Enre, que
ficara fascinado com as palavras de Cokaze, amaldiçoou o momento em
que Olgall o arrancara do sono, para trabalhar com uma mensagem
indecifrável.
Acreditara
que os homens, em cujas mãos confluíam os fios que dirigiam os
movimentos subversivos, formassem um grupo de grandes cabeças, de
pessoas equilibradas, mas agora teve de reconhecer, cheio de
perplexidade, que as coisas eram muito diferentes.
Só se
sentia impressionado com um dos patriarcas: Cokaze!
E este se
retirava da pequena sala.
*
* *
O Dr. Orge
Olundson e seus colaboradores haviam extraído os pontos importantes
das extensas informações sobre os soltenses, transformando-as num
conjunto harmônico e facilmente compreensível. Mas ainda havia um
ponto que não lhe agradava.
Ali, nas
informações fornecidas pelo gigantesco centro de computação,
também estava escrito! Os soltenses são um povo de mentirosos!
O Dr. Orge
Olundson lançou um olhar preocupado para o relógio. Estava na hora
de enviar o relatório ao chefe. Num gesto hesitante colocou sua
assinatura depois das outras.
— Um
povo de mentirosos... — disse para si mesmo, balançando a cabeça.
— Se isso é verdade, o que ainda não acredito, só posso fazer
votos de que o chefe não tenha escolhido os soltenses para serem
nossos amigos. Um povo de mentirosos... É incrível!
*
* *
O
relatório do etnólogo foi o último a chegar às mãos de Perry
Rhodan. Mas foi o primeiro em que o administrador pôs as mãos.
No segundo
parágrafo, primeira oração, leu o seguinte:
Os
soltenses são um povo de mentirosos.
Depois de
ler a frase duas vezes, Perry disse:
— Faça
o favor de ver isto, Bell! Reginald Bell inclinou-se sobre o papel,
sem desconfiar de nada. O dedo de Perry apontava uma linha.
— Isso
só pode ser uma piada de mau gosto — disse Bell. — Quem é o
autor deste relatório? Os etnólogos? Vou entrar em contato com essa
gente. Vou dizer umas verdades ao Olundson. É o cúmulo da
desfaçatez! Como pode brindar-nos com uma coisa dessas?
Bell
estava zangado, e a cólera era um estado de ânimo raramente notado
em sua pessoa, apesar de viver resmungando, praguejando e usando
expressões pouco convencionais. Estendeu a mão em direção ao
microfone, a fim de entrar em contato com o Dr. Olundson, mas Rhodan
fez uma sugestão:
— Vamos
dar uma olhada nos outros relatórios. Talvez encontremos nos mesmos
alguma coisa que possa esclarecer essa afirmativa inacreditável.
Dez
minutos antes da hora marcada para a conferência com os mutantes, o
Dr. Orge Olundson entrou pela primeira vez em sua vida no gabinete de
Perry Rhodan. Bell, com sua voz trovejante, ordenara o comparecimento
do etnólogo.
— Meu
caro Olundson — principiou
Bell. —
Parece que gosta de fazer piadas. O senhor acha que temos tempo para
aborrecer-nos com seus gracejos de mau gosto? Ora, veja! Os soltenses
são um povo de mentirosos...
Nem mesmo
durante o debate com os parlamentares do Império Solar, quando
pesadas acusações foram formuladas contra ele e Rhodan, Bell
chegara a falar tão alto.
O Dr. Orge
Olundson estremeceu visivelmente, engoliu em seco e, num gesto
totalmente inesperado, aproximou-se de Reginald Bell!
— Por
favor, Marechal Bell! — disse, oferecendo-lhe ostensivamente três
fitas perfuradas.
— O que
quer que eu faça com isso? — gritou Bell.
— Quero
que leia... e depois grite! Nesse instante, Bell percebeu que fora
longe demais.
— Quem
foi que gritou, doutor? Talvez tenha usado expressões mais claras
que de costume...
Subitamente
Bell pareceu ficar sem fôlego. Finalmente disse com a voz triste:
— É
verdade, Perry! Os soltenses são um povo de mentirosos! Leia!
Enquanto
Rhodan procurava familiarizar-se com o conteúdo da fita perfurada,
Bell lançou um olhar desajeitado para o etnólogo. Subitamente
colocou a mão sobre o ombro do cientista...
— Não
leve a mal, doutor... Devo pedir desculpas por...
O etnólogo
interrompeu-o apressadamente.
— Por
quê? Pela experiência por que passei, ao notar que os semideuses do
planeta Terra continuam a ser humanos? Estaria disposto a pagar um
preço muito mais elevado por isso.
Até
Rhodan levantou os olhos.
— Semideuses?
— perguntou Bell.
— Isso
mesmo. Os senhores não envelhecem. Nunca lhes ocorreu que com isso
causam pavor à população? Foram, por assim dizer, erigidos à
condição de semideuses.
— Doutor...
Os olhos
cinzentos de Rhodan fitavam-no com uma expressão séria.
— Ficamos-lhe
muito gratos por ter chamado nossa atenção sobre um ponto a
respeito do qual nunca chegamos a refletir. Semideuses! Logo nós.. —
soltou uma risada, mas não foi uma risada alegre. — Os semideuses
levam uma vida alegre e confortável. Acontece que, nestes últimos
anos, Mister Bell e eu tivemos exatamente uma semana de férias.
Quero fazer-lhe uma pergunta, doutor. O senhor acha que um semi-deus
costuma ser tão modesto como nós?
Não quis
ouvir a resposta. Foi para junto do etnólogo e apertou-lhe a mão.
— Ficamos-lhe
muito gratos pela indicação que acaba de nos fornecer, mas nem por
isso o senhor se livra de uma tarefa. Terá de explicar por que os
soltenses são um povo de mentirosos.
— Ora,
sir, se eu soubesse a resposta a esta pergunta também me sentiria
muito melhor. Acontece que não sei. No material examinado só
encontramos a palavra mentirosos, e no material vindo de Árcon a
mesma coisa foi expressa numa frase: os soltenses são um povo de
mentirosos. Mas em nenhum lugar se explica por que essa afirmação é
feita.
O Dr.
Olundson retirou-se. Rhodan e Bell ainda dispunham de alguns minutos
antes da conferência.
O gorducho
tinha alguma coisa na ponta da língua. Passou a caminhar à frente
da escrivaninha de Perry. De repente parou diante do amigo, respirou
profundamente e perguntou:
— Perry,
você já se lembra de quem ou o que lhe deu essa idéia dos
soltenses?
Naquele
momento, o sexto sentido do gênio fizera Perry Rhodan reconhecer o
que se passava na mente do amigo.
— Você
mandou vigiar-me?! — exclamou.
— Há
algumas horas, Perry! E você ficará sob controle até que saiba o
que lhe deu essa idéia dos soltenses. Acho que estamos entendidos,
não estamos, Perry?
— Entendo
o sentido das suas palavras, Bell, mas não compreendo por que deu
uma ordem dessas às minhas costas.
Perry
lançou um olhar penetrante para o amigo.
