domingo, 28 de agosto de 2016

P-097 - O Preço do Poder - Kurt Brand [Parte 2]

Enre, que ficara fascinado com as palavras de Cokaze, amaldiçoou o momento em que Olgall o arrancara do sono, para trabalhar com uma mensagem indecifrável.
Acreditara que os homens, em cujas mãos confluíam os fios que dirigiam os movimentos subversivos, formassem um grupo de grandes cabeças, de pessoas equilibradas, mas agora teve de reconhecer, cheio de perplexidade, que as coisas eram muito diferentes.
Só se sentia impressionado com um dos patriarcas: Cokaze!
E este se retirava da pequena sala.

* * *

O Dr. Orge Olundson e seus colaboradores haviam extraído os pontos importantes das extensas informações sobre os soltenses, transformando-as num conjunto harmônico e facilmente compreensível. Mas ainda havia um ponto que não lhe agradava.
Ali, nas informações fornecidas pelo gigantesco centro de computação, também estava escrito! Os soltenses são um povo de mentirosos!
O Dr. Orge Olundson lançou um olhar preocupado para o relógio. Estava na hora de enviar o relatório ao chefe. Num gesto hesitante colocou sua assinatura depois das outras.
Um povo de mentirosos... — disse para si mesmo, balançando a cabeça. — Se isso é verdade, o que ainda não acredito, só posso fazer votos de que o chefe não tenha escolhido os soltenses para serem nossos amigos. Um povo de mentirosos... É incrível!

* * *

O relatório do etnólogo foi o último a chegar às mãos de Perry Rhodan. Mas foi o primeiro em que o administrador pôs as mãos.
No segundo parágrafo, primeira oração, leu o seguinte:
Os soltenses são um povo de mentirosos.
Depois de ler a frase duas vezes, Perry disse:
Faça o favor de ver isto, Bell! Reginald Bell inclinou-se sobre o papel, sem desconfiar de nada. O dedo de Perry apontava uma linha.
Isso só pode ser uma piada de mau gosto — disse Bell. — Quem é o autor deste relatório? Os etnólogos? Vou entrar em contato com essa gente. Vou dizer umas verdades ao Olundson. É o cúmulo da desfaçatez! Como pode brindar-nos com uma coisa dessas?
Bell estava zangado, e a cólera era um estado de ânimo raramente notado em sua pessoa, apesar de viver resmungando, praguejando e usando expressões pouco convencionais. Estendeu a mão em direção ao microfone, a fim de entrar em contato com o Dr. Olundson, mas Rhodan fez uma sugestão:
Vamos dar uma olhada nos outros relatórios. Talvez encontremos nos mesmos alguma coisa que possa esclarecer essa afirmativa inacreditável.
Dez minutos antes da hora marcada para a conferência com os mutantes, o Dr. Orge Olundson entrou pela primeira vez em sua vida no gabinete de Perry Rhodan. Bell, com sua voz trovejante, ordenara o comparecimento do etnólogo.
Meu caro Olundson — principiou
Bell. — Parece que gosta de fazer piadas. O senhor acha que temos tempo para aborrecer-nos com seus gracejos de mau gosto? Ora, veja! Os soltenses são um povo de mentirosos...
Nem mesmo durante o debate com os parlamentares do Império Solar, quando pesadas acusações foram formuladas contra ele e Rhodan, Bell chegara a falar tão alto.
O Dr. Orge Olundson estremeceu visivelmente, engoliu em seco e, num gesto totalmente inesperado, aproximou-se de Reginald Bell!
Por favor, Marechal Bell! — disse, oferecendo-lhe ostensivamente três fitas perfuradas.
O que quer que eu faça com isso? — gritou Bell.
Quero que leia... e depois grite! Nesse instante, Bell percebeu que fora longe demais.
Quem foi que gritou, doutor? Talvez tenha usado expressões mais claras que de costume...
Subitamente Bell pareceu ficar sem fôlego. Finalmente disse com a voz triste:
É verdade, Perry! Os soltenses são um povo de mentirosos! Leia!
Enquanto Rhodan procurava familiarizar-se com o conteúdo da fita perfurada, Bell lançou um olhar desajeitado para o etnólogo. Subitamente colocou a mão sobre o ombro do cientista...
Não leve a mal, doutor... Devo pedir desculpas por...
O etnólogo interrompeu-o apressadamente.
Por quê? Pela experiência por que passei, ao notar que os semideuses do planeta Terra continuam a ser humanos? Estaria disposto a pagar um preço muito mais elevado por isso.
Até Rhodan levantou os olhos.
Semideuses? — perguntou Bell.
Isso mesmo. Os senhores não envelhecem. Nunca lhes ocorreu que com isso causam pavor à população? Foram, por assim dizer, erigidos à condição de semideuses.
Doutor...
Os olhos cinzentos de Rhodan fitavam-no com uma expressão séria.
Ficamos-lhe muito gratos por ter chamado nossa atenção sobre um ponto a respeito do qual nunca chegamos a refletir. Semideuses! Logo nós.. — soltou uma risada, mas não foi uma risada alegre. — Os semideuses levam uma vida alegre e confortável. Acontece que, nestes últimos anos, Mister Bell e eu tivemos exatamente uma semana de férias. Quero fazer-lhe uma pergunta, doutor. O senhor acha que um semi-deus costuma ser tão modesto como nós?
Não quis ouvir a resposta. Foi para junto do etnólogo e apertou-lhe a mão.
Ficamos-lhe muito gratos pela indicação que acaba de nos fornecer, mas nem por isso o senhor se livra de uma tarefa. Terá de explicar por que os soltenses são um povo de mentirosos.
Ora, sir, se eu soubesse a resposta a esta pergunta também me sentiria muito melhor. Acontece que não sei. No material examinado só encontramos a palavra mentirosos, e no material vindo de Árcon a mesma coisa foi expressa numa frase: os soltenses são um povo de mentirosos. Mas em nenhum lugar se explica por que essa afirmação é feita.
O Dr. Olundson retirou-se. Rhodan e Bell ainda dispunham de alguns minutos antes da conferência.
O gorducho tinha alguma coisa na ponta da língua. Passou a caminhar à frente da escrivaninha de Perry. De repente parou diante do amigo, respirou profundamente e perguntou:
Perry, você já se lembra de quem ou o que lhe deu essa idéia dos soltenses?
Naquele momento, o sexto sentido do gênio fizera Perry Rhodan reconhecer o que se passava na mente do amigo.
Você mandou vigiar-me?! — exclamou.
Há algumas horas, Perry! E você ficará sob controle até que saiba o que lhe deu essa idéia dos soltenses. Acho que estamos entendidos, não estamos, Perry?
Entendo o sentido das suas palavras, Bell, mas não compreendo por que deu uma ordem dessas às minhas costas.
Perry lançou um olhar penetrante para o amigo.
Você acaba de usar uma expressão muito feia, Perry! — Bell sentou-se em postura relaxada à frente de Rhodan, mas sua confortável posição não poderia dissimular a gravidade da situação. — Aquilo que fiz há algumas horas, depois de conversar com Mercant, foi feito por você, não contra você.
Quer dizer que você suspeita de mim, Bell?
Isso mesmo. Ou será que você já pode responder à minha pergunta?
Não.
Nesse caso tudo continuará como está.
E se eu lhe ordenar que a vigilância de minha pessoa seja suspensa imediatamente?
Bell sorriu.
Você nunca fará uma coisa dessas. Como administrador... — não completou a frase.
Muito bem. Mas mudei de idéia sobre uma coisa. A conferência com os mutantes será realizada só por mim. Volte a chamar o computador de Árcon III e peça-lhe que indique os fundamentos em que se baseia para afirmar que os soltenses são um povo de mentirosos. Se o computador não estiver em condições de dar esta informação, teremos de incomodar Atlan. Preciso da informação até amanhã, às seis horas, tempo padrão.
Será um prazo muito curto, caso Atlan tenha de recorrer a seu indolente serviço de informações. Estou curioso para ver no que vai dar isso.
E eu me sinto preocupado, Bell, pois essa informação sobre os soltenses é uma coisa terrível. Insista junto a Atlan, explicando-lhe que temos necessidade absoluta dessa informação antes da decolagem.
Bell retirou-se. A caminho da grande estação de hiper-rádio, parou no gabinete de Allan D. Mercant.
Ele adivinhou, Mercant! — enquanto dizia estas palavras, Bell entrou precipitadamente no gabinete do chefe do Serviço de Defesa Solar.
O marechal levantou os olhos. Parecia espantado.
Já? Qual foi a reação de Perry?
Foi uma reação gelada, Mercant, tão gelada como raramente encontrei nele. Aliás, o senhor sabe que os soltenses são um povo de mentirosos?
Bell já se encontrava na porta.
São o quê?
Reginald Bell ficou satisfeito ao notar que até mesmo Allan D. Mercant perdera o autocontrole.
Feche a boca, Mercant! Antes que possa responder à sua pergunta, dizendo por que os soltenses são um povo de mentirosos, terei de entrar em contato com o computador de Árcon III, e se este também não souber, chamarei Atlan, ou melhor, Sua Alteza.
Um momento, Bell; não vá embora — gritou Mercant, quando Bell se dispôs a sair. — Faça o favor de contar!
Ah, então as coisas são assim? Estava na vez de Bell ficar espantado.
Quando o chefe do Serviço de Defesa se empenhava pessoalmente num assunto, o caldo geralmente era muito mais grosso e menos saboroso do que se supunha. É que Mercant possuía aquilo que se poderia chamar de faro natural.
Bell contou e Mercant ouviu-o em silêncio. Quando concluiu, o marechal levantou-se.
Irei com o senhor.
Na sala de comando de hiperfreqüência do grande emissor, antes de mais nada, Bell cuidou de ficar a sós com Mercant. Dali a pouco, a mensagem negativa foi irradiada pela onda do grande centro de computação. O conteúdo da mensagem resumia-se no seguinte:

Por que os soltenses são mentirosos?
Pedimos fundamentar,
(a) Rhodan.

Mercant notou o sorriso de Bell.
Por que está rindo, Bell?
É que estou imaginando os saltadores que devem estar à escuta, Mercant. Cairão sobre a transmissão que nem uns abutres. Gostaria de ouvir as pragas que esses ciganos estelares vão soltar, porque...
Será que seu estoque ainda não é suficiente? — interrompeu Mercant. — O que significa a palavra trobel?
Santo Deus, onde foi que o senhor ouviu essa palavra? — perguntou Bell, em tom de espanto.
Onde poderia ser? Ouvi a palavra da boca de Gucky. Foi ontem. Esse rato-castor passou uma descompostura num dos membros do Exército de Mutantes, e, no fim, ainda o chamou de trobel. Isso significa...?
Não é que esse sujeito andou lendo novamente os meus pensamentos? — constatou Bell em tom seco.
Nesse caso ele deve ler cada coisa... — respondeu Mercant em tom ambíguo. — Acontece que ainda não sei...
Fim de papo! A resposta chegou, Mercant. Vem de Árcon III.
Com uma pressa espantosa, Bell correu para junto do aparelho, pegou a fita perfurada, que continha a resposta do computador gigante, e dirigiu-se a um pequeno aparelho que não estava acoplado ao equipamento de rádio.
A caixinha em cujo interior desapareceu a fita perfurada transformou a mensagem negativa que acabara de ser captada numa mensagem positiva. Enquanto isso destruía a fita negativa, à medida que o texto era registrado na fita positiva.
Droga! — disse Bell.
Isso é uma expressão inequívoca! — observou Mercant, em tom irônico.
O gigantesco centro de computação respondera que não sabia informar por que os soltenses seriam um povo de mentirosos.
Atlan terá de entrar na dança! Uma vez preparada a fita perfurada para o impulso concentrado, o pequeno aparelho lacrado elaborou o negativo.
Mercant acompanhou-o com os olhos. De repente disse:
Essa idéia deveria acudir a qualquer pessoa que entende alguma coisa de hiper-rádio, Bell!
Bell possuía grande capacidade, mas não costumava exibi-la. Na área do hiper-rádio era um perito de primeira ordem.
Com o negativo na mão, lançou um olhar triste para Mercant.
Veja, Mercant — disse com um amplo gesto de mão. — Por aqui não há nada que possa representar um mistério para mim. Mas esta caixinha construída por nossos engenheiros representa um livro fechado para mim. A expressão “negativo de hiper-rádio” já é completamente errada. Tão errada e enganadora como se, por exemplo, eu dissesse preto e quisesse dizer redondo. O senhor compreendeu?
Pelo amor de Deus, Bell, transmita logo o impulso concentrado! Não quero ouvir falar mais nisso, mas gostaria que o senhor me explicasse o que significa a palavra trobel.
Antes tenho de contar-lhe alguma coisa sobre o processo do negativo de hiper-rádio, Mercant. De acordo?
Seu chantagista! — respondeu Mercant com um ligeiro sorriso. — Um belo dia ainda descobrirei o que significa essa palavra...
E eu torcerei o pescoço de Gucky, se tiver de passar por um vexame por culpa dele — ameaçou Reginald Bell e transmitiu a indagação dirigida a Atlan.
Aguarde”, dizia a resposta de Atlan. “Preciso mandar realizar investigações. (a) Gonozal VIII.
Bem — começou Bell em tom de resignação. — Com a lentidão dos dorminhocos arcônidas, poderemos preparar-nos para uma longa espera!
4



