufs não poderiam deixar de perceber certas coisas, isso naturalmente se o comandante supremo fosse enviar as espaçonaves com os dois astronautas terranos.
De início teriam sua atenção despertada para a concentração extraordinária do sistema M-13, que fariam nascer na mente dos druufs a suspeita de se encontrarem dentro do território pertencente ao Estado de seu encarniçado inimigo.
Além disso, os druufs, por certo, haviam ouvido as notícias alarmantes relativas aos distúrbios ocorridos no Império dos arcônidas.
Finalmente, e este era o ponto principal que mais preocupava Perry Rhodan, os superpesados patrulhavam os arredores do planeta Archetz. Se as duas naves de reconhecimento dos druufs se encontrassem com a frota dos superpesados, o ânimo guerreiro destes faria com que esse encontro evoluísse para um ataque. Nesse caso, o plano de Rhodan estaria frustrado, pois a frota dos druufs, que cercava a Drusus, lançar-se-ia imediatamente ao ataque contra a supernave terrana.
E não haveria a menor dúvida sobre o resultado do embate.
Rhodan virou a cabeça para o General Deringhouse.
Envie uma mensagem condensada para Árcon III. Peça a Atlan que providencie... Não! Não envie nenhuma mensagem pelo hiper-rádio. Inclua, na mensagem a ser levada a Atlan, um aviso de que os superpesados devem desaparecer dos arredores de Archetz. Diga que para isso Atlan dispõe de três horas, contadas a partir do recebimento da mensagem.
Perry Rhodan não se apercebeu de que estava usando um tom de comando para com o chefe do maior império cósmico. Nesses dias, sentia que ele e Atlan estavam no mesmo barco, em meio a um mar revolto e precisava encontrar um porto seguro. Se o barco afundasse antes de atingir o porto, dentro de pouco tempo o Grande Império deixaria de existir, e aquela entidade minúscula que usava o nome pomposo de Império Solar também teria seus dias contados. Por isso, naquele momento, pouco importava quem dava ordens a quem. O que importava era vencer a crise, dentro de uma atmosfera de irrestrita confiança mútua. Não havia necessidade de prestar atenção a questões de etiqueta e de competência.
Rhodan sabia perfeitamente que o projeto pega-moscas pouco tinha de estratégico. Estava cheio de incógnitas. E a maior das incógnitas era Thomas Cardif.
Nem ele nem Atlan esperavam que esse jovem conseguisse, com o auxílio dos mercadores galácticos, abalar dentro de poucos dias até os alicerces de um Império que existia há mais de 15 mil anos.
Atlan e Rhodan contavam com uma única vantagem. Até mesmo uma revolução acompanhada do colapso econômico precisa de algum tempo para alcançar maturidade. E enquanto esse momento não chegasse, o maior poder ainda se encontraria do lado do governo. Por enquanto, esse fato servia de base ao plano de Rhodan.
Atlan não fora obrigado a desempenhar o papel do príncipe regente, nem fora vitimado por um acesso de claustrofobia, porque como único ser vivo, que se encontrava sob a gigantesca cúpula, ainda se mantinha escondido de todos. Concordara com as ponderações de Rhodan, segundo as quais seria preferível assumir um risco maior a usar meios brutais, para abafar qualquer tendência revolucionária no nascedouro, com o que se atiçaria fogo em todos os cantos do território do Estado.
Se a frota robotizada de Árcon, que continuava a ser grande e forte, resolvesse intervir, as cem mil naves cilíndricas formariam uma frente de combate. E o cérebro positrônico já informara Atlan sobre o armamento eficiente destas naves, e sobre a relação de forças entre a frota robotizada e a dos saltadores.
Rhodan... — para muitos homens da sala de comando da Drusus, a voz do druuf parecia ter proferido uma senha que os libertara da insuportável tensão.
Druuf... — respondeu Rhodan.
Estou disposto a aceitar sua proposta, mas não estou disposto a enviar duas naves. Uma única nave se dirigirá à estrela-alvo, com seus dois astronautas a bordo. Se essa nave não regressar ou não responder aos nossos chamados pelo rádio, você poderá preparar-se para a batalha, Rhodan!
Perry fez como se não tivesse ouvido a ameaça.
Mandarei uma nave auxiliar para enviar-lhe meus cinco homens. Dê ordem à sua frota para que não a ataque.
Já foi feito. Mande seus homens para cá, Rhodan. O resto será resolvido depois.
O aparelho especial de radiocomunicação voltou a calar-se. O chefe da frota dos druufs acabara de desligar.
Poucas ordens foram transmitidas através da gigantesca esfera.
Quatro astronautas e o teleportador Tako Kakuta entraram num girino que os levaria à nave capitania dos druufs.
Enquanto isso, o General Deringhouse estava sentado na sala de rádio e completava as notícias destinadas a Atlan.
Quando um técnico lhe retirou a mensagem da mão, sacudiu desesperadamente a cabeça e dirigiu-se a um aparelho que não estava acoplado a qualquer transmissor.
Grossi, faça o favor de explicar mais uma vez o que vem a ser o negativo de um impulso a ser transmitido pelo rádio. Não consigo compreender, embora já seja esta a terceira vez que o senhor vai explicar.
O técnico Grossi sacudiu a cabeça.
General, isso só pode ser explicado por meio de fórmulas. A descoberta deu-se por acaso. Mais precisamente, foi uma idéia-relâmpago. Quando tal idéia passou pela cabeça de meu colega Francozetti e este a expôs, rimos dele. No fim, ele estava rindo de nós, pois, dali a dois meses, enfiou as fórmulas embaixo de nosso nariz. Na verdade, é uma tolice falar no negativo de um impulso de rádio, mas o fato é que não temos outra palavra para designar o processo e, como se baseia em certos procedimentos fotoquímicos, a explicação tende a levar a concepções falsas que tornam o fenômeno ainda mais incompreensível ao leigo.
Obrigado! — disse o General Deringhouse com um sorriso. — Pelo menos já sei que devo deixá-lo em paz com minhas perguntas, e fiquei ciente de que sou um leigo. Mas o que foi que esse aparelho fez com minha mensagem?
Grossi era natural da Sicília e fizera seus exames em Nápoles. Há onze anos pertencia ao grupo dos melhores técnicos que Rhodan trouxera para Terrânia. Naquele momento, teve pena de si mesmo, pois acabara de dar uma resposta negativa ao general.
É outra coisa que não lhe posso explicar. Se digo que este aparelho transforma suas palavras em impulsos e, no curso do mesmo processo, elabora um negativo, o senhor pensará automaticamente em negativos de filme e se encontrará num beco sem saída...
Levou a estreita ficha perfurada, que saíra do aparelho com um forte clique, até o dispositivo automático do hipertransmissor. O General Deringhouse não saía do seu lado. Ainda não estava disposto a desistir. Devia haver um meio de explicar-lhe esse fenômeno até então inexplicável, pois esse sistema de negativo representava a primeira possibilidade de garantir a irradiação de mensagens de hiper-rádio, que só podiam ser decifradas caso a outra parte conhecesse o processo.
Depois disso, o hipertransmissor da Drusus irradiou o negativo da mensagem à nave-correio, que se mantinha à espera a trinta anos-luz. Não era possível estabelecer contato direto com Árcon, pois Atlan ainda não dispunha desse aparelho.
Acontece que a nave-correio já possui um aparelho igual a este. Se não fosse assim Atlan e seu cérebro-gigante poderiam matutar até o dia do juízo final para descobrir o sentido da mensagem indecifrável enviada por nosso chefe. Pois é, general, a nave-correio está partindo. Veja!
Com um gesto, Grossi apontou para a tela de rastreamento, na qual a nave-correio aparecia sob a forma de um ponto luminoso.
Com um sorriso, Deringhouse perguntou a Grossi:
Quando eu sair da sala de rádio o senhor vai ficar contente, não é? Mas nem por isso o senhor conseguirá livrar-se de vez de mim.