— Você
acaba de usar uma expressão muito feia, Perry! — Bell sentou-se em
postura relaxada à frente de Rhodan, mas sua confortável posição
não poderia dissimular a gravidade da situação. — Aquilo que fiz
há algumas horas, depois de conversar com Mercant, foi feito por
você, não contra você.
— Quer
dizer que você suspeita de mim, Bell?
— Isso
mesmo. Ou será que você já pode responder à minha pergunta?
— Não.
— Nesse
caso tudo continuará como está.
— E se
eu lhe ordenar que a vigilância de minha pessoa seja suspensa
imediatamente?
Bell
sorriu.
— Você
nunca fará uma coisa dessas. Como administrador... — não
completou a frase.
— Muito
bem. Mas mudei de idéia sobre uma coisa. A conferência com os
mutantes será realizada só por mim. Volte a chamar o computador de
Árcon III e peça-lhe que indique os fundamentos em que se baseia
para afirmar que os soltenses são um povo de mentirosos. Se o
computador não estiver em condições de dar esta informação,
teremos de incomodar Atlan. Preciso da informação até amanhã, às
seis horas, tempo padrão.
— Será
um prazo muito curto, caso Atlan tenha de recorrer a seu indolente
serviço de informações. Estou curioso para ver no que vai dar
isso.
— E eu
me sinto preocupado, Bell, pois essa informação sobre os soltenses
é uma coisa terrível. Insista junto a Atlan, explicando-lhe que
temos necessidade absoluta dessa informação antes da decolagem.
Bell
retirou-se. A caminho da grande estação de hiper-rádio, parou no
gabinete de Allan D. Mercant.
— Ele
adivinhou, Mercant! — enquanto dizia estas palavras, Bell entrou
precipitadamente no gabinete do chefe do Serviço de Defesa Solar.
O marechal
levantou os olhos. Parecia espantado.
— Já?
Qual foi a reação de Perry?
— Foi
uma reação gelada, Mercant, tão gelada como raramente encontrei
nele. Aliás, o senhor sabe que os soltenses são um povo de
mentirosos?
Bell já
se encontrava na porta.
— São o
quê?
Reginald
Bell ficou satisfeito ao notar que até mesmo Allan D. Mercant
perdera o autocontrole.
— Feche
a boca, Mercant! Antes que possa responder à sua pergunta, dizendo
por que os soltenses são um povo de mentirosos, terei de entrar em
contato com o computador de Árcon III, e se este também não
souber, chamarei Atlan, ou melhor, Sua Alteza.
— Um
momento, Bell; não vá embora — gritou Mercant, quando Bell se
dispôs a sair. — Faça o favor de contar!
— Ah,
então as coisas são assim? Estava na vez de Bell ficar espantado.
Quando o
chefe do Serviço de Defesa se empenhava pessoalmente num assunto, o
caldo geralmente era muito mais grosso e menos saboroso do que se
supunha. É que Mercant possuía aquilo que se poderia chamar de faro
natural.
Bell
contou e Mercant ouviu-o em silêncio. Quando concluiu, o marechal
levantou-se.
— Irei
com o senhor.
Na sala de
comando de hiperfreqüência do grande emissor, antes de mais nada,
Bell cuidou de ficar a sós com Mercant. Dali a pouco, a mensagem
negativa foi irradiada pela onda do grande centro de computação. O
conteúdo da mensagem resumia-se no seguinte:
Por que
os soltenses são mentirosos?
Pedimos
fundamentar,
(a)
Rhodan.
Mercant
notou o sorriso de Bell.
— Por
que está rindo, Bell?
— É que
estou imaginando os saltadores que devem estar à escuta, Mercant.
Cairão sobre a transmissão que nem uns abutres. Gostaria de ouvir
as pragas que esses ciganos estelares vão soltar, porque...
— Será
que seu estoque ainda não é suficiente? — interrompeu Mercant. —
O que significa a palavra trobel?
— Santo
Deus, onde foi que o senhor ouviu essa palavra? — perguntou Bell,
em tom de espanto.
— Onde
poderia ser? Ouvi a palavra da boca de Gucky. Foi ontem. Esse
rato-castor passou uma descompostura num dos membros do Exército de
Mutantes, e, no fim, ainda o chamou de trobel. Isso significa...?
— Não é
que esse sujeito andou lendo novamente os meus pensamentos? —
constatou Bell em tom seco.
— Nesse
caso ele deve ler cada coisa... — respondeu Mercant em tom ambíguo.
— Acontece que ainda não sei...
— Fim de
papo! A resposta chegou, Mercant. Vem de Árcon III.
Com uma
pressa espantosa, Bell correu para junto do aparelho, pegou a fita
perfurada, que continha a resposta do computador gigante, e
dirigiu-se a um pequeno aparelho que não estava acoplado ao
equipamento de rádio.
A caixinha
em cujo interior desapareceu a fita perfurada transformou a mensagem
negativa que acabara de ser captada numa mensagem positiva. Enquanto
isso destruía a fita negativa, à medida que o texto era registrado
na fita positiva.
— Droga!
— disse Bell.
— Isso é
uma expressão inequívoca! — observou Mercant, em tom irônico.
O
gigantesco centro de computação respondera que não sabia informar
por que os soltenses seriam um povo de mentirosos.
— Atlan
terá de entrar na dança! Uma vez preparada a fita perfurada para o
impulso concentrado, o pequeno aparelho lacrado elaborou o negativo.
Mercant
acompanhou-o com os olhos. De repente disse:
— Essa
idéia deveria acudir a qualquer pessoa que entende alguma coisa de
hiper-rádio, Bell!
Bell
possuía grande capacidade, mas não costumava exibi-la. Na área do
hiper-rádio era um perito de primeira ordem.
Com o
negativo na mão, lançou um olhar triste para Mercant.
— Veja,
Mercant — disse com um amplo gesto de mão. — Por aqui não há
nada que possa representar um mistério para mim. Mas esta caixinha
construída por nossos engenheiros representa um livro fechado para
mim. A expressão “negativo de hiper-rádio” já é completamente
errada. Tão errada e enganadora como se, por exemplo, eu dissesse
preto e quisesse dizer redondo. O senhor compreendeu?
— Pelo
amor de Deus, Bell, transmita logo o impulso concentrado! Não quero
ouvir falar mais nisso, mas gostaria que o senhor me explicasse o que
significa a palavra trobel.
— Antes
tenho de contar-lhe alguma coisa sobre o processo do negativo de
hiper-rádio, Mercant. De acordo?
— Seu
chantagista! — respondeu Mercant com um ligeiro sorriso. — Um
belo dia ainda descobrirei o que significa essa palavra...
— E eu
torcerei o pescoço de Gucky, se tiver de passar por um vexame por
culpa dele — ameaçou Reginald Bell e transmitiu a indagação
dirigida a Atlan.
“Aguarde”,
dizia a resposta de Atlan. “Preciso
mandar realizar investigações. (a) Gonozal VIII.”
— Bem —
começou Bell em tom de resignação. — Com a lentidão dos
dorminhocos arcônidas, poderemos preparar-nos para uma longa espera!