O rugido dos jato-propulsores instalados na protuberância equatorial da Drusus foi crescendo, enquanto o supercouraçado deixava para trás o envoltório atmosférico da Terra e ganhava velocidade.
A nave capitania da Frota Solar acabara de decolar numa missão especial. A ação fora batizada com o nome Comando de Risco Solten.
John Marshall, o telepata mais competente do Exército de Mutantes, que exercia o comando daquela tropa singular, entrou no camarote de Reginald Bell.
Entre, Marshall — pediu Bell e pegou dois cálices de conhaque. — Ainda faltam alguns minutos para a transição, e isso basta para um conhaque. O Dr. Manoli também é de opinião que um ou dois goles de aguardente antes do salto pelo hiperespaço não podem fazer mal a ninguém. Pois bem. À saúde!
À saúde de quem? — perguntou Marshall, passando a mão pelo cabelo escuro.
Pode ser à saúde dos soltenses, dos mentirosos — disse Bell em tom ruidoso, dando a entender que a questão central que o afligia naquele momento, a indagação sobre os motivos por que os soltenses foram designados por mentirosos, ainda não encontrara solução.
Será que não deveríamos beber à saúde de Gucky, Mister Bell? — perguntou o mutante.
Bell estacou. Raramente Marshall mudava de assunto, quando não havia um bom motivo para isso.
Qual é a última que ele andou fazendo, John?
Foi ele quem botou na cabeça do chefe a pulga dos soltenses. Foi o rato-castor!
Bell levantou-se como se uma bomba tivesse explodido perto dele.
Uma pulga; essa é boa! Muito boa mesmo — disse num gemido. — Ora, Gucky, você está com sorte por não estar aqui neste momento. Logo este! E eu mandei vigiar Perry e por isso tive de passar o pior minuto de minha vida. Tive de ouvir de sua boca que estou tramando às suas costas. E tudo isso por causa desse sujeito. John, o chefe já sabe disso?
Ainda não. Informá-lo-ei depois da transição.
Não se preocupe. Terei o maior prazer em cuidar disso, John. Mas vamos depressa... Viva!
Dali a trinta segundos teve início a desmaterialização e alteração estrutural, provocando em todas as pessoas, que se encontravam na nave, a dor lancinante que se seguia a tal processo. O farfalhar e o murmúrio do hiperespaço de quinta dimensão penetrou no gigantesco veículo espacial esférico.
Reginald Bell gemeu e esfregou a nuca. Era onde costumava sentir a dor da transição com maior intensidade. Marshall, que estivera encolhido, ergueu-se cautelosamente, aspirando ruidosamente o ar. O movimento de expiração foi acompanhado de um som de alívio.
Maldito rato-castor! Que moleque!
O fato de terem percorrido num tempo zero uma distância de cerca de dez mil anos-luz já não significava mais nada para os dois homens. Haviam passado por isso centenas de vezes, e nessas oportunidades sempre experimentaram a dor da desmaterialização e da rematerialização. Tudo isso pertencia a seu estilo de vida. Mas o que assumia mais importância era a brincadeira que o rato-castor se permitira com o chefe.
Há um nó nessa história, Marshall — disse Bell em tom pensativo. — Na minha opinião, o rato gigante não seria capaz de cometer tamanha tolice. Até hoje Gucky nunca se atreveu a entrar em choque com Perry ou fazer suas brincadeiras de mau gosto com ele. Sabe mais alguma coisa, John?
Não, só sei aquilo que já contei. Estava a caminho daqui, quando vi Gucky correr furtivamente pelo convés. Quase automaticamente entrei em seus pensamentos e notei quando mentalizou: Perry, o que deverei fazer para que você saiba que a idéia dos soltenses foi minha? Naquele momento, Gucky já devia ter percebido que alguém controlava seus pensamentos. Desapareceu num salto de teleportação. Foi só isso.
Bem devagar, Bell voltou a encher os cálices. Afastou a garrafa, deixou o suporte de lado e balançou a cabeça.
Marshall, não acredito que na Terra exista um único homem que tivesse a idéia de haver em algum canto do Universo um povo chamado soltenses. Por isso fico me perguntando como Gucky poderia saber desse povinho do Império de Árcon? Onde adquiriu seus conhecimentos a esse respeito? E, para remate dessa história louca, ainda acontece que se diz que os soltenses são um povo de mentirosos.
Bell tomou um grande gole. Parecia desesperado.
Naquele momento, Perry Rhodan chamou pelo sistema de intercomunicação de bordo. Viu que John Marshall se encontrava no camarote de Bell.
Gostaria de falar com vocês dois, Bell.
Dali a alguns minutos entraram no camarote de Rhodan. Bell olhou por acaso para o sofá. Gucky parecia sentir-se muito bem acomodado.
Imediatamente a cólera apoderou-se da mente de Reginald Bell. O ar começou a tremer acima do sofá, e Gucky desapareceu do camarote de Rhodan.
Ora essa, onde está Gucky? — perguntou Rhodan em tom de espanto, ao ver que o sofá estava vazio.
Isso representou a palavra de ordem de Bell.
Em todos os cantos da Drusus, os alto-falantes do sistema de chamada geral começaram a soar.
Estavam à procura de Gucky! Havia uma ordem para que o mesmo se apresentasse imediatamente ao administrador-geral. A ordem foi repetida incessantemente pelos alto-falantes.
Vocês andaram fazendo minha caveira com o chefe! — disse uma voz vinda do sofá.
Era Gucky! Parecia uma flor murcha. Escondia seu dente roedor. Seus olhos de rato não tinham descanso. O silêncio de Rhodan devia ser uma coisa terrível para ele. Naquela hora, o rato-castor não se atreveria a recorrer aos seus dons telepáticos para ler os pensamentos de Perry.
Por que fizeram tanto espalhafato por minha causa, chefe? Será que minha presença é mesmo indispensável?
Rhodan permaneceu em silêncio. Mas seus olhos cinzentos diziam bastante.
Está bem... — Gucky recuperou o ânimo e desistiu instantaneamente da postura desanimada.
Saiu de cima do sofá, esforçou-se para assumir uma pose militar à frente de Rhodan e começou a piar.:.
A idéia não é minha. Foi aquele cigano saltador... bem, foi Cokaze quem a deu a mim...
Já me sinto um pouco melhor! — exclamou Bell. Parecia respirar com dificuldade e abriu o colarinho.