* * *

O sol amarelo de Rusuma iluminava dezoito planetas. O quinto era Archetz, o mundo central dos saltadores. Os mercadores galácticos haviam seguido o exemplo de Árcon. No curso dos milênios, todos os planetas, com exceção do de Ult, que ficava próximo ao sol, foram transformados em fortalezas, e com o tempo também as numerosas luas foram incluídas no sistema de fortificações defensivas.
Os clãs que viviam navegando entre as estrelas ficaram zombando da mania de segurança dos membros de sua raça, que se haviam estabelecido em Archetz, até que eles mesmos tiveram de dirigir-se a esse planeta, para efetuar reparos de monta em suas naves, e, vez por outra, para comprar uma nave.
Desde o momento em que sentiram chão firme sob os pés, compreenderam o que valia a certeza de estarem protegidos por uma série de planetas e luas fortemente armadas.
Archetz, o foco de infecção dos movimentos subversivos e do colapso econômico, nos últimos dias ainda fizera mais, levando os superpesados a patrulhar as áreas adjacentes a fim de proteger o mundo mais importante dos saltadores.
A noite pousava sobre Titon, uma cidade de doze milhões de habitantes. Na nave de Cokaze, a Cok II, os dois filhos mais velhos do patriarca mantinham-se de vigília. Se chegasse qualquer notícia importante, Thomas Cardif deveria ser acordado imediatamente. Mas a maior parte da noite se passara sem que acontecesse nada de especial.
Subitamente, a central de comando da grande frota de couraçados chamou pela freqüência dos superpesados.
Onde está Cokaze, saltador? — perguntou a voz retumbante do gigante de mais de meia tonelada, e seu rosto marcado pela cólera estava rubro. — Está dormindo? Pois acorde-o. Depressa!
O filho mais velho de Cokaze saiu correndo da sala de rádio. As palavras do superpesado deixaram-no confuso.
O mais jovem ligou o intercomunicador, com o qual atingiu simultaneamente o camarote do pai e o do terrano.
Quem quer falar comigo? — perguntou o patriarca em tom sonolento.
O filho explicou.
Já vou! — interveio Thomas Cardif, que acordara imediatamente.
Encontraram-se no convés principal. Fitaram-se com uma expressão de perplexidade. Não tinham a menor idéia de qual seria a mensagem importante que a central de comando dos superpesados poderia querer transmitir a essa hora da noite.
O patriarca deixou-se cair pesadamente na poltrona colocada à frente da tela.
O que houve, Onkto? — perguntou, ciente de que era o patriarca mais rico de todos os clãs dos saltadores, e de que, nesse momento, não havia em todo o Império de Árcon nenhum homem mais importante que ele.
Pouca coisa — disse o superpesado com sua voz de barítono. — Vamos retirar-nos, patriarca!
Vão fazer o quê? — gritou Cokaze com a voz extremamente exaltada. — Isso infringe nossos acordos, Onkto. É uma traição.
Tolice! — respondeu o superpesado em tom grosseiro. — Árcon formulou uma ameaça inequívoca e exigiu...
Árcon... — uma estrondosa gargalhada sacudiu o patriarca, que costumava ser muito controlado. — Logo Árcon! O que representa Árcon hoje em dia?
Quem está atrás de você, Cokaze? O rosto lembra o de Rhodan. Diga logo quem é — falou o superpesado, superando a risada violenta de Cokaze.
Thomas Cardif adiantou-se. Colocou a mão sobre o ombro do velho, o que representava um sinal de que o patriarca deveria deixar a palestra por sua conta.
Sou Thomas Cardif. Minha mãe foi Thora, uma princesa arcônida! Acho que isto basta, Onkto. Quais foram as exigências de Árcon?
Onkto, chefe do setor de comando dos superpesados, que se encontrava num supercouraçado estacionado 800 mil quilômetros acima da superfície do planeta Archetz, quase chegou a sentir-se hipnotizado pelos olhos frios e amarelentos de arcônida.
O senhor é o conselheiro de Cokaze? — perguntou visivelmente perturbado.
Quais são as exigências de Árcon? E quem as formulou? O regente ou o Almirante Atlan?
Quem falava pela boca de Thomas Cardif era o arcônida. Era um protótipo dessa raça, nos gestos, no tom de voz e nas atitudes. Mas, na linguagem lacônica, era o filho de Perry Rhodan. Nem pensava em responder à pergunta de Onkto.
O computador regente entrou em contato conosco e exigiu nossa retirada imediata. Diz que, do contrário, ele recorrerá à frota robotizada para obrigar-nos a abandonar nossas posições.
O senhor já dispõe de alguma prova de que o regente retirou a frota robotizada da frente dos druufs? — perguntou Cardif em tom insistente.
O gigante de mais de meia tonelada arregalou os olhos e praguejou. Depois de algum tempo, disse:
Cardif, se o senhor acha que sabe, por que pergunta? Para nós, os superpesados, basta que a frota robotizada não esteja mais na frente. O cérebro regente também nos ameaçou com os druufs! — acrescentou apressadamente.
Será que isso basta para expulsar os valentes superpesados para os confins do Universo? — indagou Cardif numa ironia amarga.
Onkto não gostou nem um pouco da recriminação.
Não somos mais bobos nem mais inteligentes que o patriarca Cokaze, que mantém apenas dez naves em Titon. As outras foram retiradas da linha de fogo...
Nesse caso quero que o senhor me garanta que não revelará a retirada de sua frota por qualquer mensagem de rádio. Se não me der essa garantia, farei com que toda a Galáxia saiba por que desistiu do patrulhamento em torno de Archetz: apenas porque Árcon o ameaçou com a frota robotizada!
Cardif! — retrucou Onkto em tom de ameaça, estreitando os olhos. — O senhor sabe tão bem quanto nós que a frota robotizada não se encontra mais na frente, e o que isso significa...
Cardif interrompeu-o em tom frio:
Contestarei essa afirmativa, Onkto. E Cokaze também contestará. Se os superpesados se tornarem conhecidos como covardes, seu negócio guerreiro terá chegado ao fim. Não acha, Onkto?
Ao que parecia, o superpesado não estava só na sala de comando, pois Cardif e Cokaze ouviram-no cochichar com outras pessoas, mas não entenderam o que estava dizendo.
O rosto do superpesado voltou a virar-se para a tela.
Aceitamos suas condições, Cardif. Retirar-nos-emos discretamente. Um dia os demônios estelares o carregarão, seu maldito terrano!
Estas palavras representaram a despedida de Onkto. Depois disso, a tela no interior da sala de rádio da Cok II apagou-se.
Thomas Cardif acendeu um cigarro. Fumava de olhos fechados. Quando virou a cabeça para Cokaze, este perguntou:
Os superpesados não mentiram?
Nenhuma das suas palavras foi mentira! — confirmou Cardif. — Devem ter constatado por meio dos seus aparelhos de rastreamento que a frota robotizada não se encontra mais no front. O que importa, saltador? Por que será que Árcon exigiu que os superpesados se retirem? Há alguma intenção atrás disso. Qual será? — seus dedos tamborilaram contra a tela.
Tirou algumas tragadas profundas e apressadas do cigarro.
Nem Cokaze nem seus dois filhos perturbaram as reflexões de Cardif. O terrano descansou o cigarro e disse:
Sugiro que a Cok II permaneça por mais algum tempo em Archetz, mas gostaria que as estações planetárias de observação espacial vigiassem atentamente o espaço em torno do sistema de Rusuma, pois alguma coisa perigosa está para acontecer. Gostaria de saber o que é...