4
O rugido
dos jato-propulsores instalados na protuberância equatorial da
Drusus foi crescendo, enquanto o supercouraçado deixava para trás o
envoltório atmosférico da Terra e ganhava velocidade.
A nave
capitania da Frota Solar acabara de decolar numa missão especial. A
ação fora batizada com o nome Comando de Risco Solten.
John
Marshall, o telepata mais competente do Exército de Mutantes, que
exercia o comando daquela tropa singular, entrou no camarote de
Reginald Bell.
— Entre,
Marshall — pediu Bell e pegou dois cálices de conhaque. — Ainda
faltam alguns minutos para a transição, e isso basta para um
conhaque. O Dr. Manoli também é de opinião que um ou dois goles de
aguardente antes do salto pelo hiperespaço não podem fazer mal a
ninguém. Pois bem. À saúde!
— À
saúde de quem? — perguntou Marshall, passando a mão pelo cabelo
escuro.
— Pode
ser à saúde dos soltenses, dos mentirosos — disse Bell em tom
ruidoso, dando a entender que a questão central que o afligia
naquele momento, a indagação sobre os motivos por que os soltenses
foram designados por mentirosos, ainda não encontrara solução.
— Será
que não deveríamos beber à saúde de Gucky, Mister Bell? —
perguntou o mutante.
Bell
estacou. Raramente Marshall mudava de assunto, quando não havia um
bom motivo para isso.
— Qual é
a última que ele andou fazendo, John?
— Foi
ele quem botou na cabeça do chefe a pulga dos soltenses. Foi o
rato-castor!
Bell
levantou-se como se uma bomba tivesse explodido perto dele.
— Uma
pulga; essa é boa! Muito boa mesmo — disse num gemido. — Ora,
Gucky, você está com sorte por não estar aqui neste momento. Logo
este! E eu mandei vigiar Perry e por isso tive de passar o pior
minuto de minha vida. Tive de ouvir de sua boca que estou tramando às
suas costas. E tudo isso por causa desse sujeito. John, o chefe já
sabe disso?
— Ainda
não. Informá-lo-ei depois da transição.
— Não
se preocupe. Terei o maior prazer em cuidar disso, John. Mas vamos
depressa... Viva!
Dali a
trinta segundos teve início a desmaterialização e alteração
estrutural, provocando em todas as pessoas, que se encontravam na
nave, a dor lancinante que se seguia a tal processo. O farfalhar e o
murmúrio do hiperespaço de quinta dimensão penetrou no gigantesco
veículo espacial esférico.
Reginald
Bell gemeu e esfregou a nuca. Era onde costumava sentir a dor da
transição com maior intensidade. Marshall, que estivera encolhido,
ergueu-se cautelosamente, aspirando ruidosamente o ar. O movimento de
expiração foi acompanhado de um som de alívio.
— Maldito
rato-castor! Que moleque!
O fato de
terem percorrido num tempo zero uma distância de cerca de dez mil
anos-luz já não significava mais nada para os dois homens. Haviam
passado por isso centenas de vezes, e nessas oportunidades sempre
experimentaram a dor da desmaterialização e da rematerialização.
Tudo isso pertencia a seu estilo de vida. Mas o que assumia mais
importância era a brincadeira que o rato-castor se permitira com o
chefe.
— Há um
nó nessa história, Marshall — disse Bell em tom pensativo. — Na
minha opinião, o rato gigante não seria capaz de cometer tamanha
tolice. Até hoje Gucky nunca se atreveu a entrar em choque com Perry
ou fazer suas brincadeiras de mau gosto com ele. Sabe mais alguma
coisa, John?
— Não,
só sei aquilo que já contei. Estava a caminho daqui, quando vi
Gucky correr furtivamente pelo convés. Quase automaticamente entrei
em seus pensamentos e notei quando mentalizou: Perry, o que deverei
fazer para que você saiba que a idéia dos soltenses foi minha?
Naquele momento, Gucky já devia ter percebido que alguém controlava
seus pensamentos. Desapareceu num salto de teleportação. Foi só
isso.
Bem
devagar, Bell voltou a encher os cálices. Afastou a garrafa, deixou
o suporte de lado e balançou a cabeça.
— Marshall,
não acredito que na Terra exista um único homem que tivesse a idéia
de haver em algum canto do Universo um povo chamado soltenses. Por
isso fico me perguntando como Gucky poderia saber desse povinho do
Império de Árcon? Onde adquiriu seus conhecimentos a esse respeito?
E, para remate dessa história louca, ainda acontece que se diz que
os soltenses são um povo de mentirosos.
Bell tomou
um grande gole. Parecia desesperado.
Naquele
momento, Perry Rhodan chamou pelo sistema de intercomunicação de
bordo. Viu que John Marshall se encontrava no camarote de Bell.
— Gostaria
de falar com vocês dois, Bell.
Dali a
alguns minutos entraram no camarote de Rhodan. Bell olhou por acaso
para o sofá. Gucky parecia sentir-se muito bem acomodado.
Imediatamente
a cólera apoderou-se da mente de Reginald Bell. O ar começou a
tremer acima do sofá, e Gucky desapareceu do camarote de Rhodan.
— Ora
essa, onde está Gucky? — perguntou Rhodan em tom de espanto, ao
ver que o sofá estava vazio.
Isso
representou a palavra de ordem de Bell.
Em todos
os cantos da Drusus, os alto-falantes do sistema de chamada geral
começaram a soar.
Estavam à
procura de Gucky! Havia uma ordem para que o mesmo se apresentasse
imediatamente ao administrador-geral. A ordem foi repetida
incessantemente pelos alto-falantes.
— Vocês
andaram fazendo minha caveira com o chefe! — disse uma voz vinda do
sofá.
Era Gucky!
Parecia uma flor murcha. Escondia seu dente roedor. Seus olhos de
rato não tinham descanso. O silêncio de Rhodan devia ser uma coisa
terrível para ele. Naquela hora, o rato-castor não se atreveria a
recorrer aos seus dons telepáticos para ler os pensamentos de Perry.
— Por
que fizeram tanto espalhafato por minha causa, chefe? Será que minha
presença é mesmo indispensável?
Rhodan
permaneceu em silêncio. Mas seus olhos cinzentos diziam bastante.
— Está
bem... — Gucky recuperou o ânimo e desistiu instantaneamente da
postura desanimada.
Saiu de
cima do sofá, esforçou-se para assumir uma pose militar à frente
de Rhodan e começou a piar.:.
— A
idéia não é minha. Foi aquele cigano saltador... bem, foi Cokaze
quem a deu a mim...
— Já me
sinto um pouco melhor! — exclamou Bell. Parecia respirar com
dificuldade e abriu o colarinho.
— Não
seja tão convencido — disse Gucky, dirigindo-se a ele, o que
constituía um sinal evidente de que não se sentia muito culpado. —
Durante minha visita à Cok I, enquanto a nave cilíndrica ainda
descrevia uma órbita em torno de Vênus, captei na mente de Cokaze
um pensamento sobre o sistema de Forit e o seu segundo planeta,
chamado Solten. O velho só sabe pensar em dinheiro. Naquele momento
calculava quanto os soltenses lhe deviam em royalties. Chegou à
conclusão de que essa quantia lhe permitiria adquirir mais três
naves...