Não seja tão convencido — disse Gucky, dirigindo-se a ele, o que constituía um sinal evidente de que não se sentia muito culpado. — Durante minha visita à Cok I, enquanto a nave cilíndrica ainda descrevia uma órbita em torno de Vênus, captei na mente de Cokaze um pensamento sobre o sistema de Forit e o seu segundo planeta, chamado Solten. O velho só sabe pensar em dinheiro. Naquele momento calculava quanto os soltenses lhe deviam em royalties. Chegou à conclusão de que essa quantia lhe permitiria adquirir mais três naves...
Não seja tão prolixo, Gucky! — disse Bell em tom áspero.
OK! Colhi a idéia e não me esqueci dela. Neste meio tempo liquidei certas coisas. O chefe gostaria de saber como aproximar-se de Cardif. Logo engatei. Pensei na fonte de renda de Cokaze. Pensei em mais alguns detalhes e... bem, já que você faz questão de saber, gorducho, é bom que eu lhe diga isto: o plano da Ação Solten é todinho meu, de A a Z. Bem, Perry, agora encoste-me à parede e mande que me fuzilem.
Falando a meia voz, Perry disse a Bell:
Dê uma corrida até seu camarote e traga uma garrafa de conhaque. Preciso de uma dose dupla e não tenho nenhum.
Um momento — piou Gucky, e desapareceu.
Dali a vinte segundos, o rato-castor surgiu do nada, com a garrafa de conhaque de Bell na mão.
Vocês devem ter tido uma bebedeira daquelas. Em seu camarote há um cheiro de cachaça...
Chega! — Rhodan deu esta ordem em tom penetrante.
Sorveu um grande gole de conhaque e descansou o copo, sem dizer uma palavra. Lançou um olhar insistente para o rato-castor.
Foi você quem me sugestionou para que concebesse o plano, Gucky? Não acredito!
Você precisa acreditar, Perry. Nem eu mesmo sabia que era capaz de influenciá-lo com tamanha facilidade. E não tive a intenção de fazê-lo. Apenas... bem, você sabe, não pude resistir à tentação... li um pouco nos seus pensamentos, e comecei a preocupar-me com você. Fiquei pensando sobre a melhor maneira de ir a Archetz para encontrar Thomas. Comecei a raciocinar e, enquanto raciocinava, descobri que você acompanhava meu pensamento.
Perry, eu juro que tive medo. Não tive coragem de lhe dizer o que estava acontecendo com você por minha causa. Mas não tenho culpa de que digam por aí que os soltenses são um povo de mentirosos. Eu nem sabia disso.”
Bell cochichou a seu lado:
Estou com vontade de torcer seu pescoço!
Pois experimente! — advertiu Gucky com a maior tranqüilidade. — Se continuar assim, procurarei o velho Mercant assim que regressarmos à Terra e lhe explicarei o que significa a palavra trobel.
O que foi que vocês disseram? — perguntou Rhodan, que se distraíra com essa conversa particular entre Gucky e Bell.
Nada de importante — apressou-se Bell em responder. — Você vê algum ponto fraco no plano Solten, elaborado por Gucky?
Rhodan lançou-lhe um olhar desconfiado. A mudança de idéia de Bell fora repentina demais. Quando fitou Marshall, só viu um rosto estreito e impenetrável. Gucky foi bastante inteligente para conservar-se em segundo plano. Naquele momento não tinha a ambição de estar no centro dos acontecimentos.
O plano é excelente, mas o que Gucky fez é uma coisa terrível. Explique-me de que modo conseguiu sugestionar-me, Gucky!
Gucky exultava intimamente. Perry Rhodan o chamara de Gucky, não de Tenente Guck, o que era um sinal de que a trovoada já estava passando.
Perry, nem tive a intenção de influenciá-lo, ao menos de forma consciente.
Se é que fiz uma coisa dessas, isso aconteceu porque de repente descobri que você pensava através dos meus pensamentos. Concluí que minha força sugestiva era tão fraca que conseguia passar por baixo do seu bloco de segurança. Por favor, não me faça jurar três vezes de que realmente foi assim. É preferível acreditar logo. Apenas, não tive a coragem de preveni-lo, e isso foi uma atitude pouco desleal. Vez por outra pensei: Gucky, seu plano é tão bom. O chefe vai matar dois coelhos com uma só cajadada. Primeiro fará secar uma das fontes de dinheiro do cigano estelar Cokaze, e, além disso, através de Solten, conseguirá chegar a Archetz sem correr o menor perigo... Bem, Perry, aí fiz uma das minhas. Está certo?
O que é que você quis dizer ao falar na fonte de dinheiro? — perguntou Rhodan com certa surpresa.
Gucky parecia crescer a olhos vistos.
Bem, entre Cokaze e as chefes dos soltenses existe um tratado, segundo o qual as naves dos soltenses trabalham para o clã dos saltadores e, se entendi bem o que Cokaze estava pensando, pagam a ele, a título de royalties, dez por cento do movimento bruto. Acho que não seria muito difícil dar oportunamente uma sacudidela em nosso amigo Cokaze, a fim de levá-lo a desistir desses dez por cento. Com isso teríamos mais alguns amigos no Império de Árcon.
Hum — disse Bell — um povo de mentirosos.
Isso já é outra coisa. Vou pensar em sua idéia, Gucky. Espero que você compreenda que, em virtude dessa história, sua promoção será bastante demorada!
Gucky riu com o dente roedor solitário. Seus olhos chispavam como se tivessem sido cromados.
Ora essa, chefe — disse em tom imponente. — Você realmente acha que eu dou muita importância a isso? Pouco importa que você me promova ou me rebaixe. O principal é que não me tenha mandado embora. Mas agora também preciso de uma dose dupla de conhaque. Bell, meu querido gorducho, acho que você não terá nenhuma objeção, não é mesmo?
Bell limitou-se a gemer. Sabia perfeitamente que o rato-castor gostava de beber na própria garrafa, e que suportava quantidades enormes de álcool.
Caramba! — Rhodan fitou a garrafa vazia com uma expressão de perplexidade.
Gucky passou a pata pelo focinho, lambeu o dente roedor e disse em tom de connaisseur:
Bell, já tomei cachaça melhor que esta no seu camarote. Mas a que acabo de tomar também não é nada má. Será que minha presença ainda é necessária? Acredito que não...
Desapareceu imediatamente. O ar ainda estava tremendo, quando Rhodan dirigiu uma pergunta ao telepata Marshall:
John, o senhor acredita nas explicações de Gucky?
Sim senhor, mas só porque foi Gucky que disse. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não acreditaria.