* * *

O vôo da nave de reconhecimento dos druufs foi acompanhado por dois pontos muito distantes: a Drusus e Árcon III.
O aparelho de rastreamento recentemente inventado seguia constantemente a pista da nave vinda de um outro espaço. Seu hiperpropulsor linear criava a imagem de um fio vermelho infinitamente comprido, que permitia acompanhar a rota do veículo espacial.
Certa vez, o indiano Rabintorge, a cujo dinamismo Rhodan devia agradecer o fato de dispor tão depressa de um aparelho de rastreamento desse tipo, afirmara que a hiperpropulsão linear retirava uma das quatro constantes de seu embasamento normal na estrutura espaço-temporal, desencadeando o efeito que permitia a localização.
Essa afirmativa nunca fora seriamente contestada. Restava saber se resistiria às experiências posteriores. De qualquer maneira, o requisito básico fora cumprido. Já havia um aparelho que permitia a localização das naves dos druufs, que se deslocavam à velocidade superior à da luz.
Atlan confiava no minúsculo hiper-transmissor de raios goniométricos que, ao entrar, Kakuta deixara cair na comporta da nave dos druufs. A cada cinco minutos, o pequeno aparelho transmitia um impulso, que era captado pelas antenas do cérebro positrônico de Árcon e interpretado imediatamente pelo computador. Num grande mapa estelar, uma finíssima trajetória luminosa indicava ao arcônida a rapidez incrível com que a nave dos druufs percorria o espaço, aproximando-se do sistema Rusuma. Fazia uso de uma velocidade muito acima à da luz, e cada vez mais acelerava.
Rhodan e Atlan desejavam tudo de bom a essa nave, pois ambos sabiam quanta coisa dependia desse vôo de reconhecimento.
Tako Kakuta, o teleportador, e o Dr. Brigonne desejavam a mesma coisa. Ambos foram destacados para esta nave na qualidade de astronautas. Teriam que desempenhar uma tarefa dupla: fazer chegar a nave até junto do planeta Archetz, e abandoná-la imediatamente, caso os monstros, que a tripulavam, resolvessem adotar algum procedimento hostil contra eles.
Esta última tarefa cabia a Kakuta, e o japonês com rosto de criança levava seu trabalho a sério. Ficava constantemente ao lado do Dr. Brigonne.
Este nem de longe pensava que os druufs pudessem tornar-se perigosos. Sentia-se no seu elemento. Pela primeira vez sentia a experiência de um vôo à velocidade superior à da luz, sem sofrer o choque de transição.
Kakuta e Brigonne acostumaram-se logo à circunstância de que seus movimentos eram duas vezes mais rápidos que os dos monstros, face à dimensão temporal trazida pelos druufs do outro Universo.
Brigonne e Kakuta comunicavam-se pelo rádio de capacete. Por enquanto não se haviam interessado em saber se estavam numa atmosfera respirável. Naquele instante, os oito druufs da sala de comando começaram a inquietar-se. Os movimentos de seus braços indicavam uma boa dose de exaltação. Comprimiam-se em torno de um estranho aparelho.
Brigonne, o senhor sabe o que está acontecendo? — perguntou Kakuta e aproximou-se do cientista, para que ao menor sinal de perigo pudesse teleportar-se, levando-o.
Não faço a menor idéia — respondeu Brigonne com a voz rouca.
Tako Kakuta sabia que a modificação não fora causada pelo medo. Quando muito, seria a incerteza causada pelo fato de não ver nem perceber absolutamente nada.
Por uma questão de intuição o teleportador ligou o transmissor especial dos druufs, embutido em seu traje espacial. O aparelho permitia a comunicação com os monstros.
Logo ouviu a voz de um druuf pelo alto-falante:
Desligue!
Tako Kakuta obedeceu imediatamente, mas o fato lhe deu o que pensar.
Só há uma explicação!”, meditou. “Eles estão realizando medições goniométricas.”
Acreditou saber também o que estavam procurando localizar pela goniometria. Era o minúsculo hipertransmissor que se encontrava na comporta da nave.
Em palavras lacônicas, informou Brigonne, mas antes disso ligou o distorçor. Começava a julgar os monstros capazes de tudo; talvez chegassem mesmo a compreender o que estava sendo dito por ele e Brigonne.