— Não
seja tão prolixo, Gucky! — disse Bell em tom áspero.
— OK!
Colhi a idéia e não me esqueci dela. Neste meio tempo liquidei
certas coisas. O chefe gostaria de saber como aproximar-se de Cardif.
Logo engatei. Pensei na fonte de renda de Cokaze. Pensei em mais
alguns detalhes e... bem, já que você faz questão de saber,
gorducho, é bom que eu lhe diga isto: o plano da Ação Solten é
todinho meu, de A a Z. Bem, Perry, agora encoste-me à parede e mande
que me fuzilem.
Falando a
meia voz, Perry disse a Bell:
— Dê
uma corrida até seu camarote e traga uma garrafa de conhaque.
Preciso de uma dose dupla e não tenho nenhum.
— Um
momento — piou Gucky, e desapareceu.
Dali a
vinte segundos, o rato-castor surgiu do nada, com a garrafa de
conhaque de Bell na mão.
— Vocês
devem ter tido uma bebedeira daquelas. Em seu camarote há um cheiro
de cachaça...
— Chega!
— Rhodan deu esta ordem em tom penetrante.
Sorveu um
grande gole de conhaque e descansou o copo, sem dizer uma palavra.
Lançou um olhar insistente para o rato-castor.
— Foi
você quem me sugestionou para que concebesse o plano, Gucky? Não
acredito!
— Você
precisa acreditar, Perry. Nem eu mesmo sabia que era capaz de
influenciá-lo com tamanha facilidade. E não tive a intenção de
fazê-lo. Apenas... bem, você sabe, não pude resistir à
tentação... li um pouco nos seus pensamentos, e comecei a
preocupar-me com você. Fiquei pensando sobre a melhor maneira de ir
a Archetz para encontrar Thomas. Comecei a raciocinar e, enquanto
raciocinava, descobri que você acompanhava meu pensamento.
“Perry,
eu juro que tive medo. Não tive coragem de lhe dizer o que estava
acontecendo com você por minha causa. Mas não tenho culpa de que
digam por aí que os soltenses são um povo de mentirosos. Eu nem
sabia disso.”
Bell
cochichou a seu lado:
— Estou
com vontade de torcer seu pescoço!
— Pois
experimente! — advertiu Gucky com a maior tranqüilidade. — Se
continuar assim, procurarei o velho Mercant assim que regressarmos à
Terra e lhe explicarei o que significa a palavra trobel.
— O que
foi que vocês disseram? — perguntou Rhodan, que se distraíra com
essa conversa particular entre Gucky e Bell.
— Nada
de importante — apressou-se Bell em responder. — Você vê algum
ponto fraco no plano Solten, elaborado por Gucky?
Rhodan
lançou-lhe um olhar desconfiado. A mudança de idéia de Bell fora
repentina demais. Quando fitou Marshall, só viu um rosto estreito e
impenetrável. Gucky foi bastante inteligente para conservar-se em
segundo plano. Naquele momento não tinha a ambição de estar no
centro dos acontecimentos.
— O
plano é excelente, mas o que Gucky fez é uma coisa terrível.
Explique-me de que modo conseguiu sugestionar-me, Gucky!
Gucky
exultava intimamente. Perry Rhodan o chamara de Gucky, não de
Tenente Guck, o que era um sinal de que a trovoada já estava
passando.
— Perry,
nem tive a intenção de influenciá-lo, ao menos de forma
consciente.
Se é que
fiz uma coisa dessas, isso aconteceu porque de repente descobri que
você pensava através dos meus pensamentos. Concluí que minha força
sugestiva era tão fraca que conseguia passar por baixo do seu bloco
de segurança. Por favor, não me faça jurar três vezes de que
realmente foi assim. É preferível acreditar logo. Apenas, não tive
a coragem de preveni-lo, e isso foi uma atitude pouco desleal. Vez
por outra pensei: Gucky, seu plano é tão bom. O chefe vai matar
dois coelhos com uma só cajadada. Primeiro fará secar uma das
fontes de dinheiro do cigano estelar Cokaze, e, além disso, através
de Solten, conseguirá chegar a Archetz sem correr o menor perigo...
Bem, Perry, aí fiz uma das minhas. Está certo?
— O que
é que você quis dizer ao falar na fonte de dinheiro? — perguntou
Rhodan com certa surpresa.
Gucky
parecia crescer a olhos vistos.
— Bem,
entre Cokaze e as chefes dos soltenses existe um tratado, segundo o
qual as naves dos soltenses trabalham para o clã dos saltadores e,
se entendi bem o que Cokaze estava pensando, pagam a ele, a título
de royalties, dez por cento do movimento bruto. Acho que não seria
muito difícil dar oportunamente uma sacudidela em nosso amigo
Cokaze, a fim de levá-lo a desistir desses dez por cento. Com isso
teríamos mais alguns amigos no Império de Árcon.
— Hum —
disse Bell — um povo de mentirosos.
— Isso
já é outra coisa. Vou pensar em sua idéia, Gucky. Espero que você
compreenda que, em virtude dessa história, sua promoção será
bastante demorada!
Gucky riu
com o dente roedor solitário. Seus olhos chispavam como se tivessem
sido cromados.
— Ora
essa, chefe — disse em tom imponente. — Você realmente acha que
eu dou muita importância a isso? Pouco importa que você me promova
ou me rebaixe. O principal é que não me tenha mandado embora. Mas
agora também preciso de uma dose dupla de conhaque. Bell, meu
querido gorducho, acho que você não terá nenhuma objeção, não é
mesmo?
Bell
limitou-se a gemer. Sabia perfeitamente que o rato-castor gostava de
beber na própria garrafa, e que suportava quantidades enormes de
álcool.
— Caramba!
— Rhodan fitou a garrafa vazia com uma expressão de perplexidade.
Gucky
passou a pata pelo focinho, lambeu o dente roedor e disse em tom de
connaisseur:
— Bell,
já tomei cachaça melhor que esta no seu camarote. Mas a que acabo
de tomar também não é nada má. Será que minha presença ainda é
necessária? Acredito que não...
Desapareceu
imediatamente. O ar ainda estava tremendo, quando Rhodan dirigiu uma
pergunta ao telepata Marshall:
— John,
o senhor acredita nas explicações de Gucky?
— Sim
senhor, mas só porque foi Gucky que disse. Se fosse qualquer outra
pessoa, eu não acreditaria.
*
* *
Enre, o
especialista de hiper-rádio dos mercadores galácticos estabelecidos
no mundo de Archetz, tangia seus colaboradores ininterruptamente em
direção à loucura. Ele mesmo também não estava muito distante da
mesma.
Quatro
mensagens de hiper-rádio da Terra, dirigidas a Árcon, uma delas
expedida para o planeta da guerra e outra para o mundo de cristal,
resistiam a todas as tentativas de decifração.