* * *

Enre, o especialista de hiper-rádio dos mercadores galácticos estabelecidos no mundo de Archetz, tangia seus colaboradores ininterruptamente em direção à loucura. Ele mesmo também não estava muito distante da mesma.
Quatro mensagens de hiper-rádio da Terra, dirigidas a Árcon, uma delas expedida para o planeta da guerra e outra para o mundo de cristal, resistiam a todas as tentativas de decifração.
Isso nem são mensagens, são perturbações — afirmou um dos colaboradores.
Enre provou a todos que realmente se tratava de transmissões de hipercomunicação vindas pelo hiperespaço, mas era só o que sabia. Apesar disso não desistiu. Ao meio-dia, ordenou que todos os outros trabalhos fossem suspensos.
Ao anoitecer, descobriram a primeira pista.
Enre! — fora seu colaborador mais antigo que gritara por ele. — Veja! As posições de amplitude não são corretas...
Pareciam deslocadas; realmente estavam deslocadas. Pela meia-noite tiveram certeza a este respeito. Enre mandara todos para casa, com exceção de seu representante. O computador positrônico zumbia baixinho a seu lado. Aguardavam ansiosamente o importante resultado da computação. A máquina deveria informá-los sobre o que acontecera com a amplitude de hiper-rádio. Queriam saber por que cada uma das quatro misteriosas mensagens, vindas do planeta Terra, só era formada de amplitudes deslocadas.
O cartão de plástico caiu no receptáculo. Enre e seu representante estudaram-no atentamente.
Ficaram pasmos. O computador afirmava que as amplitudes das quatro transmissões de hiper-rádio não haviam sofrido qualquer deslocamento.
Vou dormir! — exclamou Enre em tom de decepção e atirou o cartão perfurado sobre a mesa.
Eu não! — disse seu representante. — Quero saber que truque é este que os terranos nos estão aplicando.
Você conhece os terranos? — perguntou Enre.
Não.
Pois eu conheço. Ao menos um deles. O filho de Perry Rhodan. Por todos os deuses, se todos os terranos forem como este, eles ainda nos darão muito o que pensar!
Até parece que esse indivíduo o incomodou bastante!
E não incomodou só a mim! — gritou Enre, em tom exaltado. — O Conselho Revolucionário se dividiu por causa desse terrano. E por quê? Só porque o filho de Rhodan ficou olhando demoradamente para o patriarca Gatru.
E agora ele está preso?
Quem? — perguntou Enre.
O filho de Rhodan.
Provavelmente está bem guardado lá embaixo. Talvez no dobro da profundidade que estive esta noite. Nem imaginamos o que existe por lá. Nunca vi instalações industriais tão grandes como as observadas hoje de noite. E olhe que, só quando o elevador antigravitacional atravessava um espaço vazio, conseguia enxergar nitidamente. Bem, isso não nos adianta nada. Faça um bom trabalho. Veja o que consegue fazer com essas hipermensagens. Boa noite...