O astronauta logo identificou o linguajar incompreensível saído de seu alto-falante de capacete e, depois da terceira tentativa, encontrou o ritmo de recomposição adequado.
Brigonne só ouviu o final.
...Kakuta, o que podemos fazer para que o transmissor não seja encontrado? Atlan tem de ser mantido a par. Foi o que o chefe pediu encarecidamente.
O rosto de Kakuta fitava-o com uma expressão ingênua através do visor do capacete.
O senhor poderia dizer onde posso encontrar o pequenino transmissor dentro de alguns segundos?
O que eles estão fazendo? — Brigonne deu a perceber que não se sentia muito à vontade.
Três druufs saíram da sala de comando, mas não saíram de mãos vazias. Os três carregavam pesados aparelhos, e era evidente que com estes realizavam medições goniométricas destinadas a localizar um transmissor.
Brigonne, quanto tempo durará nosso vôo?
O senhor está perguntando demais, pois não tenho a menor idéia da aceleração que pretendem imprimir à nave.
Não devem ser mais de três horas, não é? — insistiu Kakuta em tom apressado.
Se for mantida a aceleração atual, não. Daqui a três horas, já deverão estar voando de volta. Faço votos de que nós também estejamos — disse o cientista em tom pessimista.
Distraia os druufs por dez segundos. Não deverão notar que saí da sala de comando. O senhor acha que consegue?
O que pretende fazer, Kakuta?
O senhor acha que consegue, doutor? — de repente os olhos frios de Kakuta pareciam chispar fogo.
Naturalmente. Vou tossir, e... — acenou pesadamente com a cabeça.
O teleportador não viu outra possibilidade de afastar o perigo. Teria de jogar todos os trunfos numa única carta.
O Dr. Brigonne teria que distrair cinco monstros. Dois deles estavam sentados em grandes poltronas de piloto, enquanto os outros três estavam de pé junto a um aparelho, mas viravam-se constantemente para os terranos.
Tako Kakuta sentiu que o tempo estava passando. Só até certo momento seria capaz de intervir nos acontecimentos e modificar o curso dos mesmos. E esse momento não demoraria a chegar.
Por que Brigonne não fazia nada? Por que ficava parado?
Finalmente Brigonne aproximou-se dos três monstros que estavam reunidos. Foi em sua direção, mas estes quase não lhe deram a menor atenção.
Ou será que o fitavam com os olhos das têmporas?
Brigonne ligou o aparelho de comunicação.
Druuf, ainda tenho que chamar sua atenção para uma circunstância muito importante. Aqui... — caminhou até a parede, onde estava pendurado um mapa estelar, e apontou pára um ponto. — Aqui, onde existe a concentração de estrelas, fica... druuf, isto é muito importante. Vocês me ouvem?
Kakuta ouviu Brigonne tossir.
Era o sinal!
Saltou e rematerializou-se no interior da comporta, onde se encontrava o hiper-transmissor de raios goniométricos.
Logo que concluiu a rematerialização, já segurava duas armas de radiações.
Enquanto soldava a escotilha interna da comporta com os raios térmicos, suas mãos não tremeram.
Fez uma solda dupla tão precisa que qualquer técnico se teria orgulhado da mesma.
Enquanto terminava seu trabalho, contava baixinho:
...cinco... seis... sete... oito!
Quando contou oito, o serviço estava concluído. Girou sobre os pés. Ainda dispunha de dois segundos. Mais uma vez, os dois radiadores térmicos chiaram. Colocou uma solda dupla que cobria um terço da linha que representava a fenda na qual corria a escotilha externa da comporta.
O metal, liquefeito na profundidade de alguns centímetros, foi endurecendo lentamente, enquanto Tako Kakuta voltava a surgir na sala de comando, sob a proteção do zumbido leve de um conversor.
Brigonne ainda se encontrava à frente do mapa estelar. Tentava convencer os druufs da periculosidade de um campo magnético rotativo e superpotente, que ficava bem na rota da nave.
Pois então deixemos para lá... — disse sua voz, que o teleportador ouviu pelo rádio de capacete, depois de saber que Kakuta se encontrava novamente na sala de comando. — Deixemos para lá...
Sem dizer mais uma única palavra, o cientista abandonou o lugar em que se encontrava e desligou o transdutor idiomático.