— Isso
nem são mensagens, são perturbações — afirmou um dos
colaboradores.
Enre
provou a todos que realmente se tratava de transmissões de
hipercomunicação vindas pelo hiperespaço, mas era só o que sabia.
Apesar disso não desistiu. Ao meio-dia, ordenou que todos os outros
trabalhos fossem suspensos.
Ao
anoitecer, descobriram a primeira pista.
— Enre!
— fora seu colaborador mais antigo que gritara por ele. — Veja!
As posições de amplitude não são corretas...
Pareciam
deslocadas; realmente estavam deslocadas. Pela meia-noite tiveram
certeza a este respeito. Enre mandara todos para casa, com exceção
de seu representante. O computador positrônico zumbia baixinho a seu
lado. Aguardavam ansiosamente o importante resultado da computação.
A máquina deveria informá-los sobre o que acontecera com a
amplitude de hiper-rádio. Queriam saber por que cada uma das quatro
misteriosas mensagens, vindas do planeta Terra, só era formada de
amplitudes deslocadas.
O cartão
de plástico caiu no receptáculo. Enre e seu representante
estudaram-no atentamente.
Ficaram
pasmos. O computador afirmava que as amplitudes das quatro
transmissões de hiper-rádio não haviam sofrido qualquer
deslocamento.
— Vou
dormir! — exclamou Enre em tom de decepção e atirou o cartão
perfurado sobre a mesa.
— Eu
não! — disse seu representante. — Quero saber que truque é este
que os terranos nos estão aplicando.
— Você
conhece os terranos? — perguntou Enre.
— Não.
— Pois
eu conheço. Ao menos um deles. O filho de Perry Rhodan. Por todos os
deuses, se todos os terranos forem como este, eles ainda nos darão
muito o que pensar!
— Até
parece que esse indivíduo o incomodou bastante!
— E não
incomodou só a mim! — gritou Enre, em tom exaltado. — O Conselho
Revolucionário se dividiu por causa desse terrano. E por quê? Só
porque o filho de Rhodan ficou olhando demoradamente para o patriarca
Gatru.
— E
agora ele está preso?
— Quem?
— perguntou Enre.
— O
filho de Rhodan.
— Provavelmente
está bem guardado lá embaixo. Talvez no dobro da profundidade que
estive esta noite. Nem imaginamos o que existe por lá. Nunca vi
instalações industriais tão grandes como as observadas hoje de
noite. E olhe que, só quando o elevador antigravitacional
atravessava um espaço vazio, conseguia enxergar nitidamente. Bem,
isso não nos adianta nada. Faça um bom trabalho. Veja o que
consegue fazer com essas hipermensagens. Boa noite...
*
* *
O Coronel
Baldur Sikermann, comandante da Drusus, depois da quarta transição
fez a nave capitania penetrar cada vez mais profundamente no pequeno
sistema de Forit, sempre sob uma total proteção contra a
localização. Entrou em posição de espera nas órbitas do quarto e
do terceiro planeta. O rastreador de massa da quinta dimensão estava
com a guarnição dobrada, enquanto os rastreadores estruturais, o
telêmetro e outros instrumentos, que poderiam decidir a conservação
ou a destruição da nave esférica de 1.500 metros de diâmetro,
contavam com guarnição triplicada.
As
escotilhas das torres de canhões encontravam-se abertas, as
guarnições estavam postadas atrás das armas, prontas para
disparar.
O estado
de prontidão: isso significava que todos os ocupantes da nave usavam
traje espacial. Apenas o capacete estava jogado para trás.
Na
gigantesca tela panorâmica brilhava a fascinante aglomeração de
estrelas do grupo M-13. Por maior que fosse a tela, com a ampliação
que estava sendo usada, não era capaz de exibir todo o sistema.
Nenhum dos homens da sala de comando dava atenção ao espetáculo.
Ninguém tinha o espírito embotado diante dessa beleza irreal, mas
todos eles dedicavam-se exclusivamente à sua tarefa, que não lhes
deixava tempo de contemplar mais uma vez um quadro que já fora
contemplado outras vezes.
O sistema
de Forit, que ficava a 248 anos-luz do mundo central do grupo
estelar, já gravitava na zona rarefeita, onde as estrelas eram menos
numerosas. Forit era um pequeno sol avermelhado. Possuía quatro
planetas pequenos e insignificantes. Dois deles eram mundos de pedra,
sem vida. Só o segundo planeta sustentava uma forma de vida
humanóide. Era habitado pelos soltenses, um povo de cinqüenta
milhões de indivíduos. Segundo dizia o almanaque etnológico de
Árcon, era um povo de mentirosos. No mundo mais próximo ao sol só
viviam animais.
Os
soltenses propriamente ditos, que descendiam dos arcônidas, haviam
passado por um processo de degenerescência física. Também a ordem
social transformara-se no contrário do que fora antes. Da condição
patriarcal passara-se para um matriarcado extremado. A mulher era
tudo, o homem estava reduzido à condição de animal de trabalho.
Até mesmo como pai de seus filhos assumia uma importância puramente
biológica.
A mesma
coisa acontecera com a religião desse povo. Há muitos anos os
antepassados dos soltenses, como também eram conhecidos, ainda
acreditavam nos deuses de Árcon, mas os soltenses da atualidade
praticavam um demonismo que consistia na veneração de apavorantes
figuras fantasmagóricas. Todas elas tinham a configuração
masculina.
Os
etnólogos de Rhodan não conseguiram explicar a contradição: o
matriarcado de um lado, e de outro, exclusivamente os demônios
masculinos.
Os dados
dos arcônidas, que costumavam manter um registro minucioso de cada
povo, eram de uma espantosa escassez em relação aos soltenses.
Será que
nos últimos milênios os arcônidas passaram a temer o povo de
Solten?
— Parece
que a espera vai ser longa — disse Sikermann, dirigindo-se ao
co-piloto.
Com uma
ligeira ironia na voz acrescentou:
— Quem
sabe se as mulheres soltenses condenaram seus homens à prisão
domiciliar e proibiram que os mesmos saíssem à rua?
A Drusus
gravitava em queda livre em torno do terceiro planeta. Seus
gigantescos propulsores zumbiam em ponto morto. A maior parte das
unidades energéticas da nave estava em posição de reserva. Apenas
os dutos energéticos trabalhavam, levando cem por cento de sua carga
às torres de artilharia.
O planeta
número 3 do sistema de Forit passou lentamente pela tela panorâmica.
Era um mundo sem atmosfera, um mundo sem formações rochosas
perceptíveis. Tinha 2.460 quilômetros de diâmetro, mas sua
gravitação chegava a 2,31G.
O
supersensível rastreador estrutural da Drusus registrava
ininterruptamente abalos estruturais tão distantes que ninguém lhes
deu atenção.
— Qual é
mesmo o tamanho da frota dos soltenses? — perguntou alguém que se
encontrava na sala de comando.