* * *

O Coronel Baldur Sikermann, comandante da Drusus, depois da quarta transição fez a nave capitania penetrar cada vez mais profundamente no pequeno sistema de Forit, sempre sob uma total proteção contra a localização. Entrou em posição de espera nas órbitas do quarto e do terceiro planeta. O rastreador de massa da quinta dimensão estava com a guarnição dobrada, enquanto os rastreadores estruturais, o telêmetro e outros instrumentos, que poderiam decidir a conservação ou a destruição da nave esférica de 1.500 metros de diâmetro, contavam com guarnição triplicada.
As escotilhas das torres de canhões encontravam-se abertas, as guarnições estavam postadas atrás das armas, prontas para disparar.
O estado de prontidão: isso significava que todos os ocupantes da nave usavam traje espacial. Apenas o capacete estava jogado para trás.
Na gigantesca tela panorâmica brilhava a fascinante aglomeração de estrelas do grupo M-13. Por maior que fosse a tela, com a ampliação que estava sendo usada, não era capaz de exibir todo o sistema. Nenhum dos homens da sala de comando dava atenção ao espetáculo. Ninguém tinha o espírito embotado diante dessa beleza irreal, mas todos eles dedicavam-se exclusivamente à sua tarefa, que não lhes deixava tempo de contemplar mais uma vez um quadro que já fora contemplado outras vezes.
O sistema de Forit, que ficava a 248 anos-luz do mundo central do grupo estelar, já gravitava na zona rarefeita, onde as estrelas eram menos numerosas. Forit era um pequeno sol avermelhado. Possuía quatro planetas pequenos e insignificantes. Dois deles eram mundos de pedra, sem vida. Só o segundo planeta sustentava uma forma de vida humanóide. Era habitado pelos soltenses, um povo de cinqüenta milhões de indivíduos. Segundo dizia o almanaque etnológico de Árcon, era um povo de mentirosos. No mundo mais próximo ao sol só viviam animais.
Os soltenses propriamente ditos, que descendiam dos arcônidas, haviam passado por um processo de degenerescência física. Também a ordem social transformara-se no contrário do que fora antes. Da condição patriarcal passara-se para um matriarcado extremado. A mulher era tudo, o homem estava reduzido à condição de animal de trabalho. Até mesmo como pai de seus filhos assumia uma importância puramente biológica.
A mesma coisa acontecera com a religião desse povo. Há muitos anos os antepassados dos soltenses, como também eram conhecidos, ainda acreditavam nos deuses de Árcon, mas os soltenses da atualidade praticavam um demonismo que consistia na veneração de apavorantes figuras fantasmagóricas. Todas elas tinham a configuração masculina.
Os etnólogos de Rhodan não conseguiram explicar a contradição: o matriarcado de um lado, e de outro, exclusivamente os demônios masculinos.
Os dados dos arcônidas, que costumavam manter um registro minucioso de cada povo, eram de uma espantosa escassez em relação aos soltenses.
Será que nos últimos milênios os arcônidas passaram a temer o povo de Solten?
Parece que a espera vai ser longa — disse Sikermann, dirigindo-se ao co-piloto.
Com uma ligeira ironia na voz acrescentou:
Quem sabe se as mulheres soltenses condenaram seus homens à prisão domiciliar e proibiram que os mesmos saíssem à rua?
A Drusus gravitava em queda livre em torno do terceiro planeta. Seus gigantescos propulsores zumbiam em ponto morto. A maior parte das unidades energéticas da nave estava em posição de reserva. Apenas os dutos energéticos trabalhavam, levando cem por cento de sua carga às torres de artilharia.
O planeta número 3 do sistema de Forit passou lentamente pela tela panorâmica. Era um mundo sem atmosfera, um mundo sem formações rochosas perceptíveis. Tinha 2.460 quilômetros de diâmetro, mas sua gravitação chegava a 2,31G.
O supersensível rastreador estrutural da Drusus registrava ininterruptamente abalos estruturais tão distantes que ninguém lhes deu atenção.
Qual é mesmo o tamanho da frota dos soltenses? — perguntou alguém que se encontrava na sala de comando.
Um homem que se achava junto ao computador positrônico de bordo respondeu:
Pouco menos de cinco mil naves. Isso explicava por que até então os terranos e os soltenses nunca se haviam encontrado. Aquela frota minúscula desaparecia que nem uma partícula de pó, em meio às frotas gigantescas de outros povos. Subitamente, Dando, um suaili que tinha pele quase branca, irrompeu numa risada borbulhante. Essa risada de Dando era inimitável. Mas o motivo da hilaridade continuou desconhecido, até que o Coronel Sikermann se aborreceu, porque a risada o distraía no trabalho.
Bem, Dando, quando o senhor vai parar de rir? — perguntou o Coronel Sikermann, que se encontrava na poltrona do piloto, sem virar a cabeça.
Dando ficou borbulhando por mais alguns segundos e disse:
Pronto, coronel, já parei! É que estou gostando dos soltenses.
O quê? Sua risada teve algo a ver com eles? — perguntou Baldur Sikermann, mais interessado.
Naturalmente, coronel — disse Dando, exibindo uma dentadura natural muito branca. — Se eu fosse um homem soltense, também mentiria até não poder mais. Esses pobres-diabos só podem mentir, pois do contrário se tornarão ridículos no interior de seu império, como já são ridículos, vivendo num matriarcado.
Pela grande Via Láctea... — Baldur Sikermann tentou cocar a cabeça, mas o capacete espacial jogado para trás frustrou sua tentativa. Virou-se ligeiramente para o co-piloto. — Pode assumir!
Levantou-se e parou ao lado da sua poltrona.
Dando, quem foi que lhe deu essa idéia?
O suaili já estava rindo de novo.
Queira desculpar, coronel. Imagine que um soltense tem de perguntar à mulher se pode ir para a cama. Como um coitado destes tem de mentir quando chega a outros mundos, onde os homens mandam! É claro que lá também quer fazer o papel do homem forte e, com isso, cai de um extremo no outro e acaba sendo desmascarado como mentiroso. Se tiver muito azar, terá de ocultar à sua cacique-comandante que em outros mundos andou desempenhando o papel de senhor da criação e... e, segundo as informações que nos foram fornecidas por Árcon, leva uma sova medida por padrões bem determinados. Mas não ri disso, coronel.
O rosto de Sikermann exprimiu espanto. Balançou a cabeça com tamanha energia, que Dando se apressou em dizer:
Coronel, foram apenas minhas reflexões.
Rhodan, Bell e Marshall esperavam com uma impaciência cada vez maior que houvesse um encontro com uma das naves dos soltenses. Quando o intercomunicador chamou, Bell disse em tom de alívio:
Finalmente!
O rosto de Sikermann que aparecia na tela parecia confirmar suas previsões, mas dali a pouco Bell parecia muito espantado.
O Coronel Baldur Sikermann transmitiu a Rhodan o resultado das reflexões do tenente.
Obrigado, Sikermann — respondeu Rhodan. — Transmita meus agradecimentos ao Tenente Dando. Acho que suas reflexões representam a solução do enigma. Pobres-diabos... — acrescentou e sacudiu a cabeça cheio de pena.
Nessa situação, eu também me transformaria num mentiroso — disse Bell, que só estava pensando em voz alta.
De repente levou um susto e, dirigindo-se a Rhodan, perguntou:
Você continua fiel ao plano?
Naturalmente, Bell — respondeu Rhodan.
É um plano excelente... — disse Bell em tom de escárnio. — Esse maldito rato-castor realmente tramou alguma coisa formidável. Quero que ele vá para o inferno.
Gucky... Gucky... Gucky! — disse John Marshall, proferindo três vezes o nome do rato-castor.
O que é que vocês querem? — perguntou Rhodan, e seus olhos cinzentos pareciam sorrir. — Nós não queremos, ou melhor, nós não precisamos conhecer tudo o que é possível? Pois bem, vamos saber como se sente um soltense. Acontece que eu também não gostaria de ser comandado por uma... como foi mesmo que Dando se exprimiu?... por uma cacique-comandante.
Subitamente Rhodan deu uma risada e olhou para Bell.
Mas acho que, para você, isso não faria mal, gorducho.
Reginald Bell nunca seria um homem fino. Sua resposta veio com a força de uma erupção vulcânica.
Perry, se você desculpar mais uma arbitrariedade dessa estátua de anão mal-nascido...
Será que ultimamente você deu para sofrer da psicose das modificações de gênio, gorducho, ou será que a estátua de anão voltou a fazer chantagem com você? Não poderia fazer o favor de explicar o que significa a palavra trobel?
Enquanto Rhodan formulava a pergunta, Bell levantou-se, foi até a porta e sem virar-se disse:
Preciso dar uma olhada na sala de comando...
Fechou a porta com alguma violência.
Cuidado, chefe — advertiu Marshall com um sorriso alegre. — Mister Bell está prestes a explodir!
Já sei, John, mas ainda não sei o que significa a palavra trobel. O senhor sabe?
Também não sei. O Marechal Mercant também me fez esta pergunta.
A mim também...