* * *

Faltam dez minutos — disse Perry Rhodan em voz baixa a Bell, sem tirar os olhos do rastreador especial. — Depois disso, estarão em cima do planeta Archetz. Quem dera que estes dez minutos passassem logo!
Não tinha a menor idéia do que estava acontecendo, nesse instante, no interior da nave de reconhecimento dos druufs.
Os monstros haviam algemado o Dr. Brigonne e Tako Kakuta, e disseram por que estavam agindo assim. No momento em que compreenderam que a comporta fora misteriosamente bloqueada, desconfiaram dos terranos.
Só vocês poderiam ter colocado o transmissor na comporta. Por que fizeram isso?
Que transmissor? — contra-indagou Tako Kakuta em tom frio. — Mostrem o aparelho. Dizer é fácil...
O comandante quadrático de quase três metros de altura não deu resposta a essas palavras, mas os dois monstros, destacados para vigiar os terranos, com suas armas estranhas e de aparência perigosa, diziam tudo.
Brigonne e Tako Kakuta preferiram não mais protestar. Aparentemente estavam conformados com o destino.
Enquanto isso, a nave dos druufs corria ininterruptamente em direção a Archetz, o planeta dos saltadores.

* * *

A nave desconhecida já desaparecera misteriosamente do sistema de Rusuma. As estações de observação, instaladas nos outros dezesseis planetas, cancelaram o alarma. Cokaze e Thomas Cardif continuavam a fitar-se em silêncio.
Finalmente, o patriarca rompeu o silêncio. Levantou-se devagar, proferiu o nome de Thomas Cardif como quem solta uma maldição e disse:
De repente você acredita em tudo, até na ameaça ridícula desse almirante ainda mais ridículo.
Cardif não ficou devendo resposta às palavras do patriarca, e com isso, deu mais uma vez prova de coragem.
Esse almirante não é tão ridículo assim, Cokaze. Ainda é um dos velhos arcônidas.
Será que você vai me contar mais uma vez que ele tem mais de dez mil anos?
Cardif interrompeu-o com um gesto, sem dar atenção à pergunta que acabara de ser formulada.
Acabo de descobrir uma coisa, patriarca.
Cokaze aguçou o ouvido.
O que foi, Cardif?
O rosto de seu interlocutor não revelava nada.
Uma revolução só pode ser levada a termo com o poder do Estado, não contra o mesmo.
O rosto de Cokaze assumiu uma expressão de pavor. Até parecia que acabara de ver um fantasma. Não queria compreender o que Cardif acabara de dizer. O medo e a raiva despertaram em sua alma. Os mercadores galácticos haviam arriscado tudo! Os aras, os ekhônidas e outros grandes povos haviam aderido ao plano, e agora esse jovem terrano, que era a verdadeira mola propulsora do movimento subversivo, vinha lhe dizer que uma revolução só pode ser levada a termo com o poder do Estado, não contra o mesmo.
Cardif, será que esse almirante ridículo conseguiu isso com sua proclamação? Será que não me engano ao recordar ter ouvido de sua boca as coisas maravilhosas que as pessoas aprendem na Academia Espacial do Império Solar? O que sobrou de tudo isso? Um feixe trêmulo de medo, terrano?
Ah, sim... A Academia Espacial Solar! — Cardif sorriu, enquanto fitava tranqüilamente o patriarca furioso. — Aquilo que aprendi lá me deu a capacidade de reconhecer que perdemos. Sim, perdemos! Neste momento Rhodan e Atlan estão lançando seu trunfo principal. Saltador, será que ainda não compreende o que significa o aparecimento duma única nave dos druufs? Você se esqueceu da ameaça de Atlan, que ameaça retirar a frota robotizada do front? Você se esqueceu do motivo por que os superpesados não querem patrulhar mais a área em torno de Archetz e o que eles constataram? Será que você não se quer lembrar do que eu disse e exigi depois da palestra com Onkto, o superpesado? Exigi que as estações planetárias de observação espacial se mantivessem numa vigilância muito atenta, e disse que alguma coisa perigosa estava para acontecer. Na mesma oportunidade perguntei a mim e a você: o que será?
E agora você acha que sabe alguma coisa, seu terrano superinteligente? — esbravejou Cokaze em tom furioso.
Não sei de nada. Apenas receio alguma coisa. Receio que Atlan tenha deixado uma abertura na frente, para que umas dez ou vinte mil naves dos druufs tenham possibilidade de penetrar em nosso espaço, avançar até o grupo estelar M-13 e praticar atos de vandalismo.
E eu caí na conversa de uma cópia falsificada de Perry Rhodan como você! Perry Rhodan ao menos tem certa classe, mas você...
Thomas Cardif não se sentiu atingido por estas palavras, pois respondeu em tom frio:
Sei admitir a derrota. E, quando essa acontece, ainda me resta coragem para tirar minhas conclusões. Cokaze, se você quiser continuar vivo, só lhe posso recomendar uma coisa: saia imediatamente de Archetz na Cok II. Anuncie sua chegada a Aralon. Isso causará boa impressão. Uma vez lá, aguarde os acontecimentos dos próximos dias. É só o que tenho a lhe dizer.
O que pretende fazer, terrano? Transferir-se para a Terra?
Thomas respondeu num tom que quase chegava a ser indiferente:
Mudarei para uma das naves cilíndricas que você terá de deixar em Titon para que sua partida não pareça uma fuga. Você não poderá deixar de expor umas quatro ou cinco naves ao risco de serem destruídas.
Você sabe que neste momento sua capacidade de sacar rapidamente um radiador não lhe adiantará nada? — de repente, o patriarca tornou-se desconfiado. — Se fizer o menor movimento, dispararei o radiador de impulsos contra você.
Cokaze, você deveria fazer um curso na Academia Espacial do Império Solar. É uma pena, mas você é muito velho para isso. E muito estúpido!
Dali a uma hora, Cokaze decolou com sua Cok II em direção a Aralon. Antes de partir despediu-se de Thomas Cardif.
Você é um sócio que assusta a gente! — foram estas as últimas palavras que disse ao deixar para trás um terrano pensativo.
Cardif transferiu-se para a Cok CCXIV, uma das quatro naves do poderoso clã dos saltadores que estavam estacionadas na extremidade norte do espaçoporto de Titon.
7