Um homem
que se achava junto ao computador positrônico de bordo respondeu:
— Pouco
menos de cinco mil naves. Isso explicava por que até então os
terranos e os soltenses nunca se haviam encontrado. Aquela frota
minúscula desaparecia que nem uma partícula de pó, em meio às
frotas gigantescas de outros povos. Subitamente, Dando, um suaili que
tinha pele quase branca, irrompeu numa risada borbulhante. Essa
risada de Dando era inimitável. Mas o motivo da hilaridade continuou
desconhecido, até que o Coronel Sikermann se aborreceu, porque a
risada o distraía no trabalho.
— Bem,
Dando, quando o senhor vai parar de rir? — perguntou o Coronel
Sikermann, que se encontrava na poltrona do piloto, sem virar a
cabeça.
Dando
ficou borbulhando por mais alguns segundos e disse:
— Pronto,
coronel, já parei! É que estou gostando dos soltenses.
— O quê?
Sua risada teve algo a ver com eles? — perguntou Baldur Sikermann,
mais interessado.
— Naturalmente,
coronel — disse Dando, exibindo uma dentadura natural muito branca.
— Se eu fosse um homem soltense, também mentiria até não poder
mais. Esses pobres-diabos só podem mentir, pois do contrário se
tornarão ridículos no interior de seu império, como já são
ridículos, vivendo num matriarcado.
— Pela
grande Via Láctea... — Baldur Sikermann tentou cocar a cabeça,
mas o capacete espacial jogado para trás frustrou sua tentativa.
Virou-se ligeiramente para o co-piloto. — Pode assumir!
Levantou-se
e parou ao lado da sua poltrona.
— Dando,
quem foi que lhe deu essa idéia?
O suaili
já estava rindo de novo.
— Queira
desculpar, coronel. Imagine que um soltense tem de perguntar à
mulher se pode ir para a cama. Como um coitado destes tem de mentir
quando chega a outros mundos, onde os homens mandam! É claro que lá
também quer fazer o papel do homem forte e, com isso, cai de um
extremo no outro e acaba sendo desmascarado como mentiroso. Se tiver
muito azar, terá de ocultar à sua cacique-comandante que em outros
mundos andou desempenhando o papel de senhor da criação e... e,
segundo as informações que nos foram fornecidas por Árcon, leva
uma sova medida por padrões bem determinados. Mas não ri disso,
coronel.
O rosto de
Sikermann exprimiu espanto. Balançou a cabeça com tamanha energia,
que Dando se apressou em dizer:
— Coronel,
foram apenas minhas reflexões.
Rhodan,
Bell e Marshall esperavam com uma impaciência cada vez maior que
houvesse um encontro com uma das naves dos soltenses. Quando o
intercomunicador chamou, Bell disse em tom de alívio:
— Finalmente!
O rosto de
Sikermann que aparecia na tela parecia confirmar suas previsões, mas
dali a pouco Bell parecia muito espantado.
O Coronel
Baldur Sikermann transmitiu a Rhodan o resultado das reflexões do
tenente.
— Obrigado,
Sikermann — respondeu Rhodan. — Transmita meus agradecimentos ao
Tenente Dando. Acho que suas reflexões representam a solução do
enigma. Pobres-diabos... — acrescentou e sacudiu a cabeça cheio de
pena.
— Nessa
situação, eu também me transformaria num mentiroso — disse Bell,
que só estava pensando em voz alta.
De repente
levou um susto e, dirigindo-se a Rhodan, perguntou:
— Você
continua fiel ao plano?
— Naturalmente,
Bell — respondeu Rhodan.
— É um
plano excelente... — disse Bell em tom de escárnio. — Esse
maldito rato-castor realmente tramou alguma coisa formidável. Quero
que ele vá para o inferno.
— Gucky...
Gucky... Gucky! — disse John Marshall, proferindo três vezes o
nome do rato-castor.
— O que
é que vocês querem? — perguntou Rhodan, e seus olhos cinzentos
pareciam sorrir. — Nós não queremos, ou melhor, nós não
precisamos conhecer tudo o que é possível? Pois bem, vamos saber
como se sente um soltense. Acontece que eu também não gostaria de
ser comandado por uma... como foi mesmo que Dando se exprimiu?... por
uma cacique-comandante.
Subitamente
Rhodan deu uma risada e olhou para Bell.
— Mas
acho que, para você, isso não faria mal, gorducho.
Reginald
Bell nunca seria um homem fino. Sua resposta veio com a força de uma
erupção vulcânica.
— Perry,
se você desculpar mais uma arbitrariedade dessa estátua de anão
mal-nascido...
— Será
que ultimamente você deu para sofrer da psicose das modificações
de gênio, gorducho, ou será que a estátua de anão voltou a fazer
chantagem com você? Não poderia fazer o favor de explicar o que
significa a palavra trobel?
Enquanto
Rhodan formulava a pergunta, Bell levantou-se, foi até a porta e sem
virar-se disse:
— Preciso
dar uma olhada na sala de comando...
Fechou a
porta com alguma violência.
— Cuidado,
chefe — advertiu Marshall com um sorriso alegre. — Mister Bell
está prestes a explodir!
— Já
sei, John, mas ainda não sei o que significa a palavra trobel. O
senhor sabe?
— Também
não sei. O Marechal Mercant também me fez esta pergunta.
— A mim
também...
*
* *
A bordo da
Drusus teve início a quinta hora de espera. Os homens que guarneciam
os rastreadores estruturais bocejaram, sua atenção foi diminuindo.
Mas de repente concentraram-se. Seus aparelhos de localização
haviam dado um sinal. O Tenente Brack, que guarnecia o telêmetro,
falou antes dos outros:
— Uma
nave espacial! Distância: 2,4 milhões de quilômetros, coronel!
— Rota...
— e os números se atropelaram.
Os dados
foram introduzidos no computador de bordo, que realizou o
processamento.
As
unidades energéticas da Drusus modificaram sua regulagem da posição
de reserva para a de plena carga.
Na sala de
comando de tiro, soou uma sereia e quatro luzes vermelhas começaram
a piscar ameaçadoramente.
Prontidão
rigorosíssima.
Os
jatos-propulsores da Drusus soltaram um gemido, como se respirassem
profundamente, e com um rugido liberaram suas forças.
A Drusus
saiu do estado de queda livre e passou a seguir uma rota. No mesmo
instante teve início o ribombo dos geradores antigravitacionais. As
unidades energéticas de números 11, 12, 13 e 14 transmitiram todo
seu potencial energético ao dispositivo de proteção contra a
localização. Só as naves das classes Stardust e Império eram
capazes de criar campos protetores contra a localização de
dimensões tão extensas e conservar a estabilidade dos mesmos.
— Nave
desconhecida corta nossa rota em... — e mais uma vez seguiram-se
dados, graus e indicações de tempo.
Baldur
Sikermann moveu uma chave que transmitiu ao computador positrônico a
ordem de regular a rota da Drusus.
A
distância, que os separava da nave desconhecida, diminuía
constantemente.
— Qual é
o tipo da nave? Quanto tempo ainda terei de esperar por isso? —
perguntou o coronel, em tom impaciente.
— Ainda
nos faltam dois dados. Parece que... coronel, é um tipo soltense.
Tem formato de charuto. Não há dúvida!