* * *

A bordo da Drusus teve início a quinta hora de espera. Os homens que guarneciam os rastreadores estruturais bocejaram, sua atenção foi diminuindo. Mas de repente concentraram-se. Seus aparelhos de localização haviam dado um sinal. O Tenente Brack, que guarnecia o telêmetro, falou antes dos outros:
Uma nave espacial! Distância: 2,4 milhões de quilômetros, coronel!
Rota... — e os números se atropelaram.
Os dados foram introduzidos no computador de bordo, que realizou o processamento.
As unidades energéticas da Drusus modificaram sua regulagem da posição de reserva para a de plena carga.
Na sala de comando de tiro, soou uma sereia e quatro luzes vermelhas começaram a piscar ameaçadoramente.
Prontidão rigorosíssima.
Os jatos-propulsores da Drusus soltaram um gemido, como se respirassem profundamente, e com um rugido liberaram suas forças.
A Drusus saiu do estado de queda livre e passou a seguir uma rota. No mesmo instante teve início o ribombo dos geradores antigravitacionais. As unidades energéticas de números 11, 12, 13 e 14 transmitiram todo seu potencial energético ao dispositivo de proteção contra a localização. Só as naves das classes Stardust e Império eram capazes de criar campos protetores contra a localização de dimensões tão extensas e conservar a estabilidade dos mesmos.
Nave desconhecida corta nossa rota em... — e mais uma vez seguiram-se dados, graus e indicações de tempo.
Baldur Sikermann moveu uma chave que transmitiu ao computador positrônico a ordem de regular a rota da Drusus.
A distância, que os separava da nave desconhecida, diminuía constantemente.
Qual é o tipo da nave? Quanto tempo ainda terei de esperar por isso? — perguntou o coronel, em tom impaciente.
Ainda nos faltam dois dados. Parece que... coronel, é um tipo soltense. Tem formato de charuto. Não há dúvida!
Obrigado — Baldur Sikermann inclinou-se levemente em direção ao microfone. — Setor de comando de tiro! Com ordem um, abrir fogo.
A confirmação parecia um eco:
Com ordem um, abrir fogo.
Mas os canhões da Drusus ainda permaneceram em silêncio. Para que surgisse a ordem um, tornava-se necessário que o super-couraçado se aproximasse mais da espaço-nave desconhecida.
O corpo da Drusus começou a ressoar. Essa ressonância surgia sempre que os propulsores de uma nave esférica trabalhavam a plena potência. Nem mesmo os arcônidas haviam conseguido evitar essa ressonância, que tornava qualquer vôo prolongado, com a aceleração máxima, num verdadeiro martírio.
O oficial de comando de tiro não ouviu a ressonância. Lia as distâncias fornecidas pelo computador de bordo e fitava os visores de seu quadro de comando. De repente, viu que as torres de canhões continuavam apontadas para o minúsculo alvo.
Subitamente a indicação de distância foi transmitida em algarismos verdes.
O computador positrônico de bordo sabia tão bem quanto o Coronel Sikermann ou o oficial de comando de tiro o que vinha a ser a ordem um.
O canhão de pulsações no 4 também recebeu o sinal verde, que liberava o fogo.
Fogo contínuo de três segundos.
Consumo de energia 104. Era o consumo mínimo para esse tempo e distância. O controle energético da unidade de geradores no 2 registrou o dispêndio apenas no registrador gráfico diagramático, mas não nos instrumentos. Os ponteiros não se moveram.
O oficial de comando de tiro transmitiu uma informação lacônica à sala de comando, onde se encontrava o Coronel Sikermann:
Impacto total depois da ordem um!
Na sala de comando da Drusus, ninguém se admirou com o fato de que apesar do impacto a pequena espaçonave em forma de charuto prosseguiu imperturbavelmente no seu vôo. A ampliação máxima da tela especial não revelou qualquer tipo de avaria na nave dos soltenses.
Na sala dos mutantes, Ras Tschubai, o teleportador alto e esbelto de pele escura, viu o mesmo quadro em sua tela. Acima da borda superior desta, funcionava um contador de comando ótico, que indicava a distância que o separava da nave desconhecida.
Quando o aparelho mostrou o número trezentos mil, Ras Tschubai fechou o capacete espacial. Assim que atingiu o número duzentos e cinqüenta mil sua cadeira esvaziou-se de repente.
Foi embora! — disse o telecineta Tama Yokida, em tom seco.

* * *

Ras Tschubai voltou a materializar-se na sala de comando da espaçonave dos soltenses, que não tinha mais de oitenta metros de comprimento e apresentava o formato de um charuto. Ao tornar-se visível, segurava a arma de impulsos e o projetor hipnótico, mas não precisou desse equipamento.
Os quatro soltenses paralisados — dois nas poltronas dos pilotos e dois estendidos no chão — não tomaram conhecimento de sua presença. Tschubai lançou um olhar ligeiro para aqueles estranhos homens de testas salientes, sob as quais os olhos quase desapareciam. Os quatro traziam o cabelo negro penteado à maneira de pôneis. Quando o olhar de Ras Tschubai caiu na barba dos homens, ele não pôde deixar de rir, apesar da tensão que sentia. A barba daqueles homens estava arrumada em numerosas trancas muito bem feitas, endurecidas por meio de algum fixador, que se destacavam da pele como os aguilhões de um porco-espinho.
A corcova que aparecia na coluna fazia com que parecessem mais baixos do que realmente eram. Eram esbeltos e de quadris finos, e seu tamanho não ultrapassava o tamanho médio dos terranos.
Ras Tschubai permaneceu por algum tempo na tosca sala de comando da espaçonave. Revistou um camarote atrás do outro. Já havia encontrado quinze homens, mas não vira nenhuma das mulheres soltenses que esperara achar por ali.
Nos quatro compartimentos de carga, cheios até o teto de peles perfumadas que exalavam um perfume inebriante, não encontrou ninguém. Mas na sala dos propulsores e dos reatores avistou o décimo sexto e o décimo sétimo soltense, que também haviam sido paralisados pelo raio de pulsações da Drusus.
Uma vez no estreito corredor da espaçonave, o teleportador ligou o telecomunicador de seu traje espacial.
Chamando a Drusus. Tripulação de dezessete homens, nenhuma mulher. Efeito do raio de pulsações inalterado a cem. Procurarei desligar os propulsores. É só.
Enquanto Ras Tschubai voltava a entrar na sala de comando da pequena nave mercante, tirava um dos soltenses do assento de piloto, colocando-o no chão e procurava familiarizar-se com o sistema de comando da nave cargueira, a Drusus desacelerou fortemente e aproximou-se do pequeno veículo espacial.
De repente, os geradores de raio de tração começaram a funcionar na gigantesca usina energética, produzindo o gemido característico. A nave dos soltenses parecia ter sido agarrada por uma mão gigantesca. Foi freada antes que Ras Tschubai, que se encontrava na sala de comando, tivesse tempo para colocar o regulador de marcha sincronizado na posição zero.
Dali a trinta minutos, a pequena nave encontrava-se no interior de um dos hangares da Drusus. Dois comandos sanitários levaram os corcundas paralisados ao hospital da nave. De repente uma angustiosa falta de espaço fez-se sentir em todos os camarotes da Lorch-Arto, a nave dos soltenses.
Os especialistas de Rhodan examinaram os dados relativos à nave e seus planos de construção, enquanto a Drusus acelerava novamente, afastando-se do sistema de Forit e dirigindo-se a um setor espacial pouco navegado, onde as estrelas eram muito raras. Durante toda a operação o dispositivo antilocalização permaneceu ligado.
O computador de bordo encontrava-se trabalhando exclusivamente para o comando especial. Seus membros estavam se familiarizando com a língua planetária dos soltenses.
Uma hora depois, passariam a dominar sua gramática, seu vocabulário e sua sintaxe.
Era só o que faltava — disse Bell, quando lhe falaram no treinamento hipnótico que lhe ensinaria a língua desse povo por meio do processo sugestivo criado pelos arcônidas.
Rhodan, Marshall, Gucky, além de Tako Kakuta e Ras Tschubai, que eram teleportadores, e ainda o sugestor Ishibashi e o telecineta Yokida também se submeteram ao treinamento hipnótico. Dali a meia hora saíram da escola hipnótica, dominando perfeitamente a língua escrita e falada dos soltenses. Fellmer Lloyd, o localizador e telepata, André Noir, o hipno, e mais três homens formavam o segundo grupo que teria de submeter-se a esse tratamento. O terceiro e último grupo estava aguardando sua vez.
Os bioplásticos esperavam Rhodan e os homens que já haviam feito o curso.
Com Gucky os bioplásticos não puderam fazer nada. Continuou a ser o que sempre fora: Gucky, o rato-castor.
Mas os homens transformaram-se em soltenses. Soltenses corcundas com as características testas salientes.
Os bioplásticos dirigidos pelo Dr. Tschai Toung, um cientista e técnico em máscaras, de descendência chinesa, estavam ansiosos para demonstrar com seu trabalho o que sabiam fazer.
Ainda falta a barba modelo ouriço — disse Tschai Toung, preparando o vice-administrador para a fase seguinte do procedimento.
Mais uma vez, Bell não soube responder como um homem fino. Gucky irritava-o até a medula dos ossos. Vivia rindo com seu dente roedor, divertindo-se à custa do gorducho.
Na divisão de detalhes da gigantesca Drusus, havia um movimento febril. A designação detalhe dizia menos do que deveria dizer. Com exceção do centro de Terrânia, era a mais genial oficina de falsificadores da Galáxia, com a qual nem mesmo o Grande Império poderia medir-se.
A divisa que reinava por lá era a seguinte: nada é impossível.
E essa divisa não representava nenhum exagero. As imitações feitas ali eram tão perfeitas que podiam resistir a qualquer controle dos arcônidas, por mais rigoroso que fosse. E era justamente isso que se queria.
No hospital da Drusus só havia dezesseis soltenses. Por meio dos melhores medicamentos fabricados pelos aras os médicos terranos haviam libertado os corcundas do efeito paralisante do raio pulsador. Mas, para evitar que a terapia entrasse num estágio incontrolável, aplicaram por cautela a hipnose que, durante o processo de regeneração, era eliminada automaticamente.
Os soltenses não acordariam antes de trinta horas.
O décimo sétimo encontrava-se na sala dos bioplásticos, sob triplo controle médico. Era usado como modelo para os artistas que trabalhavam lá, modelo este que serviria para transformar em soltenses todos os membros do Comando de Risco, a começar pelo chefe do Império Solar.