Por um segundo Perry Rhodan teve a impressão de enxergar um abismo.
Harno, o ser esférico, flutuava a seu lado. Graças à sua fantástica capacidade televisora, permitiu a Perry ver a sala de comando da nave de reconhecimento dos druufs, que acabara de emergir do hiperespaço e seguia com uma lentidão espantosa em direção à nave capitania.
A nave de reconhecimento, que gastara algumas horas no vôo para Archetz, só levara alguns segundos para voltar. Bell, que se encontrava junto ao rastreador especial, mal tivera tempo de anunciar a chegada da nave, pois Harno logo projetou a imagem da sala de comando dos druufs.
Rhodan viu que Brigonne e Kakuta estavam sendo vigiados por dois monstros. Ao mesmo tempo, o ser esférico informou quais eram os problemas do astronauta e do teleportador.
O minúsculo hipertransmissor de sinais goniométricos, que Kakuta escondera na comporta da nave de reconhecimento, ameaçava transformar a manobra tática numa verdadeira catástrofe para a Drusus.
Em seu cérebro, ouviu Harno dizer:
O comandante da nave de reconhecimento está apresentando seu relatório ao chefe da frota. Fala quase que exclusivamente no transmissor localizado na comporta três, que não pôde ser aberta.
De repente, Rhodan teve uma idéia.
Gucky teria de intervir nos acontecimentos.
Convocou-o à sala de comando pelo intercomunicador:
Gucky, não perca um segundo sequer.
Todos os olhos fitaram Rhodan. Pouca gente se lembrava de ter visto o chefe tão nervoso como naquele instante.
Gucky encontrava-se de pé à frente do chefe. Aquele rato-castor de um metro de altura rompeu um tabu e, recorrendo ao seu dom telepático, leu os pensamentos de Rhodan.
Naturalmente, Perry! Em que depósito posso encontrar esse rhytmal five?
Com um ligeiro movimento de mão, Rhodan ligou o intercomunicador para todos os compartimentos da Drusus.
Aqui fala Rhodan. Estou chamando todos os depósitos. Avisem imediatamente em que depósito está estocado o rhytmal five. Urgência máxima!
O rhytmal five era uma substância cristalina descoberta pelos arcônidas que, uma vez carregada, emitia por anos a fio um impulso débil num ritmo de cinco minutos, que à primeira vista poderia perfeitamente ser confundido com uma hipertransmissão goniométrica.
Sir — disse o encarregado de um dos depósitos. — O rhytmal five é guardado no depósito 123.
No mesmo instante, Gucky teleportou-se para fora da sala de comando e viu-se no interior do depósito 123. Lá ainda estavam procurando a tal substância por meio de um pequeno computador positrônico.
Passe logo este negócio! — piou o rato-castor. — Não se esqueçam de carregá-la. Vocês têm alguma cola que não seja afetada pela frieza do espaço? Passem para cá. Rápido! Nossa vida está em jogo.
O pequeno computador indicou o lugar em que estava depositado o rhytmal five. O dispositivo teleguiado trouxe-o.
O cristal pequeno! — ordenou Gucky.
O som metálico dos alto-falantes soou em meio às suas palavras. O rato-castor forneceu instruções sobre a maneira de carregar o cristal.
Onde está a cola? — Gucky procurou berrar, mas sua voz chiante não ajudou.
Colocaram em sua mão alguma coisa que parecia cola de gesso.
Pronto, tenente! — disseram logo em seguida.
O tenente era Gucky, que se sentia lisonjeado, quando alguns homens com os quais não tinha intimidade o designavam pelo posto.
O rato-castor não se deu ao incômodo de agradecer.
Desapareceu do depósito 123 para rematerializar-se no interior da comporta 3 da nave de reconhecimento dos druufs.
Ligou o holofote de seu traje espacial e rastejou pelo chão, à procura do minúsculo transmissor.
Alguns minutos se passaram. Subitamente, a luz do holofote foi refletida por um pontinho.
Até que enfim! — suspirou o rato-castor em tom de alívio. Um breve disparo da arma térmica derreteu o corpo de delito.
O dente roedor solitário de Gucky avançou para a frente. O rato-castor estava rindo de satisfeito. Dali a um segundo, praguejava barbaramente. A cola grudenta que não queria sair dos seus dedos submetia sua paciência a uma dura prova. Finalmente pôs a cola no chão, e colocou cuidadosamente o rhytmal five no interior da mesma.
Dali a pouco, os monstros iriam arrombar a comporta e tentariam encontrar um motivo plausível que explicasse como aquele cristal, que emitia um impulso a cada cinco minutos, poderia ter entrado ali.
Naturalmente fora trazido por Kakuta ou Brigonne, porém os monstros jamais poderiam recriminá-los por isso, se notassem aquela cola grudenta.
Mas Gucky não gostou das marcas de solda deixadas por Tako Kakuta.
Que coisa! — disse. — Estas marcas deixarão os monstros loucos. Mas se eu abrir um buraco aqui, eles ficarão ainda mais loucos e não acreditarão mais no que estão vendo.
Às vezes, Gucky gostava de falar demais. Mas também sabia agir, e dificilmente cometia um erro.
Fez três buracos na escotilha externa. Ficavam um acima do outro, numa distância uniforme, e seguiam a linha das marcas de solda. Depois deu um pequeno salto de teleportação, grudou-se do lado de fora da escotilha destruída e apontou ligeiramente o radiador térmico para cada um dos buracos, a fim de que a trajetória do tiro corresse de fora para dentro.
Os druufs ficarão completamente confusos! — disse Gucky com uma alegria maliciosa.
A seguir, concentrou-se e reapareceu na sala de comando da Drusus.
Isso está liquidado, Perry. Quer que apresente um relatório?
Antes que pudesse começar, ouviu-se a voz do chefe dos druufs.
Rhodan, prepare sua nave para o combate — disse com a voz fria. — Seu plano traiçoeiro foi tolo demais.
Rhodan exigiu explicações. O druuf falou num transmissor de sinais goniométricos. Rhodan contestou a acusação e exigiu provas. Sentiu-se surpreso quando o estranho ser se mostrou disposto a apresentá-las.
Mais uma vez, teve início a espera. Entretanto, desta vez não houve tensão, pois Gucky teve oportunidade de apresentar rapidamente seu relatório.
Tão cedo os monstros não voltarão a chamar — atreveu-se a profetizar. — Kakuta deixou alguns sinais de solda na comporta, que serão um mistério para eles. Os três buracos que abri na escotilha externa lhes darão o resto. Não gostaria de estar no couro do comandante da nave de reconhecimento, que logo levará uma tremenda bronca do chefe da frota...
A gíria pareceu ser uma senha!
Gucky — interrompeu-o Rhodan. — Você não acha que ainda precisamos ter uma conversa? Quem foi a pessoa que contrariou todas as ordens, ao acionar antes do tempo o mecanismo-relógio do detonador daquela bomba, no interior da nave capitania dos druufs?
Perry — atreveu-se o rato-castor a responder. — Certa vez, o gorducho me disse que me livrasse de pessoas que ficam guardando rancor de alguém, por anos a fio só porque esse alguém cometeu certos erros. Você acha que foi um bom conselho?