— Obrigado
— Baldur Sikermann inclinou-se levemente em direção ao microfone.
— Setor de comando de tiro! Com ordem um, abrir fogo.
A
confirmação parecia um eco:
— Com
ordem um, abrir fogo.
Mas os
canhões da Drusus ainda permaneceram em silêncio. Para que surgisse
a ordem um, tornava-se necessário que o super-couraçado se
aproximasse mais da espaço-nave desconhecida.
O corpo da
Drusus começou a ressoar. Essa ressonância surgia sempre que os
propulsores de uma nave esférica trabalhavam a plena potência. Nem
mesmo os arcônidas haviam conseguido evitar essa ressonância, que
tornava qualquer vôo prolongado, com a aceleração máxima, num
verdadeiro martírio.
O oficial
de comando de tiro não ouviu a ressonância. Lia as distâncias
fornecidas pelo computador de bordo e fitava os visores de seu quadro
de comando. De repente, viu que as torres de canhões continuavam
apontadas para o minúsculo alvo.
Subitamente
a indicação de distância foi transmitida em algarismos verdes.
O
computador positrônico de bordo sabia tão bem quanto o Coronel
Sikermann ou o oficial de comando de tiro o que vinha a ser a ordem
um.
O canhão
de pulsações no
4 também recebeu o sinal verde, que liberava o fogo.
Fogo
contínuo de três segundos.
Consumo de
energia 104. Era o consumo mínimo para esse tempo e distância. O
controle energético da unidade de geradores no
2 registrou o dispêndio apenas no registrador gráfico diagramático,
mas não nos instrumentos. Os ponteiros não se moveram.
O oficial
de comando de tiro transmitiu uma informação lacônica à sala de
comando, onde se encontrava o Coronel Sikermann:
— Impacto
total depois da ordem um!
Na sala de
comando da Drusus, ninguém se admirou com o fato de que apesar do
impacto a pequena espaçonave em forma de charuto prosseguiu
imperturbavelmente no seu vôo. A ampliação máxima da tela
especial não revelou qualquer tipo de avaria na nave dos soltenses.
Na sala
dos mutantes, Ras Tschubai, o teleportador alto e esbelto de pele
escura, viu o mesmo quadro em sua tela. Acima da borda superior
desta, funcionava um contador de comando ótico, que indicava a
distância que o separava da nave desconhecida.
Quando o
aparelho mostrou o número trezentos mil, Ras Tschubai fechou o
capacete espacial. Assim que atingiu o número duzentos e cinqüenta
mil sua cadeira esvaziou-se de repente.
— Foi
embora! — disse o telecineta Tama Yokida, em tom seco.
*
* *
Ras
Tschubai voltou a materializar-se na sala de comando da espaçonave
dos soltenses, que não tinha mais de oitenta metros de comprimento e
apresentava o formato de um charuto. Ao tornar-se visível, segurava
a arma de impulsos e o projetor hipnótico, mas não precisou desse
equipamento.
Os quatro
soltenses paralisados — dois nas poltronas dos pilotos e dois
estendidos no chão — não tomaram conhecimento de sua presença.
Tschubai lançou um olhar ligeiro para aqueles estranhos homens de
testas salientes, sob as quais os olhos quase desapareciam. Os quatro
traziam o cabelo negro penteado à maneira de pôneis. Quando o olhar
de Ras Tschubai caiu na barba dos homens, ele não pôde deixar de
rir, apesar da tensão que sentia. A barba daqueles homens estava
arrumada em numerosas trancas muito bem feitas, endurecidas por meio
de algum fixador, que se destacavam da pele como os aguilhões de um
porco-espinho.
A corcova
que aparecia na coluna fazia com que parecessem mais baixos do que
realmente eram. Eram esbeltos e de quadris finos, e seu tamanho não
ultrapassava o tamanho médio dos terranos.
Ras
Tschubai permaneceu por algum tempo na tosca sala de comando da
espaçonave. Revistou um camarote atrás do outro. Já havia
encontrado quinze homens, mas não vira nenhuma das mulheres
soltenses que esperara achar por ali.
Nos quatro
compartimentos de carga, cheios até o teto de peles perfumadas que
exalavam um perfume inebriante, não encontrou ninguém. Mas na sala
dos propulsores e dos reatores avistou o décimo sexto e o décimo
sétimo soltense, que também haviam sido paralisados pelo raio de
pulsações da Drusus.
Uma vez no
estreito corredor da espaçonave, o teleportador ligou o
telecomunicador de seu traje espacial.
— Chamando
a Drusus. Tripulação de dezessete homens, nenhuma mulher. Efeito do
raio de pulsações inalterado a cem. Procurarei desligar os
propulsores. É só.
Enquanto
Ras Tschubai voltava a entrar na sala de comando da pequena nave
mercante, tirava um dos soltenses do assento de piloto, colocando-o
no chão e procurava familiarizar-se com o sistema de comando da nave
cargueira, a Drusus desacelerou fortemente e aproximou-se do pequeno
veículo espacial.
De
repente, os geradores de raio de tração começaram a funcionar na
gigantesca usina energética, produzindo o gemido característico. A
nave dos soltenses parecia ter sido agarrada por uma mão gigantesca.
Foi freada antes que Ras Tschubai, que se encontrava na sala de
comando, tivesse tempo para colocar o regulador de marcha
sincronizado na posição zero.
Dali a
trinta minutos, a pequena nave encontrava-se no interior de um dos
hangares da Drusus. Dois comandos sanitários levaram os corcundas
paralisados ao hospital da nave. De repente uma angustiosa falta de
espaço fez-se sentir em todos os camarotes da Lorch-Arto, a nave dos
soltenses.
Os
especialistas de Rhodan examinaram os dados relativos à nave e seus
planos de construção, enquanto a Drusus acelerava novamente,
afastando-se do sistema de Forit e dirigindo-se a um setor espacial
pouco navegado, onde as estrelas eram muito raras. Durante toda a
operação o dispositivo antilocalização permaneceu ligado.
O
computador de bordo encontrava-se trabalhando exclusivamente para o
comando especial. Seus membros estavam se familiarizando com a língua
planetária dos soltenses.
Uma hora
depois, passariam a dominar sua gramática, seu vocabulário e sua
sintaxe.
— Era só
o que faltava — disse Bell, quando lhe falaram no treinamento
hipnótico que lhe ensinaria a língua desse povo por meio do
processo sugestivo criado pelos arcônidas.
Rhodan,
Marshall, Gucky, além de Tako Kakuta e Ras Tschubai, que eram
teleportadores, e ainda o sugestor Ishibashi e o telecineta Yokida
também se submeteram ao treinamento hipnótico. Dali a meia hora
saíram da escola hipnótica, dominando perfeitamente a língua
escrita e falada dos soltenses. Fellmer Lloyd, o localizador e
telepata, André Noir, o hipno, e mais três homens formavam o
segundo grupo que teria de submeter-se a esse tratamento. O terceiro
e último grupo estava aguardando sua vez.
Os
bioplásticos esperavam Rhodan e os homens que já haviam feito o
curso.