* * *

Três horas depois do treinamento hipnótico, o Comando de Risco Solten estava pronto para entrar em ação.
Dezessete soltenses subiram a bordo da Lorch-Arto. Gucky fez pairar à sua frente um recipiente, que o transportou.
Rhodan e Bell não tiveram maiores dificuldades em familiarizar-se rapidamente com a construção algo estranha da Lorch-Arto, já que a concepção fundamental dessa nave em forma de charuto também tivera sua origem numa forma arcônida. Apesar disso demorou algumas horas até que Rhodan comunicasse pelo rádio que desejavam sair do hangar.
Mais uma vez, um potente raio de tração segurou a pequena Lorch-Arto e largou-a no espaço, longe dos campos protetores da Drusus.
A nave dos mentirosos começou a acelerar lentamente. Os homens da sala de comando do supercouraçado permaneceram em silêncio, enquanto acompanhavam o mergulho da nave cargueira no negrume do espaço. Parecia que queria contornar o grupo estelar M-13 numa curva bem ampla, mas os localizadores incorruptíveis da Drusus diziam que a Lorch-Arto seguia diretamente para Archetz, um importante planeta dos saltadores.
Poucas das pessoas a bordo da Drusus sabiam por que Rhodan arriscava a si e aos seus melhores mutantes nessa perigosa missão. E os poucos que estavam informados a este respeito perguntavam-se: será que o chefe encontrará Thomas? E, se encontrar, haverá uma reconciliação entre pai e filho?
5



O espaçoporto de Lus, situado em Archetz, um mundo dos saltadores, quase não fora danificado durante o ataque dos druufs. Era o único que podia ser usado independentemente de maiores reparos.
Depois de fazer uma consulta pelo tele-comunicador, a Lorch-Arto foi encaminhada a Lus. Há duas horas pousara na vaga 2.005. Quando tocou o solo, a polícia espaço portuária dos saltadores já a aguardava.
Ninguém sai da nave! Mostrem os documentos! Abram as escotilhas de carga!
O destacamento policial dos saltadores subiu a bordo com cinco robôs de guerra. Estes foram postados diante das comportas, enquanto onze mercadores galácticos revistavam todos os cantos da Lorch-Arto.
O que é isso? — perguntou o comandante soltense, numa débil tentativa de protesto.
Quando você voltar para casa, pergunte a sua mulher, Maixpe — respondeu o saltador em tom sarcástico. — Talvez ela esteja bem-humorada e só lhe aplique cinco bordoadas em vez das dez que você merece por sua pergunta idiota.
Três saltadores que se encontravam por ali soltaram estrondosas gargalhadas e lançaram um olhar para os dois corcundas que se achavam na sala de comando.
Saia do caminho! — disse um deles em tom áspero, empurrando violentamente um soltense muito “compacto”.
Trobel! — disse um soltense em tom indignado, mas logo se abaixou covardemente, sob o olhar ameaçador do saltador.
Malditos mentirosos! — observou o saltador e pôs-se a controlar os documentos da carga.
A Lorch-Arto trazia uma carga de peles de odd. Eram as peles perfumadas do primeiro mundo de Forit. Uma boa pele valia uma fortuna. Uma exploração predatória, que já durara vários séculos, reduzira bastante o número dos odds, animais de pêlo de um metro e meio de comprimento, com seis pés, corpo de cobra e uma cabeça que lembrava um buldogue. Por isso, nos últimos 50 anos, o preço das peles desses animais do primeiro planeta tivera um aumento de oitocentos por cento.
Para quem são estas peles? Logo vi... Só poderiam ser para Cokaze. Esse velho anda metido em todas — constatou o saltador, em tom contrariado.
Continuou a examinar os documentos de carga em atitude desconfiada.
O comandante da espaçonave em forma de charuto perguntou em tom submisso:
Posso telefonar para o patriarca Cokaze, senhores?
Aqui você pode ainda menos que em casa, seu corcunda! — gritou furiosamente o chefe do destacamento policial. — Cale essa boca! Até sinto uma dor no ouvido, quando ouço esse intercosmo que você fala! Fique quieto até que terminemos o controle.
Sim senhor. Seja o que meu senhor ordenar — disse o comandante com o corpo humildemente curvado, fazendo de conta que não via as mãos de seu primeiro-oficial, que era aquele homem compacto, crisparem-se de raiva.
Ei, soltense, que rota foi essa que você seguiu?
Exageradamente solícito, Maixpe inclinou-se sobre o registro de rota.
Oh, meu senhor, tivemos um encontro com uma nave da frota do superpesado Onkto. Tivemos de mudar de rota e dirigir-nos ao quartel-general. Tivemos de dar trinta odds para poder passar. Que os demônios tenham pena de mim e me façam inventar uma boa desculpa, para eu apresentá-la ao Grande Conselho das Mães...

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