* * *

A grande emissora de Árcon transmitiu a segunda mensagem do Almirante Atlan.
Apresentou um ultimato: rendição ou morte!
Mandarei vir os druufs, para que eles ataquem o Império carcomido que não quer manter a união. A frota robotizada de Árcon assistirá impassível à destruição de um mundo após o outro. Levem a sério o ultimato que estou apresentando. Não se esqueçam que saberei agir com a mesma eficiência que o cérebro positrônico. Em qualquer lugar os rebeldes serão fuzilados. Resolvam se querem ser rebeldes ou cidadãos fiéis do Grande Império.
Três mil espaçonaves de guerra dos druufs corriam vertiginosamente pelo hiperespaço, em direção ao sistema de Rusuma. No momento em que Atlan apresentava seu ultimato, já se encontravam a caminho. Um sinal codificado previamente combinado avisara-o de que a operação pega-moscas estava entrando na segunda fase.
Naves dos druufs sobre Archetz! Uma demonstração de pavor!
Será que Rhodan arriscara demais? Estaria seu plano fadado ao fracasso?
Achava que não, e o computador positrônico lhe fornecera a probabilidade bastante favorável de 81,54 por cento. Mas apesar desse índice, não conseguiu livrar-se da inexplicável inquietação.
A Drusus estava atingindo metade da velocidade da luz e, com isso, aproximava-se do momento da transição. O salto a colocaria a dez minutos-luz do sistema de Rusuma. Usando uma forte proteção contra a localização e o neutralizador de vibrações seria impossível a qualquer estação arcônida detectar goniometricamente o supercouraçado.
O doloroso choque da transição fez gemer as pessoas que se encontravam a bordo da Drusus. Durante dez segundos, o computador positrônico assumiu todas as funções da nave. Só depois disso, os tripulantes recuperaram a capacidade de ação, mas a dor da rematerialização ainda se fez sentir por muito tempo.
Rhodan nem teve tempo para respirar profundamente. Harno, o ser esférico, introduziu-se em seus pensamentos.
De um instante para outro o rosto de Rhodan, ainda marcado pelo choque, mudou de cor.
Harno transmitira-lhe uma notícia quase inconcebível.
O comandante da frota dos druufs não pensa em cumprir o acordo celebrado.
De uma hora para outra, o monstro passou a acreditar que a promessa do administrador, de após o vôo de demonstração sobre Archetz fazer a frota atravessar a porta aberta pelo projetor de campo de refração e penetrar no outro Universo, fosse uma armadilha.
Por quê? — perguntaram os pensamentos de Rhodan ao ser esférico, que projetava para ele o rosto temível do comandante dos druufs, que se mantinha imóvel em sua poltrona grosseira.
É a mentalidade deles, Rhodan! Seu raciocínio, Perry, não é capaz de compreender a mudança de idéia dos druufs. Há um elemento compreensível... Só agora ele entendeu a importância do planeta Archetz. Pretende conquistar o sistema, estabelecer-se no mesmo e partir dali, para conquistar uma estrela após a outra.
Neste momento, Rhodan compreendeu a voz interior que o prevenira para que não celebrasse qualquer acordo com os druufs.
Só mesmo Atlan com sua gigantesca frota robotizada poderia evitar a destruição de Archetz, o planeta dos saltadores.