Com Gucky
os bioplásticos não puderam fazer nada. Continuou a ser o que
sempre fora: Gucky, o rato-castor.
Mas os
homens transformaram-se em soltenses. Soltenses corcundas com as
características testas salientes.
Os
bioplásticos dirigidos pelo Dr. Tschai Toung, um cientista e técnico
em máscaras, de descendência chinesa, estavam ansiosos para
demonstrar com seu trabalho o que sabiam fazer.
— Ainda
falta a barba modelo ouriço — disse Tschai Toung, preparando o
vice-administrador para a fase seguinte do procedimento.
Mais uma
vez, Bell não soube responder como um homem fino. Gucky irritava-o
até a medula dos ossos. Vivia rindo com seu dente roedor,
divertindo-se à custa do gorducho.
Na divisão
de detalhes da gigantesca Drusus, havia um movimento febril. A
designação detalhe dizia menos do que deveria dizer. Com exceção
do centro de Terrânia, era a mais genial oficina de falsificadores
da Galáxia, com a qual nem mesmo o Grande Império poderia medir-se.
A divisa
que reinava por lá era a seguinte: nada é impossível.
E essa
divisa não representava nenhum exagero. As imitações feitas ali
eram tão perfeitas que podiam resistir a qualquer controle dos
arcônidas, por mais rigoroso que fosse. E era justamente isso que se
queria.
No
hospital da Drusus só havia dezesseis soltenses. Por meio dos
melhores medicamentos fabricados pelos aras os médicos terranos
haviam libertado os corcundas do efeito paralisante do raio pulsador.
Mas, para evitar que a terapia entrasse num estágio incontrolável,
aplicaram por cautela a hipnose que, durante o processo de
regeneração, era eliminada automaticamente.
Os
soltenses não acordariam antes de trinta horas.
O décimo
sétimo encontrava-se na sala dos bioplásticos, sob triplo controle
médico. Era usado como modelo para os artistas que trabalhavam lá,
modelo este que serviria para transformar em soltenses todos os
membros do Comando de Risco, a começar pelo chefe do Império Solar.
*
* *
Três
horas depois do treinamento hipnótico, o Comando de Risco Solten
estava pronto para entrar em ação.
Dezessete
soltenses subiram a bordo da Lorch-Arto. Gucky fez pairar à sua
frente um recipiente, que o transportou.
Rhodan e
Bell não tiveram maiores dificuldades em familiarizar-se rapidamente
com a construção algo estranha da Lorch-Arto, já que a concepção
fundamental dessa nave em forma de charuto também tivera sua origem
numa forma arcônida. Apesar disso demorou algumas horas até que
Rhodan comunicasse pelo rádio que desejavam sair do hangar.
Mais uma
vez, um potente raio de tração segurou a pequena Lorch-Arto e
largou-a no espaço, longe dos campos protetores da Drusus.
A nave dos
mentirosos começou a acelerar lentamente. Os homens da sala de
comando do supercouraçado permaneceram em silêncio, enquanto
acompanhavam o mergulho da nave cargueira no negrume do espaço.
Parecia que queria contornar o grupo estelar M-13 numa curva bem
ampla, mas os localizadores incorruptíveis da Drusus diziam que a
Lorch-Arto seguia diretamente para Archetz, um importante planeta dos
saltadores.
Poucas das
pessoas a bordo da Drusus sabiam por que Rhodan arriscava a si e aos
seus melhores mutantes nessa perigosa missão. E os poucos que
estavam informados a este respeito perguntavam-se: será que o chefe
encontrará Thomas? E, se encontrar, haverá uma reconciliação
entre pai e filho?
5
O
espaçoporto de Lus, situado em Archetz, um mundo dos saltadores,
quase não fora danificado durante o ataque dos druufs. Era o único
que podia ser usado independentemente de maiores reparos.
Depois de
fazer uma consulta pelo tele-comunicador, a Lorch-Arto foi
encaminhada a Lus. Há duas horas pousara na vaga 2.005. Quando tocou
o solo, a polícia espaço portuária dos saltadores já a aguardava.
— Ninguém
sai da nave! Mostrem os documentos! Abram as escotilhas de carga!
O
destacamento policial dos saltadores subiu a bordo com cinco robôs
de guerra. Estes foram postados diante das comportas, enquanto onze
mercadores galácticos revistavam todos os cantos da Lorch-Arto.
— O que
é isso? — perguntou o comandante soltense, numa débil tentativa
de protesto.
— Quando
você voltar para casa, pergunte a sua mulher, Maixpe — respondeu o
saltador em tom sarcástico. — Talvez ela esteja bem-humorada e só
lhe aplique cinco bordoadas em vez das dez que você merece por sua
pergunta idiota.
Três
saltadores que se encontravam por ali soltaram estrondosas
gargalhadas e lançaram um olhar para os dois corcundas que se
achavam na sala de comando.
— Saia
do caminho! — disse um deles em tom áspero, empurrando
violentamente um soltense muito “compacto”.
— Trobel!
— disse um soltense em tom indignado, mas logo se abaixou
covardemente, sob o olhar ameaçador do saltador.
— Malditos
mentirosos! — observou o saltador e pôs-se a controlar os
documentos da carga.
A
Lorch-Arto trazia uma carga de peles de odd.
Eram as peles perfumadas do primeiro mundo de Forit. Uma boa pele
valia uma fortuna. Uma exploração predatória, que já durara
vários séculos, reduzira bastante o número dos odds,
animais de pêlo de um metro e meio de comprimento, com seis pés,
corpo de cobra e uma cabeça que lembrava um buldogue. Por isso, nos
últimos 50 anos, o preço das peles desses animais do primeiro
planeta tivera um aumento de oitocentos por cento.
— Para
quem são estas peles? Logo vi... Só poderiam ser para Cokaze. Esse
velho anda metido em todas — constatou o saltador, em tom
contrariado.
Continuou
a examinar os documentos de carga em atitude desconfiada.
O
comandante da espaçonave em forma de charuto perguntou em tom
submisso:
— Posso
telefonar para o patriarca Cokaze, senhores?
— Aqui
você pode ainda menos que em casa, seu corcunda! — gritou
furiosamente o chefe do destacamento policial. — Cale essa boca!
Até sinto uma dor no ouvido, quando ouço esse intercosmo que você
fala! Fique quieto até que terminemos o controle.
— Sim
senhor. Seja o que meu senhor ordenar — disse o comandante com o
corpo humildemente curvado, fazendo de conta que não via as mãos de
seu primeiro-oficial, que era aquele homem compacto, crisparem-se de
raiva.
— Ei,
soltense, que rota foi essa que você seguiu?
Exageradamente
solícito, Maixpe inclinou-se sobre o registro de rota.
— Oh,
meu senhor, tivemos um encontro com uma nave da frota do superpesado
Onkto. Tivemos de mudar de rota e dirigir-nos ao quartel-general.
Tivemos de dar trinta odds para poder passar. Que os demônios tenham
pena de mim e me façam inventar uma boa desculpa, para eu
apresentá-la ao Grande Conselho das Mães...

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