* * *

Subitamente, três mil espaçonaves estranhas e gigantescas cobriram Archetz, o mundo dos saltadores, como se fossem uma nuvem. Nenhuma das estações planetárias de observação espacial anunciara sua aproximação.
Desenvolvendo metade da velocidade da luz, precipitaram-se sobre o planeta. Antes que as primeiras posições de defesa estivessem em condições de disparar um único tiro de radiações, começaram a semear a morte e a destruição sobre o mundo dos saltadores.
Titon soçobrou em meio às chamas. No mesmo instante, mais três metrópoles foram reduzidas a montes de cinzas e escombros. As luas de Archetz com as posições de artilharia transformaram-se em tochas acesas em pleno dia.
As naves dos druufs estavam em toda parte. Seus precisos aparelhos de rastreamento apontavam o caminho aos raios destruidores, fazendo com que penetrassem nos fortes e os mergulhassem em chamas.
A desvantagem de só poderem desenvolver metade da velocidade da luz e de serem duas vezes mais lentos que qualquer outro ser não contava. Espalhavam a morte e a destruição, antes que os saltadores compreendessem que a desgraça estendia as garras para eles sob a forma de uma frota de mais de três mil naves.
Apesar de tudo, algumas naves cilíndricas estacionadas em Archetz conseguiram escapar ao inferno, abrindo caminho entre a frota dos druufs e alcançando o espaço livre.
As pessoas que se encontravam na Drusus acompanhavam os acontecimentos, mas mantinham-se inativos. A grande tela de visão global, regulada para a ampliação máxima, mostrava todo o quadro com uma incrível nitidez.
Thomas está lá embaixo! — disse uma voz interior a Rhodan.
As naves esféricas arcônidas de todas as classes, desde o pequeno destróier até o supercouraçado, foram aparecendo nos céus.
Pareciam um bando de gafanhotos vindo das profundezas do espaço. Enquanto se aproximavam, pareciam pequenos sóis, expelindo linhas de fogo de suas protuberâncias.
Vieram aos milhares. Dentro de poucos segundos eram mais de dez mil, e os gigantescos bandos de naves continuavam a chegar e a precipitar-se sobre os druufs.
Onde está o girino, Bell? Nenhuma notícia?
Reginald Bell não pôde dar uma resposta positiva.
Assim que Rhodan soube por intermédio de Harno que os druufs pretendiam conquistar o sistema de Rusuma e nem pensavam em cumprir o acordo celebrado com os terranos, preparou imediatamente um girino com os melhores teleportadores a bordo.
A ordem transmitida aos teleportadores fora a seguinte: retirem nossos astronautas da nave capitania dos druufs.
E agora os homens que se encontravam na Drusus esperavam o regresso da nave auxiliar. Porém, até agora, não haviam recebido nenhum pedido de socorro.
Nada, absolutamente nada!
A batalha entre as naves robotizadas e os druufs representou o fim dos monstros. A essa altura, cada espaçonave dos seres quadráticos estava sendo caçada por dez ou quinze naves esféricas, tripuladas por robôs. Os robôs de Árcon só conheciam sua programação. Seu criador, o computador gigante, não lhes incutira qualquer sentimento humano. Nem sequer compreenderam que estavam lutando contra seres estranhos, vindos de outro Universo. Haviam recebido ordem de destruir essa frota, e se guiariam por essa ordem até que a última nave inimiga tivesse deixado de existir, ou até que outra ordem de Árcon revogasse a anterior.
Chegaram a fazer caça às naves dos druufs que desciam em Archetz ou em outros planetas e suas luas e as bombardeavam com seus desintegradores ou canhões térmicos, até que se desfizessem numa nuvem de energia espraiante.
De uma hora para outra, a terrível luta chegou ao fim.
A frota robotizada voltou a formar-se em esquadrilhas e retirou-se.
Terminou — disse Bell em tom desanimado, enquanto a Drusus corria vertiginosamente em direção ao planeta incendiado, irradiando sempre e sempre seu sinal de identificação.
Quando rompeu a camada de nuvens e o solo foi avistado, os tripulantes do supercouraçado viram aproximar-se uma gigantesca nuvem de fumaça sob a qual uma cidade de doze milhões de habitantes se desfazia em cinzas.
Bell sobressaltou-se. Um peso, um corpo caíra sobre seu colo.
Gucky! — exclamou em tom de surpresa, e o sorriso que cobria seu rosto tornou-se cada vez mais amplo.
O salto de teleportação do rato-castor fizera-o parar no colo de Bell.
Abriu o capacete e achegou-se ainda mais a Reginald Bell, enquanto fitava Perry Rhodan, que esperava pacientemente.
Gucky estava exausto. Parecia que iria adormecer nos braços de Bell. Mas fez um último esforço e apresentou seu relato:
Tudo em ordem, Perry. Todos bem. O girino está lá embaixo. Foi derrubado. Tivemos que descer. Estamos...
Gucky adormeceu, e Bell carregou-o cuidadosamente até o sofá encostado a uma parede. Quando voltou, o gorducho parecia pensativo.
Gostaria de saber o que esse pirralho teve de fazer para retirar nossos astronautas sãos e salvos da nave dos druufs.

* * *

Pela terceira vez num curto espaço de tempo, as grandes emissoras de Árcon, situadas no grupo estelar M-13, fizeram-se ouvir. Não havia necessidade de noticiar os acontecimentos verificados no sistema de Rusuma. Os súditos do Grande Império já haviam recebido essa notícia, quando a batalha mal havia começado e ainda não se sabia se os druufs seriam ou não aniquilados.
Mas juntamente com o susto também compreenderam que o tal do Almirante Atlan, que alegava ser o sucessor do computador regente, sabia agir implacavelmente para resguardar o poder do Estado. Por isso, os bilhões de inteligências do Império prestaram muita atenção, quando as grandes emissoras de Árcon III anunciaram a transmissão de outra mensagem. Ao verem na tela um rosto que lhes parecia conhecido, alguns milhões desses bilhões estremeceram.
Perry Rhodan estava falando aos homens do Império por intermédio da grande emissora de Árcon.
Inclino a cabeça diante de Atlan, o Imperador Gonozal VIII, que conduzirá o Império de Árcon a um novo apogeu. Como administrador de meu reino estelar, faço um apelo ao Grande Império: vamos retribuir a lealdade com a lealdade. Povos do Grande Império! Peço-lhes que compreendam que nossa missão deve ser procurada na amplidão do Universo, não no ódio e na discórdia que nos separa...
Um amargo sorriso brincava em torno dos lábios de Atlan, enquanto Perry Rhodan se afastava da câmara e vinha em sua direção.
Amigo — disse com uma profunda emoção. — Você acaba de me promover a imperador, mas de que me servirá o título, se os povos do Grande Império não quiserem continuar unidos a Árcon? Não, Perry, não pretendo abdicar, mas também não quero ser nenhum sonhador. Preciso de sua amizade e de tempo, bárbaro! Tempo, tempo e mais tempo. Não poderei modificar de hoje para amanhã aquilo que foi estragado por várias gerações de arcônidas irresponsáveis. Não posso fazer as coisas sozinho. Mas será que poderei dispor de tempo para fazer alguma coisa?
Rhodan parecia muito espantado:
É a primeira vez que o vejo tão pessimista, almirante.
Não sou nenhum pessimista, Perry. Apenas não me esqueci da existência de um certo Thomas Cardif. E você é a melhor prova do que um único terrano é capaz de fazer.
Rhodan fez como se não tivesse ouvido esta observação.
Acho que Thomas pereceu em Archetz.
Pois eu não acredito nisso. Um Rhodan não seria capaz de morrer de forma tão normal, à margem de um grande acontecimento. Nem mesmo um Rhodan que use o nome Thomas Cardif!





* * *
* *
*






O plano do desertor fracassou, embora tivesse sido muito bem preparado. Mas a essa hora já se deve ter percebido que o filho de Perry Rhodan não desiste tão depressa...
O próximo volume da série, intitulado O Regresso de Ernst Ellert, trata de outro vibrante tema.

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